Malan: ‘Tinha receio de uma crise de
confiança’
Ex-ministro da Fazenda temia que país fosse visto
como outros em turbulência
POR CÁSSIA ALMEIDA / MARIA FERNANDA DELMAS / MAIÁ
MENEZES
29/06/2014 6:00
Para Pedro Malan, é natural a preocupação com a alta de preços, mas “aquele
tipo de inflação não volta” - Leo Martins / O Globo
RIO - Vinte anos depois do lançamento
da moeda brasileira, o real, o ex-ministro
da Fazenda Pedro Malan revelou suas
memórias sobre o momento crucial da
economia, quando a inflação anual
estava em quase 5.000%, em junho de
1994, e comentou a situação do país
hoje, após duas décadas de estabilização.
Um dos artífices do Plano Real avalia
que as taxas de inflação “são civilizadas à
luz de nossa experiência pretérita, mas
continuam um pouquinho mais elevadas
do que gostaríamos”. A crise de
confiança, que abalou o país entre 1998 e
1999, após o colapso com os Tigres
Asiáticos, em 1997, e a moratória da
Rússia, em 1998, levando o dólar a
custar R$ 2 e as reservas internacionais
a se esvaírem, foi um dos momentos
mais difíceis para o economista. A crise
levou o Brasil a mudar o regime cambial
de bandas para flutuante em janeiro de
1999.
— Não tinha medo de inflação. Tinha
receio de uma crise de confiança grande.
(...) Havia generalização da ideia de que
país subdesenvolvido e em
desenvolvimento era tudo igual. A
confiança foi recuperada, com custo
obviamente (o PIB ficou estagnado nos
dois anos da crise e o rendimento do
trabalho caiu 7% em 1999), mas depois
do início de 1999, conseguimos
recuperar isso, após a turbulência.
Malan, que ficou no governo de maio de
1991 a dezembro de 2002, como
negociador da dívida externa brasileira,
na presidência do Banco Central (BC) e
no Ministério da Fazenda, não vê
descontrole na inflação atualmente:
— É importante que, passados 20 anos,
as taxas de inflação estejam
relativamente civilizadas.
Indagado sobre o que faria de diferente
em relação à montagem e administração
do Plano Real, fez piada:
— Presumo que eu não possa dizer não
ter aceito o Banco Central e o Ministério
da Fazenda. Isso não vale como resposta
(risos).
Para o ex-ministro, é natural a
preocupação com a alta de preços,
traduzida no movimento Rio $urreal,
mas diz que “aquele tipo de inflação não
volta”.
Recordista de inflação em três
décadas: “As pessoas que têm menos de
40 anos não têm nenhuma experiência
vivida da marcha da insensatez que foi a
evolução da inflação no Brasil nas
décadas que antecederam ao lançamento
do real. O Brasil foi o recordista mundial
de inflação nas três décadas que vão do
início do anos 1960 ao início dos anos
1990. Entre 1980 e 1993, a inflação
média foi superior a 600% ao ano: 100%
na virada dos anos 1970 para os anos
1980, 200% em 1985, 1.000% em
1988/1989 e 2.500% em 1993. Isso
felizmente ficou para trás. É importante,
que passados 20 anos, taxas de inflação
de inflação sejam relativamente
civilizadas. São civilizados à luz de nossa
experiência pretérita, mas continuam
ainda um pouquinho mais elevadas do
que gostaríamos”.
Aprendizado com outros planos:
“Aprendemos com a experiência do
Cruzado, em 86, com Plano Bresser em
1987, Plano Verão em 1988, Collor 1 em
1990, Collor 2 em 1991. Tanto é que, na
equipe básica, sem a qual o real não teria
sido concebido e implementado, tinham
três veteranos do Cruzado, pessoaschave, Pérsio (Arida), o André (Lara
Resende) e Edmar (Bacha), aos quais se
juntou Gustavo Franco também em
1993. Aprendeu-se muito com a
experiência”.
O plano foi rapidamente aceito
pela população: “Eu acho que o real
teve uma conjugação de circunstâncias.
Fernando Henrique conseguiu reunir em
torno de si pessoas que já o conheciam
há muito tempo, que se conheciam
mutuamente, que se respeitavam.
Nenhuma delas estava disputando
poder. Quando nós anunciamos, em 7 de
dezembro de 1993, a direção que íamos
tomar, foi uma coisa muito importante
que diferenciou o real de outras
experiências. Não foi algo que surgiu de
surpresa depois de um fim de semana,
de um feriado bancário e que pegou a
população de surpresa com tablitas e
taxas de conversão, congelamentos,
bloqueio de poupança, coisas desse tipo.
Lembro-me de uma pergunta de um
jornalista. O que vai acontecer amanhã
ou a semana que vem com câmbio,
dólar? Eu falei nada de diferente do que
vocês estão vendo aqui. Foi uma razões
da aceitação do êxito que foram
fundamentais naqueles quatro meses de
recontratação em URV.”
