PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC – SP Alessandra Ancona de Faria Teatro na formação de educadores: o jogo teatral e a escrita dramatúrgica DOUTORADO EM EDUCAÇÃO (PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO) SÃO PAULO 2009 Livros Grátis http://www.livrosgratis.com.br Milhares de livros grátis para download. PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC – SP Alessandra Ancona de Faria Teatro na formação de educadores: o jogo teatral e a escrita dramatúrgica Tese apresentada à Banca Examinadora como exigência parcial para obtenção do título de Doutora em Educação: Psicologia da Educação sob a orientação do Prof. Dr. Antonio Carlos Caruso Ronca DOUTORADO EM EDUCAÇÃO SÃO PAULO 2009 Banca Examinadora _________________________ _________________________ _________________________ _________________________ _________________________ Ao Du, meu grande amor, por criar comigo uma vida melhor do que eu poderia imaginar. À Teresa, filha amada, por me fazer descobrir outros significados para a educação e para a vida. Ao Stefano e ao Bernardo, enteados mais que queridos, por fazerem a nossa família mais alegre e completa. Aos meus pais, Lia e Cabé, por terem me ensinado a importância de viver em grupo. AGRADECIMENTOS Ao Prof. Dr. Antonio Carlos Caruso Ronca, cuja orientação precisa e carinhosa possibilitou que a elaboração desta tese fosse um aprendizado agradável e transformador. À Profa. Dra. Ingrid Dormien Koudela, pela participação na minha vida profissional, contribuindo, também para esta tese, ao me apresentar novos olhares para o jogo teatral e seus horizontes. Ao Prof. Dr. Ronaldo Alexandre de Oliveira, amigo querido, pelo diálogo estabelecido sobre este trabalho e pela parceria para compreendermos quais caminhos escolhemos. À Profa. Dra. Mitsuko Aparecida Makino Antunes, pela contribuição dada a este trabalho, não apenas no exame de qualificação, como nas conversas das aulas. À Profa. Dra. Wanda Maria Junqueira de Aguiar, pelas sugestões que ampliaram minha compreensão sobre a pesquisa. À CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior –, pelo financiamento que viabilizou minha estada na PUC. À equipe da LIP, pela confiança e acolhimento que permitiram o desenvolvimento da pesquisa piloto. Em especial aos professores Jussânia, Letícia, Paulo, Regina e Rita, que doaram algumas noites para este trabalho, e à Galyana e ao Ricardo, que abriram as portas da escola para que eu pudesse desenvolver parte importantíssima desta tese. À Profa. Ana Maria Vidilli, pelo interesse em compreender esta pesquisa e pelo trabalho como colaboradora no piloto, registrando os encontros e trocando impressões. Às professoras que participaram da pesquisa de campo: Ana, Cris, Déia, Jô, Julia, Lilá, Maria, Memê, Néia, Rocha e Sandra. Sem vocês esta tese não aconteceria. Agradeço as doze manhãs de terça-feira nas quais vocês participaram com o corpo, caras, caretas, conversas, histórias e vontade. À Profa. Dra. Márcia Lopes Reis, amiga e parceira neste trabalho, que se fez presente desde a elaboração do projeto, pela ajuda na formação do grupo de professoras, no acompanhamento de toda a pesquisa de campo e nas muitas conversas que me dão novos olhares para a vida. Aos professores, funcionários e colegas do Programa de Educação: Psicologia da Educação, pela receptividade e diálogos que tornaram a realização desta pesquisa mais rica. À Profa. Dra. Marília Ancona Lopez e à Profa. Dra. Marina Ancona Lopez Soligo, pelo apoio e incentivo dado nestes anos de trabalho. À equipe da UNIP com a qual trabalho, em especial à Luciana de Oliveira e à Fernanda Pagnan, que mantiveram o sorriso e a ajuda no nosso trabalho conjunto. À Cris e à Ítale, pelas conversas, trocas de impressões e idéias, pelo compartilhar deste momento. À Denise Lotito, por me ouvir e me ajudar nas minhas dúvidas sobre formas de escrever. À Luciana Lazzarini, por me socorrer nas mudanças de calendário, pelas caronas trocadas e pelas conversas no fim de tarde. À Dori e à Bel, por me ajudarem a cuidar da casa e da Teresa. À Dna. Dayse e ao Dr. Pimont, que foram sempre interessados e acolhedores, além de trocarem livros e ideias. Às duas mulheres que sempre me acompanharam: Lia, minha mãe, e Dri, minha irmã, com quem conversei sobre a tese, sobre a Teresa, sobre a casa, sobre as coisas que me importam na vida. Além da ajuda cotidiana em tudo o que eu pedi. Ao Du, por estar ao meu lado, por me incentivar a começar, me ajudar a terminar e pelos elogios diários que me fazem mais tranquila e alegre. RESUMO Este trabalho teve como propósito investigar em que medida a participação em um experimento de improvisação, por meio do jogo teatral, da escrita dramatúrgica e da reflexão do professor de educação básica podem ser considerados como instrumentos para formação continuada. A partir dessa investigação, nosso objetivo foi desenvolver e avaliar uma metodologia para esse tipo de formação. Para tanto, foram analisadas as possibilidades metodológicas da escrita dramatúrgica; as contribuições da experimentação de jogos teatrais e a reflexão do professor sobre seu processo de trabalho. A pesquisa foi desenvolvida em doze encontros de um grupo de professores, nos quais foram verificadas a importância do trabalho coletivo e da criação para a reflexão e a ampliação da perspectiva do papel do professor. Como conclusão, confirmou-se a necessidade de serem desenvolvidos trabalhos de formação que permitam ao professor ampliar sua visão sobre a escola e sobre soluções aos problemas enfrentados; que criem condições para o estabelecimento do trabalho em grupo; que revejam a auto-estima do professor; que possibilitem o exercício de alteridade; que forneçam instrumentos para a percepção do aluno em sua totalidade; e, por fim, que valorizem o conhecimento e o comprometimento. Explorar a aproximação por intermédio do corpo, do jogo, do imaginário, do diálogo, da elaboração estética produzida nas cenas teatrais abriu portas para a compreensão do ser professor, de seu papel, de seus limites. Desenvolver uma atitude criativa nas atividades propostas permitiu ao professor um novo olhar para a sua prática docente e para sua condição de trabalho, despertando uma nova forma de experienciar e compreender sua atuação. Palavras Chaves: Formação de professores, Educação, Pedagogia do Teatro, Jogos Teatrais, Escrita Dramatúrgica, Criação. ABSTRACT This research had the goal to investigate the extent to which participation in an improvisation experiment, through theater games, dramaturgical writing and reflection of the teachers on basic education network, may be considered as instruments for continuous training. From this investigation, our objective was to develop and evaluate a methodology for this kind of training. It analyzed the methodological possibilities that dramaturgical writing provides; the contributions of experimentation on theater games and the teacher’s reflection on their working process. The research has been developed with a group of teachers in twelve meetings, in which were verified the importance of collective work and creation for reflection and expansion of the teacher’s role perspective. As a conclusion, it has been confirmed the need for developing trainings which allow the teacher to broaden his vision of the school and on solutions to the problems faced; that create conditions for the establishment of the working group; that reconsider the self-esteem of the teacher; that allow the exercise of otherness; that provide tools for student perception in its entirety; and, finally, highlighting knowledge and commitment. Explore the approximation through the body, the game, the imaginary, the dialogue, the aesthetics drafting produced by the theatrical scenes opened doors for the understanding of the teacher, his role, his limits. Develop a creative attitude on proposed activities allowed the teacher a new view of his teaching practice and his working condition, generating a new way to experience and understand his work. Keywords: Training of teachers, education, theatre pedagogy, theater games, dramaturgical writing, creation. Sumário CAPÍTULO 1: Introdução .................................................................................. 5 1.1 Pesquisa de Campo ............................................................................... 14 Primeira Etapa: O Estudo Piloto ....................................................................... 14 Segunda Etapa: Pesquisa ................................................................................ 15 1.1.1 Formação do grupo de professoras ................................................ 15 1.1.2 Organização do Espaço Físico ....................................................... 18 1.1.3 Organização do Tempo .................................................................. 19 1.1.4 Organização dos Encontros ............................................................ 20 1.1.5 Questionário Inicial ......................................................................... 21 1.1.6 Levantamento dos Temas de Interesse .......................................... 25 1.1.7 Jogos .............................................................................................. 28 1.1.8 Relato ............................................................................................. 31 1.1.9 Registro dos Dados ........................................................................ 32 1.1.10 Reflexão sobre jogos e cenas escritas nos encontros .................... 32 1.1.11 Avaliação sobre os encontros ......................................................... 32 1.1.12 Escrita das cenas............................................................................ 33 1.1.13 Questionário Final ........................................................................... 34 1.2 Organização dos Capítulos .................................................................... 35 CAPÍTULO 2: O Jogo Teatral ......................................................................... 39 2.1 Quem ..................................................................................................... 53 2.2 Onde ...................................................................................................... 57 2.3 O quê ..................................................................................................... 59 CAPÍTULO 3: Reflexão sobre os Encontros ................................................... 71 3.1 Gestão ................................................................................................... 79 3.2 Crise de Valores Sociais ........................................................................ 83 3.3 Relacionamento professor/aluno............................................................ 94 3.4 Responsabilidade compartilhada ........................................................... 99 CAPÍTULO 4: Escrita Dramatúrgica ............................................................. 115 4.1 Escrita das peças ................................................................................. 134 4.1.1 Ana ............................................................................................... 135 4.1.2 Cris ............................................................................................... 137 4.1.3 Jô .................................................................................................. 141 4.1.4 Julia .............................................................................................. 144 4.1.5 Lilá ................................................................................................ 147 4.1.6 Memê ............................................................................................ 151 4.1.7 Néia .............................................................................................. 155 4.1.8 Rocha ........................................................................................... 159 4.1.9 Sandra .......................................................................................... 162 CAPÍTULO 5: Considerações Finais ............................................................ 171 CAPÍTULO 6: Bibliografia ............................................................................. 193 2 Anexos anexo 1: Questionário Inicial .............................................................................. 203 anexo 2: Relatos................................................................................................. 217 anexo 3: Cenas Organizadas por Encontro ........................................................ 229 anexo 4: Questionário Final ................................................................................ 259 anexo 5: Jogos por Encontro .............................................................................. 285 Lista de figuras Figura 1. Dança com pés e mãos – 10º encontro ................................................. 54 Figura 2. Gestos síntese do segundo encontro .................................................... 91 Lista de quadros Quadro 1: Características do grupo de professoras ............................................. 18 Quadro 2: Temas nos encontros .......................................................................... 28 Quadro 3: Jogos por encontro .............................................................................. 31 Quadro 4: Propostas de escrita dramatúrgica ...................................................... 34 CAPÍTULO 1 Introdução 5 CAPÍTULO 1: Introdução CENA 1 Cenário: Um quarto totalmente desorganizado, com papéis espalhados pelo chão e pela cama. O quarto possui apenas a cama, uma poltrona, uma mesa com cadeira e um armário embutido. As paredes são brancas, um pouco sujas do tempo, não há objetos, quadros ou enfeites. Personagem: Uma mulher, nem jovem nem velha. Sonoplastia: Sons e músicas que acompanham o estado de ânimo da personagem. Cena: A mulher anda pelo quarto, um pouco perdida em meio à bagunça, sem demonstrar muita angústia ou incômodo com a desordem ao seu redor. Senta, olha, levanta, anda um pouco mais. Aos poucos, começa a mexer nos papéis e seu movimento se acelera conforme ela toca os papéis. Pega diversos papéis, olha um pouco para cada um, abandonando-os e tornando a pegar outros. Senta, olha, se descabela, suspira. Retoma a respiração mais calma. Com um olhar de desânimo e angústia, começa a organizar os papéis em pilhas por cores, as pilhas são ordenadas sobre todos os móveis, algumas na cama, outras na poltrona e mais algumas na mesa e na cadeira. Conforme os papéis são organizados, sua expressão se transforma, oscilando em alegria, empolgação, alívio, desânimo, angústia; porém, no decorrer da arrumação, fica com o semblante cada vez mais calmo. Quando todos os papéis estão ordenados em pilhas separadas por cores, abre o armário, onde se veem caixas separadas por cores, e coloca cada pilha em sua caixa correspondente. 