Anais do 5º Encontro do Celsul, Curitiba-PR, 2003 (193-197)
SILÊNCIO E IDEOLOGIA NO JORNAL PARANÁ-NORTE
Ana Maria Chiarotti de ALMEIDA (Universidade Estadual de Londrina)
Roselaine BOLOGNESI (Universidade Estadual de Londrina)
ABSTRACT: The following article show reflections concerning the subjects: silence and ideology on the
Paraná newspaper-North, first leaflet in the city of Londrina-PR, that circulated between 1934-1953.
KEYWORDS: newspaper; silence; ideology
Durante três anos, um grupo de professores e alunos da Universidade Estadual de Londrina vem
desenvolvendo projeto de pesquisa acerca do Jornal Paraná-Norte, reunindo várias áreas do conhecimento
( História, Ciências Sociais e Lingüística). Ao se filiar teórico-metodologicamente à Análise de Discurso
de linha francesa, influenciada por M. Pêcheux, o jornal, para esse projeto, constitui via de acesso ao
discurso do qual ele é materialidade. O que significa situá-lo como lugar do conflito, do silêncio e de
confrontos ideológicos. Em outras palavras, o Paraná-Norte deve ser visto enquanto uma unidade
complexa de significações, bem como as suas condições de produção.
Cabe ressaltar, no entanto que, para o projeto, enquanto o jornal constitui texto, os Autos
Criminais da Comarca de Londrina (aproximadamente 8000 Autos que fazem parte do acervo do Centro
de Documentação e Pesquisa Histórica – CDPH da UEL) são ponto de partida e de constante retorno para
a análise do periódico, pois, dessa forma, é possível perceber o que é noticiado acerca das transgressões e
o que é silenciado ou colocado no seu lugar.
Assim, as discussões que seguem colocam, em um primeiro momento, o debate sobre “silêncio e
ideologia” e que emergiram a partir de discussões e leituras com o grupo do projeto e, num segundo
momento, considerações acerca de análises já efetuadas e que tomam como referência a primeira
propaganda da Companhia de Terras Norte do Paraná – CTNP, estampada na última página do jornal, e
três Autos Criminais. Cumpre ressaltar que, nesses três anos de pesquisa, foi possível para os professores
e alunos estabelecer uma política de conhecimento de “entremeio” cujos resultados se fizeram presentes
em publicações e em Congressos das várias áreas envolvidas (História, Ciências Sociais e Lingüística),
ultrapassando aquela visão ingênua de interdisciplinaridade, tão acentuada no debate acadêmico, porém
tão pouco verdadeiramente praticada.
As análises em pauta tomam como base parte das pesquisas e trabalhos realizados por integrantes
da área de Ciências Sociais, preocupados especificamente com o debate acerca do “silêncio e da
ideologia” no jornal.
Partimos do princípio de que ao mesmo tempo que o Paraná-Norte está diretamente relacionado às
condições de produção, o espaço do simbólico (os significados implícitos e os silêncios) faz parte de sua
própria constituição. Daí seu caráter de incompletude, “Incompletude que se dá a ver na própria
constituição do texto já que seu sentido não reside em cada um de seus interlocutores mas sim no espaço
discursivo criado pelos (e nos) interlocutores e que a principal característica de qualquer discurso é a
multiplicidade de sentidos possíveis.” CESÁRIO, A.C.C. et. al. (1998: 09 )
Nesse sentido, do ponto de vista da AD, o jornal Paraná-Norte não pode ser considerado uma
unidade pronta e acabada. É preciso que seja considerado tendo em vista sua “(...) relação com outros
textos (existentes, possíveis ou imaginários), com suas condições de produção (os sujeitos e a situação ),
com o que chamamos sua exterioridade constitutiva ( o interdiscurso: a memória do dizer )”.(
ORLANDI, 1996: 54 )
O que significa considerar que o texto (no caso o jornal) está impregnado de historicidade e
mantém com ela uma relação interna e constitutiva. Por isso, para se compreender o “silêncio” no ParanáNorte é preciso que se considere a historicidade nele inscrita, os processos de construção dos efeitos de
sentidos, bem como os sujeitos que os enunciam. Representa apelar para a interdiscursividade,
trabalhando entremeios, os reflexos indiretos, pois o silêncio não é transparente, não fala, ele significa.
Em outras palavras, considerar o silêncio a partir da relação fundamental do dizer com o não-dizer,
afirmando seu caráter necessário e próprio.