Hiperinflação não volta mais: “A
agenda para o Brasil pós-real se
confundia com a própria agenda do
desenvolvimento econômico, social,
político e institucional do Brasil. Ela
envolvia não só área fiscal, do regime
monetário, cambial, mas também outras
mudanças para que o país pudesse,
depois daquela experiência histórica de
convivência com a inflação alta, crônica e
crescente, conviver com taxas de inflação
civilizadas. Eu acho que quando se olha
os últimos 20 anos em perspectiva, isso
aconteceu. Na experiência dos 50 anos
anteriores, é um sucesso, mas isso não
quer dizer de forma alguma que a
inflação baixa, sob controle, está
definitivamente incorporada ao DNA da
sociedade brasileira, que não é preciso
mais preocupação. Mas eu tenho certeza
absoluta de que ela não volta, essa
(inflação) passada. Eu espero que hoje a
população brasileira considere a
responsabilidade de qualquer governo,
qualquer que seja sua coloração político
partidária, preservar a inflação sob
controle. E eu acho que isso é o grande
legado do real. Eu não vejo o Brasil
tendo aquele processo de inflação em
que ela foi subindo de 40% para 100%
para 1.000%. As pessoas já se deram
conta que isso tem um custo altíssimo.”
Aonde não conseguimos
chegar: “Sem estabilidade
macroeconômica é difícil imaginar
soluções duradouras para outros tipos de
problema. Deveria ser o básico, como é
hoje no mundo desenvolvido, considerase que qualquer governo tem a
responsabilidade de assegurar uma certa
estabilidade, previsibilidade
macroeconômica. Ter um regime
monetário definido. O mesmo vale para
o regime cambial que é o de taxa
flutuante. A política de
operacionalização contempla certo tipo
de intervenção, do tipo que estão sendo
feitas desde agosto, acho que
corretamente, porque houve um excesso
de nervosismo com os sinais de que o
Fed (Banco Central americano) ia
começar a reduzir suas compras e o
câmbio foi a R$ 2,45 em 21 de agosto do
ano passado. Não se justificava, o Banco
Central fez bem em ter feito a
intervenção. E temos o nosso calcanhar
de aquiles que é a questão fiscal. É um
regime de responsabilidade fiscal.”
Problemas que surgiram com fim
da inflação: “O grande benefício que o
real trouxe para o Brasil foi que ele
permitiu que nós pudéssemos começar a
encarar de frente questões que estavam
mascaradas, obscurecidas pelo zumbido,
zoeira, poeirada da inflação alta. Fomos
obrigados a lidar com problemas de
bancos. Nós tínhamos 28, 29 bancos
comerciais e estaduais que faziam
empréstimos a seus governos e às
empresas de seus governos, que
representavam uma parcela muito
grande do seus ativos. Hoje nós devemos
ter uma meia dúzia de bancos comerciais
e estaduais e todos eles sabem que estão
sujeitos à supervisão e fiscalização do
Banco Central e podem ser liquidados.
Isso teve que ser feito, tivemos que
intervir em grandes bancos: Econômico,
Nacional, Bamerindus e muitos outros
que apareceram também, porque a
inflação baixa faz com que os problemas
apareçam. Houve um enorme dispêndio
do capital político do governo Fernando
Henrique Cardoso para lidar com
problemas de banco, mas tinha que ser
feito. Custoso como foi, inclusive
politicamente. Nós reestruturamos as
dívidas de 180 municípios no Brasil.
Desde então estão adimplentes, todos
mantendo a observância dos contratos.
Mais uma urgência, uma coisa que tinha
que ser feita. Outro exemplo do enorme
dispêndio de capital político. Nós
chegamos à conclusão de que o Brasil
tinha enorme necessidades de
investimento na área de infraestrutura,
energia, transportes, gás, petróleo,
mineração, rodovias, e que o setor
público e suas empresas por si só não
tinham condições de realizar os
investimentos que o país demandava. O
que nos levou, não por qualquer
consideração de natureza política ou
ideológica, a mudar os capítulos da
ordem econômica da Constituição. Foi
feito e foi algo importante, as
privatizações. Tem gente que prefere
falar em concessões. Não importa.
Houve uma interrupção por um período
longo, está sendo retomado agora, com
atraso, perdemos algum tempo. O
importante é que está sendo retomado.
São evidentes as nossas deficiências na
infraestrutura, mas ao mesmo tempo
elas sinalizam oportunidades de
investimento também. Portanto, eu acho
que possível ter um processo de
investimentos na área de infraestrutura
no Brasil que ajude a retomada do
crescimento. As oportunidades de
investimento existem, são percebidas.
Tem é que equacionar os mecanismos.”
