1 8º Encontro da ABCP 01 a 04/08/2012, Gramado, RS Área Temática: AT10 - Relações Internacionais A POLÍTICA DE COMÉRCIO INTERNACIONAL AGRÍCOLA DOS EUA: INTERESSES, INSTITUIÇÕES E INFORMAÇÕES Laís Forti Thomaz (PPGRI San Tiago Dantas, UNESP, UNICAMP, PUCSP) Marcelo Fernandes de Oliveira (UNESP – Campus de Marília) 2 A POLÍTICA DE COMÉRCIO INTERNACIONAL AGRÍCOLA DOS ESTADOS UNIDOS: INTERESSES, INSTITUIÇÕES E INFORMAÇÕES1 RESUMO: O objetivo do artigo é empreender uma análise do modus operandi dos instrumentos e mecanismos institucionais nos Estados Unidos de formulação da política externa comercial centrada em três variáveis: a) mobilização de interesses, b) funcionamento de instituições e c) divulgação de informações. Como exemplo empírico, utilizaremos a atuação do setor do milho na busca de garantir para a sua cadeia produtiva subsídios e incentivos derivados das Farms Bills de 2002 e 2008, bem como das recentes leis referentes a incentivos energéticos. Por fim, busca-se compreender como a mobilização doméstica deste segmento afeta as relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos. Palavras-chave: Estados Unidos; Política de Comércio Internacional; Lobby Agrícola; Milho; e Etanol. INTRODUÇÃO A preocupação global com o meio ambiente contribuiu para a geração de um consenso internacional favorável ao desenvolvimento de tecnologias limpas, tais como os biocombustíveis. Em especial, após a divulgação do Terceiro Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, em julho de 2001, tratando do alerta em relação à ocorrência do aquecimento global, bem como da entrada em vigor do Protocolo de Kyoto, em 2005. Desde então, uma conclusão tem sido disseminada de forma constante: os biocombustíveis podem contribuir para mitigar o aquecimento global, graças à redução da emissão de gases do efeito estufa (GEE), os quais são derivados da queima de combustíveis fósseis. Por isto, muitos governos passaram a reavaliar seus modelos de desenvolvimento econômico, principalmente suas matrizes energéticas, visando a combater esse fenômeno. Nesta perspectiva, a formação de um Mercado Internacional de Biocombustíveis tornou-se uma alternativa bem vista. Reconhecidamente, o Brasil, desde o advento do Pró-Álcool, em 1975, incentiva a produção e o uso do etanol como energia renovável, proveniente da cultura de cana-de-açúcar, e tem praticado o desenvolvimento sustentável, auxiliando na amenização do aquecimento global. 1 Texto da versão preliminar de um trabalho ainda em andamento. Favor não citar, nem reproduzir. 3 A título de exemplo, a matriz energética brasileira apresenta 45,3% de fontes renováveis, sendo 17,7% advindos de produtos da cana-de-açúcar, o que evitou a emissão de mais de 850 milhões de toneladas de GEE desde a criação do Pró-Álcool (AMADO, 2010; BEN, 2011). Como consequência, o país tornou-se referência internacional neste assunto, possuindo competência técnica e competitividade econômica para produção e difusão global de biocombustíveis. O sucesso brasileiro inspirou o ex-presidente Bill Clinton a sugerir: “Imagine se conseguíssemos deixar de ser dependentes do petróleo internacional. O Brasil conseguiu. Eles fizeram uma simples mudança em seus carros. Mudaram para etanol, fabricado no próprio país. E é 33% mais barato que a gasolina. […] Se o Brasil pode fazê-lo, a Califórnia também pode” (ENERGY INDEPENDENCY, 2006; GARCEZ, 2006). O presidente Obama também defende os biocombustíveis e em sua recente campanha para as eleições de 2012 afirmou que: “And if all we’re doing is cutting and we’re not thinking about investments, then over time we’re going to fall behind to countries like Brazil, where they’ve already got a third, I think, of their auto fleet operates on biofuels. Well, that’s — there’s no reason why we should fall behind a country like Brazil when it comes to developing alternative energy. I want to be number one in alternative energy, and that’s good for the farm economy.” (BNET, 2011) Esse apoio já era dado por outros presidentes que viam a necessidade dos Estados Unidos buscarem alternativas energéticas, como podemos observar no discurso do Presidente Carter, já em 11 de janeiro de 1980: “Our overall gasohol program will spur the investments that we, together, must make for a more secure energy future. We will create new markets for our farmers. We will no longer have to throw away waste materials which can be turned into profitable essential fuels” (THE CLEAN…, 2011) Estes produtores rurais, aos quais se refere, já possuíam um forte histórico de apoio recebido com os subsídios agrícolas, e passaram demandar do governo mais incentivo para o desenvolvimento de tecnologia mais eficiente na produção de etanol a partir do milho como matéria-prima, visando obter melhores condições de lucratividade. Ilustrativamente, podem ser citados os subsídios e incentivos derivados das Farms Bills de 2002 e 2008 bem como as recentes leis referentes a incentivos energéticos, tais como, o Energy Policy Act of 2005, o Energy Independence and Security Act (EISA) de 2007, o American Recovery and Reinvestment Act (ARRA) de 2009, o Tax Relief, Unemployment Insurance Reauthorization, and Job Creation Act de 2010. 4 Neste quadro, Pasour Jr (2008) supõe que o atual programa de incentivo ao etanol tem um impacto negativo sobre os consumidores e os contribuintes dos Estados Unidos, na medida em que o etanol do milho custa muito mais do que a gasolina e o etanol brasileiro. É algo que acaba por conduzir o governo estadunidense a adotar um paradigma energético que prejudica os consumidores, devido aos altos preços do biocombustível doméstico, à agressão ao meio-ambiente pela ineficiência do milho em retirar carbono da atmosfera e pela formação de um livre mercado para os biocombustíveis, que prejudicará os interesses estadunidenses. Mesmo assim, devemos ressaltar que, durante o processo eleitoral de 2008, por estarem interessados nos votos dos delegados do Colégio Eleitoral de Iowa, Illionois, Minnesota e Nebraska, todos os candidatos ficaram equivocadamente convencidos de que o etanol é o elixir que vai lhes dar energia barata, acabar com a dependência do petróleo dos sheiks do Oriente Médio e inverter o aquecimento global. Por isso, em seus raciocínios passou a valer a pena o preço em subsídios a ser pago pelos contribuintes (STOSSEL, 2007). Este comportamento dos candidatos à presidência norte-americana e da cadeia