BEATRIZ NUNES DE OLIVEIRA LONGO
(UNESP)
ABSTRACT: In this paper we analyse N2 items in N] N2 expressions in an attempt to
put forward some criteria for the categorization of such items according to their
morphological, syntactic and semantic features, together with a proposal for their
lexicographic treatment.
KEY WORDS: Substantivo, Adjetivo, Sintaxe-Semfultica,Lexicografia
Este artigo refere-se a etapa inicial de urna peSquisa a ser desenvolvida sobre
os substantivos1 utilizados em posi\fao adnominal. a interesse pelo tema surgiu ao se
pensar na reda\fao de verbetes para urn dicionciriode usos que toma por base urn corpus
de textos escritos do portugu~ contemporfuleo. Como se ve, 0 objetivo Ultimo ~ urna
contribui\fao para a lexicografia, com urna proposta para 0 tratamento de tais
substantivos em urn dicionArio.Mas ~ nossa inten\fao centrar primariamente 0 estudo
nas propriedades sintAtico-semfulticasdesses substantivos e em suas rela\foes com os
outros ~lementos da categoria nominal. Para Borba (1993:7),
Urn dicionArio de usos que tenha a presun\fao de captar 0 signo em a\(il.o
contemplara as tres dimensoes da linguagem: sintatica, semllntica e pragmatic a,
o que sera feito por urn embasamento te6rico possivelmente ecl~tico, a
comepela pr6pria concep\fao de lexicografia, cujo aparelhamento tradicional
pode ser insuficiente.
Ao iniciarmos a elabora\fao de verbetes referentes a nomes concretos, dentre os
vcirios problemas que deparamos, salientava-se urn, de solu\fao aparentemente
complexa: como tratar os substantivos utilizados em posi\fao adnominal?
As discuss5es te6ricas nem sempre traziam as respostas que espenivamos para
tal questao. Arne
did a que 0 s verbetes i a m sendo redigidos, diferentes
alternativas se apresentavam para a descri\fao e nao sabfamos qual delas seria mais
adequada, se haveria urna soIU\faouniforme, ou se deveriam ser adotadas solu\foes
I Mantivemos os termos tradicionais substantivo e adjetivo. reservando
categoria que engloba as duas primeiras.
0
termo nome para uma
diferentes para dar conta dos casos. Apresentamos aqui tres exemplos, elaborados por
diferentes analistas, numa fase experimental de redacao (transcrevemosapenas as
informacoes que nos interessam):
Limio Adjetivo Qualificativo [Incide sobre Nome concreto] que tem a cor do limao:
jipe verde-limiio.
Baba~u Nome concreto 2. fruto dessa palmeira: carbonizacao da casca de babacu; as
cascas do coco babacu.
Marea barbante LocuCao nominal [Usada para indicar tudo que e sem valor]
ordinMio; vagabundo: 0 nome Fritz Mack passou a designar tudo que era coisa de
segunda, trem ordinmo, marca barbante.
Para os tres 110mesem posicao de N2, limio, baba~u e barbante, haviam
sido apresentadas classificacoes diferentes. Estavamos diante de um problema que se
coloca para todo lexic6grafo: como delimitar e classificar "as unidades que vao servir
de via de acesso a informacao" (Carras, 1992:572), as entradas do dicionario.
Segundo Noailly (1990), 0 substantivo que se junta a um nome pr6prio ou
comum, num grupo NI N2' na posiCao de N2, diretamente, sem preposicao ou pausa,
deve ser classificado como substantivo ep(teto. Prefere esse termo a substantivo
adjetivado por nao ter tantas implicacoes qualitativas e realiza uma analise bastante
detalhada, mas nao se preocupa em distitTgiriros complexos nominais das construcoes
fixas.
Para 0 lexic6grafo, porem, 0 primeiro problema a ser enfrentado e exatamente
decidir se estamos, nesses casos, diante de uma ou mais unidades lexicais.
A llledida que 0 trabalho progredia, fomos percebendo estar diante de um
fenl)meno de gradiencia ou gradacao. Num extremo situavam-se nomes que eram
intuitivamente classificados como constituintes de um l1nico item lexical, como por
exemplo delta, em asa-delta, talvez por ja estarem consagrados pelo uso. Como a
maioria dos lingllistas reconhece, as names compostos vem de "uma construcao
sintatica [que] se imobiliza, dando origem a uma unidade cristalizada" (Carone, 1986,
p.37). Entretanto, tambem e preciso considerar que nem todos os cbmpostos tem 0
mesmo grau de cristalizacao(cf. Gross, 1988). Numa posicao intermediaria, tinhamos
nomes nos quais identificavamos uma relacao de dependencia, mas nao tao forte, tais
. como pronome lembrete. Finalmente, no extrema oposto, havia relacoes bem mais
frouxas, que aparentemente nao justificavam a conversao categorial: rel6gio tipo
carrilhio, queijo tipo sufco, tons pastel.
