DO Editorial A República Suplemento Nós,doRN... Diário Oficial do Estado do Rio Grande do Norte Ano I - Nº 04 - Março de 2005 Poesia, dor e alegria da alma O Nascimento de Vênus - Pintura de Sandro Botticelli - 1485 2 Suplemento nós, do RN Natal - Março de 2005 Apresentação Em defesa da Cultura Rubens Lemos Filho proveitando esta edição de "nós, do Os poetas norte-rio-grandenses passaram RN" em homenagem ao Dia da também a contar com as Casas de Cultura, que já Poesia, cumpre-nos divulgar que o são 11 distribuídos pelos quadrantes do Estado, e Governo Wilma Maria de Faria se distingue na com o Cine Teatro de Cultura Popular e o palco história política do Rio Grande do Norte pelos aberto a todos no auditório da própria FJA. investimentos feitos no campo da Cultura. Ampliando para as artes e a cultura em O Prêmio Luis Carlos Guimarães de geral, além da Galeria de Arte Newton Poesia, promovido pela Fundação José Navarro, com exposições permanentes à disAugusto, é um exemplo concreto. Além de posição do público, a governadora Wilma ofertar valores de 10, sete e cinco salários-míMaria de Faria acaba de anunciar a transfornimos, respectivamente, aos três primeiros mação da antiga Penitenciária João Chaves colocados, além de editar seus livros reservannum espaço cultural - o primeiro na Zona do-lhes uma cota de 50 exemplares. Em Norte da capital norte-rio-grandense. número de doze, os ganhadores de "Menção Diante disso, o Dia da Poesia de 2005 é Honrosa" terão a publicação dos seus livros, um dia de vitórias da cultura e, portanto, de com direito a 20 cada um. alegria para os poetas e o povo em geral. A Editorial Estado do Rio Grande do Norte Assessoria de Comunicação Social Wilma Maria de Faria Governadora do Estado: Carlos Alberto de Faria Gabinete Civil do Governo do Estado Rubens Manoel Lemos Filho Assessoria de Comunicação Social D.E. I. Rubens Manoel Lemos Filho Diretor Geral em exercício Henrique Miranda Sá Neto Coordenador de Administração e Editoração Juracir Batista de Oliveira Subcoordenador de Finanças Eduardo de Souza Pinto Freire Subcoordenador de Informática Meus poetas vivos (e mortos) nós, do RN Miranda Sá Miranda Sá Q uando decidimos tirar o "nós, do RN" no Dia da Poesia, num esforço concentrado para enaltecer os bem-aventurados amantes das musas, senti-me arrastado para a lembrança dos primeiros arrastões que fizemos, liderados por Eduardo Alexandre e Plínio Sanderson, indo da Catedral ao Bar Mintchura (ou seria o inverso?). Memorizo permanentemente a passagem solene de cada um dos nossos poetas sob a curiosidade popular. Alguns vêm faltando nos últimos anos; mas Celso da Silveira - o ausente mais próximo, comparecerá pelas páginas de "nós, do RN", e com ele a lembrança de muitos faltosos. Sem qualquer espécie de discriminação aos outros poetas que foram ao encontro das divindades inspiradoras da poesia, gostaria de lamentar a falta de dois queridos amigos, Bosco Lopes e Luiz Carlos Guimarães. Arquitetos da palavra, Bosco e Luiz Carlos conquanto fugissem dos epigra- mas apimentados de Celso, nivelavam-se a ele na aceitação da nação potiguar, porque os seus poemas, embora "brancos" na classificação pedagógica, eram coloridos na unidade rítmica do inusitado, cujo subjetivismo era acessível a todos. Euterpe (deusa da poesia) deve tê-los em seu regaço, justificando que não compareçam materializados ao desfile dos cancioneiros potiguares que expressam nas ruas de Natal a lírica do nosso povo todo dia 14 de março. panheiro Juracir Batista de Oliveira, recebi os exemplares do Suplemento “Nós do RN”, e lendo, no segundo, do mês de dezembro no seu editorial, você registra o resultado da consulta realizada. Na qualidade de assinante que somos devo-lhe dizer que a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI) por nosso intermédio também se solidariza e lhe parabeniza pela chefe de redação Moura Neto equipe redacional Paulo Dumaresq - reportagem João Ricardo Correia - reportagem João Maria Alves - fotografia diagramação e arte final Edenildo Simões Alexandro Tavares de Melo pesquisa Anchieta Fernandes colaboradores Carlos Morais Emanoel Amaral Rubens Lemos Filho J.Charlier Fernandes Carlos de Souza apoio gráfico Correspondências Senhor Diretor Como leitor assíduo, e admirador dos seus artigos pela forma de como escreve abordando com seriedade os mais variados assuntos, somente hoje tive a satisfação de conversarmos, na audiência que nos concedeu. Na ocasião após tratarmos de assunto em pauta que me levou a sua presença, presente também o com- editor-geral Willams Laurentino Valmir Araújo iniciativa pelo feito, por entender a importância que este suplemento representa para o nosso Estado, daí porque interessa-nos receber também a partir de agora os números seguintes. Agradeço pela atenção, aproveitando para externar protesto de consideração e apreço. Pedro Ricardo Filho Secretário Regional DEPARTAMENTO ESTADUAL DE IMPRENSA Av. Câmara Cascudo, 355 - Ribeira - Natal/RN Cep.: 59025-280 - Tel.: (084) 232-6793 Site: www.dei.rn.gov.br - e-mail: [email protected] Natal - Março de 2005 Suplemento nós, do RN 3 Da arte de encantar os viventes Paulo Jorge Dumaresq D esde os tempos mais remotos da civilização até os dias de hoje, o gênero humano sempre sentiu a necessidade de expressar sentimentos e impressões traduzidos da observação de imagens internas e externas. Seja no exame atento do cotidiano ou mesmo da alma, o homem e a mulher procuraram, ao longo da história, exteriorizar suas emoções em versos. No Brasil, o fazer poético é celebrado em 14 de março. O Dia Nacional da Poesia, não por acaso, coincide com a comemoração do nascimento do poeta baiano Castro Alves. Ícone do Romantismo, o “Poeta dos Escravos” foi autor de obras da magnitude de O Navio Negreiro e de Espumas Flutuantes. Provavelmente a mais antiga das formas literárias, a poesia é contemporânea da dança, da música e da pintura rupestre. Como asseverou acertadamente o poeta e compositor Arnaldo Antunes, “a origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem”. Do grego poíesis, ‘ação de fazer algo’, pelo latim poese, a poesia consiste no arranjo harmônico das palavras. Um poema organiza-se, geralmente, em versos caracterizados pela escolha precisa das palavras