produtiva do milho impõe custos distributivos difusos sobre outros produtores do mercado internacional de commodities, inclusive ao Brasil, especificamente à cadeia produtiva de cana-de-açúcar e do etanol, contribuindo para impedir uma maior liberalização do comércio internacional multilateral no segmento agrícola. Colidindo, dessa maneira, com interesses setoriais brasileiros que, nos últimos anos, têm sido fundamentais na geração de superávit primário da economia nacional. Diante do exposto, podemos levantar alguns questionamentos em relação ao tema. Observando o cenário doméstico e a projeção internacional norte-americana, pode-se perguntar: Quais as motivações e os principais argumentos para manutenção dos subsídios a cadeia produtiva do etanol? Como atuam e qual a força dos grupos de interesse ligados à produção de etanol em favor da manutenção de subsídios, por meio da Lei Agrícola e de leis energéticas dos Estados Unidos, visando desenvolver combustíveis renováveis como etanol? Quais os reflexos disso para a política comercial multilateral? Como a questão ambiental vem sendo utilizada como instrumento de retaliação no comércio internacional por parte dos Estados Unidos? Na nossa hipótese, a resposta para essas indagações pode vir a reboque da demonstração da lógica e do funcionamento dos mecanismos, dos instrumentos institucionais e dos instrumentos políticos utilizados pelos grupos de interesse estadunidenses da cadeia produtiva do etanol no que diz respeito à formulação da política externa comercial de seu país, para garantir condições excepcionais de produção e comercialização ao etanol, tanto para a demanda doméstica e como para a internacional, neste caso também agindo na forma de incentivos globais à produção de biocombustíveis. 5 Esse comportamento estadunidense impõe restrições à capacidade competitiva setorial do etanol brasileiro, impondo custos significativos à perspectiva de desenvolvimento econômico setorial do país e conduzindo o setor sucroenergético do Brasil a se organizar para amenizar as consequências advindas da política de comércio internacional agrícola dos Estados Unidos sobre sua atividade. Esse tipo de atuação tem adotado a UNICA e, provavelmente, sua ação binacional para enfrentar as dificuldades impostas pelos subsídios nos EUA e pela estratégia de marketing e publicidade dos produtores norte-americanos indicará a necessidade de propormos uma reforma dos instrumentos e dos mecanismos de formulação e implantação da política pública de comércio internacional do Brasil, visando ampliar sua profissionalização e maior abertura de diálogo com a sociedade civil sobre os interesses setoriais na pauta de comércio exterior do país. 1. CONSTRANGIMENTOS DOMÉSTICOS E COMÉRCIO INTERNACIONAL Este artigo possui como preocupação central compreender o papel e as estratégias utilizadas pelos atores políticos e econômicos domésticos nos processos de formulação e implementação da política externa comercial dos Estados Unidos, focado no setor agrícola, especificamente na atuação da cadeia produtiva do milho e do etanol e dos seus impactos globais. O objeto escolhido nos conduz a refletir teoricamente sobre a interação entre os âmbitos doméstico e internacional. Isso porque “os atores domésticos, antes relegados à segundo plano agora recebem novos incentivos e constrangimentos para se mobilizarem nas questões internacionais comerciais” (OLIVEIRA, 2007: 2). Para Caporaso (1997: 567), essa opção teórica “chama nossa atenção a atores-chave e nos direciona a analisar a intersecção de influências que convergem no Estado de duas faces [Janus-faced state], voltado simultaneamente para fora, para o sistema internacional, e para dentro, para as diversas constituencies domésticas”. Putnam (1993) foi quem reintroduziu, mais recentemente, esta forma de interpretar e fazer análise de política externa ao propor o modelo do Jogo de Dois Níveis (JDN). Segundo ele, uma análise adequada dos determinantes domésticos da política comercial externa deve contemplar a análise comportamental dos atores políticos relevantes em uma determinada sociedade, tais como partidos, classes sociais, grupos de interesses, legisladores, burocracia oficial, a opinião pública, os eleitores, entre outros. Para Putnam (1993), os grupos de interesse, no nível nacional, tendem a buscar atingir seus objetivos por meio da pressão sobre o governo de modo que ele formule políticas que lhe sejam favoráveis. No que se refere ao nível internacional, Putnam (1993) argumenta que os governos visam à maximização de sua habilidade para satisfazer as demandas internas, concomitantemente 6 com a minimização das consequências adversas de desenvolvimento externo. Dessa maneira, faz-se necessário os dois níveis do jogo para a formulação das políticas, com certo grau de interdependência entre os governos, mas sem a perda de soberania (PUTNAM, 1993: 436). Seguindo essa lógica, Putnam (1993) também apresenta os dois processos que permitem esse jogo. O primeiro, que compete ao nível I, refere-se à barganha entre os negociadores, que conduz a tentativa de acordo internacional. Já no segundo processo, chamado de nível II, ocorre discussões separadas entre cada grupo que constituem a esfera doméstica, a fim da ratificação ou não desse acordo. O que vai determinar, em princípio, se o acordo será ou não ratificado corresponde ao winset, ou seja, a estrutura de ganhos domésticos. Essa estrutura corresponde à expectativa de ganhos dos grupos domésticos que interagem na negociação. Há uma relação entre o win-set e a possibilidade de se firmar o acordo. Essa prerrogativa compreende que a dimensão relativa da estrutura de ganhos respectiva ao nível II irá afetar a distribuição dos ganhos a partir de conjuntos de barganha internacional. Em suma, quanto menor o win-set - ou seja, mais posições difusas no nível doméstico - mais força terá o governo na negociação internacional (nível internacional). E quanto maior o win-set – mais posições coesas no nível doméstico - é mais provável se alcançar um acordo, mas, concomitantemente, é diminuída a capacidade de barganha do governo vis-à-vis outros negociadores internacionais. Logo, se esse acordo corresponder às expectativas desses grupos, mais facilmente será ratificado. Identifica-se, assim, uma relação de legitimidade entre os dois níveis, que é capaz de gerar credibilidade no cenário internacional. “Tanto do ponto de vista