3 agosto de 2012 Ministro Guido Mantega não atende o sindicato metalúrgico A General Motors comunicou ao governo que irá mesmo demitir. O ministro da Fazenda Guido Mantega não só consentiu como justificou a medida da multinacional como compatível com o nível geral de empregos criados. Considerou normal a decisão e deixou claro que não é de sua alçada interferir nos problemas internos da fábrica. A reunião com o ministério se deveu ao fato do Sindicato Metalúrgico de São José dos Campos ter acusado a montadora de se valer da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e não dar a contrapartida de garantia de emprego. Havia esperança de que Dilma Rousseff interferisse em favor dos metalúrgicos, utilizando-se do argumento de que os subsídios fiscais implicam manter os postos de trabalho. Uma das metas do Plano Brasil Maior, que vai além da redução do IPI, é o de evitar que a queda do consumo e da produção resultem em prejuízo para os empregos. No entanto, o fundamento da concessão federal é o de proteger os lucros e não os empregos. Não há nada que impeça às multinacionais de demitir. O máximo que o ministério da Fazenda poderia fazer era cortar o subsídio da GM. O sindicato filiado à Central Sindical e PopularConlutas queria que assim procedesse. O mininistro Mantega, ao contrário, serviu de reforço aos objetivos antioperários da empresa norte-americana. Apresentou a proposta de aplicar a suspensão temporária, como prevê a CLT. Ouviu do representante da GM que o fechamento do setor de Montagem de Veículos (MVA) se tratava de uma decisão já tomada. Segundo o diretor Luiz Moan, a fábrica de São José dos Campos está defasada tecnologicamente, já tem sessenta anos de funcionamento e que o sindicato havia se negado a aceitar a flexibilização do trabalho (banco de horas, redução salarial, etc.). Por outro lado, os planos da multinacional era de expansão, com o fortalecimento das unidades de Gravataí (RS) e Joinville (SC). Uma parcela dos operários já havia sido transferida para a GM de São Caetano. E outra poderia ir para as demais unidades. Com essa conversa, os gringos não fizeram senão mostrar que em seu capital mandam eles e que vinham ao governo apenas mostrar que o nível de emprego estava assegurado, ainda que 2.000 postos de trabalho serão destruídos em São José dos Campos. Antes de se reunir com o ministro Mantega, a GM já havia confabulado com o ministro do Trabalho, Brizola (PDT), que antecipou o resultado, divulgando o parecer de que o que vale é o total de empregos e não o parcial de uma unidade. O governo assim legitimou as demissões em massa em São José dos Campos. Todos sabiam que o encontro do ministro com o representante da GM não passaria de um convescote. Guido tão-somente repetiu a posição do mininistro do Trabalho, vinculado à Força Sindical por intermédio do PDT. A reação da direção sindical de São José dos Campos de que a declaração de Guido Mantega foi “desastrada” e que o governo se limitou aos “números frios das estatísticas” não está à altura dos acontecimentos. Não se trata de uma “declaração desastrada”, mas de um claro apoio ao plano da multinacional, confeccionado nos Estados Unidos. E principalmente a posição pró-GM não se limita aos ministérios da Fazenda e do Trabalho, mas do governo Dilma. O governo do PT nasceu subserviente ao grande capital. Os acontecimentos vêm confirmando essa caracterização que o POR fez há muito. A penetração do capital internacional no Brasil e o controle dos ramos chaves da economia cresceram ao ponto de que qualquer que seja o governo, mais à direita ou à esquerda, será obrigado a se curvar ao poder externo. A gigantesca capacidade das multinacionais de manejar a economia interna lhes dá enorme poder político sobre o Estado nacional. O sindicalismo vem sendo condicionado por essa estrutura econômica. E coube ao PT e sua burocracia avançar o processo de adaptação social ao capital forâneo. O sindicalismo de colaboração de classes contou inicialmente com a descarada política da Força Sindical