UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE MEDICINA DE RIBEIRÃO PRETO DENISE MIYASHITA Esferas de polimetilmetacrilato multiperfuradas como modelo de implante orbitário integrável estudo experimental RIBEIRÃO PRETO 2012 DENISE MIYASHITA Esferas de polimetilmetacrilato multiperfuradas como modelo de implante orbitário integrável estudo experimental Tese apresentada à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo para obtenção do Título de Doutor em Ciências Médicas. Área de Concentração: Morfofisiologia de Estruturas Faciais. Orientador: Prof. Dr. Antonio Augusto Velasco e Cruz RIBEIRÃO PRETO 2012 AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO, PARA FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE. FICHA CATALOGRÁFICA Miyashita, Denise. Esferas de polimetilmetacrilato multiperfuradas como modelo de implante orbitário integrável - estudo experimental. Ribeirão Preto, 2012. 115p.: 42 il.; 30 cm Tese de Doutorado, apresentada à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP. Área de Concentração: Morfofisiologia de Estruturas Faciais. Orientador: Cruz, Antonio Augusto Velasco e 1. evisceração; 2. cavidade anoftálmica; 3. implante orbitário; 4. polimetilmetacrilato; 5. material biocompatível. Dedicatória Dedico este trabalho ao meu pai, pelo apoio emocional, físico e financeiro e por tudo que sempre fez por mim; Ao David, o homem que durante o período deste trabalho eu conheci, namorei, noivei, casei e se tornou a pessoa que eu escolhi para construir a minha família; À minha mãe, in memoriam, pela realização de um sonho. Agradecimentos A DEUS, pelo dom da vida, e em especial, por sua luz e proteção nos mais de 300.000 km de estradas rodados com segurança. Ao Prof. Dr. Antonio Augusto Velasco e Cruz, pela orientação, compreensão e ensinamentos durante este trabalho e todo o meu fellowship e pela sua dedicação ao fortalecimento técnico-científico da nossa especialidade. Ao Prof. Dr. Mário Jefferson Quirino Louzada, docente da UNESP – Araçatuba, pela disponibilização de espaço (biotério) e por todo o apoio para que a coleta de dados pudesse ser realizada em minha cidade (Araçatuba-SP). Ao Prof. Dr. Fernando Chahud e à sua funcionária técnica Lili, pela ampla contribuição na realização de toda a parte histológica do estudo, pelos grandes ensinamentos e pela paciência. E ao Prof. Dr. Gyl Eanes, por dar seguimento e ter-me “adotado” profissionalmente. À Profa. Valéria Nobre Leal, médica veterinária, docente da UNESP Araçatuba, e às colegas Verônica e Priscila, pela participação na fase experimental. Ao meu amigo Denny Marcos Garcia, por sua enorme paciência e pela transmissão de conhecimento técnico, matemático, físico, químico, metodológico, analítico e outros mais que não caberiam para expressar minha gratidão. Aos meus amigos de residência e colegas da pós-graduação Kledione, Carolina, Sheila, João Marcello e Gherusa, pelo apoio e pela hospedagem. À Pinheiro Prótese Ocular, SP, pelo fornecimento do implante orbitário utilizado, e ao “Rodrigón” pela importação das esferas argentinas. Aos meus colegas de trabalho em Araçatuba (Fabrício), Três Lagoas (Bonini) e aos oftalmologistas do Hospital Regional de Presidente Prudente, pela compreensão e ajuda nas faltas e trocas de ambulatório. Aos meus colegas de residência, funcionários, docentes e contratados do HCFMRP, em especial ao Dr Adriano Baccega, por toda a paciência e colaboração. Aos membros da banca examinadora, Profs. Drs. Eduardo Melani Rocha, Gyl Eanes Barros Silva, Silvana Artioli Schellini e Suzana Matayoshi, pela correção e pelo enriquecimento do trabalho. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS Lista de Abreviaturas e Siglas µm- Micrômetro ARVO- Association for Research in Vision and Ophthalmology ASOPRS- American Society of Ophthalmic Plastic and Reconstructive Surgery EUA- Estados Unidos da América FCI- France Chirurgie Instrumentation FDA- Food and Drug Administration HA- Hidroxiapatita HE- Hematoxilina-eosina IM- Intramuscular MEV- Microscopia eletrônica de varredura MOE- Músculos oculares extrínsecos PMMA- Polimetilmetacrilato PMN- Neutrófilos polimorfonucleares PO- Pós-operatório PP- Polietileno poroso PSR- Picrosirius red PVPI- Polivinil pirrolidona iodo LISTA DE FIGURAS Lista de Figuras Figura 1: Músculos oculares extrínsecos e nervo óptico...............................23 Figura 2: Conteúdo da cavidade orbitária .....................................................24 Figura 3: Modelo de prótese ocular em indivíduo com cavidade anoftálmica antes e após a adaptação da prótese ocular externa ..........................................................................................30 Figura 4: Implante esférico de PMMA ...........................................................33 Figura 5: Superfície externa e microscopia de varredura do implante de hidroxiapatita .................................................................................35 Figura 6: Superfície externa e microscopia de varredura do implante de polietileno poroso...........................................................................35 Figura 7: Superfície externa e microscopia de varredura do implante de biocerâmica....................................................................................37 Figura 8: Implante orbitário esférico de PMMA mulitperfurado. ....................47 Figura 9: Remoção da córnea para realização de evisceração do globo ocular direito. .................................................................................50 Figura 10: Esclerotomia posterior 360º na evisceração. .................................50 Figura 11: Colocação do implante de PMMA multiperfurado na cavidade eviscerada......................................................................................51 Figura 12: Sutura da esclera para fechamento da cavidade eviscerada.........51 Figura 13: Aspecto final da cavidade eviscerada com o implante de PMMA e suturas de esclera, cápsula de Tenon e conjuntiva.........52 Figura 14: Início da exenteração orbitária via transpalpebral..........................54 Figura 15: Exenteração da órbita contendo o implante...................................55 Figura 16: Peça exenterada contendo o implante...........................................55 Figura 17: Imagem do programa do ImageJ utilizado para a contagem de células inflamatórias. .....................................................................58 Figura 18: Implante multiperfurado de PMMA- visão da face externa.............60 Figura 19: Implante multiperfurado de PMMA- visão da face interna..............61 Lista de Figuras Figura 20: Implante multiperfurado de PMMA- visão do interior de um canal .... 61 Figura 21: Aspecto da cavidade eviscerada contendo o implante aos 45 dias de PO .....................................................................................63 Figura 22: Aspecto da cavidade eviscerada contendo o implante aos 180 dias de PO. ....................................................................................63 Figura 23: Aspecto do implante após a retirada do tecido escleral, no qual são observados preenchimento do interior do implante e projeções teciduais (14 dias de PO) ..............................................65 Figura 24: Aspecto do implante após a retirada do tecido escleral, no qual são observados preenchimento do interior do implante e projeções teciduais (14 dias de PO) ..............................................65 Figura 25: Aspecto do implante após a retirada do tecido escleral, no qual é observado preenchimento de todo o interior do implante com densa cápsula e quebra das projeções (180 dias de PO) .............66 Figura 26: Presença de neoformação tecidual preenchendo o interior do implante (14 dias de PO) ...............................................................67 Figura 27: Separação do tecido neoformado com o implante (14 dias de PO) ................................................................................................67 Figura 28: Aspecto microscópico das projeções teciduais neoformadas ........68 Figura 29: Células inflamatórias presentes em grande quantidade na área capsular aos 14 dias de PO ...........................................................69 Figura 30: Presença de grande quantidade de células inflamatórias e discreto extravasamento de hemácias nas projeções formadas - 14 dias de PO ..............................................................................69 Figura 31: Infiltrado inflamatório misto (neutrófilos e linfócitos) na área capsular aos 45 dias de PO ...........................................................71 células inflamatórias, predominantemente Figura32: Numerosas neutrófilos, na área de projeção, com pouco tecido colagenoso de fundo .........................................................................................71 Figura 33: Área capsular aos 90 dias de PO, com frequentes células de tecido conjuntivo (fibroblastos) e pequeno número de células inflamatórias...................................................................................72 Lista de Figuras Figura 34: Área de projeção aos 90 dias de PO, com ocasionais células inflamatórias e tecido conjuntivo com densidade variável .............72 Figura 35: Área capsular com 180 dias de PO, exibindo tecido conjuntivo vascularizado e pequeno número de células inflamatórias............73 Figura 36: Área de projeção formada aos 180 dias de PO, com colágeno denso e mínimo número de células inflamatórias ..........................73 Figura 37: Distribuição do número de células inflamatórias na cápsula e na projeção, de cada animal ao longo do período estudado .........75 Figura 38: Quantidade mínima de colágeno formada na projeção aos 14 dias de PO ....................................................................................76 Figura 39: Pequena quantidade de colágeno formada na projeção aos 45 dias de PO ....................................................................................77 Figura 40: Grande quantidade de fibras de colágeno, de densidade variável, formadas na projeção aos 90 dias de PO........................77 Figura 41: Grande quantidade de densas fibras de colágeno formadas na projeção aos 180 dias de PO.........................................................78 Figura 42: Modelo matemático do implante de PMMA multiperfurado, com canais regulares angulados. Formação de pontas no interior........82 LISTA DE TABELAS Lista de Tabelas Tabela 1: Características dos implantes orbitários mais utilizados atualmente .....................................................................................38 Tabela 2: Quantidade de células inflamatórias ao longo do estudo, na cápsula e na projeção formada......................................................74 RESUMO Resumo MIYASHITA, D. Esferas de polimetilmetacrilato multiperfuradas como modelo de implante orbitário integrável - estudo experimental. 115f. Tese (Doutorado). Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2012. O objetivo do estudo foi avaliar a estrutura de um implante orbitário comercial de polimetilmetacrilato (PMMA) multiperfurado, bem como sua resposta clínica e tecidual em modelo animal. Dezesseis coelhos da raça Nova Zelândia receberam, após evisceração do globo ocular com esclerotomia posterior, o implante de PMMA multiperfurado, de diâmetro 12 ou 13 mm. Foi realizada avaliação clínica diária nos primeiros 14 dias, e depois, a cada sete dias até o fim do período do estudo (180 dias). Para análise histopatológica, quatro animais por grupo foram submetidos à exenteração da órbita aos 14, 45, 90 e 180 dias e depois sacrificados. Foi realizada coloração por hematoxilinaeosina e picrosirius red para avaliação do padrão inflamatório e de formação de colágeno. A microarquitetura do implante caracterizou-se pela presença de canais interligados pelo centro. Não houve sinais de infecção, exposição ou extrusão do implante em nenhum animal no período estudado. Ocorreu crescimento de tecido fibrovascular através dos canais formados e no seu centro a partir do 14º dia, com crescente aumento até os 180 dias. A quantidade de resposta inflamatória foi inversamente proporcional ao crescimento fibrovascular. Não foram encontradas células gigantes multinucleadas. O implante multiperfurado é inerte e biocompatível, além ser totalmente integrável à órbita, por meio de crescimento de tecido fibrovascular no interior do implante semelhante aos modelos integráveis. Palavras-chave: evisceração, cavidade polimetilmetacrilato, material biocompatível. anoftálmica, implante orbitário, ABSTRACT Abstract MIYASHITA, D. Spherical multiperforated polymethylmethacrylate as a porous orbital implant in an animal model. 115f Thesis (Doctoral). Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2012. The purpose of this study was to evaluate the structure of a model of multiperforated polymethylmethacrylate (PMMA) orbital implant, as well its clinical and tissue reaction in an animal model. Sixteen New Zealand white rabbits underwent evisceration with posterior sclerotomy followed by implantation of a 12 or 13-mm multiperforated PMMA implant. Clinical evaluation was performed daily for the first 14 days after surgery and at 7-day intervals until the end of the study period (180 days). Histopathologic analysis was performed in 4 animals at 14, 45, 90, and 180 days after implantation. Hematoxylin-eosin and picrosirius red staining were used to assess the inflammatory reaction and collagen formation. The microarchitecture of the implant was characterized by presence of interconnected channels to its center. There were no signs of infection, implant exposure or extrusion in any animal during the study. The channels allowed fibrovascular ingrowth into the implant center by 14 days and was also massively increased 180 days. The amount of inflammatory response was inversely proportional to the fibrovascular ingrowth. No multinucleated giant cells were found. The multiperforated implant is nontoxic and biocompatible, and totally integrated to the orbital contents by fibrovascular ingrowth, similar to porous implants. Key-words: evisceration, anophthalmic polymethylmethacrylate, biomaterial. socket, orbital implant, ÍNDICE 1. INTRODUÇÃO.................................................................................................. 