em função de seus valores semânticos (denotativos e, especialmente, conotativos) e fonéticos. É possível a ocorrência da rima, bem como a construção em formas determinadas como o soneto e o haicai. Segundo características formais e temáticas, classificam-se diversos gêneros poéticos. A definição de poesia não é algo simples, não obstante, no universo literário, poetas maiores e menores, professores de literatura, leitores e simpatizantes em geral terem a sua própria. Aliás, o conceito está sempre em transformação, se renovando ou mesmo em processo, visto que a poesia é sempre contemporânea de si mesma. Qualquer definição é insuficiente. Na concepção de Teixeira de Pascoais, “poeta quer dizer profeta”. Seguindo essa linha de raciocínio e tomando a frase como exemplo, podemos inferir que poesia afirma profecia. Profecia no sentido lato, dilatado, em que as idéias anunciam o “sentimento do mundo”. Mas a poesia pode ser mais do que profética. Composta de signos, ela ainda pode ser religiosa, mítica, onírica, política ou romântica, dependendo do modo como as imagens são processadas e trabalhadas. E como bem anotou a professora doutora em Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo e da Universidade Mackenzie, Marlise Vaz Bridi: “Imagem puxa palavra”. Que a ratifique o nosso subconsciente. Vaz Bridi ilustrou que “o olhar para dentro de si ainda produz a leitura de tudo isso, mas em clave interna, onde sensações, sentimentos, intuições, aspectos subjetivos, psicológicos, afetivos, emocionais, eclodem em imagens, em palavras”. Há quem reconheça ser a poesia maior do que o poeta e o bardo um mero instrumento da literatura em versos. Por isso mesmo, ela transcende os tais versos, ultrapassa o poeta. Um ou outro alega que a inspiração é freqüentemente mais um ato de ser inspirado pela própria poesia, latente ou manifesta. Definição na ponta da língua Para melhor entendimento do que é poesia, consultemos os literatos. O frio verbete do dicionário Aurélio ensina que poesia é “o que há de mais elevado ou comovente nas pessoas ou nas coisas” ou “aquilo que desperta o sentimento do belo”. Mas será que a poesia só desperta o sentimento do belo? E o feio que se nos apresenta a todo instante? Onde fica nessa questão? No ar, na natureza, na mulher, no homem, na rosa, no espinho, no incesto, no amor pela miséria, na violência urbana, na tragédia das guerras, na vida, enfim, na morte, a poesia está presente, até mesmo na “réstia de cebola”. “Que é a poesia? Uma ilha cercada de palavras por todos os lados”, afirmou Cassiano Ricardo, em Poética. Pesquisamos e as definições se sucedem como o fluxo e refluxo das águas do mar. “A poesia é a arte de comunicar a emoção humana pelo verbo musical”, externou o escritor francês René Waltz. Outro conceito, este do crítico e editor inglês, John Middleton Murry, esclareceu que é “a expressão natural dos mais violentos modos de emoção pessoal”. Uma terceira complementa as anteriores. No entender do poeta inglês William Wordsworth, a poesia é “o extravasar espontâneo de poderosos sentimentos”. Para o mexicano Octavio Paz, Nobel de Literatura, poesia é “a linguagem em estado de pureza selvagem”. Mais profundo, o filósofo alemão Martin Heidegger qualificou-a de “fundação do ser mediante a palavra”. Já o lingüista russo Roman Jákobson também mergulhou fundo na questão, afiançando que a poesia é “a linguagem voltada para a sua própria materialidade”. Enigmático, o poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca declarou que “todas as coisas têm seu mistério, e a poesia é o mistério que todas as coisas têm”. O poeta francês Mallarmé, defendendo uma outra concepção, sustentou que “a poesia se faz com palavras, e não com idéias”. E, segundo T. S. Eliot, “aprendemos o que é poesia lendo poesia”. Dir-se-ia ainda que a poesia não sobrevive sem o significante e o significado. É este consórcio, e não apenas o significado, que provoca sentimentos, impressões, emoções ou reflexões. Na poesia cada palavra tem seu papel, não apenas por seu significado, mas por seu ritmo, pela sua sonoridade, pela forma como se relaciona com as outras palavras, e, modernamente, até mesmo pelo seu aspecto visual. A lógica da poesia vai além da estrutura sintática e do seu significado. Declamando ou escrevendo, fazer poesia é expressar-se de forma a combinar palavras, mexer com o seu significado, utilizar a estrutura da mensagem. Isto é a função poética. A poesia sempre se encontra dentro de um contexto cultural e histórico. Os vários estilos poéticos, as fases de cada autor, os acontecimentos da época e tantas outras interferências muitas vezes se misturam à obra e lhe dão novos significados. Monumento vivo da literatura brasileira, a poetisa mineira Adélia Prado descreveu a poesia como sendo “a revelação do real”. Prosseguindo comentou: “Ela é uma abertura do real. Ela revela aquilo que a gente não sabe. Isso é que é poesia para mim.” E concluiu: “Ela me tira da cegueira. Eu acho que a poesia é um fenômeno da natureza, igual à tempestade, rio, montanha”. Diante dessa definição-poema, o silêncio torna-se obrigatório. 4 nós, do RN POETAS imortais Carlos de Souza N o salão vazio da Academia Norte-RioGrandense de Letras ecoa a voz dos poetas que nos observam silenciosos dos seus retratos na parede. É neste ambiente que o presidente da instituição, o poeta Diógenes da Cunha Lima, nos recebe para falar dos poetas que habitaram e habitam os cômodos da ilustre casa criada por Câmara Cascudo. A ANL é uma paixão para Diógenes, que já está em seu décimo primeiro mandato na presidência. Sua outra paixão é o patrono Câmara Cascudo, de quem é biógrafo. O próprio Diógenes, autor de vários livros de poesia, com destaque para o Livro das Respostas, em que dialoga com o poeta chileno Pablo Neruda, nos explica a origem da Academia: "De fato, o Brasil copiou o modelo da Academia Francesa, criando a Academia Brasileira de Letras sob a liderança de Machado de Assis. Assim, sob os mesmos moldes, foram criadas em cada estado brasileiro". No Rio Grande do Norte, aconteceu na casa de Câmara Cascudo. "O poeta Câmara Cascudo, que era um bom poeta. Eu publiquei quatro de seus versos que são fantásticos, no Brasileiro Feliz, mas ele teve muito mais. Ele