DO
Editorial
A República
Suplemento
Nós,doRN...
Diário Oficial do Estado do Rio Grande do Norte
Ano I - Nº 04 - Março de 2005
Poesia, dor e alegria da alma
O Nascimento de Vênus - Pintura de Sandro Botticelli - 1485
2
Suplemento
nós, do RN
Natal - Março de 2005
Apresentação
Em defesa da Cultura
Rubens Lemos Filho
proveitando esta edição de "nós, do
Os poetas norte-rio-grandenses passaram
RN" em homenagem ao Dia da
também a contar com as Casas de Cultura, que já
Poesia, cumpre-nos divulgar que o
são 11 distribuídos pelos quadrantes do Estado, e
Governo Wilma Maria de Faria se distingue na
com o Cine Teatro de Cultura Popular e o palco
história política do Rio Grande do Norte pelos
aberto a todos no auditório da própria FJA.
investimentos feitos no campo da Cultura.
Ampliando para as artes e a cultura em
O Prêmio Luis Carlos Guimarães de
geral, além da Galeria de Arte Newton
Poesia, promovido pela Fundação José
Navarro, com exposições permanentes à disAugusto, é um exemplo concreto. Além de
posição do público, a governadora Wilma
ofertar valores de 10, sete e cinco salários-míMaria de Faria acaba de anunciar a transfornimos, respectivamente, aos três primeiros
mação da antiga Penitenciária João Chaves
colocados, além de editar seus livros reservannum espaço cultural - o primeiro na Zona
do-lhes uma cota de 50 exemplares. Em
Norte da capital norte-rio-grandense.
número de doze, os ganhadores de "Menção
Diante disso, o Dia da Poesia de 2005 é
Honrosa" terão a publicação dos seus livros,
um dia de vitórias da cultura e, portanto, de
com direito a 20 cada um.
alegria para os poetas e o povo em geral.
A
Editorial
Estado do Rio Grande do Norte
Assessoria de Comunicação Social
Wilma Maria de Faria
Governadora do Estado:
Carlos Alberto de Faria
Gabinete Civil do Governo do Estado
Rubens Manoel Lemos Filho
Assessoria de Comunicação Social
D.E. I.
Rubens Manoel Lemos Filho
Diretor Geral em exercício
Henrique Miranda Sá Neto
Coordenador de Administração
e Editoração
Juracir Batista de Oliveira
Subcoordenador de Finanças
Eduardo de Souza Pinto Freire
Subcoordenador de Informática
Meus poetas vivos (e mortos)
nós, do RN
Miranda Sá
Miranda Sá
Q
uando decidimos tirar
o "nós, do RN" no
Dia da Poesia, num
esforço concentrado para enaltecer os bem-aventurados
amantes das musas, senti-me
arrastado para a lembrança dos
primeiros arrastões que fizemos, liderados por Eduardo
Alexandre e Plínio Sanderson,
indo da Catedral ao Bar
Mintchura (ou seria o inverso?).
Memorizo permanentemente a passagem solene de
cada um dos nossos poetas
sob a curiosidade popular.
Alguns vêm faltando nos últimos anos; mas Celso da
Silveira - o ausente mais próximo, comparecerá pelas páginas de "nós, do RN", e com
ele a lembrança de muitos faltosos.
Sem qualquer espécie de discriminação aos outros poetas
que foram ao encontro das
divindades inspiradoras da poesia, gostaria de lamentar a falta
de dois queridos amigos, Bosco
Lopes e Luiz Carlos Guimarães.
Arquitetos da palavra,
Bosco e Luiz Carlos conquanto fugissem dos epigra-
mas apimentados de Celso,
nivelavam-se a ele na aceitação
da nação potiguar, porque os
seus poemas, embora "brancos" na classificação pedagógica, eram coloridos na unidade
rítmica do inusitado, cujo subjetivismo era acessível a todos.
Euterpe (deusa da poesia) deve
tê-los em seu regaço, justificando
que não compareçam materializados ao desfile dos cancioneiros
potiguares que expressam nas
ruas de Natal a lírica do nosso
povo todo dia 14 de março.
panheiro Juracir Batista de Oliveira,
recebi os exemplares do Suplemento
“Nós do RN”, e lendo, no segundo, do
mês de dezembro no seu editorial, você
registra o resultado da consulta realizada.
Na qualidade de assinante que somos
devo-lhe dizer que a Confederação
Nacional dos Trabalhadores na
Indústria (CNTI) por nosso intermédio
também se solidariza e lhe parabeniza pela
chefe de redação
Moura Neto
equipe redacional
Paulo Dumaresq - reportagem
João Ricardo Correia - reportagem
João Maria Alves - fotografia
diagramação e arte final
Edenildo Simões
Alexandro Tavares de Melo
pesquisa
Anchieta Fernandes
colaboradores
Carlos Morais
Emanoel Amaral
Rubens Lemos Filho
J.Charlier Fernandes
Carlos de Souza
apoio gráfico
Correspondências
Senhor Diretor
Como leitor assíduo, e admirador dos
seus artigos pela forma de como escreve
abordando com seriedade os mais variados assuntos, somente hoje tive a satisfação de conversarmos, na audiência que
nos concedeu.
Na ocasião após tratarmos de
assunto em pauta que me levou a sua
presença, presente também o com-
editor-geral
Willams Laurentino
Valmir Araújo
iniciativa pelo feito, por entender a
importância que este suplemento representa para o nosso Estado, daí porque interessa-nos receber também a partir de agora os
números seguintes.
Agradeço pela atenção, aproveitando
para externar protesto de consideração e
apreço.
Pedro Ricardo Filho
Secretário Regional
DEPARTAMENTO ESTADUAL DE IMPRENSA
Av. Câmara Cascudo, 355 - Ribeira - Natal/RN
Cep.: 59025-280 - Tel.: (084) 232-6793
Site: www.dei.rn.gov.br - e-mail: [email protected]
Natal - Março de 2005
Suplemento
nós, do RN
3
Da arte de encantar os viventes
Paulo Jorge Dumaresq
D
esde os tempos mais remotos da civilização até os dias de hoje, o gênero humano
sempre sentiu a necessidade de expressar
sentimentos e impressões traduzidos da observação de imagens internas e externas. Seja no
exame atento do cotidiano ou mesmo da alma, o
homem e a mulher procuraram, ao longo da
história, exteriorizar suas emoções em versos.
No Brasil, o fazer poético é celebrado em 14
de março. O Dia Nacional da Poesia, não por
acaso, coincide com a comemoração do nascimento do poeta baiano Castro Alves. Ícone do
Romantismo, o “Poeta dos Escravos” foi autor de
obras da magnitude de O Navio Negreiro e de
Espumas Flutuantes.
Provavelmente a mais antiga das formas
literárias, a poesia é contemporânea da dança, da
música e da pintura rupestre. Como asseverou
acertadamente o poeta e compositor Arnaldo
Antunes, “a origem da poesia se confunde com a
origem da própria linguagem”. Do grego poíesis,
‘ação de fazer algo’, pelo latim poese, a poesia consiste no arranjo harmônico das palavras.