interno, quanto externo, decisões tomadas pelo governo com o respaldo do Legislativo encerram maior credibilidade do que as que são produzidas sem qualquer consulta às instituições representativas. A participação do Congresso na definição dos termos pelos quais o presidente é autorizado a negociar em fóruns internacionais significa que as pressões dos agentes económicos são feitas à luz do dia, seus argumentos ponderados por visões alternativas e eventualmente opostas” (SOARES DE LIMA; SANTOS, 2001:146). Ainda Soares de Lima e Santos (2001) ressaltam que essa credibilidade é geradora de uma maior eficácia nas negociações. Isso se deve em certa medida a transparência e a visibilidade do processo. Outro fator resultante de uma maior e mais efetiva interlocução entre os dois níveis é a estabilidade, que fornece um caráter mais resistente em relação a possíveis pressões para alteração de acordos (MARTIN, 2000: 13). Putnam (1993) afirma que o nível II pode abandonar o nível I se não tiver plena certeza de que a negociação a seu favor estiver devidamente documentada. Portanto, deve-se prezar pelo não 7 excesso de comprometimento, para que não se prometa mais do que se pode cumprir no acordo, pois isto levaria a deterioração da credibilidade externa. Nessa perspectiva, o autor ainda adverte para defecção voluntária e involuntária. A defecção voluntária se refere a voltar atrás por um racionalismo egoísta, na ausência de contratos executórios. E a defecção involuntária reflete um comportamento de um agente que está impossibilitado de cumprir as suas promessas por causa de uma falha no processo de ratificação. De qualquer forma, entende-se que a defecção desse acordo tem custos políticos e diplomáticos muito altos. Portanto, a cooperação será mais ou menos provável dependendo do quão atraente uma certa política pública seja para os grupos de interesse. A razão para isso é que o interesse destes em uma política específica afetará a maneira como os políticos enxergam a questão e se serão favoráveis (dovish) ou contrários (hawkish) à sua ratificação (MILNER, 1997). Putnam (1993) ainda constata que a ratificação afeta o tamanho da estrutura de ganhos domésticos, visto que essa estrutura é geralmente menor que a maioria simples exigida nesse processo. Haja vista que “aqueles que perdem devem bloquear ou tentar alterar qualquer acordo internacional, enquanto aqueles que podem se beneficiar dele devem pressionar para sua ratificação” (Milner, 1997: 63). Depreende-se daí que muitos grupos pequenos são capazes de vetar muitos acordos que mereceriam ser aprovados, além dos tratados que nem foram cogitados para a ratificação. Há inúmeras explicações para isto. Entre elas, cabe destacar que o insulamento burocrático tende a reforçar as demandas por interesses protecionistas na medida em que reduz os custos da organização da pressão sob o tomador de decisão, especialmente em cenários de crise econômica (MANSFIELD e BUSCH, 1995); a ausência de diversificação econômica tende a gerar também protecionismo em contextos de instabilidades devido à lógica da especialização e concentração de interesses setoriais (GROSSMAN e HELPMAN, 2002); e a capacidade defensiva de grupos de interesse pequenos com expertise organizacional para a defesa das suas demandas em bases eleitorais com relevância política (ROGOWSKI, 1990). O estudo de caso que realizamos indica que sua compreensão requer a combinação de várias destas explicações causais. Inclusive, esses grupos podem dar o sinal verde ou vermelho para a legitimação internacional de uma política pública doméstica. Mas o que os faz detentores desse potencial de influência são, principalmente, a capacidade de ter acesso a informação e sua perícia na articulação perante às instituições diretamente ligadas a seus interesses na arena do comércio internacional. Muitas vezes isto significa demonstrar que os interesses setoriais desses grupos são estratégicos para os interesses nacionais. No caso da mobilização da cadeia produtiva do miho, como veremos adiante, o complexo agroindustrial é ramificado, tornando o produtor agrícola um elo fundamental no âmbito de uma cadeia produtiva que envolve diversos atores, entre eles, 8 “fornecedores de maquinário, produtos químicos e biológicos, processadores, transformadores, armazenadores e distribuidores. Também fazem parte dessa corrente atores como bancos e agentes financeiros, empresas de marketing e instituições de pesquisa, além do governo. E há ainda o meio no qual todas essas relações ocorrem, o mercado (nacional e internacional), o ambiente cultural e o ambiente institucional, formado principalmente pelo governo”. Quando esta articulação ocorre nesta dimensão, o setor econômico pode vir a ser considerado como estrutural pelo Estado, de modo que “pagar pela sua preservação não é necessariamente contra o interesse geral de um país, mesmo que envolva a alocação sub-ótima de recursos e que sirva interesses de produtores” (Hollingsworth e Streeck, 1994: 284)2. Inclusive, contrariar acordos e regras internacionais que vem satisfazendo historicamente a maioria dos interesses estadunidenses. Nessa direção, Almond, Powell, Strøm e Dalton (2006) sugerem que esses grupos podem agir de diversas formas: impedir votação, participar nas eleições, grupo informal, movimento social, contatos de interesse pessoal, atividades de protesto, etc. Eles variam quanto à estrutura, tipo, financiamento e suporte de base. Essas diferenças podem influenciar a política do país, sua economia e vida social. Os grupos de interesse participam também do processo político servindo como órgãos consultivos do governo e dos parlamentares, informando-lhes o caminho desejado às políticas públicas de seu interesse. Nessa tarefa, esses grupos de interesse buscam mobilizar informações sobre as políticas governamentais e suas mudanças, familiarizarem-se com a administração de políticas estabelecidas, buscam influenciar policy-making, etc. Essa forma de agir funciona na medida em que eles convencem aos funcionários governamentais de que suas propostas têm como ideal colher benefícios recíprocos, tais como cooperação na gestão das políticas existentes, informações sobre o que está acontecendo no seu campo, avaliação das consequências das políticas e, por fim, assistência na implementação de novas políticas. Eles atuam no sentido de “(...) gerar uma orquestração de interesses capaz de apresentar