A reprodução social da classe trabalhadora na periferia de Salvador: as trajetórias de vida no bairro do Pero Vaz/Liberdade Liane Lima Fonseca [email protected] UNEB – Campus V Lívia Gomes Souza Luz [email protected] UNEB – Campus V James Amorim Araújo [email protected] UNEB – Campus V Resumo O objetivo da pesquisa foi conhecer a origem dos moradores do Pero Vaz/liberdade, subúrbio de Salvador. Para realizarmos este objetivo desenvolvemos uma coleta de dados em campo através de uma amostra cuja metodologia visou nos aproximar do cotidiano dos moradores para saber de suas condições de vida. Nossa base teóricometodológica está pautada em autores como Léfèbvre (2000, 2004), Damiani (1993), Revel (1996) e Baitz (2006). Concluímos que a maior parte dos moradores do bairro provém da própria Salvador, diferentemente do que se pensava e, além disso, as condições de reprodução social ainda são bem precárias, sobretudo, no que tange o acesso às infraestruturas urbanas. Palavras-chave: periferia. trajetória de vida. reprodução social. A reprodução social da classe trabalhadora na periferia de Salvador: as trajetórias de vida no bairro do Pero Vaz/Liberdade 1 Introdução Este artigo é fruto da pesquisa de Iniciação Científica (IC) desenvolvida durante os anos de 2011 e 2012 no bairro do Pero Vaz/Liberdade, subúrbio de Salvador. Nosso objetivo era, além de levantar as condições de vida, responder a uma questão básica: qual era a origem dos moradores do bairro? Isto é, queríamos saber de suas trajetórias de vida, buscando saber de onde os pais eram provenientes, afinal, afirmava-se que grande parte dos moradores do bairro havia migrado do Recôncavo Baiano em direção à Liberdade durante as décadas de 1940 até 1970. Para responder a esta questão, bem como levantar dados das condições de vida dos moradores do Pero Vaz, realizamos trabalho de campo aplicando questionários por meio de uma amostra de noventa e seis domicílios particulares permanentes1. Os dados levantados, assim como nossa discussão teóricometodológica, antecedem as considerações finais. 2 O espaço, a reprodução social e como apreendê-los: referencial teóricometodológico O espaço o meio e a condição da reprodução social, tal afirmação, embasada em Léfèbvre (1973; 2000) pavimentou a possibilidade teórico-metodológica de se trabalhar com os diferentes níveis espaciais de reprodução, mas que de uma maneira geral podem ser resumidos em apenas dois: um nível sociológico ou macro e um nível antropológico ou micro. Dito de outra maneira, nossa pesquisa está focada no diálogo entre a abordagem da alienação, sobretudo nos trabalhos do filósofo/sociólogo Henri Lefebvre e, a abordagem da resistência, a partir dos estudos de Michel de Certeau (2003). 1 Nossa amostra baseou-se em no total de 26000 habitantes no bairro (IBGE, 2000). E teve como erro amostral 0,10 em relação à proporção total de moradores, o que correspondeu a um contingente de 96 habitantes amostrados. O entendimento do nível sociológico foi satisfatoriamente atingido, mas o mesmo não pode ser dito do nível antropológico porque para atingi-lo é necessário perscrutar a dimensão cotidiana do lugar. A noção de vida cotidiana remete necessariamente a uma discussão de modo de vida. A despeito de todos os debates realizados no seio das ciências humanas sobre este conceito, sobretudo, aqueles em que se destaca o modo de vida determinado pela sociedade capitalista, há ainda uma rica discussão de “outros” modos de vida, nos quais ainda resistem espacialidades e temporalidades não homogeneizadas pela métrica burguesa. É um fato que o modo de vida ancorado nos termos da sociedade burguesa se tornou hegemônico na contemporaneidade. Os signos desse modo de vida estão espalhados ao redor do mundo e conclamam a todos a participar dele, desde os citadinos de metrópoles até os que estão nas mais remotas vilas. Contudo, esse processo está longe de ser homogêneo, porque as realidades nas quais ele se implanta trazem seus próprios