Enfim, nosso objetivo era identificar, dentre os elementos adnominais, os que
(man)tem 0 estatuto de substantivos, mas os criterios de decisao normalmenteutilizados
nem sempre nos ajudavam, justamente por nao estarmos lidando somente com unidades
fixas, "congeladas". As dificuldades pareciam residir em que, segundo Carras
(1992:573),
a entrada lexicogrAficadesigna ao mesmo tempo uma unidade grAfica
(transcri~ao da lingua falada), uma unidade te6rica (abstra~ao da palavra do
discurso, liberada das marcas gramaticais) e urna unidade cultural (ver, por
exemplo, a maneira como SaDtratados os plurais e os femininos).
Ao contrAriode Noailly, Levi (1978) separa os nominais complexos dos nomes
compostos, incluindo neste r6tulo as constru~oes fixas e naquele os grupos livres
constituidos (em ingtes) por adjetivos nao predicativos + substantivos ou por
substantivos + substantivos. A diferen~a entre as anAlises parece residir em que
Noailly aproxima os substantivos epftetos dos adjetivos prototfpicos, enquanto Levi
enquadra os adjetivos nao predicativos na classe dos substantivos.
Lobato (1992, 1993) parece adotar a mesma sol~ao que Levi, ao propor
representa~oes sintAticas diversas,...paraos adjetivos. Os denotativos seriam gerados a
partir de um n6dulo NO, e os predicativos, a partir de urn S(intagma) A(djetivo).
o estudo da bibliografia especializada, confrontado com os dados do corpus,
levou-nos Aconclusao de que a categoria dos nomes distribui-se ao longo de urn eixo
contfnuo. Nurn dos seus extremos, encontrarlamos unidades com as propriedades tfpicas
dos adjetivos verdadeiros, ou predicativos: fun~ao semfultica qualificadora,
concordfulcia, suscetibilidade A intensific~ao ou compara~ao, possibilidade de
nominaliz~ao atraves de sufixos. No outro, elementos com as caracteristicas dos
substantivos: fun~ao semfultica referenciadora, nao-gradua~aol intensifica~ao,
possibilidade de quantifica~ao, categoriz~ao em termos de tra~os (definido, concreto,
humano, etc.), papel temAtico, impossibilidade de receber SUflXOS
nominalizadores.
Entre esses extremos estariam situados elementos que possuiriam mais ou menos
caracter!sticas de urn ou de outro grupo. Obviamente, as chamadas categorias lim£trofes
ocupariam 0 centro do eixo, compartilhando propriedades dos dois grupos.
Com base nessa hip6tese, decidimos realizar urn estudo das propriedades
morfol6gicas, sintaticas e semanticas dos substantivos em posi~ao adnominal que nos
ajudasse a resolver algumas das dificuldades encontradas, relacionadas principalmente
com as questoes que arrolamos a seguir:
• como classificar tais nomes (ja vimos que 0 problema nao se coloca em termos
absolutos, mas em termos de gradiencia)?
• qual e 0 comportamento com rela~ao a fentlmenos morfossintaticos ou semfulticos
como a concordfulcia, a recursividade, a modifica~ao, a intensifica~ao?
• que tipos de substantivos se prestam a essa conversao, OU seja, seria possivel chegar a
urn prot6tipo do substantivo "epfteto"? (parece que a resposta tambem nao deve ser
colocada em termos absolutos, mas talvez possamos ~hegar a algumas SUbclasses)
• qual a sua fun~ao ? Sao, como os adjetivos, qUalificadores e classificadores, ou
exercem outros papeis?
• seria possivel identificar condi~oes para a produ~ao de substantivos nessa posi~ao e
regrasl fatores para explicar a maior ou menor produtividade?
• h:1 campos semllnticos privilegiados? (por exemplo, os nomes de cores parecem
prestar-se muito facilmente a esse papel)
• como se explica a origem do fen5meno? Trata-se de transforma~ao, adjun~ao,
conversao, apagamento de marcador casual?
• qual 0 criterio para a incorpora~ao ao dicionario, e em que lugar devem entrar?
A primeira tarefa que nos propusemos foi a de identificar os elementos que
deveriam compor 0 nosso corpus, separando, nos grupos N 1N2, em primeiro lugar os
N2 aut5nomos e, em seguida, os nomes adjetivos dos nomes substantivos. Nos
exemplos que seguem, quais dos nomes grifados silo substantivos, quais silo adjetivos, e
quais·silo constituintes de uma unidade lexical complexa?
