DESCRIÇÃO SOCIOLINGUÍSTICA DAS FRONTEIRAS DE ARAL MOREIRA/BRASIL COM A MICRORREGIÃO DA CARDIA/PARAGUAY E PONTA PORÃ/BRASIL COM PEDRO JUAN CABALLERO/PARAGUAY Jefferson Machado Barbosa – PPG-UFGD – Bolsista Capes1 Maria Ceres Pereira – FACALE - UFGD2 RESUMO: O objetivo principal do artigo é apresentar breve descrição da situação sociolinguística de duas fronteiras situadas no sul do Estado de Mato Grosso do Sul, quais sejam: a fronteira de Aral Moreira/Brasil com a Cardia/Paraguai e a fronteira de Ponta Porã/Brasil com Pedro Juan Caballero/Paraguai. Os contextos focalizados no presente estudo têm sido classificados nas pesquisas de Cavalcanti (1999) e Pereira (1998) como cenários onde há expressiva complexidade sociolinguística, fruto, também, da diversidade étnica/cultural e linguística existente em tais localidades, que abriga povos oriundos de etnias brasileiras, paraguaias e indígenas de subgrupo étnico: Guarani Kaiowá e Guarani Nandeva. A partir dessa mescla cultural oriunda de etnias distintas, o estudo apresenta as particularidades existentes entre as fronteiras focalizadas que, apesar de serem relativamente próximas, são cenários singulares, “vivos”, híbridos e que se encontra em constante mudança, seja na superfície social ou linguística. A análise de dados foi realizada por meio da experiência de fronteira do presente autor, com base, principalmente, na pesquisa etnográfica realizada entre os meses de maio a novembro de 2013 (ERICKSON, 1984, 1990, 1992). Considerou-se, ainda, como recurso de leitura de dados os trabalhos correlatos que abordam, do ponto de vista sociolinguístico, as fronteiras em questão, sendo eles: BARBOSA (2012); DALINGHAUS (2009); FERNANDES (2012) e SILVA (2005). PALAVRAS-CHAVE: Fronteira; Estudo Etnográfico, Descrição Sociolinguística RESUMÉN: El objetivo de este artículo es presentar una breve descripción de la situación sociolingüística de dos fronteras ubicadas en el sur del estado de Mato Grosso do Sul , que son : el límite de Aral Moreira / Brasil con la frontera Cardia / Paraguay y Ponta Pora / Brasil con Peter Juan Caballero / Paraguay . Contextos Enfocados en este estudio se han clasificado en las encuestas Cavalcanti (1999) y Pereira (1998) como escenarios donde existe la sociolingüística complejidad significativas , también el resultado de la diversidad étnica / lingüística y cultural existente en tales lugares, el hogar de las personas procedentes de etnias de Brasil , Paraguay e indígena subgrupo étnico : kaiowá y Guarani Ñandeva . Desde este próximo mezcla cultural de los diferentes grupos étnicos , el estudio presenta las particularidades de los límites específicos que , a pesar de estar relativamente cerca , son híbridos , "vivo" escenarios naturales y que está en constante cambio , ya sea en la vida social o de la superficie la lingüística . Los datos fueron analizados utilizando la experiencia de la frontera de este autor , basada principalmente en la investigación etnográfica llevada a cabo entre los meses de mayonoviembre, 2013 ( Erickson, 1984 , 1990 , 1992 ) . Se consideró también como un recurso para la lectura 1 Mestrando em Letras da Faculdade de Comunicação, Artes e Letras – FACALE, da Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD. Área de concentração em Linguística e Transculturalidade. Bolsista CAPES. Email: [email protected] 2 Atualmente é Docente da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 1 de los datos de las obras conexas que se ocupan , el punto de vista sociolingüístico , los límites de que se trata , a saber : BARBOSA ( 2012 ); DALINGHAUS ( 2009 ); FERNANDES (2012) y Silva ( 2005 ) . PALABRAS - CLAVE : Frontier . Estudio Etnográfico ; Descripción Sociolingüística . INTRODUÇÃO Na contemporaneidade, dentro dos estudos sociolinguísticos, algumas pesquisas têm sido realizadas com intuito de mapear e descrever a real situação de contextos sociolinguísticamente complexo, ou seja, as fronteiras. Com base nas descrições de cunho sociolinguístico realizadas em pesquisas da área, surgiu à motivação de se apresentar e mapear, breve descrição da situação, nos moldes da sociolinguística, das fronteiras de Aral Moreira/Brasil com a Cardia/Paraguai e Ponta Porã/Brasil com Pedro Juan Caballero/Paraguai. A instalação in locos para a realização de pesquisa etnográfica foi realizada nos meses de maio a novembro de 2013, na cidade de Aral Moreira. Todavia, é imprescindível mencionar que o presente autor, na qualidade de pesquisador em formação, tem voltado seu olhar para as situações sociolinguísticas da fronteira de Aral Moreira/Brasil com a Cardia/Paraguai, cenário onde viveu desde a infância. Desse modo, pode-se afirmar que a etnografia tem sido parte de seu olhar investigador. Além da pesquisa de campo de caráter etnográfico, o estudo considera, ainda, trabalhos correlatos de estudiosos que descreveram a realidade sociolinguística dos contextos focalizados, quais sejam: a fronteira de Aral Moreira/Brasil com a Cardiai,/Paraguai, descrito por Barbosa (2012; 2013) e Ponta Porã/Brasil com Pedro Juan Caballeroii, descrito por Dalinghaus (2009), Fernandes (2012) e Silva (2005). O artigo está organizado da seguinte forma: No primeiro momento, apresenta-se breve reflexão bibliográfica de alguns conceitos de fronteira, do ponto de vista geográfico e político. Em seguida, aborda brevemente a fronteira de Aral Moreira/Brasil com a Cardia/Paraguai e a fronteira de Ponta Porã/Brasil com Pedro Juan Caballero/Paraguai. Por fim, apresenta-se a descrição da situação sociolinguística das regiões fronteiriças em estudo, com base, sobretudo, na tabela elaborada com o intuito de facilitar a visualização e leitura sociolinguística