AS DIFICULDADES DOS ALUNOS, DO 6º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL, PARA A REALIZAÇÃO DAS OPERAÇÕES FUNDAMENTAIS: ADIÇÃO, SUBTRAÇÃO, MULTIPLICAÇÃO E DIVISÃO COM NÚMEROS NATURAIS BRANDT, Célia Finck – UEPG [email protected] BASSOI, Tânia Stella – UNIOESTE [email protected] DIONIZIO, Fátima Queiroz – UEPG [email protected] Eixo Temático: Educação Matemática Agência Financiadora: não contou com financiamento Resumo A presente pesquisa buscou responder às seguintes questões: Quais as dificuldades dos alunos, do 6º ano do ensino fundamental, para a realização das operações de adição, subtração, multiplicação e divisão com números naturais? Os erros são decorrentes da compreensão da estrutura do sistema de numeração decimal (SND)? Os erros são decorrentes da compreensão da estrutura do algoritmo? Os erros cometidos são decorrentes da compreensão da organização dos registros de representação (palavra e notação arábica)? Teve por objetivos: compreender as dificuldades das crianças no domínio da estrutura do SND; explicitar a compreensão do SND pelas crianças no momento da utilização dos algoritmos operatórios; desvelar as hipóteses que as crianças manifestam para justificar estratégias e procedimentos utilizados para realizar operações de adição, subtração, multiplicação e divisão com números naturais; apontar o campo conceitual (conjunto de situações e conjunto de conceitos) necessário para a realização dessas operações. Utiliza como procedimentos metodológicos os dados empíricos resultantes da resolução dessas operações pelas crianças e os analisa à luz da Teoria dos Campos Conceituais de Gérard Vergnaud em relação aos esquemas que, permitem investigar os conhecimentos-em-ação do sujeito referente às categorias de elementos: metas e antecipações, regras de ação, invariantes operatórios (conceitos e teoremas em ato) e possibilidades de inferência em situação. Como resultados foi possível identificar a natureza para a realização das operações com números naturais desses erros como sendo decorrentes da compreensão da estrutura do sistema de numeração decimal, da estrutura do algoritmo ou da organização dos registros de representação (palavra e notação arábica). 9175 Palavras chave: Campos conceituais. Operações com números naturais. Sistema de numeração. Introdução O presente texto apresenta os resultados de uma pesquisa relativa às respostas dadas por alunos à questões envolvendo operações de adição, subtração, multiplicação e divisão com números naturais. Essas respostas caracterizaram os dados empíricos da presente investigação, submetidos à analise à luz da teoria dos Campos Conceituais de Gérard Vergnaud, que buscou responder às seguintes questões: Quais as dificuldades dos alunos, do 6º ano do ensino fundamental, para a realização das operações de adição, subtração, multiplicação e divisão com números naturais? Os erros são decorrentes da compreensão da estrutura do sistema de numeração decimal? Os erros são decorrentes da compreensão da estrutura do algoritmo? Os erros cometidos são decorrentes da compreensão da organização dos registros de representação (palavra e notação arábica)? Com o desenvolvimento da investigação pretendeu-se atingir os seguintes objetivos: compreender as dificuldades das crianças no domínio da estrutura do Sistema de Numeração Decimal (SND); explicitar a compreensão do SND pelos alunos no momento da utilização dos algoritmos operatórios; desvelar as hipóteses que as crianças manifestam para justificar estratégias e procedimentos utilizados para realizar operações de adição, subtração, multiplicação e divisão com números naturais; apontar o campo conceitual (conjunto de situações e conjunto de conceitos) necessário para a realização de operações de adição, subtração, multiplicação e divisão com números naturais. Procedimentos metodológicos A investigação foi encaminhada numa abordagem qualitativa, que se desenvolveu em momentos distintos. Primeiramente, foi aplicado um instrumento de coleta de informações, com dez questões, com os quatro tipos de operações matemáticas: adição, subtração, multiplicação e divisão para quatro turmas de alunos do 6° ano (antiga 5ª série) do Ensino Fundamental de uma escola pública. 