6 Fecha o armário, penteia o cabelo, ajeita sua roupa, ficando com uma aparência de ordem total e deita na cama, com o quarto totalmente organizado. Enquanto a mulher está deitada, aparentemente dormindo, voam folhas de papel que irão parar nos mais variados pontos do quarto. A luz se apaga enquanto as folhas voam, com a música tocando. ______________________________________ A escolha por fazer o doutorado surgiu da necessidade de pesquisar e compreender melhor o meu trabalho, minhas crenças sobre educação, sobre o papel do professor e sobre o sentido da criação na formação de educadores. Neste movimento por estruturar uma tese, vivi este permanente organizar e desorganizar idéias, em uma busca por uma estruturação que, certamente, se abrirá posteriormente para novas percepções e compreensões, mas que agora ganham esta forma aqui apresentada, procurando apresentar uma reflexão estética juntamente com a estrutura formal exigida em uma tese de doutorado. Nesta busca, apresentarei no início de cada capítulo uma cena teatral, que acredito refletir parte da discussão que se seguirá a ela no capítulo. Esta escolha permitirá ao leitor a possibilidade de compreensão também sensível e estética aos conceitos aqui apresentados. ____________________________________________ Tenho uma caixa de agendas, diários e cadernos de escrever a vida. Sempre gostei de escrever. Escrever sobre o que acontecia no dia, sobre as pessoas com quem convivia, sobre minhas paixões, minhas dúvidas... Escrever sempre foi e continua sendo uma maneira de refletir sobre o que estou vivendo, de poder entender melhor o que se passa comigo e como pensar o que está por vir, o que desejo realizar. 7 No início de minha carreira docente, escrevia todas as aulas que dava, não, apenas, antes, como forma de preparação sobre o que propor, mas também depois, como registro reflexivo sobre o ocorrido. Em paralelo a esta escrita sobre o vivido, escrevi histórias. A maior parte delas foram fruto da escuta feita por mim, desde criança, de histórias que minha avó contava. Quando fiz o meu mestrado, uma destas histórias fez parte daquela pesquisa e, ao terminá-lo, consegui terminar, também, um livro começado quase vinte anos antes, onde reuni todas as histórias contadas por minha avó. Foi, também, na pesquisa do mestrado que percebi com clareza que gosto muito de contar histórias e, que gosto mais ainda de contá-las na forma teatral, fazendo uso desta linguagem que tem sido, desde 1986, a área de trabalho à qual me dedico e com a qual me realizo. Graduei-me em Educação Artística, atuei nos mais diversos níveis de ensino, com crianças, adolescentes e adultos, em programas formais e extracurriculares. Aos poucos, fui enveredando para a formação de educadores para a educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental, onde não só as questões artísticas eram o foco principal, mas também outras, como projetos de trabalho e transposição didática, vendo-me aí envolvida com a dimensão educacional mais ampla. Mesmo trabalhando muitas vezes com diferentes disciplinas, não perco a perspectiva estética, formal e sensível, além da ética, a partir das quais vejo o mundo. Meu ponto de investigação, foco desta tese, consiste em compreender as possibilidades que a escrita dramatúrgica, associada ao jogo teatral e à reflexão, oferece para transformar a prática dos professores na busca de uma docência criativa. O conceito de jogo teatral, aqui apresentado, tem como referência a proposta de Viola Spolin1 (1977), traduzida por Ingrid Dormien Koudela, que 1 Viola Spolin é norte-americana e possui atualmente quatro livros traduzidos e publicados em português. Esta proposta de trabalho teatral está fundamentada na improvisação, propondo 8 também discute esta forma de trabalho em seu livro Jogos Teatrais (1990) dentre outros. O conceito de escrita dramatúrgica se refere a textos escritos para serem encenados, não tendo uma proposição formal pré-definida. Ambos estarão mais bem definidos nos capítulos 2 e 4, respectivamente. Em minha pesquisa de mestrado investiguei a proposta apresentada por Viola Spolin no livro O jogo teatral no livro do diretor (1990), relacionando-o com o conto de tradição oral, com um grupo de adolescentes de uma escola pública da cidade de São Paulo. Nessa pesquisa, pude investigar a adequação da proposta de Spolin dentro do universo escolar e a exploração de contos de tradição oral para uma montagem teatral. Spolin, em suas publicações, apresenta uma forma de trabalho com o teatro por meio do jogo, denominado de jogo teatral, que irá estimular ação, relação, espontaneidade e criatividade em grupo (SPOLIN, 2008) por intermédio do estabelecimento de um foco comum aos jogadores, somado às instruções dadas pelo coordenador do jogo e pela avaliação que está pautada no foco, sem a perspectiva do julgamento. O jogo teatral é um jogo de regras que estabelecem problemas a serem solucionados. O problema é o objeto do jogo que proporciona o foco. As regras do jogo teatral incluem a estrutura dramática (Onde/Quem/O Quê) e o foco, mais o acordo do grupo. (KOUDELA in SPOLIN, 2008) A riqueza apresentada pelo jogo teatral e explorada em meu mestrado dentro da situação escolar ao trabalhar com histórias, verídicas ou não, como matéria para a improvisação teatral e para a escrita dramatúrgica, me apontou a possibilidade deste processo criativo ser uma maneira de modificar a postura do professor, na nova compreensão que o mesmo pode fazer sobre sua prática docente. Neste caminho, explorando as possibilidades oferecidas pela escrita dramatúrgica associada ao jogo é que compreendo a opção de uma formação problemas a serem solucionados pelos jogadores, que possibilitarão a exploração do Quem (Personagem), Onde (Espaço) e O Quê (Ação). 9 continuada de professores que aponte para um professor criativo, crítico e reflexivo, que transforme a sua perspectiva e postura, assim como a sua ação. O poder criador do homem é sua faculdade ordenadora e configuradora, a capacidade de abordar em cada momento vivido a unicidade da experiência e de interligá-la a outros momentos, transcendendo o momento particular e ampliando o ato da experiência para um ato de compreensão. Nos significados que o homem encontra – criando e formando- estrutura-se sua consciência diante do viver. (OSTROWER, 1987, p. 132) Na perspectiva de criação de Ostrower é que compreendo a docência criativa, como possibilidade de permanente transformação da prática docente como conseqüência de uma elaboração da experiência que leva a uma nova configuração. O conceito de formação continuada se refere à formação que se inicia na graduação e que irá percorrer toda a carreira docente. Embora a pesquisa tenha se desenvolvido com professoras que, em sua maioria, já atuavam, os aspectos levantados e as indicações sugeridas para a formação docente se adequam tanto à formação inicial como à de professores já em exercício. Borges (2004) apresenta cinco características dos saberes docentes, a primeira delas é de que eles são situados, isto é, que só podem ser compreendidos em relação ao trabalho, que ganha sentido no e pelo trabalho. Esta idéia comporta a perspectiva de que o conhecimento profissional do professor traz as marcas de seu trabalho e da sociabilização da qual faz parte. A segunda característica é que os saberes são enraizados na experiência individual e coletiva, o que irá considerar tanto os caminhos pessoais, sua história, sua formação, suas experiências, etc., como os aspectos comuns ao grupo a que pertence. A terceira característica é que os saberes são temporais, isto é, que se definem no tempo, considerando toda a história de vida do professor, o que pode ser observado em muitos estudos que se baseiam em biografias. Como são temporais, apresentam modificações de acordo com as etapas da carreira docente. A quarta característica apresenta os saberes como plurais, compostos e heterogêneos. Plurais, pois se originam de diversas fontes sociais, além de reunirem saberes diferentes e heterogêneos. Compostos por trabalharem com 10 vários graus de objetivação e precisão, compondo lógicas e regras variadas. A quinta e última característica apresentada pela autora é dos saberes docentes serem relacionais e fruto de trabalho interativo. Esta característica traz algumas conseqüências, sendo a primeira delas o fato de que o docente se confronta com a individualidade de cada aluno, a segunda de que é um saber que possui um componente ético e emocional e a terceira de que solicita a capacidade de negociação e a tolerância. Tendo em vista as características dos saberes docentes, é necessário pensarmos uma formação que dê condições ao professor do exercício de sua profissão. Ao olhar para as minhas construções teóricas e práticas e reconhecendo como me formei pessoal e profissionalmente é que iniciei esta pesquisa. No diálogo com meus pares, professores e pesquisadores da educação, entendendo ser possível repensar a atuação do professor e sua postura, em busca de uma formação continuada que leve a uma atitude crítica, reflexiva e criativa. A pesquisa teve como propósito investigar as possibilidades que a escrita dramatúrgica e o jogo teatral ofereceram para a experimentação de um processo criativo e reflexivo para o professor da Educação Básica na sua formação, verificando como o ato criador é parte constituinte do cotidiano desses profissionais, bem como da construção coletiva de sua visão sobre educação. Entende-se por ato criador a possibilidade do professor em imaginar, combinar, modificar e criar uma aula nova, uma perspectiva da docência como atividade em permanente reelaboração e transformação. Tem-se a perspectiva do criar como dar forma a alguma coisa, entendendo-se a forma não apenas como uma área demarcada por fronteiras, mas é o modo por que se relacionam os fenômenos, é o modo como se configuram certas relações dentro de um contexto. (...) A forma será sempre compreendida como a estrutura de relações, como o modo por que as relações se ordenam e se configuram. (OSTROWER, 1987, p.79) 11 Optei por partir de temáticas relevantes sobre o cotidiano docente de um grupo de professores, explorando-os cenicamente, por intermédio da participação em improvisações com base no jogo teatral, que se somaram à reflexão sobre os mesmos e a elaboração de textos dramatúrgicos, podendo assim construir uma proposta de formação continuada na qual o professor experimentasse um modo criativo de reflexão sobre sua prática. Diante disso, questionei em que medida a participação em um experimento de improvisação, por meio do jogo teatral, da escrita dramatúrgica e da reflexão do professor de educação básica podem ser considerados como instrumento para a formação continuada. Assim, a pesquisa teve como objetivo geral desenvolver e avaliar uma metodologia de formação continuada, baseada na escrita dramatúrgica, no jogo teatral e na reflexão. Os objetivos específicos foram: Analisar as possibilidades que a escrita dramatúrgica propicia enquanto metodologia de formação continuada. Verificar se a participação na experimentação de jogos teatrais contribuiu para que o professor fizesse uma reflexão sobre seu processo de trabalho. Possibilitar a compreensão da importância de uma atitude criativa perante a docência. Os dados da pesquisa foram, inicialmente, secundários, com o levantamento das referências bibliográficas pertinentes ao tema, bem como a formação de fontes primárias em função da constituição de um grupo de nove professoras de São Paulo. A pesquisa de campo foi desenvolvida, prioritariamente, por atividades de jogos teatrais e escrita dramatúrgica, partindo de temas escolhidos pelas professoras, com enfoque na atividade profissional e na formação de cada uma. 12 A metodologia adotada neste projeto é a pesquisa-intervenção. Optou-se por esta metodologia, pois existe a participação dos sujeitos envolvidos na pesquisa e o entendimento de que os mesmos sofreram modificações de sua prática docente durante o desenvolvimento da pesquisa. Todo o processo experimentado pelo grupo possibilitou uma construção cognitiva da experiência, acompanhada da reflexão crítica de todo o coletivo, gerando transformações em sua compreensão e prática de seu papel como docente. No entanto, a percepção da problemática proposta, assim como a reflexão e redação do relatório foi feita somente por esta pesquisadora. A abordagem utilizada para a análise dos dados foi a teoria sócio-histórica, por compreender que o professor, sujeito desta pesquisa, é determinado por sua condição histórico-social. A dialética como processo e movimento de reflexão do próprio real não visa apenas conhecer e interpretar o real, mas por transformá-lo no interior da história da luta de classes. É por isso que a reflexão só adquire sentido quando ela é um momento da práxis social humana. (CURY, 1989, p.26) Para uma compreensão que vá além da descrição das situações vividas, seja nos jogos e na reflexão sobre os mesmos, seja na relação desta experiência com a prática docente, é necessária uma aproximação que possibilite a percepção do movimento dialético contido nestas realidades. Segundo Aguiar (In BOCK, 2001, p.131): Assim, a fala, construída na relação com a história e a cultura, e expressa pelo sujeito, corresponde à maneira como este é capaz de expressar/codificar, neste momento específico, as vivências que se processaram em sua subjetividade; cabe ao pesquisador o esforço analítico de ultrapassar essa aparência (essas formas de significação) e ir em busca das determinações (históricas e sociais), que se configuram no plano do sujeito como motivações, necessidades, interesses (que são, portanto, individuais e históricos), para chegar ao sentido atribuído/constituído pelo sujeito. É possível observar e analisar a “fala” dos sujeitos envolvidos na pesquisa, tanto nos momentos de reflexão oral sobre as improvisações realizadas, bem como nos diferentes textos escritos durante o processo; que continham parte da experiência criativa das improvisações e a reflexão individual e coletiva vivenciada nos encontros. 13 A experimentação das situações vividas e dos temas propostos pelo grupo de professores, seja pelas improvisações, seja pela escrita dramática permite ao professor a percepção de diferentes possibilidades de seu papel, de sua forma de atuar. A consciência destas múltiplas perspectivas, somada à experimentação dos diferentes “personagens professor” é o que permite ao professor assumir uma postura criativa, mutante em seu cotidiano, em seu trabalho, levando a uma atitude de ruptura com a mesmice, com a repetição. Esta possibilidade de ruptura é comentada por Aguiar e Baptista (2004): Neste sentido, estamos entendendo que a escola, dentre uma multiplicidade de determinações, tem a atividade do professor como um dos elementos que a constitui e é por ela constituída. Desse modo, ao compreender a relação professor-instituição de forma dialética, evitamos o perigo de olhar o professor como naturalmente bom ou mau, como a-histórico, rompendo assim com explicações fundadas numa presumida “Natureza Humana”. O professor pode ser, assim, aquele que vai problematizar coletivamente as questões educacionais, questionar aquilo que parece familiar, romper com o império da mesmice. A pesquisa de campo foi desenvolvida em duas etapas, sendo a primeira aqui denominada Piloto e, a segunda, Pesquisa. O objetivo do piloto foi verificar a adequação das propostas a serem desenvolvidas na pesquisa. Para registro e análise do trabalho de campo contei com alguns instrumentos, foram eles: 1. Questionário inicial2 junto ao grupo de participantes que teve o objetivo de levantar dados sobre sua prática docente. 2. Diário de bordo da pesquisadora3: Diário reflexivo sobre cada encontro contendo as observações anotadas durante e após os mesmos. 3. Relato dos encontros4 - escrito pelas professoras participantes. 4. Cenas5 - escritas pelos professores no decorrer dos encontros. 2 Ver Anexo 1. O questionário inicial respondido foi apresentado de forma agrupada para facilitar a compreensão dos leitores quanto às características do grupo de professoras. 3 Devido a extensão, os diários da pesquisadora, assim como das colaboradoras não serão anexados na íntegra, sendo incluídos ao texto quando necessários. 4 Ver anexo 2. 14 5. Peça teatral6 - escrita individualmente pelos participantes, com a proposição de que fosse uma reflexão sobre a pesquisa. 6. Questionário final7 com o objetivo de verificar quais as mudanças que a participação no projeto possibilitou para a reflexão sobre a prática docente. 