de aspectos similares e distintos das duas fronteiras focalizadas neste estudo. É importante destacar que foram selecionados apenas alguns aspectos para a abordagem sociolinguística descritiva de caráter comparativo das respectivas fronteiras, visto que não se tem a pretensão de um estudo exaustivo. A partir desse recorte, selecionamos os aspectos denominados neste estudo de fronteiriços (posição geográfica da fronteira), INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 2 linguísticos (línguas), educacionais (ensino) e culturais (dança, música e culinária), com o objetivo de ilustrar as particularidades, similares e distintas, das duas fronteiras em estudo. Certamente, não esgotamos o assunto, no entanto, procuramos apresentar um painel sociolinguístico descritivo inicial das fronteiras em questão. Convidamos para adentrar conosco neste universo ora brasileiro, ora paraguaio, ora híbrido. 1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE FRONTEIRA Tendo em vista os significativos avanços dos estudos científicos na contemporaneidade, principalmente na academia, evidentemente, o termo fronteira tem recebido vários conceitos dos estudiosos. Desse modo, é imprescindível apresentar, por meio de uma breve reflexão bibliográfica, alguns conceitos de fronteira. Do ponto de vista diacrônico, podemos observar que houve mudanças de significados quando o assunto se trata de fronteira. De acordo com o dicionário da língua portuguesa, a designação de fronteira é postulada da seguinte forma: “1. Extremidade de um país ou região do lado onde confina com o outro; limite, estremadura. 2. Extremo, fim, término. 3. Limite material de um sistema; separação entre um sistema e o seu exterior” (FERREIRA, 2004, p. 657. Grifos do autor). O dicionário contempla ainda, os vários tipos de fronteira, porém esse não é o foco de nossa discussão. Como se observa nesse contexto, a palavra fronteira possui sentido ligado à separação, divisão entre duas realidades. Já o dicionário de língua espanhola traz a seguinte definição a respeito de fronteira: “1. Límite entre dos Estados. 2. Límite o fin de algo. 3. Referido a um lugar, esp. A un país, que tiene frontera con otro” ( GONZÁLEZ, 2005, p. 597). Como se nota, o dicionário estrangeiro também aponta para a divisão, o limite, quando o assunto se trata de fronteira fronteira. Gomes (2010), por sua vez, afirma que muitas denominações são pontuadas a respeito do conceito de fronteira, mas, não se pode em nenhum momento esquecer de que este conceito não se limita apenas à superfície cartográfica. A autora nos lembra que o conceito de fronteira vai muito além da superfície geográfica, de divisão e limite, conforme se observa as designações dos dicionários consultados. Nessa perspectiva, na atualidade, diante do avanço de estudos sobre a designação de conceitos ao termo fronteira, segundo Gomes (2010), ao conceituar tal termo é fundamental levar em consideração aspectos sociais, culturais, econômicos, religiosos, simbólicos, políticos, linguísticos, dentre outros. INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 3 Com base na noção apresentada por Gomes (2010), partimos do pressuposto de que a ideia de fronteira não se limita ao aspecto político e geográfico, mas, sobretudo social. Dessa maneira, o estudo defende a tese de que toda fronteira é mesclada, misturada e está sujeita a conflitos sociais, linguísticos, identitários, religiosos, culturais, políticos, dentre outros. Assim, Gomes (2010, p.44), classifica a fronteira como o “Entre-lugar, lugar intervalar, terceiro espaço, espaço intersticial, caminho do meio, zona de contato ou de fronteira”. Com base nessa afirmação, o contato entre os dois lugares divididos pela linha do imaginário no plano cartográfico, configura-se numa terceira localidade, caracterizada nos termos de Inês Signorini como híbrida, sujeita a “conflitos”. Por fim, ao realizar um breve paralelo dos conceitos de fronteira postulados no dicionário de língua portuguesa, Ferreira (2004), de língua estrangeira, González (2005), além do conceito apresentado por Gomes (2010), observou-se que na designação dos dicionários, tem-se a ideia de divisão, de limite, de separação entre sistemas, porém, acreditamos como demonstra Gomes (2010) que a fronteira contém o limite, da ótica geográfica, mas extrapola o conceito inicial de separação, visto que o contato entre os povos de diferentes etnias gera, além da divisão imaginária de fronteira, outra localidade, a híbrida, caracterizada pela mistura, mescla e conflitos sociais, linguísticos, políticos, identitários, religiosos, dentre outros. 2. A FRONTEIRA DE ARAL MOREIRA/BRASIL COM A CARDIA/PARAGUAI A pequena cidade fronteiriça do interior de Mato Grosso do Sul, Aral Moreira/Brasil, possui uma população estimada a aproximadamente 10.251 habitantes, segundo censo2010 realizado pelo IBGE. Já o departamento da Cardia/Paraguai possui cerca de 200 famílias mescladas entre os povos brasileiros, paraguaios e indígenas (Guarani Kaiowa e Guarani Nandeva). A partir desse mosaico social e por meio do olhar investigativo que a pesquisa etnográfica proporciona, na fronteira em questão é comum ver as pessoas em rodas de tereréiii, conversando, normalmente, em frente as suas casas ou nas casas de amigos, bem como em locais públicos, como praças, ginásio Poli Esportivo, dentre outras localidades. Na maioria das vezes, encontramos essas famosas rodas de tereré no final da tarde, horário em que grande parte da população aralmoreirense/Brasil e cardinense/Paraguai encerra o expediente de trabalho O município de Aral Moreira/Brasil localiza-se na fronteira meridional de Mato Grosso do Sul e faz divisa