Um poema organiza-se, geralmente, em versos caracterizados pela escolha precisa das
palavras em função de seus valores semânticos
(denotativos e, especialmente, conotativos) e
fonéticos. É possível a ocorrência da rima, bem
como a construção em formas determinadas
como o soneto e o haicai. Segundo características
formais e temáticas, classificam-se diversos
gêneros poéticos.
A definição de poesia não é algo simples, não
obstante, no universo literário, poetas maiores e
menores, professores de literatura, leitores e simpatizantes em geral terem a sua própria. Aliás, o
conceito está sempre em transformação, se renovando ou mesmo em processo, visto que a poesia
é sempre contemporânea de si mesma. Qualquer
definição é insuficiente.
Na concepção de Teixeira de Pascoais,
“poeta quer dizer profeta”. Seguindo essa
linha de raciocínio e tomando a frase como
exemplo, podemos inferir que poesia afirma
profecia. Profecia no sentido lato, dilatado, em
que as idéias anunciam o “sentimento do
mundo”. Mas a poesia pode ser mais do que
profética. Composta de signos, ela ainda pode
ser religiosa, mítica, onírica, política ou romântica, dependendo do modo como as imagens são processadas e trabalhadas. E como bem
anotou a professora doutora em Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo e da
Universidade Mackenzie, Marlise Vaz Bridi: “Imagem puxa palavra”. Que a ratifique o
nosso subconsciente.
Vaz Bridi ilustrou que “o olhar para dentro de si ainda produz a leitura de tudo isso,
mas em clave interna, onde sensações, sentimentos, intuições, aspectos subjetivos, psicológicos, afetivos, emocionais, eclodem em imagens, em palavras”.
Há quem reconheça ser a poesia maior do que o poeta e o bardo um mero instrumento
da literatura em versos. Por isso mesmo, ela transcende os tais versos, ultrapassa o poeta.
Um ou outro alega que a inspiração é freqüentemente mais um ato de ser inspirado pela
própria poesia, latente ou manifesta.
Definição na ponta da língua
Para melhor entendimento do que é poesia,
consultemos os literatos. O frio verbete do
dicionário Aurélio ensina que poesia é “o que
há de mais elevado ou comovente nas pessoas
ou nas coisas” ou “aquilo que desperta o sentimento do belo”. Mas será que a poesia só desperta o sentimento do belo? E o feio que se
nos apresenta a todo instante? Onde fica nessa
questão? No ar, na natureza, na mulher, no
homem, na rosa, no espinho, no incesto, no
amor pela miséria, na violência urbana, na
tragédia das guerras, na vida, enfim, na morte,
a poesia está presente, até mesmo na “réstia de
cebola”.
“Que é a poesia? Uma ilha cercada de
palavras por todos os lados”, afirmou Cassiano
Ricardo, em Poética. Pesquisamos e as
definições se sucedem como o fluxo e refluxo
das águas do mar. “A poesia é a arte de comunicar a emoção humana pelo verbo musical”,
externou o escritor francês René Waltz. Outro
conceito, este do crítico e editor inglês, John
Middleton Murry, esclareceu que é “a expressão
natural dos mais violentos modos de emoção
pessoal”. Uma terceira complementa as anteriores. No entender do poeta inglês William
Wordsworth, a poesia é “o extravasar espontâneo de poderosos sentimentos”.
Para o mexicano Octavio Paz, Nobel de
Literatura, poesia é “a linguagem em estado
de pureza selvagem”. Mais profundo, o filósofo alemão Martin Heidegger qualificou-a
de “fundação do ser mediante a palavra”. Já
o lingüista russo Roman Jákobson também
mergulhou fundo na questão, afiançando
que a poesia é “a linguagem voltada para a
sua própria materialidade”.
Enigmático, o poeta e dramaturgo espanhol
Federico García Lorca declarou que “todas as
coisas têm seu mistério, e a poesia é o mistério
que todas as coisas têm”. O poeta francês
Mallarmé, defendendo uma outra concepção,
sustentou que “a poesia se faz com palavras, e
não com idéias”. E, segundo T. S. Eliot, “aprendemos o que é poesia lendo poesia”.
Dir-se-ia ainda que a poesia não sobrevive
sem o significante e o significado. É este consórcio, e não apenas o significado, que provoca
sentimentos, impressões, emoções ou
reflexões. Na poesia cada palavra tem seu
papel, não apenas por seu significado, mas por
seu ritmo, pela sua sonoridade, pela forma
como se relaciona com as outras palavras, e,
modernamente, até mesmo pelo seu aspecto
visual. A lógica da poesia vai além da estrutura sintática e do seu significado.
Declamando ou escrevendo, fazer poesia é expressar-se de forma a combinar palavras,
mexer com o seu significado, utilizar a estrutura da mensagem. Isto é a função poética. A
poesia sempre se encontra dentro de um contexto cultural e histórico. Os vários estilos poéticos, as fases de cada autor, os acontecimentos da época e tantas outras interferências muitas
vezes se misturam à obra e lhe dão novos significados.
Monumento vivo da literatura brasileira, a poetisa mineira Adélia Prado descreveu a poesia como sendo “a revelação do real”. Prosseguindo comentou: “Ela é uma abertura do real.
Ela revela aquilo que a gente não sabe. Isso é que é poesia para mim.” E concluiu: “Ela me
tira da cegueira. Eu acho que a poesia é um fenômeno da natureza, igual à tempestade, rio,
montanha”. Diante dessa definição-poema, o silêncio torna-se obrigatório.
4
nós, do RN
POETAS
imortais
Carlos de Souza
N
o salão vazio da Academia Norte-RioGrandense de Letras ecoa a voz dos poetas que
nos observam silenciosos dos seus retratos na
parede. É neste ambiente que o presidente da instituição,
o poeta Diógenes da Cunha Lima, nos recebe para falar
dos poetas que habitaram e habitam os cômodos da ilustre casa criada por Câmara Cascudo. A ANL é uma paixão
para Diógenes, que já está em seu décimo primeiro
mandato na presidência. Sua outra paixão é o patrono
Câmara Cascudo, de quem é biógrafo.
O próprio Diógenes, autor de vários livros de poesia,
com destaque para o Livro das Respostas, em que dialoga
com o poeta chileno Pablo Neruda, nos explica a origem
da Academia: "De fato, o Brasil copiou o modelo da
Academia Francesa, criando a Academia Brasileira de
Letras sob a liderança de Machado de Assis. Assim, sob os
mesmos moldes, foram criadas em cada estado brasileiro".
No Rio Grande do Norte, aconteceu na casa de
Câmara Cascudo. "O poeta Câmara Cascudo, que era um
bom poeta. Eu publiquei quatro de seus versos que são
fantásticos, no Brasileiro Feliz, mas ele teve muito mais.