fazia poesia em prosa. Na maioria de seus textos você encontra períodos inteiros com ritmo poético que ele Diógenes: falando de poetas Suplemento sabia fazer como ninguém". Então, atesta Diógenes, a Academia foi fundada já sob o signo da poesia, a partir de Câmara Cascudo. Isso sem falar que Cascudo deixou uma das melhores traduções para alguns versos de Walt Whitman. "E logo em seguida, o primeiro presidente foi Henrique Castriciano. Poeta maior, na época o poeta básico do Rio Grande do Norte, essencial, o maior de todos, o mais aplaudido, o mais querido, o mais festejado". Observando a lista de patronos, que obedece ao rígido número de 40 membros, Diógenes confirma a supremacia da poesia sobre a prosa no número de adeptos deste gênero literário. Como Natal ganhou a fama de ter um poeta em cada esquina, a ANL não poderia deixar de ter mais poetas que prosistas em suas cadeiras. "A primeira já é uma poetisa, Nísia Floresta Brasileira Augusta. Depois, Lourival Açucena, poeta dos melhores que o Rio Grande do Norte produziu; Isabel Gondim, professora; Segundo Wanderley, bom poeta; Ferreira Itajubá, um dos maiores poetas do século 19, um dos precursores da poesia moderna no Brasil, o mais fantástico dos poetas, porque não era só um escritor, mas que fez da vida um poema". A vida de Ferreira Itajubá, acentua Diógenes, é rigorosamente um poema. Ele foi mestre-escola, redator de revistas e jornais. Depois resolveu entrar num circo. Seguiu para o interior, onde aprendeu todos os truques de mágica, malabarismo, equilibrismo, trapezismo, e fazia também o trabalho de ator. "Em seguida resolveu fazer em sua casa, na Rua Chile, o seu circo em que ele era o protagonista e único de todos os fazeres. Além disso, era um homem extraordinário, resolveu criar o primeiro bloco de Natal que saía às ruas em carro. E trouxe para as ruas a Mitologia Grega, colocou Cascudo, que era menino, para ser Apolo (naturalmente Cascudo no tempo da infância devia ser bonito para ser o Apolo, além de ser a figura)". Segundo Diógenes, "o poeta Ferreira Itajubá era um homem mulherengo, apaixonado, as mulheres todas, as damas da sociedade, as meninas do baixíssimo clero, tinham por ele uma emoção grande. Este era um poeta maior que derramava poesia sobre a Cidade do Natal". Outro grande poeta da Academia foi Jorge Fernandes, um homem que marcou sua época com sua poesia forte, bela, inovadora. "O grande modernista, o poeta excelente, extraordinário que fez de sua vida também um poema". Outra presença marcante da ANL é a poetisa Auta de Sousa. "Ela teve uma presença marcante e ainda hoje continua a fazer poesia nas sessões espíritas. Um detalhe: Tive a curiosidade de ver livros psicografados sobre ela. Há um de Minas Gerais, do famoso Chico Xavier, que é da mesma qualidade artística. Outro produzido em Santos, que eu recebi e achei também de excelente categoria". Auta, que teve amores e que Cascudo demonstrou em Vida Breve de Auta de Sousa, foi uma pessoa extraordinária que viveu para a poesia, diz Diógenes. "Auta, que veio de Macaíba e faleceu aqui em Natal, deixou seu livro Horto, apresentado por Olavo Bilac, foi seguramente a primeira poetisa potiguar a ter uma apresentação nacional. Porque Olavo Bilac era amigo de Henrique Castriciano e Eloy de Sousa (irmãos de Auta) e Natal - Março de 2005 Jorge Fernandes: o grande modernista apresentaram e lançaram Auta para o Brasil, até hoje lida e musicada muitas vezes". O outro grande nome é Nísia Floresta. "Nísia, por outro lado, a primeira de nossas patronas, foi uma escritora extraordinária na pré-história do feminismo mundial. Seus livros são encantadores, são pura emoção. A Lágrima do Caeté é poesia interessante, não vou dizer que ela era grande poetisa, ela era senhora da prosa, mas também fazia poesia e de modo interessante, ágil". Mesmo assim, Nísia não era unanimidade na Academia. Havia uma voz discordante. A rival de Nísia Floresta na Academia era a professora Isabel Gondim. "Era uma espécie de opositora de Nísia, até porque não aceitava os costumes de Nísia, que foi casada, depois teve amantes, queria formar uma escola de administração para moças, no modelo europeu, que era considerado na época muito além de nossa província, e do Brasil mesmo. Mas ela fez o Colégio Augusto no Rio de Janeiro e deu a semente, o sonho que veio a ser transformado na Escola Doméstica pelo seu ocupante da primeira cadeira, Henrique Castriciano, que era apaixonado por ela". As horas vão se escoando no salão quase vazio agora. A tarde quente de Natal lá fora não vê o esforço do poeta ao tentar desfiar a memória. Está quente lá dentro, apesar do ar-condicionado. Diógenes busca na lista de patronos um nome que lhe inspire, enquanto se ouve o clicar da máquina do fotógrafo João Maria Alves acordando os fantasmas nas paredes da Academia. Diógenes então lembra de Gothardo Neto, "um poeta esmerado, bom sonetista, interessante. E de uma família de talentos extraordinários. Tem muita gente talentosa". Suplemento Natal - Março de 2005 Imortais vivos Presença poética dominante Silêncio no salão, Diógenes busca novas palavras e retoma: “De maneira que na Academia, desde os seus patronos, dos primeiros ocupantes até hoje, há uma presença poética muito forte. Fora disso, quero dizer que quase todos os outros cometeram versos. Não foram poetas excepcionais, o próprio Cascudo não publicou um livro de poemas. Publicou prosa poética extraordinária, às vezes de uma beleza incrível. Alguns textos que eu chego a mostrar o ritmo. Ele gostava da redondilha, da redondilha maior, muitas vezes ele escrevia em prosa usando redondilhas. Então a memória retorna como em círculo e Diógenes volta aos primeiros patronos. “Entre os ocupantes iniciais temos Henrique Castriciano, que foi o primeiro presidente; Carolina Wanderlei fazia boa poesia; Antonio Soares, desembargador, poeta interessante, ágil, vivo e que era também letrista e se fazia serenata a partir de seus poemas”. Diógenes faz uma pausa, olha ao redor como se buscasse fôlego para lembrar tantos poetas. Pousa seus olhos na lista à sua frente e recomeça: “Francisco Palma, foi excelente; Clementino Câmara e, sobretudo, entre os primeiros, Palmira Wanderley. Esta a poesia que se derramava pela cidade. O Roseira Brava