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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e
poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."
Série DEIXADOS PARA TRÁS
Sé rie de icçã o mais lida no mundo, Deixados Para Trá s vendeu mais de 70 milhõ es de
livros e foi traduzida para mais de 30 idiomas. A histó ria reú ne icçã o cristã , açã o e suspense
comlancesdealtatecnologianumtrillerdetirarofô lego.Otemaprincipalé nadamenosqueo
própriofinaldostempos.
ROSTO
TimLaHaye&JerryB.Jenkins
O
REMANESCENTE
NOLIMIARDOARMAGEDOM
UNITEDPRESS
EmmemóriadoDr.HarryA.Ironside
AgradecimentosespeciaisaDavidAllen,
pelaconsultoriatécnicaespecializada
DUAS BOMBAS E UM MÍSSIL.
UM SÓ ALVO. SÓ UM MILAGRE PODERÁ SALVÁ-LOS!
ATerra,agora,completamentedevastadaapó s3anosemeiosobodomı́niodoanticristo,
é apenasumalembrançadesuabelezaoriginalesearrastasobopesodosterrı́veisjulgamentos
vindosdocéu.
A fú ria de Nicolae Carpathia in lama-se cada vez mais contra todos aqueles que nã o
juraramtotallealdadeaele.Echegadaahoradesuavingança.Seusinimigosaglomeram-seno
lugaridealparaumadestruiçãoemmassa.Ninguémpoderásairvivodali,anãoserpormilagre.
Todasasmáscarascaemporterra,inclusiveadoanticristo,enquantooplanetacaminhaa
passoslargosrumoaoArmagedom—aúltimabatalhaentreobemeomal.
O PERÍODO DA TRIBULAÇÃO COMPLETA 43 MESES
A GRANDE TRIBULAÇÃO CHEGA AO PRIMEIRO MÊS
OsCrentes
RayfordSteele—Idade:cercade45anos;ex-capitã o-aviadordo747dasLinhasAé reas
Pan-Continental; perdeu esposa e ilho no Arrebatamento; ex-piloto do potentado da
Comunidade Global Nicolae Carpathia; membro fundador do Comando Tribulaçã o; fugitivo
internacional;emmissãosecretaemPetra,disfarçadodeegípcio.
Cameron ("Buck") Williams — Idade: pouco mais de 30 anos; ex-articulista sê nior do
Semanário Global; ex-editor doSemanário Comunidade Global, de propriedade de Carpathia;
membro fundador do Comando Tribulaçã o; editor da revista virtual AVerdade; sua identidade
falsadeoficialdaCGJackJensenfoidescoberta;fugitivoexiladonoEdifícioStrong,emChicago.
Chloe Steele Williams — Idade: pouco mais de 20 anos; ex-aluna da Universidade
Stanford;perdeuamã eeoirmã onoArrebatamento; ilhadeRayford;esposadeBuck;mã ede
Kenny Bruce, um bebê de 15 meses; presidente da Cooperativa Internacional de Mercadorias,
uma associaçã o secreta composta de crentes; membro fundador do Comando Tribulaçã o;
fugitiva exilada no Edifı́c io Strong, em Chicago; em missã o secreta na Gré cia, disfarçada de
funcionáriagraduadadasForçasPacificadorasdaComunidadeGlobal.
Tsion Ben-Judá — Idade: perto de 50 anos; ex-estudioso das doutrinas dos rabinos e
estadista israelense; revelou sua crença em Jesus como o Messias em um programa de TV
levadoaoarinternacionalmente,oqueprovocouoassassinatodesuaesposaedeseusdois ilhos
adolescentes; fugiu para os Estados Unidos; professor e lı́der espiritual do Comando Tribulaçã o;
suas pregaçõ es diá rias, via Internet, alcançam mais de um bilhã o de pessoas; no momento,
visitaosjudeusremanescentesemPetra.
Dr. Chaim Rosenzweig — Idade: perto de 70 anos; estadista e botâ nico israelense
ganhadordoPrê mioNobel;recebeuotı́t ulodeHomemdoAnopeloSemanárioGlobal; assassino
deCarpathia;disfarçadocomonomedeMiquéias,lideraosjudeusremanescentes,emPetra.
Leah Rose — Idade: perto de 40 anos; ex-enfermeira-chefe do Arthur Young Memorial
HospitaldePalatine,Illinois;residenoEdifícioStrong,emChicago.
Al B. (conhecido como "Albie") — Idade: perto de 50 anos; nascido em Al Basrah, no
norte do Kuwait; piloto; trabalhou no mercado negro internacional; sua identidade falsa de
subcomandantedaCG,MarcusElbaz,foidescoberta;residenoEdifícioStrong,emChicago.
MacMacCullum— Idade: perto de 60 anos; piloto de Carpathia; dado como morto em
acidenteaéreo;estáemmissãonaGréciadisfarçadodeoficialdaCG.
AbdullahSmith—Idade:poucomaisde30anos;ex-pilotodeaviõ esdecaçanaJordâ nia;
co-piloto do Fê nix 216; dado como morto em acidente aé reo; está em missã o em Petra
disfarçadodeegípcio.
HannahPalemoon— Idade: perto de 30 anos; enfermeira da Comunidade Global; dada
comomortaemacidenteaé reo;está emmissã onaGré ciadisfarçadadeo icialdaCGdeNova
Délhi.
MingToy—Idade:poucomaisde20anos;viú va;ex-guardadoPresı́diodeReabilitaçã o
Feminina da Bé lgica (PRFB); desertora da Comunidade Global; reside no Edifı́c io Strong, em
Chicago.
Chang Wong — Idade: 17 anos; irmã o de Ming Toy; espiã o do Comando Tribulaçã o
dentrodasededaComunidadeGlobal,emNovaBabilônia.
Gustaf Zuckermandel Jr. (conhecido como "Zeke" ou "Z") — Idade: pouco mais de
20anos;falsi icadordedocumentoseespecialistaemdisfarces;seupaifoimortonaguilhotina;
residenoEdifícioStrong,emChicago.
EnoqueDumas—Idade:pertode30anos;hispano-americano;pastordacongregaçã oO
Lugar,emChicago,compostade31membros;mudou-serecentementeparaoEdifícioStrong.
Steve Plank (conhecido como Pinkerton Stephens) — Idade: cerca de 55 anos; exeditor doSemanárioGlobal; ex-diretor de relaçõ es pú blicas de Carpathia; dado como morto no
terremotodairadoCordeiro;espiãotrabalhandonasForçasPacificadorasdaCG,noColorado.
GeorgianaStavros—Idade:16anos;fugiudocentrodeaplicaçã odamarcadalealdade
em Ptolemaı̈s, na Gré cia, com a ajuda de Albie e Buck; presa pela CG; condiçõ es fı́sicas e
paradeiroignorados.
George Sebastian — Idade: cerca de 25 anos; ex-piloto de helicó ptero da divisã o de
combate da Força Aé rea dos Estados Unidos com base em San Diego; preso pela CG na regiã o
nordestedePtolemaïs,Grécia,enquantoprestavaserviçoaoComandoTribulação.
OsInimigos
Nicolae Jetty Carpathia — Idade: cerca de 35 anos; ex-presidente da Romê nia; exsecretá rio-geral da Organizaçã o das Naçõ es Unidas; autodesignado potentado da Comunidade
Global;assassinadoemJerusalém;ressuscitounopaláciodaCG,emNovaBabilônia.
Leon Fortunato — Idade: pouco mais de 50 anos; ex-supremo comandante da
Comunidade Global e braço direito de Carpathia; recebeu o tı́t ulo de Reverendı́ssimo Pai do
Carpathianismoeproclamouopotentadocomoodeusressurreto;residenopalá ciodaCG,em
NovaBabilônia.
VivIvins—Idade:cercade65anos;amigadelongadatadeCarpathia;temparticipaçã o
ativanaComunidadeGlobal;residenopaláciodaCG,emNovaBabilônia.
Suhail Akbar — Idade: pouco mais de 40 anos; chefe do Serviço de Segurança e
Inteligência,aserviçodeCarpathia;residenopaláciodaCG,emNovaBabilônia.
PRÓLOGO
ExtraídodeProfanação
Se Rayford nã o estivesse tã o apavorado, ele teria gostado de ver que Tsion era a mesma
pessoa,tantonoEdifı́c ioStrongquantosobosoldaJordâ nia.SomenteAbdullaheRayford,com
seusmantos,tinhamaaparê nciadehomensdoOrienteMé dio.Tsionpareciamaisumprofessor
enrugado.
— Quem é o seu piloto? — indagou um guarda da CG. Tsion apontou com a cabeça para
Abdullah, e eles foram conduzidos a um helicó ptero. Assim que levantaram vô o, Rayford ligou
paraChloe[naGrécia].
—Ondevocêestá?—eleperguntou.
— Estamos na estrada, papai, mas alguma coisa está errada. Mac teve de fazer uma
ligaçãodiretanesteveículo.
—Changnãopediuaosujeitoquedeixasseaschaves?
— Parece que nã o. E você conhece Mac muito bem. Ele vai descer e pegar uma carona
comoutroveı́c ulodaCG,enquantonó sduasvamosrodarfelizesdecarropelacidade,tentando
passarporemissáriasdeNovaBabilôniaàprocuradejudaístas.
—Vocêestápreparada?
— Se estou preparada? Por que você nã o me obrigou a icar em Chicago com minha
família?Quetipodepaivocêé?
Rayfordsabiaqueafilhaestavabrincando,masnãofoicapazderir.
—Nãomefaçasentirremorso—elelhepediu.
—Nãosepreocupe,papai.NãovamossairdaquisemSebastian.
QuandoAbdullahseaproximoudePetra,Chaimestavanolugaralto,com250milpessoas,
doladodedentro,e750mil,doladodefora,acenandoparaohelicó ptero.Umenormeespaço
planohaviasidopreparadocomoheliporto.Opovocobriuorostoquandoohelicó pterolevantou
umanuvemdepoeiraaopousar.Assimqueomotorfoidesligadoeapoeirasedissipou,opovo
começouaaplaudireagritar,enquantoTsiondesciaeacenavatimidamente.
—Dr.Ben-Judá,nossomestreementor,ehomemdeDeus!—anunciouChaim.
Rayford e Abdullah desceram sem ser notados e se sentaram sobre uma laje. Tsion
acalmouamultidãoecomeçouadizer:
—Meusqueridosirmã oseirmã semCristo,nossoMessiaseSalvadoreSenhor.Antesde
tudo,permitam-mecumprirumapromessafeitaaamigos:Vouespalharaquiascinzasdeuma
mártirfiel.
Eleretiroudobolsoumapequeninaurna,tirouatampaeespalhouoconteú doaosabordo
vento.
—ElavenceuporcausadosanguedoCordeiroeporcausadotestemunhoquedeu,porque
nãoamousuavida,masaentregouemfavordele.
AbdullahcutucouRayfordeolhouparacima.Aolonge,vinhamdoisbombardeirosdotipo
caçacomosmotoreszunindo.Apó salgunssegundos,opovonotouapresençadelesecomeçou
amurmurar.
Debruçado sobre seu computador em Nova Babilô nia, Chang acompanhava as cenas que
Carpathia estava vendo, transmitidas da cabina de um dos bombardeiros. Chang fez uma
conexã o entre o á udio do aviã o e o aparelho de escuta clandestina que havia no escritó rio de
Carpathia. Tornou-se claro que Leon, Viv, Suhail e a secretá ria de Carpathia estavam
aglomeradosemtornodomonitornoescritóriodopotentado.
—Alvoemmira,preparar!—disseumdospilotos.Ooutrorepetiuasmesmaspalavras.
—Lávamosnós!—disseNicolaecomvozaguda.—Lávamosnós!
Tsionlevantouasmãoserecomendou:
—Nã osedistraiam,meusamados,porquecon iamosnaspromessasverdadeirasdoDeus
deAbraão,deIsaqueedeJacó.Fomostrazidosaestelugarderefúgio,quenãopodeserinvadido
peloinimigodeseuFilho.
Ele esperou que o barulho dos roncos dos motores diminuı́sse enquanto os jatos se
distanciavam,fazendoumacurvaparavoltar.
—Sim!—gritouNicolae.—Façamumaexibiçãoedestruamtudoquandoretornarem.
Enquantoosjatosretornavam,Tsiondisse:
— Vamos nos ajoelhar, curvar a cabeça e harmonizar nossos coraçõ es com Deus,
con iantes em sua promessa de que "o reino, e o domı́nio, e a majestade dos reinos debaixo de
todoocéuserãodadosaopovodossantosdoAltíssimo:oseureinoseráumreinoeterno,etodos
osdomíniososervirãoelheobedecerão"(Daniel7.27).
Rayford se ajoelhou sem tirar os olhos dos aviõ es. Quando voltaram com seus motores
zunindo, ambos lançaram bombas diretamente no lugar alto, o epicentro de um milhã o de
almasajoelhadas.
—Ssssim!—gritouCarpathia.—Sim!Sim!Sim!Sim!
Pelo que alegrai-vos, ó cé us, e vó s que neles habitais. Ai dos que habitam na terra e no
mar;porqueodiabodesceuavós,etemgrandeira,sabendoquejátempoucotempo.
–Apocalipse12.12
CAPÍTULO1
RayfordSteelejá haviaescapadodamorteporumtrizemmuitasocasiõ esparasaberque
estaconhecidaa irmaçã oeramaisqueverdadeira:avidainteirapassapornossamenteemum
piscardeolhos,comosefosseumfilme,etodosossentidosentramemestadodealertamáximo
ao se enfrentar a morte. Ajoelhado desajeitadamente sobre a inclemente pedra vermelha da
cidadedePetra,noantigoEdom,eleestavacientedetudo,lembrava-sedetudo,pensavaem
tudoeemtodos.
Apesar dos zunidos dos caças-bombardeiros da Comunidade Global — maiores do que
todos os que ele já havia visto ou lido a respeito -, Rayford ouviu seu coraçã o bater
violentamenteesentiuospulmõ esà procuradear.Atrapalhadocomomantoeassandá liasde
seudisfarceegípcio,elemalconseguiaequilibrar-sesobreosjoelhosdoloridoseosdedosdospés.
Rayford nã o conseguia curvar a cabeça, nã o conseguia desgrudar os olhos do cé u e do par de
ogivasquepareciamcadavezmaiores,àmedidaquecaíam.
Ao lado dele, seu prezado companheiro, Abdullah Smith, estava prostrado, com as mã os
cobrindo a cabeça. Para Rayford, Smitty representava todas as pessoas pelas quais ele era
responsá vel — os membros do Comando Tribulaçã o espalhados ao redor do mundo. Alguns
estavam em Chicago, alguns na Gré cia e outros com ele em Petra. Havia um em Nova
Babilô nia. Gemendo, Abdullah inclinou o corpo em sua direçã o, e Rayford percebeu que o
jordanianoestavatremendo.
Rayford també m estava apavorado. Nã o tinha como negar. Onde estava a fé que ele
deveria ostentar depois de ver Deus livrá -lo da morte tantas vezes? Ele nã o duvidava de Deus,
mas alguma coisa em seu ı́ntimo — talvez o instinto de sobrevivê ncia — dizia que ele estava
prestesamorrer.
Paraamaioriadaspessoas,adúvidadeixaradeexistir...haviapoucoscéticos.Sealguém,a
essaaltura,nãofosseseguidordeCristo,provavelmentedecidiraopor-seaDeus.
Rayford nã o tinha medo da morte em si, nem da vida apó s a morte. Deus, que agora se
manifestava milagrosamente todos os dias, se regozijaria em proporcionar um lugar no cé u a
seupovo.OqueRayfordmaistemiaeraomomentodamorte.EmboraDeusotivesseprotegido
até agora e prometido vida eterna apó s a morte, Ele nã o poupara Rayford de ferimentos e de
sofrimento.Qualseriaasensaçãodeservitimadoporogivas?
Tudo seria muito rá pido, disso ele tinha certeza. Rayford conhecia Nicolae muito bem a
ponto de saber que o homem nã o usaria mais de subterfú gios. Se uma ú nica bomba daquelas
seriacapazdedestruirfacilmenteummilhã odepessoas,naqueleinstantecomacabeçaentre
osjoelhos—aparentementetodas,menosRayford-,duasfariamamultidã oevaporar.Será que
os clarõ es o cegariam? Ele ouviria as explosõ es? Sentiria o calor? Perceberia seu corpo se
desintegrando?
Fossecomofosse,Carpathiafariadaqueleeventoumjogopolítico.ElenãoexibiriapelaTV
uma cena mostrando um milhã o de pessoas desarmadas, de costas para a Comunidade Global,
enquanto as bombas precipitavam-se sobre elas. Poré m, mostraria o impacto, as explosõ es, o
fogo,afumaça,adesolação,parailustrarainutilidadedeopor-seànovaordemmundial.
A mente de Rayford lutava contra seus instintos. O Dr. Ben-Judá acreditava que eles
estavam protegidos, que Petra era uma cidade de refú gio, o lugar prometido por Deus. Nã o
obstante, Rayford perdera um companheiro ali alguns dias antes. Por outro lado, o ataque por
terraefetuadopelaCGfoimilagrosamentemalogradonoú ltimoinstante.PorqueRayfordnã o
seacalmavadiantedaquelefato,porquenãoconfiavaenãoacreditava?
Porque ele conhecia o poder das ogivas. Assim que foram lançadas, os pá ra-quedas
acopladosaelassein laram,retardando-asparaquecaı́ssemnomesmoinstanteediretamente
em cima da multidã o. O coraçã o de Rayford se contraiu quando ele viu uma haste preta presa
na ponta de cada bomba. A CG nã o havia esquecido nenhum detalhe. Esses dispositivos, com
pouco mais de l,20m de comprimento, acionariam os fusı́veis assim que tocassem o solo,
provocandoaexplosãodasbombasacimadasuperfície.
ChloeSteeleWilliamsestavaimpressionadacomahabilidadedeHannahcomomotorista.
Apesar de estar dirigindo um veı́c ulo desconhecido em um paı́s desconhecido, aquela norteamericana usando um disfarce estranho que a transformara em uma indiana de Nova Dé lhi
dirigia o jipe da CG como se fosse propriedade sua, com mais calma e mais autocon iança que
MacCullum.ElefaloudurantetodoopercursodecarroatravésdaGrécia.
— Sei que tudo isso é novidade para você s, meninas — ele havia dito, forçando Chloe e
Hannahaseentreolharemepiscaremumaparaaoutra.
Sehaviaalgué mquenã oconseguiaevitarochauvinismo,mesmoinconscientemente,era
aquelepilotoexperienteeex-militar,quesereferiaatodasasmulheresdoComandoTribulaçã o
como"senhorinhas",masquenãodemonstravasercondescendente.
— Eu preciso chegar ao aeroporto — ele lhes contou — por este caminho, e você s
precisam chegar a Ptolemaı̈s e descobrir onde ica a cooperativa. — Ele parou o veı́c ulo e
desceu.
—Quemvaiseramotorista?
Hannah pulou do banco traseiro para o dianteiro e assumiu a direçã o. Sua farda da CG,
brancaeengomada,continuavaimpecável.
Macsacudiuacabeça.
—Você sduasparecemumpardesoldadosdopelotã ofemininodoexé rcito,maselesnã o
convocammaisessetipodegente.
Eleolhouparaumladoeparaooutrodaestrada,eChloefoicompelidaafazeromesmo.
Erameio-dia,osolestavaapinoequente. Nã o havia nuvens no cé u. Ela nã o viu outro veı́c ulo
nemouviusomdemotorfuncionando.
—Nã osepreocupemcomigo—elecomplementou.—Algué mvaipassarporaquieme
darumacarona.
Macpegouamochiladelonaqueestavanapartetraseiradoveı́c uloeatirou-aporcima
do ombro. Ele també m carregava uma maleta. Gustaf Zuckermandel Jr., a quem todos
chamavamdeZekeouZ,pensaraemtudo.Ojovemcorpulentoepesadã odeChicagohavia-se
transformadonomelhorespecialistadomundoemforjardocumentosecriardisfarces,eChloe
lembrou-se de que os trê s ali eram fruto das mã os habilidosas daquele jovem. Era muito
estranho ver Mac sem sardas e sem os cabelos ruivos. Agora, ele tinha pele de tonalidade
escura,cabeloscastanhoseusavaó c ulosapenascomodisfarce.Elasó esperavaqueotrabalho
queZfizeraemseupaienosoutrosqueforamparaPetrativessesidotãoperfeitoassim.
Mac colocou a mochila e a maleta no chã o e apoiou os antebraços em cima da porta do
ladodomotorista,ficandocomorostoaalgunscentímetrosdodeHannah.
— Ei, meninas, você s já decoraram tudo? — ele perguntou. Hannah olhou para Chloe
lutandoparaconterumsorriso.Quantasvezeselehaviafeitoamesmaperguntaduranteovôoe
naestrada?Ambasassentiramcomacabeça.—Queroverseuscrachásmaisumavez.
Hannahestavadefrenteparaele.
— Indira Jinnah, de Nova Dé lhi — Mac leu. Chloe inclinou-se para que ele pudesse ver o
dela.—ChloeIrene,deMontreal.—Elecobriuoprópriocrachácomamão.—Evocêsestãoa
serviçodequem?
— Do comandante sê nior Howie Johnson, de Winston-Salem — respondeu Chloe. Ela e
Hannahjá haviamditoissoin initasvezes.—Agoravocê fazpartedocorpodeo iciaisdaCGna
Grécia,e,sealguémduvidar,poderáchecarnopalácio.
— Muito bem — disse Mac. — Pegaram suas pistolas? Esta Kronos aqui, ou pelo menos
umaparecidacomela,temmaispoderdefogo.
Chloe sabia que elas necessitavam de armas mais potentes, principalmente por nã o
saberem quem encontrariam no caminho. Mas aprender a lidar com a Luger e a Uzi — que
poderiam ser conseguidas com os gregos clandestinos — havia sido uma incumbê ncia muito
pesadaparaelaantesdepartirdeChicago.
—Continuoachandoqueopessoaldacooperativavairecusar-seafalarquandovirnossas
fardas—disseHannah.
—Mostreoselonatestaaeles,queridinha—disseMac.
O radiotransmissor instalado debaixo do painel foi acionado automaticamente. "Atençã o,
Forças Paci icadoras da CG. Comunicamos que o Serviço de Segurança e Inteligê ncia efetuou
um ataque aé reo sobre vá rios milhõ es de subversivos armados em um local encravado nas
montanhas, descoberto por nossa infantaria, a cerca de 80 quilô m etros a sudeste de Mizpe
Ramon,nodesertodoNeguev.Osrebeladosassassinaramumgrandenú m erodesoldadosdaCG
eapossaram-sedetanquesecaminhõesblindados,cujaquantidadeaindaédesconhecida.
"O diretor do Serviço de Segurança e Inteligê ncia da Comunidade Global, Suhail Akbar,
anunciou que duas ogivas foram atiradas simultaneamente, seguidas de um mı́ssil lançado do
AeroportodaRessurreiçãodeAmã,comafinalidadededestruiroquartel-generaldosrebeldese
todos os seus componentes. Apesar de ainda haver alguns focos de resistê ncia ao redor do
mundo,odiretorAkbaracreditaqueesseataquedestruirá 90%dosjudaı́stastraidores,inclusive
TsionBen-Judáetodososseusasseclas."
Chloelevouamãoàboca,eHannahsegurouaoutramãodela.
— A ú nica coisa que você s tê m a fazer é orar, meninas — disse Mac. — Todos nó s
sabíamosqueissoiaacontecer.Outemosféounãotemos.
— E fá cil falar... — disse Chloe. — Podemos ter perdido quatro pessoas, sem mencionar
todososisraelensesqueprometemosproteger.
—Eunã oestoulevandooassuntonabrincadeira,Chloe.Mastemosumtrabalhoafazer
aqui, e este lugar nã o é mais seguro do que uma montanha sob um ataque aé reo. Mantenha a
calma, está bem? Preste atençã o. Nã o vamos saber o que aconteceu em Petra enquanto nã o
virmostudocomnossosolhoserecebermosnotı́c iasdenossopessoal.Você já ouviuasmentiras
queaCGdisseaopró priopessoaldeles!Sabemoscomcertezaqueexisteapenasummilhã ode
pessoasemPetrae...
—Apenas?!
—Eissomesmo.Apenasummilhã o,comparadoaosvá riosmilhõ esqueelesdisseram.E
armados? De jeito nenhum! Você acha que matamos soldados da CG? E que nos apossamos
daqueles...
—Eusei,Mac—disseChloe.—Éque...
— E melhor você ir se acostumando a me chamar pelo meu novo nome, Sra. Irene. E
lembre-sedetudooqueconversamosemChicago.Talvezvocê sprecisemlutar,defender-see
atémesmomataralguém.
—Euestoupreparada—disseHannah.
Macempinouacabeça,surpreso.Chloetambé msurpreendeu-se.ChloesabiaqueHannah
estava tã o entusiasmada com essa missã o tanto quanto ela, mas nã o a ponto de querer matar
alguém.
—Odesa ioestá lançado.—HannaholhouparaChloee,depois,paraMac.—Nã oexiste
maisdiplomacia.Seeutiverdeescolherentremataroumorrer,voumataralguém.
Chloelimitou-seasacudiracabeça.
—Só estoudizendo—complementouHannah—queestamosemguerra.Você sacham
que eles nã o vã o matar Sebastian? Talvez já tenham feito isso. E nã o estou acreditando que
vamosencontrarvivaessataldeStavros.
—Então,porqueestamosaqui?—perguntouChloe.
— Para o que der e vier — respondeu Hannah, com um sotaque indiano cadenciado,
conformeAbdullahlheensinaraemChicago.
— E isso mesmo, para o que der e vier — disse Mac, pegando novamente a mochila e a
maleta. — Nossos telefones sã o seguros. Deixem os receptores de luz solar expostos durante o
dia...
—Ora,Mac—disseChloe.—Dêumpoucodecréditoanós.
—Ah,é claroquesim—disseMac.—Acreditomuitonacapacidadedevocê s.Abemda
verdade,estouimpressionadocomofatodevocê tervindoaté aqui,Chloe,parasalvaralgué m
que nunca viu. E Hannah, isto é , Indira, acho que você nã o chegou a conhecer George o
suficientepara...bem,paracuidardelepessoalmente.
Hannahmovimentouacabeçanegativamente.
— Mas nó s estamos aqui, nã o é mesmo? — prosseguiu Mac. — Algué m estava aqui
trabalhandoparanó se,peloquesabemos,essapessoaestá encrencada.Nã oseiquantoavocê s,
maseunãovousairdaquisemele.
Mac girou o corpo e olhou para o horizonte. Chloe e Hannah izeram o mesmo. Um
pequenopontonegroaumentavadetamanhoàmedidaqueseaproximavadeles.
—Émelhorvocêspartirem—disseMac.—Emantenhamcontato.
Aprimeiraimpressã odeRayfordfoiadeestarnoinferno.Será queelehaviaseenganado?
Teria trabalhado tanto por nada? Estaria morto sem ter ido para o cé u apesar de tudo o que
haviafeito?
Ele nã o percebeu o intervalo entre as explosõ es. As bombas provocaram uma
luminosidadetã ointensaque,apesardeRayfordestarcomosolhosfechadosomaisquepodia,o
clarãopareciatomarcontadetodooseucrânio.Asensaçãoeraadequeobrilhoseaproximava
e se afastava dele. Rayford fez uma careta diante do estrondo e do calor que se seguiram.
Certamente,eleseriaatiradocontraasoutraspessoasatéserdestruídoporcompleto.
Aressonâ nciadoestrondoofezestremecer,masRayfordnã osedesequilibrou,nã oouviu
nenhum barulho de pedras despencando, nem de formaçõ es montanhosas batendo umas nas
outras. Instintivamente, esticou os braços para irmar-se, mas aquele gesto foi desnecessá rio.
Gemidos, lamentos e gritos vinham de todos os lados, mas de sua garganta nã o saı́a nenhum
som.Mesmocomosolhosfechados,eleviuoclarã osersubstituı́doportonalidadesalaranjadas,
vermelhasepretas,eagora,ah,umcheiroterríveldefogo,metal,óleoepedra!
Rayford forçou-se a abrir os olhos. Quando o estrondo ensurdecedor ecoou por toda a
cidadedePetra,elepercebeuqueestavaemchamas.Levantouosbraçossobomantodiantedo
rosto,semsedarcontadocalorabrasador.Elesabiaqueseumanto,depoissuacarne,edepois
seusossosseriamconsumidosemsegundos.
Rayford nã o conseguia enxergar nada por causa do fogo devastador, mas todos os
peregrinosà suavoltatambé mestavamemchamas.Abdullahroloudeladoe icouemposiçã o
fetal, continuando a proteger o rosto e a cabeça com os braços. As labaredas crepitantes —
brancas, amarelas, alaranjadas e negras — o envolveram como se ele fosse um pavio humano
preparadoparaumholocaustodemoníaco.
Umaauma,aspessoasaoredordeRayfordcomeçaramalevantar-sedochã oeaerguer
os braços. O fogo lambia os capuzes, os cabelos, as barbas, os rostos, os braços, as mã os, os
mantoseasroupas,comoseestivessesendoabastecidoporumcombustı́velsobospé sdaquele
povo.Rayfordolhouparacimaenãoconseguiuenxergarocéuazulelímpido.
Até osolestavatoldadopelasimensaschamasviolentaseporummedonhopardenuvens
em formato de cogumelo. A montanha, a cidade, a á rea inteira estava tomada pelo fogo. As
colunasdefumaçaeaslabaredaserguiam-seacentenasecentenasdemetrosdealtura.
Rayfordgostariadesaberoqueomundopensariadaquelacena,e,derepente,ocorreu-lhe
queamultidã oestavatã oestarrecidaquantoele.Atordoados,osisraelensesolhavamunspara
os outros, com os braços levantados, e agora estavam se abraçando, sorrindo! Que espé cie de
pesadelo bizarro era aquele? Apesar de estarem envolvidos pela mais moderna tecnologia de
destruiçã o em massa, como eles conseguiam permanecer em pé , perplexos, com os olhos
semicerrados,ouvindotudocomclareza?
Rayford abriu e fechou a mã o direita, a alguns centı́m etros do rosto, olhando extasiado
paraaslı́nguassibilantesdefogoquelambiamcadaumdeseusdedos.Abdullahconseguiu icar
empé erodavaemcı́rculocomoseestivesseembriagado,levantandoosbraçoscomoosoutros
eolhandoemdireçãoaocéu.
Ele virou-se para Rayford, e os dois se abraçaram. As chamas que envolviam seus corpos
semisturaram,formandoumasó.Abdullahafastou-separaverorostodeRayford.
—Estamosdentrodafornalhadefogoardente!—exultouojordaniano.
— Amé m! — gritou Rayford. — Somos um milhã o de Sadraques, Mesaques e AbedeNegos!
ChangWongreuniu-seaosoutrosté cnicosdeseudepartamento,etodosforamconduzidos
pelo chefe, Auré lio Figueroa, a um enorme aparelho de TV que mostrava imagens ao vivo da
cabina de um dos bombardeiros. Eles voavam em cı́rculo sobre Petra, e as imagens estavam
sendo transmitidas ao mundo inteiro por meio da CNNCG. Mais tarde, Chang veri icaria a
gravaçãoclandestinaqueestavasendofeitanoescritóriodeCarpathia,paraobservarasreações
deNicolae,suanovasecretáriaKrystall,Leon,SuhaileVivIvins.
—Missã ocumprida—avisouopiloto,esquadrinhandooalvoemostrandoaextensaá rea
emchamas.—Sugiroqueolançamentodomíssilsejaabortado.Considerodesnecessário.
Chang cerrou os dentes com tanta força que suas mandı́bulas chegaram a doer. Como
algué mpoderiasobreviverà queleataque?Aschamaseramintensas,eafumaçanegrasubiatã o
altoqueopilototevededesviar-sedelaparaexibirumaimagemnítida.
— Negativo — foi a resposta do Comando da CG. — Amã , inicie o lançamento
subseqüente.
—Operaçãoinútil—resmungouopiloto-,masodinheironãoémeu.Retornandoàbase.
—Repita!—AvozpareciaseradeAkbar.
—Positivo.Retornandoàbase.
—Negativomaisumavez.Permaneçaemposiçãoparacaptarasimagens.
—Comummíssilacaminho,senhor?
—Mantenhadistânciasuficiente.Omíssilencontraráoalvo.
O segundo aviã o foi liberado para retornar a Nova Babilô nia, enquanto o primeiro, com a
câ mera continuando a mostrar ao mundo a cidade de Petra em chamas ao sol do meio-dia,
voavaemcírculosasudestedacidadedepedrasvermelhas.
Changgostariadeestaremseuquartoparapodercomunicar-secomChicago.ComooDr.
Ben-Judápoderiater-seenganadotantoarespeitodePetra?OqueseriadoComandoTribulação
agora?Quemajuntariaoquerestaradoscrentesaoredordomundo?EparaondeChangfugiria
quandochegasseahora?
Eram 4 horas da manhã em Chicago, e Buck estava sentado diante do aparelho de TV.
LeaheAlbiereuniram-seaele.ZekehaviasaídoparabuscarEnoque.
—OndeestáMing?—Buckperguntou.
—Tomandocontadobebê—respondeuLeah.
—Oquevocêsachamdisso?—Albieperguntou,semdesviarosolhosdaTV.
Bucksacudiuacabeça.
—Eugostariadeestarlá.
—Eutambém—disseAlbie.—Estoumesentindoumcovarde,umtraidor.
—Nósfalhamosemalgumacoisa—disseBuck.—Todosnósfalhamos.
Ele continuava tentando ligar para Chloe apenas imaginando o que ela estaria passando.
Ninguématendeu.
— Nã o dá para acreditar no que esse sujeito está fazendo! — disse Leah. — Ele nã o se
contenta em matar um milhã o de pessoas e em destruir uma das cidades mais bonitas do
mundo.Agoraelevaiusarummíssil!
Buck notou que a voz de Leah estava tensa. E por que nã o? Ela devia estar pensando o
mesmo que ele. Alé m de perderem seu lı́der e de terem visto um milhã o de pessoas envoltas
pelofogo,tudooqueelesimaginavamsaberhaviasidoatiradopelajanela.
— Vá chamar Ming, por favor — ele pediu a Leah. — Diga a ela para deixar Kenny
dormindo.
Leah saiu apressada, enquanto Zeke retornava com Enoque. Zeke atirou seu corpanzil no
chão,masEnoquecontinuouempé,inquieto.
— Nã o posso icar aqui por muito tempo, Buck — ele disse. — Meu pessoal está abalado
demais.
Buckassentiucomacabeça.
—Vamosnosreunirquandoodiaclarear.
—E...?—disseEnoque.
—Nãoseiparaquê.Orar,acho.
—Temosoradootempotodo—disseAlbie.—Éhoradedescansarmosumpouco.
Rayford nã o conseguia parar de rir. As lá grimas misturavam-se com as sonoras
gargalhadasquevinhamdedentrodelequandoopovodePetrapassouagritar,cantaredançar.
Elesformaram,espontaneamente,umcı́rculoenormeecomeçaramarodar,comosbraçosnos
ombrosunsdosoutros,saltandodealegria.Abdullah,aoladodeRayford,riaegritava:
—LouvadosejaoSenhor!
Ofogoeratã oforte,tã oabrasadoretã oaltoqueelessó conseguiamverumaooutroeas
chamas.Nã oseviaocé u,osol,nadaadistâ ncia.Elessó sabiamqueestavamnomeiodamaior
fogueiradaHistóriasemsofrerdanoalgum.
—Será quevamosacordar,capitã o?—gritouAbdullah,soltandogargalhadas.—Esteé o
sonhomaisfantásticoquejátive!
— Estamos acordados, meu amigo — gritou Rayford, apesar de Abdullah estar a poucos
centímetrosdele.—Eumebelisquei!
Aquelaobservaçã ofezAbdullahrirmaisainda.Enquantoocı́rculogiravaeaumentavade
tamanho,Rayfordseperguntouquandoofogoseextinguiriaparaqueomundodescobrisseque
Deustriunfaramaisumavezsobreasforçasdomal.
Um casal de idosos bem na frente dele entreolhava-se, enquanto o cı́rculo girava e as
pessoas,maravilhadas,estampavamlargossorrisosnorosto.
—Estouemchamas!—gritouamulher.
—Eutambém!—disseohomem.
Elesaltoudesajeitadamenteequasederrubouamulhereosoutrosquandodeuumchute
noarparamostraraelaqueofogoestavatomandocontadesuapernainteira.
Rayford olhou para os dois convencido de que algo estranho estava acontecendo e
imaginandosepoderiahaveralgumacoisamaisestranhadoqueaquilo.Aquieali,dentrodeseu
â ngulo de visã o que alcançava apenas uns trê s metros de distâ ncia, ele avistou um amontoado
deroupas,sinaldequeaindahaviagentenochão.
Quando Rayford se afastou de Abdullah, um jovem do outro lado dirigiu-se a um dos que
estavam no chã o. Ele ajoelhou-se e colocou a mã o no ombro do homem, tentando fazê -lo
levantar-se ou, pelo menos, erguer a cabeça. O homem o repeliu, gemendo, tremendo e
chorando:
—Deus,salva-me!
— Você está salvo! — disse Rayford. — Olhe! Veja! Estamos em chamas e nã o sofremos
nenhumdano!Deusestáconosco!
Ohomemsacudiuacabeçaevoltouaenrolar-seemseusbraçosepernas.
—Vocêestámachucado?—perguntouRayford.—Aschamasoqueimaram?
—EstousemDeus!—choramingouohomem.
—Nãopodeser!Vocêestásalvo!Estávivo!Olheàsuavolta!
Mas o homem nã o queria ser consolado. Rayford avistou outras pessoas — homens,
mulheresealgunsadolescentes—namesmacondiçãolastimável.
— Atençã o, pessoal! Atençã o, pessoal! — Sem dú vida, a voz era de Tsion Ben-Judá , e
Rayfordpressentiuquevinhadeperto,apesardenã oenxergarorabino.—Haverá tempopara
jú bilo,celebraçã o,louvoreagradecimentoaoDeusdeIsrael!Porenquanto,prestematençã oao
queeuvoudizer!
A dança, os gritos e os câ nticos pararam, mas as risadas continuavam. O povo, ainda
sorrindo e abraçado um ao outro, olhou para o lugar de onde veio a voz. Aparentemente, eles
concluíramquebastavaouvi-la.Osgritosdedesesperocontinuavam.
— Eu nã o sei — o Dr. Ben-Judá começou a dizer — quando Deus levantará a cortina de
fogo e quando voltaremos a ver o cé u azul. Nã o sei quando ou se o mundo saberá que fomos
protegidos.Porenquanto,ésuficientequeapenasnóssaibamos!
Opovoaplaudiucomgritos,masantesqueelecomeçasseacantareadançarnovamente,
Tsionprosseguiu.
— Quando o demô nio e seus conselheiros se reunirem, eles verã o que o fogo nã o teve
poderalgumsobreosnossoscorpos;nossoscabelosnã oforamchamuscados,nemnossasroupas
foram dani icadas, e o cheiro do fogo nã o penetrou em nó s. Eles interpretarã o da maneira que
desejarem, meus irmã os e irmã s. Talvez nã o permitam que o restante do mundo veja estas
cenas.MasDeusserevelaráàsuamaneiraeemseutempocerto,comosemprefaz.
—EhojeEletemumapalavraparavocê s,amigos.Elediz:"Eisqueteacrisolei,masdisso
nã oresultouprata;provei-tenafornalhadaa liçã o.Poramordemim,poramordemimé que
façoisto;porquecomoseriaprofanadoomeunome?Aminhagló rianã oadouaoutrem"(Isaı́as
48.10,11).
—"Dá -meouvidos,ó Jacó , etu,ó Israel",dizoSenhordosexé rcitos,"aquemchamei;eu
sou o mesmo, sou o primeiro, e també m o ú ltimo. També m a minha mã o fundou a terra, e a
minha destra estendeu os cé us; quando eu os chamar, eles se apresentarã o juntos" (Isaı́as
48.12,13).
— "Ajuntai-vos, todos vó s, e ouvi! Quem, dentre eles, tem anunciado estas coisas? O
Senhor o amou, e executará a sua vontade contra Babilô nia, e o seu braço será contra os
Caldeus.Eu,eutenhofalado"(Isaías48.14,15).
—"AssimdizoSenhor,oteuRedentor,oSantodeIsrael:EusouoSenhor,oteuDeus,que
teensinaoqueé ú t il,eteguiapelocaminhoemquedevesandar.Ah!Setivessesdadoouvidos
aos meus mandamentos! entã o seria a tua paz como um rio, e a tua justiça como as ondas do
mar[...]proclamai-o,elevai-oaté ao imdaterra;dizei:OSenhorremiuaseuservoJacó . Nã o
padeceram sede, quando ele os levava pelos desertos. Fez-lhes correr á gua da rocha; fendeu a
pedraeaságuascorreram"(Isaías48.17,18,20,21).
Enquanto o Comando Tribulaçã o observava as cenas em Chicago, o piloto do caçabombardeiro informou ao Comando da CG que conseguiu avistar o mı́ssil partindo de Amã . No
lado direito da tela, apareceu o rastro da fumaça branca e espessa do projé til enquanto ele se
aproximavadaslabaredasedafumaçaquesubiamdePetra.
O mı́ssil mergulhou e desapareceu na escuridã o e, segundos depois, ouviu-se outra
explosã o. O fogo alastrou-se ainda mais, parecendo tomar conta de toda aquela regiã o
montanhosa.Emseguida,umjatocolossaldeá gua,demaisdemilmetrosdealtura,subiuem
direçãoaocéu.
—Euestou...—opilotocomeçouadizer—euestouvendo...nã oseioqueestouvendo.
Agua.Sim,á gua.Elaestá espirrando.Está ...hã ...produzindoalgumefeitonofogoenafumaça.
Agora vejo melhor. A á gua continua a subir e está encharcando a á rea. Parece que o mı́ssil
bateucontraumafontedeáguaque,hã...istoéumaloucura,comandante.Euvejo...possover...
aschamasseapagando,afumaçadesaparecendo.Hápessoasvivasláembai...
Bucksaltoudacadeiraeajoelhou-sediantedaTV.Seusamigosgritavameaplaudiam.A
imagemdesapareceu,eaCNNCGjáestavasedesculpandoporproblemastécnicos.
—Vocêsviram?—Buckgritou.—Elesestãovivos!Elesestãovivos!
Changergueuassobrancelhaseabriuaboca.Seuscolegaspraguejavameapontavampara
atela,resmungandoquandoatransmissãofoiinterrompida.
— Nã o pode ser! Parecia que... nã o, nã o pode ter havido nenhuma chance! Por quanto
tempoaquelelugarficouqueimando?Duasbombaseummíssil?Não!
Chang correu até seu computador para ter certeza de que ele continuava a gravar as
imagensdoescritó riodeCarpathia.Elemalpodiaesperarparaouvirodiá logoentreAkbareo
piloto.
Rayford estava em pé , ao lado de Abdullah, ouvindo as palavras de Tsion quando a terra
abriu-secomumestaloensurdecedoreumjatodeá guadepelomenostrê smetrosdediâ metro
irrompeu do solo subindo velozmente como um foguete, tã o alto que levou um minuto para
começaracairemformadechuvasobreeles.
As chamas e a fumaça cessaram rapidamente, e a á gua refrescante parecia agradá vel
demais. Rayford notou que os outros estavam fazendo o mesmo que ele. Todos estenderam as
mã os com as palmas para cima e viraram o rosto em direçã o ao cé u, para que a á gua os
lavasse. Em seguida, Rayford percebeu que estava a uns cem metros de Tsion e de Chaim,
ambosempénabeiradogigantescoabismoqueseformouquandoaáguairrompeudaterra.
Parecia que Tsion estava tentando novamente chamar a atençã o da multidã o, mas seu
esforço foi em vã o. Todos corriam, saltavam e abraçavam-se, cantando, dançando,
cumprimentando-se, rindo. Em breve, centenas de milhares de pessoas estavam gritando
agradecimentosaDeus.
Apesar disso, Rayford notou que algumas pessoas aqui e ali estavam sofrendo, chorando.
Seriamincré dulas?Comosobreviveram?Será queDeusasprotegerasó porestaremali?Rayford
nã o encontrava uma explicaçã o. Seria importante saber quem foi protegido e quem nã o foi, e
porquê?Tsionfalariasobreaqueleassunto?
Apó salgunsminutos,ChaimeTsionconseguiramchamaraatençã odopovo.Omilagrede
Tsion ser ouvido por um milhã o de pessoas sem ajuda de alto-falantes foi maior ainda, porque
agora o povo o ouvia apesar do barulho provocado pelos jatos de á gua, semelhante ao de um
vulcãoemerupção.
—Concordeiem icaraquiporalgunsdias—anunciouTsion.—ParaadoraraDeuscom
você s. Para agradecer a Deus com você s. Para ensinar. Para pregar. Ah, observem que o
volumedeáguaestáreduzindo.
Obarulhocomeçouadiminuir,eotopodacolunadeáguafoisendovistoaospoucos,agora
a 300 metros acima deles. De modo lento, mas constante, o jato de á gua foi diminuindo de
altura, mas nã o na largura. Em seguida, a altura foi reduzida para 30 metros, depois para 15
metrosedepoisparatrêsmetros.
Finalmente, o volume reduziu-se a um pequeno lago dentro da cratera que se formou
quando o jato de á gua irrompeu do solo. No meio desse lago de trê s metros de largura e 30
centı́m etrosdealtura,umanascenteborbulhavacomoseestivessefervendo,massuaá guaera
frescaereconfortantee,aparentemente,complementavaomilagrequeacabaradeocorrer.
—Algunsdevocê sestã ochorandoesesentindoenvergonhados—disseTsion.—Ecom
razã o.Nospró ximosdias,vouministraravocê stambé m.Porenquanto,você snã oreceberama
marca do demô nio, nem assumiram o compromisso de aceitar o ú nico e verdadeiro Deus. Por
ser misericordioso, Ele decidiu, de antemã o, protegê -los, dar-lhes mais uma chance de aceitá lo.
— Muitos farã o isso hoje mesmo, antes de eu começar a lhes falar sobre as riquezas
insondá veisdoMessias,deseuamoreperdã o.Apesardisso,umgrandenú m eropermanecerá no
pecado, correndo o risco de icar com o coraçã o tã o endurecido a ponto de nunca mais mudar
de idé ia. Mas você s jamais se esquecerã o deste dia, desta hora, deste milagre, desta prova
inequı́voca e irrefutá vel de que o Deus de Abraã o, de Isaque e de Jacó continua no controle de
tudo.Vocêstêmaopçãodeseguirseucaminho,porémjamaispoderãonegarqueafééavitória
quevenceomundo.
CAPÍTULO2
EmChicago,BucktentouligarparaChloe,depoisparaRayford,depoisparaChang.Nada.
Eledeixouotelefonedelado,masnãoconseguiuficarsentado.
—OndeestáMing?—eleperguntou.—Elasabeoqueestáacontecendo?
—Mingnãoestáaqui—disseLeah.
—Estáláembaixo?DigaaelaparadeixaropessoaldeEnoquedormiresubiratéaqui.
—Meupessoalnãoestádormindo—disseEnoque.
—Elanãoestáláembaixo—disseLeah.—Deixouumbilhete.
—Oquê?
—Oirmãodelalhecontoualgumacoisasobre...
—OndeestáKenny?
—Dormindo,Buck.Eleestá bem.Presteatençã o.Oirmã odelalhecontoualgumacoisa
sobreseuspais,eelaresolveuiraoencontrodeles.
—Oh,não!—disseZeke.
—Elalhedissealgumacoisa,Z?—perguntouBuck.
— Nã o, mas eu devia ter percebido. Fiz algumas coisas para ela hoje cedo. Cortei seu
cabelo,coisasassim.Quantoaosdocumentos, izomelhorquepude.Transformeiamoçanum
rapaz,querodizer,nãofoibemassim.Sómudeiojeitodela...éisso...vocêsabe.
Bucksabiamuitobem.Paracomeçar,Mingeraumamulhermiú da.Nã otinhacomo icar
parecida com um rapaz, mas Zeke cortou seu cabelo, mostrou-lhe como portar-se como um
homem, cortou suas unhas, tirou a cor de seu rosto. Pegou a antiga farda dela que pertencia à
CG,fezalgumasalteraçõ esemsua isionomiaeatransformouemumjovemsoldadodasForças
PacificadorasdaCG.
—Comquenome?—Buckquissaber.
—Doirmã odela—disseZ.—Chang.SobrenomeChow.Eunã osabiaqueelaiasairdaqui
tãodepressa.
—Aculpanã oé sua.Quantotempofazqueelafoiembora?Talvezagentepossaalcançá la.
—Buck!—ralhouLeah.—Elaé umamulheradulta,viú va.SeelaquiserirparaaChina,
nãopodemosimpedi-la.
Bucksacudiuacabeça.
— Por quanto tempo você acha que vamos icar protegidos aqui se cada um resolver
andar por aı́ quando lhe der na telha? Chang já nos contou que o pessoal do palá cio está
começandoaficardesconfiado.StevePlankjáouviuessanotícianoColorado,enãovaidemorar
muitoparaquealguémcomeceabisbilhotarporaqui.
— Provavelmente ela nã o lhe contou o que ia fazer porque sabia que você tentaria
dissuadi-la.
—Eupoderiaterajudado.Encontradoumacaronaparaela,algumacoisa.
—Ah,sim,atéparecequevocêiaarrumarumaviãoeumpilotoparaela.
O sarcasmo de Leah forçou Buck a olhar irme para ela. Seu sogro havia-se queixado de
queaquelamulhereraassimmesmo,masBuckaindanãohaviasedefrontadocomela.
—Issonãoajudaemnada,Leah—eledisse.
—VocêpoderiaserútilaelaenviandoAlbieparaacompanhá-la.
—Eunãosabiaqueelaestavaindoembora!
—Bem,agorajásabe.
—Eeuestoudisponível—disseAlbie.—Mas...
— Nã o podemos correr riscos com você — disse Buck. — De qualquer forma, sua
identificaçãofalsafoidescobertaeaindanãoprovidenciamosumanovaparavocê.
—Eupossoresolverissoem24horas—disseZeke.
—Nã o!Vamosesperarqueelaconsigaoquedesejaequenosavise.—Buckchutouuma
cadeira.—Nã oentendocomoelavaisefazerpassarporumrapaz.Elatemumavozmaciac
delicada.
—Nãoquandogritaordensnaprisão—disseLeah.
— Entã o, é melhor ela gritar ordens no caminho inteiro até a China — disse Buck. —
Imaginem se ela for descoberta. Eles vã o saber que ela desertou da PRFB da Bé lgica,
estabelecer uma ligaçã o com o irmã o dela e, bingo!, ele já era. E nó s, como icamos nessa
história?
Chloe nã o imaginou o que encontraria pela frente, mas Ptolemaı̈s nã o parecia ter sido
devastadaporumaguerra.FaziaumbomtempoqueaCGdeixaraaGré ciaempaz,emparte
porque aquele paı́s pertencia aos Estados Unidos Carpathianos, disso Chloe tinha certeza.
Nicolaenã ohaveriadequereratrairaatençã odomundoparaosjudaı́stasdaregiã oquelevava
seunome.Masogrupodecrentesaumentoutantoqueagoraeradifícildemaisocultá-los.
Assimqueaprimeiraondadatá ticadequeda-de-braçovarreuaregiã oeresultouemum
nú m ero muito grande de pessoas que preferiram enfrentar a guilhotina a aceitar a marca de
lealdade a Carpathia, a batalha entre a CG e os seguidores de Cristo tornou-se cada vez mais
difícil.Aaplicaçãodamarcadelealdadecomeçoucomosprisioneiros,eosresultadosnãoforam
satisfató rios em razã o da in iltraçã o de espiõ es. Dois jovens prisioneiros fugiram. E, tã o logo a
primeiraeapiorfasedadecapitaçãonaguilhotinaterminou,avigilânciatornou-semaisbranda.
Uma das rami icaçõ es mais fortes da Cooperativa Internacional de Mercadorias,
idealizadapelapró priaChloe,instalousuasedenacidadeetornou-seumlocalclandestinopara
as reuniõ es dos crentes. Poré m, uma emboscada custou à igreja nã o apenas a vida de Lukas
"Laslos" Miklos, mas també m a de Kronos, o mais antigo dos membros e muito querido pelos
crentes, alé m da vida do adolescente Marcel Papadopoulos. E se a moça que se fez passar por
Georgiana Stavros fosse realmente uma impostora chamada Elena, conforme Steve Plank
tomaraconhecimento,ChloeimaginavaqueGeorgianatambémestariamorta.
Havia poucas pessoas na rua durante o dia, e muitas pertenciam à CG. Elas
cumprimentaram educadamente as o iciais de alta patente da India e do Ocidente, que
trajavamfardasetinhamquepesbrancosnacabeçaenfeitadoscomcadarçosazuis.Albiehavia
ensinadoHannaheChloeafazercontinê ncia,queelaslogoconstataramsermuitodiferentedas
saudaçõ es feitas pelos verdadeiros funcioná rios da CG. Ambas tinham um ar de indiferença no
rosto. Nã o olhavam para ningué m e conversavam entre si em voz baixa para que ningué m
pudesseouvi-las.Oolharsé riodelas,quaseumacarranca,faziacomqueparecessematentasa
seusdeveres.
Tinham lugares para ir e pessoas para ver, e a conduta das duas desestimulava gestos de
cordialidadeeconversasdesnecessárias.
Diretamentedopalá ciodaCGemNovaBabilô nia,ChangWong,pormeiodadistribuiçã o
cuidadosa de memorandos con idenciais emitidos por falsos o iciais graduados das Forças
Paci icadoras,havialançadoumboatonaGré ciadequeache iaestavaenviandoumhomemde
altapatenteparacomeçarapôrordemnaconfusãoquereinavaali.
ChloeacreditavaqueossoldadosdaCG,queasolhavamduasvezesparacon irmaroque
estavamvendo,nãoeramingênuos.Elasupunhaque,pelasfardasdelaedeHannah,eleshaviam
matadoacharada.Deviamestarpensandoqueelastrabalhavamparaohomemdealtapatente,
fosseelequemfosseeestivesseondeestivesse.
Hannahsimulavamuitobemomododeandardeumao icial,eChloe—senã oestivesse
tã o nervosa — teria rido de "Indira". Elas caminharam apressadas até uma vitrina mal
iluminada, cujas trincas no vidro haviam sido coladas com ita adesiva. Havia uma TV
empoeiradaemcimadeumaprateleira,defrenteparaarua,ecercademeiadú z iadesoldados
da CG estavam ajoelhados ou de có c oras diante da vitrina assistindo à programaçã o. Um deles
notou a presença de Chloe e de Hannah pelos re lexos no vidro e pigarreou. Os outros
levantaram-serapidamenteeassaudaramcomumacontinência.
— Vamos andando, cavalheiros — disse Hannah, novamente com o sotaque que
aprendera.
Chloe lutou para controlar-se quando viu Petra em chamas e nã o entendeu por que a
CNNCGinterrompeubruscamenteatransmissã o.OshomensdaCGinclinaram-separaafrente
emdireçãoaoaparelhodeTVeentreolharam-se.
—Oqueéaquilo?—disseumdeles.—Sobreviventes?Osoutrosrirameocutucaram.
—Vocêestámaluco,homem.
—Devoltaaotrabalho,cavalheiros—ordenouHannah.
—Sim,senhor...istoé,senhora—disseumdeles,eosoutrosriram.
— Você sabe diferenciar um o icial homem de um o icial mulher, ilho? — perguntou
Chloe,comvozríspida.
—Sim,senhora—elerespondeu,perfilando-se.
—Vocêachougraça?
—Não,senhora.Peço-lhedesculpas.
—Ondeficaatavernamaispróxima?
—Como,senhora?
—Vocêtemdificuldadeparaouvir,rapaz?
—Não,senhora.Trêsquarteirõesadiante.Ficadooutroladodarua.
Eleapontouadireção.
—Vocêestádeserviço,soldado?
—Sim,senhora.
—Eondedeveriaestar?
—Nasededopelotão,senhora.
—Váandando.
Chloe e Hannah haviam deixado os telefones desligados. Elas combinaram com Mac que
só osusariamdepoisdoprimeirocontatocomoscrentesouemcasodeemergê ncia.Depoisdas
cenasqueviupelaTV,ChloesabiaqueseupaieBuckestavamtentandocomunicar-secomela,
masissopodiaesperar.
Algunsminutosdepois,umjovemsentadoemumacadeiranafrentedatavernaobservouas desviando os olhos do jornal que lia, oSemanárioComunidadeGlobal. Chloe calculou que ele
deveriater20epoucosanos.Elaperguntouasimesmaseojovemacreditariaqueseumarido
havia sido editor doSemanário.Orapazpareceumudardeposiçã ocasualmente.Puxouoboné
develudosobreosolhosedescansouopénavitrinaqueficavanoníveldacalçada.
—Vocêviuoqueeuvi?—Hannahperguntou,quasesemfôlego.
—Vi.Vamosemfrente.
Chloe e Hannah izeram de conta que o rapaz era invisı́vel e entraram na taverna. O
ambiente era sombrio, e elas demoraram um minuto para acostumar-se à escuridã o. O local
exalavaumodorcarregadodeálcooledeencanamentomalcuidado.
Dois homens da CG sentados a uma mesa de canto levantaram-se imediatamente e
saı́ramparaaruapelaportadosfundos.ChloeeHannah ingiramnã onotarnada.Oproprietá rio
cumprimentou-asemgrego.
—Inglês?—sugeriuChloe.
Elenegoucomummovimentodecabeça.
Umhomemdeturbantelevantou-seedissealgumacoisarapidamenteaHannahemum
dialetoindiano.Chloesurpreendeu-seaoverareaçã odeHannah.Ela itouohomemnosolhos,
como se tivesse entendido, e piscou para ele, fazendo um leve movimento negativo com a
cabeça.Aquilopareceusatisfazê-lo,eelevoltouasentar-se.
Oproprietá rioapontouparauma ileiradegarrafasdebebidasalcoó licasatrá sdele.Chloe
movimentouacabeçanegativamente.
—Coca-Cola?—elaperguntou.
— Coca-Cola! — ele repetiu, sorrindo e esticando o braço para pegar alguma coisa
embaixodobalcã o.Instintivamente,ChloeencostouocotovelonocabodaLugeraseulado,e
elanotouqueHannahcolocouamãonatiradecouroqueprendiasuaGlocknovemilímetros.
O homem atrá s do balcã o continuou a itá -las, e agora estava sorrindo, exibindo uma
antigagarrafadevidrodeCoca.Elelevantouumdedo,apontouparaagarrafaeempurroudois
coposemcimadobalcã o.Chloeentregou-lhedoisnickselevouagarrafaeoscoposparauma
mesa.
Depoisdeumgoledolíquido,reconfortanteparasuagargantaressecada,Chloevirou-sena
cadeiraeexaminouoambiente.Aspessoas,curiosas,desviaramoolhar.
— Inglê s? — ela perguntou. — Algué m fala inglê s? Uma cadeira foi arrastada, e um
homem corpulento, usando uma roupa por cima da outra e com o rosto transpirando,
aproximou-se com passos tı́m idos e curtos. Ele as cumprimentou educadamente, embora nã o
pertencesseàCG.
—Pocoenglês—eledisse.
—Vocêfalainglês?—elaperguntou.—Entendeoqueeufalo?
Eleaproximouopolegardodedoindicador,deixandoumpequenoespaçoentreeles.
—Umpouco?—elaindagou.Eleassentiucomacabeça.
—Poco.
—Subsolo—disseChloe.—Ondeficaosubsolo?
Ohomemarregalouosolhos,franzindoopequenonúmero216tatuadoemsuatesta.
—Suboquê?
Elaapontouparabaixo.—Subsolo.Pavimentoinferior.Porão.
Ohomemlevantouamãocarnudaesacudiuacabeça.
—Limpeza—eledisse.—Lavaroupa.
—Umalavanderia?—eladisse,percebendoHannaharregalarosolhos.Eraissomesmo.
Eleassentiucomacabeça.
—Obrigada—disseChloe.
—Obregado—eledisse,semsairdolugar,comosdedosentrelaçados.
Chloepegouumamoedanobolsoeaentregouaele.Ohomemcurvouocorpoemsinalde
agradecimentoedirigiu-seaobalcão.
— O que será que eles sabem? — disse Hannah em voz baixa. — O restante do lugar
pareceestaraguardandoqueagentefaçaalgumacoisa.
— També m acho — disse Chloe. — Vamos continuar aqui por alguns instantes e depois
sair para dar uma espiada. A lavanderia é uma fachada, mas deve haver algué m que a utilize
paralavarroupas.
Hannahencolheuosombros.
— Será que eles precisam entrar aqui para chegar lá ? Acho que poucos crentes se
arriscariamafreqüentarestelugar.
As duas terminaram de tomar a Coca e olharam para seus reló gios. Ningué m havia saı́do
desde que elas chegaram, a nã o ser os dois homens da CG, e ningué m havia entrado. O jovem
sentado na cadeira levantou-se e caminhou, com passos lentos, de um lado para o outro,
passando duas vezes diante da porta. Duas pessoas que transitavam na calçada viram as
mulheresfardadasepreferiramnãoentrar.
Chloe e Hannah levantaram-se e caminharam a esmo, procurando a outra entrada que
davaacessoaoporão.
—Inglês?—Chloeperguntouaojovemnacalçada.
Eleencolheuosombroseaencarou.
—Existeoutraentradaaqui?
Elefezummovimentonegativocomacabeça.
—Nempelosfundos?Nempelaviela?Novamente,elenegoucomacabeça.
— Ouvi dizer que há uma lavanderia aqui — ela disse. — Tenho algumas roupas para
lavar.
Eleafitouerespondeucomsotaquegrego.
—Nãovejonenhumaroupasuja.
—Eunãoastrouxecomigo—eladisse.—Comopossodesceratéalavanderia?
—Ficadepoisdotoalete—eledisse,comvozáspera.
—Portadosfundos,destelado.—Ojovemapontouparaaportaporondeoshomensda
CGhaviamsaı́do.Emseguida,inclinouacadeiraparatrá saté encostaroespaldarnaparede.—
Masestáfechada.
—Nomeiododia?Porquê?
Eleencolheuosombros,puxandoaabadobonéevoltandoalerarevista.
—Ah,está bem—disseChloe,suspirandoesinalizandoparaqueHannahaseguisseaté a
esquina,paraqueelasficassemforadavisãodojovem.—Voudar30segundosaele.
Uminstantedepois,Hannahesticouopescoçoparaespiar.
—Comosempre,vocêestavacerta—eladisse.—Elesumiu.
As duas retornaram apressadas à taverna, dirigiram-se à porta dos fundos, depois do
toalete, e desceram correndo os degraus de madeira. Uma senhora magra, de meia idade,
usando uma malha cinza de lã e um lenço grande e colorido que lhe cobria todo o cabelo e
grandepartedorosto,olhouparaelasaterrorizadasobaclaridadequevinhadajanela.
—Lavanderia?—perguntouChloe.
Amulherassentiucomacabeça,comamãofechadasoboqueixo.
—Podemostrazerroupasparalavaraqui?
Ela voltou a assentir com a cabeça. Atravé s da abertura de uma cortina grossa,
dependurada em um batente atrá s da mulher, Chloe avistou o jovem. Ele estava com os olhos
arregalados.Elafezumgestoparaqueeleseaproximasse.
—Não!—disseamulher,emtomdedesespero,encostando-senaparede.
Ojovemarriscou-seaaproximar-sedelacomumaarmasobacamisa.
—Uzi?—perguntouChloe.
—Sim,evouusá-la—eledisse.
—Tireoboné—elaordenou.
—Anteseuvouatiraremvocê—eledissefazendoumgestoparapegaraarma.
Amulhergemeu.
—Não,Costas.
Quando ele lhes apontou a arma, Chloe e Hannah levantaram seus quepes. Depois que
todosdeixaramatestaàmostra,elesdisseramemuníssono:
—Jesusressuscitou.
Orapazfechouosolhosesoltouoardospulmõ escomforça.Amulherfoiescorregandona
paredeatésentar-senochão.
—Eleressuscitouverdadeiramente—elaconseguiudizer.
—Euquasemateivocê —disseCostas.Emseguida,virou-separaamulher.—Asenhora
estábem,mamãe?
Amãecobriuorostocomasmãos.
— Você s disfarçadas de CG? — ela disse em inglê s, com di iculdade. — O que estã o
fazendoaqui?
—SouChloeWilliams.Estaéminhaamiga,Han...
—Nãopossoacreditar!—disseamulher,passandoumlençonorostoelevantando-se.Ela
correuatéChloeeabraçou-acomforça.—SouPappas,tambémconhecidacomoSra.P.
—EstaéminhaamigaHannahPalemoon.
—Vocêtambémédacooperativa?—perguntouaSra.P.Hannahnegoucomacabeça.
—ÉdaÍndia?
—Não.DaAmérica.
—Vocêcomessedisfarceestáótima.HannahsorriueolhouparaCostas.
—Estelugaréseguro?
— Vamos sair daqui — ele disse, conduzindo-as atravé s da cortina até uma despensa de
paredesdeconcretolotadademantimentosprocedentesdetodasaspartesdomundo.
—Acooperativafuncionaaqui.Masestamossofrendomuito.Sobroupoucagente.
—Opessoalládecimanãoincomodavocês?
— Damos algumas coisas a eles. Nã o fazem perguntas. Eles també m tê m seus segredos.
Umdia,quandoacharemconveniente,elesvãonosentregar.
—Achefedacooperativaemminhacasa—murmurouaSra.P.comamã onocoraçã o.
—Ninguémvaiacreditar.
— Você s nã o podem icar muito tempo aqui — disse Costas. — Em que podemos ajudá las?
Dois jovens soldados das Forças Paci icadoras da CG izeram um gesto obsceno ao
passaremporMacdentrodeumapequenavan.Macnotouamudançadeexpressã onorostode
um deles quando o jovem prestou atençã o à sua farda. O veı́c ulo foi brecado com força no
asfalto,atirandocascalhoparaosladosaodarmarchaaréemsuadireção.
—Nósacenamos!—gritouojovemsentadonobancodopassageiroassimqueavanparou
eeledesceu.—Nósacenamosparaosenhor!Osenhorviu?
— Vi, e agradeço muito. — disse Mac. O motorista també m desceu, e Mac respondeu à
continê ncia deles. — Minha equipe de apoio teve de seguir em outra direçã o, e eu preciso
chegaraoaeroporto.
—Podemoslevá-loatélá.Osenhoraceitaumacarona?
—Sim,muitoobrigado—disseMac.Eleatirouamochilaeamaletanobancotraseiroe
acomodou-se.—OqueestáhavendoemPetra?
—Ouvimosasnotícias,senhor—disseomotoristaligandoorádio.
Mac apoiou a testa nas mã os como se estivesse tentando ouvir melhor e orou
desesperadamenteporseuscompanheiros.
— Foram todos queimados — prosseguiu o motorista. — Nã o restou nenhum corpo para
serenterrado.
— Quero ouvir a notı́c ia, rapazes — disse Mac, e os dois se calaram. Pouco antes de a
conexã o ser interrompida, Mac conseguiu ouvir algumas palavras do piloto que o deixaram
animado.
—Bem,asnotíciassãoboas,não?Opassageirovirou-separatrás.
— Claro. Nã o entendi muito bem a ú ltima parte, mas nó s conseguimos pegar aquela
gente,comcerteza.
Quandochegouaoaeroporto,Macmalpô deacreditarnadesordemqueviu.Opessoalda
CGquerestaraalipareciaindisciplinadoeindolente.Aquilopoderiatrabalharemseufavor.
—Euprecisodeumveı́c ulo—eledisseaoú nicosoldadodasForçasPaci icadorasquese
levantouelheprestoucontinê ncianohangarprincipal.—Precisodaschavesdoveı́c ulo,preciso
guardarminhascoisasequeroveroRoosterTail[avião],seeleestiveraqui.
—Ah,eleestáaqui,senhor,eestávamosàsuaespera.Voulevarsuascoisasatélá.
—Eulhepediparalevarminhascoisas?
—Nã o.Osenhordissebemclaroquequeriaguardarsuascoisas.—Osoldadocorreuaté
umaescrivaninhaepegouummolhodechavesdedentrodeumaenormecaixadepapelão.
— ORooster Tail está no hangar 6. O carro é o primeiro da ila. Posso buscá -lo para o
senhor.
—Façaisso.
—Ah,euiameesquecendo.Precisodigitarseucódigonocomputadore...
—Sódepoisdemetrazerocarro.
—Tudobem.
Osoldadocorreuaté ocarro.Macsabiaqueosoutrosestavamolhandoparaele,sentados
comocorpoereto,aparentementeatarefados.Masnadaaconteciaali;nã ohavianenhumaviã o
chegandooupartindo.
—Osenhorestáaquiparanosajudar,comandante?-gritoualguémdooutroladodasala.
Macolhoufirmeparaele.
—Como,soldado?
—Eupergunteiseosenhor...
—Euouvioquevocêdisse!Levante-sejádessacadeiraedirija-seamimcorretamente!
O soldado levantou-se rapidamente e enroscou o pé na roda da cadeira, cambaleando
antes de endireitar o corpo e aproximar-se. Mac encarou-o. O soldado parou e prestou-lhe
continência.Maccontinuouimóvel.
—Vocêcostumagritardooutroladodasalaparaosseussuperiores?
—Euestavadistraído,senhor.
—Vocêmefezumapergunta.
— Eu só estava querendo saber se ı́amos receber ajuda aqui. O senhor pode ver que
estamoscomfaltadepessoal.
Macpercorreuohangarcomoolhare,emseguida,examinouapistadedecolagem.
—Vocêsestãocommuitopessoalepoucotrabalho,esabemdisso.
—Sim,senhor.
—Estouerrado?
—Não,senhor.Ésóque...bem,estávamosacostumadosa...
—Podeficaràvontade!
O soldado prestou-lhe continê ncia mais uma vez e afastou-se. O outro parou o carro em
frenteaohangareabriuoporta-malas.
—Osenhorprecisadeajudacomotransatlântico,senhor?
— Só preciso de uma caixa de ferramentas e quero icar sozinho lá . O que você s
encontraramdentrodoavião?
—Nada,senhor.
—Vocêestábrincando.
—Recebemosinstruçõesdeentregá-loàchefia.Aosenhor,acho.
Mac pressionou os lá bios. Haveria alguma coisa que Chang Wong nã o conseguisse com
apenasalgumasdigitadasnotecladodocomputador?
—Arrumeumacaixadeferramentasparamimemedigaquemestá cuidandodojudaı́sta
capturado.
—Como,senhor?
Macempinouacabeçaeolhoudeesguelhaparaorapaz.
—Querdizerquefizemosumaemboscadabem-sucedidaparapegarumindivíduodebaixo
donarizdetodosvocêseninguémsabenadasobreisso?
—Ah,aquilo...Sim,nóssabíamos.Nóssabemos.Oqueosenhorperguntou?
—Quemestácuidandodoassunto?Pegaramumsuspeitovivoequerovê-lo.Tenhoordens
paravê-lo.
—Bem,eunãoseiondeeleestápreso,senhor.Istoé,eu...
—Eunãoesperavaquevocêsoubesseondeeleestápreso!Eulhefizestapergunta?
—Não,senhor.Sintomuito.
—Esperoquequemcuidoudaoperaçãoparanóssaiba.Entendeu?
—Claro.
—Então,quemé?
—Umsujeitocomumnomeesquisito.Emelhorosenhorveri icarnoquartel-generalde
Ptolemaïs.
—SeiqueéumtaldeNelsonStefanich.Vocêtevecontatocomele?
—Sim,senhor.
—Podedizeraessehomemquequeroconversarcomele?
—Sim,senhor.
— Diga a ele que espero obter toda a cooperaçã o e informaçõ es de que necessito assim
queeuchegarlá.
—Sim,senhor.Agora,osenhorpoderiamefornecerocó digodesegurançadeseisdı́gitos
para...
—Zero-nove-um-zero-zero-um—repetiuMac,comoumpapagaio.
Emseguida,elepegouacaixadeferramentasedirigiu-sedecarroaohangarondeoaviã o
de Sebastian estava guardado. Ele sabia onde George havia escondido seu arsenal, e, dentro de
segundos,conseguiuretirarospainé isdocompartimentodecargaepegarumaarmadeenergia
direcionada e um ri le calibre 50 com suporte bı́pede, guardando-os no porta-malas do carro.
Pela posiçã o da lingü eta de segurança que George colocara na porta do compartimento de
carga, Mac constatou que a CG havia vasculhado o local, mas nã o encontrara os painé is
secretos.
Eleretornouaohangarprincipal.
— Nã o encontrei nada — ele disse ao rapaz entregando-lhe a caixa de ferramentas. —
Ptolemaïssabequeestouindoparalá?
—Estãoaguardandosuachegada.
George Sebastian ingiu que continuava dormindo. Assim que acordou, ele ouviu
mensagensurgentes,cheiasdeestá tica,recebidasporseuscaptores,easrespostasené rgicase
desesperadas,masemvoztãobaixaqueelenãoconseguiuentenderosdetalhes.
Deitado do lado direito, com o corpanzil encostado no chã o sujo e repleto de lixo, ele
sentia frio e fome. Essa posiçã o deixou seu braço direito amortecido, desde o cotovelo até a
ponta dos dedos. Ele estava com as mã os algemadas nas costas. Sua cabeça e seu rosto
latejavam,eelesentiugostodesanguenaboca.
George ouviu algué m ressonando atrá s dele. Ah, se ao menos ele tivesse as mã os livres.
Poderia movimentar-se no lugar para que o sangue voltasse a correr livremente por seu braço
direitoeposicionar-se,silenciosamente,paraoataque.E,seoguardadorminhocofosseaú nica
pessoaali,elepoderiaagarrá -lo,desarmá -loesilenciá -loemumsegundo.Georgevirou-secom
di iculdade. Seu corpo inteiro doı́a e ansiava por comida e á gua. Ele esfregou o rosto no chã o
paraafastarumpoucoavendadosolhos—osuficienteparadarumaespiada.
Oguardaestavadormindosentado,comobraçodependuradoeaarmapossantenocolo.
Estranho. Talvez George estivesse enganado, poré m ele achou que havia confundido a
hierarquia,deseuscaptores.Ograndalhã o,quetentavadisfarçarumsotaquefrancê s,nã oerao
líder.Elefalavamuito,maseraooutro—ogregoquenãohaviasidoatingidoporGeorge—que
pareciadarascartas.Noentanto,anã oserqueohomemestivesse ingindoparaforçarGeorge
a tentar alguma coisa, era ele quem estava dormindo ali, a menos de um metro de seu
prisioneiro.
O braço direito de George formigava, e ele tentou mexer a mã o esquerda para sentir a
pressã o das algemas. Eram fortes e estavam bem apertadas. Ele já havia quebrado algumas
algemasconvencionaisantes,masnenhumadelasestavatãoapertadacomoaquelas.Aportano
topo da escada foi aberta, e a jovem — que era chamada de Elena, embora tivesse ingido ser
Georgiana—disse:
— Acho melhor a gente dar uma ú ltima chance a ele e, depois, fazer o que tiver de ser
feito.
O grandalhã o, parecido isicamente com George, desceu ruidosamente a escada com a
armaempunho.Elaoacompanhou,desarmada,egritoudaescada:
—Vamoslá,Sócrates!
Seráqueelestinhamumcão?
O grito de Elena despertou o lı́der. Ele levantou-se limpando a garganta e esfregando os
olhos.
—Algumanovidade?—perguntouograndalhão.
—Não.Elenãosemexeu.
—Continuavivo?
—Respirando.
Ograndalhãocochichoualgumacoisaaoouvidodocompanheiro.
—Sério?—perguntouomaisbaixo.—Aquehoras?
—Ninguémsabeainda,masdeveserhoje,duranteodiaouànoite.
Olíderproferiuumpalavrão.
George esperava que eles nã o notassem que havia um vã o na venda em seus olhos. O
grandalhãoapoiouumabotapesadaemseuombroesquerdoeoforçouarolardecostas.
—Acorde,meninão—eledisse.Eolídercomplementou:
—Últimachance.
George queria dizer: "Para quê ? Tire estas algemas e esta venda dos meus olhos, seu
covarde, e eu vou matá -lo com as minhas mã os." Mas ele estava determinado a icar calado.
Nãodariaessetipodesatisfaçãoàquelesamadores.
Eleouviusomdepassospesadosedesajeitadosnopavimentosuperior,eoguardacomo
joelho machucado começou a descer lentamente a escada. O grandalhã o entregou sua arma a
Elenaeposicionou-secomumapernadecadaladodocorpodeGeorge.Passouasmã ossobos
braços de George, dobrou-lhe os joelhos e ergueu-o do chã o, gemendo com o esforço que fez
paraencostá-lonaparede.Georgeficoudecabeçabaixa,comoqueixoencostadonopeito.
—Muitobem—disseolíder.—Platão,fiqueali,eSócrates,fiqueaqui.
George imaginou estar ouvindo coisas. Ele foi um dos poucos bolsistas do time de futebol
de San Diego que havia estudado a histó ria grega, mas seu desempenho medı́ocre nos exames
forçou-o a seguir a carreira militar. Sua mente devia estar lhe pregando uma peça. Seriam
Platã oeSó c ratesoshomensqueestavamamenosdedoismetrosdele,umdecadalado,com
asarmasapontandoparasuacabeça?Talvezfossealucinaçãoporcausadafome,eleconcluiu.
—Seeletentaralgumacoisa,atire,mastomecuidadoparanãomeatingir.
Olı́der—Georgenã opodiaimaginarqualseriaonomedaquelehomem—ajoelhou-sena
frentedeleaarrancou-lheavendadosolhos.Georgepiscouesemicerrouosolhos,continuandoa
fitarochão.OhomemencostouocanodaarmanatestadeGeorgeelevantouseurosto.
—Olhebemparamimevejaqueestoufalandosé rio.Georgesentiuvontadedecuspirno
rostodele.
— Você é valente, um prisioneiro de guerra exemplar. Mas perdeu a parada. Esta é sua
ú ltima chance. Nã o estou disposto a gastar mais tempo nem energia com você . E você só vai
sairvivodaquievoltaraversuaesposaeseu ilhosenoscontaroqueprecisamossaber.Caso
contrá rio,voumatá -locomumtiroà queima-roupaquevaiatravessarseucé rebro.Você tem
dezsegundosparamedizerondeficaacasasecretadosjudaístas.
George nã o tinha motivos para duvidar do homem. Estava fraco, desgastado, quase sem
forças, mas havia logrado ê xito. Nã o abrira a boca antes, e nã o a abriria agora. Mesmo que
delatasseopessoaldeChicago,elenã oserialibertado.Haviaumaalternativa,maselenã oteria
condiçõesdelevá-laadiante.
Poderiainventarumahistó ria—umahistó rialonga,desconexa,cheiadedetalhes,capaz
deiludirqualquerum.Poderiadizerquehaviaumgá svenenosonacabinadeseuaviã o,queesse
gá s seria acionado se algué m tentasse pilotá -lo sem antes digitar um có digo no sistema de
segurança.
Aquilo poderia evitar que a CG se apoderasse doRoosterTail O aviã o icaria à disposiçã o
do Comando Tribulaçã o se algué m viesse resgatá -lo. Mas ele tinha certeza de que o capitã o
Steele e o restante do pessoal já deveriam considerá -lo morto; e por que nã o? E, se ele
inventasseumahistóriapararetardaraexecução,nãoconseguiriasercoerenteemrazãodesua
condiçãoatual—talvezatédeixasseescaparalgumacoisaverdadeira.
Comocanodaarmaencostadonatesta,Georgecontinuoudebocafechada.Nã orecuou,
nã ofechouosolhos,nã oestremeceu.Simplesmentecerrouosdentesaguardandoodisparoque
olevariaparaocéu.
CAPÍTULO3
— Nó s fazı́amos parte do grupo dirigido pelos lı́deres — explicou Costas Pappas. — O
pastor e sua esposa. O casal Miklos. O velho Kronos. O primo dele ainda está conosco. Você s
conhecemessaspessoas?
—Conhecemostodas—respondeuChloe.—Mascomovocê sabetantacoisaecontinua
vivo?
— Marcel nos contou qual era o plano, na noite em que tudo aconteceu — disse a Sra.
Pappas. — Ouvimos falar que a moça foi vista pelas pessoas do esconderijo que a conheciam,
masissonã opassadeumboato.Tudopareciaqueiadarcerto.AajudadoComandoTribulaçã o,
ummilitar,umhomemdaAméricaqueestavaretornandodamissãoemIsrael.
— Mas como você s tomaram conhecimento do que aconteceu? O que izeram quando
souberamqueoSr.MikloseoSr.Kronosnãohaviamvoltado?
—Começamosasbuscas—disseCostascomoslábiostrêmulos.
A princı́pio, Chloe imaginou que ele fosse apenas um bisbilhoteiro fanfarrã o; depois, um
jovemmal-humorado.Maseletinhadesercorajoso,elaconcluiu,paraviverdaquelamaneira.A
emoçãoemsuavozasensibilizou.
—Nó sconhecı́amosoplano—eleprosseguiu.—Nã oencontramosaspedrasnabeirada
estrada.Ourolaramouforamretiradas.Masaquelesanimaisdeixaramocarronolugaremque
eleparou,pertodelá,bemvisível.
—Masdevemter icadoobservandodelonge—disseHannah-,aguardandoachegadade
vocês.
— Nó s tı́nhamos certeza disso — explicou o rapaz. — Passamos de carro por lá
rapidamentetentandoaparentarquenã oestá vamosprocurandonada.Masnó sconhecı́amoso
carro de K. Estava a alguns metros de distâ ncia da estrada... os faró is com luz fraca, o motor
desligado, uma porta aberta. Está vamos desesperados para revistar o carro, descobrir o que
tinhaacontecido,masnãoqueríamoscometerumatolice.
—Eentão...?
