RELATO DE CASO Viabilidade do uso de soja em Unidades de Alimentação e Nutrição: um estudo de caso Feasibility of using soy in food and nutrition units: a study of case. Edilene Darós Dagostim1 Fernanda Salvador Alves2 Pós Graduação do Grupo Educacional CBES, Criciúma-SC, Brasil 2 Universidade Federal de Santa Catarina. Universidade Federal do Paraná 1 Correspondência Edilene Darós Dagostim Rua Belém, n.º 892 Edifício Paramount, apartamento 501, Cabral, Curitiba-PR. Brasil. [email protected] Recebido em 08/outubro/2009 Aprovado em 31/agosto/2010 RESUMO Unidades de Alimentação e Nutrição devem fornecer uma refeição equilibrada nutricionalmente, higiênica, adequada aos custos e ao paladar do comensal, a fim de manter e/ou recuperar sua saúde. Com a busca por refeições que gerem qualidade de vida, percebe-se a possibilidade de utilizar a soja nestes restaurantes, como um meio de promoção de saúde. Essa leguminosa ainda não faz parte da dieta habitual do brasileiro; devido seu sabor, porém possui inúmeros benefícios a saúde e tem um baixo custo. Deste modo, o presente estudo pretendeu verificar a viabilidade da oferta de preparações à base de soja no cardápio de uma Unidade de Alimentação e Nutrição. Para tanto, analisou-se o conhecimento de seus clientes sobre alimentos funcionais e soja, fez-se ações educativas sobre os benefícios da soja, ofertou-se preparações a base deste ingrediente, e por fim analisou a aceitação dos clientes e do custo das preparações oferecidas. Este foi um estudo de caso transversal, descritivo-exploratório e de natureza qualiquantitativa. Os resultados demonstraram que os clientes possuíam pouco conhecimento, porém muito interesse sobre o tema ‘alimentos funcionais’. Foram criadas cinco preparações à base de soja, que apresentaram elevado índice de aceitação, reduzidos valores de resto-ingestão e custo alimentar inferiores aos valores de referência. O estudo demonstrou ser viável a introdução da leguminosa no cardápio, desde que haja modificação em algumas receitas. Além disso, seria fundamental a capacitação dos funcionários sobre como prepará-la, pois foi percebida uma resistência dos mesmos na introdução de preparações no menu. Palavras-Chave: Unidade de Alimentação e Nutrição; Soja; Cardápios alternativos ABSTRACT Food Service Units should supply a meal to balance nutritious, hygiene, with cost and flavor adequate, to keep the health of customers. The searches for meals that generate quality of life turn possible the use of Com. Ciências Saúde. 2010;21(1):71-80 71 Dagostim ED, Alves FS soy in restaurants. This legume is not part of the diet of Brazilian yet; because its flavor is not very popular, but it has numerous health benefits and has a low cost. This study intended to verify the feasibility of offering preparations of soy on the menu of a Food Service Units. The knowledge of customers about functional foods and soy was analyzed. Educational actions in nutrition were made. Five preparations of this ingredient were offered. And the acceptance and the cost of preparations were analyzed. This was a case study of cross, descriptive and exploratory, qualitative and quantitative. The results showed that customers had little knowledge, but a lot of interest on ‘functional foods’. The preparations with soy had high levels of acceptance, reduced values of rest-ingestion and cost food appropriate. The study showed to be viable the introduction of soy in the menu, since there modification and adaptation of some recipes. It would also be essential to train of employee about how prepare it, because there was a withstand the same the introduction of preparations on the menu. Key words: food and nutrition units; soy; Feasibility economic. INTRODUÇÃO Os longos deslocamentos e as extensas jornadas de trabalho da “vida moderna” impulsionaram o mercado da alimentação coletiva, que possui estabelecimentos que trabalham com produção e distribuição de alimentação para coletividade: as Unidades de Alimentação e Nutrição (UAN)1. Uma UAN pode ser conceituada como um