O inconsciente negativo e a mãe melancólica[1]
Cláudia Mendes Feres[2]
Universidade de Brasília – UnB
O Inconsciente, como propõe Freud (1912) é o lugar do negativo
fotográfico. Gostaríamos de problematizar a relação deste negativo com a
experiência que lhe deu origem. Houve algo que se prestou a ser
fotografado, alguém que olhou para a foto. O negativo constituir-se-á a
partir de uma experiência entre dois, o bebê e outro humano. A mãe, desta
feita, inunda o pequeno humano não só com seu leite, mas também com
sua sexualidade. Podemos afirmar que o psiquismo, assim como a
fotografia não se constitui no vazio. O que dizer, portanto, se encontramos
uma mãe melancólica? Na melancolia há a insistência em se fechar,
ausentando-se do mundo externo. Na tentativa de evitar uma perda (já
ocorrida), a melancolia impõe-se como saída. O estado de desvalia que se
encontra o melancólico fez com que Freud retomasse esta idéia de
desamparo. Como esperar que uma mãe vivendo tão intensamente este
desamparo, possa amparar seu filho? O bebê “aguarda” que uma ligação
possa marcar sua incipiente constituição psíquica. A mãe, por sua vez, se
esquiva do bebê. Como aponta Bleichmar (1994), o eu não se constitui no
vazio. O comprometimento na relação mãe/bebê, levará a um
comprometimento do comutador humano que transforma necessidade em
desejo.
Palavras-chave: Inconsciente negativo, desamparo, constituição psíquica.
Iniciemos este texto a partir da seguinte asserção freudiana:
“Uma analogia grosseira, mas bastante adequada, desta relação que supomos
haver entre a atividade consciente e inconsciente nos é oferecida pelo campo da
fotografia. O primeiro estágio da fotografia é o “negativo”; cada imagem fotográfica
tem que passar pelo “processo negativo”, e só alguns destes negativos, que foram
aprovados, são admitidos ao “processo positivo”, que afinal termina na imagem
fotográfica.” (Freud, 1912, p. 87)
O Inconsciente é o lugar do negativo. O negativo não é tomado como o oposto
ao positivo, mas o fundamento deste último. Faz-se necessária que uma marca inaugure
este Inconsciente. Desta feita, gostaríamos de problematizar a relação deste negativo
com a experiência que lhe deu origem. Então, voltemos um passo neste processo
fotográfico, para antes do negativo.
Houve algo que se prestou a ser fotografado, alguém que olhou para a foto. Um
outro. O negativo constitui-se a partir de uma experiência entre dois, o bebê e outro
humano. Experiência imediata, portanto fugaz e para sempre perdida. As marcas desta
relação, no entanto, ficam. Não é tão simples assim! Você até pode fotografar um outro
humano, mas jamais o desejo deste. O negativo, marca inconsciente, se constitui a partir
do objeto perdido, ou seja, o desejo do outro.
O que se perde está preso no objeto perdido, mas não é o próprio objeto. Freud
fala da relação do sujeito com a queda de um objeto que faz parte do perdido. Este algo
perdido refere-se ao outro, mas não é o que o define. O que há, pois neste outro
fotografado e agora perdido?
Trabalharemos com a idéia de Bleichmar (1994). Ela nos diz que é necessário
um, um comutador que está no outro humano.
“Voltemos, então, a partir dos modelos teóricos propostos, ao recém nascido no
momento de constituir suas primeiras inscrições. Suponhamos agora uma cria humana
nos primeiríssimos tempos de vida, e exploremos o modo em que se estabelece este
movimento
de
ligação
psíquica...
o
semelhante
materno
instala
certas
representações.” (p.23).