e Outros Poemas eram recitados e cantados no Nordeste. Eu fui designado pela Academia para ser o orador no seu sepultamento. Lá todos sabiam decorados os versos de Palmira”. A tarde teimava em cair, como faz todos os dias. Mas nesses dias de verão ela cai mais lentamente, como se sentisse o torpor dos dias quentes e úmidos. Os poetas da Academia, os vivos e os mortos, aguardavam sua devida homenagem. Diógenes toma fôlego e traça o rumo da conversa. “Entre os que se seguiram, vem Mariano Coelho, poeta de Currais Novos, interessantíssimo. Autor de quadrinhas, andou estudando a poesia oriental, fazia motes e glosas, realmente interessantes. Alguns, para a época, chamados de licenciosos. Um poeta vivo, um homem simpático, que decorava versos”. Às vezes a memória nos prega algumas peças e quando menos percebemos estamos dando pulos cronológicos. Diógenes, como todo ser humano, também tem tais características, apesar de ser um imortal. Daí sua próxima fala demonstrar este pulo no tempo. Agora ele fala sobre um poeta da atualidade. “Um poeta interessante é o atual secretário geral da Academia, um poeta muito bom, apesar de ser mais conhecido como jornalista, como romancista, contista: Nilson Patriota. Não é apenas o radialista, o homem de imprensa, não. É um poeta de grande força do verso, do ritmo”. Aparentemente, abandonamos de vez a sociedade dos poetas mortos e entramos no mundo dos poetas vivos. “Um artista múltiplo do Rio Grande do Norte. O nosso excelente produto de exportação. Está no mundo inteiro, premiado nas Ardenas, a minha filha viu um enorme mural dele no Canadá, eu vi em Bohn, na Alemanha, no antigo Ministério da Tecnologia, no Vaticano, na Casa Branca, em todo canto, esse pintor que é um poeta admirável chamado Dorian Gray Caldas. Ele é além da conta. Um poeta, um jornalista, um escritor maravilhoso, um poeta por natureza, vive a poesia”. Diógenes faz as contas, sopesa, calcula a importância de seus poetas queridos, companheiros de Academia. Lembra de outro, este vivo: “Paulo de Tarso Correia de Melo, um poeta do Brasil, seguramente um poeta nacional, Rio dos Homens é obra de inteligência, simplicidade, ta-lento, capacidade. Este é um poeta do Brasil. Não quero dizer que ele seja lido no Brasil, mas devia ser. É um cultor de literatura, belas artes, um crítico, cada prefácio que ele faz é um ensaio. Um poeta dos melhores”. Mais uma pausa. O sol já desce sobre os mangues do Potengi e nós sentimos seu movimento, apesar de não vê-lo. “Uma figura notável que também faz poesia da vida, absolutamente notável, é dom Nivaldo Monte. Ele é compositor, pouca gente sabe, mas compõe valsinhas, notadamente. Eu, quando Reitor, publiquei valsas dele, trabalhos dele. É um poeta delicado, um homem de palavra fácil. O poema que não só enobrece, mas que eleva. O poema que mostra a dignidade do homem. Este dom Nivaldo Monte, um poeta da cidade, com muitos livros publicados e, se Deus quiser vou fazer sua biografia”. A memória não percorre apenas o tempo, mas também o espaço. Agora voltamos nossa atenção para o Vale do Ceará-Mirim. “Nilo Pereira, poeta de Ceará-Mirim, exilado para o Recife, mas continuava saudosos do Vale. Há uma crônica poética dele chamada O Dia da Criação, uma beleza. A partir daí o tempo se acelera e Diógenes começa a listar os poetas que não foram citados. “Rafael Rabelo, um mestre da poesia, Edinor Avelino, o poeta de Macau e seu filho Gilberto Avelino, grande poeta; Esmeraldo Siqueira, o boca do inferno potiguar, demolidor em suas críticas; Vicente Serejo, um poeta da crônica; Newton Navarro, um pintor que era acima de tudo poeta, um dramaturgo, um contista, um homem da palavra; Luís Carlos Guimarães, meu irmão mais que irmão, meu amigo, um poeta refinado, lírico ”. Diógenes da Cunha Lima encerra a lista de poetas da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras abrindo uma porta para o futuro. Para ele, aquela casa sempre será abrigo de poetas. Tanto é que está providenciando um conjunto de escultura no jardim da casa em que serão colocados, lado a lado, o poeta chileno Pablo Neruda, Câmara Cascudo e Manoel Rodrigues de Melo. Um claro recado de que a Academia sempre terá como destaque a poesia e os seus poetas. Tanto é que já existe um programa chamado Academia Para Jovens, coordenado pelo poeta Paulo de Tarso Correia de Melo, que consiste em levar jovens estudantes para conhecer de perto a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. “Este programa já tem, rendido bons frutos, pois algumas cidades participantes do programa já criaram suas academias de jovens”. A ANL também planeja, ainda para este ano criar um concurso literário em que só podem participar autores jovens potiguares. A Academia quer também os poetas jovens e vivos. A tarde se despede da cidade, morna e apaixonada por poesia, enquanto a noite anuncia chegar com sua festa de lua e estrelas. nós, do RN Auta de S ouza Isabe l Gon Nísia Flore dim sta 5 6 Suplemento nós, do RN Quando meu pensamento se transporta Às praias de além-mar, Sinto no peito uma tristeza imensa Que manda-me chorar. É que vejo morrerem, uma a uma, Santas aspirações, E voarem como os pássaros saudosos As minhas ilusões... Nunca julguei que a terra fosse um túmulo De sonhos juvenis, Sorrindo acreditei que aqui, no mundo, Podia ser feliz... Auta de Souza Natal - Março de 2005 De tão intensa, me tornei escrava. De tudo que é exilio. Êxolo e linguagem. Marize Castro Bendita sejas tu, preguiça amada, Que não consentes que me ocupe em nada! Juvenal Antunes Que sejas sempre assim – a imagem da ternura; E o doce lenitivo às dores dessa dor... Trazendo à solidão de minha noite escura Uma réstea de luar de um perfume de flor. Ezequiel Wanderley Não Nada é necessário Além da vontade de sentir no ar As pulsações de um desejo preso É preciso aprender com os suícidas O silêncio fechado num quarto de dormir E amordaçar a boca num gesto de pânico. arquitetes o som. Não estrutures o nada. A fome basta ao hábito De ser. Basta ao homem o nome de homem. Seu sono, sua dor. Te quero Hoje e amanhã Com sexo Ou sem nexo Carlos Gurgel Sanderson Negreiros Dailor Varela No Que saudade, sem fim, de outras terras me veio! Que ansia de me esquecer por estranhos lugares! Pois, se não tenho aqui