(1) deslocamento da popula~ao animal
(2) ell}procurou assumir um ar adulto
(3) Como deve ser um tormento para a crjan~a s6 ver adulto em sua festa
(4) ainda nilo havia suspeitado desse lado-crime da prostitui~ilo
(5) s6 via seu aspecto dourado e borboleta
(6) tudo que era coisa de segunda, trem ordinario, marca barbante
Parece que tenderfamos a classificar as formas isoladas animal como
substantivo e adulto como adjetivo. Entretanto, a consulta a dicionarios nao confirma a
intui~il6. No dicion:1rioAurelio, encontramos animal como substantivo numa primeira
acep~ao e como adjetivo numa segunda. J:1 0 Longman, do ingles, apresenta duas
entradas separadas. Adulto, no dicionario do portugues, entra numa primeira acep~ilo
como adjetivo e numa segunda. como substantivo. No de ingles, constitui entrada
neutra. Que criterios norteariam tais decisoes?
Em (4) e (6) temos itens aut5nomos ou constituin~s de um sintagma [lXO?
Borboleta, em (5), e sem dl1vidaum substantivo.·Por que?
Comecemos por excluir os nomes compostos. Para Borba (1994), entre outros,
os sintagmas flXOS,uma vez constituidos, tornam-se imut:1veis, escapando a uma
din1lmicaconstrucional. A fim de detectar a inseparabilidade e irreversibilidade das
partes, postulam-se os seguinte criterios:
•
•
•
incidencia de especifica~ilo/modifica~ilo
manuten~iloda autonorilia significativa
recorrencia integral (na mesma ordem e est:1vel)
Aplicando os criterios, podemos eliminar (6) do nosso corpus, mas 0 item
permanece como unidade autonoma. Sua classificacao no dicionario de
portugues e dupla (substantivo e adjetivo). Entretanto, a coexistencia de adjetivos como
criminal au criminoso constituiria urn fatar de bloqueio da conversao categorial.
Temos, portanto, aquilo que canvencionamos chamar de substantivo em funCao
adjetiva, ou, segundo Noailly, urn substantivo epfteto.
o nome borboleta tambem pode ser inclufdo nessa categoria, 0 que se pode
evidenciar facilmente pela ausencia de concordfulcia (aspecto borboleta).
Voltemos agora aos exemplos (1), (2) e (3). De acordo com Lemle (1984, p.
crime
se existe urn adjetivo que forma com urn dado nome urn sintagma nominal
muito coeso semanticamente e de uso muito freqfiente, pode nascer urn
nome hom6fono que incorpore em si, amalgamando-os, 0 sentido do adjetivo
eo do nome.
E exatamente isso que acontece com adulto: no exemplo (2) e classificado
como adjetivo e em (3) como urn substantivo, que segundo 0 Aurelio' significa
"indivfduo adulto". Com animal esse fenomeno de incorpora\rao nao se dA,portanto
estamos diante de urn nome que pode ser usado como substantivo ou como adjetivo.
Por outro lade, nao existe, ao menos para a acepcao em (1), adjetivo correspondente (cf.
*popUla\raoanimalesca) que bloqueie a conversao. Terfamos entao, num dicionario, as
seguintes entradas2:
animal 1. substantivo 2. adjetivo
adulto 1. adjetivo 2. substantivo
crime substantivo 1.
2. em fun\rao adjetiva
borboleta substantivo 1.
2. em funcao adjetiva
marcabarbante
sintagma fixo ou lexia complexa
Comparando-as com as do Aurelio, vemos que nas duas primeiras mantem-se a
classifica\rao,mas nas demais nao M coincidencia de tratamento.
Muito embora a pesquisa esteja em seu estagio inicial e ainda nao disponbamos
de urn corpus exaustivo, as anAlisespreliminares foram suficientes para demonstrar que,
conjugando critenos (morfos)sintliticos e semfulticos, e possfvel chegar a urna
classificacao satisfat6ria dos itens que ocorrem na posiCaode N2' Como se ve, 0 tema e
muito instigante e abrangente, de modo que s6 temos, no momento, urna resposta,
talvez provis6ria. para a primeira das questoes que propusemos. Esperamos no futuro
poder responder as demais perguntas. trazendo uma contribuilrlio para a descrilrao de
nossa lingua e para a lexicografia.
BORBA, F. S. (1993) Roteiro para a montagem de um dicionano de usos do portugues contemporaneo do
Brasil. In: D. J. ZAMBONIM (org.) Ertudos sobre lexicografia. Araraquara, UNESP:7-32.
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. (1994) Lexias complexas. rns.
CARRAS, C. (1992) Proposta de articul~io da microssemantica com a delimi~o
para 0 tratamento lexicogrMi.co.In: Estudos lingiUsticos, 21 :572-575.
de unidades de lingua
FERREIRA, A B. H. ( 1986) Nuvo diciondrio AMr~lioda lingua portuguesa. 2" ed. rev. awn. Rio de
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LOBATO, L. M. P. (1992) Adjetivos: tipologia e interpreta~iio semantica. InS.
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. (1993) A rel~
Caso/Concordancia: evidencias extrafdas da analise dos adjetivos em ingles e
portugues. InS.
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BEATRIZ NUNES DE OLIVEIRA LONGO (UNESP