ENSINO SUPERIOR: RESGATE DA PRÁTICA DOCENTE ATRAVÉS DA
REFLEXÃO
SCHENDER, Klim Wertz1
Resumo: Os tempos mudaram e os alunos também, portanto, muitos docentes não perceberam a
mudança e continuam resistentes quanto à sua prática docente conservadora. Como perceber que
precisa haver mudanças? Um dos caminhos é a reflexão. Refletir sobre a própria prática possibilita
resgatá-la, e com essa ação não permitir a sua descaracterização.
Palavras-chave: Ensino Superior; Prática Docente; Reflexão
Abstract: Times have changed and students too, but many teachers do not realize the change and
do not want to change their practice because they believe in conservative upbringing. How teachers
perceive that must change? One way is reflection. Reflect on their own practice allows her rescue,
and this action does not allow its mischaracterization.
Keywords: Higher Education; Teaching Practice; reflection
Introdução
A prática docente é algo dinâmico, dialético, construtivo, emocionante, enfim, não há espaço
para a alienação, passividade, pensamentos reacionários e outros comportamentos que impedem à
curiosidade, a esperança, a descoberta, a crítica fundamentada.
O professor forma, mas está
também em permanente formação, principalmente quando reflete criticamente sobre sua prática.
Pois, para Freire (2009, p. 39), “É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode
melhorar a próxima prática”.
1 Aspectos que envolvem a prática docente
De acordo com Oliveira (2001, p. 237-238), cultura é o
Conjunto de bens materiais que caracterizam um determinado agrupamento
humano. A cultura compreende um conjunto complexo que inclui conhecimentos,
artes, leis, crenças, moral, costumes, enfim tudo o que o ser humano adquire como
membro de sua comunidade.
Portanto, o processo de socialização acontece na medida em que o indivíduo vai recebendo e
aprendendo as regras comportamentais do grupo social no qual nasceu e pertence, ou seja, a
integração se dá na transmissão do patrimônio cultural, que foi se acumulando como o tempo, tanto
na sociedade quanto no grupo social.
1
Licenciado em Pedagogia, Biologia e Matemática. Mestre em Educação.
A transmissão do patrimônio cultural ocorre através da educação assistemática (família) e
sistematizada (escola). Sendo que para Oliveira (2001, p. 239), Educação é a
transmissão cultural das gerações adultas às gerações mais jovens; a ação exercida
pela geração adulta sobre a imatura, com o fim de suscitar e desenvolver certo
número de estados físicos, intelectuais e morais reclamados pela sociedade em seu
conjunto e pelo meio especial a que o indivíduo se destina.
A Lei de Diretrizes e Bases (9.394/96) em seu art. 1º estabelece de maneira sintética a
concepção de Educação, isto é, o conceito apoiado pela maioria dos legisladores que aprovaram a
lei:
Art. 1º A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida
familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa,
nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações
culturais.
§ 1º Esta Lei disciplina a educação escolar, que se desenvolve, predominantemente,
por meio do ensino, em instituições próprias.
§ 2º A educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social.
A educação, conforme LDB, não se dá somente no espaço escolar, porém “essas situações
não podem ser entendidas como Educação Escolar” (BRANDÃO, 2010, p. 18). Mas, a educação
formal deve ser desenvolvida em espaços próprios, institucionalizados, portanto, é na educação
formalizada que atuará o professor, transmitindo conhecimentos selecionados, técnicas e sobre os
comportamentos de vida. Portanto, o ambiente em que se concretizará a ação docente será no
interior da instituição de ensino, que de forma interdependente coexistirá, tantos os educadores
como educandos.
O professor deve criar vínculos entre a teoria e a prática, isto é, apontando como os
conhecimentos teóricos podem ser aplicados e praticados no mundo do trabalho e na sociedade.
Nesse aspecto é importante a contribuição docente na formação dos seus alunos. Pois, conforme o
art. 2º da LDB: “A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e
nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu
preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Entretanto, o professor
recebe a autorização do Estado para exercer o seu ofício e representá-lo, no aspecto ensino, quanto
ao dever que lhe compete no campo educacional.
