Fórum de Pesquisas CIES 2008 Desigualdades Sociais em Portugal Projectos de vida de jovens com baixas qualificações escolares Maria das Dores Guerreiro (coord.) Frederico Cantante Margarida Barroso 1 • Projecto “Trajectórias Escolares e Profissionais de Jovens com Baixas Qualificações”, realizado no CIES em 2006/7, por Maria das Dores Guerreiro (coordenação), Frederico Cantante e Margarida Barroso. • A pesquisa desenvolveu-se tendo por base a realização de entrevistas biográficas a 75 jovens, 45 H, 30 M, com idades entre os 18 e os 30 anos; jovens naturais e residentes em diferentes regiões do país (NUT’s II); que estivessem a trabalhar e/ou que contassem no seu trajecto alguma experiência no mercado trabalho e, por último, cujo nível de escolaridade completo não estivesse acima do 3.º ciclo do ensino básico. • Foram analisadas quatro dimensões fundamentais: a) trajectórias escolares, b) trajectórias profissionais, c) perspectivas sobre o sistema de ensino e políticas de emprego, d) projecções sobre o futuro. 2 Do ponto de vista estratégico, a escolaridade da população é quase sempre sinalizada como um dos principais factores que condicionam o futuro do país. Mas, descendo a escala da análise, quais os impactos das baixas qualificações escolares no modo como os sujeitos projectam o seu futuro? 3 Projectos formativos e profissionais 1. Investir na formação para melhorar a situação laboral a) Reconversão das competências laborais b) Estudar sem objectivo profissional 2. Capitalização da experiência laboral 3. Rejeição dos investimentos formativos e de projectos profissionais 4 Projectos formativos e profissionais 1. Investir na formação para melhorar a situação laboral a) Reconversão das competências laborais “Eu gosto de estudar temos que zelar pelos nossos interesses. Se me surgir outra oportunidade eu quero estar o mais bem preparada possível para depois não me arrepender de não ter feito ando sempre à procura desses cursos, se forem compatíveis com o meu horário e na área de informática nem hesito à excepção deste último, que é dado pela empresa, tenho-os tirado em instituições privadas () Gostava de mudar de emprego sempre gostei da ideia de secretariado, de trabalhar em escritório, com informática, por isso é que tenho frequentado os tais cursos.” Carolina, 9º ano concluído, tarefeira fabril, 22 anos F: A curto (prazo), manter-me como estou. A médio prazo, não sei e a longo, passará pela área de economia. E: Percebo que vais tentar, através de um curso universitário, subir dentro da tua função, é isso? F: É. E mudar um pouco. Eu gosto muito das vendas mas sinto-me um poucoàs vezes frustradose calhar não é a palavra mais correcta. Chegamos ao dia trinta e um e nós temos um quadro onde temos as nossas vendas todos os meseschegamos ao dia trinta e trinta e um e é ‘apaga e faz de novo’.” Francisco, 11º ano incompleto, vendedor de automóveis, 26 anos 5 Projectos formativos e profissionais b) Estudar sem objectivo profissional “Pronto, ‘tou’ a trabalhar, ‘né’? Mas de um momento para o outro posso ficar sem emprego, e depois para arranjar outro é difícil. Assim tenho de estudar. Tenho mais possibilidades com o 9º com o 9º já é um bocadinho complicado pelo menos tentar o 12º” João, 8º ano concluído, auxiliar de carpinteiro, 19 anos “Qualquer coisa hoje em dia pede o 9º ano, tudo pede. Então convém mesmo uma pessoa fazer um esforçozinho. Carla, 7º ano concluído, auxiliar de serviços gerais na Santa Casa da Misericórdia, 22 anos 6 Projectos formativos e profissionais 2. Capitalização da experiência laboral “Eu gostava muito de ter alguma coisa que seja minha. Não trabalhar para os outros. Trabalhar para mim, ser patroa. Porque trabalhar para os outros é um bocadinho complicado () Na área da restauração – porque eu comecei aqui – já conheço, fui habituada. Eu acho que se mudasse para outra profissão sentia-me deslocada.” Renata, 6º ano concluído, empregada de mesa, 24 anos 3. Rejeição dos investimentos formativos e de projectos profissionais “E: Que expectativas e necessidades de formação para o futuro? B: Para quê?! Já há aí tanta gente formada sem emprego defendo que devemos aplicar-nos, e quanto mais aprendermos melhor mas podemos aprender por nós. Quer melhor escola que um trabalho?! E: Quais são os seus projectos profissionais de futuro a curto, médio e longo prazo? B: Não tenho. Não sou de fazer muitos planos vivo e deixo viver! Tenciono continuar aqui, já estou efectivo, a empresa vai bem, por isso formação só se me exigirem, até hoje nunca precisei” Bernardo, 12º ano incompleto, auxiliar de armazém, 26 anos 7 Família, estabilidade e risco 1. Adiamento dos investimentos profissionais e formativos a)A aversão ao risco b)A conciliação entre os investimentos profissionais e as responsabilidades familiares 2. Adiamento dos projectos familiares a)Estabilidade