O outro semelhante, não é apenas aquele que nutre o corpo do bebê, mas
oferece, sem o saber, para nutrir-lhe a alma. Trata-se de um outro humano sexuado,
provido de um inconsciente cujos atos não se reduzem a autoconservação. A mãe, desta
feita, inunda o pequeno humano não só com seu leite, mas também com sua
sexualidade. O seio oferecido pela mãe se constitui em um duplo objeto, por um lado é
apaziguador da necessidade, ou, para dizer com Freud (1914) das “exigências da vida”,
e por outro é um objeto sexual traumático, excitante e pulsante. O objeto a princípio
nutricional invade o bebê com “ ...uma energia não qualificada proporcionando, no real
vivente um traumatismo, no sentido extenso do termo, já que rompe algo da ordem
somática pela vias do sexual” (Bleichmar, 1994 p.23)
Há uma transformação da energia: aquela que era somática, biológica, se torna
psíquica sexual. A possibilidade de transformação desta energia está alicerçada na
relação com o outro humano. No movimento desta mudança energética encontra-se o
comutador. Na língua portuguesa comutar se refere “a ação de permutar, trocar” (Novo
Aurélio, 1999). Assim o comutador é aquele que proporciona esta operação de troca. O
comutador não existe no próprio organismo, senão no encontro com um objeto sexual
oferecido pelo outro humano. Ao mesmo tempo, o comutador não está estanque, parado
lá mãe. A intrusão operacional que dá origem as marcas psíquicas no bebê é
inapropriável também para mãe. A invasão representacional e econômica é efeito do
próprio inconsciente da mãe, assim também subtraída de qualificação, “onde os sentidos
são ignorados”.
“... é necessário considerá-la (a mãe) como um ser em conflito, provido de
inconsciente e agitado por moções de desejo enfrentadas, que abrem possibilidade de
clivagem na própria cria humana, cuja humanização tem a seu encargo.” (Bleichmar,
1994, p.29).
Assim, a constituição do psiquismo do bebê se inicia nestas primeiras ligações
com o psiquismo materno. Este último funciona como um sistema auxiliar, ou seja, isso
é condição necessária, mas não suficiente. O bebê operando sobre as inscrições
sensoriais, através do princípio prazer/desprazer, irá constituir seu psiquismo. O
“acontecer psíquico”, como denomina Freud (1911), leva as primeiras inibições e
ligações do inconsciente do bebê. É fundamental, no sentido mesmo de ser fundante,
que o sistema representacional do auxiliar materno opere conjuntamente no processo
das primeiras inibições/ligações, ou seja no momento do funcionamento/criação do
psiquismo do bebê. No entanto, falhas ocasionais, como uma melancolia do lado da
mãe, podem impedir a constituição/funcionamento do psiquismo do bebê e...
“... deixar a cria humana entregue a facilitações não articuladas que a
submetem a uma dor constante com tendência a uma compulsão evacuativa que
responda a um mais aquém do princípio do prazer.” (Bleichmar, 1994 p. 31)
Voltando a nossa metáfora inicial, a imagem fotográfica, concluímos que não há
como fazer uma foto daquilo que nunca esteve lá. O psiquismo, assim como a
fotografia, não se constitui no vazio. Algo tem que se fazer presente para poder então,
quando perdido, deixar uma marca, um negativo fotográfico. É condição necessária,
como já mencionei que os cuidados maternos estejam presentes. Que fique claro que o
que deveria ter estado presente e falhou, não é a mãe com seu zelo consciente para com
a autoconservação do bebê; mas o psiquismo cindido da mãe, pois só esta clivagem
proporciona abertura de possibilidades para movimentos fundantes do psiquismo.
Discursos melancólicos são aqueles de onde emergem um eu insuportavelmente
triste, assim por mim denominado, ainda por falta de uma definição mais precisa. A
devassidão causada por um estado de tristeza profunda que só encontra sentido dentro
dele mesmo. Estes relatos são marcados por “um abismo de tristeza, dor
incomunicável..., perda do gosto por qualquer palavra, qualquer ato, o próprio gosto
pela vida.” (Kristeva, 1989, p.11).
Frente a um golpe, uma derrota, uma perda, seja no âmbito do trabalho ou do
amor, detona-se um duradouro e profundo processo de esvaziamento. O desespero
torna-se
avassalador.
Desencadeia-se,
um
processo
de
entristecimento
e
“ensimesmamento”, onde o motivo inicial passa a ser visto como um gatilho que
detonou um vazio que já estava alojado dentro do sujeito. Na melancolia, a existência se
torna simplesmente um absurdo. A manutenção da vida pós-perda exige um esforço
incalculável. Fato este que se revela paradoxal. Faz-se necessário, a cada segundo, um
investimento maciço de uma instância (o eu) que, no entanto, já não se possui qualquer
vitalidade. Então, a possibilidade do vacilo, da escorregadela, da queda assombra e
atrai. A cada instante a morte se apresenta como a alternativa. Em suma, “vive-se uma
morte em vida” (Kristeva, 1989), uma desaparição. O vazio se impõe radicalmente.
