JAIR BORTOLETO
Desaf io
Chicama
34
Pranchão
X
Pranchinha
Por Adrian Kojin
JOSÉ EDUARDO SANCHES
JOSÉ EDUARDO SANCHES
DING MUSA
JAIR BORTOLETO
JAIR BORTOLETO
urfistas são conhecidos notoriamente pelas desculpas que
conseguem inventar para justificar largar tudo e correr atrás da próxima ondulação. Especialmente se a notícia da sua chegada estiver
acompanhada de superlativos como “a maior do ano, a melhor direção, com o vento mais adequado...”
Quando o dublê de agente de viagens e fotógrafo de surfe José
Eduardo Sanches, da agência TGK Surf Operator, me ligou convidando para uma viagem a Chicama, onde um “super swell” estava
sendo esperado, tive que pensar rápido. Ele já estava de passagem
marcada para dali a três dias, acompanhado por dois talentosos
surfistas de Maresias, o consagrado longboarder Carlos Bahia e seu
pupilo, promessa da nova geração das pranchinhas, Igor Moraes.
O entusiasmo do Zé era enorme, e ele citava
as cinco estrelas postadas na previsão do site que
costuma consultar como garantia de que as ondas Carlos Bahia, 29 anos
iriam passar dos dois metros de altura, coisa muito Prancha Neco Carbone
rara em Chicama. Acreditava no potencial de sur- Tamanho 9’1
farmos a esquerda mais longa do planeta em con- 22'' de largura
dições épicas. Já eu sabia, por experiência própria, 2 7/8'' de espessura
resultante de 8 viagens anteriores ao pico, e de Round pin
muita troca de informação sobre a onda com locais Monoquilha com
e assíduos visitantes, que previsão em Chicama não estabilizadores laterais
é certeza de nada.
BRUNO LEMOS
S
Carlos Bahia (à esquerda) não queria perder a disputa de jeito nenhum, por isso entrou na
água preocupado: “o pranchão que quebrei pela manhã era de poliuretano, melhor para este
tipo de onda. Com o de epóxi, mais fininho, preciso pôr mais força na projeção pra ganhar
velocidade”. Igor (acima) levava a vantagem do frontside, mas sabia que seria preciso “manter as pernas, caso contrário, no final você não consegue fazer a onda inteira, chega ali no
meio e a perna começa a bambear”.
Minha vontade de ir era grande, até mesmo porque se Chicama não estiver tudo que se espera, sempre é possível viajar uma
hora para o norte e surfar em El Faro, em Pacasmayo, onda quase
tão longa e bem mais volumosa e consistente. Mas somente a vontade de surfar não bastaria, o que eu precisava era de um gancho
para poder tornar a viagem numa boa matéria. Isso sabendo que
fotos de ação nas ondas de Chicama costumam deixar a desejar. A
cor da água não ajuda, a onda na maior parte de sua extensão corre
deitada e as seções em que ela fica em pé, e ocasionalmente até tubular, são as mais difíceis de fotografar, ou
pela distância da praia, ou pelo ângulo desvantajoso.
Igor Moraes, 16 anos
De Chicama, impressionante mesmo são as
Prancha Adriano Nunes fotos panorâmicas, mostrando as inúmeras linhas
Tamanho 5’8
entrando no alto da baía e progredindo simétricas
18 1/4'' de largura
por sua longa extensão, uma atrás da outra, as espu2 1/4 '' de espessura
mas brancas perfeitamente sincronizadas. Esse tipo
Round Pin
de imagem, mais do que qualquer foto de ação, traQuadriquilha
duz a essência da experiência “chicamera”. Nelas fica
explícito o desafio que todo surfista encontra em
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TEMPO X DISTÂNCIA
As dimensões em Chicama são tão excessivas que não cabem numa única foto. Nesta, o fotógrafo no banquinho vai precisar girar o corpo para a sua direita e
clicar pelo menos uma vez mais para poder capturar a onda inteira. De fora do quadro ainda tem muita água até o píer.
