ESPAÇO PORTUGUÊS, DESLOCAMENTOS Jeane de Cassia Nascimento Santos (UFS) Quando se fala em espaço, podemos pensar em espaço pessoal, espaço social, espaço político, apropriação do espaço alheio, adequação ao espaço. Esse elemento, quando analisado no texto literário, vai esbarrar em outras searas que muitas vezes estão além da literatura, ou seja, a sociologia, a filosofia, a história. Isso acaba tornando os estudos sobre o espaço no romance um tanto árduo, pois existe a necessidade de alocar as diversas ciências em prol de uma tese a ser defendida. Tratando-se, então dos romances coloniais, essas questões vêm à tona, uma vez que a representação dos espaços retratados nesses textos extrapola, aquilo que, teoricamente, se conceitua como espaço na teoria da literatura. Daí a necessidade de recorrermos a outras ciências que focalizam o homem e suas relações. Nesse sentido, pretendemos analisar o processo de deslocamente espacial de dois personagens, representantes do povo português, nos anos 30, do século XX, período que marca a difusão de uma pretensa harmonia entre a Metrópole e as colônias africanas. Nesse contexto político, observamos, na literatura, o incentivo a uma produção literária, denominada Literatura Colonial, que, além de servir como meio de propaganda da ideologia do regime, seduz uma parte da população atraída por aventuras e exotismo. Se pensarmos em relação à história do homem ocidental, o processo de deslocamento, tanto rural, como urbano, carrega no seu bojo, na maioria das vezes, grandes sonhos, como a conquista de riqueza, bem como a esperança de um dia voltar à terra natal não mais como empregado, mas como empregador, detentor de poderes. Deste modo, estes processos de deslocamento visam primeiramente à ascensão social. Observase, entretanto, que nem sempre, no âmbito geral, existe um retorno. 1 Assim, observamos, nos romances coloniais O sol dos trópicos e O velo d’oiro, de Henrique Galvão, a partida das personagens imbuídas da mística imperialista rumo a Angola, carregando em sua bagagem um sonho de riqueza impossível de ser realizado em Portugal, devido à crise econômica vivenciada pelos lusitanos desde a Independência do Brasil. Inocência Mata (2001) e Francisco Noa (2002) elegem o espaço como um dos pilares dessas narrativas, na medida que se interpõe entre o “sujeito (escrevente) e o meio ambiente. Ambos partem do princípio de que os objetivos das personagens desses textos são sempre as mesmas, ou seja, os protagonistas dos romances coloniais saíam de Portugal rumo a África devido aos descontentamentos pessoais trazidos pela vida. Esperavam que a mudança para o solo africano solucionasse seus problemas e insatisfações, diretamente relacionadas à falta de dinheiro e às poucas perspectivas profissionais e sociais proporcionadas pela Metrópole. Eles tinham alguma instrução, grandes ambições e queriam a todo custo dar um passo ascendente na pirâmide social. É o que poderemos observar nos personagens Venâncio e Rodrigo, protagonistas, respectivamente, dos romances coloniais O sol dos trópicos e O velo d’oiro, de Henrique Galvão. Em nada difere da realidade observada por Gândavo em uma de suas cartas ao Rei de Portugal, na qual informava que se uma família humilde chegasse ao Brasil, rapidamente conseguiria alguém, índios escravizados no caso, para lhe construir uma casa, plantar para o sustento, caçar e o restante se completaria rapidamente (apud BOSI 1989, p.19). O que acontece na colonização de Angola em pleno século XX não difere, no que tange à motivação do colono, do que se deu no Brasil no século XVI. Existe o deslocamento e dificilmente o retorno. Lembrando que a maioria dos colonos que residiam em Angola só retornaram devido às Guerras de Libertação. 