Revista Brasileira de Arqueometria, Restauração e Conservação - ARC - Vol. 3 - Edição Especial
Curso de Introdução a Conservação e Restauro de Acervos Documentais - CICRAD - Trabalhos de fim de Curso
Copyright © 2011 AERPA Editora
Convênio AERPA - CFDD do Ministério da Justiça - no 748319/2010
A IMPORTÂNCIA DA CONSERVAÇÃO PREVENTIVA
FACE A PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE
Henrique Rocha Bedetti
CICRAD - Curso de Introdução à Conservação e Restauro de Acervos Documentais em Papel
Introdução
A máxima: antes conservar que restaurar, muito
utilizada no âmbito da conservação / restauração vale
também como um norteador, um alerta frente às
metodologias e práticas que visam a preservação de
acervos. Entende-se com a frase que a utilização de
métodos de conservação adequados a cada tipo de
acervo deve ser rigorosa para que se consiga prolongar
a longevidade do bem. Pois, quando uma obra é
submetida a intervenções de restauro – por mais
criteriosas que sejam – estamos comprometendo sua
durabilidade, uma vez que nesses procedimentos são
utilizados (em condições apropriadas) produtos
químicos de toda ordem, além de despenderem de
maiores recursos financeiros para seu sucesso e
conclusão.
No entanto outro ponto pouco discutido em relação
ao paralelo conservação preventiva versus restauração
são os impactos ambientais que podem surgir nos
procedimentos de restauro. Estreitando a problemática
para os acervos em papel a questão é ainda mais
delicada. Mais uma vez a máxima – inicialmente citada
– se faz pertinente, uma vez que a preocupação com a
proteção patrimonial vem crescendo no Brasil. A
conservação preventiva permite a longevidade dos
acervos, minimizando os impactos ao meio ambiente e
preservando os recursos naturais. Portando, as
instituições de proteção do patrimônio cultural públicas
ou privadas devem atuar de maneira eco-eficiente
buscando satisfazer suas necessidades, contribuindo
para a qualidade de vida, reduzindo a utilização de
recursos ao longo do tempo, gerenciando
(...) os processos de produção da forma mais eficiente
possível, com vistas a reduzir assim a geração de despejos
líquidos, emissões gasosas e resíduos sólidos (WBCSD 1,
2000)
Materiais e Métodos
Os procedimentos de restauração em acervos
bibliográficos são os que talvez causem impactos
maiores no meio ambiente. Dos banhos de limpeza ao
preparo da polpa de papel à secagem das folhas
reintegradas, uma quantidade considerável de produtos
químicos e água é utilizada, assim quanto maior o
acervo, maior consumo e maiores impactos no meio
ambiente.
Tal
preocupação
surgiu
de
experiências
profissionais vivenciadas no laboratório de restauração
do Arquivo Público Mineiro (A.P.M) em Belo
Horizonte entre 2007 e 2009. Vários procedimentos de
restauro foram realizados em acervos bibliográficos,
manuscritos, em sua maioria, do século XIX. Devido à
1
World Business Council for Sustainable Development
idade dos acervos, todos os tipos de degradação
comuns aos suportes em papel foram encontrados.
O trabalho consistia na realização de um
diagnóstico onde se relatava o estado de conservação
da obra, os problemas, e consequentemente, a solução,
visando interromper os processos de degradação.
Infestação por insetos xilófagos, perda de suporte,
amarelecimento dos fólios, oxidação da tinta
ferrogálica, degradação na costura dos códices
encadernados, eram os problemas comumente
encontrados. Listados os problemas, o objetivo era a
recuperação do material visando preservar sua vida
útil, respeitando as características originais da obra. No
entanto, na maioria dos procedimentos utilizavam-se
produtos químicos específicos para cada caso, dosados
através de cálculos e de acordo com o estado e as
características da obra. Do desmonte do códice,
passando pelos procedimentos até a nova encadernação
todas as informações referentes ao trabalho eram
registradas em fichas. Após o desmonte de
determinado códice dava-se início ao preenchimento
da ficha diagnóstico. Em seguida contabilizava-se a
quantidade de fólios e páginas da obra. Essa última
para controle do laboratório de restauração, escrevendo
suavemente com lápis 6B no canto da página para que
a planilha de cálculo de quantidade de polpa de papel
para uso na Máquina Obturadora de Papel (MOP)
pudesse ser preenchida.