GOOGLE EARTH
ADRIAN KOJIN
Consta que o recorde de onda mais longa já surfada – 11,8 km em 36 min – pertença ao brasileiro
Sérgio Laus, e tenha sido aferido pelo Guinness Book, na Pororoca do Rio Araguari. Trata­‑se de uma
onda de maré, que quebra por uma dinâmica totalmente diferente da de uma onda oceânica, o que
invalida qualquer comparação objetiva entre recordes que possam vir a ser estabelecidos nesses dois
tipos de ondas. Mas vale fazer umas continhas para colocar em perspectiva como se movem os sur‑
fistas em diferentes ondas. No recorde de Laus, o Mister Pororoca percorreu 327,7 metros por minuto,
o que equivale a 19,6 km por hora. Se nossa estimativa de que Carlos Bahia cobriu 3,0 km em 2min42s
estiver correta, ele teria avançado sobre as águas de Chicama a um ritmo de 1111,11 metros por
minuto, o que equivale a 66,66 km por hora, resultado que nos parece um tanto exagerado, para não
dizer absurdo. Como não dispusemos de GPS, só nos sobrou a alternativa muito pouco acurada da
constatação visual. Tampouco temos certeza de como deve ser medida a velocidade de um surfista
sobre a onda. Conta somente o deslocamento na face? E a distância percorrida pela onda em si? Para
colocar mais lenha ainda na fogueira das dúvidas, vale a pena citar um outro resultado que pode ser
constatado no YouTube. Protagonizando o projeto “Surfing the Distance”, mais um bancado pela Red
Bull, o renomado waterman – windsurfista, kitesurfista, surfista de pranchinha, pranchão e stand up
– Robbie Naish se propõe a surfar de stand up as esquerdas mais longas do planeta e inicia sua jor‑
nada num sólido swell em Pavones. Utilizando um cronômetro e GPS de pulso, sua onda mais longa
no dia marca 2min15s, o levando a 1,09 km de distância do ponto inicial. Calculadora na mão, são
484,4 m ou 29,06 km/h. Mais rápido que na Pororoca, mas ainda substancialmente mais lento do que
em Chicama, sendo que no vídeo a impressão é a de que as ondas de Pavones estariam “correndo”
bem mais que as de Chicama. Como explicar estas incongruências? Fica aí mais uma pergunta sem
resposta deixada por uma matéria que certamente poderia ter sido mais exata se não tivesse sido
planejada tão em cima da hora. O que em si não é tão ruim assim, pois agora temos mais um motivo
para regressar a Chicama, da próxima vez com GPS na bagagem.
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Chicama: tentar ir o mais longe possível, surfar a onda mais longa
de sua vida.
Inicialmente, recusei o convite do Zé Eduardo. Na nossa
edição 01.4 de dezembro/janeiro, havíamos publicado a matéria
“Os Experimentalistas”, na qual ele fora um dos fotógrafos, e fez
imagens de diversos tipos de pranchas sendo testadas nas ondas
de Chicama e Huanchaco, num swell que era para ser mais do que
acabou sendo. Parecia cedo demais para repetir o mesmo destino
na revista sem apresentar nada de novo. Apesar dos talentos inegáveis de Carlos Bahia e Igor Moraes, e da previsão que realmente
era promissora, eu não conseguia visualizar um argumento para a
história. Ou, melhor explicando, o que eu não tinha era uma boa
história para disfarçar a verdadeira história, aquela que nunca
muda, a da urgência de ir surfar a qualquer custo.
Alguns anos atrás eu havia participado de uma reunião em
Chicama na qual se discutiu a possibilidade de levar uma etapa do
Circuito Mundial de Longboard para ser realizada lá. O argumento
para se considerar um campeonato de pranchão ao invés de pranchinha era de que a onda é mais propícia para ser surfada em artefatos aquáticos com maior área de planeio, permitindo a conexão
das diferentes seções da onda com maior facilidade. No entanto,
no line up de Chicama, as pranchinhas normalmente estão presentes em número muito maior que os pranchões e costumam,
seja pela habilidade de seus condutores, ou pela qualidade de
seus designs, ir mais longe do que os pranchões.
Eureka! Liguei apressado para o Zé Eduardo: “se ainda
tiver lugar no voo, faz uma reserva pra mim e outra pro Jair
(Bortoleto, nosso editor executivo e, na ocasião, videomaker).
Vamos fazer o Desafio Chicama, pranchão contra pranchinha,
mestre contra pupilo, Bahia contra Igor, para ver quem vai mais
longe na onda, tudo registrado em vídeo”. Dois dias depois, o
grupo se encontraria já tarde da noite em frente à loja do Bahia,
em Maresias, antes de partir madrugada adentro em dois carros
rumo ao aeroporto de Cumbica, em Guarulhos. Além dos nomes
mencionados, seguiam na barca mais três amigos da galera, Fabinho Anão, Silvinho da Paúba e Clivis Disusa.