Assim, é possível afirmar que “Se a linguagem implica silêncio, este, por sua vez é o não-dito
visto do interior da linguagem. Não é o nada, não é o vazio sem história. É silêncio significante (...) o
silêncio é garantia do movimento de sentidos. Sempre se diz a partir do silêncio”. ORLANDI (1997: 23
) Desse modo, ao olhar o jornal Paraná–Norte enquanto texto (linguagem) – via de acesso ao discurso –
significa pensá-lo como o lugar dos confrontos ideológicos, bem como os constituintes históricos-sociais
que lhe dão forma e conteúdo.
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Ainda tomando como referência ORLANDI (1996), entende-se que a relação do homem com o
pensamento, com a linguagem e com o mundo não é direta, assim como a relação linguagem e
pensamento, linguagem e mundo tem suas mediações. O texto, enquanto espaço simbólico, é
multidimensional. Enquanto espaço discursivo materializado (inteligível) possui vários significados, é
“bólido de sentidos”, ele pode dizer através do silêncio e permitir tantas leituras quanto forem os leitores
– “o texto é multidirecional”.
É a partir dessas considerações que essa autora formula uma distinção entre silêncio fundador e
política do silêncio. Se o primeiro – o silêncio fundador – é aquele que existe nas palavras, significa o
não-dito, o segundo – a política do silêncio/silenciamento – se subdivide em: a) silêncio constitutivo (
para dizer é necessário não dizer ) – todo dizer cala algum sentido e uma palavra apaga necessariamente
outras palavras; b) o silêncio local ( a censura ) – proíbe-se dizer determinadas coisas em uma dada
conjuntura.
Trabalhando os limites das formações discursivas, o silêncio determina, consequentemente, os
limites do dizer. Silêncio e linguagem, enquanto discurso e interação, são modos de produção social – não
são neutros, inocentes e nem naturais -, estão impregnados de intencionalidades, por isso constituem o
lugar em que se manifesta a ideologia, aqui entendida conforme ALTHUSSER (1983). Ou seja, mais do
que reflexo de uma realidade ou pura falsa consciência e inversão da realidade, ideologia deve ser
considerada como “(...) a ’representação’ imaginária dos indivíduos com suas condições reais de
existência”. ALTHUSSER (1983: 85), indicando sua existência material e buscando sua relação com as
instituições.
Nessa perspectiva, a sujeição não ocorre apenas no plano das idéias mas existe num conjunto de
práticas situadas em instituições concretas que agem sobre os sujeitos que estão ao seu alcance. A
necessidade de reprodução das condições materiais de produção se realiza através do que esse autor
denomina de Aparelhos de Estado, podendo ser tanto de ordem Ideológica (AIE) – escola, mídia, família,
religião, jurídico, político, etc, - quanto de ordem Repressiva (ARE) – exército, polícia, tribunais, prisões,
etc. O que garantiria à classe dominante (burguesa) a reprodução das forças produtivas e das relações de
produção existentes (no caso a capitalista).
Pode-se concluir, ainda, que os Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE) funcionam em primeira
instância através da Ideologia e, secundariamente, através da repressão, seja ela bastante atenuada,
dissimulada, ou mesmo simbólica.(ALTHUSSER (1983). O que possibilita pensar o jornal Paraná-Norte
como parte fundamental desse processo, visto que é um veículo de suma importância na disseminação de
uma Ideologia, tendo, portanto, atuado como AIE e interferido significativamente na veiculação do
imaginário londrinense.
O jornal Paraná-Norte fez circular seu primeiro exemplar em 9 de outubro de 1934 (dois meses
antes da emancipação política da cidade –08/12/34), por iniciativa de Carlos Almeida e o jornalista
Humberto Puiggari Coutinho (seus diretores). Eram ligados, respectivamente, à Companhia de Terras
Norte do Paraná (empresa colonizadora da região) e à Prefeitura, o que facilitava os entendimentos entre
o poder público e o poder privado em Londrina.
“Carlos de Almeida apenas figurava seu nome como diretor, para justificar seu financiamento na
compra de papel, tinta e outros materiais e, ainda, intermediação na veiculação de anúncios da
Companhia de Terras. Eram nítidas as vinculações financeiras do jornal com a Companhia de
Terras Norte do Paraná. O anúncio era estampado na última página ostentando as vantagens de
colonização e do desenvolvimento do Norte do Paraná.” ( MARINÓSIO FILHO & MARINÓSIO
NETO, 1991: 23 )
A propaganda, no jornal, contem todos os elementos que, para AD, estão envolvidos no processo
de constituição da linguagem: objeto/sujeito; exterioridade/interioridade; concreto/abstrato;
evolução/produção, entre outros.