Deixar para a família todo o dever da Educação é sobrecarregá-la, pois é impossível a
família conter em seu núcleo todo o conhecimento construído pela humanidade (formal e informal).
Entretanto, cabe aos docentes equilibrar a balança da construção do conhecimento, ou seja, auxiliar
as famílias no processo formativo quanto à base formal da Educação. Se desde o surgimento da
família, essa tivesse o poder de transmitir todo o conhecimento às próximas gerações, não existiria a
necessidade da figura do professor. Se esse personagem surge no cenário histórico da humanidade,
fica evidente que a família não tem a estrutura de transmissão total do conhecimento. Portanto, o
docente deve conscientizar-se, segundo Freire (2009), que não existe docência sem discência, ou
seja, a existência de um (professor) se estabelece em função da presença do outro (aluno). A
carência do aluno, quanto ao conhecimento, fez surgir à figura do professor.
O docente tem o seu ofício limitado pelo Estado, pois não é o responsável pela criação de
sistemas de ensino, ou seja, Sistemas Educacionais impostos pelas autoridades governamentais, que
não consultam a opinião dos agentes da educação sobre tais propostas, mas que impõe para que
sejam executadas.
Conforme a LDB em seu art. 32, observa-se que:
O ensino fundamental obrigatório, com duração de 9 (nove) anos, gratuito na
escola pública, iniciando-se aos 6 (seis) anos de idade, terá por objetivo a formação
básica do cidadão, mediante: (Redação dada pela Lei nº 11.274, de 2006)
I - o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o
pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo;
II - a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia,
das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade;
III - o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição
de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores;
IV - o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e
de tolerância recíproca em que se assenta a vida social.
O inciso I deixa claro em sua legalidade que o aluno ao terminar o Ensino Fundamental deve
no mínimo dominar a leitura, a escrita e os cálculos básicos, prosseguindo para última etapa da
Educação Básica: Ensino Médio.
De acordo com a LDB em seu art. 35, determina que:
O ensino médio, etapa final da educação básica, com duração mínima de três anos,
terá como finalidades:
I - a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino
fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos;
II - a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar
aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas
condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores;
III - o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação
ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico;
IV - a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos
produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina.
Observando o art. 36, § 3º expressa que “os cursos do ensino médio terão equivalência legal
e habilitarão ao prosseguimento de estudos”. Torna-se claro, pelo conteúdo desses dois artigos, que
ao terminar a Educação Básica, o aluno estará apto para prosseguir os seus estudos, isto é, de acordo
com Brandão (2010, p. 98) “[...] dar as condições legais (formais) para que o aluno do ensino médio
prossiga seus estudos no ensino superior.
No campo teórico legal, a educação parece ter uma trajetória harmoniosa e sem conflitos,
embora na prática a realidade seja completamente diferente da teoria. Pois, perante o cenário
educacional do Brasil, os alunos, dentro do sistema implantado pelos governantes, têm avançado em
estágios de instrução (série, ano, ciclo etc.), mas sem apreensão dos conhecimentos necessários,
surgindo um grupo expressivo de “analfabetos funcionais”. Esse grupo, por sua vez, através das
facilidades atuais, alcança o Ensino Superior, com todas as deficiências não sanadas pela Educação
Básica.
Agora, o que fazer com esse aluno que não está preparado para cursar o Ensino Superior,
mas que legalmente está habilitado para matricular-se em qualquer curso superior? O professor
ignorará essa realidade, abraçando em sua prática o obscurantismo? Ou seja, “[...] a atitude dos que
fazem oposição sistemática a todo progresso material, intelectual ou moral; estado de completa
ignorância” (OLIVEIRA, 2001, p. 245).