Nunca ache que você sabe mais que um local, pois as chances de cometer um erro são grandes. Não foram poucas as vezes
que testemunhei o desprezo por conselhos de quem realmente
conhece a onda resultarem na mais completa pagação de mico.
São recorrentes, por exemplo, em vários picos ao redor do mundo,
casos onde os locais indicam a forasteiros o melhor lugar para
entrar na água, mas os sabidões preferem fazer seu próprio trajeto,
certos de que estarão cortando caminho até o outside. Aí terminam escalando pedras, tragados pela correnteza ou de pé no coral
seco com uma onda prestes a quebrar sobre suas cabeças.
4km Distância do Point ao Pier
Carlos Bahia 3 km
Igor Moraes 2,5 km
A imagem de satélite retirada do Google Earth permite compreender um pouco
melhor a magnífica geografia do campo de provas do Desafio Chicama.
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40
Assim como o lugar certo para adentrar o mar, locais têm
conhecimento do comportamento das ondulações, das melhores
marés, da direção que combina com elas, e muitas outras informações às quais, se for prestada a devida atenção, fazem com que o
aproveitamento de uma trip a um determinado pico seja maximizado. Jesus Florian Castillo, mais conhecido como “El Zorro”, nasceu
em Chicama há mais de 40 anos, acompanhou o dia a dia da onda
por toda sua vida e foi taxativo: “não importa que a previsão esteja
dizendo que vai estar maior amanhã de manhã. Façam o Desafio
enquanto o swell estiver subindo pois Chicama costuma ser melhor
sempre no primeiro dia do swell e baixar rápido no segundo”.
De jeito nenhum iríamos arriscar acordar no domingo e
olhar para o Pacífico com menos ondas que no sábado. Se no
domingo o mar estivesse maior, poderíamos até repetir a sessão
de enfrentamento entre pranchão e pranchinha, mas ficou decidido na reunião que fizemos, na tarde da sexta­‑feira em que chegamos a Chicama que, no dia seguinte, por volta das 11 da manhã,
Bahia e Igor iriam se alternar durante duas horas em ondas cronometradas e filmadas, sempre com o objetivo de cobrir a maior
extensão possível em suas pranchas.
Como a ideia do Desafio surgira de última hora, já em cima
do dia da viagem, fomos obrigados a improvisar na logística do
“evento” para garantir o devido registro das ondas dos dois competidores. Alugamos um bote pelo período de 2 horas com exclusividade para o transporte de Bahia e Igor de volta ao início da onda
após o término de cada tentativa. A regra determinada era a de que
sempre que um deles estivesse surfando uma onda, o outro aguardasse na embarcação, permitindo que as três câmeras de filmagem
concentrassem sua atenção num único surfista de cada vez.
A estratégia para termos assegurado que a onda fosse filmada em toda sua extensão foi posicionar três videomakers ao
longo da curvatura do point break. Zorro ficou encarregado de
cobrir a primeira sessão do mesmo lugar onde costumeiramente
se posiciona para realizar suas filmagens e tirar fotografias, diariamente, do alto de uma pedra que desgrudou do barranco e está
encravada no meio de uma duna de frente para o “el point”. O Zé
Eduardo acomodou seu tripé bem em frente ao Chicama Beach
Hotel, onde estávamos hospedados, e de onde era possível, com
sua lente 600 mm, acompanhar o surfista desde o point, passando
a seção do El Hombre, aí já sendo filmado pelas costas, até quase
absolutamente preciso, mas também a distância percorrida. Ajudaria também ter trazido binóculos – o que salvou foi termos
mandado os dois com camisetas para a água, fazendo com que se
diferenciassem dos outros surfistas no line up. Fizeram falta
também mais rádios, inclusive um para contato com o barco, e
câmeras de vídeo com estabilizadores. Ter um orçamento mais
folgado para permitir o aluguel de dois barcos, um para cada
surfista, permitiria mais ondas surfadas pelos dois.