7. Relato das observações de uma colaboradora que acompanhou todos os encontros, com o intuito de registrar o ocorrido. Este relato foi desenvolvido por duas professoras, sendo uma no Piloto e outra na Pesquisa. 8. Fotografias dos encontros8. 1.1 PESQUISA DE CAMPO PRIMEIRA ETAPA: O ESTUDO PILOTO O estudo piloto foi desenvolvido em uma escola particular de Educação Infantil da cidade de Jundiaí e contou com a participação da pesquisadora, de uma professora da escola, que ficou como observadora e, de seis professores sendo três professoras de classe, um de educação física, uma de matemática e informática e a sexta de música e horta. Dos seis professores que participaram no primeiro encontro, três deles vieram a todos os encontros, uma não voltou, e duas delas faltaram em um ou dois encontros. Para a Pesquisa defini por formar um grupo de dez professores, pois com este número, mesmo que ocorresse alguma desistência e parte dos participantes não estivesse presente em todos os encontros, teria dados suficientes. 5 Ver anexo 3. Ver anexo 4. 7 Ver anexo 5. 8 As fotografias estarão inseridas no corpo do texto quando forem necessárias para esclarecimento de algum momento narrado. Obtive das participantes a autorização do uso das imagens, assim como dos textos por elas produzidos. 6 15 Os encontros foram feitos na sala de yoga da Escola, depois de terminadas as aulas, o que fez com que fosse um espaço bastante silencioso, pois a escola fica em um sítio, não chegando ruídos externos até o lugar de trabalho. O piloto se estruturou em cinco encontros de duas horas cada. No primeiro encontro, além das explicações sobre a pesquisa, foi respondido o questionário inicial. Foram escolhidos os temas sobre os quais trabalharíamos nos encontros e realizamos alguns jogos teatrais, seguidos de escrita dramatúrgica. No segundo, terceiro e quarto encontros, trabalhamos com os jogos teatrais divididos em aquecimento corporal, aquecimento de grupo, jogos com palavras e jogo geral. Após os jogos, foram escritas cenas teatrais. No quinto e último encontro foi feita uma avaliação do trabalho, na qual retomamos os encontros anteriores, além de escrever uma cena que deveria refletir o trabalho e responder ao questionário final. Nos cinco encontros, foi possível observar alterações necessárias para a Pesquisa. SEGUNDA ETAPA: PESQUISA 1.1.1 Formação do grupo de professoras Para a formação do grupo de pesquisa, entrei em contato em setembro de 2007 com uma escola estadual da cidade de Jundiaí. Conversei com a coordenadora e com a diretora da escola e ficou definido que o projeto seria desenvolvido nesta escola, no horário de HTPC – Hora de Trabalho Pedagógico Coletivo - no ano de 2008. No início de 2008, as diversas mudanças ocorridas na rede estadual, dentre elas a movimentação na atribuição dos coordenadores, fez com que a escola mudasse de coordenação e perdesse o interesse em participar da pesquisa. No primeiro semestre de 2008, fiz contato com mais uma escola na cidade de Jundiaí, onde a diretora e a coordenadora demonstraram interesse na realização da pesquisa, desde que os professores concordassem. Porém, os mesmos não disponibilizaram o horário de HTPC e tampouco se dispuseram a participar em outro horário. 16 Entrei em contato com uma EMEI - Escola Municipal de Educação Infantil e uma EMEF – Escola Municipal de Ensino Fundamental - em São Paulo e, apesar do interesse da coordenadora da EMEI, o quadro docente não chegava ao número de dez professores. A tentativa de compor com a EMEF, vizinha à EMEI não se viabilizou, pois a coordenação e direção não se interessaram pela proposta. Em junho de 2008, por intermédio de uma colega9, contatei outra escola pública na cidade de São Paulo, onde as coordenadoras se interessaram pela realização da pesquisa, desde que em horário independente do HTPC. Conversamos com todos os professores que faziam HTPC na escola e quatro professoras demonstraram vontade de participar, além das duas coordenadoras. Devido ao número insuficiente, a Professora Colaboradora contatou algumas alunas do curso de pedagogia da universidade na qual lecionamos para que o grupo chegasse ao número desejado de dez professores. Na primeira semana de julho, havia treze professores dispostos a participarem, ficando combinado o início da pesquisa para o dia 12 de agosto. No dia 12 de agosto, pela manhã, eu e a professora colaboradora fomos à escola e dos seis interessados da própria escola estava presente apenas uma das coordenadoras, que nos informou que a outra coordenadora tinha ficado impossibilitada naquele dia, mas que mantinha o interesse em participar e que dos quatro professores interessados, duas haviam desistido por razões diversas e as outras duas estavam com dificuldade de comparecer, mas que não haviam desistido totalmente. Das professoras contatadas pela professora colaboradora somente duas vieram à escola; porém, devido à dificuldade em localizá-la, atrasaram-se por uma hora. Combinamos de retomar com todas as interessadas e iniciar a pesquisa no dia 19 de agosto. Na manhã de 19 de agosto, às 9h00, horário combinado para iniciarmos o trabalho, contávamos com cinco participantes, sendo as duas coordenadoras da Escola e três professoras/ alunas. Às dez da manhã, chegaram mais duas 9 Esta colega trabalha na mesma universidade em que trabalho, como professora e se interessou em participar da pesquisa como segunda observadora. Será aqui denominada como Professora Colaboradora. 17 integrantes que, também, tiveram dificuldade de localizar a escola. Realizamos o primeiro encontro com as sete participantes e, ao final dele, uma das professoras que havia manifestado interesse em participar da proposta, desculpou-se pela ausência e confirmou sua presença para o segundo encontro. Desta forma, o grupo que participou do primeiro encontro foi composto por: duas coordenadoras pedagógicas, Rocha e Sandra10, duas alunas de pedagogia que nunca lecionaram, Jô e Maria; duas professoras de Educação Infantil e uma professora de Educação Infantil e Primeiro Ciclo do Ensino Fundamental, Néia, Cris e Lilá. A professora que não participou do encontro, mas manteve seu interesse é professora do Ensino Médio, Julia.11 No segundo encontro, além das participantes do primeiro, contamos com mais uma professora da escola, do Ensino Médio, Memê e outra aluna de pedagogia, Déia. No terceiro encontro, entrou a última participante, professora de Educação Infantil e aluna da pedagogia, Ana. Definimos que não entraria mais nenhuma nova participante no grupo. No oitavo encontro, a Maria deixou de participar, pois começou em um novo emprego, impossibilitando-a de estar presente no horário dos encontros. Antes do nono encontro, a Déia, que havia faltado a alguns encontros, me contatou, explicando que estava com problemas pessoais que a impediam de continuar no trabalho. Das nove professoras que participaram até o final do projeto, três delas não estiveram presentes a um encontro por motivo de saúde pessoal ou de familiares, uma iniciou, apenas, no terceiro encontro, como relatado e as cinco restantes participaram de todos os encontros. 10 Os nomes aqui utilizados foram os escolhidos pelas professoras como identificação. As informações sobre o tempo de serviço e séries com as quais as professoras trabalham ou já trabalharam pode ser obtida no questionário inicial, no Anexo 1, assim como no quadro-síntese apresentado neste capítulo. 11 18 Participante Formação Ana Magistério, 6º semestre de Pedagogia Magistério, 6º semestre de Pedagogia 6º semestre de Pedagogia Bacharelado e Licenciatura em Geografia Magistério Cris Jô Julia Lilá Tempo de docência 7 anos Séries de docência 1ª a 4ª séries 13 anos Educação Infantil (1 a 5 anos) Nunca lecionou Desde o início de 2008. 15 anos Nenhuma Memê Letras e Psicologia 10 anos Néia Magistério, 6º semestre de Pedagogia 15 anos Rocha Licenciatura (Artes Plásticas) e Pedagogia Comunicação Social e História 18 anos Sandra 16 anos Função atual Professora de 3ª série do Ensino Fundamental Professora de Educação Infantil Não trabalha em escola. 1ª, 2ª e 3ª séries Professora de do Ensino Médio Geografia no Ensino Médio 1ª a 4ª e Educação Professora de Infantil Educação Infantil e Fundamental I 5ª, 6ª, 7ª, 8ª, EJA e Professora de 3º EM Português do Ensino Médio Todas as faixas Professora de etárias da Educação Infantil Educação Infantil. Estagiária em Ensino Fundamental I Ensino Médio, 8ª Coordenadora séries Pedagógica E. Fundamental (3ª à 8ª) E. Médio (1º, 2º e 3º) Coordenadora Pedagógica Quadro 1: Características do grupo de professoras 1.1.2 Organização do Espaço Físico Na sala em que foram desenvolvidas as atividades do Piloto, não havia cadeiras, pois é uma sala que tem o chão forrado com EVA, o que tornou muito agradável a realização de todos os jogos nos quais os professores se deitam ou sentam no chão; entretanto, para responder o questionário foi cansativo. Ficou clara a necessidade de termos uma sala que tivesse um espaço livre para a realização dos jogos e, também, carteiras para os momentos de escrita dos textos. 19 A Escola na qual a pesquisa foi desenvolvida, em São Paulo, é uma escola pública de Ensino Médio. No período em que desenvolvi a pesquisa, a escola passava por uma reforma do prédio, o que provocava um estado de considerável sujeira. A sala na qual trabalhamos é a sala onde ocorrem as reuniões de professores, que possui lousa e algumas carteiras, além de duas mesas grandes, armários e materiais diversos como livros, provas, etc. A sala não apresentava condições para desenvolvermos atividades nas quais as professoras se deitassem, devido à falta de limpeza do chão; desta forma, os aquecimentos dos primeiros encontros foram propostos com movimentos em pé. A partir do terceiro encontro, Sandra e Rocha providenciaram colchonetes nos quais foi possível trabalharmos também deitadas. O fato do espaço não ser tão amplo para a movimentação, não impediu a realização dos jogos. Organizei a sala de forma a deixar o maior vão possível para a movimentação. Embora as carteiras não fossem cômodas, possibilitaram a escrita dos textos sem causar maior sofrimento para as costas das participantes. A sala fica ao lado da quadra de esportes e do pátio, ocasionando a existência de ruído. Certamente trabalhamos em condições semelhantes à da maior parte das escolas públicas. 1.1.3 Organização do Tempo O tempo foi pouco para a realização das atividades propostas no primeiro encontro do Piloto. Faltou refletir sobre o que foi feito, relacionar melhor as atividades ao tema e aos aspectos relativos à profissão. No início do segundo encontro, a professora que havia escrito o Relato comentou que muitos cursos propõem atividades e dinâmicas interessantes; porém, a falta de reflexão sobre as mesmas faz com que se perca o interesse e o sentido. Ficou evidente que a quantidade de atividades propostas foi excessiva para o tempo que tínhamos. Dentro da situação em que eu me encontrava, preferi dar prioridade ao trabalho com os jogos e permitir que o grupo conhecesse um pouco mais da proposta com a qual iríamos trabalhar, além de acreditar que os jogos trariam uma situação de maior integração e prazer perante as dificuldades apresentadas para responder ao questionário. 20 Entretanto para a Pesquisa alterei esta dinâmica, dividindo-a em dois encontros, sendo que no primeiro foram feitos os esclarecimentos sobre a proposta, o preenchimento do questionário inicial e o levantamento dos temas de interesse e do segundo em diante trabalhamos com as propostas de jogos associados à escrita dramatúrgica e a reflexão sobre ambos. 1.1.4 Organização dos Encontros A pesquisa se desenvolveu em doze encontros, às terças-feiras pela manhã. Cada encontro teve a duração de duas horas, entre os dias 19 de agosto e 11 de novembro, não ocorrendo, apenas, no dia 28 de outubro, pois a escola não estava aberta. No primeiro encontro, foi feita a apresentação dos objetivos do projeto e suas características. Apresentei as idéias centrais desta tese, esclarecendo que ela parte do pressuposto de que a formação continuada só é possível com o envolvimento e construção coletiva do grupo de professores que dela participar. Esclareci, em linhas gerais, os pressupostos do Jogo Teatral, dentro da perspectiva de Viola Spolin e, também, a importância da escrita dramatúrgica neste projeto. Ficou combinado que uma participante por encontro faria um registro reflexivo do encontro, para ser lido no início do encontro seguinte. Orientei sobre a importância da utilização de roupas e sapatos confortáveis. Foi entregue o termo de consentimento e o questionário inicial. Na entrega do questionário inicial, esclareci a conduta ética tomada, no sentido de não expor ninguém indevidamente. Nenhuma das participantes se opôs à utilização do gravador para registro das conversas ou ao uso da máquina fotográfica. Informei ao grupo sobre a possibilidade deste projeto ser oferecido como curso de extensão da universidade na qual trabalho, o que permitiu a entrega de um certificado ao final do processo, para as participantes que tiveram presença superior a 80%, o que ocorreu com as nove que concluíram o projeto. 21 Esclareci a função da professora colaboradora, que atuou como segunda observadora na pesquisa, escrevendo um relato de cada encontro com exceção do 12º, no qual ela não pôde estar presente. O tempo levado para responder ao questionário foi de, aproximadamente, meia hora, somente uma das participantes não terminou de respondê-lo. Na última meia hora, fizemos a escolha dos temas com os quais trabalharíamos. A partir do segundo, os encontros seguiram a mesma estrutura proposta no Piloto. Desta forma, iniciamos os encontros com a leitura do Relato12 do encontro anterior, seguido dos Jogos Teatrais13, da Reflexão sobre o ocorrido e da Escrita das Cenas14 referente ao encontro ou à temática do encontro. 1.1.5 Questionário Inicial15 Na análise do questionário inicial respondido no Piloto, foi possível observar algumas mudanças que foram realizadas na Pesquisa. Ficou evidente a necessidade de mudarmos o termo “formação continuada” para “Cursos de capacitação” por ser o termo mais utilizado pelos professores, termo este que as professoras utilizaram entre si para esclarecer as questões de 8 a 10. Observei a possibilidade de haver existido alguma resistência a fazer qualquer crítica ou comentário que pudesse expor o professor, uma vez que o questionário solicitava o nome do respondente. Desta forma, acrescentei uma explicação inicial de que nenhuma das informações seria repassada para qualquer outra instância, dentro ou fora da escola e que nenhum nome seria exposto. O campo do nome foi alterado para identificação, explicando a importância da mesma para a comparação do questionário inicial com o final, sendo, ambos, objeto de análise da pesquisa. 12 Relato foi o instrumento de registro e reflexão sobre o encontro, escrito por uma participante por encontro. A escrita foi iniciada no segundo encontro e não ocorreu no décimo primeiro e décimo segundo. Os textos estão em sua íntegra no anexo 2. 13 No anexo 6 estão todos os jogos realizados por encontro. 14 As cenas estão apresentadas por encontro no anexo 3. 15 Ver Anexo 1. 