9176 Procedimentos de organização dos dados As respostas apresentadas, por escrito, foram organizadas de acordo com o QUADRO 1, conforme o tipo de resolução apresentada. Para a resolução correta foi destacada se a resolução apresentada utilizou ou não o algoritmo. Para as resoluções incorretas destacaramse: as questões não resolvida (NF), as questões erradas, cujos erros eram passíveis de identificação (R) e as questões erradas cujo erro era incompreensível (I). Questão Aluno Acerto: Estratégias Erro I NF R QUADRO 1: Categorização das respostas apresentadas pelos alunos Dessa forma pudemos identificar os tipos de erros apresentados na resolução das questões e o número de sujeitos do grupo que apresentaram o mesmo tipo de erro. Esses erros foram analisados à luz da Teoria dos Campos Conceituais de Gérard Vergnaud (1990). O QUADRO 2 de permite visualizar as questões propostas. Questão A: Adição sem recurso à ordem superior, com duas parcelas de dois algarismos: 35 + 42. Questão B: Adição com recurso à ordem superior, com duas parcelas sendo a 1º. Com três algarismos e a segunda com quatro algarismos: 2785+3456 Questão C: Subtração com recurso à ordem superior na ordem das dezenas com três algarismos no minuendo e no subtraendo: 839 Questão D: Subtração com recurso à ordem das dezenas, com três algarismos no minuendo e no subtraendo: 942-543 Questão E: Multiplicação por 1 com três algarismos no multiplicador: 121x1 Questão F: Multiplicação por zero e com três algarismos no multiplicador: 784 x 0. Questão G: multiplicação de um algarismo no multiplicador por três algarismos no multiplicando: 743 x 2. Questão H: Multiplicação de dois algarismos no multiplicador e no multiplicando: 45 x 16. Questão I: Divisão de 100 por 2. Questão J: Divisão de um número com três algarismos no dividendo por um algarismo no divisor. QUADRO 2: Questões propostas aos alunos Organização dos dados por erros Os erros foram agrupados para análise posterior e podem ser visualizados a seguir: 1 Erros de adição tanto nas adições como nas multiplicações. (35+42=67) 2 Empréstimos da casa das unidades para a casa das dezenas, da casa das dezenas para a casa das centenas. O valor emprestado é considerado uma unidade que não é somado ao algarismo de qualquer casa e sim justaposto (ou à direita ou à esquerda). Ou esse valor emprestado é considerado uma unidade. 3 Utilização excessiva do algoritmo. Até para multiplicar por 1 e por zero. Falta de 9177 segurança para a realização das operações sem a utilização de algoritmos. 4 Utilização errada do algoritmo oriundo da não compreensão da estrutura do SND (colocar unidades em baixo de dezenas...). Exemplo: 3546 1. nnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnn nnnnn 5 Acréscimo de zero ao número. +278 0 6326 2780 +3546 6326 6 Subtração do menor do maior não importando quem é o minuendo e quem é o subtraendo ou somar quando não dá para subtrair (mesmo que isso signifique somar alguns algarismos e subtrair outros na mesma operação). Exemplos: 942 - 583 441 7 Multiplicação por 1: soma uma unidade a cada algarismo ou duplica o valor de cada algarismo. 121 x1 232 8 Multiplicação por zero dá o mesmo número (784x0=784) ou acrescenta um zero ao número. 9 Na multiplicação por um algarismo no multiplicador erra uma das multiplicações. 10 Divide ao invés de multiplicar. 11 Não registra o algarismo da ordem das unidades de milhar ao multiplicar um número de 3 algarismos por um número de um algarismo. 12 Soma e multiplica na mesma operação. 13 Substituiu o multiplicador 2 por 1. 743x1 = 743 14 Trata cada algarismo do multiplicador como se valor absoluto (unidades) e não relativo e, por essa razão, erra a posição do resultado para adicionar. 45 x16 270 +45 315 15 Multiplica a unidade por unidade do multiplicando, registra a reserva, e a dezena por 9178 dezena. 4³5 x16 70 16 Somou o algarismo das unidades do multiplicador aos algarismos do multiplicando (tanto centenas como unidades) Considerou a multiplicação apenas da unidades vezes a dezena. 743 x2 985 17 Erro de tabuada. Tanto nas multiplicações como nas divisões. 18 Esquecem de adicionar a reserva na multiplicação. 3 45 x16 240 45 690 19 Só multiplica pelo algarismo da unidade do multiplicador. 345 x 16 270 20 Multiplicou primeiro a casa das dezenas do multiplicador pelo multiplicando e depois não soube onde colocar o resultado da multiplicação da casa das unidades. 21 Fizeram tentativas de usar o algoritmo. 100∟2 10 5 10 0 22 Arrisca o algoritmo e obtém como quociente (100) e resto (0). 100∟2 100 23 Arrisca o algoritmo e obtém como quociente (200) e resto (0).. Pode ser que multiplicou. 