modos de vida ou gêneros de vida. Desse conflito, fica patente que duas lógicas se chocam, uma horizontal e outra vertical, aquela orgânica enquanto esta funcional; o professor Milton Santos (1997) soube decifrar muito bem este movimento. Uma segunda implicação teórica está relacionada à noção de cotidiano. Trabalhar com a noção de cotidiano nas duas abordagens aqui apresentadas leva-nos a aceitar a estruturação da realidade social em dois planos ou níveis: um macro ou histórico e outro micro ou cotidiano. Isto para a Geografia significa retornar à questão da escala, mas não só, isso sugere também incorporar outras noções importantes como a lei da implicação entre os níveis de realidade. O nível histórico da realidade é aquele onde predominam os processos sociais conduzidos por agentes hegemônicos. Estes agentes concentram suas ações nas dimensões econômicas e políticas da sociedade e, portanto, geram eventos que alcançam os indivíduos. Na dimensão do cotidiano, estes eventos são codificados por formas sociais as mais variadas que se agrupam em subsistemas (habitação, educação, saúde, transporte, lazer etc.). Além disso, as formas sociais carregam consigo os conteúdos de (re)produção definidos na escala macro social, porque é preciso manter os padrões de reprodução social “estáveis” o máximo possível. Entretanto, entre a definição de uma forma social e seu pleno emprego há muitas mediações e interdições. Aqui é preciso admitir que os planos da realidade social não são congruentes, porque, se assim fossem, as contradições sociais não seriam legíveis. Tomemos o exemplo de um subsistema para esclarecer este ponto: o da habitação. A habitação corresponde ao nível do habitar e foi ao longo do século XX cooptada pela reprodução capitalista, como parte de suas estratégias de recomposição do capital, portanto, ela se tornou um subsistema controlado pelo nível global da sociedade, no qual o Estado e o mercado imobiliário são os agentes privilegiados (LEFEBVRE, 2004). No plano do cotidiano, o sistema de habitação impõe uma tomada de perspectiva analítica diferente, pois, a casa ou o lar possui várias dimensões colmatadas, desde as funcionais até aquelas do ponto de vista simbólico, porque ela é a base de estruturação da vida cotidiana (vida assegurada), de acordo com Damiani (1993). No caso brasileiro isto é um fato: como aqui imensas parcelas da população não resolveram suas necessidades mínimas de sobrevivência e o imóvel acaba significando, em um horizonte próximo de reprodução, uma possibilidade real de estruturação de sua vida. Obviamente que discutir cotidiano e sistema de signos significa pensar as dimensões macro e micro sociológica. Quando transladamos a discussão do macro e do micro social para a Geografia, imediatamente recorremos à noção de escala geográfica. Contudo, é de fundamental importância superar uma visão do objeto em si mesmo e, além disso, incorporar, à noção de escala a lei da implicação dos espaços. Estudar um bairro de periferia, por exemplo, remete a toda uma gama de relações com outras dimensões do espaço que não podem ser negligenciadas porque pararíamos ao nível do fenomenológico, e não se encaminharia a problemática da pesquisa para a dialética da implicação dos espaços. Como apontou Lefebvre “não há um espaço social, mas vários (...) A implicação dos espaços sociais é uma lei. Tomado isoladamente, cada um não é senão uma abstração” (2004, p. 113). Este “jogo de escalas”, na expressão usual de Jacques Revel, impõem no estudo do cotidiano a adoção de uma microanálise. A microanálise tem sido objeto sistemático de discussão interdisciplinar entre a História e a Antropologia há pelo menos duas décadas, isto porque, nestes dois campos do saber científico reconhece-se que a construção do objeto de pesquisa passa necessariamente pela definição do seu nível de análise – ou seja, de sua escala de abordagem, do macro ao micro. Grandes nomes da historiografia francesa como Jacques Revel, Bernard Lepetit (1996), dentre outros, têm se debruçado na discussão dessa temática tão cara às ciências humanas, isto porque no jogo escalar implica considerar que: A realidade social não é a mesma dependendo do nível de análise. Jacques Revel salienta que fenômenos maciços como o processo de industrialização ‘podem ser lidos em termos completamente diferentes se tentarmos apreendê-los por intermédio das estratégias individuais (...)’; A adoção de uma escala exprime ‘ uma intenção deliberada de visar a um objeto e indica o campo de referência no qual o objeto é pensado’. A adoção de uma escala é, antes de qualquer coisa, a escolha de um ponto de vista de conhecimento. (1996, p. 94). Na Geografia, o conceito que melhor responde aos estudos de microanálise e, logo, do cotidiano, é o de lugar. Carlos (1996), ao tratar deste conceito, esclarece-nos que o lugar permite o tratamento da relação dialética entre o que é global (histórico) com o que é local (cotidiano) através da dimensão sensível do indivíduo. Essa tríade, macro-microindivíduo, constitui-se em uma das bases metodológicas na qual a Geografia deve ancorar-se no estudo do cotidiano. Consequentemente, a pesquisa de campo precisa ser reinventada, uma vez que a relação sujeito X objeto da pesquisa se esboroa. No cotidiano o espaço é vivido, logo, a perspectiva em que a realidade se coloca é subjetiva, porque está ao nível do sensível. Os grupos sociais (família, associações, agremiações), o indivíduo e o próprio pesquisador usam seus sentidos como um campo perceptivo para estabelecer uma primeira aproximação com a realidade, logo, não há objetividade total em suas práticas. Disso resulta que métodos e técnicas tradicionais de coleta de informações, aqueles oriundos do cientificismo positivista, perdem seu sentido frente à complexidade do cotidiano. Com efeito, têm sido propostas novas metodologias de pesquisa, que na Geografia reorientam a pesquisa de campo, dentre as quais destacamos: a implicação e a deriva. A implicação é um método crítico de o pesquisador se colocar na pesquisa. Ela pressupõe o rompimento da separação entre o sujeito e o objeto, porque a pesquisa passa a ser uma jornada, nesse sentido, implicar-se significa que o pesquisador torna-se parte da pesquisa, mas implicação não é a mesma coisa que pesquisa-participante. A implicação não é uma imposição ética de trabalho para ajudar “uma comunidade”, está em outro campo de relação, no qual a implicação torna-se intimidade e prazer de pesquisar. O tempo contabilizado neste método não faz sentido algum, porém, ao pesquisador impõe-se um momento de descontinuidade ou cisão na implicação, afinal, o registro do que se experiência faz parte do movimento do conhecimento. Com a implicação corre-se o risco de perda do “foco” da pesquisa, uma vez que pode ser empregada sem as totalizações ou verticalizações que a pesquisa exige. Baitz (2006), ao refletir sobre este método, a partir de sua pesquisa de mestrado, chama-nos para esta questão, ele diz “seu pilar, entretanto, se bem explorado e compreendido, evita esses desdobramentos. A análise implicada é feita sobre uma relação: (...) entre o pesquisador e o objeto, entre o pesquisador e as instituições, entre o pesquisador e a ciência...” (2006, p. 43). Por isso, a decisão em aplicar entrevistas a moradores selecionadas por amostragem com o foco em questões abertas e uma atitude pautada mais no diálogo do que no inquérito. 