local que produz grandes quantidades de refeições, nutricionalmente equilibradas, em tempo e custo ideais, condizentes às necessidades, tais como sabor, apresentação, textura, cores, variedade, temperatura, hábitos alimentares, quantidade, qualidade, aspectos nutricionais, dos clientes, e que por isso lhes promova, mantenha e/ou recupere sua saúde. Além disso, uma UAN deve ser adequada às necessidades dos funcionários, no que se refere ao modo e às condições de produção, e do meio ambiente, com redução de desperdícios e rejeitos, sendo um produto satisfatório para a empresa e para a sociedade, seguindo padrões exigidos de segurança alimentar, tais como: higiene e sustentabilidade2. Segundo Ribeiro3, essas empresas são definidas como áreas de produções de refeições, ou seja, são estabelecimentos que trabalham com a finalidade 72 Com. Ciências Saúde. 2010;21(1):71-80 de comprar, receber e armazenar alimentos in natura ou semiprocessados e processá-los, para posterior distribuição de refeições a diferentes tipos de clientes. Dentro destes estabelecimentos, todos os processos administrativos, operacionais e de controle ocorrem tal como uma unidade fabril ou indústria clássica4. Mesmo com a ocorrência constante de atividades administrativas, operacionais e contábeis, o centro de atuação das UANs ainda é, e deve continuar sendo, a nutrição. Assim, o nutricionista atuante neste campo de trabalho deve ofertar alimentos quantitativa e qualitativamente seguros e nutricionalmente equilibrados à população. Conforme Santos5, o fortalecimento do caráter promocional e preventivo, contemplando o diagnóstico e a detecção precoce das doenças crônico-degenerativas é considerado um desafio aos profissionais de saúde. A importância da alimentação na manutenção da saúde já é reconhecida desde a antiguidade. Porém, recentes descobertas, como os compostos bioativos dos alimentos funcionais, que auxiliam na prevenção e tratamento das doenças, estão mudando os paradigmas dos consumidores6. Uso de soja em UAN: um estudo de caso Essa preocupação crescente com a alimentação e sua relação com saúde e longevidade cria um grande mercado para alimentos que possam beneficiar a saúde7. Dessa forma, os restaurantes também passaram a ter o papel de provedores da saúde. Atualmente, os nutricionistas têm a preocupação de ofertar alimentos e preparações atrativas, saborosas, com boa aceitabilidade e alto valor nutricional, mas que também contribuam para melhorar a saúde das pessoas prevenindo e/ou reduzindo o risco de enfermidades8,9. Entre os alimentos funcionais conhecidos, encontra-se a soja, uma leguminosa asiática, de uso milenar, que vem se destacando na prevenção de cânceres e doenças cardiovasculares e na diminuição dos sintomas da menopausa10. Pelos seus benefícios, sua inclusão na dieta diária é recomendável, como uma estratégia alternativa para a prevenção e controle de algumas doenças11. Acredita-se que, cada vez mais, as pessoas tenham consciência da importância e das vantagens de uma alimentação correta, que auxilie em seu bem-estar físico, contribua para melhorar o funcionamento do organismo e previna certas doenças. Em restaurantes industriais, a soja pode preencher parte desta condição, pois possui um bom valor nutricional e propriedades funcionais12. Além disso, o Brasil é um dos maiores produtores mundiais de soja, um produto de baixo custo e versátil. Por isso, as UANs podem disponibilizar em seus cardápios preparações alternativas que sejam financeira e nutricionalmente atraentes13. O uso da proteína de soja nos alimentos aumenta a qualidade do produto final, pois retém umidade, e melhora a textura, o ligamento e a coesão12. Apesar disso, no Brasil, mesmo com elevada produção da leguminosa e seu baixo custo, seu consumo é incipiente devido ao desconhecimento de potenciais benefícios relacionados à sua inclusão na dieta e seu gosto peculiar7. ao benefício da soja à saúde humana. A seguir, realizaram-se ações educativas em nutrição com o intuito de estimular o consumo de soja e averiguou-se a