demandas específicas ao Estado” (LIMA, 2011: 12). Logo, a informação é um fator decisivo nesse processo. Desde as eleições desembocando no cotidiano do governo. De um lado, é importante que o político saiba identificar as demandas de seus eleitores, a fim de buscar sua eleição, reeleição e eleições de seus sucessores. De outro, é fundamental que os eleitores e os grupos de interesse se informem se o comportamento do político que elegeu vai ao encontro das suas demandas e interesses. Isso significa que ter expertise para 2 Agradecemos a indicação de leitura deste texto feita por Thiago Lima durante a mesa temática “Formulação de políticas agrícolas, protecionismo e OMC” no III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais, San Tiago Dantas, da UNESP, UNICAMP e PUC-SP, realizado nos dias 08, 09, 10 e 11 de novembro de 2011, no Memorial da América Latina, na cidade de São Paulo/SP. 9 acompanhar e alterar o rumo de políticas públicas é determinante para o sucesso no encaminhamento de demandas e interesses em qualquer país democrático. Aplicando esse raciocínio à formulação de política comercial agrícola estadunidense, faz-se necessário reconhecer que a manipulação das instituições e das informações pelos grupos de interesse nessa questão será determinante para a ratificação ou veto de acordos internacionais. Logo, para Milner (1997), as instituições domésticas são essenciais à interlocução e fornecimento de informações para os grupos de interesse no nível II. Nos Estados Unidos elas são um instrumento muito utilizado para os inputs da sociedade, como veremos. Em resumo, a transmissão desta “estrutura de ganhos” dos interesses setoriais presentes na sociedade civil para os negociadores internacionais depende das instituições domésticas do Estado. Para Risse-Kappen “domestic structures determine how political system respond to societal demands” (RISSE-KAPPEN, 1991). Consequentemente, dominar a lógica de funcionamento dos mecanismos institucionais de formulação de política externa comercial é tão importante quanto ser hábil na mobilização da opinião pública, a qual exerceria influência significativa sobre as decisões políticas e os interesses que elas afetam numa negociação internacional. Portanto, o sucesso da defesa de interesse setorial encontra-se na sua capacidade de mobilizar instituições e informações e transmiti-los devidamente ao negociador internacional (MILNER, 1997), travestindo seu interesse específico em interesse geral estrutural. Para Becak, “O dever de representação e a meta dos objetivos comuns fazem com que os grupos de interesse transformem-se em grupos de pressão com capacidade de influenciar nas decisões de políticas públicas, atuando diretamente junto aos poderes Executivo e Legislativo” (BECAK, 2008:42). Para Friman (2002) isto requer “combine emotional appeals to patriotic duty and selfsacrifice with arguments that incorporate widely held beliefs on the nature of basic challenges to those core values” (FRIMAN, 2002). Construindo assim mecanismos de indução de uma vigorosa corrente de opinião pública no país alvo que tenha como missão essencial estabelecer códigos mentais socialmente partilhados favoráveis aos interesses específicos do país demandante durante situações criticas. Induzindo a uma remodelagem do lobby antagônico, alterando sua “estrutura de ganhos” por meio da manipulação da natureza dos seus interesses domésticos. Este movimento de anti-lobby pode produzir um cenário favorável à cooperação e ratificação de acordos internacionais. Ou, pelo menos, garantir ganhos específicos para outros segmentos econômicos quando o setor sob ataque estar protegido pelo Estado alvo em uma perspectiva estratégica nacional. Contudo, para tanto, faz-se essencial consolidar comunidades epistêmicas que sustentem os interesses setoriais no longo prazo. Comunidades epistêmicas podem ser consideradas como “(...) canais através dos quais novas ideias circulam de sociedades a governos, bem como de país para país” (HAAS, 1992: 27). Ou então, “(...) uma rede de profissionais com perícia reconhecida e 10 competência em um domínio específico e com pretensão oficial de conhecimentos relevantes à políticas dentro daquele domínio ou área” (HAAS, 1992:3). Aprendendo assim a instrumentalizar as relações de interdependência material e identidade da comunidade estadunidense (consciência mútua, simpatia, lealdade, identidade compartilhada) à favor da comunidade econômica brasileira. Nesta perspectiva, consideramos importante complementar a discussão teórica do Jogo de Dois Níveis com a teoria construtivista das relações internacionais, que pressupõe que agentes (atores e indivíduos) e estruturas (sistema internacional, Estado e instituições) são mutuamente constituídos, ou seja, os agentes simultaneamente condicionam e são condicionados pela estrutura (WENDT, 1994; ADLER, 1997; CHECKEL, 1998). Logo, "identidades e estruturas sociais são construídas por meio de uma gama de processos: socialização, mediação, aprendizado e por sistemas de recrutamento" (OLIVEIRA, 2000, p.7). E é essa interatividade entre atores e estruturas que conduz à criação da identidade de elites3 tanto nos níveis nacional como internacional. Para compreender melhor essa dinâmica, a seguir, buscaremos apresentar como os grupos de interesse do setor do milho norte-americano se organizaram para mobilizar e acionar as instituições norte-americanas de formulação e implementação de política externa comercial para alcançarem seus interesses em prol da manutenção e da elaboração de novas formas de subsídio internacional no setor agrícola, limitando assim os esforço do Brasil e dos países em desenvolvimento na tarefa de ampliar a liberalização internacional agrícola na Rodada Doha da OMC entre 2002 e 2009. 2. O LOBBY DO MILHO NOS ESTADOS UNIDOS 2.1. A mobilização de interesses A NCGA representa mais de 33.000 membros associados de 48 Estados. Sua missão é criar e aumentar as oportunidades dos milhocultores e aumentar a rentabilidade do milho e sua utilização. A NCGA é a voz para interlocução dos produtores do milho e suas preocupações para com o legislativo, em âmbito estadual e nacional, em decisões que afetam agricultura e energia nos Estados Unidos. Dessa maneira, nesse capítulo buscaremos enfatizar as diretrizes e interesses que esses agricultores defendem e como conseguem controlar e conduzir informações relevantes como base de barganha dentro das Instituições. A NCGA tem interesses divididos em setores-chave, tais como: Biotecnologia, Conservação da produção, Transporte, Programas de Desenvolvimento Rural, Alimentação animal, Administração de recursos, Fertilizantes e Pesticidas, Seguros pelas safras perdidas, Pesquisa e Desenvolvimento, Comércio e Produção de Etanol. 