Os sentidos veiculados na propaganda da CTNP são referenciais importantes na constituição de
um discurso sobre a região norteparanaense. Naquele momento, esses sentidos fizeram a intermediação
entre linguagem e mundo, palavra e coisa. Afinal, se esta relação não é direta, na propaganda esses
sentidos funcionam como se fossem.
Como divulgado pela própria Companhia de Terras Norte do Paraná – CTNP, foi colonizada uma
área de cerca de 515 mil alqueires, com divisão em lotes a serem vendidos à todos os interessados, com
abertura de picadas e estradas, garantindo a integração da região. A intenção – como aparece na primeira
propaganda que circulou no Paraná-Norte – “era de colonizar as melhores terras”. O que, segundo a
Companhia, foi um empreendimento tão satisfatório que, em cinco anos e nove meses de colonização,
foram vendidos 1768 lotes, atraindo para a região cerca de 10.000 pessoas.
Ana Maria Chiarotti de ALMEIDA & Roselaine BOLOGNESI
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É importante considerar que este é um sentido produzido pela propaganda que fala em nome da
CTNP, ou seja, de uma Companhia que alcançou um grande sucesso em seu empreendimento financeiroimobiliário, demonstrando que não foi uma colonização desinteressada. Assim, cria-se, através dos
sentidos produzidos pela propaganda, um espaço interativo, na medida que mobiliza determinadas
estratégias voltadas para um outro, que no caso poderia ser um futuro comprador.
É preciso salientar que em 1928 a CTNP adquire a maior parte das ações da Companhia
Ferroviária São Paulo-Paraná, dando assim um passo decisivo no processo de colonização que viria a
empreender. Essa ferrovia fazia a ligação do Estado do Paraná com outros Estados brasileiros, além de
integrar o Norte do Paraná. O título da primeira propaganda da CTNP veiculada no Paraná-Norte, em 9 de
outubro de 1934, “A CAMINHO DO PARAGUAY”, tinha como objetivo produzir um efeito de sentido
no leitor que apontava para um objetivo ambicioso, que seria o de ligar a região aos países vizinhos, no
caso Paraguai e Argentina, através do rio Paraná.
O texto desta propaganda pode ser dividido em três momentos: o primeiro em que um sujeito está
falando pelo jornal sobre a ferrovia e ocultando a CTNP, sua proprietária; o segundo em que há um
deslizamento, já que o sujeito traz à cena a própria CTNP, e um terceiro onde o sujeito dá visibilidade aos
habitantes, isto é, aos compradores que passaram a habitar as terras colonizadas.
Essa primeira propaganda, ao se utilizar de uma linguagem pré-construída para responder aos
questionamentos do interlocutor, através de qualificativos como: fértil, pujante, apropriada, ideal, para
caracterizar a zona que será atravessada pela F.F.S. Paulo-Paraná, cria um sentido para a região,
exaltando a natureza local e sua posição estratégica rumo ao destino almejado (Paraguai e Argentina, via
rio Paraná). Assim, pode-se considerar que este primeiro momento do texto é marcado por um sentido
produzido por um sujeito (locutor) que fala pelo jornal em nome da CTNP.
No segundo momento, o sujeito traz à cena a própria CTNP. O locutor procura imprimir um tom
de evidência, tentando mostrar a importância da colonização como propulsora de desenvolvimento e de
progresso, utilizando-se para isso de uma maior objetividade nas informações, através de números (a
propaganda traz um quadro de informações sobre a quantidade de lotes vendidos, desde o início da
colonização – 1930 – até a veiculação desta – outubro de 1934). Os efeitos de sentidos produzidos
silenciam o fato de que a CTNP tivesse como objetivo o lucro. Assim, o leitor é levado a entender que o
desenvolvimento, o progresso desta abençoada zona estava em primeiro lugar nos interesses da
colonizadora e que os números apenas comprovariam o progresso já realizado nas terras “generosas” e
com “proteção divina”.