Ele fazia poesia em prosa. Na maioria de seus textos você
encontra períodos inteiros com ritmo poético que ele
Diógenes: falando de poetas
Suplemento
sabia fazer como ninguém". Então, atesta Diógenes, a
Academia foi fundada já sob o signo da poesia, a partir de
Câmara Cascudo. Isso sem falar que Cascudo deixou uma
das melhores traduções para alguns versos de Walt
Whitman. "E logo em seguida, o primeiro presidente foi
Henrique Castriciano. Poeta maior, na época o poeta básico do Rio Grande do Norte, essencial, o maior de todos,
o mais aplaudido, o mais querido, o mais festejado".
Observando a lista de patronos, que obedece ao rígido número de 40 membros, Diógenes confirma a
supremacia da poesia sobre a prosa no número de adeptos deste gênero literário. Como Natal ganhou a fama de
ter um poeta em cada esquina, a ANL não poderia deixar
de ter mais poetas que prosistas em suas cadeiras. "A
primeira já é uma poetisa, Nísia Floresta Brasileira
Augusta. Depois, Lourival Açucena, poeta dos melhores
que o Rio Grande do Norte produziu; Isabel Gondim,
professora; Segundo Wanderley, bom poeta; Ferreira
Itajubá, um dos maiores poetas do século 19, um dos precursores da poesia moderna no Brasil, o mais fantástico
dos poetas, porque não era só um escritor, mas que fez da
vida um poema".
A vida de Ferreira Itajubá, acentua Diógenes, é rigorosamente um poema. Ele foi mestre-escola, redator de
revistas e jornais. Depois resolveu entrar num circo.
Seguiu para o interior, onde aprendeu todos os truques de
mágica, malabarismo, equilibrismo, trapezismo, e fazia
também o trabalho de ator. "Em seguida resolveu fazer
em sua casa, na Rua Chile, o seu circo em que ele era o
protagonista e único de todos os fazeres. Além disso, era
um homem extraordinário, resolveu criar o primeiro
bloco de Natal que saía às ruas em carro. E trouxe para as
ruas a Mitologia Grega, colocou Cascudo, que era menino, para ser Apolo (naturalmente Cascudo no tempo da
infância devia ser bonito para ser o Apolo, além de ser a
figura)".
Segundo Diógenes, "o poeta Ferreira Itajubá era um
homem mulherengo, apaixonado, as mulheres todas, as
damas da sociedade, as meninas do baixíssimo clero, tinham por ele uma emoção grande. Este era um poeta
maior que derramava poesia sobre a Cidade do Natal".
Outro grande poeta da Academia foi Jorge Fernandes,
um homem que marcou sua época com sua poesia forte,
bela, inovadora. "O grande modernista, o poeta excelente,
extraordinário que fez de sua vida também um poema".
Outra presença marcante da ANL é a poetisa Auta de
Sousa. "Ela teve uma presença marcante e ainda hoje continua a fazer poesia nas sessões espíritas. Um detalhe: Tive
a curiosidade de ver livros psicografados sobre ela. Há um
de Minas Gerais, do famoso Chico Xavier, que é da
mesma qualidade artística. Outro produzido em Santos,
que eu recebi e achei também de excelente categoria".
Auta, que teve amores e que Cascudo demonstrou em
Vida Breve de Auta de Sousa, foi uma pessoa extraordinária que viveu para a poesia, diz Diógenes.
"Auta, que veio de Macaíba e faleceu aqui em Natal,
deixou seu livro Horto, apresentado por Olavo Bilac, foi
seguramente a primeira poetisa potiguar a ter uma apresentação nacional. Porque Olavo Bilac era amigo de
Henrique Castriciano e Eloy de Sousa (irmãos de Auta) e
Natal - Março de 2005
Jorge Fernandes: o grande modernista
apresentaram e lançaram Auta para o Brasil, até hoje lida
e musicada muitas vezes".
O outro grande nome é Nísia Floresta. "Nísia, por
outro lado, a primeira de nossas patronas, foi uma escritora extraordinária na pré-história do feminismo mundial.
Seus livros são encantadores, são pura emoção. A Lágrima
do Caeté é poesia interessante, não vou dizer que ela era
grande poetisa, ela era senhora da prosa, mas também
fazia poesia e de modo interessante, ágil". Mesmo assim,
Nísia não era unanimidade na Academia. Havia uma voz
discordante.
A rival de Nísia Floresta na Academia era a professora Isabel Gondim. "Era uma espécie de opositora de
Nísia, até porque não aceitava os costumes de Nísia, que
foi casada, depois teve amantes, queria formar uma escola de administração para moças, no modelo europeu, que
era considerado na época muito além de nossa província,
e do Brasil mesmo. Mas ela fez o Colégio Augusto no Rio
de Janeiro e deu a semente, o sonho que veio a ser transformado na Escola Doméstica pelo seu ocupante da
primeira cadeira, Henrique Castriciano, que era apaixonado por ela".
As horas vão se escoando no salão quase vazio agora.
A tarde quente de Natal lá fora não vê o esforço do poeta
ao tentar desfiar a memória. Está quente lá dentro, apesar
do ar-condicionado. Diógenes busca na lista de patronos
um nome que lhe inspire, enquanto se ouve o clicar da
máquina do fotógrafo João Maria Alves acordando os
fantasmas nas paredes da Academia. Diógenes então
lembra de Gothardo Neto, "um poeta esmerado, bom
sonetista, interessante. E de uma família de talentos extraordinários. Tem muita gente talentosa".
Suplemento
Natal - Março de 2005
Imortais vivos
Presença poética dominante
Silêncio no salão, Diógenes busca novas
palavras e retoma: “De maneira que na Academia,
desde os seus patronos, dos primeiros ocupantes
até hoje, há uma presença poética muito forte.
Fora disso, quero dizer que quase todos os outros
cometeram versos. Não foram poetas excepcionais, o próprio Cascudo não publicou um livro
de poemas. Publicou prosa poética extraordinária,
às vezes de uma beleza incrível. Alguns textos que
eu chego a mostrar o ritmo. Ele gostava da
redondilha, da redondilha maior, muitas vezes ele
escrevia em prosa usando redondilhas.
Então a memória retorna como em círculo e
Diógenes volta aos primeiros patronos. “Entre os
ocupantes iniciais temos Henrique Castriciano, que
foi o primeiro presidente; Carolina Wanderlei fazia
boa poesia; Antonio Soares, desembargador, poeta
interessante, ágil, vivo e que era também letrista e
se fazia serenata a partir de seus poemas”.
Diógenes faz uma pausa, olha ao redor como
se buscasse fôlego para lembrar tantos poetas.
Pousa seus olhos na lista à sua frente e recomeça:
“Francisco Palma, foi excelente; Clementino
Câmara e, sobretudo, entre os primeiros, Palmira
Wanderley. Esta a poesia que se derramava pela
cidade. O Roseira Brava e Outros Poemas eram
recitados e cantados no Nordeste. Eu fui designado pela Academia para ser o orador no seu sepultamento. Lá todos sabiam decorados os versos de
Palmira”.