— Ficamos aguardando. Nã o havia outra coisa a fazer. Nã o havia jeito de saber quando
eles iam se cansar de esperar que algué m aparecesse. Depois de alguns dias, nã o agü entamos
mais icar sem saber o que tinha acontecido. O primo de Kronos nos emprestou um caminhã o
com traçã o nas quatro rodas. Pelos mapas topográ icos, planejamos um meio de chegar ao
carro pelo mato, e nã o pela estrada. Conseguimos fazer isso depois da meia-noite, seguindo
lentamenteporpequenastrilhasemmeioà sá rvoresaté umaclareiracheiadepedras.Oprimo
de Kronos dirigiu o caminhã o, e dois outros homens e eu fomos a pé na frente, com roupas
escuras, para que ningué m nos visse nem ouvisse. Por volta das trê s horas da madrugada,
conseguimos chegar o mais perto possı́vel do local com o caminhã o. Mesmo sem enxergar o
carrodeKronos,nó ssabı́amosondeeleestava.Rastejamossobreumaelevaçã odoterreno,de
ondeachamosquepoderíamosavistarocarro,masnãovimosnada.
— Nã o há mais dinheiro para pagar a iluminaçã o das ruas — prosseguiu Costas -, e a
bateriadocarroestavacompletamentedescarregada.Nã ohavialua,enã oquisemosarriscara
usar lanternas. O carro continuou no escuro. Se a CG estivesse à espreita para nos pegar, nã o
poderiaimaginarquevı́nhamospelocaminhomaisdifı́c ilemuitomaislongo.Está vamosmuito
pertodocarroquandoovimosnoescuro.Ficamosouvindoeobservando,echegamosaté anos
espalharparaversehaviaalgué mdaCGporali.Emseguida,tateamosocarroeencontramos
os corpos. Mesmo correndo riscos, resolvemos acender as lanternas, alguns segundos por vez,
encobrindoaluzcomnossocorpo.
Costas estremeceu ao lembrar-se da cena e começou a chorar. Ele esforçou-se para ser
entendido.
— Todos os trê s — ele disse. — Baleados. Marcel no rosto. Parte de sua cabeça
desapareceu. Tivemos trabalho para tirá -lo de baixo do painel. K levou um tiro no pescoço,
vindodetrás.Devetersidoatingidonacoluna.Laslosfoiferidonatesta.
—Nenhumsinaldoamericano?Costasnegoucomacabeça.
—Arrastamososcorpos,umaum,até ocaminhã o.Estavamcheirandomalerı́gidos.Foi
horrı́vel. Um amigo meu, que estudou criminologia, constatou que a pessoa que atirou neles
devia estar dentro do carro. Encontramos a mochila de Marcel que lhe demos de presente.
Estava embaixo do corpo de Laslos, coberta de sangue. Dentro, havia uma troca de roupa e
alimentos.Nãosabemosoqueaconteceucomoamericano.
Chloe contou a Costas e à mã e dele o que Steve Plank relatara, que a CG estava se
vangloriandodeterimpedidoumatentativadefuga.
—Haviaumaimpostoraparaamoçaeumimpostorparaonossocompanheiro.Alguma
coisadeuerrado,eoresultadofoiesse.
—Oamericanoestávivo?—perguntouaSra.P.Chloeassentiucomacabeça.
— Está preso em algum lugar. Devem estar tentando extrair alguma informaçã o dele,
masorapazémuitobemtreinado.Nossapreocupaçãoéqueelesejamortopornãocooperar.
—VocêdeveacharqueopessoaldaCGéidiota—disseCostas.
—Comoassim?
—VocêvematéaquidisfarçadadeoficialdaCGeachaquevaiserlevadaatéele.
—Éumrisco,nóssabemos.
—Ésuicídio—disseCostas.
—Oquevocê faria, ilho?—perguntouChloe.Derepente,elasedeucontadequeCostas
deveriaserapenasumpoucomaisnovodoqueela.
Eleencolheuosombros.
—Amesmacoisa,acho,maspensoquenãovaifuncionar.
— Estamos nos arriscando tanto assim porque temos um companheiro dentro do palá cio
emNovaBabilônia—disseChloe.
Emseguida,elacomeçouafalardospreparativosedosplanosdeMac.
—Ah,comlicença—disseHannah.—Umminutosó,porfavor.
Chloeolhouderelanceparaelaeacompanhou-aatéumcinto.
—Chloe,vocêachaqueelesprecisamsaberdetudoisso?
—Podemosconfiarnosdois!Elessãodacooperativa.
— E se eles forem pegos e forçados a falar? Nã o jogue tanta responsabilidade por cima
deles.
—Pensenoqueelestêmsofrido,Hannah.Jamaisvãodizeralgumacoisa.
—E,sedisserem,nãoserásóvocêquemvaimorrer,vocêsabedisso.
ElasretornaramparacontinuaraconversacomaSra.Pappaseseufilho.
—Issofunciona?—perguntouCostas.—ACGvaisedeixarenganardessamaneira?
— Nã o por muito tempo — Chloe admitiu, lançando um olhar de esguelha a Hannah. —
Mas com todas as informaçõ es incluı́das no banco de dados central de Nova Babilô nia, temos
conseguidopenetraremlugaresextraordinários.
— Acabamos de conhecer você s — disse a Sra. Pappas. — E logo vamos fazer o enterro
devocês...
— Somos pessoas de fé — disse Hannah, deixando de lado o sotaque. — E sabemos que
você s també m sã o. E nó s també m devemos ser pessoas de açã o. Conhecemos os riscos e os
aceitamos. Nã o sabemos mais o que fazer. Você s deixariam um companheiro morrer sem
tentarajudá-lo?
Costascontinuavaemocionado.Eleencolheuosombros.
—Nã osei.Achoquevocê snã otê mescolha,masseriamelhorenfrentaressagentecom
armasemvezdedisfarces.Nãovejocomoissopodefuncionar.
— Nó s nã o sabemos onde nosso companheiro está ! — disse Chloe. — Como podemos
encontrá-losemnosinfiltrarnaCG?
—EotalhomemdoColorado?Eleparecesaberdemuitacoisa.
—Elesónoscontaoqueouve.Seelecomeçaraperguntardetalhes,embreveserápego.
—ComoeleconseguiuficarnaCGsemamarca?
ChloefalousobreanovaidentidadedeSteveeareconstruçãodeseurosto,cientedolongo
suspirodadoporHannahedeseusmovimentosnegativoscomacabeça.
— A testa dele é de plá stico. A marca de lealdade teria de ser aplicada sob o plá stico, e
ninguémsuportariaolharparaeleeverointeriordeseucrânio.
—Porfavor—disseHannah,emvozbaixa.
—Queroacompanharvocêsquandoforematrásdeseucompanheiro—disseCostas.
— Nã o posso permitir — disse Chloe. — Nó s temos documentos, fardas e cobertura pelo
computador,porenquanto.Levariadiasparaprovidenciartudoissoparavocê.
—EupossoconseguirumafardadaCG,evocêsmedariamcobertura.Eu...
— Nã o — disse Chloe. — Agradecemos, mas isso nã o vai acontecer. Temos um plano e
vamossegui-lo,querfuncionequernão.
—Vocêsprecisamdemaisarmas?
— Precisamos, mas levantarı́amos suspeitas se carregá ssemos armas pesadas que nã o
pertencemà CG.OSr.McCullumestá tentandopegaralgumasnoaviã odenossocompanheiro
ounocarrodele.
—Ondeestáocarro?
— De acordo com Plank, os captores de Sebastian també m estã o com o carro que o
próprioSebastianconseguiunoaeroporto.
—Eelesnãovasculharamocarroàprocuradearmas?
—Nãosabemos.
Costas fez um gesto para que as duas o acompanhassem até um canto, onde havia um
enormebaúdemadeiraescondidoembaixodepilhasdecobertores.EstavalotadodeUzis.
— Nã o me façam perguntas — ele disse. Sua mã e providenciou uma sacola grande da
lavanderianaqualCostascolocoutrêsarmasenroladasempanoseváriospentesdemunição.
—Agora,émelhorvocêspartirem.
Algué m contara a George Sebastian que a pessoa nã o ouve o disparo que a mata, mas
como essa a irmaçã o pode-ria ser comprovada? Ele esforçou-se para manter a calma, porque
nã o queria dar a satisfaçã o a seus captores de demonstrar medo antes do disparo fatal. Ele
prendeu a respiraçã o pelo tempo que parecia ser seus ú ltimos dez segundos de vida, e nã o
conseguiuevitarumestremecimentoquandosoltouoar.
—Muitobem—disseolı́der-,eleprecisa icarapresentá vel,erá pido.Comidaeá guaem
primeiro lugar, depois uma ducha. E façam alguma coisa quanto ao lá bio dele. Inventem uma
história.Nãofomosnósquefizemosisso.
Georgeabriuosolhosepiscou.
— Você continua encrencado, Califó rnia, mas nenhum de nó s vai morrer por sua causa.
Vou tirar as algemas, mas há duas armas apontadas para você , e só precisamos de um motivo
paraatirar.
Depois de retiradas as algemas, George esfregou as mã os, fazendo Platã o estremecer.
Georgesentiuvontadedeassustá-locomummovimentobruscoouumgrito.
—Dêumjeitonospulsosdele—disseolíderaElena.—Vamos,temosdesairdaqui.
Eles empurraram George escada acima e lhe deram dois sanduı́c hes com recheio de
alguma coisa com gosto de lingü iça. As fatias de pã o tinham quase cinco centı́m etros de
espessura e estavam secas. Ele teve de apertá -las para que coubessem na boca. O lá bio
machucado esticou e sangrou enquanto ele mordia o sanduı́c he. Em seguida, ele sorveu
avidamenteaáguadagarrafa,mornaecomgostodeaguavelha.
Georgequeriarecostar-senacadeiraeinspirareexpiraroarcomforça,masaquelenã o
eraummomentodelazer.Eleengasgouetossiu,masforçou-seacomertodoosanduı́c he.Sua
melhorchancedefugiroutentaralgumacoisaseriaenquantoestivessesemasalgemas,eeleso
estavamprovocandoafazerisso.Georgenã oqueriagastarenergiamentaltentandoimaginaro
quesignificavatudoaquilo,massentiu-sealiviadoporestarvivoeteralcançadoseuobjetivoaté
aquelemomento:permanecercalado.
Quandoterminoudecomerosanduı́c he,Georgepegouumpunhadodemigalhasdepã ode
cima da mesa e levou-as à boca. Tomou o ú ltimo gole de á gua, virando a garrafa para nã o
sobrarnenhumagota.Elenatirouagarrafadesuasmã oseapontouparaumcubı́c uloondeele
malcaberiaembaixodochuveiro.
— Deixe as roupas ali — ela disse, apontando para o chã o. — E claro que você nã o vai
conseguirpassarpelajanela,massaibaqueháumhomemarmadodoladodefora.
Ela saiu e fechou a porta. Mesmo sabendo que a moça e, provavelmente, os outros
poderiam ouvir qualquer ruı́do ali dentro, ele olhou embaixo de uma cama de lona e só viu
poeira.Abriutrê sgavetasdeumacô m odademadeirafranzina.Vazias.Nã ohavianadaalianã o
serumajanelaque,pelosseuscá lculos,estavadefrenteparaooeste.Eleentreabriuapersiana,
eSócratesapontou-lheaarma.
—Andelogo!—gritouElena,dooutroladodaporta.
Eletirouaroupa,deixou-anochã oeentrouembaixodochuveiro.Quandoabriuoregistro
esquerdo, recebeu um jato de á gua gelada no corpo. Ele deu um passo atrá s e abriu o outro
registro.Friatambé m.Resolveudeixarosdoisabertosparapermitirqueaá guaescorressepor
algunsinstantes,Tentouafastarumpoucoobocaldochuveiro,masnã oconseguiuporcausada
ferrugemqueoprendianolugar.
—Aáguanãoépotável!—alguémgritoudoladodefora.
George queria perguntar se havia sabonete ou uma toalha, mas decidiu nã o abrir a boca.
Tiritando de frio, ele forçou-se a entrar embaixo do chuveiro. Seu corpo estremeceu, mas ele
deixou que a á gua fria molhasse seus cabelos e, depois, o corpo inteiro. Esfregou o corpo
vigorosamentepelotempoquepô deagü entar.Quandoestavaprestesafecharosregistros,ele
ouviu a porta do cô m odo ser fechada. Ao espiar, ele viu, no lugar em que deixou suas roupas,
umapilhaderoupaslimpas,talvezpertencentesaPlatã o,ohomemcomofı́sicosemelhanteao
dele.
Ótimo.Elenãoétãograndequantoparece.
Em cima da cama, havia uma toalha de rosto. George enxugou-se com ela e vestiu a
roupa.Umacamisetaesquisitaserviuparaprotegerseucorpodocontatoá sperodeumamalha
delã grosseira.Asceroulas,aoestilomilitar,eramjustasdemais.Asmeiasgrossasdecorcinza
começaram a aquecer seus pé s, e a calça cá qui com cinto de lona icou apertada na cintura e
curta—unsdezcentı́m etrosacimadotornozelo.AsbotasdaCGeramumnú m eromenorque
oseu,massuportáveis.
Georgeempurrouaporta,eElenafezumgestoparaqueeleretornasseà mesaondehavia
comidoosanduı́c he.Platã ocontinuavaaencará -lo,empunhandoaarma.Georgesedeuconta
de que a moça era um alvo fá cil para ele. Poderia golpeá -la na cabeça antes que os outros
percebessemematá-laantesquealguémtivessetempodeatirar.
Ela passou, desajeitadamente, uma pomada no lá bio dele e massageou-lhe as mã os e os
pulsos. George analisou o rosto dela tentando encontrar algum sinal de fraqueza. O sangue que
havia nas roupas daquela moça, quando ele imaginou que ela fosse uma aliada, nã o era dela. A
moçaeraumaassassina.
Elena apertou um inchaço enorme em cima de sua sobrancelha, mas George nã o
estremeceu de dor. Se ele conseguisse suportar um pouco mais, haveria um jeito de sair dali?
Parecia difı́c il encontrar gelo naquele lugar, mas ela pegou algumas pedras, enrolou-as em um
lenço e segurou-as contra o inchaço em sua testa. Em seguida, fez o mesmo no "galo" em sua
nuca. Por que ela nã o economizou uma ou duas pedras de gelo para que ele pudesse matar a
sede?
O sanduı́c he, cujo recheio George nã o havia identi icado, pesou-lhe no estô m ago, mas ele
sentiaumpoucodeforçaprovenientedoalimento.Elequeriaprovocaralgumestrago,mostrar
à quelescaipirasaastú c iadeumpresoamericano.Ah,elepoderiafazermuitomaisdoque icar
calado.Peloquesabia,jáhaviaquebradoojoelhodeumdosguardas.
Durante todo o tempo em que Elena lhe aplicou os curativos, George icou muito perto
dela. Poderia cegá -la en iando dois dedos em seus olhos, quebrar-lhe as mandı́bulas com um
soconoqueixoouesmagá-lavirandoamesasobreelaeatirando-seporcima.
Masissodenadaadiantaria,porqueeleseriaalvejado.Georgepensouemdeixaressaidé ia
deladoeatirar-seemcimadePlatã oparadesarmá -lo.Emseguida,ogolpeariacomacoronha
da arma, atiraria em Elena e se arriscaria a passar pelos dois acampados do lado de fora. As
probabilidadesseriammaiores,masnãovaleriaapena.
Eles estavam melhorando sua aparê ncia. Por quê ? Haveria algué m superior a eles
querendo extrair informaçõ es? E, pelo jeito, esse homem queria que ele recebesse um bom
tratamento. George estava se portando de maneira semelhante à de qualquer outra pessoa
ligadaaosjudaístas,eeraporissoquecontinuavavivo.
Ele gostou da idé ia de ser apresentado à che ia da CG. Seu silê ncio os deixaria furiosos.
Melhorainda,eleimaginou:quantomaisarroganteumprisioneirosemostra,menospreparados
eles icam para impedir tentativas criativas de fuga. Em determinado ponto, essa gente
perceberia que ele nã o iria colaborar. De seus lá bios nã o sairia nenhuma informaçã o, fosse de
modo voluntá rio ou forçado. Depois de certo tempo, ele seria descartá vel. Ou eles o usariam
como um exemplo prá tico, justi icando que ele revelou um segredo ao inimigo, ou o
executariam.Ouasduascoisas.
OobjetivodeGeorgefoiseformandolentamenteemsuacabeça.Elequeriapermanecer
alerta, estar ciente de qualquer detalhe. Queria saber quando o pessoal da CG perderia a
paciê ncia e concluiria que ele era um caso sem esperança, um caso perdido. A explicaçã o era
simples. Quando eles se cansassem e seu im estivesse perto, ele queria ter a certeza de levar
umoudoisconsigoparaaeternidade.Pelasmarcasnatestaqueelesostentavam,Georgesabia
que seus captores nã o iriam para o mesmo lugar que ele. Mas iriam para o destino que lhes
estavareservadomuitoantesdoqueimaginavam.
George teve de conter um sorriso enquanto era conduzido ao jipe. Estava algemado
novamente,masissosó aconteceudepoisqueelescolocaramumpardeluvasgrandesemsuas
mãos.Quantaconsideração,elepensou.Protegermeuspulsosmachucados.
Quando Mac se encontrou com Chloe e Hannah em uma clareira na loresta, na regiã o
norte de Ptolemaı̈s, os trê s já haviam entrado em contato com o pessoal do Comando
Tribulação.
— Mal posso esperar para ver que histó ria o pessoal de Nova Babilô nia vai contar sobre
Petra—disseHannah.
—Comoalguémpodecontinuarincrédulodepoisdissotudo?
—Quandoserá quepapaieAbdullahterã ocondiçõ esdepartir?—disseChloe.—Peloque
sabemos, Tsion vai querer icar lá , desde que eles tenham tecnologia su iciente para permitir
que ele continue a enviar suas pregaçõ es virtuais ao mundo inteiro. Acho que a CG vai matar
qualquerumquesairdelá.
Mac contou a Chloe e a Hannah que o pessoal do quartel-general de Ptolemaı̈s estava
aguardandosuachegada,maselequeriamodificarosplanos.
—Porquê?—perguntouChloe.—Parecequejáestátudoprovidenciadoparavocê.
—Everdade,masseeuchegarlá ,cheiodeempá ia,vaiparecerquequeromeexibir,que
estoutentandoimpressionar.Eupoderialevantarsuspeitassemquerer.Etemmais.Seaquele
quartel-general for parecido com o resto deste lugar, eles vã o descon iar de mim se eu nã o
começaratirarocourodequalquerumqueestejadandoasordens.
— Explique-se melhor — disse Hannah. — Eu detestava trabalhar no palá cio, mas a
organizaçãoeadecênciaqueviaquideixammuitoadesejar.
— Se eu fosse um comandante sê nior de verdade, levaria uma semana inteira para
informar ao pessoal de Nova Babilô nia tudo o que há de errado aqui. Meu plano era chegar lá ,
pegaroqueprecisoeirembora.Nã oianempedirajudadizendoquenã oserianecessá rio.Mas
agoraestoupensandoemnãoaparecerporlá.
—Nãoaparecer?
—Eunãovouaparecer.
—Nóséquevamos?
—Umadevocês.
—Eutopo—disseHannah.
—Ei,espereumpouco—disseChloe.—Eu...
— Sinceramente, Hannah, acho que Chloe é quem deve ir. Acho que nenhuma de você s
levantaria suspeitas, mas, se a coisa começar a azedar e eles checarem sua ı́ris ou suas
impressõesdigitais...Vocêestáregistradanosarquivosdopalácio.
—Comomorta.
— E verdade, mas você saberia explicar como uma indiana poderia ter caracterı́sticas
físicasidênticasàsdeumanorte-americanamorta?
—Eunãosaberia,porquevocênãoacreditaemminhacapacidade.
—Vocêestábrincando?Quasetodasasvezesqueolhoparavocê,esqueçoquemvocêéde
verdade.MasChangregistrouumnomenovoparaChloe;portanto,seeles icaremirritadose
pediremqueumasubordinadaminhaprovesuaidentidade,elapassaránoteste.
—Oquevocêquerqueeufaça,Mac?—Chloeperguntou.
—Queroquevocêdemonstreimpaciência.—Impaciência?
—Eirritaçã o.Você pegouumossoduroderoer.Seuchefefolgadoeosoutrosquevieram
comeleestã otirandoumcochiloemalgumlugaragradá vel,oquenã oé dacontadeningué m,
evocêfoiencarregadadeconseguirinformaçõesparaele.Sehouveralgumaburocracia,alguma
demora,comeceadarbronca.Vocêachaquepodefazerisso?
—Oquevocêacha?
—Você devedaraentenderqueesteé umcasodevidaoumorte.Passeasinformaçõ es
para mim e deixe o resto por minha conta. Dê um jeito de mandar um aviso aos captores que
estamosporaqui,paraqueelesnã osejampegosdesurpresa,masé melhorqueelesdeixemo
prisioneiroapresentá vel.Ochefã onã oestá nemumpoucosatisfeitopornã otersidoinformado
antes;portanto,dêumjeitodefalarcomalguémquesaibaoqueestáfazendo.
—Entendido.
— Aquele piloto, amigo de Abdullah, acredita que tudo vai dar certo, que vamos tirar
Sebastiandelá,algemadoéclaro,levá-loatéoaviãoesairdaquiestanoite.
—Seráqueopessoaldaquiimaginaquevocêestáplanejandolevaroprisioneiroembora?
—Não;mas,quandoelesdescobrirem,émelhoragenteestarbemlongedaqui.
—Nã ovaiserfá cil—disseHannah.—Mesmoqueelesacreditememtudooqueagente
disser.
—Nuncaé fá cil,Indira—disseMac,sorrindo.—Osegredoestá emnã otentarconvencê los de nada. As pessoas icam irritadas quando sã o obrigadas a fazer alguma coisa que nã o
querem.Vocêestáentendendo?
—Nãomuito.
—Porexemplo,seeulhedisserqueRayfordouTsionqueremquevocê façaalgumacoisa
que nã o deseja fazer, como voltar para Chicago imediatamente, a sua primeira reaçã o será
negativa.Você nã oquervoltar,vairecusar-se,eeuvouconcordar,masnã ovoucontaroresto
dahistó ria.Você vaiinsistir,eeunã ovoudizermaisnada.Já quevocê tomouumadecisã o,nã o
precisa conhecer os detalhes. Mas, se eu estivesse no seu lugar, faria de tudo para descobrir a
históriainteiraeficariaemdúvidasetomeiadecisãocerta.
—Podetercertezadisso.Euiainsistiratévocêmecontar.Vocêmeconhece.
— Você poderia até insistir. Mas, veja, estaria entrando no meu jogo. Nã o seria eu quem
tentaria convencê -la. Você é que estaria tentando extrair alguma coisa de mim. Aı́, eu conto
tudo o que for preciso para forçar você a fazer o que lhe pedi antes, mas você só vai perceber
isso depois, quando entender que foi manipulada por mim, que você se irritou e que a idé ia
pareceutersidosua.
—Emoutraspalavras—disseHannah-,você vaidarumjeitodeforçaresseshomensa
imploraremquevocêtireSebastiandasmãosdeles.
—Éissomesmo.
—Eelesvãoacharquevocêestálhesfazendoumfavor.
—Exatamente.
—Queroverparacrer.
—Vocêvaiver.
—EondeeuvouficarenquantoChloeestiverládentro?
— Aguardando no jipe, com os olhos e os ouvidos atentos. Eles vã o saber que há duas
pessoascuidandodocaso,masapenasumaquevaiobterinformaçõesparaochefe.
—Eondevocêvaiestar?—perguntouChloe.
— Ao telefone, falando com Chang, e depois com o rapaz do aeroporto. Quero oRooster
Tailabastecidoeprontoparadecolar.
—Vocêvaidizeraelequevamoslevaroprisioneiroconosco?
— Vou agir de acordo com a situaçã o. Se nã o encontrarmos uma arma no carro de
George,jáarrumeiumaparaeleeoutraparamim.Vocêstêmassuas.
—Seráquevamosprecisardelas?
— Pelo menos para impressionar o pessoal. E normal um o icial trazer subordinados
armadosparaumavisitacomoesta.
Duranteumintervalonoturnodatarde,Changcaminhouapressadamenteaté seuquarto
procurando nã o chamar a atençã o de ningué m. Com os dedos voando pelo teclado do
computador,eletentavadescobriroparadeirodesuairmã .Elaeramaise icientenissodoque
eleimaginava.Changgostariaquesuairmã otivesseinformadosobreseusplanosparaqueele
abrisse caminho para ela. Talvez, se ela chegasse a algum lugar e descobrisse que ele lhe
conseguira uma autorizaçã o para viajar a serviço da CG, ela saberia que ele estava
acompanhandoseuspassos.
O "soldado Chow", das Forças Paci icadoras, apareceu no sistema. Aparentemente, "ele"
havia saı́do de Chicago e conseguira uma carona até Long Grove, em Illinois. Chang icou feliz
pelofatodesuairmã terevitadooAeroportodeKankakeeeaBaseAé reaNavaldeGlenview.
Emborahouvessefaltadefuncioná riosemtodososlugares,oaeroportoeabaseaé reahaviam
sidoqueimadospelosjudaı́stasenã otinhamcondiçõ esdeabrigarumfugitivo.MasChangnunca
viranadanosistemaquemencionasseumapistaaéreaemLongGrove.
Finalmente, ele encontrou uma pista de decolagem para executivos, que havia sido
reaberta recentemente para um nú m ero limitado de rotas comerciais. Mesmo sabendo que o
intervaloestavaterminando,Changcontatouatorredeláfingindoserumoficialdealtapatente
dodepartamentodeaviaçãodaCG,"solicitandoconfirmaçãorotineiradeumsoldadodasForças
Paci icadoras, do setor internacional 30, que estava pegando uma carona em um vô o de carga
comdestinoaPawleysIsland,naCarolinadoSul".
Changnã otevetempodeaguardararespostaevoltouapressadoaseupostodetrabalho.
Ali, ele icou sabendo que Suhail Akbar estava interrogando o primeiro piloto que retornava de
Petra.Changsó podiasuporqueosegundopilototambé mestavaacaminhodasaladereuniõ es
particulardeSuhail.Comalgunstoquesnoteclado,eleativouaescutaclandestinanaquelasala,
paragravarasconversas.Maistarde,elefariaumdownloaddosistemacentral.
Chloe estava agradecida pelo fato de Hannah ter sensibilidade su iciente para deixá -la a
sóscomseuspensamentosnocaminhodevoltaaPtolemaïs.
—Vocêconcordaqueeuassumaessamissão,certo?—elaperguntou.
—Fazsentido—respondeuHannah.—Aqueleseriaolugaridealparaalguémmechecar.
Chloetentouacalmarasbatidasdeseucoraçã o,respirandofundoetentandocochilarum
pouco. Nã o funcionou, mas ela sabia que sua vida dependia, conforme Mac lhe dissera, de sua
habilidade em demonstrar impaciê ncia. Irritaçã o seria melhor, caso fosse necessá rio. Mas a
impaciênciaseriamaisapropriada.
Oquartel-generaldopelotã oocupavaostrê sandaressuperioresdeumedifı́c iodequatro
andares. O primeiro andar, que estava abandonado, devia ter servido para abrigar algum
escritóriodenegócios.
UmdoshomensqueChloeeHannahhaviamencontradonaruaestavasentadonoescuro,
perto do elevador no té rreo, fumando e lendo sob a luz prateada que vinha da rua. Quando viu
Chloe,elelevantou-seeprestou-lhecontinência.
—Oelevadorestáquebrado—eledisse.—Asenhorapoderáusaraescadaaliatrás.
—Últimaforma!Suafunçãoéessa?
— Sim, senhora. Algué m precisa avisar as pessoas, se nã o elas vã o icar o dia inteiro
esperandopeloelevador.
—Ninguémpensouemcolocarumaviso?
—Ah,sim,masooficialdecomandoquerqueoavisosejadadopessoalmente.
Elaassentiucomacabeça.
—Écomelequeeuquerofalar.Vocêpoderiadizer-lhequeestou...
Ojovemlevantouasduasmãos.
—Nãotenhomeiosdeavisá-lo.Háumarecepcionistaláemcima.
—Penseiquevocêsestivessemcomfaltadepessoal.Eleencolheuosombros.
—Euapenascumproordens,senhora.
Aescadadavaacessoaumasalasujaeladrilhada,comcercademeiadú z iadelâ mpadas
luorescentes funcionando. Nã o havia ningué m na recepçã o, mas outro homem das Forças
Pacificadorasfezmençãodelevantar-sedeumsofásurrado.Chloeodetevecomumgesto.
—Qualésuafunçãoaqui,filho?—elaperguntou.
— Sou monitor de moral da CG, senhora. E estou encarregado de avisar que a
recepcionistanãoestáaqui.
—Estouvendo.
—Bem,eudigoàspessoasquearecepcionistavaivoltarlogo.
—Oquesignifica"logo"?Eleolhouparaorelógio.
—Elasaiuháunsdezminutos,portantojádeveestarretornando.
— Você poderia avisar o comandante Stefanich que a Sra. Irene, do destacamento do
comandantesêniorJohnson,estáaquiedesejafalarcomele?
—Euatéquepoderia,senhora,masrecebiinstruçõespara...
—Façaoqueestoumandando.Eumeentendocomele.—Sim,senhora.Comoé mesmo
oseunome?
—Deixeestar,eumesmavouencontrá-lo—disseChloe,dirigindo-separaaporta.
— Ah, eu nã o posso permitir, senhora. Por favor. Sinto muito nã o ter entendido o seu
nome.
—Vocêestácomamãonaarma,Monitor?
—Não,senhora,bem...sim,senhora,estou,masfoisemquerer.Eu...
—Leiameucrachá , ilho,egravemeunome.Nomomento,tudooquevocê precisasaber
écomandantesêniorJohnson.
—Entendido.Ummomento.
Chloe sacudiu a cabeça. Seria uma surpresa ver e iciê ncia por parte da CG. A porta foi
fechadae,logoemseguida,foiabertanovamente.Omonitordemoralfezumgestoa irmativo
com a cabeça e apontou para uma sala com paredes de vidro em um dos cantos, onde o
comandante estava sentado atrá s de uma mesa. Do lado de fora, havia uma mulher sem as
insígniasdeoficial.
—Vouterdefalarcomelatambém?—perguntouChloe.
—Sim,senhora.Éasecretáriadocomandante.
A maioria das outras mesas estava vazia, e havia també m poucas lâ mpadas acesas.
Aparentemente,aquelecomandanteestavacercadoapenasdepessoasquefuncionavamcomo
cã esdeguarda.Chloecaminhouemdireçã oà mulherdemeia-idade,fardada.Amulhersorriu,
aguardandoserabordada,masChloepassouretoporelalimitando-seadizer:
—Irene,dodestacamentodeJohnson.VoufalarcomStefanich.
A mulher nã o teve tempo para protestar. Nelson Stefanich olhou para ela, com ar de
surpresa,ecomeçoualevantar-se.
— Oi, sinto muito, senhor, mas o comandante sê nior Johnson nã o deseja que eu perca
tempofalandocomtantagente.Osenhortemalgumainformaçãoparaele?
—Claro,mas...
ChloeabriurapidamenteumapastadecouroeretirouseucartãodeidentificaçãodaCG.
—Oqueosenhornecessita?
—Bem,euesperavareceberavisitadocomandanteJohnson.
Stefanichfalavacomsotaqueeuropeu,talvezpolonês,elaimaginou.
— Ele lamenta muito nã o poder ter vindo. A che ia da CG deseja que este assunto seja
tratadocomurgência,eentendemosqueosenhorestápreparadopara...
—Sente-se,Sra.Irene,porfavor.
—Euprefiro...
—Porfavor,euinsisto.Chloesentou-se.
—Euesperavainformarseucomandantearespeitodopessoalqueescolhemosparaesta
missão.Estamosmuitoorgulhososde...
— Com licença, senhor, mas entendemos que até agora nã o foi extraı́da nenhuma
informaçãodoprisioneiro.
— E apenas uma questã o de tempo. Ele é um militar altamente treinado, e temos sido
pacientesatéagora.
— Estou entendendo que, se seu pessoal for tã o bem preparado quanto o senhor diz, o
comandanteJohnsonnãoprecisariaviratéaqui,nãoémesmo?
— Talvez. Mas estou satisfeito com o que eles conseguiram até agora e pretendo
recomendarumapromoção...
—Façacomoquiser,senhor,mas,porfavor,forneçaasinformaçõ esdequemeusuperior
necessita.
Stefanich fez mençã o de tirar uma pasta da gaveta de sua escrivaninha, mas nã o a
entregouaChloe.
— A senhora nã o está a par do que aconteceu hoje? O prisioneiro passou a ser menos
importanteapósoêxitodoataque.
— Entendo que os resultados nã o sã o conclusivos. Se tivessem sido, por que nã o foram
transmitidosaomundointeiro?
—Houveproblemasté cnicos.Asenhoravaisaberquemilhõ esdetraidoresforammortos,
inclusiveoslíderesdeles.
— Ainda nã o sabemos onde ica o quartel-general deles disse Chloe -, ou quantos lı́deres
sobraram.
— Eles estã o con inados nos Estados Unidos Carpathianos. Até mesmo o rebelde nã o
contestariaisso.
— O senhor está se recusando a permitir que um comandante sê nior tenha acesso ao
prisioneiro?
—Não,eu...
—Seosenhorestiver,eusereiaprimeirapessoaadesagradaraochefe.Masosenhorserá
opró ximo.—Chloelevantou-se.—Já estouatrasada,mas,seeuvoltardemã osvazias,bem...
eunãomeimportodedizerqueaculpavairecairsobreosenhor.
— Aqui está — ele disse oferecendo-lhe a tal pasta. Chloe começou a caminhar em
direçã o à porta. — O senhor pode recomendar promoçõ es para o pessoal que contratou, mas
nãovaiestaremposiçãodemerecerumase...
—Aquiestá,porfavor—eledisse,sorrindocomardequempededesculpa.
Chloeparoueolhouparaelecomumaexpressãodedesconfiançanorosto.
—Umapasta?Eunã oqueropastanenhuma.Só precisoinformaraocomandanteondese
encontraoprisioneiro.
—Estátudoaqui!Veja,aqui!
Chloeparou,comamãonamaçaneta,sacudindoacabeça.
—Eseupessoalvaificarnosaguardando.
—Claro!
Elamordeuoslá bios,olhandodeesguelhaparaStefanich.Já quehaviachegadoaté aquele
ponto,nãoiadesistir.
—Estábem,vamosver.
Elesentou-seeesticouobraço,oferecendo-lheapasta.
Ela o encarou até forçá -lo a desviar o olhar. Finalmente, depois de um longo suspiro, ele
levantou-seeaproximou-sedela.Chloeagarrouapastaesaiu.
CAPÍTULO4
Chang estava inquieto, sentado em sua cadeira, ingindo trabalhar, mas sem conseguir
concentrar-se. Ele deveria estar coordenando os vô os e os transportes de equipamentos,
alimentosesuprimentosdasfá bricasdeproduçã oparaasá reasmaisnecessitadas.Changhavia
inventado um jeito de deixar transparecer que suas instruçõ es eram ló gicas e completas, até
mesmoeficientes.Masosdespachosdasmercadoriascausavamatrasosintermináveis.
Emrazã odeumdispositivodefalhaintroduzidoporelenosistema,osembarques icavam
presos durante dias em localidades muito distantes e, depois, eram enviados para lugares
errados.Geralmente,lugarerrado,paraaCG,signi icavalugarcertoparaacooperativaoupara
oComandoTribulação.
Chang recebera elogios por seu trabalho, o que servia para que suas pistas nã o fossem
descobertas e para evitar que os problemas fossem rastreados até ele. Contudo, alguma coisa
estavaatormentandosuamente.Algumacoisanãoestavafazendosentido.
Ming deixara um bilhete informando ao Comando Tribulaçã o, em Chicago, que estava a
caminho da China para ver seus pais. Se isso fosse verdade, por que ela seguiu para o leste? A
históriasófariasentidoseelativesseprocuradoumvôoparaacostaoeste.Averdadeeraqueas
principais cidades da Califó rnia estavam em ruı́nas, e os grandes aeroportos desapareceram,
masaindahaviamuitoslugaresparadecolagem.
Chang pensou em simular uma doença e afastar-se do trabalho pelo resto da tarde, mas
ele nã o podia arriscar-se a atrair a atençã o sobre si. Muitos membros do Comando Tribulaçã o
encontravam-se em posiçõ es precá rias. Chang precisava estar a postos para ajudá -los, sem
levantarsuspeitas.Eleconsultouseurelógio.
SentadocomKennynocolo,BuckconversavacomZekeeLeah.Passavaumpoucodas8
horas da manhã , e Leah estava folheando pilhas de mensagens e de relató rios do pessoal da
cooperativa do mundo inteiro. Surpreendentemente, a cooperativa estava funcionando, apesar
da tragé dia ocorrida com os mares. A coragem daquela gente sem a marca de lealdade, que
transportavaemseusveı́c ulosquantidadesgigantescasdemercadoriasdeumlugarparaoutro,
semenvolvertransaçõescomdinheiro,deixavaqualquerumadmirado.
—Vocêsabedoquesuamulherécapaz,Buck?—Leahperguntou.
Buck ainda nã o aprendera a entender a maneira de falar de Leah. Ele queria aceitar
aquelas palavras como um elogio, um cumprimento a Chloe. Mas teria ele notado uma leve
provocação?SeráqueLeahqueriadizerqueeleerainsensível,queelenãoconheciaChloe?
—Sim,achoquesei—elerespondeu.
—Achoqueoseupapainãosabe,Kenny.Vocêsabe?Vocêachaqueelesabe?
—Sabe!—repetiuKenny.
—Vocêsabe?Obebêriu.
—Vocêsabedoqueamamãeécapaz,meuamor?Elaéumgênio.Ela...
Assimqueouviuapalavra"mamãe",Kennycomeçouafazercaradechoroerepetir:
—Mamã.Mamã.
—Obrigado,Leah—disseBuck.
—Sintomuito—disseela,parecendosersincera.
Se nã o estivesse sendo sincera, Buck estava preparado para complementar: "Brilhante.
Muitoesperta."EsseeraoefeitoqueLeahexerciasobreele.Elapareciaestartentandomudar
deassuntoparadistrairKenny,masdeviaterinventadoalgoquefossedointeressedele,nã odo
deBuck.
—Estoufalandosé rio—disseLeah.—Você sabedoqueacabeidetomarconhecimento?
Chloesabequantosnaviosdemiltoneladasoumaishavianomundoantesdeaságuasdosmares
setransformarememsangue.
—Nãodiga.
—Diga!—repetiuKenny.
—Digosim—insistiuLeah.—Vocêsabecalcularquantos?
—Nãosei—disseBuck.—Milhares,eusuponho.
—Possodarumpalpite?—interveioZeke.
—Z!—gritouKenny.
—Calculomaisde30mil.
—Naviosdesseporte?—disseBuck.—Pareceumnú m eromuitoalto.-Eleacertouna
mosca — disse Leah, virando-se para Zeke. — O quê ? Chloe lhe contou alguma coisa? Como
vocêsabedisso?
Znãopôdeconterumsorriso.
—Ah,sim,elamecontou.Masminhamemóriaémuitoboa,certo?
Buckassimilouainformação.
—Oqueaconteceucomtodosaquelesnavios?
—Estãoemruínas—disseLeah.—Paradosnaágua.Istoé,paradosnosangue.
—EseDeussuspenderojulgamento?Eseosanguesetransformaremáguasalgada?
Elafezumgestonegativocomacabeça.
— Nã o faço idé ia. Nã o posso imaginar o que signi ica limpar um navio impregnado de
sangueatéqueelevolteafuncionar.
—Eospeixesmorreram—disseZ.
—Peixes!
—Quemsuportariaomaucheiro?Osjornaisnã opublicam,masaspessoasquemoramno
litoralestã otentandosairdelá .Senadamudar,omaucheirovai icarcadavezpior,asdoenças
vãocomeçaraaparecer.Quecoisa!
—Coisa!
BuckcolocouKennynochãoedeixou-oafastar-sedali.
—NãopossoimaginarcomoCarpathiaestálidandocomisso.Nãohámeiosdecontornara
situaçã o, de dourar a pı́lula. Milhares de pessoas estã o morrendo todos os dias, e pensem nas
tripulaçõ es presas dentro dos navios. Todos vã o morrer. Ei, Leah, alguns anos atrá s escrevi um
artigo sobre quanto o Panamá dependia de sua indú stria naval. O que isso tem a ver com um
paíscomoaquele?
Elafolheoualgumaspáginas.
—PanamáéoúnicopaíscommaisnaviosqueaGrécia.Issovailevá-losàfalência.
AmençãodapalavraGréciafezBuckolharparaorelógio.
— A tarde já está terminando lá — ele disse. — Se o plano estiver funcionando, eles
devempartirassimqueescurecer.
—Estãoesperandooquê?Buckencolheuosombros.
—Macachaqueaesperavaidaraelesumavantagem.Elenã osabeoquevaiencontrar
pelafrente,mas,setiveremdeescapardeumtiroteiooufugir,elecalculaqueserá melhorque
issoaconteçanoescuro.
Aparentemente,Leahnãoestavaprestandoatenção.
—Vocêestápensandoemalgumacoisa?—Buckperguntou.
—Estouesperandoumaligaçã oouume-mail,masaté agoranã ochegounada.Chloeme
disse que um empresá rio queria embarcar alguma coisa para Petra. Mó dulos baratos para
construçãodecasas.
—Verdade?
—Ohomemé muitorico,ganhoumuitodinheirocomconstruçã odecasasdebaixocusto,
depoisseconverteu.Eleentrounoritmo.Aceitatodososmapasegrá icosdeTsion,calculaque
o Glorioso Aparecimento vai acontecer exatamente sete anos depois do pacto assinado entre
CarpathiaeIsrael.
—Vocênãoachaamesmacoisa?
— Claro. Se Tsion me dissesse que hoje é ontem, eu acreditaria — respondeu Leah.
Evidentemente, ela estava divagando. — Sinto saudades dele, Buck. Oro por ele
constantemente.
—Todosnósoramos.
—Nãocomoeu.
—Sim,eusei.
—Oquê?
—Eusei.
—Sabe?
—Claro—disseBuck.—Vocêpensouneleeseesqueceudoqueestávamosfalando.
Elapareciaconstrangida.
—Issonãoéverdade!
—Então,prove.
—Estávamosfalando...hã...denavios.PanamáeGrécia.
—Estávamosfalandodemódulosparaconstruçãodecasas,Leah.
—Estávamos?
—Estávamos.Queméotalsujeitoeoquevocêtemadizersobreele?
Leahlevantou-seeolhouatravésdeumburaconajanelapintadadepreto.
— Nã o sei ao certo — ela disse. — Ele é daqui de Illinois. De um lugar chamado Grove
nã o-sei-o-quê . Ele diz que temos menos de trê s anos e meio pela frente e que gostaria que o
ajudá ssemosadescobrirumjeitodedespacharsuamercadoriaparaPetra.Dizqueopessoalde
lá poderiaconstruircasasporcontapró priaeempoucotempo.Você achaqueelesobreviveu,
Buck?
—Sobreviveuaquê?
—Aobombardeio.
—OsujeitoestavaemPetra?
—EstoufalandodeTsion!
— Ah, desculpe-me. Voltamos a falar dele. També m estou preocupado com meu sogro,
comChaimecomAbdullah,masachoquesim.
—Achaoquê?
—Queelesestãovivos.
—Nãovamosdescobririssonosnoticiários,nãoémesmo?
—Nãovamos.MasChangdevesaber.Elesabetudo.
Chang nã o havia almoçado; portanto, quando o expediente terminou, ele retornou ao seu
quarto, passando antes pelo refeitó rio central, onde comprou comida para levar para casa.
Haviamuitacoisaqueelequeriaouvir,masaprioridadeeraencontraroparadeirodesuairmã .
Elenã osabiaseseuspaisestavamdepartidaouemalgumesconderijo,mas,dequalquerforma,
estariam vulnerá veis sem a marca de lealdade. Ele havia fornecido aos pais o nome de uma
pessoadeumaigrejaclandestinanaprovı́nciaemquemoravam,masnã o icousabendoseeles
tentaramouseconseguiramestabeleceressecontato.
Como Ming os encontraria se nem mesmo Chang sabia onde eles estavam? E quanto
tempolevariaparaelachegaràChinapelacostalestedosEstadosUnidosNorte-americanos?
Oambienteestavasombrionocomplexodopalácio.Todospareciamterpressaemchegar
a seus apartamentos. O dia foi muito estranho. Quem nã o vira o ataque aos rebeldes? teria
algué macreditadonaquelespretensosproblemasté cnicosquetiraram,derepente,asimagens
do ar, justamente quando o piloto disse, com todas as letras, que imaginou ter visto
sobreviventesláembaixo?
Chang olhou casualmente para os dois lados do corredor, entrou rapidamente em seus
aposentos e trancou a porta. Acionou um programa em seu computador para saber se havia
grampos"ali.TodosossistemasinstaladosporDavidHassidequeforamdeixadosparaseuusoe
salvaguardacontinuavamseguroserodandonormalmente.
Depoisdedevorarfrutasebiscoitos,Changveri icouseuse-mails.Lá estavaacon irmaçã o
aguardada, dirigida ao nome falso que ele usara como o icial de alta patente do departamento
de aviaçã o da Comunidade Global. "Passageiro, soldado das Forças Paci icadoras da CG, Chang
Chow,dosetor30,pegoucaronacomopilotoLionelWhalum,emLongGrove,Illinois.Rotado
vô o para Pawleys Island, na Carolina do Sul, sem escalas. Vô o de ida e volta de Whalum.
Documentos do Sr. Chow em ordem, destino San Diego, Califó rnia. Nota: Whalum nã o tem a
marca de lealdade, mas o Sr. Chow assegurou que vai tratar disso quando eles chegarem à
CarolinadoSul."
Changdespachourapidamenteumarespostadeagradecimento.Emseguida,vasculhouo
bancodedadosà procuradevô osdePawleysIslandparaSanDiego.Onomedopilotoescalado
paraaquelarotanodiaseguinteacionouumacampainhanamentedeChang.Eraumpilotoda
cooperativa. Ming estava usando o pessoal da cooperativa para chegar à China. Será que
Whalumtambémeradacooperativa?
ChangvasculhouosregistrosdeChloe.Nada.Seelefossedacooperativa,aindanã ohavia
prestado nenhum serviço ou Chloe ainda nã o havia registrado seu nome. Talvez ele tivesse
usado outro nome ou Chloe estivesse atrasada e ainda nã o tinha dado entrada nos nomes do
pessoal.
Chang veri icou o banco de dados internacional da CG. Enquanto o comando de busca
procurava por Whalum, ele terminou de comer. Ao retornar ao computador, encontrou uma
fotogra ia e uma pá gina inteira contendo informaçõ es sobre Lionel Whalum, de Long Grove,
Illinois.Eleeranegro,descendentedeafricanos.Haviasemudadocomaesposaetrê s ilhos,de
Chicagoparaaperiferia,quandoseusnegó c ioscomeçaramaprosperar.Ganhoumuitosprê mios
como cidadã o e como empresá rio. Sua lealdade à Comunidade Global era mencionada como
"desconhecida,masnãosuspeita".
Chang mudou para outro banco de dados e copiou as informaçõ es para um centro de
administraçã o de juramento a lealdade, em Statesville, Illinois. Retornando aos registros de
Whalum,elemodi icouainformaçã osobrelealdadepara"con irmada",fatoessedocumentado
pelo esquadrã o da CG de Statesville na data em que Whalum teria recebido a marca. Se ele
fosse da cooperativa, aquela informaçã o eliminaria as suspeitas. E Ming icaria sabendo que
Changestavacuidandodela.
UmsinalsoounocomputadordeChangseguidodeumavisocomunicandoaeleeatodoo
pessoal da CG sobre "a desafortunada perda dos dois pilotos que participaram do ataque aos
rebeldes hoje. Em razã o de falha dos pilotos, as bombas erraram o alvo em mais de um
quilô m etro e meio, e os revoltosos dispararam mı́sseis que destruı́ram os dois aviõ es. A
Comunidade Global envia suas condolê ncias à s famı́lias desses heró is e má rtires que se
sacrificarampelapazmundial".
Changconsultourapidamenteosmanifestosdohangaredescobriuqueasduasaeronaves,
que custaram milhõ es de nicks, retornaram e foram localizadas. O necroté rio informou que
ambosospilotosforamdadoscomo"mortos—seusrestosmortaisteriamsidoencontradosno
local do acidente no Neguev". Os registros pessoais dos dois estampavam uma marca em
vermelhocomadatadamortedeles.
ChangacionouagravaçãofeitanoescritóriodeAkbarporvoltadahoraemqueoprimeiro
pilototeriaretornado.
Havia uma conversa clara entre a secretá ria de Akbar e o piloto que estava sendo
conduzido à sala de reuniõ es. Apó s alguns minutos de conversa amena, houve um convite para
elesentar-se.Emseguida,avozdeSuhail:
—Vocêseempenhoubastanteláhoje,homem.
—Obrigado,senhor—Avoztinhasotaquebritânico.—Execuçãoperfeita.Gostei.
—Sintomuito.Vocênãosabequesuamissãofracassou?
—Como,senhor?
—Queodesfechofoinegativo?
— Nã o estou entendendo, diretor. As duas bombas acertaram na mosca, e a á rea inteira
foidestruı́daconformeasordensrecebidas.Quando izamanobrapararetornar,omı́ssiljá tinha
sidolançado,edeacordocomoqueouvi...
—Então,éverdadequevocênãosabequeerrouoalvo.
—Senhor,seascoordenadasestavamcorretas,nósnãoerramos.
—Ninguémmorreu,jovem.
— Impossı́vel. Eu vi o povo lá antes de lançarmos as bombas e avistei fogo por todos os
ladosduranteváriosminutosantesdeminhapartida.
— Como disse, o empenho foi bom. Infelizmente, um erro humano resultou em fracasso
total.
—Eunão...Eunãoestou...Euestou...completamenteconfuso,senhor.
—Você será rebaixadodecargoe,paratodososefeitos,nã oentendecomoesseerrotã o
gravepodeterocorrido.
—Comsualicença,senhor,masestoucertodequenãoocorreunenhumerro!
— Eu estou dizendo que ocorreu, e é isso o que você vai dizer a qualquer um que quiser
saber.
—Nãovoudizerisso!Ouosenhormeprovaqueerramosoalvoouvoudizeratodomundo
queessamissãotranscorreusemnenhumtranstorno.
—Você vaiver,nomomentocerto,pelasfotosdereconhecimento,quenã ohouvemorte
algumaemPetra.
—Osenhorviuessasfotos?
—Claroquevi.
—Eosenhornãoduvidadaveracidadedelas?
—Não,filho.
Umalongapausa.Avozdojovempareciachorosa.
— Se houve algum sobrevivente naquela montanha, foi um milagre. O senhor sabe o que
atiramoslá.Asordensforamsuas!Nãoháexplicação,enãovouserpunidoporisso.
— Você já foi punido. Você e seu colega serã o transferidos, e você sabe como responder
a...
—Eunãovouafirmarumacoisaemquenãoacredito,senhor.
—Vamos,vamos,rapaz.Vejoonú m ero2emsuamã oeaimagemdenossolı́der.Você é
umcidadãoleal.Vocêcontribuiparaacausa,você...
—Opotentadovaiquererqueeudigaquecometiumerroquenãocometi?
—Vocêcometeu.
—Nãocometi.
—SuaExcelênciaestámuitodecepcionadocomvocê,filho.
—Eunãovoufazerisso,diretorAkbar.
—Nãovaifazeroquê?
— Nã o vou mentir. Tenho muito orgulho de meu trabalho. Eu nã o questionei a ordem.
Acreditoqueaquelagenteeraperigosaeumaameaçaà ComunidadeGlobal.Cumpriasordens
direitinho.Ninguémpodemedizerqueerramosoalvoprincipalouquenossos82nãodestruíram
aquelaá reainteiraetodasaquelaspessoas.Seosenhornã otiverprovasconcretasdequeeles
estã o vivos, nã o vou inventar mentiras. Nã o aceito ser rebaixado e nã o vou repetir coisas feito
umpapagaio.Seaquelaspessoascontinuamvivas,elassã osuperioresanó s.Secontinuamvivas,
elasvenceram.Nãopodemoscompetircomelas.
—Vocêmedeixousemopção.
—Comoassim,senhor?
—Nãopodemospermitirquenossopessoalseeximaderesponsabilidadeporseuserros.
—Osenhornãoserácapazdemefazercalar.
Akbarriuefoiinterrompidoporumachamadapelointerfone.
—Opilotoprincipalestáaguardando,senhor.
—Mande-oentrar.
AssimqueChangouviuosomdaportaseraberta,obritânicovoltouafalar.
—Digaaele,Uri.Digaaelequenósnãoerramos.
—Oquê?
E a conversa recomeçou, com Akbar culpando o fracasso dos pilotos, o britâ nico
protestando,Uriemsilêncioporalgunsinstantes.
—Comlicença,ummomento,cavalheiros—disseSuhail.Aportafoiabertaefechada.
—Kerry—disseUri—presteatenção.Eleestácerto.O...
—Certocoisanenhuma!Tenhocertezadoquevienunca...
— Silê ncio! Preste atençã o! Você e eu sabemos que o lançamento foi perfeito. Mas eu
iquei lá depois que você partiu. Você ouviu minha transmissã o. Aquela gente sobreviveu aos
BlueseaoLance,nãosofreunenhumarranhão.
—Impossível!
—Impossível,maséverdade.
—Ummilagre.
—Sópodetersido.
—Entã o,vamosterdeconvivercomisso,Uri.ACGeomundoprecisamenfrentarofato.
Elessã oinimigosmaisqueterrı́veis,etemosdeadmitirquejamaisteremoschancedederrotá los.
—Concordo.Vocêmeouviutentardizerisso.
— Eles tiraram você do ar! Agora querem nos fazer de bodes expiató rios. Vã o nos
rebaixar.Vãonosforçaradizerquefalhamos.
—Eunãovouserforçadoanada—disseUri.
—Éassimquesefala—disseobritânico.Osdoisanimaram-semutuamente.
—Sejafirme.
—Nãoceda.
—Vamoslutarjuntos.
Changveri icouotelefonedeAkbar.Suhailhavialigadoparaosetormé dicoepedidopara
falar com a Dra. Consuela Conchita. No dia anterior, Chang havia lido uma notı́c ia no boletim
internosobreapromoçãodelaaocargodecirurgiã-geraldaComunidadeGlobal.
— Connie — disse Akbar -, preciso de duas doses fortes de sedativo, daqueles de efeito
bem rá pido. Em minha sala de reuniõ es, assim que possı́vel. Tenho seguranças aqui, caso os
pacientesresistam.Etragapadiolasdonecrotério.
—Donecrotério?
—Queroqueosdoissejamcremados.
—Vocêestámepedindodosesletais?
—Não,não.Sóqueroquefiquemforadoarantesdesaíremdaqui,cobertoscomlençóis.A
cremaçãofaráoresto,nãoémesmo?
—Matarosdois?Éclaroquesim.Vocêestápedindoqueagenteexecuteduaspessoas?
—Aordempartiudecima,Consuela.
Umapausa.
—Entendo.
Changfezumacaretaenquantoouviaagravaçã odeAkbartentandoconvencerospilotos
de que havia pedido injeçõ es para acalmá -los. Ambos começaram a espernear e a gritar, e
Chang entendeu que eles haviam sido dominados e recebido as doses de sedativo. Os dois nã o
existiammais.QualquerpessoaqueostivessevistoaterrissaremNovaBabilô niaedirigir-sedo
hangaraopalá cioseguindo,depois,até oescritó riodeAkbar,jamaisadmitirianemmencionaria
isso.Elestinhamsidoalvejadospeloinimigoepontofinal.
Chang veri icou os aviõ es novamente. Os nú m eros de sé rie já haviam sido mudados. E os
nú m eros originais estavam assinalados como perdidos em açã o. Por mais estranho que
parecesse,aquantidadedecaças-bombardeirosdaCGemNovaBabilôniacontinuavaamesma.
OcomunicadoqueapareceranateladocomputadordeChangseriatransmitidoaomundo
inteiro naquela noite. Sem dú vida, o pró prio Carpathia manifestaria suas desprezı́veis
condolênciaspelasperdas.
Changveri icouosregistrosnaGré ciaedescobriuqueNelsonStefanichhaviaexpedidoas
coordenadas do local à equipe de "Howie Johnson". Ainda faltavam duas horas para anoitecer,
quandoMacresolveufazersuavisita.Changtevetempodecon irmarasinstruçõ esdeMacao
pessoal do aeroporto de Ptolemaı̈s para reabastecer oRooster Tail. També m incluiu no
computadorumavisodequeocomandantesê niorJohnsonestavaautorizadopeloaltoescalã oa
levá-loparaNovaBabilônia.
Feitoisso,Changencontrouonú m erodocelulardeStefanichetransmitiu-o,portelefone,
aMac.
—Recebeutodasasinformaçõesdequenecessita?—Changperguntou.
—EuaindanãoseioqueaconteceucomagarotaStavros.
—Nãohánenhumainformaçãoaqui.Osenhoraindatemalgumaesperança?
—Sempretenho,Chang.Eassimqueeusou.—PergunteaStefanich.—Ah,boaidé ia.Ei,
Chang?
—Senhor?
—Existealguémmelhordoquevocê?
—Obrigado,senhor.
Finalmente, Chang conseguiu veri icar as outras gravaçõ es feitas ao longo do dia. Ele
localizou uma vinda do escritó rio de Carpathia e retrocedeu até o ponto em que Nicolae, sua
secretá ria Krystall, Leon Fortunato, Suhail Akbar e Viv Ivins aguardavam para assistir à
transmissãodacabinadobombardeiro.
Suhail tinha acabado de contar ao potentado que diligenciara para que ele assistisse ao
vivo.Carpathiamanifestougrandeeuforia.Changavançoua itavá riosminutos,enquantotudo
estavasendopreparadoeNicolaerecebiaváriaspessoasnasala.
Em seguida, animaçã o. Akbar informou a Carpathia que os bombardeiros estavam
programados para decolar de Amã e que as imagens poderiam ser vistas no monitor, "se o
senhorquiser".
—Seeuquiser?Porfavor!
—PaláciochamandoocomandodeAmã—disseSuhail.
—Amãfalando.Prossiga,palácio.
—Iniciecoberturavisualdadecolagem.
—Entendido.
Váriossegundosdesilêncio.Emseguida,avozdeCarpathia.
— Suhail, esses aviõ es sã o caças-bombardeiros? Nã o é uma ilusã o de ó t ica? Parecem
imensos.
—Ah,sã osim,Eminê ncia.Fazapenasalgumassemanasqueelescomeçaramaoperar.O
senhorviuaalturadeles?Omotoré maiordoqueodequalqueroutrocaça.Precisasergrande
paraacomodarosartefatosexplosivos.
—Oqueéaquiloaliembaixo?Umabomba?
—Sim,senhor.
—Elaéenorme!Emaciça!
— E grande demais para ser transportada dentro do aviã o, senhor. Mede l,50m de
diâmetroe3,40mdecomprimento.Essacoisapesasetetoneladas.
—Nãodiga!
—Éverdade,senhor.Elaétransportadaembaixodaaeronave,presaaumeixo.
—Eoqueéaquilo,Suhail?Oquevamosserviraoinimigohoje?
— Os norte-americanos costumavam chamá -las de Big Blue 82. Sã o bombas de
concussã o. Oito por cento do peso delas consistem de um gel feito de poliestireno, nitrato de
amôniaealumínioempó.
—Essabombaétãopoderosaquantogrande?
— Excelê ncia — disse Suhail -, só uma arma nuclear é mais poderosa do que ela. Essas
foramprojetadasparadetonaramaisoumenosummetrodosoloegeramquase500quilosde
pressã o por polegada quadrada. Matam tudo, até mesmo criaturas minú sculas que vivem
debaixodaterra,numaáreaequivalentea8000km 2.Afumaçaemformatodecogumelosobea
maisdeumquilômetroemeio.Evamoslançarduasbombas.
—Maisummíssil.
—Sim,senhor.
—Fogo?
— Ah, Divindade, essa é a melhor parte. Cada bomba de concussã o produz uma bola de
fogodequasedoisquilômetrosdediâmetro.
Chang teve um sobressalto ao ouvir um assobio alto, e ele imaginou que Carpathia
estivesseinalandoprofundamenteoarpelonarizeexalando-oatravésdosdentescerrados.
Posteriormente,quandoospilotossoltaramasbombas,Nicolaedisse:
—Suhail!PodemosassistirpelaTV?
—Sóénecessárioapertaralgunsbotões,Excelên...
—Façaisso!Já!
Alguémsaiudasala.
AgravaçãofoiinterrompidaapenasporalgumasexplosõesdealegriadeCarpathia.
—Ahh!Vejam!Ohh!Perfeito!Noalvo!Asduas!Oêxitoéamelhordesforra.
—Certamente.
—Eavitóriatambém.
—Sim,senhor.
—Totalecompleta—disseNicolae.
Váriosresmungos.
O suspiro assobiado terminou numa espé cie de sopro. Chang lembrou-se de um leã o que
vira no zooló gico em Beijing. O animal devorou vá rios quilos de carne crua, rugiu, bocejou,
espreguiçou-se, apoiou o imenso queixo nas patas e deu um longo suspiro seguido de um ruı́do
surdoeprolongadovindodofundodopeito.
Enquantotodospermaneciamcomosolhosfixosnatela,alguémcumprimentouNicolae.
—Finalmente,meusenhor.
EraVivIvins.Carpathianã odissenada,fazendoChangimaginarseelacontinuavanalista
negradeNicolae.
Paratodososoutroscumprimentos,elelimitou-seadizer:
—Obrigado.Obrigado.
A sugestã o do piloto principal de abortar o lançamento do mı́ssil foi imediatamente
rejeitadaporSuhail.
—Issomesmo,Suhail—disseNicolae.
Suavozpareciavirdofundodasala.
—Muitobem.Vamoslançaroúltimodardo.
Quandoopilotosemostrouinsubordinado,Suhailcontra-argumentouimediatamente.Em
seguida,silêncio,quefoiquebradoporCarpathia.
—Euestavaouvindocoisasoueleseatreveuadesafiá-lo?
—Elequasechegouamedesafiar,Excelência.
—Repreenda-o!—disseLeon,comvozesganiçada.
— Nã o acredito que ele queria que eu o ouvisse. Ele está vendo pessoalmente o que
estamosassistindonatela.Éclaroque,paraele,parecedesnecessário.
—Maseuainda....—disseLeon.Alguémpediu-lhesilêncio.
Quando o mı́ssil atingiu o alvo e o piloto começou a fazer comentá rios de dú vida e de
descrença, Chang ouviu uma cadeira ser arrastada, como se algué m tivesse se levantado de
repente.
—Oquê?!—AvozeradeNicolae.
—Impossível!—disseFortunato.
—Cortematransmissão!—disseCarpathia,eAkbarrepetiuaordememvozalta.
Somdepassosafastando-sedamesae,presumivelmente,dirigindo-seaomonitor.Aporta
foiaberta.Somdepessoassaindo.Aparentemente,sóficaramNicolaeeSuhail.
— Duas de nossas maiores bombas incendiá rias? — disse Carpathia entre os dentes. —
Vocêdissequeumaseriamaisdoquesuficiente.
—Edeveriatersido.
—Vimosaslabaredaseaspessoasenvoltasemchamasporquantotempo?
—Temposuficiente.
Vá rios minutos de relativo silê ncio durante o qual Chang pensou ter ouvido a respiraçã o
ofegante de Carpathia. E, quando o potentado inalmente resolveu falar, parecia desesperado e
comfaltadear.
—Presteatençãoaoquevoudizer,Suhail.
—Sim,senhor.
—Vocêestáprestandoatenção?
—Estou,senhor.
— Cuide daqueles pilotos. Eles erraram o alvo. Falharam. Os olhos deles os enganaram.
Nãopermitaqueessavitóriasejaatribuídaaosjudaístas.Dejeitonenhum.
—Euentendi,senhor.
— Entre em contato com os outros nove potentados regionais pessoalmente em meu
nome. Diga-lhes que os judaı́stas levantaram armas contra nó s e que tivemos de enfrentar um
ataqueterrível.Vamosretaliar.Eudisseissoaelesrecentemente.
—Osenhordisse.
— Este é o momento certo. A verba é ilimitada. Vou sancionar, justi icar, apoiar e
recompensar a morte de qualquer judeu em qualquer parte do mundo. Quero que esse assunto
seja tratado com prioridade má xima, nã o me interessam os meios. Quero ver todos presos.
Torturados.Humilhados.Envergonhados.Queroqueblasfememcontraodeusdeles.Tiremtudo
oqueédeles.Nadaémaisimportanteparaopotentado.Vocêentendeu?
—Entendi.
—Várápido.Façaissoagora.
—Sim,senhor.
—Suhail?
—Senhor?
—MandeoreverendoFortunatoentrar.
Apósalgunssegundos,Leonentrouapressadamente.
—Oh,meusenhor,nãoseioquedizer.Nãoconsigoentender.Oque...
—MeucaroreverendíssimoFortunato.Beijeminhamão.
—Emquepossoservi-lo,potentado?Eumeajoelhodiantedosenhor.
—Continueajoelhadoeouça-me.Vocêcontinuaasermeuservomaisconfiável...?
—Ah,sim,Supre...
—Silêncio.ContinuaaseroReverendíssimoPaidoCarpathianismo?
—Sim,sinceramente.
—Leon,vocêmeama?
—Osenhorsabequeeuoamo.
—Vocêmeestima?
—Detodoomeu...
—Vocêmeadora?
—Ah,meusenhoramado...
— Levante-se, Leon, e ouça-me. Meus inimigos estã o me ridicularizando. Eles realizam
milagres. Eles envenenam meu povo, invocam feridas dos cé us, transformam as á guas dos
mares em sangue. E agora! Agora eles sobrevivem a bombas e fogo! Mas eu també m tenho
poder. Você sabe disso. E o transferi a você , Leon. Vi você usá -lo. Vi você invocar fogo do cé u
para matar aqueles que se opunham a mim. Leon, quero atacar fogo com fogo. Quero muitos
cristos.Vocêestámeouvindo?
—Senhor?
—Queromuitosmessias.
—Messias?
—Querosalvadoresemmeunome.
—Prossiga,Excelência.
—Descubraessagente.Queromilharesdeles.Treine-os,ensine-os,trans iraaelesopoder
que transferi a você . Quero que eles curem enfermos, transformem á gua em sangue e sangue
emá gua.Queroquefaçammilagresemmeunome,queatraiamosindecisos,sim,até mesmo
osinimigosqueestãoafastadosdeseudeusedemim.
—Voufazerisso,Excelência.
—Vaimesmo?
—Voufazerseosenhormederpoder.
—Ajoelhe-sediantedemimnovamente,Leon.
—Imponhasuasmãossobremim,meusenhorressurreto.
—Eulhecon irotodoopoderdoqualfuirevestido,queveiodecimaedebaixodaTerra!
Eu lhe concedo poder para fazer coisas grandes e poderosas, maravilhosas e terrı́veis, atos tã o
esplêndidoseassombrososqueconvencerãoaqualquerhomemqueosvejaquesouoseudeus.
Leonestavachorando.
—Obrigado,meusenhor.Obrigado,Excelência.
—Vá,Leon—disseCarpathia.—Várápidoefaçaimediatamenteoquelhepedi.
CAPÍTULO5
George sentia-se bem, apesar das circunstâ ncias. Quanto tempo fazia que o haviam
colocadonobancotraseirodojipe?Eleestavasentadonoladodireito,tendoElenaàsuafrentee
Platã o a seu lado. O lı́der acomodou-se ao volante e pediu a Platã o que colocasse a venda nos
olhosdeGeorgenovamente.Georgegostoudeestarcomasmãosalgemadasparatrás,porqueo
movimento do jipe lhe permitiria tombar o corpo de um lado para o outro e cair em cima de
Platão.
Secalculassebem,teriacondiçõesdebatercomsuacabeçanadele.
Olíderdeumarchaaréeparousemdesligaromotor.
—Ondeosujeitoestá?—eleperguntou,irritado.
—Ali,naestrada.
—Oqueeleestáfazendoali?—Umsuspiroalto.
—Sócrates!Venhaaqui!—Georgeouviusomdepassosmancos.
—Vocêjádeuumjeitonocarro?
—Estáescondido,Aristóteles.
—Dê-measchaves.
—Porquê?Eseeuprecisardelas?
—Vaipôrtudoaperder!Dê-measchaves.
GeorgeouviuobarulhodechavesquandoAristótelesaspegou.
—Pense,homem!—eledisse.—Assim,você nã ovaiserobrigadoaentregaraschavesa
ningué m, aconteça o que acontecer. E afaste-se da estrada! Você nã o tem motivos para
aparecer.Fiqueesperandoaı́. —Aristó t elesabaixouavoz,comoseachassequeSebastiannã o
conseguiria ouvi-lo por estar com os olhos vendados. — Lembre-se, quanto mais você se
descontrolar,maisalguémvaiacreditaremvocê.
—Vocêsabequepossofazerisso.
— Eu sei que sim! Você també m é capaz de derramar lá grimas quando quer? Finja até
ondeforpossı́vel.Temdeparecerquevocê fezdetudoantesdeentregarospontos.Sintomuito
porvocêestarmachucado,massuamissãoétãoimportantequantoanossa.
Chloe entendia, agora, por que seu pai admirava tanto Mac. Ele era rude e irme, mas
també m meticuloso. Havia espalhado as folhas da pasta da CG, com as informaçõ es sobre
Sebastian,emcimadopaineldocarroemprestado.Na lorestaaonortedePtolemaı̈s,depoisde
teremescondidoooutroveı́c ulo—ojipenoqualhaviasidofeitaumaligaçã odireta—embaixo
deumarbusto,elesestudavamasinformaçõ es.Chloe,sentadanobancodianteirodireito,tinha
ocorpoinclinadoparaafrente;Hannah,sentadanobancotraseiro,espiavaporcimadoombro
de Chloe. Os trê s usavam fardas com camu lagem da CG e tinham os rostos manchados de
graxa.
— Eles pensaram muito bem quando escolheram aquela moça parecida com a garota
Stavros.
—Georgiana—disseHannah.
—Certo.Onomeverdadeirodelaé Elena.OsobrenomecomeçacomaletraA. Hummm,
é aú nicapessoaqueusanomeverdadeiro.Pelojeito,elesnã ofazemmuitaquestã odeprotegê la.Estouvendoaquidoislugaresinsigni icantes.Aparentemente,nã oestã osobajurisdiçã odas
Forças Paci icadoras, mas estã o sendo cuidados por este pelotã o daqui. Ah, estou vendo um
montedeapelidos.
—Umdeleséodolíder,Mac—disseHannah.
Macsacudiuacabeça,concordando.
—Aristó t eles.Ooutroé Só c rates.Quecriatividade!Diantedisso,será queElenanã oseria
Helena? Helena de Tró ia, entenderam? E o grandalhã o, aquele que se fez passar por George.
Platã o? Ah, pelo amor de tudo o que é mais sagrado! Bem, seja lá o que acontecer, tomem
conta uma da outra. Ele é francê s. Foi trazido apenas para esta missã o. Sebastian se sentiria
insultado.Otalsujeitoépesado,mastemmenosdel,90m.ÉmenorqueGeorge.
Macolhavaparaoreló giootempotodo.Enquantoanoitecaı́a,elescontinuaramlendoe
memorizando as informaçõ es. Finalmente, tiveram de recorrer à luz do teto do carro e a trê s
lanternaspequeninas.
—Oplanooriginalnãofoimau—disseChloe.—Sóquealguémnãocolaborou.
— Eu nã o conheço o rapaz nem o outro cara mais velho, o motorista — disse Mac. —
Mas,peloquemecontaramsobreMiklos,apostominhas ichasnele.Dequalquerforma,algué m
suspeitou de alguma coisa. O plano deles era pegar a garota oito quilô m etros ao norte do
aeroportoemandarPlatão,otalquesepassouporSebastian,ficarnabeiradaestrada.
— Mas Sebastian estava esperando encontrar-se com nosso pessoal mais perto do
aeroporto—disseHannah.
— Talvez eles quisessem ter certeza de que estava tudo em ordem antes de Sebastian
aparecer—disseMac.—Elesestã oorgulhososporquemudaramosplanos.Parecequeaidé ia
originalerapegartodoseles,inclusiveGeorge,eameaçarmatarosoutrosseGeorgenã oabrisse
a boca. E, mesmo que abrisse, eles executariam todos juntos, se nã o aceitassem receber a
marca.
Chloehaviaviradoapágina.
—Ninguémnotouisso?
—Issooquê?—perguntouMac.
— Os tiros. Os trê s tiros foram disparados pela moça. Uma sensaçã o de expectativa
começouatomarcontadeChloeà medidaqueahoraHseaproximava.Machaviaestudadoas
coordenadas e concluı́do que eles estavam a cerca de 40 minutos do cativeiro de George. As
21h30, ele ligou para o celular particular de Stefanich discando o nú m ero que Chang lhe
fornecera.
Noiníciodatarde,emChicago,BuckeEnoquereuniramtodoopessoal.
— Uma rá pida atualizaçã o dos fatos — disse Buck. — Chang tem uma pista sobre Ming.
Parecequeelaestá acaminhodeSanDiego.Depois,segueparaaChina.Oproblemaé queele
nãosabeondeseuspaisestão,portantoelatambémnãodevesaber.
—ComoseguiuelaparaSanDiego?—perguntouAlbie.
— Pelo caminho mais longo. Acho que pegou uma carona num aviã o particular, de Long
GroveàCarolinadoSul,edepoisconseguiu...
—Altolá!—disseLeah.—Espereumpouco.LongGrove?
—Sim.Depoisela...
—Buck!SeráqueopilotoéessetaldeWhalum?
—Nãosei.Ofatoéqueela...
— O fato é que, sefor Whalum, ele é o homem que deseja despachar os mó dulos para
Petra.
Buckparouaoouviraquelainformação.
—Nãoestouentendendo.
—ElapodeestarindoparaPetra.
—Elanuncavaiconseguir.Asegurançaestárígidademais.
—Então,medigaoquevocêacha.
—TalvezelatenhapegadoumacaronacomumsujeitoqueestáindoparaPetra,masnão
vaicomele.
—Émelhorcomeçarmosaorar—disseLeah.
—Éporissoqueestamosaqui.
—QuerdizerqueMingusouumcontatodacooperativapara...
—Podemosdeixaresseassuntoparadepois,Leah?
— Claro, mas nó s ainda nã o sabemos ao certo quem ele é . Nã o sabemos se é realmente
um dos nossos. Quando vi Ming lendo todas essas informaçõ es, pensei que ela estivesse apenas
querendoajudar.
BuckergueuacabeçaeolhouparaLeah.
—NãofoivocêquemdissequeMingéumamulheradultaelivreparafazeroquequiser?
Mac surpreendeu-se depois de ouvir o celular de Stefanich tocar quatro vezes. A polı́t ica
daCGdiziaqueosoficiaisdecomandosempredeviamestardisponíveisparafalarcomachefia.
— Nelson Stefanich falando — ele ouviu, inalmente -, e só estou atendendo uma ligaçã o
deumnú m eroignoradoporquetemosumaoperaçã oemandamento;portanto,digalogooque
quer.
—Oi,Nelsinho"boapraça"Stefanich,comoéquevocêvai?
—Quem...?
—Sintomuitoterfaltadoaonossoencontrohoje.AquifalaHowieJohnson.
—Sim,senhorcomandante.Jánosconhecemospessoalmente?
— Nã o, mas depois que iquei sabendo muitas coisas boas sobre você , parece que você é
meuvelhoconhecido,entendeoqueeuquerodizer?
—Obrigado,senhor.
—Gosteidasinformaçõesquevocêpassouàminhaassistentehoje.
—Tudobem.
— Estamos prontos para arregaçar as mangas, Nel, e eu só queria lhe passar as
coordenadas para que você possa informar a Aristó t eles que estamos a caminho de nossa
missão.Esperoqueseutelefonesejaseguro.
—Claro,comandante.
— Otimo, ó t imo. Mas eu nã o quero que eles iquem assustados. Eles devem esperar por
nóssemcomeçaraatirarassimqueouviremagentechegando.Queremosprotegê-lostambém,
portanto nã o vamos de carro até a porta. Vamos chegar a pé , e, quando estivermos perto, eu
voudardoisassobiosaltos.Elesdevemrespondercomumassobio.Assim,agentevaisaberque
estátudocertoparairemfrente.
—Entendido.Osenhorassobiaduasvezes;elesassobiamuma.
—Eelesdevementenderque,assimqueeuentraremcena,quemdáasordenssoueu.
—Ah,sim,senhor.Nãohádúvida.
—Apropósito,acheioscodinomesmuitocriativos.
—Obrigado.Eu...
—Maisumacoisa:esquecemosdeperguntarsobreoalvooriginal,umataldeG.Stavros,
fugitivadeumapenitenciáriadaí.Oqueaconteceucomela?
—Bem,osenhorsabequeelanospassougrandepartedasinformaçõesquesabemossobre
oesconderijodosjudaístasaqui.
—Ah,entãoelaéumamercadoriavaliosa.
—Era.
—Passado?
—Positivo.Morta.
—Verdade?
— Sim, senhor. Continuou a recusar a marca mesmo depois de ter fornecido muitas
informações.
—Guilhotina?
—Abemdaverdade,não,senhor.
—Vocêentendequealâminafazpartedoprotocolo,não,comandanteStefanich?
—Emcircunstânciasnormais,sim,senhor.
—Eadiferençaaquifoi...?
—Ela,ah,bem...elacomeçouanosfornecerinformaçõesfalsas.
—Porexemplo?
—Bem,nuncaconseguimosumarespostadiretasobrealocalizaçã odoatualesconderijo.
Elafoiumadaspessoaspegasnasinvasõ esdosprimeirosesconderijos;portanto,quandovoltou,
deviaconhecerpelomenosumdosnovoslocais.
—Fazsentido.Elaresolveunãocolaborar,certo?
—Certo,senhor.Depoisdaterceiratentativainfrutíferaéqueelafoi...
—Executada?
—Sim,senhor.
—Como?
—Alvejadapelopelotão.
—Foinecessárioumpelotãoparaacertarumaadolescente?
—Pelotãoéumeufemismoqueusamosaqui,senhor.
—Continue.
—Qualquerpessoaacimadedeterminadapatenteestá autorizadaaatacaroinimigopra
valer.
—Atirarparamatar?
—Exatamente.
— E essa tal pessoa que faz o serviço reparte os mé ritos com o resto da equipe? Com o
pelotão?
—Correto.
—Foivocêqueatirounela,não,comandante?
—Sim,senhor,fuieu.
—Bem,foiumatoextraordinário,quaseindescritível.Sentifirmeza,Nelson.
—Obrigado,senhor.
— Sei que você fez isso em nome da Comunidade Global, e todos nó s estamos muito
agradecidos,acomeçarpelopessoaldecima.
—Muitoobrigado.
—Nã omeagradeça,comandanteStefanich.Ofatoé queeugostariadepoderpremiá -lo
pessoalmenteporaqueleato...
—Simplesmentecumprimeudever,senhor...
—Dequalquerforma,vocêserárecompensadopeloserviçoqueprestouàcausa.
—Eunãoseioquedizer.Issoseriaapenas...
— Tudo bem, Nel, estamos gastando muito tempo com esta conversa. Você informa aos
filósofosgregoseàamiguinhadelesquedaquiapoucoestaremoschegandolá,entendeu?
—Estábem.Senhor?
—Estououvindo—disseMac.
— Esperamos contar com sua ajuda, é claro, mas o senhor precisa saber que estamos
muitofelizescomestaoperação.
—Ah,sim,euentendo.
— Bem, talvez seja só impressã o minha, mas sua assistente me deu a entender que o
senhor está um pouco irritado com a equipe porque o prisioneiro ainda nã o abriu a boca.
Estamosplanejandohomenageá-lospelafaçanhadeles.
— Eu entendi, comandante. Nã o se preocupe com isso. Acho justo dizer que també m
temosaintençãodereagirpositivamenteàatuaçãodeles.
— Nó s també m estamos aqui, é claro, para agradecer o milagre ocorrido em Petra hoje
— disse Buck. — Os dois pilotos experientes nã o foram capazes de acertar o alvo a uma
distâ nciatã opró xima,mesmoatirandoaquelasduasbombasgigantescas,bem...louvadosejao
Senhor.
Osoutrosriram.
—Everdade—disseAlbie.—Edepoisqueelesviramquetodoopovo icouemchamas,
bem...aíéqueficaramespantadosmesmo.
— Deixando as brincadeiras de lado — disse Buck -, Deus está agindo de maneiras
indescritı́veis, e nunca devemos deixar de reconhecer seu poder e soberania, seu cuidado para
conosco,suaproteçãoanossosfamiliares.
Apó s ele ter dito isso, vá rias pessoas ajoelharam-se na casa secreta e começaram a orar
espontaneamenteealouvaraoSenhor.Enoquedirigiuumaoraçã opedindoproteçã o"anossos
novosamigos,nossoirmã oMac,enossasirmã sChloeeHannah,nestemomentoemqueestã o
enfrentandoumamissã operigosa.Protege-os,vaiadiantedeles,enviaanjosparaosguardarem,
e que eles tragam nosso irmã o da Califó rnia sã o e salvo, para que possamos agradecer a ele e
congratularmo-noscomtodos."
Chloe icouagradecidaquandoMacvirou-senobancoeestendeuamã oabertaparaelae
Hannah. Os trê s deram-se as mã os, e ele orou. Nã o foi uma oraçã o longa, nem eloqü ente. Mas
partiudeMac,eelepareciasabercomquemestavafalando.AquiloacalmouChloe.Umpouco.
Temporariamente.
Quando Mac parou no acostamento, num ponto em que ele calculava estar a uns 800
metrosdodestino,Chloeficoufelizporpoderdescerdoveículo.Osoloeradesnivelado,massem
buracos, e ela sabia que uma curta caminhada seria bené ica para seus nervos. Os trê s
desligaram os celulares e os colocaram nos bolsos traseiros esquerdos. Os minú sculoswalkietalkies foram ajustados a uma freqü ência exclusiva, volume baixo, e colocados nos bolsos
traseirosdireitos.
Chloe destravou a antiga Luger que estava ao seu lado direito, na altura do quadril, e
Hannah desa ivelou a tira de couro acima do cabo de sua Glock. Os trê s transportavam Uzis
carregadas,presasporcorreianoombrodireitoedependuradasnopeito.