Riscos para estabilização: “A
inflação exige cuidados. Não tem risco de
descontrole, não vejo nenhum desastre
no front da inflação, mas eu acho que é
importante manter as expectativas
quanto ao curso futuro dos preços mais
ou menos ancoradas num nível que seja
percebido como não induzindo
demandas por indexação (repasse para
os preços da inflação passada). Quando
as pessoas acham que a inflação está
numa trajetória, ainda que muito lenta,
ainda que muito pequena, mas que é
ascendente ou que ela mudou de
patamar, é natural que as pessoas
queiram se precaver nos seus dissídios,
nas suas correções de preços, queiram se
precaver se ela aumentar um pouquinho
mais. Ela exige eterna atenção e não é só
da parte do Banco Central. Depois de
certo ponto ela exige uma ação
concertada de governo no seu conjunto.
Não só a área econômica. Exige
percepção de quão importante para o
conjunto da população. Não interessa só
ao governo. Interessa à renda disponível
das famílias, interessa ao poder de
compra das transferências de renda. Isso
é algo fundamental.”
Renegociação da dívida
externa: “Larry Summers (então
secretário do Tesouro americano)
sempre me disse que, se não tivesse
acordo com o fundo (FMI), não teria
emissão de títulos de 30 anos que os
EUA emitiam para garantia. Nós íamos
pagar só juros durante os próximos 30
anos. Amortização do principal só em
2023. A garantia eram títulos de 30 anos
que eles faziam uma edição especial,
fizeram para o México, Argentina. Eu
sabia que era muito difícil ter um acordo
com o fundo com inflação de 30% ao
mês. Eu dizia, vamos cruzar esse rio
quando chegarmos a ele. Para você ter
uma ideia, nós tínhamos um bônus
internacional, cujo título era bônus de
interesses devidos e não pagos. Era
nosso interesse eliminar esse bônus e
substituir por outro. Fomos comprando
discretamente, por longo período de
tempo, títulos do Tesouro Americano
para não depender da emissão especial
do bônus do Tesouro Americano. Para
isso, precisávamos ir devagar, ir com
calma, eles acabaram se reforçando
mutuamente, o fato de que havia a ideia
de que o Brasil ia fazer uma aposta
contra a hiperinflação em maio de 1993
ajudou na formação da maioria que se
dispôs a preparar os contratos para
assinatura no final de novembro daquele
ano. Nós éramos vistos até ali como um
país meio drogado, país meio viciado em
drogas, meio bêbado, como um
adolescente que ainda é meio
destrambelhado no caminhar, no andar
que anda esbarrando pelas coisas. O real
e a negociação da dívida se reforçaram
mutuamente na percepção por parte do
resto do mundo sobre o Brasil.”
Crises: “Teve um momento que se tinha
que tomar umas decisões em condições
de risco, de incerteza, sem ter esse
conhecimento que aqueles que se
dedicam ao exercício de sabedoria
posterior fazem. Em agosto de 1998, a
Rússia decretou a sua moratória e houve
a falência daquele grande fundo
de hedge americano, com três prêmios
Nobel no conselho, o LTCM. Foi a
primeira vez que um presidente
americano, Bill Clinton, pediu para ter
uma conversa com alguns ministros da
Fazenda e presidentes de Banco Central
na reunião anual do Fundo Monetário
Internacional em Washington, em
setembro de 1998. A decisão de criar o
G-20 surgiu aí. Havia o receio de que
pudesse ser uma crise mais sistêmica. Eu
não tinha medo de inflação. Eu tinha
receio de uma crise de confiança grande.
Foi o que nos levou a buscar um apoio,
um apoio que nós obtivemos. Um
programa de organizações multilaterais,
BID, Banco Mundial, FMI e de cerca de
15 bancos centrais, que foi uma
expressão de confiança no Brasil. Para
nós, naquela época, o importante era a
confiança. Confiança exige ação
doméstica. Nós tomamos uma lá em
final de 1997, que havia generalização da
ideia de que país subdesenvolvido e em
desenvolvimento era tudo igual. Todos
os países asiáticos estavam em grande
crise. Estávamos ainda saindo da
resolução do problema bancário, com
problemas fiscais tentando resolver,
privatização ainda não tinha levado aos
seus efeitos, acabado de mudar a lei do
petróleo em 1997. Em 1998, eu me
lembro bem, dia 8 ou 9 setembro,
lançamos um decreto definindo os cortes
de gastos, criando uma comissão de
gestão e controle fiscal, com poderes
para fazer o que fosse necessário para
fazer.”
Desvalorização do real: “A percepção
de crise nos levou a tomar uma decisão
de deixar o câmbio flutuar. Mesmo que
fizesse uma ampliação grande de banda,
o mercado ia imediatamente testar o teto
naquela situação. Então, ele flutuou. Foi
lá no primeiro dia a R$ 1,4, R$ 1,5.
Depois, com rumores, chegou a bater em
R$ 2 em janeiro. Havia o problema de
bancos comerciais retirando linhas de
crédito de comércio, de linhas
comerciais de curto prazo no Brasil.
Visitamos dez grandes capitais do
mundo no começo de março. Nossas
reuniões foram todas em bancos centrais
com os presidentes dos bancos centrais
convocando os bancos locais.
Conseguimos interromper a retirada de
linhas de comércio.”
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Malan: `Tinha receio de uma crise de confiança`