A tarde teimava em cair, como faz todos os
dias. Mas nesses dias de verão ela cai mais lentamente, como se sentisse o torpor dos dias quentes
e úmidos. Os poetas da Academia, os vivos e os
mortos, aguardavam sua devida homenagem.
Diógenes toma fôlego e traça o rumo da conversa.
“Entre os que se seguiram, vem Mariano Coelho,
poeta de Currais Novos, interessantíssimo. Autor
de quadrinhas, andou estudando a poesia oriental,
fazia motes e glosas, realmente interessantes.
Alguns, para a época, chamados de licenciosos.
Um poeta vivo, um homem simpático, que decorava versos”.
Às vezes a memória nos prega algumas peças e
quando menos percebemos estamos dando pulos
cronológicos. Diógenes, como todo ser humano,
também tem tais características, apesar de ser um
imortal. Daí sua próxima fala demonstrar este
pulo no tempo. Agora ele fala sobre um poeta da
atualidade. “Um poeta interessante é o atual
secretário geral da Academia, um poeta muito
bom, apesar de ser mais conhecido como jornalista, como romancista, contista: Nilson Patriota.
Não é apenas o radialista, o homem de imprensa,
não. É um poeta de grande força do verso, do
ritmo”.
Aparentemente, abandonamos de vez a
sociedade dos poetas mortos e entramos no
mundo dos poetas vivos. “Um artista múltiplo do
Rio Grande do Norte. O nosso excelente produto
de exportação. Está no mundo inteiro, premiado
nas Ardenas, a minha filha viu um enorme mural
dele no Canadá, eu vi em Bohn, na Alemanha, no
antigo Ministério da Tecnologia, no Vaticano, na
Casa Branca, em todo canto, esse pintor que é um
poeta admirável chamado Dorian Gray Caldas. Ele
é além da conta. Um poeta, um jornalista, um
escritor maravilhoso, um poeta por natureza, vive
a poesia”.
Diógenes faz as contas, sopesa, calcula a
importância de seus poetas queridos, companheiros de Academia. Lembra de outro, este
vivo: “Paulo de Tarso Correia de Melo, um
poeta do Brasil, seguramente um poeta nacional,
Rio dos Homens é obra de inteligência, simplicidade, ta-lento, capacidade. Este é um poeta do
Brasil. Não quero dizer que ele seja lido no
Brasil, mas devia ser. É um cultor de literatura,
belas artes, um crítico, cada prefácio que ele faz
é um ensaio. Um poeta dos melhores”.
Mais uma pausa. O sol já desce sobre os
mangues do Potengi e nós sentimos seu movimento, apesar de não vê-lo. “Uma figura notável que também faz poesia da vida, absolutamente notável, é dom Nivaldo Monte. Ele é
compositor, pouca gente sabe, mas compõe
valsinhas, notadamente. Eu, quando Reitor,
publiquei valsas dele, trabalhos dele. É um poeta
delicado, um homem de palavra fácil. O poema
que não só enobrece, mas que eleva. O poema
que mostra a dignidade do homem. Este dom
Nivaldo Monte, um poeta da cidade, com muitos
livros publicados e, se Deus quiser vou fazer sua
biografia”.
A memória não percorre apenas o tempo,
mas também o espaço. Agora voltamos nossa
atenção para o Vale do Ceará-Mirim. “Nilo
Pereira, poeta de Ceará-Mirim, exilado para o
Recife, mas continuava saudosos do Vale. Há
uma crônica poética dele chamada O Dia da
Criação, uma beleza.
A partir daí o tempo se acelera e Diógenes
começa a listar os poetas que não foram citados.
“Rafael Rabelo, um mestre da poesia, Edinor
Avelino, o poeta de Macau e seu filho Gilberto
Avelino, grande poeta; Esmeraldo Siqueira, o
boca do inferno potiguar, demolidor em suas
críticas; Vicente Serejo, um poeta da crônica;
Newton Navarro, um pintor que era acima de
tudo poeta, um dramaturgo, um contista, um
homem da palavra; Luís Carlos Guimarães, meu
irmão mais que irmão, meu amigo, um poeta
refinado, lírico ”.
Diógenes da Cunha Lima encerra a lista de
poetas da Academia Norte-Rio-Grandense de
Letras abrindo uma porta para o futuro. Para ele,
aquela casa sempre será abrigo de poetas. Tanto
é que está providenciando um conjunto de escultura no jardim da casa em que serão colocados,
lado a lado, o poeta chileno Pablo Neruda,
Câmara Cascudo e Manoel Rodrigues de Melo.
Um claro recado de que a Academia sempre terá
como destaque a poesia e os seus poetas. Tanto
é que já existe um programa chamado Academia
Para Jovens, coordenado pelo poeta Paulo de
Tarso Correia de Melo, que consiste em levar
jovens estudantes para conhecer de perto a
Academia Norte-Rio-Grandense de Letras.
“Este programa já tem, rendido bons frutos,
pois algumas cidades participantes do programa
já criaram suas academias de jovens”. A ANL
também planeja, ainda para este ano criar um
concurso literário em que só podem participar
autores jovens potiguares. A Academia quer também os poetas jovens e vivos. A tarde se despede da cidade, morna e apaixonada por poesia,
enquanto a noite anuncia chegar com sua festa
de lua e estrelas.
nós, do RN
Auta
de S
ouza
Isabe
l Gon
Nísia
Flore
dim
sta
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6
Suplemento
nós, do RN
„ Quando
meu pensamento se transporta
Às praias de além-mar,
Sinto no peito uma tristeza imensa
Que manda-me chorar.
É que vejo morrerem, uma a uma,
Santas aspirações,
E voarem como os pássaros saudosos
As minhas ilusões...
Nunca julguei que a terra fosse um túmulo
De sonhos juvenis,
Sorrindo acreditei que aqui, no mundo,
Podia ser feliz...
Auta de Souza
„
Natal - Março de 2005
De tão intensa, me tornei escrava.
De tudo que é exilio. Êxolo e linguagem.
Marize Castro
„ Bendita
sejas tu, preguiça amada,
Que não consentes que me ocupe em nada!
Juvenal Antunes
„ Que
sejas sempre assim – a imagem da ternura;
E o doce lenitivo às dores dessa dor...
Trazendo à solidão de minha noite escura
Uma réstea de luar de um perfume de flor.
Ezequiel Wanderley
„ Não
„
Nada é necessário
Além da vontade de sentir no ar
As pulsações de um desejo preso
É preciso aprender com os suícidas
O silêncio fechado num quarto de dormir
E amordaçar a boca num gesto de pânico.
arquitetes o som.
Não estrutures o nada.
A fome basta ao hábito
De ser.
Basta ao homem o nome
de homem. Seu sono, sua dor.
„ Te
quero
Hoje e amanhã
Com sexo
Ou sem nexo
Carlos Gurgel
Sanderson Negreiros
Dailor Varela
„ No
„ Que
saudade, sem fim, de outras terras me veio!