aceitabilidade dos comensais as preparações à base de soja desenvolvidas para este estudo. Por fim, calculou-se o custo (absoluto e relativo) total e o per capita da implantação de preparações à base de soja no cardápio da Unidade. Esta pesquisa, por se tratar de um estudo de caso, não pôde ter seus resultados generalizados. Além disso, o estudo ofertava preparações à base de uma leguminosa que não pertencia à dieta habitual da maioria dos brasileiros e analisava sua aceitabilidade. Dessa forma, outra limitação deste trabalho foi o curto período de tempo da pesquisa. Acredita-se que seria necessária a observação da população por um período maior para obter resultados mais expressivos, pois a mudança de hábitos alimentares é um processo educativo e, como tal, exige tempo. MÉTODO Em relação ao tipo de estudo, o mesmo pôde ser caracterizado como um estudo de caso transversal, descritivo-exploratório e de natureza qualiquantitativa. A população e a amostra foram constituídas de uma Unidade de Alimentação e Nutrição e seus comensais que experimentaram as preparações à base de soja. Foram ofertadas cinco preparações básicas a base de soja que poderiam substituir guarnição, salada, acompanhamento, sobremesa e prato principal, respectivamente: risoto de soja, salada de soja, feijão de soja, creme de maçã com extrato hidrossolúvel de soja e croquete de soja. A partir dos benefícios aqui expostos, a implantação de soja no cardápio de uma UAN pode ser avaliada como uma meta inovadora. O presente estudo teve como objetivo verificar a viabilidade da oferta de preparações à base de soja no cardápio de uma UAN localizada no município de Criciúma – SC. Como instrumento de estudo, foram aplicados dois questionários. O primeiro, entregue no início da pesquisa, objetivava identificar o conhecimento da população sobre alimentos funcionais e soja e averiguar se a mesma possuía o hábito de consumi-la. Já o segundo questionário, entregue no momento da oferta das preparações experimentais, objetivou verificar as razões citadas pelos clientes para se serviram da preparação, realizar uma análise sensorial das preparações ofertadas e questionar se o cliente utilizaria a soja em sua alimentação do dia-a-dia. Para sua realização, inicialmente avaliou-se o grau de conhecimento da população estudada referente Os questionários foram elaborados com perguntas abertas e fechadas, sendo que para a tabulação das Com. Ciências Saúde. 2010;21(1):71-80 73 Dagostim ED, Alves FS respostas abertas foram agrupadas as respostas por semelhança e calculado seu percentual. Nas questões fechadas (avaliação sensorial), foram utilizados notas (de 1 a 10) para cada atributo avaliado (sabor, odor, textura, aparência e geral). Para a tabulação dos dados, as notas de 1 a 4 foram agrupadas e consideradas como avaliação “péssima”, as de 5 a 7 como “boa” e as de 8 a 10 como “ótima”. Na análise dos resultados, foram somados os valores encontrados para “ótimo” e “bom” como índices de aprovação de cada atributo avaliado. As ações educativas em nutrição também fizeram parte de instrumento de estudo, e foram realizadas através de murais, folders e mesa expositiva. Elas ocorreram durante a oferta de preparações a base de soja, entre a tabulação de dados do primeiro e do segundo questionário. As ações educativas tiveram como objetivos: tornar conhecidos da população os benefícios da soja para a saúde, bem como indicar formas de preparação deste ingrediente, para seu uso no dia-a-dia. Para a análise de dados quantitativos, coletaram-se os seguintes dados: número de clientes que experimentaram as preparações, ingredientes utilizados (suas quantidades brutas e preço de custo), a quantidade total de preparação pronta (ofertado), a quantidade ofertada e não consumida (sobra) e a quantidade descartada nos coletores (resíduo). Para cada preparação servida, foi calculado o consumo total das preparações (Consumo total = ofertado – sobra – resíduo), consumo per capita (Consumo per capita = consumo total / número de clientes que experimentaram as preparações) e