22 As respostas às questões 18 e 1916 foram bem abrangentes e decidi utilizálas para auxiliar no levantamento dos temas a serem trabalhados na pesquisa. As respostas dadas à questão 2017 do Piloto demonstram a preocupação com o outro, o aluno. Quase todas as respostas sobre o que existe de melhor em ser professor dizem respeito à possibilidade de permitir o aprendizado ao aluno. De pior, em contraposição, também fica evidente a frustração em não realizar o aprendizado. Para a pesquisa, coloquei essa questão no plural para que fossem expostas as características identificadas como positivas e as negativas, não sendo necessário escolher apenas uma. As demais perguntas permaneceram iguais. Com o Questionário Inicial respondido, foi possível conhecer parte das características do grupo com que trabalhamos. A segunda pergunta do questionário solicita informações sobre a formação, pedindo que preencham os itens: Magistério, Graduação, Especialização, Mestrado e Doutorado. Foi possível identificar que o grupo é formado por sete estudantes de pedagogia18 e quatro já formadas com diferentes graduações. Nenhuma das participantes possui especialização, mestrado ou doutorado. As respostas à pergunta 3, sobre o tempo em que lecionam demonstram que duas das participantes nunca lecionaram, três lecionam de um a dez anos e seis de dez a vinte anos. As respostas à pergunta 4, sobre o local onde lecionam, demonstram que a maioria das professoras atua em escolas públicas. As respostas à pergunta 5, sobre as séries para as quais já lecionaram, demonstram que quatro professoras trabalham com educação Infantil, sete com 16 17 18 18. Quais os principais problemas enfrentados pelos professores? 19. Quais os principais problemas enfrentados pelas escolas? 20. O que existe de melhor e de pior em ser professor? Este fato se explica pela forma como o grupo foi constituído, anteriormente relatado. 23 Ensino Fundamental e quatro no Ensino Médio. O fato de os números não somarem o número dos participantes é decorrente de algumas professoras trabalharem em mais do que um ciclo. A pergunta 6, sobre o que lecionam, foi respondida de acordo com a formação, as professoras de áreas específicas responderam a área, as de Educação Infantil o mesmo e duas atuam como coordenadoras. As respostas à pergunta 7, sobre avaliação da formação inicial, demonstram que o grupo não tem uma reflexão aprofundada sobre a questão. Considero que o fato de sete das participantes serem alunas da professora colaboradora e saberem que eu estou vinculada à instituição onde estudam pode haver interferido em possíveis críticas à graduação. As respostas às perguntas 8 e 9, sobre cursos de capacitação, demonstram que a maioria do grupo freqüenta cursos de capacitação e que o que as leva a participar é a busca de atualização e melhora da prática docente. A falta de tempo e de dinheiro são fatores que impedem uma maior participação. As respostas à pergunta 10 demonstram que a maioria do grupo tem uma avaliação positiva sobre os cursos de formação, entendendo que eles acrescentam à prática docente. Entretanto, ao responderem à pergunta 11 evidencia-se uma contradição à pergunta 10, já que se entende que os cursos deveriam ter mais atividades relacionadas à prática, ao cotidiano, como pode ser observado a seguir: Qual a sua avaliação dos cursos de capacitação? (PERGUNTA 10) Acredito que os cursos de capacitação são fundamentais e acrescentam muito na vida docente. Os que participei acrescentaram na minha prática hoje. Tenho consciência de que são bons e importantes para que eu possa aplicar na minha carreira profissional. É preciso se aprofundar na prática. Gostei muito de todos os que fiz; aprendi muito com eles. 24 Gosto destes cursos, como já disse, acredito que realmente capacitem o profissional, que esta empenhado. Acho muito teórico, pouca prática... Para quem não tem “magistério”, fica difícil compreender e superar as dificuldades de sala de aula. Quais as suas sugestões para melhorar um curso de capacitação? (PERGUNTA 11) Ter pesquisas atuais e a parte prática mais explorada. Mais envolvimento, mais dinâmica e mais aplicação no cotidiano. Que além da teoria houvesse também dinâmicas. Disponibilidade de materiais (teóricos / práticos), ou criação destes materiais durante o curso. Horários mais flexíveis. Atuação na realidade de ensino / praticidade. Desenvolvê-los voltado para a prática do dia-a-dia. Como já citei, a teoria é necessário, mas cansa e dificulta... a prática é fundamental. As respostas à pergunta 12, sobre a importância da criação no trabalho docente demonstram que todo o grupo considera a criação necessária e importante à docência, por possibilitar o diferente, enriquecer o trabalho docente, permitir que se saia da repetição. As respostas às perguntas 13, 14 e 1519 demonstram que a maioria do grupo não tem contato com a linguagem teatral ou mesmo com qualquer linguagem artística. Tampouco participaram de formação continuada que se utilizasse do teatro. As respostas à pergunta 16, sobre a imagem delas como professoras apresentam imagens de interessadas, dedicadas, exigentes e dinâmicas. Nas respostas à pergunta 17, sobre imagens da escola, também aparece uma imagem positiva das escolas, como sendo um espaço de aprendizagem, de 19 Você tem alguma formação em arte? Se sim, em que área? Já fez ou faz teatro? Já fez algum curso de capacitação que trabalhava com teatro? 25 cultura, a esperança de futuro; porém, da mesma maneira que surge uma imagem positiva, existem ressalvas para os problemas que as escolas apresentam. As perguntas18 e 1920 foram respondidas com aspectos que dizem respeito à formação dos professores, condições físicas da escola, relação com a família e comunidade, postura dos alunos, salário dos professores, etc. A resposta a estas questões evidencia ser este um grupo que vivencia diversos problemas sobre a escola, tendo clareza sobre a complexidade dos mesmos. As respostas à pergunta 20, sobre o que existe de melhor e de pior em ser professor, demonstra que, para a maioria do grupo, o melhor da docência é poder interferir e possibilitar o aprendizado ao aluno, como pior surgem aspectos variados, que consideram tanto o oposto ao que há de melhor como as dificuldades já apontadas nas questões 18 e 19. As respostas à pergunta 21 apontam uma vida profissional de busca, de persistência, de aprendizado, de caminhos. Nas respostas à pergunta 2221, embora ainda apareça parte do que foi respondido na 21, surge a crença na satisfação, no “colher frutos”, no sucesso. 1.1.6 Levantamento dos Temas de Interesse Optei pela definição de temas de interesse, antes da realização dos jogos teatrais, embora o fato de trabalharmos com um grupo de professores já traria, provavelmente, na realização dos jogos, o surgimento de temas de interesses comuns. Entretanto, no Piloto como na Pesquisa, avaliei que o tempo de trabalho desenvolvido seria pequeno, podendo levar à alguma dispersão e consequente falta de aproveitamento do período em que estaríamos juntos. Desta forma, optei por encaminhar o trabalho definindo temas de interesse, mas deixando claro ao grupo que estes temas poderiam se modificar conforme o desenrolar da Pesquisa. 20 18. Quais os principais problemas enfrentados pelos professores? 19. Quais os principais problemas enfrentados pelas escolas? 21 Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional a partir de hoje? 26 No momento que solicitei quatro temas de interesse no Piloto, houve bastante dificuldade do grupo em escolher, talvez pelo fato de haver solicitado temas que dissessem respeito ao trabalho do professor. Porém, aos poucos, todos os participantes apresentaram sugestões. Das sugestões apresentadas, selecionamos quatro que entendemos abarcariam boa parte delas, sendo: 1º - Trabalho em Equipe 2º - Organização do tempo do professor. 3º - Lúdico 4º - Novas perspectivas na educação (este tema pretendia explorar as dificuldades de trabalhar com a diversidade dos alunos) Ao analisar as respostas dadas ao questionário inicial, ficou evidente a possibilidade de utilizarmos as respostas das questões 18 e 19 do questionário22, como ponto de partida para o levantamento dos temas, uma vez que essas questões solicitaram uma reflexão sobre os principais problemas enfrentados pelo professor e pela escola. A utilização dessas respostas para a definição dos temas a serem trabalhados na Pesquisa possibilitou uma maior amplitude na escolha, com maior clareza dos aspectos de interesse ao grupo. Os temas sugeridos foram: 1. Falta de apoio 2. Divergências (entre os professores) 3. Falta de espaço físico (por duas professoras) 4. Falta de recursos físicos (por três professoras) 5. Capacitação (por quatro professoras) 6. Salas muito cheias 7. Heterogeneidade 8. Ausência dos pais/comunidade 9. Falta de perspectiva do aluno e do professor 10. Auto-estima 22 18. Quais os principais problemas enfrentados pelos professores? 19. Quais os principais problemas enfrentados pelas escolas? 27 11. Desvalorização do ensino 12. Baixos salários 13. Falta de estímulo 14. Falta de compromisso docente 15. Freqüência do professor 16. Rotatividade 17. Gestão ruim 18. Políticas públicas ineficientes 19. Legislação 20. Crise de valores sociais Pedi que o grupo acrescentasse os temas que não estavam contemplados e que poderiam interessar ao projeto. Foram, assim, acrescentados mais três temas, sendo: 21. criatividade 22. responsabilidade compartilhada 23. relacionamento prof./aluno – interpessoais Como diversos temas apresentados interessavam ao grupo e estávamos com o tempo estourado, pedi que cada uma numerasse de 1 a 8 os temas, por interesse, para serem trabalhados e, então, pudemos selecionar os oito temas de maior interesse, ficando claro que iniciaríamos o trabalho com o primeiro, mas que poderíamos nos manter no mesmo tema pelo número de encontros que compreendêssemos como necessários, assim como alterar a ordem escolhida neste primeiro momento e incorporar outros temas. A escolha dos temas ficou: 1° Gestão 2° Relacionamento prof./aluno (relações interpessoais) 3° Responsabilidade compartilhada 4° Capacitação 5° Crise de valores sociais 6° Ausência dos pais 7° Desvalorização do ensino 8° Falta de recursos físicos 28 Apesar de termos oito temas escolhidos, trabalhamos apenas com quatro deles e os encontros ficaram assim organizados, com relação às temáticas: Encontro Primeiro Segundo Terceiro Quarto Quinto Sexto Sétimo Oitavo Nono Décimo Décimo Primeiro Décimo Segundo Data 19/8/08 26/8/08 02/9/08 09/9/08 16/9/08 23/9/08 30/9/08 07/10/08 14/10/08 21/10/08 04/11/08 11/11/08 Temática Apresentação da proposta e escolha dos temas Gestão Gestão Crise de valores sociais Crise de valores sociais Primeira avaliação da pesquisa Relacionamento prof./aluno (relações interpessoais) Relacionamento prof./aluno (relações interpessoais) Responsabilidade compartilhada Responsabilidade compartilhada Segunda avaliação da pesquisa Escrita de uma peça teatral Quadro 2: Temas nos encontros 1.1.7 Jogos A proposição dos jogos seguiu em todos os encontros uma mesma dinâmica, que iniciava com um Aquecimento Corporal. Os jogos propostos para o aquecimento corporal tinham como objetivo preparar o corpo para a possibilidade de se movimentar e se expressar. Desta maneira, foram realizadas atividades que exploraram a percepção corporal, além do relaxamento e alongamento da musculatura. Na seqüência, foram propostos jogos de Aquecimento de Grupo, que tiveram como objetivo gerar maior integração do grupo e um contato diferenciado, pela linguagem cênica. Os Jogos com palavras, realizados a seguir, pretendiam, principalmente, explorar a fala e a escrita. Foram propostos jogos que permitiram maior fluidez para a incorporação da fala. Por último, foram apresentados jogos, aqui denominados de Jogos Gerais, que se relacionavam à temática escolhida pelo grupo e exploraram aspectos variados da linguagem teatral, não tendo um foco específico como o da fala, do espaço ou da personagem. De maneira geral, os jogos teatrais que utilizamos trabalham com o imaginário, tanto no que diz respeito ao espaço (cenário e objetos de cena) como vestimenta (figurino). As situações propostas partem de um objetivo, o foco com o 29 qual o jogo irá trabalhar. E, para que o mesmo seja alcançado, são utilizadas situações e objetos imaginários, o que significa dizer que se realizamos o jogo da bola, será com bolas imaginárias, se a personagem carrega uma mala, será uma mala imaginária, etc. Um dos objetivos de trabalharmos com estes jogos, não explorando a criação de cenários, adereços ou figurinos se deve ao fato de que o interesse de trabalhar com os jogos se deu pela utilização da criação teatral como uma possibilidade de reflexão sobre a prática docente e não com o interesse de que os professores conhecessem a linguagem teatral em profundidade. A seguir, serão apresentadas cada uma das etapas em detalhe. Aquecimento Corporal: O aquecimento corporal foi feito por meio de propostas de movimento das articulações e musculatura e, também, por jogos que levassem à movimentação do corpo como um todo. Ficou evidente, pela avaliação das professoras, a necessidade da manutenção do aquecimento corporal em todos os encontros, mesmo que tivesse que ser maior nos primeiros encontros e depois pudesse ser, somente, para o grupo “acordar” o corpo e prepará-lo para jogar. Aquecimento de Grupo: Os aquecimentos do grupo se realizaram por meio de jogos teatrais, que tinham como foco atividades que exigiam a interação do grupo para que pudessem se realizar. No Piloto, foram necessários nos dois primeiros encontros e depois o grupo conseguiu criar um envolvimento suficiente com as propostas dos outros jogos. Entretanto, foi interessante observar como no aquecimento do segundo encontro utilizamos o jogo Parte do Todo23, que foi muito marcante para o grupo como forma de compreender a importância do trabalho em grupo. Em diversos momentos deste e de outros encontros os professores se referiram a esse jogo como exemplo do Trabalho em Equipe e uma das professoras, na 23 Neste jogo entra um participante de cada vez para a montagem de uma máquina imaginada pelo grupo. São propostos movimentos e sons que busquem a realização de uma máquina única, na qual cada participante é uma peça, a máquina pode se referir a uma máquina existente, como um liquidificador ou uma máquina de escrever ou ser apenas o agrupamento de peças que formam uma máquina não reconhecível. (SPOLIN, 2001) 30 avaliação, ponderou ter sido esse o jogo mais marcante de todos os que realizamos. Para a Pesquisa, optei por incluir nos primeiros encontros jogos que trabalhassem o coletivo, mas também retomá-los nos encontros seguintes, ainda que de forma mais espaçada, por entender a importância dos mesmos para o grupo. Jogos com palavras: A classificação dos jogos como sendo com palavras se deve ao fato de serem aqueles que exploraram a fala. Os jogos com as palavras foram fundamentais para que o grupo conseguisse uma maior tranqüilidade em utilizar o verbal, tanto durante o jogo como na escrita. Parte dos jogos teatrais que realizamos não exigiam a fala dos jogadores, por terem como foco o trabalho corporal. Este fato, somado à dificuldade existente na incorporação do diálogo às cenas, poderia ter gerado um mutismo no jogo e, consequentemente, dificuldades para a escrita de cenas. A utilização de jogos que exploraram a fala deu ao grupo uma maior fluidez no uso da mesma. Jogo Geral: Nestes jogos, trabalhamos a temática proposta para os encontros, de tal maneira que busquei a proposição de jogos que levassem à reflexão sobre o tema do encontro. Eles não apresentavam qualquer enfoque em aspectos cênicos, como a personagem, a sonoplastia ou o cenário. Mantive na Pesquisa a proposição de jogos, de acordo com a temática, como já realizado no Piloto, por observar que estas propostas resultaram em reflexões aprofundadas. Um exemplo desses jogos foi a realização do jogo Contato24 no sétimo encontro da Pesquisa em que a temática foi relacionamento professor e aluno. Apresento, a seguir, todos os jogos realizados por encontro. 