2 Desse modo, essas personagens, ao chegarem em Angola, fazem uma rápida descrição da terra, incomodam-se com o calor, o pó, as chuvas, porém nada disso será empecilho, pois o processo de adaptação, que geralmente se dá quando mudamos para um país ou cidade, não é vivenciado pelas personagens, mesmo estando a quilômetros de casa, numa terra nunca vista anteriormente, sob um clima bem diferente da terra natal. Tal fato se explica, pois não há estranhamento no espaço que é “meu”. Se eu já sou “dono”, adentro o espaço, como uma extensão de outros espaços que me pertencem. O sol dos trópicos O romance O sol dos trópicos é um texto que narra a história de um colono português chamado Venâncio. Sua saga inicia-se na Metrópole e tem como destino Angola, mais propriamente a Serra da Chela, local onde se passa a maior parte do romance, escrito bem ao gosto do leitor/colonizador português, ávido por desfrutar de aventuras em lugares considerados exóticos. Após algumas páginas estritamente descritivas, o narrador passa a relatar o porquê de sua ida à África. O leitor fica sabendo que o narrador-personagem fora um estudante medíocre, sustentado pelos pais, lavradores da Beira, que enviavam a seu filho suas parcas economias. Após sua formatura, busca a fama através de um livro de poesias. Vale destacar que o livro não fez sucesso e os gastos de uma publicação de luxo ficaram a cargo de seus pais. Com a morte do pai e da mãe, a personagem passa a sentir ódio da terra natal, restando-lhe apenas a opção de fuga, não somente de dívidas, como também de uma vida sem nenhuma perspectiva de melhora. A saga inicia-se na Serra da Chela, onde a personagem é deixada, após uma discussão com os “funantes”, exploradores do mato que praticavam o comércio de permuta, através da exploração dos nativos e contrabando de marfim. A partir daí, o fato de estar 3 sozinho numa floresta desconhecida, constituída de mata fechada, desencadeará em Venâncio uma mistura de sentimentos e valores que influenciarão as diferentes maneiras de conceber sua situação. Como fora deixado em plena selva, sem nenhum tipo de mantimento, a primeira visão da Serra da Chela é de um lugar inóspito, apavorante, perigoso e dominador: “Lembro-me que só após algumas horas depois tive noção menos confusa sobre a desgraçada situação em que me encontrava; (...) Uma verdura negra e agreste, apenas aberta num ou noutro ponto, onde penhascos nus espreitavam abismos, vestia, até perder de vista, o apavorante cenário” (GALVÃO, 1936, p.8-9). Na tentativa de justificar o estado confuso em que se encontrava diante do cenário selvagem e apavorante, no fragmento acima, percebemos o estado emocional (desgraçado) da personagem aproximando-se da descrição espacial (horrenda). Mesmo assim, a personagem repete insistentemente a ausência de medo ou qualquer outro sentimento diante da selva desconhecida. Ao contrário, não tinha nada a perder, mesmo na presença da morte: Realmente, não valia a pena lutar. Invadia-me os membros uma grande lassitude. E porque viera à África para morrer e porque me sentia em presença da morte – decerto por isso – não senti o menor pavor!” Tanta fadiga de viver, tanto desinteresse e desapêgo pela vida, tantos meses levados a magicar num acontecimento que me matasse, quási me deixavam calmo, repousado, tranqüilo, como se fora aquêle passo, difícil e dolorosíssimo para tantos outros, a solução prevista e esperada da minha vida (GALVÃO, 1936, p. 11). No decorrer da narrativa, o espaço passa por mudanças e, rapidamente, deixa de ser tão inóspito. A personagem projeta sobre esse espaço seu estado de alma e consegue ficar até alegre com acontecimentos, até então “insignificantes” na sua visão de colonizador. Rompi na direcção que me tentava e, quási de repente, dei com uma velha árvore, varada pelo raio, ainda a arder. Tinha sido esgalhada por um lado e lambiam-na ainda línguas esguias de lume. Em baixo, no chão, arrumadas ao tronco, vermelhavam, por entre cinzas leves e quási brancas, tições afogueados em ninho cinzento de brasas. Senti uma alegria viva e transbordante. 4 Eu, ou homem que trouxera em mim, obcecadamente, a idéia de morrer e a quem a desgraça tinha varado como punhal implacável – homem que se despenhara de altas ambições não alcançadas e que era infeliz porque muito desejara – senti-me alagado de ventura por encontrar meia dúzia de tições incandescentes, donde podia tirar lume e calor (GALVÃO, 1936, p. 119-120). Observamos uma personagem em processo de mudança. Inicialmente, o estado de Venâncio é de completo desânimo a ponto de não enxergar nenhuma perspectiva para a vida medíocre que levava na Metrópole. Aos poucos, sob outras circunstâncias, percebemos uma personagem que luta e passa a dar valor a sua existência. De acordo com Osman Lins, o espaço provoca mudanças na personagem, desencadeia sentimentos e ainda “propicia a ação”, influenciando seus fazeres e pensamentos: ”Aparece o espaço como provocador da ação nos relatos onde a personagem, não empenhada em conduzir sua própria vida – ou uma parte de sua vida – vê-se à mercê dos fatores que lhe são estranhos. O espaço, em tal caso, interfere como um libertador de energias secretas e que surpreeendem, inclusive, a própria personagem”.