resto-ingestão (Resto-ingestão = resíduo * 100 / (consumo + resíduo). Entende-se que o resto ingestão é calculado a partir da relação entre os resíduos que os clientes deixaram em seus pratos e a quantidade que preparações que foram distribuídas1, ou servidas pelos clientes, que pode ser exemplificada pela soma daquilo que foi consumido e do que foi rejeitado. Além disso, com base na quantidade de ingredientes usados em cada preparação, a quantidade servida e os preços de custo dos ingredientes, calculou-se o custo alimentar da quantidade servida aos clientes e o seu valor relativo ao preço de venda das refeições (R$ 3,96), Compararam-se então os percentuais obtidos com valores de referência. 74 Com. Ciências Saúde. 2010;21(1):71-80 Os dados quantitativos (de custo e aceitabilidade das preparações) foram analisados, por meio de planilhas e gráficos, a fim de averiguar a viabilidade do uso de soja no cardápio da UAN. Para a tabulação dos dados quantitativos foi utilizada a estatística descritiva, através do software Excel 2003. As informações qualitativas (de conhecimento sobre a soja e seus benefícios) foram adicionadas na análise, a fim de verificar uma possível relação entre o aumento do conhecimento sobre os benefícios da soja e em um maior consumo da mesma. Para a realização dessa pesquisa, obteve-se a aprovação do Comitê de Ética na Pesquisa da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC) sob o número 662. A participação na pesquisa foi voluntária e todos os que aceitaram participar da mesma receberam informações sobre o desenvolvimento da mesma e assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. RESULTADOS E DISCUSSÕES A população avaliada era formada, na sua maioria, por adultos homens. A formação educacional da população era heterogênea, com integrantes que possuíam desde o primeiro grau incompleto até formação de nível superior. Na primeira etapa da pesquisa, avaliou-se o conhecimento da população estudada sobre a soja como um alimento funcional e seus benefícios a saúde humana. Participaram desta etapa, 152 pessoas, correspondendo a 62,29% do total dos clientes da UAN. Destas 152 pessoas avaliadas, 11% tiveram suas respostas ao questionamento sobre o que seria ‘alimentos funcionais’ invalidadas. A maioria (73%) ainda não tinha tido contato com a expressão ‘alimentos funcionais’. Este resultado corrobora os valores encontrados por Freire et al.14, que constatou que 68% da população avaliada não sabiam o que eram alimentos funcionais. Uma parcela da amostra (12%) respondeu já ter ouvido falar sobre alimentos funcionais, porém não souberam definir seu significado. Apenas 4% da população relataram terem ouvido falar sobre alimentos funcionais e demonstraram conhecimento sobre os mesmos. Esse resultado se distancia significativamente do verificado por Ribeiro, Rissard e Almeida15, no qual se obteve um per- Uso de soja em UAN: um estudo de caso centual de 52,5% de participantes que demonstraram saber o significado de um alimento funcional. Esta grande diferença pode ser devida ao fato de que metade da população daquela amostra eram universitários e professores, tendo maior acesso a informações deste âmbito. Quando questionados se conheciam algum alimento funcional, 81,41% responderam não possuir informações sobre o tema. Entre os que conheciam, o tomate foi o mais apontado (por 5,76% da amostra), seguido da soja (5,12%), do peixe (1,28%), da aveia (0,64%) e do brócolis (0,64%). Além disso, 8 pessoas (5,12%) tiveram suas respostas invalidadas. A população avaliada possuía poucas informações sobre a presença de soja nos alimentos. Da amostra pesquisada, 49,34% citou o óleo de soja como fonte do alimento, seguido em menor significância pela carne de soja (28,94%), leite de soja (17,76%) e sucos de soja (4,60%). Do total de participantes, cerca de 54% relataram não consumir alimentos à base de soja. Dado diferente do encontrado por Amaral16, com 60,1% de consumidores de soja em seu estudo. Uma pequena parcela da população (17,95%) possuía conhecimento