lenitivo aos pesares Quanto mais quem me aqueça ao mormaço de um seio! Ferreira Itajubá tom mais velado Conto o segredo Ao fundo do poço. Como se fosse gravada Com um ferro em brasa, Nunca se apagará No rosto da água A cicatriz da poesia Luis Carlos Guimarães Suplemento Natal - Março de 2005 nós, do RN 7 Foto do site www.morroimobiliaria.com Os lírios murcham No jarro Não feneceram ao acaso. Tenho-os para lembrar-me Que, como eles, Sou carne. A noite adormece só ( a noite é curta como a vida), Longe a música, O brilho da festa Estou só Mais perto de minha alma. Adriano de Sousa Faço três versos à toa, Vou num sonho passear. Três rosas lembram-me a infância Meu nome ficou num sino Perdi meu riso no mar. Newton Navarro Doriam Gray Caldas Crio o verso No mundo adverso E anverso. O mundo é sempre assim – a desgraça e a ventura, O esplendor da grandeza e a miséria sem nome; Uns, cativos da sorte, a parecer de fome; Outros, da sorte a rir, na pompa e na fartura. Gothardo Neto Meus antecedentes criminais: Vida Vento E morte Nas estrelas ainda a canção De teu último vôo E assim vou eu no céu De teu coração. A consoante Dissonante Completo amor desamor amargor. Vejo ainda a cor De tuas asas ao vôo E, de cor, Recanto a tua paixão Num recanto de meu Coração. De propulsões Jorram expressões Com variações. Ouço vivo assim – sorrindo... O riso, para mim, exprime tudo... E no ato mais sério, estando rindo, Sou mais sério, sorrindo, que sisulo! Jorge Fernandes Numa rosa atômica Colho a tônica E o afixo. Sou a vogal No mundo mal E desigual. Manoel Fernandes (Volonté) Habitualmente, Entre susto e átomo Surge o étimo E o átimo. Francisco Ivan da Silva No verso Adverso O reverso. Myrian Coeli 8 nós, do RN Suplemento Natal - Março de 2005 Viva, cante e ria, agremiações literárias oficiais e, por isso mesmo, movido por versos explosivos e de caráter contestatório. Jota Medeiros, Eduardo Alexandre, Venâncio Pinheiro, Carlos Gurgel, Aluísio Matias, Novenil Barros, entre outros. O movimento da poesia alternativa, que teve na Galeria do Povo um importante canal de expressão, foi revelando novos talentos com o passar dos anos. João da Rua, Plínio Sanderson, João Barra, Dorian Lima, Sofia Gosson, Marize Castro, Adriano de Souza, entre outros. Foi uma década fértil, a de 80, em publicações de títulos em mimeógrafo e xerox - os fanzines dos dias atuais. Os autores destas obras artesanais, se assim podemos chamar, eram, e em alguns casos ainda são, os principais protagonistas da comemoração do Dia Nacional da Poesia, como também dos trabalhos levados, nos tempos idos, para a Galeria do Povo e Festival de Artes do Forte. Programação diversificada A programação do Dia da Poesia foi se diversificando, mas mantendo a mesma natureza. Os atos públicos, com participação de poetas performáticos e músicos, também foram realizados em locais como o Beco da Lama, no centro da cidade, na rua Chile, Ribeira, Passeata dos poetas além da Praia dos Artistas, estendendo-se à Ponta do Morcego, onde em certa ocasião os poetas fizeram uma intervenção pintando as pedras dos arrecifes com Moura Neto tinta lavável (claro!) e jogando "poemas ao mar". s antigos eram mais comedidos. Costumavam sensibiliza é notar que hoje toda a sociedade se envolve O poeta e professor Plínio Sanderson, que certa vez se promover saraus em suas próprias residências na comemoração desta data", afirma o escritor e artista acorrentou numa árvore da Praça Metropolitana, ou nos botecos tradicionais para recitarem plástico Eduardo Alexandre, o Dunga. atraindo a curiosidade dos transeuntes para o Dia da conhecimentos sobre literatura. Os modernos foram Ele tem razão. O Dia da Poesia, em Natal, recebe Poesia com sua eloquência poética, depois passou a além disso. Levaram a manifestação artístico/poética atenção dos agentes públicos, da imprensa e das insti- levar seus alunos à Ponta do Morcego para jogarem para os palcos ao ar livre, interagindo com a comu- tuições de ensino. Mais do que isso, atrai a simpatia do "poemas ao mar" nas comerações de 14 de março. nidade. O Dia Nacional da Poesia, comemorado em 14 povo em geral. A partir do segundo ano de Mais recentemente, no final dos anos 90, foi de março, é uma data que mobiliza a classe artística comemoração, a programação festiva inclui introduzido nas comemorações o Trem da natalense, notadamente os arautos de versos e prosas, o passeio poético pelas ruas da cidade. Os Poesia - uma viagem de locolotiva até manifestantes cami Ceará-Mirim, com intervenções poéticas nham portando faixas de todas as ordens durante o trajeto. e cartazes com frases "Nada disso acontecia num contexto criativas e até sui isolado do resto", afirma o poeta generes, verbalizanVenâncio Pinheiro, lembrando que a do palavras de década de 80, auge do movimento da ordem, do tipo arte e da poesia alternativa, foi marcada "Viva, cante e ria, hoje é o dia da poepelo fim da ditadura militar. "Tudo sia" - inspiração do ainda era muito fechado, não havia muito desde 1978. poeta João Gualberto. espaço para fazermos as coisas aconteA inspiração para comemorar festivamente a data O primeiro passeio poético, em 1979, Plínio Sanderson cerem; o Dia da Poesia acabou, portanto, veio de Recife, onde poetas como Paulo Brusky segundo recorda Eduardo Alexandre, teve sendo a explosão de tudo isso". realizaram, em 1977, uma manifestação intitulada como ponto de partida a Catedral Nova. A paraDetalhe, bem lembrado por ele: não havia (como Poesia Viva. O artista multimidia Jota Medeiros, do da final foi a Praia dos Artistas, onde funcionava, há não há) preocupação com qualidade. Para participar Núcleo de Artes da Universidade Federal do Rio dois anos, a Galeria do Povo, criação do próprio Grande do Norte e parceiro de Brusky, não teve difi- Eduardo Alexandre, que se "apropriou", com a devida dessas manifestações e se pronunciar por meio do culdades para convencer a tribo local de promover bur- permissão do proprietário, de um muro privado para verbo oral ou da poesia escrita, ninguém assinava ficha burinho semelhante. A primeira edição do Dia expor publicamente os trabalhos de poetas e de inscrição, como é ainda hoje. "Mas só se estabeleNacional da Poesia em Natal constou basicaartistas pláticos. Durante muitos anos, a ceu como poeta quem era bom", acrescenta Venâncio. mente de uma exposição de textos poéticos Galeria do Povo foi uma referência para o Mesmo depois que as instituições oficiais de cultura no muro lateral da Catedral Nova, no cenmovimento cultural da cidade dos anos passaram a contribuir com a realização das comemotro da cidade. 