24 Este jogo estabelece que qualquer participante só poderá falar na cena quando tiver tocado o corpo de outro jogador. (SPOLIN, 2001) 31 Encontro Segundo Jogos de aquecimento corporal Caminhada no Espaço Terceiro Jogos de aquecimento do grupo O objeto move os jogadores Dar e tomar: aquecimento Quarto Exploração do esqueleto e movimentação com alterações físicas. Quinto Massagem em dupla Sétimo Pega-pega com explosão Movimentar-se conforme o ritmo de uma música. Parte do todo # 3: Profissão Nono Dança do Carimbo e Massagem em dupla Dança de uma ciranda Décimo Movimentação em dupla partindo dos pés Envolvimento com objetos grandes Oitavo Jogo da bola Jogos com palavras Jogo Geral Fala Espelhada Tensão Silenciosa Leitura das cenas escritas no 2º encontro Vendo o Mundo Improvisação sobre as cenas escritas no encontro anterior Improvisação em uma festa junina escolar com personagens criadas no terceiro encontro Improvisação sobre cenas escritas no quarto encontro Contato Leitura de uma cena escrita no 7º encontro Improvisação partindo de uma cena escrita no sétimo encontro Preso em grupo Construindo uma história a partir de seleção randômica de palavras. Quadro 3: Jogos por encontro 1.1.8 Relato A escrita do Relato foi feita a cada encontro por um participante. Este texto tinha a função de recuperar o encontro anterior e, possibilitar ao professor que o escrevesse, uma reflexão sobre o mesmo para ser compartilhada com o grupo. A prática de iniciar os encontros com a leitura do relato se mostrou positiva, não apenas por aquecer o grupo com a retomada do encontro anterior, como por ter tido a função de memória dos encontros, memória esta produzida pelo grupo, não ficando centrada na pesquisadora. Com o passar dos encontros, os textos ficaram mais reflexivos. 32 1.1.9 Registro dos Dados Um dos registros dos dados do Piloto foi o Diário de Bordo da pesquisadora. Inicialmente, imaginei que o registro feito logo após cada encontro, somado ao relato da colaboradora, fosse suficiente para a retomada do ocorrido. Porém, após o segundo encontro, avaliei que parte das discussões realizadas pelo grupo não estava suficientemente registrada. Desta forma, incluí a gravação destes diálogos, que me auxiliaram na escrita do Diário de Bordo. Na Pesquisa, a gravação foi realizada desde o início do trabalho, somando-se ao registro escrito da pesquisadora e da professora colaboradora. 1.1.10 Reflexão sobre jogos e cenas escritas nos encontros A existência de momentos de reflexão sobre os jogos, bem como sobre as cenas escritas nos encontros se mostrou fundamental desde o primeiro momento do Piloto, como já relatado. Para a Pesquisa, mantive essa prática, não sendo possível a leitura e reflexão sobre todas as cenas, devido à falta de tempo, uma vez que o número de participantes foi maior que o do Piloto. 1.1.11 Avaliação sobre os encontros No Piloto, iniciamos a avaliação dos encontros, fazendo uma retomada verbal do que havia ocorrido nos quatro encontros anteriores, o que foi feito com bastante dificuldade, pois, além de esquecermos o que havia ocorrido, confundíamos permanentemente os jogos de um encontro com outro. Havia levado uma lista com todos os jogos realizados em cada encontro, o que possibilitou uma retomada um pouco mais fidedigna; porém, devido ao tempo, não nos detivemos muito em comentários detalhados. Ficou a indicação da impossibilidade de uma retomada semelhante com doze encontros, pois ninguém teria capacidade de se recordar, com clareza, sem se confundir. Desta forma, defini por fazer uma primeira retomada na metade dos encontros e outra no final. Em ambas, levei um resumo de cada um deles, apontando quais jogos e cenas ocorreram, além da temática trabalhada, para que 33 pudéssemos nos deter em lembrar o que foi de mais significativo para o grupo, seja com relação aos temas debatidos, seja com relação às cenas e jogos. Também foram entregues para cada participante os relatos escritos por elas e as cenas escritas individualmente. No Piloto, solicitei aos participantes que simbolizassem cada encontro com a criação de uma personagem, espaço ou frase síntese. Essa proposta foi mantida e ampliada na Pesquisa. 1.1.12 Escrita das cenas Durante os encontros foram escritas cenas que se relacionaram aos jogos, reflexões e temáticas relacionadas a ele. A escrita dessas cenas foi individual. No último encontro, solicitei a escrita de uma cena que fosse uma reflexão sobre o curso do qual elas participaram. Pedi que fosse uma cena em que pudéssemos visualizar com a leitura, isto é, que fosse possível imaginar a situação descrita, situação essa que pudesse ser representada, caso quiséssemos. Para a escrita da cena, no Piloto, cada participante recebeu as cenas escritas nos encontros, as reflexões sobre cada encontro e uma página com seis fotos dos encontros. Na Pesquisa, também, foi produzido um texto teatral como forma de reflexão sobre o trabalho. Entretanto, foi solicitada a escrita de uma peça e não apenas uma cena. As participantes receberam todo o material produzido uma semana antes do encontro, dando a possibilidade de que os retomassem e seus textos, podendo fazer alguma elaboração prévia para a escrita da peça. A seguir, quadro que sintetiza as sugestões para a escrita. 34 Encontro Primeiro Segundo Terceiro Quarto Quinto Sexto Sétimo Oitavo Nono Décimo Décimo Primeiro Décimo Segundo Proposta de escrita de cena Não houve a escrita de cenas Solicitei uma cena sobre os jogos e o tema. Pedi que cada participante criasse uma personagem, partindo das cenas trabalhadas ou das situações propostas no segundo encontro. Solicitei que cada uma escrevesse uma cena do ponto de vista da personagem com que trabalhou durante os jogos, podendo propor diferentes soluções para o ocorrido, tendo em vista a temática do encontro. Solicitei que cada uma escrevesse do ponto de vista de alguma das professoras encenadas, apresentando a forma como ela se sentiu na situação vivida. Não houve a escrita de cenas. Levei um modelo para a escrita da cena e solicitei que as cenas fossem escritas com a definição das personagens, do local onde a cena ocorre e com diálogos e rubricas. Neste encontro levei algumas peças de teatro para serem folheadas e algumas participantes levaram para ler o texto completo em casa. Solicitei uma cena sobre os jogos. Pedi que cada uma escrevesse uma cena teatral, seguindo o modelo de um dos jogos na qual o tema vivenciado fosse trabalhado. Pedi que cada participante escrevesse em casa, uma cena que demonstrasse como um professor resolveria um dos conflitos apresentados nos jogos. Sete cenas foram escritas, todas elas se remetiam às situações de improvisação. Não houve a escrita de cenas. Escrita de uma peça que sintetizasse a Pesquisa. Quadro 4: Propostas de escrita dramatúrgica 1.1.13 Questionário Final25 As respostas dadas ao questionário final do Piloto foram bastante genéricas. Desta forma, alterei algumas das questões, principalmente no sentido de buscar uma maior especificidade e detalhamento. Logo no início, foi explicado que, além de esclarecer as razões da aplicação do questionário, também se buscava incentivar que as participantes dessem respostas amplas, nas quais fosse possível evidenciar a abrangência que este projeto teve em sua prática docente. 25 Ver Anexo 5. 35 Dessa forma, as perguntas 3 e 6 continuaram iguais nos dois questionários. As perguntas 9 e 16 da Pesquisa não existiam no Piloto; porém, avaliei ser necessária uma questão específica à escrita das cenas e outra que deixasse a possibilidade de comentários que as professoras entendessem necessários e que o questionário não havia solicitado. As demais perguntas permaneceram semelhantes; entretanto, em todas elas houve acréscimos de frases que tinham como objetivo um maior detalhamento em suas respostas. 1.2 ORGANIZAÇÃO DOS CAPÍTULOS Optei por não ter nenhum capítulo exclusivo de revisão bibliográfica, mas dialogar com os autores que contribuíram para esta pesquisa no decorrer de todo o trabalho. Dessa forma, no primeiro capítulo apresentei os objetivos e a metodologia utilizada, assim como a forma pela qual a pesquisa de campo foi realizada. Os capítulos que se seguem estão organizados, tendo como referência o objetivo geral dessa pesquisa. O segundo capítulo discute o conceito de jogo teatral, os seus componentes estruturantes e sua relação com os conceitos de criatividade e trabalho coletivo. É apresentada parte dos jogos realizados na pesquisa e sua importância na formação de professores. Esses dados foram obtidos por meio do Diário de Bordo da pesquisadora, do relato da colaboradora e das fotos tiradas nos momentos em que os jogos ocorreram. O terceiro capítulo apresenta os momentos de reflexão do grupo, analisando as discussões feitas coletivamente, bem como a reflexão individual sobre o processo vivido. Para a análise desta reflexão, utilizei, além do diário de bordo da pesquisadora, o relato da professora colaboradora e os relatos dos encontros escritos pelas professoras. O quarto capítulo traz a relação entre a escrita dramatúrgica e os conceitos de criatividade e trabalho coletivo. A apresentação da análise das cenas escritas pelas professoras, assim como das peças finais, permitiu discutir a elaboração da linguagem como parte constituinte da reflexão do professor sobre sua prática. Foi 36 possível perceber a experiência de escrever sobre a experimentação teatral como um processo de elaboração e compreensão do que foi vivido no grupo e do trabalho do professor na escola. O quinto e último capítulo discute os conceitos de criatividade e trabalho coletivo como base para a formação do professor. Nesse capítulo, apresento a reflexão sobre a questão central dessa pesquisa – verificar de que forma vivenciar um processo de criação no jogo teatral associado à escrita possibilitou a formação continuada dos professores envolvidos, redefinindo sua compreensão sobre sua prática. Para tanto, faço uso dos questionários finais. CAPÍTULO 2 O Jogo Teatral 39 CAPÍTULO 2: O Jogo Teatral CENA 2 PERSONAGENS: Nove mulheres. (A escolha do figurino fica a critério do encenador, porém é indicado que sejam mulheres diferentes, com estilos diferentes, podendo ser de épocas variadas ou da atualidade) CENÁRIO: Palco vazio, com uma rede de pesca cheia de bordados, de pedaços de panos coloridos, de rendas, de objetos. A cena se inicia com as mulheres entrando, uma a uma, algumas carregam uma cadeira, outras um pufe, uma com uma almofada, uma com uma bóia. Todas elas carregam cadernos, livros e papéis. Conforme entram no palco, cada uma senta e começa a costurar um pequeno pedaço da rede, olhando para baixo ou para dentro, não há sinais de comunicação ou de que seja um trabalho comum. Em alguns momentos, uma puxa um pouco mais a rede, fazendo com que outra tenha que puxar de volta. Este movimento faz com que elas se olhem, mas não por muito tempo. As linhas para a costura são retiradas dos cabelos. MULHER 1: (Cantando alto) “Se esta rua. Se esta rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas com pedrinhas de brilhante, para o meu, para o meu amor passar.” MULHER 2 e 3 bordam uma rua com pedrinhas de brilhante de onde elas estão até chegar na mulher 1. Sentam-se ao lado dela e continuam a bordar, porém uma interfere no bordado da outra. MULHER 4: (Correndo em volta da rede e das mulheres e falando bem alto) Minha mãe mandou bater neste daqui, mas como sou teimosa vou bater neste daqui. (Tenta tocar em uma das mulheres que retira o corpo, ela recomeça. Ao tocar na segunda, esta se levanta, faz o movimento de uma explosão com o corpo e corre falando junto com a mulher 4. Continuam assim até tocarem todas as mulheres; porém, algumas se cansam no meio do caminho e voltam a se sentar e 40 bordar. Cada vez que uma delas é tocada, movimenta-se como se estivesse explodindo. Todas se sentam, ficando próximas, formando duplas que retomam suas costuras, silenciosamente. MULHER 5 se vira para a Mulher 6 que está ao seu lado e coloca as mãos em posição de brincadeira de palmas, começando a cantar: “O trem maluco quando sai de Pernambuco vai fazendo fuck-fuck até chegar no Ceará, rebola bola você diz que dá que dá, você diz que dá na bola na bola você não dá.” MULHER 6 canta e brinca com as mãos. As outras mulheres continuam a bordar, enquanto fazem pequenos gestos de massagem umas nas outras, em diferentes partes do corpo. Quando a música para, todas continuam a bordar e a se massagear, tocando ora o corpo de outra mulher, ora o próprio. MULHER 7 pega um caderno e levanta na frente do rosto, todas imitam o movimento: “Escravos de Jó, jogavam caxangá, tira põe, deixa ficar, guerreiros com guerreiros fazem zigue-zigue-zá, , guerreiros com guerreiros fazem ziguezigue-zá.” TODAS: “Escravos de Jó, jogavam caxangá, tira põe, deixa ficar, guerreiros com guerreiros fazem zigue-zigue-zá, , guerreiros com guerreiros fazem zigue-ziguezá.” (Cantam a música com os cadernos em frente ao rosto, que se abaixa até que apareçam os olhos e possam se olhar. Na terceira vez que cantam, fazem o movimento de passar os cadernos de uma para a outra). Ao terminar a música, cada uma abre o caderno que ficou em sua mão e começa a ler o que está nele. A forma de ler é variada, algumas leem com pressa, folheando, outras demoram-se em uma só página, etc.) MULHER 8: “A canoa virou, por deixar ela virar, foi por causa da Maria que não soube remar, siriri prá cá, siriri prá lá, a Maria é velha e quer casar.” Enquanto a Mulher 8 canta, uma outra mulher rola por cima da rede lentamente até chegar em frente à outra. A mulher que rolou começa a cantar e a outra a rolar. Os nomes falados na música são alterados a cada vez que a música é cantada. As outras mulheres continuam a bordar. Entretanto, trocam objetos entre si e puxam fios de cabelo da cabeça de outra mulher, além da própria. 41 MULHER 9 enquanto recolhe seus objetos, começa a cantar: “Você gosta de mim ó maninha, eu também de você, vou pedir ao teu pai ó maninha, para casar com você, se ele disser que sim ó maninha, tratarei dos papéis, se ele disser que não ó maninha, morrerei de paixão.” As outras mulheres cantam junto com ela e, aos poucos, vão saindo de cena, porém despedem-se tocando-se, algumas se abraçam, outras dão pequenos beijos na cabeça das que estão sentadas, roçam os pés, dão uma umbigada, acenam com as mãos. Quando todas saem, a luz permanece na rede, escurecendo aos poucos enquanto se ouve um coro: “Palmas, palmas, palmas, pés, pés, pés, roda, roda, roda, escolha quem você quer.” ________________________________________ Participar do jogo teatral, entrar em contato consigo mesma e com o restante do grupo, por intermédio do jogar, do brincar, do contato com o próprio corpo assim como com o corpo das outras professoras foi extremamente revelador neste trabalho. A alegria experimentada por esta nova forma de contato permitiu ao grupo se conhecer e descobrir como trabalhar conjuntamente dentro de referências pouco freqüentes no espaço escolar. Este capítulo se propõe a discutir o papel do jogo teatral na formação de professores, apresentando as principais características do jogo e a forma de apropriação dos conceitos trabalhados pelas professoras envolvidas. O teatro oferece diferentes abordagens para a sua construção. É frequente nos depararmos com a perspectiva do espetáculo teatral como uma obra fechada, definida, sem espaço para proposições novas no momento da apresentação. A concepção de que o teatro representado surge de um texto teatral, que é a origem da movimentação dos atores e, consequentemente, da forma adquirida pela cena 42 é bastante comum. Da mesma forma, a idéia de improvisação como algo sem preparo prévio, desorganizado, informal, também é bastante difundida.26 A proposta de Viola Spolin (1977) para o teatro rompe com essa idéia da improvisação como um trabalho sem qualquer elaboração, exatamente por ofertar uma abordagem que irá estabelecer objetivos e procedimentos que levam à criação, por intermédio de jogos teatrais. Viola Spolin, autora norte americana, desenvolveu sua proposta dos Jogos Teatrais, a partir de sua atuação com Neva Boyd, que trabalhava com educadores e assistentes sociais com o intuito de integrar imigrantes que chegavam aos EUA. Spolin, que também era de uma família de imigrantes judeus russos, desenvolveu sua proposta de jogos teatrais no intuito de criar um sistema de treinamento teatral que fosse de fácil entendimento e que pudesse superar as barreiras culturais e étnicas existentes entre os atendidos pelo Recreacional Project em Chicago. Neste caminho irá trabalhar com crianças com as quais ela se utilizou dos jogos teatrais para a produção de peças e futuramente trabalhará, juntamente com seu filho Paul Sills em grupos de teatro improvisacional.27 Em 1963, publicou Improvisation for the Theater, que se tornou seu ensinamento acessível, pela primeira vez, não apenas para grupos de teatro improvisacional, mas também para o professor de sala de aula. Vinte e três anos depois, esse livro permanece como um bestseller para o teatro e o ensino. Mais de cem mil cópias foram editadas em inglês e o livro foi traduzido para o alemão, holandês e português. (KOUDELA in SPOLIN, 2008) No Brasil o trabalho com os Jogos Teatrais vem se realizando desde o período de tradução do livro Improvisação para o teatro, em 1987, e, atualmente, está presente nos diversos cursos de formação em teatro de todo o país, além de ser um dos referenciais teóricos para o ensino de teatro proposto pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, de 1997 para o Ensino Fundamental e Médio. 