sobre os benefícios da soja para a saúde humana. Entre os benefícios citados, destaca-se a regulação do trânsito intestinal (3,84%), seguida pela prevenção de câncer (2,56%), redução do colesterol (2,56%), isenção de colesterol (1,28%), prevenção da osteoporose (1,92%), atuação como repositor hormonal (0,64%), diminuição da gordura do corpo (0,64%), prevenção de doenças coronárias (0,64%), auxiliar no controle da Diabetes Mellitus (0,64%). Percebeu-se que a população estudada por Amaral16 tinha maior conhecimento que a amostra deste estudo sobre os benefícios da soja já que, das mulheres entrevistadas pelo autor, apenas 17,97% não conheciam as vantagens no consumo da leguminosa. Ao fazer uma análise geral dos questionamentos desta primeira parte da pesquisa, percebeu-se que a população estudada não possuía conhecimentos sobre o significado de alimentos funcionais e nem quais eram estes alimentos. Também se verificou que, na sua maioria, a amostra não tinha conhecimento de produtos que continham soja, não possuíam o hábito de consumi-los e não conhe- ciam os benefícios dessa leguminosa para a saúde humana. Na segunda etapa da pesquisa, elaborou-se ações educativas com base nas características da população e nos resultados obtidos da tabulação do questionário 1. Seu processo teve início sete dias antes da primeira preparação à base de soja servida e perdurou até o final da pesquisa. Para o processo de educação nutricional foram criados e expostos cartazes e entregues folders, contendo informações sobre conceitos e exemplos de alimentos funcionais, informações nutricionais da soja, bem como seus possíveis benefícios à saúde humana. Além disso, foi disponibilizada uma mesa de exposição de produtos a base de soja, para ampliar o conhecimento dos participantes e todas as receitas das preparações à base de soja elaboradas na Unidade foram disponibilizadas aos clientes interessados. Comentários ouvidos de clientes como ‘hoje temos um alimento funcional’, ‘não sabia que existiam tantos produtos à base de soja’, ‘irei experimentar, pois é saudável’, demonstraram que as ações educativas despertaram a atenção e forneceram informação aos clientes. Porém, além desses dados qualitativos, não foi realizada outra avaliação para a comprovação da efetividade das ações educativas. A seguir, ofertou-se e avaliou-se 5 preparações que continham soja: risoto de soja, salada de soja, feijão de soja, creme de maçã com extrato hidrossolúvel de soja e croquete de soja. Foram atendidos entre 40 e 150 clientes nos 5 dias de experimentos, e o índice de pessoas que experimentaram as preparações entre o total de clientes servidos no dia, foi, em todos os dias, superior a 70%. Foi questionado aos clientes o motivo pelo qual experimentaram cada uma das preparações à base de soja (Tabela 1). Verificou-se que em todas as preparações servidas o motivo mais citado foi para ‘conhecer o sabor da preparação’. Destaca-se que a salada de soja, quando comparada às demais preparações, teve o maior percentual de experimentação por ‘ser saudável’ (35%) e por ‘gostarem do sabor’ (7,5%). Avaliando a aceitação das preparações oferecidas, percebe-se (Tabela 2), que a salada de soja obteve melhor aceitação (97,50%, considerando as opiniões ‘gostei muito’, ‘gostei’, ‘gostei pouco’). Este Com. Ciências Saúde. 2010;21(1):71-80 75 Dagostim ED, Alves FS resultado pode ser justificado pelo fato que esta receita continha ingredientes com sabores peculiares como o pimentão e o tomate, possivelmente mascarando o gosto da soja, descrito pela literatura como de “feijão cru”. Tabela 1 Motivos por ter experimentado a preparação à base de soja (valores em %). PREPARAÇÃO Creme de Maçã Croquete de Soja Feijão de Soja Risoto de Soja Salada de Soja Por ser Conhecer saudável o sabor 22,73 68,18 18,37 67,35 13,33 73,33 19,23 71,15 35,00 60,00 Por gostar do sabor 4,55 2,04 6,67 5,77 5,00 Outros 4,54 12,24 6,67 3,85 0,00 Fonte: Autores (2009) De acordo com a mesma tabela, o Creme de Maçã foi o que apresentou menor percentual de aceitação, tendo um índice