seca com o Departamento da Cardia, situado na República do Paraguai. A cidade de Aral Moreira/Brasil possui cinco distritos, assim distribuídos: Vila Marques, Rio Verde, São Luís, Assentamento Santa Catarina e Posto Tají. Já a INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 4 Cardia/Paraguai não possui distritos, mas fazendas, uma vez que a agropecuária é o que move a economia da região de fronteira paraguaia. Para melhor visualização da localização da fronteira de Aral Moreira/Brasil com a Cardia/Paraguai, veja o mapa a seguir: Figura 01. Mapa que contempla Aral Moreira/Brasil e Cardia/Paraguai República do Paraguai Cardia Fonte: Sítio Aralmoreiranews.com. br. O mapa, por sua vez, contempla a ilustração cartográfica do território de Aral Moreira/Brasil e Cardia/Paraguai que, segundo Resende (2012, p. 01), “é de aproximadamente 1.656,19 km², representando 0,46% do Estado, 0,10 % da Região e 0,02 % de todo o território brasileiro”. De acordo com o IBGE, “a cidade fica aproximadamente a 1.382 km da capital federal, Brasília - DF e 367 km da capital estadual, Campo Grande – MS”. No que diz respeito ao clima de Aral Moreira, Barbosa (2012, p. 20 apud Sampaio, 2006, p. 209), afirma que o “Clima Tropical Úmido, com um a três meses secos. O total médio anual de pluviosidade é de 1.600 mm, com as chuvas concentradas no período de setembro a abril”. Em outras palavras, graças à sua localização, na fronteira Aral Moreira/Brasil com a Cardia/Paraguai, o clima é tropical e há duas estações bem definidas, sendo elas: inverno seco e verão chuvoso. Dessa maneira, o clima dessa região em estudo é distinto da maior parte do Estado de Mato Grosso do Sul, tornando-se possível a qualquer viajante perceber a diferença na temperatura, que no inverno, fica coberto por intensa neblina, o que torna difícil a visibilidade dos motoristas, exigindo destes, maior cuidado no trânsito para evitar acidentes. A região fronteiriça é movida economicamente pela agricultura e pecuária, tanto no lado brasileiro, como no lado paraguaio. A vida em Aral Moreira/Brasil e Cardia/Paraguai, de fato, é muito peculiar. Silva afirma que: A região desenvolve as atividades de pecuária e agricultura. No caso da INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 5 pecuária, o rebanho componente do Município de Aral Moreira é composto de gado de leite e de corte, destacando entre o rebanho bovino as raças de: Giro Nelore e Holandês, motivado pelo excelente clima e as propicias pastagens existentes na região. (2007, p. 20-1). Pode-se afirmar, portanto, que grande parte da economia da fronteira de Aral Moreira/Brasil com a Cardia/Paraguai é movida pelas atividades desenvolvidas na área rural, através da criação de gados. A partir do fluxo intenso de criação de gado, criaramse eventos realizados anualmente, como pontua Barbosa (2012, p. 22-3) “leilões de gados doados por brasileiros, moradores da cidade, que possuem sua criação em fazendas localizadas no Paraguai”. Com base na afirmação de Barbosa (2012) e por meio da pesquisa etnográfica realizada, percebe-se que, a maior parte de criação de gado é realizada no departamento da Cardia/Paraguai, mas, é oportuno mencionar que os proprietários das fazendas localizadas no Paraguai são brasileiros e brasiguaios, que residem ora em Aral Moreira/Brasil ora na Cardia/Paraguai. Assim, pode-se afirmar que não há divisão concisa nessa fronteira quanto ao aspecto econômico, posto que haja mistura de paraguaios e brasileiros que atuam no setor agropecuário local. Evidentemente, a vida na fronteira de Aral Moreira/Brasil com a Cardia/Paraguai é bastante singular, pois apesar da existência de uma divisão geográfica e política entre os dois países, Brasil e Paraguai, não há, como mencionado no início da discussão há outro espaço de fronteira, híbrido, misturado, que se instaura na mescla social, cultural, linguística, dente outras; gerada a partir do “ir” e “vir” diário que a condição de fronteira territorial seca possibilita aos habitantes de tal localidade. As populações aralmoreirense/Brasil e cardinense/Paraguai são formadas por uma considerável variedade étnica, o que resulta no “conflito” e/ou “contato” cultural, linguístico, religioso, dentre outros; construídos nas relações sociais. Dessa forma, a união dos habitantes oriundos de diferentes etnias, brasileira, paraguaia e indígena (Guarani Kaiowá e Guarani Nandeva) merece destaque, visto que costumes e hábitos se misturam nas interações sociais, seja na dança (vanerão, katchaka, chamamé, polca, catira), na bebida (, chimarrão), na culinária (sopa paraguaia e chipa), na música (boleros e polca paraguaia) que já chegaram a outros Estados do Brasil, como Mato Grosso, na língua (português, guarani, castelhano, espanhol, bem como nas interlínguas portunhol e jopará), dentre outros aspectos não descritos por conta do recorte delimitado para a discussão proposta. Dessa maneira, pode-se afirmar, ainda, a existência de intercâmbio sociolinguístico e cultural entre os dois países, Brasil e Paraguai, por se tratar de uma fronteira seca, isto é, uma estrada designada de linha de limite internacional que separa, no aspecto político e geográfico, a cidade de Aral Moreira/Brasil e o departamento da Cardia/Paraguai. O INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 6 resultado dessa miscigenação cultural gera um contexto instável, vivo, que por sua vez, pode ser classificado como hibrido. (ora brasileiro, ora paraguaio, ora hibrido). Atualmente, de acordo com Barbosa (2012, p.24) que retrata os aspectos educacionais dessa região em sua pesquisa, a cidade conta com três escolas estaduais, sendo uma delas no distrito de Vila Marques