26 Nos últimos anos temos visto apresentações teatrais que incluem a improvisação como parte da estrutura do espetáculo, o que permite uma ruptura na idéia da peça acabada e fechada, porém esta forma ainda é pouco utilizada se pensarmos na maior parte dos espetáculos apresentados em circuito comercial ou mesmo dentro do espaço escolar. 27 Para mais informações sobre o trabalho de Viola Spolin ver a Dissertação de Mestrado A aquisição da competência semiótica para a atuação teatral de Marco Aurélio Vieira Pais, ECAUSP, 2000. 43 A escolha de trabalhar com o teatro, com os Jogos Teatrais, como metodologia de formação de professores, deve-se ao fato de entender que essa forma de trabalho possibilita uma atitude criativa, postura necessária para o questionamento e a transformação da prática docente, dentro da perspectiva aqui proposta. Na experimentação de uma linguagem artística é possível percebermos a realidade com perspectivas diferentes das que nos são oferecidas por outras áreas de conhecimento. Segundo Aguiar e Baptista (2004): A metamorfose, no entanto, se constitui no movimento oposto ao da mesmice. É concebida como uma mudança que envolve uma superação dialética, uma alterização, explicitada tanto na consciência como na atividade e que leva o indivíduo a um movimento evolutivo na direção de uma realidade mais humanizada – concebida como valores de liberdade e igualdade. Quando a pessoa vivencia concomitantemente vários papéis, pode compará-los entre si ou experiência-los verificando suas semelhanças e diferenças. Estas diferentes percepções permitem ao indivíduo assumir os papéis com maior autonomia em relação aos modelos oferecidos, assim como também estabelecer representações genéricas dos papéis e de si próprio. Este é um processo de individualização que leva à constituição da chamada “identidade autônoma”. A materialidade define uma determinada maneira de criarmos, seja qual for a área de conhecimento que estamos lidando. As ordenações, físicas ou psíquicas, tornam-se simbólicas a partir de sua especificidade material. Não é possível traduzir nem parafrasear o processo imaginativo, porque transpor de uma matéria específica para outra desqualifica esta matéria e não qualifica a outra. (OSTROWER, 1987, p.35) Alguns conceitos são fundamentais para que a prática dos jogos teatrais seja significativa. O intuito de explorar estes conceitos ocorre pela compreensão de que ao conhecer os elementos da linguagem artística com que se trabalha, é possível vivenciar a criação de maneira mais ampla e profunda, sem que tenhamos a preocupação de que esta formação leve ao domínio do teatro na perspectiva de possibilitarmos o desenvolvimento do trabalho de ator ou de dramaturgo. Embora a perspectiva desta pesquisa não fosse o ensino do teatro, é importante ressaltar que o conhecimento desta forma artística permite uma 44 compreensão muito mais aprofundada das proposições feitas ao grupo. Neste trabalho, não foi possível termos um contato direto com montagens teatrais devido às características do grupo e ao tempo de trabalho de que dispusemos; entretanto, sempre que possível, foram feitos comentários que levaram a um maior conhecimento do teatro. Spolin sugere que o processo de atuação no teatro deve ser baseado na participação em jogos. Por meio do envolvimento criado pela relação de jogo, o participante desenvolve liberdade pessoal dentro do limite de regras estabelecidas e cria técnicas e habilidades pessoais necessárias para o jogo. À medida que interioriza essas habilidades e essa liberdade ou espontaneidade, ele se transforma em um jogador criativo. Os jogos são sociais, baseados em problemas a serem solucionados. O problema a ser solucionado é o objeto do jogo. As regras do jogo incluem a estrutura (Onde, Quem, O Quê) e o objeto (Foco) mais o acordo de grupo (KOUDELA, 1990, p.43) Ao desenvolver a atuação teatral dentro da proposta de um jogo, o professor / coordenador estabelece não apenas um objetivo comum a ser conquistado, como as regras que darão os limites dentro dos quais o jogo deverá ocorrer. Esses dois elementos permitem ao jogador maior tranquilidade para improvisar, já que a improvisação ocorrerá dentro de alguns parâmetros, e não com uma liberdade total que, na maior parte das vezes, gera imobilidade. O jogo teatral é um jogo de regras que são apresentadas como forma de organização do grupo e como maneira de serem estabelecidos objetivos comuns. A possibilidade de trabalhar com regras, sem que as mesmas sejam estáticas e imutáveis leva ao acordo de grupo e a liberdade de expressão. As regras estabelecidas conjuntamente possibilitam a espontaneidade. A relação autoritária percebe a regra como lei. Na instituição lúdica, a regra pressupõe processo de interação. O sentido de cooperação leva ao declínio do misticismo da regra quando ela não aparece como lei exterior, mas como o resultado de uma decisão livre porque mutuamente consentida. Evidentemente, cooperação e respeito mútuo são formas de equilíbrio ideais, que só se realizam através de conflito e exercício da democracia. O consentimento mútuo, o acordo de grupo determina as possibilidades de variação da regra. (KOUDELA, 1990, p.49) 45 O trabalho desenvolvido com os jogos teatrais se faz por meio de improvisações. A compreensão de que será pela improvisação que conseguiremos uma atitude criativa no trabalho com não-atores, o que é o caso dessa pesquisa, se dá pela solicitação de respostas inusuais que essa forma de trabalhar solicita do jogador. Ao trabalhar com improvisações, não peço do ator/jogador uma solução previamente preparada, isto é, a forma de realizar uma cena se dá no decorrer do jogo e não previamente pela elaboração mental sobre a mesma. É pela proposta que o jogo sugere, na definição do Foco a ser alcançado e pelas orientações dadas pelo coordenador do jogo que será possível que os jogadores descubram novas soluções para os problemas apresentados na cena. Em cada jogo temos, além da descrição do mesmo, o objetivo, o foco, as instruções a serem dadas, a avaliação e as notas. A descrição diz ao diretor como organizar o jogo, onde posicionar os jogadores, quando começar a fornecer instruções técnicas, quando deter o jogo etc. Esta forma de apresentar os jogos dá ao leitor um bom entendimento de como o jogo poderá ser apresentado e conduzido pelo coordenador. O objetivo define o principal resultado que um diretor espera obter de cada jogo. Será com a consulta dos objetivos dos jogos que os diretores poderão resolver problemas específicos que possam surgir. (FARIA, 2002, p. 49) A explicação acima, referente ao livro O jogo teatral no livro do diretor (SPOLIN, 1990) apresenta parte da estrutura do jogo. Esta mesma estrutura é utilizada em Jogos Teatrais – O fichário de Viola Spolin (SPOLIN, 2001) onde os jogos são apresentados em um fichário no qual cada ficha é um jogo que contém a definição do foco28. Com o foco esclarecido, é feita uma descrição do jogo, como, por exemplo: Os jogadores caminham e investigam fisicamente o espaço como se fosse uma substância desconhecida. A descrição permite que o coordenador do jogo saiba suas etapas. As instruções são orientações que o coordenador do jogo poderá dar no decorrer do mesmo. A avaliação proposta de maneira geral em forma de perguntas, ressalta aspectos a serem retomados após a realização do jogo. Por fim, as notas são observações que levam a uma melhor 28 Exemplos de foco: Ouvir o maior número de sons possível no ambiente imediato, O movimento físico do esqueleto no espaço, Manter a bola no espaço e não na cabeça, Esconder da platéia qual jogador é o espelho, Comunicar o Onde através de três objetos, Sentir o espaço com o corpo todo. (SPOLIN, 2001) 46 compreensão do jogo.29Avaliação não é julgamento. Não é crítica. A avaliação deve nascer do foco, da mesma forma como a instrução. As questões para a avaliação listadas nos jogos são, muitas vezes, o restabelecimento do foco. (SPOLIN, 2008, p.34) É importante esclarecer que a descrição do jogo se refere à forma como ele será proposto e não a como ele se desenvolverá, já que no último caso não haveria improvisação. Da mesma forma, as instruções são sugestões para orientar o coordenador sobre formas de auxiliar os jogadores a se manterem no foco, não estando incluídas aí qualquer menção sobre as ações que deveriam ser feitas, atitude que seria totalmente contrária à fundamentação desta proposta. A instrução altera a relação tradicional entre o professor e o aluno, criando uma relação em movimento. Permite ao professor / diretor entrar na excitação do jogo (aprender) no mesmo espaço, com o mesmo foco que os jogadores. (SPOLIN, 2008, p.33) O objeto do jogo é chamado por Spolin de Foco, cada jogo trabalha com objetivos claros dentro de uma proposta, dando maior liberdade para o jogador criar, uma vez que se preocupa com a resolução do conflito e do objetivo proposto e não com o que ele deve fazer na cena como um todo, o que é muitas vezes paralisante, pois o jogador se preocupa muito mais com a platéia do que com a própria ação. Nesse conceito, também exploramos as múltiplas possibilidades de resolução de um mesmo conflito. Quando um mesmo jogo é proposto para vários grupos, as diferentes soluções encontradas por eles, resultam em cenas totalmente diversificadas, evidenciando as múltiplas possibilidades de solução de um mesmo problema. A proposição de um foco com o qual o jogador deverá estar atento durante o jogo permite a concentração em aspectos do fazer teatral que, muitas vezes, se perdem em uma improvisação. A tendência mais comum é de que os jogadores se preocupem com a caracterização da personagem e a clareza do conflito 29 Em Contar histórias com o jogo teatral (2002) faço uma análise aprofundada da estrutura do jogo conforme sua apresentação em O jogo teatral no livro do diretor, que se mantém em Jogos Teatrais – O fichário de Viola Spolin. 47 proposto em uma cena, perdendo diversos aspectos que fazem com que a cena se torne crível, como o espaço no qual eles se movem ou a gestualidade de cada ação, que fica mais evidente quando permitimos que os sentidos participem, deixando o ficcional mais real. O Foco define o objetivo comum e elimina modelos de comparação, critérios de qualidade, julgamentos de valor e respostas subjetivas. Através do Foco, a avaliação gira em torno da solução de um problema de atuação e não do desempenho de uma cena. (KOUDELA, 1990, p.46) Parte-se do pressuposto de que a possibilidade de experienciar é que permitirá a criação e não de que somente pessoas talentosas é que podem criar. Experienciar é penetrar no ambiente, é envolver-se total e organicamente com ele. Isto significa envolvimento em todos os níveis: intelectual, físico e intuitivo. (SPOLIN, 1977, p.3) Spolin traz em sua fala o conceito de presença, que pode ser explicado na qualidade do envolvimento a que uma pessoa se predispõe a vivenciar uma determinada situação. Para que esta experiência possa suscitar uma atitude criativa, na qual a pessoa se utiliza de novas soluções para um problema dado ou de novos arranjos na forma de resolvê-lo, é necessário propormos situações que levem à fuga de soluções já conhecidas, já experimentadas. Ostrower, também, afirmará que a criação depende do envolvimento, do engajamento interior do indivíduo e à sua capacidade renovadora, isto é, à sua capacidade de se concentrar e de ao retomar o trabalho poder retomar o estado inicial da criação, alcançar e manter a atenção neste nível profundo de sensibilização.(...) O indivíduo não precisa buscar inspirações. Ele se apóia em sua capacidade de intuir nas profundezas de concentração em que elabora o seu trabalho. (1987, p.74) Será no envolvimento que se estabelece com o outro jogador ou com a situação imaginária proposta pelo objetivo do jogo que será possível encontrar novas formas de resolver os problemas apresentados. Para que este processo 48 ocorra, é necessário que o jogador esteja presente por completo na situação vivida, que tenha os seus sentidos voltados para a situação que está vivenciando e que se disponha a estar nesta situação ficcional, participando dela e não como um possível expectador, o que significa dizer que não deverá estar preocupado com o resultado da cena, com o que o público irá pensar desta ou daquela ação. Ao afirmar que o jogador não deverá estar preocupado com o possível julgamento da platéia, não significa que o jogador deva ignorá-la, agindo como se ela não existisse. Spolin (2008) apresenta diversos jogos30 nos quais não apenas, se explora a comunicação com a platéia, como em parte deles esta comunicação ocorre de forma mais efetiva, com interferências diretas na cena. Aprender a valorizar o papel da platéia deve tornar-se parte do treinamento teatral. Muitas vezes, a platéia é vista como um bando de curiosos a ser tolerado ou um monstro sem cabeça sentado para fazer julgamentos. Na realidade, a platéia deveria ser o membro mais reverenciado no teatro. Sem uma platéia, não há teatro. (SPOLIN, 2008, p.241) A perspectiva da platéia como um parceiro de jogo, também, contribui para a compreensão da avaliação, como um olhar de compreensão prospectiva do trabalho. O que é importante ressaltar para que o jogador esteja presente no jogo e envolvido no mesmo é que se deve evitar ao máximo o julgamento prévio das possíveis ações, assim como a antecipação mental de tudo o que venha a ocorrer, condição que possibilitará a espontaneidade. Compreendemos que o jogo teatral, na forma como é proposto possibilita uma atitude espontânea. A fala de Julia, na resposta a uma das questões apresentadas no Questionário Final31 desta pesquisa demonstra a importância do jogo e a clareza de que a improvisação possibilitou uma outra forma de expressão: 30 Spolin (2008, p.111 a 116) explora os jogos com o envolvimento da platéia. As citações do Questionário Final serão, a partir de agora, indicadas com a sigla QF. Todas as citações dos textos produzidos pelas professoras que participaram da pesquisa estão transcritas literalmente e com uma letra diferente das demais citações, para que seja possível uma melhor identificação. 