100∟2 200 24 Não sabe o que fazer para dividir zero por dois. Só colocou o 5 na resposta, e não o 50. 9179 100∟2 10 5 000 25 Compreensão da professora: não aceita o resultado 050 (a criança ao tentar dividir 1 por dois vê que não dá e coloca zero. Segue dividindo corretamente e por isso o resultado 050) 100∟2 10 050 00 0 26 Não baixou o segundo número do dividendo, mas fez diretamente a divisão. 845∟5 3 169 27 Reproduz espacialmente o algoritmo das estruturas aditivas conforme já identificado por Muniz (2009), porém manipula o algoritmo conforme o da divisão, isto é, inicia pela esquerda. 100 ÷2 05 Esses erros foram agrupados conforme uma classificação mais geral que os abrangessem. Erros de Adição e Subtração. (EAS) Erros do tipo 1. Empréstimos (E): da casa das unidades para a casa das dezenas, da casa das dezenas para a casa das centenas ou o valor emprestado considerado uma unidade não somada ao algarismo de qualquer casa e sim justaposta (ou à direita ou à esquerda). Erros do tipo 2. Por exemplo: 3154 981412 - 42 -5 8 3 272 340 Subtração do Menor do Maior (SMeMa) não importando quem é o minuendo e quem é o subtraendo ou adição em virtude da não possibilidade de subtração (mesmo que isso signifique somar alguns algarismos e subtrair outros na mesma operação). Erros do tipo 6. Exemplo: 942 -583 9180 441 Acréscimo de Zero ao Número. (AZN) Na operação 278+3546 faz 2780 + 3546. Erro do tipo 5. Multiplicação é sempre Aumento (MA): Na multiplicação por 1 soma uma unidade a cada algarismo ou duplica o valor de cada algarismo. Erro do tipo 7. Multiplicação por Zero dá o mesmo número ou acrescenta um zero ao número (MZ) Muitas crianças cometem esse erro, isto é, consideram o zero como elemento neutro. Erro do tipo 8. Utilização Errada do Algoritmo (EA) oriundo da não compreensão da estrutura do SND (colocar unidades em baixo de dezenas. Erros do tipo 11, 12, 18, 19 e 20, 22, 23, 24, 25 e 26. 3546 + 278 6326 Tratamento de cada algarismo do multiplicador em função de seu Valor Absoluto (VA) (unidades) e não relativo e, por essa razão, erro da posição do resultado para adicionar. (por exemplo registro e utilização da reserva, no entanto, adição de unidade com dezena e dezena com unidade. Erro do tipo 14. Por exemplo Multiplica da mesma forma que Adiciona (MA) Multiplicação da unidade por unidade do multiplicando, registro da reserva, e da dezena. Erro do tipo 15. Adiciona ao invés de Multiplicar (AM) Adição do algarismo das unidades do multiplicador aos algarismos do multiplicando (tanto dezenas como unidades). Erro do tipo 16. Procedimentos de análise dos dados empíricos: esquemas próprios utilizados pelos alunos que fundamentam a realização de suas atividades matemáticas. A análise das produções matemáticas dos alunos implicou no conhecimento das formas de pensar, subsidiado por uma teoria de conhecimento na dimensão epistemológica e psicológica. Nossa opção foi pela teoria de campos conceituais de Gérard Vergnaud pela possibilidade de análise dos procedimentos de resolução de questões de matemática, explicitando as significações compreendidas nos esquemas de pensamento utilizados pelos alunos. 9181 Segundo Vergnaud (1990, p. 155), a teoria dos campos conceituais trabalha com a idéia de situação e da ação dos sujeitos nestas situações. Vergnaud (1990) reconhece a importância da teoria de Jean Piaget para a teoria dos campos conceituais e destaca dois conceitos dessa teoria: o conceito de esquema (organização invariante da conduta para uma dada classe de situações) e de invariante operatório. Os erros foram analisados em relação aos esquemas que, permitem investigar os conhecimentos-em-ação do sujeito em relação às categorias de elementos: metas e antecipações, regras de ação, invariantes operatórios (conceitos e teoremas em ato) e possibilidades de inferência em situação. Dado o exposto passaremos, na sequência, a apresentar as análises dos procedimentos de resolução, buscando explicar os diferentes tipos de erros apresentados, as hipóteses levantadas, os conceitos não construídos e as significações atribuídas às diferentes soluções. Análise dos erros Os erros identificados, tanto nas operações de adição como de multiplicação, relativos às adições, (EAS) foram analisados em relação ao teorema mobilizado (Card A + Card B= Card (A + B). Qualquer que seja a estratégia utilizada, contar todos ou contar na