Feito o desmonte da obra e de posse de todos os
dados necessários para a realização dos procedimentos
de restauro dava-se início ao trabalho através dos
banhos de limpeza, momento em que os produtos
químicos começavam a ser usados. A fim de se retirar
a maior quantidade de sujidade incrustada no papel
eram separados grupos de quatro em quatro fólios para
receber os primeiros banhos. Forrava-se o fundo de
uma cuba com uma tela de nylon (a mesma utilizada
para silkscreen) para receber o primeiro fólio,
sucessivamente os outros fólios eram colocados e
cobertos por outras telas de nylon. A solução do
primeiro banho era composta por água deionizada
aquecida a 40º e etanol absoluto (álcool etílico).
Cuidadosamente o conteúdo era despejado na cuba,
ficando sob imersão por 20 minutos, sendo levemente
agitada.
Administravam-se
outros
banhos
intermediários até que a condutividade da água (após
20 minutos) atingisse um valor próximo de +0,04 que é
o da água deionizada pura ou até que a solução ficasse
mais clara, ou seja, indicando a menor quantidade de
sujidade possível.
Em seguida os fólios eram imersos em um banho
que interrompia a oxidação da tinta ferrogálica. Para
este procedimento utilizava-se uma solução de fitato de
cálcio, composta por ácido fítico, bicarbonato de cálcio
– obtido através da mistura de dióxido de carbono
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(CO2), água deionizada e carbonato de cálcio sob
agitação contínua – e hidróxido de amônio. O banho
seguinte era para garantir uma reserva alcalina para os
fólios, através da imersão em uma solução de
bicarbonato de cálcio. Realizados estes procedimentos
os documentos estavam prontos para a obturação
mecânica (reinfibragem).
Para a reinfibragem, era preparada uma solução de
fibras de celulose – longas e curtas, sendo adicionada
uma pequena quantidade de fibra já pigmentada, afim
de imitar a cor original do documento restaurado –
previamente calculada para a especificidade de cada
fólio. Além da água deionizada e das fibras (em placas
ou tiras) também era adicionada uma solução de
carbonato de cálcio, para garantir uma reserva alcalina
às fibras e uma quantidade mínima de AKD, cola
utilizada na fabricação de papel que atua como
aglutinante das fibras conferindo maior resistência ao
produto final.
Na produção de papel (utilizado na obturação
mecânica) uma grande quantidade de água limpa é
consumida sem a possibilidade de reaproveitamento.
Essa água é jogada na rede de esgoto sem o cuidado
suficiente para a contenção dos elementos químicos
presentes na mistura.
Submetendo o fólio à máquina obturadora, todas as
áreas faltantes do documento são preenchidas
preservando sua resistência e longevidade. Repetindo o
procedimento em todos os fólios, o códice está pronto
para uma nova encadernação e em seguida disponível
para consulta.
Quando são feitas intervenções a fim de
interromper ações de fungos ou processos de
acidificação do suporte, por exemplo, também são
utilizadas soluções compostas por produtos químicos
diversos, e seu descarte inadequado acaba contribuindo
para a poluição dos rios. A restauração implica em
outros gastos consideráveis como o de energia elétrica
(no preparo mecânico de poupa e na reintegração
mecânica de folhas), além da liberação de gases inertes
na atmosfera após sua utilização em determinados
processos.
Portanto, deve-se buscar a excelência nos processos
de conservação preventiva. Controlando as áreas de
guarda de acervos quanto ao clima (temperatura e UR2)
através de sistemas eficientes e profissionais treinados
e, utilizando materiais de qualidade para o
acondicionamento das obras, sempre respeitando as
características de cada uma. Além da vigilância
constante do entorno dos locais de guarda com atenção
à vegetação e possíveis focos de infestações de insetos
que possam migrar para os locais de armazenamento.
são descartados sem o menor critério, quando o certo
seria proceder com cautela e
Resultados
O ponto comum entre todos os procedimentos
citados é quanto diz respeito ao descarte dos produtos
químicos e a grande quantidade de água utilizada nos
processos de restauro. Com a impossibilidade da
estocagem dos mesmos e com o desconhecimento de
técnicas e procedimentos adequados, esses produtos
Já os restauradores particulares, destinariam os
rejeitos às instituições públicas de proteção que em
seguida
encaminhariam
para
as
indústrias
responsáveis, que por sua vez, munida de técnicas e
equipamentos adequados dariam a destinação correta
aos dejetos.
2
Umidade Relativa.
(...) Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método
de proteção ambiental e, quando o conhecimento for
limitado, assumir uma postura de precaução. (Haia,
2000)
Enfim, percebe-se a carência de um plano de
proteção ambiental que abrange o descarte adequado
de produtos químicos e a economia de recursos.
Atualmente é inviável e irresponsável pensar de
maneira isolada. A partir do momento que uma ação
mal planejada gera um reação no meio ambiente as
instituições devem se preocupar com o descarte de seus
resíduos de forma cuidadosa, minimizando e evitando
os impactos ambientais.