80. Juntamente com o Festival de Artes rações do Dia da Poesia, os poetas continuam com liberdade de expressão para fazer as coisas aconteJá se foram 27 anos, desde então. do Forte, também desta época. Um longo percurso foi traçado neste Os que estavam lá, naquela cerem, neste dia, do jeito deles. Além de muitos versos, período, a maior parte sem qualquer primeira hora, são os mesmos que rimados ou não, a irreverência, a contestação e a alegria predominam. apoio ou incentivo de entidades goverainda hoje levantam a namentais e privadas. A cada ano a bandeira da poesia movimentação em torno da data passou alternativa ou margia contar com mais adesão dos poetas e nal, termo utilizado artistas, até se tornar uma manifestação para exprimir a total cultural encampada também por órgãos liberdade do fazer poétipúblicos e particulares. "O que mais nos Eduardo Alexandre co, sem vínculos com O hoje È o Dia da Poesia Natal - Março de 2005 ie er n F ta ch An Po nós, do RN 9 e c o r p / a em a s nde , ss o Suplemento a linguagem do século O movimento do protesto pela política de privilegiar os medalhões nas poema/processo editoras e suplementos, boicotando na época os poenasceu simul- tas novos). taneamente no Rio de Janeiro e no Rio Toda uma nova mentalidade e uma nova prátiGrande do Norte, com uma exposição realizada no ca cultural nasceram daquele momento/explosão dia 11 de dezembro de 1967. Há cerca de 38 anos, que o movimento poema/processo significava. portanto. Foi num fim de noite, no Museu do Em artigo para o jornal “O Galo”, Álvaro de Sá Sobradinho (hoje Museu Café Filho), que um grupo escreveu certa vez que “o aporte prático e teórico de artistas lançou essa nova tendência vanguardista produzido por poetas e críticos do movimento que iria suceder a poesia concreta. Esse grupo, inti- irradiou-se para redirecionar o curso das atividades tulado “Dés”, tinha como maiores expoentes Falves semióticas brasileiras e, no que se refere ao poema, Silva, Dailor Varela, Marcos Silva, Anchieta também internacionais.” Fernandes e Moacir Cirne, que fazia a ponte entre o Ocorre também que, por ser uma teoria e uma movimento potiguar e o carioca. No cenário nacional, destacava-se como mentor o poeta Vlademir Dias Pino. O poema/processo contempla uma diversificação de técnicas. Re c o d i f i c a ç õ e s / e s t i l i z a ç õ e s geométricas das próprias letras do alfabeto. Poemas codificados visualmente em estágio didático. Estruturas de poemas movimentados, tendo como resultado novas versões dos referidos poemas. Poemas matrizes gráficas jogando com o claro/escuro. Poemas seriados como nas estórias em quadrinhos. Poemas animados em seu percurso gráfico de páginas. Poemas que, através do espaço em branco do papel, fazendo-o entrar nas palavras e frases, fragmentando-as, explode-as graficamente. Muitas outras coisas cabem no poema/processo: por exemplo, sinais matemáticos, traçados geométricos, ornamentos gráficos. Novas grafias. Montagens (fotos com palavras, desenhos com resultados/cores de arte plástica). Objetos/poemas. Poemas comestíveis (como o enorme pão/poema/processo que foi comido aos pedaços pelo público de uma exposição em Recife, em 1968). Projetos prévios que traçam o programa de operação de poemas. Atos/poemas (como o rasga-rasga de livros de poetas tradicionais nas escadarias do Teatro Municipal, do Rio de Janeiro, em 1968, como Poema/Processo de Falves Silva & Alfredo Gama prática de vanguarda, com suporte implicitamente marxista (o poema/processo surgiu em plena época da ditadura militar brasileira), chocou não somente os intelectuais tradicionais, mas também os usurpadores do sistema. “Fecharam exposições, perseguiram poetas, adentraram casas, submeteram a interrogatórios, violaram correspondências e ameaçaram com prisões e com desemprego. Agiram forte contra o perigo do novo”, escreveu Álvaro de Sá. Movimento continua exercendo influências O poema/processo não tinha, em si, o objetivo de lutar contra um governo totalitário, mas o de inaugurar novas linguagens. E daí a sua importância, porque, a partir dele, muita coisa foi mudando na cultura brasileira. Na década de 70, surge a poesia alternativa, tendo como veículos jornaizinhos em mimeógrafo e depois a xerox. Os poetas desse movimento deixaram de ficar apenas na linha da poesia literária para incluir desenhos interpretados como poemas visuais. Ou seja: influência do poema/processo. Nos anos 80, surge a “arte correio”, que vinha na cola das revistas/envelopes criadas pelo movimento do poema/processo, possibilitando o efervescente intercâmbio com a poesia semiótica internacional (hoje, supercomunicada via Internet). Muita coisa do poema/processo frutificou, influenciando às vezes até para fora da área estritamente poética. Muita coisa vista hoje como original estava lá, nas propostas criativas do poema/processo. Como esquecer os objetos-livros de Wlademir, Neide, Falves e José Cláudio? E os trabalhos gráficos de tipologia heterogênea de Falves e Joaquim Branco ? Muita gente não sabe, mas grande parte do que se faz hoje como inovação da ação criativa (poética ou não) vem do poema/processo. O poema/processo é a linguagem para o século 21, dos códigos ponto com, da fotografia digital e da comunicação fônica celular. Uma vanguarda não se eterniza como vanguarda. O poema novo para uma época pode ser velho para outra, seguinte. Contudo, a questão do poema/processo é que seu repertório informacional foi tão novo, trouxe tal rompimento com o passado literário e avanço nas linguagens do futuro que seu instante ainda não passou. 