Mac retirou a DEW [arma de energia direcionada] do porta-malas e entregou-a a Chloe.
Elacolocou-ainclinadanoombroesquerdo.AHannah,eleentregouumsacodelona,pequenoe
pesado, com pentes extras para a Uzi e muniçã o para o ri le calibre 50, que Mac carregava
desajeitadamente na vertical, com os pé s do suporte bı́pede apontados para a frente. Ele
apoiava a coronha da arma de 1,20m de comprimento, pesando 15 quilos, na palma da mã o
direita,comobraçoesquerdopassadoaoredordocano.
— Ainda bem que estou razoavelmente em forma para minha idade — ele disse. —
Chegandoaos60eaindaconsigoganhardevocê snumacorrida,desdequeopercursonã oseja
longo.
—Nãocarregandoessacoisa—disseHannah.
Chloenotouumlevetremornavozdela.Erareconfortantesaberquenã oeraaú nicaque
estavamorrendodemedo.
—Nã otenhamuitacertezadisso—desa iouMaccomopé esquerdoà frenteeotronco
aprumado.ElecolocouabússoladiantedalanternadeHannaheiniciouamarcha.
—Sigam-me,senhoras.
As botas de Mac batiam no chã o com ritmo cadenciado. Em breve, Chloe começou a
transpirarearespirarcomdi iculdade.Maselasesentiabem,eHannahtambé mpareciaestar
em boa forma. Contudo, a caminhada nã o afastou a sensaçã o de perigo da mente de Chloe. Os
blefes tinham dado certo até ali. Talvez certo demais. Se fosse tã o fá cil assim, nã o haveria
necessidadedeestaremcarregandoarmamentotãopesado.
ChangrastreouospassosdeMingaté SanDiegoenotouqueelasó partiriadelá noinı́c io
danoite.Horáriodacostaoeste.Eleligouparaocelulardairmã.
—Oi,Chang—eladisse.—Ondevocêestá?
— E um teste? Você acha que vou tentar convencê -lo de que estou na casa secreta em
Chicago?
—Queroquevocêsaibaqueconverseicomeles.
—Claro.Evejoquenãodemoroumuitoparavocêmelocalizar.
—Ondevocêestáexatamente,Ming,eoqueestáfazendo?Elasuspirou.
—Estounumpequenoterminaldeaviõ esfretados,nosuldeSanDiego.Meusdocumentos
e minha aparê ncia estã o funcionando perfeitamente. Ningué m pede para ver minha marca
porqueestoufardada,e,quandoospilotosvêemoseloemminhatesta,passamaproteger-me.
—Vocênãocontouaelesquemé,contou?
—Contei,Chang.Souumaidiota.Nã o!Claroquenã o.Porquesobrecarregá -loscomalgo
que pode lhes trazer problemas? Eles nã o podem ser responsabilizados pelo que nã o sabem. O
disfarce é perfeito. Eles estã o ajudando a Comunidade Global transportando um funcioná rio.
Sabemsecretamentequesoucrente,masnãosabemquesoumulher,quetrabalheiantesparaa
CG,nemquesoudesertora.
—Ming,vocêsabequenossospaisnãoestãoemcasa.
—Foioqueimaginei.
—Então,comovocêvaifazerparaencontrá-los?
—Vouindagar.Possofazerissocomooficial.Talvezeuprendaosdois.
—Nãoacreditoquevocêtenhapensadonessapossibilidade.
—Pensei,Chang.Maisdoquevocê imagina.Elesvã oentraremcontatocomvocê antes
queeucheguelá.Digaaelesqueestouacaminhoequepodemosmarcarumlocaldeencontro.
—Porquenãoprovidenciamostudoissoantesdevocêpartir?
— Porque você nã o concordaria. Você acha que sabe muito. Bem, você sabe. Mas nã o
sabetudo,casocontrá riosaberiaquenã oposso icarsentadanumacasasecretaenquantomeus
paisestã ofugindoparanã omorrer.Será queelessã ocrentesverdadeirosouforamconvencidos
pornó sanã oreceberamarcadelealdade?Euprecisosaber.Precisoaproximá -losdoscrentes.
Seiquenãopossosalvaravidadeles,nemmesmoaminha.Masprecisofazeralgumacoisa.
Changestavacomovido.Entã o,elahaviapensadomuitonoassunto.Talveznã oemtodos
osdetalhes.Talveznãoemestratégias.Masquemseriacapazdisso?
—Vocêprecisameavisarondeestáassimquechegarlá—eledisse.
—Vocêmeama,não,Chang?
—Claro.
—Nuncadissemosissoumaooutro.Nunca.
—Eusei—eledisse.—Masnóssabemos.
—Vocênãoécapazdedizerquemeama.
—Sou,sim,masficoemocionadosóempensarnisso,enãodevomedeixarlevarporessas
coisas.Nãonestemomento.
—Você,emocionado?Impossível.
—Nãofaleassim,Ming.Achoquevocênãomeconhece.
—Sintomuito,Chang.Euestavabrincandocomvocê.
—Averdade,irmã ,é queeuamovocê .—Changcomoveu-semaisaindaesentiuumnó
nagarganta.—Euaamomuito,mepreocupocomvocêeoroporvocê.
— Obrigada, Chang. Nã o se emocione agora. Está tudo bem. Eu nã o tinha a intençã o de
deixá -loemsituaçã odesconfortá vel.Dequalquermaneira,eusei.Eusei,está bem?Eutambé m
oamoeorosempreporvocê .Você precisacontinuaraserracionaleprá tico;portanto,nã ose
preocupecomigo.
—Comopossonãomepreocupar?
— Porque Deus vai me acompanhar. Ele vai me proteger. E, se Ele decidir que meu
tempoterminou,nãovaidemorarmuitoparaeuvoltaravervocê.
—Nãodigaisso!
— Vamos, vamos, Chang. Está tudo bem. Você sabe que é verdade. Nã o existem mais
garantias.Só temoscertezadolugarparaondevamos.Vouligarparavocê daChina.Esperolhe
darboasnotíciassobrenossospais.
Apó sdezminutosdecaminhada,ChloeparouparaqueHannah icasseatrá sdeMac.Soba
fraca iluminaçã o, Hannah lançou-lhe um olhar irme, como que perguntando se havia algum
problema.
—Euestoubem—disseChloe.—Voucaminharatrásdevocê.
Chloe teve um pouco de di iculdade para acompanhar os passos de Mac e achou que se
sentiriamaismotivadase icasseatrá sdeHannah.SeHannahfossecapazdeagü entaroritmo
deMac,elatambémseria.
ChloeestavacertaquantoaHannah,masnã oqueriaquenenhumdosdoispercebesseque
ela estava exausta. Na verdade, ela achava que nã o estava exausta. Agora, havia muitos
pedregulhos na estrada, e ela caminhava com passos ritmados. Sua respiraçã o era irme e
profunda,eelatranspiravamuito.MaceHannahtambémdeviamestartranspirando.
De repente, Mac levantou a mã o direita e voltou a colocá -la rapidamente debaixo da
armacalibre50.Elereduziuospassoseparou,dirigindo-separaoladodaestradaa imde icar
defrenteparaasduas.
—Tudobemcomvocês?Ambasassentiramcomacabeça.
—Queremtomarumpoucodefôlego?
Emboraofegantes,asduasfizeramummovimentonegativocomacabeça.
—Estamosbemperto—eledisse.
Os trê s começaram a subir uma colina. Quando chegaram ao topo, Mac ajoelhou-se e
pousou a arma calibre 50 no chã o. Ele fez um V com os dedos embaixo dos olhos e, depois,
apontou para um pequeno barracã o de tá buas, logo adiante de uma clareira. Uma luz fraca
brilhavaatravé sdeumafendanajaneladafrente.Macpegouaarmadeenergiadirecionadada
mãodeChloeeapoiou-anotroncodeumaárvore.
Ele fez um gesto para que as duas o seguissem até os fundos do barracã o. Chloe
surpreendeu-se ao ver como ele conseguia permanecer nas sombras e caminhar de modo tã o
silencioso que ela mal podia ouvir o som das botas de Mac tocando o solo. A Uzi que ela
carregava bateu no cabo da Luger e produziu um ruı́do de atrito, fazendo-a prender a
respiraçã o. Mac parou e olhou para trá s. Chloe teve de resistir ao impulso de levantar a mã o
para desculpar-se. Ela endireitou o corpo, e os trê s rastejaram para chegar ao fundo do
barracã o, onde as á rvores bloqueavam totalmente a luz das estrelas. O barracã o estava em
completaescuridão.
Macagachou-seauns12metrosdolocal.
—Nã oestougostando—elesussurrou.—Só umveı́c ulo,parecidocomomeu.Deveser
aquelequeSebastiantomouemprestadodaCGnoaeroporto.Evocêsachamqueestelugartem
espaçoparacincopessoasládentro?Euseiqueelesestãoescondidos,mas...
—Nã oestouentendendonada—disseHannahentreumarespiraçã oeoutra.—Nã ovejo
nenhumveículo.
Maccolocouamã onoombrodelaeafezvirar-seemdireçã oà lateraldobarracã o,onde
haviaumpequenocarrobranco,quasetotalmenteescondidonomeiodomato.Hannahfezum
movimentoafirmativocomacabeça.Chloetambémsóavistouoveículonaquelemomento.
—Achoqueosolhosdevocê saindanã oseacostumaramà claridade—disseMaccomo
seestivessefalandosério.
Chloequaseriualto.Ostrêsestavamandandojuntosnoescuro.
Mac tirou a Uzi do ombro e pousou-a no chã o. Em seguida, tirou do bolso do colete uma
ferramentadotipo"faztudo".
—Seiqueissovaiparecer ilmedecowboy—eledisse-,masqueroquevocê smedê em
cobertura.
AntesqueChloepudesseperguntaraondeeleia,Macdirigiu-serapidamenteaté ocarroe
começouatentarabriroporta-malas.Todasasvezesquefaziaumruı́doaltoosu icientepara
queasduasouvissem,eleficavaimóvelporalgunssegundos.Decorridocertotempo,atampado
porta-malasfoidestravada.Macsegurou-aparaqueelanãoabrissecompletamente.
Com a outra mã o, ele tateou o interior do porta-malas até onde pô de alcançar. Foi
necessá rioabrirumpoucomaisatampa.Comisso,aluzinternafoiacesa,eeletevedeabaixar
atampanovamente.Maccolocouaferramentanopá ra-choquetraseiro,segurouatampacom
amãoesquerda,enfiouamãodireitanaaberturaeapalpouointeriordoporta-malas.Assimque
encontrou o que procurava, ele retirou a mã o, pegou a ferramenta, voltou a colocar a mã o
dentrodoporta-malas,deixandoumaaberturasu icienteparapodertrabalhar.Assimquealuz
acendeu,elequebroualâmpadacomoauxíliodaferramenta.
Agora,comatampacompletamenteaberta,eletateouointeriordoporta-malas.Deonde
Chloeestava,pareciaquemetadedocorpodeMacestavaládentro.
De repente, ele parou o que estava fazendo, fechou o porta-malas e retornou de costas
parapertodelas.
—Exatamentecomopensei—eledisse.—Podemexaminar.
—Calibre12—disseHannah.—Aprendiausaressaarmaquandoeueracriança.
—Essesrecrutasadoramsuasespingardas—disseMac.—OcaradeixaumaDEWeuma
calibre50noaviã oetrazestaespingardadele,decanoduplo,parafazeroserviço.Essebando
tãointeligentedeseqüestradoresnãodeveterselembradoderevistarocarrodele.
—Nósvamosentrar?—Hannahperguntou.
— Vamos, mas continuo nã o gostando nada disso. Metade deles foi embora quando icou
sabendoqueagenteestavachegando,ouoquê?
Evidentemente,Macnãoesperavaumaresposta.EleentregouaespingardaaHannah.
— Esta arma dá uns estalos quando é engatilhada. Quero que você faça isso quando eu
assobiar.
Ele pegou a Uzi, e as duas o acompanharam de volta à frente do barracã o, caminhando
pelapartemaisescuradolocal.Quandoestavamaunsseismetrosdaporta,Macapontoucom
acabeçaparaHannahecochichou:
—Notrês.
ElecontoucomosdedosedeudoisassobiosagudosenquantoHannahengatilhavaaarma
commuitahabilidade.
Eles perceberam uma movimentaçã o dentro do barracã o, som de passos pesados, um
maisfortequeooutro,comosealgué mestivessemancando.Aportarangeuefoiabertaalguns
centı́m etros,ealgué massobiou.Outentouassobiar.Foimaisumsopro.Emseguida,houveuma
segundatentativa.
— Tudo certo! — gritou Mac, tã o alto que Chloe deu um salto. — Você sabe quem está
aqui.Apareçaedeixeagenteentrar.
Aportafoiabertaparaoladodedentroebateunohomem,ouemsuaarma,quandoele
tentousairdocaminho.
—Poraqui—eledisse,comsotaqueacentuado.
Macatravessouaporta,eChloenotouqueeletinhaumdedonogatilhodaUzi.
— Comandante sê nior Howie Johnson acompanhado das o iciais Irene e Jinnah. Saia da
frente,soldado.
O homem, apoiando-se quase totalmente em uma perna só , encostou-se na parede
olhandoassustadoparaelesecumprimentando-oscomummovimentodecabeça.
—Quemévocê?—Macperguntou.—Hércules?Constantinopla?Quem?
—Sócrates,senhor.
—Éclaro.Muitobem,ondeestáorestodopessoal,principalmentemeuprisioneiro?
—Nãoestãoaqui,senhor.
Macolhouparaelecomoseestivesseapontodeexplodirderaiva.Tombouacabeçapara
trás,ficandocomoqueixoapontadoparaoteto.
—Nã oestã oaqui,senhor—elearremedou.Emseguida,olhou irmeparaSó c rates.—E
sóissooquevocêtemamedizer?Ondeelesestão?
—Elesmepediramparadizerqueosenhordevelerasletrasmiúdas.
Chloe levou um segundo para entender aquilo e, pela expressã o de Mac, aconteceu o
mesmocomele.
MacfezumaencenaçãoaopassarporSócrates,empurrando-ocontraaparede.Caminhou
até a porta da frente e chutou-a com tanta força que a vidraça tremeu, provocando um eco
vindodasárvores.Macvirou-separaohomem.
—Letrasmiúdasdoquê?VocêachouqueeuiatrazerapastadeSebastiancomigo?
—Eusóestoudizendooqueeles...
—Porquevocênãomedizoqueestáescritoemletrasmiúdas?
—Elesmederamestaincumbê nciaporqueeunã otinhacondiçã odeacompanhá -los.Fui
agredidopeloprisioneiroeelemedeuumchuteno...
— Eu pedi para você me dizer o que está escrito em letras miú das, homem! O que eu
precisosaber?Qualéorecado?
—Queelestê modireitodetransferiroprisioneiroparaoutrolugar,aqualquermomento,
seminformaràCG...
—Ondeelesestão,soldado?Paraondeforam?
—Elesnãoprecisaminformarseussuperioresenquantonãochegaremaodesti...
—Vocêsabeondeelesestão?
—Elesouviramalgumacoisa,bemantesdachegadadosenhor,e...
—Vocêentendeinglês,Sócrates.Tenhocerteza.Você...sabe...onde...eles...estão?
—Achoqueelesnãomecontaram,porque...
— Você quer que eu acredite que eles deixaram você aqui só para me cumprimentar e
nãodisseramparaondeiam?
—Eunãoprecisavasaber.Assim,nãopoderiaabrirabocaparaapessoaerrada.
—Esperoquevocêestejamentindo.
—Como,senhor?
—Esperoquevocê estejamentindo,porquepodemudardeidé iaemecontartudoantes
demorrer.
—Eunãoseidenada,comandante!
— O icial Jinnah, mostre a Só c rates o estrago que uma calibre 12 pode fazer na porta da
frente.
Chloe gostaria de saber se Mac estava falando sé rio. Aparentemente, Hannah nã o teve
dú vida.Levantouaespingardaeapontou-aparaaportacomumadasmã os.Assimqueocano
ficouparaleloaochão,elaatirou.Oestrondofoisemelhanteaodeumabomba.Chloeficousurda
momentaneamente, mas viu tudo o que aconteceu. O projé til fez um rombo na porta; ela se
soltoudasdobradiçasevooulonge,caindoaalgunsmetrosdobarracão.
—Oseguintevaiatingirsuacara,Sócrates.
—Mas,senhor!—eledisse,choramingando.—Eu...
—Entã o,pegueomegafone,ououtracoisaqualquer,edigaaseupessoalquequerosaber
ondemeuprisioneiroestá,equerosaberjá!
—Maseles...
—Atirenele,Jinnah.
Hannah levantou a espingarda da mesma forma que fez antes, e Só c rates jogou-se
imediatamentenochão,chorando.
— Espere! Espere! — Ele tirou umwalkie-talkie do bolso deixando a arma cair no chã o,
sem querer. — Só c rates para Platã o, fale comigo, fale comigo. Alô ! Platã o? Sei que você está
meouvindo!Porfavor!Euprecisodeajuda!
Macsacudiuacabeça,comosenãotivesseescolha.
—Jinnah!—eledisse.
—Nã o!Porfavor!Espere!Elena!Elena,você está aı́?Falecomigo,porfavor.Eunã oestou
brincando!Atenda!Aristó t eles!Aristó t eles,elesvã omematar!Euseiquenã odeverialigarpara
você,masagoratantofaz!Porfavor,falecomigo,senãoeuvoumorrer!
Nada.Chorando,elecurvouosombroseabaixouacabeça.
Macajoelhou-seesegurouobraçodeSócrates.
—Elesnãoestãolonge,estão?
Sócratesfezummovimentonegativocomacabeça,soluçando.
—Estãoaquiporperto,não?Eleassentiucomacabeça.
—Osenhorpodemematar,porque,dequalquermaneira,ouvoumorrer.
—Comoassim?
— Disseram-me que nã o ligasse para eles, de jeito nenhum. Disseram-me que eu nã o
abrisseabocadejeitonenhum.
— Mas eles nã o estavam se referindo a mim, certo? Claro que nã o. Eles queriam ter
certeza de que estavam certos quanto aos sons. Tinham medo de que aparecesse uma pessoa
errada.ElesnãoestãocommedodaCG,estão?
Ohomemencolheuosombros.
—Nãosei.Talvezeunãotenhaentendido.Massouumhomemmorto.
— Entã o, que diferença faz se você me contar? Só c rates parecia estar re letindo.
Encostou-senovamentenaparede,enxugouosolhoseguardouowalkie-talkienobolso.Quando
eleesticouobraçoparapegarsuaarma,Macdisse:
—Deixeaarmaondeestá.
Sócratestentavarecuperarofôlego.Macperguntou:
—Dolugaremqueestão,elesconseguiramouvirotiro?
—Não.Talvez.
—Qualéadistância?
—Quinhentosmetrosaleste.Numagaragemimprovisada.Macsentou-seemumaantiga
cadeiraestofada.
—Então,ouviramquandovocêchamouporeles.Sócratesassentiucomacabeça.
—Edeixaramvocêaqui,sabendoqueiamorrer.
CAPÍTULO6
Ascelebraçõ es,oscâ nticoseasdançasemPetracontinuaramnoiteadentro.Milharesde
pessoasmergulharamnolagorecé m-formadoebebiamdaá guaquejorravadaenormefonteno
meiodele.OmanáquecobriaochãodeixouRayfordinebriadocomseusaborrefrescante.
— Comer alimentos vindos diretamente da mesa de Deus — ele disse a Abdullah — foi
umaexperiênciaquenuncativenavida.
Abdullahpareciavibrardealegria.
—Porquetudoisso,capitão?Comopodemossertãoabençoados?
Rayfordnãotinhapalavrasparaexpressar-se,massabiaoqueseuamigoqueriadizer.
Umajovenzinha,aparentandomenosde20anos,aproximou-sedele.
—RayfordSteele?—eladissetimidamente.Rayfordlevantou-se.
—Sim,querida.
— Duas coisas, se possı́vel — ela disse muito lentamente, levantando dois dedos. — O
senhorentende?
—Sim,oqueé?
—Éverdadequeosenhorsófalainglês?
— Sim, e considero isso uma vergonha. Bem, tenho um conhecimento super icial de
espanhol,masnãoosuficienteparamanterconversação.
—Nãoseenvergonhe,senhor.Eusófalohebraico.
—Masseuinglêsémuitobom,senhorita.
—Osenhornãoestáentendendo.
—Estouentendendoperfeitamente.Vocêfalainglêsmuitobem.
Elariu.
—Osenhornãoentendeu.
Abdullahintrometeu-senaconversa,dandoumarisadinha.
— E você tem senso de humor, jovem. Falando em á rabe e diz que conhece apenas o
hebraico.Evocê,Rayford,ondeaprendeuafalarárabe?
Amoçajogouacabeçaparatráseriu.
— Cada um de nó s está falando no pró prio idioma, e estamos nos entendendo
perfeitamente.
—O.quê?—disseRayford.—Espereumpouco!
—Senhor!Eusófalohebraico.
—Eárabe—corrigiuAbdullah.
—Não.Fuiproibidadeaprenderárabe.
—Achoqueestouprecisandodormirumpouco—disseAbdullah.
—Vocêmedissequehaviaduascoisas—disseRayford.
—Sim—eladissevoltandoalevantardoisdedos.—Duas.
Rayfordpôsamãosobreosdedosdela.
—Nãohánecessidadedisso.Euentendomuitobemoquevocêdiz.
Elariu.
—Asegundacoisa—eagoraelafalavacommaisrapidez—é queoDr.Rosenzweigeo
Dr.Ben-Judáqueremterumaaudiênciacomosenhor.
—Comigo?Eué quedeveriapedirumaaudiê nciacomeles!Tenhocertezadequeambos
estãomuitoocupados.
—Elesmepediramqueoencontrasse,senhor.
Rayford acompanhou a moça passando por pilhas de estilhaços de rocha produzidos pelas
bombas. Chaim e Tsion estavam sentados dentro de uma caverna iluminada por uma tocha
presa à parede, em companhia de vá rios homens idosos. Tsion apresentou Rayford a todos e
disse:
—Édelequenósestávamosfalando.
Oshomensassentiramcomacabeçaesorriram.
—LouvadosejaoSenhor—disseTsionparaRayford.
—Parasempresejalouvado—disseRayford.—Masmeperdoeporestarpreocupado.
Tsionconcordoucomacabeça.
—Eutambé mestouaguardandonotı́c iasdenossoscompatriotasnaGré cia,eaté mesmo
nestemomentooSenhormeacalma,dando-mepazeconfiança.
—TalvezEleestejatentandofazeromesmocomigo,irmã o—disseRayford-,masofato
deminhafilhaserumdelesestáafetandominhafé.
Tsionconcordounovamentecomacabeçaesorriu.
—Possivelmente.Mas,depoisdetersobrevividoaquihoje,nã olheparecejustodizerque
qualquerfalhanacomunicaçãoentrevocêeoSenhoréculpasua?
—Éevidentequesim.
—Ah,apropósito,estoufalandoemhebraico,evocêestá...
—Eusei,irmão.Aconteceuomesmoentrenóseaquelajovem.
Osoutrosriram,eumdelesdisse:
—Minhafilha!
—Encantadora!
—Obrigado!
— Chaim e eu está vamos conversando com estes irmã os sobre alguns planos — disse
Tsion. — Vamos orar pelos membros do Comando Tribulaçã o espalhados no mundo inteiro, e
estamosansiososporvercomoDeusvailibertá -los.Mascadaumprecisaprestarcontasdeseus
atos.ComoChaimeeuestamossobsuaresponsabilidade,nós...
—Ah,Tsion,nã o!Essaé pocajá passou!Já fazalgumtempoquevocê é olı́derespiritualdo
ComandoTribulaçãoedaigrejadeCristoaoredordomundo.
—Não.Ouça-me,Rayford.
—Comtodoorespeitoquelhedevo,sinto-mesemprelisonjeadoquandovocê sereferea
mimcomoolídertitulardoComandoTribulação,masporfavor...
— Estes homens, Rayford, sã o um bom começo para nó s aqui. Eles formam o nú c leo de
um grupo de anciã os que se levantarã o para ajudar Chaim nas decisõ es diá rias, assim espero.
Mas,evidentemente,sãonovatosnafé.
—Eutambémsou,Tsion.Tenhocertezadequevocênãoestásugerindo...
— Desculpe-me, Rayford, mas você se esquece de uma coisa. Nenhum de nó s é
completamente maduro na fé ou em idade. Nã o vou ofender sua inteligê ncia dizendo que vou
precisar de sua orientaçã o a respeito da Bı́blia, embora eu nã o possa negar que aprendi com
você .MasDeusocolocouemumlugarestraté gicoparamimduranteumperı́odomuitotriste
deminhavida.Sevocê nã oseimportar,eugostariadelhecontaralgumasidé iasarespeitodo
futuroimediatoepedirseusconselhos.
—Sevocê insiste,maspelomenosreconheçaquenã ofuieuque iqueiempé nomeiode
ummilhãodepessoaseviDeussalvá-lasmilagrosamentedofogodoinferno.
Tsionolhouparaeleedeuumapiscadela,virando-se,emseguida,paraosoutroshomens.
Elesderamumasonoragargalhada.
ChaimapontouparaRayfordedeuumarisadinha.
— Nã o foi você ? Entã o, meus olhos me enganaram! — Ele virou-se para Ben-Judá . —
Tsion!Eunãoviestehomemaquiempénomeiodenós?SeráqueelenãoviuoqueDeusfez?
— Está bem — disse Rayford. — Concordo. Mas o inimigo nã o atacou porminha causa,
Tsion. Foi por sua causa e de Chaim. Eu nã o estava pregando, nã o estava orando, nã o estava
imbuı́dodefé ,quandoasbombascaı́ram.Averdadedeveserdita.Minhafé é maisforteagora
doquenomeiodofogo.
OsemblantedeTsiontornou-sesério,eelepassouamãopelabarba,analisandoRayford.
—Vocêdariaumbomisraelense—eledisse.Rayfordencolheuosombros.
—Zekeoptouporumaaparênciaegípcia,masquemsabe.
—Não,estoudizendoquevocêargumentacomomeuscompatriotas.Poderíamosdebater
anoiteinteira.E,mesmoquandoestáerrado,vocêtemargumentos!
Aquelecomentárioprovocoumaisgargalhadasentreogrupo.
— Muito bem, Tsion. Nã o sei por que você insiste em icar sob as ordens de algué m que
achatãofácilridicularizar...
—Tudonãopassadeumaboabrincadeira,meucaroirmão.Vocêsabedisso.
—Claro.Digaoquedeseja.Estououvindo.
Mactirouseutelefonedobolsoeoligou.
—Oqueelesestãofazendo,Sócrates,osseuscompanheiros?Controlandoagente?
Sócratesencolheuosombros.
— Vamos, você nã o vai me ofender. Eles estã o tentando saber se somos autê nticos, que
nãovamospularemcimadeles,nemdeixá-losemsituaçãoembaraçosa,ouoquê?
MacdigitouonúmerodeChang.
— Nã o há telefones celulares por aqui — disse Só c rates. — O senhor nã o vai conseguir
ligarparaninguém.
— Bem, eu nã o conseguiria se tivesse uma droga de aparelho. Mas e se eu tivesse um
telefone movido a luz solar e ligado a saté lites? Aı́, eu nã o ia me importar se nã o houvesse
telefonecelularporaqui,nãoémesmo?
—Osenhornãovaiconseguirfalarcomocomandante,anãoser...
—Oi,Mac.AquiéChang.Vocêestábem?
—Estouótimo,senhorsupremocomandante.Apenasverificandosemeutelefonefunciona
parafalarcomalguémdeNovaBabilônia.
—Já entenditudo,Mac.Podefalar.Oqueestá havendo?Você está encrencado?Oqueeu
possofazer?
—Muitobem,senhor.Comoestáotempoaí?Changdisse:
— Deixei minha tela aberta para o GPS [sistema de rastreamento por saté lite], e estou
rastreandovocê,ah...JinnaheIreneatéolugaremquevocêsdevemestar.
—Aguardeuminstante,chefe.Sóumsegundo.
Mac ingiu cobrir o bocal do telefone com a mã o, mas segurou-o de modo que Chang
pudesseouvir.
— O que você disse mesmo, Só c rates? Que eu nã o podia usar meu celular no meio do
mato?
— Sim, bem, é claro que o senhor pode, com o saté lite e essas coisas. Eu só disse que o
senhornãopodefalarcomninguém,anãoserqueessapessoatenhaumtelefoneigualaoseu.
—Equemaquitemumtelefoneigualaomeuparaeupoderfalarcomele?
Sócratesempalideceu.
—Seilá,eunãotenho.
—Quemtem?
—Meuscompanheirostambémnãotêm.Temostelefonescomuns.
—Vocêachouqueeuialigarparaumdosseuscompanheiros,não?
—Não.
—Claroquenão.Anãoserqueochefedelestivessefornecidoonúmeroparamim,certo?
—Certo.
—Mas,mesmoassim,eunãopoderialigarparanenhumdelesdaqui,poderia?
—Não.Foisóissooqueeudisse.
—Vocêiadizeralgomais,não,Sócrates?
—Não.Sófaleiporfalar.
—VocêachouqueeuestavaligandoparaocomandanteStefanich,não?
—Não,eu...
—Nãomesmo?
—Sim.
—Evocêachouqueeunãoiaconseguirfalarcomele.
Sócratesassentiucomacabeça,sentindo-semiserável.
—Mascomovocêpoderiasaberdisso?
—Foisóumpalpite.
—EunãopossofalarcomeleemPtolemaïs,ondehátantoscelulares?
—Achoquepode.
—Maselenãoestálá,está?
—Comoeupossosaber?
—Eleestáaquinomato,nãoestá?—Silêncio.—Nãoestá,Sócrates?
Eleencolheuosombros.
—Entã o,comoeleavisouavocê eseugrupoqueeuestavachegando?Elenã opodialigar
paracá,não?
—Eusouumcompletoidiota.
— Tenho certeza que sim, Só c rates. Você nã o está à altura de seu nome, nã o é mesmo?
—Macvoltouafalaraotelefone.—Desculpeademora,chefe.
— Daqui eu tenho mais condiçõ es que você , Mac. Posso enviar um sinal ao telefone de
Stefanich que vai deixá -lo em polvorosa, mesmo que eu nã o consiga falar com ele. Ele vai
receberumamensagemdizendoqueosubcomandanteKonrad,quesereportadiretoaodiretor
Akbar,doServiçodeSegurançaeInteligência,querfalarcomeleimediatamente.
— Parece uma boa idé ia, chefe. Volto a falar com o senhor depois. Tudo está correndo
bemaqui.
— Quando ele ligar, vou usar um modulador de voz que vai me fazer falar como um
alemã oidoso.VoudizeraelequeAkbaroresponsabilizapessoalmenteparaqueHowieJohnson
tenhaacessoaSebastian.
—Perfeito.
— E, se ele nã o ligar, vou deixar a mensagem no telefone dele para ajudar você a sair
dessa.Euvoulhedarcobertura,Mac.
— Nã o pode ser verdade, comandante! — Mac fechou o telefone com força. — Dê -me
essewalkie-talkie,amigo.
—Osenhorvaiquerermematar.
— Quem, eu? Nã o. De qualquer forma, você é um homem morto. Foi você mesmo que
disse.
—Éosenhorquevaimematar?Ouela?Macsacudiuacabeça.
— Vou deixar essa tarefa para seus companheiros. Pense no lado bom das coisas. Se eles
foremtãoeficientesquantovocê,amanhãcedovocêestarátomandocafénormalmente.
Sócratesoencarou.
—Vocêtomacafédemanhã,não,Sócrates?Ohomemassentiucomacabeça.
— Com licença — disse Mac ingindo apertar o botã o dowalkie-talkie. — Platã o,
Aristó t eles e Elena, prestem muita atençã o. Eu nã o quero falar com nenhum de você s. Quero
falarcomNelsinhoStefanich.Nelsinho,seiquevocê está aı́ eadmirosuacriatividade.Você fez
tudodireitinho.Nã oestouofendidoporvocê estarmechecando.Vamosfazerumtrato.Quando
você receber a con irmaçã o de que eu e minhas o iciais somos quem dizemos ser, quero que
você pró priometragaSebastian.Já sabeondeestou.Emandeaquelebandode iló sofossairda
toca para que eu possa vê -los. Se você izer isso, Nelsinho, prometo que nã o vou tirar você do
posto.Ah,maisumacoisa,Nelson.Issoéumaordem!Vocêtem30minutosparaexecutá-la.
Macvirou-seeolhouparaChloeeHannah.
—Agora,Sócrates,vocêestálivreparasairdaqui.
—Oqueosenhordisse?
—Vocêouviu.Vá.Saiadaqui.
Sócrateslevantou-secomdificuldadeecurvouocorpoparapegarsuaarma.
—Elafica—disseMac.
—Emeurádio?—eleperguntouesticandoobraço.
—Ficatambém.
—Paraondeeuvou?Macencolheuosombros.
—Problemaseu.
Sócratessentou-senabeiradeumamesafrágileesfregouojoelho.
—Eunãotenhoparaondeir—eledisse.
—Vocêvaiquererestaraquiquando...?
Ohomemlevantou-serapidamente,cambaleando.
—Não.Não.Masacidadeficamuitolongedaqui.Esemnenhumaproteção,semrádio...
— Eu nã o posso ajudá -lo, amigo. Você faz parte de uma operaçã o que nã o obedeceu
ordens.Vocêtemsorteporestarsendosolto.Sequiserficaraquiatéqueorestodo...
—Droga!—Sócratescaminhoumancandoatéaportadafrente.
Mac fez um gesto para que Chloe o vigiasse. Ele passou com di iculdade por cima de
madeiraquebradaecavacosedistanciou-se.
— Vá atrá s dele — disse Mac — até ter certeza de que ele está indo para a cidade.
Hannah,vigieaárea.Vouvasculharestelugarenosencontraremospertodasarmasláfora.
Rayfordsentia-seumtolo,sentadonacaverna,extasiadoportervividopessoalmenteum
milagre do Antigo Testamento, preocupado com Chloe e aguardando a possibilidade de que
TsionBen-Judálhepedisseorientações.
Elesabiaquevoltariaaversua ilhadequalquermaneira,masseriaerradopedirqueela
fossepoupadadeumamortedolorosaeviolenta?
— Você e Abdullah precisam decidir o que vã o fazer, Rayford — disse Tsion. — Podem
icar,é claro,masnã oseiseé convenientevocê supervisionaroComandoTribulaçã odaqui.Os
té cnicosdeinformá ticamedisseramqueDavidHassideChangWonginstalaramaquiumabase
para um excelente centro tecnoló gico e que as bombas nã o tiveram efeito algum sobre o
hardwareeosoftware.
— Você está falando sé rio? — perguntou Rayford. — O pulso eletromagné tico do mı́ssil
poderiaterdestruídotudo.
— Está tudo em ordem. Louvado seja o Senhor. Daqui, você poderia controlar as coisas,
masadecisãoésua.
— Eu vou partir — disse Rayford. — Só nã o sei quando. Estou preocupado com o seu
retornoaChicago,Tsion.
— Era exatamente isso que está vamos discutindo, Rayford. Nã o sei se faz sentido que
qualquer um de nó s tente retornar para lá . E você e Abdullah nã o sã o tã o visados quanto eu?
Semoutromilagre,comopoderemosretornaràcasasecretasemrevelarseulocal?
O pensamento de encontrar uma nova casa secreta, de mudar-se, deixou Rayford
aborrecido.
— Deixe que a gente se preocupe com isso, Tsion. Quais sã o seus planos? Você poderia
transmitirsuasmensagensdiáriasdaqui.
Chaiminterrompeu.
—Esteéomeudesejoeodosanciãosdaqui.E,porquenãodizer,dorestodopovo.
— Eu nã o sei — disse Tsion. — Vou seguir a orientaçã o do Senhor, mas acredito que
ChaimpossaserohomemdeDeusaqui.
— Meu trabalho terminou, Tsion — disse Chaim. — Deus ajudou-me, apesar de minhas
fraquezas,eaquiestamos.Voupassarobastãoparavocê,meuex-aluno.
—Continuoaserseualuno,doutor—disseTsion.
— Cavalheiros — disse Rayford -, a admiraçã o mú t ua de você s é inspiradora, mas nã o é
muitoú t ilagora.Estelugarnecessitadeliderança,organizaçã o,mediaçã o.Sevocê icar,Tsion,
precisa se resguardar de responsabilidades que inter iram em seus ensinamentos para o povo
daquieparasuaaudiênciaaoredordomundo,viaInternet.
Osanciãosconcordaramcomacabeça.
— Talvez — disse Chaim — possamos descobrir algumas pessoas mais jovens com esses
dons.Estoudispostoaauxiliar,coordenarumpouco,masnã osoujovem.Estaé umacidade,um
paı́s. Necessitamos de um governo. Deus prove comida, á gua e roupas que nã o se desgastam
com o uso, mas creio que Ele espera que administremos o local. Devemos organizar e
construir...éclaroqueapenasporpoucotempo,masmesmoassim...
—Epossı́vel—disseRayford—queessetrabalhosejaamaneiradeDeusocuparotempo
devocêsaqui.Viverjuntos,confraternizar-se,atuaremharmonia...talvezessesejaumtrabalho
detempointegral.Imaginemoté diodeummilhã odepessoasaguardandosentadasoGlorioso
Aparecimento.
Tsionanimou-seaoouviressaspalavras.
—Ah,é porissoqueacreditoqueprecisamosmotivaropovodaquiaajudarorestantedo
mundo.Nã oestamoscegosà sprofecias,à smaquinaçõ esdodemô nio.Tentarnosfazerexplodir
é apenas o começo. Ele imagina que vai nos matar de fome se cortar nossas linhas de
suprimento. Ele nã o sabe, ou nã o acredita, que Deus nos alimenta. Mas nó s sabemos que
estamosprotegidos.Devemosapenasnosresguardarcontraosesquemasdodemô nioquevisam
a afastar os indecisos deste lugar. Fora daqui eles estarã o vulnerá veis, nã o apenas do ponto de
vista emocional e psicoló gico, mas també m do ponto de vista fı́sico. Sinto-me no dever de
mantê-losaquiedeconvencê-los.
—Eunãoentendo—disseRayford—comoalguémpodecontinuarindecisodepoisdoque
aconteceuhoje.
—Está alé mdacompreensã ohumana—disseTsion-,masDeuspredisseisso.Meusonho
paraos ié isqueaquiseencontramé queelessejamú t eisparaajudarnossosirmã oseirmã sdo
mundointeiro.Pedronosadmoestaasersó briosevigilantes"porqueodiabo,vossoadversá rio,
anda em der-redor, como leã o que ruge procurando algué m para devorar; resisti-lhe irmes na
fé , certos de que sofrimentos iguais aos vossos estã o-se cumprindo na vossa irmandade
espalhadapelomundo"(1Pedro5.8-9).
— O demô nio vai tornar-se cada vez mais irado, mais determinado, mais malvado, e
muitos morrerã o em suas mã os. Poderia haver tarefa melhor e mais nobre para esta multidã o
do que ajudar a cooperativa comandada por sua ilha e equipar os santos para lutar contra o
anticristo?
—Euantevejomilharesdeespecialistasemtecnologiacriandoumaredederecursospara
os crentes, informando-os a respeito de lugares seguros, pondo um em contato com o outro.
Sabemosqueperderemosmuitosirmã oseirmã s,masdevemosfazeroqueforpossı́velparaque
oevangelhocontinueaserdivulgado,mesmoagora.
Rayfordaprumouocorpo.
— Nã o posso contestar suas palavras. E a idé ia é boa, Tsion, de transferir sua base de
operaçõ esparacá .Vamossentirsuafalta,é claro,masnã ofazsentidonosarriscarmosaperdê lo,porquesuapresençaémuitonecessáriaaqui.
— Eu estive pensando — disse Chaim — e, Rayford, me corrija, por favor, se achar
necessá rio,porquesouleigonesseassunto.Masachoqueotempodemanterumacasasecreta
paraabrigaroComandoTribulaçã ojá acabou.SabemosqueNovaBabilô niaestá farejandotodos
oslugarese,maiscedooumaistarde,acasasecretaemChicagoserá descoberta.Sim,talvez
sejanecessá rioencontrarumlocalcentralparacoordenarasatividadesdacooperativa,mas,se
euestivesseemseulugar,mepreocupariaseminha ilhaprecisasse icarmudandodeumlugar
paraoutro.Deixoosdetalhescomvocêeseuscompatriotas.Maseulhefaçoumapergunta.Não
é verdadequetodomundoaquemfoisolicitadopermanecernacasasecretaempoucotempo
ficacomfobiadeficarpresoemcasa?
— O jovem de lá , Zeke, que transforma nossa aparê ncia com tanta maestria para nos
aventurarmos a sair, talvez considere a mudança um transtorno. E vai ser difı́c il transferir os
registroseoscomputadores.Mastalvezacasasecretadofuturosejainstaladaemmilharesde
lugares. Talvez tenha chegado a hora de você s passarem a morar nos esconderijos dos crentes
espalhadospelomundointeiro.
RayfordreceavaqueChaimestivessecerto,eseusargumentosprovavamisso.
— Nã o estou dizendo que será fá cil — prosseguiu Chaim -, mas eu lhe peço que tome a
iniciativa.Tomeadecisã odifı́c il.Abandoneacasasecretaedisperseseupessoalantesqueseja
tardedemais,casocontrá rioperderá todosdeumasó vez.Você ssabemqueestã onaquelacasa
hámuitotempo.
— Eu sei disso, Chaim — disse Rayford. — Na verdade, nã o faz muito tempo que nos
mudamosparaoEdifı́c ioStrong.Podeserumtemporazoá vel,poré mé maisoumenosigualao
queficamosnacasasecretaanterior.
Tsionlevantou-seeesticouocorpo.
— Devemos deixar esse assunto a seu crité rio. Deus o guiará . Eu tencionava pedir
conselhosavocê,masagoraestamostentandoaconselhá-lo.
—Euagradeçomuito.
—Mas,porfavor,Rayford,precisodeumaopiniã osua.Voulhecontaroqueacreditoque
Deus está incutindo em mim e quero saber se faz sentido para você . Sei que isso vai ferir a
sensibilidade de muitos dos que me ouvem. Mesmo assim, eu nã o quero deixar o assunto para
depois. Veja, em razã o do que tem acontecido desde o Arrebatamento da igreja, creio que
existeamplaevidê nciadeumapartedanaturezaedocará terdeDeus.Sabemosqueesteé um
tempo de julgamento, até mesmo de ira. Estamos no meio dos sete ú ltimos julgamentos de
Deus,quetotalizam21,echegamosaenfrentarumqueElepró priomencionanaBı́bliacomoa
iradoCordeiro.
— Seria fá cil para um pregador explicar e provar a impaciê ncia de Deus, o julgamento
delederramadosobreseusinimigos,seuclamordejustiçapelosanguedosprofetas.Mascheguei
àconclusãodequetudoissoestámuitoevidente.Sim,estaéaúltimachance.Tudoissoocorreu
nos ú ltimos sete anos, e já estamos na segunda metade desse perı́odo. Deus fará cumprir seus
planos,massinto-menodeverdeprotegerareputaçãodele.
— Ah, sei que Deus nã o necessita de mim, nem solicita minha assistê ncia. No fundo de
minhaalma,aceitocomgrandehumildadeofatodeEletermepermitidoexercerafunçã ode
pregaratodasasnações.Masumamensagemprofunda,eaparentementecontraditória,oprime
meu coraçã o. Creio que essa mensagem prové m de Deus, mas nela existe tal paradoxo, tal
dicotomia, que nã o me atrevo a prosseguir sem o conselho e a sabedoria de minha famı́lia
espiritual.
Tsionmassageouastêmporasepôs-seaandardeumladoparaooutro.
—Cavalheiros—eledisse-,vamoscaminharumpouco.Acompanhem-me.
—Seosenhorsairdaqui,amultidãovaicercá-lo—dissealguém.
—Todosverã oqueestamosocupados,tenhocerteza—disseTsion.—Nã ovamosfazer
disso um espetá culo. Quero que os senhores caminhem ao meu redor. Vamos nos afastar das
massas.
A maioria do povo continuava a divertir-se na fonte, enquanto outras pessoas recolhiam
á guaemaná .Rayfordfezcompanhiaaosanciã oseaChaime,juntos,chegaramaotopodeuma
elevaçãoedesceramumaramparochosa.
Quandoseafastaramdosolharesdamultidão,Tsionvoltouafalarenquantocaminhava.
— Estou consciente de que fui agraciado com um grande privilé gio. Tenho uma
congregaçã odeummilhã odealmas,só aqui.Tenhoaoportunidadededoutrinarosbebê snafé ,
oferecendo-lhes o leite da Palavra de Deus. També m alegro-me por poder partir o pã o e
destrinchar a carne das coisas mais profundas para as pessoas mais maduras na fé . E sou
abençoado por pregar o evangelho, porque até mesmo aqui existem pessoas indecisas. Nã o
vamosganhartodaselas,eessaverdadecausa-meespanto,principalmenteapó soesplendorde
um evento como aquele que experimentamos poucas horas atrá s. Mas a questã o principal é a
seguinte:Deusrefrigeraminhaalmadiariamenteeesperaqueeuexercite,comsuapermissã o,
todososdonsqueElemeconcedeucomopastor/professor.
QuandoTsionparou,orestantedogrupofezomesmo.Elesentou-seemumarocha,eeles
fizeramumcírculoemvoltadele.
—Issopodeparecerestranhoaossenhores,porquetenhoditoreiteradasvezesqueestes
sã oossetepioresanosdahistó riadahumanidade,poré meuconsidero,demuitasmaneiras,um
benefı́c io quase ilimitado o fato de estar vivo neste momento. A tecnologia permitiu-me ter
umacongregaçã odemaisdeumbilhã odepessoasviaInternet,umnú m eroinacreditá vel.Um
dia, no cé u, vou pedir a Deus que permita que meu cé rebro inito compreenda essa cifra. Por
enquanto, trata-se de algo grandioso demais para minha compreensã o. Nã o posso imaginar o
que isso signi ica, nã o posso dizer quantos está dios de cem mil lugares seriam necessá rios para
acomodartodaessagente.Bem,é claroqueseiquedezmildessesestá diosacomodariamum
bilhãodepessoas,masossenhoresconseguemteridéiadoqueissosignifica?Eunão.
— Agora, permitam-me dizer-lhes o que pesa sobre mim quando penso nas
responsabilidadesquetenhodiantedessaimensacongregaçã o.Creioqueé chegadoomomento
deparardefalarsobreojulgamentodeDeus.Nã ohá comonegá -lo.Nã ohá como ingirquesua
iranã oestá sendoderramada.Maschegueià conclusã odequeamensagemdeDeus,aolongo
dosséculos,éumaantífonaàsuamisericórdia.
— A maioria dos senhores sabe que essas palavras vê m de um homem que presenciou o
assassinatodesuaesposae ilhosmuitoamados.Será queestoudizendoqueasantidadedeDeus
é menos importante que o amor de Deus? Como eu seria capaz disso, se a Bı́blia diz que Ele é
amor,masquetambémésanto,santo,santo?
—Estousimplesmentedizendoquevoudeixarqueajustiça,ojulgamentoeairadeDeus
falemporsi,epassareiorestodemeusdiasaquiadvogandoardorosamentesuamisericórdia.
Pareceu a Rayford que Tsion fez uma pausa para itar demoradamente todos os que o
ouviam.Elepoderiaterprosseguido,defendidoasimesmoedefendidosuarecenteopiniã o.Mas
simplesmenteencerrousuafala,dizendo:
— Os senhores tê m até o meio-dia de amanhã para corrigir-me, se acreditarem que sou
umirmã ointempestivo.Casocontrá rio,meusensinamentosvã ocomeçar,eossenhoressabem
qualseráotema.
Buck estava solidá rio com Albie. O homenzinho do Oriente Mé dio parecia inquieto,
incapazdeficarparado.
—Eunã opossoviverassim,Cameron—eledisse.—VouconversarcomZekeestanoite
paraexaminarosarquivosdele.Vocêviuomaterialqueeletem?
—Claro.
— Ele deve ter uma identidade para mim. Acho que nã o posso mais me fazer passar por
funcioná rio da CG, mas aceito qualquer coisa. Qualquer coisa que nã o seja icar sentado aqui.
Vocêachaqueelepoderiamedeixaraltoeloiro?
Bucknãopôdeconteroriso.Umadessasduascoisasatéquepoderiadarcerto.
— Acho que vou com você — ele disse. — Zeke é um artista, e essa histó ria de icar
paradoaquivaimematar.
— Mas você tem o que fazer. Escreve. Faz download do material que Chang envia e
transmite tudo pela internet. Eu gosto muito de seu ilho, Cameron, mas vou enlouquecer se
icaraquiajudandoacuidardele,lendo,olhandopelajanelaeaguardandoachegadadorestodo
pessoal.
—Eusei...
—VocêjápassoubastantetempoemcompanhiadeMac?—Albieperguntou.
—Claro.
— Grande homem. Muito inteligente. Mas nã o pensamos da mesma maneira. Fico
imaginandotudooqueeledeveestarfazendonaGré cianummomentocomoeste,quepoderia
ser...oh,sintomuito.EusempremeesqueçodequeChloeestálácomele.
—Edaı́?Você achaqueMacnã oestá cuidandodeChloe?Poiseuachoqueelaé queestá
cuidandodele.
—Eusóquisdizerquedeveriaestarlá.
—SubcomandanteKonrad?
— Exatamente — disse Chang, com a voz modi icada eletronicamente -, e espero estar
falandocomNelsonStefanich.
—Soueumesmo,senhor,e...
—Comandante,exijosaberoqueestásepassandoaí.
—Sim,senhor,nós...
— Enviei meu comandante sê nior daqui de Nova Babilô nia com a missã o de conversar
diretamentecomseuprisioneiro.
—Elevaiconversar,senhor.Eu...
— Nã o gosto da maneira como ele está sendo jogado de um lado para o outro. Você foi
avisadocomantecedênciaetevetempodesobraparapreparartudo.
—Eusei.Nós...
—Aguardoatransmissã odeumrelató riocompletoparameuescritó rioaté omeio-diade
amanhã.
—Voufazerisso,senhor,porquepossoexplicartudo.
—JohnsonjáseencontroucomSebastian?
—Aindanão...
—Comonão?Senãoseencontroucomeleatéestemomento,exijosaberporquê.
—Houveummal-entendidoentreaequipedaqui,senhor.Elesimaginaramterouvido...
—Vouexaminaressesdetalhesamanhã ,comandante,mas,enquantoisso,querocrerque
vocêvaiprovidenciaresseencontro.
—Sim,senhor.
—EnãoconvoqueJohnsonparairatéondevocêestá.
—Como,senhor?
—Elejá foiaté ondeeuachoquedeveriair.E,estejaondeestiver,olugaremqueelese
encontraéseguro;portanto,ordenequeseupessoalleveoprisioneiroatéele.
—Sim,senhor.Subcomandante,seráqueeupoderiatransmitir-lheumaboanotícia?
—NenhumanotíciaseráboaenquantoJohnsonnãotiveracessoaSebastian.
—EusóqueriaqueosenhorsoubessequelocalizamosasededoesconderijoemPtolemaïs
eplanejamosinvadi-laàmeia-noite.
CAPÍTULO7
Dedentrodobarracã o,ChloeacompanhouospassosdeSó c ratesaté omomentoemque
ele desapareceu, mancando, em direçã o à estrada. Em seguida, ela caminhou, pé ante pé , em
â ngulode90°,até omeiodasá rvoresecruzoudepressaolocalondeestavamaCalibre50ea
DEW.
Ohomemqueelavigiavahaviapassadopertodasarmas,queestavamauns12metrosà
sua esquerda, mas ele nã o as viu. Nã o seria difı́c il acompanhar os passos de Só c rates, que
mancava.
Chloe segurava irme o cabo da Uzi, puxando a tira para mantê -la afastada do corpo e
impedir que batesse na Luger. Ela olhou para os dois lados e desceu a rampa, com passos
miú dos, tomando cuidado ao atravessar a estrada coberta de pedregulhos. Ao chegar ao outro
lado,elapercebeuumamovimentaçã onomeiodavegetaçã o,algué mseguindoapressadopara
a esquerda, a leste, sem preocupar-se por estar andando entre galhos secos e pisando em
entulhos. Chloe agachou-se e controlou a respiraçã o, calculando a direçã o e a distâ ncia, para
nãoaproximar-semuitodohomemepôrtudoaperder.
Nãohavianecessidadedeandarnomeiodavegetaçãoalta.Elapoderiafacilmentemanter
o ritmo das passadas caminhando pelo acostamento da estrada, sobre a terra fofa, sem fazer
barulho. O ú nico perigo era alcançar sua presa e ser vista. Provavelmente era Só c rates. Ele
parouassimquechegoupertodobarracã o,aparentementeparaprestaratençã oaalgumruı́do.
Ofatodenã oouvirnadaserviuparaencorajá -lo,porqueelevoltoua icarexposto,talvezauns
15 metros de Chloe, també m preferindo andar pelo caminho menos acidentado ao lado da
estrada.
Chloe icouimó vel,comamã onocabodaarma,paranã oserpegadesurpresa,casoele
decidissevirar-separaooutrolado.Elaacreditavaquenã oseriavistanaescuridã o,masquem
poderia saber que tipo de visã o teria aquele homem manco e desarmado? Algumas pessoas
eram capazes de ver ou perceber sombras no escuro. Mac havia comprovado isso. Talvez, por
conheceraárea,aquelesujeitonotasseumasilhuetaentreasárvores.
Chloeaguardouaté queele izesseacurva.Emseguida,caminhourapidamenteaté onde
poderia voltar a ouvir os passos mancos e pesados do homem. Ela irmou bem os olhos e
conseguiu ver — ou pelo menos imaginou ter visto — que ele estava mexendo o joelho e
tentandoandarcomocorpomaisereto,maisnormal,poré msemsucesso.Vezporoutra,ouvia
um resmungo ou um gemido. Ele estava sentindo dor e, certamente, seguindo pelo caminho
maislongoatéacidade.
Nã o, Só c rates ia levá -la ao local onde George Sebastian se encontrava. Chloe sabia disso.
Será que ela poderia tentar fazer uma transmissã o silenciosa apenas para avisar Mac que o
homem estava seguindo na direçã o contrá ria? Se a conversa durasse 30 segundos, quantos
metros o homem se distanciaria dela? Mac e Hannah poderiam alcançá -la rapidamente, e os
trêsodominariamsemdemora.
Mac,poré m,estavavasculhandoobarracã o,eHannah icaradoladodeforasozinha,para
prevenir emboscadas. Chloe jamais perdoaria a si mesma se uma transmissã o desnecessá ria
deixassealgué memperigo.SeSó c ratesaconduzisseà talgaragemoucoisaparecida,elanã o
correria nenhum risco, a menos que fosse vista. Se os outros trê s estivessem lá — até mesmo
Stefanich-,elaaindateriatemposuficienteparaavisaroscompanheiros.
Mac estava ajoelhado no porã o ú m ido e atulhado. A ú nica lâ mpada dependurada no teto
deixava entrever marcas irregulares no chã o de terra. Com o auxı́lio da lanterna, ele tentou
averiguar se George havia sofrido maus-tratos. Era impossı́vel enxergar se havia traços de
sangueentreaspegadaseasmarcasindecifráveis.Aqueleseriaolugaridealparaaterrorizarum
seqüestrado,elepensou.
Depois de iluminar todos os cantos com a lanterna, desligou a lâ mpada do porã o. Quando
estavacaminhandoemdireçã oà escada,seucelularvibrou.Ansiosoporsairdali,mashesitando
falar ao telefone ao ar livre, ele parou no meio da escada e abriu o aparelho. Seria imaginaçã o
sua ou teria ouvido uma voz vinda dos fundos? Ele supô s que Hannah já tivesse vasculhado a
á rea. Agora, ela deveria estar aguardando, em companhia de Chloe, perto da á rvore diante do
barracão.
Macnãoseatreveuadizernadaaotelefone;apenasficououvindo.
—Mac?
EraChang,masMacnãoquisconfirmar.Eleapertouumateclanoaparelho.
—Mac?Évocê?
Eleapertouateclaporumpoucomaisdetempo.
— Está bem, você nã o pode falar, nem eu posso, enquanto nã o tiver certeza de que é
você . Umbip se for verdadeiro; doisbips se for falso: depois do primeiro livro do Novo
Testamento, os pró ximos quatro livros tê m exatamente, em seus tı́t ulos, o mesmo nú m ero de
letras[naBíbliaeminglês].
Agora Mac tinha certeza de ter ouvido uma voz vinda dos fundos. Voz de homem. A
a irmaçã odeChangeraverdadeira,masagoraeleestavaemdú vida:umbipparaverdadeiroe
doisparafalsoouocontrá rio?Elehesitou,tentandoouviralgumacoisaenquantorastejavaaté o
topodaescada.
—Macsaberiaresponder—disseChang.—Umparaverdadeiro,doispara...
Macapertouateclaumavez,rapidamente.
— Pode ter sido um palpite que deu certo — disse Chang. Mac fechou os olhos.Ora,
vamos,Chang!
— Você tem um contato num lugar muito estraté gico. Dê um bip para cada nú m ero de
letrasdosobrenomedesolteiradairmãdele.
Oquê?Changfariasucessonumafesta.Otimo,ocontatoé Chang.Airmã deleé MingToy.
Trêsbips. Alto lá ! Sobrenome de solteira. O mesmo de Chang. Wong. Quatro. Mac deu quatro
bips rá pidos. Agora, ele estava espiando o lado de fora do barracã o em direçã o aos fundos. Nã o
vianada.
—Entendido,Mac.Agora,presteatençã o.FaleicomStefanichcomoseeufosseKonrad.
Ele está mandando seus homens levarem Sebastian até você . Fique alerta, mas nã o perca
tempo.Eledissequedescobriramumasedeclandestinaequevãoatacá-laàmeia-noite.Eunão
seionúmerodotelefonedopessoaldacooperativadaí.Vocêsabe?Umparasim,doisparanão.
Macapertouatecladuasvezes.
—Eunemseiseelestê mtelefone.Você podeenviaralgué mparaajudar?Umpara...Mac
apertouumavez.
—Vocêestácorrendoperigoimediato?Macapertouduasvezes.
—Entendi,você nã opodefalar.OGPSmostraquevocê continuanomesmolugardesdea
últimavezqueconversamos.Háalguémcomvocêaí?
Duasvezes.
—Doladodefora?
Umavez.
—Consegueverquemé?
Duasvezes.
—Estábem,vocêconsegueouvir.Vocêmandouseupessoalparafora?
Umavez.
—Duaspessoas?
Umavez.
—Ligueparamimquandopuder.Querosabersevamosfazeralgumacoisapelopessoalda
cooperativadaí.
Mac guardou seu celular e rastejou até o lado de fora Havia meia dú z ia de soldados das
ForçasPacificadoras,armados,emvoltadocarro.
—Eudigoquedevemoslevarocarro..Acaminhadadurouhoras.
—Nãotemoschave.
—Façaumaligaçãodireta.
— Ora vamos! Acho que só falta meio quilô m etro. Os soldados dirigiram-se para o leste.
Mac contornou o barracã o até a frente.Então, Stefanich tinha enviado reforço. Será que o
reforçoerasóesse?
NemHannahnemChloeestavamaoladodaá rvore.Macdeuumleveassobioparasaber
se elas estavam por perto. Nada. Ele ajoelhou-se na escuridã o. A Calibre 50 estava no lugar. A
DEWhaviasumido.
Para George, parecia que Aristó t eles havia virado à esquerda na estrada e seguido na
direçã o leste durante 20 minutos antes de parar no acostamento e aguardar. George tinha
aprendido a calcular mentalmente a passagem do tempo, mas agora precisava lutar contra o
sono.Segundoseuscá lculos,elesestavamsentadosali,parados,pormaisdeumahora.Masnã o
seriasurpresasefossemduashoras.Finalmente,Aristótelesdisse:
—Oquevocêsacham?
— Já devı́amos ter saı́do daqui há muito tempo — disse Elena. — Vai clarear logo, e, de
qualquerforma,nãohámuitaspessoaslá.
—Platão?
—Sim,vamos!Temosdevoltarlogoparacá .Georgeentendeuqueelessaı́ramdaestrada
de pedregulhos e dirigiram-se para a estrada principal rumo ao sul. Depois, seguiram para o
leste. De acordo com o ambiente e os sons, George achou que eles estavam em uma á rea
povoada,talvezumacidade.
—Nãodeixemqueninguémvejaessecara!—disseAristótelesalgunsminutosdepois.
Platã o agarrou George pelo ombro direito e o puxou até ele icar com a cabeça em seu
colo.
Aristótelesreduziuavelocidadeepareciaestarestacionandooveículo.
—Não,não!—dissePlatão.—Dêavoltapelosfundos.
Assimqueelespararameestacionaram,Elenadisse:
—Vouverseestátudoemordem.
Georgesentiacãibrasnaparteinferiordascostas,masnãopodiafazernadaparaaliviá-las.
Elenaretornouesubiunojipe,fechandoaporta.
—Maisoumenos20minutos—eladisse.
—Vocêencontrouoqueprecisávamos?—perguntouAristóteles.—Deixe-mever.
—Eolugar?
—Maisoumenos30centímetrosabaixodoaltodaportadireita.
—Eunãonoteiissoantes.
—Elepodeficarsentado?—perguntouPlatão.
—Émelhoresperar.
Chloe parou a uns 15 metros atrá s de Só c rates e calculou que faltava meio quilô m etro
paraeleschegaremaobarracão.
Só c ratesestavacurvado,comasmã osnascoxas,respirandocomdi iculdade.Seuspassos
icaram mais lentos nos ú ltimos cem metros; talvez ele estivesse tentando inventar uma
históriaparaseuscompanheiros,afimdeconquistarasimpatiadeles.
Elaobservavaohomematentamentee,derepente,assustou-seaoouvirsomdepassosno
pedregulho.Devá riaspessoas.Enã oestavamcompressa.Nemfurtivos.Apenasaproximandose. Ela se escondeu atrá s de um arbusto a cerca de trê s metros da estrada e ajoelhou-se,
sentindo a calça da farda de camu lagem empapada de suor frio. Lutava contra a tentaçã o de
prender a respiraçã o, temendo exalar o ar justamente no momento em que as pessoas
estivessemseaproximando.NãopodiamserMaceHannah.Haviaváriaspessoas.
Ela havia perdido Só c rates de vista e nã o icou sabendo se ele continuou a caminhar. Se
tivessecontinuado,encontrariaseuscompanheiros,eela icariasemsaberparaondeseguiram.
De repente, avistou meia dú z ia de soldados das Forças Paci icadoras empunhando armas. Eles
caminhavamsempressa,conversando.Doisfumavam.Chloetentouentenderoquesepassava.
Elespareciamsaberparaondeiam.Paraomesmolugar?Elapoderiaacompanhá -los,etalvez
fossemaisfácil,emrazãodobarulhoquefaziam.
Elespassaramatrê smetrosdeChloe,eelaaguardaria30segundosantesdeaventurar-se
asairdali.Seuwalkie-talkiedeudoisestalosrápidos,cheiosdeestática,assustando-a.
Os soldados continuavam caminhando e conversando, mas ela entrou em pâ nico. Apesar
denãoteremouvidoossons,poderiamouvirvozes,casoalguémcomeçasseafalarcomela.
Chloe en iou a mã o no bolso para desligar o rá dio, mas errou o botã o e aumentou o
volume.Aflitaetentandoencontrarobotãoparadesligar,elaperdeuoequilíbrioecaiusentada.
"JohnsonouIrene,fale,porfavor."
Altodemais!
Chloe levantou-se rapidamente, tirou o rá dio do bolso, apertou o botã o de transmissã o
duas vezes, desligou-o e endireitou-se, preparando a Uzi. Os soldados das Forças Paci icadoras
haviamparadoeestavamvindoemsuadireção.
Macpegouseurádioecochichou:
—AquiéJohnson,Jinnah.Qualéasuaposição?
—Cemmetrosanordestedopontodeencontro.
—Vocêestábem?
—Positivo.TropasdaCGnamata,senhor.
—Irenecomvocê?
—Negativo.
—EaDEW?
—Positivo.
—Estouacaminho.Quantos?
—Calculoduasdúzias,senhor.
—Repita!
—Nomínimo24.
— Entendido. Tome cuidado, desligue transmissã o via rá dio e retorne ao ponto de
encontro.
—Entendido.
Fá cil demais enganar Stefanich. Ou ele nã o estava acreditando ou era um verdadeiro
idiota.
—JohnsonchamandoIrene...JohnsonchamandoIrene...JohnsonchamandoIrene.Estáme
ouvindo?
Mac olhou para seu reló gio, chutou o chã o, apertou os lá bios e aguardou a chegada de
Hannah.
Chloe estava no meio de um arbusto espinhoso, com o dedo no gatilho e os pé s afastados
sobre a terra fofa. Os soldados das Forças Paci icadoras pararam na estrada, de frente para o
local onde Chloe se encontrava, tã o perto que ela podia ouvir a respiraçã o deles. Os seis
engatilharam as armas ao mesmo tempo. Ela mal conseguia enxergá -los e supô s que eles nã o
pudessemvê-la.Elaprendeuarespiraçãoeficouimóvel.
—CG!—umdelesgritou.—Quemestáaí?
Chloetinhaesperançadequeosseischegassemàconclusãodequenãoouviramnada.
—Apresente-seouvamoscercaraárea!
—Soualiada!—elagritou.—TambémdaCG.Irmãemmissão.Tenhamcalma.
—Armada?
—Segurandoaarmaacimadacabeça.Tenhocertezadequeminhapatenteé superiorà
devocês,portantonãotomemnenhumaatitudeprecipitada.
Umaenormelanternaforçou-aasemicerrarosolhos.ContinuandoaseguraraUziacima
dacabeça,eladisse:
—Apagueessacoisa!Estamostodosaquitrabalhandonamesmamissão.
Alanternafoiapagada.
—Entregueaarma,senhora,edepoisvamosresolveressecaso.
— Nã o, primeiro vamos resolver esse caso. Estou colocando a arma embaixo do braço
para poder mostrar meus documentos a você s. Relaxem. Até agora você s seguiram
estritamenteasinstruçõesenãopossoculpá-los.
—Obrigado.Vouprecisaracenderalanternaparaverseusdocumentos,senhora.
—Ummomento,eutenhoumalanternapequena.Estánomeubolso.
Com a arma embaixo do braço e apontando a lanterna pequena para seus documentos,
Chloesentiaocoraçãobatercomoumtambordentrodopeito.
—Elaéoficial,companheiros—disseolíder.—Sentido!
—Nã ohá necessidade—disseChloe.—Bomtrabalho.Apenasumpequenodeslize,mas
pelomenosvocêschegaramnohorário.
—Oqueasenhoraestavafazendonomeiodomato?
— Cumprindo ordens. Quero que você s aguardem a chegada de meu comandante e de
outrooficial,paraseguirmosjuntos.
—EssaUzinãoéoficial,é?
—Elaémuitocobiçada.Deusorestrito.
—Verdade?
—Comooficial,eupossousá-la.
—Puxa!
—Continuamosnohorário?—elaperguntou.
—Aindafaltamcercade20minutos,senhora.
—Esperemumpouco,cavalheiros.—Chloetirouorádiodobolsoeoligou.
—OficialIreneparaocomandantesêniorJohnson.
—Johnson?Oh,não!
—Comandantesênior!
Chloevirou-separaoshomensdasForçasPacificadoras.
—Umpoucomaisderespeito,porfavor.
—AquifalaJohnson,prossiga.
— Senhor, encontrei seis soldados das Forças Paci icadoras que vã o trabalhar conosco na
missão.Estamosaguardandopelosenhoracercade480metrosalestedesuaposição.
—Seis?
—Positivo.
—Estátudoemordem,Irene?
—Positivo.
—Peloqueestouentendendo,devı́amosestarcercados—disseMacaHannah.—Você
temcertezadequenãofoivista?
—Absoluta.MacligouparaChangeointeiroudasituação.
—Oqueestá havendo?—eleperguntouaChang.—Oquevocê achaqueStefanichestá
aprontando?
—Entreinomainframedele,Mac,enã oexistenadalá .Podeserqueelesestejamatrá sde
vocêouStefanichestejaapenastentandoseproteger.
— Mas por que ele mandou toda aquela gente para o meio do mato? Será que estã o se
reunindoaquiparaainvasãodameia-noite?
—Parecequepegaramocaminhoerrado.
— E claro que sim, a nã o ser que eles nã o saibam ao certo onde ica a sede clandestina.
Nã o estamos muito longe do local onde o pastor escondeu Rayford. Você acha que eles
descobriramoesconderijo?
— Você está a uns 50 quilô m etros de lá , Mac. Vou continuar investigando, mas nã o sei o
quelhedizer.
—Muitobem,vamos—disseAristóteles.
PlatãoempurrouGeorge,forçando-oaficarcomocorpoereto.Alguémabriuaportaaseu
ladoe,aparentemente,Platã oeAristó t elesosegurarampelobraço,umdecadalado,enquanto
Elena abria as portas. Sempre conduzido pelos dois, ele andou uns quatro metros, subiu trê s
degrausdeconcretoeentrouemalgumlugar.Emseguida,deumaisuns20passosaolongode
um corredor que, pelo eco dos passos, parecia estreito. Finalmente, entrou em uma sala
espaçosa.
AristótelessoltouGeorgeeafastou-seumpouco.
—Droga!—eledisse.—Nãoconsigo.Platão?
—Dê-meissoaí.
Georgeouviuumsomdemetalsendoinseridoemoutrapeçademetale,emseguida,dois
cliquesaltos.
—Qualéosegredodistoaqui?—Platãoresmungou.
—Voutentarpelooutrolado—disseAristóteles.
ElenaocupouolugardeAristóteles,aoladodeGeorge.
Se ao menos eu não estivesse algemado, pensou George. Ele poderia aproveitar a
oportunidade. Derrubaria a moça com um golpe, arrancaria as vendas dos olhos, correria pelo
corredor até a saı́da e contaria com a sorte para ajudá -lo. Mas nã o com as mã os algemadas
paratrás.Sefizessequalquermovimento,elacertamenteatirarianele.
PlatãoeAristótelescontinuavamaresmungar.
—Empurreohomemparadentro,Elena—disseAristóteles.
Elena conduziu George para a frente, virou-o de lado e tentou forçá -lo a passar por uma
abertura que, aparentemente, era mantida aberta por Platã o e Aristó t eles, um segurando de
cadalado.AaberturaeramuitopequenaparaGeorgepassar.
—Deixemumpoucomaisdeespaço—disseElena.
Osdoisresmungaramalto.Comumempurrão,elafezGeorgepassarpelaabertura.
— Esperem um pouco — disse Aristó t eles. — Nã o quero que ele seja encontrado
algemadoecomosolhosvendados.
Alguémabriuasalgemas.
—Tireavendadosolhosejogue-aparamim—disseElena.
Assim que a arrancou, George viu que estava dentro de um elevador escuro. Elena tinha
uma arma apontada para ele. Seria uma boa oportunidade, George pensou, porque Platã o e
Aristó t elesestavamtotalmenteocupados,segurandoasportasparaqueelasnã osefechassem.
Elenapegouavenda,colocou-anobolsoetirouumagarrafadeá guadooutrobolso.Elaatiroua
garrafadentrodoelevadoregritou:
—Divirta-se!
Asportassefecharam.
George deixou que a garrafa rolasse no chã o e tentou en iar os dedos entre as portas. No
exatomomentoemqueencontrouumpontodeapoio,eleouviubarulhodechavetrancandoa
fechadura.Oruı́doseguintefoiodeá guasendoderramada,eeletateounoescuroaté encontrar
agarrafa.Colocou-aempé,decididoaeconomizaroquerestara,pelotempoquefossepossível.
Com os braços abertos, George conseguiu tocar as paredes dos lados, e, quando virou um
pouco o corpo, ele se deu conta de que o local era quadrado. Nã o lhe causaria surpresa se os
botõ es do painel estivessem desativados, mas, pelos seus cá lculos, ele se encontrava dentro de
um pré dio de quatro andares. O teto do elevador estava a menos de 30 centı́m etros de sua
cabeça.
Ele tateou o painel, à procura de algum botã o solto, desparafusado, qualquer coisa. Tudo
estavamuitobempreso.Opainel ino,deplá stico,queeleencontroudeviaestarprotegendoa
lâ mpada. Ele removeu o painel e, tateando, percebeu que era um pequeno tubo de luz
luorescente,duploecircular.Aolado,haviaoutropainelcobrindoumemaranhadode ios.Eleo
empurrouparaoladoeoquebrou.Agora,podiasentiraslâ minasdoventilador,empoeiradase
sujasdeóleo.
AtemperaturadocorpodeGeorgecomeçouaaumentar,esuarespiraçã o icouofegante.
Será que aquela gente era maluca? Um elevador sem funcionar serviria perfeitamente como
celadeprisã o,masserá queelesqueriamsufocá -lo?Georgetirouamalha,asbotaseasmeiase
sentou-se,encostadonaporta.Pegouumabotaecomeçouabaternaportacomela,porcima
doombro.
— Pare de bater ou eu acabo com você ! — gritou Elena. Entã o, eles haviam deixado a
moçasozinhaparatomarcontadele.Georgequeriadizerque,seelesnã oquisessemapresentar
umhomemmortoà che ia,seriamelhorelaligaroventilador.Masestavadecididoanã ofalar.
Nemumasópalavra.Porisso,continuouabaternaporta.
Chang teve um mau pressentimento. Desde o dia em que passou a ser o ú nico espiã o no
palá cio da CG, ele nunca se sentira tã o desanimado. Será que Stefanich estava blefando? Ele
parecia ter icado intimidado, ansioso por agradar ao chefe. Mesmo que o homem tivesse
checadoalegitimidadedeMac,nãohaveriaproblema;Changtinhaprovidenciadotudoparaque
HowieJohnsonparecesseautê ntico.EleestavacertodequeStefanichtinha icadoconstrangido
porterduvidadodeJohnson,eagoradeviaestartentandoapagaressaimpressão.
Desesperado, Chang queria saber até que ponto Mac, Chloe e Hannah estavam
vulnerá veis.Estariamsendoconduzidosaumaemboscada?Otempotrabalhavacontraele,mas
talveznã ofosseconvenienteaconselharMacaabortaraoperaçã o.Talvezelespudessemfazer
umaligaçã odiretanocarroencontradopertodobarracã oeseguirparaoaeroporto,masChang
sabiaqueMacnã oabandonariaSebastianà pró priasorte.EseSebastianjá estivessemorto?Se
a identidade de Mac tivesse sido descoberta, nã o haveria motivos para a CG manter o rapaz
vivo.
De repente, Chang deu um tapa na testa com as duas mã os.Raciocine! Se eles estão
tentando descobrir alguma pista sobre Mac, deve haver um motivo. Se eu encontrar a conexão,
talvezpossadescobriroqueelespretendemfazer.
ChangcomeçouafazerumapesquisaglobalpedindoaosupercomputadordeDavidHassid
que encontrasse algué m nos altos escalõ es do palá cio que tivesse conexã o com a CG em
Ptolemaı̈s. Ele chegou até a digitar alguns có digos, caso o contato dentro do palá cio
descon iasse de que estava sendo monitorado por algué m. Enquanto o computador pesquisava,
com uma velocidade espantosa, os milhares de arquivos de centenas de localidades, Chang
ajoelhou-senochão.
—Deus, nunca te pedi que interferisses em uma só peça deste equipamento. Mas tu sabes
que foi um servo teu que projetou este computador, e quero servir-te também. Ajuda-me a
raciocinar. Acelera o processo. Permite que eu proteja esses irmãos e irmãs. Depois do que
presenciei hoje em Petra, sei que nada está fora do alcance de tuas mãos. Perdemos muitos
companheiros para o inimigo, e sei que perderemos outro tanto antes de tua derradeira vitória.
Masnãopermitasqueoscrentesgregossoframmaisainda.Nãoestanoite.Protegeacooperativa.
Eajuda-meatirarMac,Chloe,HannaheGeorgedelá
Mac gostava de missõ es claras, com incumbê ncias especı́ icas. O objetivo daquela era
in iltrar-se,atravessarosportõ es,libertarohomemechegarà estrada.Agora,haviatambé mo
problema do esconderijo clandestino. Ele certamente nã o partiria da Gré cia sem Sebastian,
tampoucopoderiairemborasemdefenderoscrentesdali.
O plano original nã o previa mais gente, alé m dele e de seu pessoal. Havia quatro
seqü estradores. Assim, Mac, as duas mulheres e George formavam uma equipe de quatro
pessoas,osu icienteparalidarcomaquelasituaçã o.MasseguircomHannahpelaestradapara
encontrar-se com Chloe e seis homens daCG, ainda mais sabendo que haveria, pelo menos,
outros24naárea...bem,aquilonãofaziasentido.
—Ummomento—eledisseaHannah.—Vocêsabefazerligaçãodiretanumcarro?
—Devodizerquesimouquenão?
—Respondaàminhapergunta.Otemponãoestáanossofavor.
—Sim.
—Então,faça.
Enquanto ela caminhava apressada até o carro de Sebastian, Mac chamou Chloe pelo
rádio.
—JohnsonparaIrene.
—AquiéIrene,prossiga.
—Atrasoimprevistoaqui.Necessitodesuacolaboração.
—Entendido.Devolevarajuda?
—Negativo.Dispenseoshomens.Nósosalcançaremos.
—Você souviramochefe,cavalheiros—disseChloe.—Vamosnosencontrarcomvocê s
nodestino.
—Nósgostaríamosmuitodeajudarocomandantesênior,senhora,
—Não,obrigada.
—Podemosnosencontrarcomeledepois?
— Vou providenciar. — Assim que disse isso, Chloe teve uma forte intuiçã o e nã o pô de
deixardeexpressá-la.—Vocêsmefariamumfavor?
—Podepedir,senhora.
— A presença do comandante sê nior Johnson esta noite é uma surpresa para o
comandante Stefanich. Ele vai ser recompensado por algumas açõ es recentes. Portanto... —
Nãodevemosdizerqueeleestáchegando?—Exatamente.
— Tudo bem, senhora. E sabe de uma coisa? Nó s nem sabı́amos que o comandante
Stefanichviriaparacá.Averdadeéquenãosabemosoqueeleestáfazendoaqui.
Chloeempalideceu.EseStefanichnãoestivesselá?
—Tudofazpartedasurpresa,rapazes.
ChangsabiaqueDeusohaviaprotegido,provavelmentemaisvezesdoqueeleimaginava.
MaselenãotinhamotivosparapensarqueDeuslhedevessealgumfavornemquefosseobrigado
a agir no presente momento só por causa de um pedido seu. Sem acreditar que suas sú plicas
tivessem produzido algum efeito, Chang tornou a sentar-se, abatido, em sua cadeira diante do
computador.
Luzesvermelhaspiscavamnatela.
O mecanismo de busca havia acessado os arquivos secretos dos altos escalõ es e estava
comparando, combinando, traduzindo idiomas, transformando palavras faladas em escritas.
Uma pequena caixa no canto direito superior mostrava seis combinaçõ es feitas entre alguns
elementosdaCGemPtolemaïseachefianopalácio.
Changtemiaqueamultitarefaretardasseabusca,maseletinhadecorrerorisco.Mace
as duas mulheres corriam perigo, estavam em desvantagem numé rica e nã o sabiam o que
encontrariampelafrente.
Eleveri icouastrê sprimeirascombinaçõ esedescobriuqueeraminteraçõ esrotineirasda
administraçã o de Ptolemaı̈s reportando estatı́sticas ao comando da CG. A quarta, poré m, era
diferente.Tratava-sedeumainteraçãodesegurançamáxima,deumasériedee-mailsentreTB
eOT,alé mdevá riasligaçõ estelefô nicas,també mentreessasduaspessoas,queestavamsendo
transformadasempalavrasescritas.
Chang digitou: "Ló gica da combinaçã o?" A resposta foi imediata. "Atende a crité rios
simples, amplos: iniciais de pessoas-chaves da CG na Gré cia e da CG no palá cio representadas
comasletrasposterioresdoalfabeto."
Changsemicerrouosolhos.Eraoqueelehaviapedido:umaconexã oqualquerbaseadaem
seqü ências e có digos de uma busca padrã o. TB signi icava SA. OT signi icava NS. Assustado,
Chang levantou-se da cadeira, debruçou-se sobre o teclado e digitou: "Mostre interaçã o", e,
enquantoosarquivosapareciamemformadecascatanatela,eleligouparaMac.
Mac ouviu o carro funcionando e passos correndo em sua direçã o vindos do norte e do
leste.
—Senhoras?—eledisse.
—Sim.
—Sim.
Seucelularvibrou.
—Aguardem.Ei,Chang.
—Mac!Voudizerumavezsóevoltoafalarcomvocêsobreosdetalhesomaisrápidoque
puder.Pronto?
—Diga.
—AkbareStefanichcomunicaram-sepessoalmenteváriasvozeshoje.
Clique.
—Emboscada—disseMac.—Prestematençã o.Nã ohá tempoparaperguntas.Hannah,
você dirige.Chloe,sente-senobancodocarona.PegueaDEW,aUzieumapistola.Telefonese
rá dios ligados. Dirijam-se para a cooperativa imediatamente. Tirem o pessoal de lá e nã o
deixem nada que possa ser encontrado na invasã o da meia-noite. Depois, sigam direto para o
aeroporto.FiquemescondidaseaguardemminhachegadacomSebastian,prontasparafugirno
aviãodele.Senãoaparecermos,significaqueestamosmortosevocêsterãodesevirarsozinhas.
Maccurvou-seeergueuaCalibre50,segurando-acontraopeito.
—Estánahoradetrabalhar,garotão—elemurmurou.
Hannah e Chloe contornaram, correndo, o barracã o em direçã o ao carro com o motor
funcionando.
CAPÍTULO8
Obrigado, Senhor, disse Chang ainda em pé e já digitando freneticamente o teclado do
computador. Em segundos, ele conseguira abrir a transcriçã o de quatro conversas telefô nicas
em uma linha tã o segura que nem mesmo Carpathia tinha acesso a ela, conforme ele pró prio
disseraumavez.
MasDavidHassidconseguiu,Nicky.Eleconseguiu.