Quando a restauração é a medida adequada ao
tratamento de determinado acervo, deve-se incluir no
projeto de trabalho a solução que será adotada quanto
ao manejo de produtos químicos. É importante que o
descarte dos rejeitos provenientes das intervenções
sejam dispensados de forma correta, protegendo além
do meio ambiente, os profissionais envolvidos no
trabalho. O documento “Carta da Terra” possui uma
passagem que sintetiza a questão em destaque ao
ressaltar que a
(...)vida muitas vezes envolve tensões entre valores
importantes. Isto pode significar escolhas difíceis.
Entretanto, necessitamos encontrar caminhos para
harmonizar a diversidade com a unidade, o exercício da
liberdade com o bem comum, objetivos de curto prazo
com metas de longo prazo. Todo indivíduo, família,
organização e comunidade tem um papel vital a
desempenhar. As artes, as ciências, as religiões, as
instituições educativas, os meios de comunicação, as
empresas, as organizações não-governamentais e os
governos são todos chamados a oferecer uma liderança
criativa. A parceria entre governo, sociedade civil e
empresas é essencial para uma governabilidade efetiva.
(Haia 2000)
Uma alternativa seria uma parceria público privada,
na qual as instituições públicas de proteção ao
patrimônio estimulariam através de incentivos fiscais, a
indústria papeleira e a de produtos químicos a
estabelecerem um compromisso sócio-ambiental,
recolhendo todo o rejeito proveniente do trabalho de
restauração que envolva produtos químicos uma vez
que a
(...) gestão ambiental nas empresas não pode mais
enfocar somente o controle local dos impactos ambientais
associados ao processo produtivo, mas, ser estendida a toda
a cadeia produtiva, desde matérias primas até o descarte e
disposição final dos produtos. (Piotto, 2003)
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Conclusões
Claro é, que sempre existirão acervos que
necessitam de intervenções de restauro, no entanto,
uma forma de reduzir tais impactos é potencializar as
ações de conservação preventiva e nos casos de
restauração, aplicar a mínima intervenção possível.
Não busco com esse artigo inutilizar ou inviabilizar
a restauração de acervos bibliográficos e sim destacar a
importância de se conservar ao invés de restaurar.
A preservação do ambiente em que vivemos deve
estar na pauta do debate da preservação do patrimônio
cultural. Deve estar presente nos projetos de trabalho,
nos editais das leis de incentivo à cultura, nos
seminários e congressos e nas academias. Através de
uma visão geral sobre todos os fatores envolvidos na
proteção do patrimônio cultural, uma postura ecoeficiente se faz importante para que as ações de hoje
não prejudiquem o patrimônio natural de amanhã.
Referências
(1) Cruz Souza, Luiz Antônio; Froner, Yacy-Ara.
Reconhecimento de materiais que compõem acervos.
(2) Piotto, Zeila Chittolina. Eco-eficiência na indústria de
celulose e papel. São Paulo, 2003. pp. 379 p.139 a 160
(3) Rossi Filho, Sérgio. Colagem alcalina. Disponível
em:
portaldasartesgraficas.com/ficheiros/29_e_30_colage
m_alcalina.pdf. Acesso em 19/06/2011.
(4) A. Verfaillie, Hendrik; Bidwell, Robin.
(5) Medir a eco-eficiência: um guia para comunicar o
desempenho da empresa Disponível em:
http://www.wbcsd.org/web/publications/measuringeco-efficiency-portugese.pdf . Acesso em: 24/07/2011
(6) Carta da Terra. Haia, 200. Disponível em:
http://www.cartadaterrabrasil.org/prt/text.html .
Acesso em: 24/07/2011
(7) Linha do tempo da iniciativa da Carta da Terra.
Haia, 2000. Disponível em:
http://www.cartadaterrabrasil.org/prt/history.html
Acesso em: 26/07/2011
(8) Buss, Diva Helena. Como fazer Papel Artesanal,
Tese de Mestrado, USP, 1991
(9) Spinelli Júnior, Jayme. A conservação de acervos
bibliográficos & documentais. Rio de Janeiro:
Fundação Biblioteca Nacional,
(10) Departamento de Processos Técnicos, 1997.
(11) Santos-Filho, Plínio; Oliveira de Queiroz,
Malthus; Andrade Reis, Carla; Malta Vigiano,
Demilson; Mota Silveira, Andréa; Campelo Cavalcanti,
Pedro; dos Santos Filho, Antônio; Décia Leônidas,
Euma. Preparação de polpa de papel - obturação e
velatura manuais. Revista Brasileira de Arqueometria,
Restauração e Conservação - ARC - Vol. 2 - Edição
Especial. Recife. 2011-07-29
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