(LINS 1976, p.100) Observamos em O sol dos trópicos que o espaço, antes amedrontador, inóspito também passa por mudanças provocadas pela personagem, ciente, com o passar do tempo, das possibilidades de interferir, com seus conhecimentos de europeu, naquela terra, mais tarde transformada em sua fazenda. Conseqüentemente teremos a valorização da selva, agora como o espaço grandioso e heróico do homem português, que sem nenhuma ferramenta ou qualquer outro tipo de ajuda tecnológica, consegue vencer as dificuldades de adaptação, habitando, construindo, vivendo. Francisco Noa, no estudo a respeito do romance colonial moçambicano afirma que: (...) ao falarmos de um lugar de chegada, de forma explícita ou implícita, se contrapõe um lugar de partida que, neste caso, é a própria metrópole. E é, de facto, um verdadeiro contraponto, pois trata-se de opor dois espaços que se distinguem entre si pela forma como se definem fisicamente, mas também pela forma como são percepcionados pela instância e pelas 5 personagens. (...) Desta feita, se a imagem do lugar de partida que nos é veiculada é tendencialmente negativa – dominada pela sensação de estreiteza, mesquinhez, miséria – a imagem do lugar de chegada é marcada, mesmo quando inóspita e agreste, pela sensação de grandeza, de genuidade, de exuberância da natureza, do poder ilimitado de recursos à mistura com uma indisfarçada sensação de deslumbramento. (NOA, 2002, p.135,136) Em O Sol dos Trópicos como também em O Velo D’oiro, além da adequação ao espaço, observamos que em nenhum momento a admiração da natureza é gratuita; ao contrário, a descrição está sempre aliada às necessidades do colonizador que valoriza apenas sua funcionalidade e as possibilidades de tirar dali o máximo possível de produção. Sobre a forte relação entre a terra e o homem, Alfredo Bosi ressalta: “A ordem do cultivo em primeiro lugar. As migrações e povoamento reforçam o princípio básico do domínio sobre a natureza, peculiar a todas as sociedades humanas. Novas terras, novos bens abrem-se à cobiça dos invasores”. (BOSI, 1992 p. 19, 20). Paralela à adequação, existe também o heroísmo de Vanâncio que ajuda os colonizados, demonstrando assim a “bondade” do homem civilizado que acaba transformando-se em chefe, dirigente, guia e, conseqüentemente, ao redor de sua cabana, nasce uma aldeia chefiada por ele. E no dia seguinte toda a família de N’Tuba, construía a poucos metros de minha cabana, três cubatas de ramos e – um pouco mais desviado – um “sampo” para as vacas. O sítio era de feição. As águas corriam mansas garantindo o bebedoiro. O capim alto e ainda esverdeado assegurava o pasto dos animais. Estava fundada a aldeia. E eu era o chefe, tacitamente eleito, do novo povoado. A melhoria que a família selvagem trouxe ao meu viver foi portentosa. Melhoria moral, porque, decididamente o homem é anima de manada; melhoria material porque as suas artes e recursos, em solidariedade com as minhas luzes de civilizado, realizavam o interesse de ambas as partes. “(p.174/175) (...) E repeti o apelo em voz de comando, num tom que me surpreendeu, apesar das circunstâncias especiais em que me encontrava. Parecia que subia em mim o sentimento de autoridade inerente à superioridade da minha raça. E os pretos me obedeceram.” (GALVÃO, 1936, p.187) 6 Como se vê, Venâncio sagra-se o chefe natural dos mukubais, demonstrando assim a superioridade portuguesa como a grande responsável pela dominação e adequação da personagem ao espaço selvagem africano. Entretanto esta aparente convivência pacífica e amigável entre colonizadores e colonizadores não passa de um embuste preconizado pelos romances coloniais. Na realidade a convivência colonial terá como preceito a escravização, o desrespeito, a opressão, o racismo, repetindo de maneira não menos pior as atrocidades dos séculos anteriores. O velo d’oiro Ao contrário de Venâncio, de O sol dos trópicos, Rodrigo, protagonista de O velo d’oiro, embarca rumo à África em busca de fortuna. Atraído pelo possível enriquecimento fácil que daria outro perfil a sua vida medíocre, a personagem persegue a reiterada