Surpreendente foi saber pelo relato de Zorro que alguns
meses antes, em setembro de 2012, o surfista peruano campeão
mundial júnior do ISA World Surfing Games, Cristobal de Col,
filho do também surfista profissional Titi de Col, haviam passado
5 dias em Chicama numa tentativa de estabelecer um recorde
mundial para o Guinness World Records, batizada de Red Bull
Chicama Challenge. Segundo Zorro, o foco inicial da empreitada
teria sido o mesmo que o do nosso Desafio: percorrer a maior
distância na onda. Mas como Cristobal não teria conseguido ir tão
longe quanto desejava, e os oficiais do Guinness estavam ali a
postos trazidos pela Red Bull, patrocinadora de Cristobal, a um
custo altíssimo, o objetivo declarado teria sido modificado para
maior número de manobras numa onda.
SEQUÊNCIA: CARLOS BAHIA
Na sequência, showman por natureza, Bahia surfou sua onda mais longa fotografando a si próprio com seu brinquedinho favorito, acrescentando mais um ângulo
de filmagem às câmeras postadas ao longo da encosta. (Acima) Um pouquinho de sombra, entre uma onda e outra, sempre vai bem.
ADRIAN KOJIN
ESCOPETA FOTO
Se aquecendo para a competição prestes a ser iniciada, Igor observa seu mestre e adversário se posicionando no bico para passar mais uma seção.
o final da onda, ao lado do píer. Ao Jair coube uma lente 200 mm
e a função de capturar o final da onda, quando ela entra em sua
última seção, considerada a melhor. Quando funcionando, um
tubo disparado em direção ao píer.
Fiquei ao lado do Zé Eduardo durante as duas horas e as
15 ondas surfadas. Foram 7 cada um, e uma, fora do script, com o
dois dividindo a longa parede, pranchão e pranchinha simbolicamente em paz. Como escolhemos o meio do dia para colocá­
‑los na água, prevendo que a luz estaria numa boa posição para
as filmagens e o line up mais vazio, com o crowd fugindo do sol
escaldante e batendo um rango, nós é que acabamos fritando os
miolos de olhos grudados no mar.
Minha função era a de “spotter”, o sujeito que avisa quando
o surfista entra na onda. Com o Zorro não tínhamos comunicação, o Zé eu alertava ao vivo e o Jair por Nextel. Daí em diante
acompanhávamos a performance de cada um, antevendo do alto
do barranco o que iria acontecer com a onda na sua próxima
seção e comentando entre nós o que achávamos que deveria ser
feito para superá­‑la. Adiantar­‑se na parede o máximo possível,
ficar colado na espuma até a onda reformar, botar pra dentro,
cavar lá embaixo, posicionar­‑se no alto... dar palpite de fora
d’água é fácil.
Essa já era a terceira queda de Bahia e Igor no dia. Tinham
aberto o mar, bem cedo. Depois do café da manhã, retornaram.
E agora se encontravam lá fora de novo, surfando como se já não
tivessem percorrido vários quilômetros de onda só naquela
manhã. O Jair, que estivera testando os ângulos de filmagem
mais cedo, havia registrado aleatoriamente duas ondas do Bahia,
uma de 1min35s e a outra de 1min43s: “na primeira onda ele
executou 4 rasgadas, 5 cutbacks e 3 hang fives, de 4, 3 e 2 segundos. Na segunda, foram 4 rasgadas e 3 hang fives, de 2, 3 e 7 segundos”. Tanta vontade, ainda quando nada estava valendo,
resultara num pranchão partido ao tentar encaixar num tubo na
seção do El Hombre. Justo seu preferido para as condições.
O correto teria sido que nós tivéssemos equipado os surfistas com cronômetros de pulso que cumprissem ao mesmo
tempo a função de GPS. Dessa maneira, desde que eles disparassem o início da medição no exato momento em que ficassem de
pé na prancha, não só o tempo de permanência na onda seria
JAIR BORTOLETO
Correm boatos no North Shore sobre os caminhos tortuosos pelos
quais o havaiano ex­‑campeão mundial Derek Ho teria andado nos
últimos anos. O que se sabe ao certo é que o sucessor de Gerry
Lopez continua pegando algumas das melhores ondas do dia sempre
que a rainha do North Shore se oferece.
SEQUÊNCIA: JOSÉ EDUARDO SANCHES
HENRIQUE PINGUIM
Na sequência, mesmo à distância, no alto do barranco, era fácil identificar Igor
surfando em meio ao crowd. Bastava procurar o surfista espirrando água mais
alto. Se ele aliviou nas manobras durante a disputa, nas sessões sem compromisso descontou com lucro. (No alto, à direita) Motivo para sorrir é o que não
faltava.