20 1.1. Relações anatômicas entre o olho e a órbita ....................................................21 1.1.1. Órbita óssea.............................................................................................21 1.1.2. Cavidade orbitária ....................................................................................21 1.2. Cavidade anoftálmica ........................................................................................25 1.3. Repercussões psicológicas e sociais ................................................................27 1.4. Reabilitação da cavidade anoftálmica ...............................................................29 1.5. Implantes orbitários ...........................................................................................31 1.5.1. Classificação dos implantes orbitários.....................................................31 1.5.1.1. Implantes não integráveis ...........................................................32 1.5.1.2. Implantes integráveis ..................................................................34 1.5.1.3. Implantes autógenos ...................................................................38 1.5.2. Tamanho dos implantes...........................................................................39 1.5.3. Complicações dos implantes ...................................................................40 1.6. Implante orbitário ideal ......................................................................................41 1.7. Justificativa para a realização do trabalho.........................................................41 2. OBJETIVOS...................................................................................................... 43 3. CASUÍSTICA E MÉTODO ................................................................................ 45 3.1. Animais ..............................................................................................................46 3.2. Considerações éticas ........................................................................................46 3.3. Implante orbitário ...............................................................................................46 3.2.1. Elaboração do implante ...........................................................................47 3.3.3. Análise do implante .................................................................................48 3.4. Delineamento experimental ...............................................................................48 3.4.1. Grupo experimental .................................................................................48 3.4.2. Procedimentos cirúrgicos.........................................................................48 3.4.2.1. Colocação do implante ...............................................................48 3.4.2.2. Cuidados pós-operatórios imediatos ..........................................52 3.4.2.3. Intervalo entre os procedimentos ...............................................52 3.4.2.4. Exenteração da órbita e sacrifício dos animais ..........................53 3.5. Histopatologia ....................................................................................................56 3.6. Protocolos de avaliação.....................................................................................56 3.6.1. Registros fotográficos das lâminas ..........................................................56 3.6.2. Análise histológica quantitativa................................................................57 3.6.3. Análise histológica qualitativa ..................................................................57 4. RESULTADOS ................................................................................................. 59 4.1. Avaliação do implante........................................................................................60 4.2. Avaliação clínica ................................................................................................62 4.3. Avaliação histopatológica ..................................................................................64 4.3.1. Aspecto macroscópico ............................................................................64 4.3.2. Coloração por hematoxilina-eosina (HE) ................................................68 4.3.3. Coloração por picrosirius red (PSR) .......................................................75 5. DISCUSSÃO..................................................................................................... 79 6. CONCLUSÕES................................................................................................. 92 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................. 94 8. ANEXOS ......................................................................................................... 102 ANEXO DE PUBLICAÇÃO 1. INTRODUÇÃO Introdução 21 1.1. Relações anatômicas entre o olho e a órbita 1.1.1. Órbita óssea Muitos dos conhecimentos anatômicos da órbita se devem a Whitnall (1932), ao qual se pode creditar grande parte dos dados aqui descritos. As órbitas são formadas por duas cavidades ósseas profundas separadas pelo nariz, desenvolvidas para proteger o bulbo ou globo ocular. (Nota - embora a Nômina Anatômica nomeie o órgão da visão como bulbo ocular, na clínica, o termo globo é preferido. No presente texto, o olho será designado como “globo ocular”). As dimensões de cada órbita de um indivíduo adulto são de 30 cm3 de volume, 35 mm de altura, 40 mm de profundidade e 45 mm de extensão na parede medial. A distância da parte posterior do globo ocular ao forame óptico é de 18 mm. A órbita tem formato piramidal com base quadrangular anterior e ápice triangular. No ápice estão localizados o canal óptico e a fissura orbitária superior e inferior, que comunicam a cavidade orbitária à craniana. Sete ossos formam quatro paredes, assim divididas: teto: asa menor do esfenoide e frontal; parede lateral: asa maior do esfenoide e zigomático; assoalho: zigomático, maxilar e palatino; parede medial: etmoide, esfenoide, lacrimal e maxilar. 1.1.2. Cavidade orbitária As órbitas são revestidas pela periórbita (periósteo orbital), a qual é firmemente aderida à rima orbital numa área de condensação fibrosa que dá Introdução 22 origem ao septo orbital conhecida como arcus marginalis. A periórbita e o septo são os elementos que sustentam o conteúdo orbitário. Em cada órbita, além do globo ocular, são encontradas as seguintes estruturas: músculos oculares extrínsecos (MOE), sistema fascial, glândula lacrimal, rede vascular e nervosa e gordura orbital. O globo ocular está localizado na parte anterior da órbita, discretamente anterior e lateral ao centro orbital. No plano formado pelas rimas superior, inferior e medial da cavidade orbital, encontra-se sua superfície anterior. Aderido ao globo estão os MOE, o nervo óptico, as artérias ciliares posteriores e anteriores, os nervos ciliares curtos e longos e as veias vorticosas. Seis são os músculos que fazem parte da motilidade ocular, chamados de MOE. Quatro músculos retos: inferior, superior, lateral e medial, e dois oblíquos: superior e inferior. À exceção do músculo oblíquo inferior, que se origina na parede inferior da órbita, todos os outros emergem do ápice orbitário, no Anel de Zinn (Figura 1). Introdução 23 Figura 1: Músculos oculares extrínsecos e nervo óptico (Fonte: Netter, Atlas de Anatomia Humana, 2004). Existe na órbita um complexo e extenso sistema de septo formado por tecido conjuntivo, detalhado por Koornneef, como sendo o sistema fascial, que sustenta as estruturas orbitárias e provê manutenção adequada das relações anatômicas e dinâmicas dos seus componentes. O sistema fascial pode ser na prática dividido em três partes: cápsula de Tenon, bainha fascial da MOE e as extensões e ligamentos que conectam as bainhas musculares à periórbita e às pálpebras (Koornneef, 1977; Koornneef, 1979). Descrita em 1806, por Jacques Rene Tenon, como uma tunica vaginales oculi, a fascia bulbi, ou cápsula de Tenon, como é conhecida, é uma membrana fibroelástica que se estende do nervo óptico até próximo ao limbo da córnea onde se funde com a conjuntiva. Ela separa o globo da gordura orbitária e sua dissecção e manutenção 24 Introdução cuidadosa em cirurgias para remoção do globo é um importante componente no processo de reabilitação de uma cavidade. Além da gordura, que preenche toda a cavidade orbitária, promove sustentação do globo ocular durante sua movimentação, suporte e estabilidade, no interior da órbita há estruturas importantes como a glândula lacrimal principal, artérias oriundas da carótida interna (oftálmica e seus ramos), veias e nervos motores (III, IV, VI nervos cranianos) e sensitivos (nervos lacrimal, frontal e nasal e seus ramos, oriundos da primeira divisão do V nervo craniano). A Figura 2 mostra o conteúdo das principais estruturas orbitárias: o globo ocular e suas relações com os MOE, sistema fascial e gordura. Figura 2: Conteúdo das principais estruturas da cavidade orbitária (Fonte: Pediatric Ophthalmology and Strabismus. American Academy of Ophthalmology, 2008). Introdução 25 1.2. Cavidade anoftálmica Cavidade anoftálmica é definida como a órbita desprovida do globo ocular, podendo ser condição congênita ou adquirida. A anoftalmia congênita é um defeito embriológico no qual o globo não é formado. Do ponto de vista epidemiológico, é uma malformação rara, com incidência de 1,8 a 4,0 para cada 100.000 nascimentos, sem predileção por raça ou sexo (Ragge et al., 2007). Na maioria das vezes, há restos embrionários oculares vistos em exames radiológicos como imagens correspondentes a tecidos oculares colapsados. Avaliações histopatológicas desses tecidos mostram pigmentos remanescentes de tecido uveal e retiniano (Verma; Fitzpatrick, 2007; Guerrero, 2008). Já, a anoftalmia verdadeira é uma condição bem mais rara. A anoftalmia ocorre mais comumente bilateral, simétrica ou assimétrica, associada, em mais de 50% dos casos, a outras malformações sistêmicas, decorrentes de fatores ambientais e genéticos, podendo, também, ocorrer de forma unilateral isolada (Ragge et al., 2007; Verma; Fitzpatrick, 2007). A cavidade anoftálmica adquirida é a que ocorre devido à perda do globo por trauma ou remoção cirúrgica por meio de enucleação ou evisceração. As principais indicações para a retirada do globo ocular ou do seu conteúdo são olho cego doloroso, trauma ocular grave, tumor maligno intraocular, endoftalmite não resolvida com antibioticoterapia, bem como para melhora estética de olhos desfigurados. A enucleação consiste na retirada do globo ocular e da porção anterior do nervo óptico da órbita. A evisceração é o procedimento cirúrgico no qual Introdução 26 todo o conteúdo intraocular é removido, mantendo-se a esclera e a inserção dos músculos. O primeiro relato de evisceração data de 1817, realizado por James Beer. Já a enucleação foi descrita por Cleoburey em 1826 e novamente relatada, independentemente, em 1841 por O’Ferral (Dublin) e Bonnet (Paris), que seccionando os MOE das suas inserções e separando a cápsula de Tenon da esclera, podiam remover o olho com menor sangramento. Até então, as cirurgias anteriores eram denominadas extirpação do globo ocular (Sami et al., 2007). Variantes técnicas de evisceração têm sido relatadas continuamente. Descrevia-se inicialmente, evisceração com ou sem preservação da córnea. A manutenção da córnea permite aumento no volume residual da cavidade e menor probabilidade de enoftalmo pós-operatório (PO); porém, a principal desvantagem é a retenção de terminações sensitivas do nervo trigêmio, que pode manter a dor ocular em muitos casos (Cytryn; Perman, 1999). Em 1987, Stephenson descreveu uma técnica de incisões relaxantes na parte posterior da esclera, conhecida hoje como esclerotomia posterior, no intuito de aumentar o volume da cavidade (Stephenson, 1987). A partir daí, foram descritas várias outras maneiras de se abrir a esclera com o mesmo objetivo (Jordan; Khouri, 2001; Massry; Holds, 2001; Choung et al., 2005; Sales-Sanz; Sanz-Lopez, 2007). Introdução 27 1.3. Repercussões psicológicas e sociais O ser humano tem uma tendência natural em manter os seus aspectos físico, psicológico e social em estado de equilíbrio. Há perdas, que por suas características, podem desarticular permanentemente esse equilíbrio. A perda ocular é uma delas. Considerada uma amputação grave, muitas vezes é comparada a um estágio de morte. Além da repercussão psicológica relacionada à perda propriamente dita, há efeitos fisiológicos e estéticos causadores de dificuldades de relacionamento social e interpessoal (Botelho et al., 2003). Duas mudanças fisiológicas essenciais no processo de binocularidade ocorrem quando um olho é removido: perda completa de estereopsia fina e redução de cerca de 10 a 20% do campo visual do lado afetado (Pine et al., 2011). Se a perda ocular ocorre na infância, a adaptação funcional à deficiência é maior, devido ao convívio precoce com as limitações desencadeadas por essa perda e sua integração no processo de modificações naturais do desenvolvimento (Botelho et al., 2003). A aceitação do dano estético talvez seja o maior problema. A pessoa que perde um órgão tão importante como o olho sofre modificações bruscas em sua vida, afetando diretamente seu comportamento e modo de agir. A perda ocular pode reativar todo tipo de sentimento, sensações, ideias, imagens e valores próprios de cada indivíduo. Ansiedade, isolamento, depressão e baixa autoestima são as características mais encontradas após o fato (Thompson; Kent, 2001; Botelho et al., 2003). 