Que ansia de me esquecer por estranhos lugares!
Pois, se não tenho aqui lenitivo aos pesares
Quanto mais quem me aqueça ao mormaço de um seio!
Ferreira Itajubá
tom mais velado
Conto o segredo
Ao fundo do poço.
Como se fosse gravada
Com um ferro em brasa,
Nunca se apagará
No rosto da água
A cicatriz da poesia
Luis Carlos Guimarães
Suplemento
Natal - Março de 2005
nós, do RN
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Foto do site www.morroimobiliaria.com
„ Os
lírios murcham
No jarro
Não feneceram ao acaso.
Tenho-os para lembrar-me
Que, como eles,
Sou carne.
„A
noite adormece só
( a noite é curta
como a vida),
Longe a música,
O brilho da festa
Estou só
Mais perto de minha alma.
Adriano de Sousa
„ Faço
três versos à toa,
Vou num sonho passear.
Três rosas lembram-me a infância
Meu nome ficou num sino
Perdi meu riso no mar.
Newton Navarro
Doriam Gray Caldas
„ Crio
o verso
No mundo adverso
E anverso.
„O
mundo é sempre assim – a desgraça e a ventura,
O esplendor da grandeza e a miséria sem nome;
Uns, cativos da sorte, a parecer de fome;
Outros, da sorte a rir, na pompa e na fartura.
„
Gothardo Neto
Meus antecedentes criminais:
Vida
Vento
E morte
Nas estrelas
ainda a canção
De teu último vôo
E assim vou eu no céu
De teu coração.
A consoante
Dissonante
Completo amor
desamor amargor.
Vejo ainda a cor
De tuas asas ao vôo
E, de cor,
Recanto a tua paixão
Num recanto de meu
Coração.
De propulsões
Jorram expressões
Com variações.
„ Ouço
vivo assim – sorrindo...
O riso, para mim, exprime tudo...
E no ato mais sério, estando rindo,
Sou mais sério, sorrindo, que sisulo!
Jorge Fernandes
Numa rosa atômica
Colho a tônica
E o afixo.
Sou a vogal
No mundo mal
E desigual.
Manoel Fernandes
(Volonté)
„ Habitualmente,
Entre susto e átomo
Surge o étimo
E o átimo.
Francisco Ivan da Silva
No verso
Adverso
O reverso.
Myrian Coeli
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nós, do RN
Suplemento
Natal - Março de 2005
Viva, cante e ria,
agremiações literárias oficiais e, por isso mesmo, movido por versos explosivos e de caráter contestatório.
Jota Medeiros, Eduardo Alexandre, Venâncio
Pinheiro, Carlos Gurgel, Aluísio Matias, Novenil
Barros, entre outros.
O movimento da poesia alternativa, que teve na
Galeria do Povo um importante canal de expressão, foi
revelando novos talentos com o passar dos anos. João
da Rua, Plínio Sanderson, João Barra, Dorian Lima,
Sofia Gosson, Marize Castro, Adriano de Souza, entre
outros. Foi uma década fértil, a de 80, em publicações
de títulos em mimeógrafo e xerox - os fanzines dos dias
atuais. Os autores destas obras artesanais, se assim
podemos chamar, eram, e em alguns casos ainda são,
os principais protagonistas da comemoração do Dia
Nacional da Poesia, como também dos trabalhos levados, nos tempos idos, para a Galeria do Povo e Festival
de Artes do Forte.
Programação diversificada
A programação do Dia da Poesia foi se diversificando, mas mantendo a mesma natureza. Os atos públicos, com participação de poetas performáticos e músicos, também foram realizados em locais como o Beco
da Lama, no centro da cidade, na rua Chile, Ribeira,
Passeata dos poetas
além da Praia dos Artistas, estendendo-se à Ponta do
Morcego, onde em certa ocasião os poetas fizeram
uma intervenção pintando as pedras dos arrecifes com
Moura Neto
tinta lavável (claro!) e jogando "poemas ao mar".
s antigos eram mais comedidos. Costumavam sensibiliza é notar que hoje toda a sociedade se envolve O poeta e professor Plínio Sanderson, que certa vez se
promover saraus em suas próprias residências na comemoração desta data", afirma o escritor e artista acorrentou numa árvore da Praça Metropolitana,
ou nos botecos tradicionais para recitarem plástico Eduardo Alexandre, o Dunga.
atraindo a curiosidade dos transeuntes para o Dia da
conhecimentos sobre literatura. Os modernos foram
Ele tem razão. O Dia da Poesia, em Natal, recebe Poesia com sua eloquência poética, depois passou a
além disso. Levaram a manifestação artístico/poética atenção dos agentes públicos, da imprensa e das insti- levar seus alunos à Ponta do Morcego para jogarem
para os palcos ao ar livre, interagindo com a comu- tuições de ensino. Mais do que isso, atrai a simpatia do
"poemas ao mar" nas comerações de 14 de março.
nidade. O Dia Nacional da Poesia, comemorado em 14 povo em geral. A partir do segundo ano de
Mais recentemente, no final dos anos 90, foi
de março, é uma data que mobiliza a classe artística comemoração, a programação festiva inclui
introduzido nas comemorações o Trem da
natalense, notadamente os arautos de versos e prosas, o passeio poético pelas ruas da cidade. Os
Poesia - uma viagem de locolotiva até
manifestantes cami Ceará-Mirim, com intervenções poéticas
nham portando faixas
de todas as ordens durante o trajeto.
e cartazes com frases
"Nada disso acontecia num contexto
criativas e até sui
isolado do resto", afirma o poeta
generes, verbalizanVenâncio Pinheiro, lembrando que a
do palavras de
década de 80, auge do movimento da
ordem, do tipo
arte e da poesia alternativa, foi marcada
"Viva, cante e ria,
hoje é o dia da poepelo fim da ditadura militar. "Tudo
sia" - inspiração do
ainda era muito fechado, não havia muito
desde 1978.
poeta João Gualberto.
espaço
para fazermos as coisas aconteA inspiração para comemorar festivamente a data
O primeiro passeio poético, em 1979, Plínio Sanderson cerem; o Dia da Poesia acabou, portanto,
veio de Recife, onde poetas como Paulo Brusky segundo recorda Eduardo Alexandre, teve
sendo a explosão de tudo isso".
realizaram, em 1977, uma manifestação intitulada como ponto de partida a Catedral Nova. A paraDetalhe, bem lembrado por ele: não havia (como
Poesia Viva. O artista multimidia Jota Medeiros, do da final foi a Praia dos Artistas, onde funcionava, há não há) preocupação com qualidade. Para participar
Núcleo de Artes da Universidade Federal do Rio dois anos, a Galeria do Povo, criação do próprio
Grande do Norte e parceiro de Brusky, não teve difi- Eduardo Alexandre, que se "apropriou", com a devida dessas manifestações e se pronunciar por meio do
culdades para convencer a tribo local de promover bur- permissão do proprietário, de um muro privado para verbo oral ou da poesia escrita, ninguém assinava ficha
burinho semelhante. A primeira edição do Dia
expor publicamente os trabalhos de poetas e de inscrição, como é ainda hoje. "Mas só se estabeleNacional da Poesia em Natal constou basicaartistas pláticos. Durante muitos anos, a ceu como poeta quem era bom", acrescenta Venâncio.
mente de uma exposição de textos poéticos
Galeria do Povo foi uma referência para o Mesmo depois que as instituições oficiais de cultura
no muro lateral da Catedral Nova, no cenmovimento cultural da cidade dos anos passaram a contribuir com a realização das comemotro da cidade.