sequência, vai significar que a criança está lançando mão de um teorema em ação. Enquanto conceitos são necessários a contagem (contagem de unidades ou de grupos e, neste caso, é necessário seguir a lógica de contagem: contar todos, contar apenas uma vez e repetir os nomes dos números na mesma ordem) e a cardinalidade (estabelecer relações de ordem e inclusão hierárquica). Foram também identificados erros de subtração e, por essa razão a necessidade da identificação de conceitos e teoremas em ato necessários para a realização correta das operações de subtração. Para os problemas que envolvem subtrações, Fayol (1996) apresenta tipos diferenciados de procedimentos dentre os quais destacamos: “contar para trás a partir de” 1 1 1 1 1 1 1 1 (12,11,10, 9, 8, 7, 6, 5, 4) ou “contar para trás até” (12, 111, 110, 19, 18) a partir do maior dos termos até atingir o menor, enumerando os elementos da seqüência obtida. No caso das crianças analisadas podemos inferir, a partir de suas produções escritas que as estratégias “contar para trás a partir de” ou “contar para trás até”, relacionadas ao procedimento de diferença ou ao procedimento do complemento falham levando as crianças a 9182 apresentarem erros de subtração. Essas estratégias exigem também conceitos de contagem e, também, a manipulação de objetos ou dedos ou a mobilização em pensamento da correta ordem da sequência numérica recitada em ordem inversa. Igualmente, como na adição, mobiliza o teorema Car (A)–Car (B) = Car (A–B). Os erros relativos aos significados atribuídos aos empréstimos, posicionamento dos numerais no algoritmo ou à não possibilidade de retiradas, foram analisados em relação às metas traçadas pela criança que compreenderam regras baseadas em conceitos em ato relacionados à estrutura do SND. Isso porque segundo Duval (1995) um conceito envolve um significante, um significado e uma significação pelo sujeito tendo por referência um objeto de conhecimento, nesse caso o SND utilizado para a representação dos números na forma numérica, como podemos observar na FIGURA 1. referência Significado Significação (nesse caso a Objeto (O SND) atribuição de significação aos algarismos do registro de representação da escrita numérica pela criança) representação Significante (a escrita numérica) FIGURA 1 - Estrutura Diádica e Triádica da Significância FONTE: Duval, 1995, p.63 A criança realiza uma operação de subtração e cria hipóteses a partir da significação atribuída aos algarismos dessa escrita. Essa significação não compreende o conhecimento da estrutura que está presente nesse tipo de registro (de base dez e posicional). Por essa razão ela, ao realizar a operação 35 – 42 e, ao não conseguir retirar 4 (dezenas) de 3 (dezenas), empresta 1 do 5 (que é unidade) e coloca esse valor numérico à direita das 3 dezenas interpretando o novo valor como sendo 31, retirando as 4 dezenas (consideradas 4 unidades), obtendo 27. As 4 unidades que ficaram são suficientes para a retirada das 2 unidades do 42, resultando em 272. Essa interpretação foi baseada no registro apresentado pela criança 4 3 15 -42 272 9183 A mesma análise permite interpretar os procedimentos em que as crianças subtraem o menor do maior, não importando se o algarismo do registro seja do minuendo ou do subtraendo. Nesse caso a criança trabalha com os algarismos dos numerais como se fossem algarismos justapostos, pois não atribui significação ao registro de representação do número. As antecipações compreendem regras de ação que explicitam conceitos em ato utilizados (o conceito de subtração, nesse caso, retirar o menor do maior) e esquemas que dão conta de obtenção de resultados (a utilização do algoritmo que se baseia num conceito em ato fragilizado, isto é, a compreensão da estrutura do SND). Essas inferências podem justificar também o caso em que a criança completa com um zero à direita em um numeral com menos algarismos para adicionar a outro com mais algarismos. A não significação aos registros de representação do número embasa as ações da criança que se apóia no procedimento algoritmo, mecanizado, mas que lhe dá segurança para acreditar que obterá o resultado. Esse procedimento é realizado conforme orientações recebidas, isto é, colocar os algarismos um em baixo do outro e, nesse caso, o zero é acrescentado por não ter valor nenhum. Os resultados da multiplicação por 1 e por zero poderiam ser realizados sem o recurso ao algoritmo