28 Introdução O olhar mútuo promove uma forte interação que é obstaculizada pela anoftalmia uni ou bilateral. Assim, o desconforto causado pela diferença leva os indivíduos afetados a olhar para baixo, evitando o olhar do outro. O convívio com amigos e familiares em geral, é menos modificado, ocorrendo dificuldade maior em se relacionar com pessoas do sexo oposto e adquirir novos conhecimentos e habilidades. O dano estético é considerável, sobretudo quando se admite que na nossa sociedade, pessoas fisicamente atraentes impressionam mais e aparentam ser mais inteligentes, mais competentes e mais dominantes, além de receberem mais ajuda e levarem vantagem em entrevistas de emprego (Clarke et al., 2003). As deformidades, inclusive a ocular, ocasionam repulsa por motivos culturais, por exemplo, no Levítico (terceiro livro do Pentateuco do Antigo Testamento), capítulo 21, pode-se ler: “E falou o eterno a Moisés: Fala a Aarão dizendo: O homem de tua semente, por todas as gerações, em que houver algum defeito, não se chegará para oferecer o sacrifício de seu Deus. Porque todo homem em que houver algum defeito não se aproximará: homem cego, ou coxo, ou de nariz achatado, ou de membros diferentes um do outro, ou homem que tiver o pé quebrado ou a mão quebrada, ou que tenha sobrancelhas muito crescidas, ou catarata, ou traço no meio do seu olho, ou sarna, ou impigem, ou testículos triturados; todo homem da semente de Aarão, o sacerdote, que tiver algum defeito, não se chegará para oferecer os sacrifícios queimados ao Eterno”. Outros fatores geradores de preconceitos incluem falta de conhecimento da causa e da doença, medo de contágio, não saber como se comportar diante da diferença, e pela denominada “aliança social”, que pode ser explicada como uma tendência evolutiva da espécie em formar alianças e grupos sociais com pessoas mais atraentes e evitar as alianças com pessoas fracas, defeituosas Introdução 29 ou desinteressantes (Bonanno et al., 2010; Robinson et al., 1996; Thompson; Kent, 2001). 1.4. Reabilitação da cavidade anoftálmica A reabilitação estética das cavidades anoftálmicas é uma preocupação antiga no campo da cirurgia plástica ocular. O uso de próteses oculares já é bem documentado desde a época dos egípcios, cerca de 2000 antes de Cristo, que utilizavam olhos artificiais como adorno para suas múmias. Gregos e romanos também faziam o mesmo, utilizando ouro e pedras preciosas (den Tonkelaar et al., 1991). Em pessoas vivas, foi Ambroise Paré (1510-1590), um cirurgião francês, quem descreveu o uso de olho artificial para repor a perda ocular por traumas e doenças. A prótese era confeccionada de ouro e prata, de dois tipos distintos: ekblephara e hypoblephara, destinadas a serem utilizadas, respectivamente, na frente, ou abaixo das pálpebras (Villanueva; Casillas, 2008). Na mesma época, as primeiras próteses de vidro começavam a ser fabricadas em Veneza, sendo posteriormente aperfeiçoadas pelos franceses e alemães. Ludwig Müller - Uri, um soprador de vidro alemão, que confeccionava olhos artificiais para bonecas, impressionou um oftalmologista local, em 1835, que solicitou que fizesse modelo semelhante para seus pacientes utilizarem como prótese ocular (Smit et al., 1991). As próteses, então, passaram a ser utilizadas sob as pálpebras, como finas conchas, recobrindo um globo atrofiado ou ausente, mas não repunham o volume perdido. 30 Introdução Até a Segunda Guerra Mundial, as próteses oculares utilizadas eram de vidro, fabricadas por empresas alemãs. Após esse período, foram desenvolvidos outros materiais, como o metilmetacrilato, que tivessem maior disponibilidade e fácil manuseio. As próteses utilizadas atualmente foram adaptadas de materiais e técnicas empregadas em odontologia. Elas possibilitam a confecção de próteses leves, sob medida e de longa durabilidade (Raizada; Rani, 2007). Em pesquisas realizadas sobre o nível de satisfação dos usuários de prótese ocular, cerca de 70% dos participantes consideraram-se satisfeitos com o resultado final (Botelho et al., 2003; Song et al., 2006). A Figura 3 mostra um modelo de prótese ocular e sua adaptação em cavidade anoftálmica. Figura 3: (A) Modelo de prótese ocular externa; (B) Indivíduo com cavidade anoftálmica antes; (C) e após a adaptação da prótese ocular. Introdução 31 1.5. Implantes orbitários Os implantes orbitários constituem parte fundamental no processo de preparação de uma cavidade para adaptação da prótese externa, pois permitem a reposição de grande parte do volume perdido com a remoção do olho ou do seu conteúdo, com menores deformidades palpebrais. A colocação do implante pode ser primária, quando se realiza concomitante à cirurgia de enucleação ou evisceração, ou secundária, ou seja, em outro tempo cirúrgico, como por exemplo, em casos de determinadas neoplasias ou infecções associadas, em que não seja possível a colocação do implante orbitário naquele momento. 1.5.1. Classificação dos implantes orbitários A classificação mais utilizada dos implantes é a que os dividem em integráveis (ou porosos) e não integráveis (ou não porosos). O entendimento dos grupos é de extrema importância. Os implantes não integráveis podem ser entendidos como os que são inertes e se mantêm sem modificações após a sua colocação, permanecendo separados do receptor devido ao seu encapsulamento. O implante integrável é o que possui crescimento fibrovascular do hospedeiro no seu interior, o que o transforma em “tecido vivo” dentro do organismo (Hernández; Casillas, 2008). Introdução 32 1.5.1.1. Implantes não integráveis O inglês, Phillip Henry Mules, em 1885, foi o primeiro a introduzir um implante na órbita, em uma cirurgia de evisceração, que consistia em uma esfera de vidro oca. O fato foi considerado um marco na história das reconstruções das cavidades anoftálmicas e dos implantes orbitários. Em seu primeiro relato, de nove pacientes operados, somente em quatro não houve extrusão. No ano seguinte, Frost introduziu o mesmo implante na órbita após enucleação, mas de seis cirurgias realizadas, em apenas uma não houve extrusão (den Tonkelaar et al., 1991; Smit et al., 1991). Durante os anos seguintes, no início do século XX, embora o vidro fosse o material mais utilizado para a confecção de implantes, uma variedade de outros materiais, tanto orgânicos (cartilagem, osso, marfim, gordura) como inorgânicos (ouro, prata, cobre, alumínio) foram introduzidos na sua fabricação, como tentativa de se descobrir um material menos reativo (Hernández; Casillas, 2008). Na época da Segunda Guerra Mundial, com a redução do fornecimento de vidros pelos alemães, e devido ao número crescente de soldados e civis com perda ocular, houve a necessidade de se produzir próteses com materiais de fácil manuseio, mais baratos e inertes (Smit et al., 1991; Raizada; Rani, 2007). Dessa necessidade surgiu a esfera de polimetilmetacrilato (PMMA). O PMMA é um material conhecido como plástico acrílico. Quimicamente é um polímero sintético de metacrilato de metila. O ácido metacrílico foi formulado em 1865, derivado do ácido acrílico, descrito em 1843. A reação entre o ácido metacrílico e o metanol resultou no éster metacrilato de metila. 33 Introdução Os químicos alemães Fittig e Paul descobriram, em 1877, o processo de polimerização que transforma metacrilato de metila em PMMA. O material foi patenteado em 1933, pelo alemão Otto Rohm, sob a marca Plexiglas® (Rohm & Hass Company) e em 1936, foi realizada a primeira produção comercialmente viável de vidros de segurança acrílico (Wikipedia, 2011). Durante a II Guerra, o PMMA foi utilizado na confecção de pára-brisas, dosséis e torres de arma para aviões. A biocompatibilidade do PMMA foi descoberta nessa época, quando foi observado que pilotos de aeronaves que tinham seus olhos crivados de estilhaços de PMMA oriundos das janelas, não apresentavam sinais de infecção ou extrusão, quando comparados com estilhaços de vidros provenientes de outras aeronaves. PMMA (Figura 4) e silicone são exemplos de materiais de implantes orbitários não integráveis utilizados até hoje em cirurgias de enucleação e evisceração. Figura 4: Implante esférico de PMMA. Introdução 34 1.5.1.2. Implantes integráveis A era dos implantes integráveis teve seus primeiros relatos em 1973, quando Molteno, em uma cirurgia de enucleação, colocou uma esfera derivada de osso de mamífero. No entanto, o crescimento de tecido fibrovascular para o interior dos poros só pôde ser documentado em um espécime 10 anos após, em pós-morte (Hernández; Casillas, 2008). Perry, em 1985 (um século depois de Müles), após dois anos de experimento animal, apresentou o implante integrável de Hidroxiapatita (HA). E em 1989, o implante, com o nome de Bio-eye® (Bio-eye, Integrated Orbital Implants, EUA) foi aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) para colocação na órbita. O material é um sal de fosfato de cálcio (Ca10(PO4)6(OH)2), que se encontra de forma natural como parte mineral do osso humano, obtido de um coral marinho, do gênero Porites, e convertido de carbonato de cálcio (CaCO3), por meio de uma reação hidrotérmica, a fosfato de cálcio (Ca10(PO4)6(OH)2) (Perry, 1991). A HA já era utilizada como substituta de enxertos ósseos em odontologia e ortopedia. A HA apresenta um sistema de poros interconectados, que quando implantado, em contato com ossos normais, possibilita novo crescimento ósseo dentro dos canais, e se colocada em tecidos moles, permite o crescimento de tecido fibrovascular em suas cavidades, sem desenvolver reação de corpo estranho significativa e nem promover encapsulamento (Perry, 1990). Os canais formados são naturalmente interligados e possuem diâmetro variável de 300 a 700 µm (Figura 5). 35 Introdução B A Figura 5: Implante integrável de hidroxiapatita. (A) Superfície externa; (B) Microscopia de varredura do implante (Fonte: Pérdida Ocular, 2008) Outro material comercializado desde 1991 é o polietileno poroso (PP). O implante é constituído por material sintético formado pela polimerização de moléculas de etileno sob alta pressão e temperatura (Karesh; Dresner, 1994). Os poros dos implantes de PP variam de 100 a 500 µm, no implante Medpor® (Porex Surgical Inc., EUA), observado na Figura 6. A B Figura 6: Implante integrável de polietileno poroso. (A) Superfície externa; (B) Microscopia de varredura do implante (Fonte: Pérdida Ocular, 2008). Introdução 36 Em relação ao implante de HA, podem ser citados como vantagens do PP: o custo menor, a facilidade em se manufaturar com diversos formatos, com porosidades estendendo-se até 1000 µm e a possibilidade de suturar os MOE diretamente no implante, sem a necessidade de revestimento (Blaydon et al., 2003; Chalasani et al., 2007). Com a crescente preocupação ambiental e destruição de corais marinhos para retirada e obtenção da HA, em 1998, a empresa francesa FCI (France Chirurgie Instrumentation, France) começou a produzir HA sintética. Esse material passou por várias fases até chegar à forma atual que corresponde à sua terceira geração. O FCI3 tem uma composição química similar a da HA coralina, com pequenas diferenças na uniformidade dos poros observadas à microscopia eletrônica (Sami et al., 2007). Outros tipos de implantes de HA também foram desenvolvidos, como a HA bovina, chinesa e brasileira. A HA brasileira, elaborada por Soares, composta de 75% de HA e 25% de óxido de alumínio, é mais pesada que a HA coralina e possui uma aparência sólida, com presença de porosidades, mas sem interconectividade entre os poros. Em estudo comparativo realizado em animais, demonstrou-se crescimento de tecido fibrovascular em seu interior, porém foi identificado um material amorfo enegrecido não birrefringente, que pode estar relacionado à manufatura do implante, e não oferece segurança em relação à toxicidade (Jordan et al., 2000). Mais recentemente, na tentativa de encontrar um implante com uma tolerância ainda maior, surgiu o implante orbital de biocerâmica, feito de óxido de alumínio (Alumina, Al2O3). O material já vinha sendo utilizado em implantes 37 Introdução ortopédicos e odontológicos, assim como HA e PP. Aprovado como implante orbital em 2000 pela FDA, oferece vantagens como porosidades regulares em torno de 500 µm, fácil elaboração e manuseio (Jordan et al., 2000). Quanto aos custos, seriam semelhantes ao PP. A B Figura 7: Implante integrável de biocerâmica. (A) Superfície externa; (B) Microscopia de varredura do implante (Fonte: Pérdida Ocular, 2008) A Tabela 1 mostra algumas vantagens e desvantagens dos implantes mais utilizados atualmente, além de custos estimados. 