rejeição de 19,30%. Uma justificativa para esses valores pode ser a elaboração do extrato hidrossolúvel de soja (leite de soja) pela própria Unidade, não passando então por processos industriais que mascaram seu gosto através de aromatizantes. Entretanto esta também poderia ter sido mais bem aceita se fosse utilizada, ao invés da maçã, uma outra fruta (com análise de seu custo) com objetivo de dissimular o gosto de adstringência da preparação. Tabela 2 Aceitação das preparações à base de soja (valores em %). PREPARAÇÃO 18,18 Não soube opinar 0,00 18,37 55,10 18,37 6,12 2,04 16,67 3,33 6,66 Gostou Gostou Não Gostou Muito Pouco Gostou Creme de Maçã 12,50 Croquete de Soja Feijão de Soja 56,82 12,50 56,67 16,67 Risoto de Soja 26,92 55,77 9,61 6,73 0,97 Salada de soja 27,50 65,00 5,00 2,50 0,00 7,60 1,71 Média de Aceitação 20,39 57,87 12,43 Fonte: Autores (2009) Através da tabela 2, percebe-se que a média de aceitação das cinco preparações foi de 90,69% (soma do percentual médio de “Gostou Muito”, “Gostou” e “Gostou Pouco”). Este resultado demonstra que os consumidores apresentaram uma elevada aceitação dessas preparações à base de soja, obtendo um resultado superior ao verificado por Pereira17 na avaliação de aceitação de três preparações à base de proteína texturizada de soja 76 Com. Ciências Saúde. 2010;21(1):71-80 (berinjela à bolonhesa, lasanha e quibe), que obtiveram uma média de 74% de aprovação. Avaliando as características sensoriais (aparência, consistência, sabor e aroma) das preparações ofertadas aos clientes, percebeu que em relação ao quesito aparência, a salada de soja foi a preparação melhor conceituada com 97,5% de aprovação. Esse resultado pode estar relacionado à presença de ingredientes coloridos na elaboração da salada de soja. Já o risoto de soja obteve a menor aprovação em relação a esse atributo (83,65%), possivelmente pela sua cor uniforme. Ao efetuar a média dos resultados, alcançou-se uma aprovação de 89,7% em relação a aparência das preparações experimentais servidas. Avaliando o quesito consistência, percebeu-se que o risoto de soja apresentou menor índice de aprovação (77,88%) e o croquete de soja foi o mais pontuado, com 95,92% de aprovação. Esse resultado talvez se relacione com o uso do resíduo de soja que é uma massa de alta coesão, oferecendo boa consistência aos produtos18. A consistência das preparações teve uma aprovação média de 88,99%. Quando se avaliou o quesito sabor das preparações, percebe-se que novamente o croquete de soja foi a preparação que apresentou maiores valores positivos, com 91,84%. A preparação que teve menor percentual de aceitação foi o creme de maçã elaborado com o extrato hidrossolúvel de soja, encontrando aprovação de 73,87%. Mendes et al.19 ao elaborarem três tipos de doce à base de extrato de soja obtiveram 38,86% de reprovação dos mesmos, sendo que todas as amostras apresentaram sabor residual de soja. Essa é uma característica própria do extrato de soja, o que o leva a ter uma baixa aceitabilidade na alimentação humana. Nota-se que ao traçar a média das cinco preparações para a análise sensorial do sabor, têm-se 84,13% de aprovação, um número considerado adequado. Por fim, a preparação mais aceita, no quesito aroma, foi o feijão de soja (90%). O fato pode ser explicado pela inclusão de temperos também utilizados na cocção do feijão comum, tendo então, certa semelhança no aroma. Um estudo realizado por Benevides et al.13, ao substituir o feijão fradinho para elaboração do acarajé pela soja, não Uso de soja em UAN: um estudo de caso detectou diferenças significativas na aceitabilidade entre as duas preparações. Possivelmente esse resultado também espelhe as semelhanças entre as duas leguminosas. A preparação menos aceita em relação ao aroma foi o risoto de soja (75,00%), talvez pela não utilização de caldo de galinha como constava na receita, pois este ingrediente estava em falta na Unidade no momento de execução da preparação. A média geral para este atributo foi de 84,32% de aprovação, considerado também um valor