Na melancolia o eu é esvaziado. O eu, nos diz Freud (1917[1915]), torna-se
“desprovido de valor, incapaz de qualquer realização.” (p.278). Desta feita, a melancolia
é tomada como um adoecimento do eu. Este se torna apenas moldura de uma pintura
agora inexistente. (Lambote, 1997). Um contorno que não encontra nada para realmente
contornar.
Desde os primeiros textos sobre o estado melancólico, Freud o trata dentro de
parâmetros econômicos do funcionamento psíquico. No Rascunho G (Freud, 1895), a
melancolia é descrita como uma perda pulsional, ou seja, “consiste em um luto pela
perda da libido” (p.99). Ocorre um buraco na malha das representações psíquicas por
onde se esvai a energia libidinal. Assim, a melancolia é um escoadouro de libido, visto a
impossibilidade de ligação a qualquer representante. Angústia (libido desligada) invade
o corpo e o psiquismo do melancólico.
Na melancolia, algo, aí, parece mancar. A insistência em se fechar, ausentandose do mundo externo, parece revelar a impossibilidade de existir na ausência do
objeto. Uma vez que o objeto já não está mais lá, informação reiterada pelo mundo
externo, há construção de um claustro, um mausoléu. Parece ser uma tentativa de
segurar algo que, contudo, se esvai o tempo todo. A libido não tem ancoradouro, não
tem sustentáculo onde se ligar. A tentativa de não perder o outro, fechando-se frente ao
mundo, acaba levando a uma perda bem maior, a perda de si mesmo. A ausência do
outro é sinônimo da própria ausência do sujeito.
Passo, mesmo que apressadamente, a segunda questão: a relação da melancolia e
o estado desamparo. Em outro texto de 1895, Projeto para uma Psicologia Científica,
Freud ensaia esta conexão. Ele trata o nascimento como uma situação traumática, uma
vez que o filhote humano é colocado no mundo sem qualquer proteção inata. O recémnascido é jogado em estado de desamparo. O aparelho psíquico, portanto, constituir-se-á
numa tela que protegerá o pequeno humano das auguras internas e externas. O estado de
desvalia que se encontra o melancólico fez com que Freud retomasse esta idéia de
desamparo. E, com a introdução da pulsão de morte (1919), o psiquismo passa a ser,
definitivamente, articulado como uma matriz defensiva. O desejo e o prazer tornam-se
secundários ou, pelo menos, “... submetidos ao resguardo de um terreno incipiente do eu
e sua conservação, pois o desamparo só existe para alguém, um ser frágil, em apuros”
(Delouya, 2001, p. 34). Desta feita, a melancolia está para a perda, como a angústia está
para o perigo. Tanto melancolia quanto angustia são antecipações daquilo que um dia já
aconteceu, e que, agora, parece estar a ponto de se repetir. Por mais precária que seja a
melancolia é uma forma de tentar evitar uma perda inevitável, pois esta já ocorreu. Se o
desamparo é evitado pelo sinal de angústia, a melancolia “evita” a perda. A melancolia
é, então, uma possibilidade de se ter novamente o objeto, para quem sabe, poder perdêlo. O melancólico conquista desta forma o direito de se recolher. Ele possui algo, um
refúgio, um abrigo de onde, um dia, ele pode vir a despertar. A melancolia como
presença, e não apenas como um amontoado de sintomas de negatividade, é a volta a
um momento constitucional, na procura refazer aquilo que não foi feito.
Como esperar que uma mãe vivendo tão intensamente este desamparo, possa
amparar seu filho? Desamparo da mãe e desamparo do bebê. Acima de duas
articulações precárias de aparelho psíquico. O bebê “aguarda” que uma ligação possa
marcar sua incipiente constituição psíquica. A mãe se esquiva do bebê que pode
fragilizar a sua também incipiente constituição psíquica. Para evitar a sua própria
perda, ela (a mãe) não se coloca disponível para o bebê. Ela permanece recolhida na sua
dor, no seu abrigo. Como aponta Bleichmar (1994), o eu não se constitui no vazio.
Desta feita, o comprometimento na relação mãe/bebê, levará a um comprometimento do
comutador que transforma necessidade em desejo.
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[1]
Trabalho para apresentação no II Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental e VIII
Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental.
[2]
Psicóloga e Doutoranda em Psicologia da UnB e Professora do UniCeub
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Claudia Mendes Feres, O inconsciente negativo e a mãe melancólica