e, quatro escolas municipais, distribuídas entre os distritos de São Luís, Rio Verde do Sul e Vila Marques, além de contar com uma escola indígena, localizada na aldeia Guassutyiv. A cidade de Aral Moreira/Brasil possui, ainda, um Pólo da UNIGRANv, local em que parte da população aralmoreirense/Brasil e cardinense/Paraguai gradua o ensino superior à distância. Outro ponto que chama atenção, a partir do olhar investigativo de base etnográfica, é o fato de que a região ainda não possui instituição de ensino regular privada e, tampouco existir escolas no lado paraguaio, nas proximidades da Cardia/Paraguai. A ausência de escola no lado paraguaio faz com que os alunos da Cardia/Paraguai se locomovam até as escolas brasileiras, situadas em Aral Moreira/Brasil. Desse modo, pode-se afirmar que existe uma clientela de alunos bastante diversos. A partir do olhar etnográfico se observa a presença significativa de alunos paraguaios e indígenas de etnia guarani nandeva e guarani kaiowa, geralmente oriundos de regiões rurais, situadas nas proximidades da Cardia/Paraguai, nas escolas brasileiras de Aral Moreira/Brasil. Essa mescla de alunos brasileiros, paraguaios e indígenas (Guarani kaiowa e Guarani nandeva), observada durante a experiência de fronteira etnográfica, nas escolas de Aral Moreira/Brasil com a Cardia/Paraguai possibilita afirmar que esse cenário é palco que ilustra a complexidade social, cultural, identitária, linguística, dentre outras. Até hoje, não há constatação de projeto de qualificação aos professores que atuam nas escolas Aral Moreira/Brasil e recebem alunos da Cardia/Paraguai. Embora seja fundamental uma educação intercultural diferenciada a tal contexto classificado por Cavalcanti (1999) e Pereira (2002) como “sociolinguisticamente complexo”. Os professores da fronteira entre Aral Moreira/Brasil e Cardia/Paraguai, em especial de escolas “brasileiras”, fazem o possível para tentar dominar as línguas indígenas do subgrupo de etnia Guarani Nandeva e Guarani kaiowa, as línguas dos paraguaios (e brasiguaios), além da língua portuguesa dos brasileiros. Esse traço linguístico nos levar a afirmar que o contexto em questão é no mínimo, bilíngue. Além disso, é importante mencionar um traço característico dessa região que está na forte presença de hortaliças e pomares frutíferos nas residências dos indivíduos que habitam a fronteira de Aral Moreira/Brasil com a Cardia/Paraguai. Nas casas residenciais encontram-se pequenas hortas, na maioria das vezes, no fundo dos terrenos, INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 7 com a presença do famoso cheiro verdevi, utilizado para temperar a comida diária e fazer remédios caseiros, em prol da saúde e bem estar da população do município. Não só as hortaliças, mas também se detectam nessa região, os pomares frutíferos, utilizados para fazer sucos naturais e xaropes. Essa tradição do cultivo de hortaliças, segundo Barbosa (2012) é herdada da tradição de benzedeiras paraguaias que residem nas proximidades da Cardia/Paraguai. A região equivalente a fronteira seca de Aral Moreira/Brasil com a Cardia/Paraguai permite o intercâmbio entre a população brasileira, paraguaia e indígena (Guarani Nandeva e Guarani kaiowá). Portanto, a partir do olhar investigativo que a etnografia nos proporciona, na região em estudo é comum ver brasileiros trabalhando na zona rural, localizada no país vizinho, Paraguai. Assim, como também é natural observar paraguaios trabalhando no lado brasileiro, principalmente, em comércios, o que resulta na mistura de países, povos, culturas, línguas e ideologias que tornam essa localidade hibrida e instável. 3. A FRONTEIRA DE CABALLERO/PARAGUAI PONTA PORÃ/BRASIL COM PEDRO JUAN A cidade de Ponta Porã/Brasil, localiza-se ao Sul do Estado de Mato Grosso do Sul e faz divisa seca com o Departamento de Pedro Juan Caballero/Paraguai. Essa fronteira seca abriga duas cidades, separadas por uma linha de limite internacional de aproximadamente 13 km, o que possibilita classificar tal localidade como um contexto que abriga “cidade gêmea”, e, consequentemente como um cenário “sociolinguísticamente complexo”, devido à miscigenação existente entre povos e culturas distintas. Em relação à sua localização, Silva (2005, p. 13 apud QUINCAS, 2003, p. 56) ressalta que: O município de Ponta Porã está situado numa altitude média de 665m acima do nível do mar. Localiza-se sobre a Serra de Maracajú ao sul do Estado de Mato Grosso do Sul, cerca de 341 km distantes da Capital do Estado, pertencendo à micro região de Dourados. Ponta Porã possui dois Distritos, Sanga Puitã a 15 km de distância, com uma população de aproximadamente 2956 habitantes, segundo dados do IBGE 2000 e Cabeceira do Apa, cerca de 65 km de distância com aproximadamente 1345 habitantes conforme IBGE 2000. Silva (2005, p. 12-3), por sua vez, afirma que a cidade de Ponta Porã/Brasil é conhecida como Princesinha dos Ervais, devido ao título dado em homenagem à sua história e criação. O autor ainda nos lembra que o desbravamento histórico de Ponta Porã/Brasil INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 8 está intrinsecamente ligado ao de Pedro Juan Caballero, uma vez que a exploração da Erva-Mate produziu impulso ao progresso de ambos os países. (Brasil e República do Paraguai). Curiosamente, Barbosa (2012, p. 17-8), em seu estudo histórico sobre a fronteira de Aral Moreira/Brasil com a Cardia/Paraguai, afirma que o desbravamento dessa região se iniciou pelo distrito de Rio Verde do Sul, com as ranchadas de Thomas Laranjeira cujo objetivo principal era a exploração de Erva-Mate. Semelhante a fronteira de Ponta Porã/Brasil com Pedro Juan Caballero/Paraguai, aquela