satisfatório. Também foram analisadas as características sensoriais das preparações de forma geral. O feijão de soja foi o mais apreciado (93,33%), seguido pela salada de soja (90,00%), creme de maçã com extrato de soja (88,64%), croquete de soja (83,67%) e por fim, o risoto de soja (82,69%). As preparações apresentaram valores médios de 88,08% de aprovação. Para dar mais subsídios à discussão de aceitabilidade, os valores de resto-ingestão e consumo foram calculados. Os mesmos estão dispostos na tabela 3, e foram confrontados com os valores de aceitação geral das preparações, acima descritos (figura 1). Resto Ingestão (%) Consumo (kg) Resíduos (kg) Sobra (kg) Ofertado (kg) PREPARAÇÃO Nº. Clientes que experimentaram Tabela 3 Quantidade (em kg) de preparação elaborada, descartada, consumida e seus respectivos valores de resto-ingestão. Creme de Maçã 88 9,68 0,29 0,80 8,60 8,51 Croquete de Soja 49 6,60 1,51 0,12 4,97 2,36 Feijão de Soja 30 Risoto de Soja 104 Salada de Soja 40 2,50 0,28 0,00 2,22 0,00 19,93 1,57 0,50 17,86 2,72 4,00 0,85 0,16 2,99 5,08 Fonte: Autores (2009) Ao analisar os valores apresentados na tabela 3, percebe-se que houve pouco descarte das preparações (no máximo de 0,8 kg para o creme de maçã). Conseqüentemente, houveram valores reduzidos de resto-ingestão (maior valor também se refere ao creme de maçã, com 8,51%). Relacionando as variáveis: aceitação geral, resto ingestão e consumo (em %), obtiveram-se os valores demonstrados na figura 1: Figura 1 Relação entre aceitação geral, consumo e resto-ingestão (em %) das preparações ofertadas. 120 100 80 91,49 88,64 97,64 83,67 100 93,33 97,28 82,69 94,92 90 Consumo 40 20 Resto-ing Aceitação 60 8,51 2,36 0 Creme de Croquete Maçã de Soja 0 2,72 5,08 Feijão de Risoto de Salada de Soja Soja Soja Fonte: Autores (2009) A figura 1 demonstra a correlação entre aceitação e consumo, porém alguns dados mostraram-se incongruentes. O feijão de soja, preparação com maior índice de aprovação geral, também foi o que teve o maior consumo. Porém, preparações como o croquete e o risoto de soja, que tiveram os menores índices de aceitação geral (83,67 e 82,69%, respectivamente), apresentaram consumos mais elevados (97,64 e 97,28%, respectivamente) do que as preparações salada de soja e creme de maçã. O alto consumo do risoto de soja superou até mesmo as expectativas dos funcionários da UAN pesquisada, ocorrendo momentos em que o mesmo faltou no bufê. Já o baixo consumo da salada de soja pode ser explicado pela inclusão de ingredientes pouco apreciados pelas pessoas, como pimentão e cebola, ou mesmo pela falta de hábito em comer salada, da população pesquisada. Já o alto valor de resto ingestão do creme de maçã (8,51%) pode ser devido ao sabor desta preparação, aprovado por apenas 73,87% dos clientes. Através do segundo questionário, avaliou-se se a população entrevistada utilizaria a soja na alimentação do seu dia-a-dia. Os resultados demonstraram que a maioria (68,62%) assim o faria. Felix20 encontrou resultado semelhante, ao avaliar um teste de aceitabilidade de grãos de soja tostados por diferentes tratamentos, onde cerca de 75% da população estudada utilizaria a soja na sua dieta Com. Ciências Saúde. 2010;21(1):71-80 77 Dagostim ED, Alves FS habitual. Do percentual de pessoas que incluiriam a soja no seu hábito alimentar, 46,20% o faria por este ser um alimento saudável. Acredita-se que estes resultados foram positivamente influenciados pelas ações educativas realizadas no início do experimento com essa mesma população. A comparação do custo alimentar das preparações experimentais com valores de referência1 são demonstrados na tabela 4. % do per capita referente ao custo alimentar % de custo alimentar de referência1 Per capita ofertado (R$) Per capita ofertado (Kg) Sobremesa Prato principal Prato base Ofertado (R$) Componente Creme de Maçã Croquete de Soja Feijão de Soja Risoto de Soja Salada de Soja Ofertado (Kg) Preparação Tabela 4 Custo alimentar total e per capita, em números absolutos e relativos, das preparações realizadas. 