3 Apresentação e discussão dos resultados obtidos no período da pesquisa Os dados coletados na pesquisa documental e de campo estão organizados e apresentados em forma de tabelas. Durante o segundo semestre de 2011 a equipe de pesquisa levantou dados secundários junto ao IBGE a partir dos censos demográficos de 2000 e 2010. No primeiro semestre de 2012, a equipe por sua vez realizou levantamento de campo no Pero Vaz. O levantamento de dados no campo ocorreu em quatro momentos: o primeiro nos meses de novembro e dezembro de 2011 e foi realizado pelo coordenador da pesquisa, com o intuito de restabelecer contatos e preparar a ida das bolsistas. O segundo momento aconteceu nos dias 30 e 31 de Janeiro de 2012 e envolveu a aplicação de 42 entrevistas; o terceiro momento foi realizado entre abril e maio do mesmo ano onde se obteve mais 12 entrevistas; o último momento de coleta aconteceu no dia 29 de maio, no qual foram aplicadas 42 entrevistas restantes. Os dados coletados através das entrevistas foram por contato direto e com perguntas semiestruturadas. Como havia a possibilidade da identificação ser “anônima”, a interação entre pesquisadores e sujeitos da pesquisa foi mais horizontal, o que permitiu maior liberdade de expressão de ambos. Por outro lado, realizar levantamento de campo em bairros periféricos não é uma tarefa simples, haja vista as dificuldades de acesso à informação devido à violência, o medo de se expor, etc. A entrevista foi estruturada em quatro partes: 1 dados de identificação; 2 condições de moradia; 3 condição de ocupação e de vida; e 4 histórico de vida no bairro. A seguir, apresentamos os dados coletados. Sobre a infraestrutura do bairro, os dados dos censos demográficos do IBGE de 2000 e 2010, Figura 1, indicam que ocorreram as seguintes transformações: 1 praticamente a totalidade dos domicílios particulares tem acesso às redes de água e de energia; 2 outro dado significativo é a drástica redução da vala como meio de esgotamento sanitário, em dez anos mais de noventa por cento de redução, portanto, uma transformação significativa. Também houve redução da fossa rudimentar no mesmo período de tempo, por outro lado, houve um aumento da fossa séptica. Todos esses dados apontam uma melhoria das condições de saneamento básico; e, 3 a rede pluvial continua a ser o meio preferencial de esgotamento sanitário para noventa e oito por cento dos moradores do bairro, isto que provoca um alto índice de contaminação da bacia do Rio Camurujipe com coliformes fecais. Este problema é de conhecimento da EMBASA que desde 2009 procura solucionar o problema através de iniciativas de adesão à rede de esgotos, entretanto, este problema ainda parece ser incontornável, pois, a morfologia espacial do Pero Vaz praticamente torna impossível a interligação de todos os domicílios ao tramo principal rede de esgotos construída há quase uma década através do Programa Bahia Azul. Figura 1- Infraestrutura do bairro Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000 e 2010. O cruzamento das variáveis - condição de apropriação e o tipo de material empregado reafirma o perfil de invasão consolidada do bairro. A história revela que o Pero Vaz foi a primeira invasão coletiva de terras urbanas de Salvador em 1946. Todas as respostas para a condição de imóvel próprio apontam, na realidade, para a herança do imóvel, pois, muitas famílias já estão em sua quarta geração. Além disso, apesar a substituição de grande parte dos materiais provisórios de construção por alvenaria é sintomático observar que 25% dos entrevistados ainda moram em imóveis construídos com vários tipos de materiais – alvenaria, madeira, latas etc., Figura 2. Figura 2 - Tipo de material empregado na construção do imóvel Fonte: Levantamento de campo realizado em Maio de 2012 Em relação à população do Pero Vaz, os dados dos censos demográficos do IBGE confirmam a redução da população total, Figura 3. Os dados demográficos indicam que entre os anos de 2000 a 2010 houve uma redução da população absoluta no Pero Vaz, mais de 6000 habitantes. Esta redução é tanto fruto do limite ecológico da área quanto, provavelmente, da expansão de novas áreas para moradia em Salvador e região metropolitana. O fato é que em dez anos a localidade diminuiu em mais de quinhentos domicílios particulares. Apesar de não ter sido objeto específico desta pesquisa, podemos inferir que tal redução de população é consequência da altíssima densidade demográfica que acabou por conduzir a um limite ecológico de ocupação e reprodução espacial. Por conta