38 Introdução Tabela 1: Características dos implantes orbitários mais utilizados atualmente. Material Vantagens rápido Custo* Caro, derivado de recursos naturais marinhos. Difícil implantação, requer revestimento 650 500 Hidroxiapatita coralina - Bio-eye® Integrável, fibrovascular Hidroxiapatita sintética – FCI3 Integrável, não agride a natureza Requer revestimento. Alto custo Polietileno Poroso Medpor® Integrável, fácil inserção, não necessita de revestimento, produção de diversos tamanhos, formatos e porosidades variáveis Formação de tecido fibrovascular mais lento que HA. Alto custo 500-520 Óxido de Alumínio Biocerâmica Integrável, regulares Requer revestimento. Alto custo 450-500 PMMA Acrílico Barato, baixa extrusão e boa mobilidade quando revestido em enucleação Não integrável, maior risco de extrusão que implantes integráveis, requer revestimento em enucleação, 25 Silicone Barato, baixa extrusão e boa mobilidade quando revestido em enucleação Não integrável, maior risco de extrusão que implantes integráveis, requer revestimento em enucleação, 25 porosidades crescimento Desvantagens grandes e *custo aproximado em US$, podendo variar conforme país, hospital, quantidade e impostos(Hicks, Morrison et al. 2006; Chalasani, Poole-Warren et al. 2007) 1.5.1.3. Implantes autógenos O enxerto dermoadiposo constitui uma opção de reposição de volume da cavidade anoftálmica. Descrito pela primeira vez, por Smith e Petrelli, em 1978, que o utilizaram, de modo bem sucedido, em uma mulher de 31 anos que apresentou extrusão de um implante orbitário em cavidade enucleada (Smith; Petrelli, 1978). A grande desvantagem do enxerto seria a dúvida sobre a reabsorção gordurosa. De fato, enxertos lipídicos foram abandonados por cursarem com absorção gordurosa significativa ao longo do tempo. No entanto, o componente dérmico do enxerto composto estaria relacionado a um efeito vasoproliferativo que promove rápida e precoce vascularização de todo o enxerto, aumentando Introdução 39 o número de adipócitos capazes de sobreviverem (Smith; Petrelli, 1978; Mitchell et al., 2001). Inicialmente, usado em casos de extrusão ou migração de implantes, o enxerto dermoadiposo tem sido utilizado como implante primário em enucleação e também em evisceração com esclerotomia, com ótimos resultados cosméticos, sem sinais de migração ou extrusão, com bom preenchimento da cavidade e reabsorção somente em casos relacionados a cavidades com condições desfavoráreis a qualquer implante, como irradiação, queimadura química e infecção (Guberina et al., 1983; Archer; Hurwitz, 1989; Bengoa-Gonzalez et al., 2010). 1.5.2. Tamanho dos implantes O volume médio perdido com a remoção do olho é cerca de 7,0 mL, podendo variar de 4,0 a 9,0 mL, dependendo do tamanho do globo. Um implante de 18 mm de diâmetro repõe 3,1 mL de volume. Um implante de 20 mm repõe 4,2 mL de volume e um de 22 mm, 5,6 mL de volume. Já a prótese ocular externa, tem idealmente 2,0 a 3,0 mL de volume. Daí, conclui-se que um implante ideal, para repor o volume orbital após a remoção do globo, deva ser de 20 a 22 mm de diâmetro (Kaltreider, 2000; Jordan; Khouri, 2001; Hernández; Casillas, 2008). Em cirurgias de enucleação, o tamanho médio dos implantes mais utilizados é de 20 ou 22 mm de diâmetro, e em cirurgias de evisceração, com a técnica de esclerotomia posterior, em geral, o implante utilizado tem 18 mm de Introdução 40 diâmetro, no máximo 20 mm e sem esclerotomia posterior, 16 mm de diâmetro, no máximo 18 mm (Massry; Holds, 2001; Alwitry et al., 2007). 1.5.3. Complicações dos implantes O implante orbitário (integrável ou não) após colocado, seja em cirurgia de enucleação, evisceração, ou mesmo em segundo momento, pode resultar em algumas complicações. Entre as mais comuns é possível citar enoftalmo e deformidade de sulco palpebral superior, resultantes de reposição inadequada de volume. Mas as complicações mais temidas são a migração (mudança na posição do implante depois de colocado) e a exposição/extrusão (defeito no tecido que recobre o implante), seja por prótese ocular mal adaptada, por infecção ou pelo tamanho exagerado do implante que podem contribuir, inicialmente, para a exposição do implante e, posteriormente, para a sua extrusão (Chalasani et al., 2007). De fato, o crescimento de tecido fibrovascular no interior dos implantes integráveis, oferece algumas vantagens como: menor probabilidade de extrusão, diminuição da incidência de exposição e migração e aumento da motilidade quando permitir a inserção de pinos (Dutton, 1991). No entanto, existem poucos estudos comparativos que demonstrem as reais vantagens desse tipo de implante. Dentre os existentes, ocorre dificuldade na interpretação dos resultados por motivos como falta de randomização, diferentes tamanhos da amostra, tempo de seguimento, técnicas cirúrgicas empregadas, tamanhos dos implantes e causas das cirurgias, entre outras 41 Introdução variáveis (Chalasani et al., 2007). Dessa forma, dados na literatura referentes à exposição dos implantes variam de 0 a 22% (Christmas et al., 1998). 1.6. Implante orbitário ideal Apesar dos vários estudos e diferentes materiais disponíveis no mercado, ainda não existe um implante ideal, que deveria ter características como: material biocompatível, integração à órbita, fácil inserção, reposição adequada de volume, suporte adequado à prótese ocular, baixo índice de complicações relacionadas à migração, exposição e extrusão, além de custo acessível (Hicks et al., 2006; Chalasani et al., 2007). 1.7. Justificativa para a realização do trabalho Levando-se em conta que os implantes integráveis estão baseados no princípio que o crescimento de tecido fibrovascular promove a integração do implante e diminui as complicações relacionadas à migração e extrusão do material, está sendo comercializado na Argentina, um implante esférico de PMMA multiperfurado. O material é confeccionado e fabricado por uma óptica local, que também oferece próteses oculares. O fabricante diz haver crescimento tecidual dentro das porosidades induzidas, porém não existem dados experimentais histopatológicos com o uso desse material. A justificativa para a realização da presente pesquisa diz respeito à necessidade de comprovação formal da possibilidade de o PMMA multiperfurado ser capaz de integração semelhante aos implantes de HA e PP. Ou seja, por meio de crescimento fibrovascular para o interior das perfurações Introdução 42 e canais produzidos nesse material. Caso se comprove que o PMMA, uma vez perfurado, apresenta integração tecidual, abre-se uma nova vertente para a produção de implantes integráveis de baixo custo, tão necessários na realidade brasileira. Vale lembrar que os pacientes de baixo poder econômico não têm condições de adquirir implantes integráveis importados e muitas vezes não são reabilitados. Embora não haja dados sobre a relação entre perda ocular e classe social, é possível que a maioria dos pacientes que necessitem de reabilitação com prótese ocular sejam aqueles com menores condições financeiras. Este trabalho tem, pois, uma motivação científica e social. 2. OBJETIVOS Objetivos 44 O presente estudo objetiva: Avaliar a viabilidade de integração orbitária de um modelo comercial de implante multiperfurado de PMMA. Especificamente, analisar a morfologia do implante orbitário e a resposta clínica e tecidual do hospedeiro em relação ao material, em olhos de coelhos eviscerados e submetidos à esclerotomia posterior. 3. CASUÍSTICA E MÉTODO Casuística e Método 46 3.1. Animais Foram utilizados 16 coelhos da raça Nova Zelândia, adultos, machos, com peso variando de 2200 a 3600 g (peso médio: 2840 g), provenientes do Biotério da Universidade de São Paulo - Campus de Ribeirão Preto. Os animais sadios foram identificados e mantidos em gaiolas individuais, no biotério da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Araçatuba, Departamento de Biomecânica, em ambiente sob condições apropriadas de temperatura e iluminação, onde recebiam água potável e ração apropriada ad libitum. 3.2. Considerações éticas O protocolo da pesquisa foi aprovado pela Comissão de Ética em Experimentação Animal da Universidade Estadual Paulista - Campus de Araçatuba nº 2009-005803 (Anexo 1), estando de acordo com a Sociedade Brasileira de Ciências em Animais de Laboratório. Igualmente, foram seguidos os cuidados bioéticos preconizados pela ARVO - Association for Research in Vision and Ophthalmology relativos à utilização de animais em pesquisas oftalmológicas. 3.3. Implante orbitário Os implantes multiperfurados de PMMA foram elaborados e doados pela empresa Pinheiro Prótese Ocular (São Paulo), que comercializa o implante padrão de PMMA na forma sólida. Casuística e Método 47 3.3.1. Elaboração do implante Após a manufatura das esferas sólidas de PMMA, com diâmetros de 12 e 13 mm, eram realizados furos de 1.5 mm em toda a superfície do implante com furadeira elétrica manual e brocas. Esses furos atravessavam toda a esfera em variações angulares, não simétricas, formando canais interligados pelo centro, de modo que seu interior ficasse vazio, como mostra a Figura 8. Figura 8: Implante orbitário esférico de PMMA multiperfurado utilizado na presente pesquisa. Casuística e Método 48 3.3.3. Análise do implante Um implante de PMMA multiperfurado de 13 mm foi utilizado para avaliação estrutural por meio de microscopia eletrônica de varredura (MEV). O produto foi partido e montado em dois porta-espécimes cilíndricos com pasta condutiva de carbono. As estruturas foram cobertas por uma fina camada de ouro por meio de um vaporizador (Bal-Tec SCD 050, Suiça). Este processo se fez necessário pelo fato de o PMMA não ser condutor de eletricidade e calor, e de a imagem da MEV ser virtual, formada por energia emitida de elétrons. Após a fase de preparo, o material foi então submetido à MEV, utilizando-se o microscópio JEOL JSM 5200 (JEOL®, Japão). 3.4. Delineamento experimental 3.4.1. Grupo experimental Os animais foram divididos aleatoriamente em quatro grupos, considerando-se o tempo de seguimento pós-operatório (PO) a ser estudado: 14, 45, 90 e 180 dias. Todos os animais foram submetidos à evisceração do globo ocular direito com realização de esclerotomia posterior e colocação do implante de 12 ou 13 mm, fornecidos pela empresa. 3.4.2. Procedimentos cirúrgicos 3.4.2.1. Evisceração e colocação do implante Os coelhos foram pesados e previamente sedados com acepromazina 0,2% (Acepran®, Univet, Brasil), 1 mg/kg de peso, intramuscular (IM). Dez Casuística e Método 49 minutos após, foram anestesiados com uma injeção IM de cloridrato de quetamina (Quetamina®, Vetnil, Brasil), 30 mg/kg, além de uma gota de proximetacaína tópica (Anestalcon®, Alcon, Brasil), e injeção peribulbar de 1,0 mL, via transconjuntival, de cloridrato de lidocaína a 2,0% (Xylestesin®, Cristália, Brasil), sem vasoconstritor. Após assepsia e antissepsia da região periocular com polivinil pirrolidona iodo (PVPI) tópico, colocação de campo estéril ocular e blefarostato para manutenção da abertura palpebral, a conjuntiva bulbar foi incisada usando tesoura Westcott e realizada peritomia límbica em 360º, seguida de incisão escleral, justalimbar, com remoção da córnea e retirada do conteúdo intraocular, com cureta de evisceração, até se obter esclera livre de tecido uveal. A seguir, realizou-se esclerotomia posterior de 360º com lâmina de bisturi nº 11 (Feather®, Japão), na região próxima ao nervo óptico, seguindo-se da colocação do implante orbitário. A parte anterior da esclera foi suturada utilizando fio trançado não absorvível de fibroína preta 4,0 (Seda®, Ethicon, Brasil) em pontos separados. A cápsula de Tenon e conjuntiva foram fechadas, separadamente, com o fio trançado absorvível de poliglactina 6,0 (Vicryl®, Ethicon, Brasil), em sutura de pontos separados. As Figuras 9 a 13, a seguir, mostram os principais passos técnicos do procedimento para colocação do implante orbitário. Casuística e Método 50 Figura 9: Remoção da córnea para realização de evisceração do globo ocular direito, utilizando tesoura de Westcott. Figura 10: Esclerotomia posterior em 360º após a evisceração utilizando bisturi lâmina nº 11. Casuística e Método 51 Figura 11: Colocação do implante de PMMA multiperfurado na cavidade eviscerada. Figura 12: Sutura da esclera para fechamento da cavidade eviscerada utilizando fio trançado inabsorvível preto. Casuística e Método 52 Figura 13: Aspecto final da cavidade eviscerada com o implante de PMMA e suturas de esclera, cápsula de Tenon e conjuntiva. 3.4.2.2. Cuidados pós-operatórios imediatos Imediatamente após o ato cirúrgico, os coelhos receberam cloridrato de tramadol (Tramadol®, Teuto, Brasil) na dose de 10 mg/kg de peso corpóreo, por via subcutânea, que foi repetida após 12 horas, com finalidade analgésica. Topicamente, foi administrada uma gota de moxifloxacino 0,5% (Vigamox®, Alcon, Brasil), a cada 12 horas, durante três dias consecutivos. 3.4.2.3. Intervalo entre os procedimentos Nos intervalos entre a evisceração e o sacrifício dos animais, foram feitas avaliações, a cada 24 horas, por 14 dias consecutivos, procurando-se Casuística e Método 53 evidenciar sinais clínicos como: presença de secreção ocular, quemose, hemorragia, deiscência de sutura, exposição e extrusão dos implantes. Posteriormente, as avaliações foram realizadas a cada sete dias. Os sinais clínicos observados foram quantificados em cruzes, considerando-se (-) quando ausente, (+) leve, (++) moderada e (+++) intensa para secreção ocular, quemose e hemorragia. Para deiscência de sutura, exposição e extrusão do implante foi considerado (-) quando ausente e (+) quando presente. Caso fosse identificada alguma mudança de comportamento nos animais e/ou na região orbitária, estes seriam tratados e, se necessário, sacrificados e retirados do estudo. Os animais mortos ou excluídos do estudo seriam repostos, mantendo-se os mesmos grupos e procedimentos cirúrgicos. 