10 nós, do RN Suplemento MIGUEL CIRILO, O DOMADOR DO CAOS J. Charlier Fernandes N este primeiro trimestre do ano, a “Indesejada das gentes” resolveu invadir com toda crueldade os nobres espaços da p o e s i a potiguar. Empregando a sua foice fatídica, abateu primeiramente a gorda figura de Celso da Silveira, autor de uma obra profícua e prolífera, bem representativa do que ele mesmo afirmara em seu poema Epitáfio: “Aqui jaz o poeta/e não o canto/que dele foi deflagrado/como a flecha de um arco.” Mas a ceifeira, em sua emboscada sanguinária, também alcançou o poeta Miguel Cirilo, um criador que sempre refletiu sobre a tragédia existencial que se completa com a inevitabilidade da morte. Essa consciência do ser transitório percorre as páginas do seu único livro – Os Elementos do Caos -, e nos versos a seguir transcritos atinge aquele estágio de meditação pura que se pode encontrar ao longo de sua dolorosa busca de sentido para o duelo entre o viver e o morrer: “vou porque tenho de ir./não levo pena de nada./meu sonho foi existir,/meu amor – a minha estrada.” Ler e reler Os Elementos do Caos significa explorar os territórios onde a poesia ilumina com seus archotes os mais diversos espaços circulares, p o l i m o r f o s, t r a n s f i g u radores, revolucionários. Espaços da invenção poética, mas também do enternecimento, das digressões sobre a alma, o ser e o mundo. Miguel, em sua faina criadora, esteve bem perto de desvendar os segredos de todas as percepções. E seguiu o seu caminho de domador de assomos e sombras, ritmos e rictus, abandonos e enlevos, acasos, lembranças, mitos, paraísos, sofreguidões, harmonias, remições, ressur- Natal - Março de 2005 reições – todo esse cortejo que empreendeu para fazer de sua obra um momento de eternidade, en-cetando na poesia norte-riograndense um vôo alegórico de “Anjo Gabriel consciente transcendente”, expressão empregada pelo crítico Anchieta Fernandes para intitular o breve e belíssimo ensaio que escreveu como prefácio para a mais recente edição de Os Elementos do Caos (Editora Sebo Vermelho –2001). Num dos nossos últimos encontros, Miguel (com quem eu pouco conversava; limitava-me a ouvir as suas preleções repletas de sabedoria verdadeiramente socrática) revelou-me que, em sua produção, gostava especialmente do vocábulo “nuvemsemelhança”, com que procurou aproximar-se “... muro silencioso e frágil da solidão”, assim como, com o poema “Tentativa de captação do ser em nãoespaço”, percebera, ou julgara perceber, o que há de mistério e símbolo na fenomenologia da criação. É oportuno transcrever o poema – um dos mais belos que Miguel escreveu – em que a palavra “nuvemsemelhança”, tão cara ao seu criador/inventor, encheu de luz o contexto por ele trabalhado naquele instante mágico e de tão profunda solidão: quando vier o esquecimento (demolição do momento), a quem doar a canção? quando a Imagem (nuvemsemelhança) acampar seu rebanho na lhanura da tarde e o Espaço ágil seqüestrado for menos que lembrança (sem mais o engano poderoso da Forma) quem sustentará o muro silencioso e frágil solidão? Natal - Março de 2005 Suplemento nós, do RN 11 A insustentável leveza do gordo do riso Carlos Morais O Barão de Itararé chega, nos anos 30, à redação do jornal O Globo para pedir um emprego de repórter e é recebido pelo diretor-proprietário, que pergunta o que ele sabia fazer: "Tudo", entrou de sola o impagável Barão. "De contínuo a diretor de jornal, até porque não tem muita diferença". Ganhou o emprego na hora. A frase poderia ter sido dita por um norte-rio-grandense da mesma linhagem humorística, o assuense Celso da Silveira, uma espécie de homem dos sete instrumentos e, mais precisamente, um poeta-humorista. Um faz-tudo na imprensa do Rio Grande do Norte (revisor, redator, fazedor de jornais e revistas e, também, diretor de jornal e da Faculdade de Jornalismo Eloy de Souza). Foi também quase-tudo na vida pública. Acredito que Celso só não foi mesmo guia de cego. Morreu aos 74 anos, no último carnaval. "Um homem baixo, gordo e de óculos", sua marca registrada, conhecido pela risada retumbante e de contágio instantâneo, porque embrulhada numa interminável seqüência de espalhafatosas e incríveis estórias, desembrulhadas por um humor fino, instigante e impagável, à semelhança do incrível Barão, outro onipresente na oficina jornalística. E também pelo gesto pródigo das mãos a desenhar no ar seus personagens,em qualquer lugar: no meio da rua, num bar do baixo meretrício, num cemitério ou numa igreja. Porque Celso possuía o dom da espontaneidade, do despojamento e, principalmente, a sinceridade, mercadoria escassa, hoje, nas gôndolas dos supermercados dessa vidinha danada de besta (para alguns). Eu sempre vi Celso com um personagem estampado e saido das páginas de um grande romance balzaqueano (também podia ser de Proust, de Dickens, de Jorge Amado ou de Garcia Marquez) e também um figurante das comédias fellinianas. Ou, ainda, pela seu apetite desmedido (a primeira farra que fiz com Celso, testemunhei, assustado, esse apetite), um rival de Pantagruel, com aquele risada rabelaisiana, vinda do genial criador de Pantagruel. E suas tiradas de humor, com cenografia silveiriana, também são, sem dúvida, rabelaisiana. Celso desdenhava para aqueles cobiçosos pela glória, pela pompa, pela ostentação. Consciente, com toda certeza, de que, no fundo, aquela glória de muita gente bajula, não passa de um cemitério. Imenso. A perder de vista. Nesse campo-santo, de que o Tempo é o coveiro, todos os mausoléus são provisórios. Mais dia, menos dia, implacavelmente, as ossadas são transferidas para a vala comum. Por isso, vivia soltamente, como um simplório. Nasceu e viveu regido pelo signo da Alegria, da bonomia, do bem-quer.Um amigo comentou que quem tiver a felicidade de encontrar Celso da Silveira, será premiado pelo dízimo permanente da bondade, recebendo a dádiva generosa da amizade. Tinha mesmo "duas mãos e o sentimento do mundo". Celso, desde cedo, acompanhou os versos de Gilka Machado: "um dia, sonhei ser útil na vida, não consegui. Mas fiz versos". Celso desatrelou-se de sua formação parnasiana (mas nunca abandonou sua admiração pelos sonetos do padre Antônio Tomaz, decorados e declamados nos discursos do grêmio estudantil de Fortaleza, onde estudou, num colégio religioso, no qual entrou na condição de ajudante de missa, e ingressou na boemia ao beber o vinho do padre e a mastigar hóstias, pela época da Segunda Guerra) engajando-se, depois, participativamente, em Natal, de todo o movimento novo de literatura, ao lado de Newton Navarro, Luís Carlos