A etimologia da palavra “aluno” vem do latim alumnus, alumni, ligado ao verbo alere, que
tem por significado “fazer crescer, sustentar, alimentar, nutrir”, enfim, a palavra aluno, demonstra a
ideia de uma pessoa imatura, como uma tenra criança que precisa de alguém que a alimente, e dê
todos os cuidados semelhantes aos que são dados pelos pais. Portanto, o leite seria o conhecimento
que deve alimentar a intelectualidade desse aluno, que ainda não alcançou a autonomia, para buscar
por si só os saberes. E aquele que, neste caso em particular, providenciará o leite e os alimentará
será o professor. À medida que esse indivíduo-criança for se desenvolvendo, as técnicas, os
procedimentos vão sendo alterados, isto é, o professor não mais levará o alimento pronto, mas
ensinará os locais onde encontrará e como deve obter, escolher e digerir de forma saudável.
Mas quando há problemas “nutricionais do conhecimento”, pela deficiência em aplicar e
desenvolver o processo ensino-aprendizagem, o aluno terá o seu crescimento comprometido,
prejudicado, resultando em um indivíduo “desnutrido” em seus aspectos epistemológicos,
cognitivos, emotivos, racionais e outros. Enfim, o professor do Ensino Superior irá deparar com
esse aluno e qual deverá ser a sua postura? Agir ou manter-se passivo perante a realidade
educacional vigente? Diante dessas indagações e outras, os docentes que decidirem pela nãopassividade e desejarem realizar algo, conforme Vasconcelos (1995), o passo primordial para se
envolver num processo é desejar participar e comprometer-se, não só com ideias que se deixam
descansar no campo subjetivo, não permitindo o poder de mobilização, mas por em práticas tais
ideais, isto é, trazendo para existência o que foi planejado na mente. Que tais ideias não sejam
alienadoras, conservadoras, engessadas, enfim, que o professor tenha cuidado, o zelo de não estar
apegado e comprometido com as suas ideias, impedindo se abrir para as inovações, pois tal docente
“[...] já não tem o que receber nem o que dar. É um repetidor. Só pode dar alguma contribuição
quem está aberto ao debate”. (RIBEIRO, 1984, p. 7).
Enquanto alguns docentes partem para alcançar uma prática transformadora, outros se
mantêm no campo das críticas. Todavia, é necessário refletir que poucas alterações ocorrem
simplesmente com o uso das críticas. Pois, se faz necessário tomar posição, para que possa alcançar
transformação. O que não pode acontecer é descansar na “zona de conforto” e utilizar discursos
sem fundamentos, e criticar até a exaustão e considerar que esta seja a sua participação social.
O educador deve-se comprometer totalmente à causa por qual luta, ou seja, razão e emoção
devem andar unidas e acreditar que seu ofício o torna agente de transformação social.
As barreiras para exercer a docência no Brasil são inúmeras, mas parar diante delas e fazer
discursos e mais discursos, praguejar, criticar, amaldiçoar, enfim, manter-se no campo dos diálogos
vazios, não farão os impedimentos irem ao chão. Muitos docentes têm deixado se alienar pelo
sistema, que apenas sugam as suas forças e faz de tudo para os manterem passivos e presos a
ideologias elitistas. Para Vasconcelos (1995, p. 12), “[...] é mais do que chegada a hora do professor
se assumir como agente histórico de transformação, comprometendo-se com a alteração tanto das
condições objetivas, quanto subjetivas de seu trabalho”.
O professor tem de se conscientizar que a sua ação interferirá direta ou indiretamente na
polis, isto é, seus aspectos históricos, superando ou não as contradições que surgem no caminho de
uma sociedade democrática. As classes que dominam tendem fazer com que pareça que tudo na
polis vai indo bem, que tudo é natural, que é lei, e a lei não pode ser infringida. Este poder alienador
precisa ser vencido, e como o professor pertence à dimensão educacional, deve-se partir na
educação, dominando o seu próprio ofício e interferindo de forma salutar na formação dos alunos.