Chang també m tinha có pias dose-mails que nã o constavam do computador do palá cio
nem domainframe de Ptolemaı̈s. Essese-mails tinham a suposta garantia de que
desapareceriamdecadaregistroassimquefossemlidos.OdiscoprincipaldeHassiddeviateras
únicascópiasexistentes,inclusiveasdosremetentesdose-mails.
Apesar de sua curiosidade, Chang sabia que seria irrelevante, no momento, tentar
entender como algué m do nı́vel de Stefanich tinha acesso pessoal ao diretor do Serviço de
Segurança e Inteligê ncia. A ligaçã o entre eles evidenciava a existê ncia de alguma histó ria por
trá s daquilo, mas a caixa no canto superior da tela nã o havia começado a piscar novamente,
portanto Chang nã o perderia tempo tentando descobrir alguma coisa enquanto seu problema
nã ofosseresolvido.Eleclicourapidamentenacaixaeleu:"Combinaçã oprimá ria100%,nã ohá
necessidadededecodificação."
Ele abriu o manifesto e leu: "Correlaçã o direta da Lista A com a Lista B: Suhail Akbar e
Nelson Stefanich, registrados na Escola Militar de Madri, ocuparam as mesmas posiçõ es em
épocasalternadas."
Pelos anos relacionados, Chang calculou que eles freqü entaram aquela escola na mesma
é poca, quando eram adolescentes, havia mais de 25 anos.Aquele seria o motivo da troca de
telefonemas.
OsolhosdeChangcorriampelacópiaquerendosabercomosedeuaartimanha.
StefanichhaviaperguntadoseHowieJohnsonera"umhomemconfiável."
Akbarrespondeuqueonomenãolhedizianada.
Stefanichinformou:"ComandantesêniorsubordinadoaKonrad."
"Vouverificar."
Akbar encontrou o nome nos arquivos: "Ficha excelente, mas nossos caminhos nunca se
cruzaram.Fatoraroparaalguémdessenível,masacontece."
Stefanich insistiu: "Nã o quero ser inoportuno, mas Konrad garante a integridade dele?
Querotercertezaantesdelevaroprisioneiroaele."
"Queprisioneiro?EqueméKonrad?"
"Ojudaísta,GeorgeSebastian."
"Aindanãoextraiunadadele?"
"Vamosquebrarosossosdeleoumatá-lo."
"Quebreosossosdele.Euseiquevocêécapazdisso."
"VocênãoéosuperiorimediatodeKonrad?"
"Não.Seráqueprecisoverificartambémqueméessesujeito?"
"E melhor. Ele me disse que é seu subordinado imediato, que é subcomandante, que
trabalhaemseuandar."
"Enviedocumentação."
Maistarde,AkbarcontouaStefanich:"Você está sendoenganado.JohnsoneKonradestã o
nosistema,asinformaçõesconferem,sóqueelesnãoexistem."
"Tenhopermissãoparamevingardeles?"
"Desejo-lhe toda a sorte do mundo. Pegue os dois, mortos ou vivos, e providenciarei sua
transferênciaparaopalácio."
A medida que as ligaçõ es e ose-mails prosseguiam, icou claro que eles já sabiam que as
identidadesdasmulherestambémeramfalsas.
"AdeMontrealesteveemminhasala."
Noinı́c iodatarde,Akbarhaviatomadoumadecisã o:"SeSebastianestá merecendotodo
esse trabalho, é porque eles tê m ligaçõ es estreitas com os clandestinos. Anuncie uma invasã o
paraverseelesrevelamolocal."
ChangligouparaMac.
—Ainvasãoéfalsa.Sevocêavisaroscrentes,vaipôrtudoaperder.
—LigueparaChloeouHannah.Estouocupado.
—Olocalondevocêestátambéméumaarmadilha,Mac.
—Tudobem.Ouça,Chang.Vocêsalvouanossavida.Agora,façaopossívelparaencontrar
Sebastian.Oueutiroessecaradaquiouvoumorrertentando.
Chloeatendeuotelefone.EraChang.
— A invasã o foi uma encenaçã o para que você levasse aCG até o esconderijo. Aborte a
operação.
—Hannah,vocêtinharazão.
—Oquê?
— Hannah tinha razã o, Chang. Ela descon iou que está vamos sendo seguidas. Eu nã o
percebinadaeacheiquefosseparanóiadela.
—Eubemquefalei!
—Livre-sedelesouleveessagentealugarnenhum—disseChang.—Peloquesei,aCG
nã o tem nenhuma pista de onde ica a cooperativa, nem que é lá que os crentes se reú nem.
Precisodesligar.Macestánalinha.
—Prossiga,Mac.
— Pergunta. Se for uma armadilha, por que os homens das Forças Paci icadoras
retornaramcomChloeequeriamencontrar-secomigodepois?
—Nãoestouentendendo.
MaclhecontousobreoencontrodeChloecomameiadúziadesoldados.
— Você me deixou confuso. Ainda estou tentando decifrar a conversa entre Akbar e
Stefanich.Épossívelquenemtodossaibam.
—Podeser.
—Issolhedáumavantagem.
—Confirmesepuder.
—Claro.
Mac caminhou um bom trecho na direçã o leste para tentar avistar a garagem
improvisada,seé quehaviaalguma.Nã oviunada.HannaheChloetambé mnã o.Issosigni icava
que o local de reuniã o das tropas localizava-se um pouco mais adiante. Se Chang estivesse
certo,Sebastiandeviaestarapoucosquilômetrosdali.
Excelenteraciocíniomilitar,Mac.Ficarsozinhonumlugardesertoeemnúmeromenorqueo
inimigo.
Macre letiusobresuasopçõ es.Asvantagenserampoucas.Seriadifı́c ilalgué mvê -lo.Ele
nã o cairia no engodo de dirigir-se ao lugar em que Sebastian supostamente estava. Tinha uma
Calibre50.Poderiacaminharoucorreraté ocarro,masoveı́c ulojá deviaestarsobvigilâ ncia.
Deviaestarcercado,e,seelefosseidiotaosu icienteparatentarchegaraté lá ,seriafacilmente
capturado.
Senhor, ele disse em voz baixa,eu vou te agradecer se me mantiveres motivado a
permaneceremforma,evoutepedirquemedêsmaisforçadoquejátiveatéhoje.Tudooque
estoutentandofazerétirarvivosdaquiteuservoeasminhasduasparceiras.Estouagradecendo
tua ajuda desde já, porque vou estar muito ocupado por uns tempos. E, se tu decidires não me
ajudar,éporquedesejasomelhorparamim,enosveremosdentroembreve.
Macretornoupelocaminhoquelevavaaobarracã oeparouaunscemmetrosacimadele.
Tirou a jaqueta, icando apenas com trê s projé teis da Calibre 50 e dois pentes da Uzi. Em
seguida,enrolouatiradaUziduasvezesemvoltadocorpoparaqueaarma icassebemjunto
dele.
Ele nã o conseguia correr carregando a Calibre 50, mas trotou o melhor que pô de,
permanecendo sempre no lugar mais alto da colina, a uns 200 metros acima da estrada,
acompanhando o terreno. A princı́pio, ele sentiu o ar fresco batendo-lhe nos braços, pescoço e
rosto,mas,emseguida,seucorpointeirotranspirava.Isso,elesabia,eraapenasocomeço.
Os mú sculos de Mac doı́am pelo esforço e pelas cã ibras, mas ele nã o queria parar; nem
sequer diminuiu o ritmo das passadas. Continuou a caminhar cada vez mais na direçã o oeste,
tentandocalcularadistâ nciadolocalondeelehaviadeixadoocarro.Depoisdeatravessaruma
faixadeterraacidentadacompedrassoltasquequaseofizeramperderoequilíbriováriasvezes,
finalmenteeledecidiulocalizaroveículo.
Macdeitou-senochã o,noaltodacolina,eolhouparaaestradaembaixo.Comosbraços
trê mulos em razã o do esforço e da fadiga, ele colocou o suporte bı́pede no chã o, abriu o
telescó pio e ajustou o foco para poder esquadrinhar a á rea, em vez de tentar movimentar a
armapesada.
Demorou um pouco de tempo para seus olhos se acostumarem à escuridã o. A estrada de
pedregulhos era apenas uma faixa cinza em comparaçã o com a negritude da mata, mas ele
sabia para onde deveria olhar. A direita de seu campo de visã o — a uma distâ ncia tã o grande
queserianecessá riofazerummovimentodequase30metroscomaarma-,eleavistoualguma
coisaquecaptavaoreflexodasestrelas.Sópoderiaserocarrobranco.
Mac respirou um pouco de ar fresco e forçou-se a levantar o corpo até o ponto de
conseguiralinharaCalibre50comocarro.Eleestavaimpaciente.Enquantoapertavaosolhos
paraenxergarmelhorefaziacá lculosmentais,eletevecertezadetervistoalgummovimento
noladonortedaestrada.Seestivessecerto,aCGoaguardavaali—e,comtodaacerteza,do
outroladodaestradatambém.
Ele se lembrou, por experiê ncia anterior, de rasgar uma tira da camiseta para tapar os
dois ouvidos. Depois de colocar muniçã o extra perto da arma, incou os pé s no chã o. Contava
comagrandevantagemdeapontarparabaixo,porqueocoiceoatirariaparacimaeparatrá s.
Precisavalembrar-sedemanterosjoelhosdobrados.
O plano de Mac era alvejar o carro com dois disparos seguidos, sabendo que teria de dar
tudodesiparairaté o im,porque ningué m que usou aquela arma violenta — inclusive ele —
haveriadequereratirarcomelamaisdeumavez,muitomenoslogoemseguida.
Macesticouobraçoeposicionou-se,comodedoafastadodogatilho,até apoiarabasedo
ri le no ombro. Ele procurou acomodá -la em um local macio, e nã o diretamente em cima do
osso,porquesabiaoestragoqueaquelacoisapoderiaprovocaremseucorpotodo.
Ele se lembrou das liçõ es que aprendera. Firmar-se no lugar. Relaxar. Apoiar o ri le bem
irmenoombro.Nã oretesarodedoquefariaodisparo.Protegerosouvidos.Pé s irmesnolugar.
Cotovelos levemente dobrados. Joelhos lexionados. Mirar o teto do carro, um pouco para a
esquerda, por causa do vento. Manter uma distâ ncia de pouco menos de 200 metros. Mesmo
levando um coice tremendo, recarregar a arma e atirar novamente, da segunda vez sem
preocupaçãocomprecisãonamira.
Enquanto fazia a contagem regressiva a partir do nú m ero trê s, Mac icou satisfeito ao
observarmovimentoatravé sdalente.Amenosquealgué mfossetã oinfelizapontodecolocarsenalinhadefogo,ningué mseriaatingidopelaprimeiraseqü ênciadedisparos.Nasegunda,ele
esperavaqueaCGjáestivesseameiocaminhodobarracão.
Aochegaraonú m eroum,Macparou.Eleteveumaidé iamelhor.Arriscartudodeumasó
vez.Mirarumpoucoà esquerda,naesperançadeatingirotanquedecombustı́vel.Mesmoque
ele errasse, aqueles homens pensariam que estavam enfrentando um tanque de guerra ou, no
mı́nimo, uma bazuca. Mas, se ele tivesse sorte, eles pensariam que estavam enfrentando a
eternidade.
Macmudouapenasumpoucodeposição.Tudopronto.Três,dois,um,zero,oh,mamãe!
Elepensouqueestivessepreparado.Foicomosenã otivessecolocadonadaparaproteger
osouvidos.Obarulhofoitã oviolentoquepareciasenti-lodemodopalpá vel.Osgalhosetroncos
dasá rvorestinhamexplodido,e,sim,aexplosã odotanquedecombustı́veleobarulhodocarro
se espatifando sobre os pedregulhos provocaram um estrondo que qualquer um poderia ouvir,
mesmonã oestandoporperto.Oruı́do icouretinindoemseusouvidospormaistempodoquea
bolaalaranjadaqueelevia,mesmocomosolhosfechados.
Aviolê nciadodisparoatirou-oparatrá s,fazendo-ocairdoladoesquerdo.Enquantolutava
pararecuperarosensodedireçã o,eleroloudebruçosevoltoua icarnamesmaposiçã o.Com
osdedostrê mulos,Maccolocoumaismuniçã onacâ mara,tomandoocuidadodedeixaraarma
apontada para a frente. E, mesmo contra todos os seus instintos, ele acionou novamente o
gatilho.
Ele esqueceu-se das liçõ es que aprendera. Um dos pé s nã o icou irme no lugar. Ele
també m nã o estava irme. A base do ri le nã o foi apoiada no ombro. O coice da arma atirou-o
paratrá s,aparentementeà velocidadedaluz,eprovocouumafundamentonapartesuperiorde
seuombro.
Oruı́dofoimenor,porqueoprimeirodisparojá haviafeitoumestragoemseustı́m panos.
Osouvidoszuniameressoavam.Atordoado,levantouacabeçaeviuá rvorescaindo,duasdeum
lado da estrada, uma do outro. Ele havia mirado trê s metros à esquerda do carro, que agora
estavaachatadonochã oeemchamas,queiluminavamoestragofeitonalatariaenafauna—
tudodevastadopordoissimplesmovimentosemumgatilhodemetal.
Mac queria ter podido ouvir os gritos dos jovens das Forças Paci icadoras correndo para
escapar da morte. Ele forçou-se, desajeitadamente, a icar de quatro no chã o, como se fosse
umacriança,elutouparanãoescorregarladeiraabaixo.
Quando,finalmente,conseguiuficarempé,comosbraçosabertosparamanteroequilíbrio
até as á rvores pararem de girar, ele aguardou... e aguardou. Depois que seu organismo fez os
ajustes necessá rios, Mac recuperou o fô lego, sacudiu a cabeça, esticou os braços e as pernas e
começouacorrer.
Sua intençã o era cobrir a pé todo o percurso que ele levara mais de meia hora para
percorrer de carro. Encontraria o caminho para o local onde ele, Chloe e Hannah haviam se
reunido no im da tarde, que agora parecia tã o distante. Lá , Mac encontraria o jipe escondido,
fariaumaligaçã odiretaepartiriaparaamissã oqueeleesperavafosseaú ltimabrincadeirado
dia. Certamente, quando chegasse lá , Chang já lhe teria informado o local do cativeiro de
GeorgeSebastian.
E, depois de tudo isso, que Deus tivesse misericó rdia — ou nã o — de quem ousasse
intrometer-seentreelesealiberdade.
CAPÍTULO9
Chloe nã o conhecia com detalhes a arma de energia direcionada que levava no banco
traseiro do carro, mas ouvira falar do efeito que ela causou em um alvo. Estava curiosa,
levantou a arma cuidadosamente e colocou-a no colo, fazendo com que Hannah desviasse os
olhosdaestradaparaaDEW.
—Nãoaponteessacoisaparamim,Chloe.
—Elanãoestáligada!
—Eomesmoquedizerqueumaarmanã oestá carregada,Já morrerammuitaspessoas
comarmasqueaspessoasjuravamestardescarregadas.
—Parecebemsimples.Vocêsabelidarcomela,certo?
—Sei—disseHannah.—Mas,porfavor,Chloe...
—Parecequebastaligá-la,deixá-laaquecer,oucoisaparecidaedisparar.Nãoéletal.
— Ah, eu sei. Mas o efeito do calor de 55°C sobre a pele humana sensı́vel fará qualquer
pessoadesejarestarmorta.
—Apostoqueessescarasiamparardenosseguir.
—Nempensenisso.Sevocêerrar,elesvãocomeçaraatirarenãovamosajudarninguém.
—Dequalquerforma,nãoestamosajudandoninguém—disseChloe.—Estamossentadas
aquicomUzis,pistolas,umaespingardaeumaDEWedeixamosMaclá emcima,sozinho,com
todaaquelagentedaCG.
—Equantotempovailevarparaqueessessujeitospercebamqueestamosbrincandocom
eles?
— Precisamos acabar com eles antes de seguir para o aeroporto, Hannah. Eles nã o vã o
permitirqueagenteentrelá.
— Acabar com eles? Chloe, o pelotã o deles pode até ser dizimado, mas eles tê m mais
gente,maiscarros,maisrádios.Nãovamosacabarcomeles.
—EstouligandoparaChang.
—Paraquê?
—Querosaberquantaspessoasestãoatrásdenós.
—Porquê?
—Espereumpouco.
Seria muito mais fá cil correr sem aquela Calibre 50 desajeitada, mas Mac nã o fazia esse
tipo de exercı́c io desde... desde quando? Desde nunca. Nem mesmo os trechos das corridas nos
tempos de giná sio eram tã o longos assim. E essa corrida era mais longa que uma maratona,
comcerteza.Ouvindoosomritmadodeseuspassos,elerepetiacontinuamenteparasimesmo:
Deus,eusouteu.Deus,eusouteu.Deus,eusouteu.
Se ele conseguisse chegar até o jipe, seria pela misericó rdia de Deus. Essa corrida
ultrapassavaoslimitesdacapacidadehumanadeMac.
Chang lia, freneticamente, cada palavra da comunicaçã o entre Akbar e Stefanich na
esperança de encontrar alguma coisa, qualquer coisa, para ajudar Mac. Seu celular vibrou, e,
pelovisor,elesabiaquemestavaligando.
—Vocêestábem,Chloe?—eleperguntou.
— Por enquanto — ela respondeu. — Existe alguma maneira de saber quantas pessoas
estãonosseguindo?
—Possotentardescobrir.Noquevocêestápensando?
— Se for um bando, estamos mortas. Vamos fazer essa gente rodar pela cidade atrá s de
nó se,depois,tentarfugiroutrocartiroscomeles,masvocê sabequetemospoucaschances.Se
forsó umcarro,eelesestiveremincumbidosapenasdecontarà che iaonde icaoesconderijo,
eutenhoumaidéia.
— Diga-me qual é a idé ia antes que eu comece a tentar acessar o computador de
Ptolemaïsnovamente.
—Porquê?Sevocênãogostardaidéia,nãovaiprocurar?É?
— Chloe, deixe disso. Mac está em perigo, e nã o temos idé ia do paradeiro de Sebastian.
Tenhodecuidardasprioridades.
—Desculpe-me.Voufalarrá pido.Seelesestiverematrá sdenó ssó parasaberonde icao
esconderijo, vamos levá -los até um. Só que nã o vai ser o verdadeiro. Alguns cidadã os infelizes
vãoseratacadoshoje.
—Gostei.
—Quealívio!
—Estoufalandosé rio.Eachoquevocê ssã opeixespequenosparaeles.Nã oestoudizendo
queelesnã osuspeitamdevocê s.Sairdoaeroportoestanoitevaiserquaseimpossı́vel,maseles
poderã o pensar que você s nã o tê m para onde ir e vã o prendê -las quando tentarem partir. Eles
queremopessoaldaí.
—Evamoslevá-losatélá,sóquenãoatéopessoalverdadeiro.
—Ligoparavocêassimquepuder.
—Paredebater,senãoeumatovocê!—gritouElena.
Georgenã oouviaavozdemaisningué m.Continuouabaternaporta.Comoelafariapara
alcançarafechadura?paradestrancá-la?paraabrirasportas?
Ela praguejou, e ele ouviu movimentos. A moça estava arrastando alguma coisa para
perto do elevador. Ele ouviu o barulho de uma chave sendo en iada na fechadura e, depois,
girando.Pareciaqueelahaviadescidodeumacadeira,oucoisaparecida,quetinhausadopara
subirepegaralgonumlugarmaisalto.Agora,elatentavaabrirasportas.NemmesmoPlatã o
tinhasidocapazdefazerissosozinho.Georgecontinuouabaternaporta.
—Estoutentandochegaraí!—eladisse.—Mas,quandoeuchegar,vaisearrepender!
Bam!Bam!Bam!
—Euvouatirarnaporta!
Bam!Bam!Bam!
— E melhor você parar com isso! Eu nã o estou brincando! George percebeu que ela
continuava lutando com as portas. Nã o havia como abri-las. Se pelo menos pudesse fazê -la
esquecerdetrancardenovoasportas...Eleparoudebater.
—Assimémelhor!
Ele ouviu quando ela subiu em alguma coisa novamente. A chave estava sendo colocada
nafechadura.
Bam!Bam!Bam!
—Nã o!Nã oadiantainsistir!Estoutrancandovocê denovo,epormimpodebateranoite
inteira!
Elatrancouasportas.
Georgelevantou-seeencontrouaoutrabota.Calçouumaemcadamão.Agora,eleestava
inclinado para a frente, com as mã os acima da cabeça e as botas encostadas nas portas. Ele
arrastou as botas pela porta enquanto escorregava lentamente em direçã o ao chã o. George
encenou um tombo. Primeiro, os joelhos bateram com força no chã o, depois o lado do corpo,
depoisasbotas,depoisasmãos.Eleficouimóvel.
—Você acaboucomabrincadeiraaı́?...Hein?...Vaicontinuar?...Vailevarumtiro!...Você
estábem?...Ei?
Elapraguejounovamente,eeleaouviufalandoaotelefone.
—...batendo na porta do lado de dentro. Ameacei atirar, e ele parou, mas acho que está
morto...pelosomqueouvi...parecequeeledesabounochã o.Você sabequenã ohá arlá dentro.
Nãoháventilação.Onde?Vouprocurar.Elabateunasportasduasvezes.
—Agüenteumpoucoaí.Voudarumjeitoparaquevocêrecebaumpoucodear.
Chang encontrou a ita das conversas, via rá dio, entre o pessoal das Forças Paci icadoras
da CG em Ptolemaı̈s, mas a qualidade era tã o precá ria que o dispositivo de conversã o nã o
conseguiu transformar as falas em palavras legı́veis. Ele fez umdownload de tudo para seu
computadoretentoucaptaraspalavraspormeiodefonesdeouvido.
— Chloe — ele relatou -, é apenas um palpite, portanto deixo a decisã o a seu crité rio.
Acreditoqueexisteapenasumcarroseguindovocê s,enã opertenceà CG.Elesmandaramdois
Monitores de Moral vigiar você s. Ambos estã o armados, é claro, mas a tarefa deles é saber
quemvocêsvãoavisarsobreainvasão.
—Vocêdissequeéumpalpite.
—Tenhodeserhonesto,Chloe.Estouquasecertodequefoiissooqueeuouvi.
—Certoatéqueponto?
—Cinqüentaecincoporcento.Elariu.
—Vocêachougraça?
— Nã o. E que eu esperava que fosse pelo menos 60%. Se você chegar a 60, compro esse
carrohojemesmo.
—Oquê?
—Nada.Podeser64?
—Nomáximo.
—Vamosfazerumatentativa.
Elena continuava a falar ao telefone, mas George teve de encostar o ouvido na porta do
elevadorparaouvir.Eladeviaestargritando,maselemalconseguiaentender.
— Na parede perto do elevador? — ela parecia estar dizendo. — Sim. Porta cinza.
Entendi.Hádezenasdessascoisasaqui,homem...Bem,algumacoisacomocaldeira,ventilação,
aquecedor de á gua... ah, sim, parecem bugigangas do andar té rreo... Como eu posso saber? Há
umas20coisasdessetipo.Está bem,21emais...está bem,talvezestesejaoprimeiroandar...
Sistema de alarme, luzes de emergê ncia, luzes externas, luzes da escada, elevador... Você diz
quehá umdiferenteparaventiladorouluz?Nã oestouvendo...Ah,sim,está tudonumlugarsó . ..
Mas eu preciso. Ele vai morrer sufocado lá dentro... Nã o! Abra essa coisa, nem que seja um
pouco,eeuvouvigiarohomemotempotodo...Eseeuligaredeixarasportasfechadas?...Cada
andar? Entã o, vou trancar as portas de cada andar. Aı́, ele nã o vai poder ir a lugar nenhum,
certo?...Ligoparavocêdepois.
Georgeouviuquandoelasaiudosaguã oecomeçouasubiraescada.Elecontinuavacomo
ouvidoencostadonaportaepercebeuqueelaestavatrancandoasportasexternasdoelevador
nostrê sandaresacima.Ah,elaialigarachaveparafazerfuncionaroventiladordoelevador,a
imdequeGeorgerecebesseumpoucodear.Aquilonã oadiantaria.Eletinhadeforçá -laaabrir
asportas.
Elena prestava atençã o para saber se o ventilador havia sido ligado e se George estava
consciente. Ele levantou-se e apalpou o ventilador e as luzes, apoiando-se com irmeza nas
paredeslaterais.Ospainé istinhamsidomuitobemparafusados,masa iaçã oelé tricanotetodo
elevador era coberta por outros tipos de painé is, talvez um pouco mais frá geis. Ele calçou as
luvaseempurrouospainé iscomforça.Ometaleramuitoresistenteea iadoemalgunslugares,
mesmosendomanuseadocomluvas.Elenajádeviaestarvoltando.
Georgecalçouasmeiaseasbotas,curvouocorpo, icoudecabeçaparabaixo,apoiou-se
nas mã os e começou a levantar as pernas, para que as solas das botas encostassem no teto do
elevador. Com os pé s, ele foi tateando até ter certeza de que havia alcançado a luz e o
ventilador.Emseguida,esticouaspernasearremessou-asparacimacomtodaaforça.
As lâ mpadas luorescentes estouraram e caı́ram; as pá s do ventilador entortaram e
começaram a despencar. Os bı́c eps de George tremiam e seu peito doı́a, mas ele continuou a
fazerforça,comosesuavidadependessedaquilo.Ospainé isromperam-se,soltando-sedos ios.
Otetodoelevadordeviaestarcompletamentedevastado.
Georgetentoucontrolararespiraçã ofortecausadapeloesforço.Nã oqueriafazernenhum
barulho. Aos poucos, ele voltou à posiçã o normal e deitou-se no chã o, ofegando e empurrando
cuidadosamenteoentulhoparaumcanto.
Em seguida, ouviu Elena caminhando com passos rá pidos, aproximando-se da caixa de
forçaeligandoachave.Asluzesdosbotõ esdopainelacenderam-se,eeleouviuumzumbidono
teto,nolocalondealâmpadaeoventiladorhaviamsidoinstalados.
Continuandoacontrolararespiraçã o,Georgegirouocorpo,amarrouoscordõ esdasbotas
e,commovimentosdeumgato,ajeitou-senolugar.
—Você está recebendoumpoucomaisdearaı́?—gritouElena.Elaesmurrouaporta.—
Ei!Melhorou?
George icou de quatro no chã o, arrastou-se para trá s, encostou os pé s na parede e foi se
afastando,apoiadodecó c oras.Emseguida,eleinclinou-separaafrente,colocouaspalmasdas
mã os no chã o, virou o rosto para a direita e deitou-se com a face e o ouvido esquerdo
encostados no piso do elevador. Esforçando-se para inspirar o ar de maneira profunda, poré m
lenta,elepreparou-separaprenderarespiraçãoefingir-sedemorto.
Maisduasbatidasnaporta.
—Vamos!Oventiladordeveestarfuncionando,nã oé ?Seestiverrecebendoumpoucode
ar,dêumabatidanaporta!
George continuou deitado, com o corpo curvado e encostado na parede. Qualquer pessoa
queovisse,imaginariaqueeleestavamorto,comorostoencostadonochão.
—Muitobem!Estouabrindoasportas,mas,sevocêtentaralgumacoisa,vaimorrer.
Agora,elaestavaemcimadacadeira.Objetodemetalsendoencaixadoemmetal...Um
estalido...Georgesentiu-setentadoaapertarobotã o"AbrirPorta",massabiaqueElenaestava
em pé ali, com a arma apontada para ele. Ele piscou vá rias vezes para umedecer os olhos.
Depois, continuou deitado, com os olhos abertos, sem piscar, na esperança de poder enxergar
algumacoisapelavisãoperiféricaparasaberomomentoexatodeagir.
—Estouabrindoasportas!Nã osemexa!Emelhorqueache iaencontrevocê baleadodo
quemortoporacidente.
George ouviu quando Elena apertou o botã o e sentiu o elevador vibrar. As portas
começaramaabrir.Elequeriasorveroarpuroefresco,masnã oseatreveu.Sobaluzfracadas
placasindicandoasaı́daedalâ mpadadocorredor,eleviuasilhuetadamoçadiantedesi,com
ospésafastadosumdooutro,segurandoaarmapossantecomasduasmãos.
Ela praguejou. Aproximou-se um pouco mais. Tirou a mã o esquerda da arma e fez um
movimento para sentir a caró t ida dele. Assim que seus dedos tocassem a pele de George, ela
saberiaqueeleestavavivo.Aqueletoqueseriaomomentocertoparaeledarobote.
—Voufazeroquevocê quiser,Chloe—disseHannah-,mastenhooutraprioridadealé m
desairvivadaqui.
—Mac?
—Claro.
—Aminhatambém.EGeorge.
— Nã o posso imaginar que ele ainda esteja vivo, Chloe. Por que eles haveriam de querer
mantê-locomvidaaqui?
—Nãopenseassim.
—Ora,vamos!Nã osomosmaiscrianças.Ofatodenã opensarassimnã ovaimudarnada,
casojátenhaacontecido.
—Sóesperoqueelesacreditemqueaindapodemextrairalgumacoisadele.
—Tivepoucocontatocomele,Chloe,masvoulhedizerumacoisa.Elepareceotipodo
sujeitodurão,eninguémvaifazê-lomudardeidéia.Apostoqueeleenganoutodaaquelagente.
—Parealiadiante.
—Vocêtemcertezadequeissovaidarcerto?
—Certeza?Euprecisotercerteza?
—Nãodevemosdarmuitonavista.
— E por isso que você vai parar aqui e nã o na frente da porta, Hannah. Quando eu me
dirigirparaaloja,vocêsairádocarroepermanecerácomoseestivessevigiandogentexereta.
—Gentexereta?
—Issomesmo,gentedaCGouMonitoresdeMoralbisbilhotandoporaí.
—Xereta?
— Pensei que você conhecesse esse termo. Esqueci que você foi criada numa reserva
indígena.
— Bem, en im, eudevo icar prestando atençã o para ver se aparece algué m da CG ou
algumMM.Eoquefaçoseelesaparecerem?
— Eles nã o vã o aparecer. Só querem saber quem estamos avisando para eles poderem
invadirolocal.
—Hápelomenos55%dechancedeissoacontecer.
—Sessenta.
—Sefor40%,elesvãonosprenderoucoisapior.
—Você está portandoumaUzi.Vioquevocê sabefazercomumaespingarda,esó posso
imaginaroquefariacomumaDEW.
—Voulhedizerumacoisa,Chloe.Seapareceralgué m,entrocorrendonocarro,apertoa
buzinaevenhobuscarvocê.
—Bem,esperoquesim.
No exato momento em que sentiu o contato de pele com pele, George Sebastian evocou
todososseusanosdetreinamentomilitar,defuteboledelevantamentodepeso.Quandoergueu
ocorpodochã o,apoiando-senaspalmasdasmã os,osfortesmú sculosetendõ esdesuaspernas
oatiraramdeencontroaElena.Elanuncamaismatarianenhumcristão.
Osquase110quilosdeGeorgeatingiram-natã odepressaecomtalviolê nciaque,quando
ele passou os braços ao redor da cintura da moça, sentiu o topo da cabeça afundando no
estô m ago dela. Elena vomitou em cima de George, bateu o rosto com toda a força nas costas
deleeatingiu-onosjoelhoscomasbotas.
Eledeuumsaltodeummetroeprojetou-seunstrêsmetrosnadireçãodosaguão,levando
consigoocorpodeladobradoemdois.Quandoelecaiu,seupeitocomprimiuaspernasdeElena,
eaparteposteriordacabeçadelaestatelou-senopisodemármore.
George levantou-se, arrancou a arma da mã o dela e guardou o telefone e o rá dio nos
bolsos.Emseguida,agarrou-apelacinturaeatirouocorposemvidadentrodoelevador.Depois
de trancar as portas, ele deixou a chave em cima da cadeira que ela usara para alcançar a
fechadura.
Georgepegouotapetedaportadeentradaecobriuosanguequesobrounolocalemquea
moça morreu. Usou as luvas para limpar o rastro de sangue até o elevador. Quando estava
prestes a dirigir-se à porta dos fundos para ver se conseguia encontrar um carro e fazer uma
ligaçã o direta, ele ouviu barulho de chaves na porta da frente. Ao olhar, viu um senhor idoso
sorrindoeacenandoparaele.
Ohomemusavaumuniformedesegurançadopré dio,comacalçadestoandodacamisa,e
carregavaduasvassouras.Assimqueentrou,eledissealgumacoisaemgrego.
— Inglê s? — perguntou George, ciente de que estava com o rosto afogueado, parecendo
umseqüestradoemfugaqueacabaradematarseucaptor.
—Euquerersaberseelevadoraindasemfuncionar.
—Sim.
—Funcionar?
—Não.
—Nãofuncionar.
—Certo.
—O.k.Edaí,inglês,comovaivocê?
—Bem.Atélogo,senhor.
—Atélogo.
Chloe preparou a Uzi, segurando-a com a mã o direita, e abriu a porta com a esquerda.
Assim que parou o carro trê s quarteirõ es adiante, nas sombras de uma viela, Hannah desceu e
começouaandardeumladoparaooutro.
Apesar de sentir-se tentada a olhar para trá s ou de lado para ver se havia soldados das
Forças Paci icadoras por perto, Chloe manteve os olhos ixos na vitrina da loja, onde pouco
antes,naquelemesmodia,elaassistiraaobombardeioemPetrapelaTV.Olocalestavaescuro,
masnosfundoshaviapelomenosdoisapartamentoscomasluzesacesas.
Elaesmurrouaportadevidro,comamãofechada.Talvezosmoradoresdaquelelocalnão
dessematençã oaessasbatidas,imaginandoquefosseumbê badoperambulandopelaruaà quela
horadanoite.Portanto,elainsistiuatéouviralguémgritarládedentro:
—Fechado!
Elaesmurrouaportacommaisforçaainda.Finalmente,umaluzfoiacesaeumhomem,
deroupãoechinelos,comrostomarcadoporrugasprofundas,aventurou-seaaparecer.
—Oqueé?Quemévocê?
—CG!—eladisseemtomdesegredo,masparaquequalquerumpudesseouvir.—Abra.
Sóporalgunsinstantes.Porfavor.
Eleaproximou-se,resmungando,masnãoabriuaporta.
—Oquevocêquer?
—Tenhoumrecadourgenteparaosenhor,masnã opossodizeremvozalta.Elesacudiu
acabeçaeabriuumpoucoaporta.
—Oquepodesertãourgente?
—Queroavisaraosenhorquevaihaverumablitznavizinhançaestanoite.
—Oquê?Umablitz?
—Umabatidapolicial.
—Oqueelesestãoprocurando?—eledisse,apontandoparaonúmero216emsuatesta.
—Eporissoqueestouaqui—eladisse.—Osenhoré umcidadã oleal,equisemosavisá locomantecedênciaparaquenãofiqueassustado.
—Masvocêmeassustou!
—Eulhepeçodesculpas.Boa-noite.
Elebateuaportaetrancou-a,semdizernada,eChloedirigiu-seapressadaparaocarro.
—Deucerto—eladisse.
—Vocêderreteualguém?
Hannahassustou-se.
—Oquê?
—Comaquelaarma.
—Éassimquevocêdisfarçaseumedo?Fazendogracinhas?
—Talvez.Estoucomocorpotodoadormecido.
—Nã oviningué m,Chloe.Nã oseioqueissosigni ica.Ouelessã oe icientesdemais,ounó s
somosparanóicas.
—Talvezasduascoisas.Nó spoderı́amos icarrodandoporaquieverseaparecealgué m
daCGparabisbilhotaroesconderijo.
—Esperoquevocênãoestejafalandosério.
— Claro que nã o, mas você tem de admitir que seria engraçado. Principalmente quando
perguntaremàquelevelhoseelefoiavisadodainvasão.
—Paraondevamosagora,MulherMaravilha?
—Parecequeestamosnacordabamba,Hannah.Nã opodemosligarparaMac,anã oser
que a gente saiba que ele se encontre em algum lugar onde possa falar. Chang vai nos dizer o
quepodefazerequando.Achoquedevemosprocurarumlugarpara icar,semqueningué mnos
veja,eaguardarporMaceGeorge.
—Vocêestásonhando.
Rayford estava prestes a acomodar-se na barraca que lhe fora destinada em Petra. Ele
imaginava que nã o conseguiria dormir depois da experiê ncia pela qual passara. Enquanto
contemplava as estrelas, seu celular tocou. Ele virou de lado e pegou-o na mochila. O nú m ero
exibidonovisornãolhedizianada.
AotentarimitarumsotaquedoOrienteMédio,elepercebeuquenãotevesucesso.
—AquiéAtefNaguib—eledisse.
—Ray?
—Porfavor,quemé?
—Memorizeidoisnú m eros—disseavoz.—OseueodeChang.Masestetelefoneaqui
nãoéseguro,eeunãoqueroprejudicarChang.
—Sebastian?—disseRayford,sentando-se.—Elesoencontraram?
—Eles quem? Acabei de fugir do cativeiro. Existe alguma casa segura por aqui? Algum
localondeeupossaficaratéencontrarummeiodesairdestelugar?
Rayford icouempé ,semperceber.Explicou,resumidamente,aGeorgequaleraamissã o
dogrupodoComandoTribulaçãonaGréciaecomoelepoderiachegaràcooperativadelá.
—VouligarparaChangepedirqueinformenossopessoalqueestánaGrécia.
CAPÍTULO10
Deitado na grama ú m ida de orvalho, ao lado do jipe, Mac sentia uma profunda gratidã o,
apesar de saber que nem ele nem seus amigos estavam fora de perigo até aquele momento.
Com o corpo superaquecido e arqueado, aspirava o ar noturno, agradecendo a Deus, in initas
vezes,aforçaqueElelhederaparacorreratéali.
Ele mal conseguiu falar quando Chang lhe contou tudo o que acontecera, mas entendeu
rapidamente que, das quatro pessoas que estavam na Gré cia, Chloe e Hannah eram as que se
encontravam,agora,emmaiorperigo.Elastinhamsidoseguidas,estavamdentrodeumveículo
daCG, em Ptolemaı̈s, e nã o se atreveriam a chegar perto da cooperativa, nem mesmo a pé .
Apesardeestaremfortementearmadas,eraminexperientes.GeorgeSebastianhaviapassadode
uma situaçã o extremamente precá ria para uma temporariamente mais segura, se é que
conseguiraencontraracooperativa.
Sentindo o corpo todo dolorido, Mac sentou-se e encostou no veı́c ulo. Apesar de ter
almejadoessaoperaçã o,houvemomentosemquesesentiuapavorado.Suaintençã osemprefoi
a de libertar George, mas as circunstâ ncias nã o foram nada favorá veis. No inı́c io da operaçã o,
eleficouanimadoaovercomopareciafácilludibriaropessoaldaGrécia.Logodepois,asituação
complicou-se, chegando a icar desesperadora. Agora, apesar da pouca ajuda de Mac, todo
aqueletrabalho,queenvolveutantasaventuras,voltouaterumú nicoobjetivo.Mactinhauma
tarefa:reunir-secomosoutrostrêsefugirdali.
Changestavainconsolá velpornã oterdescobertoaconexã oentreAkbareStefanichantes
doinı́c iodaoperaçã o.Mactentouconfortá -lo,dizendoqueahierarquiadaComunidadeGlobal
eratã orecenteetã odiversi icadaqueningué mpoderiasuporqueaquelesdoisseconhecessem.
Chang havia se redimido por ter violado a segurança e todos aqueles có digos ostensivamente
indecifráveis.
Agora,eleeMacsabiammaissobreStefanichesobreosplanosdosseqü estradoresdoque
osprópriosidealizadores.Porexemplo,MacsabiaqueSebastianhaviafugido.DogrupodaCG—
Stefanich, Aristó t eles, Platã o, Só c rates e Elena -, a ú nica pessoa que tinha conhecimento disso
estavamorta.
Pormeiodeumexamerá pido,poré mminucioso,dasconversasentreAkbareStefanich,
ChangdescobriuqueeleshaviammontadoumesquemaparaatrairMac,ChloeeHannahparao
interior da mata. Lá , eles os obrigariam a seguir até um lugar onde os trê s icariam em
desvantagem numé rica perante o contingente da CG, sendo que a maioria desse pessoal nã o
fazia idé ia do que estava se passando. Mesmo que a situaçã o se revertesse e que Mac e seu
grupo tivessem sido capazes de dominar os homens das Forças Paci icadoras, poucos teriam
informaçõessuficientespararevelarosegredodoplanoarticuladoparaenganá-los.
A CG esperava que o pessoal de Mac a levasse até o esconderijo dos judaı́stas e que eles
inalmente fossem presos ali. Johnson, Sebastian, Jinnah e Irene seriam conduzidos à sede local
da CG e enviados para Nova Babilô nia como trofé us de Stefanich, o mais recente morador do
palácioemembrodaequipedeAkbar.
— Stefanich está louco para pegar você — Chang dissera a Mac. — Eles icaram
preocupados quando nã o conseguiram falar com Elena, mas, assim que restabeleceram o
contato,foraminformadosdequetudoestáemordemnasede.
—Oquevocêachadisso,Chang?
— Nã o estou preocupado. Sebastian con irmou a morte de Elena e está com o telefone
dela. Quem pode saber como ele ludibriou aquela gente? Eu con io plenamente nele. Minha
preocupaçãoécomChloeecomHannah.OsMonitoresdeMoralperderamasduasdevistalogo
depois que elas os levaram a um local que eles imaginaram ser a cooperativa. Eles só vã o
perceber seu erro no momento da invasã o. Mas Stefanich mandou tanta gente para o meio do
mato capturar você s trê s que a sede de Ptolemaı̈s icou desfalcada. A situaçã o mudou
completamente.Opessoalestáretornandoparalá.
Enquanto fazia uma ligaçã o direta no jipe, Mac deu-se conta de que poderia ligar para
Chloe e Hannah, mas nã o teria condiçõ es de entrar em contato com o pessoal da cooperativa
nemcomSebastian,anã oserpessoalmente.Mactinhaumaidé iadecomoelestodospoderiam
fugir,mas,porenquanto,asduasmulheresprecisavamserprotegidas.
—Quesituaçã obizarra!—disseChloe.—Devı́amosestarmuitopertodeGeorgequando
elesaiupelaportadosfundosdasededaCG.Poderíamostê-lolevadoàcooperativa.
—Ecomplicaravidadetodomundo.
—Bem,é mesmo,masé oqueeupenso.Temosdeabandonarestecarroechegaraum
lugarondeMacpossanosencontrar.
— Quanto mais cedo, melhor — disse Hannah. — Nã o avistei ningué m nestes ú ltimos
minutos.Vamosfazerissoagora.
—Vamos,pelomenos,rodaratéaperiferiadacidade.
—Émuitoarriscado.
—Menosarriscadodoqueestacionarnacidadeeandarapépelasruas.
Macdetestavaaidé iadeterdecaminharalgunsquarteirõ es,masnã opodiaarriscar-sea
estacionarpertodacooperativa.Eledeixouojipeacercadeumquilô m etroemeioaonortee
seguiuapé .Oproblemaeraentrarsemseralvejado,porqueopessoaldacooperativaestavade
olhonaCG.
Elepensouementrarnatabernacomosefosseumclientehabitual,masSó c ratesjá devia
ter feito uma descriçã o dele à che ia, e a cidade inteira o estava vigiando. Ele ainda usava a
farda de camu lagem e portava uma Uzi — um habitante comum de Ptolemaı̈s nã o sairia
vestidodaquelamaneiraànoiteparatomaralgunstragos.
Mac lembrou-se do que Chloe e Hannah lhe contaram a respeito do lugar e caminhou o
tempo todo nas sombras. Depois de contornar o local, esgueirou-se pela porta dos fundos e
entrou no minú sculo banheiro. A taberna estava lotada e barulhenta, o que lhe dava uma
vantagem. Ele trancou a porta, tentou controlar a respiraçã o e limpou a graxa do rosto. Pelo
espelho sujo, notou que seu rosto nã o icou totalmente limpo e assustou-se ao ver marcas
profundasdecansaçoaoredordosolhos.Fazalgumtempoqueescureceu,elepensou,e estamos
apenascomeçando:
Macestudouosistemadeencanamento.Oscanosatravessavamopisoe,provavelmente,
desciam até um metro ou pouco mais do local em que George e os outros crentes estavam
reunidosnofundodalavanderia.Elesentou-senochã oeusouopentedaUziparabaternocano
emformadecódigoMorse."ProcurandoamigodeS.D."
Elerepetiuamensagemmaisduasvezes.
Finalmente, algué m respondeu. Mac nã o tinha nenhum papel para escrever, e teve de
lembrar-sedecadaletraqueouviu:"Necessitocomprovação."
Macrespondeu:"MaravilhosaGraça."
Aresposta:"Mais."
Elebateu:"Vamosparacasa."
Aresposta:"Anjofavorito?"
Essaerafácil.Esóumcompatriotasaberia."Miguel."
"Sejabem-vindo.Rápido."
Mac apagou a luz antes de abrir a porta. Ao ver que nã o atraı́ra olhares curiosos, ele
desceucorrendoaescada.Assimqueouviuum"Psiu"vindodocô m ododosfundos,atravessoua
cortinaeviuoscanosdeduasUzissobafracailuminação.
Umjovem,decabelosescuros,pareciaprontoparaatirar.
—Deixe-meversuasmãos—eledisse.
Maclevantouasmã osdeixandoaUzi—carregadacommuniçã odaquelepró priocô m odo
—penduradanobraço.
—Éele?—perguntouojovem.
—Deveser—respondeuGeorge.
—Senãosou—disseMac-,comoeupoderiasaberqueseunomeéCostas?
Foi,então,queeleentendeuqualeraomotivodadúvidadeGeorgeetirouosóculos.
—Eu ingiestartrabalhandoparaCarpathia,homem!—eledisse.—Minhassardasforam
disfarçadasemudeiacordoscabelos.
—Éele!—disseGeorge,aproximando-sedeMacparaabraçá-lo.
Vá riasoutraspessoas—amaioriahomens,detodasasidadesearmados-,escondidassob
pilhasderoupas,apareceram.Haviaapenastrê smulheresali—umademeia-idade,umaidosa
eumacompoucomenosde20anos.Aprimeiraapresentou-secomoSra.R,amã edeCostas.A
maisvelhadisse:
—MeumaridoéprimodeK.
Umhomemfranzinoemagro,quepareciaestarbeirandoos80anos,disse:
—Omaridodelasoueu.Georgeapontouparaamoça.
—OtelefonedeElenatocou,nã ofazmuitotempo,eestajovemaquiatendeu.Apesarde
a ligaçã o estar pé ssima e da está tica, ela con irmou ao bando de Elena que eu continuava
trancadoasetechaves.
— Prazer em conhecê -lo — disse a moça imitando alguns ruı́dos de está tica, o que
provocourisosnopessoal.
—Excelentetrabalho—disseMac.—Mas,irmã oseirmã s,nã otemostempoaperder.
Existeumaverdadeiracaçadahumanaatrá sdemim,enã ovaidemorarmuitotempoparaeles
descobriremqueElenaestá mortaequeoprisioneirofugiu.Tenhoduascompanheirasqueestã o
apé.PrimodeK,oseusobrenometambéméKronos?
—Sim.
—Foiosenhorqueemprestouseucaminhãoparaacausa?
Elefezummovimentoafirmativocomacabeça,demodosolene.
—Essecaminhãoestádisponível?
—Adoisquarteirõesdaqui.
—Querocomprá -lo.—Mactirouumvolumosomaçodenicksdobolsodacalça,abaixo
dojoelho.
—Não,não,nãoénecessário.
— E, sim, porque no im da noite esse caminhã o icará conhecido da CG e o senhor nã o
poderávê-lonovamente.
—Eunãoprecisodedinheiro.
—Eacooperativa?Eopessoaldoesconderijo?
—Sim—disseaSra.Pappasdandoumpassoàfrenteparapegarodinheiro.
—Comoéocaminhão?Temtraçãonasquatrorodas?
— Sim. Mas nã o é novo nem rá pido. Câ mbio manual de cinco marchas, muito pesado e
bempossante.
— Assim que eu conseguir falar com as outras duas companheiras, George e eu vamos
pegar o caminhã o para buscá -las. ACG acha que vamos seguir direto para o aeroporto de
Ptolemaı̈s, mas seria um ato suicida. Temos um aviã o numa pista abandonada, a uns 130
quilô m etros a oeste daqui. Se pudermos seguir naquela direçã o sem chamar a atençã o de
ningué m, será lá que o senhor vai encontrar seu caminhã o amanhã . Se deixarmos rastro, inja
quenuncaviuaquelecaminhão.
—Euqueroirjunto—disseCostas.
— Nã o, sinto muito. Nã o há meios de você nos ajudar a fugir, a menos que queira nos
acompanharatéaAmérica.
—Maseu...
— Vamos aceitar toda a muniçã o que você puder nos fornecer. E eu diria que, se
partirmosagora,nossaschancessãodeapenas50%.Concorda,George?
— Nã o. Acho otimista demais. Mas concordo que nã o temos outra opçã o e precisamos
partirjá.
ASra.P.levantouamão.
—Nã ohá nadaerradoemorarenquantoalgué mtrabalha.Algué mcolocamuniçã oextra
numasacolaenquantoeuoro,
—NossoDeus,nósteagradecemosavidadenossosirmãoseirmãsemCristoetepedimos
quecoloquesumcírculoresistentecomoaçoaoredordelesparaprotegê-los.Queelesfaçamuma
boaviagem,nóstesuplicamos,emnomedeJesus.Amém.
Georgepegouasacolaeaschavesdocaminhã o,enquantoMac,encolhidoemumcanto,
tentavafalarcomHannaheChloepelowalkie-talkie.
Chloe estava conversando com Chang pelo telefone quando ouviu Hannah receber uma
mensagem de Mac, via rá dio, e informar a localizaçã o delas: fora da estrada, atrá s de um
arbusto,aonortedacidade.
—Istoé urgente—Changestavadizendo.—Nã otenhotempodeligarparacadaumde
você s, portanto prestem atençã o. Todos os Monitores de Moral e todos os homens das Forças
Paci icadoras daCG estã o em alerta má ximo. Eles saı́ram da mata e estã o começando a
vasculhar a cidade inteira. Estou falando de centenas de pessoas e de todos os veı́c ulos em
operação.
—ElesencontraramocorpodeElena—prosseguiuChang-,sabemquealgué matendeu
o telefone dela e estã o rastreando aquele aparelho pelo GPS. Se George estiver de posse do
telefone,elessaberãoondeeleestá.Seabandoná-lo,vaiterdeserbemlongedacooperativa.
—Oaeroportoestá fervilhandodegentedaCG.ORoosterTailestá napistaeprontopara
decolar, mas nã o tem combustı́vel. Se você s puderem voltar para pegar o aviã o de Mac, o
melhor que posso fazer é tentar falar com o piloto amigo de Abdullah e pedir que ele vá para
Larnaca,emChipre,amanhã.
—Obrigada,Chang—disseChloe.—Hannahestá mecontandoqueMaceGeorgeestã o
a caminho. Esqueça Larnaca. Nunca vamos conseguir chegar lá . Parece que o cerco está se
fechando à nossa volta. Diga a todos que os amamos e que estamos fazendo o melhor que
podemosparavoltarparacasa.
Macestavadirigindoocaminhã orumoaonorte,comGeorgesentadoaseulado,quando
recebeualigaçãodeChloecontandosobreotelefonedeElena.
—Issoéfácil—eledisseparandonomeiodaestrada.George,coloqueotelefonedeElena
debaixodarodadafrente.
Ocaminhãoesmagouotelefone.
Enquanto eles seguiam na direçã o norte, Mac avistou um mar de luzes azuis piscando a
distância.
—Estamosfritos—eledisse.
—Elesnãoestãoprocurandoestecaminhão—disseGeorge.—Nãofaçanadasuspeito.
—Como,porexemplo,pegarduasmulheresarmadas?
—Sigaemfrente.AsduasvãoveraCGesaberãoqueteremosdevoltarmaistarde.
—Quandovamostertempodefazerisso?
—Oquevocêvaifazer,Mac?
— Eles estã o bloqueando a estrada. Ponha as armas e a muniçã o debaixo dos bancos e
coloque o boné . A sua descriçã o é mais conhecida aqui do que a minha. Você nã o vai poder
escondermuitacoisa,maspodeesconderocabeloloiro.
Deitadasdebraços,ChloeeHannahobservavamalonga iladecarrosdaCG,comasluzes
piscando.
—Láestáocaminhão—disseHannah.
—Há muitasviaturasdaCGrodandoporali.Achoqueelesnã oprecisavamdetantaspara
bloquearaestrada.
Duas viaturas da CG pararam de cada lado da estrada, e um homem das Forças
Paci icadoraslevantouamã oparaimpedirapassagemdocaminhã oacenandoparaorestante
dasviaturas.
—Hannah,sevocêestivermeouvindo,dêumclique.
Chloeolhouparaela.
—ÉoGeorge?
Hannahassentiucomacabeçaedeuumcliquenowalkie-talkie.
— Muito bem, peguei o rá dio de Mac aqui no banco. Vou icar olhando para a frente
ingindoquenã oestoufalando,portantovaiserdifı́c ilvocê meouvir.Prestemuitaatençã o.Se
tiverumaDEWaíepuderligá-la,dêumclique.
Hannahligouaarmaedeuoutroclique.
— Esses caras vã o nos revistar. Vou deixar o rá dio aberto. Se você s acharem que eles
estãoseaproximandodemais,destruamosdois.Entendido?
Clique.
—Elesestã ovindo.Preparem-se.Sealgumdelesseaproximarmuitodemim, icandodo
meulado,cuidadocomapontaria!
Clique.
Changestavaexaustoegostariadeencerraroexpedientecomotodos izeramnopalá cio,
com exceçã o de Suhail Akbar e o incansá vel Carpathia, que nã o necessitava mais de sono. No
entanto,Changnã oconseguiriadormirenquantoMac,Chloe,HannaheGeorgenã oestivessem
seguros, dentro do aviã o, voando de volta para casa. Ele continuou diante do computador,
prontoparacolaborar.Nessemeiotempo,ligouaescutaclandestinanoescritóriodeCarpathia.
— Eu preciso acompanhar de perto o que está acontecendo na Gré cia — Akbar estava
dizendo.—Voltoafalarcomosenhorassimquepuder.
— Esse assunto nã o pode ser resolvido daqui, Akbar? As noites sã o muito longas, e há
muitasinformaçõesquenecessitamossaberdasregiõesondeodiajáamanheceu.
— Perdoe-me, potentado, mas tivemos uma falha grave na segurança. Estou me
comunicandocomPtolemaïspormeiodetelefonemasee-mailsseguros.Asituaçãoestáprestes
aserresolvida,evoltareiafalarcomosenhoromaisrápidopossível.
—Etemoscondiçõ esdesabercomoandaotrabalhodosMonitoresdeMoralnaRegiã o-6
enaRegião0?
—Claro.
— Deveria haver transmissõ es em á udio e em vı́deo para que eu pudesse ver os ú ltimos
renitentes recebendo a marca de lealdade, adorando minha imagem trê s vezes por dia ou
sofrendoasconseqüências.Elesestãosofrendo,não?
— Claro que estã o, Excelê ncia. O senhor e eu temos recebido notı́c ias atualizadas a
respeitodisso.
—Eosjudeus?Existemmuitosjudeusnessasduasregiõ esquedevemestarapreciandoo
brilhodosolnestemomento,maselesnãosabemqueépelaúltimavez.Estoucerto?
—Osenhorestá semprecerto,Excelê ncia.Noentanto,poucaspessoasestã oapreciandoa
beleza da natureza, em razã o da condiçã o em que os mares se encontram. Nã o sei como o
planetapoderásobreviveraumatragédiadetaisproporções.
—Issoé obradosjudaı́stas,Suhail!Essagenteachaqueosjudeussã oopovoescolhidode
Deus e diz isso a eles. Bem, agora eles sã o meus escolhidos. E o que reservei para esse povo
deixará um gosto amargo na boca deles. Eu quero saber de tudo, Suhail. Quero ver se meus
editosestãosendopostosemprática.
— Vou providenciar, meu senhor. Quando voltarmos a conversar, algué m já terá
conectado o monitor com as emissoras de noticiá rios daquelas regiõ es, de modo que o senhor
possarecebertodasasinformaçõesquedesejar.
—Eessecasodefalhanasegurança,Suhail?Partiudaqui,dedentrodopalácio?
—Tudonoslevaacrerquesim,senhor.Setodaessatrama,todasessasinformaçõesfalsas
foramplantadasemnossoprincipalbancodedados,deumlugardistante,estamosmuitomais
vulnerá veis do que imaginamos. Por pior que seja, temos quase certeza de que está partindo
daquidedentro,enãovamosdemorarmuitoparadescobrir.
—Você selembra,Suhail,deminhasordensquantoaotipodetratamentoquedeveriaser
dado aos judeus e, principalmente, aos judaı́stas? Pois esse seria um castigo muito suave para
alguémqueousouenganar-medessamaneiraaqui,debaixodemeuteto.
—Euentendo,senhor.
—Oresponsáveldevesermortodiantedosolhosdomundo.
—Claro.
—Suhail,nãofizemosumaoperaçãopente-finoemtodoopessoaldaqui?
—Fizemos.
—Eexistealgumfuncioná riodaComunidadeGlobal,aquiouemqualqueroutrolugardo
mundo,queaindanãorecebeuamarca?
—Menosdeummilé simode1%,Excelê ncia.Provavelmentemenosdedez.Todoseles
sã ocidadã osleaiseapresentarammotivosvá lidos.Peloquesabemos,tê mplanosdecorrigira
situaçãoimediatamente.
—Elesnãodeveriamserosprincipaissuspeitos?
— Estã o sob vigilâ ncia cerrada, senhor. E nã o existe nenhum funcioná rio dentro do
palácio,nememNovaBabilônia,semamarca.
DepoisqueSuhailconseguiu, inalmente,desculpar-seeretornarà situaçã oemPtolemaı̈s,
Chang continuou a ouvir o que se passava no escritó rio de Carpathia. Nicolae estava
resmungando alguma coisa, mas Chang nã o conseguia entender. De vez em quando, ele ouvia
uma batida forte, como se Carpathia estivesse esmurrando uma mesa ou uma escrivaninha.
Finalmente, ele ouviu uma seqü ência de ruı́dos, como se Carpathia tivesse chutado o cesto de
lixo,derrubandotodooconteúdonochão.
Apósalgunsinstantes,Changouviuumabatidalevenaporta.
—Entre!—gritouCarpathia.
— Ah, com licença, potentado, senhor. Vou ligar seu monitor à s emissoras dos Estados
UnidosNorte-americanosedosEstadosUnidosSul-americanos.
Carpathianãolhedeuatenção.Quandoohomemestavadesaída,eledisse:
—Limpeestabagunçaaqui.
MacdecidiutomarainiciativacomosoldadodasForçasPaci icadorasdaCGencarregado
do bloqueio da estrada, em vez de esperar que ele lhe pedisse os documentos. George estava
sentado,comocorporelaxado,nobancodopassageiro.
— Puxa, o que está havendo aqui esta noite, chefe? Nã o vejo um contingente tã o grande
nas ruas desde que comecei a trabalhar na manutençã o das estradas. Todos esses homens
trabalham duro em nossas zonas de construçã o, e você está cumprindo seu dever. O que está
procurando?Possoajudaremalgumacoisa?
—Assuntoconfidencial.Caçandoalguémdealtonível.Odiafoilongoparavocês,não?
—Oqueestá havendo?Nó snã ocostumamospassarporaquitã otardeassim.Tivemosde
pegarocaminhomaislongodoaeroportoatéaqui.Aqueletrechotambémestásendovigiado?O
cerco está grande lá . Passamos pelo bloqueio de lá . Eles nos deram permissã o para passar,
apesar de estarmos sem documentos, porque tivemos de trabalhar até tarde transportando
asfalto,essascoisas.Estamosvoltandoparaodepósito.
— Isso nã o é desculpa para andar sem documentos. Todos devem portar documentos.
Sempre.
— Nó s sabemos, e estamos muito aborrecidos por isso. Mas vamos pegá -los no depó sito
antesdevoltarparacasa.
—Permitiramquevocêspassassempelaestradadoaeroporto?
— Permitiram, sim. Os caras foram legais. Bem, nó s nã o pertencemos à s Forças
Pacificadoras,mastodostrabalhamosparaobem-estardopovo,certo?
—Issoécontraoregulamento.
—Everdade.Eupenseiamesmacoisae iqueimuitofeliz,porqueelesnã oagiramcomo
essessujeitosdurõesquetratammaloperárioscomonós.
—Bem,eutambé mnã oqueroatrapalharavidadevocê s,portantovoufacilitarascoisas.
Vocêsmemostramamarcadelealdadeepodemirembora.
Chloe achou que Mac tinha quase resolvido a situaçã o com aquela conversa. Mas, se ele
nãorepresentavanenhumaameaça,nãohaveriamotivosparamostraramarca.
—Nãohesite,Hannah—disseChloe.
— Eu gostaria que o outro sujeito saı́sse do carro. Elas ouviram o diá logo pelowalkietalkie:
—Vocêquerverasnossasmarcas?
—Sim.Namãoounatesta?
—Aminhaestá aquinatesta,debaixodoquepe.Adomeucompanheiroestá ...hã ...onde
mesmo,cara?
—Namão—disseGeorge.
—Querover—disseosoldado.
—Easua,ondeestá?—perguntouMac.—Vocêtambémtemaimagemdopotentado?
—Nã o.Só onú m ero.Comomilitar,nã osouobrigado.ChloeolhouparaHannahe,depois,
paraocaminhão.
Macestavadesatandoocintolentamenteetirandooquepe.Eleinclinou-separaafrente.
—Nãoestouvendonada.
—Oquê?Olhedireito!
Pelowalkie-talkie,elasouviramGeorgeresmungar:
—Esteseriaomomentoperfeito.
O soldado deu meia-volta, bateu com as costas na cabina do caminhã o e caiu no chã o,
gritando.Quandoelecomeçoualevantar-se,Macdisse:
—Digaaí,companheiro.Oqueaconteceu?
—Nãosei...achoqueforamformigas-lava-pésoucoisaparecida.
Agoraosoldadoestavaempé coçandoascostascomforça.Elefezumgestoparaoo icial
naoutraviaturadaCG,quedesceurapidamente.
—Qualéoproblema?
— Uma dor nas costas, como se eu tivesse encostado num cano quente. Acho que está
levantandobolhas.
Eleinclinou-senadireçã odeMac,mas,nomesmoinstante,comamã onapartedetrá s
daperna,caiunochãoContorcendo-sededor.Ooficialsacouaarma.
—Oquevocêsestãofazendo?—eleperguntou.
—Nãoestamosfazendonada!—respondeuMac.—Qualéoproblemadele?
Aluzinternadocaminhã ofoiacesa.Georgedesceuecaminhouaté afrentedocaminhã o,
com as mã os erguidas. Owalkie-talkie devia estar dentro de seu bolso, porque Chloe ainda
conseguiaouvirsuavozpelorádiodeHannah.
—Possoajudaremalgumacoisa?—eleperguntou.
— Fique onde está — disse o o icial pouco antes de desabar na estrada, deixando cair a
armaetentandocobrirorosto.
MacsaltoudocaminhãoparaajudarGeorge.
—Arranqueosrádiosdasviaturasdeles.Voupegaressesdois,comfardaetudo.
Agora,oshomensestavamdelirando,comosolhosvítreosegemendo.
—Senhoras—Georgedissepelorádio-,venhamnosajudarcomestasviaturas.
MacdesarmouoshomensdaCGeatirousuasarmasnacarroceriadocaminhã o.Pegouos
rádiosecolocou-osnobancodafrente.
—Assimquevocêdesligarosfiosnasviaturas—eledisseaGeorge-,abraosporta-malas.
ChloeeHannahvieramcorrendo.
— Chloe — disse Mac -, você s duas vã o nos escoltar. Assim que eu colocar este cara no
porta-malasdaviatura,vouencostarocaminhãoatrásdevocê.Hannah,vocêseposicionaatrás
demimassimquecolocarmosooutrosujeitonoporta-malasdaoutraviatura.
OshomensdaCGestavamgemendo.
—Quietinhos,rapazes—disseMac.—Vocêsvãosofrerumpouco,masnãovãomorrer,a
nãoserquenosobriguemaatiraremvocês.Vamosdarumpequenopasseio.
Depois de esconder os homens da CG nos porta-malas das viaturas, Mac manobrou
cuidadosamente o caminhã o e pediu a George que entregasse à s mulheres a muniçã o extra
colocada na sacola pelo pessoal da cooperativa. Com o caminhã o e as duas viaturas da CG
voltadosparaooeste,elesouviramumdosrádiosdaCGsendoacionado.
—Bloqueiodaestradanorte;confirme,porfavor.
— Bloqueio da estrada norte — disse Mac sem apertar completamente o botã o de
transmissão.
—Repita!
—Aquibloqueiodaestradanorte—eledissetomandoocuidadodeserouvido,masnã o
perfeitamente.
—Posição?
—Ematividade.
—Continue.
Georgeentrounocaminhão.EnquantoChloerodavaseguidaporMac,Georgedisse:
—Vejasóoquetemaquidentro.Nãoseidizerporque,masgosteimuitodaquelasenhora.
— A Sra. P. havia mandado algué m colocar pã o, queijo e frutas na sacola, no meio das
munições.—ChloeeHannahjápegaramquasetudo.Eeuvoucomeroresto,sevocênãopegar
logosuaparte.
Macserviu-sedeumapartedolanche,enquantoocomboioinusitadorodavanaescuridã o,
nadireçã ooeste,começandoaviagemdevoltaparacasa.Quantotempoconseguiriamenganar
a CG era um misté rio. Por ora, Mac saboreava a comida e a situaçã o de vantagem do
momento.
CAPÍTULO11
As notı́c ias transmitidas por Mac permitiram que Chang respirasse mais aliviado pela
primeiravezdepoisdehoras.Elevoltoualigaraescutaclandestinanoescritó riodeCarpathia,
ondeAkbarrelatavaosúltimosacontecimentosaochefão.
—Tivemosumcontratempo,masnãoépossívelqueessebandotenhasidocapaz...
—Umcontratempo?
—Resumindoahistória,senhor,oprisioneiromatouumdosnossos...umamulher,paraser
maisexato...efugiu.Achamosqueeleestáfugindocomostrêsque...
—Elematouumdoscaptores?
—Sim,Excelência.Achamosque...
—Esseéotipodehomemdurão.Porqueelenãoestádonossolado?
—Achamos,senhor,queeleseencontroucomostrê squeforamresgatá -loeesperamos
queelescometamatolicedetentarvoltaraoaeroporto.Avigilâncialáestácerrada.
— Sim, bem... — Carpathia parecia distraı́do, como se o resto da histó ria nã o lhe
interessasse.—Suhail,seráqueconseguimosabafarofiascodehoje?
—Aindaécedoparadizer,senhor.
—Ora,vamos.Seiquevocê nã oé daquelesquetentampoupar-medemá snotı́c ias.Eles
escutaram o relató rio do piloto e me ouviram dizer que ele cometeu um erro, que as bombas
atingiramoalvo.Bem,oqueopovoandadizendo?
—Sinceramente,nã osei,Excelê ncia.Passeiodiainteiroentreoseuescritó rioeomeu,
tentandoresolveresseproblemanaGrécia.
—Voulhedizerumacoisa,Suhail:ovideodiscodoaviã omostraclaramenteoalvosendo
atingido e aqueles traidores ardendo em chamas! Seja qual for a má gica que fez aquele povo
sobreviver,nãopodesurtirefeitoforadaquelaárea.
— Com todo o respeito que lhe devo, senhor, nã o faz muito tempo que perdemos tropas
terrestresdoladodefora...
—Euseidisso,Suhail!Vocêachaquenãotomeiconhecimento?
—Peço-lhedesculpas,potentado.
— Precisamos descobrir um lugar seguro pró ximo à quela á rea, onde nossas armas de
guerranã osejamengolidaspelaterra.Desselugar,poderemoscontrolartudooqueentraesai
delá.Elesvãonecessitardemantimentos,evamosimpedirquerecebam.
—Nossasforçasarmadasestãomuitoreduzidas,senhor...
—Você está medizendoquenã otemospilotosnemaviõ esquepossamimpediraentrada
demantimentosemPetra?
— Nã o é bem isso, senhor. Estou certo de que temos. Ah, mudando de assunto, senhor,
nossosespecialistasemtextosantigosdizemqueapró ximapragavaifazercomqueoslagose
riosdomundotenhamomesmodestinodosmares.
—Todasasfontesdeáguadoceserãotransformadasemsangue?
—Sim,senhor.
—Impossível!Todomundovaimorrer!Aténossosinimigos.
— Há os que acreditam que os judaı́stas nã o sofrerã o nada, da mesma forma que foram
protegidoscontranossosexércitosrecentemente.
—Ondeelesvãoconseguirágua?
— No mesmo lugar em que receberam proteçã o. Talvez fosse prudente negociar com o
líderdelesparaqueaspragassejamsuspensas.
—Nunca!
— Nã o quero contrariá -lo, senhor, mas nã o podemos conviver muito tempo com essa
devastação.Eseosrioseoslagostambémsetransformarem...
—Vocênãoestáapardetudo,Suhail.Eutambémtenhopodersobrenatural.
—Eujávi,senhor.
— E vai ver mais. O reverendo Fortunato está preparado para usar os mesmos artifı́c ios
para revidar essa magia dos judaı́stas, e ele tem gente especializada para fazer isso no mundo
inteiro.
—Bem,aquele...
—Agoramemostreoqueeuquerover,Suhail.
—Bloqueiodaestradanorte,aquiéaCentral.
—Bloqueiodaestradanorte—disseMac.—Prossiga,Central.
—Destinodocaminhãosuspeito?
—Repita?
—Umadenossasviaturasinformouque,assimqueelapassou,vocêdeteveumcaminhão.
—Positivo.Caminhãoemordem.
—Seguindodeoesteparaleste?
—Positivo.
—Rastreamosumcelularnoladooestedacidadee,depois,noladoleste,masoaparelho
desapareceudatela.
MacolhouparaGeorge.
—Oqueseráqueelesqueremqueeudiga?
—Nãosabemosnadasobreisso—disseGeorge.
Macvoltouafalar.
—Nãopodemosajudá-lodaqui.
—Caminhãoseguiuparaleste?
—Positivo.
—Vocêinformoutráfegointenso.
—Positivo.
—Congestionado?
—Positivo.
—Oshomensnasviaturasnãovirammaisnadaquandopassaram,anãoserocaminhão.
—Congestionadoagora.
—Qualéasuaposição?
MacolhouparaGeorgenovamente.
—Elesestãoatrásdenós.
Georgepegouasarmasdedebaixodobancoetirouowalkie-talkiedobolso.
—Atenção,JinnaheIrene—eledisse.—Embrevevamostercompanhia.
.MacclicouobotãodorádiodaCGalgumasvezes.
—Repita—eledisse.
—Qualésuaposição?Sualocalização?
OsanguedeChanggelounasveias.Nosú ltimosminutos,elechegouacochilarouvindoo
diá logo entre Carpathia e Akbar, enquanto eles assistiam aos noticiá rios dos Estados unidos
Norte-americanos e dos Estados Unidos Sul-americanos. Em conseqü ência disso, deixou de
acompanharosacontecimentosmaisrecentesdaoperaçãoemPtolemaïs.
A CG de lá havia rastreado o celular de Elena até o lado neste da cidade, e o aparelho
continuou no mesmo lugar por mais de uma hora. O comandante Nelson Stefanich e os
sobreviventes do grupo de iló sofos estavam comandando pessoalmente a invasã o de uma
tabernanaquelaárea.
ChangligouparaMac.
—Falerápido,Chang.Estamosnumbecosemsaída.
—Aquedistânciavocêsestãodooestedacidade?
— Nã o sei ao certo. Estou pisando fundo no acelerador deste ferro-velho, mas ele nã o
passados80.Estãoatrásdenós?
—Vocêsestãomuitolongedacooperativa?Nãodáparaajudaropessoaldelá?
—Depende.Oqueestáhavendo?
—ACGestá invadindoatabernanestemomento.Você sabequeopró ximolugarvaisera
cooperativa.
—Algumachancedenossoscompanheirossaíremdelá?
—Achoquenão.Nãoconseguiavisá-los.
—Pelosmeuscá lculos,estamosamenosde30minutosdenossoaviã o.Podemosvoltar,
sevocêacharqueénecessário.
—Aguardeuminstante.Está chegandoumrelató rio.Esconderijodosjudaı́stasdescoberto
embaixodataberna.
Houve tiroteio. Dezesseis homens da CG mortos e uma dú z ia de feridos. Local destruı́do
porgranadaeincendiado.Váriosprédiosvizinhosdestruídos.Nãoháinimigossobreviventes.
EnquantoMacinteiravaGeorgedasituaçã o,aCGcontinuavatentandofalarcomelepelo
rádiopedindoalgumtipodecódigo.
—Bloqueamosasduasextremidadesdaestradanorteporcausadainvasã o,portantonã o
sedesviemdocaminho—elesdisseram.—Aindanãorecebemosseucódigodeidentificação.
GeorgeestavaarrasadoetentoupegarorádiodaCGdamãodeMac.
—Voufornecerumcódigoaeles.
—Tenhacalma,amigo.
—Aculpafoiminha,Mac!Ondeeuestavacomacabeçaquandofiqueiandandoporaícom
aquelecelular?
—Eugostariadeterconseguidovoltar—disseMac.—Gostariadetertiradoalgunsdeles
delá.Masnossosirmãoseirmãsestãonocéu,eparecequeeleslutaramumbocadoantes.
—Entã o,é isso?—disseGeorge.—Você achaquedevo icartranqü ilodepoisdetersido
culpadodamortedeumgrupodepessoasqueagoraestãonocéu?
—Necessitodocódigodeidentificaçãoimediatamente—disseavozpelorádio.
—EudeviarecitaroSalmo94.1paraeles—disseMac.
— Eu sei muito bem o que gostaria de dizer a eles. Peça à s mulheres que parem e que
perguntemaosdoiscarasdaCGqualéocódigo.
—Éprovávelqueelesrevelemolocalondeestamos.
—Nã o,setiveremumaDEWapontadaparaeles.Deixe-mefazerisso,Mac.Porfavor.Eu
preciso.
—Chloe,parenoacostamento—disseMac.
—Agora?
—Agora.
—Estátudobem?
—Porenquanto.
OtelefonedeMacvibrou.EraChang.
—Stefanich,Platã oeumpelotã odaCGestã oà procuradocaminhã oededuasviaturas.
Estãoseguindonadireçãooeste.
— Precisamos agir rá pido — disse Mac saltando do caminhã o, enquanto Chloe descia da
viaturaeHannahestacionavaatrás.
—Abraoporta-malas,Chloe—disseGeorge.—Hannah,dê-meaDEW.
Chloeabriuoporta-malas,eMacfocalizoualanternanorostoabatidodosoldadodaCG.
George arrancou-o do porta-malas com uma das mã os, e o homem icou deitado no chã o,
gemendo.
—Aiminhasbolhas—eledisse,chorando.—Tomecuidado,porfavor.Oumemate.
—Vocêbemquegostariaqueeuomatasse,não?—disseGeorge,empunhandoaDEW.—
Estávendoistoaqui?
Ohomemabriuumolhoeassentiucomacabeça,comardesolado.
—Éoqueestácozinhandosuacarne,epodecozinharmuitomaisainda.
—Não,porfavor.
Georgeligouaarma,eelazumbiu,prontaparaseracionada.
—Porfavor!
Elemirouotornozelodosoldado,eohomemenrijeceuocorpo,choramingando.
—Querosaberqualéoseucódigo.
—Oquê?
—Vocêouviu.Querosaberqualéoseucódigoou...
—Estánoporta-luvas!Nomeumanual!
Chloe foi até lá e trouxe uma pasta de couro, preta e pequena, com folhas presas por
argolas.
—Estácheiadeanotações—eladisse.
Georgepegouapastaejogou-aemcimadohomem.
— Precisamos ir embora — disse Mac. — De qualquer forma, eles nã o vã o acreditar no
códigoquefornecermos.Estãovindoatrásdenós.
— Esses caras sã o pesos mortos — disse George. — Se forem deixados aqui na estrada,
poderãoservirpararetardarosoutros.
Ohomemfolheavaaspáginasrapidamentesegurandoapastadiantedofaroldocaminhão.
—Éum-um-seis-quatro-oito!—eledisse.
Georgeoarrastoupelaestrada,enquantoMactiravaooutrodaoutraviatura.Oshomens
contorciam-sededor.
—Émelhorvocêsnosmatarem—implorouosegundo.
—Vocênãosabeoqueestápedindo—disseGeorge.
—Mas,dojeitoqueascoisasestãoruins,comcertezaamorteseriamelhorparavocê.
—Vamosdeixarumadasviaturasaqui—disseMac.
—Bloqueiemaestradacomelaecomocaminhã o.Nã ovaidemorarmuitoparaqueaCG
encontreosdoisveículos,masqualquerempecilhonocaminhoserávantajosoparanós.
Chloe manobrou a viatura de frente para o caminhã o; ambos icaram atravessados na
estrada.Emseguida,MaceGeorgetiraramatampadodistribuidordosdoisveı́c ulosepegaram
aschaves.
—Últimachamadaparafornecerocódigo—soouavozpelorádio.
Macgritouocódigonomicrofone.Emseguida,disse:
—Chloe,você dirige.Episefundonoacelerador.Aespingarda icacomigo.Achoqueeles
nãovãonospegarjá,masdevemosestararmadosepreparados.
GeorgecolocouaDEWnoporta-malasesentou-senobancotraseiro,aoladodeHannah.
Aviaturaerapequenademaisparaosquatroepareciagemercomopeso,masChloeacelerou
comforçae,embreve,elesestavamrodandoamaisde110quilômetrosporhora.
Georgeperguntou:
—E,então,Mac,oquedizoSalmo94.1?Macvirou-separatrás,omaisquepôde.
—"ÓSenhor,Deusdasvinganças,óDeusdasvinganças,resplandece."
OrádiodaCGvoltouaseracionado.
—Necessitamosdesuaposiçã o.Pelotã oaonortedaestradaacabaderelatarquenã ohá
tráfegolá,nemsinaldevocês.
— Dê -me isso aı́ — disse George, pegando o microfone da mã o de Mac e apertando o
botão.
—Muitobem,vocêsnosencontrarãonoSalmo94.1.
Changpreparouumchá fazendoumamisturaesquisita,queincluı́acafé instantâ neocom
altoteordecafeı́naparamantê -loacordado.Eledesabarianacamaassimquetudoterminasse,
mas, no momento, nã o podia cochilar. Ficou claro que a CG da Gré cia estava de olho em seus
companheiros,enã odemorariamuitoparaqueelesdescobrissemqueMacdeviaterumaviã o
numa pista abandonada, a menos de 20 minutos da estrada. Mac, por certo, nã o ia fugir pela
Albâ nia.Quantotempoaindafaltavaparaqueeleesuaequipesubissemabordodoaviã oepor
quantotempovoariamantesdeprecisarabasteceraaeronave?
Nesse ı́nterim, pelo que Chang pô de ouvir, Carpathia estava entretido — para nã o dizer
absorto—comastransmissõ esdasregiõ esondeaindaeradiaclaro.OpotentadodaRegiã o0,
osEstadosUnidosSul-americanos,anunciouumeventodoqualsuaesposa,a"primeira-dama",
estavaparticipandopessoalmente.
—Eondevocêestáenquantoelafazseutrabalho?—perguntouCarpathia.
—Ah,meuamadoressurreto,osenhorpode icartranqü ilo,porqueestoumededicandoa
umtrabalhomuitomaisnobre.Estamosseguindoà riscasuasdeterminaçõ esparadescobriros
in ié isdaqui,eestoutrabalhandoemconjuntocomosMonitoresdeMoral,comossoldadosdas
ForçasPaci icadorasecomgruposdehomensdisfarçadosdecivis.Esperamosvermaisalgumas
dezenasdepessoasenfrentandoaguilhotinaourecebendosuamarcadentrode24horas.
—Dezenas?Meucaroamigo,soubemos,pormeiodeseuscompatriotasdomundointeiro,
que em algumas regiõ es existem centenas, talvez milhares, que sofrerã o por terem sido
desleais. Há gente trabalhando contra nó s na calada da noite, até mesmo aqui, nesta parte do
mundo.
Osul-americanodeuumlongosuspiro.
— Senhor, infelizmente nossas forças foram dramaticamente reduzidas em razã o do que
ocorreucomosmares.
—Mastenhocertezadequeexistemdissidentesaí,não?
— E verdade. Mas, por favor, eu gostaria de mostrar-lhe uma transmissã o ao vivo do
Uruguai, onde minha esposa está participando de uma cerimô nia pú blica que culminará com a
imposiçãoàlealdade.
Chang mudou rapidamente para Mac e sua equipe. Nã o havia nenhuma novidade. Ele
voltou a ouvir a conversa entre Carpathia e o potentado dos Estados Unidos Sul-americanos. A
primeira-damaestavarecebendoaplausosentusiá sticos.Elahaviapassadoobraçoaoredorde
umhomemtímido,demeia-idade.
— Este cavalheiro está inalmente recebendo a marca de lealdade a nosso potentado
ressurreto!
Maisaplausos.
—Diga-meumacoisa,Andrés,porquevocêdemoroutantotempo?
—Euestavacommedo—eledisse,sorrindo.
—Medodoquê?
—Daagulha.
Muitaspessoasriramebaterampalmas.
—Evocêvaiaceitarreceberamarcahoje?
—Sim,desdequesejaum0bempequeno—eledisse.
—Vocênãoestámaiscommedodaagulha?
—Aindaestou.Mastenhomaismedodaguilhotina.
OpovogritouecontinuouaaplaudirquandoAndré ssesentou,comocorpoereto,pronto
parareceberamarca.Suatestafoiesterilizadacomumcotonete.Alguémsegurou-lheamão,a
máquinafoiacionada,eelepareceusinceramentealiviadoefeliz.
Aprimeira-damadisse:
—Vocêpoderetornaraoqueestavafazendoquandofoidescobertosemamarca.
A câ mera acompanhou André s enquanto ele corria até a imagem de Carpathia e
ajoelhava-sediantedela.Aprimeira-damadirigiu-seaopovo:
— André s demorou para ser descoberto sem a marca porque seguiu à risca o decreto de
adoraraimagem,eninguémdesconfioudele.