3 Conjunto de pessoas e organizações que compartilham um sistema de crenças comuns e altamente estruturado. 11 A atuação da NCGA, descrita em seu Policy and Position, em relação ao etanol, se pauta no desenvolvimento de formas de trabalho com o Congresso e outras agências reguladoras para garantir o sucesso e a formulação de leis que vão ao encontro de seus interesses em benefício dos seus associados, como por exemplo: a Renewable Fuel Standard Energy Bill (RFS). É fundamental que se busque todos os parceiros na indústria do etanol para criar uma estratégia unificada para expandir o uso e produção do etanol. Para tanto, a NCGA estabelece diálogos com sua comunidade de interesses4 por meio do seu Conselho e funcionários, visando sempre à formulação de seu plano estratégico e a determinação de quais metas e resultados deverão ser alcançados pelo seu planejamento estratégico de negócios de curto, médio e longo prazos. A NCGA interage com seus associados e legisladores ligados a questões agrícolas no seu centro de Políticas, por meio de seu Legislative Action Center, o qual apresenta as novas resoluções governamentais, estimulando esse canal como forma de conectar as informações e demandas dessa associação e os legisladores por ela apoiados. Assim, as demandas desses agricultores também podem ser expostas e agregarem as diretrizes de seu plano estratégico a interesses mais gerais da população norte-americana. Depois de formular seus interesses e torná-los inteligível para os membros da associação e para a sociedade em geral, a NCGA por meio do seu Conselho busca executar suas políticas, sua visão estratégica e gerenciar seus negócios financeiros. Nesse momento, os congressistas que ela apoia cumprem o papel essencial de transformar suas demandas em políticas públicas. 2.2. O funcionamento de instituições Outra forma de influenciar os tomadores de decisão está na sua articulação em órgãos e instituições como o USDA e USTR. O USTR coordena a política comercial, pretende resolver os desentendimentos e questões para a decisão presidencial, sendo que o objetivo da política comercial estadunidense é abrir mercados em todo o mundo para criar oportunidades e maior qualidade de vida para a sociedade estadunidense. O setor do milho possui representantes dentro do USTR: no Agricultural Policy Advisory Committee estão Audrae Erickson da Corn Refiners Association, Ron Litterer da NCGA, Hunt Shipman da Cornerstone Government Affairs, dentre outros membros indiretamente ligados aos interesses dos milhocultores. Já na Agricultural Technical Advisory 4 Comunidade de interesse é composta por diversos atores da cadeia produtiva do milho, os quais também podem ser chamados como skateholders: as entidades envolvidas e interessadas (a sociedade civil organizada). 12 Committee, o representante da NCGA é Jefferson Jon Doggett, o qual também foi vice-presidente de política pública da associação. (USTR) Dessa maneira, principalmente para tratar de questões relacionadas à OMC, é que a NCGA dialoga com o USTR. A NCGA apoia alguns objetivos da OMC. Da mesma forma que se posiciona contra medidas que restringem o comércio internacional de grãos, alegando que as barreiras técnicas adotadas são, muitas vezes, utilizadas para restringir o acesso a mercados competitivos, como dos países em desenvolvimento. Mas, por outro lado, ao mesmo tempo em que os associados da NCGA buscam o apoio da USTR para que concentrem seus esforços a fim da promoção do livre comércio e favorecendo e utilizando ações de resolução de litígios na OMC por meio de um diálogo construtivo, no âmbito interno eles trabalham para a manutenção dos seus subsídios agrícolas, o que é uma medida condenada na OMC por também distorcer o comércio no âmbito internacional. Nesse sentido, o USDA também tem muitas outras agências que auxiliam os agricultores. A NCGA tem que acompanhar os debates, relatórios e pesquisas feitas nessas agências para sustentar seus interesses. Vale ressaltar que a NCGA também tem canais de influência no USDA não apenas por meio de pressões externas a instituição, por meio de cartas e pressões entre os legisladores que dialogam com esse departamento dentro de suas comissões. A NCGA conta com a presença de seus membros, muitas vezes, assim como os têm no USTR, em órgãos desse Departamento. Esse era o caso de Thomas C. Dorr, atuando na secretaria de Desenvolvimento Rural. Em 2009, Dorr foi transferido para ser Chefe Executivo da U.S. Grains Council. Nesse novo cargo ele atua como chefe da organização do mercado exportador de cevada, milho, e outros grãos. Ele atuou diretamente na NCGA durante 29 anos (DEERING; CARROW; AUGUSTO, 2009). 2.2.1. Força política e estratégica na arena eleitoral Empresários da indústria do etanol não fizeram grandes doações para qualquer candidato a presidente. Uma análise dos registros e contribuições nas campanhas eleitorais evidencia esse aspecto. Os pontos de vista dos candidatos foram testados durante o processo da Farm Bill de 2008, aprovada pelo Congresso, a qual prorrogou os subsídios, apesar de tê-los reduzido no seu total no que tange a produção etanol a partir da cultura do milho, mas manteve as tarifas de importação do etanol da cana-de-açúcar. Obama e McCain, como estavam em campanha, não votaram a Farm Bill. Mas, quando questionados quanto a suas posições em relação à lei, McCain disse que como presidente vetaria o projeto de lei, enquanto que o Obama elogiou a Farm Bill de 2008. Vale ressaltar que as demandas do eleitorado até exercem pressão nas eleições presidenciais, mas seu foco são as eleições legislativas, nas quais existe uma identificação mais direta entre os grupos de interesse e o eleitorado com seus deputados e senadores, principalmente entre os 13 deputados, os quais são eleitos por eleições distritais. Nesse sentido, precisamos considerar que o sucesso da campanha eleitoral dessas últimas eleições começou logo em 2006, considerando a vitória democrata, conquistando a maioria no Senado e na Câmara dos Deputados5. A região do Corn Belt concentra 24% dos assentos destinados ao