No terceiro e último momento, o texto é marcado por um sujeito que dá visibilidade aos
habitantes, aos dez mil compradores de terras da CTNP. Coloca o leitor diante de uma nova realidade, a
de poder vir a ser mais um participante do “notável movimento” desta companhia, assim como são cerca
de dez mil pessoas que habitam as terras da região.
Na realidade, o sentido veiculado nesse terceiro momento é o de que antes da venda dos primeiros
lotes, ninguém habitava a região. Note-se que a CTNP fala em “habitantes” e não “compradores”, que
para participar desse “notável movimento” é preciso adquirir terras da colonizadora. Neste caso, silenciase palavras como venda, compra e empreendimento. Assim, “(...) na impossibilidade de fornecer todos os
elementos para a interpretação em decorrência da própria incompletude da linguagem, o leitor/ouvinte
tem reservado seu lugar no espaço discursivo, podendo transformar-se também no sujeito agenciador do
sentido”. BRANDÃO (1998: 16 )
Na realidade, as propagandas da CTNP estampadas
na última página do Paraná-Norte nada
mais fazem do que reforçar uma tendência acentuada desse Jornal em demonstrar e se ocupar com
notícias sobre o ordenamento da cidade, cujo efeito de sentido mostrava Londrina e região do Norte Novo
do Paraná como o lugar do progresso e da ordem, fruto do empreendimento colonizador da companhia.
Ao silenciar os conflitos que acompanharam a instalação do projeto imobiliário capitalista da CTNP, o
Paraná-Norte apagou, na medida do interesse e da necessidade, as lutas ideológicas e a desordem de todo
o processo de ocupação, homogeneizando a memória de uma época.
Segundo MARIANI,
“ (...) o discurso jornalístico toma parte no processo histórico de seleção de acontecimentos que
serão recordados no futuro. E mais ainda: uma vez que ao selecionar está engendrando e fixando
sentido para estes acontecimentos, a imprensa acaba por constituir no discurso um modo (
possível ) de recordação do passado”. (MARIANI, 1993: 3)
Se essas análises apresentam a tendência de acentuação da ordem é nos Autos Criminais que se
encontram a sua contraparte, ou seja, a desordem, a memória silenciada. Pois, conforme ADUM (1991) é
nos Autos que emerge a passagem do conflito individual para o público, revelando a dupla dimensão
desta característica que, ao mostrar o desvio, acaba por explicitar as normas sociais que estão sendo
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impostas. Dessa maneira, “(...) apesar dos limites destas fontes, os conflitos cotidianos que se tornaram
públicos permitem a reconstrução de sua trajetória”. ADUM (1991: 24). O que possibilita transformar a
vida local e os pequenos atos em processos visíveis e dotados de significados.
E mais, as histórias narradas nos Autos dos Processos Criminais e discutidas no julgamento, bem
como a sentença criminal decorrente, não resultam apenas de juízos frios que avaliam com
“imparcialidade” os atos dos envolvidos. Elas decorrem de uma conjunção de categorias morais que não
só definem e classificam as características da vítima e do réu, como também definem como deve ser a
prática jurídica adequada e o que deve ser considerado certo e errado.
Até o momento, foi realizado levantamento em quarenta Autos da 1ª Vara da Comarca de
Londrina, catalogados e disponíveis no Centro de Documentação e Pesquisa Histórica – CDPH/UEL,
tomando como critério os anos de circulação do jornal Paraná-Norte (1934-1953). Destes, três foram
selecionados para análise em profundidade (dois tratam de lesões corporais e um sobre intolerância
religiosa), considerando os relatórios do promotor, delegado e as vistas do juiz, pois nestes estão
presentes os fatos da transgressão, as interpretações das autoridades constituídas e o desfecho do
processo.
Em um primeiro contato com o material, foi possível constatar que no exame do trâmite do
inquérito policial, desde a sua instauração (que deve cumprir as exigências do Código de Processo Penal –
CPP), emergiam algumas estratégias de silenciamento. Conforme CORRÊA (1983), durante este trâmite
emerge o lado mais forte, dependendo do número e da qualidade das testemunhas, da influência nessa
relação do enquadramento final do juiz, do crime e dos agentes envolvidos. Portanto, quando os fatos são
transformados em versões, o analista precisa perceber o processo de construção dessa realidade e
entender que entre as palavras reside o silêncio.
Mais ainda, outros detalhes escapam à visão do analista como: a infra-estrutura, a movimentação
do processo dentro do Palácio da Justiça e os pequenos serviços de que se encarregam os cartórios e seus
funcionários. Assim, qualquer falha pode resultar e/ou abrir possíveis recursos, favorecendo uma das
partes envolvidas no processo.