Aparentemente,Carpathianãoseimpressionoucomacena.
—Elemeadora,mastemmedodeumapequeninapicada.Droga!
— Mas o senhor icará satisfeito com a novidade, Excelê ncia — disse o potentado sulamericano. — Seguindo as pistas de vá rios cidadã os leais, descobrimos um antro de oposiçã o
Seisforammortosporteremresistidoà prisã o,masconseguimostrazer13paraestecentrode
adoraçãoedeaplicaçãodamarca.
—Quantosvã oreceberamarcaagora?—perguntouCarpathia.—Quantosmudaramde
idéiadiantedoinstrumentodeimposiçãoàlealdade?
—Bem...ah...atéagoranenhum,senhor.Changouviuummurronamesa.
—Genteteimosa!—disseCarpathia.—Teimosademais.Porquesãotãoobstinados?Tão
idiotas?Tãosemvisão?
—Elesvãopagarporissohoje,Excelência.
—Nestemomento,enquantoconversamos?
AvozdeCarpathiaestavaeufórica.
—Sim,agora.
—Quemúsicaéessa?
—Oscondenadosestãocantarolandoalgumacoisa,meusenhor.Issoébemcomum.
—Mande-oscalaraboca!
— Um momento. Com licença, senhor. — Ele chamou algué m. — Jorge! Avise os
funcioná rios do centro que o supremo potentado nã o permite nenhum tipo de mú sica. Sim, já !
Excelência,amúsicajávaiparar.
—Elespreferirammesmoaguilhotina?
—Preferiram,senhor.Estãoemfila.
—Oqueestamosesperando,então?
—Queobedeçamàsuaordemeparemdecantar,senhor.
—Váemfrente!Alâminaossilenciará.
Chang teve um sobressalto quando viu um guarda portando enorme ri le com baioneta
empurrar a primeira pessoa da ila, uma mulher aparentando ter pouco menos de 30 anos. Ela
estava cantando, com o rosto erguido em direçã o ao cé u. O guarda gritou com ela, mas a
mulhernãolhedeuatenção.
Ele a empurrou, e ela tropeçou, continuando a cantar, com os olhos itos no cé u. Ele a
cutucou nas costelas com o ri le, e ela caiu de joelhos no chã o. Em seguida, levantou-se e
continuouacantar.
Oguardaposicionou-seaoladodamulher, irmoupé snochã oedesferiu-lheumgolpecom
a baioneta, que atravessou o braço dela, chegando a perfurar-lhe o lado do corpo. Ela deu um
grito quando a baioneta foi retirada e cobriu o local do ferimento com a outra mã o. A mulher
soluçava,agora,aoentoarseucântico,easpessoasaseuladoajoelhavam-senochão.
—Oqueelaestácantando?—Carpathiaquissaber.
Osomfoimelhorado,eChangprendeuarespiraçã oenquantoouviaocâ nticocomovente
entoadocomdi iculdade.Elanã oconseguiamaismanteracabeçaerguida,mascontinuouem
pé ,cambaleando,visivelmentezonza,esforçando-separacantar:"...quã oespinhosafoiacoroa
queJesussuportouporamordenós".
Outros guardas juntaram-se ao primeiro, todos golpeando a cabeça dos que estavam
ajoelhadoscomascoronhasdosrifles.
—Digaaosguardasqueparemdefazerdissoumespetá culo!—disseCarpathia,irado.—
Elesestã oentrandonojogodessagente.Opovoprecisaverqueacabeçadessesinfelizesainda
nospertence.Paramim,tantofazqueelescantem,falemoufaçamqualqueroutracoisa!
A guilhotina estava pronta, e a mulher continuava a esforçar-se para cantar, agora de
maneira desa inada. Quando foi agarrada por um guarda de cada lado e colocada no lugar, ela
gritou:"...tuaéminhaalma,minhavida,meutudo!"
Alâminafoisolta,eopovovibrou.
—Aah!—suspirouCarpathia.—Possoverdooutrolado?
—Dooutrolado,senhor?—repetiuopotentadosul-americano.
— Da lâ mina! Da lâ mina! Coloque a câ mera do outro lado! O corpo nã o cai! Ele
simplesmentedesaba.Queroveracabeçadespencar!
Aspró ximaspessoasda ilaaproximaram-sedamá quinamortalcomaspalmasdasmã os
erguidas. Os guardas continuavam a agarrá -las pelos cotovelos e a cutucá -las com as armas,
mas ningué m abaixou as mã os. Quando os guardas as golpearam com as baionetas, elas
recuaraminstintivamenteparanãoseremferidas.
Em seguida, os guardas posicionaram-se atrá s delas, cutucando-as na parte inferior das
costas com a ponta das baionetas. Agora, a câ mera estava atrá s de um homem que segurava
umaalavancacomumadasmã ose,comaoutra,agarravaavı́t imapeloscabelosparacolocar
acabeçanolocalapropriado.
Ohomemposicionouabarraderetençãonopescoçodavítima,soltouaalavancaefezum
gesto a irmativo com a cabeça em direçã o a uma mulher corpulenta. Ela puxou a corda para
liberaralâmina.
A lâ mina começou a descer rangendo pelas guias laterais e despencou de vez. A cabeça
desapareceudavistadetodos,deixandoàmostraapenasosangueesguichandodopescoço.
—Sensacional!—murmurouCarpathia.
—Ocaminhoparacasaestálivre,não?—Hannahperguntou.
Macvirou-seeolhouparaela.
— Meu aviã o tem combustı́vel su iciente para chegarmos a Roma. Lá , existe uma
pequena pista de pouso ao sul, controlada pelo pessoal da cooperativa que estoca combustı́vel.
Eusóvoumesentirseguroquandodecolarmosdelá.
— Mas eu estou falando dessa gente aqui — ela disse. Eles nã o vã o chegar ao aeroporto
antesdenós,vão?
—Decarro,não.
Oquevocêestáquerendodizer?—perguntouGeorge.
—Nã ovaidemorarmuitoaté descobriremparaondeestamosindo.Comcertezasabem
quenãopretendemosfugirdelesindodecarroatéafronteira.
—Seuaviãoestáescondido?
—Daestrada,sim,tenhocerteza.Deoutrosaviões?Não.
—Quantotempoelesvãolevarparachegarládeavião?
—SaindodeKozani,numcaça?Elesvãochegarmuitoantesdenós.
—Elestêmcondiçõesdedestruirseuavião?
—Sósechegaremantesdenós.
—Quantaspessoaselespodemlevar?
—Poucagente,seusaremumaaeronavepequena,rápida.
Georgepareciairritado.
— Já corremos muitos riscos para deixar a coisa dar errado agora, Mac. Vamos pô r tudo
empratoslimpos.Vocêachaquevamoschegarlá,subirabordoedecolar?
—Éoúnicoplanoqueeutenho—disseMac.
— Temos de levar em conta que eles poderã o chegar antes de nó s — disse George -, e
vamosterdedecidiroquefazernessasituação.
—Vocêquerpensarnopior?
—Claro!Precisamos.Você achaque,paramelivrardaquelesidiotas,eu iqueiesperando
queelesfossemmesoltar?Falemaissobreapistadedecolagem.
— Ela corre de leste para oeste. Meu aviã o está na extremidade leste, de frente para o
oeste.
— Se eles conseguirem descer com um aviã o lá antes de decolarmos, vã o interceptar
nossocaminho.
—Nó sé quevamosinterceptarocaminhodeles—disseMac.—Eulargovocê saolado
doaviã o.Você ligaosmotores,enquantoeurodocomaviaturapelapistaeparobememfrente
aonossoaviã o.Elesvã oterdesermuitohá beiseterjogodecinturaparanã ocolidircomigono
momentodopouso.Nó sfazemosumadecolagememâ ngulo,paranã obaternaviaturaeneles,
edesaparecemosdevista.
Georgesacudiuacabeça,emdúvida.
—Equandovaisubirabordo?Nãosei,não,estádeixandomuitacoisaporcontadoacaso.
—DeixandoporcontadeDeus,George.Nãoseimaisoquefazer.
OtelefonedeMacvibrou.
—Diga,Chang.
—Elesestã odentrodeumjato,adezminutosdaaterrissagem.Stefanich,ostrê s iló sofos
e um piloto. Pelo jeito, a aeronave nã o está equipada para atacar, mas eles estã o fortemente
armados.
—Estamosamenosdedezminutosdelá —disseMac.—Vamoschegarantesdeles,só
isso.
Mac perguntou a Chloe se ela podia acelerar um pouco mais, mas a viatura já estava
gemendoporterderodar,emaltavelocidade,numaestradatãoacidentada.
—Quandochegarmoslá,saiadaestradaeentrenapistapelaextremidadeleste.
MacestavainstruindoSebastianacercadaaeronave,quandoouviuozumbidodemotores
dejatoadistância.EleeGeorgeabriramosvidrosdaviaturaparaouvirmelhor.
—Essaéanossachance,Chloe!—elegritou.—Cuidado!
Ela fez uma manobra rá pida para sair da estrada, desceu um barranco e subiu outro. A
viaturasacolejava,eMacbateucomacabeçanoteto.
—Acendaofarolalto!Nãoseioquevamosencontrarpelafrente!—gritouele.
— Você acha que vou ser capaz de passar pelo meio daquelas á rvores? — Chloe
perguntou.
—Dêumjeito.Vamosterdechegarlá.
A viatura bateu numa pedra e foi atirada para cima. Assim que pousou no chã o, o pneu
esquerdotraseiroestourou.
—Queótimo!—elaexclamou.
—Pelomenos,arodacontinuanolugar—disseGeorge.—Agüentefirme!
Mesmo com os faró is altos acesos, Chloe enxergava apenas um terreno acidentado e
rochosoe,logoadiante,umaespé ciedebosque.Elanã oimaginavacomopoderiaatravessaras
á rvores, mas agora nã o dava mais para recuar. O lado traseiro esquerdo estava arrastando no
chã oporcausadopneufurado.E,paraagravaroproblema,GeorgeSebastian,ograndalhã odo
grupo,estavasentadodaquelelado.
Com o jato se aproximando, Chloe queria apagar todas as luzes da viatura e passar por
entre as á rvores, mas agora tudo se resumia ao fator tempo... e determinaçã o. Aquela gente
havia matado seus companheiros e, naquele instante, tentava exterminar o pequeno grupo de
membrosdoComandoTribulaçãosemqualquerpiedade.
Chloesemprequismaisaçã o,maisenvolvimentonaluta.E,apesardeagoradarqualquer
coisa para voltar ao convı́vio de Buck e Kenny, nã o tinha alternativa, no momento, a nã o ser
enfrentaroperigo.Cautela,diplomacia,esperteza—tudoissovoarapelajanela.Elaprecisava
chegaràqueleaviãoparaquetodosdecolassem,ounenhumdelesvoltariaaveraluzdosol.
Elaavançoupelomeiodasá rvores,tirandoopé doaceleradorapenasdevezemquando.
A viatura tinha traçã o nas rodas dianteiras, uma pequena vantagem no meio de tantos
problemas.EnquantoChloeabriaocaminho,aviaturacolidiudeumladoedooutrocomuma
árvore,mascontinuourodando.
Agora,elajá podiaavistaroaviã odeMac,mashaviaumacercadetrê s ileirasdearame
impedindo a passagem. Se Chloe tirasse o pé do acelerador, mesmo que de leve, a viatura
poderiaenroscar-senacerca.ElaolhouparaMac,queseseguravacomopodiacomapalmada
mã onoteto.Elefezummovimentocomacabeçaemdireçã oà cerca,indicandoquenã ohavia
mesmooutraalternativa.
Chloepisoufundonoacelerador.Afileiramaisbaixadearameenroscou-senopára-choque
dianteiro, e as outras duas caı́ram por cima do capô , levando junto uma estaca de madeira
incada no chã o, mas a viatura conseguiu chegar à beira da pista, parando a uns 12 metros do
avião.
O jato da CG aproximava-se pela outra extremidade da pista, inclinado lateralmente e
comosfaróisacesos,iluminandotodoocaminhoatéaviatura.
CAPÍTULO12
Pela primeira vez, desde que passara a ser o espiã o do Comando Tribulaçã o dentro do
palá cio, Chang descon iou que havia sido descoberto. De repente, na tela de seu computador
apareceuumcı́rculocomumabordavermelha,sinaldequealgué mdeforaestavatestandoseu
firewall(sistemademonitoraçãodetráfegonasintranets).
Imediatamente, ele substituiu a proteçã o de tela por outra que exibia a data, a hora e a
temperatura, apagou todas as luzes de seu apartamento, trocou de roupa e deitou-se na cama
—preparadopara ingirqueestavadormindo,casoFigueroaouumdeseusfuncioná riosbatesse
em sua porta. Nã o havia meios de saber o que aquele aviso signi icava, mas David Hassid lhe
contara que havia instalado um dispositivo de segurança apenas para avisar o operador que
haviagentebisbilhotando.
Talvez algué m estivesse veri icando todos os computadores ligados. E se aquela busca
acessasseseusdadossecretoseacabassemdescobrindoquemeraoespião?
A ú ltima hipó t ese parecia impossı́vel, de acordo com o que David lhe dissera. Ele havia
montadoumsistematã ointricadoque,aparentemente,nã ohaveriatemposu icienteaté odia
doGloriosoAparecimentoparaquealguémpudessedecodificá-lo.AmentedeChangcomeçoua
divagar. Talvez Akbar tivesse instruı́do Figueroa a testar todos os computadores em
funcionamento, eliminar omainframe que rodava todos os programas do palá cio, isolar os
laptopsecomputadorespessoaisefazerumavarreduraparasabersehaviaalgumatrama.
OcomputadorpessoaldeChangnã omostrarianenhumregistrodoqueeleestevefazendo
desde que retornara do trabalho. Por esse motivo, ele achava que algué m bateria à sua porta
parainterrogá-lo.
Deitadonoescuro,comocoraçã oaospulos,Changsentia-sefrustradoporterdeixadode
acompanhar os ú ltimos acontecimentos na Gré cia.Que ironia!, ele pensava. Com toda a
tecnologia que Deus lhe concedera para lutar pela causa de Cristo ao redor do mundo, de
repente ele se deu conta de que nã o poderia fazer nada para ajudar, a nã o ser recorrer ao
tradicionalrecursodaoraçã o.Changgostariadeveri icarmaisumavezos"grampos"instalados
nosescritó riosdeCarpathiaedeAkbar,paraverseagravaçã ofeitanocomputadormostraria
alguma descon iança da parte dos dois. Nã o demoraria muito para que algué m do alto escalã o
perdesseapaciênciacomtodaaquelaespionagem.
Chang desceu da cama e ajoelhou-se no chã o frio para orar por Mac, Chloe, Hannah e
George.
—Senhor,nãovejocomoelespoderãofugir,anãoserpormeiodetuainterferênciadireta.
Não sei se chegou a hora de eles irem ao teu encontro. Nunca achei que os nossos pensamentos
sãoosteuspensamentos.Tudoaconteceemteutempodeterminadoeparatuaglória,maseuoro
por eles e pelas pessoas que os amam. Seja o que for que tu izeres, sei que isso provará a tua
grandeza, e eu te peço que me mostres, em breve, quais são os teus planos. Suplico-te também
queestejascomMingenquantoelaprocuranossospais,equeelespossamcomunicar-secomigode
algumamaneira.
Chang sentiu o impulso de contar a Rayford o que estava se passando. Ele olhou para seu
reló gio. Já passava da meia-noite, mas será que o povo em Petra conseguiria dormir depois de
tudo o que acontecera naquele dia? Nada indicava que seu telefone deixara de ser seguro,
portantoelediscouparaRayford.
—Desçam!Desçam!—gritouMacassimqueasportasdaviaturaforamabertas.
—Eudirijo,Chloe.Precisodarumjeitodeinterceptaraquelejato.
— Eu posso decolar com seu aviã o — disse Sebastian a Mac -, mas nã o vou partir sem
você.
— Preste atençã o, George. Faça o que precisa ser feito. Enquanto eles estiverem
preocupados comigo, você terá tempo su iciente para decolar. Se tiver de ser assim, nó s nos
veremosnaPortadoOriente.
—Nãodigaisso!
—Nã o iqueemotivoagora.Você sdevemirparacasa!Macaguardouuminstanteaté que
George se afastasse da viatura. Em seguida, pisou fundo no acelerador e seguiu pela pista
alinhadocomojatoqueestavaprestesatocarosolo.
Rayford nã o estava dormindo, mas, inalmente, conseguira acalmar-se e controlar a
respiraçã o,enquantocontemplavaasestrelasatravé sdeumapequenaaberturanabarraca.Seu
telefonetocouindicandonovisorqueachamadaeradeChang.
—Queroouvirboasnotícias—disseRayford.
— Eu bem que gostaria de lhe dar boas notı́c ias — disse Chang -, mas acho que Deus
desejaqueeulheconteoqueestáacontecendoparaqueosenhorpossaorar.
Rayfordnãoestavatãoanimadoquantoparecia,mas,depoisdeouvirahistória,disse:
—Deusprotegeuummilhã odepessoasdentrodeumafornalhadefogoardente.Elepode
tirarosquatrodaGrécia.
Rayford calçou as sandá lias e dirigiu-se apressado ao local onde Tsion e Chaim deveriam
estardormindo.Seestivessemadormecidos,elenã oosdespertaria.Rayfordnã osesurpreendeu
aoencontrá -losacordadoseaglomeradosaoredordeumcomputador,nacompanhiadealguns
anciã os.Diantedoteclado,estavasentadaumajovemchamadaNaomi,queointerpelarapouco
antes.
—Tsion,querotrocaralgumaspalavrascomvocê—disseRayford.
ODr.Ben-Judávirou-se,surpreso.
— Pensei que você estivesse dormindo, conforme todos nó s deverı́amos estar. Amanhã
seráumgrandedia.
Rayfordinteirou-odasituação.
— Vamos orar, é claro, imediatamente. Mas ligue de volta para Chang e diga-lhe que o
avisonocomputadorfoiumalarmefalso.Naomiestá entusiasmadacomascentenasdepá ginas
de instruçõ es que David instalou neste sistema aqui, inclusive uma que nos permite checar os
computadores do palá cio. E o que ela tem feito ultimamente, e foi isso que enviou uma
mensagemdeadvertênciaaocomputadordeChang.
Tsion dirigiu-se apressado aos anciã os e pediu-lhes que orassem pela segurança do
contingente do Comando Tribulaçã o na Gré cia. Rayford sentiu-se animado ao ver uma dú z ia e
meiadepessoasajoelhadasorandoporseuscompanheiros.
ElemalpodiaesperarparacontaranovidadeaChang.
Assimquecolocouopé noprimeirodegraudaescadadoaviã o,GeorgeSebastianouviuo
som estridente dos motores sendo ligados. Ele nã o imaginava que uma daquelas mulheres
soubessepilotarumaaeronave.Tantomelhor.Eleseagachouparaempurraraportaatrá sdesi,
mas,quandosevirouparadirigir-seà cabina,viuChloeeHannahatandooscintosdesegurança
nosdoisassentostraseiros.Elaspareciamtãosurpresasquantoele.
George pegou sua Uzi e a colocou encostada no anteparo que separava a cabina de
passageiros da cabina de comando. Em seguida, aproximou-se lentamente do lugar de onde
poderiaverquemestavaali.Odesconhecido,trajandomantobegedotipousadopelosbeduı́nos,
estava sentado no banco do co-piloto. Sem virar-se, o homem levantou a mã o e fez um gesto
paraqueGeorgesesentassenobancodopiloto.
Georgevoltou-separaasmulhereseencarou-as.
—Quemé?
—Pensamosquefossevocê—disseChloe.
— Vamos ter de tirá -lo daqui, caso contrá rio nã o haverá lugar para Mac. Preciso de
cobertura.
Chloe desatou o cinto e ajoelhou-se atrá s de George, preparada para atirar com a Uzi.
Hannahpegousuaarmaesubiunobraçodapoltronaparapoderenxergaracabinadecomando
porcimadacabeçadeGeorge.
Sebastianvirou-serapidamenteeolhouparaobancodoco-piloto.
Vazio.
—Muitobem—eledisserespirandofundoesaltandoporcimadoencostodobancopara
assumirocontroledaaeronave.Colocouosfonesdeouvido.
—PorqueDeusnãopermitequeessessujeitospilotemoavião?
—Eutambémpossofazerisso—disseumavoz.
Georgedeuumsaltoeviuore lexodohomemnopá ra-brisa.Mas,quandoolhouparasua
direita,obancodoco-pilotocontinuavavazio.
—Parecomisso!—disseGeorge,comopulsoacelerado.
—Sintomuito.
—SeunomeéMiguel,eusuponho.
—Roger [N.T.: Linguagem usada em comunicaçõ es via rá dio, que signi ica "Positivo" ou
"Entendido".]
George avistou Mac dirigindo a viatura da CG, que, apesar do pé ssimo estado em que se
encontrava,corriapelapista,indodeencontroaojato.ElepensouemperguntarseMiguelnã o
seriamaisútilseestivessesentadoaoladodeMac.
—Acendaasluzesdepouso—eleouviuavozdizer.
—Paradecolagem?
—Roger.
Sebastiannãoquiscontestar.Acendeuasluzesdepouso,queincidiramnovidrotraseiroda
viaturaconduzidaporMac.
—Devocomeçarataxiarfazendoadecolagememâ nguloparadesviardeMac,conforme
eledisse?
—Aguarde.
—Não?
—Espereumpouco.
Poruminstante,MacpensouqueojatodaCGnã oconseguiravê -lo.Elefreoucomforçae
icoualinhadoentreasduasaeronaves.Quandoojato inalmenteparou,cercade15metrosde
Mac, ele percebeu que poderia contorná -lo facilmente. Por que Sebastian continuava parado?
Com uma decolagem no â ngulo certo, ele poderia passar por Mac e pela CG e ganhar altitude
emquestãodesegundos.
Nã oquerendodarà CGachancedeinterceptarGeorge,Macaceleroueparouacercade
trêsmetrosdojato.Eleimaginouquealguémpoderiaabriraportaealvejá-locomumtiro,mas
pelomenosaCGnã oteriacondiçã odeprejudicarseuaviã o,casoeleinterceptasseojato.Sem
dartempoparaaCGpensar,Macpisoufundonoaceleradorearremessouaviaturaemdireçã o
ao bico do jato, colidindo de frente com o trem de pouso. O jato levantou um pouco do chã o,
masMacnãoficousabendosehaviaprovocadoalgumdanomaisgrave.
Mac abriu o vidro, colocou o tronco para fora o mais que pô de e atirou com a Uzi nos
pneusdojato.Elesurpreendeu-sediantedaresistê nciadospneuseouviubalasricocheteandoe
batendonafuselagemdojato,atingindoaviatura.
Avançandoumpoucomaisparatentarumnovoâ ngulo,ele inalmenteconseguiuacertar
um dos pneus. Mas onde estava George? Por que ele nã o fazia nada? Haveria alguma coisa
erradacomseuavião?Elecontinuavaparadonaextremidadedapista,comasluzesacesas.
Mac esperava que a CG revidasse a qualquer momento disparando suas armas. Será que
elesnã operceberamqueeleestavasozinhonaviatura?Doqueestavamcommedo?Eleeraum
serindefeso,alojadoembaixodojatodeles.
Ao tentar abrir a porta, Mac percebeu que ela estava totalmente emperrada e tentou
descer pelo outro lado. Aquela porta també m nã o abriu, mas ele sentiu que cedeu um pouco.
Deitou-se no banco da frente e forçou a porta do lado do motorista com as mã os e a do
passageirocomospés.Finalmente,conseguiudesemperrá-laesaiudocarro.
AgachadodebaixodojatoecomaUziapontadaparaaporta,eletinhacondiçõ esdeatirar
em quem descesse do jato, se é que algué m se atreveria a fazer isso. Talvez estivessem
aguardando que ele corresse até seu aviã o ou que Sebastian viesse apanhá -lo. Mas George
perderiatemposetivessedeabriraporta,etodoselesestariamemperigo.
Enquanto aguardava em uma estranha posiçã o de ataque, Mac nã o sabia o que fazer.
Deveriatentaratirarnafuselagemdojatoparaatraı́- losparafora?Seelafosseblindada,oque
seria muito prová vel, ele gastaria muniçã o à toa. Por que a CG nã o atirava nele? E por que
Georgecontinuavaparado?
Os motores do jato da CG foram desligados. E agora? Nada. Nenhum movimento, nem
dentronemfora.
Frustrado,Macpegouseuwalkie-talkie.
—ChloeouHannah—elesussurrou,desesperado-,alguémresponda,porfavor.
—AquiéChloe,Mac.
—Oqueestáacontecendo?
—Nãomepergunte.Georgeestánocomando.
—Fazendooquê?
—Querfalarcomele?Podefalar.
—Estouocupado,Mac.Qualéoproblema?
—Vocêestávendoqualéoproblema!Oquevocêestáfazendo?
—Aguardandoautorizaçãoparadecolar.
— Você tem autorizaçã o! Vá ! Vá imediatamente! Desvie para sua direita! Esses sujeitos
estãovacilando,eeuestoureiumdospneusdojato.Elesdesligaramosmotores.
—Estouaguardandoporvocê,companheiro.
— Nã o seja tolo. Se eu sair daqui, vou icar na linha de tiro deles. Vá para a outra
extremidade da pista. Eu me encontro com você lá . Mas, se eles vierem atrá s de mim, nã o
pare.
—Ah,sim,eusei,evocêmeveránocéu.
—Exatamente.Agora,deixedeseridiotaevá!
—Eunãoestousendoidiota,Mac.Estouobedecendoordens.
—Vocêdevemeobedecer,portantofaçaoqueestoudizendo.
—Sintomuito.Vocêfoidestituídodocargo.
—Oquê?
—Vocêprecisacolocaraarmanochãoecaminharatéaqui.
—VocêacertouopessoaldaCGdentrodojato!?
—Negativo.Venhadesarmadoeestaráseguro.
—Vocêperdeuojuízo?
—Deusestádizendoquevocêdevevir.
Macsacudiuacabeça.
—Ah,espereumpouco.
—Venhaimediatamente.
Macsuspiroufundo,comumolhonaportado jato e o outro em seu aviã o. Ele apertou o
botãodetransmissão:
—Senhor,seforestu,ordenaqueeumedirijaparalá.
—Vem.
AvoznãoeraadeGeorge.
—Desarmado?
—Vem.
Mac aguardou um instante. Em seguida, desvencilhou-se da Uzi e deitou-a no chã o. Ele
desligouowalkie-talkieecolocou-onobolso.Passoupelaviaturae icoudiretamenteembaixo
dacabinadecomando.Elesesentiaexposto,vulnerá vel,indefeso.Seaportadojatoseabrisse,
eleseriaumhomemmorto.
Semouvirnenhumsomvindodecimaesemvernadaaseulado,Macsaiudedebaixodo
jatoeseguiuemfrente.Elecontinuavaaimaginarqueestavaouvindomovimentosatrá sdesi
— motores voltando a funcionar, passos da cabina até a porta, a porta se abrindo, armas
disparando.
Enquantocaminhava,eleorava:—Senhor,salva-me!
Imediatamente, Mac teve a sensaçã o de que as mã os de Deus estavam sobre ele, e mal
ouviaseuspassosnochão.
—Óhomemdepequenafé,porqueduvidas?
Avozeraclaracomocristal,masowalkie-talkieestavadesligadoeGeorgejáhavialigado
os motores. Mac começou a andar apressado; em seguida, correu. Cada passo parecia soar
comoumestampido.QuandoMacchegou,Hannahjá estavadescendoaescada.Elesaltoupara
dentrodoavião.
— Você vai pilotar ou icar sentado aı́? — perguntou George desatando o cinto e pronto
paraacomodar-senobancodoco-piloto.
— Aqui está ó t imo — respondeu Mac. — No momento, eu nã o conseguiria pilotar nem
mesmoumabicicleta.
Chang icoualiviadoaoouviraboanotı́c iadadaporRayfordeestavaansiosoporconhecer
Naomi,mesmoquefosseon-line.Elesesentiutentadoarepreendê -lapelosustoquelevou,mas
decidiu aguardar até o dia seguinte para fazer contato. Nesse ı́nterim, ligou para Mac e seu
grupo,temendoopior,adespeitodetodasassuasorações.
Macatendeuotelefoneparecendoexausto.
—EuprecisoconhecerMiguelumdia—disseChangdepoisdeouvirahistó ria.—Aparte
melhorficasemprecomvocês.
— Francamente, eu nã o sei se há parte melhor nesta histó ria — disse Mac. — E ique
sabendoqueSebastianjánãoochamamaisdeMiguel.EleochamadeRoger.
—Roger?
—QuandoSebastianperguntouseeleeraMiguel,osujeitodisse:"Roger".
—QuerdizerqueStefanicheseubandoestãoparadosnapistacomumaviãodanificado?
— E isso mesmo, e eles vã o precisar de algué m para consertá -lo antes de decolar
novamente.
—Porqueelesnãoatiraramemvocê?
— Pensei que você soubesse. O que aconteceu naquela cabina de comando enquanto eu
saíadelá,desarmado,caminhandonafrentedeles?
—Euvoulhecontar.
Emquestãodemeiahora,todoopessoaldoComandoTribulaçãojáhaviarecebidoasboas
notı́c ias da Gré cia. Chang providenciou para que George pousasse ao sul de Roma, para
reabastecer.Elesestavamacaminhodacasasecreta,sempassarporKankakee,emIllinois,e
semlevantarmaissuspeitas.Aquelaseriaapartemaisfácildetodaaaventura.
Quando, inalmente, Chang conseguiu entrar no sistema da CG em Ptolemaı̈s e descobrir
astransmissõ esentreojatoeatorredeKozani,tudooqueelefezfoisacudiracabeça.Opiloto
disse ter visto o aviã o parado na extremidade da pista e uma viatura se aproximando. Mas, ao
mesmotempo,ChangimaginouqueMiguelhaviainstruı́doGeorgeaacenderasluzesdepouso,
porqueopilotorelatoutervistoumaluztã oforteque"perdemosocontatovisualcomoaviã oe
comaviatura".
Alguns minutos depois, o piloto relatou que icou estarrecido — diante do que, ele nã o
sabia.Ojatofoiabalroado,eafrentedelelevantou-se,masningué mabordopô detirarasmã os
dos olhos, por causa de uma luz intensa diante deles. Eles ouviram tiros e temeram morrer,
perceberamoestourodeumdospneusedesligaramosmotores.Emresumo, icaramsentados,
apavorados, incapazes de olhar para fora por alguns minutos, até que ouviram o aviã o passar
zunindoporeleselevantarvôo.
Changestavanaescutanomomentoemqueeles, inalmente,resolveramsair,comrá dios
a tiracolo ligados e armas preparadas. Mas tudo o que viram foi o jato dani icado, o trem de
pousosemcondiçõ esdefuncionamento,opneufurado,aviaturaempé ssimoestadoeumaUzi
na pista. Só agora eles estavam sendo resgatados por uma frota de carros da CG. No caminho,
eles pegaram os dois o iciais feridos, deitados na beira da estrada. Eles estavam recebendo
tratamento em razã o de graves queimaduras que, conforme disseram foram provocadas por
umaarmaquedisparavaraios.
FaltavamaindaduashorasparaqueMingpartissedeSanDiegorumoaoExtremoOriente.
Depoisdeterterminadoseutrabalhonoturno,Changdesabounacama,exausto.Queestranho,
elepensou,sentir-seapeçaprincipaleindispensá veldetodaumaoperaçã oe,depois,descobrir
que o sucesso da missã o tinha icado completamente fora de suas mã os. Na verdade, ele nem
estavaemseupostoquandoDeusoperouosmilagres.
Havia vı́t imas cujas mortes ele lamentava, má rtires para serem exaltados e muito
trabalhopelafrente.Changnã osabiaaté quandoconseguiriaevitarserdescoberto.Dispô s-sea
trabalhar no escritó rio durante o dia e fazer seu verdadeiro trabalho à noite, pelo tempo que
Deusquisesseprotegê-lo.
Rayfordacordouquandoosprimeirosraiosdesoldespontaramnohorizonte,surpresopor
terconseguidodormirtanto.Petrajá estavaematividade,comasfamı́liasrecolhendoomaná
da manhã e enchendo todas as vasilhas que encontravam com a á gua pura da fonte
proporcionadaporDeus.
Milhares de pessoas trabalhavam nas cavernas, outras milhares levantavam mais
barracas.Noslá biosdecadaumahaviahistó riassobreomilagredodiaanterioreapromessade
vidaqueoDr.TsionBen-Judáhaviaexplicado,poucodepois,naquelemesmodia.
Dabocadosanciãosedosorganizadorespartiuanotíciadequeosmateriaisdeconstrução
estavam a caminho, e pediram ao povo para orar pela segurança dos pilotos e motoristas que
começariam a entregá -los. Havia necessidade de voluntá rios com especialidade em vá rias
pro issõ es.Rayfordsabiaqueoatualclimadeeuforianã odurariaparasempre.Inevitavelmente,
alembrançadomilagrepassariaparasegundoplano,emboraelenãopudesseimaginartalcoisa.
E o povo, independentemente da fé que compartilhava, em breve nã o suportaria viver
acotoveladodaquelamaneira.Mas,porora,elesedeliciavacomisso.
RayfordteriaderetornaraoComandoTribulaçã oaqualquermomento,masopessoalde
Carpathia atiraria em qualquer um que entrasse ou saı́sse de Petra. Se os materiais de
construçãoconseguissementrar,talvezissofosseumsinaldequevaleriaapenatentarsairdali.
Naomi e seu grupo de gurus da informá tica haviam comunicado que Buck Williams lhes
transmitira a revista virtualA Verdade, contando histó rias ocorridas no mundo inteiro. O
episó dio completo do que acontecera na Gré cia no dia anterior foi descrito em detalhes, da
mesmaformaqueomilagreocorridoemPetra.
Um grupo de Israel, especializado em informá tica, disse que conhecia a tecnologia para
projetarA Verdade em um telã o, desde que fosse possı́vel montar um. Em meio aos vá rios
suprimentosquejá estavamnoacampamento,havialonabrancasu icienteparaseresticadaa
umaalturacorrespondenteavá riosandares.Milharesdepessoassereuniramparalerosartigos
darevista.
Rayford icou feliz ao saber que nã o eram apenas os crentes e os chamados judaı́stas que
liamA Verdade. Muitos indecisos e até mesmo alguns que receberam a marca do anticristo
arriscavam a vida para fazer umdownload da revista de Buck publicada nosite do Comando
Tribulaçã o. Os crentes que moravam em esconderijos e o pessoal da cooperativa do mundo
inteirotraduziam,imprimiamedistribuı́amarevista.Carpathianã opodiafazernadaquantoa
isso.
Rayfordsabiaque,infelizmente,haviacentenas—talvezmilhares—depessoasindecisas
ali mesmo em Petra. Tsion prometera dirigir-se particularmente a elas, chegando a dizer que
muitascontinuariam a ser enganadas e, com o tempo, cairiam na lá bia de mentirosos e de
charlatã es. Era difı́c il compreender ou acreditar que isso ainda pudesse acontecer. Como uma
pessoaquepassoupelamesmaexperiê nciadeRayfordpoderiaduvidardaexistê nciadoú nicoe
verdadeiroDeusdouniverso?Aexplicaçãoestavaalémdeseuslimitesdecompreensão.
No im da manhã , quase 24 horas apó s o lançamento das bombas, o povo começou a
reunir-se. Espalhou-se a notı́c ia de que o Dr. Ben-Judá iniciaria seus ensinamentos sobre a
misericó rdiadeDeus.Econtinuavamaserdivulgadashistó rias,vindasdomundointeiro,deque
aperseguiçãoseintensificaracontraoscrentese,principalmente,contraosjudeus.
Chang havia gravado as conversas nos escritó rios de Akbar, Fortunato e Carpathia e
instalara um dispositivo para enviar ao computador de Buck Williams os relató rios dos
subpotentadosdomundointeiro.Amedidaqueosoldespontavaemvá riospaı́ses,asnotı́c iasde
violê nciaedederramamentodesanguecometidosnanoiteanterior,bemcomoasimplacá veis
invasõ es diurnas, eram transmitidas nã o apenas para Nova Babilô nia, mas també m do
computadordeChangparaodeBuck,edocomputadordeBuckparaomundo,pormeiodeA
Verdade.
Quandoasmultidõ essereuniramparaouviroDr.Ben-Judá ,foramatraı́dasparaumatela
gigantesca,instaladaemummuroafastadodaluzdosol,paramelhorvisualizaçã o.Buckhavia
transmitido as cenas dos acontecimentos nos Estados Unidos Sul-americanos, enviadas por
Chang,eopovoassobiouevaiouquandoohomemtı́m idoemedrosoaceitoureceberamarca
de lealdade. O povo aplaudiu, chorou, cantou e louvou a Deus pelo testemunho dos valentes
mártiresqueenfrentaramaguilhotinacomtantapazecoragem.
OsremanescentesemPetra icaramindignadosdiantedasnotı́c iasvindasdaGré ciasobre
uma invasã o no meio da noite, que havia destruı́do o que restara do pequeno contingente de
crentes que viviam naquele esconderijo. Buck havia incluı́do som ao relató rio em vı́deo,
relembrando a seus leitores, ouvintes e espectadores que os gregos foram os primeiros que
preferirammorreraaceitaramarcadabesta.
Agora,pareciaqueosMonitoresdeMoraleoshomensdasForçasPaci icadorasdetodos
os continentes haviam sido revitalizados, inanciados, equipados e motivados para atacar sem
piedade. De todos os lugares do mundo, chegavam notı́c ias de que a Comunidade Global nã o
seria mais condescendente com os dissidentes e indecisos. Ou eles aceitavam a marca
imediatamenteouenfrentariamasconseqüências.Atémesmoaquelesquejáhaviamrecebidoa
marca de Carpathia estavam sendo punidos por nã o se curvarem diante de sua imagem trê s
vezespordiaparaadorá-la.
LeonFortunatoapareceuemcena—comseustrajespompososesendoapresentadocom
todosostı́t ulosehonrariasaquetinhadireito—paraadvertirque"osdescendentesdejudeus,
tã o teimosos quanto os judaı́stas e que insistem em adorar um Deus que nã o seja nosso pai e
senhor ressurreto, Nicolae Carpathia, receberã o uma justa recompensa. Sim, a morte é boa
demais para eles. Oh, eles certamente morrerã o, mas estou emitindo um decreto neste
momento de que nenhum judeu receberá a misericó rdia de uma morte rá pida pela lâ mina da
guilhotina. Por mais visı́vel que seja esse castigo, e por mais que condene comportamento
reprová vel, nã o causa dor alguma. Nã o, essas pessoas sofrerã o dia e noite em seus covis de
iniqü idadee,nomomentoemqueexpirarememrazã odecausasnaturais—ocasionadaspela
rejeiçãoaoCarpathianismo-,elasestarãoorando,clamandoporumamortetãorápidacomono
instrumentodeimposiçãoàlealdade".
ParaRayford,opovodePetraestavachocadodiantedoavançodasmaldadescometidas
porNovaBabilô nia,vingando-sedaquelamaneiradeseusinimigosehumilhandoosjudeus.Mas
airaeoescá rniodaquelepovoforamamenizadospelasnotı́c iasfornecidaspelaCNNCGsobreo
queaconteceranavéspera,alimesmonacidadedepedrasvermelhas.
Um â ncora proferia palavras repetitivas, dizendo que o ataque a Petra — duas bombas
incendiá rias e um mı́ssil lançado por terra — errou o alvo e que o inimigo acampado ali havia
revidado prontamente, abatendo os dois caças-bombardeiros e matando os pilotos. A notı́c ia
provocougargalhadasentreopovo,etodoslevantaramasmã osfechadas,vaiandoeassobiando,
quandoCarpathiaapareceuparalamentaramortedospilotosmártires.
—Emboranã osepossanegarquefoiumerrodopiloto,todaaComunidadeGlobal,creio
eu, une-se a mim para apresentar nossas mais sinceras condolê ncias à s famı́lias enlutadas.
Decidimos nã o tentar destruir essa fortaleza do inimigo, para nã o pô r em risco a vida de mais
pessoas, mas esse povo vai morrer de fome, porque vamos cortar suas linhas de suprimento.
Daqui a alguns dias, esse será o maior campo de concentraçã o de judeus da Histó ria, e sua
obstinaçãoidiotalhesdaráodestinoqueelesmerecem.
— Companheiros cidadã os da nova ordem mundial, meus compatriotas da Comunidade
Global,devemosresponsabilizaressepovoeseuslı́derespelatragé diaqueatingiunossosmares
e oceanos. Tenho insistido com meus conselheiros diretos a negociar com esses terroristas
internacionais, esses mestres de magia negra que tê m usado suas manobras perversas para
causarumadevastaçãodessamagnitude.
— Tenho certeza de que você s concordam comigo em que nã o existe diplomacia em
casos como esse. Nã o tenho nada a oferecer em troca da perda de milhõ es de vidas humanas,
semmencionarabelezaeariquezadafloraedafauna.
— Eu lhes garanto que meu pessoal da alta cú pula está trabalhando para descobrir uma
soluçã o para essa tragé dia, mas ela nã o incluirá acordos, concessõ es nem qualquer
reconhecimento de que essas pessoas tê m o direito de impingir ao mundo um castigo tã o
indescritível.
Nomeiodaquelatransmissã odeChangporintermé diodeBuck,apareceuareproduçã oda
conversa entre Suhail Akbar e os dois pilotos que atiraram as bombas em Petra. Embora a CG
tentassefalarmaisaltoparaabafaraspalavras,dizendoquesetratavadeumamentira,deum
embuste, todos ouviram os pilotos se defendendo perante Akbar e sua ordem para que fossem
executados.
Rayfordnã opodiaimaginarcomoCarpathiaaindateriaoapoiodomundodepoisdetudo
aquilo, mas a Bı́blia a irmava que era justamente o que aconteceria. Em Petra, a multidã o
começou a icar inquieta e a conversar entre si sobre aquela exposiçã o das mentiras e das
verdades que eles tinham acabado de presenciar. Entã o, começou a correr a notı́c ia de que
Miqué ias,ohomemqueosconduziradeIsraelaesselugarseguro,estavaprestesaaparecerea
apresentaroDr.Ben-Judá.
Espontaneamente,todaamultidãomergulhouemprofundosilêncio.
CAPÍTULO13
Chaim Rosenweig levantou as duas mã os e dirigiu-se à multidã o com voz tã o forte que
podiaserouvidoemtodososlugares.
— Tenho o imenso prazer e a satisfaçã o pessoal de, mais uma vez, apresentar a você s
meu ex-aluno, meu amigo pessoal e agora meu mentor, o Dr. Tsion Ben-Judá , rabino, pastor e
mestredetodosvocês!
Rayford só nã o aplaudiu com entusiasmo porque sabia que Tsion detestava adulaçõ es.
Mesmoassim,Rayfordesperavaqueorabinoentendessequeaquelepovoestavasimplesmente
expressandoseuamorporele.
Quando,finalmente,conseguiuacalmaramultidão,oDr.Ben-Judádisse:
—Obrigadopelacalorosarecepçã o,maspeçoque,nofuturo,quandoeuforapresentado,
você s me homenageiem em silê ncio, manifestando agradecimentos a Deus por seu amor e
misericó rdia. E principalmente sobre isso que vou falar. A adoraçã o de você s estará sendo
corretamente dirigida, quer você s orem, quer levantem as mã os ou apontem para o cé u em
gratidãoaEle.
—Nocapı́t ulo14doEvangelhodeJoã o,nossoSenhorJesus,oMessias,fazumapromessa
quepodemosguardarportodaaeternidade.Elediz:"Nã oseturbeovossocoraçã o;credesem
Deus, crede també m em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim nã o fora, eu
vo-loteriadito.Poisvoupreparar-voslugar.Equandoeufor,evosprepararlugar,voltareievos
recebereiparamimmesmo,paraqueondeeuestouestejaisvóstambém"[v.1-3].
— Observem a urgê ncia. Essa foi a garantia de Jesus de que, embora estivesse deixando
seus discı́pulos, Ele voltaria um dia. O mundo nã o viu o ú ltimo retorno de Jesus Cristo e,
conformesabemoscontinuainsistindoemnãover.
— Agora, re litam comigo sobre os cinco eventos mais importantes e fundamentais da
Histó ria.DesdeoEdenaté opresentemomento,Deusnosapresenta,porintermé diodaBı́blia,a
histó ria correta do mundo, e grande parte dela foi escrita por antecipaçã o. Essa é a ú nica
históriaverdadeiraquejáfoiescrita.
— O primeiro evento fundamental foi a criaçã o do mundo por meio de um ato direto de
Deus.
— A seguir, vem o dilú vio universal. Esse dilú vio teve um efeito catastró ico sobre o
mundo e ainda confunde a mente dos cientistas que encontram esqueletos de peixes em
altitudesdeaté4.500metros.
—OterceiroeventofundamentaldaHistó riafoiaprimeiravindadeJesus,oMessias.Esse
evento possibilitou a redençã o de nossos pecados. Jesus teve uma vida perfeita e morreu para
redimir os nossos pecados. Ele morreu pelos pecados do mundo, por todos aqueles que
invocassemoseunome.
— Mas sabemos que esse nã o foi o im da histó ria, porque todos nó s aqui invocamos seu
nome para perdoar nossos pecados somente depois do quarto evento fundamental da Histó ria,
ouseja,avoltadeJesus.
— Muitos de nó s corrigimos o erro de nã o tê -lo aceitado antes, e isso é bom. Tanto o
Antigo como o Novo Testamento da Bı́blia mencionam que Ele retornará pela ú ltima vez: o
quintoeventofundamentaldahistó riadomundo.Essegloriosoaparecimentosinalizará oinı́c io
doreinomilenar,averdadeirautopia.
—ImaginemoparaísonaTerracomoMessiasnocontroledetudo.Muitosacreditamque
duranteessereinodemilanos,quecomeçará daquiamenosdetrê sanosemeio,apopulaçã o
será maior que o nú m ero de todas as pessoas que já viveram e já morreram. Como pode ser?
Porque haverá um mundo sem guerra. Imaginem este planeta com um governo que nã o seja
responsávelpelamatançadequase200milhõesdepessoas,comoregistradoatéhoje.
— A humanidade nunca serviu a Deus por opçã o, mas, quando o Messias retornar, Ele
estabelecerá seureinoeopovoviverá empaz.Viveremosemjustiça.Teremosabundâ nciade
justiça.Édifícildescreveressaépocaincrível.Cadaumteráosuficiente.
— Deus deseja esse tipo de mundo, e Ele o deseja para nó s por uma ú nica razã o: Ele é
bom. Na Bı́blia, Joel 2.13 diz que Ele é misericordioso, tardio em irar-se e grande em
benignidade.Elenã odesejanosprejudicar.Jonas,125anosdepoisdeJoelternascido,descreveu
Deuscomasmesmaspalavras.EMoisé s,queviveu1.500anosantesdesseshomens,dissequeo
Senhorémisericordiosoecompassivo,longânimoegrandeemmisericórdiaefidelidade.
—Essassã oasopiniõ esdosprofetasacercadeDeus.Equalé aopiniã odevocê sacercade
Deus? Que melhor prova poderı́amos ter alé m daquela que vivemos ontem? Quando você s se
ajoelharem para orar, lembrem-se daquele evento e do que os profetas disseram. Sim, temos
umDeusmajestoso,oú nicopotentadosupremoeonipotente.EaBı́blianosensinaumacoisaa
respeito de Deus: que Ele é por nó s. Ele nã o é contra nó s. Ele deseja abençoar nossa vida, e a
chave para abrir a porta da bê nçã o é entregar sua vida a Ele e pedir que Ele a use à sua
maneira.Comoalgué mpodedeixardeamaroDeusqueosprofetasdescrevem?Comoalgué m
podedeixardeamaroDeusaoqualJesus,oMessias,sereferecomonossoPaiqueestánocéu?
— Quã o maravilhoso é saber que, como ilhos, podemos nos aproximar da presença de
Deus,oCriadordetudo,echamá-lodePai.
—Estamosatravessandooperı́odomaisterrı́veldahistó riadahumanidade.Dezesseisdos
julgamentos profetizados por Deus já foram derramados sobre a Terra, um pior que o outro, e
aindafaltamcinco.Oanticristofoirevelado,damesmaformaqueofalsoprofeta.Eporissoque
o Messias deu a este perı́odo o nome de Tribulaçã o, e à segunda metade, na qual nos
encontramos,deGrandeTribulação.
— Como eu posso dizer que esse Deus julgador e vingativo é um Deus amoroso e
misericordioso?Lembrem-sedeque,duranteesteperı́odo,Eleestá trabalhandoparaqueopovo
tomeumadecisã o.Porquê ?Omilê nioestá pró ximo.QuandoJesus izersuaderradeiraapariçã o
gloriosa, Ele virá em poder e grande gló ria. Ele estabelecerá seu reino exclusivamente para
aquelesquetomaramadecisãocerta.Quedecisão?InvocaronomedoSenhor.
— Isso lhes parece exclusivismo? Compreendam uma coisa: A Bı́blia deixa claro que a
vontade de Deus é que todos os homens sejam salvos. Em 2 Pedro 3.9, lemos: "Nã o retarda o
Senhor a sua promessa [...] pelo contrá rio, ele é longâ nimo para convosco, nã o querendo que
nenhumpereça,senãoquetodoscheguemaoarrependimento."
—Deusprometeu,emJoel2,quefaria"prodı́giosnocé uenaterra;sangue,fogoecolunas
defumo.Osolseconverterá emtrevas,ealuaemsangue,antesquevenhaograndeeterrı́vel
dia do Senhor. E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo; porque
no monte Siã o e em Jerusalé m estarã o os que forem salvos, assim como o Senhor prometeu, e
entreossobreviventesaquelesqueoSenhorchamar"[v.30-32].
— Meus queridos, você s sã o ossobreviventes! Você s entendem o que Deus está dizendo?
Ele continua a chamar os homens para que sigam a Cristo. Ele levantou 144.000 evangelistas,
das12tribos,parasuplicaremaoshomenseà smulheresdomundointeiroquedecidamaceitar
a Cristo. Quem, a nã o ser um Deus amoroso, compassivo, misericordioso e longâ nimo, poderia
planejarcomtantaantecedê nciaque,duranteesseperı́ododecaos,Eleenviariatantoshomens
compoderparapregarsuamensagem?
—Você sselembramdasduastestemunhas,compoderessobrenaturais,quepregarama
PalavradeDeusemJerusalé meaoplanetainteiropormeiodaTV?Apó strê sanosemeio,elas
foramassassinadasdiantedosolhosdomundo.Depoisqueseuscorpospermaneceramnaruapor
trê s dias, Deus os chamou para o cé u. Por quê ? Porque, por ser um Deus amoroso e
misericordioso, Ele desejava manifestar seu poder e gló ria para que a humanidade pudesse
compreenderetomaradecisãocerta.
— Aqui temos o Deus sobrenatural do cé u cumprindo suas promessas de eras passadas,
preservandoosfilhosdeIsraelenquantooanticristotentapersegui-los.
—Aquemvocê sservirã o?Você sobedecerã oaoreidestemundoouinvocarã oonomedo
Senhor?
— Deus tem feito todas essas coisas grandiosas e poderosas porque deseja salvar a
humanidade. Muitos continuarã o rebeldes, até mesmo aqui, depois de tudo o que viram e
experimentaram.Nãoqueiraestarentreessaspessoas,meuamigoeminhaamiga.OnossoDeus
émisericordioso.OnossoDeusécompassivo.Eleélongânimoedesejaquetodossejamsalvos.
—Sevocê sconcordamqueDeusestá usandoesteperı́odoemquevivemosparapreparar
opovoparaoreinomilenareparaaeternidade,oquevã ofazercomsuavida?Dediquem-naao
Messias. Adorem a Jesus, o Cristo. Recebam-no como o ú nico Cordeiro de Deus que tira os
pecadosdomundo.Recebam-noemsuavidaevivamemobediê nciaaEle.Elequerrecebê -los.
E um Deus que nã o se deté m diante de nenhum obstá culo para salvar qualquer pessoa que
invoqueseunomeé umDeusdignodetodaanossacon iança.Você confia em um Deus assim?
PodeamarumDeusassim?
—OMessiasveioaomundoemformahumana.EElevoltou.Evirá maisumavez.Quero
que você s estejam preparados. Fomos deixados para trá s no Arrebatamento. Agora, devemos
estar preparados para o Glorioso Aparecimento. O Santo Espı́rito de Deus está tocando nas
pessoasdomundointeiro.JesusestáedificandosuaigrejaduranteesteperíodonegrodaHistória,
porqueEleécompassivo,amoroso,longânimoemisericordioso.
Todo o povo ao redor de Rayford curvou a cabeça, e muitos começaram a orar. Eles
oravampelosamigosefamiliaresemPetraeemoutroslugaresdomundo.Deviamterouvido,
como Rayford ouviu, a emoçã o na voz de Tsion quando ele fez um novo apelo para que todos
tomassemadecisãodeseguiraCristo.
— O tempo é curto — gritou Tsion -, e a salvaçã o é uma decisã o pessoal. Reconheça
perante Deus que você é um pecador. Admita que nã o pode ser salvo sem Ele. Entregue-se à
misericó rdiadeDeuserecebaadá divadeseuFilho,quemorreunacruzpelopecadoquevocê
cometeu.Receba-oeagradeçaaEleadádivadasalvação.
—Problemagrave,problemagrave—disseAuré lioFigueroa,recostadoemsuacadeira,
com os dedos da mã o esquerda apoiados nos da direita e apontados para cima. Sentado à sua
frente,dooutroladodamesa,Changoravasilenciosamente,enquantoFigueroaprosseguia:
—Houveacessosilegaisaobancodedadosdopalá cio,pessoascomidentidadesfalsasde
funcioná rios e intromissõ es no sistema que permitiram aos inimigos da CG enganar lı́deres
locais.Agoratemosprovasdequeexistem"grampos"nosescritó riosdopalá cio,até mesmono
do diretor de Segurança e Inteligê ncia. Você sabia que hoje de manhã , quando o potentado
estava tentando lamentar a morte de nossos pilotos, algué m se intrometeu na transmissã o e
colocounoarumaconversafictíciaentreodiretorAkbareospilotos?
—Aindabemqueaconversaerafictícia.Osenhordeveestarsatisfeitocomisso.
—Nãoestouentendendo,Wong.
— Se fosse verdadeira, teria sido uma catá strofe. Todos nó s ouvimos essa conversa,
senhor. Akbar passou um sermã o nos pilotos, os dois nã o concordaram e o diretor mandou
executá-los.
OmexicanoaltoeossudoanalisavaChang.
—Ondealguémpodeterconseguidoessetipodegravação?
—Osenhorestáperguntandoamim?
—Nãohámaisninguémaqui.
—Sintomuito.Eudeveriaterdito:"Porqueosenhorestáperguntandoamim?"
Aquele era o momento mais crı́t ico. Se Figueroa o acusasse, Chang teria de sair de Nova
Babilôniadentrodepoucashoras,paranãoserexecutado.
—Estoufazendoessaperguntaatodos,é claro.Nã oleveparaoladopessoal.Você nã ofaz
idéiadoqueestásendoimplantadonoprincipalbancodedados.
—Eugostariadesaber.
Figueroalevantou-se.
—Nã oestourevelandoissoamaisningué m,masopró prioAkbarcomeçouasuspeitarde
que existe alguma coisa estranha em Chicago. Você sabe que o local foi atingido mais de uma
vez durante a guerra. A cidade foi evacuada e interditada, e ningué m se lembrou dela durante
meses.Anos.
Changassentiucomacabeça.
— Nã o izemos sobrevô os de reconhecimento, nã o tiramos fotos, nã o veri icamos os
sensoresdecalor,nada.
—Eporquê?
— Porque algué m incluiu uma informaçã o no computador dizendo que o local estava
contaminadoequearadioatividadedurariaanos.Akbarnã oserecordadisso.Eleachavaquea
cidadehaviasidocompletamentedestruı́da,masnã oporelementosradioativos.Todasasvezes
que ele mandava fazer uma investigaçã o, o pessoal acessava o banco de dados, checava os
nı́veisderadioatividadeedizia:"Tudocerto.Continuaradioativo".Mas,recentemente,algué m
veri icou os arquivos o iciais para saber se as informaçõ es estavam corretas. E claro que nã o
estavam.Olocalestáemperfeitascondições.
—Oquê?!
— E isso mesmo. Você sabe tanto quanto eu que existe Um só motivo para algué m ter
incluı́do esse tipo de informaçã o: tomar posse da cidade. Conseguimos passar por cima das
informaçõ es falsas e tentamos descobrir o que está acontecendo lá . Nã o encontramos muita
coisa, porque todos estavam recebendo as mesmas informaçõ es que nó s. Mas existe atividade
nolocal.Consumodeá guaedeenergiaelé trica.Aviõ esehelicó pteroschegandoesaindo.Jatos
decolandodeumapistanolago.DeveserolagoMichigan.
—Sério?
— Sim. Há evidê ncias de trâ nsito de veı́c ulos e de pedestres. Poucas, é claro, mas deve
haverpertode40pessoasmorandolá.
—Poucagenteparacausartantapreocupação—disseChang.
—Pelocontrário—disseFigueroa.—Essagentevaipreferirnãoternascido.
Chang estava morrendo de curiosidade para perguntar e, ao mesmo tempo, desesperado
parademonstrarindiferença.EleaguardouqueFigueroaprosseguisse.
— Você deve estar pensando que mandamos um pelotã o de homens das Forças
Pacificadorasparafazerumarondalá,não?
Changencolheuosombros.
—Maisoumenosisso.
— Akbar tem uma idé ia melhor. Ele diz que, se algué m deseja que o lugar pareça
radioativo,vamosfazerisso.
—Osenhornãoestáfalandosério.
—Claroqueestou.
—Gastartantodinheiroemtecnologianumaépocacomoesta?
—Éumaidéiabrilhante,Chang.
—Éumasolução,euacho.Maselepensounaáguadocequecorreporlá?
—Estamosarmazenandoaá guadolagoMichigandesdeonortedeWisconsin.Nã otemos
denospreocuparcomorioChicago.
—Opovoquemoraàsmargensdoriosepreocupa.
—Bem,dequalquerforma,dizemqueochefãoestáadorandoaidéia.
—Será?
—Vocêestábrincando?Carpat...hã,opotentadoadoracoisasdessetipo.
—Etemosumabombaatômicasobrandoparajogarlá?
—Ora,vamos,Wong!Quemmoralá nã odeveserboacoisa.Sefossemcidadã osleais,por
que nã o disseram: "Ei, nã o sabı́amos que este lugar estava interditado e nos instalamos aqui,
mas,jáqueissoaconteceu,podemosficar?"
Chang encolheu os ombros. Ele queria saber quanto tempo isso levaria para acontecer,
assimteriacomoavisaroComandoTribulação,masnãoseatreveuaperguntar.
—Achoqueestácerto.
— Você acha? Nã o há registro de centro de aplicaçã o da marca de lealdade lá . E nã o há
ninguémregistradoaquiquemorarialásemnosavisar.
—Osenhorestácerto.
—Claroqueestou.Ei,Chang,vocênãoestácomumaaparênciamuitoboa.
Chang havia prendido a respiraçã o de propó sito, icando com os olhos arregalados, sem
piscar.Seurostoestavavermelhoeseusolhoslacrimejavam.
—Éocansaço—eledisse,exalandooar.—Estousentindoummal-estar.
—Vocêestábem?
Chang tossiu, ingindo que nã o podia parar. Ele levantou a mã o para desculpar-se e dar a
entenderqueestavabem.
— Dormi mal a noite passada — ele conseguiu dizer. — Vou melhorar. Pretendo dormir
cedoestanoite.
—Quertirarumcochilo?
—Não.Tenhomuitoserviçoparafazer.
—Nãoháproblema.Descanseumpouco.
—Nãoposso.
—Porquê?
—Querofazeraminhaparte,esforçar-meaomáximo,sóisso.
Emseguida,simulououtroacessodetosse.
— Vá para casa mais cedo. Você nã o usou todo o tempo a que tinha direito para
tratamentodesaúde,nãoémesmo?
—Useisóumaparte,osenhorsabe,duranteaépocadapraga.
—Dasúlceras?Ah,sim,todosnósfomosatacados.Descanseorestantedodia.Sevocênão
apareceraquiamanhã,vouentender.
— Nã o, por favor, Sr. Figueroa. Eu estou bem. O senhor nã o vê ? Já estou me sentindo
melhor.
—Oqueestáhavendocomvocê,Wong?Bem,eunãoqueroassustá-lo,mas...
—Eunãoqueroparecerumfracote.
—Vocêpodesertudo,menosisso.
—Obrigado—disseChangcobrindoabocacomamãoetossindomaisqueantes.
— Passe no Departamento Mé dico e tome algum remé dio. Chang fez um gesto de
negaçãoedissecomvozofegante.
—Vouvoltaraomeutrabalho.
—Não,nãovai.Issoéumaordem.
—Osenhorestámeobrigandoasairmaiscedo?
—Ora,vamos!Você achaqueestoupensandosó emvocê ?Emelhorsararlogo.Nã oquero
umdepartamentocheiodegentetossindo,eachoquevocêjácontaminouminhasala.Agoravá.
—Eu...
—Chang!Vá!
O dia começava a amanhecer no Colorado, e Steve Plank, conhecido pelo nome de
Pinkerton Stephens, estava dormindo em seus aposentos. Ele icara acordado até a meia-noite
enviandoe-mails a seus amigos do Comando Tribulaçã o, advertindo-os de que alguma coisa
grave estava prestes a acontecer em Chicago e que, se eles achassem conveniente, deveriam
fugirdali,erápido.Eletambémtinhaconversado,portelefone,comRayfordSteele,emPetra,e
insistidoparaquecontinuasselá enã opermitissequeAbdullahSmithouqualqueroutrapessoa
voltasseparaChicago.
Batidasinsistentesnaportaodespertaram,eseuprimeiropensamentofoique,napressa,
nã o havia usado o telefone seguro ou que seu computador estava "grampeado". Se ele tivesse
sido descoberto, paciê ncia. Avisar o Comando Tribulaçã o foi a açã o mais produtiva que ele fez
desde sua conversã o ou pelo menos desde que ajudou Hattie Durham a sair de debaixo de sua
custódiaparairaolugarondeelaseconverteu.
Plank tentou gritar para saber quem estava ali e o que desejava, mas sua pró t ese facial
estava ao lado da cama e, sem ela, ningué m poderia ouvi-lo. O melhor que conseguiu foi
resmungar,enquantotateavanoescuroàprocuradapeçadeplástico.
—Sr.Stephens,nã ohá necessidadedeabriraporta.—AvozeradeVasilyMedvedev,o
subordinadoimediatodeSteve.—Eusóquerialhedarumrecado.NovaBabilôniaestáfechando
o cerco ao redor dos funcioná rios do mundo inteiro que ainda nã o receberam a marca de
lealdade.Osenhorvaireceberasuaaomeio-dia.NoAeroportodaRessurreiçãoCarpathia.Eusó
precisoqueosenhorconfirmequeouviuorecado.
Steveescorregouocorpoparasentar-seemsuacadeiraderodasmotorizada,rodou-aaté
aportaedeudoistoquesnela.
— Obrigado, senhor. Estou constrangido por ter de fazer isso, mas recebi ordens para
acompanhá-loecomprovarqueosenhorrecebeuamarca.
Stevevoltouparapertodacamaepegouaprótesenamesinhadecabeceira.
—Espereuminstante,Vasily!
Depoisdecolocá-lanolugar,eleabriuaportaefezumgestoparaqueohomementrasse.
—Sintomuito,senhor—disseorusso.—Oquedevofazeroudizer?
—Digaaelesquejátenhoamarca.
—Nãoexisteregistrodisso.
—Você sabequeelanã opodeseraplicadaemmaterialsinté tico.Querver?—perguntou
Steve,começandoaarrancarapartedatesta.
— Nã o! Por favor! Sinto muito, senhor, mas tentei ver uma vez e foi mais que su iciente.
Perdoe-me.
— Bem, vamos ver se a pessoa que aplica a marca vai querer dar uma olhada — disse
Steve.
—Ora,vamos,senhor,deveriahaverumregistro,não?
— Eu deveria estar isento. Você pode imaginar a dor de ter uma marca aplicada à
membrana...
—Porfavor!Eusórecebiordensdeinformaraosenhorede...
—Comprovarserecebiamarca,eusei.
—Porqueosenhornãopedequeelasejaaplicadaemsuamão?
— Minha mã o? Você está dizendo minha mã o? Esqueceu que minha mã o també m foi
doadaàcausa?
Stevelevantouocoto,eVasilyestremeceu.
—Eusouumidiota—eledisse.—Comopudeesquecer...
Stevefezumgestodepoucocaso.
—Nãosepreocupecomisso.
—Quandoosenhorpretendesair?Elesabremà s8horaseestamosacercadeumahora
dedistância.
—Euseidisso,Vasily,
—Claro.
—Euoinformomaistarde.
QuandoMedvedevsaiu,Stevecurvouacabeçaechorou.
Senhor, o que devo fazer? Enganá -los? Pô r o meu cargo à disposiçã o? E isso? Está tudo
terminado?Seráquenãosirvomaisparaajudaroscrentesaoredordomundo?
Steve passou a manhã comunicando-se com Chang em Nova Babilô nia, onde a tarde já
estavaterminando.Elestrabalharamfreneticamenteafimdeencontrarumlocalparaabrigara
sede do Comando Tribulaçã o. Ningué m, em qualquer lugar do mundo, poderia acolhê -los. O
EdifícioStronghaviasidoperfeito,sóqueporpoucotempo.
Nem Chang nem Steve sabiam ao certo quando o bombardeio sobre Chicago teria inı́c io,
mas icou claro que seria o mais rá pido possı́vel. Somente depois que eles avisaram a todos e
izeram as recomendaçõ es necessá rias foi que Steve contou a Chang o problema que o
atormentava.
— Eu sabia que eles estavam fechando o cerco — disse Chang -, mas nã o tinha idé ia de
queseriatã ojá .Vouincluirumainformaçã onobancodedadosmencionandoquevocê já tema
marca.Possotirarumacópiaparavocê.
—Nãopossopermitirquevocêfaçaisso,irmão.
— Por quê ? Um dia desses, eu iz a mesma coisa com um piloto da cooperativa. Ele só
ficousabendodepoisqueprovidencieitudo.
—Comtodaessavigilâ nciaaı́ nopalá cio?Eunã otenhonenhumadocumentaçã oe,deum
diaparaooutro,passoater?
— Nã o é necessá rio dizer que ela foi expedida no Aeroporto da Ressurreiçã o. Posso fazer
registrosmencionandoqueveiodeoutrolugar.
Steve fez uma pausa. A coisa era intrigante, até mesmo instigante. Mas nã o tinha
consistência.
—Euaté concordaria—eledisse.—Setivé ssemospensadonissoantes,poderı́amoster
dadoumjeito,comoseadocumentaçã otivesseaparecidoporacaso,conformevocê fezcomo
outro sujeito. Mas, agora, seria uma prova de que concordei em receber a marca. Nã o posso
fazerisso.
— Entã o, você vai sair daı́, certo? Para onde vai e como vai chegar a esse lugar? Devo
enviaralguémparaajudá-lo?Algummeiodetransporte?
— Nã o vai funcionar, Chang. Isso vai deixar você vulnerá vel. E você sabe que eles estã o
mevigiando.
— Ningué m está me vigiando ainda — disse Chang. — Acho que eles nã o descon iam de
mim.
—Vocêprecisacontinuarfirmeaí.
— Você quer ir para Petra? Há um vô o da cooperativa partindo de Montana hoje. Posso
falarcomopiloto...
—Ligoparavocê depois,Chang.Agradeçomuito,masachoquechegouaminhahorade
tomarumaatitude.
—Oquevocêestádizendo?
—Vocêsabe.
— Ora, Steve, pelo menos obrigue esse pessoal a correr atrá s de você . Precisamos de
você,cara!
—Vivendocomoumfugitivo?Queutilidadeeuteria?
—Precisamosdetodomundoquepudernosajudar.
Buckconsiderouahipó t esedeacordarocontingentevindodaGré cia,masdecidiuquenã o
fariaisso,emborahouvessemuitotrabalhopelafrente.Chloe,Mac,HannaheSebastianhaviam
chegadodemadrugada.
Kennyestavafascinadocomtodaaquelaatividade.Aspessoascorriamdeumladoparao
outro, tomando decisõ es importantes e empacotando caixas pequenas, deixando de lado
impressos, anotaçõ es ou qualquer coisa que já estivesse no computador. A ú nica pessoa com
permissã oparalevarmaisbagagemqueosoutroseraZeke.Haviacoisasdasquaiselenã opodia
abrirmão:arquivos,roupasparadisfarces,ferramentasdetrabalho.
Leah passou a maior parte do tempo falando, por meio de um telefone seguro, com o
pessoaldacooperativadomundointeiro.EladisseaBuck:
—Todosseconformaramqueterã odeacolheralgumaspessoasedisseramqueseriauma
honra, mas ningué m está eufó rico com a idé ia. O espaço que cada um tem é muito limitado
paraatenderatodasasnecessidades.
—Nã otemosescolha,Leah.Etempodecadaumfazersuaparte.Detestodizerisso,mas
muitasdessaspessoasnosdevemfavores.Daqui,nó sdirigimosacooperativaeprovidenciamos
gênerosdeprimeiranecessidadeparaqueelas
sobrevivessem.
Albie parecia taciturno. E por que nã o estaria? Buck icou pensando na situaçã o dele: o
únicolugarparaondeelepoderiair—paraondequeriair—eraAlBasrah.
— Mas eu nã o quero usar um aviã o só para mim — ele disse. — Há muita gente que
precisaserdeslocadaparavárioslugares.
— Faça o que tem de ser feito, Albie — disse Buck. — Veja se Leah pode lhe conseguir
umacaronacomalgué mqueestejalevandomateriaisparaPetra.Vamosprecisardevocê com
freqüência.
—Esperomesmoquemechamem.
O pessoal de Enoque estava no subsolo do edifı́c io veri icando os veı́c ulos para saber
quantostinhamcondiçõ esderodar.Elenegociaraoprivilé giodeescolheroscarroseosveı́c ulos
utilitá rioscomocompensaçã opornã opodercolocaras30pessoaspertencentesaOLugarnum
só aviã o para partirem juntas. Leah já havia encontrado vá rios esconderijos para abrigá -los a
umadistânciaquepoderiaserpercorridadecarro.EnoqueficariaemPalosHills,Illinois.
—Você ssabemoriscoquevã ocorrersaindodaquiemcaravanaemplenaluzdodia—
disseBuck.
—Claroquesabemos.MasoriscoserámaiorseestivermosaquiquandoaCG bombardear
olocal.
Steve Plank avisou Vasily de que queria sair da sede da CG à s 11 horas. Ele passou o
restantedamanhãtrancadoemseuquarto,orandoemdesespero.
Finalmente,ligouparaBuck.Quereviravolta!,elepensou.Buscarconfortoeconselhocom
um jovem que um dia foi seu melhor — e mais polê mico — funcioná rio. Os dias de gló ria do
SemanárioGlobalhaviamseperdidonotempo.
AhistóriadeStevefoiouvidaemsilêncio.Emseguida,Buckdisse,comvozbranda:
—Steve,nãofaçaisso.Porfavor.
— Você acha que eu quero? Ora, vamos, homem! Nã o precisa icar emocionado agora,
Buck.Eusóqueriadizeradeus.
— Mas eu nã o quero, está bem? Já disse adeus demais em minha vida. E tem mais. Nó s
precisamosdevocê.Estenãoéomomentodedesistir.
—Vocêestámeofendendo.
—Voufazeroquepuder,Steve,paraimpedirquevocêcometaessaloucura.
—Euesperavaouviralgumacoisaamaisdevocê.
—Eutambémdigoomesmo.
—Vocêachaqueestoutentandoasaídamaisfácil?Nãopenseissodemim.
—Oquevocê está dizendo,Steve?Quedevoapoiarsuaidé ia,desejar-lhefelicidadesever
vocêlánocéu?
—Atéqueajudaria.Digaqueconfiaemmeujulgamento.
—Comopossoconfiar,seachoquevocêficoumaluco?Stevedeuumlongosuspiro.
— Buck, eu nã o tenho ningué m mais para ligar. Se eu disser que você nã o vai conseguir
tiraressaidéiademinhacabeçaequeéporissoqueestouligando,vocêvaificardomeulado?
—Éclaroquesempreestareiaseulado,mas...
— Eu nã o sou covarde, Buck. Você me conhece. Sabe que eu devia ter morrido. Fiquei
enterrado sob escombros por quase uma semana. Sinto dores o tempo todo, mas tenho
enganado,tenhoconspirado,tenhotrapaceado,tenhoiludidooinimigodetodasasmaneirasque
sei.Bem,existeumacoisaquenã ovoufazer.Nã ovoufugircomoumacriançaenã ovounegar
aCristo.
—Euseidisso.
—Bem,jáéalgumacoisa.Nãofoitãodifícildeentender,nãoé?
—Nãovenhamedizerquetenhodeconcordarcomvocê,Steve.
—Vocêvaiorarpormim?
—Claro,masvouorarparaquevocêrecupereojuízonormal.
—Vouterdepassarporisso,Buck.Enã ovou ingirquenã oestoumorrendodemedo.A
CG considera que ainda nã o recebi a marca por um descuido, por questã o de tempo, alguma
coisarelacionadacomminhaslimitaçõ es.Masquandoacoisasetornaro icial,quandoelesme
obrigarematomarumadecisão,nãovoudesapontarDeus.
— Eu sei que nã o vai. Ele promete misericó rdia in inita e uma paz que excede todo
entendimento.
—Euprecisolhecontarumacoisa,Buck.Nãoestousentindonadadisso.
—Deus— Buck começou a dizer, e Steve percebeu que ele teve de respirar fundo para
prosseguir -, ica ao lado desse teu ilho. Dá-lhe a tua graça, a tua paz. Confesso que não quero
queelefaçaisso.Detestoessaidéia.Estoucansadodeperderpessoasqueamo.Mas,seestafora
tua vontade, dá-lhe coragem, dá-lhe as palavras certas, dá-lhe poder sobre o inimigo. Oro para
queaspessoasquepresenciaremissosecomovamapontodetomaremamesmadecisão.
Buck estava tã o comovido que seus companheiros se reuniram à sua volta
espontaneamente. Quando icaram sabendo o que estava se passando, eles se ajoelharam e
oraramporSteve.BuckligouparaChang.
—EleestáindoparaocentrodeaplicaçãonoAeroportodaRessurreição,aosuldeSprings
—disseBuck.—Existealgumapossibilidadedeseremtransmitidasimagensdacena?
—Elescostumamfazerisso.
—Eelapodeserretransmitidaparacá?
—Possodarumjeito.
—Nãoseiporquequeroassistir,masvoumesentircomoseestivesseaoladodele.
Steveestavacientedoolharcrı́t icodeVasilyquandoeleapareceunoestacionamento,de
cadeira de rodas, trajando roupas informais. Na verdade, roupas muito informais. Ele usava
sapatossemcadarços,calçacáquiecamisetabranca.
— Você está preocupado com o protocolo — disse Steve enquanto Vasily o colocava no
carro.
Vasilyassentiucomacabeça.
—Aprendianãofazerperguntas,chefe.
—Vocêestáarmado,meuamigo?
—Claro.
—Eunão.
—Estouvendo.
SteveestendeuobraçoaVasily,queolhouassustado.
—Aperteminhamão—eledisse.—Lamentoqueelanãoestejamaisaqui.
Vasilytocouolocalrapidamente.
—MeunomeéStevePlank.
—Como,senhor?
—Vocêouviu.
—StevePlank?
—Então,vocêestavaouvindo,comosempre.ConheceoSemanárioGlobal?
Vasilypareciaestarcomproblemasparaconcentrar-se.
—Oquê?Arevista?Claro.NósarecebemosdeNovaBabilônia.
—Vocêselembradequandoelaeraindependente,antesdosdesaparecimentos?
—Claro.
—Meunomeaparecianoscréditos.
—Nos...?
—Créditos.Alistadosdiretoreseredatores.Eueraochefe,oumelhor,oeditor-chefe.
E Steve contou sua histó ria a Vasily, terminando quando eles estavam a 15 minutos do
destino.Medvedevsacudiuacabeça.
—Oquedevofazeragora?
— Bem, você nã o precisa me prender. Já me tem em custó dia e está cumprindo ordens.
Estámelevandoaocentro.
— E o senhor vai receber a marca, continuar a viver como inimigo secreto da
ComunidadeGlobal,eeudevofingirquenãoseidenada,sóporquesomosamigos?
—Somos,Vasily?
—Euachavaquesim,masosenhordemorouatéagoraparamecontaraverdade.
—Sesomosamigos,vocêpoderiamefazerumfavor.
—Deixá-loirembora?Permitirquefuja?Paraondeosenhorvai?
—Nãoénadadisso.Euestavapensandoquevocêpoderiaatiraremmim.
—Osenhorestábrincando.
— Nã o estou. Seria bom para sua carreira. Conte a histó ria que quiser. Você descobriu
quemeuera,preocupou-seimaginandoqueeupoderiafugir,essascoisas.
—Nãopossofazerisso.
—Eutambé mnã opoderia.Querodizer,nã opoderiamematar,emborajá tenhapensado
umpouconesseassunto.
—Oqueosenhorestá querendoqueeufaça,desdequenã osejamatá -lo?Queeuassistaà
suamorte?
—Vocêfoiencarregadode"comprovar",nãoéverdade?Nãoéessaasuaobrigação?
Vasilydeuumsuspiroentrecortadoeassentiucoma
—Osenhornãovailevaressahistóriaatéofim,vai?
—Vou.Fugirserviriaapenasparaprotelaroinevitá vel.Evocê temdeadmitirqueé mais
oumenosfácildeaspessoasmereconhecerem.
—Nãoacheigraça.
—Nemeu.Vasily,eusólamentoquejáfossetardedemaisquandovocêpassouatrabalhar
comigo.Vocêjáhaviarecebidoamarca,commuitoorgulho.
—Jánãosintotantoorgulhoassim.
—Essaéagrandetragédiaemquenosencontramos.
—Eusei.
—Sabe?
—Osenhorachaqueeunã odouumaespiadanositedoDr.Ben-Judá devezemquando?
Euseiqueminhadecisãoéirreversível.
—Vocêgostariaquenãofosse?
— Nã o sei. Nã o sou cego, nem surdo. Vejo o que está acontecendo. Neste momento, eu
diriaquesintoinvejadosenhor.
CAPÍTULO14
Finalmente, era chegada a hora de acordar Chloe. E assim que ela se levantou, os outros
fizeramomesmo.
Changhavialigado.OComandoTribulaçã onecessitavafazerasmalasepreparar-separa
mudardaliaqualquermomento.
Chloe trabalhava rapidamente, apesar de estar com os olhos turvos de sono, com Kenny
dependuradoemseupescoçoquaseotempotodo.GeorgeeMacpegaramgrandesquantidades
dealimentosacondicionadosemcaixaselatas,ecomeçaramalevá -losparaoscarros.Hannah,
que ajudou Leah a atualizar os dados da cooperativa, tinha a aparê ncia de quem precisava de
maisalgumashorasdesono.
George contou a Buck que conseguira que algué m viesse buscá -lo em Chicago, mas ele
aconselhou a pessoa a modi icar a rota, possivelmente passando por Long Grove, onde foi
marcadoumlocaldeencontro.
— Temos acomodaçõ es para você , Chloe e o bebê lá em casa, em San Diego, e eu
adorariaserseupiloto.
Buck precisava pensar um pouco antes de tomar uma decisã o. O cená rio podia ser pior.
Leahconseguiraqueeleesuafamı́liasemudassemparaacasadeLionelWhalumesuaesposa.
Buck nã o conhecia aquele homem, mas també m nã o conhecia pessoalmente nenhuma outra
pessoa que pudesse abrigá -los. Whalum concordara com a idé ia, contando a Leah que possuı́a
umacasagrandeemumbairroafastadodacidade,masestavaplanejandofazervá riasviagens
deidaevoltaaPetra.
—Leah—disseBuck-,quemsabevocê eHannahpoderiammorarnacasadosWhalum.
Eueminhafamı́liaaceitarı́amosaoportunidadequeGeorgeestá nosoferecendo.Assim,você s
teriamumpiloto,enóstambém.
—Porquevocê nã otomacontadestaminhatarefa,Buck,já queestá pondotodoomeu
trabalhoaperder?
—Chloeestá prontaparareassumiroposto,Leah.Seriamelhorvocê começaraarrumar
suascoisas.
Elapareciaabaladaelevantou-serapidamenteparasairdali.Buckainterceptou.
—Ouça,vamosperdoarumaooutro.Ascircunstânciasexigem.Penseumpouco:Whalum
estátransportandomateriaisparaPetraotempotodo.
—Eusei,Buck.Chloeeeucoordenamostudoisso.
—Vocêestáraciocinandobem?
—Vocêestámeinsultando?—elaperguntou.
—Vocênãoestáraciocinando.
—Oquê?!
— Pegue uma carona com ele um dia desses, Leah. Nã o há algué m em Petra que você
gostariadever?
Aquelaperguntaafezpararporalgunsinstantes.
— Ora, Buck, você nã o está falando sé rio. Nã o posso negar que estou encantada com
Tsion. Quem nã o está ? Mas ele nã o vai ter tempo para uma amiga. Há muita coisa que ele
precisafazerlá.
— Será , entã o, que você está com medo de morar em Long Grove, porque o local ica
muitopertodeChicago,ondeasbombasvãocair?Ébemprovável.
—Não.Eu...
—VocêquerircomGeorgeparaSanDiego?Elesvãoprecisardeserviçomédicolá.Etêm
quartosindividuais.Ningué mvai icarmorandojunto.Elesestã oemabrigossubterrâ neos,uma
espéciedecasaspré-fabricadas.
— Nã o, esse lugar parece perfeito para você e sua famı́lia. Vou conversar com Hannah a
respeitodeLongGrove.
—Euouvimeunome?—disseHannah.—Prefiroaregiãosudoeste.
—Vocêconseguiufalarcomalguém?—perguntouLeah.