Guimarães, Berilo Wanderley e tantos outros. Celso não desfrutou desse carnaval que passou. E desapareceu, encantadamente, como aquele amor de carnaval. Mas que sempre vai sobrevier. Suspenso, intacto no ar (coma a sua apetitosa gargalhada), como na insustentável leveza do quarto do poeta Manuel Bandeira. Estórias do gordo arretado Menino traquino, o caçula de um time de sete irmãos, quando ia comprar mariolas (pequenos tijolos de doce de banana) para sua irmã, roia as beiradas, ia comprar pão e comida todos os bicos. Quando vinha o esporro, descarregava nos produtos do bodegueiro: "Seu Antônio Ferreira só tinha mariola roída". Ou: "Seu Antônio Ferreira só tinha um pão sem bico". Em certa ocasião, depois de comprar dez tostões de confeitos, pagou apenas um tostão e mandou anotar, na caderneta, novecentos réis na conta de pai. Quando chegou com o embrulho enorme, o pai estranhou o volume e quis saber. Na bucha, Celso respostou: "Um tostão de confeito em Antônio Ferreira, agora, é assim". O jornalista Miranda Sá caminha pela avenida Rio Branco e depara-se com Celso e aproveita para convidá-lo: malandro, vamos comer uma mão-de-vaca em Ponta Negra? Celso, surpreso, continua andando e pondera: "marque o dia que eu quero levar também uma mãode-vaca para fazer duas. Afinal, você bem sabe como é, uma mão lava a outra!" Num lançamento, em Clima Artes Gráficas, CS encontra Navarro, com o inseparável copo na mão, foi logo saudando o poeta: "Salve lindo! Estranhando o "salve lindo, por quê? Celso deu sua gaitada: "Salve lindo pendão da esperança". José Agripino, filho do todo-poderoso do momento, o governador Tarcísio Maia chegava, quase que obscuramente, para ganhar a prefeitura de Natal. Numa de suas apresentações em público, um boateiro político sondou: "Esse é o Zé Agripino?" E, diante daquele lourinho magro, não se conteve: "Não agüenta dois boatos de Agnelo!" O lanterneiro Evandro, queixava-se, em sua oficina, de uma conta não recebida e até ameaçava matar o devedor. Celso entra na conversa e, em tom de brincadeira, alertava: "ôme, deixa de besteira, você não sabe que defunto não paga dívida". E completava: "Aliás, defunto só paga dívida se for com moeda do céu". Casmurrento, o lanterneiro retrucava: "Mas eu não aceito". Aí, alguém, já tomando as dores do devedor, encerrou: - Então, Evandro, você vai receber esta conta no inferno! Celso vinha apressadíssimo, acelerando pela rua Ulisses Caldas, doido para chegar na Prefeitura, para aliviar-se de uma inesperada diarréia. Uma esmoler, o aborda na calçada, já quase subindo os batentes do prédio, pedindo uma esmolinha. Celso só tem tempo de virar-se e desabafar: -Minha senhora, se eu Celso da Silveira ento Natal - Março de 2005 Suplem 12 .................................................................................................................................................................................. Os ar esãos de Cristo Anchieta Fernandes O ritual que relembra o martírio e a crucificação de Jesus Cristo se manifesta por um sentimento religioso que a memória popular guarda nos baús mágicos de sua cultura. A imagem dos últimos momentos do Cristo na Terra tem sido retratada ininterruptamente p o r a r t i s t a s r e n o m a d o s o u n ã o, contribuindo para o enriquecimento estético da cultura humana. A autoria de muitas dessas obras tem se perdido no anonimato e na simplicidade despretensiosa de artistas do povo. O livro “Acervo do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Norte” (Edição Fundação José Augusto, 1981), do escritor Oswaldo Câmara de Souza, é ilustrado por imagens que retratam o épico de Cristo, mas sem identificar-lhes a autoria. “Não sabemos a cujo cinzel devemos as obras de arte, aqui documentadas. Cristos, madonas, e toda uma legião de Santos glorificados pela devoção popular, mas, evidentemente, copiados da estatuária clássica, peças tradicionais e evocativas do passado, expressando a excelente qualidade do acervo da estatuária sacra, no Rio Grande do Norte dos séculos XVII e XVIII”, explicou Souza. O jornal “O Poti” dedicou, na década de 80, uma página inteira ao trabalho artístico de Iaperi Araújo, intitulado “A Via Sacra”, uma bonita visualização sobre martírio de Cristo. Quatro anos depois, em abril de 1984, a Fundação Jo s é Au g u s t o p a t r o c i n ava o lançamento de um interessante álbum sobre a “Via Sacra Nordestina”, trabalho produzido pela Oficina de Gravuras Rossini Perez, da própria FJA, com desenhos de Márcio Coelho e xilogravuras de Aucides Sales, acompanhados de versos do poeta popular Chico Traíra narrando a dolorosa caminhada de Jesus ao Monte Calvário. Entre os artesãos que se destacaram produzindo peças com motivos religiosos, lembramos de Chico Santeiro, cujo nome verdadeiro era Joaquim Antônio de Oliveira. Natural de Santo Antônio do Salto da Onça, Chico esculpiu muitas peças ligadas aos motivos nordestinos – cangaceiros, carros de boi, mulheres rendeiras. Sua produção maior, no entanto, foi de crucifixos. O Cristo nu (a nudez aí sem nenhum sentido erótico), pregado à cruz, entalhado com canivete (às vezes o artista usava uma serrinha para modelar cabelo, barba e bigode) em madeiras como imburana, cedro e imbuia. Um estilo identificável, o de Santeiro, “tanto pela fisionomia quanto pela posição e minúcias de traços”, na visão de Veríssimo de Melo. No gênero pintura, alguns artistas também se inspiraram na cena do Cristo morto na cruz. Newton Navarro, por e xe m p l o, ch e g o u a c r i a r C r i s t o s demasiadamente trágicos, como escreveu Iaperi Araújo: “São famosos os seus Cristos, sofridos, crucificados entre pedaços de animais esquartejados num açougue.” Já os Cristos de Erasmo Andrade se situam no contexto do seu particular estilo pictórico, misto de surrealismo, humor e contestação social. Suas metáforas “lembram Chagal”, disse Dorian Gray Caldas, em seu livro “Artes Plásticas do Rio Grande do Norte” (1989). Um dos Cristos de Erasmo tem o título “Jesus da Aldeia dos Humilhados”; outro, “Cristo e Pavões.” Como se vê, o Rio Grande teve e tem bons artistas no desenho, na pintura e na escultura crística. Famosos, sim, pois um crucifixo de Chico Santeiro foi levado para o papa Pio XII; outro, para o presidente Kennedy.