Senado e 24% dos assentos destinados a Casa dos Representantes, conforme a tabela abaixo: Segundo o Center for Responsive Politics (CRP), a Crop Production & Basic processing, grupo industrial da qual a NCGA faz parte, contribuiu com US$ 17.607.954,00 para as campanhas das eleições de 2008, sendo que 52% foram dedicados aos Democratas e 48% aos Republicanos. Para o Congresso, a Crop Production & Basic processing está em 30º lugar no ranking de contribuições, com a quantia de $11.814.161,00 no ciclo de 2007-2008 (50% para Democratas e 50% para Republicanos). A NCGA financiou US$121.125,00, sendo 70% ao partido do presidente Obama e 30% ao Partido Republicano, estando na 14ª posição do ranking desse grupo6. Nessa perspectiva, verificaremos como a NCGA administrou e aumentou seus recursos e doações das últimas campanhas eleitorais. Em 2008, a NCGA recebeu US$ 162.974,00 e gastou US$ 132.518,00 nas campanhas de seus candidatos, conforme o balanço demonstrado na tabela a seguir. Verificamos a correspondência dos deputados e senadores beneficiados com as contribuições da NCGA e seus associados, a partir de dados do CRP. Com base nos sites pessoais dos deputados, verificamos se os investimentos da NCGA foram recompensados, isto é, se esses deputados estão atuantes da Câmara e se estão envolvidos em comitês e subcomitês que dizem respeito a suas demandas, com destaques para questões energéticas, não apenas agrícolas. Dos 34 deputados, apenas três não estão atualmente na composição da Casa dos Representantes: Marilyn Musgave (Colorado), Kenny Hulshof (Missouri) e Tim Walberg (Michigan). No caso dos senadores, apenas Norm Coleman e Ken Salazar não estão atuando no Senado atualmente. A observação do mosaico dos representantes apoiados pela NCGA nos permite afirmar que apesar de parecer que ela investiu em poucos e pulverizados deputados, os comitês em que eles estão e seus trabalhos e discursos, evidencia que eles têm corroborado muito no sentido das demandas dessa associação, na defesa da agricultura e de energias renováveis. Mais adiante, continuaremos a análise desses deputados dentro do processo de formulação das Farm Bills. A formulação de leis e as votações desses congressistas são de fundamental importância para que os interesses da NCGA tornem-se concreto. E é por essa razão que os membros dessa associação tem que acompanhar os debates diretamente e sempre informarem esses policy makers 5 Por esse lado é interessante observar que nos dois mandatos de Bush, até 2006, os republicanos possuíam o controle da máquina política. Dessa maneira, essa tendência prevaleceu agora com a eleição de Obama como presidente, já que a máquina política está novamente no controle de um único partido. 6 Os maiores contribuintes do raking são produtores de açúcar e de algodão. 14 de suas demandas. Na próxima seção vamos verificar se o setor de nosso estudo tem importância econômica. Mais adiante analisaremos o processo de votação da Farm Bill de 2002 e 2008. 2.2.2. A influência da NCGA na formulação da Farm Bill de 2002 e 2008 A Farm Bill de 2002 recebeu a denominação de HR 2646 e foi introduzida pelo Deputado Larry Combest (R-TX) e pelo co-responsável Charles Stenholem (D-TX) em 26 de julho de 2001. Depois de enviada para as referidas comissões, foram emitidos os relatórios com a proposta de 42 emendas, as quais foram apreciadas e votadas na Casa dos Representantes em 5 de Outubro de 2001 com 291 votos a favor, 120 contra e 19 abstenções. No Senado a votação ocorreu em 13 de fevereiro de 2002 tendo os seguintes resultados: 58 votos favoráveis, 40 contrários e 2 abstenções ao projeto. As divergências no projeto nas duas Casas foram resolvidas em 2 de Maio de 2002, sendo novamente posta em votação. No mesmo dia, o projeto reformulado conjuntamente foi aprovado na Casa dos Representantes com 280 votos a favor, 141 contra e 13 abstenções. Já no Senado, a votação ocorreu no dia 8 de maio de 2002, tendo como resultado 64 votos a favor, 35 contra e 1 abstenção. O presidente Bush assinou a lei e ela entrou em vigor no dia 13 de maio de 2002, com vigência até 2007, ano em que foi formulada a Nova Farm Bill. A Nova Farm Bill, a H.R.2419, foi introduzida em 22 de maio de 2007 pelo deputado Collin Petterson7, de Minnesota, o qual é presidente da Comissão de Agricultura da Casa dos Representantes. Ela foi enviada para as referidas comissões. O presidente da NCGA na época, McCauley enviou recomendações ao subcomitê de Agricultura da Comissão de Commodities e Gerenciamento de Riscos da Casa dos Representantes. Outra recomendação enviada ao Senado para Comitê de Agricultura, Nutrição e Silvicultura. Em ambas as recomendações, o ex-presidente da NCGA aponta os pontos específicos para os quais a associação suporta ou requer mudanças na nova Farm Bill, principalmente nos seguintes programas: Envirommental Quality Incentives Program, Conservation Security Program, Wetlands Reserve Program e no Conservation Reserve Program. Diante dessas demandas é que foram emitidos relatórios em 19 de julho de 2007. Foram propostas 352 emendas e foi aprovada na Casa dos Representantes em 27 de julho de 2007, e posteriormente aprovada no Senado em 14 de dezembro de 2007. As divergências entre as duas casas com relação ao projeto foram resolvidas em 14 de maio de 2007. Dessa maneira, foi votada novamente no Congresso obtendo 318 votos a favor e 106 votos contra na Câmara e 81 votos 7 Para maiores detalhes dos contribuintes de Campanha de Collin C Petterson Ver: CRP. Disponível em: <https://www.opensecrets.org/politicians/summary.php?cycle=2010&cid=N00004558&type=C>. 