3.4.2.4. Exenteração da órbita e sacrifício dos animais Os coelhos foram previamente sedados com acepromazina 0,2% (Acepran®, Univet, Brasil), 1 mg/kg de peso IM, e após 10 minutos foram anestesiados com uma injeção IM contendo cloridrato de quetamina (Quetamina®, Vetnil, Brasil), 30 mg/kg, e cloridrato de xilazina a 2% (Xilazin®, Syntec, Brasil), 5 mg/kg. Foi instilada uma gota de proximetacaína tópica (Anestalcon®, Alcon, Brasil) no olho direito e administrado tiopental sódico (Thiopentax®, Cristália, Brasil), endovenoso na veia auricular, 20 mg/kg, para manutenção da analgesia durante a cirurgia e em superdosagem, 40 mg/kg, para sacrifício dos animais. Casuística e Método 54 Foi realizado reparo da margem palpebral superior e inferior com fio de fiboroína 4,0 (Seda®, Ethicon, Brasil). A seguir, procedeu-se à exenteração total da órbita, incisando-se com lâmina de bisturi nº 15 (Feather®, Japão) desde a área palpebral superior e inferior, até a retirada de todo o conteúdo orbitário contendo o implante, com tesoura Mayo curva. As Figuras 14 a 16 mostram os principais passos técnicos do procedimento da exenteração orbitária. Figura 14: Início da exenteração orbitária via transpalpebral. Casuística e Método Figura 15: Exenteração da órbita contendo o implante. Figura 16: Peça exenterada contendo o implante. 55 Casuística e Método 56 3.5. Histopatologia Após exenteração, a peça foi lavada com solução salina 0.9% e imediatamente imersa em solução fixadora de formol tamponado a 10%, permanecendo por 48 a 96 horas, até o momento da avaliação macroscópica e inclusão do fragmento em parafina. O implante foi retirado do conteúdo orbitário usando tesoura de Westcott. Os fragmentos de tecido orbitário mais próximos ao implante, incluindo a esclera, aqui denominados de “cápsula”, foram preparados para análise microscópica. Caso houvesse crescimento tecidual através dos canais e no interior da esfera, o fragmento estudado seria identificado como “projeção”. Quando possível, o implante era cortado manualmente com navalha. As colorações realizadas foram hematoxilina-eosina (HE) e picrosirius red (PSR). 3.6. Protocolos de avaliação 3.6.1. Registros fotográficos das lâminas Para análise microscópica das células inflamatórias foram realizadas seis fotografias de cada uma das 16 lâminas coradas por HE, com aumento de 100x, por meio do programa Cell D - Life Science Microscopy e microscópio Olympus BX-51 (Olympus®, Japão). Na análise do tecido conjuntivo foi realizada uma fotografia em cada uma das 16 lâminas, coradas por PSR, sob luz de fundo brilhante, com aumento de 40x, pelo mesmo programa. A Casuística e Método 57 fotografia sob luz polarizada, da mesma área de tecido conjuntivo registrada, foi feita por máquina fotográfica Sony Cyber-Shot DSC-W180 (Sony®, China), no microscópio Jenamed-2 (Carl Zeiss®, Alemanha). Todas as fotografias foram registradas em formato digital, JPEG, com resolução de 300 dpi. A seleção das áreas registradas foi feita pelo médico patologista que, após avaliação das lâminas, não identificadas, escolheu as áreas, denominadas “hot spot”, que continham a maior concentração de células inflamatórias ou de tecido conjuntivo. 3.6.2. Análise histológica quantitativa O número de células inflamatórias, neutrófilos polimorfonucleares (PMN) e mononucleares (macrófagos, linfócitos e plasmócitos) em cada fotografia foi contado manualmente com a ajuda do programa ImageJ software versão 1.42, no qual existe uma ferramenta (“plugin”) específica para a contagem de células (“cell counter”) (Figura 17). Somou-se o número de células inflamatórias por meio das seis fotografias de cada lâmina, e foram utilizadas dispersão e mediana na análise do evento, além da análise de variância não paramétrica Kruskal-Wallis, pelo programa OriginPro versão 8.0. 3.6.3. Análise histológica qualitativa A formação de colágeno foi avaliada qualitativamente pela coloração PSR. O método histoquímico, que consiste na reação do corante vermelho sírio com o ácido pícrico, é específico para a detecção das fibras colágenas. Na microscopia de fundo brilhante, fibras de colágeno, independentes da Casuística e Método 58 densidade ou tipo, aparecem em vermelho, mas sob luz polarizada, por meio da birrefringência, o colágeno tipo I mostra-se com fibras colágenas grossas, corando de amarelo-alaranjado, e o colágeno tipo III apresenta-se formado por fibras finas, pouco compactadas, corando-se de verde. Figura 17: Programa do ImageJ utilizado para a contagem de células inflamatórias. Pontos amarelos numeraram cada célula. 4. RESULTADOS Resultados 60 4.1. Avaliação do implante O exame das esferas multiperfuradas de PMMA à MEV, demonstrou que: os furos no implante se dispuseram de maneira aleatória, não sendo, portanto, angulados ou equidistantes entre si (Figura 18); formaram-se canais interligados pelo centro, mas com presença de espículas (Figura 19); e, resíduos do PMMA na forma de partículas depositaram-se no interior dos canais (Figura 20). Tais resíduos são de difícil remoção, mesmo após limpeza com jato de ar comprimido. Figura 18: Implante multiperfurado de PMMA - visão da face externa, mostrando a disposição aleatória dos furos (MEV, 40x). Resultados 61 Figura 19: Implante multiperfurado de PMMA - visão da face interna. Presença de canais formados, com espículas (MEV, 35x). Figura 20: Implante multiperfurado de PMMA - visão interna de um canal formado. Nota-se a presença de resíduos de PMMA na parede do furo (MEV, 220x). Resultados 62 4.2. Avaliação Clínica Não foi observada morbidade sistêmica nos animais submetidos ao experimento, portanto, nenhum animal foi substituído ou excluído. Presença de secreção conjuntival de aspecto mucoide, não purulenta na cavidade orbitária foi observada em todos os animais no primeiro dia de PO de forma leve (+) a moderada (++), reduzindo para leve (+), ou mesmo ausente (-) durante o período estudado. Não foram observadas quemose (-) ou hemorragia (-) na cavidade operada em nenhum animal, tampouco houve deiscência de sutura (-), exposição (-) ou extrusão (-) do implante em nenhum caso. A Figura 21 mostra o ótimo aspecto da cavidade contendo o implante de PMMA multiperfurado com 45 dias de PO. Nos quatro animais que permaneceram em observação por 180 dias foi possível visibilizar os furos do implante através da formação de pequenas depressões na esclera que os recobria (Figura 22). Resultados 63 Figura 21: Aspecto da cavidade eviscerada contendo o implante aos 45 dias de PO. Figura 22: Aspecto da cavidade eviscerada contendo o implante aos 180 dias de PO. Notam-se as depressões formadas pelos furos do implante, recobertas pela esclera. Resultados 64 4.3. Avaliação histopatológica 4.3.1. Aspecto macroscópico Assim que se isolava o implante do conteúdo orbital, era avaliado o aspecto macroscópico das aderências e a formação de tecido dentro e ao redor do mesmo. No primeiro tempo de estudo, 14 dias de PO, observou-se a formação de tecido no interior dos canais, as denominadas projeções (Figuras 23 e 24). Nesse período, os implantes puderam ser facilmente isolados da cavidade orbitária e removidos sem grandes adesões ao tecido escleral. Ao final do estudo, aos 180 dias de PO, esse tipo de separação foi realizado com maior dificuldade, devido à formação de aderências (tecido denso e fibrótico) e espessa cápsula entre o implante e a esclera, sendo impossível remover, pelos canais, o tecido formado no seu interior, ocorrendo, inclusive, quebra das projeções (Figura 25). Resultados 65 Figura 23: Aspecto de um implante após a retirada do tecido escleral, no qual foi observado preenchimento do interior do implante por tecidos do hospedeiro, na forma de projeções teciduais (14 dias de PO). Figura 24: Aspecto de um implante após a retirada do tecido escleral, no qual foi observado preenchimento do interior do implante por tecidos de hospedeiro, na forma de projeções teciduais (14 dias de PO). Resultados 66 Figura 25: Aspecto do implante após a retirada do tecido escleral, no qual é observada fina camada de revestimento do implante que permite visibilizar os poros nele existentes (180 dias de PO). Após fixação da peça em formol tamponado a 10%, alguns implantes tornavam-se maleáveis e eram cortados com navalha mais facilmente do que os outros que mantinham a rigidez inicial. Já a partir do 14º dia PO, foi identificada neoformação tecidual preenchendo todo o interior da esfera. O fato ocorreu em todos os momentos e animais do estudo (Figuras 26 e 27). Resultados 67 Figura 26: Presença de neoformação tecidual preenchendo o interior do implante (14 dias de PO). Figura 27: Separação do tecido neoformado com o implante (14 dias de PO). Resultados 68 4.3.2. Coloração por hematoxilina-eosina (HE) Diante das projeções bem definidas e formadas em todos os tempos, dividiu-se a lâmina histológica para melhor avaliação do processo inflamatório e cicatricial. Para tal, foram registradas três fotografias da cápsula e três da projeção (Figura 28). Nos casos em que não foi possível cortar o implante, as projeções consideradas foram os tecidos que estavam no meio dos canais ou aderidos à esclera. Figura 28: Aspecto microscópico das projeções teciduais neoformadas (HE, 40x). Aos 14 dias, identificou-se grande número de células inflamatórias, além de algumas áreas de hemorragias; o número de células inflamatórias foi menor na área capsular do que nas projeções (Figuras 29 e 30). Resultados 69 Figura 29: Células inflamatórias presentes em grande quantidade na área capsular aos 14 dias de PO (HE, 100x). Figura 30: Presença de grande quantidade de células inflamatórias e discreto extravasamento de hemácias nas projeções formadas - 14 dias de PO (HE, 100x). Resultados 70 Aos 45 dias de PO, notava-se ainda grande quantidade de células inflamatórias, porém em menor número que aos 14 dias de PO. O padrão de distribuição celular se manteve, sendo em maior quantidade nas projeções do que na cápsula. Observou-se também tecido colagenoso frouxo e em pequena quantidade, conforme seguem as Figuras 31 e 32. Aos 90 dias de PO, a quantidade de células inflamatórias diminuiu significativamente, e observou-se aumento do número de fibroblastos ou células de tecido conjuntivo, com formação de colágeno de densidade variável e neovasos (Figuras 33 e 34). Aos 180 dias de PO, o padrão de distribuição celular encontrado na projeção foi o menor observado, com formação de denso colágeno (Figuras 35 e 36). Não foram observadas células gigantes multinucleadas ou epitelioides no infiltrado inflamatório nos cortes realizados, em nenhum momento do experimento. Resultados 71 Figura 31: Infiltrado inflamatório misto (neutrófilos e linfócitos) na área capsular aos 45 dias de PO (HE, 100x). Figura 32: Numerosas células inflamatórias, predominantemente neutrófilos, na área de projeção, com pouco tecido colagenoso de fundo (HE, 100x). Resultados 72 Figura 33: Área capsular aos 90 dias de PO, com frequentes células de tecido conjuntivo (fibroblastos) e pequeno número de células inflamatórias (HE,100x). Figura 34: Área de projeção aos 90 dias de PO, com ocasionais neovasos, células inflamatórias e tecido conjuntivo com densidade variável (HE, 100x). Resultados 73 Figura 35: Área capsular com 180 dias de PO, exibindo tecido conjuntivo vascularizado e pequeno número de células inflamatórias (HE, 100x). Figura 36: Área de projeção formada aos 180 dias de PO, com colágeno denso e mínimo número de células inflamatórias (HE, 100x). Resultados 74 A Tabela 2 mostra a quantidade de células inflamatórias, na cápsula e na projeção, obtida pela somatória das três fotografias de cada lâmina. Tabela 2: Quantidade de células inflamatórias ao longo do estudo, na cápsula e na projeção formada. Tempo (dias) 14 45 90 180 cápsula projeção cápsula projeção cápsula projeção cápsula projeção 1 114 354 325 310 39 211 54 63 2 204 169 80 191 79 146 100 267 3 134 243 43 103 30 196 107 65 4 72 124 45 128 53 73 43 111 Animal Na Figura 37 estão representadas, graficamente, as distribuições da quantidade de células inflamatórias encontradas em cada fotomicrografia e em cada tempo. Apesar de o gráfico mostrar claramente que o padrão inflamatório tende a decrescer ao longo do tempo, com celularidade geralmente maior nas projeções do que na cápsula, o teste de Kruskall-Walis não mostrou significância estatística na quantidade de células inflamatórias ao longo do tempo na cápsula (p= 0,129), nem na projeção (p= 0,434). Resultados 75 Figura 37: Distribuição do número de células inflamatórias na cáspula e na projeção de cada animal ao longo do período estudado. A barra horizontal representa a mediana das distribuições. 4.3.3. Coloração por picrosirius red (PSR) Aos 14 dias de PO, as lâminas coradas por PSR evidenciaram qualitativamente uma tênue malha de fibrina, quase sem a captação do corante vermelho sírio, e sob luz polarizada, notado por pouco verde, mas com predominância de áreas escuras, denotando locais em que não há tecido colagenoso. Uma formação de colágeno maior ocorreu aos 45 dias de PO, ainda que na forma de fibras frouxas. A partir de 90 dias de PO, identificou-se Resultados 76 aumento da quantidade e densidade das fibras, ocorrendo mistura das cores verde e amarela, e por fim, aos 180 dias, notou-se maturação do colágeno, bem demonstrado pelo vermelho, em campo brilhante e pelo amarelo, sob polarização (Figuras 38 a 41). A orientação das fibras colágenas seguiu o eixo maior das projeções em todos os momentos de observação. A B Figura 38: Quantidade mínima de colágeno formada na projeção aos 14 dias de PO (PSR, 40x). (A) Fundo brilhante; (B) Luz polarizada. Resultados 77 A B Figura 39: Pequena quantidade de colágeno formada na projeção aos 45 dias de PO (PSR, 40x). (A) Fundo brilhante; (B) Luz polarizada. A B Figura 40: Grande quantidade de fibras de colágeno, de densidade variável, formadas na projeção aos 90 dias de PO (PSR, 40x). (A) Fundo brilhante; (B) Luz polarizada. Resultados 78 A B Figura 41: Grande quantidade de densas fibras de colágeno formadas na projeção aos 180 dias de PO (PSR, 40x). (A) Fundo brilhante; (B) Luz polarizada. 