—Precisadecompanhia?
Poucosminutosdepois,Hannahjá haviaconcordadoemircomLeah.ZekeeMaceramos
únicosqueaindanãotinhamondeficar.
—Euprecisoirparaumlugarondeaspessoasnecessitemdemeusserviços—disseZeke.
—Algumlugarseguro,mascentral.
—Estouverificando—gritouChloe,delonge.
—Euquero icarnumlugarondepossafazerviagensdeidaevoltaaPetra—disseMacà
procurademaiscaixas.
—TalvezeuconsigatirarRayforddelá.
—Rayfordprecisa icarlá —disseBuck.—Elevai icarirritadoporunstempos,mastem
tudooqueprecisaparamanterumcontrolesegurodopessoal.
Depois que todos estavam prontos, apenas aguardando a ordem de partir, Albie convidou
Mac para acompanhá -lo a Al Basrah. Zeke icaria instalado em uma unidade clandestina na
regiã o oeste de Wisconsin, na cidade de Avery, perto do limite com o Estado de Minnesota.
BuckligouparaChang.
—Vamoschamaraatençãoquandosairmosdaqui,masachoquenãotemosescolha.
—Saiamdemadrugada—disseChang-,poucaspessoasporveznospró ximosdias.Vou
ter condiçõ es de avisar se existe algué m atrá s de você s. E um risco, mas você sabe o que vai
acontecerseesperarmaistempo.
O grupo inteiro — 40 pessoas, incluindo as 31 de O Lugar — reuniu-se, formando um
grande cı́rculo. Cada um passou os braços ao redor do companheiro ao lado, oraram uns pelos
outrosechoraram.Todos.Até GeorgeeMac.Aovertantaslá grimas,Kennycomeçouachorar,
oqueprovocourisosnopessoal.
—Parecequeacabamosdechegaraqui—comentouBuck.
— E agora nã o sabemos quando nos veremos novamente. Tenho uma lista da ordem em
quevamossairdaqui.Minhafamíliaeeuseremososúltimos.
O Edifı́c io Strong já nã o era mais seguro. E agora aquelas pessoas seriam despejadas, um
pouco por vez, num mundo hostil, que pertencia ao anticristo, ao falso profeta, à Comunidade
Global e a milhõ es de olhos inquisidores que exigiam o sinal de lealdade que nenhuma delas
possuía.
—Eupossodizeraelesqueperdiosenhordevista—disseVasily.—Quenegligenciei.O
quemaispossodizer?Osenhorfugiu.
SteveestavasentadoaoladodelenoestacionamentodoAeroportodaRessurreição.
— O quê ? Dizer que eu fugi numa cadeira de rodas e que você nã o me alcançou? Tarde
demais.Vamos.
Nã o era fá cil, e Steve nã o ia ingir que nã o estava apreensivo. Quando lia um livro ou
assistiaaum ilmesobreumhomemcondenado,eleseperguntavaqualseriaasensaçã odedar
uma longa e ú ltima caminhada antes da morte. Essa nã o seria su icientemente longa, ele
imaginava,principalmenteemumacadeiraderodas.
Quandoelesseaproximavamdocentrodeaplicaçã odamarcadelealdadenaasanortedo
aeroporto,Stevenotouquea ilaeraamaislongaqueelejá vira.Ocerco,origor—ouqualquer
outro nome que Nova Babilô nia desse — estava dando certo. Centenas de pessoas passavam
pelaestá tuadeCarpathia,curvando-se,orando,cantando,adorando.Porenquanto,aguilhotina
estavasilenciosa.Naverdade,Stevenã osabiaseelahaviasidousadanaquelaregiã odoEstado.
Alguns foram mortos como má rtires perto de Denver. Outros em Boulder. Talvez ele fosse o
primeiroasermortoali.Talveznã ohouvessegentetreinadaparamanipularoinstrumentode
imposiçã oà lealdade—aguilhotina.Maslá estavaela,reluzenteeameaçadora.Aspessoasna
filaparareceberamarcariamcomnervosismo,semtirarosolhosdela.
Steve ainda estava na parte da ila que caminhava em direçã o ao ponto da tomada de
decisã o.Nã oseesperavaqueningué mtomasseadecisã o"errada",é claro.Amulherdiantedo
teclado do computador — ruiva, robusta e aparentando 60 anos -, que tomava conta dos
documentosearquivos,malerguiaacabeçaenquantoaspessoasseidentificavameescolhiamo
tipodemarcaeondeseriaaplicada.
Assim que a recebiam, elas levantavam as mã os fechadas ou gritavam com entusiasmo.
Emseguida,caminhavamemdireçãoàimagem,paraadorá-la.
Steve continuava vivo graças aos ensinamentos e incentivos diá rios de Tsion Ben-Judá .
Essatinhasidoaú nicaigrejaqueeleconheceu.Conversavaà svezescomRayford,comChang
e, de vez em quando, com Buck ou outra pessoa do Comando Tribulaçã o, mas estava ansioso
por um contato pessoal com outros crentes. Aquele problema seria rapidamente solucionado.
Steve se questionava se deveria usar seu nome verdadeiro e, inalmente, contar à CG que se
manteve na clandestinidade por todo esse tempo, mas seu nome seria facilmente ligado ao de
Buck Williams, em razã o da é poca em que trabalharam juntos noSemanário. E quanto tempo
levaria para que descobrissem uma relaçã o com Rayford, com Chloe, com a cooperativa e —
quemsabe?—comChang?
Elenã opoderiacorreressetipoderisco,principalmenteexpondopessoasquenemsabiam
o que iria acontecer com ele ali. Quando, inalmente, chegou a vez de Steve, a mulher avistou
Vasilytrajandouniformeedissecomvozanimada:
—Estávamosaguardandoachegadadevocêsdois.EssedeveserPinkertonStephens.
—Emcarneeosso,Ginger—disseSteveapósterlidoonomedelanocrachá.
—Quetalumbelo-6eumacharmosaimagemdosupremopotentado?—elaperguntou
olhando-odecimaabaixo,visivelmenteperplexadiantedeseustrajes.
—Eondevocêaaplicaria?—perguntouSteve.
—Aescolhaésua.
—Bem,namã onã ovaidar—eledissemostrandoocoto.OsorrisodeGingergelou,eela
o encarou. Nã o havia achado graça e demonstrou isso com o olhar. Ele a colocara em uma
situaçãodesconfortável,eelanãogostou.—Eachoquenãovaipegarnoplástico.
—Éverdade—disseGingerumpoucomaisaliviada.
— També m nã o podemos aplicá -la aqui, certo? — ele perguntou batendo na pró t ese da
testa.
Puxadaqui,puxadelá. Ele arrancou a pró t ese do nariz e da testa, deixando à mostra os
globosoculareseacavidadedocérebro.
—Achoqueaú nicaopçã oé aqui,Ginger — ele disse, com voz nasalada por ter tirado a
prótesedonariz.
—Oh!Oh,meu...!Sr.Stephens,eu...
— Quem vai querer aplicar a marca aqui? — perguntou Steve. — Quem se apresenta
como voluntá rio para fazer essa tarefa? E, quando eu quiser mostrá -la, deverei arrancar a
prótesedorosto?
Amulhervirou-separaooutrolado.
— Estou certa de que vai funcionar. E totalmente higiê nica e nã o vai causar nenhum
problema.
—Possotirartambémaprótesedaboca,Ginger,sevocêdesejarumefeitototal.
—Não,porfavor.
—Bem,dequalquerforma,euestounafilaerrada.
—Comoassim?
—Nãoaceitoreceberamarcadelealdade.
—Nãoaceita?Bem,nãoexisteopção.
—Ah,claroqueexiste,Ginger.Aoutra ilaé bemmenor.Naverdade,sereioú nico.Mas
trata-sedefinitivamentedeumaopção,não?
—Vocêestáoptandopelo...hã...instrumentodeaplica...
— Estou optando pela guilhotina, Ginger. Estou preferindo morrer a ingir que Nicolae
Carpathiaédivinooureidequalquercoisa.
ElaolhouparaVasily.
—Eleestábrincandocomigo?
—Infelizmentenão,senhora.
GingeranalisouorostodeSteve.Emseguida,pegouseuwalkie-talkie.
—Ferdinand,precisamosdealguémparaacionaroinstrumento.
—Acionaroquê?
—Vocêsabe!—elacochichou.—Oinstrumento.
—Aguilhotina?Vocêestáfalandosério?
—Sim,senhor.
—Já estouindo.—Umhomemcalvo,altoedebochechasvermelhaschegoucorrendo.—
Vocênãovaireceberamarca?
—Vou—disseSteve-,masantesquerotentaraguilhotina.Porfavor,nãopodemosandar
logocomisso?Seráquevouterdepassarporoutrapenitência?
—Issoaquinãoébrincadeira.
— També m totalmente desnecessá rio, portanto faça o que deve ser feito. Apronte a
papelada.
— Nã o há papelada. Você simplesmente assina con irmando que fez a escolha por livre e
espontâneavontade,enós...ah...você...
—Morre.
—Sim.
—Tenhoodireitodedizerminhasúltimaspalavras?
—Vocêéquemsabe.
Ohomementregou-lheumformulário,noqualSteveassinou"PinkertonStephens".
—Vocêdevesaberqueestaésuaúltimachancedemudardeidéia—disseohomem.
— Sobre Carpathia ser o anticristo, o demô nio personi icado? Sobre Leon Fortunato ser o
falsoprofeta?Sim,eusei.Nãovoumudardeidéia.
—Estaésuadecisãofinal?
—Digamosquepenseimuitonoassunto.
—Claro.
Steve olhou de relance para Vasily, que estava pá lido e com a mã o na boca. As outras
pessoas na ila murmuravam e apontavam, agora com os olhos ixos naquele homem de
aparênciaestranha,usandocamiseta.
Ferdinandpassouporentreduascadeirasefoiinspecionaraguilhotina.
— Dizem que pode ser acionada por uma só pessoa — ele mencionou. Em seguida,
levantouacabeça.—Poraqui,Sr.Stephens.
Steverodouacadeiraaté umamarcanochã oa1,20mdaguilhotina.Seuventrecomeçou
acontrair-seearespiraçãoficouofegante.
Deusficacomigo,eleorousilenciosamente.Dá-metuagraça.Dá-mecoragem.
A graça veio. A coragem, ele nã o tinha certeza. Gostaria de ter mais experiê ncia para
estar diante daquele instrumento. Ferdinand havia levantado completamente a lâ mina, mas,
enquantomanipulavaoselementosnaextremidadedahaste,elecontinuavaolhandoparacima
eexaminandooaparelho,afastandoosdedosdalâmina.
—Achoqueseaalavancadesegurançaestivernolugar,estátudopronto—disseSteve.
—Ah,claro.Obrigado.
—Denada.Podeficarmedevendoesta.
Ferdinanddemorouuminstanteantesdedarumsorrisocontorcido.Elecolocouabarrade
retençã o no lugar, com um pouco de di iculdade. Em seguida, segurou a corda de liberaçã o e
inspecionouacoisatodamaisumavez.
Kenny estava dormindo, e Buck sentado com os ombros caı́dos diante da TV, à qual ele
havia conectado seu telefone. Chang engendrara uma maravilha digital para transmitir as
imagens do Colorado. Uma câ mera de TV instalada em um canto mostrava a á rea inteira, e
Chloeapontou.
—Éele,Buck.Eleestáali.
O peito de Buck arfava pesadamente, e ele respirava com di iculdade. Steve era a ú nica
pessoadiantedaguilhotina,ehaviaumhomemquepareciatentaracioná-la.
—Vocêtemumcestooucoisaparecida?—perguntouSteve.
—Nãoentendi—disseFerdinand.
—Umavasilha?Anãoserquequeiracorreratrásdeminha...
—Sim!Obrigado.Ummomento.Stevegostariadedizer.
—Estoufelizporpoderajudar.
Ferdinand encontrou uma caixa de papelã o amassada que, por algum motivo, havia sido
forradacompapellaminado.Stevenãoqueriasaberporquê.
—Agora—disseohomem,olhandoparacima-,aproxime-sedaqui.
Steverodouacadeiraparapertodaguilhotina.
—Vocêconsegueabaixar-seou...
—Eupossofazerissosozinho—disseSteve-,masoserviçodeassistê nciaaoclienteestá
sendoprecárioseeutiverde...
—Voubuscarajuda.
—Não!Eumeposicionosozinho,assimquedisserminhasúltimaspalavras.
—Ah,sim,suasúltimaspalavras.Chegouahora.Àvontade.
—Elasserãogravadas?
Ohomemassentiucomacabeça.
—Bem,então...
Stevevirouumpoucoocorpoparaencararosqueestavamna ilaparareceberamarca
de lealdade. Todos desviaram os olhos, mas ele notou um ar de expectativa em seus rostos,
comoseestivessemaguardandooprivilégiodepresenciaracena.
—Eunã oesperoquevocê sacreditememmim,queconcordemcomigonemquemudem
deidé ia—elecomeçouadizer.—Masqueroqueminhaspalavras iquemgravadas.Escolhia
morte na guilhotina para poder estar com Deus. Acredito em Jesus Cristo, o Filho de Deus, o
Criador do cé u e da Terra. Repudio Nicolae Carpathia, o demô nio, o Sataná s encarnado. Hoje,
quandovocê sreceberemamarca,perderã oparasempreachancedeumavidaeternanocé u.
Odestinodevocêsseráoinfernoe,mesmoquequeirammudardeidéia,nãopoderão.
—Eugostariaqueminhavidativessesidomaisdedicadaà quelequedeuasuapormim,e
eumeentregoemsuasmãos,paraaglóriadeDeus.
Stevevirou-separaafrente,saltoudacadeiraderodaseposicionou-sedebaixodalâmina.
—Porfavor,sejarápido,Ferdinand—eledisse.
Bucknã oconseguiadesgrudarosolhosdatela.Chloe,sentadaaoladodele,cobriuorosto
com as mã os. A cena desapareceu, mas Buck continuou sentado ali por quase uma hora.
Finalmente,seucelularvibrou.EraChang,quetambémpareciaabaladodemais.
—Foiacrescentadaumanotacon idencialaorelató rioemitidopelopessoaldocentrode
lealdade—eledisse.—AnotaédirigidaaSuhailAkbar:"Vocêreceberáumcomunicadoformal
docentrodecomandodaComunidadeGlobal,noColorado,dizendoquehaverá necessidadede
um substituto para o falecido Pinkerton Stephens e també m para seu segundo homem no
comando,VasilyMedvedev.Esteú ltimofoiencontradonoautomó veldaCGqueestavasobsua
responsabilidade.Medvedevsuicidou-secomumtironacabeça."
Evidentemente,nenhumadasmortesfoidivulgadapelaCNNCG.
Ming Toy estava exausta quando desembarcou em Xangai depois de um vô o que durou a
noite inteira. Ela havia feito aquele vô o, aparentemente interminá vel, vá rias vezes antes, mas
nesseú ltimonã oconseguiudormirporter icadoconversandocomopiloto.Eleeraconhecido,
ou melhor, amigo de George Sebastian. E, embora ela nã o conhecesse George pessoalmente,
agoraelestinhammuitosamigosemcomum.Opilotodoaviã o,umsul-coreanochamadoRee
Woo, já era um cidadã o naturalizado norte-americano na ocasiã o do Arrebatamento e estava
aquarteladonamesmabasedeSebastian.
— Todos conheciam George — disse Woo. — Ele era o homem mais grandalhã o que já
tínhamosvisto,omaiordaquelabase.NãohavianadaqueGeorgenãopudessefazer.
Woo era um piloto especializado em aeronaves pequenas, rá pidas e de fá cil mobilidade,
com capacidade para armazenar grande quantidade de combustı́vel e, por conseqü ência, com
autonomiadevôoparalongasdistâncias.
—Eueraumcoreano-americanodiferente,Sr.Chow,porqueagiamaiscomoamericano
do que como asiá tico, apesar de ter mudado para a Amé rica já adolescente. Eu nã o tinha
religião.Teriasidoumbomchinês.Apostoquevocêcresceuemumafamíliaatéia.
— E verdade — disse Ming -, mas a Coré ia, principalmente a Coré ia do Sul, é metade
cristã,metadebudista,certo?
— Sim! Mas eu nã o era nem uma coisa nem outra. També m nã o era ateu. Eu nã o era
nada. Nã o pensava em religiã o. Eu sabia que devia existir um Deus, mas nã o me importava.
Casoexistisse mesmo, Ele me deixou sozinho. Eu adorava a mim mesmo, você entende o que
querodizer?
—Claro.Nãoeraassimquetodosnósfazíamos?
— Meus amigos e eu adorá vamos a nó s mesmos. Gostá vamos de farra, de garotas, de
carros,debensmateriais,dedinheiro.Vocêtambém?
— Quero ouvir o resto de sua histó ria, Ree — disse Ming — mas chegou a hora de usar
minhavozverdadeiraedecontar-lheaverdade.
Eleinclinouocorpoparaafrenteeolhou-adeesguelhanoescuro,diantedamudançado
tomdevozdeMing.
—Não—eladisse.—Jamaisgosteidegarotas.Eugostavaeradegarotos.
Eleteveumsobressaltoesorriu.
—Verdade?
—Nã oé oquevocê está pensando—eladisse.—Souumagarota.Naverdade,souuma
mulheradulta.Fuicasada.Souviúva.
—Vocêestábrincandocomigo!
—Estoulhedizendoaverdade.
Eelacontousuahistóriadurantemaisoumenosumahora.
—Vocêacreditaquejáouvifalardeseuirmão?—disseWoo.
—Não!
— E verdade! Ningué m menciona o nome dele, mas muita gente de nosso grupo
clandestinodeSanDiegosabequeeleestálá,dentrodopalácio.
Em seguida, Woo terminou de contar sua histó ria, falando sobre como icou apavorado
depoisdosdesaparecimentos.
—Eunã osabiaoqueeramedo.Antes,nadameincomodava.Eueraumvalentã o.Foipor
issoqueeuquisserpiloto,masnã odejatosgrandescomerciais,nemdehelicó pteros.Euqueria
pilotar aviõ es mais rá pidos, mais perigosos. Em vá rias ocasiõ es, escapei por um triz da morte,
mas isso me deixava mais entusiasmado ainda e nunca me fez icar mais cauteloso nem mais
cuidadoso.Eunãoviaahoradearriscaravidaoutravez.
— Mas depois que tanta gente desapareceu, iquei tã o assustado que nã o conseguia
dormir.Ficavadeitadonacamacomaluzacesa.Nã oria!Eraissomesmo!Eusabiaquealguma
coisa terrı́vel e sobrenatural havia acontecido. Só um acontecimento tã o grande como aquele
foi capaz de me fazer parar e pensar. Por que aquelas pessoas desapareceram? Para onde
foram?Euseriaopróximo?
—Pergunteiatodomundoqueeuconhecia.Até mesmopessoasqueeramcomoeueque
nunca haviam entrado numa igreja diziam que se tratava de algum ato de Deus. Se fosse
verdade,euqueriasaber.Comeceiaperguntaraoutraspessoas,aler,aprocurarlivrosnasala
docapelã o.EncontreiumaBı́blia,masnã oentendianadadoquelia.Foi,entã o,quealgué mme
deu um exemplar numa linguagem mais simples. Eu nã o tinha certeza da existê ncia de um
Deus, mas orei assim mesmo. Essa Bı́blia era chamada de Palavra de Deus, portanto eu disse:
Deus,seestásemalgumlugar,ajuda-meaentenderissoeaencontrar-te.
—Ming,esseéoseunomeverdadeiro,certo?Chegadesurpresas?
Elaconcordoucomacabeça.
—Chegadesurpresas.
— Ming, eu li aquela Bı́blia da mesma maneira que um homem faminto come pã o. Eu a
devorei! Eu nã o parava de ler. Li a Bı́blia inteira vá rias vezes e, quando encontrava livros e
capı́t ulos complicados demais, eu pulava e encontrava outros mais fá ceis. Quando descobri os
EvangelhoseascartasdePaulo,liereliatédesabardeexaustão.
—No inaldaBı́blia,haviaumalistadeversı́c ulosquemostravamcomotornar-secristã o,
umseguidordeCristo,ereceberoperdã odospecados.Alidiziaqueagentepodiatercerteza
de estar salvo dos pecados e de ir para o cé u ao morrer ou ao ser levado com Cristo no
Arrebatamento.Aquilopartiumeucoraçã o!Eratardedemais!Acrediteidetodoocoraçã oque
os desaparecimentos tinham a ver com o Arrebatamento, e chorei sem parar, arrependido de
terperdidoachance.
— Mas li todos os versı́c ulos que falam da salvaçã o e orei implorando a Deus que me
perdoasse. Eu disse que acreditava que Jesus morreu por mim e que me receberia em seus
braços. Tive uma enorme sensaçã o de pureza, de liberdade e de refrigé rio, como se eu nã o
tivessesidodeixadoparatrá s.Istoé ,eugostariadetersidoarrebatado,masnã otenhodú vida
dequeestousalvoedeque,umdia,voumorarnocéu.
Horasdepois,Mingtinhaaimpressã odequeelaeReetinhamsidoamigosduranteavida
toda. Apesar de exausta, ela preferiu conversar com ele a icar dormindo. Quando o sol
despontousobreomarAmarelo,Mingsentiu-seenojadaaoveraimensaquantidadedesangue
que se estendia até os portos. Quanto mais baixo eles voavam, mais ela via a devastaçã o,
animaisemestadodeputrefaçã o.Quandopousaram,receberammá scaras,quepoucautilidade
tiveramparafiltraroodorfétido.
ReeestavatransportandomercadoriasparaacooperativadeXangai,masconcordouem
levá -laaNanjing,que icavaamaisde300quilô m etrosaoeste.Changcontaraaseuspaisque
haviaumaigrejaclandestinaláe,apesardeserumacidadegrande,MingorousuplicandoaDeus
queaconduzisseatéeles.
Ree lhe fez companhia enquanto ela procurava, com a má xima cautela, algum crente
secreto. Nã o era fá cil. Eles icavam sentados em restaurantes pequenos, e, de vez em quando,
ela levantava cuidadosamente seu quepe para que um companheiro crente pudesse ver o selo
emsuatesta.QuandoReefezissoemumapequenamercearia,umasenhoraidosaseaproximou
eexibiuseuselo.Ostrê sseencontraramemumavielaecontaramsuashistó riasrapidamente.
MingentendiaodialetodasenhoraeotraduziuparaRee.
A senhora contou que a igreja clandestina de Nanjing praticamente desaparecera, e que
grandepartedoscrentesfoideslocadaparaZhengzhou,localizadaaumadistâ nciadecercade
500quilô m etrosanoroestedali.Finalmente,Mingconseguiudormirnaú ltimapartedaviagem,
mas,mesmoinconsciente,elasepreocupavacomRee,quepoderiacochilarnoscontroles.Nos
temposdosregulamentosrı́gidosdaaviaçã o,elejamaisreceberiapermissã oparavoarsemum
bomperíododedescanso.
ACGpareciaalvoroçadaemZhengzhou,arrastandooscidadã ossemamarcadelealdade
para os centros de aplicaçã o, caçando os judeus para levá -los aos campos de concentraçã o e
gritandopormeiodemegafonestodasasvezesqueerachegadaahoradeadoraraimagemde
Carpathia. Até mesmo os milhares de pessoas que ostentavam a marca pareciam cansadas
diantedasconstantesexigênciasedotratamentorecebidopelosindecisos.
MingeReeencontraramumahospedariabarata,quenã ofaziaperguntas,ealugaramdois
quartos minú sculos, do tamanho de um cubı́c ulo, onde pagaram muito para dormir tã o pouco.
Mas o sono levou embora o cansaço, e, quando eles se encontraram novamente, partiram em
buscadoscrentesclandestinos.
Finalmente, Ming conheceu um pequeno grupo de cristã os escondidos no porã o de uma
escola abandonada. Ree precisava retornar a San Diego, e a perspectiva de separar-se dele
causava grande sofrimento a Ming, embora eles tivessem acabado de se conhecer. Ele
prometeuvoltarefazeropossı́velparaqueapequeninaigrejadeZhengzhoufosseincorporadaà
listadacooperativa,emboraseuscrentestivessempoucamercadoriaparaserbarganhada.
MingconseguirafalarcomChangemNovaBabilô niaetomouconhecimentodadispersã o
gradualdoComandoTribulaçãoedamudançadafamíliaWilliamsparaSanDiego.
— Você precisa conhecê -los, Ree — ela disse -, e icar mais amigo de Sebastian. Meu
sonhoéencontrarmeuspaise,umdia,levá-loscomigoparalá.
Demorou mais de uma semana para Ming encontrar algué m que tivesse ouvido falar da
famíliaWong,apesardapopularidadedonomenaquelaregião.Foiumasenhoraidosa,comarde
cansaçoeolhosúmidos,quelhecontou:
—Nó sconhecerosWongs.Umcasaldemeia-idade.Elemuitolealaopotentado,masnã o
aceitaramarca.
—Éele!—disseMing.
—Sintomuito,moça.Eleserdescoberto.
—Elemorrercomhonra!
—Porfavor,não!
—Elesercrente.Suamã echorandomasestarbem.Elamorarcomumpequenogrupoa
80quilômetrosaoeste,nasmontanhas.
—Eelatambémseconverteu?—perguntouMingemmeioàslágrimas.
—Ah,sim.Sim.Eulevarvocêatéelanotempocerto.
CAPÍTULO15
Changnuncasesentiutã oisolado,tã osozinho,comonoscincomesesseguintes.Choroua
morte de seu pai, mas regozijou-se porque ele estava no cé u. Orou por sua mã e e sua irmã ,
insistindo para que Ming continuasse na China e nã o tentasse tirar a mã e de lá . Ele sabia que
aquelepaísestavaatravessandoummomentoterrível,porémfugirseriamaisperigoso.
ChangestavacuriosoacercadeReeWooeajudouChloeaencontrarvô oseconexõ esde
vô os da cooperativa para ele. Poré m, na maior parte do tempo, Chang agia com discriçã o,
principalmentediantedoscomputadores.SuhailAkbarhaviaassumidoparasiaresponsabilidade
dedescobriroespiã onopalá cio.Todososfuncioná riosforaminterrogadosrepetidasvezes,mas
Changtinhacertezadequenã olevantoumaissuspeitasdoqueseuscolegas.Elesonhavacomo
dia em que voltaria a ter liberdade para acompanhar os passos do Comando Tribulaçã o,
conformehaviafeitoanteriormente.
O dia estava quase terminando quando ele conseguiu abrir caminho para seus
companheirospormeiodecredenciaisfalsas.EfoiforçadoapediraBuckquetomassecuidado
comoqueescreveriaemAVerdade a respeito das informaçõ es que recebera do palá cio. Uma
coisa era Buck escrever sobre o que conhecia, e outra coisa bem diferente era provar com
gravaçõ es, em á udio e vı́deo, que somente poderiam ter sido feitas a partir de escutas
clandestinasnopaláciodeNovaBabilônia.
Chang icou emocionado ao saber que a mudança do pessoal do Comando Tribulaçã o na
caladadanoitetranscorreusemproblemas.Até aquelemomento,aú nicaperdatinhasidoade
Steve Plank, que, o icialmente, nã o fazia parte do Comando Tribulaçã o, mas cuja morte foi
muitolamentada.
LeaheHannahestavamescondidasnanovacasaemLongGrove.Suascartasesporá dicas
arespeitodeLionelWhalumesuaesposacomprovavamqueaqueleeraotipodecasaldequeo
ComandoTribulaçãoeacooperativanecessitavam.
Albie e Mac voavam temerariamente pelo mundo inteiro em uma aeronave que Albie
conseguiu no mercado negro. Chang preocupava-se com eles, porque ambos nã o podiam mais
ter credenciais falsas, poré m Mac, pelo menos, parecia sentir-se invencı́vel apó s o triunfo na
Grécia.
Zeke, pelo que Chang sabia, estava tendo sucesso em uma regiã o campestre que a CG
parecia ter esquecido. Muitos crentes secretos viajavam quilô m etros para ter sua aparê ncia
transformadapelotoquedemestredojovem.
As notı́c ias recebidas de Enoque e de seus companheiros de O Lugar eram menos
alentadoras.Ogrupohaviasedividido,eseuscomponentespassaramamoraremesconderijos,
sozinhosouemcompanhiadeoutrasfamı́lias.Amaioriacontinuavatrabalhandoativamentena
troca de mercadorias da cooperativa, mas muitos sentiam falta dos tempos de camaradagem
queviveramemChicago.
A cidade havia sido devastada novamente, desta vez por uma bomba nuclear verdadeira
lançada trê s dias apó s Buck, Chloe e Kenny terem ido ao encontro de Sebastian e voado para
SanDiego.ACNNCGrelatoumilmortes,todasdejudaístas,masosinspetoresperceberamquea
con irmaçã odonú m erodemortosteriacomprometidoaspró priaspessoasquediziamterfeito
acontagem.
OmaisemocionanteparaChangeramantercontatocomBuck,ChloeeKenny,queagora
moravam literalmente em um abrigo subterrâ neo perto de San Diego. Sebastian e sua famı́lia
haviam amenizado o perı́odo de transiçã o, e a igreja secreta de lá era a mais vibrante que
Changconhecera.Ali,KennyeraapenasumdosváriosbebêsnascidosapósoArrebatamento.
Pelo fato de grande parte da tecnologia militar continuar intacta, Buck foi capaz de
recriaraaparelhagemquepossuı́aemChicago,e,dali,transmitiasuarevistavirtualalgunsdias
por semana. Ele tomava o cuidado de permanecer escondido em casa e invejava a vida que
RayfordlevavaemPetra.
QUATROANOSNATRIBULAÇÃO
SEISMESESNAGRANDETRIBULAÇÃO
Emboraaatmosferacontinuassefestivaeasmensagensdiá riasdeTsioneChaimfossem
inspiradoras, Rayford diria que Petra nã o estava completamente isolada do mundo real. Um
milhã o de pessoas eram lembradas diariamente da devastaçã o provocada por Carpathia em
todo o planeta. De todas as partes, chegavam notı́c ias de milagres feitos por milhares de
divindades que pareciam carinhosas, bondosas, inspiradoras e dinâ micas. Era comum vê -las ao
vivo na Internet, recolocando braços e pernas amputados, ressuscitando mortos, retirando
sangue do mar e transformando-o em á gua tã o pura e cristalina que muitas pessoas se
apresentavamparabebê-lasemcorrerriscoalgum.
—Falsos!—pregavaBen-Judá todososdias.—Charlatã es.Impostores.Trapaceiros.Sim,
trata-sedeumpoderverdadeiro,masnã oé opoderdeDeus!Eopoderdoinimigo,dodemô nio.
Nãosedeixemenganar!
Muitaspessoas,porém,eramenganadas.
Os judeus estavam sendo maltratados, perseguidos, torturados e mortos em todos os
continentes. Eram obrigados a des ilar diante das câ meras da CNNCG e acusados falsamente.
Eram traidores, diziam os comentaristas, inimigos do potentado ressurreto, pretensos
usurpadoresdotronododeusvivo.
Nodecorrerdosmeses,apolı́t icadeNovaBabilô niareferenteaosqueaindanã opossuı́am
a marca sofreu uma mudança radical. Nã o se permitia mais que os transgressores da lei
tivessemumaú ltimachance.Ograudetolerâ nciapassouaserzero.Nã ohaviamaisdesculpas.
ParaRayford,amaiorbarbá rieeraaleidevigilâ ncia,quepermitiaaumcidadã oleal,possuidor
da marca, matar qualquer pessoa que fosse encontrada sem ela. Esse ato nã o era considerado
crime,massimenaltecidoerecompensado,exigindo-seapenasqueocidadã olevasseaumdos
centrosdaCGocorpodavítimaencontradosemamarcanatestaounamão.
Mas ai daquele que matasse um cidadã o leal por engano. O assassinato de um
carpathianista leal era punido com a morte, sem direito a julgamento. Se a pessoa nã o
conseguisseapresentarumálibiporterassassinadoumcidadãoleal,eramortaem24horas.
Rayford sentia muita falta de sua famı́lia e dos outros membros do Comando Tribulaçã o,
mas o que era bom para um era bom para todos. Eles haviam se dispersado e mantinham-se
escondidos por uns tempos. Rayford sabia que nã o seria, nem poderia ser, sempre assim. Ele
queriatantoiraSanDiegoquechegavaasonharcomisso.
Opontoaltodeseusdias,alé mdeassistirà saulasdedoutrinabı́blicaedemantercontato
comopessoaldoComandoTribulação,eraamensagemevangelísticaproferidadiariamentepor
um dos dois pregadores. Se, algum tempo atrá s, algué m lhe tivesse perguntado se gostaria de
receber uma dose diá ria de pregaçã o do plano de salvaçã o e desse aos indecisos a chance de
aceitaraCristo,eleteriaditoqueissosetornariamuitocansativo.
Mas todos os dias, Tsion e Chaim, um de cada vez, insistiam em pregar essa mensagem
seguidadeumaaulanormalparaamaioriadaspessoasjá convertidas.E,todososdias,Rayford
seemocionavaaoouvi-la.
Eessaemoçã onã oeraapenascausadaporquealgué merasalvotodososdias—à svezes,
mais de um -, mas també m porque os rebeldes ou indecisos quase sempre se sentiam
angustiados, lutando contra Deus. Rayford maravilhava-se ao ver a batalha espiritual que se
travava, na qual homens e mulheres egoı́stas e pecadores nã o podiam deixar de ouvir a
pregaçãoe,mesmoassim,nãocediam,emborasoubessemqueseriambeneficiados.
Todas as noites, Chaim pedia que os novos crentes se identi icassem e falassem sobre a
vidaquelevaramantesdeseconverter.Essareuniã osempreculminavacomcâ nticos,oraçõ es
ecelebrações.
Certa noite, ainda entusiasmado apó s ter participado de uma dessas reuniõ es, Rayford
resolveuassistiraumaauladadaporNaomi,ajovemespecialistaeminformá tica.Elasedispô s
a dar aulas a qualquer pessoa que desejasse aprender como acessar os vá rios bancos de dados
pararecebernotíciasdomundointeiro.
Enquantoestavaalitentandoaprenderalgumacoisa,RayfordfoichamadoporChaim,que
queriaapresentar-lheumanovaamiga.
Rayford acompanhou Chaim por uns 200 metros. Por todo o caminho, o povo estendia a
mã oparatocarem"Miqué ias",paraabençoá -lo,agradecer-lhe,dizerqueestavaorandoporele
egostandodesualiderança.
— Obrigado, obrigado, obrigado — Chaim dizia, apertando as mã os e tocando no ombro
daspessoasenquantopassava.—LouvadosejaDeus.LouvadosejaoSenhor.QueEleosabençoe.
Finalmente, chegaram a uma á rea descoberta, onde vá rios jovens de nacionalidades e de
culturasdiferentesconversavam.Elesaparentavamtermaisoumenos30anos.
—Sra.Rice?—Chaimchamouemvozbaixa.
Quandoamulhernegraebaixapediulicençaparaafastar-se,osoutrosolharam,curiosos,
aovê-laaproximar-sedeChaimeRayford.
— Eu a conheço, nã o? — disse Rayford, curvando-se para apertar a mã o dela. — Deixemeverseadivinho.Vocêéamigade...não,euavinatelevisão.
—BernadetteRice—eladissecomacentuadosotaquebritânicoeumsorrisoradiante.—
TrabalhocomorepórteremPetra,masnãopertençomaisàCNNCG.
Rayford nã o sabia o que dizer. Entã o, ela estava ali a serviço — ou nã o? — ou para quê ?
ElesorriuparaelaeolhouderelanceparaChaim.
—Elaprópriavailhecontar—disseChaim.
Ostrêssentaram-senaspedras.
—EuestavanoMontedoTemplotrabalhandoparaaCNNCGnodiaemqueMiquéias,isto
é ,oDr.Rosenzweigapareceu.Eunã ooreconheci.Nenhumdenó soreconheceu.Nã oseioque
euteriapensadosesoubessequemeleera.
Muitaspessoassabiam,éclaro,queeleeraoassassinodeCarpathia.
— Mas eu nã o estava sequer pensando nisso quando entrei em cena. Uma mulher
chamadaRiehl,queocupavaafunçãodecabonasForçasPacificadorasdaCG...perdoe-me,mas
eu me lembro de todos os detalhes e falo dessa maneira para poder organizar meus
pensamentos...bem,elainterrompeuareportagemqueeuestavafazendosobreasfamı́liasque
visitavam o Monte do Templo naquele dia. Para dizer a verdade, nã o iquei nem um pouco
satisfeitaquandoelainsistiuemqueRashid,meuoperadordecâ mera,eeupegá ssemosnossas
coisaseaacompanhássemos.Euexigisaberoqueestavaacontecendo.
— Enquanto me arrastava pela praça, ela disse que Rashid e eu terı́amos um raro
privilégiodaliaalgunsinstantes.UmMonitordeMoraldoaltoescalãoestavaprestesaexecutar
umaordemdiretadopotentado.Quandochegamoslá,
umjovemalto,vestidodeacordocomosMM,istoé ,comroupascomuns,estavadiante
deumsenhoridoso,frágilepequenino.Perdoe-me,Dr.Rosenzweig,maséessaalembrançaque
tenhodosenhor.
— Bem, à s vezes as pessoas que nã o sã o jornalistas tê m idé ias diferentes sobre uma
reportagem de grande impacto. Eu nã o sabia se a cena seria exibida ao vivo ou depois de
gravada.OtalMMquerialevaradiantesuamissã o,portantopergunteiaocontrolecentral,que
estavaproduzindoatransmissã o,oqueeudeveriafazer.ElesqueriamsaberquemeraoMMe,
enquantoeuprocuravaobterainformação,ohomeminsistiaparaquerodássemosacena.
— Ele disse que seu nome era Loren Hut, o novochefe dos Monitores de Moral, e que
receberaordemdeCarpathiaparaexecutarotalMiqué iasporeleterserecusadoarecebera
marca e resistido à prisã o. Fiz uma rá pida introduçã o, Rashid focalizou os dois, e a imagem foi
transmitidaaovivopelaCNNCG.
— Você deve lembrar-se de que, naquela é poca, a praga das ú lceras tinha começado a
atormentar todo mundo, e Hut estava sofrendo muito. Ele se contorcia e se coçava, e eu
tambémcomeceiafazeromesmo.Vocêchegouaveraquelacena,capitãoSteele?
—Não,masouvifalar...
—Entãovocêsabeoqueaconteceu.HutatirouemMiquéiasváriasvezesàqueima-roupa
e,comexceçã odoestrondoensurdecedordoestampido,asbalasnã osurtiramnenhumefeito.A
multidã ocomeçouarireaacusarHutdeestarusandobalasdefestim.Elematouumhomem
comumtironocoraçã oparaprovarqueosprojé teiseramverdadeiros.Opovocorreuà procura
de abrigo, e eu me atirei no chã o, morrendo de medo. Em seguida, Carpathia apareceu em
cena. Quando consegui me recompor, saı́ rastejando dali em direçã o à s ilas de aplicaçã o da
marca,sóparadespistarcasoalguémestivessemevigiando.
— Mas segui direto para meu hotel. Eu estava muito feliz por nã o ter decidido aceitar a
marcaaté aqueleinstante.AquelehomemerauminimigodeCarpathiaetinhaumaespé cieda
proteçã osobrenaturalqueeuqueriater.Meuschefespensaramqueeuestivessesofrendocom
as ú lceras, mas nada me impediria de seguir Miqué ias. Assisti a tudo do meu quarto no hotel,
tomei conhecimento da reuniã o em Masada, coloquei um disfarce, dirigi-me para lá e cheguei
aquinumdoshelicópteros.Sórecentementeéqueoreiparasersalva.
—LouvadosejaDeus—disseRayford.—Possosaberporquevocêdemoroutantotempo?
Vocêestavaaquiquandoasbombasforamatiradas.FoiprotegidapelopróprioDeus...
—Comocorpoemchamas!
— Sim! Estou realmente curioso. Qual foi o motivo da demora? Com certeza, você nã o
estavamaisduvidandodeDeus.
—Nã o,dejeitonenhum.Eunã oseicomoexplicar,capitã oSteele.Tudooquepossodizer
é que o inimigo tem um controle muito forte sobre a mente da pessoa enquanto ela nã o se
entrega a Deus. Eu era uma jornalista, pragmá tica e orgulhosa. Queria ter o controle sobre o
meudestino.Tudoparamimprecisavaserprovado.
—Masqueprovamaior...?
—Eusei.Issoaindameconfunde.Achoqueaexplicaçã omaispró ximaestá noversı́c ulo
queoDr.RosenzweigeoDr.Ben-Judá citamfreqü entemente.Comoé mesmo,doutor?Alguma
coisaparecidacomlutacontraacarne?
Chaimassentiucomacabeça.
— "Porque a nossa luta nã o é contra o sangue e a carne, e, sim, contra os Principados e
Potestades,contraosdominadoresdestemundotenebroso,contraasforçasespirituaisdomal,
nasregiõescelestes"[Efésios6.12].
—Éissomesmo!EéporissoquetemosdeusaraarmaduradeDeus,certo?
— "... para que possais resistir no dia mau, e, depois de terdes vencido tudo, permanecer
inabaláveis"[v.13].Amém.
— Gostei muito de ouvir sua histó ria, Sra. Rice — disse Rayford. — A senhora sabe que
meugenroera...
—Sim,sei.ODr.Rosenzweigmecontou.Foiporissoqueeleachouquevocê gostariade
ouvirminhahistória.
RayfordolhouparaChaime,depois,paraBernadette.
—NãomedigamqueBuckaindanãosabedisso.
—Nãopormim—disseChaim.
Elafezummovimentonegativocomacabeça.
— Entã o, se você s me dã o licença... Rayford passou apressado pelo local onde Naomi
estavaterminandosuaauladeinformá tica;emseguida,atravessouaá readasbarracas,ondea
maioria dos jovens preferia dormir, e, depois, por um pequeno acampamento de casas
modularespré-fabricadas.
Elas eram pequenas, mas muito bem construı́das. Haviam sido trazidas por Lionel
Whalum, o novo membro da cooperativa, e montadas por um grupo de voluntá rios que
pareciamterremodeladoapaisagemdePetraquasequedodiaparaanoite.
Esperando que sua estada na cidade de pedra fosse apenas temporá ria, Rayford havia
escolhido uma das menores unidades — mais que su iciente para ele — perto do local onde
Abdullahestavaalojado.Smittygostavadefogueirasaoarlivreeoptaraporumabarraca,mais
oumenosdotamanhoda"casa"deRayford,pertodeumdosacampamentos.
Antesdeentraremsuamoradiatemporária,comespaçosuficienteapenasparasuacama,
seu computador e o equipamento de transmissã o, Rayford olhou para ver se Abdullah ainda
estava acordado. O jordaniano, cujo vulto era visto atravé s da densa fumaça produzida pela
fogueira,acenouparaeleeochamoucomumgesto.
— Vou lhe fazer companhia daqui a uma hora ou pouco mais, meu amigo! — gritou
Rayford.
Ele sentou-se diante de seu computador levando consigo dois frascos de vidro, uma
contendo á gua e outro maná . Nã o havia necessidade de aditivos quı́m icos nem de
armazenamento apropriado para conservar o maná . Ele se estragava da noite para o dia, mas
todas as manhã s havia sempre um suprimento novo e fresco; portanto, economizá -lo era
consideradofaltadeféeproibido.
Rayforddigitouseucó digodeacesso,teclouascoordenadasquelhepermitiamentrarem
contatoemsegurançacomSanDiego,ondeoreló giomarcavadezhorasamenosporcausados
fusoshorários,eescreveu:"LouvadosejaoSenhorpelavidadeDaviHassidedeChangWong".
Eleaguardou.OcomputadordeBuckeChloeemitiriaumsinalparaavisarqueeleestava
tentando estabelecer contato. Assim que um deles teclasse o có digo secreto, as unidades
poderiam comunicar-se. Alé m disso, també m tinham um dispositivo que permitia ver as
imagens. Sensores nas bordas das respectivas telas armazenavam e interpretavam imagens
digitais e as transmitiam de um computador ao outro, portanto eles podiam ver-se na tela, a
menosqueapessoaquechamoutivessedesligadoodispositivo.
Umminutodepois,ChloeapareceunatelacomKenny,de20meses,pulandoemseucolo.
Elatevedeseguraramã odomeninoparaqueelenã omexessenasteclas.Quandoviuosdois,
RayfordsentiuumavontadeimensadeirparaSanDiego.
—Oi,papai—disseChloe.—Digaoiparaovovô,meuamor.
—Vovô!—disseKennyolhandoparaatela.
Rayfordtentouposicionar-semelhorsobaluzeacenouparaomenino.
Kennysorriueabriuefechouamãozinhadiantedatela.
—Estoucomsaudadedevocê,Kenny!
—Saudade!Kennymeninã o!—Kennyergueuasmã osacimadacabeçaecurvouocorpo
paratrás,forçandoChloeasegurá-locomforçaparaimpedirqueelecaíssedeseucolo.
—Vocêéummeninão?—perguntouRayford.
MasKennyjáhaviaperdidoointeresse.Contorceu-seatéqueChloeosoltoudocolo.
—VocêprecisaverKennypessoalmente—disseChloe.
—Tomaraquesejalogo—disseRayford.—Sintofaltadetodosvocês.
Cada um contou suas novidades. Pelo fato de Buck estar ausente, em companhia de
SebastianeReeWoo,RayfordcontouaChloeahistóriadeBernadetteRice.
—Buckvai icaremocionado—eladisse.—Reeestá voltandoparaaChina.Mingainda
nã o levantou nenhuma suspeita. Ela anda por todos os lugares, mas quer sair de lá e trazer a
mãecomela.Talvezdestavezelaconsiga.
—ElesvãoficaremSanDiego?
—Sim.AchoqueMingestáapaixonadaporRee.
—Issonãomesurpreende.Chegueiaconhecê-lonumadesuasviagensparacá.
—Ninguémmecontouisso!
—Elefalamuitodela.Parecepreocupadocomela.Eupenseiquetivessecontadoavocê.
—Nã o.Deveserporqueeu icocuidandoaquidosassuntosdacooperativaamaiorparte
do dia. Está icando cada vez mais difı́c il, papai. Tsion disse alguma coisa sobre a suspensã o da
praga?Ouelasvãoserpermanentes?
—Asanterioresnã oforam.Masadeagora é a que está durando mais. Tsion acha que o
JulgamentodasTaçassobreoslagoseriosestápróximo.Esse,comcerteza,nãoépermanente.
—Não?Comoelesabedisso?
—Eledizquehaverá umjulgamentoposterior,umdaquelesqueprecederá aBatalhade
Armagedom e o Glorioso Aparecimento. E sobre o rio Eufrates. A profecia diz claramente que
suaságuassecarão.
—Issoé umalı́vio,mas,seosrioseoslagosembrevesetransformarememsangueenã o
retornarem ao normal até o Armagedom, nã o sei o que vamos fazer. Será que os mares vã o
voltaraonormalantesqueosrioselagossetransformememsangue?
—Ningué msabe,Chloe.Eoquevaiacontecerseosmaresvoltarematerá guasalgada?
Quantotempolevariaparareabastecê-los?
—Eoquevamosfazercomtodaessamortandade?Só alimpezalevariacemanos.Pelo
menos,poderı́amostercondiçõ esdetrataraá guasalgadaedetransformá -laempotá vel.Seos
lagos e os rios se transformarem em sangue e os mares continuarem na mesma, nã o sei como
alguémterácondiçõesdesobreviver.
— Tsion diz que Deus vai tirar de nosso meio muitas pessoas que tê m a marca da besta,
para que elas nã o possam continuar a evangelizar em prol do demô nio. Acho que Ele deseja
nivelarasdesigualdadesumpoucoantesdaúltimabatalha.
—AtéparecequeEleprecisafazerisso,papai.
—Comovocêestásesentindo,querida?
—Exausta,sóisso.MasnósgostamosmuitodafamíliadeSebastianedoscrentesdaqui.Já
quetemosdepassarporissotudo,omelhorlugarparaestaréaqui.
Já passava bastante da meia-noite em Zhengzhou, e Ming estava com saudades de casa.
Dequecasa,elanã osabia.Nã otinhamaiscasa.QueriaestarcomReeWoo,emboraaté aquele
momento eles só tivessem icado de mã os dadas. Ele veio visitá -la — mais de uma vez —
conformeprometera,eambossetornarambonsamigos,irmãosemCristo.
Mingnã osabiasefaziasentidopensarneleemtermosromâ nticos,já quefaltavamapenas
trê s anos e meio para o Glorioso Aparecimento. Alé m disso, Ree tinha um emprego
terrivelmente perigoso, e quem gostaria de arriscar-se a enviuvar duas vezes em questã o de
poucosanos?Poroutrolado,comoseriaseambossobrevivessem?Elateriadeestudaroqueo
Dr.Ben-Judádiziasobreaspessoascasadasqueviveriamnoreinomilenar.
Emboraestivesseaoladodamã e,Mingnã osesentiaemcasa.Elacompreendiaoidioma,
até mesmo os dialetos mais complicados, por ter sido criada na China. Mas os crentes viviam
emconstantetemor,dormiamemquartoscoletivos,tinhampoucaprivacidadeenuncasabiam
quembateriaàportanacaladadanoite.
Sua mã e parecia em paz, apesar da perda recente do marido, mas contou a Ming que
gostariadetermorridocomele.Emborafosseumacrentenovata,aSra.Wongsemprefoiuma
mulher preocupada por natureza e começou a ter idé ias fatalistas no decorrer das ú ltimas
semanas.Mingtentoupersuadi-laasairfurtivamentedaChinaeairmoraremSanDiegocom
ela,masamulhernã oqueriaouvi-la.Fossecomofosse,aqueleeraseular,eapalavraCalifó rnia
soava-lhe como o nome de um planeta diferente. Ela se preocupava com Chang, com Ming,
ambosfingindotrabalharparaaComunidadeGlobal.
Ming, ainda disfarçada de Chang Chow e vivendo como homem quando estava fora do
abrigo subterrâ neo, estava constantemente à beira do perigo. Seu irmã o se oferecera para
incluı́- la como funcioná ria de alto nı́vel, com direito a fazer parte da folha de pagamento e a
receberosbenefı́c ioslegais.Elarecusou-se,paraprotegeroirmã o,sabendoqueavigilâ nciaem
NovaBabilôniaestavacerrada.Umpoucodedinheirolhepermitiriacompletarodisfarceeviver
com recursos pró prios, mas nã o valeria a pena, porque Chang icaria vulnerá vel no palá cio.
Portanto,elaresolveuviverdaparcaajudaproporcionadapeloscrentes.
Ming tentava manter distâ ncia dos outros homens das Forças Paci icadoras, embora
alguns quisessem aproximar-se dela convidando-a para ir a vá rios lugares com eles. Ming
sempre inventava alguma desculpa. O mais difı́c il de tudo era receber tarefas de pessoas
superiores na hierarquia da CG. Ela ocupara a posiçã o de che ia no Presı́dio de Reabilitaçã o
Feminina da Bé lgica, uma penitenciá ria feminina conhecida pela CG como PRFB. Mas agora,
com uma farda masculina das Forças Paci icadoras, Ming era apenas um peixe pequeno,
recebendoordensdemuitagente.
Isso,pelomenos,lhepermitiateracessoainformaçõ es,eelaconseguiaavisaroscrentes
sobreinvasõeseinvestigaçõesdesurpresa.
ACGlocalhaviaplanejadoumainvasã oà s2horasdedeterminadamadrugada,masdessa
veznã oseriaparaatacaroscrentes,esimumpequenocontingentedemuçulmanosquevivia
em cavernas no extremo nordeste da cidade, por onde o metrô trafegava antes. Ming
surpreendeu-se ao ouvir falar desse grupo, pelo fato de desconhecer que havia outros focos de
resistê nciacontraoCarpathianismoalé mdoschamadosjudaı́stasedegrandepartedosjudeus
ortodoxos.Emumareuniã odastropasdaCGparaplanejaroataqueaosdissidentes,Ming icou
sabendo que aqueles "zelotes" continuavam a ler o Alcorã o, usavam turbantes, escondiam
grandepartedesuapopulaçãofemininaepraticavamosCincoPilaresdoIslamismo.
Elanã oviraningué mcurvando-seemdireçã oaMecacincovezespordia,masoServiço
de Inteligê ncia concluiu que esse grupo ainda seguia aquele ritual reservadamente. També m
faziam donativos — uma contribuiçã o pú blica com a conseqü ente divisã o de recursos, muito
necessários,dequalquermodo,emrazãodoatualclimapolítico.
Nã o se sabia ao certo se esses seguidores do islamismo — mais predominantemente no
oeste da China — ainda jejuavam durante o ramadã . Aparentemente, todos estavam jejuando,
deumaformaououtra,desdequeasá guasdosmaressetransformaramemsangue.També m
nã ohaviamaiscondiçõ esdeiraMecapelomenosumaveznavida,depoisqueaComunidade
GlobaleoCarpathianismoarrasaramacidadesagradadosmuçulmanos.
O pilar da fé dos muçulmanos, que tanto indignava o potentado e, por conseqü ência, os
homensdasForçasPaci icadoraseosMonitoresdeMoraldaComunidadeGlobal,eraoprimeiro
e o mais importante dogma da religiã o islâ mica. Sua pro issã o de fé declarava um Deus
monoteı́sta—"Existeumsó Deus,Alá ..."—eexaltavaofundadordareligiã o—"...eMaomé é
seuprofeta".
Evidentemente,aquilorepresentavaumtapanacaradoCarpathianismo,quetambémera
monoteísta.Osmuçulmanosnãoadoravamídolos.Emsuapráticadefé,nãohaviaimagens,mas
elestambémeramobrigadosaadoraraimagemdeCarpathia.
— Essa escolha deles vai acabar dentro de meia hora — disse à s tropas o lı́der local, um
homem corpulento chamado Tung. — Vamos destruir aquele pequeno encrave com armas
pesadasepreparem-separaatirarimediatamenteemqualquerpessoaquenã otenhaamarca.
Mas desejamos e esperamos que eles nã o resistam. Recebi ordens da che ia do palá cio da
ComunidadeGlobaldizendoquecertapessoadomaisaltoescalã odesejausaressagentecomo
exemplosvivos.
—Nó sosconduziremosaocentrodeaplicaçã odamarcadelealdade,que icaacercade
seisquarteirõ esdoesconderijodeles,elá elespassarã oanoitedecidindooquefarã odemanhã .
Assim que o sol lançar seus raios na linda está tua de jade do Supremo Potentado Carpathia,
esses in ié is se ajoelharã o perante ela, prontos para receber a marca de lealdade, ou serã o
executados diante do pú blico. Poré m, eles nã o sabem que serã o executados de qualquer
maneira,independentementedesuadecisão.ACNNCGplanejatransmitiracenaaovivo.
TodoopessoaldaCGpertodeMingirrompeuemgritoseaplausos.Emseguida,formaram
ila para receber as armas; a de Ming era um lançador de granadas, que ela nã o usaria de
maneiraalguma.Seaquilosignificasseofimdesuavida,paciência.
Rayford encontrou Abdullah aquecendo-se perto da fogueira. Smitty, que se tornara mais
expressivo e sentimental ao longo dos ú ltimos meses, levantou-se rapidamente e abraçou
Rayford.
—Parecequejáestounocéu,meuamigo—eledisse.
—Sintofaltadosvô os,masadorotodosessesensinamentos.Eacomida!Quemdiriaquea
mesmarefeiçãoservidatrêsvezesaodiamedeixariaansiosoporreceberapróxima?
Rayfordnã oentendiacomoAbdullahconseguiasentar-se,tã oconfortavelmente,emcima
das pernas cruzadas. Parecia normal e fá cil, mas as juntas de Rayford estalavam, e ele gemia
quando se abaixava e sentia cã ibras enquanto permanecia sentado. Preferia sentar-se no chã o,
apoiado em uma das mã os e com as pernas esticadas para o outro lado. Abdullah se divertia
comaquilo.
— Você s, ocidentais, orgulham-se tanto de praticar exercı́c ios, mas você tem as juntas
duras.
—Achoquevocêestáacostumadoasentar-seemtapetesmágicos—disseRayford.
Abdullahriu.
—EugostariaqueMacestivesseaqui.Elemeinspiraapensaremcoisascomo...nã osei
bemcomosediz.Respostanapontadalíngua?Éesseonomequeeledá?
—Achoquesim.Macéimprevisível.Vocêoviuhoje?
—Claro.EleeAlbiesempremeolhamdecimaabaixoquandochegamaquiedizemque
estouengordandodetantocomermaná .Elesqueremqueeupasseafazerpartedeseupequeno
grupodepilotos.Logoessediavaichegar,assimespero.Porenquanto,osanciã osachamqueé
muitoperigoso,masmeupalpiteéquevocêestáansiosoporiremboradaqui.
—Maisdoqueimagina—disseRayford.—Emboraeuestejasatisfeitoemsubmeter-me
àautoridadedaqui,aindatenhomuitasperguntasafazer.
—Eutambém!Deusestáprotegendodemaneirasobrenaturalaquelesqueentramesaem
daquideaviã o,apesardetodososesforçosdoinimigo.Achoqueissodeveriasersu icientepara
queaCGparassedegastarbalasemísseis.Elesacertaramalguémoualgumacoisa?
Rayfordsacudiuacabeça.
— Até agora, nã o. E as histó rias? Você ouviu as histó rias? Abdullah jogou a cabeça para
trásecontemplouasestrelas.
—Tenhoouvido,capitã o.Querofazerpartedeuma.QueroqueoSenhormeprotejamais
umavezdoperigoedamorteenviandoumdeseusvisitantesespeciais.Você selembradovô o
paracá ,quandoaCGestavaatirandodiretamenteemnossaaeronave?Pareciaqueestá vamos
vivendonostemposbı́blicos.EumesenticomoDanielnacovadosleõ es.Viosmı́sseischegando
esabiaqueestá vamosbemnamira,maselessimplesmentepassarampornó s.Capitã o,oquea
CGdevepensarquandovêissoaconteceremplenaluzdosolquasetodososdias?
CAPÍTULO16
Ming marchava pelas ruas em companhia de outros soldados da CG rumo ao extremo
nordeste de Zhengzhou. Havia poucos cidadã os fora de casa, mas sabia-se que a adoraçã o e os
períodosdepreleçãodosmuçulmanoseramrealizadosaessahoradamanhã.
Tung, o lı́der daCG, dividiu o grupo armado de 30 soldados das Forças Paci icadoras e
enviou-os à s quatro entradas do antigo metrô , que limitavam a á rea ocupada pelos
muçulmanos.Aparentemente,elesnuncahaviamsidoincomodadosapó sameia-noite,porqueo
localestavaguardadoapenasporumvigiaemcadaentrada,no imdasescadas.Osvigiasforam
dominados com rapidez e em silê ncio, e nenhum tinha a marca de lealdade para exibir à CG.
ElesforamlevadosparacimapordoishomensdaCG,queosconduziramaocentrodeaplicaçã o
damarca.
O restante dos soldados invadiu silenciosamente a reuniã o de cerca de quatro dú z ias de
homens e mulheres. Os muçulmanos imediatamente perceberam que a segurança havia sido
dominadaequenãoseriapossíveloferecerresistência.
Elessimplesmentepermaneceramnomesmolugar,ouvindoaspalavrasdeumoradordo
pró prio grupo. Tung havia previsto essa possibilidade e instruı́ra seu pessoal para aguardar em
silêncio,afimdereunirprovasdetraiçãoededeslealdadeaoCarpathianismo.
O orador tomou conhecimento rapidamente da situaçã o e começou a encerrar seu
discurso.Maselenãoseintimidouefoiatéofim,olhandodevezemquandoparaseuscaptores.
—Portanto—eledisse-,consideramosDeusmaisqueocriadordetodasascoisas.Eleé
onisciente, um Deus de justiça, de amor e de perdã o, todo-poderoso. Acreditamos que ele
revelouoAlcorã oanossoprofetaparanosguiarà justiçaeà verdade.Nó ssomosaobra-prima
de sua criaçã o, mas també m somos fracos e egoı́stas e, à s vezes, facilmente tentados por
Satanásaesquecernossopropósitonestavida.
ElefezumapausaeolhouparaopessoaldaCGmaisumavez.
— Sabemos que a palavraIslã signi ica submissã o. E todos nó s que nos submetermos a
Deusequenosarrependermosdenossospecadosganharemosoparaísonofinal.Aquelesquenão
fizeremissosofrerãonoinferno.
A seguir, os muçulmanos curvaram-se em direçã o a Meca e começaram a orar — todos
menostrê s.Elessesentaramnosfundosdorecintoe,quandoTungdeuumpassoà frentepara
exigirqueacerimô niafosseinterrompida,umdostrê slevantou-se,apontouparaeleelevouo
dedoindicadoraoslábios.
—Espere—eledisseemvozbaixa,mascomtanta irmezadecará tere,peloqueMing
pôdenotar,comtantaconvicçãoqueTungparou.
Seuscomandadosolharamparaeleeparaohomemempé.
Os muçulmanos levantaram a cabeça e voltaram a sentar-se. Os trê s homens
atravessaramorecintoecaminharamemdireçãoaolocalondeooradorhaviafalado.
—Estareuniã oaindanã oterminou—disseumdeles.Mingestavaperplexa.Ostrê snã o
portavamarmas.
Apesar de usarem trajes semelhantes aos dos muçulmanos, nã o se vestiam exatamente
como eles. Usavam sandá lias e mantos, sem turbantes. Tinham barba e cabelo relativamente
curtos. Nã o pareciam asiá ticos nem orientais. Ming nã o foi capaz de adivinhar a nacionalidade
deles, nem pela aparê ncia, nem pelo sotaque do orador. Ele falava alto o su iciente para ser
ouvido,mascomtomdevoztãofirmequeatraiuaatençãodetodos.
— Meu nome é Cristó vã o. Meus companheiros sã o Naum e Calebe. Estamos visitando
você semnomedoú nicoeverdadeiroDeusdeAbraã o,deIsaqueedeJacó , oSantodeIsraele
Pai de nosso Senhor e Salvador Jesus, o Messias. Nã o viemos para discutir religiã o, mas para
pregaroCristoquefoicrucificado,mortoesepultado,queressuscitouapóstrêsdiaseagoraestá
assentadoàdestradeDeus,oPai.
De repente, Cristó vã o falou com voz tã o alta que muitas pessoas taparam os ouvidos.
Mesmoassim,Mingachouqueelesconseguiamouvircadasílaba.
—TemeiaDeusedaigló riaaEle,porqueahoradeseujulgamentochegou!Adoraiaquele
quefezocéueaterra,omareasfontesdeágua!
Cristó vã opareciaestaraguardandoquesuaspalavrasse ixassemnamentedetodos.Em
seguida,prosseguiuemvozmaisbaixa:
— Cristo morreu por nossos pecados, de acordo com as Escrituras Sagradas; Ele foi
sepultadoeressuscitouaoterceirodia,deacordocomasEscriturasSagradas.Sepregamosque
Cristo ressuscitou, como algué m entre vó s pode dizer que nã o existe ressurreiçã o? — Se nã o
existeressurreiçã o,entã oCristonã oressuscitou.E,seCristonã oressuscitou,nossapregaçã oé
vã , e a fé em Cristo també m é vã . Testemunhamos que Deus ressuscitou Cristo. Se Cristo nã o
ressuscitou,oshomenseasmulherescontinuammortosemseuspecados.
Ming procurou ver o rosto dos muçulmanos. Ela esperava que eles se levantassem para
protestar, mas eles nã o izeram nenhuma objeçã o, talvez por estarem diante de seus captores
ou por terem entendido que essa pregaçã o també m desa iava o Carpathianismo. Todos
pareciamhipnotizadosdiantedaaudá ciadeumestranhoquedesconsideravaascrençasdelese
pregavaasua.
Cristóvãodeuumpassoparatrás,eNaumapresentou-se.
— Babilô nia cairá — ele disse. — A grande cidade certamente cairá , porque ela obrigou
todas as naçõ es a beberem do furor de sua prostituiçã o. Ela estabeleceu um sistema de falsa
esperança,nãoapenasemtermosdereligiosidade,mastambémeconômicosegovernamentais.
— O Senhor é Deus zeloso e vingador. Ele executará vingança contra seus adversá rios e
reservaindignaçãoparaseusinimigos.
—OSenhoré tardioemirar-seegrandeempoder.Eleterá seucaminhonatormentae
natempestade.Asnuvenssãoopódosseuspés.
O pessoal da CG parecia apavorado. Ming olhou para Tung, cujos lá bios tremiam. Ele
segurousuaarmacommaisforça,masnãosaiudolugar.
Naumprosseguiu:
— Deus repreende o mar e o transforma em sangue. Ele pode secar todos os rios. Os
montestrememperanteEle,eascolinassederretem,eaterraqueimaemsuapresença;sim,o
mundoetodososquenelehabitam.
—Quempoderásuportarasuaindignação?Quemresistiráaofurordesuaira?Asuacólera
seráderramadacomofogo,easrochasserãodemolidasporEle.
— O Senhor é bom, uma fortaleza no dia da angú stia. O Senhor conhece os que nele
con iam. Mas com inundaçã o transbordante acabará de vez com o lugar que se opõ e a Ele, e
comtrevasperseguiráosseusinimigos.
Todososqueestavamnoesconderijopermaneceramimó veis,sentadosouempé ,comos
braços para baixo, encostados junto ao corpo. Parecia que estavam recolhidos dentro de si
mesmos, assustados diante do pronunciamento de Naum. Quando ele deu um passo para trá s,
Calebeapresentou-se,mas,emvezdedirigir-seaosmuçulmanos,virou-seeencarouTung.
—Sealgué madorarabestaesuaimagemerecebersuamarcanatestaounamã o,essa
pessoabeberá dovinhodairadeDeus,queé derramadanocá licedesuaindignaçã o.Aqueleque
receber a marca será atormentado com fogo e enxofre na presença dos santos anjos e na
presençadoCordeiro,queéCristo,oMessias.
—Afumaçadeseutormentosubirápelosséculosdosséculos,enãoterádescanso,nemde
dianemdenoite,aquelequeadorarabestaesuaimagemereceberamarcadeseunome.
Aprincı́pio,ningué msemovimentou.Emseguida,umhomemdaCG,depoisoutroemais
outro saı́ram correndo do esconderijo, subindo as escadas de dois em dois degraus. Tung gritou
comeles,chamou-ospelonome,ameaçou-os.Masoutrosdois,depoismaistrêsosseguiram.
Osmuçulmanoscontinuavamimó veis.Finalmente,algunsselevantaram,eoshomensda
CG olharam para Tung, sem saber o que fazer. Ele levantou sua arma na direçã o dos trê s
desconhecidos,mas,aparentemente,estavaimpossibilitadodefalar.Quandorecobrouavoz,ele
disse:
—Paraocentro!
A CG começou a cercar os muçulmanos, que, com exceçã o de meia dú z ia, deixaram-se
serconduzidosescadaacima.Tungfezummovimentocomacabeçaparadoisdeseushomens
indicando que eles deveriam ajudá -lo a agrupar os ú ltimos seis. Mas, assim que os homens se
aproximaram,Cristóvãoinclinou-senadireçãodaCGedisse:
—Aindanãoéchegadaahoradeles.
Ming protelou um pouco e deu um jeito para que fosse a ú ltima a sair. Ela andaria
vagarosamente atrá s do grupo principal. Era evidente que Cristó vã o, Naum e Calebe estavam
conversandoeorandocomosseisquerestaram.CristóvãodisseaTung:
—Estesaquicomparecerãoquandochegarahoradeles.
E,paratotalespantodeMing,olíderdaCGfezumsinalparaqueosúltimosdoisguardaso
acompanhassemetodossaíram.
Minghavia-secomovidoatalpontoquenã onotouseostrê sdesconhecidostinhamoselo
dos crentes na testa. Deveriam ter, nã o? Ela gostaria de saber, mas nã o esperava vê -los
novamente.
Enquanto o grupo assustado de muçulmanos era conduzido pelas ruas rumo ao centro de
aplicaçãodamarcadelealdade,Mingretardouseuspassos.
Apesar de sua pequena estatura, ela podia vê -los a alguns quarteirõ es de distâ ncia.
Enormes holofotes iluminavam o centro, mas ningué m tomara conhecimento da invasã o, e
havia poucos espectadores ali — apenas os homens da CG que dominaram os quatro vigias
muçulmanos. Poré m, a menos que seus olhos a tivessem enganado, Ming avistou outros trê s
desconhecidos, de cabelos e de barba aparados, trajando mantos, mas sem turbantes. Eles se
pareciammuitocomosoutrostrêsquetinhamencontradohaviapouco.
Poré m,assimqueaCGeosmuçulmanosseaproximaramdeles,começaramaapontá -los
eaconversarentresi.Eramostrê sdeantes!Elessepostaramnoinı́c ioda ila,semfazercaso
dosgritosdosfuncionáriosdaCGquelhesdiziamparaafastar-sedali.
Quando os muçulmanos foram conduzidos para a ila, Ming conseguiu ver os trê s mais de
perto.Elesnã otinhamoselodoscrentesnatesta!Elanã osabiaoquepensar.Seriamrebeldes,
impostoresouoquê?
Tungaproximou-sedelesempunhandoseurifle.
—Ondeestãoosoutros?Vamospersegui-losevocêsserãoresponsáveis...
—Elescomparecerãoquandochegarahoradeles—disseCristóvãonovamente.
Porummotivoououtro,Tungsecalou.
Os muçulmanos foram instruı́dos a posicionar-se. Quando Tung perguntou quantos
receberiam a marca de lealdade a Carpathia, cerca da metade levantou a mã o. Os outros
resmungarameargumentaramcomoshomensdaCG.
Tungriu.
— Nã o faz diferença nenhuma! Você s vê em? Demoraram demais. Foram descobertos só
hojecedo,depoisdemesesapó sovencimentodoprazoparareceberamarca.Você smorrerã o
comosdemais,quandoodiacomeçaraclarear.
Elevirou-separaosoutros.
—Equantosdevocêsvãooptarpelaguilhotina,comosehouvesseescolha?
Orestantedosmuçulmanoslevantouamão.Mingnotouquenenhumdelestinhaoselodos
crentesnatesta.Cristóvãodirigiu-seaeles.
— Resistam à tentaçã o de optar pela guilhotina sem aceitar a Cristo, o Messias. Você s
morrerãoemvão.
— Morreremos por Alá ! -. gritou um deles, e os outros levantaram as mã os fechadas em
sinalderebeldia.
—Vocêsmorrerãodamesmaforma—disseTung.
A atençã o dele foi desviada para a rua, e todos se viraram para ver os ú ltimos seis
muçulmanoscaminhando,compassos irmes,emdireçã oaocentro.MingnotouqueTungnã o
esperava vê -los novamente. Quando chegaram, examinaram o local e seguiram diretamente
paraaáreaquelevavaàsguilhotinas.
— Ainda bem que você s sã o tã o decididos — disse Tung. — Mas só abriremos o local
quandoodiaclarear.Aí,então,vocêsserãoestrelasdaTV,eopúblicoveráoshow,aovivo.
Cristó vã o, Naum e Calebe sentaram-se diante dos indecisos, cada um conversando com
um grupo pequeno, suplicando, explicando, insistindo que aceitassem a Cristo antes que fosse
tardedemais.Finalmente,Tungresolveucumprirseudever.
— Basta! — ele gritou. — Saiam daqui! Essa gente fez sua escolha há muito tempo, e o
castigoseráaplicadodemanhã.Foradaqui,já!
Ostrêsnãolhederamatenção,masTungnãoseintimidou.
—Dentrodecincominutos,vouabrirfogocontravocê seinstruirmeushomensafazerem
omesmo.
Mingentrouempâ nico.Elanã oatirarianaqueleshomensdeDeus!Será quepoderia ingir,
esconder-se,passardespercebida?
Tung aguardou alguns instantes e levantou sua arma. Ele estava a pouco menos de dois
metrosdacabeçadeCristó vã oquandodestravouodispositivodesegurançaeapertouogatilho,
gritando:
—SoldadosdasForçasPacificadoras,atirem!
Ming posicionou-se e ingiu estar preparando seu lançador de granada. Certamente Tung
nã oesperavaqueelacolocasseumexplosivonomeiodopovo,dosmuçulmanos,daCG.Masela
se deu conta de que era a ú nica que estava tomando uma atitude. Os demais pareciam
paralisados. O rosto de Tung estava contorcido em uma expressã o de raiva, como se ele
estivesseprestesaexplodiracabeçadealguém.
Mingtentouparar,masdesequilibrou-seetropeçounopé deumhomemaseulado,quase
caindoemcimadoqueestavaaoseulado.Elatemiaterseevidenciadodemais;eraaú nicaque
nãoestavasobopoderdoshomenssantos.
MasCristóvãodirigiu-seaela.
—Nãotemas,queridairmã.
Pronto!Elahaviasidodescoberta!Agoratodossaberiamqueelanãoeraumhomem!
—Deusestácontigo—disseCristóvão.—Ninguémpodenosouvireninguémselembrará
doqueaconteceuaqui.Elessó selembrarã odequeaofensacometidacontraosporta-vozesde
Deusfoiemvã o.Sê corajosaeanima-te.TeuPaicelestialcuidadeti,enã overá samorteantes
queseuFilhoretornemaisumavez.
Ming sentiu-se resplandecer da cabeça aos pé s. Uma onda de calor passou por seu corpo
dando-lheâ nimo,forçaecoragem.Elaestavacuriosa.SeCristó vã oconheciaosplanosdeDeus,
será queelepoderiacontar-lhemaisalgumacoisa?Mingnã oconseguiaabriraboca,apesarde
termuitasperguntasafazer.
Cristóvãorespondeu,mesmosemtersidoperguntado.
— Tua mã e també m nã o verá a morte antes do glorioso aparecimento do Rei dos reis.
Mas tu te separará s dela brevemente. Retornará s a teus amigos, e nem todos permanecerã o
aquinaterraatéofim.
Ming queria perguntar quem, mas continuava impossibilitada de falar. Seus braços e
pernas estavam pesados e imó veis. Ela só conseguia icar olhando para Cristó vã o. Parecia que
elaestavasorrindo.Naverdade,todooseucorposorria.
Cristó vã o levantou-se, e Naum e Calebe aproximaram-se dele. Ela notou que eles foram
icando cada vez maiores até se elevarem acima de todos os que estavam ali. Cristó vã o
estendeuamã oabertaparaMing,maselanã oconseguiupegá -laetemeuquetodooseucorpo
fosseenvolvidoporaquelamão.
—"Ora"—eledisse-,"oDeusdapaz,quetornouatrazerdentreosmortosaJesusnosso
Senhor, o grande Pastor das ovelhas, pelo sangue da eterna aliança, vos aperfeiçoe em todo
bem,paracumprirdesasuavontade,operandoemvó soqueé agradá veldiantedele,porJesus
Cristo,aquemsejaaglóriaparatodoosempre"[Hebreus13.20].
Os trê s desapareceram e, de repente, o dia amanheceu. O sol estava brilhante e quente.
Tung e seus homens, com semblantes sé rios, agiam como se soubessem que estavam sendo
filmados.Elesatravessaramaaglomeraçãodecuriososedemuçulmanos.
Todasasvı́t imasdainvasã oestavamna iladaguilhotina.Parasurpresaegrandealegria
de Ming, pelo menos 25 estampavam o selo dos crentes na testa. No rosto de cada um havia
uma expressã o de certeza e uma paz tã o grande que todos disseram que aceitariam as
conseqüênciasdesuadecisão.
SomentequaseseismesesdepoisfoiqueChangcomeçouasentirqueapressã odiminuı́ra
no palá cio, pelo menos um pouco. Ele tentava alguma coisa nova todos os dias, bisbilhotando
aquieali,veri icandoodiscodememó riaqueDavidHassidimplantaraocultamentenosistema.
Tudooqueaconteceranopalá ciodesdequeChangcomeçouatrabalhardisfarçadoencontravase nos registros do computador. Ele nã o icava mais ouvindo nenhuma conversa ao vivo, mas
podia veri icar o calendá rio em dias que ocorreram eventos especı́ icos e, entã o, buscar o que
haviaficadogravadopelaescutaclandestinaesaberoquesepassaraatrásdasportas.
Finalmente, sua irmã havia fugido da China. Sua mã e insistira para que Ming retornasse
aosEstadosUnidosNorte-americanoscomseujovemamigo.
ElapreferiacontinuarnaChina.MingdisseaChangquenã ocontouà mã eapromessade
Cristó vã odequenenhumadelasveriaamorteantesdoGloriosoAparecimento,mas"amamã e
pareceestarvivendocomosequisessequeissoacontecesse—chegaraofim".
Ming contou a Chang como tinha sido maravilhoso subir a bordo com Ree, voar o dia
inteiro, passar com facilidade pelos bloqueios da CG e chegar a San Diego. Finalmente, ela se
livrou da farda masculina das Forças Paci icadoras da CG e deixou seus cabelos crescerem...
voltouasermulher.
—PorcausadeRee?—Changlheperguntoufalandoemumtelefoneseguro.
—Porminhacausa!—elarespondeu.—Bem,talvezumpoucoporcausadele.
—Comovocêsestãoindo?
—Nãoédasuaconta.
—Claroqueé.
—Possodizerqueestamosiniciandoumaespé ciederelacionamento—eladisse-,masé
difı́c il concentrar-se nisso, porque ele viaja quase que o tempo todo. O pessoal daqui brinca
comigo,atéocapitãoSteele.MasReeeeunãoestamosnamorando.
—Eleaindanãobeijouvocê?
—Eunãodisseisso.
—Issoestámeparecendonamoro.
—Foiumbeijodedespedidaantesdaú ltimaviagemdeleeumbeijoquandoelevoltou.O
beijofoidadonafrentedopessoal,portantonãofoinadaromântico.
ChangquissabercomoRayfordestavasesentindodepoisdeter-semudadomaisumavez.
—Temsidodifı́c ilparaele,Chang.Eleestá emocionadoporvoltaravivercomafamı́lia,
é claro,evocê deveriavê -lobrincandocomoneto!Maseleaindasesenteisoladodorestante
doComandoTribulação,mesmodepoisqueSebastianinstalouequipamentosaquiquepermitem
a ele, e a todos nó s, continuar trabalhando como antes. Mas é deprimente viver debaixo da
terra.EseiqueelesentefaltadasmuitasvantagensquetinhaemPetra.
Para Chang, a ú nica pessoa que mais se bene iciava com o que havia em Petra era
Abdullah Smith. Ele voltara a voar e fazia viagens de ida e volta ao local, muitas delas em
companhia de seus velhos amigos Mac e Albie. Mas preferiu, e eles concordaram, continuar a
moraremPetra.
Ele se tornou especialista em informá tica e, freqü entemente, divertia o restante do
Comando Tribulaçã o com as histó rias de suas ú ltimas travessuras, muitas ocorridas ali mesmo
em Petra. Ele havia acabado de enviar um longo relató rio a Rayford, com có pia para os
companheiros. Escreveu em inglê s para que todos pudessem entender, mas ainda estava
aprendendooidioma.Orelatóriodiziaoseguinte:
Ontemdetarde,depoisdomeio-dia,tivemosalgunsmomentosespeciaisaquiquandooDr.
Ben-Judá nos ensinou a viver no Espı́rito. Esse Espı́rito é o Espı́rito Santo, que eu conhecia das
aulasanterioresdele,masnãoconheciamuitobem.
Capitã oSteele,você deveselembrardeque,poucoantesdevocê partir,estavahavendo
alguns problemas aqui. Nada muito importante, mas as pessoas estavam icando nervosas uma
comaoutraereclamandoaosanciãossobreistoesobreaquilo.Vocêsabequemresolveutudoe
fezopovovoltaraviverempaz?Nã o,nã ofoioDr.Ben-Judá .FoiChaim.Sim,é verdade.Elese
tornouumlı́dersá bioemuitoqueridinhoportodosdaqui.Meucorretorortográ icosublinhoua
palavraqueridinhoemvermelho,maséissoqueeleé,comcerteza.
Hoje,oDr.Ben-Judá falouarespeitodeChaim,quemuitaspessoasaquiaindagostamde
chamar de Miqué ias. A passagem bı́blica que ele escolheu foi Efé sios 5.18-21. Ela fala que
devemosnosencherdoEspı́rito,terumcâ nticonocoraçã o(gostomuitodisso),dargraçaspor
tudo e nos sujeitarmos uns aos outros. Ele disse que essas sã o as caracterı́sticas de Chaim, e,
pelareaçãodaspessoas,achoqueelesconcordaramcommuitoentusiasmo.
Ele també m se referiu a Gá latas 5.22-23, que relaciona o fruto do Espı́rito. Sei que você
conhece esse texto, capitã o Steele, mas, como minhas mensagens a você també m vã o para
meu diá rio pessoal, quero mencionar suas partes, uma a uma: amor, alegria, paz,
longanimidade,benignidade,bondade,fidelidade,mansidão,domíniopróprio.
Nã oseiquantoavocê ,masmuitasdessascoisasnã ofaziampartedaminhanatureza,da
minha cultura, da minha educaçã o. Mas elas fazem parte da personalidade de Chaim,
transformando-onograndelíderdaqui.
Masapalestrafoiótima,capitãoSteele.Fizmuitasanotações.ODr.Ben-Judádisseque,se
formos capazes de aprender a andar no Espı́rito, será mais fá cil atravessar os dois anos e meio
que temos pela frente. Ele disse que, alé m das nove caracterı́sticas que devemos ter, e do
coraçãoalegre,agradecidoesubmisso,sóvamossaberquetemosoEspíritoquandorecebermos
o poder de falar de Cristo a outras pessoas. Ele extraiu esse ensinamento de Atos 1.8, quando
Jesusdisseaosseusdiscı́pulosqueelesteriampoderdepoisqueoEspı́ritoSantodescessesobre
elesequeseriamsuastestemunhasatéosconfinsdaterra.
Acredite ou nã o, temos de ser testemunhas até mesmo aqui. Ainda existem alguns entre
nó s que nã o aceitaram Cristo. O problema agora é que existem boatos de operadores de
milagres no Neguev, que ica perto daqui. Muitas pessoas contaram que icaram sabendo disso
pelosamigosdefora.AlgumasdisseramqueleramumareportagemnarevistaAVerdade,doSr.