Foram 34 no total, basicamente rasgadas curtas e funcionais, numa onda que durou 2min 20s e pode ser conferida no
YouTube. Ainda segundo Zorro, a Red Bull montou um aparato de
filmagem que em muito superava o nosso, o que não fica patente
no vídeo veiculado, onde o que se vê é um filmagem competente,
mas sem maiores atrativos. Mas isso eu só fui conferir um bom
tempo depois, já de volta ao Brasil, na hora de pesquisar dados que
me ajudassem a escrever esta matéria.
Foi aí que tomei conhecimento do outro lado da história
contada por Zorro. No site da Red Bull, uma matéria (http://www.
redbull.com/en/surfing/stories/1331576365046/cristobal­‑de­‑col­
‑rides­‑longest­‑wave­‑in­‑chicama) explicava que ao chegar a Chicama “a única intenção de Cristobal era estabelecer o novo
recorde de maior número de 360s numa mesma onda”. O texto
segue e conta que após “facilmente mandar onze 360s seguidos na
sua primeira tentativa”, ele teria decidido elevar a dificuldade do
desafio e “criar um novo recorde que ele pudesse dizer que fosse
seu, o de mais manobras realizadas numa onda”.
Pela internet não fui capaz de encontrar nenhum recorde registrado no Guinness de “mais 360s numa mesma onda” e de “mais
manobras numa onda”. O que absolutamente não quer dizer que
estes recordes não existam e/ou não tenham sido oficializados –
o problema pode ter sido minha capacidade, ou falta dela, de pesquisador. E como o prazo para entrega desde texto não me permitiu
correr atrás de um livro impresso em papel do Guinness para fazer
a conferência à moda antiga, peço desculpas pela dúvida que deixo
aqui, ainda que ela não mude em nada o rumo desta matéria.
Para todos os efeitos, o nosso Desafio Chicama, mesmo
emprestando inadvertidamente o nome do desafio criado pela Red
Bull, não tinha a pretensão de bater ou estabelecer nenhum recorde com objetivos claros de criar uma peça de marketing. Nossa
brincadeira era outra, tão somente a de promover uma disputa
saudável entre pranchão e pranchinha sendo testados num mesmo
período de tempo nas mesmas condições de mar. Mais que tudo
uma curiosidade, um alimento para o pensamento, um exercício
de criação de dúvidas, do que uma venda de verdades inúteis.
Digo isso, pois na surfada que dei na internet em busca das
referências mencionadas acima, me deparei com outro recorde
relacionado ao surfe no mínimo estranho. Na minha profunda
ignorância, eu não sabia que o 13 vezes campeão panamenho de
surfe Gary Saavedra detinha o recorde de “onda mais longa surfada em águas abertas”. Em 19 de março de 2011, ele percorreu
66,47 km em 3h55min2s praticamente parado sobre sua prancha
que deslizava acompanhando a onda formada por uma lancha
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BRUNO LEMOS
alugado, fazendo o transporte de mais de 100 surfistas onda
acima, o crowd era enorme. Mas absolutamente nenhum outro
surfista chegou nem perto das distâncias percorridas por Bahia e
Igor. Eles dominaram o dia de maneira completa, justificando
decididamente a razão pela qual ganham para surfar enquanto
todo mundo mais na água paga.
Bahia e Igor tem uma relação muito próxima. Foi Bahia
quem primeiro detectou o potencial do menino humilde e tímido de Maresias, quando Igor tinha apenas 7 anos de idade.
Desde então Bahia vem atuando como técnico e mentor, orientando seu comportamento dentro e fora d’água. Hoje, Bahia tem
29 anos de idade e Igor 16. Ainda que a realização de um verdadeiro mestre esteja na sua superação por seu pupilo, de jeito nenhum Bahia iria querer dar mole na disputa com o moleque,
entregando a ele antes da hora certa algo que ainda não estaria
preparado para receber. Por isso, a dupla levou muito a sério a
disputa, até mais do que nós que a estávamos propondo.
Nenhum dos dois arriscou muito, com ambos dando
prioridade a uma linha mais conservadora e eficiente, focada no
quesito distância percorrida. Souberam também poupar as pernas, praticamente só executando manobras onde era necessário
e descansando a musculatura nos trechos da onda que permitiam manter­‑se em pé apenas no corte sem necessidade de impulsionar a prancha com a movimentação do corpo.