80. Juntamente com o Festival de Artes rações do Dia da Poesia, os poetas continuam com
liberdade de expressão para fazer as coisas aconteJá se foram 27 anos, desde então.
do Forte, também desta época.
Um longo percurso foi traçado neste
Os que estavam lá, naquela cerem, neste dia, do jeito deles. Além de muitos versos,
período, a maior parte sem qualquer
primeira hora, são os mesmos que rimados ou não, a irreverência, a contestação e a alegria predominam.
apoio ou incentivo de entidades goverainda hoje levantam a
namentais e privadas. A cada ano a
bandeira da poesia
movimentação em torno da data passou
alternativa ou margia contar com mais adesão dos poetas e
nal, termo utilizado
artistas, até se tornar uma manifestação
para exprimir a total
cultural encampada também por órgãos
liberdade do fazer poétipúblicos e particulares. "O que mais nos Eduardo Alexandre co, sem vínculos com
O
hoje È o Dia
da Poesia
Natal - Março de 2005
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nós, do RN
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Suplemento
a linguagem do século
O
movimento do protesto pela política de privilegiar os medalhões nas
poema/processo editoras e suplementos, boicotando na época os poenasceu simul- tas novos).
taneamente no Rio de Janeiro e no Rio
Toda uma nova mentalidade e uma nova prátiGrande do Norte, com uma exposição realizada no ca cultural nasceram daquele momento/explosão
dia 11 de dezembro de 1967. Há cerca de 38 anos, que o movimento poema/processo significava.
portanto. Foi num fim de noite, no Museu do Em artigo para o jornal “O Galo”, Álvaro de Sá
Sobradinho (hoje Museu Café Filho), que um grupo escreveu certa vez que “o aporte prático e teórico
de artistas lançou essa nova tendência vanguardista produzido por poetas e críticos do movimento
que iria suceder a poesia concreta. Esse grupo, inti- irradiou-se para redirecionar o curso das atividades
tulado “Dés”, tinha como maiores expoentes Falves semióticas brasileiras e, no que se refere ao poema,
Silva, Dailor Varela, Marcos Silva, Anchieta também internacionais.”
Fernandes e Moacir Cirne, que fazia a ponte entre o
Ocorre também que, por ser uma teoria e uma
movimento potiguar e o carioca. No
cenário nacional, destacava-se como
mentor o poeta Vlademir Dias Pino.
O poema/processo contempla
uma diversificação de técnicas.
Re c o d i f i c a ç õ e s / e s t i l i z a ç õ e s
geométricas das próprias letras do
alfabeto. Poemas codificados
visualmente em estágio didático.
Estruturas de poemas movimentados, tendo como resultado novas
versões dos referidos poemas.
Poemas matrizes gráficas jogando
com o claro/escuro. Poemas seriados como nas estórias em quadrinhos. Poemas animados em seu
percurso gráfico de páginas.
Poemas que, através do espaço em
branco do papel, fazendo-o entrar
nas palavras e frases, fragmentando-as, explode-as graficamente.
Muitas outras coisas cabem no
poema/processo: por exemplo, sinais
matemáticos, traçados geométricos,
ornamentos gráficos. Novas grafias.
Montagens (fotos com palavras,
desenhos com resultados/cores de
arte plástica). Objetos/poemas.
Poemas comestíveis (como o enorme
pão/poema/processo que foi comido
aos pedaços pelo público de uma
exposição em Recife, em 1968).
Projetos prévios que traçam o programa de operação de poemas.
Atos/poemas (como o rasga-rasga de
livros de poetas tradicionais nas
escadarias do Teatro Municipal, do
Rio de Janeiro, em 1968, como Poema/Processo de Falves Silva & Alfredo Gama
prática de vanguarda, com suporte implicitamente marxista (o
poema/processo surgiu em plena época da ditadura militar
brasileira), chocou não somente os intelectuais tradicionais, mas
também os usurpadores do sistema. “Fecharam exposições,
perseguiram poetas, adentraram casas, submeteram a interrogatórios, violaram correspondências e ameaçaram com prisões e
com desemprego. Agiram forte contra o perigo do novo”, escreveu
Álvaro de Sá.
Movimento continua
exercendo influências
O poema/processo não tinha, em si, o objetivo de lutar contra
um governo totalitário, mas o de inaugurar novas linguagens. E daí
a sua importância, porque, a partir dele, muita coisa foi mudando na
cultura brasileira. Na década de 70, surge a poesia alternativa, tendo
como veículos jornaizinhos em mimeógrafo e depois a xerox. Os
poetas desse movimento deixaram de ficar apenas na linha da poesia literária para incluir desenhos interpretados como poemas
visuais. Ou seja: influência do poema/processo.
Nos anos 80, surge a “arte correio”, que vinha na cola das revistas/envelopes criadas pelo movimento do poema/processo, possibilitando o efervescente intercâmbio com a poesia semiótica internacional (hoje, supercomunicada via Internet).
Muita coisa do poema/processo frutificou, influenciando às
vezes até para fora da área estritamente poética. Muita coisa vista
hoje como original estava lá, nas propostas criativas do
poema/processo. Como esquecer os objetos-livros de Wlademir,
Neide, Falves e José Cláudio? E os trabalhos gráficos de tipologia
heterogênea de Falves e Joaquim Branco ?
Muita gente não sabe, mas grande parte do que se faz hoje como
inovação da ação criativa (poética ou não) vem do poema/processo.
O poema/processo é a linguagem para o século 21, dos códigos
ponto com, da fotografia digital e da comunicação fônica celular.
Uma vanguarda não se eterniza como vanguarda. O poema novo
para uma época pode ser velho para outra, seguinte. Contudo, a
questão do poema/processo é que seu repertório informacional foi
tão novo, trouxe tal rompimento com o passado literário e avanço
nas linguagens do futuro que seu instante ainda não passou.
10 nós, do RN
Suplemento
MIGUEL
CIRILO,
O DOMADOR
DO CAOS
J. Charlier Fernandes
N
este primeiro trimestre do ano, a
“Indesejada das gentes”
resolveu invadir
com toda crueldade
os nobres
espaços da
p o e s i a
potiguar.
Empregando
a sua foice
fatídica, abateu
primeiramente a
gorda figura de
Celso da Silveira,
autor de uma obra
profícua e prolífera,
bem representativa do
que ele mesmo afirmara
em seu poema Epitáfio:
“Aqui jaz o poeta/e não o
canto/que dele foi deflagrado/como a flecha de um
arco.”