também se desenvolveu a partir do Ciclo de Erva-Mate que durou cerca de 60 anos. Portanto, pode-se afirmar, também, que como ponto similiar ambos os contextos tiveram o progresso a partir do ciclo ervateiro, considerado marco histórico para o desenvolvimento de ambas as fronteiras. A título de exemplificação, a seguir é apresentado à figura 02, foto que ilustra a divisa da linha de limite internacional de Ponta Porã/Brasil com Pedro Juan Caballero/Paraguai. Figura 02. Entrada de Ponta Porã/Brasil e Pedro Juan Caballero/Paraguai Fonte: Jefferson Machado Barbosa. Com base em dados do censo de 2000, nota-se que atualmente o município de Ponta Porã/Brasil é o quinto maior em número de habitantes no Estado de Mato Grosso do Sul, com uma população de aproximadamente 61.000 habitantes, e apresentando um crescimento anual de 1,04%, de acordo com dados do IBGE 2000. Já Pedro Juan Caballero/Paraguai, conforme o censo realizado em 2002, pelo Departamento de estatística da região, citado por Silva (2005), possui uma população de aproximadamente 100 mil habitantes. A partir de tais dados estatísticos, observa-se INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 9 maior índice populacional na região que corresponde, atualmente, o distrito de Pedro Juan Caballero/Paraguai. É evidente a mescla de povos, por se tratar de uma faixa de fronteira seca, e, consequentemente a mistura cultural, religiosa, linguística, social, ideológica, dentre outras. Silva (2005) nos lembra que a população Ponta Poranense/Brasil é formada por uma miscigenação de brasileiros, índios de etnia Guarani Terena, Guarani kaiowa e Guarani Ñandeva (além de outros subgrupos indígenas não mapeados) e espanhóis. A instalação de povos oriundos de etnias distintas na região equivalente ao atual município de Ponta Porã/Brasil com Pedro Juan Caballero/Paraguai iniciou após a Guerra do Paraguai ou da Tríplice Aliança. Nos anos seguintes, entre 1893 a 1895, chegou à região de Ponta Porã/Brasil e Pedro Juan Caballero/Paraguai a corrente migratória gaúcha do Rio Grande do Sul. No início do século XX, chegaram os imigrantes estrangeiros, sendo eles: árabes, argentinos, italianos, asiáticos, como a chegada também de outros povos, vindos de outros estados do Brasil como os: paranaenses, nordestinos (Pernambucanos), mineiros e paulistas. (GORIS, 1999, p. 193). Desse modo, pode-se afirmar que o desenvolvimento da fronteira de Ponta Porã/Brasil com Pedro Juan Caballero/Paraguai contou com a contribuição de povos oriundos de outros estados do Brasil, trazendo consigo sua identidade (em constante construção), comportamentos, hábitos, costumes e dentre outros aspectos, genuinamente, culturais. Tendo em vista essa miscigenação populacional e cultural, evidencia-se, principalmente pelo olhar de investigador etnográfico o intercâmbio, diário, dos indivíduos que habitam esta fronteira, seja no setor educacional, comercial, religioso, enfim, em várias circunstâncias. 4. DESCRIÇÃO DA REALIDADE SOCIOLINGUÍSTICA DAS FRONTEIRAS DE ARAL MOREIRA/BRASIL COM A CARDIA/PARAGUAI E PONTA PORÃ/BRASIL COM PEDRO JUAN CABALLERO/PARAGUAI Este tópico tem como finalidade descrever, por meio de breve análise comparativa, a realidade sociolinguística das duas fronteiras focalizadas no estudo. Para melhor compreensão optamos por elaborar um quadro com aspectos distintos e similares das fronteiras, a partir da base bibliográfica e da experiência de fronteira do presente autor com base metodológica na etnografia proposta por Frederick Erickson. (1984, 1990, 1992). INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 10 Tabela 01 – Descrição das fronteiras. (Grifos do autor). ARAL MOREIRA/BR – Aspetos Fronteiriços CARDIA/PY PONTA PORÃ/BR – PEDRO JUAN CABALLERO/PY Região de fronteira seca sem comércio Região de fronteira seca com comércio Línguísticos Português; Portunhol; Castelhano; Guarani; Jopará; Línguas de imigrantes; Línguas de povos minoritários Educacionais Brasil: 03 Redes Estaduais; 05 Redes Municipais Português; Portunhol; Castelhano; Guarani; Jopará; Espanhol; Jôpará; Línguas de imigrantes; Línguas de povos minoritários Brasil: 42 Instituições de Ensino; 02 Universidades e 04 Faculdades. Culturais Paraguai: Não existem escolas e faculdades próximas a Aral Moreira. Dança: Vanerão; Funk; katchaka; Chamamé Paraguai: 31 Instituições de Ensino e 15 universidades. Dança: Vanerão; Funk; Eletrônica; Polca; Katchaka, Bolero; Tango; Chopin; Chamamé. Culinária: Pucheiro; Guisado ou Vaca atolada; Sopa paraguaia; Chipa; Churrasco; Arroz de carreteiro; Macarrão. Culinária: Pucheiro; Sopa paraguaia; Chipa; Tortilha; Vori-Vori; Churrasco; Arroz de carreteiro; Tortilha; Bife marinheira; Macarrão. Bebida: Tereré; Chimarrão; Chicha. Bebida: Tereré; Chimarrão; Chicha. A partir da tabela 01, que ilustra a descrição de similaridades e algumas dissemelhanças entre as fronteiras de Aral Moreira/Brasil com a Cardia/Paraguai e Ponta Porã/Brasil com Pedro Juan Caballero/Paraguai percebe-se, a partir de aspectos fronteiriços apresentados na tabela acima, que aquela tem um limite territorial seco, sem obstáculos, com a presença de cidade só no lado brasileiro e, consequentemente com comércios que movem a economia da região. Enquanto que na região que corresponde à República do Paraguai (Cardia) não há a presença de cidade, apenas fazendas cujos proprietários são paraguaios, brasileiros e brasiguaios, logo, não há evidencia de comércios (mercados, açougues, mercearias, padarias, farmácias, dentre outros). Ainda com base nos aspectos fronteiriços, nota-se que a fronteira de Ponta Porã/Brasil com Pedro Juan Caballero/Paraguai possui cidades dos dois lados na faixa de