se a criança estivesse de posse do conceito de multiplicar. O mesmo ocorre com a multiplicação por dois que poderia ser realizada sem a recorrência ao algoritmo se acoplada à conceitualização da estrutura do SND. A utilização correta do algoritmo, mas com adições do multiplicando aos algarismos do multiplicador (121 x 1 = 232), ou com a duplicação desses algarismos (121 x 1 = 242), ou com a invariância desses algarismos na multiplicação por zero (121 x 0 = 121), foi analisada em relação ao esquema e, como conseqüência, às antecipações e regras de ação cujos conceitos em ato revelam uma atribuição de significação equivocada em relação ao registro de representação da operação em forma de algoritmo escrito. Num outro contexto pode ser que a criança atribua uma significação diferenciada que a leve a apresentar o resultado correto da operação. No nosso cotidiano não se manifestam situações em que precisemos multiplicar por 1ou dividir zero por 2. Prevalece nesse caso a idéia de que multiplicar é aumentar (idéia de adição sucessiva) e essa idéia tem que ser associada ao registro escrito que se manifesta no sinal de x (vezes). Ou prevalece a idéia de que o zero não modifica nada (transportado da 9184 adição) e, por essa razão, ao enxergar o sinal de x (vezes) no registro escrito transporta essa significação ao resultado. A antecipação da criança, para a utilização do algoritmo, se apóia numa regra de ação que revela lançar mão de um conceito em ato relativo á estrutura do SND que se baseia em hipóteses próprias (que não respeitam o valor posicional) em relação aos algarismos da escrita numérica levando-a a colocar os numerais em posições relativas não coincidentes. A esse fato se associa a utilização de um teorema em ato fragilizado (relativo à adição) que não permite que a criança perceba a cardinalidade resultante dessa adição revelada pela soma obtida. A reprodução espacial do algoritmo das estruturas aditivas, para a realização da multiplicação, conforme já identificado por Muniz (2009), leva a criança a manipular o algoritmo da divisão, isto é, inicia pela direita ou faz a multiplicação da unidade vezes unidade fazendo a reserva e depois faz dezena vezes dezena. 3 45 ou x16 70 100 ÷2 05 Nestes dois casos aplica o algoritmo da adição para a realização de multiplicação (somar unidade com unidade e dezena com dezena). Pode-se inferir que houve a reprodução espacial do algoritmo das estruturas aditivas. Esse erro tem que ser interpretado em relação ao esquema e sua efetividade. O esquema de adicionar ou subtrair unidade/dezena com (de) unidade/dezena mantém-se invariante para essa criança para realização da operação de multiplicação. Esse esquema compreendeu uma meta, isto é, realizar a operação para obter o resultado, antecipações e neste caso a criança antecipa que deve multiplicar unidade/dezena por unidade/dezena que caracterizou as regras que comandaram a ação. Essas regras, por sua vez têm que ser associadas aos conceitos e conhecimentos em ato (invariantes operatórios) que nesse caso, para uma nova situação, no caso a multiplicação, estão fragilizados. Nesse caso é o teorema que se refere à multiplicação e lhe da a possibilidade de certas inferências, especificamente proceder da mesma forma que na adição. Esses procedimentos revelam uma antecipação apoiada sobre hipóteses construídas pela criança em relação à significação atribuída ao algoritmo da multiplicação. Nesse caso o esquema se apóia num conceito ainda equivocado e, por essa razão, hipóteses que poderão ser refutadas em processos de intervenção por meio de desafios cognoscitivos. Essas hipóteses são construídas em virtude da não atribuição de significação ao procedimento algoritmo. Ela sabe que cada algarismo do multiplicando se relaciona com cada algarismo do multiplicador. 