Mas a ceifeira, em sua
emboscada sanguinária, também alcançou o
poeta Miguel Cirilo, um criador que sempre
refletiu
sobre
a
tragédia existencial
que se completa com a inevitabilidade da morte.
Essa consciência do ser transitório percorre as
páginas do seu único livro – Os Elementos do
Caos -, e nos versos a seguir transcritos atinge
aquele estágio de meditação pura que se pode
encontrar ao longo de sua dolorosa
busca de sentido para o duelo entre o
viver e o morrer: “vou porque tenho
de ir./não levo pena de nada./meu
sonho foi existir,/meu amor – a
minha estrada.”
Ler e reler Os Elementos do
Caos significa explorar os territórios onde a poesia ilumina
com seus archotes os mais
diversos espaços circulares,
p o l i m o r f o s, t r a n s f i g u radores, revolucionários.
Espaços da invenção
poética, mas também do
enternecimento, das
digressões sobre a
alma, o ser e o
mundo. Miguel,
em sua faina criadora, esteve bem
perto de desvendar os segredos de todas as percepções.
E seguiu o seu caminho de domador de
assomos e sombras, ritmos e rictus, abandonos
e enlevos, acasos, lembranças, mitos, paraísos,
sofreguidões, harmonias, remições, ressur-
Natal - Março de 2005
reições – todo esse cortejo que empreendeu para fazer de sua obra um momento
de eternidade, en-cetando na poesia
norte-riograndense um vôo alegórico de
“Anjo Gabriel consciente transcendente”,
expressão empregada pelo crítico
Anchieta Fernandes para intitular o breve
e belíssimo ensaio que escreveu como
prefácio para a mais recente edição de Os
Elementos do Caos (Editora Sebo
Vermelho –2001).
Num dos nossos últimos encontros,
Miguel (com quem eu pouco conversava;
limitava-me a ouvir as suas preleções
repletas de sabedoria verdadeiramente
socrática) revelou-me que, em sua produção, gostava especialmente do vocábulo
“nuvemsemelhança”, com que procurou
aproximar-se “... muro silencioso e frágil
da solidão”, assim como, com o poema
“Tentativa de captação do ser em nãoespaço”, percebera, ou julgara perceber, o
que há de mistério e símbolo na fenomenologia da criação.
É oportuno transcrever o poema – um
dos mais belos que Miguel escreveu – em
que a palavra “nuvemsemelhança”, tão
cara ao seu criador/inventor, encheu de
luz o contexto por ele trabalhado naquele instante mágico e de tão profunda
solidão:
quando vier o esquecimento
(demolição do momento),
a quem doar a canção?
quando a Imagem
(nuvemsemelhança)
acampar seu rebanho na lhanura da tarde
e o Espaço ágil
seqüestrado
for menos que lembrança
(sem mais o engano poderoso da Forma)
quem sustentará
o muro silencioso e frágil
solidão?
Natal - Março de 2005
Suplemento
nós, do RN
11
A insustentável leveza
do gordo do riso
Carlos Morais
O
Barão de Itararé chega, nos anos 30, à
redação do jornal O Globo para pedir um
emprego de repórter e é recebido pelo diretor-proprietário, que pergunta o que ele sabia fazer:
"Tudo", entrou de sola o impagável Barão. "De contínuo a diretor de jornal, até porque não tem muita
diferença". Ganhou o emprego na hora. A frase
poderia ter sido dita por um norte-rio-grandense da
mesma linhagem humorística, o assuense Celso da
Silveira, uma espécie de homem dos sete instrumentos e, mais precisamente, um poeta-humorista. Um
faz-tudo na imprensa do Rio Grande do Norte (revisor, redator, fazedor de jornais e revistas e, também,
diretor de jornal e da Faculdade de Jornalismo Eloy
de Souza). Foi também quase-tudo na vida pública.
Acredito que Celso só não foi mesmo guia de cego.
Morreu aos 74 anos, no último carnaval.
"Um homem baixo, gordo e de óculos", sua
marca registrada, conhecido pela risada retumbante e
de contágio instantâneo, porque embrulhada numa
interminável seqüência de espalhafatosas e incríveis
estórias, desembrulhadas por um humor fino, instigante e impagável, à semelhança do incrível Barão,
outro onipresente na oficina jornalística. E também
pelo gesto pródigo das mãos a desenhar no ar seus
personagens,em qualquer lugar: no meio da rua, num
bar do baixo meretrício, num cemitério ou numa
igreja. Porque Celso possuía o dom da espontaneidade, do despojamento e, principalmente, a sinceridade, mercadoria escassa, hoje, nas gôndolas dos
supermercados dessa vidinha danada de besta (para
alguns).
Eu sempre vi Celso com um personagem estampado e saido das páginas de um grande romance
balzaqueano (também podia ser de Proust, de
Dickens, de Jorge Amado ou de Garcia Marquez) e
também um figurante das comédias fellinianas. Ou,
ainda, pela seu apetite desmedido (a primeira farra
que fiz com Celso, testemunhei, assustado, esse
apetite), um rival de Pantagruel, com aquele risada
rabelaisiana, vinda do genial criador de Pantagruel. E
suas tiradas de humor, com cenografia silveiriana,
também são, sem dúvida, rabelaisiana.
Celso desdenhava para aqueles cobiçosos pela
glória, pela pompa, pela ostentação. Consciente, com
toda certeza, de que, no fundo, aquela glória de muita
gente bajula, não passa de um cemitério. Imenso. A
perder de vista. Nesse campo-santo, de que o Tempo
é o coveiro, todos os mausoléus são provisórios. Mais
dia, menos dia, implacavelmente, as ossadas são transferidas para a vala comum. Por isso, vivia soltamente,
como um simplório.
Nasceu e viveu regido pelo signo da Alegria, da
bonomia, do bem-quer.Um amigo comentou que
quem tiver a felicidade de encontrar Celso da Silveira,
será premiado pelo dízimo permanente da bondade,
recebendo a dádiva generosa da amizade. Tinha
mesmo "duas mãos e o sentimento do mundo".
Celso, desde cedo, acompanhou os versos de Gilka
Machado: "um dia, sonhei ser útil na vida, não consegui. Mas fiz versos". Celso desatrelou-se de sua formação parnasiana (mas nunca abandonou sua admiração pelos sonetos do padre Antônio Tomaz, decorados e declamados nos discursos do grêmio estudantil de Fortaleza, onde estudou, num colégio religioso,
no qual entrou na condição de ajudante de missa, e
ingressou na boemia ao beber o vinho do padre e a
mastigar hóstias, pela época da Segunda Guerra)
engajando-se, depois, participativamente, em Natal, de
todo o movimento novo de literatura, ao lado de
Newton Navarro, Luís Carlos Guimarães, Berilo
Wanderley e tantos outros.