Foi muito divertido e emocionante acompanhar as duas
horas da disputa. Vibrávamos – o Zé Eduardo, eu e ocasionais
curiosos que se aproximavam querendo saber o que estávamos
JAIR BORTOLETO
(Acima) Não importa o ponto de vista, a
distância a ser percorrida do point ao
píer sempre será enorme. Ao lado,
Bahia recorre a um passadão estiloso
para economizar energia numa seção
menos exigente.
Correr bem à frente ou surfar junto à espuma? (Abaixo) Igor faz a leitura
correta e opta por um cutback para conectar com a próxima seção.
JOSÉ EDUARDO SANCHES
44
JOSÉ EDUARDO SANCHES
cruzando o Canal do Panamá. Coincidentemente ou não, o patrocinador de Gary é o mesmo do Cristobal de Col, a Red Bull. Na
última meia hora Gary teve que “surfar” ao mesmo tempo em que
aplicava bolsas de gelo sobre a musculatura de suas pernas, tanta
era a dor.
Mas vamos voltar ao que estava acontecendo na água enquanto tostávamos os narizes debaixo do sol peruano. Naquele
meio­‑dia de abril com ondas quilométricas em Chicama, o que
ficou claro logo de cara é que mais que a prancha utilizada, o que
iria fazer a diferença era a onda escolhida e a leitura dela à medida
em que o surfista fosse avançando na parede. Obviamente não dá
para seguir adiante numa onda que fechou, ou acelerou mais do
que seria humanamente possível acompanhar.
Mas como saber o que vai acontecer numa onda tão longa
quanto Chicama a um, dois ou três quilômetros praia abaixo?
Neste sentido, a escolha da onda certa torna­‑se uma combinação
de conhecimento com sorte. É possível prever quais ondas terão
maior possiblidade de abrir nas primeiras seções, mas daí em
diante é loteria. É nesse ponto que entra o outro componente de
uma onda surfada até seu limite de extensão, a capacidade de
leitura do que vai acontecer, de antecipar­‑se.
Surfistas profissionais não o são por acaso. Principalmente
os de ponta, possuem, além de uma incrível habilidade nas
ondas, um condicionamento físico invejável. Em se tratando de
um final de semana com swell anunciado por sites e agências de
viagem mundo afora, e quatro botes, além do que havíamos
fazendo – a cada onda surfada, torcendo para que eles fossem
mais longe que na anterior. Fiquei com a nítida impressão de
que aquele formato de disputa, com dois surfistas tentando se
superar na distância, tem potencial para, com os devidos ajustes,
se tornar uma categoria à parte no surfe de competição. O espectador, surfista ou não, entende perfeitamente o que está
acontecendo e o subjetivismo do julgamento é eliminado.
Ganha quem for mais longe e pronto.
E se você teve paciência e condescendência com meu texto
para me acompanhar até aqui, é por que deve estar curioso para
saber quem venceu. No dia, não contamos nem mesmo aos
competidores, dissemos a eles que para saberem o resultado teriam que comprar a revista.
Igor Moraes surfou com uma maturidade além da sua
idade, fazendo um desenho bonito nas extensas paredes de
Chicama, demonstrando que entende as nuances de um point
break e conjugando força e técnica para fazer sua pranchinha
quadriquilha ir longe, bem longe. Mas mestre é mestre, e foi de
Carlos Bahia a onda mais longa.
Mesmo com habilidade comprovada em qualquer tipo
de prancha, talvez seja no pranchão mesmo que Bahia encontre a maior sintonia com o mar. Seu domínio dos 9 pés e um
pouco mais de espuma e fibra é completo, um espetáculo a ser
apreciado. Alie­‑se a isso a sua altamente desenvolvida leitura
de onda e fica realmente difícil superá­‑lo. É claro que estar
num pranchão facilita cobrir certos segmentos da onda que
exigiriam um esforço e desgaste físico maior de um surfista de
pranchinha, mas não tenha dúvida de que o pranchão sem o
piloto qualificado pode ser superado por uma pranchinha que
esteja sendo acelerada por alguém que realmente saiba o que
está fazendo. Quem venceu foi o surfista Carlos Bahia e não
seu pranchão.