5. DISCUSSÃO Discussão 80 O PMMA é um material biocompatível, não tóxico, amplamente utilizado em oftalmologia, não só na forma de implantes orbitários como também em lentes intraoculares, aneis estromais (Anel de Ferrara®) e ceratopróteses (Bertoluzza et al., 1991). Dos modelos de implantes orbitários existentes no mercado mundial, o de PMMA é o de mais baixo custo (Burgos et al., 2005; Hicks et al., 2006). A impossibilidade de integração dos implantes usuais de PMMA levou ao desenvolvimento de modelos de implantes integráveis. Nesse ponto, cabe uma digressão sobre o conceito de integração tecidual de materiais aloplásticos. Em ortopedia, o termo “integrado” diz respeito a materiais que permitem formação óssea e conseqüente desaparecimento do material implantado que se torna tecido vivo, ou seja, integrado ao organismo (Motomiya et al., 2007; Lee et al., 2010). Em relação ao conteúdo orbitário, esse conceito não é usual e o termo “integrado” é usado para designar implantes que permitem crescimento tecidual no interior do material introduzido. Essa acepção é a que foi adotada no presente estudo. A característica comum aos implantes orbitários integráveis (PP, HA e Biocerâmica) é a presença de porosidade do material e formação de canais naturalmente interligados, promovendo o crescimento tecidual com grande adesão do implante à órbita e biocompatibilidade. As porosidades variam de 150 a 1000 µm (0.1 a 1.0mm) advindas do próprio material como é fabricado, havendo também possibilidade de aumento no seu tamanho, no caso do PP de alta densidade. Porosidades maiores nos implantes de PP permitem crescimento tecidual mais rápido (Rubin et al., 1994). Discussão 81 Embora o PMMA tenha índice zero de porosidade, ele possui boa resistência e fácil manuseio, o que permitiu a produção de furos com formações de canais interligados pelo centro. Uma característica do modelo estudado foi a irregularidade na equidistância e interligação em diferentes níveis dos canais formados na esfera. Como os furos foram feitos aleatoriamente, não houve possibilidade de angulações simétricas em sua elaboração. Essas distâncias, eventualmente, formavam intersecções entre os furos já na superfície externa do implante e ampliavam o volume dos canais, o que poderia fragilizar o material. Esse aspecto poderia ter sido evitado caso o implante tivesse sido manufaturado de maneira diferente, pois se pode demonstrar que é possível a obtenção de regularidade entre os canais caso sejam empregadas angulações de 30, 60 e 90º. Ainda assim, a formação de espículas no interior do implante estaria presente, visto que cada furo atravessa o diâmetro da esfera, havendo intersecção entre eles (Figura 42). Discussão 82 Figura 42: Modelo matemático do implante de PMMA multiperfurado, com canais regulares angulados. Formação de espículas no interior. A MEV identificou a presença de resíduos do PMMA dentro do implante, decorrentes da produção dos furos. A impossibilidade de se obterem meios para sua remoção é, teoricamente, um problema técnico no processo de elaboração. A esterilização também é problemática e não foi possível esterilizar o implante de PMMA multiperfurado utilizado nos animais. Variando de 85 a 165ºC, o ponto de fusão do PMMA, a depender dos copolímeros, torna-se impossível sua esterilização em autoclave, cuja temperatura é de pelo menos 121ºC. Tampouco é permitida a esterilização química de produtos ocos. Em teoria, um biomaterial de PMMA pode ser esterilizado a gás, no caso, o óxido de etileno, ou por raios gama. (MSPC, 2009; Burgos et al., 2005). A Discussão 83 esterilização por óxido de etileno no Brasil deve seguir as regras da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Seguindo a normativa nº 17, de 19 de março de 2004, artigo 10º, que estabelece que “os serviços de saúde que contam com central de materiais e esterilização estão proibidos de realizar atividades de esterilização para a indústria como etapa de fabricação de produtos médico hospitalares,...” (ANVISA, 2004), o implante convencional de PMMA deixou de ser esterilizado dessa maneira, sendo, atualmente, esterilizado por raios gama. Na tentativa de usar os raios gama, na mesma dose do implante padrão de PMMA, o implante de PMMA multiperfurado sofreu deformação, o que gera a necessidade de ajustes para sua adequada esterilização sem danificar o produto. De acordo com as instruções contidas na embalagem do produto, o implante de PP vem esterilizado de fábrica, por óxido de etileno e a HA deve ser esterilizada em autoclave, antes do seu uso. Apesar desses problemas técnicos, decidiu-se testar esse tipo de implante em modelo animal, uma vez que na Argentina, modelo semelhante é utilizado em cirurgias de evisceração e enucleação (comunicação pessoal, Cruz., 2011)1. Os coelhos foram os animais de experimentação escolhidos por suas vantagens, comparativamente às outras espécies animais, quanto à sua obtenção, manejo e manutenção, bem como por seus reconhecidos valores em pesquisas oftalmológicas. Apesar de o tamanho da amostra ter sido pequeno 1 Informação fornecida por Cruz, AAV, Ribeirão Preto, em 2011. Discussão 84 para aplicação de testes estatísticos comprobatórios, o número de animais foi suficiente para análise do objetivo proposto. As cirurgias foram realizadas sob anestesia geral, peribulbar e tópica. Tanto o fio empregado para sutura de esclera, que foi a fibroína, quanto o utilizado para sutura da cápsula de Tenon e conjuntiva, poligalactina, apresentam pouca reação tecidual e são utilizados, rotineiramente, em cirurgias de evisceração e enucleação em humanos e em modelos animais. Fios absorvíveis também podem ser empregados na sutura da esclera (Oria et al., 2006; Alwitry et al., 2007; Park et al., 2010). Não existem dados na literatura relacionando fios de sutura às complicações da cavidade anoftálmica. O tamanho dos implantes orbitários utilizados, 12 e 13 mm de diâmetro é semelhante ao encontrado em estudos que envolvem implantes orbitários e que têm o coelho como modelo animal (Rubin et al., 1994; Schellini et al., 2003; Jordan et al., 2004). Optou-se pela cirurgia de evisceração com esclerotomia posterior, pois a técnica permite a colocação de implantes maiores, relaxamento da sutura da face anterior, além de possibilitar contato direto com os tecidos da órbita facilitando o crescimento de tecido fibrovascular no caso dos implantes integráveis. Apesar de estar relacionada a maiores riscos de migração, a evisceração com esclerotomia posterior oferece vantagens como exposição e extrusão menores que em eviscerações convencionais (Kostick; Linberg, 1995; Massry; Holds, 2001; Blaydon et al., 2003). A escolha da técnica cirúrgica empregada para reconstrução da cavidade, por enucleação ou evisceração, bem como do implante orbitário Discussão 85 utilizado varia de acordo com o país e o cirurgião, baseada na experiência de cada indivíduo e na disponibilidade do material. No passado, a enucleação era a técnica preferida pela maioria dos cirurgiões, mas o interesse e a preferência por evisceração aumentou por ser tecnicamente mais simples e mais rápida, além de causar menor desarranjo anatômico, proporcionando com isso, menos complicações decorrentes da cavidade anoftálmica, bem como aumento da motilidade (Kostick; Linberg, 1995; Nakra et al., 2006). Há também a vantagem de poder realizá-la sob anestesia local, caso um paciente não apresente boas condições clínicas para ser submetido à anestesia geral. A única condição que é considerada contraindicação à evisceração, devendo ser realizada enucleação, é a presença ou suspeita de tumor maligno intraocular (Chaudhry et al., 2007). Nos demais diagnósticos, mesmo phithisis bulbi não acentuada, é possível realizar evisceração (Georgescu et al., 2010). Em pesquisa realizada com membros da Sociedade Americana de Cirurgia Plástica Ocular (American Society of Ophthalmic Plastic and Reconstructive Surgery - ASOPRS), em 1992, o implante de HA em cirurgias de enucleação foi utilizado em 56% das enucleações primárias e em pesquisa similar, com o mesmo grupo, em 2002, dez anos mais tarde, o implante de PP foi o mais utilizado, por 42,7% das enucleações e a HA utlizada em apenas 27,3% dos casos e os implantes não integráveis em 19.9% (Hornblass et al., 1995; Su; Yen, 2004). Quanto ao tipo de cirurgia, a enucleação foi a preferida em 69,1% dos casos de necessidade de retirada e a evisceração em 30,9%. Já em pesquisa semelhante realizada na Inglaterra, a preferência foi pela cirurgia Discussão 86 de evisceração, independente da causa, exceto para olho cego doloroso secundário a trauma, em que se optou por enucleação. A escolha por implante integrável deu-se em 55 % dos casos (PP 26,5%, HA 15,7%, e outros), mas o implante de PMMA foi o mais utilizado, em 42% (Viswanathan et al., 2007). No Brasil, pesquisa semelhante ainda não foi finalizada. Em estudo retrospectivo observacional de série de casos de um serviço específico, no período de 1990 a 1998, a cirurgia de evisceração foi mais freqüente do que de enucleação, por volta de 77% dos casos, e o implante de PMMA utilizado em 48%, seguido por PP em quase 20% (Schellini et al., 2000). Estes dados mostram que, sem dúvida, a escolha do implante influencia o tipo de procedimento a ser realizado. Na presente pesquisa, a adoção do protocolo de estudo clínico e do tempo de avaliação morfológica, respeitou as fases clássicas da reparação cicatricial, relativas à exsudação, proliferação e maturação. Os resultados dos aspectos clínicos encontrados, como ausência de infecção, quemose e hemorragia desde o primeiro momento da inserção do implante de PMMA multiperfurado, diminuta presença de secreção mucoide e nenhum caso de exposição ou extrusão das esferas ao longo do período estudado, comprovam que o implante é inerte e provoca baixa reação inflamatória nos tecidos orbitários. No modelo apresentado, na sua fase final de observação clínica, a esclera envoltória estava muito afinada, verificando-se leves depressões esclerais acompanhando os furos do implante, mas sem exposição de nenhuma área. Isso poderia estar relacionado com as irregularidades na superfície dos furos do material fabricado. Discussão 87 Quando implantes porosos são utilizados em cirurgia de enucleação, a superfície áspera do material pode levar à erosão dos tecidos e conseqüente exposição do implante (Chalasani et al., 2007). No intuito de evitar esse atrito, são utilizados revestimentos ou capas que deixam a superfície lisa, com baixo atrito. Diversos tipos de materiais autógenos, autólogos e sintéticos têm sido empregados para revestir implantes. Atualmente, o material mais usado tem sido a esclera doadora, mas outros materiais como pericárdio humano ou bovino processado, fascia lata, poliglactina, ácido poliglicólico, politetrafluoretileno expandido também podem ser utlizados. Embora os implantes revestidos apresentem menores riscos de exposição e extrusão, os materiais de revestimento têm como desvantagem o aumento do tempo e custo da cirurgia, além do retardo no crescimento fibrovascular no interior do implante (Custer, 2000; Gayre et al., 2002). Estudos experimentais envolvendo enucleação e colocação do implante de PMMA multiperfurado com e sem revestimento, poderiam afirmar a ocorrência ou não de exposição. Além destes, um tempo maior de observação que os 180 dias poderia indicar se essas escleras poderiam suportar o risco de exposição. A dificuldade na remoção da face escleral aderida ao implante encontrada no período mais tardio do experimento, foi claramente devida à formação de tecido denso e fibrótico causando aderências entre o implante e a esclera. Isso pode ser relacionado positivamente à impossibilidade de migração do implante. Porém, a dificuldade de mobilização do implante ocasionou quebra nas projeções formadas, interferindo no processo de análise microscópica da região. Discussão 88 O crescimento tecidual ocorreu rapidamente no modelo apresentado, preenchendo todo o interior do implante já no primeiro momento, duas semanas após a evisceração. Estudos comparativos com os implantes integráveis em modelo animal, em cirurgia de enucleação, evidenciam crescimento fibrovascular em torno de quatro semanas em HA e biocerâmica e somente com 12 semanas nos implantes de PP (Rubin et al., 1994; Jordan et al., 2004). No intuito de acelerar a proliferação fibrobascular, substâncias indutoras de crescimento têm sido adicionadas, experimentalmente, aos implantes de PP. O objetivo é promover rápida integração e assim diminuir a probabilidade de complicações como migração e extrusão do implante (Bigham et al., 1999; Park et al., 2005). Não há estudos experimentais comparando o tempo de crescimento tecidual dos implantes em cirurgias de evisceração, com e sem esclerotomia posterior, e enucleação, com e sem revestimento. Sabe-se que a esclera constitui uma barreira ao crescimento tecidual e, teoricamente, a evisceração apresentaria maior tempo para ocorrência do fato. No entanto, já foi mostrado boa integração dos implantes de PP e HA mesmo na ausência de aberturas no envoltório escleral, possivelmente devido à penetração de células inflamatórias e fibroblastos através dos orifícios naturais desse tecido (Schellini et al., 2003). A análise mais detalhada para quantificação de células inflamatórias e presença de colágeno ao longo do tempo foi dificultada por alguns fatores. A fixação da peça em formol ocorreu num prazo variando de 48 a 96 horas até sua inclusão em parafina. Foi observado que os implantes de PMMA tornavam-se menos rígidos e mais maleáveis quando permaneciam mais horas Discussão 89 no formol e só assim, podiam ser cortados manualmente, ainda