de subordinar os sindicatos aos partidos da burguesia. Mas em seguida, com o potenciamento eleitoral do PT e a ascensão do caudilho Lula, a CUT tomou a dianteira do processo estatizante dos sindicatos. O ABC paulista foi transformado em trincheira da tese socialdemocrata de que a “negociação” (colaboração) permite aos sindicatos influenciarem nas decisões das empresas. E que, ao contrário, o confronto é prejudicial para a classe operária. A tarefa do sindicalismo colaboracionista é, portanto, de evitar o choque entre trabalho e capital, entre o movimento geral do proletariado com a classe capitalista. Essa diretriz proliferou nas condições econômicas favoráveis dos últimos dez anos e sob o governo de Lula. Pela via do caudilhismo e da formação de uma rede de ativistas social-democratas, o lulismo passou a expressar a crescente influência das multinacionais no País. Os acordos de flexibilização foram impostos aos metalúrgicos por Vicentinho, Menegueli, Marinho e Nobre. A pretensão dessa fração burocrática é extender os “acordos” de flexibilização para toda a indústria fraturando conquistas que se consolidaram em lei (CLT). É importante entender o entrelaçamento do sindicalismo atual com as multinacionais e o elevado estatismo para se combater a ofensiva lançada pela GM contra os operários em São José dos Campos. O isolamento do sindicato dirigido pelo CSP-C e PSTU não será rompido sem se lançar uma campanha nacional contra a flexibilização, os PDVs e as demissões. As bandeiras da classe operária contra o desemprego são conhecidas e devem ser defendidas sem atenuantes e atalhos. Estabilidade no emprego, redução da jornada sem reduzir os salários (escala móvel das horas de trabalho), controle operário da produção e abertura da contabilidade das empresas – eis as reivindicações que respondem aos ataques dos capitalistas aos postos de trabalho. É dever de todas correntes que se reivindicam do classismo constituir uma frente única em defesa dos empregos e salários. Os operários da GM começaram a reagir com mais vigor diante da constatação de que as demissões virão. A paralisação com manifestação e fechamento da Dutra marcam uma linha de defesa. A ação direta deve criar as condições para ocupar a fábrica e impor o controle operário. Multinacional, governo e burocracia custista estão do mesmo lado. Isso deve ficar bem claro e servir de motivo para a politização dos trabalhadores contra o sindicalismo colaboracionista. Reunião do dia 4 expõe a manobra da GM Sindicato Metalúrgico faz grave concessão à multinacional 5 de agosto de 2012 Nem bem o ministro da Fazenda havia apoiado a pretensão da GM de demitir, foi realizada a esperada reunião do dia 4 entre o sindicato e a multinacional. Tudo indicava que a empresa compareceria à mesa de negociação com uma atitude irredutível. Não foi o que aconteceu. Luis Noan mudou o tom: “O caminho não são as demissões. O caminho é o diálogo com o sindicato para que a gente possa trazer mais competitividade para a a planta de São José dos Campos.” (“O Globo”) O ministro Mantega também levantou o topete. Mandou o recado que consideraria as demissões em massa uma quebra de acordo com o governo. Geraldo Alckimin, governador do Estado de São Paulo (PSDB), reuniu-se com o sindicato no dia 2 de agosto e prometeu que tudo faria para evitar as demissões. O prefeito de São José dos Campos, também do PSDB, saiu exultunte da reunião afirmando ter cumprido seu papel de “abrir o diálogo” entre o sindicato e a GM. O presidente do Sindicato Metalúrgico, Antônio Ferreira de Barros, considerou-se vitorioso: “Afastamos o risco imediato de demissão em massa e vamos continuar brigando para manter todos os postos”. O acordo assinado foi o de não demitir até novembro, data limite para a GM desativar a produção do modelo Classic. Até lá, 940 operários ficarão em suspensão temporária, recebendo pelo FAT. O PDV será reaberto a toda a empresa. A montadora demonstrou que dos 7,5 mil metalúrgicos, 1840 são excedentes. Ocultou que já demitiu 1.189, entre julho