Williams.Seiqueelaspodemterlido,porqueestá escritonarevista,maseledeixoumuitoclaro
que essa gente nã o passa de impostores, charlatã es. Mesmo que consigam fazer algumas
mágicas,foramcontratadosporCarpathiaenãomerecemconfiança.
Masvocê podeacreditar?Há gruposaquiqueplanejamsairparaouviressagente!Eudevo
teroEspı́rito,capitã oSteele,porqueeu—evocê sabequesoumuitotı́m ido—estoupregando
contraisso,pedindoaopovoquenãosaiadaqui.
Você já ouviu falar que o chefe do Carpathianismo, aquele que conhecemos como falso
profeta,está desa iandooDr.Ben-Judá paraumdebatenaTV?Nã opossoacreditarqueeleseja
tã oidiota!Será queelenã oselembradequeoDr.Ben-Judá atraiuaatençã odomundoquando
faloupelaprimeiraveznaTVqueJesuseraoMessias?Será queelenã osabeporqueoDr.BenJudátemtantosseguidores?
NenhumapessoaquesaibaraciocinarpermitiriaqueLeonFortunatoentrasseemPetra,é
claro, e nenhum de nó s aconselharia o Dr. Ben-Judá a ir a algum lugar aprovado pela
Comunidade Global. Se isso acontecer, Tsion deve ser ilmado aqui, e Leon quem sabe onde?
Francamente,esperoqueaCGsejaidiotaosu icienteparalevaressahistó riaadianteequeeles
tenhamacoragemdetransmitiraovivo,semcensura.
Eu continuo emocionado por poder servir a Deus sob sua divina proteçã o. E, embora isso
aconteçaquasetodasasvezesquechegoousaiodaqui,nuncamecansodeveraCGameaçar,
advertireaté mesmoatirarparacimatentandonosatingir.Elesperdemseusmı́sseisebalase
nã o nos acertam nem à queima-roupa. Muitos deles podem ter mudado de idé ia sobre Deus e
sobreNicolaeCarpathia,sóqueagoraétardedemais.
Rayford sempre gostava de receber notı́c ias de Smitty. Havia um ar de juventude e de
inocê ncia nele que nã o tinha nada a ver com sua idade. Smitty tinha 30 e poucos anos, mas
Rayfordoamavacomoaumfilho.
Eleestavadesligandoseucomputador,quandoChloebateunaporta.Elaestavasozinha.
—Vocêtemumminuto?—elaperguntou.
—Paravocê?Estábrincando?Ondeestãoseumaridoeseufilho?
—FazendooqueKennymaisgosta.
—Lutandonochão—disseRayford.
— Exatamente. Vou lhe contar uma coisa, papai. Desde antes de Kenny nascer, estou
tentandodescobriroquesigni icalidarcomumacriançadedoisanos.Dizemqueé umaidade
muitodifícil.
—Nã odevesertã ocomplicadaassim,é ?Elevai icarumpoucoindisciplinadoporterde
brincarotempotododentrodecasa.
—Nó svamossuperarisso.Abrincadeiradelutacomopaiamenizaumpoucoaagitaçã o
dele. Kenny é um menino, é assim mesmo. Mas, espere aı́, vim até aqui para termos uma
conversaprofissional.
—Sério?
—Precisodeumfavor.Vocêestámedevendoalgumacoisa?
— Vamos fazer de conta que lhe devo muitas coisas. Você vai me dar uma tarefa. Na
cooperativa,acho.
—Ah,sim.Dentrodetrê smeses,vaihaverumadenossasmaiorestrocasdemercadorias,
mastemdeserfeitaporviaaé rea,eprecisamosdeumatripulaçã oextra.Eugostariaquevocê
tomassecontadoladoocidental.Macvaicuidardoladooriental.
—Étãograndeassim?Soutodoouvidos.
— Estou trabalhando nisso, pechinchando daqui e dali, mas as duas partes tê m estoque
demais.Elesnã onecessitamdetudooquetê m,eestã oprontosparafazerumapermuta.Você
sabiaqueaáguasetornoutãovaliosaquantootrigo?
—Claro.
— Nossos amigos argentinos estã o dispostos a provar isso. Conseguimos um contingente,
dirigido por um tal de Luı́s Arturo, em Gobernador Gregores, no rio Chico. Eles colheram
milharesdealqueiresdetrigo,masestã opreocupadoscomopoucotempoquenosrestaecom
o tamanho da operaçã o. E precisam muito de á gua. O rio Chico está cada vez mais poluı́do, e
elesdesconfiamqueaCGestáportrásdisso.
—Elestêmtrigoeprecisamdeágua.Quemtemágua?
—Olugarmaisimprováveldomundo.Bem,talveznãosejatãoimprovávelquantoomeio
do deserto, mas nã o é um local onde a gente imagina encontrar á gua engarrafada. E,
provavelmente,amaiorigrejaclandestinaforadaAmérica.OgrupodeBihari,emRihandDam.
—Vocênãoestádizendoque...
—Estou.
—Índia?
—Exatamente.Elestê mumvolumedeá guaigualà quantidadedetrigodosargentinose
estãodispostosapermutar.
—Vocêvaiprecisarmaisdoqueumatripulaçãoextra,querida.
—Comoassim?Precisamosdeaviõ esgrandes.AlbieconseguiuumnaTurquia,vejasó , e
está fazendoumaadaptaçã onapartetraseiradaaeronaveparaacomodarocarregamentode
água.
—Devefuncionartambémparaotrigo.
— O problema, papai, é que nã o podemos esperar. Temos de fazer isso quase que
simultaneamente. O trigo vai ter de ser enviado à India enquanto a á gua estiver a caminho.
AlbieeMacvãopegarAbdullahetrazerBiharicomeles.Eugostariaquevocêescolhesseoutras
trêspessoasdosEstados...
—Bem,BuckeGeorge...
—NãoestouincluindoBuckdestavez,sevocênãoseimportar.Nãomeolhedessejeito.É
apenasumaintuição.
—Trata-sedeumamissãodegrandeperigo?Obrigadopormeconvidar!
—Denada.Eusó achoqueKennyprecisadopainestemomento,efrancamente...talvez
euestejasendoegoísta,prejudicandoalguém,qualquercoisa...masachoqueelenãotemtempo
paraafastar-sedeAVerdade.
Rayfordrecostou-senacadeiraeolhouparaoteto.
—GeorgeeRee,sevocêpuderdispordeles.
—Vamosterdeencontrartempoparacuidardosroteirosdeles,claro.
— Antes de tudo, eu conversaria com Whalum. E, se ele conseguir um aviã o tã o grande
assim,vaiterdetrazê-loatéaquiparanospegareatuarcomonossoquartopiloto.
—Gosteidaidéia—disseChloe.—IssovaitirarLeahdasminhascostas.
—ElaaindaquerumacaronaparaPetra?
—Sim,oquenã oé tã omauassim.Equeaindanã otivemostempoderesolverocaso,e
achoqueelaestácuidandodoassuntopessoalmente.
—Quesurpresa,não?
—Bem,nó sdoissabemosoqueelaé capazdefazer,eeugostariadeobterapermissã o
de Tsion antes de mandá -la para lá . Ela pode começar a querer aparecer, ou melhor, fazer
sombraparaele.
Quandochegouomomentodepô remprá ticaoprojeto,LionelWhalumpô s-seacaminho
deSanDiegosemLeah,quenãoficounemumpoucofeliz.
CAPÍTULO17
— Se os seus má gicos podem realizar todos esses truques, Leon, por que eles nã o fazem
comquetodoosanguedosmaresvolteaseráguasalgada?
Changescutavaaconversapormeiodefonesdeouvido.
— Excelê ncia, isso seria exigir demais deles. O senhor deve admitir que eles tê m feito
maravilhasemproldaComunidadeGlobal.
— O nú m ero das maravilhas que eles fazem é igual ao nú m ero de maldades praticadas
pelosjudaístas,eesseéoúnicoplacarqueconta!
— Divindade, nã o quero contrariá -lo, mas o senhor está ciente de que os discı́pulos
Carpathianosdomundointeirotêmressuscitadomortos,nãoéverdade?
— Eume ressuscitei, Leon. Esses truquezinhos de levantar corpos malcheirosos dos
tú m ulos, só para impressionar o povo e emocionar os parentes, nã o se comparam com os dos
judaístas,certo?
— Transformar bastõ es de madeira em serpentes? Acho impressionante. Transformar a
á guaemsangueevice-versa,depoistransformará guaemvinho?Penseiqueosenhorgostasse
dessestruques.
— Quero pessoas convertidas, homem! Quero mentes modi icadas! Quando vai ser o seu
debatecomBen-JudánaTV?
—Napróximasemana.
—Evocêestápreparado?
—Maisdoquenunca,Majestade.
—Essehomemémuitoesperto,Leon.
—Maisdoqueosenhor,meuReiRessurreto?
— E claro que nã o. Mas você precisa ser habilidoso. Precisa levar a melhor! E, enquanto
estiver fazendo isso, quero que diga à queles covardes de Petra que estamos planejando uma
tardedemilagresnaquelemesmodia,bempertodali.
—Senhor,eugostariadetestaraáreaantes.
—Testaraárea?Testaraárea?
— Perdoe-me, Excelê ncia, mas o lugar que o senhor me designou como palco, para
produziroespetáculo,ficamuitopertodolocalondeperdemosnossasarmasetropasterrestres,
e nã o fomos capazes de abater as aeronaves deles. E tem mais, meu senhor: atiramos duas
bombaseum...
—Tudobem,euseioqueaconteceulá ,Leon!Quemnã osabe?!Podetestarolugar,mas
queroqueessagentegostedele.Querovê -lassaindopelaSiq[viaprincipaldeentradaesaı́dade
Petra] e reunindo-se para assistir aonosso evento, só para variar um pouco. E, quando elas
viremoqueminhacriaturapodefazer,começaremosapresenciarmudançasemmassa,deum
campoparaooutro.Vocêsabequemeuqueroparaesseshow,não?
—Omelhor?Querodizer,umdeseus...
—Exatamente.NossoobjetivoétransformarPetraemumacidadefantasma!
—Oh,senhor,eu...
—Desdequandovocê passouaserpessimista,Leon?Nó s0chamamosdeReverendı́ssimo
PaidoCarpathianismo,eeutenhomeapresentadocomoumdeusvivo,ressurreto,compoderes
recebidosdoalto.Osseuspoderesnã opassamdeartifı́c iosdevendedor,Leon.Lembreaopovoo
que o potentado deles tem a oferecer e logo todos estarã o fazendo ila para ganhar. E temos
algoespecialparaeles,vocêsabe.
—Algoespecial,senhor?
— Sim! Estamos preparando algo especial! Somente esta semana, qualquer pessoa de
Petrapoderá receberamarcadelealdadesemserpunidapornã oterseapresentadodentrodo
prazo, que expirou há muito tempo. Pense na in luê ncia que elas poderã o exercer sobre outros
queestiveremnessasituação.
—Ofatormedotemfuncionadorazoavelmentebem,potentado.
—Bem,temosdeadmitirqueaé pocadacampanhadoSr.Simpatiajá passou.Acabouo
tempodepreocupaçõ escomminhaimagem.Seaté agoraopovonã osabequemsouedoque
sou capaz, é tarde demais para eles; mas, se dermos um golpe do outro lado, se tivermos
sucessosobreamaldiçã odosanguequetomoucontadosmares,issosó poderá ajudar.Equero
que você se saia bem perante Ben-Judá , Leon. Você é culto e piedoso e está pedindo que eles
adorem um deus vivo, um deus que respira, que está aqui e que nã o é mudo. Nã o é necessá rio
terfé paraacreditarnadivindadedealgué mqueé vistonaTVtodososdias.Aescolhadeveria
serfácil,conveniente,lógica.
—Claro,Majestade,eeuoretratareidessamaneira.
Lionel Whalum era um homem negro, de estrutura compacta. Tinha pouco menos de
l,80mdealturaepesavacercade90quilos.Usavaó c ulosetinhacabeloslevementegrisalhos,e
era um piloto habilitado a manejar aviõ es de qualquer tamanho. Ele deixou uma carga de
madeiranapistaclandestinadeSanDiegoe,dentrodeumahora,já estavavoandonovamente,
comGeorgeeReenobancotraseiroeRayfordnobancodoco-piloto.
— Chloe me falou muito sobre você — disse Rayford -, mas apenas pro issionalmente.
Achoquejáconheçoumpoucodesuahistória,mascomovocêseconverteu?
—Euadoroquandomefazemessapergunta—disseWhalum.—Umdosgrandesmotivos
paraeutersidodeixadoparatrástevemuitoavercomomodocomoeuvivia.
Sei que nã o há nada errado em ter sucesso e em ganhar dinheiro, mas, no meu caso, e
estou falando exclusivamente de mim, isso me deixou cego e surdo a tudo e a todos. Eu nã o
olhavaparaoslados.Nã omeinterpretemal.Eueraumbomsujeito.Minhaesposatambé mera
umaboapessoa.Aindaé .Vivı́amosdentrodeumcı́rculofechado,tı́nhamoscoisasbonitas,uma
casalinda.Avidaeraboa.
—Costumá vamosfreqü entarigreja.Crescinaigreja,mas,paraserfranco,elamedeixava
umpoucoconstrangido.
Eu achava que minha mã e e minhas tias eram um pouco sentimentais e exageradas. E,
quandochegouaé pocadeentenderqualeraosigni icadodaigreja,eujá tinhaidadesu iciente
paranã oquererqueosoutrossoubessemqueeuerafreqü entadorassı́duo.DepoisqueFeliciae
eunoscasamos,ı́amosà igrejadeChicagoapenasdevezemquando.E,quandoı́amos,acoisa
era muito super icial, se é que você entende o que quero dizer. Tudo muito certinho, discreto,
frio. Se minha famı́lia visitasse aquela igreja, diria que ela estava morta e que Jesus nunca
estiveraali.Eudiriaqueelaerarequintadaerespeitável.
— A igreja que Felicia e eu passamos a freqü entar no bairro de classe mé dia em que
moramos era do mesmo jeito. Encaixava-se perfeitamente em nosso estilo de vida. Nó s nos
vestı́amosparaoscultosdomesmomodoqueparaotrabalhoouparaeventossociais.Vı́amos
alipessoasqueconhecı́amosedequemgostá vamos.Nuncahouveumpastorquetivessegritado
nemnosofendidoenquantofalavanopúlpito.Ninguémnoschamavadepecadoresnemdiziaque
precisávamosterumavidamaisregrada.
— Por outro lado, nossos ilhos seguiram em outra direçã o. Tı́nhamos uma garota, um
menino e uma menina mais nova. Eles foram para a faculdade etodos passaram a freqü entar
uma igreja mais ou menos igual à dos meus tempos de infâ ncia. Eles nos escreviam.
Imploravam para que fô ssemos salvos. Perguntavam por que nó s nã o os levá vamos à igreja
quandoeleseramcrianças.Tenhodeadmitirqueaquilomedeixavaatordoado.
—Vocêpodequerersaberseaquilometocou,semudouminhavida.Dejeitonenhum.Um
dia, um vizinho nosso nos convidou para um estudo bı́blico. Se ele nã o fosse quem era, jamais
terı́amos aceitado. Mas ele era um cara legal, o tipo de homem que conseguiu fazer grande
sucesso no ramo imobiliá rio. A reuniã o em sua casa era informal, como se estivé ssemos num
campodegolfe.Sempressões.Semdiscussões.ElesapenasliamaBíbliaecomentavamotexto.
Os estudos bı́blicos eram feitos, alternadamente, em seis lares diferentes. Incluı́m os nossa casa
nalista,éclaro,enuncafaltamosàsreuniões.
—Eu icavaumpoucoconfusonessasreuniõ es.Depoisdealgumtempo,elescomeçaram
a incluir oraçõ es nos estudos bı́blicos. Ningué m era convidado nem forçado a orar, portanto
Felicia e eu nã o orá vamos. Mas as pessoas começaram a fazer pedidos de oraçã o, por suas
famı́liasouporsimesmas,porenfermidadeseaté mesmopornegó c ios.Devezemquando,eu
mencionavaumououtropedidodeoração,mascontinuavaemmeupropósitodenãoorar.
— Um dia, o sujeito que nos convidou pela primeira vez perguntou se poderia conversar
conosco apó s a reuniã o. Quando icamos a só s, ele se abriu conosco. A esposa dele estava
presente, mas nã o abriu a boca. Ele quis saber como era a nossa vida espiritual. Achei que ele
estivesseinteressadoemsaberqueigrejanó sfreqü entá vamos,eeulhedissequalera.Masnã o
setratavadisso.Elenosexplicouoquesigni icavanascerdenovo.Eujá tinhaouvidofalardisso.
Já sabia.Aquilomesoavacomoumpoucodeexagero,só isso.Eudisseaelequeagradeciaseu
interesseepediqueorassepornó s.Sabia,porexperiê nciapró pria,queumpedidodeoraçã oera
oquebastava.Maseleachouqueeuqueriaumaoraçãonaquelemomentoeoroupornós.
— Ele nã o foi insistente. Apenas um pouco indiscreto. Eu o perdoei. Entendi os
sentimentos dele. Quando a gente se sente tã o forte e tã o emocionado a respeito de alguma
coisa,é normalquererrepartirissocomosamigosevizinhos.Foioqueeupensei,e imdepapo.
Nadatãoimportante.
— Dois dias depois, milhõ es de pessoas do mundo inteiro desapareceram. Você está
preparadoparaoqueeuvoudizer?Inclusivetodasaspessoasdaqueleestudobı́blico,menosnó s.
Enossostrêsfilhostambémdesapareceram.
—Sefomossalvos?Fomossalvosem,digamos,dezminutos.
Abdullahestavatã oeufó ricoarespeitodaoperaçã oquerealizariacomseusvelhosamigos
queseaprontouvá riosdiasantesparaaviagem.Elenã osabiaaté quepontoseutrabalhocomo
piloto seria necessá rio nessa missã o, mas nã o se importava com isso. Bastava estar na
companhiadeMaceAlbie.Paraele,ofatodeaCooperativaInternacionaldeMercadoriaster
conseguido uma permuta tã o grande, apesar da crescente perseguiçã o aos crentes no mundo
inteiro,eraapenasmaisumaprovadasoberaniadeDeus.
QuandosoubequeRayfordeosoutrostrê sdeSanDiegojá haviamlevantadovô o,elemal
conseguiu conter-se. Eles voariam direto à Argentina para pegar uma carga de trigo, o que
signi icava que Mac e Albie em breve estariam a caminho para apanhá -lo. Os dois estavam
sendo constantemente observados e seguidos, portanto o plano era levar alguns suprimentos a
Petra e passar a noite ali, só partindo para a India no dia seguinte. E, se tudo funcionasse de
acordocomoplano,ostrê s,maisoquartocomponenteindiano,Bihari,estariamvoandoparaa
ArgentinaaomesmotempoemqueosamericanosestivessemvindodeláparaaÍndia.
Abdullah sentia-se entusiasmado desde que passara a morar em Petra. Ele cantava mais
alto,acompanhandoaimensacongregaçã o,etentavaouvircomatençã oquandoTsioneChaim
falavamdaBíblia.AqueleeraodiaemqueocentrodetecnologiadeinformáticaeTVdacidade
emitiria um sinal de Tsion à sede da Comunidade Global no palá cio de Nova Babilô nia. Um
enorme monitor em Petra receberia a transmissã o da CG exibindo a imagem de Leon
Fortunato.AbdullahacreditavaqueLeonnãotinhaidéiadadificuldadequeteriaaoenfrentarum
homem tã o erudito quanto Tsion — especialmente considerando-se que Tsion era um homem
honradoeíntegro.
No inı́c io da tarde, Abdullah escalou as montanhas de pedra e avistou, de um dos lugares
altos,apistaaé reaquehaviasidoconstruı́daapenasparapousoedecolagemdasaeronavesem
Petra. Quando Mac e Albie chegassem, Abdullah levaria um helicó ptero até a extremidade da
pistaeostransportariaparadentrodacidade.
Enquanto descia lentamente procurando alguma coisa para distrair-se até a hora do
grande debate, ele foi surpreendido ao ver mais uma concentraçã o de milhares de pessoas.
Chaim e Tsion tentavam acalmá -las. Estariam ali para ver a transmissã o ou haveria algum
problema?Quandoseaproximou,percebeuqueváriascentenasnãotinhamoselodoscrentesna
testa. Acotovelando-se, tentavam ocupar os lugares da frente para assistir ao debate, porque,
conformeumadelasgritou,assimqueterminasse,sairiamdePetradurantealgumashoraspara
ouviroutroorador.
— Ele estará aqui perto, e muita gente acredita que ele é o Cristo. Jesus voltou à terra
pararealizarmilagreseexplicarofuturo!
— Por favor! — Chaim gritava. — Você s nã o podem fazer isso! Nã o sabem que estã o
sendoenganados?Quemespalhouessanotı́c iafoioreimalignodestemundoeseufalsoprofeta.
Permaneçamaquiparasuasegurança.ConfiemnoSenhor!
—Você ocupaosegundolugarnocomando!—interpeloualgué m.—Seolı́dernã opedir
paraficarmos,porquenãopoderemosir?
—Euestoulhespedindo—Tsioncomeçouadizer,masChaimointerrompeu.
—Porquevocê sperturbamamentedestehomemdeDeusnodiaemqueelefoiungidoe
chamadoadebatercomofalsoprofeta?Você sestã osendousadospelodemô nioparaprovocar
destruiçãoaqui.
Para grande tristeza de Abdullah, ele notou que alguns dissidentes insurgiram-se contra
Tsioneagruparam-seaoredordeleedeChaim,dizendo:
—Vocêsseachamimportantesdemais.Porquesecolocamacimadacongregação?
Tsion cobriu lentamente o rosto com as mã os, ajoelhou-se e abaixou o corpo em direçã o
aochão.Emseguida,levantouacabeçaedisse:
— O Senhor conhece quem pertence a Ele e quem é santo. Por que você s todos se
reuniramaquiparafalarcontraoSenhor?EporquemurmuramcontraChaim?
Tsionchamoudoisrebeldesedirigiu-seaeles:
—Porfavor,voltemaojuízonormaleajudem-mealutarcontraessainsensatez!
Maselesdisseram:
—Nã ovamos icaraseulado.Porquevocê nostiroudenossaterra,denossoslares,onde
havia abundâ ncia, e nos trouxe para este lugar rochoso, onde só temos pã o para comer e á gua
parabeber,eporqueseconsiderapríncipesobrenós?
AbdullahnuncatinhavistoTsiontãoabalado.TsionclamouaDeus:
— Senhor, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem. Eu nunca me considerei
superioraelesnemexiginada,anãoserqueelesterespeitassem.
Depois,prosseguiu:
—Deusestá dizendoamimeaChaimquenosafastemosdevocê sparanoslivrarmosda
iradele.
Muitosdelesseprostrarameclamaram:
— Ó Deus, Deus de todos os povos, devemos morrer por causa do pecado de alguns?
Imputarásessaculpasobrenós?
Tsiondirigiu-seatodaacongregação:
—Sevocê snã oconcordamcomesseshomensperversos,melhorseafastaremdeles,para
quenã osejamconsumidospelosseuspecados.Deagoraemdiante,queroquetodossaibamque
o Senhor me enviou para realizar todas essas obras; eu nã o as realizo por interesse pró prio. Se
esses homens izerem o que bem entenderem e Deus os castigar com a morte, entã o todos
entenderãoqueelesprovocaramoSenhor.
Assim que terminou de falar, a terra sob os pé s dos rebeldes abriu-se e os engoliu. Eles
caíramnoburacogritandoegemendo,enquantoaterraoscobria,etodospereceram.
Milharesdepessoasaoredordalifugiramaoouvirosclamoresvindosdebaixodaterra.
—Vamoscorrer!—elasdiziam.—Vamoscorrer,senãoaterratambémvainosengolir!
Abdullah,porém,ouviumuitagenteresmungandoedizendo:
— Tsion e Miqué ias mataram essas pessoas. Vamos continuar com nosso plano de sair
destelugarparaouvirohomemquedizserCristo.
Abdullahtentouaproximar-sedeTsioneChaimparaconsolá-los,masouviuTsiondizer:
— Senhor, nós oramos pela redenção dos que icaram. Poupa-os de tua ira para que
possamosconvencê-losdetuasverdades.
Nessemeiotempo,Chang icoumaisousado.Alé mdeentrarclandestinamentenosistema
daCGparamonitorarograndedebateentreTsioneLeon,eletambé mestavapreparadopara
passarporcimadocontroledeNovaBabilô nia.Changsecansaratantodeouviraspropagandas
dos mensageiros especiais de Leon e de suas "Feiras de Milagres" que, quando viu que Tsion
estavafalandoaopovodePetrapoucoantesdoinı́c iododebate,eledeuumjeitodelevá -loao
arantesdahora.
Tsion estava se dirigindo a vá rias centenas de pessoas dizendo que deveriam abandonar
seusplanosdesairdePetraeiraodesertoparaouvirocharlatãoquesediziaseroCristo.Assim
quepô sTsionnoar,Changmudouaescutaclandestinaparaoescritó riodeCarpathia,a imde
ouvirsuareaçãoindignada.
Tsionestavadizendo:
— Eu peço a todos que orem durante a transmissã o, para que o Senhor me dê sua
sabedoria e suas palavras. E quanto aos que ainda planejam sair deste lugar seguro, quero
renovar meu apelo para que nã o façam isso e que nã o se exponham icando vulnerá veis diante
dodemô nio.DeixemqueaComunidadeGlobal,oanticristoeseufalsoprofetafaçama irmaçõ es
ridículassobreosfalsosoperadoresdemilagres.Nãocaiamnaarmadilhadeles.
Carpathiadeuumgrito:
— O que está havendo?Queremos que essa gente compareça, ouça e seja persuadida!
Tiremessehomemdoar!
Tsionprosseguia:
— O Messias advertiu seus discı́pulos sobre isso. Ele lhes disse: "Levantar-se-ã o muitos
falsos profetas e enganarã o a muitos. E, por se multiplicar a iniqü idade, o amor se esfriará de
quase todos. Aquele, poré m, que perseverar até o im, esse será salvo. E será pregado este
evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as naçõ es" [Mateus 24.11-14].
"Entã osealgué mvosdisser:EisaquioCristo!ou:Ei-loali!nã oacrediteis;porquesurgirã ofalsos
cristosefalsosprofetasoperandograndessinaiseprodı́giosparaenganar,sepossı́vel,ospró prios
eleitos"[vv.23-24]."Portanto,sevosdisserem:Eisqueeleestá nodeserto!,nã osaiais:Ou:Ei-lo
nointeriordacasa!,nãoacrediteis"[v.26].
Empé ,nomeiodemaisoumenosummilhã odepessoasemPetra,AbdullahemocionouseaoverqueTsionjá estavanoarfalandocontraosmilharesdefalsoscristosquesurgiamem
todososlugares.ElesdiziamterrecebidopoderesdeCarpathiaedolı́derdoCarpathianismo,o
reverendo Fortunato. Pregavam heresias e, mesmo assim, multidõ es eram arrebanhadas por
eles.
A voz de uma mulher de Nova Babilô nia, do centro de controle da CNNCG, ressoou nos
murosdepedra.
— Dr. Ben-Judá , por favor, aguarde um momento enquanto transferimos a transmissã o
paranossosestú dios,ondeoreverendı́ssimoPaiFortunatooesperaparadarinı́c ioaumdebate
respeitoso.
—Obrigado,senhora—disseTsion-,mas,emvezdeaguardarenquantovocê stomamas
providê ncias para levar ao ar o debate, quero dizer que nã o reconheço o Sr. Fortunato como
reverendoemuitomenoscomoreverendíssimo
oupai.
Fortunato aparecia na metade da tela paramentado com manto e chapé u, ambos de
veludo, e franjas como ornamento. Ele estava atrá s de um requintado pú lpito de madeira
entalhada,masficouclaroqueestavasentado.Seusorrisopareciatotalmentesincero.
— Saudaçõ es, Dr. Ben-Judá , meu estimado oponente. Ouvi suas palavras e lamento o
senhor ter preferido, como sempre, iniciar um debate, supostamente cordial, com um ataque
muitoagressivo.Nã ovourebaixar-meegostariaapenasdedar-lheasboas-vindasedesejar-lhe
felicidades.
Ele fez uma pausa, e Tsion nã o esboçou reaçã o alguma. Depois de alguns segundos de
silêncio,Tsiondisse:
—Chegouaminhavezdefalar?DevoiniciarapresentandoprovasdequeJesusé oCristo,
oMessias,oFilhodoDeusvivo...
— Nã o! — Era a voz da mediadora, a mulher da central de transmissõ es. — Aquilo foi
apenasumasaudação,e,seosenhorpreferirdesconsiderá-la,poderemoscomeçar.
— Posso, entã o, fazer uma pergunta — disse Tsion -, já que estamos sendo tã o formais?
Existealgumaregradizendoqueé permitidoaomediadoremitirumaopiniã opessoalarespeito
das declaraçõ es de um dos debatedores, como, por exemplo, concluir que minha
desconsideraçãoàsaudaçãodeuminimigofoiumatodegrosseria?
—Podemosiniciar,senhor?—elaperguntou.—OreverendoFortunatotemapalavra.
—Minhapremissaé simples—Leoncomeçouadizer,olhandodiretamenteparaalente
dacâmera.
Abdullahestavaatônito.ElesempreconsiderouFortunatoumaespéciedefanfarrão.Maso
homem cuja imagem aparecia na tela, apesar de nã o enganar Abdullah, parecia tã o bondoso e
amorosoqueaquilolhedavacredibilidadeentreosmenosavisados.
—EuproclamoNicolaeCarpathia,queressuscitoudosmortos,comooú nicoeverdadeiro
deus, digno de adoraçã o e salvador da humanidade — prosseguiu Leon. — Foi ele quem se
levantou por ocasiã o da maior calamidade da histó ria do mundo e quem uniu a comunidade
global em paz, harmonia e amor. O senhor a irma que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus e que
també m é Deus, o que nã o faz sentido e nã o pode ser provado. Com base nessa a irmaçã o, o
senhor e seus seguidores adoram um homem que foi, sem dú vida, muito espiritual, muito
brilhante, talvez iluminado, mas que agora está morto. Se ele está vivo e é todo-poderoso,
conformevocêsdizem,euodesafioamemataraquimesmoondeestou.
—Fazeisso,Senhor,—orouAbdullah.—Oh,Deus,revela-tenesteinstante.
—Salve,Carpathia—disseLeon,aindasorrindo-,nossoreiesenhorressurreto!
Aparentemente,Leonpretendiacontinuar,masTsionassumiuapalavra.
— Espero que o senhor nos poupe do resto dessa cantilena escrita por um egó latra que
mata aqueles que discordam dele. Eu enalteço Jesus, o Cristo, o Messias, totalmente Deus e
totalmente homem, nascido de uma virgem, o perfeito cordeiro que se dispô s a ser sacri icado
pelospecadosdomundointeiro.SeElefosseapenasumhomem,suamortesacri icaiteriasido
humana, e nó s, que cremos nele, estarı́amos perdidos. Poré m, as Escrituras Sagradas provam
queElefoitudooquedisseser.Seunascimentofoiprofetizadocentenas,oumelhor,milharesde
anos antes, e tudo foi cumprido nos mı́nimos detalhes. Ele pró prio cumpriu, pelo menos, 109
profeciasisoladasedistintasqueprovamqueéoMessias.
— A singularidade e a genialidade do cristianismo estã o no fato de que o parto virginal
permitiuao ilhounigê nitodeDeusidenti icar-secomossereshumanos,semabrirmã odesua
natureza divina e santa. Assim, Ele pô de morrer pelos pecados do mundo inteiro. O Pai o
ressuscitou apó s trê s dias, e isso prova que Deus icou satisfeito com seu sacrifı́c io por nossos
pecados.
—Alé mdisso,descobri,emmeusexaustivosestudosdasSagradasEscrituras,maisde170
profeciasfeitasporJesusapenasnosquatroEvangelhos.Muitasjá foramcumpridas,garantindo
que aquelas relacionadas a eventos futuros també m serã o cumpridas. Somente o pró prio Deus
poderia escrever a histó ria por antecipaçã o, uma prova extraordiná ria da divindade de Jesus
CristoedanaturezasobrenaturaldeDeus.
Fortunatocontra-atacou:
— Mas nó ssabemos que nosso rei e potentado ressuscitou, porque vimos o evento com
nossospró priosolhos.Seexistealgué memqualquerlugardestemundoqueviuJesusressuscitar,
quefaleagoraoucale-separasempre.Onde
Ele está ? Onde está esse tal Filho de Deus, esse homem dos milagres, esse rei, esse
Salvador da humanidade? Se o seu Jesus é quem diz ser, por que o senhor está escondido no
desertoevivendodepã oeá gua?Odeusdestemundovivenumpalá cioeconcedeboasdá divas
atodososqueoadoram.
Tsiondesa iouLeonaadmitironú m erodemortesporguilhotina,aadmitirqueastropas
terrestres e armas de guerra foram engolidas pela terra do lado de fora de Petra, que duas
bombas incendiá rias e um mı́ssil mortal se abateram sobre Petra com força total, mas que
ninguémfoiferidoenenhumaestruturafoidanificada.Tsionprosseguiu:
—Osenhortambé mnã ovaiadmitirqueoServiçodeSegurançaeasForçasPaci icadoras
da Comunidade Global gastaram milhõ es de nicks para atacar todo o trâ nsito para fora e para
dentro deste lugar, e que nenhuma aeronave, nenhum piloto, nenhum voluntá rio sofreu um
arranhãosequer?
Leon enalteceu Carpathia pelas reconstruçõ es que fez ao redor do mundo e
complementou:
—Aquelesquemorremnaguilhotinaoptaramporessetipodemorte.Nicolaenã odeseja
queninguémpereça,masquetodoslhesejamleaisecomprometidoscomele.
— Mas, senhor, a populaçã o mundial foi reduzida à metade, os mares estã o mortos por
causadapragadosangueprofetizadanaBı́bliaeenviadaporDeus.Apesardisso,oscrentes,os
ilhosdeDeus,pelomenosaquelesquesobreviveramà criminosaperseguiçã ofeitapelohomem
queosenhorentronizoucomodeus,recebemá guaealimentodocé u,nã oapenasaqui,masem
muitoslugaresdomundo.
Leon continuou calmo e persuasivo, determinado a elogiar Carpathia. Em determinado
momento,eleafrontouos"judeusdesleais,dosquaisosenhorfazparte,Dr.Ben-Judá".
—Osenhordizissodemaneirapejorativa,Sr.Fortunato,mas,mesmoassim,euaceitoo
tı́t ulocommuitahonra.Aceito,comamaisprofundahumildade,fazerpartedopovoescolhido
de Deus. De fato, a Bı́blia inteira é o testamento de seu plano para nó s ao longo dos tempos, e
estáprovandoisso,paraqueomundointeirovejaenquantonósdoisdialogamos.
— Mas você nã o faz parte daqueles que mataram Jesus? — inquiriu Fortunato, sorrindo,
comoseestivesseemposiçãodeigualdadecomoagressor.
—Aocontrá rio—respondeuTsion-,Jesustambé merajudeu,comoosenhorbemsabe.E
averdadeé queamortedeCristofoideresponsabilidadedosgentios.Eleapresentou-sediante
deumjuizgentio,esoldadosgentiosocrucificaram.
—Ah,houveumaofensacontraEledapartedeIsrael,umaofensacomaqualanaçã oe
seupovodevemarcar.NolivrodoAntigoTestamentochamadoZacarias,capı́t ulo12,versı́c ulo
10, há a seguinte profecia: "E sobre a casa de Davi, e sobre os habitantes de Jerusalé m,
derramareioespı́ritodegraçaedesú plicas;olharã oparamim,aquemtraspassaram;pranteá lo-ãocomoquempranteiaporumunigênito."
—IsraeldeveconfessarumpecadoespecíficocometidoportodaanaçãocontraoMessias
antesderecebermosabê nçã o.EmOsé ias5.15,Deusdiz:"Ireievoltareiparaomeulugar,até
que se reconheçam culpados e busquem a minha face; estando eles angustiados, cedo me
buscarão."
— Qual foi a culpa? Rejeitar que Jesus é o Messias. Nó s nos arrependemos disso e
imploramosporsuavolta.Elevoltará novamenteeestabelecerá seureinoaquinaterra,enã o
apenaseu,mastambé mapró priaPalavradeDeuspredizaruı́nadodonomalignodestemundo
quandoaquelereinoforestabelecido.
— Bem — disse Leon -, obrigado pela fascinante liçã o de histó ria. Mas eu me alegro
porque omeu senhor e rei está vivo e bem, e eu o vejo e converso com ele todos os dias.
Obrigadoportersidoumadversáriorápidoedigno.
—Osenhordizquesouumadversá riorá pidoedigno,masnã orespondeuà sa irmaçõ ese
acusaçõesquefiz—disseTsion.
— E — prosseguiu Leon — eu gostaria de saudar os inú m eros cidadã os da Comunidade
Global que residem com o senhor temporariamente e os convido a desfrutar os benefı́c ios e
privilé giosdomundoaquifora.Acreditoquemuitosirã oaoencontrodeumdenossosprofetas,
mestreseoperadoresdemilagresquandoeleministraremsuaáreadaquiamenosdeumahora.
Ele...
Tsioninterrompeu:
— A Bı́blia nos diz que muitos farsantes se apresentarã o neste mundo, que eles nã o
confessamqueJesusCristoveioaomundoemformahumana.Quemfazissoé umenganadore
umanticristo.
—Seosenhorpermitirqueeuconclua...
—"TodoaquelequeultrapassaadoutrinadeCristoenelanã opermanece,nã otemDeus;
oquepermanecenadoutrina,essetemassimoPai,comooFilho.Sealgué mvemterconvosco
enã otrazestadoutrina,nã oorecebaisemcasa,nemlhedeisasboas-vindas.Porquantoaquele
quelhedáboas-vindasfaz-secúmplicedassuasobrasmás"[2João9,10,11].
— Muito bem, o senhor já mencionou todos esses cansativos versı́c ulos da Bı́blia. Eu me
contentoemagradecer-lhee...
— Já que o senhor me fez aparecer em um programa de TV de â mbito internacional, Sr.
Fortunato, sinto-me na obrigaçã o de pregar o evangelho de Cristo e de dizer palavras das
EscriturasSagradas.ABíbliadizqueaPalavranãovoltarávazia,portantoeugostariadecitar...
Mas Tsion foi tirado do ar, e grande parte da multidã o em Petra aplaudiu sua
apresentação.Contudo,ainsistentefacçãorebelde,mesmodepoisdeterouvidotudooqueoDr.
Ben-Judádisse,começouasairdali.
—Nó svamosembora—gritarammuitosdelesquandoforamconfrontadospelamaioria,
queimploravaparaquenãosaíssem.
Tsiongritou:
—"Sedesó briosevigilantes.Odiabo,vossoadversá rio,andaemderredor,comoleã oque
rugeprocurandoalguémparadevorar"[1Pedro5.8].
— Temos anistia! — gritou um deles. — Ningué m vai ser punido por nã o ter recebido a
marcadalealdadedepoisdoprazo,queterminouhámuitotempo!
Abdullah nã o conseguia compreender. Certamente aquelas pessoas deveriam estar entre
asquedemoraramdemaisparaconsiderarasa irmaçõ esdeCristo.Ocoraçã odelasdeviaestar
endurecido,porquenãohavialógicanessetipodecomportamento.
Ele foi correndo buscar os binó c ulos que recebeu no ú ltimo embarque da cooperativa.
Subiu novamente a um lugar alto para observar a saı́da daquelas pessoas atravé s do Siq e sua
caminhada de mais de trê s quilô m etros em direçã o ao local onde a Comunidade Global já
instalaraumaplataforma.
CAPÍTULO18
Macaprenderaanã otomarconhecimentodosavisosdaCGquandosobrevoava,orestrito
espaço aé reo acima do Neguev. Os avisos eram emitidos por rá dio, e a CG enviava aviõ es de
reconhecimento,chegandoatentarimpedi-lodevoar.Muitasvezes,osaviõ esameaçadoresda
CG voavam perto demais, a ponto de deixar entrever o rosto dos pilotos. Mac se lembrava de
que, nas primeiras vezes, eles demonstraram determinaçã o no semblante. Posteriormente,
quandoseusri leserraramosalvossemexplicaçã o,elespareceramaterrorizados.Quandoseus
mı́sseis,compoderdeperseguirfontesdecalor,encontraramosalvosmasnã oosatingiram,a
CGtevederecuarparaqueelesprópriosnãofossemosalvos.
Hoje,elesjá tinhamfeitotodasastı́picastramó iasdecostume:avisopelorá dio,vô oslado
a lado, disparos, mı́sseis. Quando Mac pô de ver o rosto dos pilotos inimigos, eles tinham uma
expressã o de té dio ou, na melhor das hipó t eses, de resignaçã o. Pareciam tã o perplexos quanto
os co-pilotos, imaginando por que a CG continuava a gastar equipamentos, muniçõ es e ogivas
tãovaliosos.
MacolhouparaAlbie,eambossacudiramacabeça.
—Maisumdia,maisumaentrega—disseAlbie.
—Eununcavouacharquevaidurarparasempre—disseMac.—Estoufelizporqueesses
milagresnãodependemdeumavidapura.
—Vocêtemumavidapura.
—Nãoporméritopróprio,meuamigo.
Enquanto eles sobrevoavam o deserto em direçã o à pista de pouso em Petra, Mac olhou
para a imensa aeronave de Nova Babilô nia de que Chang se apropriara. Ela estava parada na
extremidadedapista,enorme,totalmenteexposta.
—Comovocêexplicaisso?—Macperguntou.
— Deus deve estar cegando esses caras. A gente pode vê -la a mais de um quilô m etro de
distância,talvezmais.
—Vejaali—disseAlbie.
Quasequediretamenteabaixodeles,umafiladecentenasdepessoasserpenteavapeloSiq,
ocaminhodeumquilô m etroemeiodeacessoaPetra.Elasseguiamemdireçã oaumaespé cie
de palco instalado no meio do deserto. Quando focalizou a pista e começou a descer, Mac
avistou o helicó ptero saindo de Petra indo ao encontro deles. Dali, Abdullah os levaria para
dentrodacidade.
—VocêachaqueSmittyvaiquererveressacoisadeperto?—Albieperguntou.
—Porquê?Vocêgostaria?
—Claro.
—Estoudispostoaarriscar.Seráqueestamosprotegidosatéaqueladistância?
—Noar,estamos.Podeserperigosoirapé.
—Vamosdehelicóptero.
— Isso é que é uma resposta à oraçã o! — disse Abdullah alguns minutos depois. — Eu
queriamuitoveroqueestáacontecendolá.
—Emuitoarriscado,Smitty—disseMac.—Você temumaboacobertura,fazpartedo
pessoaldaqui.Albieeeunã otemosmaiscobertura,nã otemosdisfarces,nomesfalsos,marcas
falsas,nada.Emelhorvocêdecidirsevaleapenaservistoconosco.
Abdullahnãopôdeconterumsorriso.
—Seumalandro—disseMac,sorrindo.—Eumearrisqueialevarumtiro,nã o?Evocê
quaselevouum.
—Eunãoiaatiraremvocê,Mac.
—Compalavras,sim.Claroqueia.
—DecidiqueémelhoreunãoservistocomvocêsquandovoltarmosaPetra.
—Ótimo.Masfalandosério...
— Acho que Deus nos protegerá . Devemos icar juntos, dar a entender que estamos em
missãooficial,masnãodeixarmuitoevidentequenãotemosamarca.
— Você tem um turbante para cobrir a testa, nó s temos quepes. Você acha que é
suficiente?Devemosportararmas?
—Nã otenhoidé iadequantoshomensdaCGestarã olá —disseAlbie-,masimaginoque,
assim que chegarmos, vamos icar vulnerá veis. As armas nã o vã o servir para nada, é o que eu
acho.
Abdullahcoçouatesta.
—Devemosficardentrodohelicóptero.Sepudermosvereouvirdelá.
—Eseformosabordados?
—Você falacomelescomsotaquetexano;vã o icartã osurpresosqueeuvoutertempo
dedecolar.
—Vocêestádemaishoje,Smitty.
—Quemvaiquereraproximar-sedeumhelicópterocomaspásdahélicegirando?
Abdullahanalisouseusamigos.Elesestavamtãocuriososquantoele.
—Devemosperguntaraalguém?—disseMac.
—Aquem?—disseAbdullah.—Suamãe?
Mac fez um movimento com a cabeça, concordando que Abdullah estava aperfeiçoando
seusensodehumor,massóisso.
—Rayfordestávoandoporaí—disseMac.—Adecisãoénossa.Oquevamosfazer?
—Eutopo—disseAlbie.Abdullahconcordoucomacabeça.
Macsubiunohelicó pteroesentou-seatrá s.Abdullahsentou-sediantedoscontroles,tendo
Albieaseulado.Apó sadecolagem,Abdullahtevedegritarparaserouvidoacimadobarulhodo
motor.
—PoderíamosfalarcomChang.Pediraelequeincluaalgumacoisanocomputador.
Nenhumdosdoisdissenada,portantoAbdullahabandonouaidé ia.Elegostariadesaberse
estavamcometendoumatolice.Nofundo,sabiaquesim,masnãoconseguiavoltaratrás.
Para Mac, icou claro que oshow foi programado exclusivamente para os rebeldes de
Petra.EletentouextrairdeAbdullahporquealgué mhaveriadequererafastar-sedasegurança
daquelacidade,mastratava-sedeumaperguntaretóricaeirrespondível.
Abdullah estava decidido a fazer hora, mas o helicó ptero passou rapidamente pelo povo
quecaminhavaepousouacercade30metrosdopalco,levantandoumanuvemdepoeiraquea
brisa leve incumbiu-se de carregar até à s pessoas que se encontravam na plataforma. Elas
olharamparaohelicóptero.
Macavistouvá rioshomensdaCGarmados,tomandocontadolocaleconversandoentre
si. Um deles aproximou-se. Era um jovem de ombros largos, que demonstrava ser robusto,
mesmo sem o colete à prova de balas que se tornou visı́vel assim que ele chegou mais perto.
Abdullahhaviadesligadoomotor,easpásdahélicepararamdegirar.
— Vamos icar sentados aqui olhando para ele — disse Mac. — A iniciativa deve partir
dele.
Osoldadodocoleteà provadebalas,comaarmadependuradaaoladodocorpo,parecia
totalmente inofensivo. Ele olhou com ar de indagaçã o para Albie, sentado no segundo banco
pertodaporta.
—Vocêsvãoabriraporta?—perguntouosoldado.
— Só se for preciso — respondeu Albie. — O ar condicionado manté m a temperatura
agradávelaquidentro.
—Vocêsprecisamabriraporta—disseosoldado.
AlbieolhouparaMac.Macassentiucomacabeça.Albieabriuaporta.
Macinclinou-separaafrenteedissecomvozautoritária:
—Nãofiquemuitopertodesteaparelho,filho!Omotoraindaestáquenteevaiespirrarum
poucodeóleo.Etalvezagentequeiraligá-lodenovo,sóparareceberumpoucomaisdear.
—Oquevocêsestãofazendoaqui?
—Omesmoquevocê.Segurança.Monitorando.Agora,vouterdepedirquevocêseafaste
doavião.
Tratava-se de um ato de muita coragem, mas, depois do que Mac enfrentara no ano
anterior,aquilolhepareciaumpasseionoparque.Seosoldadoquisessepartirparaobate-boca,
Mac protelaria um pouco até Smitty religar o motor, e eles sairiam rapidamente dali.
Evidentemente,até mesmoumdisparocomumaarmapequenapoderiaabaterumhelicó ptero
a curta distâ ncia, mas talvez a idé ia de receber um jato de ó leo quente no rosto o izesse
desistir.
A farsa de Mac funcionou. O homem limitou-se a fazer um movimento a irmativo com a
cabeçaeafastou-se.
—Ligueomotor,Smitty—disseMac.—Precisamosdarummotivoparaelereconhecer
queperdeuaparada.
Ohelicó pterolevantououtranuvemdepoeira.Abdullahdesligouaaeronaverapidamente.
OhomemdaCGretornou.Macassumiuaresponsabilidade.InclinouocorpoporcimadeAlbiee
abriuaporta.
— Nã o se preocupe — ele disse. — Esta é a ú ltima vez que vamos levantar poeira e
impedirqueopovoouçaoquevaiserdito,estábem?
— Era exatamente isso o que eu ia dizer, senhor. Mac fez uma continê ncia com o dedo
indicador.Opovoestavacomeçandoachegar,parecendoexaustodacaminhada.
Foram necessá rios apenas alguns minutos para a multidã o reunir-se. Um sujeito de
aparê ncia normal, que, para Mac, era uma versã o mais jovem de Leon Fortunato, pegou o
microfone.Eleestavadesapatosbrancos,calçabrancaecamisabranca,etinhaaaparê nciade
um orador vibrante, entusiasmado e resoluto. Disse que faria oshow sozinho — seria o
apresentador,oexecutor,tudo.
—Nã osouumapessoacomum.Nã o,minhagente.Aspessoasdizemquesouumaespé cie
deCristo.Bem,você sserã oosjuizes.Tudooquepossodizeré quenã osoudaqui.Nã osetrata
deumabrincadeira.Nãosoudestemundo.
Hoje, nã o há mú sica, nã o há bailarinas, apenas eu, um operador de milagres. Estou aqui
sobaautoridadedosenhorressurreto,NicolaeCarpathia,erecebipoderdele.
—Sevocê snã oacreditam,olhemparaocé u.Seiqueosolestá apino,quenteebrilhante,
mas você s concordam comigo que nã o existem nuvens no cé u? Nenhuma. Algué m está vendo
alguma nuvem? Bem distante no horizonte? Formando-se bem longe daqui? Você s estã o
cobrindo os olhos, e devem fazer isso. Mas quem estiver usando ó c ulos de sol, faça o favor de
tirá -los. Você s estã o com os olhos semicerrados, e isso está correto. Alguns estã o com as
sobrancelhasfranzidas,masdaquiaalgunsinstantesnãoestarãomais.
— Você s gostariam de ver uma nuvem bonita? Uma nuvem que bloqueasse o sol apenas
por um instante? Eu posso providenciar uma. Você s nã o estã o acreditando, eu sei disso. Nã o
olhem para mim. Se olharem, nã o verã o a nuvem. Você s podem pensar que se trata de um
truque.Masquenomedãoaisso?
Uma sombra cobriu o povo. Até mesmo os homens da CG olharam para o cé u, curiosos.
Abdullahinclinouocorpodelado.Albieinclinou-separaafrente.Macposicionou-seentreelese
olhouparacima.Umanuvemespessaebrancabloqueavaaluzdosol.Domeiodopovovinham
osgritosdeoh!eah!.
—Comoeleconseguefazerisso?—perguntouAbdullah.
—Elejádisse—respondeuMac.—RecebeupoderdeNicolae.
—Foirápidodemais?—perguntouohomemdosmilagres.
—Amudançadetemperaturaprovocoufrioemvocê s,mesmoaquinodeserto?Achoque
basta de sombra, nã o? A nuvem desapareceu. Nã o se movimentou, nã o esmaeceu, nã o se
dissipou.Simplesmentesumiu.
—E,agora,quetalmeiasombra,suficienteapenasparapermitirqueosolaqueçavocês?
Elaapareceuinstantaneamente.
Umamulher,pertodopalco,ajoelhou-seecomeçouaadorarohomem.
—Ah,senhora,muitoobrigadoporsuagentileza.Masedaı́?Você saindanã oviramnada.
Que tal este pedestal do microfone? Ele tem uma base só lida de aço, duas hastes compridas,
microfonee ioseparados,presosnapartesuperior.Algué mdesejaviraté aquiparacomprovar
oqueestoudizendo?
Um homem idoso subiu os degraus até a plataforma, com passos trô pegos. Apalpou o
microfoneeopedestal,oqueprovocouruı́dosnosistemadesom.—Epa,vejamsó !—disseo
milagreiro. O microfone e o pedestal transformaram-se em uma cobra que escapou das mã os
deleecorreuatéacaixadesom.
O povo teve um sobressalto, e algumas pessoas gritaram. Mas, tã o rá pido quanto
apareceu,acobrasumiu,eomicrofoneeopedestalretornaramaonormal.
—Truquesdemá gica?Você ssã opessoasinteligentes.Tê mtidoproblemasemconseguir
á gua ultimamente? Ou devemos acreditar nas histó rias que vê m de Petra? Pensam que a
nascentedeláfoiumatodeDeus?Então,quetalesta
aqui?
Eleapontouparaomeiodopovo,eumafontedeá guajorroudochã o,espirrandoporcima
dacabeçadeles.
—Águafria,cristalina,refrescante,não?—eledisse.—Aproveitem!Vamos!
Eopovoobedeceu.
—Você sestã ocomfome?Cansadosdacomidananovacasa?Quetalumcestocontendo
pãoverdadeiro,quentinho,macioemaisquesuficienteparatodos?
Ele esticou o braço para trá s e fez aparecer um cesto de vime forrado com um
guardanapodelinho.Cincopedaçosdepã o,quentesedourados,estavamempilhadosdentrodo
cesto.
— Comecem a passar o cesto entre você s. Vamos. Claro, peguem um pedaço. Nã o, um
pedaçointeiro!Peguemdois,sequiserem.Possoprovidenciarmais.
O cesto foi passado de mã o em mã o, e todos pegaram pelo menos um pedaço. Alguns
pegaramdoise,mesmoassim,ocestonuncaesvaziou.
— Quem eu sou? Quem você s acham que eu sou? Sou um discı́pulo do deus vivo, o
potentado Carpathia. Será que convenci a todos de que ele é todo-poderoso? No entanto, ele
perdeu a paciê ncia com você s. Ele gostaria que eu aplicasse a marca de lealdade em você s, e
possofazerissosemusarnenhumatecnologia.Você snã oduvidammaisdemim,certo?Opovo
sacudiuacabeça.
— Quem será o primeiro? Vou aplicar quatro simultaneamente. Em você , você , você e
você.Perguntemaseusamigosoqueelesestãovendo.
AtéMacviuqueelestinhamamarcadeCarpathianatesta.
— Mais algué m? Sim, levantem a mã o. Todos os que estã o com as mã os levantadas,
prestem atençã o. Nã o, os outros nã o levantem a mã o. Só aqueles que já estavam com a mã o
levantada quando eu falei. Por que esperaram tanto tempo? Qual foi o motivo? Aquele a quem
eusirvodesejaqueeuosmate;portanto,vocêsestãomortos.
Maisdecempessoascaíramnosolododeserto,provocandogritosdasquerestaram.
—Silê ncio!Você sachamqueeunã opossoreverterasituaçã o?Sefuicapazdematá -los,
porquenãopossoressuscitá-los?Aquelesseis,levantem-seimediatamente!
Os seis levantaram-se, como se tivessem acabado de despertar. Pareciam constrangidos,
semsaberporquehaviamcaídonochão.
— Você s pensam que eles estavam dormindo? em transe? Muito bem, eles estã o mortos
novamente. — Os seis caı́ram no chã o. — Agora, você s que os conhecem, podem veri icar os
sinaisvitaisdeles.
Ohomemaguardou.
— Nã o há respiraçã o, nã o há pulsaçã o, correto? Que isso sirva de liçã o para os que
restaram.Você sestã ovendoaquilo,lá longe?Sim,lá .Apequenanuvemdepoeira,queparece
estar rolando como um arbusto seco nesta direçã o? Sã o vı́boras da espé cie mais venenosa que
existe.Estãovindoparaatacarvocês.
Algumaspessoasviraram-seecomeçaramacorrer,masforamparalisadas.
—Nã o,nã o.Certamente,você snã oestã opensandoqueé possı́velfugirdaquelequecriou
umanuvemparacobrirosol.Sequiseremteramarcadelealdade,levantemamã oagorapara
recebê-la.
Assustadas,aspessoasrestanteslevantaramamão.
—Maisgentedevemorrerantesqueasvíborascheguematéaqui.
Cercadetrêsdúziasdepessoascaíramdesfalecidasnochão.
— Por que as vı́boras continuam vindo para cá ? — gritou uma mulher. — Todos nó s
obedecemos!Todosnósrecebemosamarca!
— As vı́boras sã o sá bias, só isso — ele disse. — Elas conhecem quem era sé rio e leal e
quemconcordouapenaspormedodeperderavida.
A fonte de á gua transformou-se em sangue, e o povo que estava perto afastou-se
rapidamente.
— Idiotas! — ele gritou. — Você s sã o todos idiotas! Pensam que um deus como Nicolae
Carpathiaquerquevocê ssejamseussú ditos?Nã o!Elequervervocê smortoselongedasgarras
dosinimigosdele.Vocêsestãolivresparafugiragora,eeuvoumedivertirvendovocêscorrendo
como loucos, o mais rá pido que puderem. Mas tenho um aviso a lhes dar. Você s nã o correrã o
maisrá pidodoqueasvı́boras.Nã ochegarã oaPetraatempodesesalvarem.Ocorpodevocê s
icará inchado,assandosobosol,até queospá ssarosvenhamcomersuacarne.Quantoamim,
vousairdaquielevarcomigoasombraqueprovidenciei.
Opovocomeçouacorreremdireçã oaPetra,gritandoecambaleandodesvairadamente.
OssoldadosdaCGpareciamparalisadoseolhavam ixamenteparaasvı́boras,quemudaramde
direçã oeagoracorriamatrá sdopovo.Afontesecou,anuvemdesapareceu,ehaviadezenasde
pedaçosdepãoespalhadossobreaareia.
Mac olhou para Albie e Smitty, e os trê s sacudiram a cabeça, tremendo. De repente, o
operador de milagres posicionou-se em frente ao helicó ptero. Embora ele nã o tivesse aberto a
boca,Macoouviuperfeitamente,comoseohomemestivessedentrodoavião.
— Eu sei quem você é . Sei qual é o seu nome. O seu deus é fraco, sua fé é ingida e seu
tempoélimitado.Vocêcertamentemorrerá.
Mactevedificuldadeparafalar.
—Vamos—eledisse,comvozrouca.
Abdullah ligou o motor levantando uma nuvem de poeira, que logo se dissipou. Enquanto
Smittydecolava,Macolhouparabaixoeviuumalongafaixadeareiaintacta,pontilhadaapenas
pelos corpos das pessoas que tombaram no lugar. Ningué m da CG. Nenhum homem milagroso.
Nenhumaplataforma.Nenhumpão.Nenhumveículo.
Equantoà sserpentes?Eletambé mnã oasviu.Masnopercursodeuns500metroshavia
outroscorposestatelados,demaneiragrotesca,naareiadodeserto.
Tsion estava com o espı́rito atormentado por um terrı́vel mau pressentimento. Ele sabia
que nã o seria capaz de conduzir, até o dia do Glorioso Aparecimento, o rebanho inteiro que
chegara a Petra. Mesmo assim, ele acreditava que, quando eles vissem a mã o poderosa e
milagrosadeDeus,muitosindecisosseconverteriam.
Nã o restava dú vida de que muitos já haviam se convertido. Era o que Chaim e os outros
anciã os estavam dizendo, enquanto Tsion se desesperava, no fundo de uma das cavernas.
PareciaqueoSenhorlhehaviamostradoqueosrebeldesnã ovoltariam—nenhumdeles.Mas
Tsionnã osabiaseDeusosmataria,conformefeznarebeliã odeCoré nostemposdeMoisé s,ou
seoanticristoosdestruiriadepoisdetê-losatraídoenganosamenteparaodeserto.
Ele levantou a cabeça quando Naomi entrou correndo, vindo do centro de tecnologia e
comunicaçõ es, e dirigiu-se a seu pai. Ela olhou de relance para Tsion, enquanto cochichava ao
ouvidodopai.Quandoviuohomemcurvarosombrosesacudiracabeça,Tsionentendeutudo.
Ajovemsaiu,eseupaicaminhouemdireçãoaChaim.Tsionointerceptou.
—Conteanósdois.Euprecisosaber.
—Mas—disseopaideNaomi—osenhornã opoderiaserpoupadodestanotı́c iaumdia
apósseutriunfosobreofalsoprofeta?Porqueestragarsuaalegria?
— Eu nã o estou alegre, meu amigo. Fui incapaz de impedir que o falso profeta
convencesseosrebeldesaseguirocaminhoqueescolheram.Nãoadiantounadaoqueeufizouo
queeudisse.Conte-metudo.Nãomepoupedenada.
—Trê samigosnossosdoComandoTribulaçã otestemunharamofatoeestã oretornando.
Elesqueremtrocaralgumaspalavrascomosenhor.
Tsionlevantou-se.
—Claro!Ondeelesestão?
—Desceramdoheliportoeestã oacaminhodaqui.QuandoTsioneChaimdirigiram-seà
entradadacaverna,
Mac,AlbieeAbdullahjá estavamchegando.Todosseabraçaram.Osanciã osmantiveram
uma distâ ncia respeitosa, enquanto os cinco se aglomeravam a um canto e Mac relatava os
fatos.
—Vocêsnãodeviamterpresenciadoaquilo—disseTsion,comardetristeza.
—Sesoubé ssemosoqueı́amosver,nã oterı́amosido—disseMac.—Masosenhorsabe
quenós,pilotos,somoscuriososcomocrianças.Jámatamosnossacuriosidade.
—Aquelehomemnãoeraumserhumano—disseTsion.
— Certamente foi uma apariçã o demonı́aca. Apocalipse 12 diz que quando Sataná s, que
enganará o mundo inteiro, foi atirado para a terra, seus anjos també m vieram com ele. E,
evidentemente, nã o é de admirar que aquelas pessoas nã o tenham sido recrutadas pela
ComunidadeGlobal.João10.10dizqueSatanásvirásomentepararoubar,mataredestruir.
—Eutenhoumapergunta,Dr.Ben-Judá —disseAlbie.—Ecertonã ogostardisso?Quero
dizer,todomundoestáindignadocomoqueaconteceu,mas,quandoeupensoqueentendioque
Deus poderia fazer, Ele permite que uma coisa dessas aconteça. Nã o estou entendendo mais
nada.
—Nã osesintaaborrecidocomisso,meuirmã o,amenosqueseuquestionamentoolevea
duvidar de Deus. Ele está no controle. Os caminhos dele nã o sã o os nossos caminhos, e Ele vê
tudo de uma maneira grandiosa. Nó s, que vivemos deste lado do cé u, nã o podemos sequer
imaginar o que Ele vê . Eu també m estou desolado. Eu queria tanto que algumas daquelas
pessoas voltassem correndo para cá , suplicando para que intercedê ssemos por elas perante
Deus, da maneira como os ilhos desobedientes de Israel izeram nos tempos do Antigo
Testamento. Eu adoraria ter orado pela redençã o delas ou ter levantado a imagem de uma
serpente de bronze, para que as pessoas que foram picadas por esses seres peçonhentos
pudessem olhar para ela e ser curadas. Deus, poré m, está fazendo seu trabalho de seleçã o. Ele
está puri icando a terra de seus inimigos e permitindo que os indecisos enfrentem as
conseqü ências de sua procrastinaçã o. Você sabe tã o bem quanto eu que ningué m, em sã
consciê ncia, escolheria icar contra Deus, que pode nos proteger das armas de destruiçã o em
massa. Mas os tolos que estavam aqui se aventuraram a ir ao deserto. Eles icaram fora da
proteçãodeDeusenãoretornaram.OapóstoloPaulodisse:"Óprofundidadedariqueza,tantoda
sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quã o insondá veis sã o os seus juı́z os e quã o
inescrutá veis os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? ou quem foi o seu
conselheiro?[...]Porquedeleepormeiodeleeparaelesã otodasascoisas.Aele,pois,agló ria
eternamente"[Romanos11.33,34,36].
Mac levantou-se antes do amanhecer, ansioso por partir. Enquanto aguardava Albie e
Abdullah, ouviu um burburinho por toda a cidade de Petra. Corria a notı́c ia, espalhada por um
excelentesistemadecomunicaçãobocaaboca,queTsioneChaimestavamconvocandoopovo
parareunir-selogodepoisdomanádamanhã.
Abdullah e Albie comeram rapidamente, arrumaram suas coisas e foram ao encontro de
Mac,queestavanomeiodopovo.
Chaimfoioprimeiroadirigir-seàmultidão.
—TsionacreditaterouvidoapalavradoSenhordequenã oexistemmaisindecisosaqui.
Você s poderã o con irmar isso, se olharem ao redor. Existe algué m neste lugar sem o selo dos
crentes? Algué m em algum lugar aqui? Nã o vamos pressioná -los nem condená -los. Precisamos
apenassaber.
Macdeuumaolhadapanorâ micanadireçã odopovo,masconcentrou-senossemblantes
deTsioneChaim,queaguardarammaisdedezminutos.
Emseguida,Tsiondeuumpassoàfrente.
—OprofetaIsaı́as—eledisse—fezaseguinteprofecia:"Acontecerá ,naqueledia,queos
restantes de Israel, e os da casa de Jacó que se tiverem salvado, nunca mais se estribarã o
naquelequeosferiu,mas,comefeito,seestribarãonoSenhor,oSantodeIsrael"[Isaías10.20].
—"Osrestantesseconverterã oaoDeusforte,sim,osrestantesdeJacó . Porqueaindaque
oteupovo,óIsrael,sejacomoaareiadomar,orestanteseconverterá"[vv.21-22].
E a respeito do rei deste mundo que tem atormentado você s, Isaı́as diz, mais adiante:
"Acontecerá , naquele dia, que o peso [dele] será tirado do teu ombro, e o seu jugo do teu
pescoço, jugo que será despedaçado por causa da gordura" [v. 27]. Louvado seja o Deus de
Abraão,deIsaqueedeJacó.
— O profeta Zacarias cita as palavras do Senhor Deus falando da terra de Israel: "Dois
terços dela serã o eliminados e perecerã o; mas a terceira parte restará nela. Farei passar a
terceirapartepelofogo,eapuri icareicomose puri ica a prata, e a provarei como se prova o
ouro;elainvocará omeunome,eeuaouvirei;direi:é meupovo,eeladirá :OSENHORé meu
Deus"[Zacarias13.8-9].
— Meus caros amigos, remanescentes de Israel, isso está de acordo com o ensinamento
clarodeEzequiel,capı́t ulo37,quedizquenossanaçã oesté rilserá vista,nosú ltimosdias,como
umvaledeossossecos,aosquaisopróprioDeuschamoude"todaacasadeIsrael".Elespróprios
dizem: "Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança; estamos de todo
exterminados"[v.11].
—Mas,emseguida,meuscarosirmã os,DeusdisseaEzequiel:"Portantoprofetizaedizelhes:AssimdizoSenhorDeus:Eisqueabrireiavossasepultura,evosfareisairdela,ó povomeu,
evostrareià terradeIsrael[...]Poreiemvó someuEspı́rito,evivereis,evosestabelecereina
vossaprópriaterra.Entãosabereisqueeu,oSenhor,disseisto,eofiz"[vv.12,14].
FaziamuitotempoqueRayfordnã oseenvolviacomumtrabalhofı́sicotã opesado.Apista
depousoededecolagememMizpeRamon,destinadaà Operaçã oAguia,tinhasidoconstruı́da
sob sua supervisã o, mas por outras pessoas que usaram equipamentos pesados. Agora, ele
també meraoresponsá velpelaoperaçã o,mastodossabiamquecadapardemã ospassaraaser
desumaimportância.
LionelWhalumaterrissarasemincidentesemGobernadorGregores.Oú nicoproblemafoi
queapistaprincipal,destruı́daduranteaguerra,precisouserreconstruı́dapelacooperativa,que
aduplicoucomoutrapistadecercade30metrosdelargura.ACGnã otomouconhecimentoda
reconstruçã onemdoimensoacampamentodecrentesclandestinos,quehaviamcolhidotrigoe
quefaziamapermutadesseprodutoporintermédiodacooperativa.
O principal contato de Rayford lá , chamado Luı́s Arturo, contou mais tarde que a pista
levou semanas para ser ampliada. Quando foi destruı́da, dela havia restado apenas uma
depressãolisaeescuranochão.Doalto,pareciaqueapistacontinuavaalicomoantes.
Luı́s cursara o giná sio e a faculdade nos Estados Unidos e falava inglê s luentemente,
embora com sotaque acentuado. Ele teve muitos contatos com grupos de pastores nocompus.
Em razã o disso, quando retornou à Argentina e sofreu perdas em razã o dos desaparecimentos,
elesabiaexatamenteoqueacontecera.Emcompanhiadealgunsamigosdeinfâ ncia,elecorreu
até a pequenina igreja cató lica, da qual restaram alguns poucos paroquianos. O padre e o
professor de catecismo de quem eles mais gostavam també m haviam desaparecido. Ao ler
algunslivrosencontradosnabiblioteca,aprenderamacreremCristo.Logoaseguir,formaramo
núcleodenovoscrentesnaquelaárea.
Luı́s era um homem sincero, de fala rá pida. Ele gostou de Ree Woo e foi amistoso com
todos, mas sua prioridade nú m ero um era carregar o aviã o e despachar aqueles homens
rapidamente.
—Nó souvimosrumoresdequeaCGestá poluindoorioChicoequerendonospegar—ele
disse.—Tenhová riosmotivosparaacreditarqueissonã opassadeconversadeparanó icos,mas
nãopodemosnosarriscar.Otempoestácadavezmaiscurto,portantoémelhoragirrápido.
Luı́s gostou particularmente de Ree porque, apesar de o sul-coreano ser o membro mais
jovemdatripulaçã odeRayfordeodemenorestatura,provouestaremmelhorformaquetodos
osnorte-americanoseargentinosjuntos,comexceçãodeGeorgeSebastian.
A reputaçã o do Grande George já era conhecida antes de sua chegada. Enquanto ele
trabalhavalevandosozinhopesadossacosdetrigoparadentrodoaviã o,muitossul-americanos
pediam-lhequefalassesobresuaprisãonaGréciaesuafuga.
RayfordnotouqueGeorgetentavalevarahistórianabrincadeira.
—Eudomineiumamulherquetinhaametadedomeutamanho.
—Maselaestavaarmada,não?Elamatoualguém?
—Bem,nósnãopodíamospermitirqueelafizesseisso,certo?
RayfordtrabalhavaamaiorpartedotempoaoladodeLionel.Cadaumdeleseracapazde
carregarumsacodetrigoporvez.Reetambé majudava,maserajovemerá pido,enamanhã
seguintenãosesentiacomocorpotãodoloridoquantoRayeLionel.
Depoisdedoisdiasdetrabalhocontínuo—egraçasamacacoshidráulicoseseispallets de
alumı́nio que sustentavam até 15 toneladas cada -, quando o aviã o já estava parcialmente
carregado,RayfordviuLuíscorrendoemsuadireção.
—SenõrSteele,vamosatéatorre,rápido.Eutenhobinóculos.
RayfordacompanhouLuı́saté umatorrenovademadeira,dedoisandares,projetadapara
confundir-se com a paisagem. Os pilotos que a conheciam precisavam icar atentos para
enxergá-la,maselapassavadespercebidadosespiões.
Aochegaraotopodaescada,Rayfordtevederecuperarofô lego.Assimquedescansouum
pouco, Luı́s passou-lhe os binó c ulos e apontou para um ponto a distâ ncia. Rayford levou alguns
instantesparaajustaraslentes,masoqueeleviuofezquestionarsejá nã oseriatardedemaise
setodootrabalhonãoestariaperdido.
CAPÍTULO19
Embora o vô o de Petra para a India nã o tivesse sido longo, Mac dormia profundamente
quando Albie pousou o aviã o de carga em Babatpur. Por causa da demora em Petra, das
diferençasdefusoshoráriosedopesodaaeronave,acabaramchegandolánomeiodanoite.
Macdemoroualgunsinstantesparaentenderondeestava,mas,emseguida,ele,Abdullah
eAlbieforamtiradosapressadamentedoaviãoporumhomemconhecidoapenasporBihari.
—Rápido,porfavor.Estamosauns150quilômetrosaonortedarepresadeRihand.
— Cento e cinqü enta quilô m etros? — disse Mac. — Como vamos trazer a á gua até o
avião?
—Decaminhão!
—ACGdaquiestádormindooufazendooquê?
—ACG,meuamigo,gostadaáguapotável.
No percurso até o local, Bihari atingiu a velocidade mé dia de 110 quilô m etros por hora,
dirigindo umaminivan que nã o tinha condiçõ es de rodar tã o rá pido em uma estrada como
aquela — principalmente na calada da noite. Noventa minutos depois, ele fez uma curva,
levantandoumanuvemdepoeira,echegouaumaá realivrepertodeumapequenainstalaçã o
industrial.Ali,mostrouaMaceaseuscompanheirosasenormespilhasdeengradadoscontendo
garrafõesdeágua,que,pelaquantidade,lotariamdoiscaminhõesgrandes.
—Ondeestáoresto?—perguntouMac.—Conseguimosumaviãomuitogrande.
—Penseiquevocê tivessenotado—disseBihari.—Você nã oouviuquandobuzineipara
ospedestresnaestrada?
—Ouvialgumasvezes.
— Dois caminhõ es já estã o seguindo em direçã o ao aviã o. Quando ouvimos você s
chegando,começamosatrabalhar.Aidé iadetertrigodeverdadeparacomerdeixoutodosnó s
animados. Com a ajuda de você s e das empilhadeiras, vamos terminar de carregar os dois
últimoscaminhõesantesdoalvoreceretransportaracargaatéoavião.
Alguns minutos depois, enquanto manobrava uma empilhadeira em direçã o aos
engradados,MacpassouporAlbie.
—Essagentedaquimefazsentirumvelhotoloepreguiçoso—eledisse.—Comparado
aotrabalhodeles,onossoéumamoleza.
— Eles nã o se preocupam com mı́sseis e balas — disse Albie. — Será que estã o
"comprando"aCGcomumpoucodeágua?
BihariinterrompeuoúltimocarregamentoeacenouparaMac.
— Será que seus companheiros vã o desanimar se eu disser que precisamos resolver uma
coisaantesdecontinuar?—eleperguntou.
—Depende—disseMac.—Aindavaidartempodeagentelevantarvôoesairdaqui?
—Sim,masachoqueestamostodosperdidos.
—Essaéumapéssimanotícia.Qualéoproblema?
— Vamos passar pela represa a caminho do aeroporto. Fica um pouco fora de mã o, mas
queroquevocêaveja.
—Jávimuitasrepresasantes.Háalgumacoisaerradacomasua?
—MeupessoalestádizendoqueoSenhorenvioumaisumjulgamento.
—Oh,não.
—Nempossoimaginarcomoé umgrandevolumedesangueforçandopassagematravé s
dascomportasdeumarepresa.
—Eutambé mnã o—disseMac.—Qualé aquantidadedeá guaquevocê stê m,menosa
queestamoslevando?
—Devesersu icienteparaseismeses.MasaCGvirá atrá sdenó squandodescobrirquea
nossafontesecou.
—Elessabemondevocêsestão?
—Devemsaber.Enãovaidemorarmuitoparaeleschegarem.
—Aprimeiracoisaquevocêprecisafazeréesconderestelugar.
Osolestavaprestesasepô r,masocalorcontinuavaacastigarasplanı́c iesdaArgentina.
Rayford tentava manter os binó c ulos no lugar para entender o signi icado de toda aquela
movimentaçã o. Talvez nã o fosse nada, mas as possibilidades nã o pareciam muito animadoras.
Havia um nú m ero enorme de pessoas, disso ele tinha certeza, mas Rayford nã o sabia dizer se
erammilitares,soldadosdaCG,MonitoresdeMoral,mendigosouhabitantesdacidade.
EledevolveuosbinóculosaLuís.
—Devemoslevantarvôo?Ouémelhorveroqueestáacontecendo?
—Vocêsabeoqueeupenso.
—Devemosiratéláarmados?Quantaspessoasirãoconosco?
Luíssacudiuacabeça,semsaber.
—Quetalisso:euprovidenciooveículo,evocêentracomoplano.
—Muitojusto—disseRayford.—IreicomSebastian.Levaremosarmas,masnã oquero
partirparaoataque.Vamosveroqueestá acontecendoedeixarvocê eseuscompanheirosfora
disso.
Enquanto eles desciam da torre, Luı́s orou:Oh, meu Senhor, espero que ainda não tenha
acontecido.
—Oqueéisso?
—Vocêtambémsentiuocheiro,capitãoSteele?Rayfordcheirouoar.Sangue.
Macestavapreocupadoduranteopercursodainstalaçã oindustrialaté arepresa.Será que
oenormecarregamentodetrigotambé mteriadesertrazidoaté alidecaminhã o?Teriameles
caminhõessuficientes?Eondearmazenariam
todoaqueletrigo?
Se, por um lado, ele estava preocupado, por outro sentia-se feliz, porque isso nã o era
problema seu. Pessoas mais capazes de encontrar soluçõ es inteligentes do que ele haviam
planejadotudo.Apreocupaçãoficariaacargodelas.
QuandoBihariparoupertodarepresa,outrocaminhã ocarregadoestacionouatrá sdele.A
princípio,ninguémdesceu.Emseguida,osquatrosaíram.
Elesobservaramarepresaporalgunsinstantes.Duascomportasestavamabertas,ambas
despejandoumaquantidadeimensadelı́quido,quebatiaemumaribanceiraeespirravaneles.O
sangue, muito mais espesso que a á gua, tinha um ruı́do diferente. O odor era terrı́vel, e Mac
assustou-se.Aquilopareciaumpesadelo,eelesentiuumarrepiopercorrer-lheocorpo.
Havia um homem, em pé , a algumas centenas de metros da represa, por onde corria o
sangue.Seurostopareciafamiliar.
—Queméele?—perguntouMac,apontando.
—Elequem?—disseAlbie.
Macvirou-onadireçãocertaeapontounovamente.
—Eunãoenxergomuitobemaestahoradamanhã,Mac.Quemvocêestávendo?
—Ninguémestávendoaquelehomemaoladodapedra,láembaixo?Eleestápertodorio.
Nenhumdelesrespondeu.
—Vouverquemé.Eleestáolhandoparacá!Acenandoparairmosatélá!
—Eunãoestouvendoninguém,Mac.Talvezsejaumadesuas"miradasdecowboy".
MaclevantouacabeçaeencarouAbdullah.
—Umademinhasoquê!
—Umadaquelascoisasquevocê s,oscowboys, vê em no deserto quando estã o com sede.
Pareceágua,maséapenasumcactooucoisaparecida.Uma"mirada".
Albiejogouacabeçaparatrásecaiunagargalhada.
— Eu fui criado a mais de 15 mil quilô m etros do Texas, mas sei o que é isso! Chama-se
miragem,Smitty.Miragem.
—Bem,nãoéumamiradanemumamiragem—disseMac.—Eujávolto.
Elecaminhouatéaunscemmetrosdohomem,queoobservavaotempotodo.
—Jáquevocêveioatéaqui—disseohomem-,porquenãotrouxeumagarrafavazia?
—Porqueeuhaveriadequererumagarrafacheiadesangue?Dequalquerforma,eunã o
tenhonenhumagarrafavazia.
—Esvazieumaetraga-aaqui.
Macobedeceu,comoseaquelefosseumpedidonaturaleelenãotivesseescolha.
Assimqueeleretornou,Abdullahdisse:
—Eaí,companheiro?Erauma"mirada"?
—Muitoengraçado,seujóqueidecamelo.
Mac pegou uma garrafa de um dos engradados, bebeu metade da á gua no caminho de
voltaedespejouorestonochão.
—Ei!—gritouBihari—essacoisaétãovaliosaquantootrigo.
Macolhavaparasuaspegadasenquantoseaproximavadacorrentezavermelha.
—Tuestássempreporperto,não,Miguel?—eledisse.—Ésonipresente?
—Você sabemuitobem,Cleburn—disseMiguel.—Assimcomovocê ,estouincumbido
deumamissão.
— E, por coincidê ncia, na mesma parte do mundo que eu. Nunca consegui agradecer a
tua...
Miguel levantou a mã o para fazê -lo calar-se e pegou a garrafa. Em seguida, suspirou e
olhouparaocéu.Elefalouemvozsuave,mascomgrandefervor:
— "Grandes e admirá veis sã o as tuas obras, Senhor Deus, Todo-poderoso! Justos e
verdadeiros sã o os teus caminhos, ó Rei das naçõ es! Quem nã o temerá e nã o glori icará o teu
nome, ó Senhor? pois só tu é s santo; por isso todas as naçõ es virã o e adorarã o diante de ti,
porqueosteusatosdejustiçasefizerammanifestos"[Apocalipse15.3,4].
Miguel caminhou cuidadosamente por entre as rochas e desceu até à beira do rio. A
correntezadesanguefaziatantobarulhoqueMacpensouquenã oseriacapazdeouvirMiguel,
caso ele falasse novamente. Mas, como se conhecesse os temores de Mac, Miguel virou-se e
chamou-o com um gesto. Mac hesitou. O corpo de Miguel estava respingado de sangue. Seu
mantomarrom,abarba,orostoeocabelotambémtinhammanchasdesangue.
—Vem—eledisse.EMacobedeceu.
Miguelfirmouumpésobrearochaeooutroaalgunscentímetrosdorio.Eledisse:
— "Tu é s justo, tu que é s e que eras, o Santo, pois julgaste estas coisas; porquanto
derramaramsanguedesantosedeprofetas,també msanguelhestensdadoabeber;sã odignos
disso"[Apocalipse16.5-6].
Emseguida,Macouviuoutravozqueelenãosabiadeondevinha:
—"Certamente,ó SenhorDeus,Todo-poderoso,verdadeirosejustossã oosteusjuı́z os"[v.
7].
Miguel curvou o corpo para baixo e afundou a garrafa no rio. A correnteza de sangue
pressionavaseubraçoemolhouamangadesuaroupa,enquantoeleenchiaagarrafa.E,quando
ele a tirou do rio e virou-se para Mac, nã o havia mais respingos de sangue em seu corpo. Seu
manto estava seco; seu rosto, limpo; seu braço, sem mancha alguma. A garrafa estava repleta
deáguapuraecristalina.
MiguelaentregouaMac.
—Bebe—eledisse.
Mac levou a garrafa aos lá bios. Enquanto sorvia o conteú do de olhos fechados, Miguel
prosseguiu:
— Jesus disse: "Aquele, poré m, que beber da á gua que eu lhe der, nunca mais terá sede,
para sempre; pelo contrá rio, a á gua que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida
eterna"[João4.14].