que com dificuldades. Em alguns casos, não houve como seccioná-los para análise do material neoformado em seu interior, por encontrarem-se muito firmes. O fato poderia ser justificado pela baixa resistência química do PMMA aos componentes ácidos presentes na solução (MSPC, 2009), porém não foi encontrada na literatura relação específica do PMMA com os produtos químicos utilizados no preparo do formol tamponado a 10%. As projeções formadas eram finas e frágeis, rompendo-se algumas vezes no momento de isolar o implante da face escleral, não sendo possível a obtenção de amostras homogêneas. Algumas lâminas foram descartadas devido à ausência de projeções bem definidas e refeitas, até duas vezes, com cortes mais profundos para nova coloração, mas ainda assim, não continham projeções ideais para o estudo. A contagem exata do número de células inflamatórias pode ter sido prejudicada, pois, ocasionalmente, essas células confundiam-se com células de tecido conjuntivo na coloração com HE. Para uma análise mais específica das células inflamatórias seria necessária a realização de imunohistoquímica. Apesar das dificuldades, ficou evidente o crescimento de tecido fibrovascular com baixa atividade inflamatória. Células inflamatórias, tanto mononucleadas como PMN, foram identificadas em todos os períodos estudados, e apesar da variabilidade entre as amostras, houve uma tendência à diminuição no decorrer do estudo. É esperado, que no início do estudo, o processo inflamatório seja maior, não pela reação ao implante, mas sim, pela resposta tecidual ao trauma cirúrgico induzido. A presença de maior reação Discussão 90 inflamatória nas projeções formadas do que na área capsular pode ser justificada pela identificação dos resíduos do PMMA retidos nos canais formados. Pela microscopia na coloração com HE, observou-se que houve uma relação inversamente proporcional entre a quantidade de resposta inflamatória e a quantidade de crescimento de tecido fibrovascular. O padrão é semelhante aos estudos realizados com implantes integráveis de PP (Goldberg et al., 1994; Rubin et al., 1994). Um importante dado na avaliação microscópica foi a ausência de células gigantes multinucleadas nos campos dos materiais estudados, o que descarta a ocorrência de reação inflamatória granulomatosa do tipo corpo estranho ao implante. Nos implantes integráveis, as células gigantes estão presentes em maior quantidade e ao longo de mais tempo em implantes de HA que em implantes de PP. Rubin et al. (1994), em seu experimento, identificaram sua presença em implantes de HA e PP ao longo dos 180 dias de estudo e ressaltaram que, embora o baixo nível de inflamação possa ser bem tolerado, não é claro se essa reação traria consequências clínicas. A demonstração de crescimento e maturação das fibras de colágeno pela coloração com PSR sob luz polarizada, no período avaliado, termina por enfatizar a boa integração do implante. Num processo fibrótico, ocorre substituição dos depósitos de ácido hialurônico e fibronectina, presentes desde o início do processo inflamatório por colágeno tipo I e III, principalmente. Outros tipos de colágeno também são encontrados nesses processos, porém em menor quantidade. O colágeno tipo III, que se apresentou com coloração verde, é o colágeno do tecido de granulação, produzido por fibroblastos jovens, antes Discussão 91 do colágeno tipo I, amarelo-alaranjado, que é o produto final da cicatrização por reparação. É a deposição desses dois tipos de colágeno, estruturalmente rígidos, que gradualmente promove o desenvolvimento do tecido cicatricial com maior força tensora (Kumar et al., 2005). Em suma, pode-se dizer que o modelo de implante de PMMA multiperfurado, contendo canais interligados, apresentou boa biocompatibilidade e baixa reação inflamatória em cavidades evisceradas de coelhos. Nenhum animal apresentou migração, exposição ou extrusão do implante no período avaliado. Além disso, o implante permitiu o crescimento de tecido fibrovascular em todo o seu interior, semelhante ao descrito com o uso de implantes integráveis, como o de PP e HA. A formação de crescimento tecidual para dentro do implante foi relacionada à simples presença de furos e conexão entre eles, e não à porosidade natural do material. Embora o implante de PMMA multiperfurado seja integrável, e tenha baixo custo, os meios para sua esterilização são dificultados pela forma com que foi elaborado. Desse modo, os resultados obtidos nos levaram a imaginar um novo modelo de implante de PMMA multiperfurado, cuja descrição se encontra no Anexo 2. Esse modelo está em fase final do processo de patenteação no Brasil, pela USP (Agência de Inovações) e será objeto de estudo específico. 6. CONCLUSÕES Conclusões 93 Frente aos resultados obtidos é possível afirmar que os implantes multiperfurados de PMMA mostram boa resposta clínica e tecidual com os tecidos orbitários de coelhos eviscerados, com crescimento de tecido fibrovascular no seu interior, podendo ser considerados inertes, biocompatíveis e integráveis. 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Referências Bibliográficas 95 Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Consulta Pública nº 17, de 19 de março de 2004. Disponível em http://www4.anvisa.gov.br/base/visadoc/ CP/CP%5B6781-1-0%5D.PDF. Acessado em 2011. Alwitry A, West S, King J, Foss AJ, Abercrombie LC. Long-term follow-up of porous polyethylene spherical implants after enucleation and evisceration. Ophthal Plast Reconstr Surg. 2007;23:11-5. Archer KF, Hurwitz JJ. Dermis-fat grafts and evisceration. Ophthalmology. 1989;96:170-4. Bengoa-González A, Dolores Lago-Llinás M, Martín-Clavijo A, Ling-Tan S. 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ANEXOS 103 Anexos ANEXO 1 COMPROVANTE DE APROVAÇÃO DO COMITÊ DE ÉTICA 104 Anexos ANEXO 2 MODELO DE IMPLANTE ORBITÁRIO INTEGRÁVEL DE POLIMETILMETACRILATO (PMMA) MULTIPERFURADO Inventores Antonio Augusto Velasco e Cruz Denise Miyashita Acreditando-se na integração do implante de PMMA multiperfurado por meio da criação de canais, como foi demonstrado no estudo em animais, baseado nas dificuldades encontradas para esterilização do material e ainda, pensando numa possibilidade de diminuição do atrito com a esclera devido a superfície irregular, foi elaborado um desenho técnico-industrial de um novo modelo de esfera de PMMA integrável, que se encontra com pedido de patente na sua fase final. O implante é composto de duas partes, podendo ser fabricado com tamanhos variáveis, mecanicamente, por meio da confecção de matrizes para injeção do material e esterilizado separadamente por óxido de etileno. No modelo apresentado a seguir, o tamanho obtido como exemplo, foi de um implante com diâmetro máximo de 20 mm, escolhido por ser o tamanho considerado ideal para melhor reposição do volume perdido com a cirurgia de evisceração ou enucleação. 105 Anexos A parte posterior tem o formato de uma hemiesfera, sendo toda perfurada e a outra parte, pode variar de hemiesfera ou calotas esféricas de dois outros tamanhos menores, com superfície lisa (Figura 1). A união das duas partes é dada por sistema “macho-fêmea” de encaixe e a fixação poderá ser realizada com fio de sutura inabsorvível. Figura 1: Visão geral do implante de PMMA multiperfurado na parte posterior e liso na anterior, com três tamanhos possíveis, variando de acordo com a curvatura anterior. Anexos 106 A parte posterior do implante constitui-se de uma hemiesfera de 10 mm de raio, 4 mm de espessura, interior vazio e furos circulares de 1,5 mm em toda a sua superfície. As regularidades e angulações dos furos para formação de canais foram calculadas matematicamente, como mostram as Figuras 2 e 3. Figura 2: Parte posterior do implante de PMMA, perfurada. Furos de 1,5 mm, com angulações e distâncias padronizadas. 107 Anexos Figura 3: Corte transversal da parte posterior do implante de PMMA, perfurada. Furos de 1,5 mm, com angulações e distâncias padronizadas. A parte anterior do implante, também de interior vazio, é totalmente lisa, os mesmos 4 mm de espessura que a posterior, e pode ter três tamanhos diferentes, podendo ser hemiesfera de 10 mm de raio, ou ter calotas esféricas de 7,5 (3/4 do raio) ou 5,0 mm (2/4 do raio) de altura. Mantendo-se a parte posterior do implante igual para todos os modelos, a redução da parte anterior do implante corresponde, aproximadamente, ao volume de uma esfera 19 e 18 mm, respectivamente. Ou seja, o volume ocupado pelo implante de 7,5mm de altura na parte anterior, é de 3,49 cc e um implante esférico de 19 mm tem 3,59cc; e, o volume do implante elaborado de 5,0 mm de altura, é de 2,95 cc, e da esfera de 18 mm, é de 3,05 cc. As Figuras 4 a 9 mostram, em detalhes técnicos, como é o desenho da superfície anterior e a união das duas partes dos três tamanhos propostos. Anexos 108 Figura 4: Parte anterior do implante de PMMA, superfície lisa, tamanho 10 mm altura. Anexos 109 Figura 5: Implante de PMMA multiperfurado na parte posterior, em formato esférico total 20 mm diâmetro. Anexos 110 Figura 6: Parte anterior do implante de PMMA, superfície lisa, tamanho 7.5 mm (3/4) altura. Anexos 111 Figura 7: Implante de PMMA multiperfurado na parte posterior, em formato de calota esférica lisa anterior, correspondente a 3/4 do raio. Anexos 112 Figura 8: Parte anterior do implante de PMMA, superfície lisa, tamanho 5 mm 2/4) altura. Anexos 113 Figura 9: Implante de PMMA multiperfurado na parte posterior, em formato de calota esférica lisa anterior, correspondente a 2/4 do raio. 114 Anexos Pode-se citar como exemplo prático de utilização, a cirurgia de evisceração com esclerotomia posterior. Após remoção da córnea e de todo o conteúdo intraocular, realiza-se abertura escleral em sua parte posterior. O implante, então, seria inserido, inicialmente pela parte posterior, com a anterior de maior tamanho possível. Na impossibilidade de fechamento escleral completo esse tamanho seria diminuído e em nova impossibilidade, caso a cavidade fosse pequena, o menor tamanho seria o utilizado. Somente após determinar o seu tamanho final seria realizada a união das duas partes, com fio inabsorvível. A Figura 10 compara o formato dos três tamanhos possíveis do implante. No novo modelo de implante de PMMA multiperfurado proposto, é esperado que pelos furos da parte posterior do implante ocorra crescimento de tecido fibrovascular em seu interior, possibilitando, assim, integração do implante à órbita, e menores complicações relativas à migração, exposição e extrusão do implante. A parte anterior, sendo lisa, diminuiria o atrito com os pontos dados na esclera para seu fechamento e cobertura da cavidade formada, reduzindo os riscos de exposição do implante. Com a parte anterior em forma de calota, pode haver também, maior deslizamento da prótese externa, melhorando a mobilidade e a estética final, no processo de adaptação de prótese ocular. Anexos 115 Figura 10: Implante orbitário de PMMA, parte posterior perfurada, de tamanho fixo, e parte anterior, lisa, de tamanho variável, de acordo com o volume da cavidade anoftálmica. 9. ANEXO DE PUBLICAÇÃO Esferas de polimetilmetacrilato multiperfuradas como modelo de implante orbitário integrável - estudo experimental Spherical multiperforated polymethylmethacrylate as a porous orbital implant in an animal model Denise Miyashita, Antonio Augusto Velasco e Cruz 2 Anexo de Publicação Resumo Objetivo: Avaliar a resposta clínica e tecidual de um implante multiperfurado de PMMA em olhos de coelhos eviscerados com esclerotomia posterior. Materiais e Métodos: Dezesseis coelhos da raça Nova Zelândia receberam o implante de PMMA multiperfurado, de diâmetro 12 ou 13 mm, após evisceração do globo ocular com esclerotomia posterior. Foi realizada avaliação clínica diária nos primeiros 14 dias, e depois, a cada sete dias até o fim do período estudado (180 dias). Para análise histopatológica, quatro animais por grupo foram submetidos à exenteração da órbita aos 14, 45, 90 e 180 dias. Foi realizada coloração por hematoxilina-eosina e picrosirius red para avaliação do padrão inflamatório e formação de colágeno. Resultados: Não houve sinais de infecção, exposição ou extrusão do implante em nenhum animal no período estudado. Crescimento tecidual foi identificado nos canais e no seu centro já aos 14 dias e em todos os períodos avaliados. Ao final do estudo, houve formação de denso colágeno com pequena quantidade de células inflamatórias dentro do implante. Não foram encontradas células gigantes multinucleadas. Conclusão: O implante de PMMA multiperfurado é inerte e biocompatível, além ser totalmente integrável à órbita, por meio de crescimento de tecido fibrovascular semelhante aos modelos integráveis. Palavras-chave: evisceração, cavidade polimetilmetacrilato, material biocompatível. anoftálmica, implante orbitário, 3 Anexo de Publicação Abstract Purpose: to evaluate clinical and tissue reaction of a multiperforated PMMA orbital implant, placed in eviscerated rabbit eyes with posterior sclerotomy. Methods: Sixteen New Zealand white rabbits underwent evisceration with posterior sclerotomy followed by implantation of a 12 or 13-mm multiperforated implant. Clinical evaluation was performed daily for the first 14 days after surgery and at 7-day intervals until the end of the study period (180 days). Histopathologic analysis was performed in 4 animals at 14, 45, 90, and 180 days after implantation. Hematoxylin-eosin and picrosirius red staining were used to assess the inflammatory reaction and collagen formation. Results: There were no signs of infection, implant exposure or extrusion in any animal during the study. The channels allowed tissue ingrowth into the implant center by 14 days. At the end of the study, there was dense collagen growth with just a few inflammatory cells into the implant. No multinucleated giant cells were found. Conclusion: The multiperforated implant is nontoxic, biocompatible and totally integrated to the orbital contents by fibrovascular ingrowth, similar to porous implants. Keywords: evisceration, anophthalmic polymethylmethacrylate, biomaterial. socket, orbital implant, Anexo de Publicação 4 1. Introdução Os implantes orbitários têm grande importância na reabilitação da cavidade anoftálmica. O emprego dos implantes objetiva, não só a reposição do volume orbitário diminuído com a perda ocular, bem como a adaptação de próteses oculares mais leves e com maior mobilidade [1-3]. O primeiro implante, introduzido por Mules, em 1885, era uma esfera oca de vidro. [4-5] Um século após, Perry, com sua esfera de hidroxiapatita (HA) [4, 6, 7], iniciou a era dos implantes integráveis que, apesar do alto custo, são os mais utilizados, por permitirem crescimento fibrovascular em seu interior, com total biocompatibilidade e integração à órbita [8-10]. Atualmente, os implantes integráveis são constituídos de diferentes materiais, tais como o polietileno poroso (PP), óxido de alumínio e hidroxiapatita sintética e natural. O objetivo do presente estudo foi avaliar a viabilidade de integração orbitária de um modelo de implante multiperfurado de PMMA. Especificamente, observar, em função do tempo, a resposta clínica e tecidual do implante em olhos eviscerados com esclerotomia posterior em coelhos. 