9185 Como esse conceito é equivocado ela ao invés de multiplicar, soma, além de esquecer-se do algarismo da casa das dezenas. Considerações finais Na presente investigação foi possível identificar algumas das dificuldades dos alunos, do 6º ano do ensino fundamental, para a realização das operações de adição, subtração, multiplicação e divisão com números naturais. Igualmente a natureza desses erros como sendo decorrentes da compreensão da estrutura do sistema de numeração decimal, da estrutura do algoritmo ou da organização dos registros de representação (palavra e notação arábica). A partir dos resultados encontrados foi possível compreender as dificuldades das crianças no domínio da estrutura do Sistema de Numeração Decimal (SND). As análises permitiram explicitar a compreensão do SND pelos alunos, no momento da utilização dos algoritmos operatórios e desvelar as hipóteses que elas manifestam, para justificar estratégias e procedimentos utilizados para realizar essas operações. Ao proceder com análises subsidiadas pela teoria dos Campos Conceituais de Gérard Vergnaud foi possível apontar o campo conceitual (conjunto de situações e conjunto de conceitos) necessário para a realização dessas operações. Até o momento procedemos com a avaliação dos erros. Estaremos na continuidade do estudo procedendo com as análises das formas de intervenção para que esses erros sejam superados. Para tanto será importante observar (nas atividades a serem propostas) que para a utilização do algoritmo da divisão inicia-se pelo algarismo de maior ordem que não é o caso do algoritmo da adição, subtração e multiplicação. Isso significa que deve haver também aprendizado do algoritmo. Igualmente observar que ao manipular os algoritmos as crianças lançam mão dos mesmos esquemas (iniciar da direita para a esquerda para as adições, subtrações e multiplicações e da esquerda para a direita no caso das divisões), no entanto os erros são decorrentes da não identificação da estrutura do SND na notação arábica. Por isso emprestam ao subtrair uma unidade da dezenas (ou vice e versa) e a acrescentam às unidades ou a elas justapõem, ou trabalham com o valor absoluto dos algarismos do numeral. Nessas intervenções será necessário observar se os erros apresentados são decorrentes da incompreensão da estrutura do SND ou se são decorrentes da incompreensão do algoritmo 9186 e ainda, se os esquemas são criações próprias que funcionariam se houvesse compreensão do SND. Importante, nas intervenções, será considerar as produções dos alunos e evidenciar os esquemas utilizados e as atribuições de significados aos dígitos da notação numérica que levam a soluções diferentes pelos alunos. E isto deve ser feito aproveitando os argumentos utilizados pelos alunos e ao mesmo tempo socializando com os demais colegas da classe. São essas produções que podem subsidiar propostas de intervenção para superação de obstáculos (epistemológicos ou pedagógicos) e avanços conceituais. O esquema é um produto de ordem psicológica apoiado na representação mental. As produções escritas não são capazes de revelar as construções amplas e complexas das crianças. É necessário, portanto, complementar os registros com justificativas e argumentos que revelam o que não se torna explicitado. Tal intencionalidade implica considerar a diversidade do pensamento humano na organização da prática educativa e, por essa razão efetivar uma transposição didática do conhecimento científico produzido, não o levando como pronto e acabado, ao contemplar interesses, necessidades, dificuldades, intuições primeiras, possibilidades, abordagens, encaminhamentos, estratégias, entre outras questões. Igualmente considerar a necessidade de uma forma diferenciada do olhar do professor em relação às produções das crianças buscando compreendê-las, aceitá-las quando corretas, mesmo que diferentes ou não canônicas, socializá-las para valorizar o sujeito epistêmico que é capaz de pensar e de produzir conhecimento, entendê-las enquanto frágeis ou oriundas de processos de desenvolvimento, e, colaborar para as rupturas necessárias por meio de desafios cognoscitivos e de problematizações. Essa forma diferenciada de olhar implica rupturas pessoais, oriundas de nossos processos de formação tanto escolares, como profissional, em cursos de formação de professores. Essas rupturas significarão desconstruções e reconstruções de natureza conceitual, procedimental e profissional, conforme apontado por Muniz (2009). REFERÊNCIAS FAYOL, M. A criança e o número: da contagem à resolução de problemas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. MUNIZ, Cristiano A. B. & BITTAR, Marilena. A aprendizagem matemática na perspectiva da teoria dos campos conceituais. 1. Ed. Curitiba: Editora CRV, 2009. 9187 VERGNAUD, Gérard. La théorie des champs conceptuels. Recherches em didactique de mathématiques, v. 10, n. 23, p.133-170, 1990. DUVAL, Raymond. Sémiósis et pensée humaine: registres sémiotiques et apprentissages intellectuels. Suisse: Peter Lang, 1995.