profissional e económica b)Prolongar a juventude 8 Família, estabilidade e risco 1. Adiamento dos investimentos profissionais e formativos a) A aversão ao risco “[O curso de contabilidade] está na gaveta. Eu tenho uma filha para criar, uma casa para pagar Pôrme em aventuras [O actual emprego] É fixo, é certo e ali ao final do mês tenho o meu [salário] batido. E eu sei que se trabalhar num escritório também não vou começar a ganhar assim tão bem como isso. Eu não posso meter-me em aventuras. Tenho medo de me dar mal. () E arriscar e depois perder? () Portugal é um país que não se pode dizer que tenha uma taxa de escolaridade muito elevada, não é? E muitas vezes as pessoas tiram esses cursos, como eu tirei, e não os utilizam. Porquê? Nós estamos a arriscar-nos a sair do nosso emprego, estamos seguros É pouco () é chato, tenho de aturar pessoas mal dispostas, mas no fim do mês está lá. É pouco, mas é meu. Tenho os descontos todos feitos, direitinho. E vou para um sítio que eu não sei Sei que gosto de ir, sei que é aquilo que eu quero fazer, mas não sei se a pessoa que está por detrás disso vai dar o apoio contratam as pessoas seis meses. Fazem seis meses, mais seis meses e quando vai para acabar mandam embora que é para não ficar efectivo. É muito chato.” Cátia, 12º ano incompleto, caixa num posto de abastecimento de gasolina, 25 anos 9 Família, estabilidade e risco b) A conciliação com as responsabilidade familiares “Eu nunca posso dizer que não será possível [ser educadora de infância]. Não me sai da ideia que um dia, quando eles [filhos] forem maiores Não sei se não irei fazer (). Mas é como eu digo, com o passar dos anos eles vão crescendo e quem sabe eu consiga fazer isso.” Vera, 11º ano incompleto, empregada de pesagem num supermercado, 25 anos “Adorava ir trabalhar () Pois agora tenho é de procurar e arranjar um [emprego] que se adeqúe à minha situação. [Está à espera] Para ver se ela [filha] entra na escola, e aí já é mais fácil, porque depois, mesmo que eu arranje um part-time, já é mais fácil. Part-time é mais flexível, ajusta-se mais ao tempo que eles estão na escola.” Mena, 10º ano incompleto, desempregada (na sua última profissão trabalhou como empregada de limpeza), 22 anos 10 Família, estabilidade e risco 2. Adiamento dos projectos familiares a) Estabilidade profissional e económica “Tenho um projecto. Construir família, casar-me, ter filhos. Talvez daqui a cinco anos, mas tenho que criar estruturas para ter um filho. () Tudo...ter casa própria... já tenho a dos meus tios [herdada] mas quero ter uma casa nova”. Daniel, 12º ano incompleto, telefonista no exército, 25 anos “Assusta um bocado dar o passo, comprar casa é uma responsabilidade muito grande namorámos nove anos e mais dois de casamento, sinto que já começa a fazer falta mais alguma coisa Talvez um filho, já temos uma gata (risos) mas como já temos condições neste momento será o próximo passo muito em breve.” Cláudia, 10º ano incompleto, a numa loja de decoração, 27 anos “Está muito difícil, uma pessoa vive com medo, anda a fazer contas até chegar o fim do mês. Mas felizmente tem dado: comprámos casa, carro Filhos para já não, nem pensar. Mais tarde, daqui a mais uns três aninhos, quando estivermos mais à vontade de economias, para vivermos sem muitas preocupações.” Carolina, 9º ano completo, empregada fabril, 22 anos 11 Família, estabilidade e risco b) Prolongar a juventude “Aquilo que eu ganho agora é suficiente para ter as coisas como eu gosto e para viajar. Com uma criança não, porque tinha de cortar aqui para dar para ele. Ele tinha tudo à mesmaeu conseguia-lhe dar, mas eu é que me privava. Eu acho que ainda não tenho idade para me privar de nada. Portanto, tudo a seu tempo.” Francisco, 11º incompleto, vendedor de automóveis, 26 anos “Eu já estou há quatro anos com ela [namorada]. E é para continuar. () Não digo [casar] ‘o mais depressa possível’, porque é mentira (risos). Primeiro quero um aninho ou dois de solteiro, para estar sozinho, e depois é que se segue em frente. Mas primeiro quero passar pela experiência de solteiro, mas claro acho que ela também quer passar pela mesma situação, por isso estamos os dois a favorecer-nos um ao outro Pedro, 10º ano incompleto, vigilante de parques e jardins, 22 anos 12 Conclusões Os recursos escolares obtidos condicionam a escala dos projectos formativos. Os projectos profissionais dos jovens são de baixa amplitude. Embora tendam a reconhecer a importância estratégica do título escolar, a maior parte destes jovens valoriza o tipo de conhecimentos transmitido nos cursos de formação profissional. As responsabilidades familiares adensam os condicionalismos que se colocam aos projectos de vida, e reproduzem desigualdades de género. Os projectos familiares são constrangidos pela frágil relação com o mercado de trabalho e com os recursos formativos. 13