3. Materiais e Métodos Foi elaborado um modelo de implante esférico multiperfurado de PMMA. Após confecção do implante em sua forma convencional (esférico, sólido e maciço), nos tamanhos 12 e 13 mm de diâmetro, foram realizados furos 1,5 mm de diâmetro, de uma superfície à outra, com a formação de canais interligados pelo centro. Anexo de Publicação 5 O estudo foi devidamente aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa e Experimentos Animais, seguindo-se os princípios éticos e cuidados bioéticos preconizados pela Sociedade Brasileira de Ciências em Animais de Laboratório (SBCAL) e pela Association Research in Vision and Ophthalmology (ARVO). Foram utilizados 16 coelhos adultos, machos, da raça nova Zelândia, de peso médio de 2.840 g. Os animais foram divididos em quatro grupos, considerando-se o tempo de seguimento pós-operatório (PO) a ser estudado: 14, 45, 90 e 180 dias, e submetidos à evisceração do globo ocular direito com esclerotomia posterior e colocação do implante de 12 ou 13 mm, de acordo com o fornecimento do fabricante. No procedimento de evisceração, os animais foram previamente sedados com acepromazina 0,2% (Acepran®, Univet), 1 mg/kg de peso, intramuscular (IM) e 10 minutos após, anestesiados com cloridrato de quetamina (Quetamina®, Vetnil), 30 mg/kg IM, além de uma gota de proximetacaína tópica (Anestalcon®, Alcon), e injeção peribulbar com 1,0 mL, via transconjuntival, de cloridrato de lidocaína a 2,0% (Xylestesin®, Cristália) sem vasoconstritor. A conjuntiva bulbar foi incisada usando tesoura Westcott e realizada peritomia límbica em 360º, seguida de incisão escleral, justalimbar, com remoção da córnea e retirada do conteúdo intraocular, com cureta de evisceração, até se obter esclera livre de tecido uveal. A seguir, realizou-se esclerotomia posterior de 360º com lâmina de bisturi nº 11, na região próxima ao nervo óptico, seguindo-se da colocação do implante orbitário. A parte anterior da esclera foi suturada utilizando fio trançado não absorvível de 6 Anexo de Publicação fibroína preta 4,0 (Seda®, Ethicon) em pontos separados. A cápsula de Tenon e conjuntiva foram fechadas separadamente, com o fio trançado absorvível de poliglactina 6,0 (Vicryl®, Ethicon), em sutura de pontos separados. A Figura 1 mostra o aspecto do implante elaborado e sua colocação em cavidade eviscerada de coelho. A B Figura 1- (A) Implante de PMMA mulitperfurado; (B) Colocação do implante em cavidade eviscerada de coelho. A avaliação clínica foi diária nos primeiros 14 dias, e depois, a cada sete dias até o fim do período estudado (180 dias). As alterações consideradas foram: secreção ocular, quemose e hemorragia, (-) quando ausente, (+) leve, (++) moderada e (+++) intensa. Para deiscência de sutura, exposição e extrusão do implante foi considerado (-) quando ausente e (+) quando presente. No procedimento de exenteração, os animais foram novamente sedados com acepromazina 0,2% (Acepran®, Univet), 1 mg/kg de peso IM, e após 10 Anexo de Publicação 7 minutos foram anestesiados com uma injeção IM contendo cloridrato de quetamina (Quetamina®, Vetnil), 30 mg/kg, e cloridrato de xylazina (Xilazin®, Syntec), 5 mg/kg, além de tiopental sódico endovenoso (Thiopentax®, Cristália) em veia auricular, 20 mg/kg, para manutenção da analgesia durante a cirurgia e em superdosagem, 40 mg/kg, para o sacrifício. A cirurgia consistia em reparo da margem palpebral superior e inferior com fio de fiboroína 4.0, incisão da área palpebral superior e inferior até a retirada de todo o conteúdo orbitário contendo o implante. A peça era lavada em solução salina 0.9% e imersa em solução fixadora de formol tamponado a 10%, permanecendo de 48 a 96 horas até o momento da avaliação macroscópica e fixação de fragmento em parafina. O implante foi isolado do conteúdo orbitário e caso houvesse crescimento tecidual pelos canais e no interior da esfera, o fragmento estudado seria identificado como “projeção”. Quando possível, o implante era cortado manualmente com navalha. Hematoxilina-eosina (HE) e picrosirius red (PSR) foram as colorações utilizadas para a análise quantitativa do padrão inflamatório e qualitativa da densidade de formação do colágeno. 4. Resultados Presença de secreção conjuntival de aspecto mucóide na cavidade orbital foi observada em todos os animais no primeiro dia pós-operatório (PO) de forma leve (+) a moderada (++), reduzindo intensamente durante o período de estudo. Não foi observado quemose (-) nem hemorragia (-) na cavidade 8 Anexo de Publicação operada em nenhum animal. Tampouco houve deiscência de sutura (-), exposição (-) ou extrusão (-) do implante em nenhum caso. Na análise macroscópica, já no primeiro momento, aos 14 dias de PO, observou-se a formação de tecido no interior dos canais, as denominadas projeções, que se estendiam preenchendo todo o interior da esfera (Figura 2). O fato ocorreu em todos os animais e em todos os tempos avaliados. A B Figura 2- Formação de crescimento tecidual através dos canais do implante e preenchimento do seu interior. Quanto ao aspecto histológico da projeção formada, aos 14 dias, identificou-se grande número de células inflamatórias mononucleadas (linfócitos, macrófagos e plasmócitos) e neutrófilos polimorfonucleares (PMN), além de algumas áreas de hemorragias. Não foram encontradas células gigantes multinucleadas ou células epitelioides no infiltrado inflamatório. Aos 45 dias, ainda podia-se notar grande quantidade de células inflamatórias, porém Anexo de Publicação 9 em menor número comparado aos 14 dias de PO e tecido colagenoso frouxo em formação. Aos 90 dias de PO, a quantidade de células inflamatórias diminuiu significativamente, ocorreu aumento do número de células de tecido conjuntivo com formação de fibras colágenas de densidade variável e neovasos. Aos 180 dias de PO, era mínimo o número de células inflamatórias, com formação de denso colágeno (Figura 3). Em relação à avaliação específica da formação e densidade de tecido colagenoso, a coloração por PSR, sob luz polarizada, evidenciou-se aos 14 dias, qualitativamente, um colágeno fino de reduzida quantidade, notado por pouco verde, com predominância de áreas escuras, que seria o processo inflamatório demonstrado por HE. Uma formação de colágeno maior ocorreu aos 45 dias de PO, ainda que de frouxas fibras. A partir de 90 dias de PO, identificou-se aumento da quantidade e densidade das fibras, ocorrendo a mistura das cores verde e amarela, e por fim, aos 180 dias, notou-se maturação do colágeno, bem demonstrado pelo amarelo (Figura 4 ). Anexo de Publicação 10 Figura 3- Padrão de distribuição de células inflamatórias nos períodos estudados: 14, 45, 90 e 180 dias. Nota-se grande atividade inflamatória inicial, inversamente proporcional à formação de fibras colágenas (HE, 100x). Figura 4- Padrão de distribuição de formação colagenosa nos períodos estudados: 14, 45, 90 e 180 dias. Notam-se, inicialmente, poucas fibras de colágeno, coradas de verde, que aumentaram com os dias, e na fase final, tornaramse mais densas, corando-se de amarelo. (PSR, polarização, 40x) 5. Discussão O PMMA é um material biocompatível, não tóxico, amplamente utilizado em oftalmologia, não só na forma de implantes orbitários como também em lentes intraoculares, aneis estromais (Anel de Ferrara®) e ceratopróteses [11, Anexo de Publicação 11 12]. Dos modelos de implantes orbitários existentes no mercado mundial, o de PMMA é o de mais baixo custo [12,13]. Os implantes tradicionais de PMMA são sólidos e, portanto, não integráveis. A impossibilidade de integração dos implantes usuais de PMMA é que levou ao desenvolvimento de implantes integráveis. A característica comum aos implantes orbitários integráveis (PP, HA e Biocerâmica) é a presença de porosidade do material e formação de canais naturalmente interligados, promovendo o crescimento tecidual com grande adesão do implante à órbita e biocompatibilidade. As porosidades variam de 150 a 1000 µm (0.1 a 1.0mm) advindas do próprio material como são fabricados, havendo também possibilidade de aumento no seu tamanho, no caso de PP de alta densidade [4, 14, 15]. Porosidades maiores nos implantes de PP permitem crescimento tecidual mais rápido [8]. Embora o PMMA tenha índice zero de porosidade, este possui boa resistência e fácil manuseio, o que permitiu a produção de furos com formações de canais interligados pelo centro. Os resultados dos aspectos clínicos encontrados, como ausência de infecção, quemose e hemorragia desde o primeiro momento da sua inserção, a diminuta presença de secreção mucoide e nenhum caso de exposição ou extrusão do implante ao longo do período estudado, comprovam boa compatibilidade do implante e baixa reação inflamatória. Através dos canais produzidos na esfera de PMMA ficou evidente o crescimento de tecido fibrovascular. Células inflamatórias mistas foram identificadas em todos os períodos estudados, mas com uma tendência à Anexo de Publicação 12 diminuição no decorrer do estudo. Era esperado, que no início do estudo, o processo inflamatório fosse maior, não pela reação ao implante, mas sim, pela resposta tecidual ao trauma cirúrgico induzido. Pela coloração HE, observou-se que houve uma relação inversamente proporcional entre a quantidade de resposta inflamatória e a quantidade de crescimento de tecido fibrovascular. O padrão é semelhante aos estudos realizados com implantes integráveis de PP, HA e biocerâmica [8, 16, 17]. Um importante dado na avaliação microscópica foi a ausência de células gigantes multinucleadas em todos os animais e tempos do estudo, o que descarta a ocorrência de reação inflamatória granulomatosa do tipo corpo estranho ao implante. Nos implantes integráveis, as células gigantes estão presentes em maior quantidade e ao longo de mais tempo em implantes de HA que em implantes de PP ou biocerâmica [17-19]. Rubin et al, em seu experimento, identificaram sua presença em implantes de HA e PP ao longo dos 180 dias de estudo e ressaltaram que, embora o baixo nível de inflamação possa ser bem tolerado, não é claro se essa reação traria conseqüências clínicas [8]. A demonstração de crescimento e maturação das fibras de colágeno pela coloração PSR sob luz polarizada, no período avaliado, termina por enfatizar a boa integração do implante. Num processo fibrótico, ocorre substituição dos depósitos de ácido hialurônico e fibronectina, presentes desde o início do processo inflamatório por colágeno tipo I e III principalmente. Outros tipos de colágeno também são encontrados nesses processos, porém em menor quantidade. O colágeno tipo III, que se apresentou de verde, é o Anexo de Publicação 13 colágeno do tecido de granulação, produzido por fibroblastos jovens, antes do colágeno tipo I, amarelo-alaranjado, que é o produto final da cicatrização por reparação. É a deposição desses dois tipos de colágeno, estruturalmente rígidos, que gradualmente promove o desenvolvimento do tecido cicatricial com maior força tensora [20]. O modelo de implante de PMMA multiperfurado, com formação de canais interligados, apresentou boa biocompatibilidade e baixa reação inflamatória, sem nenhuma migração, exposição ou extrusão no período avaliado. Além disso, permitiu crescimento de tecido fibrovascular em todo seu interior, semelhante ao descrito em implantes integráveis, como o de PP e HA. A formação de crescimento tecidual para dentro do implante foi relacionada à simples presença de furos e conexão entre eles, e não à porosidade natural do material. Os resultados sugerem que o PMMA multiperfurado possa ser utilizado para a fabricação de implantes integráveis de baixo custo. 7. Referências Bibliográficas 1. Hernández SIP, Casillas GS. Implantes, opciones y ventajas, in Pérdida Ocular, Casillas GS, Editor. 2008, Auroch: México. p. 39-56. 2. Kaltreider SA. The ideal ocular prosthesis: analysis of prosthetic volume. Ophthal Plast Reconstr Surg. 2000;16:388-92. 3. Smit TJ, Koornneef L, Zonneveld F W, Groet E, Otto AJ. Management of acquired anophthalmos - A historical review. Orbit. 1991;10:63-76. 14 Anexo de Publicação 4. Sami D, Young S, Petersen R. Perspective on orbital enucleation implants. 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