da falta de espaço e das dificuldades cotidianas com a extrema ocupação, a redução da população acabou por se configurar como uma consequência óbvia. Por outro lado, seria necessário realizar pesquisas as quais levantassem os destinos migratórios da população. Este realmente é um fenômeno novo que precisa ser acompanhado de perto. Figura 3 - Total de moradores nos censos demográficos de 2000 e 2010 Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000 e 2010. Outros aspectos relacionados à população dizem respeito à migração para a localidade e a ocorrência de vínculos familiares locais. A pesquisa de campo conseguiu, através de amostra, levantar dados de inferem a origem dos moradores a partir do local de proveniência dos pais, Figura 4. E contrariamente ao que se pensava, a maior parte dos moradores do bairro provém da própria Salvador, informação que desconstroi a ideia de que o Recôncavo Baiano seria a principal região emissora de população para o Pero Vaz. Figura 4 - Origem da família Fonte: Levantamento de campo realizado em Maio de 2012. No bairro, também através da pesquisa de campo, constatou-se a alta concentração de parentes morando próximos, Figura 5. Tal fenômeno indica a estruturação de táticas de sobrevivência estruturadas em torno de redes de solidariedade, as quais são mais facilmente construídas por meio de relações de consanguinidade. Figura 5 - Parentes no bairro Fonte: Levantamento de campo realizado em Maio de 2012. A maior parte dos entrevistados afirma possuir ocupação remunerada, entretanto, o percentual de desocupados é elevado, como indica a Figura 6. Por outro lado, significativa parte dos ocupados não possui carteira assinada, logo, fazem parte dos trabalhadores ocupados, mas de forma precária, isto é, sem assistência social como férias, décimo terceiro salário, etc. Figura 6 - Ocupação com trabalho Fonte: Levantamento de campo realizado em Maio de 2012 Uma possível explicação para o baixo percentual de trabalhadores formais esteja no nível de escolarização, Figura 7. A pesquisa de campo revelou que a grande maioria dos entrevistados possui o nível médio de escolarização, também o segundo maior contingente de entrevistados afirmou possuir apenas o ensino fundamental. Figura 7 - Nível de escolaridade Fonte: Levantamento de campo realizado em Maio de 2012 Ainda é importante destacar a vinculação dos entrevistados ao Programa Bolsa Família do Governo Federal. Cerca de 30% acessam ao referido programa e buscam os recursos obtidos melhorar as condições de reprodução social, Figura 8. Neste sentido, seria muito pertinente e elucidativo avaliar as repercussões no programa e uma amostra restrita de famílias que recebem este tipo auxílio desde sua implantação em 2003. Figura 8 - Auxílio do governo: Programa Bolsa Família Fonte: Levantamento de campo realizado em Maio de 2012 Todo o conjunto de dados obtido com as pesquisas documental e, principalmente de campo, serviu de base para se confirmar o principal objetivo da pesquisa – a trajetória de vida das famílias e o seu movimento migratório. Dessa forma, os resultados da pesquisa revelam diferentes trajetórias familiares, pois, estas provém de diversos lugares, mas um mesmo padrão migratório relacionado ao movimento de crescimento de Salvador em um contexto mais global de modernização da sociedade brasileira. Considerações finais A realização do levantamento de campo foi bastante satisfatória a que se refere ao contato estabelecido com a comunidade local, buscando através de uma relação horizontalizada, um contato direto com os entrevistados, permitindo assim que os mesmos estivessem à vontade a responder às entrevistas e contribuir significativamente na realização deste estudo como coparticipadores da pesquisa e não como meros entrevistados. Essa situação implica um diferencial nas pesquisas em ciências sociais principalmente, por aproximar o pesquisador e o pesquisado em uma situação de confluência. Entretanto, as dificuldades de ter apoio das lideranças comunitárias e, também devido à circulação vigiada, tínhamos inicialmente planejado realizar o levantamento de campo com o acompanhamento destes líderes, de modo a facilitar a nossa fluidez dentro do bairro, como também transmitir uma maior segurança e credibilidade a pesquisa desenvolvida. Porém, diante das incompatibilidades dos horários entre ambos, delimitamos nossa área de atuação nas principais ruas do Pero Vaz, evitando, por exemplo, a Rua do Peixe, devido à insegurança proveniente, principalmente, do tráfico de drogas. As situações cotidianas que compõem o mosaico social e cultural que é o bairro do Pero Vaz revelam características consideradas padronizadas quando abordadas a questão de bairros periféricos. Questões de ordem social e econômica como é o problema da violência, da moradia e de ocupação com o trabalho, apontam para a discrepância e até mesmo na operacionalização de políticas públicas que objetivem solucionar ou mesmo minimizar as mazelas sociais. Um dos poucos lugares que proporciona momentos de lazer e acesso a serviços sociais básicos vem através da atuação do Centro Social Urbano (CSU) o qual atende também as áreas adjacentes, como o bairro do Sieiro, Curuzu, Santa Mônica, além do Pero Vaz. Sob a direção de Rose Rian, o CSU realiza ações socioeducativas com crianças, jovens e idosos, também oferece cursos de capacitação profissional e confecção de documentos pessoais, promovendo assim um pouco de cidadania. Os moradores podem contar ainda com a atuação do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), que proporciona o atendimento às famílias através da realização de programas, projetos e serviços que proporcionam melhorias sociais às famílias em situação de vulnerabilidade. Apesar da presença dessas instâncias públicas serem um indicativo da presença estatal ou mesmo municipal na localidade, muito ainda tem a ser feito no bairro para assegurar às condições mínimas desejáveis a um melhor convívio dos citadinos. A sensação de insegurança no bairro é notória não somente por ser um bairro considerado periférico. Essa visão provém não apenas dos sujeitos exteriores a realidade ali presente, como também dos moradores da própria localidade, evidenciada através das orientações dos locais que seriam considerados apropriados e seguros para a aplicação dos questionários. A partir desta ideia, verifica-se que o outro, externo àquela realidade é visto como uma suposta ameaça dentro daquele contexto. Ainda que se tratasse de uma pesquisa de caráter acadêmico, explicitado principalmente nas falas dos pesquisadores, um singelo questionamento de alguns dos entrevistados era evidenciado pela seguinte fala: “O que é que eu vou ganhar respondendo essas perguntas?” Essa sensação de instabilidade impediu um maior contato com os moradores e uma maior circulação dentro do bairro, estando deste modo sobre os olhares atentos de determinados grupos de moradores. Contudo, diante das questões apresentadas, o trabalho foi desenvolvido de maneira satisfatória, dentro das condições oferecidas tanto pelo bairro quanto pela instituição que apoiou o desenvolvimento desta pesquisa, através de ações receptivas ao estudo desenvolvido, tendo em vista um maior aprofundamento da trajetória de vida que compõe a historicidade do bairro ao longo dos anos. Referências BAITZ, Ricardo. A implicação: um novo sedimento a se explorar na Geografia? In: Boletim Paulista de Geografia, São Paulo, nº 84, p. 25-50, 2006. CARLOS, Ana Fani A. O lugar no/do mundo. São Paulo: HUCITEC, 1996. DAMIANI. Amélia Luisa. A cidade (des)ordenada. Concepção e cotidiano no Conjunto Itaquera I. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo. 1993 CERTEAU. Michel de. A invenção do cotidiano. 1. Artes de fazer. 9 ed. Petrópolis: Vozes. 2003. HESS, Remi. Centre et Peripherie. Paris: Edouard Privat, 1978. LEFEBVRE, Henri. A Revolução Urbana. Belo Horizonte; EDUFMG, 2004. _______. 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