31 49 Eu acredito que os jogos teatrais foram um instrumento de aprendizado, uma vez que representamos papéis e situações, inseridos nos temas escolhidos. Como os jogos são baseados no “improviso”, a vivência pessoal foi a base da interpretação, pelo menos pra mim. A importância que vejo nos jogos teatrais é o fato de termos que nos expressar não somente através da fala, mas sim com o corpo, interagindo diretamente com outras pessoas, no desenrolar de uma situação. Se fôssemos apenas conversar ou debater sobre o assunto, não vivenciaríamos a cena, como se ela estivesse realmente acontecendo, e nem precisaríamos nos esforçar para dialogar (contracenar) com as colegas, o que torna a situação mais real. Nota-se alguns aspectos que talvez não seriam evidenciados caso não houvesse a cena teatral. Por exemplo, lembro-me quando imitei o inspetor da escola durante uma festa junina, cujo inusitado aconteceu: ouviu-se um tiro de repente... Eu tive que tomar as providências de acordo com o que eu achava que um inspetor deveria fazer nesse momento. Ao discutirmos a cena, notamos que cada uma de nós sabia muito bem sobre o papel a desempenhar no âmbito escolar. Conseguimos diferenciar muito bem quem estava fazendo o inspetor, quem fez a professora, quem era a diretora, sem saber disso inicialmente. (QF Julia) Julia traz a importância da fisicalização, conceito que trabalha com a necessidade de que a representação teatral e a imaginação sejam vividas pelo corpo do ator/jogador, tanto em suas ações teatrais como em suas relações com o espaço e com os demais atores/jogadores. Ao trabalharmos com a fisicalização, exploramos a percepção de que o corpo é parte do aprendizado, de que não ensinamos / aprendemos, apenas, com a cabeça. ...Para Spolin, a espontaneidade é um momento de liberdade pessoal quando estamos frente a frente com a realidade e a vemos, a exploramos e agimos em conformidade com ela. Nossa realidade, as nossas mínimas partes funcionam como um todo orgânico. É o momento de descoberta da experiência, de expressão criativa. A espontaneidade equivale portanto à liberdade de ação e estabelecimento de contato com o ambiente. (...) Em oposição a uma abordagem intelectual ou psicológica, o processo de jogos teatrais busca o surgimento do gesto espontâneo na atuação, a partir da corporificação32 (KOUDELA, 1990, p.51) 32 Koudela se utiliza do termo corporificação com o mesmo sentido de fisicalização. 50 Nesse texto, fica evidente a importância do trabalho corporal e da improvisação surgirem pelo físico, pela integração do corpo na atuação, buscando soluções para as situações propostas pelo jogo. O movimento do jogador, as formas criadas pelo seu corpo, o gesto construído nas cenas é o que caracterizam o fazer teatral. O gesto é a unidade mínima do teatro e será por intermédio do aprendizado da linguagem gestual que será possível encontrar formas de expressão teatral. Criar condições para que o corpo faça parte do aprendizado, para que se aprenda por intermédio do trabalho corporal, da expressão do corpo, da elaboração dos gestos é um ganho necessário para as escolas. Em nosso experimento com o grupo de professoras, ficou evidente a importância dada pelo grupo à exploração do corpo e a possibilidade de que este fizesse parte do aprendizado e da reflexão. No terceiro encontro, iniciamos o trabalho com o jogo Sentindo o eu com o eu33 com todas deitadas nos colchonetes. Aos poucos, pedi que fizessem movimentos pelo espaço acompanhados de sons, que foram emitidos com alguma dificuldade, porém foi possível perceber que o grupo já apresentava mais tranquilidade em fazer movimentos corporais, sentindo-se menos incomodado do que no encontro anterior. Pedi que todas se movimentassem até ficarem em pé e então em um círculo fizemos o jogo Dar e tomar: aquecimento34. Novamente, depois de um tempo se movimentando pedi que emitissem sons junto com o movimento. Os sons ainda apareceram tímidos, sendo utilizados sons baixos e quase sem vogais. Este momento foi relatado por Lilá, demonstrando a surpresa vivida pela descoberta da matéria corporal, pela possibilidade de expressar-se pelo corpo, com a consciência do mesmo. 33 Este jogo tem como foco sentir o contato com a parte do corpo indicada, os jogadores permanecem silenciosamente sentados em suas carteiras e fisicamente sentem aquilo que está em contato com seus corpos, conforme a instrução, que poderá ser: sinta os pés nas meias ou sinta as pernas nas calças ou sinta a língua na boca. (SPOLIN, 2001: A2) 34 Neste jogo o grupo faz um círculo e cada um deve fazer um movimento, entretanto enquanto um jogador se movimenta, os outros permanecem parados. Não existe nenhuma combinação ou orientação verbal sobre quem irá se movimentar. (SPOLIN, 2001: A74) 51 A partir da orientação da professora partimos para dinâmica, onde ficamos sem calçados e nos acomodamos em um colchonete procurando o máximo de conforto; com os olhos fechados ao seu comando de voz íamos fazendo movimentos com o corpo, atentando-nos para o contato que nosso corpo fazia com o solo. Os movimentos eram aleatórios, mas com muita expressão. Cada um fazia o seu, sentindo seu corpo, sua respiração, suas agonias, as sensações boas ou ruins, produzindo sons, ruídos, gemidos, murmúrios, dobrando, esticando, virando, abrindo, fechando... Coisas estranhas que nos fez sentir mais a matéria que somos e o espaço que ocupamos neste universo. (Lilá – relato 3º encontro) Outro exemplo é observado no segundo encontro, quando realizamos o jogo O objeto move os jogadores35. Dividimos o grupo em três e cada trio escolheu um objeto; os objetos escolhidos foram: uma bicicleta tripla, um barco e um gira-gira. Os três grupos demonstraram envolvimento com o objeto escolhido; entretanto, no caso da bicicleta, o fato de o grupo caminhar no mesmo ritmo, opção dada como representação do pedalar, dificultou a incorporação do equilíbrio diferenciado que a bicicleta proporciona, já que a atenção das jogadoras estava colocada em manterem o mesmo ritmo para que ficasse evidente o fato de estarem em uma bicicleta tripla, não podendo, assim, explorar a sensação de um novo equilíbrio ocasionada pelo pedalar. O segundo grupo estava em uma canoa e, embora estivesse muito claro o objeto escolhido, o movimento do remar não era similar ao que ocorre na realidade, uma vez que as jogadoras estariam dando remadas umas nas cabeças das outras, caso estivessem com remos nas mãos. Entretanto, ao comentarem o jogo, o grupo afirmou se sentir em um rio e diversas pessoas da platéia não apenas conseguiram visualizar o barco, mas também o espaço onde ele estava. O terceiro grupo escolheu um gira-gira e conseguiram fisicalizar com muita clareza o objeto entre elas, ficando evidente cada momento em que alteravam a direção do brinquedo. Ao comentarmos sobre o jogo, Cris observou que o fato de todas terem mais intimidade com o gira-gira fez com que fosse muito mais fácil torná-lo 35 O foco deste jogo é no objeto que movimenta os jogadores. Cada grupo escolhe um objeto que os colocará em movimento simultaneamente, como um barco, um carro, uma roda gigante, etc. O coordenador dará instruções como Sinta o objeto! Deixe que o objeto os coloque em movimento! Deixe que o objeto movimente você! (SPOLIN, 2001: A46) 52 presente no jogo. Também por ser o último grupo a jogar é possível uma maior compreensão da proposta e, consequentemente, da qualidade do jogo. O exemplo deste jogo deixa claro o quanto o contato físico e a memória corporal que temos dos objetos e do movimento, possibilita vivenciar uma situação imaginária com muito mais detalhes e clareza do que está sendo proposto. O conceito de fisicalização novamente se evidencia como significativo, quando, no sexto encontro, ao retomarmos o que houve de mais significativo no quarto encontro, Néia respondeu: As bolas! Nesse encontro propus o Jogo da Bola, no qual cada grupo deve escolher uma bola imaginária e jogar entre as participantes, sem qualquer combinação prévia. As bolas escolhidas foram de vôlei, de plástico (tipo playcenter) e de pingue-pongue. Em todos os grupos foi possível perceber o percurso da bola, assim como as principais características, tanto por parte da platéia como das jogadoras. Ficou claro o quanto este jogo foi significativo para o grupo pela possibilidade de comunicação corporal que ele solicita. Foi comentado que as bolas não existiam, questionei este fato para poder diferenciar a não existência física do objeto, da existência imaginária. Neste momento, explicitei para o grupo o conceito de fisicalização e também o de presença somado à atenção e comunicação. A “bola no espaço” não é uma bola imaginária. Ela faz parte do espaço – do ar – que é chamado de “bola”. Quando um aluno arremessa uma bola imaginária, ele está consciente da bola real que não está presente. O jogador está trabalhando com a idéia de uma bola. (...) O jogador que cria um objeto no espaço não está tentando criar uma ilusão artificial para uma platéia. Ao contrário, ele está experimentando o despertar de uma área do intuitivo no qual os objetos no espaço podem ser percebidos quando surgem. Quando o invisível se torna visível, temos a magia teatral! (SPOLIN, 2008, p. 77) O jogo teatral, além de ser um jogo de regras, explora o envolvimento de seus participantes à resolução de conflitos, a partir do Foco estabelecido e será com uma postura de envolvimento por inteiro, no qual o jogador estabelece 53 contato com seus parceiros de jogo e com as situações propostas que as soluções serão encontradas, permitindo uma atitude criativa. Para compreendermos a estrutura do Jogo Teatral apresento os seus três elementos constitutivos: O ‘Quem’ , o ‘Onde’ e o ‘O que’. 2.1 QUEM Ao trabalharmos com o Quem, exploramos as diferentes maneiras pelas quais uma personagem pode ser construído para uma mesma cena, as variações trabalhadas pela expressividade corporal, facial e vocal. A exploração da personagem se dá tanto em jogos que enfocam um maior domínio corporal, como nos que caracterizam personagens. Nos encontros realizados com o grupo de professoras, foram feitos alguns aquecimentos que exploraram um maior domínio sobre o próprio corpo e o do parceiro de jogo, como no quinto encontro, quando foram feitas massagens em duplas ou no décimo encontro, quando fizemos uma dança com os pés e mãos. Nesse encontro, eu organizei os colchonetes de forma que ficassem uma de frente à outra. Pedi que elas se deitassem e encostassem os próprios pés nos pés da professora que estivesse à frente. Como estávamos em número impar, ficaram três duplas e um trio. Coloquei uma música e pedi que movimentassem os pés e as pernas conforme a música. Depois de um tempo, que juntassem as mãos com as mãos de quem estava ao lado e aos poucos, além das mãos e pés foram se movimentando e encostando outras partes do corpo em qualquer pessoa. O grupo, inicialmente, se dividiu em dois, mas eu interferi trocando mãos com outras mãos, de forma que ficasse um único grupo. Pedi que se movimentassem, também, em pé, mantendo as mãos dadas, o que gerou um nó entre elas, provocando muita risada no grupo, não apenas por se movimentarem enredadas, como também pela dificuldade em desfazer o nó sem soltar as mãos, como pode ser observado nas fotos a seguir. 54 Figura 1. Dança com pés e mãos – 10º encontro No quarto encontro, o aquecimento foi feito com o grupo deitado nos colchonetes, deixando que o peso do corpo cedesse ao chão, para então perceber o esqueleto em pequenos movimentos. Continuamos com movimentos que trabalhassem a percepção dos ossos e depois caminharam com diferentes formas de se movimentar, tais como: manco, cego, tremendo, etc. Estas formas foram sugeridas por mim e todas elas diziam respeito a características físicas e não estados de ânimo ou emocionais. Feito isso distribuí, em forma de sorteio, as personagens escritas no encontro anterior e pedi que cada uma lesse a personagem e procurasse acrescentar a ela as características que fossem necessárias para que utilizassem essa personagem nos jogos a serem realizados no decorrer do encontro. Os exemplos acima descritos demonstram a atenção que este tipo de proposta permite ao próprio corpo e ao corpo dos parceiros. A valorização da percepção corporal pode dar ao professor um novo recurso, tanto para suas aulas, nas quais poderá explorar o uso de diferentes entonações e gesticulações para a docência, como para a leitura e compreensão dos alunos, pois o professor terá melhores condições de perceber no corpo do aluno gestos e expressões que denotem sentimentos e sensações. 55 Nos jogos realizados com o grupo de professoras, foi feita uma cena no terceiro encontro que apresentou duas alunas no pátio da escola sem uniforme, com mini-blusa (esta informação foi dada pela participante) conversando com a coordenadora que demonstrou diversos argumentos para convencê-las a usar o uniforme, terminando por obter a concordância de ambas de que, no dia seguinte, viriam com o uniforme. Embora as jogadoras não tivessem o figurino que expressaram verbalmente ser o da personagem, assumiram a gestualidade da personagem, possibilitando a visualização da mesma. Essa cena gerou um grande debate sobre a utilização do uniforme, em que foram relatadas duas situações do uso de uniforme, sendo uma pela Sandra, na qual uma aluna recortou a camiseta do uniforme, deixando-a com um enorme decote e uma abertura nas costas. A aluna, também, utilizava um sutiã vermelho que ficou bastante evidente com a transformação do uniforme. A segunda situação, relatada pela Lilá, apresentava a dificuldade de algumas professoras de Educação Infantil utilizarem um “uniforme” de professores, por preferirem utilizar roupas mais curtas e decotadas. Algumas participantes contaram situações nas quais as mães chegam à escola com pijama, toalha na cabeça, tinta no cabelo, short bem curto, etc. A discussão sobre o uniforme evidencia o quanto a caracterização, a vestimenta utilizada define papéis; entretanto, foi somente com a cena na qual a personagem da aluna transgressora se fez presente que este debate pode surgir com tanta força. Nos jogos realizados com as personagens sorteadas no quarto encontro, conforme relato acima, as jogadoras deveriam atuar conforme a personagem escolhida, partindo das personagens criados por elas no final do terceiro encontro36. No último jogo, ficou evidente o quanto as funções das personagens dentro da situação escolar permitiram uma maior caracterização das mesmas. O grupo foi dividido em dois, procurando equilibrar as personagens, já que tínhamos um pai, uma professora, três alunas e quatro inspetores de alunos. Definimos uma situação comum, uma festa junina, e cada grupo deveria se ambientar nessa 36 Ver anexo 3. 56 festa, procurando interagir e eu poderia dar novas informações no meio da improvisação. No meio de cada uma delas eu informei que se ouvira um barulho de tiro. A primeira cena teve como participantes o pai, duas alunas e duas inspetoras. Nessa cena, o pai bebia todo o tempo e não alterou sua atitude no momento do tiro. Uma das alunas procurava o seu paquera e com ele ficou depois do tiro e uma das inspetoras procurou culpar alguém pelo tiro, já responsabilizando a aluna que apresentava um comportamento questionador. Na segunda cena, as personagens eram uma aluna, uma professora e duas inspetoras. A professora tomava conta da barraca de tiro ao alvo e reclamava do fato até o momento do tiro, quando ficou preocupada em esconder as prendas para que não fossem roubadas. A aluna andava pela festa e se escondeu quando houve o tiro e as inspetoras tentaram chamar a polícia e descobrir como resolver a situação. Foi muito interessante observar a facilidade com que foram assumidos gestos que caracterizavam diferentes funções dentro da escola e que esta gestualidade somada à forma de falar da personagem permitiu o reconhecimento destes papéis ocupados na situação escolar. Neste mesmo encontro, solicitei que a escrita da cena fosse feita do ponto de vista de uma personagem, o que gerou o comentário por parte da Memê sobre a possibilidade de se colocar no lugar do outro, resultado tanto da escrita ser feita do ponto de vista de uma personagem como das personagens vividas nos jogos teatrais. Esse comentário trouxe a importância da possibilidade de ver o outro: aluno, coordenador, pais, dentro da perspectiva deles mesmos e não apenas do olhar da professora para o aluno, coordenador ou pais. No oitavo encontro, retomamos a cena escrita por Jô no sétimo37; pedi que em duplas fizessem a leitura das falas das personagens na cena, procurando alterar a forma de falar, a intenção das mesmas. Surgiram variações, embora 37 Ver anexo 3. 