aspiração portuguesa baseada no muito dinheiro e pouco trabalho: Ambicionava enriquecer, como o avô, em África, mas queira subir mais alto e andar mais lesto. A idéia de uma vida inteira a labutar, para chegar a rico, só quando as mazelas e o reumatismo me ferrassem uma guilheta aos pés, arrefecia-me todo. E a tentação duma África aventurosa e pródiga, feita para homens de rija têmpera e vontade aguerrida, dominou-me. Palpitava-me que era aí que a fortuna me havia de sorrir de novo. (GALVÃO, s/d, p.6) Historicamente, observamos que esse repúdio ao trabalho, acompanhado pela ambição do enriquecimento fácil, também pode ser verificado no processo de colonização brasileira, marcada pela escravidão de índios e africanos direcionados ao trabalho braçal nas lavouras de cana e nas minas. Em Angola, no entanto, a escravidão só muda de nome, um vez que o colonizado, mediante contrato, era obrigado a trabalhar, em troca de um mísero salário, deixado na venda do colonizador como forma de pagamento dos 7 suprimentos adquiridos durantes o mês. Assim, num círculo vicioso, essa dívida nunca acabava, sobrando apenas um débito permanente. Para Rodrigo, a África era uma terra boa e hospitaleira, logo que fora domada/dominada por portugueses. Essa visão é reforçada no encontro, em Moçâmedes, com Pompilo de Matos, antigo colega de escola, agora residente na colônia, onde constituiu família. O discurso de Pompilo confirma a posição de Rodrigo em relação ao colonialismo: Mossâmedes tem também uma alma, tem um caráter, um selo de Raça. Por aqui passaram, labutaram, sofreram, todas as gerações de homens portugueses que transformaram este pedaço árido de deserto numa cidade onde se fala a nossa língua, se ensina a nossa história e onde nascem crianças portuguesas. Imagina o que fosse no princípio esta terra amanhada à custa de ignorados heroísmos, à beira dum deserto, e faze idéia de quanta gente se consumiu a fazer dela o que hoje é! Foram esses todos que deram a Mossâmedes a sua alma, os seus títulos e o seu caráter. No nosso tempo, meu velho, aprende-se em Portugal a nossa história – mas só quem vem cá embaixo pode compreender e sentir, bem no fundo da alma, o orgulho de ser português! (GALVÃO, s/d, p.24,25) Ao chegar à Umpata, novamente o narrador faz uma descrição minuciosa da cidade e nada diz a respeito dos negros que cruzam o seu caminho. Sua surpresa reside no fato de ter encontrado uma terra portuguesa em plena África. Terra invadida, desapropriada de seus verdadeiros donos. Nesse sentido os colonizadores não abandonam o lusitanismo, ao contrário, fazem de África extensão da sua casa e de sua identidade. Sob uma atmosfera muito fina, de puríssimo azul, adormecia a paisagem suave do planalto da Umpata. Uma grande planície verde e oiro, onde luziam casas aldeãs e sangravam telhados portugueses. De longe em longe, em polígonos amaneirados e regulares, os verdes mais vivos do trigo e do milho, adoçavam o aspecto agreste da cabeleira de capim. Dir-se-ia que, depois da minha enorme viagem, de mais de vinte dias, a galgar distâncias, a devorar milhas, chegara outra vez a um cantinho de Portugal, com o seu ar lavado, a sua paisagem fresca, a sua fisionomia hospitaleira. (GALVÃO, s/d, p.27) Em outra passagem observamos como os negros são considerados estranhos em sua terra, destoando, assim, dessa paisagem portuguesa perfeita e pura, cantada até então. A visão que o protagonista tem do outro confirma a intenção da colonização, ou seja, hierarquizar valores e pessoas, anulando assim seus hábitos, costumes, sua história. Assim, 8 caso não soubéssemos em que circunstâncias os romances coloniais foram escritos, poderíamos dizer que os negros, de acordo com a narração, são os verdadeiros invasores. gente. Numa curva da estrada cruzamo-nos com uma camioneta cheia de E também aquelas mulheres de lenços garridos e faces crestadas, com o penteado apanhado no alto do toutiço, e aqueles homens bisonhos, de largos chapéus e cajado na mão, era puras manchas na vida portuguesa da aldeia. (GALVÃO, s/d, p.29) A respeito dessa postura colonialista do português, Salvato Trigo(1987) observa a continuidade e extensão da postura do colonizador. Existe uma transferência que pressupõe completa transformação do espaço – um prolongamento da terra e conseqüentemente da identidade portuguesa. Com efeito, a literatura colonial caracteriza-se