15 favoráveis no Senado contra 15. Porém, o presidente Bush a vetou em 21 de maio de 2008 alegando que “continues subsidies for the wealthy and increases farm bill spending by more than $20 billion, while using budget gimmicks to hide much of the increase”. Além do mais, Bush declarou que essas medidas prejudicariam os esforços para melhorar o acesso dos agricultores americanos aos mercados estrangeiros (WALSH, 2008). No site do Center for Responsive Politics, 176 organizações registraram lobby para esta lei. Dessas, quatro estavam diretamente ligadas a produtores do milho: a NCGA, além da American Corn Growers Association e da Minnesota Corn Growers Assotiation e a South Dakota Corn Growers. Além desses relatórios descritos pelo CRP, o Comitê da Agricultura da Casa dos Representantes ainda destaca uma carta enviada no dia 21 de maio de 2008, assinada por mais de mil associações e grupos, incitando os deputados a aprovarem a lei anulando o veto do Presidente: Dessa maneira, a HR 2419 foi substituída pela HR 6124, com o nome de Food, Conservation, and Energy Act of 20088. Ela foi reintroduzida em 22 de maio de 2008, sendo referendada pelo Comitê de Agricultura e de Relações Exteriores. No dia 22 de maio de 2008 este projeto de lei foi aprovado na Câmara dos Deputados pela votação nominal. A votação foi realizada sob uma suspensão das regras para encurtar debate e aprovar o projeto, precisando de uma maioria de dois terços. Isso geralmente ocorre quando a legislação não apresenta controvérsias no congresso. Os totais foram 306 votos a favor, 110 contra e 19 abstenções. Em 5 de junho de 2008, foi aprovado no Senado por votação nominal, tendo 77 votos a favor, 15 contra e 8 abstenções. Logo, em 18 de junho de 2008, o veto do Presidente foi anulado pela votação nominal com 317 a favor, 109 contra e 8 abstenções na Casa dos representantes e no Senado foram 80 votos a favor contra 14 e 6 abstenções. Verificamos que essa lei tem força no Congresso, pois os congressistas a identificam, principalmente, como forma de garantirem sua independência de alimentos, bem como têm buscado no caso dos combustíveis. Nem mesmo dentro do partido republicano houve consenso quanto apoiar ou não o veto do presidente. Isso se deveu, em grande medida, às bases eleitorais desses políticos, como afirmou o deputado Tom Davis: "If I was a farmbelt guy, I would be all over my district now, saying, 'I stood with you, not the party of the president' " (Weisman; Morgan, 2008). Com relação a anulação do veto do president, o senador Reid afirmou que a nova lei iria melhorar a qualidade de vida dos agricultores, haja vista os programas que essa lei comtemplou desde alimentação saudável, biocombustíveis até assistência a desastres. Em relação aos 34 Deputados e 17 Senadores que a NCGA contribuiu nos orçamentos de campanha estudados anteriormente, apenas oito, do total desses, não votaram a favor da Farm Bill de 2002: Richard Lugar (R-IN), Robert Bennett (R-UT), George Voinovich (R-OH), Pat Roberts 8 A HR 6124 não contém os Titles XIV e XV que compunham a HR 2419. 16 (R-KS), Mitch McConnell (R-KY), Chuck Grassley (R-IA), Tom Latham (R-IA), Sherrod Brown (D-OH). Desses oito, cinco mudaram de opinião e votaram a favor da Farm Bill 2008. Somente permaneceram contra a Farm Bill de 2008 Lugar, Bennett e Voinovich. Isso se deveu, em grande medida, ao fato desses políticos estarem muito ligados a movimentos em prol do uso de energias verdes e contrários a taxação do etanol brasileiro (essa questão será mais bem abordada no próximo capítulo), além de outros motivos que incluem o fato desses políticos considerarem o programa de subsídios das Farm Bill muito dispendioso para o governo dos Estados Unidos. De qualquer maneira, as contribuições da NCGA são uma das muitas variáveis para que a Farm Bill fosse aprovada. Nessa perspectiva, constatamos que esse movimento associativo e organizado nos indica que a influência da NCGA corroborou nesse processo de elaboração e aprovação da Farm Bill de 2008, consolidando um viés protecionista agrícola estadunidense, o qual erige nas rodadas de liberalização comercial na Organização Mundial do Comércio e nas relações bilaterais, principalmente, nesse caso, entre Brasil e Estados Unidos, inviabilizando a liberalização agrícola internacional. 2.3. A relevância econômica do setor milhocultor e a divulgação de informações A agricultura não é um setor muito relevante se comparado aos outros setores, indústria e serviços, dos países desenvolvidos. Essa realidade não muda nos Estados Unidos, onde a participação da agricultura no PNB não passa de 1%. Se formos analisar a participação dos Estados do Corn Belt no PNB relativo apenas a agricultura, o qual também compreende atividades de silvicultura, pesca e caça, nos Estados Unidos, observamos que sua média durante os anos de 2002 a 2007 foi de 28%. Na análise que inclui todas as indústrias a média da participação do Corn Belt comparado ao total dos Estados Unidos é de 19% (BUREAU OF ECONOMIC ANALYSIS). Dessa maneira, confirmamos que mesmo no caso do Corn Belt a força econômica diretamente ligada ao PNB dos Estados Unidos é relativamente fraca. Ou seja, esses dados apontam que o protecionismo agrícola dos EUA tem como fonte mais motivações políticas do que econômicas. Isto é, a força desse grupo de interesse é direcionada a incentivos e pressões para eleições e reeleições, principalmente tratando-se das eleições distritais. Segundo o National Agricultural Statistics Service (NASS) do USDA, o Corn Belt concentram em média 44% da produção de milho do país de 2005 a 2009. Mesmo assim, não podemos descartar que existem muitos incentivos para que os produtores continuem nessa atividade. Em dados do Environmental Working Group, Os 10 estados com a maior capacidade de produção de etanol recebem mais de 80% de todos os subsídios federais ao milho, superando à média nacional. O caso mais extremo é Illinois, sendo que os agricultores desse estado recebem 17 cerca de 30% desses subsídios a mais por hectare do que a média nacional na captura de subsídios federais destinados ao milho. Iowa não fica muito atrás com 23% a mais do que a média. Nebraska que tem uma capacidade de produzir etanol (2º lugar no ranking) maior que Illinois não recebe tanto subsídios. Até Indiana que está no 6º lugar do ranking recebe mais incentivo. Mais uma vez isso só é compreensível em função dos lobbistas das associações desses estados do Corn Belt. Para manter essa proteção, com base em um estudo da LECG para a RFA, afirma-se que o etanol reduziria a dependência do petróleo importado e reduziria o déficit comercial dos EUA. A produção de quase 6,5 bilhões de galões de etanol significa que os EUA precisaram importar menos 228,2 milhões de barris de petróleo em 2007 direcionados à produção de gasolina, aproximadamente o equivalente a 5% do total de importações de petróleo bruto pelo país. Eis a relevância econômica do setor do milho e do etanol nos Estados Unidos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Como vimos no nível teórico, a NCGA atua na prática, como representantes dos interesses do setor do milho e etanol, mobilizando informações para convencer a opinião pública norteamericana e seus políticos