Celso não desfrutou desse carnaval que passou. E
desapareceu, encantadamente, como aquele amor de carnaval. Mas que sempre vai sobrevier. Suspenso, intacto
no ar (coma a sua apetitosa gargalhada), como na insustentável leveza do quarto do poeta Manuel Bandeira.
Estórias do gordo arretado
Menino traquino, o caçula de um time de sete
irmãos, quando ia comprar mariolas (pequenos tijolos
de doce de banana) para sua irmã, roia as beiradas, ia
comprar pão e comida todos os bicos. Quando vinha
o esporro, descarregava nos produtos do bodegueiro:
"Seu Antônio Ferreira só tinha mariola roída". Ou:
"Seu Antônio Ferreira só tinha um pão sem bico".
Em certa ocasião, depois de comprar dez tostões
de confeitos, pagou apenas um tostão e mandou anotar, na caderneta, novecentos réis na conta de pai.
Quando chegou com o embrulho enorme, o pai
estranhou o volume e quis saber. Na bucha, Celso
respostou: "Um tostão de confeito em Antônio
Ferreira, agora, é assim".
O jornalista Miranda Sá caminha pela avenida Rio
Branco e depara-se com Celso e aproveita para convidá-lo: malandro, vamos comer uma mão-de-vaca em
Ponta Negra?
Celso, surpreso, continua andando e pondera:
"marque o dia que eu quero levar também uma mãode-vaca para fazer duas. Afinal, você bem sabe como
é, uma mão lava a outra!"
Num lançamento, em Clima Artes Gráficas, CS
encontra Navarro, com o inseparável copo na mão,
foi logo saudando o poeta: "Salve lindo! Estranhando
o "salve lindo, por quê? Celso deu sua gaitada: "Salve
lindo pendão da esperança".
José Agripino, filho do todo-poderoso do momento, o governador Tarcísio Maia chegava, quase que
obscuramente, para ganhar a prefeitura de Natal.
Numa de suas apresentações em público, um boateiro
político sondou: "Esse é o Zé Agripino?" E, diante
daquele lourinho magro, não se conteve: "Não agüenta dois boatos de Agnelo!"
O lanterneiro Evandro, queixava-se, em sua oficina, de
uma conta não recebida e até ameaçava matar o devedor.
Celso entra na conversa e, em tom de brincadeira, alertava: "ôme, deixa de besteira, você não sabe que defunto
não paga dívida". E completava: "Aliás, defunto só paga
dívida se for com moeda do céu". Casmurrento, o
lanterneiro retrucava: "Mas eu não aceito". Aí, alguém, já
tomando as dores do devedor, encerrou:
- Então, Evandro, você vai receber esta conta no
inferno!
Celso vinha apressadíssimo, acelerando pela rua
Ulisses Caldas, doido para
chegar na Prefeitura, para
aliviar-se de uma inesperada
diarréia. Uma esmoler, o
aborda na calçada, já quase
subindo os batentes do prédio, pedindo uma esmolinha. Celso só tem tempo de
virar-se e desabafar:
-Minha senhora, se eu
Celso da Silveira
ento
Natal - Março de 2005
Suplem
12 ..................................................................................................................................................................................
Os ar
esãos de Cristo
Anchieta Fernandes
O
ritual que relembra o martírio e a
crucificação de Jesus Cristo se
manifesta por um sentimento
religioso que a memória popular
guarda nos baús mágicos de sua cultura. A
imagem dos últimos momentos do Cristo na
Terra tem sido retratada ininterruptamente
p o r a r t i s t a s r e n o m a d o s o u n ã o,
contribuindo para o enriquecimento
estético da cultura humana.
A autoria de muitas dessas obras tem
se perdido no anonimato e na simplicidade
despretensiosa de artistas do povo. O livro
“Acervo do Patrimônio Histórico e Artístico
do Estado do Rio Grande do Norte”
(Edição Fundação José
Augusto, 1981), do
escritor Oswaldo Câmara de Souza, é
ilustrado por imagens
que retratam o épico de
Cristo, mas sem identificar-lhes a autoria.
“Não sabemos a
cujo cinzel devemos as
obras de arte, aqui
documentadas. Cristos,
madonas, e toda uma
legião de Santos glorificados pela devoção
popular, mas, evidentemente, copiados da
estatuária clássica,
peças tradicionais e
evocativas do passado,
expressando a excelente qualidade do acervo da estatuária
sacra, no Rio Grande do Norte dos séculos
XVII e XVIII”, explicou Souza.
O jornal “O Poti” dedicou, na década
de 80, uma página inteira ao trabalho
artístico de Iaperi Araújo, intitulado “A Via
Sacra”, uma bonita visualização sobre
martírio de Cristo. Quatro anos
depois, em abril de 1984, a Fundação
Jo s é Au g u s t o p a t r o c i n ava o
lançamento de um interessante álbum
sobre a “Via Sacra Nordestina”,
trabalho produzido pela Oficina de
Gravuras Rossini Perez, da própria
FJA, com desenhos de Márcio Coelho
e xilogravuras de Aucides Sales,
acompanhados de versos do poeta
popular Chico Traíra narrando a
dolorosa caminhada de Jesus ao
Monte Calvário.
Entre os artesãos que se
destacaram produzindo peças
com motivos
religiosos, lembramos de
Chico Santeiro, cujo
nome verdadeiro era
Joaquim Antônio de
Oliveira. Natural de
Santo Antônio do Salto
da Onça, Chico esculpiu
muitas peças ligadas aos
motivos nordestinos –
cangaceiros, carros de
boi, mulheres rendeiras.
Sua produção maior, no
entanto, foi de crucifixos.
O Cristo nu (a
nudez aí sem nenhum
sentido erótico), pregado
à cruz, entalhado com
canivete (às vezes o artista usava uma serrinha
para modelar cabelo, barba e bigode) em
madeiras como imburana, cedro e imbuia.
Um estilo identificável, o de Santeiro, “tanto
pela fisionomia quanto pela posição e
minúcias de traços”, na visão de Veríssimo de
Melo.
No gênero pintura, alguns artistas
também se inspiraram na cena do Cristo
morto na cruz. Newton Navarro, por
e xe m p l o, ch e g o u a c r i a r C r i s t o s
demasiadamente trágicos, como escreveu
Iaperi Araújo: “São famosos os seus Cristos,
sofridos, crucificados entre pedaços de
animais esquartejados num açougue.” Já os
Cristos de Erasmo Andrade se situam no
contexto do seu particular estilo pictórico,
misto de surrealismo, humor e contestação
social. Suas metáforas “lembram Chagal”,
disse Dorian Gray Caldas, em seu livro
“Artes Plásticas do Rio Grande do Norte”
(1989). Um dos Cristos de Erasmo tem o
título “Jesus da Aldeia dos Humilhados”;
outro, “Cristo e Pavões.”
Como se vê, o Rio Grande teve e tem
bons artistas no desenho, na pintura e na
escultura crística. Famosos, sim, pois um
crucifixo de Chico Santeiro foi levado para o
papa Pio XII; outro, para o presidente
Kennedy.
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