9,40 9,79 0,098 0,10 2,57 5,09 8,14 0,101 0,16 4,10 2,22 1,64 0,074 0,05 1,38 Guarnição 18,36 20,77 0,172 0,19 4,91 Salada 3,15 2,39 0,075 0,06 1,43 8a 12 39 a 58 5a 17 6a 11 5a6 Fonte: Autores (2009) Ao comparar o custo alimentício da Unidade com o proposto nos valores de referência1, verifica-se que todas as preparações apresentaram percentual de custo significativamente abaixo do esperado para cada componente do cardápio. Porém, para definir a viabilidade na oferta das preparações, analisou-se também outros fatores como a aceitação das preparações experimentais e o tempo de preparação exigido. O risoto de soja, por exemplo, teve um baixo custo de produção (R$ 0,19/porção), porém o menor índice de aceitação geral (82,69%). Assim, pode ser necessário analisar, substituir e/ou acrescentar ingredientes utilizados nessa preparação para obter maior aceitação entre os clientes. Outra preparação com baixo custo alimentar (R$ 0,16/porção) e boa aceitação da preparação (83,67%) foi o croquete de soja. Porém, é pertinente ressaltar que para sua elaboração necessita-se de um maior tempo de produção, sendo então 78 Com. Ciências Saúde. 2010;21(1):71-80 necessário uma análise do custo referente à mão-de-obra, o tempo e a complexidade para sua elaboração. O feijão de soja também teve um baixo percentual de custo alimentar (1,38%) e uma elevada aceitação geral (93,33%), podendo-se afirmar que seu uso é viável para a Unidade. A salada de soja teve uma boa aceitabilidade geral (90%) e seu percentual de custo alimentar foi um terço do valor de referência (1,43%). Assim, mesmo incluindo outros dois tipos de saladas (de custo alimentar semelhante), a oferta da salada criada seria viável. Por fim, a viabilidade do creme de maçã também verificou-se possível, devido ao seu percentual de custo alimentar (2,57%) abaixo dos valores de referência e sua boa aceitação geral (88,64%). Apesar dessa preparação não ter obtido um bom índice de aceitação referente ao atributo sabor, isso poderia ser revertido se fosse alterado o tipo de fruta na composição, para acentuar o sabor e mascarar o gosto residual da soja. CONSIDERAÇÕES FINAIS Através deste estudo, percebeu-se que a população estudada não possuía informações sobre o benefício da soja à saúde humana, nem consumia preparações a base dessa leguminosa em seu dia a dia. Porém, as ações educativas em nutrição realizadas despertaram o interesse dos clientes pelas preparações elaboradas na Unidade. A oferta dos experimentos foi comprovadamente bem aceita pelos clientes da UAN estudada, através do número de clientes que provou as receitas experimentais (acima de 70%), o motivo para essa ação (60% ou mais o fizeram para conhecer o sabor), a aceitabilidade sensorial das preparações (acima de 82%) e os valores de resto-ingestão (abaixo de 8,51%). Os percentuais de custo alimentar de todas as preparações experimentais foram inferiores ao proposto pela literatura, verificando-se então uma possibilidade de inclusão das mesmas no cardápio da Unidade. Destaca-se, porém, que em alguns aspectos analisados (sensoriais e de resto-ingestão), as preparações ‘creme de maçã’, ‘salada de soja’e ‘risoto de soja’ tiveram avaliação inferior às demais, o que Uso de soja em UAN: um estudo de caso impele reavaliações e alterações das receitas para elevar a aceitabilidade dos clientes. Diante dos resultados encontrados, considera-se o uso de soja na Unidade estudada viável, desde que haja adaptação de algumas receitas a realidade encontrada. Além disso, seria fundamental a capacitação e o incentivo (através de ações educativas) dos funcionários sobre como prepará-la, pois foi percebida uma resistência dos mesmos na introdução de novas preparações no menu. Por isso, acredita-se ser válido incentivar o uso dessa leguminosa, nas UANs, desmistificando o paradigma de que a mesma não possui sabor agradável e reforçando seu custo acessível, seu poder nutritivo e seus benefícios a saúde. REFERÊNCIAS 1.Abreu SE, Spinelli NGM, Zanardi PMA. 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