fronteira, o que resulta em afirmar que há uma situação geográfica de “cidades gêmeas”. Ou seja, quando há na faixa de fronteira entre dois países, cidades, que são divididas apenas com a linha divisória internacional. Diante dessa situação geográfica, é importante mencionar a presença de comércios em ambos os países que corresponde tal fronteira. Todavia, diferentemente da realidade da fronteira exposta anteriormente, o que move a economia dessa fronteira é o comércio paraguaio, por conta de preços acessíveis. INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 11 Do ponto de vista do olhar etnográfico, observa-se que a fronteira de Ponta Porã/Brasil com Pedro Juan Caballero/Paraguai possui um reconhecimento explícito de divisa entre os países (Brasil e Paraguai), passando a ideia de que a região abriga dois países com identidades e culturas bem definidas. A título dessa exemplificação é nítida a presença de bandeiras na entrada de tal localidade. (Conforme pode ser observado na Figura 2), bem como em uniformes escolas, com intuito de diferenciar alunos brasileiros e paraguaios. Já a fronteira de Aral Moreira/Brasil com a Cardia/Paraguai não há esse reconhecimento explícito, mas, cabe destacar que, diferentemente da fronteira exposta acima, nessa fronteira existe o reconhecimento muito forte das culturas brasileiras e paraguaias, um exemplo claro é a Praça das Cuiasvii, praça que possui a presença de objetos como: cuia, bomba, que simbolizam o tereré e o chimarrão, bebidas típicas da região, o tereré herdado da influência paraguaia e o chimarrão dos imigrantes gaúchos. Indubitavelmente, os povos de ambas as fronteiras focalizadas no presente estudo estão diante de duas realidades totalmente diferentes, Aral Moreira/Brasil com a Cardia/Paraguai, marcada por uma fronteira seca, com fazendas do lado paraguaio, tendo como proprietários, os brasileiros, paraguaios e brasiguaios. Enquanto que a fronteira de Ponta Porã/Brasil com Pedro Juan Caballero/Paraguai, movida pelo comércio, principalmente pelo Shopping Chinaviii, que atrai milhares de turistas pelo acessível preço, no que se referem a aparelhos eletrodomésticos, eletrônicos, perfumes e vinhos importados, dentre outros. Conforme consta exposto na Tabela 01, no que se refere aos aspectos linguísticos, as línguas que estão em constante contato na fronteira de Ponta Porã/Brasil com Pedro Juan Caballero/Paraguai são “o português, o espanhol e o guarani, mas também as línguas das minorias dos imigrantes, que residem na fronteira do Brasil com o Paraguai, como de japoneses, de libaneses, de coreanos, de alemães, de árabes”, (FERNANDES, 2012, p. 185-6). Além disso, as línguas de grupos minoritários que mantêm sua língua materna em uso, em manutenção, como por exemplo, a população indígena Guarani Kaiowa, Guarani Terena e Guarani Ñandeva. A respeito do contato entre as línguas na fronteira de Ponta Porã/Brasil com Pedro Juan Caballero/Paraguai, Silva (2005, p.28-9), por sua vez, procurou verificar em seu estudo, o contexto sociolinguístico e educacional dessa fronteira, assim, observou-se que no cenário escolar há a evidencia de “uma situação de plurilinguismo”. (SILVA, 2005, p. 81). Tendo em vista tal investigação, pode-se afirmar uma realidade sociolinguística plurilíngue nessa fronteira que evidencia a existência de interlínguas, como o portunhol (mistura do português com o espanhol) e o jopará (mistura do guarani com o espanhol). Para Dalinghaus (2009, p.100): INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 12 Nesse cenário fronteiriço, o português disputa espaço com o espanhol e o guarani, línguas oficiais do país vizinho, o Paraguai. Além destas, uma espécie de língua franca se instala, o portunhol, uma mescla do português com o espanhol, que não é a língua do imigrante, tampouco a do nativo, mas é bastante utilizada na modalidade oral. Trata-se de um dialeto fronteiriço que aparece paralelamente ao jopará, mistura do guarani e espanhol. Nessa perspectiva, por se tratar de uma zona de fronteira, estão em contato, pelo menos quatro línguas: português, castelhano, espanhol e guarani. A língua portuguesa é a língua oficial falada em todo território brasileiro (Ponta Porã e Aral Moreira), já o espanhol e o guarani são línguas oficiais faladas no Paraguai (Pedro Juan Caballero e Cardia), este último país possui duas línguas, por se tratar, oficialmente, de uma nação bilíngue. Dalinghaus (2009) lembra-nos, porém, da língua franca, o portunhol, que é a mistura do português com espanhol. Cabe destacar ainda que, a autora não específica se a mescla do português com o espanhol, resultado do portunhol, são interlínguas classificadas como majoritárias ou minoritáriasix. A não especificidade da interlíngua, segundo sua posição social (majoritária ou minoritária), acontece também com o Jôpará, que segundo a autora, é fruto da mistura do guarani com o espanhol. Diante dessa realidade de pluralidade linguística, constata-se que o cenário educacional em ambas as fronteiras é desafiador para o docente. Entretanto, Fernandes (2012) retrata em seu estudo denominado Proyecto Escuela Bilingue de Frontera: Brembatti Calvoso/Brasil y Escuela nº 290 Defensores del Chaco/Paraguayx, uma proposta de intercâmbio entre ambas as escolas de nacionalidades diferentes (Brasil e Paraguai), o famoso cruce (intercâmbio de professores brasileiros e paraguaios entre as escolas da fronteira) reconhecendo, sobretudo, a presença de um “balaio de línguas” dentro do âmbito escolar, visto que as escolas brasileiras atendem muitos alunos paraguaios, os motivos são vários. Silva (2005, p. 25) nos mostra que um dos motivos dessa preferência está “na questão de