Todavia, a prática transformadora encontrará resistência, portanto conforme Vasconcelos
(1995, p. 13), o “professor precisa ter esta percepção mais global para poder re-significar sua ação”,
assim poderá compreender que o ato de ensinar não se restringe à aplicação de técnica, o processo é
muito mais profundo, pois de acordo com Freire (2009, p. 23) “quem forma se forma e re-forma ao
formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado”. Só a utilização do tecnicismo sem a
preocupação da dialogicidade, do contato com o aluno, ignorando que ensinar não se restringe a
transmissão de conhecimentos, é agir de forma reacionária.
O docente trabalha com seres humanos, e não com máquinas, portanto não é fácil a relação
professor-aluno é de difícil compreensão, pois o ser humano carrega consigo complexidade, isto é,
seus aspectos distintos, cujas múltiplas formas possuem relações que dependem uma da outra.
Sendo assim, o professor, em seu ofício, está rodeado de várias situações, entre elas, a crise, que de
acordo com Vasconcelos (1995), pode ser: crise dos alunos, das famílias, da estrutura das escolas,
do sistema educacional brasileiro, da sociedade, das práticas pedagógicas, do próprio docente e na
construção do conhecimento. A crise é um dos componentes pertencentes à raça humana. Como lhe
dar com a crise sem entrar em uma crise?
Para Vasconcelos (1995), muitos desejam caracterizar o professor como vilão ou vitimizálo, isto é, responsabilizá-lo pelo fracasso da educação ou engessá-lo diante das estruturas do sistema
educacional que o impele para a passividade. O professor é um ser humano como qualquer outro,
entretanto possui suas limitações. O docente possui razão e emoção, embora muitos o consideram
como sobre-humano, sobrecarregando para além do seu ofício.
O professor pode tomar duas posturas perante a problemática educacional, de acordo com
Vasconcelos (1995, p. 22): “Justificar para não mudar. Compreender para transformar”. Portanto,
descansar em discussões não promoverá as mudanças necessárias. É necessário enfrentar e superar
as dificuldades existentes. Agora “se o compreender a realidade é apenas para justificar porque não
fazemos nada é melhor não perdermos tempo com isto...” (VASCONCELOS, 1995, p. 23).
Considerações Finais
As condições atuais do ofício docente não são favoráveis à passividade, há urgência para
mudar o cenário vigente. Muitos professores têm sofrido e acostumaram a sofrerem, caindo num
ciclo de vícios ano após ano e a situação da educação se agravando e deteriorando-se.
Será que para situação atual da educação há solução? É preciso superar estes obstáculos
epistemológicos. Portanto, deve-se levar em conta que não adianta ser super otimista,
desconsiderando e descuidando nas determinações sociais atuantes. Partir diretamente para prática
sem analisar teoricamente os fatos é correr o risco de ser conduzido para o fracasso.
Ter postura pessimista, determinando que para a educação não haja mais solução e que se o
sistema não mudar não nada se resolverá ou melhorará, o resultado será o desânimo na prática
docente.
Enfim, o imobilismo é presente entre muitos professores. A mudança não é fácil, as
dificuldades surgirão, mas é necessário persistência.
Referências Bibliográficas
BRANDÃO, Carlos da Fonseca. LDB passo a passo: Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional, Lei n. 9.394/96, Comentada e Interpretada, Artigo por Artigo. 4. ed. ver. atual. São Paulo:
Avercamp, 2010.
BRASIL. Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação
nacional. Diário Oficial da União. Brasília, 23. dez. 1996. Seção 1, p. 27833-41.
OLIVEIRA, Pérsio Santos. Introdução à Sociologia. 24. ed. São Paulo: Ática, 2001.
VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Para onde vai o professor? Resgate do Professor como
Sujeito de Transformação. São Paulo: Libertad, 1995. (Coleção Subsídios Pedagógicos do Libertad;
v. 1).
RIBEIRO, Darcy. Nossa escola é uma calamidade. Rio de Janeiro: Salamandra, 1984.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 40. ed. São
Paulo: Paz e Terra, 2009.
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