A intenção, porém, não foi a de ter uma visão detalhada dos passos percorridos por um processo,
mas apontar as possíveis trilhas e caminhos que se cruzam neste ou naquele momento processual que
contribuíram, de algum modo, para o apagamento de outros sentidos possíveis. Assim, no primeiro
Processo, que acusa um imigrante alemão de agredir seu inquilino (imigrante polonês), o réu foi
absolvido por falta de provas devido a “falhas processuais”. E mais, por envolver imigrantes, chama a
atenção para outro aspecto, ou seja, para o “silêncio” de muitos imigrantes instalados em Londrina. Pois,
outros Processos, que envolvem imigrantes estrangeiros, falam destes dentro de certos sentidos
necessários para a construção da ideologia do progresso, para que não signifiquem fora destas formações
discursivas.
O segundo Processo, envolve uma prostituta que acusa um advogado de agressão e roubo. Na
análise desse inquérito, embora a vítima argumentasse munida de atestados médicos que comprovavam a
agressão, esta “em silêncio é silenciada”, visto que emerge somente a voz dos agentes policiais,
defendendo o acusado. Mais ainda, em todo o Processo a conduta da vítima é questionada, sendo que,
paradoxalmente, é o acusado que aparece como “vítima das loucuras de uma prostituta”. Nesse caso,
apesar da autoria ter sido comprovada o réu não é indiciado, tendo em vista a existência de falhas na
condução das investigações por parte dos policiais. Dessa forma, silencia-se a vítima “uma prostituta”.
O terceiro e último Processo, um Reverendo protestante recorre à justiça para reclamar sobre a
violência que sofreu quando pregava, em praça pública.. Diante da morosidade da justiça, recorre à
interferência do então interventor Prefeito Hugo Cabral. Porém, nenhuma medida é tomada.
As imagens de progresso e harmonia social construídas pela Companhia colonizadora
confrontam-se com fatos como este, um Reverendo imigrante inglês que, diante da intolerância religiosa
presente na cidade, acaba por se mudar para a Suíça. A Terra da Promissão e “abençoada zona” –
expressão utilizada pela CTNP em sua propaganda no Paraná-Norte – que recebia a todos de braços
abertos, “silenciosamente” expulsa.
Finalizando, as análises aqui presentes foram possíveis, considerando a formação discursiva a qual
nos inscrevemos. Outras análises, de outros pesquisadores, podem apontar para outros “silêncios”,
“apagamentos” e “confrontos ideológicos” aqui não considerados.
RESUMO: O presente artigo apresenta reflexões acerca da questão “silêncio e ideologia” no Jornal
Paraná-Norte, primeiro periódico editado na cidade de Londrina-Pr, que circulou entre 1934-53.
PALAVRAS-CHAVE: Jornal; silêncio; Ideologia
Ana Maria Chiarotti de ALMEIDA & Roselaine BOLOGNESI
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ADUM, S.M.S.L. Imagens do Progresso: civilização e barbárie em Londrina, 1930/1960. Dissertação
de Mestrado, Departamento de História, UNESP/Assis, 1991.
ALTHUSSER, L. Aparelhos ideológicos de Estado: notas sobre os aparelhos ideológicos de Estado. Rio
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BRANDÃO, H.N. Subjetividade, Argumentação, Polifonia. A propaganda da Petrobrás. São Paulo: F.
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CESÁRIO, A.C.C. et al. Outras Palavras... sobre as formas de dizer e as formas de silenciar ( as
transgressões no Paraná-Norte ). Projeto de Pesquisa. Londrina/UEL, 1998.
CORRÊA, M. Morte em família: representações jurídicas de papéis sexuais. Rio de Janeiro: Graal, 1983.
MARIANI, B.S.C. Os primórdios da imprensa no Brasil ( ou: de como o discurso jornalístico constrói
memória ). In: ORLANDI, E.P. (Org.). Discurso Fundador: a formação do país e a construção da
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MARINÓSIO FILHO, T. & MARINÓSIO NETO, T. História da imprensa de Londrina: do baú do
jornalismo. Londrina: UEL, 1991.
ORLANDI, E.P. Interpretação; autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. São Paulo: Vozes, 1996.
_____. As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. Campinas: Editora da UNICAMP, 1997.
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