convivências”. Além da aceitabilidade no mercado de trabalho do lado brasileiro. Como se nota, ainda, na tabela 01, de acordo com Barbosa (2012, p. 24), em termos educacionais, a fronteira de Aral Moreira/Brasil com a Cardia/Paraguai possui, atualmente, três instituições de ensino da rede estadual, sendo que, uma dessas escolas fica situada na zona rural, mais especificamente, no distrito de Vila Marques. Há ainda, cinco escolas municipais, assim distribuídas: Vila Marques, São Luís, Rio Verde, Assentamento Santa Catarina e Aldeia Guassuty. A fronteira da Cardia/Paraguai possui apenas o destacamento da Força Nacional do Paraguai. Nesse sentido, não há escolas rurais, visto que a predominância nessa fronteira é de fazendas. É interessante frisar que a maior parte de proprietários das INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 13 fazendas paraguaias são brasileiros residentes em Aral Moreira/Brasil, caracterizados como brasiguaiosxi, por possuírem documentação brasileira e paraguaia. Já na fronteira de Ponta Porã/Brasil com Pedro Juan Caballero/Paraguai, segundo Dalinghaus (2009, p. 100), esse contexto é “rico e peculiar em situações de bilinguismo encontrado na Escola Brasiguaia”. A autora ainda afirma que nessa fronteira as escolas possuem como língua de ensino, o português. Desse modo, a língua espanhola tem pouco espaço, sendo ofertada apenas na modalidade facultativa, como língua estrangeira. Quanto ao guarani, não faz parte da grade curricular das escolas brasiguaias de Ponta Porã/Brasil, porém, aparece em situações informais, conversas no pátio e, às vezes, quando o professor não percebe, esse diálogo aparece em situações dentro da sala de aula. Ao observar a tabela 01, conforme Silva (2005, p. 24), nota-se que a fronteira de Ponta Porã/Brasil possui 42 instituições de ensino distribuídas em dezenove escolas municipais na zona urbana e três centros de educação infantil. Na zona rural, há oito escolas pólos com cinco extensões. Já a rede estadual de ensino é composta por onze escolas, oito na zona urbana, uma no distrito de Sanga Puitãxii e duas na área rural, duas localizadas nas proximidades de Itamaratixiii. A rede particular de ensino é composta por oito escolas. No que se refere ao ensino superior, há duas (2) universidades públicas, UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) e UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e quatro (4) faculdades, IFMS (Instituto Federal de Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul), FAP (Faculdade de Ciências Administrativas de Ponta Porã), FIP/MAGSUL (Faculdades Integradas de Ponta Porã; Faculdade de Educação, Ciências e Letras de Ponta Porã), ANHANGUERA/UNIDERP. (Universidade privada Anhanguera/Uniderp). Já Pedro Juan Caballero/Paraguai conta com aproximadamente trinta e uma instituições de ensino e quinze (15) universidades. De acordo com Dalinghaus (2009), nessa região, as escolas brasiguaias são bastante procuradas por indivíduos que residem no país vizinho, porém, quando se trata de ensino superior em Medicina, observa-se que os alunos de Ponta Porã/Brasil, Aral Moreira/Brasil, Amambai/Brasil e demais cidades brasileiras próximas, procuram por universidades em Pedro Juan Caballero/Paraguai, um dos vários motivos, é a busca por preços acessíveis com relação ao curso, principalmente, os cursos de Medicina e Direito. A partir de nossa experiência de fronteira embasada na etnografia, nota-se que a faculdade médica mais procurada pelos fronteiriços de Aral Moreira/Brasil com a Cardia/Paraguai e Ponta Porã/Brasil com Pedro Juan Caballero/Paraguai tem sido a Universidade Del Pacífico – UP, situada no Departamento de Amambay. INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 14 Diante dessas realidades de fronteira, o que podemos dizer dos aspectos culturais? Como explicar o prazer de tomar um tereré ou comer uma chipa paraguaia? Não são apenas os paraguaios que gostam desta culinária. E quanto aos ritmos musicais? Quem não gosta de dançar katchaka, polca, vanerão ou sarandeiro? Como se nota no cotidiano de sujeitos radicados nas fronteiras focalizadas, o gosto pela culinária, pela dança ou pela música é comum entre os três povos que habitam as fronteiras focalizadas na discussão. (brasileiros paraguaios e indígenas de etnias Guarani Kaiowa, Terena e Ñandeva). A comunicação entre a cidade de Aral Moreira/Brasil com o país vizinho Paraguai (Cardia) se faz diariamente com o trânsito de indivíduos ou de veículos por suas ruas interligadas, ou através das emissoras de rádio e jornais que circulam, levando informação aos habitantes locais, uma interação e convivência como se fosse uma única cidade, o mesmo acontece com a fronteira de Ponta Porã/Brasil com Pedro Juan Caballero/Paraguai. Fernandes (2005, p. 185) pondera que atravessar a fronteira é “para nós aqui apenas atravessar a rua, não podemos esperar que deixe do outro lado sua cultura, seus costumes, sua língua materna, enfim sua identidade”. Desse modo, qualquer turista ou até mesmo moradores de ambas as fronteiras focalizadas na discussão poderá observar a cultura brasileira, paraguaia, indígena (Guarani kaiowa, Terena ou Nandeva), de imigrantes, de povos considerados minoritários (sem prestígio social e político), atravessando a fronteira diariamente, por diversos motivos, necessidade de comunicação, comércio, emprego, ensino, dentre outros. CONSIDERAÇÕES FINAIS No presente artigo, pode-se notar que apesar de ambas as cidades brasileiras possuírem como sinônimo a palavra fronteira, observa-se que possuem pontos em comuns, como por exemplo, a existência de várias línguas, principalmente, no universo educacional e, aspectos