justamente pelo facto de os seus cultores não abdicarem da sua identidade, das referências culturais e civilizacionais dos seus países, embora tentem mostrar-se integrados no meio e na sociedade nova de que fazem parte. Aqui surgiria, pois, a distinção entre o exotismo, que subjaz à literatura colonial, e o cosmopolitismo, que alguns querem atribuir-lhe. Na verdade, como bem acentua Roger Mathé “o exotismo distingue-se do cosmopolitismo, essa disposição de espírito que nos permite sentirmo-nos por todo lado, com àvontade, como se estivéssemos em nossa própria casa”. (GALVÃO, s/d p. 144,145) Em Umpata, Rodrigo juntamente com seu primo, Vasco, ouve impressionado o relato de Mandombe, preto guerreiro, sobre a existência de ouro no interior de Angola. Vasco, antes mesmo da chegada de Rodrigo, já sonhava com a possibilidade de uma vida abastada, abandonando assim o cultivo de sua fazenda, deixada a cargo de sua família. Na seqüência da narrativa, durante a expedição que buscava o ouro angolano, Rodrigo entra em contato com a grande aventura que procurava. No entanto, após conhecer os grandes perigos da selva africana, Rodrigo e seu primo não encontram ouro nenhum e chegam à conclusão que o verdadeiro ouro de África estava na posse e no cultivo da terra. O amarelo do trigo e outras plantações, devidamente cultivadas por pretos e administradas por brancos portugueses, seriam as verdadeiras riquezas de África. 9 Se observarmos atentamente, perceberemos que, em nenhum momento da narrativa, Vasco ou Rodrigo farão qualquer tipo de trabalho pesado, logo que o fazer é para os negros. Primeiro na expedição em busca do ouro, depois na agricultura, que segundo o protagonista é o verdadeiro ouro de África. Essa forma de pensar do colonizador sempre foi comum como afirma Eduardo Lourenço: Empiricamente, o povo português é um povo trabalhador e foi durante séculos um povo literalmente morto de trabalho. Mas a classe historicamente privilegiada é herdeira de uma tradição guerreira de não-trabalho e parasitária dessa atroz e maciça “morte de trabalho” dos outros. Não trabalhar foi sempre, em Portugal, sinal de nobreza e quando, como na Europa futuramente protestante, o trabalho se converte por sua vez em sinal de eleição, nos descobrimos colectivamente a maneira de refinar uma herança ancestral transferindo para o preto essa penosa obrigação. (LOURENÇO, 2001, p.128) Nesse sentido, os mais abastados, sob o pretexto do dogma católico de que Deus deu a terra aos homens e elegeu os nobres e a igreja para administrá-la, procuraram manter uma relação longínqua do trabalho, como vocação, no sentido weberiano. Assim, o desapego ao trabalho, a má administração das riquezas retiradas do Brasil, suficientes para sustentar Portugal durante séculos, somada à ínfima industrialização observada no país corroboraram para o permanente empobrecimento de seu povo. Para finalizar, se em O sol dos trópicos nossa análise centrou-se no processo de apropriação do espaço, Serra da Chela, onde se fixou Venâncio, em O velo d’oiro, a apropriação espacial se dá desde o início da narrativa, com a fazenda estruturada pertencente a Vasco, primo Rodrigo. Este por sua vez, convencido de que o verdadeiro ouro de África, encontra-se na agricultura, acaba adquirindo uma fazenda, onde inicia o cultivo o trigo. Dessa forma, a literatura colonial ao desconsiderar os verdadeiros donos da terra, transformando-os em meros coadjuvantes, evidencia a postura do colonizador que encontra no espaço africano, no caso Angola, uma extensão natural de Portugal. Bibliografia 10 BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2000. BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1989. ____________. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. GALVÃO, Henrique M. O velo d’oiro. Lisboa: Livraria Popular. s/d. _________. O sol dos trópicos. Lisboa: Empresa do Anuário Comercial, 1936. LINS, Osman. Lima Barreto e o espaço romanesco. São Paulo: Ática, 1976. LOURENÇO, Eduardo. O Labirinto da saudade. Lisboa: Gradiva, 2001. MATA, Inocência. O texto colonial: uma questão estético-ideológica. In: Silêncios e falas de uma voz inquieta. Lisboa: Mar Além, 2001. NOA, Francisco. Império, mito e miopia: Moçambique como invenção literária. Lisboa: Caminho, 2002. TRIGO, Salvato. Ensaios de Literatura Comparada Afro-luso-brasileira. Lisboa: Vega, s/d. 11