Macabriuosolhoserespiroufundo.Miguelhaviadesaparecido.
— Sem querer faltar com o respeito, Rayford — disse George -, mas você já parou para
pensarqueestamosapenasemdoisequesó temosduasarmaseumpoucodemuniçã o?Enã o
sabemosoquevamosencontrarpelafrentequandochegarmosládentrodesteveículo.
— Eu achei que você fosse me proteger. Nã o estou muito familiarizado com armas
militares.
—Nósnãovamosenfrentaressagente,nãoé?
—Esperoquenão,George.Estamosemtremendadesvantagemnumérica.
—Éoqueeuestavapensando,Rayford.
—Vamosdarumaespiadaparaveroquepodemosdescobrir.
—Ah,ummomento.Vocêpoderiapararumpouco?
—Vocêestáfalandosério?
—Estou.
Rayfordparouoveículo,deixando-oempontomorto.
—Vocêchegoualeralgumlivrodeestratégiamilitar?
—Sobrequal?
— Sobre a té cnica do jogo de xadrez, que consiste em sacri icar um peã o para obter
vantagemdeposição?
— Ouça, George. Nada mais é como antes. Nó s improvisamos todos os dias. Você é um
exemplovivodisso.Nomomento,nã otemosescolha.Encontramosumgrupodeirmã oseirmã s
tentandosobreviveraqui,eagoraelespodemestarsendoameaçados.Sevoltarmosparapegar
todoselesedermosumaarmaparacadaum,elesnã ovã otercondiçõ esdeenfrentaropessoal
da CG, caso essa gente apareça por aqui. Vamos sondar primeiro para ver o que está
acontecendo.Nãodevemosentrarnomeiodessagentesemantessabersepoderemossairdelá.
Use os binó c ulos. Se você avistar um grupo armado da CG, me diga, e nó s voltamos. Concorda
comigo?
Georgepareciaestaravaliandobemasituação.
— Pense no que eu vou dizer. Você está vendo lá adiante? Do outro lado. Há um grupo
enormedegentedirigindo-separaumpontocentral.Vamosdaravoltaportrá senosmisturar
aogrupo.Nãosãomilitaresenãoparecemameaçadores.
—Fazsentido.
—Semprefaz.Useseusrecursos.
—Comosuacabeça,porexemplo?—perguntouRayford.
—Bem,nãofoiissoqueeuquisdizer.
Mac olhou ao redor, com. o coraçã o aos pulos, como se tivesse escalado uma montanha.
Elecorreuaté abeiradoriodesangueemergulhouagarrafanacorrenteza.Osangueespirrou
portodooseucorpo,masquandoeleretirouagarrafa,oconteúdoeradeáguapuraefresca.
Ele riu, gritou e foi ao encontro de Albie, Abdullah e Bı́hari. Aparentemente, nenhum dos
trêstinhavistoMiguel,porquelogosecansaramdocomportamentoestranhodeMac.
—Vocêsnãooviram,nãoéverdade?
Ostrêsolharambemsériosparaele,dedentrodoscaminhões.
—Você sviramquandodespejeiaá guanochã o?Viram?Bihari,você viu,porquemedisse
queelaeratãovaliosaquantootrigo.Lembra-se?Bem,entãomedigaondeconseguiistoaqui?
Biharidesceudocaminhão.
—Ondevocêconseguiu?
—Norio,bemali!Evocêestávendoalgumrespingodesangueemmim?
—Eunão!
—Você aindaachaqueestã operdidos?ACGvaideixarvocê sempazquandodescobriro
que aconteceu com esta sua fonte de á gua. Mas você e seu pessoal poderã o continuar se
abastecendoaquicomosempre!Deustomacontadaquelesquetêmoselonatesta,amém?
Aestaaltura,AlbieeAbdullahjáhaviamseaproximadoparaver.
—Experimentemisto,cavalheiros.Você svã oquererbebertudo,masvamosdividir,está
bem?
RayfordeGeorgein iltraram-senomeiodeumgrupodeperegrinos.Quasetodosestavam
a pé . Pelos trajes que usavam, poderiam ser tanto da cidade como do campo. Havia també m
algunsmendigos.
—Inglês,alguémfalainglês?—perguntouGeorge.
Apó seleterperguntadomaisduasvezes,umhomemquepareciaestaracompanhadoda
esposaededoisparentes—aproximou-sedoveículo.
—Inglês?Sim—eledisse.
—Paraondevocêsestãoindo?—perguntouGeorge.
—Estamosindoparaondefomosconvidados—respondeuohomem.
—Todosvocês?Convidados?
—Nãoseiseosoutrosforamconvidados.Nósfomos.
—Quemosconvidou?
— Trê s homens. Eles bateram em nossa porta e disseram que devı́amos vir para cá ,
porqueelestinhamboasnotíciasparanosdar.
—MasvocêsnãosãoleaisaCarpathia—disseGeorge.
—Nãoestouvendonenhumamarca.
—Osenhortambé mnã otem—disseohomem.—Maspareceque,assimcomonó s,nã o
estáassustado.
—Vocêsnemparecempreocupados.
—Oshomensdisseramquenãodevíamostermedo.
—Porquevocêsacreditaramneles?Qualomotivodetantaconfiança?
—Elesforamsinceros.Oquemaispossodizer?
—Pergunteaosoutrosporqueelesestãoaqui.
Ohomemdirigiu-seaumgrupofalandoemespanhol.Depoisdirigiu-seaoutrogrupo.
—Todosnósfomosconvidadospelosmesmoshomens—eledisse.
—Equemsãoeles?
—Ninguémsabe.
—Apesardisso,vocêsarriscaramavidaparaestaraqui.
—Écomoseagentenãotivesseescolha,senhor.Rayfordparoueopovopassouporele.
—Oquevocêachadisso,George?
—Amesmacoisaquevocê:ahistóriaqueMingcontou.
—Exatamente.Esóvamostercertezaquandoelesproferiremasprimeiraspalavras.Seo
tal...Cristóvão...
—Correto.
—.. começar a falar do evangelho, e o segundo izer profecias sobre o que vai acontecer
emBabilônia...
—Naum.
—Correto.ECalebe izeradvertê nciasarespeitodereceberamarca,bem,é só issoque
precisamossaber.
—Eondeestá aCG,Rayford?Aquelestrê ssalvaramalgumaspessoasnaChina,maselas
forammortaspeloshomensdasForçasPacificadoras.
Ambosviraram-separatrásparaverseoinimigoestavachegando.
— Talvez Deus e esses homens trabalhem de maneira diferente em diferentes partes do
mundo.
LeahRoseestavabematarefadanoporã odamansã odeLionelWhalum,emLongGrove,
Illinois. Ela e Hannah faziam um inventá rio dos suprimentos mé dicos e uma lista do que seria
necessá rio nas cooperativas de diversas localidades. As duas trabalhavam com informaçõ es
fornecidasporChloeWilliams.
— Sinceramente, gostaria de achar um lugar que necessite de outras coisas alé m de
suprimentos—disseLeah.
—Émesmo.Nadamaiscansativodoqueficarparadaaqui...Nãoseisequerovoltaraficar
nomeiodocombate,masprecisoiraalgumlugarondeeusejanecessária.
— O problema — disse Leah — é que Petra nã o necessita de remé diosnem de
enfermeiras.Maseugostariade,pelomenos,passarporlá quandoestiveracaminhodeminha
próximamissão.
—Hummm,sério?Paraquê?Oumelhor,paraverquem?
—Ora,nãomeamole,Hannah.
Derepente,osjoelhosdeLeahdobraram-seeelaquasecaiu.
—Oquefoi?—Hannahperguntou.—Vocêestábem?
—Achoquesim.Nãosei.Sentiumafraquezarepentina,masjápassou.
Porém,assimquedisseisto,elacaiudejoelhosnochão.
—Leah!
—Euestoubem.Sóque...sóque...oh,Deus,sim.Fareiisso,Senhor.Claro.
—Oquê?Oqueé?
—Orecomigo,Hannah.DevemosorarpeloSr.Whalum.
—Devochamaraesposadele?
—Precisamosoraragora.
Senhor,elaorou,não sei o que estás incutindo em mim. Só sei que o Sr. Whalum necessita
deoraçãonestemomento.Nóscon iamosemti,nósteamamos,acreditamosemtiesabemosque
tuéssoberano.Suplicamos-tequeprotejasoSr.Whalumetodososqueestãocomele.Rayford,
George, Ree e ele devem estar saindo de lá, por isso te pedimos que lhes concedas o que eles
necessitam, que os protejas quando necessitarem de proteção e que os acompanhes na viagem à
Índia.
—Aívemeles—disseRayfordaGeorgeapontandoparaoladoesquerdodamultidão.
ACG,compostadecercadecemhomensfardadosearmados,estavachegandoemjipese
vans.Elestinhammegafones.
Enquanto Rayford estacionava o veı́c ulo do outro lado do povo, de onde podia ter uma
visãoprivilegiada,umoficialdaCGanunciou:
—Éproibidofazerreuniõesdessetipo.Vocêsestãotransgredindoalei.Nãoexisteaquium
centroparaaplicaçã odamarcadelealdade,efazmesesqueoprazoexpirou.Você snã opodem
mais reparar essa falha. Aparecer em pú blico sem a marca de lealdade é uma transgressã o
punı́vel com a morte pelas mã os de qualquer cidadã o cumpridor da lei, mas se você s se
dispersarem agora e voltarem para suas casas, estenderemos um pouco mais o prazo, para
permitir que recebam a marca dentro de 24 horas. Há centros de aplicaçã o em Tamel Aike e
LagunaGrande,ambosacercadecemquilômetrosdaqui.
Opovonãoparou,nãoolhou,nãoseperturbou.OoficialdaCGvoltouafalar:
—Esteéoúltimoaviso...
—Silêncio!
Avozcheiadeautoridadeveiodafrente,deumdostrê shomens,quesecomunicavasem
aajudadealto-falantes.
—Meunomeé Cristó vã o,eeufalosobaautoridadedeJesusCristo,oMessias,oFilhodo
Deus vivo. Ele determinou que as pessoas deste grupo que receberem hoje o seu evangelho
eternoentrarãonoreinomilenarnodiadeseugloriosoaparecimento,daquiadoisanos.
Opovocomeçouamurmurar,eoshomensdaCGvoltaramafalarpelosmegafones,mas
comoelesnãofuncionaram,ninguémouviuoqueelesdisseram.
—Meuscolaboradores,NaumeCalebe,estãoaquicomigosomenteparaproclamaraquilo
queoSenhordeterminouqueproclamá ssemos.E,aseguir,amensagemdesalvaçã oconcedida
por Deus por meio de seu Filho unigê nito será apresentada por uma das 144.000 testemunhas
queElelevantoudastribosdosfilhosdeIsrael.
— E, agora, afastai-vos daqui, vó s que praticais a iniqü idade, servos do rei maligno deste
mundo. Jamais chegareis perto deste povo e deste lugar novamente. Afastai-vos antes que o
DeusePaidenossoSenhorJesusCristovosaniquileaquimesmo.
Amedrontados,oshomensdaCGcorreramparaseusveı́c ulos,temendomorrer.Cristó vã o
disse:
—"TemeiaDeusedai-lhegló ria,poisé chegadaahoradoseujuı́z o;eadoraiaqueleque
fezocéu,eaterra,eomar,easfontesdaságuas"[Apocalipse14.7].
Naum falou a seguir amaldiçoando Babilô nia, e Calebe alertou para as conseqü ências de
aceitar a marca da besta. Em seguida, um evangelista trajando manto branco caminhou até à
frentedopovoedisse:
—"Haverá sinaisnosol,naluaenasestrelas;sobreaterra,angú stiaentreasnaçõ esem
perplexidade por causa do bramido do mar e das ondas; haverá homens que desmaiarã o de
terror e pela expectativa das coisas que sobrevirã o ao mundo; pois os poderes dos cé us serã o
abalados"[Lucas21.25-26].
—"Entã oseverá oFilhodohomemvindonumanuvem,compoderegrandegló ria.Ora,
ao começarem estas coisas a suceder, exultai e erguei as vossas cabeças; porque a vossa
redençãoseaproxima"[v.27,28].
—Otrigoestá chegandoevocê stê má guaemabundâ ncia,Bihari.Comlicença,voudar
umtelefonema.—Macteclouonú m erodeRayford.—Ray?Ondevocê está ,homem?Quando
seu pessoal pretende vir para cá ? Otimo. Ei, você viu os rios? Ah, é verdade, você está no Rio
Chico.Sabedeumacoisa?Apraganã oatingeoscrentes.Pelosmenosnã ooscrentesdaqui.—
Mac contou-lhe sobre o encontro que teve com Miguel e o que aconteceu com o sangue. —
Falta uma hora para decolarmos, portanto diga a esses irmã os e irmã s daı́ que a á gua está a
caminho! Bem, é verdade que eles nã o precisam mais tanto de á gua agora, certo? Bihari olha
paramimcomoseeué quefosseoculpadoporestragaracoisatoda...Masdigaaopessoaldaı́
quetratoétrato.
—Possocontaraele,capitãoSteele?—perguntouGeorge.
—Aelequem?
—ALuı́s.ContaraelequeaCGtevedeabandonarestaá rea.Econtartambé marespeito
daágua.
—Vocêgostadedarboasnotícias,não?
—Claro!
—Váemfrente.
Quandoelesvoltaram,Luísaproximou-secorrendodocarro.
—Eentão?—eleperguntou.
— George quer ter o privilé gio de lhe contar — disse Rayford. — Vamos decolar em dez
minutos.
Lionelassumiriaocontroledaaeronavenasprimeirasquatrohoras;emseguida,passariaa
tarefa para Ree. Rayford faria a aterrissagem. Ray estava sentado na poltrona do co-piloto,
atandoocintodesegurança,quandoLionelligouosmotores.Masassimqueelecolocouosfones
deouvido,Rayfordnotouquehaviaalgoerrado.
—Estátudobem?—Rayfordperguntou.Lionelmordeuoslábios.
—Fiztodososprocedimentospreliminares.
—Eutambém.Edaí?
—Háalgumacoisaerrada.
— Vô o longo, aviã o grande, carga pesada demais, meu amigo. Só vamos decolar depois
quevocêsederporsatisfeito,entendeu?
—Euagradeço,masnãoestouconseguindodescobriroqueé.
— Você quer fazer novamente todos os procedimentos preliminares, veri icar tudo, de
cimaabaixo,sóparatercerteza?
—Não,deixe-mepensarumpouco.Rayfordvirou-separatrás.
—Tudocertoaí,Ree?
Reelevantouopolegarerecostou-senapoltrona,comoseestivesseprontoparadormir.
—Oú ltimomembrodesuatripulaçã oestá chegando,Sr.Piloto.Eledevefecharaporta
ouvamosaguardarumpouco?
—Deveseralgumacoisainsignificante!Aguardeumpouco.Voudarumaolhadanacarga.
—Precisadeajuda?
—Não,euvousozinho.
—Estáfrioláfora!
—Comoseeunãosoubesse!
Rayfordaguardoudezminutos.ReeeGeorgejá estavamcochilando.Raydesatouocinto
desegurançaedirigiu-seaocompartimentodecarga.Lionelestavavindoaseuencontro.
—Tudocerto?—perguntouRayford.Lionelolhoufirmeparaele.
—Digaàtorrequeestamosprontos.
Assimqueelesataramoscintos,LionelolhouparaRayfordnovamente.
—LouvadosejaDeus,étudooqueeutenhoadizer.
—Não,nãoé.—disseRayford.—Queroquemeconte.
—Umpalletinteiroestavasolto.Eleiatombarnaprimeirainclinaçãodaaeronave.
—Enósíamosdespencar.
—Claro.
—Tenhocertezadequevocêverificouacargaduranteosprocedimentospreliminares.
— Veri iquei. Eu sempre veri ico. Nã o há nada mais importante do que manter a carga
centralizadaebemamarrada.
—Oquevocêestáachandodisso?
—Nã ofaçoidé ia.Veri iqueiastrancasduasvezes.Estavatudoemordem.Apenastivea
intuiçãodequedeveriafazernovaverificação.
— Bem, companheiro — disse Rayford -, graças a essa intuiçã o é que vamos conseguir
aterrissarnaÍndia.
CAPÍTULO20
CincoanosdentrodaTribulação
Changpassavahorasmonitorandoopalá cio,prestandomaioratençã otodasasvezesque
escutavaavozdeCarpathia.
—Existealgumacoisanaatmosferadaquelaantigaregiã odeEdomqueestá interferindo
emnossosmı́sseis,emnossosvô os,emnossaartilharia—disseCarpathiaumanoite.—Aá rea
inteiratransformou-seemumTriâ ngulodasBermudas.Garantaapaz,masnã ogastenemmais
umNickemarmamentosinúteis.Vamossubstituí-lospeladiplomacia.
Chang sabia que falar em diplomacia da Comunidade Global era um paradoxo. O
procedimento de operaçã o padrã o nã o tinha mais nenhum vestı́gio dos tempos em que era
necessá riopreservaraboaimagemdopotentado.Algué msempretentavaprotegê -lo,maspor
todoomundoexistiamprovasdequeaté mesmoosmilhõ esdecidadã osquepossuı́amamarca
de lealdade a ele sabiam, agora, que o deus ressurreto tornara-se um rei dé spota. Centenas de
milharesdepessoasmorriamportodaaparteemrazãodafaltadeáguapotável.
Umnoticiá riodaRegiã o7,osEstadosUnidosAfricanos,mostravaumamulhervociferando
empúblicodiantedeumapequenamultidãotemerosa:
— Justiça, imparcialidade, até mesmo tribunais de jú ri sã o relı́quias de tempos passados!
Obedecemos à CG e nos curvamos diante da imagem do supremo rei só porque todos nó s
conhecemosalguémquefoicondenadoàmorteporterdeixadodecumpriraordem!
Elafoialvejadacomumtiromortal,nolugaremqueestava,eopovodispersouparanã o
morrertambém.
Da mesma á rea veio a imagem da gravaçã o de uma cena enganosa, representando um
des ile programado para exaltar a CNNCG. O povo marchava indolentemente, com o rosto
pálido,carregandocartazesecantando"Salve,Carpathia",emtommonótono.
Chang sofria com o caos existente no palá cio e, ao mesmo tempo, tirava proveito dele.
Nova Babilô nia transformara-se em uma cidade fantasma. Os cidadã os nã o suportavam mais
fazer peregrinaçõ es aos edifı́c ios reluzentes. Com base em estatı́sticas reais — e nã o em
nú m eros adulterados dos resultados anunciados à populaçã o -, Chang sabia que metade da
populaçãomundialexistentenaépocadoArrebatamentohaviamorrido.
A capital do mundo nã o era mais a mesma. Facçõ es e minirreinados brotavam em toda
parte, até mesmo nos cı́rculos de Carpathia — gente do alto escalã o ameaçando, adulando,
cercando-se de bajuladores. Havia uma descon iança geral entre eles, embora todos fossem
subservientesemelososdiantedochefão.Revoltaeraumapalavraforadecogitação.Oreideles
provara ser imune à morte. Que vantagem haveria em matá -lo novamente? Ele icaria sem
poderes
durante trê s dias, mas o assassino teria de pegar seus pertences e estar bem longe dali
quandoeleressuscitasse.
Oestadoprecá riodosserviçospú blicosemNovaBabilô niaeracompará velaodetodosos
lugares do mundo, com exceçã o de Petra. Os pilotos do Comando Tribulaçã o e da cooperativa
contavam que, em todos lugares aonde iam, eles constatavam que tudo o que se desgastava
com o uso nã o era substituı́do. A reduçã o imensa da populaçã o custou à sociedade a perda de
metade das pessoas que trabalhavam no serviço pú blico. Havia pouca gente para transportar
combustı́vel,consertarcarros,manteraslâ mpadasdaruaedossemá forosemfuncionamento,
preservaraordem,protegerocomé rcio.BuckrelatouemAVerdadequeaCG, principalmente
os guardas municipais, usavam suas fardas, suas insı́gnias e suas armas para obter vantagens
pessoais. "Ai daquele comerciante que nã o 'molhar a mã o' de seu bom vizinho encarregado de
manterasegurança."
Chang observava tudo isso de seu local de trabalho como té cnico de informá tica no
departamento de Auré lio Figueroa, cujo sistema havia sido projetado e instalado com muita
competê ncia por seu antecessor, David Hassid. "Que ironia!", Chang pensava. Essa era a ú nica
coisaqueaindafuncionavaperfeitamente...
Carpathia tornara-se uma criatura ensandecida, e todos os que gravitavam a seu redor
demonstravam o mesmo comportamento — menos diante dele. Todos pareciam servir de
instrumento à sua loucura, competindo entre si para ver quem seria o primeiro a agradá -lo,
obedecendo a sua mais recente diretriz — que geralmente vinha em forma de um acesso de
fúria.
— Insubordinaçã o! — ele berrou altas horas da noite, enquanto Chang ouvia os exaustos
subordinadosdopotentadotentandopermaneceracordadoscomele.
—MeusubpotentadodaRegiã o7vaiacordaramanhã cedoe icarsabendoqueoschefes
daLíbiaedaEtiópiaetodososseusassessoresdiretosforamassassinados!
SuhailAkbardisse:
—Euvoufalarcomele,Excelência.Tenhocertezadequeeleperceberáque...
—Vocênãoentendeuqueissoéumaordem,Suhail?
—Como,senhor?
—Vocênãoentendeuminhaordem?
— O senhor quer que aqueles lı́deres e seus assessores diretos estejam mortos amanhã
cedo?
—Sevocênãopuderfazerisso,vouencontrar...
— Posso fazer, senhor, mas nã o haverá tempo su iciente para mandar nossos homens
daqui...
— Você é diretor do Serviço de Segurança e Inteligê ncia! Nã o tem nenhum contato na
Áfricaquepossa...?
—Voucuidardisso,senhor.
—Esperoquesim!
Aaçã ofoirealizadaporumcontingentedoServiçodeSegurançaeInteligê nciadasForças
Paci icadorasedosMonitoresdeMoraldaAfrica.Akbarfoielogiadonodiaseguinte,massofreu
nas mã os de Carpathia por mais de trê s semanas, porque o chefe estava tendo problemas em
"obterinformaçõesúteisdaRegião7".
Rayford morava em um abrigo subterrâ neo, como todos os outros pilotos que decolavam
partindodaantigabasemilitardeSanDiego.E,damesmaformaqueMaceAlbiepartiamdeAl
Basrah, Rayford fazia vô os diretos entre San Diego e outros centros da Cooperativa
InternacionaldeMercadorias.Oslugareseramtã odistantesetã oescondidosque,seospilotos
conseguissem enganar o radar da CG — outra tecnologia que també m se encontrava em
pé ssimo estado em razã o da perda de pessoal no mundo inteiro -, nã o encontrariam nenhum
outrotipodeproblemanocaminho.OchefedoComandoTribulaçã otemiaqueeleeseugrupo
baixassem a guarda e pusessem a perder toda a rede que haviam montado. Na verdade, ele se
sentiamuitomais irmeecautelosonostemposemqueaCGestavanoauge,trabalhandocom
forçatotal.Omundotornara-seumcaldeirãodesistemasdelivrecomércioindividual.
Quandoestava"emcasa",emSanDiego,Rayfordestudavaosrelató riosqueChloerecebia
do pessoal da cooperativa do mundo inteiro. Pouquı́ssimos lugares haviam escapado da
in luê ncia maligna dos impostores patrocinados pela CG. Má gicos, feiticeiros, prestidigitadores,
apariçõ es demonı́acas e representantes de Leon Fortunato pregavam um evangelho falso. Eles
se apresentavam como iguras de Cristo, messias, adivinhadores. Enalteciam a divindade de
Carpathia. Realizavam prodı́gios e milagres e enganavam um sem-nú m ero de pessoas. Essa
gente era levada a desconsiderar as a irmaçõ es de Cristo, geralmente pela promessa de á gua
potá vel.Masassimqueelastomavamadecisã oemproldomaligno,eleasdestruı́a,comofez
noNeguev,ouDeusasmatava.TsionBen-Judá continuavaadizerqueDeusestavatrabalhando
continuamente para igualar o nú m ero de crentes e de nã o-crentes, retirando da Terra aqueles
queportavamosinaldabesta,porqueumagrandebatalhaestavaseaproximando.
—Nã oestoudizendoqueoDeusdetodososdeusesnã oé capazdederrotaroinimigoque
Eledesejar—ensinavaTsion-,masoodorfé tidoquevemdooutroladodaevangelizaçã oem
proldomaltemofendidooSenhoreinflamadosuaira.
Mesmoassim,airadeDeuspermaneceequilibradaporcausadesuagrandemisericórdiae
amor. Nã o houve notı́c ia de nenhuma morte ou ferimento ter atingido um dos 144.000
evangelistasqueDeuslevantouparadivulgaraverdadearespeitodeseuFilho.
Apesardeestarexaustodetantolutareaguardandocomansiedadeodiaemqueiriapara
océ uouodiadoGloriosoAparecimento—paraRayfordnã ofaziadiferençaqualviriaprimeiro
-,eleaindaseemocionavacomasnotı́c iasrecebidasdomundointeiro.OComandoTribulaçã o
viamuitosdaqueles144.000homenscorajososapareceremempú blico,convidandoosindecisos
para saı́rem de casa a im de incutir neles as verdades acerca de Cristo. Esses homens eram
excelentespregadores,ungidosporDeuscomodomdaevangelizaçã o.Geralmente,apareciam
acompanhados de anjos para protegê -los e para resguardar seus ouvintes. Os exé rcitos da CG
eramincapazesdedetê-los.
— Os arcanjos Gabriel e Miguel tê m sido vistos em diversas partes do planeta fazendo
pronunciamentosemfavordeDeusedefendendoseupovo—TsioneChaimdiziamaopessoal
dePetraeaomundoviaInternet.
RayfordagradeciaaDeussilenciosamente,enquantoliaqueCristóvão,oanjodoevangelho
eterno, geralmente aparecia em regiõ es remotas onde Cristo nunca havia sido pregado. Naum
continuava a alertar o povo a respeito da queda de Babilô nia, à s vezes acompanhado de
Cristó vã o,à svezessozinho.Easnotı́c iasdavamcontadequeCalebeapareciaemalgumlugar
todos os dias, alertando para as conseqü ências de aceitar a marca da besta e de adorar sua
imagem.
Alé m disso, era comum o Comando Tribulaçã o ver ou sentir a presença de anjos
protegendo-osaondequerquefossem.Geralmente,mesmoforadasrotasaPetra,osaviõ esda
CG interceptavam os deles, os advertiam, tentavam forçá -los a pousar para atirar neles. Sem
saber quando e onde eles seriam protegidos fora do Neguev, os pilotos do Comando Tribulaçã o
agiam de maneira evasiva. Mas, até aquele momento, Deus optara por guardá -los, deixando a
CGfrustradaeperplexa.
Faltando menos de dois anos para o Glorioso Aparecimento, Rayford encontrou-se com
BuckeChloeparaavaliarascondiçõesatuaisdoComandoTribulação.
— Onde estamos — ele perguntou — e onde precisamos estar para ajudar ao má ximo
todososcrentesaoredordomundo?
ChloecontouqueLionelWhalumesuaesposaconseguirammanteracasaemIllinois.
— Leah e Hannah estã o extremamente irritadas por terem de viver trancadas durante
tanto tempo — disse Chloe -, mas acho que elas se sentem incentivadas por tudo o que Deus
temfeitoemsuasvidas.Lionel icouemocionadoaosaberqueLeahfoimovidaporDeusaorar
por ele antes de sua partida da Argentina. Sabe, papai, atualmente ele é um dos pilotos mais
atarefados.Entregasuprimentosnomundointeiro.
—ComoestásendoaconvivênciaentreLeaheHannah?—disseBuck.—Eunãoconheço
asduasmuitobem,masLeahdeixaqualquerumnervoso.ElaaindaestácaidinhaporTsion?
— As duas nã o aparecem em pú blico — explicou Chloe — e dizem que se sentem vivas
apenasà noite.Elasnã oseatrevemasairduranteodia.ACGatuasomentedevezemquando
naquelaá rea,masbastaumcidadã odizerqueviualgué msemamarcaparapô rnossotrabalho
todoaperder.
—NãotenhomaisouvidofalardeZ—disseRayford.
Chloesacudiuacabeça.
— De todo o nosso grupo, Zeke foi, provavelmente, quem mais mudou. Lá no oeste de
Wisconsin ningué m precisa de seus serviços. Nã o há necessidade de confeccionar fardas, criar
disfarces,transformarumapessoaemagentedaCG.
— Será que nã o poderı́amos aproveitar melhor os serviços dele aqui? — perguntou
Rayford.
—Não,depoisdoqueeuvoulhecontar—disseChloe.
—Zeketransformou-senumanovapessoa.EleseinteressoutantoporestudaraBı́bliaque
passouaseroassistentedolíderespiritualdaigrejaclandestinadelá.
—Zeke,umassistentedepastor?—estranhouRayford.
—Quecoisaincrível!
—ChloetemmantidocontatocomEnoqueecomalgumaspessoasdogrupodele—disse
Buck.
— E verdade. Eu me desculpei por ter me intrometido na vida e na comunidade deles,
porquemesentiresponsá velpelaseparaçã oquehouvenacongregaçã odeOLugar.MasEnoque
medisseque,seeunã otivesseidoaté lá ,elesnuncasaberiamqueChicagoseriadestruı́da.Por
outro lado, papai, sei que se eu nã o tivesse perambulado por Chicago no meio da noite, talvez
aquelasegundadestruiçãonãotivesseacontecido.
Certamanhã ,emPetra,opovotomouconhecimentodequeosanguedetodososmares
domundovoltaraatransformar-seemáguasalgada.
— Deus nã o me revelou nada sobre isso — disse Tsion. — Mas pressinto que deve estar
vindoalgumacoisapior.Elogo.
Asituaçã opoucomudou,anã oserpelofatodeCarpathiatentarassumirparasiocré dito
deterpurificadoosmares.Eleanunciou:
— Meu pessoal inventou uma fó rmula que puri ica as á guas. A vida animal e vegetal dos
oceanos retomará seu curso normal em breve. E, agora que os oceanos voltaram ao normal,
todasaságuasdosriosedoslagostambémserãorestauradas.
Ele estava errado, é claro, e a estupidez de sua fanfarrice custou-lhe um pouco mais de
credibilidade.Deushaviadecidido,emseudevidotempo,suspenderapragadosmares,masos
rioseoslagoscontinuaramrepletosdesangue.
Poucoantesdeserexecutado,umrebeldesuecoanunciou:
—Quandoexultouaoverqueosmaresvoltaramaonormal,essenossosupostopotentado
nã o mencionou que o mundo continua mergulhado no mais completo caos. Peixes mortos,
podres, fé tidos ainda cobrem as praias de todo o planeta e continuam a provocar doenças que
atingiramgrandepartedaspopulaçõ eslitorâ neas.Eondeestã oasestaçõ esdetratamentopara
transformarasá guasdomaremá guapotá vel?Nó sestamosmorrendodesede,enquantoorei
esbanjaosrecursosqueaindaexistem.
SESSENTAEOITOMESESDENTRODATRIBULAÇÃO
Chang icouintrigadoaoouvirfalardeumareuniã oinesperadanasaladeconferê nciasde
Carpathia.Paragrandefrustraçã odeCarpathia,foiLeonquemconvocouareuniã o,masSuhail
Akbar,VivIvinseKrystall,asecretáriadeNicolae,rapidamentesaíramemapoioaLeon.
—Convoqueiareuniãoparafalardaágua,Excelência
—Leoncomeçouadizer.—Osenhornã onecessitamaisdealimento,inclusivedeá gua,e
talvezsejaporissoquenãoentende...
—Ouça,Leon.Existeáguanosalimentos.Vocêsnãoestãosealimentandoosuficiente?
—Potentado,asituaçã oestá medonha.Tentamospegará guadomaretransformá -laem
águapotável.Masestásendomuitodifíciltransportarnaviosnovosatélá.
—Infelizmente,issoé verdade—disseAkbar.—Nossastropasdetodososlugaresestã o
sofrendo.
—Euestousofrendo—disseViv.—Sofrendonapele.Há ocasiõ esemquepensoquevou
morrersenãotomarumpoucodeágua.
—Sra.Ivins—disseCarpathia-,nã ovamospermitirqueaadministraçã odaComunidade
Globalpareoqueestáfazendoporcausadesuasede.Vocêcompreende?
—Sim,majestade.Perdoemeuegoísmo.Nãoseioqueeu...
—Vocêtemummínimodeexperiêncianessaárea?
—Como,senhor?
—Noassuntoqueestamosdiscutindo!Você temalgumaidé iaparanosajudaraencontrar
uma soluçã o? Você é uma especialista? Uma cientista? Uma hidró loga? Nã o há necessidade de
sacudiracabeça.Euconheçoasrespostas.Sevocê nã otemserviçourgenteparafazeremseu
escritório,porquenãoficacalada,sóouvindo,agradecidaporreceberumsalárioaqui?
—Osenhorpreferequeeumeretire?
—Claro!
Changouviuobarulhodeumacadeirasendoempurradaparatrás.
—Sóporquetemumapequenaligaçãocomminhafamília-disseNicolae-,vocêachaque
temasrédeasnamão!Nãomedêascostasquandofalocomvocê!
—Penseiqueosenhorquisessemeverlongedaqui—elachoramingou.
— Eu nã o sirvo a criados, empregados, amigos ou a quem quer que seja que desrespeite
seusoberano.Essamesmaatitudeafezpensarquepoderiasentar-seemMEUTRONOemMEU
TEMPLO!
— Divindade, eu já me desculpei in initas vezes por aquela imprudê ncia! Já me humilhei,
mearrependie...
—Excelência—disseLeon,comvozsuave-,issoaconteceuhámaisdedoisanos...
— Você ! — esbravejou Carpathia. — Você convocou esta reuniã o e agora també m me
afronta?
—Não,senhor.Eulhepeçodesculpasseoafron...
— Que outro nome você dá a isso? Você quer fazer companhia à tiaViv e retornar a seu
escritó rioparafazeroseutrabalho?Você é ochefedaigreja,homem!Oqueestá acontecendo
com o Carpathianismo enquanto você se preocupa com a á gua? Onde estã o os cientistas, os
técnicosquetêmalgumacoisaameapresentar?
Leonnãorespondeu.
—Sra.Ivins,porquevocêaindaestáaqui?
—Eu...eupenseique...
—Fora!Peloamordetudo...
— Senhor — Suhail começou a dizer, como se fosse a voz da razã o -, eu consultei os
especialistasantesdevirparacáe...
— Finalmente! Finalmente vejo algué m que usa o cé rebro que lhe dei! O que você tem a
medizer?
—Seosenhorobservaraqui,majestade...
Changouviubarulhodepapel,comoseAkbarestivesseestendendoumdocumentosobrea
mesa.
— A fotogra ia via saté lite detectou uma fonte no meio de Petra que, aparentemente,
produzáguafrescadesdeodiadosbombardeios.
— Quer dizer que voltamos a falar de Petra, nã o, diretor Akbar? O lugar onde foram
despejadosbilhõesdeNicksnasareiasdodeserto?
— Foi um trabalho perdido, senhor, mas observe o que a fotogra ia aé rea mostra.
Aparentemente, o mı́ssil atingiu um aqü ıf́ ero que fornece milhares de litros de á gua pura todos
os dias. Isso nos leva a crer que essa fonte se estende até os arredores da cidade de Petra, e
nossopessoalachaquetambémpodemosteracessoaela.
—Paraqueladoelesachamqueelaseestende?
—Paraoleste.
—Equaléaprofundidade?
—Elesnã osabeminformarcombasenessetipodetecnologia,masseummı́ssilfoicapaz
de penetrar nesse aqü ıf́ ero, certamente poderı́amos perfurar, ou até mesmo lançar outros
mísseis,alestedePetra.
—Usarummı́ssilparaperfurarumafonte?Suhail,você já ouviufalardealgué mqueusou
umequipamentodetantapotênciapararealizaressetrabalho?
—Comtodoorespeitoquelhedevo,senhor,masduasbombasdamaisaltatecnologiae
ummíssilLanceproduziramáguapotávelparaummilhãodenossosinimigos.
MachavialigadoparaAbdullaha imdecontar-lhesobreoté rminodeumanovapistade
pousoparaacooperativa,"lindamenteescondida"alestedeTa'izz,aonortedoGolfodeAden,
naregiãosuldolêmen.
—Albieconseguiuumembarquedemercadoriasqueelegostariaquefosseentregueem
Petra,sevocêpudessebuscá-lasetransportá-lasparaPetranodiaseguinteoudoisdiasdepois.
—Eu?—disseAbdullah.—Sozinho?
—Querqueeufiquesegurandosuamãozinha,Smitty?
— Nã o. Nã o se trata disso. E que esses serviços sã o muito mais divertidos quando temos
companhia.
— Ah, sim, eu sou o cara mais divertido do mundo, mas trata-se de um serviço rá pido e
simplesquevocêpodefazercomumadasaeronavesmaisleves.
—UmdoshomensdoSr.WhalumdeixouumLearaqui.ApistanovacomportaumLear?
—Claro.Um30oumenor.Dequalquerforma,aguardenossachegadaporvoltadomeiodia.Quandovocêachaquepodefazerisso?
—Talvezhoje.Sedertempodefazerasunhasearrumarocabelo.Eutambé mpretendia
fazerumamaquiagem,mas...
—Queloucuraéessa,cara?Abdullahriu.
—Finalmenteconseguipegarvocê,Sr.Mac!Euestavabrincandocomvocê!
—Estoumorrendoderir,Smitty.
—Eupegueivocê,nãopeguei,cowboy?
Abdullahestavaveri icandoascondiçõ esatmosfé ricasnocentrodecomunicaçõ esquando
Naomiochamou.
—Sr.Smith,oqueosenhorachadisto?Elecorreuatélá.
—Oquelheparece?—elainsistiu.
Abdullahsentiuumfrionoestômago.Deveriadizer?Nãodeveria?
—Estámeparecendoumaviso.
—Foioquepensei!Oquedevofazer?
—ChameTsioneChaim.Códigovermelho.
—Possocontaraelesquefoiosenhorquemdisse?
—Digaoquequiser,masrápido.
Elaapertouumbotãoefalouaomicrofone.
—Centraldecomunicaçõesparasetordeliderança.
—Aquiéosetordeliderança.Bomdia,Naomi.
—FuiautorizadapeloSr.SmithachamaroDr.Ben-Judá eoDr.Rosenzweigaquiomais
rápidopossível.Ésobreumcódigovermelho.
—Nãovoupedirquevocêrepita.Sóconfirmeseentendibemoquedisse.
—Positivo,liderança.Códigovermelho.
AbdullahfoiaoencontrodeTsionedeChaimnaentrada.Elesestavamacompanhadosde
váriosanciãos,todoscomardepreocupaçãonosemblante.
—Abdullah—disseChaim-,oscó digosvermelhossã oreservadosparaameaçasaobemestardetodos.
—Acompanhem-me.
Abdullahoslevouaté Naomi.Elesformaramumsemicı́rculoatrá sdela,comosolhos ixos
natela.
—Ummíssil?
—Éoqueparece—disseAbdullah.
—Lançadoemdireçãoàcidade?
—Não,masperto.
—Deonde?
—ProvavelmentedeAmã.
—Tempo?
—Minutos.
—Alvo?
—Talvezaleste.
—Nomesmolugarqueelesandaramperfurando?AbdullahassentiucomacabeçaeTsion
disse:
—Elesestã operfurandoolocalhá semanas,enã ovimosnada.Nemó leo,nemá gua,nem
sangue. Agora vã o bombardear o lugar? Nã o acredito que Carpathia vá usar armas contra os
própriosexércitos,járeduzidosdemais.Temostempoparaassistirisso?Seriaaconselhável?
Abdullahanalisavaatela.
—Euestivenamiradeduasbombase de um mı́ssil dois anos atrá s. Nã o tenho medo de
outro mı́ssil que vai cair a pelo menos um quilô m etro e meio daqui. Temos binó c ulos apoiados
emtripés,nolugaralto,aonortedoSiq.
—Devoavisaropovo?—perguntouNaomi.Tsionrefletiuporalgunsinstantes.
— Diga apenas para nã o se alarmarem quando ouvirem uma explosã o daqui a... quanto
tempovocêcalcula,Abdullah?
—Quinzeminutos.
—Issonãoésurpresaparaaequipedeperfuração—disseAbdullahalgunsminutosdepois,
comocorpocurvadoparaenxergaratravésdosbinóculospossantes.
—Elesmudaramdelugar-disseTsion.
—Everdade.Maisdeumquilô m etroemeio.Talveztrê s.Eamá quinadeperfuraçã ofoi
desmontada.Paramim,signi icaqueelesnã oqueremqueamá quinasejadestruı́dapelomı́ssil.
Eladevetersidoprogramadaparaalgumacoordenadaespecífica.
Chaimsentou-sesobreumapedrarespirandocomdificuldade.
—Seráqueestoumuitovelhoouodiaestáquentedemais?
—Estoutranspirandomaisqueonormal,meuamigo—disseTsion.
Abdullahafastou-sedosbinóculoseprotegeuosolhoscomamão.
—Jáqueosenhormencionouisso,olheparaoSol.
OSolpareciamaior,maisbrilhante,maisaltodoquedeveriaestar.
—Quehorassão?—Tsionperguntou.
—Quasedez.
— Que estranho! Parece sol do meio-dia. Será que... Abdullah ouviu um zunido ao longe.
Eleolhouparaonorte.Umrastrodefumaçabrancaapareceunohorizonte.
—Mı́ssil—eledisse.—Vaiserdifı́c ilacompanhá -locomosbinó c ulos,masosenhorpode
tentar.
—Eupossovê-loaolhonu—disseTsion.
—Estousentindomuitocalor—disseChaim.
Elesviramquandoomíssilriscouocéuecomeçouadescer.Pareciaapontadoparaolocal
original da perfuraçã o. Passou pela má quina desmontada no solo do deserto e caiu a uns cem
metrosaosul,levantandoumaimensanuvemdeareiaedeterraeabrindoumacrateralargae
profunda.
O estrondo da explosã o chegou aos ouvidos deles em questã o de segundos, e a nuvem
dissipou-selentamente.Abdullahreajustouosbinóculospáraanalisaracratera.
—Nã opossoacreditarqueomı́ssilabriuumacrateracomprofundidadequaseigualà do
buracoqueelesandaramperfurando—eledisse.—Apesardisso,atéagoranadafoiencontrado.
—Estouachandoengraçado—disseTsion-,maseugostariadesaberoqueelestinham
emmente.Seestavamesperandoencontrará gua,nã oimaginaramquepoderiamproduzirum
jatodesangue?
CAPÍTULO21
Changcorreuumsé rioriscoaoacompanhar,furtivamente,desuamesa,olançamentodo
mı́ssil destinado a encontrar á gua. Ele estava com os fones de ouvido e, ao mesmo tempo,
atentoparaversehaviaalguémseaproximando.
Nicolaepraguejou.
—Quantocustouessepequenoprojeto,Suhail?
—Nãofoibarato,Excelência,masaindanãopodemosconsiderarumfracasso.
—Considerar?OLancequeenviamosaPetraproduziuimediatamenteumafontedeá gua
quejorraatéhoje!Esseoutrofoiumcompletodesastre!
—Talvezosenhorestejacerto.
— Eu sempre estou certo! Enfrente a realidade. Você vai ter de conseguir á gua de outra
maneira.
ChangouviuumabatidanaportaeavozdeKrystall.
—Comlicença,senhor,masestamosrecebendonotíciasestranhas.
—Quetipodenotícias?
—Umaespéciedeondadecalor.Aslinhastelefônicasestãocongestionadas.Opovoestá...
Changouviuumgritoepercebeuqueveiodesuasala,nã odosetordevigilâ ncia.Elesaiu
doprogramarapidamente,retirouosfonesdeouvidoeacompanhouseuscolegasaté asjanelas,
ondeseamontoaramparaenxergaroquesepassavaláfora.
—Voltemaotrabalho!—gritouoSr.Figueroasaindoabruptamentedesuasala.—Saiam
dessasjanelas!
Mas, agindo como se fossem crianças, eles nã o obedeceram, porque a curiosidade falava
maisalto.Oqueestariacausandotodasaquelasexplosões?Felizmente,ajaneladeondeChange
alguns colegas seus espiavam nã o foi a primeira a ser atingida, mas dois outros colegas — o
arrogante e soberbo Lars e uma moça — foram atingidos por cacos de vidro quando a vidraça
diantedelesseespatifou.
Enquanto os dois se contorciam no chã o, pá lidos e apavorados, a sala foi invadida pelo ar
quente do deserto. A mulher que se ajoelhou para ajudar os feridos imediatamente icou
vermelha pelo calor. Enquanto ela tentava fugir dali, seu cabelo enrolou-se, produziu faı́scas e
irrompeuemchamas.
Osoutrostentaramarrastarosdoisferidosparaumlugarseguro,mastambé mtiveramde
fugirdocalor.
—Oqueéisso?—berroualguém.—Oqueestáacontecendo?
Os que estavam na frente de Chang afastaram-se rapidamente da janela, e ele viu o que
estava acontecendo lá embaixo. Os pneus dos carros explodiam. As pessoas saltavam dos
carros,depoistentavamentrarnovamente,queimandoasmã osnasmaçanetas.Ospá ra-brisas
derretiam-se,asfolhagenstornavam-semarrons,murchavamepegavamfogo.Umcã o,quese
soltoudacoleira,correuemcírculosecaiuofegantenochão,minutosantesdeserincinerado.
— Para o porã o! — gritou Figueroa aos que nã o queriam abandonar seus colegas feridos.
—Étardedemaisparaajudá-los!
Osfuncioná rioscorriam,olhandoparatrá sporcimadosombros,enquantofugiam.Quando
alcançaram a porta, eles avistaram Lars e a moça tentando livrar-se das chamas, que, em
seguida,osconsumiram.
Chang foi um dos ú ltimos a sair da sala, porque estava apenas simulando os efeitos do
calor. Ele viu os resultados, mas apesar de saber que a temperatura externa parecia mais alta
queonormal,elenãofoiatingidopelaforçaexterminadora.
Quandochegoupertodoelevador,asportasestavamsefechando,oqueodeixoufeliz.
—Voupegarooutro—eledissee,imediatamente,correuparaseuapartamento.
A meia-noite, em San Diego, Rayford foi despertado por sons insistentes vindos de seu
computador.Elearrastou-sedacamaeligouomonitor.Tsionestavainformandoaseupú blico
virtualaoredordomundoqueoquartoterrı́velJulgamentodasTaçashaviachegado,conforme
profetizado na Bı́blia, e que esse lagelo afetaria cada fuso horá rio da Terra, assim que o sol
despontasse.
"Aqui em Petra", ele escreveu, "por volta das dez horas da manhã , as pessoas sem o selo
deDeusqueestavamsobosolforamqueimadasvivas.Estapareceserumaoportunidadesem
paralelos para suplicar mais uma vez pelas almas de homens e mulheres, porque milhõ es de
pessoas perderã o entes queridos. Mas a Bı́blia també m menciona que a mensagem poderá
chegartãotardeaosindecisosqueseuscoraçõesjáestarãoendurecidos.
"Apocalipse 16.8-9 diz: 'O quarto anjo derramou a sua taça sobre o sol, e foi-lhe dado
queimar os homens com fogo. Com efeito, os homens se queimaram com o intenso calor, e
blasfemaramonomedeDeusquetemaautoridadesobreestesflagelos,enemsearrependeram
paralhedaremglória.'"
Rayford digitou um có digo para ter uma conversa particular com Tsion ou Chaim,
qualquerumdosdois."Seiqueambosestã omuitoatarefadosnestemomento,maseugostaria
queumdevocêsreservassealgunsminutosemproldoComandoTribulação."
Atrê scasasdali,MingToyfoidespertadaporumtelefonemadeReeWoo.Reeprometera
cuidardamã edelaedeviaestarligandoparacontar-lheasnovidades,masMingassustou-seao
ver a hora. Mesmo apó s ter se tranqü ilizado ao ouvir a promessa de Cristó vã o de que ela e a
mã e viveriam até o Glorioso Aparecimento, Ming sabia que, apesar daquela garantia, sua mã e
poderiapassarorestodeseusdiasemumaprisão.
—Estátudobem?—elaperguntou.
— Está tudo ó t imo — respondeu Ree -, embora eu nã o tivesse tanta certeza quando
chegueiaqui.Fuiavisadopara icarlongedoabrigosubterrâ neo,porquecorriaumboatodeque
a CG o localizara e planejava invadi-lo. Os crentes estavam atarefados, arrumando seus
pertencesparafugirà noite.ElesestavamtorcendoparaqueaCGinvadisseolocalmaistarde,
como era praxe, no horá rio em que eles costumavam estar dormindo. Mas assim que o sol
nasceu,perceberamquehaviapoucoruı́donarua.Algunssearriscaramasaireviramoestrago
causadopeloSol.Tudoestavaqueimado,seco,derretido,estragado.Nã ohavianingué mnarua,
apenas corpos carbonizados espalhados pelo chã o. Os crentes estã o protegidos, mas a CG e os
leaisaCarpathianã opodemenfrentaroSol.Opessoaldoabrigosubterrâ neomudou-seà luzdo
dia, e se os homens da CG forem atrá s deles à noite, vã o se decepcionar. Os crentes nã o se
mudaramparamuitolonge,maséumesconderijomelhorqueoanterior.
—Elesviramumacenaaolongodocaminhoqueteriasidodivertida,senã ofossetrá gica.
Um pequeno contingente da CG tentou usar roupas à prova de fogo, botas e capacetes para
proteger-se do calor intenso. Os homens conseguiram andar uns cem metros; em seguida, se
separaram quando suas roupas começaram a pegar fogo. Espalhadas nas ruas, há pilhas e mais
pilhasdemateriaisemchamas.
—Vocêvaivoltarlogo,Ree?Sintomuitosuafalta.
— Eu també m sinto sua falta, Ming. Eu amo você . Agora vou poder sair durante o dia, e
embrevedevoestardevolta.
—Tomecuidado,meuamor—eladisse.
Rayford estava sentado na beira da cama, com as mã os na cabeça, na mais completa
escuridã odeumabrigosubterrâ neo.Sentia-secansadoeprecisavadormirumpoucomais.Mas
nã o dormiria. Esse lagelo, talvez diferente dos anteriores, poderia proporcionar oportunidades
singularesparaeleeseugrupo.
Finalmente, ele ouviu o sinal. Tsion estava do outro lado do sistema particular de
mensagens.
—Perdoe-mepornãoligarovídeo—disseRayford-,masestamosnomeiodanoite.
—Tudobem,capitã o.Antes,querosaberseestaconversaprecisaserparticular.Estouno
centrodetecnologiaeháoutraspessoasporaqui.
—Nãoháproblema,Tsion.Todosestãobemaí?
—Estamosmuitobem.Sentimosumpoucomaisdecalor,ealgumaspessoasapresentam
sinaisdecansaço,mas,aparentemente,estamosprotegidosdosefeitosdesteflagelo.
—Seiquevocê está ocupado,masprecisodeumacon irmaçã o.Você acreditaquetodos
nós,quetemososelodeDeus,estamosimunesaocalor?
—Sim.
—VocêentendeoqueissosignificaparaoComandoTribulação,Tsion?Poderemosfazero
quequisermosduranteodia.OshomensdaCGnã oconseguirã ointerferiremnadaaté odiaem
queocalordiminuireelespuderemsairàsruasnovamente.
— Entendo. Eu só acho que Deus nunca é previsı́vel quanto a essas coisas. Nó s sabemos
qual é a seqü ência das pragas e que uma praga termina quando outra começa, mas o lagelo
sobreosoceanosnã oterminouquandoomesmo lageloatingiuoslagoseosrios.Eosoceanos
voltaram ao normal pouco tempo antes da chegada desse lagelo. Eu nã o gostaria que você
estivesse andando por aı́, em plena luz do dia, quando ele chegasse ao im. Você icaria
vulneráveldemais.
— Concordo. Acho que esse ú ltimo vai durar o su iciente para nos dar um pouco de
liberdade. Nunca vi o mundo em estado tã o lastimá vel, nem tantas pessoas necessitando de
ajuda.
—Oh,Rayford,omundoécomoumcartuchodescartávelvazio.MesmoantesdeDeuster
derramadoesse lagelo,oplanetajá estavanapiorcondiçã oimaginá vel.Issomelevaapensar
como o Senhor vai conseguir esperar até o im dos sete anos. O que restará até lá ? A pobreza
está cadavezmaior.Aleieaordemsã ocoisasdopassado.Até mesmoosleaisà Comunidade
Global perderam a fé em seu governo e em suas Forças Paci icadoras. Os Monitores de Moral
estã o aceitando subornos, ao que parece. As pessoas nã o se atrevem a sair à s ruas sem estar
armadas.
—Cameronmedissequenã oconheceumú nicocidadã oquenã otenhaouquenã oporte
uma arma. De quase todos os paı́ses, surgem notı́c ias de pilhagens por bandos de ladrõ es e
estupradores, sem mencionar os vâ ndalos e os terroristas. O melhor que temos lá fora sã o os
144.000 evangelistas e o aumento da atividade dos anjos que o Senhor misericordioso nos tem
enviado.
—Lembre-se,Rayford,agoratemostrê stiposdepessoas:asquepossuemoselodeDeus,
as que possuem a marca do anticristo e as indecisas. Há cada vez menos indecisos, mas sã o
esses que devemos alcançar. Eles estã o sofrendo agora, mas, oh, sofrerã o ainda mais, todos os
dias, quando o sol nascer. Imagine o tumulto, a devastaçã o. Falta de energia elé trica,
sobrecarganosaparelhosdearcondicionado,acidentes.Etudoissochegandoquandometadeda
populaçãojásefoi.
—Nã oestamoslongedaanarquia,meuamigo.ACGnã oseimportacomocaos,porque
se bene icia dele. Estou surpreso ao ver que ainda existem pessoas leais a Carpathia. Veja a
devastaçãoqueeleprovocou.
—Dr.Ben-Judá ,dequeformaissoseencaixaemseuargumentodequeessesjulgamentos
revelamabondadeemisericó rdiadeDeusnamesmaproporçã odesuaira?Oanjoqueanunciou
que os rios e lagos se transformariam em sangue disse que isso seria uma vingança contra o
sanguederramadodosprofetas.
— Deus é justo e Deus é santo, Rayford, mas eu nã o creio que Ele enviaria outros
julgamentosaomundoagora,senã odesejassequemaisalmassearrependessem.Nã ohá dú vida
de que alguns se arrependerã o. Sei que a maioria nã o se arrependerá , porque a Bı́blia diz que
eles blasfemam o nome de Deus. Evidentemente, a esta altura, todos sabem que esses
julgamentos procedem de Deus. Apesar disso, muitos se recusam a arrepender-se de seus
pecados.
— Eu concordo com você , Tsion. Ningué m pode argumentar que Deus nã o existe. Há
provascontundentesdesuapresençaepoder...e,mesmoassim,muitosaindaorejeitarã o.Por
quê?
— Capitã o Steele, essa é uma pergunta que tem sido feita ao longo dos sé culos. Você se
lembra da histó ria do Antigo Testamento, depois que Moisé s cresceu e se recusou a ser
chamadode ilhoda ilhadeFaraó , mesmotendoessedireito?ABı́bliadizqueelepreferiu"ser
maltratado junto com o povo de Deus, a usufruir prazeres transitó rios do pecado" [Hebreus
11.25].
— Bem, essas pessoas certamente nã o sã o iguais a Moisé s. Elas sofrerã o tormentos e
perderã o a alma, tudo isso para usufruir os prazeres do pecado... prazeres transitó rios. Eu
aplaudo seu modo de pensar. Você me disse que talvez este seja o momento para o Comando
Tribulaçã o empreender seus esforços para ajudar os crentes que estã o lutando a encontrar os
indecisoseapoiarosevangelistaseosanjosa imdearrebanhá -losantesquesejatardedemais.
Desejo-lhequeDeusoabençoe,sejaqualforasuadecisão.
Buck dirigiu-se apressado aos aposentos clandestinos de George Sebastian, onde a esposa
deGeorgeestavabrincandonochãocomofilhodocasal.
—Precisosairparaveroqueestáacontecendo—disseBuck.
—Temosdetomarcuidadocomoradar—disseSebastian.—ACG icariaassustadase
vissealguémvoandoporaíduranteodia.
—Oquevocêrecomenda?
—Helicóptero.
—Vocêtopa,George?
—Nãoprecisameperguntarduasvezes.
Buckjá tinhavistoneblinapairandoacimadosbraçosdemaremmanhã sfrias,masnunca
viraoPacíficoemitirvaporaumadistânciatãogrande.
—Vocêacreditanoqueestamosvendo?—eleperguntou.
—Eunã oduvidodemaisnada—respondeuGeorge.Buckpermaneceucalado,enquanto
o fogo irrompia por tudo o que restara de San Diego. Quanto mais se aproximava o meio-dia,
mais brilhante o cé u icava. As casas e os edifı́c ios pararam de emitir fumaça e de pegar fogo.
Agora, tremiam e sacudiam. Os vidros estilhaçavam, os telhados se enrolavam e estruturas
inteirasexplodiamlançandolabaredasefaíscasparaoalto.
Depois que George sobrevoou o oceano, Buck avistou a areia mudar de cor vá rias vezes
até transformar-seemcarpetescrepitantes,cujaslabaredaspareciamexecutarumaespé ciede
dança.Aá guaassobiavaeferviaquandotocavaapraia,eeralevada,borbulhando,paradentro
do mar. Sem nenhum aviso, o oceano inteiro atingiu o ponto de ebuliçã o e transformou-se em
uma cisterna de gigantescas bolhas revoltas, que produziram uma nuvem de vapor, impedindo
queBuckenxergasseocé ueoSol.Ohelicó pterofoienvolvidoporumafumaçabranca,tã opura
etãodensaqueBuckachouqueSebastianperderiaocontroledaaeronave.
—Estamoscompletamenteàmercêdosinstrumentos,amigo—disseGeorge.
Ohelicó pterosacudiaebalançavanomeiodafumaça,enquantoelesseguiamemdireçã o
à praia.QuandoSebastianjá estavaauns800metrosdacostaelongedanuvemdevapor,eles
olharamparabaixoeviramarelvaeascasasemchamas.
—Aquetemperaturaosangueentraemebulição?—Buckperguntou.
—Nãofaçoidéia—respondeuGeorgedirigindo-seimediatamenteaoRioSanDiego.
—Sejaláqualfor—disseBuck-,issojáaconteceu.
— Ele olhou para as gigantescas bolhas vermelhas que se formavam e estouravam,
produzindo inosborrifosquesubiamcomovapor.—Quenojo!—eledisse,fazendoumacareta
etapandoonariz.—Vamosemboradaqui.
O Comando Tribulaçã o estava livre para ir e vir, desde que seus membros tomassem
cuidadoparaplanejarsuassaı́dasnoshorá riosemquepudessemaproveitaraomá ximoaluzdo
dia.Oú nicoalı́vioparaosexé rcitoseoscidadã osdaComunidadeGlobalquepossuı́amamarca
de lealdade era permanecer em porõ es e inventar maneiras de livrar-se do calor sufocante.
Apesardisso,centenasdemilharesdepessoasmorriamquandosuasmoradiasseincendiavame
desabavamsobreelas.Ascasaseosedifícioseramconsumidosrapidamentepelofogo,porqueos
bombeirossóseatreviamasairàsruashorasdepoisqueescurecia.
Os jardins, as plantaçõ es e os gramados morreram. As calotas polares derreteram mais
rá pido do que em qualquer outra é poca da histó ria, ameaçando todas as cidades portuá rias. As
praias e as regiõ es costeiras desapareceram sob a inundaçã o, e o odor fé tido dos animais
marinhos mortos era sentido a quilô m etros de distâ ncia. Se as pessoas nã o tivessem mudado
para as regiõ es afastadas da costa, na tentativa de fugir do mau cheiro e das bacté rias, mais
genteteriamorrido.
Emmeioatantaconfusã oesofrimento,RayfordeChloetrabalhavamcadavezmaispara
pôremordemosestoquesdeprodutospermutadosporintermédiodaCooperativaInternacional
deMercadorias.Sabendoqueotempoeralimitado,elestiravamvantagemdaobsessã odopovo
deencontrarabrigoealı́vioparaocalordosol.Elesmontaramumaestraté giacomChangpara
transferir equipamentos e aeronaves de lugar e criaram novos depó sitos e centros de
distribuição,preparando-separaoúltimoanodeexistênciaemumplanetaagonizante.
Em Nova Babilô nia, Carpathia insistia em dizer que o calor nã o o incomodava. Em suas
escutas clandestinas, Chang ouviu o pessoal da manutençã o perguntar reiteradas vezes, se ele
nã o gostaria de instalar cortinas grossas em seu escritó rio, no segundo andar da cobertura do
edifı́c io,ondeaté otetoeratransparente.Ocalordosolintensi icava-seaoatravessarovidroe
torrava o lugar durante horas a io, todos os dias, tornando o restante do andar totalmente
inabitável.
Krystallfoitransferidaparaosporõ esdoEdifı́c ioDecomunicava-secomele,diariamente,
viainterfone.Nã ohaviapossibilidadedeseremrealizadasreuniõ esnasaladeconferê nciasnem
noescritóriodeCarpathia,maselepassavaamaiorpartedodiaaliexpedindoordensaopessoal,
viatelefoneouinterfone.
Os executivos que trabalhavam nos andares inferiores tiveram de trocar as janelas das
salas, que foram vedadas com itas adesivas e pintadas com tinta preta. A maioria dos
funcioná rios do setor administrativo mudou-se para os porõ es do imenso complexo. O
departamento de Chang trabalhava apenas à noite, portanto, enquanto permanecia em seu
apartamento durante o dia, ele podia ouvir quando Nicolae resmungava ou cantava em voz
baixa.
—Voutomarbanhodesolnopá tio,enquantoosmortaisalmoçam—eledisseà Krystall
às12horasdeumdeterminadodia.
Chang dirigiu-se, à s escondidas, até uma janela de canto, onde ele havia raspado uma
pequena parte da pintura, e icou abismado ao ver o potentado deitado em um banco de
concreto, de calça e camiseta, e com as mã os atrá s da cabeça, banhando-se sob os raios
aniquiladoresdosol.
Depois de uma hora, enquanto as chamas lambiam o concreto, Carpathia pareceu
lembrar-se de alguma coisa e tirou seu celular do bolso. Chang correu até seu apartamento e
ouviu Nicolae dizendo a Leon que estava se dirigindo ao abrigo temporá rio de Fortunato, no
subsolo.
Maistarde,ChanggravouaconversatelefônicaentreLeoneSuhail.
—Éoqueestoudizendo,ohomemnãoéhumano!Eleficouláfora,tomandobanhodesol!
—Leon...
—Everdade!Eleestavatã oquentequenã osuporteiocalordeseucorpoaseismetrosde
distâ ncia!Saı́afumaçadassolasdossapatosdele!Euvifaı́scasemseuscabelos.Elesperderama
cor, icaram completamente brancos. As sobrancelhas també m. O colarinho, os punhos da
camisa e a gravata estavam chamuscados, como se tivessem sido passados com ferro quente
demais, e os botõ es do terno e da camisa derreteram. O homem é um deus, imune à dor.
Imaginequeeleprefereficaraoarlivreemtemposcomoeste!
Umdia,ChangouviuCarpathialigarparaoServiçoTécnico.
—Eugostariadeterumtelescópioaquiapontadodiretamenteparaosoldomeio-dia.
— Eu posso fazer isso, Excelê ncia — disse um funcioná rio. — Mas só depois que o dia
escurecer.
—Eessetelescópiotemcondiçõesdefazergravações?
—Claro.Oqueosenhorgostariadegravar?
— Duas coisas. Se o Sol aumentou de tamanho e se as labaredas em sua superfı́c ie sã o
visíveis.
Oinstrumentofoiinstaladoecalibradonaquelamesmanoite,eChangviu,nodiaseguinte,
quando Carpathia saiu apressado ao meio-dia. Ele icou olhando para o Sol atravé s da lente
durantevá riosminutos.Umahoradepois,alentederreteu,eotelescó piointeiroentortou-see
despencoucomocalor.
O té cnico ligou para Carpathia, naquela noite, para informar que o disco de gravaçã o
tambémhaviaderretido.
—Estátudobem.Euvioquequeriaver.
—Como,senhor?
— O equipamento era muito bom. Proporcionou-me uma imagem cristalina do sol do
meio-dia,echegueiaveraslabaredasdançandoemsuasuperfície.
Otécnicoriu.
—Vocêestáachandograça?—inquiriuCarpathia.
—Bem,achoqueosenhorestábrincando,éclaro.
—Não,nãoestou.
—Senhor,perdoe-me,masseusglobosocularesteriamsumido.Seucérebroteriafritado.
—Vocêsabecomquemestáfalando?
ChangsentiuosanguegelarnasveiasdiantedotomdevozdeCarpathia.
—Sim,potentado—respondeuotécnicocomvoztrêmula.
—OSol,aLuaeasestrelascurvam-sediantedemim.
—Sim,senhor.
—Vocêentendeu?
—Sim,senhor.
—Aindaduvidadoqueeudisse?
—Não,senhor.Perdoe-me.
Dezessetesemanasdepois
Certanoite,Changestavasentadodiantedesuamesamonitorandoosregistrosdosvá rios
nı́veis de temperatura, quando se deu conta de que o terceiro Julgamento das Taças havia
chegadoaofim.EleligouparaFigueroa.
—Osenhorvaigostardeverisso—disseChang.Auré liosaiuapressadodeseuescritó rioe
postou-seatrásdeChang.
—Leiaestasinformações—disseChang.
— "Agua em ponto de ebuliçã o transbordando do Rio Chicago" — o chefe leu em voz
baixa.—"Super-aquecidaecontaminadaporradiação."Issonãoénovidade,é?
—Osenhornãonotouumacoisa,chefe.
—Nãonoteioquê?
—Orelató rionã ofalaemsangue.Falaemá gua.Figueroaestavatremendoquandousouo
telefonedeChangparaligarparaAkbar.
—Adivinheoqueeuacabeidedescobrir!—eledisse.
—Comotempo,oscursosd'á guavã ovoltaraonormal-ChangouviuSuhailAkbardizera
Carpathianodiaseguinte.
Talvez,Changpensou,seaindativéssemosdécadaspelafrente.
Para Chang, Carpathia nã o estava tã o preocupado com a á gua e o calor, porque nenhum
lagelo o atingira pessoalmente. O que mais ocupava sua mente era o fracasso, principalmente
em Israel, de seu plano-mestre de tomar conta do "problema" dos judeus. Em vá rios outros
paı́ses, as perseguiçõ es haviam obtido um sucesso relativo. Mas o grupo que fazia parte dos
144.000 evangelistas, incumbido da missã o de trabalhar na Terra Santa, obteve um ê xito
tremendonaconversã odosindecisos.E,porummotivoououtro,apresençadesseshomensnã o
foidetectada.
NomomentoemqueCarpathiaeAkbarimaginaramterencontradoummeiodelivrara
á rea dos judeus messiâ nicos, o lagelo do Sol abateu-se sobre a Terra, e os homens da CG
ficaramincapacitadosdeatacá-los.
Agora,apesardeCarpathiararamentetercondiçãodeverSuhailfaceafaceduranteodia,
eles mantinham contato permanente. Chang icou abismado ao constatar o grande poder de
fogo que os exé rcitos da Comunidade Global ainda tinham depois de tudo o que perderam e de
tudooquefoigastonatentativadeatacarosjudaístas.
OsEstadosUnidosAfricanosameaçaramrompercomCarpathiadepoisdoqueelefezcom
seus lı́deres principais, enquanto um grupo de rebeldes de lá tramava secretamente, em
conjuntocomopalácio,apossar-sedogovernodestituído.
Umdia,ChanggravouumaconversatelefônicaentreCarpathiaeSuhail.
— Suhail, essas pragas sempre tiveram um tempo de duraçã o. Um dia, esta també m vai
terminar. E quando isso acontecer, talvez seja o momento de lançarmos mã o de metade das
muniçõ es e equipamentos que temos em reserva. Você acha que aquele estoque continua
mantidoemsegredo?
—Atéagora,tudomedizquesim,Excelência.
— Quando a praga do Sol for suspensa, diretor, quando você puder sair à luz do dia
novamente, vamos nos preparar para montar a maior ofensiva da histó ria da humanidade. Eu
aindanã odesistidePetra,masqueroqueosjudeus iquemondeestã o.Queropegarosjudeusde
Israel,particularmentedeJerusalé m.Enã ovoudesviaraatençã onemserdissuadidoporcausa
da choradeira de nossos amigos do norte da Africa. Suhail, se você quiser de fato agradar-me,
impressionar-me, ou tornar-se indispensá vel para mim, dedique-se de corpo e alma a essa
tarefa. O planejamento, a estraté gia e os meios devem fazer qualquer outro estrategista de
guerradahistó riaabaixaracabeçadevergonha.Queroquevocê medeixeboquiaberto,Suhail,
eestoudizendoqueosrecursos,tantomonetáriosquantomilitares,sãoilimitados.
—Obrigado,senhor.Eunãovoudecepcioná-lo.
—Vocêentendeubem,Suhail?I-li-mi-ta-dos.
SeisanosdentrodaTribulação
Chang levantou-se, como de costume, quando o dia começava a clarear, mas percebeu
imediatamente que alguma coisa mudara. Ele nã o tinha sido atingido pelo calor intenso, mas
notouadiferençadetemperaturaedeumidade.Nessamanhã,oarestavadiferente.
Ele correu até seu computador e veri icou as condiçõ es do tempo.O quê!? O lagelo
acabou.AtemperaturaemNovaBabilôniaretornaraaonormal.
Changalimentou-se,tomouumaducha,vestiu-seesaiuapressado.Haviaumvozeriopor
todoopalá cio.Asjanelasestavamabertas.Opessoalentravaesaı́a.Elechegouaverumarde
sorrisonorostodealgumaspessoas.Poré m,emrazã odonú m eroreduzidodepessoal,amaioria
dos funcioná rios estava sobrecarregada de trabalho, mal nutrida, com o semblante pá lido e
abatido.
A che ia anunciou que a refeiçã o do meio-dia seria servida ao ar livre, como se fosse um
piquenique.Otrabalhonaquelamanhã poucorendeu,porquetodosaguardavamcomansiedade
ahoradoalmoço,quetranscorreuemclimafestivoecomfarturadecomida.Carpathiaatraı́a
os olhares para si, enquanto andava de um lado para o outro propositadamente, como se
estivesseantevendoumavidamelhoremaislonga.
No inaldoexpedientedaqueledia,Changdirigiu-seapressadoaseuapartamento,ansioso
por ver o que se passava no restante do mundo. O Comando Tribulaçã o havia reduzido suas
atividades e recuado um pouco. Voltaram a viver em esconderijos, avançando com cuidado,
formulandoestratégiaspararetomarotrabalhofeitoànoite.
Carpathiacontinuavaincansá veleesperavaomesmodosoutros.Convocououtrareuniã o
de alto nı́vel com os diretores, que passaram grande parte do dia levando seus pertences de
volta ao andar ocupado por Nicolae. Até Viv Ivins foi convidada, e, pelo que Chang ouviu, ela
haviasidoperdoada.
—Pelaprimeiravezdepoisdetantotempo—disseCarpathia-,estamosjogandodeigual
para igual. Os rios e lagos estã o retornando ao normal, e precisamos reconstruir toda a infraestrutura. Vamos nos esforçar para convocar todos os nossos cidadã os leais a cerrar ileiras
conosco. O diretor Akbar e eu reservamos algumas surpresas especiais para os dissidentes de
vá rios nı́veis. Estamos de volta ao trabalho, pessoal. E chegada a hora de recuperar nossas
perdasepartirparaoataque.
Oclimafestivoduroutrê sdias.Aseguir,asluzesseapagaram.Literalmente.Tudo icouà s
escuras—oSol,aLua,asestrelas,aslâ mpadasdasruas,asluzeselé tricas,osfaró isdoscarros.
Tudo o que antes emitia luz estava apagado — teclas luminosas de telefones, lanternas,
materiaisiridescentesoufosforescentes.Luzesdeemergê ncia,placasindicandosaı́da,perigode
incêndio,alarmes—tudo.Escurocomobreu.
A expressã o popular de nã o enxergar um palmo adiante do nariz tornou-se verdadeira.
Fosse qual fosse a hora do dia, ningué m enxergava nada. Nem reló gios, nem fogo, nem fó sforo,
nem grelhas de gá s, nem grelhas elé tricas. A impressã o era a de que a luz desaparecera
completamente;qualquervestígiopareciatersidoengolidopelouniverso.
As pessoas gritavam de terror. Tratava-se do maior pesadelo da humanidade, e elas já
haviam enfrentado muitos outros. Estavam completamente à s cegas — totalmente incapazes
deenxergaralgumacoisa,anãoseranegritude24horaspordia.
Os habitantes do palá cio tateavam no escuro, querendo sair. Apertavam todos os
interruptores dos quais se lembravam. Gritavam entre si para saber se o problema era apenas
delasouseerageral.Encontrarumavela!Esfregarumpedaçodemaneiranooutro!Friccionar
o carpete para criar eletricidade está tica! Fazer alguma coisa! Qualquer coisa que
proporcionassealgumvestígiodesombraoudeclaridade,pormenorquefosse.
Tudoemvão.
Chang sentia vontade de rir. Ele queria gritar o que pensava. Queria dizer a todos que,
mais uma vez, Deus enviara um lagelo, um julgamento sobre a Terra que atingiu apenas
aquelesquepossuı́amamarcadabesta.Changconseguiaenxergar,masdemaneiradiferente.
Ele també m nã o via as luzes. Simplesmente via tudo em tonalidade sé pia, como se algué m
tivessereduzidoaluminosidadedeumcandelabroaceso.
Ele enxergava o que necessitava, inclusive seu computador, a tela, o reló gio e o
apartamento. Seus alimentos, sua pia, seu fogã o — tudo. E, melhor ainda, podia andar nas
pontas dos pé s pelo palá cio usando sapatos de sola de borracha, desviando-se dos colegas que
tateavamparaencontrarocaminho.
Depois de algumas horas, entretanto, uma coisa mais estranha ainda aconteceu. As
pessoasnãoestavammorrendodefomenemdesede.Elaseramcapazesdeencontrarcomidae
á gua.Masnã opodiamtrabalhar.Nã ohavianadaadiscutir,nadaasertratado,anã oserfalarda
pragadaescuridão.E,poralgummotivodesconhecido,elastambémcomeçaramasentirdor.
Elas se coçavam, chegando a arranhar-se. O local icava dolorido e era esfregado com
força,oqueprovocavagritosemaiscoceiraainda.Paramuitaspessoas,osofrimentochegavaa
ser tã o intenso que elas se curvavam e apalpavam o chã o para saber se nã o havia nenhum
buraco, nenhum vã o de escada em que pudessem cair e icar amontoadas ali, Contorcendo-se,
gemendo,coçando-se,procurandoalívio.
Quantomaisotempopassava,maisasituaçã opiorava,eagoraaspessoasblasfemavam,
amaldiçoavam Deus e mordiam a lı́ngua. Arrastavam-se pelos corredores à procura de armas,
implorando aos amigos, e até mesmo a estranhos, que as matassem. Muitas se suicidaram. O
palá ciointeirotransformou-seemumhospı́c iodegritos,lamentosegemidosguturais,comose
opovoestivesseconvencidodequeaquiloeraoquetodosimaginavam—ofimdomundo.
Masnã oera.Quemnã otinhaforçanemcoragemparasematarsimplesmentesofria.Eo
sofrimentoaumentavacomopassardashoras.Pioravaacadadia.Nã odavatré gua.E,nomeio
detudoisso,Changteveaidéiamaisbrilhantedesuavida.
Aquele era o momento perfeito para uma fuga. Ele entraria em contato com Rayford ou
Mac, qualquer um que estivesse disposto e disponı́vel para buscá -lo. Todos os membros do
Comando Tribulaçã o, ou melhor, todos os crentes que possuı́am o selo de Deus na testa
desfrutavamasmesmasvantagensqueele.
Algué mpoderiavirbuscá -locomumjatoepousarbemali,emNovaBabilô nia.Opessoal
daCGteriadecorrerparaesconder-se,imaginandoquemteriacondiçõ esdefazertalcoisana
mais completa escuridã o. Se Chang e o piloto nã o conversassem entre si, nenhum deles seria
identi icado.OComandoTribulaçã opoderiaapossar-sedeaeronaves,dearmasedetudooque
desejasse.
Sealgué mseaproximasseparainquiri-los,osmembrosdoComandoTribulaçã oteriama
enormevantagemdepoderenxergar.Elesestariamemposiçã odesuperioridadeperantetodos
osdemais.EagoraquefaltavaapenasumanoparaoGloriosoAparecimento,Changpensava,as
pessoasdebem inalmenteestavamemmelhorescondiçõ esqueantes,umavezqueashorasà
luzdodiapertenciamsomenteaelas.
Enquanto durasse aquele lagelo, enquanto Deus julgasse necessá rio manter o mundo
debaixodesombraseasluzesapagadas,tudoestariafavorecendooscrentes.
Deus,orouChang,sóprecisodemaisdoisdiasdeescuridãoparasairdaqui.
EPÍLOGO
Derramouoquintoasuataçasobreotronodabesta,cujoreinosetornouemtrevas,eos
homens remordiam a lı́ngua por causa da dor que sentiam e blasfemaram o Deus do cé u por
causadasangústiasedasúlcerasquesofriam;enãosearrependeramdesuasobras.
—Apocalipse16.10-11
Jerry B. Jenkins (www.jerryjenkins.com) é o
autordasé rieDeixadosparaTrás e de mais
de 100 livros, quatro dos quais iguraram na
lista de mais vendidos do New York Times.
Foi vice-presidente da divisã o editorial do
Instituto Bı́blico Moody de Chicago e
trabalhou muitos anos como editor da
Moody Magazine, com a qual colabora até
hoje.
Escreveu artigos para vá rias publicaçõ es,
tais como Reader's Digest, Parade, revistas
de bordo e numerosos perió dicos cristã os.
Seus livros abrangem quatro gê neros
literá rios: biogra ias, obras sobre casamento
e famı́lia, icçã o para crianças e icçã o para
adultos.
Dentre outras, Jenkins colaborou nas
biogra ias de Hank Aaron, Bill Gaither, Luis
Palau, Walter Payton, Orei Hershiser, Nolan
Ryan,BrettButlereBillyGraham.
Cinco de seus romances apocalı́pticos —
Deixados para Trás, Comando Tubulação,
Nicolae, A Colheita e Apoliom — constaram
da lista dos mais vendidos da Associaçã o
Cristã de Livreiros e do semaná rio religioso
PublishersWeekly.DeixadosparaTrásfoiindicadoparareceberoprê miodeRomancedoAno,
pelaAssociaçãodasEditorasCristãsEvangélicas,em1997e1998.
Como autor e conferencista de assuntos relacionados ao casamento e à famı́lia, Jenkins tem
participado com freqü ência do programa de rá dio do Dr. James Dobson, Focus on lhe Family (A
FamíliaemFoco).
Jerrytambé mé oautordastirascô m icasGilThorp, distribuı́das aos jornais dos Estados Unidos
porTribuneMediaServices.
Elemoracomsuaesposa,Dianna,noColorado.
Convites para conferê ncias podem ser feitos pela Internet no seguinte endereço:
[email protected].
O Dr. Tim LaHaye, que idealizou o projeto de
romancear o Arrebatamento e a Tribulaçã o, é
autor famoso, ministro do evangelho,
conselheiro, comentarista de televisã o e
palestrante de temas sobre vida familiar e
profecias bı́blicas. E fundador e presidente do
Family Life Seminars (Seminá rios sobre a Vida
Familiar) e també m fundador do The PreTrib
Research Center (Centro de Pesquisas do
Perı́odo Pré -Tribulaçã o). Atualmente, o Dr.
LaHaye faz palestras sobre profecias bı́blicas
nosEstadosUnidosenoCanadá ,ondeseussete
livrossobreprofeciasfazemmuitosucesso.
ODr.LaHayeé formadopelaUniversidadeBob
Jones, com mestrado e doutorado em
ministé rio pelo Western Conservative
Theological Seminary (Seminá rio Teoló gico
Conservador do Oeste). Durante 25 anos, foi
pastor de uma das mais pró speras igrejas dos
Estados Unidos, em San Diego, a qual se
expandiu para outras trê s localidades. Nesse
perı́odo, fundou duas escolas cristã s de ensino
mé dio reconhecidas pelo governo, um sistema
deescolascristã scompostodedezestabelecimentoseaChristianHeritageCollege(Faculdade
HerançaCristã).
ODr.LaHayeescreveumaisde40livros,commaisde11milhõ esdeexemplaresimpressosem
32 idiomas, abordando uma ampla variedade de assuntos, tais como vida familiar, estados de
humor e profecias bı́blicas. Estas obras de icçã o, escritas em parceria com Jerry Jenkins —
Deixados para Trás, Comando Tribulação, Nicolae, A Colheita e Apoliom —, alcançaram o
primeiro lugar na lista dos livros cristã os mais vendidos. Outras obras escritas por ele:
Temperamento Controlado pelo Espírito; Como Ser Feliz Mesmo Sendo Casado; Revelation,
Illustrated and Made Plain (O Apocalipse Ilustrado e Simpli icado);Como Estudar Sozinho as
Profecias Bíblicas; Um Homem Chamado Jesus eEstamosVivendoosÚltimosDias? — publicados
pela Editora United Press —,No Fear of the Storm: Why Christians Will Escape Ali the
Tribulation (Sem Medo da Tempestade: Por Que os Cristã os Escaparã o do Perı́odo da
Tribulação);eDeixadosparaTrás—SérieTeen.
ODr.LaHayeé paidequatro ilhosetemnovenetos.Gostamuitodeesquiarnaneveenaá gua,
demotociclismo,degolfe,defériascomafamíliaedecaminhadas.
EsteePub teve como base a digitalizaçã o emDoc
feitaporSandraparaogrupoSemeadoresdaPalavra.
Para esta formaçã o peguei como inspiraçã o a
ediçã o norte-americana mais recente, alé m da
formataçã o, iz a capa e a imagem utilizada na pá gina
comoslivrosdasérie.
Maiode2014
LeYtor