57 ainda pequenas, entretanto ficou perceptível para o grupo que uma fala pode ser compreendida de muitas maneiras, dependendo de como é dita. Esta proposta de trabalho deixou evidente para as professoras que a forma pela qual um texto é dito pode alterar significativamente o seu sentido. O trabalho com o Quem, com a personagem é um instrumento valioso para a compreensão dos diversos papéis que um professor assume em sua atuação docente, o que foi percebido em uma das avaliações de Néia, ao afirmar que, pelos jogos, foi possível refletir sobre o seu trabalho como professora, observando nas caracterizações de professores, nas personagens professores que apareceram nas cenas o quanto ela assume ou não algumas destas características. Também em seu questionário final, Cris ressalta: Aprendi que devemos incorporar o personagem e que não podemos perde-lo no desenrolar das encenações. Que é um momento de concentração e sensibilidade. No meu trabalho com crianças pequenas, trabalharia atividades relacionadas a sensibilidade e concentração, pois, acredito serem as principais para incorporar um personagem. (QF Cris) 2.2 ONDE O conceito do Onde – Espaço / Cenário explora a relação com o espaço, tanto aquele no qual a personagem se move, quanto os objetos que manipula. No âmbito educacional explorar o espaço permite uma melhor compreensão de sua importância na organização do grupo e individual; percebendo, inclusive, o significado dos objetos e da organização dos mesmos para a aprendizagem. Nos diferentes jogos propostos por Spolin observamos a intenção de trabalhar o espaço em três dimensões, conforme a própria autora explicita: Muitos atores acham difícil ”ir além de seus narizes” e devem ser libertados para que tenham um maior relacionamento físico com o espaço. Para efeito de esclarecimento, deve-se ter sempre em mente três ambientes: imediato, geral e amplo. O espaço imediato é a área mais próxima de nós: a mesa onde comemos, com os talheres, os pratos, a comida, o cinzeiro etc. O espaço geral é a área na qual a mesa está localizada: a sala de jantar, o restaurante etc., com suas 58 portas, janelas e outros detalhes. O espaço amplo é a área que abrange o que está fora da janela, as árvores, os pássaros no céu etc. (SPOLIN, 1987, p.81) No decorrer dos encontros, trabalhamos com diversos ambientes e a possibilidade de os objetos do ambiente imediato serem fisicalizados pelas jogadoras fez com que os espaços pudessem ser identificados pela platéia e sentido pelas jogadoras, como pode ser evidenciado no relato da Professora Colaboradora sobre o segundo encontro. Grupo 2 – Lilá, Néia e Sandra – representaram um barco a remo. A Lelê38 fez indicações de que sentissem o ar, o calor, a paisagem,... Ao final, a platéia identificou como estando em um barco... Lelê pergunta o que elas viram na apresentação: Néia diz que sentia a água pesada, a Sandra viu muita água ao seu redor. (Professora colaboradora 2º encontro) O relato da professora-colaboradora deixa clara a importância da coordenadora do jogo para que o foco no espaço não se perca, mantendo-se a relação corporal com a cena e não apenas a preocupação da construção de um enredo. Nesta pesquisa atuei como coordenadora dos jogos em todos os encontros. Os múltiplos espaços e situações que surgiram nos jogos permitiram que o grupo criasse imagens de espaços cheias de simbologia quando fizemos a avaliação do 5º encontro. Retomamos os temas discutidos como: família, banalização da violência, desvalorização da cultura, papel da escola, preconceito em relação à pobreza/aparência, padrões de beleza, sexualidade/paixão e desvalorização do professor. Em seguida, solicitei que cada uma escolhesse um lugar, um espaço que sintetizasse este encontro. Os espaços escolhidos foram: Sandra – abismo; Cris – tribunal; Rocha – computador com todas as falhas humanas; Jô – um lugar confuso no qual as pessoas apontam os erros; Lilá – bolsa de valores com baixas e altas; Ana – espaço grande onde poucos atuam e a maioria só observa; Memê - um furacão. 38 Apelido da pesquisadora. 59 A escolha desses espaços como representação dos diversos conflitos vividos na situação escolar, que sintetizaram em uma imagem uma possível representação da escola, demonstra a riqueza dessa síntese. Certamente, o fato de muitos dos temas escolhidos pelo grupo como questões para serem discutidas sobre a escola terem sido vivenciados em cenas que ocorreram em espaços variados, possibilitou a abertura para uma construção simbólica sobre a escola e os conflitos nela vivenciados. 2.3 O O QUÊ terceiro conceito, o ‘O quê’, explora a ação feita pela personagem/jogador, com a compreensão de que em cena ou no jogo teatral sempre existe uma ação, ainda que essa ação seja interna, como pensar ou sentir medo. Ação da Cena (O Quê) é a interação da personagem com outra personagem e da personagem com o cenário. (SPOLIN, 2008, p.126) No trabalho desenvolvido com o grupo de professoras foram propostos alguns jogos que tinham como foco a ação. No sétimo encontro, realizamos o jogo Parte do todo # 3: Profissão39. No primeiro jogo, a Néia iniciou como um guitarrista e, rapidamente, tivemos uma banda completa em cena. No segundo, a Sandra entrou mexendo uma panela bem grande e, novamente, as demais participantes entraram com funções complementares de uma cozinha. No terceiro, a Lilá começou um movimento que deu dupla interpretação, pois algumas entenderam ser um marceneiro cortando madeira e outras compreenderam ser um pedreiro fazendo cimento. A Cris e a Néia entraram carregando areia para o cimento e assentando tijolos, respectivamente. Entretanto mais ninguém entrou pela confusão gerada. 39 O foco deste jogo está em tornar-se parte de um todo na atividade profissional. Um participante inicia com movimentos de uma profissão, os demais entram no jogo complementando a cena. As instruções dadas são: Mostre! Não conte! Entre na atividade com personagens definidas! Seja parte do todo! (SPOLIN, 2001, A67) 60 No décimo encontro, propus o jogo Envolvimento com objetos grandes40 e pedi que cada trio escolhesse somente o objeto que utilizariam. O primeiro trio escolheu uma mangueira de bombeiro que estava enrolada e elas ficaram procurando as pontas e desenrolando. O segundo escolheu uma barraca de acampamento que foi montada. O terceiro eram três ioiôs que se enredam e elas conseguem separá-los. Os jogos acima referidos são fundamentais para a percepção de que é necessário ter clareza da ação que se realiza em cena e das múltiplas possibilidades de improvisação que o jogo traz, como percebido pela Sandra: Aprendi principalmente a trabalhar com a improvisação. Sempre achei que tudo tinha que ser minuciosamente ensaiado e programado e percebi que não é bem assim. O que mais chamou minha atenção foi o trabalho corporal. Notei que quando trabalhamos com o corpo, a integração entre os membros do grupo aumenta e nos sentimos mais leves e livres. (QF Sandra) O aspecto do trabalho coletivo apresentado na fala da Sandra, também, se evidencia nos jogos que trabalham com a ação, especificamente nesses jogos narrados, nos quais a ação só é possível na percepção da ação do outro, já que são atividades coletivas. Tornar-se parte de um todo produz um corpo através do qual todos (jogadores no palco, jogadores na platéia e instrutor) tornam-se diretamente envolvidos com o resultado do jogo, apoiando um ao outro em um processo de satisfação mútua. (SPOLIN, 2008, p.111) No sétimo encontro do grupo, realizamos o jogo Contato41 tendo em vista a temática proposta que era, a relação professor-aluno. A primeira dupla, feita pela Rocha e Jô, não entendeu que o jogo deveria se voltar para a temática e definiu uma cena na qual um paciente vai a um consultório médico queixando-se de 40 Este jogo tem como foco o envolvimento físico com um objeto grande no espaço. É proposto que uma pessoa tenha que se envolver com um objeto grande, como uma rede de pesca, por exemplo. Entretanto eu solicitei que fosse feito em trios. As instruções dadas são: Dê vida ao objeto! Use seu corpo todo! Explore o objeto! Sinta o objeto com suas costas! (SPOLIN, 2001, A27) 41 O foco deste jogo é fazer contato físico direto a cada novo pensamento ou frase no diálogo. Define-se quem, onde e o quê e os jogadores só podem falar quando estabelecerem contato corporal com outro jogador. As instruções podem ser: Contato! Varie o contato! Fique em silêncio se não puder estabelecer o contato! (SPOLIN, 2001, C17) 61 tosse. A Jô era a médica e não teve dificuldade em tocar a paciente, já a Rocha, por sua vez, tossiu quase toda a cena, pois não encontrava formas de tocar a médica. A segunda cena que foi feita pela Memê, Déia e Sandra mostrava uma aula de português, na qual uma das alunas tem muita dificuldade em compreender o conteúdo exposto e a outra não. A Memê, que fez a professora, encontrou formas de tocar as alunas, mas estas tiveram dificuldade em tocar a professora. A terceira cena, feita pela Lilá e Julia, apresentou duas professoras, amigas, em que uma delas visita a outra desesperada por não saber o que fazer com seus alunos indisciplinados. A professora com mais tempo de docência consola a outra, incentivando-a a não desistir. Não tiveram nenhuma dificuldade no contato, permanecendo quase todo o tempo abraçadas ou de mãos dadas. A quarta cena feita pela Ana, Néia e Cris mostram duas alunas e uma professora no Playcenter, com as alunas levando-a na montanha russa, apesar do seu medo. O contato ocorreu sem problemas já que a situação da montanha russa era de proximidade corporal. A última cena feita pela Néia e Maria foi de uma aluna pequena que cai no pátio da escola e a professora a auxilia a levantar-se e a lavar seu machucado. O foco do jogo era manter o contato cada vez que fosse proferida qualquer frase. A necessidade de manter o contato corporal gerou soluções para as cenas que não seriam imaginadas pelas jogadoras sem este objetivo, permanecendo, provavelmente, em uma cena muito mais verbal, com soluções previsíveis. O contato pode intensificar cenas altamente dramáticas. Aqui, os atuantes não podem escapar para dentro do diálogo ou personagem, mas devem permanecer e ser vistos. (SPOLIN, 2008, p.266) O relato de Jô esclarece a importância dessa forma de jogar. Sem os jogos, não teríamos o contato com a outra. Seria difícil chegar a resultados tão ricos com que chegamos, através dos jogos interagimos e valorizamos o gesto da outra. Pra mim foi muito importante, com certeza vou saber utilizar o que aprendi em qualquer série e qualquer situação. (QF Jô) 62 Outro aspecto presente nessa forma de jogo é a relação palco e platéia, estabelecida para que o jogo ocorra. Nessa conformação, deixa-se claro que o teatro sempre estabelece uma relação entre atores e platéia, entre quem atua e quem observa, existindo uma ação de ambos os lados. É importante observar que ao estabelecermos a existência da platéia, enquanto jogamos e não, apenas, no momento de uma apresentação formal de uma peça ou de uma cena, entende-se, primeiramente, uma das características do fazer teatral, que é o fato de ser uma linguagem que se pretende comunicar a todo o momento. Qualquer gesto ou ausência do mesmo está dizendo algo para a platéia. Entretanto, não é apenas o jogador / ator quem diz algo para a platéia, a platéia também se comunica com os jogadores em suas reações, risadas, interesse, conversas paralelas, emoções que são expressas. Esse diálogo que se estabelece entre palco e platéia permite ao jogador a compreensão das formas de expressão apresentadas no jogo e na cena e à platéia a percepção das múltiplas possibilidades pelas quais um jogo pode ser realizado. O fato de estar como platéia em alguns momentos e como jogador em outros permite uma compreensão ampliada das possibilidades do jogo e das cenas. Os jogos teatrais favoreceram na compreensão dos temas escolares por oferecerem uma interligação da teoria temática com a prática vivenciada nos jogos. Estes propiciaram mais clareza nas situações conflitantes vividas pela escola, pois através deles pudemos ser autores e expectadores. Observamos as situações como participantes e também como observadores. (QF Memê) Esta condição de ser em alguns momentos jogador/ator e em outros platéia remete à relação professor e aluno, em que, de maneira geral, não ocorrem alterações entre quem atua em condição semelhante à do ator, o professor e quem permanece na de platéia, o aluno. Colocar-se na condição de platéia 63 permite ao professor não, apenas, perceber possíveis pontos de vista do aluno, como a troca que o jogo teatral propõe, permite evidenciar essa mesma condição de troca desejável na relação de aprendizado escolar. Durante todos os jogos e improvisações, o orientador deve dar as instruções necessárias para que os jogadores se mantenham no foco, não perdendo de vista o objetivo a que o jogo se propõe. Essa atitude do orientador possibilita um melhor desempenho do jogador, que recebe informações e comentários, permitindo que ele fique mais atento às dificuldades que a proposta apresenta. É uma perspectiva da instrução e da orientação como parte do processo do aprender, o que inclui a necessidade do professor estar permanentemente atento à forma pela qual o grupo desenvolve suas atividades para poder interferir com orientações que permitam uma melhor resolução das propostas sugeridas. Ao final de cada jogo, são feitos comentários tanto por parte da platéia como dos jogadores, tendo em mente qual era o objetivo e como foi realizado. Esta é uma perspectiva da avaliação como algo coletivo e prospectivo. A avaliação se faz necessária não, apenas, para que o grupo possa compreender melhor os objetivos do jogo, como para que possa expressar as suas dificuldades e facilidades, permitindo uma elaboração conjunta sobre o que foi vivido, como jogador e como platéia. A possibilidade de ouvir da platéia a forma como foi percebida uma determinada atuação dá ao jogador uma outra compreensão de seu gesto, de sua fala, de sua atuação. A estrutura do jogo teatral permitiu ao grupo experimentar essa linguagem, estabelecendo relações entre o teatro e a docência como relata Néia. O teatro não é estático, ele é dinâmico, espontâneo e muitas vezes retratam a realidade em que vivemos, porém, de maneira alegre e criativa. Ele possibilita um trabalho coletivo, onde as pessoas interagem unidas e realizam a atividade com prazer. O teatro acrescentará alegria, cultura, união e reflexão no meu trabalho docente. (QF Néia) 64 O dinamismo, a espontaneidade, o trabalho coletivo e a criatividade presentes no fazer teatral, retratados no texto de Néia, são fundamentais para pensarmos a formação docente, desde seu início, quando o professor se prepara para atuar, até o final de sua carreira. A experiência de jogar e refletir sobre os jogos teatrais possibilitou uma perspectiva da atuação docente definida por uma atitude criadora. