XII JORNADA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO – JEPEX 2012 – UFRPE: Recife, 26 a 30 de novembro. VIGILÂNCIA E REPRESSÃO DO DOPS ÀS ASSOCIAÇÕES DE MORADORES DO BAIRRO DE CASA AMARELA E ADJACÊNCIAS 1955-1985 Geane Bezerra Cavalcanti1 Introdução Este resumo apresenta os resultados obtidos nos dois anos de vigência do Programa de Iniciação Científica ofertada pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (PIC/UFRPE). A pesquisa intitulada “VIGILÂNCIA E REPRESSÃO DO DOPS ÀS ASSOCIAÇÕES DE MORADORES DO BAIRRO DE CASA AMARELA E ADJACÊNCIAS 19551985” vincula-se a um projeto maior denominado “A Imprensa Censurada: A Rede de Informação Censura e Repressão em Pernambuco- 1964-1985”, concebido e coordenado pela professora Dra Marcília Gama da Silva, orientadora deste Plano de Trabalho. A pesquisa relatada tem por objetivo estudar as práticas de controle do DOPS-PE sobre as Associações de Moradores do bairro de Casa Amarela, na cidade do Recife - PE, destacando a censura e repressão a todo tipo de mobilização, organização ensejada pelas associações de Bairros, bem como, as formas gazeteiras de sobrevivência dos moradores ao cerceamento de liberdade. Para isso se baseará no que propõe Montenegro (2010), tomando por referência Deleuze, Veyne e Foucault, quando afirma que é preciso realizar comparações, traçar caminhos e construir a história de acordo com as fontes pesquisadas interpretando e “rachando as palavras” para construir o momento histórico pesquisado. Além de Montenegro também é utilizado como aporte teórico os trabalhos desenvolvidos por Maria da Glória Gonh (2004) e Ilse Scherer-Warren (1996). Material e métodos O corpus documental utilizado foi constituído pelos jornais apreendidos pelo Departamento de Ordem Política e Social de Pernambuco, o DOPS-PE, sob a guarda do Arquivo Público Jordão Emerenciano – APEJE-PE, onde foram analisadas as matérias e comentários veiculados nos jornais sobre as associações. Além dos prontuários armazenados no DOPS – PE, sobretudo, o tema em Pernambuco. A metodologia se constituiu em fazer um levantamento das matérias mais relevantes deste gênero no período, contextualizando historicamente no tempo e no espaço, procedeu-se à análise iconológica do material produzido, e registrado nos prontuários de jornais no acervo DOPS-PE sob a guarda do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano – APEJE, selecionando os mais expressivos, identificando a crítica presente nos periódicos do estado, ale dos inquéritos e documentação referente as associações apreendidas pelo DOPSPE. Procurou-se fotografar/digitalizar toda a documentação para que este material sirva como base também para futuras pesquisas. Ainda foi realizada entrevistas com pessoas que tiveram alguma participação na formação e desenvolvimento dos conselhos e associações do bairro de Casa Amarela. Resultados e Discussão Antes de 1955, quando começam a surgir às primeiras associações de bairro de cunho reivindicativo promovidas pelo incentivo do prefeito do Recife Pelópidas Silveira, já existiam alguns movimentos de bairros, como as Ligas de defesa da constituição e células comunistas em algumas localidades do recife. As associações de bairro surgem no Recife no período de redemocratização do pós-45, incentivadas principalmente por correntes político-partidárias de esquerda, como o Partido Comunista Brasileiro- PCB, e pela prefeitura do Recife. Foi durante a administração de Pelópidas Silveira, a partir de 1955, que surgiram à maioria das associações de bairro do Recife, incentivadas pelo prefeito. Estas associações possuíam um objetivo bastante claro: ajudar a prefeitura na administração da cidade, canalizando melhor as necessidades da população, como diz (Jaccoud, 1990). As associações se proliferaram principalmente nos bairros carentes, incentivadas pela prefeitura populista de Pelópidas Silveira, elas serviam de ligação entre o povo e a prefeitura. Antes mesmo do golpe de maio de 1964, as associações de moradores já eram vigiadas de perto pelo DOPS-PE. Encontramos nos seus arquivos, fotos, documentos, recortes de jornais e relatórios sobre pessoas engajadas com as associações de moradores e atividades desenvolvidas por estas entidades. As associações já eram vistas como grupos de cunho comunista e subversivo pelo DOPS desde 1956. Apesar de políticos como Miguel Arraes e Jarbas Maranhão afirmarem que elas não possuíam um caráter político-partidário e elogiarem suas ações por incentivar a participação popular nas causas públicas, ainda sim as associações foram consideradas de cunho comunistas, remanescentes das extintas células, isto porque também havia políticos que acusavam as associações de serem político-partidárias e ligadas ao socialismo. 1 Graduando do curso de Licenciatura plena em História. Bolsista PIC 2011/2012. XII JORNADA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO – JEPEX 2012 – UFRPE: Recife, 26 a 30 de novembro. Com o golpe de 1964 as associações foram fortemente combatidas pelo regime que se implantava, muitos líderes comunitários foram presos e espancados, sedes das associações foram invadidas, metralhadas, tiveram seus materiais apreendidos e foram fechadas. A ação rápida e violenta dos militares fez com que as associações de moradores praticamente desaparecessem, restando muito poucas, apenas aquelas que demonstraram apoio ao regime sobreviveram e tiveram suas reivindicações atendidas. Com as associações praticamente extintas, a igreja Católica Progressista, através da Teologia da Libertação, irá possuir um papel fundamental no que diz respeito ao ressurgimento dos movimentos populares de bairro. A criação das Comunidades Eclesiais de Base - CEB’s e conselhos de moradores em diversos bairros do Recife conseguem mobilizar novamente a população com o intuito de reivindicar melhores condições de vida. Logo os conselhos de moradores se espalham pelo Recife e conseguem que suas reivindicações sejam atendidas. Em Casa Amarela o Pe. Reginaldo Veloso foi uma das lideranças dos conselhos de moradores. O trabalho desenvolvido pelo padre Reginaldo Veloso nas comunidades de Casa Amarela não passou despercebido pelo olhar rigoroso do regime militar, por conta do mesmo seguir a teologia da libertação e por manter estreitos laços com Dom Helder Câmara. Apesar das CEB´s e conselhos de moradores serem permitidos, militares frequentavam as reuniões e “passeavam” pela comunidade passando na frente das casas dos moradores que frequentavam as reuniões, o que não deixa de ser uma maneira de intimidação. O próprio Reginaldo Veloso, assim como outros padres em todo Brasil, foi vítima do regime, sendo até sequestrado e respondendo processos. Para Reginaldo Veloso os movimentos populares não possuem atualmente a mesma força que antes pelo fato de suas lideranças, com a redemocratização, terem recebidos cargos públicos e com isso foram corrompidas pelo sistema. Esta pesquisa concluiu que Apesar da importância e alguns grupos políticos, como a Frente do Recife, para a formação das associações de moradores, elas surgem de maneiro espontâneo devido, principalmente, a uma necessidade da população carente do Recife por melhorias estruturais nas suas comunidades; Para atender os interesses das elites as associações de moradores, assim como outros movimentos sociais, são desarticuladas em 1964 acusadas de serem antros comunistas; A igreja Progressista terá um papel fundamental a medida que consegue reerguer os movimentos de bairro através das CEB’s e formação dos conselhos de moradores; Hoje as associações e conselhos de moradores não possuem a mesma força que tinham durante o período militar, pois com a redemocratização muitos dos seus líderes receberam cargos públicos e perderam seu poder de barganha; O movimento popular forte precisa ser autônomo, independente, para assim reivindicar seus interesses. Agradecimentos Agradeço o apoio da UFRPE pela bolsa PIC, motivo pelo qual esta pesquisa pôde ser realizada. Referências Andrade, Manuel Correia de; FERNANDES, Eliane Moury. Vencedores e vencidos: o movimento de 1964 em Pernambuco. Ed: Massagana. Recife, 2004. Betto, Frei. O que é Comunidade Eclesial de Base. Coleção primeiros passos, Ed: Brasiliense. São Paulo – SP, 1985. Boff, Leonardo. Ecologia Mundialização Espiritualidade. Ed: Ática. São Paulo, 1996. Foucault, Michel. Vigiar e Punir. Edição: 38ª. Ed: Vozes. Petrópolis-RJ, 2010. Gaspare, Elio. A Ditadura Escancarada. Ed: Campanhia das Letras. São Paulo-SP, 2002. Gonh, Maria da Glória. Movimentos Sociais e Luta Pela Moradia. Ed: Loyola. São Paulo, 1991. Gonh, Maria da Glória. Teorias Dos Movimentos Sociais: Paradigmas Clássicos e Contemporâneos. 4°edição. São Paulo: Ed: Edições Loyola, 2004. Jaccoud, Luciana de Barros. Movimentos Sociais e Crise Política em Pernambuco 1955-1968. Ed: Mssangana. Recife, 1990. Marie-Paule; Caire-Jabinet. Introdução à Historiografia. Ed: Edusc. Barueri-SP, 2003. Montenegro, Antônio Torres. História, Metodologia, Memória. Ed: Contexto. São Paulo, 2010. Scherer-Warren, Ilse. Redes de Movimentos Sociais. 2° edição. Ed: Edições Loyola. São Paulo, 1996. Diário de Pernambuco. A paisagem sombria do Estado, teatro da agitação organizada. 10 de abril de 1963, Recife-PE. XII JORNADA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO – JEPEX 2012 – UFRPE: Recife, 26 a 30 de novembro. Diário de Pernambuco. Moradores dos bairros constroem melhoramentos públicos. 23 de fevereiro de 1964, Recife-PE. Freire, Eliana Oliveira de Lima. UMA HISTÓRIA SOCIAL DO MOVIMENTO DE RESISTÊNCIA À DITADURA MILITAR DE CASA AMARELA - RECIFE-PE 1964-1985. Disponível em: http://www.docstoc.com/docs/21288045/Uma-Histria-Social-do-Movimento-de-Resistncia-Ditadura-Militar. Acesso em: 22/10/2011. Morro Digital. Morro Fazendo História. Disponível em: <http://www.morrodigital.org.br/>. Acesso em 12 ago. 2008. Silva, Marcília Gama. Informação, Repressão e Memória: A construção do estado de exceção no Brasil na perspectiva do DOPS-PE (1964-1985). 2007. 264 f. Tese (doutorado em história) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco, UFPE. Reginaldo Veloso. Entrevista realizada em 14/05/2012, Recife-PE.