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JOSÉ EDUARDO SANCHES
Tanto Bahia como Igor percorreram a maior distância em
suas primeiras ondas, respectivamente 2min42s e 2min18s. Pare
agora e deixe seu relógio marcar, é muito tempo em cima da
prancha. Assumindo como correta a medição que nos foi passada pelos locais de Chicama, que teria sido, segundo Zorro,
“paga por um gringo anos atrás”, a distância entre o point e o píer
é de 4 quilômetros. Tendo esse número como parâmetro, nosso
“olhômetro” estimou a distância percorrida pelo Bahia em aproximadamente 3 km e a do Igor em 2,5 km.
Nas suas seis ondas seguintes, Bahia visivelmente se esforçou o máximo que pôde, mas não teve ajuda do mar para superar
a primeira, marcando 1:31, 1:53, 0:17, 1:04, 1:19 e 1:04, somando um
total de 9min50s em 7 ondas. Já Igor, mesmo não tendo surfado
a onda mais longa, obteve a melhor marca na somatória do
tempo das sete ondas. À primeira, ele adicionou as de 2:07, 0:43,
0:39, 0:56, 1:34 e 1:55, finalizando com 10min12s em cima da
prancha durante as duas horas de duração do Desafio.
Carlos Bahia não quis arriscar a vitória enfeitando muito suas ondas durante
as duas horas em que se concentrou no objetivo de surfar a onda mais longa
do Desafio Chicama. Mas acabou surfando sua onda mais longa fora da
competição fazendo bico no crítico.
Na onda vencedora, Carlos Bahia executou 2 cutbacks e
1 hang five de 4 segundos. Em sua onda mais longa, Igor Moraes
mandou 6 cutbacks e 6 rasgadas. O que colocaria os dois longe
do “recorde” de Cristobal de Col, de 34 manobras na onda. Mas
aqui não estamos computando a quantidade de manobras que
eles fizeram em ondas “extraoficiais”. Particularmente, o Igor
deve ter se aproximado ou até mesmo superado a marca de
Cristobal, mas a verdade é que não temos como afirmar isso.
Zorro tinha razão, no domingo as ondas baixaram com
rapidez, ainda que a primeira sessão matinal tenha oferecido
excelentes condições. Os dois metros da previsão nunca aconteceram, mas rolavam expressos de mais de 1,5 m na seção El
Hombre, e o Zé Eduardo resolveu tentar algumas fotos por ali.
Jair e eu o acompanhávamos quando surgiu no horizonte o Bahia
entrando a milhão na seção bem a nossa frente e passando batido. Não estávamos filmando nem cronometrando, mas somos
os três testemunhas de que nesta onda ele foi ainda mais longe
do que em qualquer uma do dia anterior. Quanto mais? Uns 150,
200 m talvez. Passou dos três minutos? Acho que sim, mas novamente não tenho como afirmar.
Decidimos deixar Chicama no final do dia e surfar o resto
do swell em Pacasmayo, antes de embarcar de volta ao Brasil.
Literalmente de saída do “pueblo”, com as pranchas e todos já
acomodados dentro dos dois táxis que nos levariam ao nosso
próximo destino, encontrei um velho amigo, o local Victor Humberto Castillo, também conhecido como Ojos Azules.
No dia em que chegamos a Chicama, explicando a Zorro
quais eram nossos planos, ele me contou que tinha uma onda
sua filmada em formato Betamax na qual surfava a onda por
3 minutos. Perguntei se eu poderia ver o vídeo e ele disse que
não sabia onde estava, teria que procurar, umas holandesas
haviam sumido com ele. Ojos Azules me contou uma história
parecida, também com um Betamax extraviado, levado para
Trujillo por alguém que nunca devolveu a fita. Ele tem 48 anos
e é considerado um dos melhores surfistas de Chicama. O
vídeo em questão teria sido gravado em 2006, e guardaria o
registro de uma onda sua de “4min46s, num swell com ondas
de três metros, do point até o píer”. Enquanto o Bahia não
engoliu muito a história, o Igor, como de costume, preferiu
ficar quieto. Os dois já tinham feito a parte deles, seguros de
que as imagens estavam gravadas e futuramente seriam disponibilizadas no site da revista para quem quisesse conferir. Nos
despedimos dos locais agradecendo a hospitalidade com que
nos receberam. Os dois táxis aceleraram pela ruazinha de terra
acompanhando mais uma série que escorria no horizonte. Pra
trás ficou poeira, pra frente o próximo swell.
Vá mais fundo em www.surfersjournal.com.br e veja as duas ondas vencedoras do Desafio Chicama.
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Por Adrian Kojin - The Surfers Journal Brasil