de 2011 e julho de 2012, sendo 356 pelo PDV. Número esse denunciado pelo sindicato. Na realidade, o acordo de fato não garante os empregos. O PDV é uma porta para demissão em massa, como demonstram as 356 já ocorridas. A suspensão temporária (lay off) é uma demissão formalmente adiada. Os trabalhadores perdem o vínculo com a fábrica e já não podem defender os postos de trabalho. A GM colocou a corda no pescoço do sindicato. Exige que este negocie a flexibilização trabalhista. Luis Moan anunciou com todas as letras que a conservação de parte dos postos de trabalho depende de uma negociação favorável à posição da GM de que os salários altos lhe tiram a competitividade e que, para fazer investimentos em novos modelos, é preciso aplicar o banco de horas e mudar a grade salarial. Evidentemente, o prefeito, o governador, o governo federal e os representantes do Ministério Público estão unidos com a multinacional em torno do objetivo de impor um acordo de flexibilização. Foi e é um grande erro do sindicato recorrer aos políticos da classe capitalista para evitar as demissões. Basta ver as declarações do presidente do sindicato que diz ter sido um passo importante o comprometimento de Alckmin de interferir na decisão da GM. As manobras da multinacional para quebrarem a resistência do sindicato da Conlutas conta justamente com a pressão das autoridades governamentais e judiciais. É falsa a avaliação da direção do sindicato e da Conlutas de que os políticos da burguesia se colocaram contra as demissões devido à mobilização dos trabalhadores. O correto é que viram a possibilidade de ajudar a GM a encurralar o sindicato. O isolamento político-sindical praticado pela CUT e sobretudo pelo sindicato metalúrgico do ABC contra os metalúrgicos de São José dos Campos é o mais poderoso instrumento de pressão em favor da GM. Juntamente com as autoridades, constitui um círculo de fogo em torno do sindicato da Conlutas para que ceda às exigências de implantação da flexibilização e perdas trabalhistas. A CSP-Conlutas se mostra incapaz de travar o combate para romper o isolamento. A crença do PSTU que recorrendo aos poderes estatais o sindicato pode cumprir essa tarefa leva a erros perigosos para a independência da organização operária. A reunião do dia 4 evidenciou o jogo da multinacional e dos seus aliados naturais em colocar o sindicato contra a parede. O presidente do sindicato não poderia dizer que conseguiu afastar “o risco imediato de demissão”, porque não é verdade. Os trabalhadores sofreram um duro golpe com o sindicato aceitando a suspensão temporária e o PDV. Abriu-se um caminho para a GM impor a flexibilização - o PDV já é um dos recursos utilizados para demitir em massa. A direção da Conlutas estará em posição de fraqueza diante da assembleia do dia 7 (terça-feira). Terá de defender o acordo que prevê demissão pelo PDV. E assim ficará sujeita a maiores pressões para “negociar” os “novos investimentos” anunciado pela montadora. É preciso dizer claramente que a reunião do dia 4 expressou uma derrota dos metalúrgicos. A linha traçada pelo sindicato de reivindicar investimentos e fim das importações como solução para o conflito indicou o desvio político da orientação da Conlutas-PSTU. Essa posição converge com a da burocracia cutista. A direção sindical e política se colocou no terreno preparado pela empresa. Isso explica por que não trabalhou por convencer os operários a lutar pelas bandeiras próprias como a estabilidade, redução da jornada sem reduzir os salários, escala móvel das horas de trabalho, controle operário da produção e abertura da contabilidade das empresas. Na assembleia do dia 7, é dever da direção dizer que o acordo resultou em uma concessão e uma derrota. E que a via é a de rechaçar o PDV e as suspensões, defendendo as bandeiras proletárias perante a crise capitalista, as demissões e ataque aos salários. Caso assim não o faça, a direção sindical da Conlutas estará dando um passo contra os interesses dos trabalhadores da GM e de toda classe operária.