de que suas demandas e interesses são melhores para o cotidiano da sociedade, para, no momento seguinte, utilizar as instituições do país como correias de transmissão dos seus interesses, tanto no processo de formulação de lei agrícola norte-americana, como na sua defesa diante de negociações comerciais internacionais voltadas para a eliminação de subsídios no setor agrícola. Pode-se afirmar, com certo grau de confiança, que a influência desses grupos se traduziu no processo de elaboração da Farm de 2002 e 2008, reforçando o argumento de Browne (1995:27) que as “Farm bills are not designed to fail”. Existe uma variedade de incentivos para produção, venda e uso do etanol, biodiesel e outros combustíveis feitos a partir da biomassa. Apesar disso, o mais importante incentivo federal para o etanol era o Volumetric Ethanol Excise Tax Credit (VEETC) isto é, um crédito fiscal de US$0.45 por galão relativo à mistura de etanol com gasolina. Além disso, existia uma proteção tarifária de US$0.54 por galão importado. Esses incentivos prejudicavam, sobremaneira, os interesses setoriais brasileiros, especificamente da cadeia produtiva da cana-de-açúcar e do etanol. Essa situação protecionista foi objeto de críticas contundentes tanto pelo governo brasileiro quanto pela sociedade civil norte-americana. Na última semana de julho de 2010, um relatório do escritório de análise orçamentária do Congresso norte-americano (CBO) demonstrou o alto custo da política de subsídios norte-americanos ao etanol de milho. Segundo o relatório, “In fiscal year 18 2009, the biofuel tax credits reduced federal excise tax collections by about $6 billion below what they would have been if the credits had not been in effect” (A CBO Study, 2010, p. 9). Depois da divulgação desse dado, vários jornais nos Estados Unidos realizaram críticas duríssimas à política de subsídios ao etanol de milho norte-americano. O Washington Post, no editorial de 24 de julho de 2010, chamado “It's time to end the excessive subsidies for corn ethanol”, afirmou que o “corn ethanol certainly doesn't need the level of taxpayer support it's been getting. Lawmakers are considering whether to renew these expensive subsidies; they shouldn't”. Já o The New York Times, no editorial de 28 de julho de 2010, intitulado “Energy Subsidies — Good and Bad”, sugeriu que “Even the powerful ethanol lobby is showing signs of cracking, with Growth Energy, an ethanol trade group, suggesting a four-year phaseout. It would be far better to end it now. There are many more useful ways to spend taxpayer dollars” (The New York Times, 2010). Grupos de cientistas, de órgãos e ONGs ambientalistas fizeram coro às críticas de ambos os jornais ao etanol de milho dos Estados Unidos. Por essas razões, o ano de 2011 foi muito conturbado para a renovação desses subsídios. As discussões concentraram-se nas políticas de proteção e incentivos a produção de etanol estadunidense. Várias propostas foi introduzidas para alterar ou eliminar imediatamento o crédito fiscal à mistura de etanol adicionada à gasolina (VEETC) no Congresso. Nesse sentido, as votações de projetos contra a renovação dos incentivos ao etanol nos Estados Unidos sinalizavam novos horizontes e demonstraram fissuras dentro do lobby do etanol e entre os congressistas nos Estados Unidos. Podemos afirmar que o movimento na sociedade civil norte-americana e os grupos antietanol (nível doméstico) podem ter desconstruido a comunidade epistêmica9 criada pelo setor do milho e etanol, o que pode ter auxiliado na não renovação do protecionismo estadunidense ao etanol brasileiro (nível internacional), permitindo ganhos econômicos setoriais no futuro. Tanto o VEETC quanto a tarifa de importação não foram renovadas em 2011. Devemos ressaltar ainda que o Energy Independence and Security Act (EISA) 10 de 2007 prevê a utilização de 36 bilhões de galões por ano até 2022 por meio do Renewable Fuel Standard 2 9 Comunidades epistêmicas são canais através dos quais novas ideias circulam de sociedades a governos, bem como de país para país, i.e, uma rede de profissionais com perícia reconhecida e competência em um domínio específico e com pretensão oficial de conhecimentos relevantes à políticas dentro daquele domínio ou área (HAAS, 1992). 10 Segundo o Departamento de Energia: “The Energy Independence and Security Act (EISA) of 2007 aims to improve vehicle fuel economy and reduce U.S. dependence on petroleum. EISA includes provisions to increase the supply of renewable alternative fuel sources by setting a mandatory Renewable Fuel Standard, which requires transportation fuel sold in the United States to contain a minimum of 36 billion gallons of renewable fuels annually by 2022. In addition, the law sets the Corporate Average Fuel Economy (CAFE) standard at 35 miles per gallon for passenger cars and light 19 (RFS2), o qual tem sua implementação regulada pela Agência de Proteção Ambiental (U.S. Enviromental Protection Agency - EPA) dos Estados Unidos. Esta Agência com o auxílio do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (ICONE) divulgou resultados de uma pesquisa que classifica o etanol da cana-de-açúcar como um "biocombustível avançado", pois reduz a emissão de dióxido de carbono (CO2) em 61% comparado à gasolina. Nesse sentido, o Brasil poderá exportar cerca de 14 bilhões de litros por ano. Apesar disso, mesmo com o fim do VEETC e da tarifa a importação, muitos estados subnacionais estadunidenses tem seus próprios padrões e exigências para uso dos combustíveis renováveis, além de outros programas federais que também fornecem suportes financeiros e incentivos aos produtores de etanol e de outros biocombustíveis, previstos no American Recovery and Reinvestment Act (ARRA) de 2009, e no Tax Relief, Unemployment Insurance Reauthorization, and Job Creation Act, de 2010. De todo modo, o etanol e os incentivos fiscais de biocombustíveis persistem como temas políticos cruciais para os candidatos em 2012, haja vista as primeiras visitas em agosto de 2011 do Presidente Obama, que já está em campanha, a três dos quatro principais estados produtores de etanol. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS A CBO Study. “Using Biofuel Tax Credits to Achieve Energy and Environmental Policy Goals”. Disponível em: http://www.cbo.gov/ftpdocs/114xx/doc11477/07-14-Biofuels.pdf. Acessado em 30 de Julho de 2010. 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