diferentes, como por exemplo, a fronteira de Aral Moreira não possui comércio do lado paraguaio, enquanto que a fronteira de Ponta Porã é movida constantemente pelo comércio paraguaio. Estamos diante de duas fronteiras que apresentam particularidades políticas, ideológicas, sociais, culturais, educacionais, dentre outras. No entanto, não se pode esquecer, como frisa Gomes (2010), que o conceito de fronteira(s) extrapola o plano cartográfico. Talvez essa mentalidade seja fruto da diferença na arquitetura de ambos os países (Brasil e Paraguai). No lado paraguaio podemos encontrar residências de madeira e sapé que exemplificam a tradição cultural de um povo, porém ao mesmo tempo se encontram prédios sofisticados, com arquitetura moderna. No entanto, uma arquitetura diferente da brasileira, cada país desenhando a sua história, com mestiçagem do “outro”. INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 15 Por fim, não limitamos o assunto, certamente, essas fronteiras têm muitos aspectos a serem explorados ainda, mas com o presente estudo, tentamos expandir as relações existentes nesse rico universo, ora brasileiro, ora paraguaio, ora híbrido. REFERÊNCIAS: BARBOSA, J. M. Curandeirismo: Uma Abordagem Sociolinguística da Linguagem de Curandeiros Paraguaios Radicados na Fronteira Meridional de Mato Grosso do Sul. Dourados: UEMS, 2012. 75f. TCC: Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Letras). ERICKSON, F. Qualitative Methods in Research on Teaching. M. C. Wittrock. Handbook of Research on Teaching, 3, Nova York: Macmillan Publishing Company. 1990, p. 119-158. _____________ Ethnographic Microanalysis of lnteraction. M. Le Compte, J. Goetz et al i. The Handbook of Qualitative Research in Education. Nova York: Academic Press. 1992. p.202-225. ______________ What Makes School Etnography 'Etnographic'? Antropology and Education Quartely, 1984. p.51-55. DALINGHAUS, I. V. Os reflexos da falta de Políticas Linguísticas em contextos fronteiriços do Mato Grosso do Sul. Disponível em: <http://e revista.unioeste.br/index.php/linguaseletras/article/viewArticle/2252>. Acesso em 18 de jun. 2013. FERNANDES, E. A. A. Proyecto Escuela Bilingüe de Frontera Brembatti Calvoso/Brasil y Escuela nº 290 Defensores dol Chaco/Paraguay. In: PEREIRA, M. C. (Org). Bilinguismo Discurso e Política Lingüística. Cuiabá: Ed. De Liz, Universidade Federal da Grande Dourados, 2012. p.177-195. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. Curitiba: Positivo, 2004. p. 657. GOMES, S. T. EU, TU, ELE...NÓS OUTROS: fronteiras, diálogos e novas identidades. Disponível em: <http://www.cptl.ufms.br/geo/revistageo/Revista/revista12/Nova%20pasta/2.pdf>. Acesso em 18 de jun. 2013. GONZÁLEZ, C. M. Diccionario de Español para extranjeros. Madrid: Smee, 2005, p. 597. GORIS, F. A. J. Descobriendo la frontera: Historia, Sociedad y Política en Pedro Juan Caballero. Pedro Juan: Impag, 1999. p. 193. INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 16 IBGE. Censo Demográfico 2000. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br>. Acesso em 18 de jun. 2013. PEREIRA, M. C. A escola em contexto sociolinguisticamente complexo e o apagamento das minorias étnico-linguísticas na perspectiva do letramento. Disponível em: <http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=68450105>. Acesso em 18 de jun. 2013. RESENDE, G. Aral Moreira. Disponível em <http://www.geraldoresende.com.br/municipios/aral-moreira>. Acesso em 18 de jun. 2013. SILVA, L. A. A formação do município de Aral Moreira/MS: Um estudo de caso. Ponta Porã: FIP, 2007. 45 f. TCC: Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Geografia). SILVA, F.A. O Contexto Sociolinguístico e Educacional em Ponta Porã, fronteira do Brasil com Paraguai. Dourados, 2005, 84f. Monografia (Especialização em Letras: Área: Variação Linguística). i Espécie de Destacamento Militar que contém um aglomerado pequeno de casas, localizado no Paraguai. Fica aproximadamente 8 km de Aral Moreira-MS. A cardia possui como capital Pedro Juan Caballero que é departamento de Amambay no Paraguay. ii Pedro Juan Caballero é a capital do Departamento de Amambay, no Paraguay. iii Bebida feita com a infusão da erva-mate consumida com água, limão, hortelã, entre outros. Diferentemente do chimarrão que é feito com água quente, o tereré é consumido com água fria, resultando em uma bebida agradável e refrescante. iv Fundada, oficialmente, em 1992, residem na aldeia Guassuty, índios de etnia Guarani Kaiowa. v Centro Universitário da Grande Dourados. vi É a mistura de salsinha, cebolinha, manjerona e outros temperos verdes utilizados na culinária sul-matogrossense. vii O termo, de origem tupi, tem várias acepções no Brasil, derivadas dos usos diferentes em cada região. É muito utilizada para fazer chimarrão e tereré. viii Shopping de produtos importados situado em Pedro Juan Caballero PY. ix Não se refere à quantidade, mas sim à classe menos favorecida, inferior, estigmatizada, ridicularizada, desprivilegiada, e dentre outras terminologias utilizadas para classificar este tipo de comunidade, que na realidade representa a maioria em quantidade. x Projeto Escola Bilíngue de Fronteira: Brembatti Calvoso/Brasil e Escola nº 290 Defensores do Chaco/Paraguai. xi Entendemos o termo “brasiguaio” como o resultado da mistura de brasileiro com paraguaio. xii Sanga Puitã: Distrito misto, de fronteira seca também, o lado brasileiro pertence à Ponta Porã/BR e o lado paraguaio ao Departamento de Pedro Juan Caballero. xiii Assentamento brasileiro, localizado no município de Ponta Porã - MS. INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 3, Edição número 20, de Outubro, 2014/Março, 2015 - p 17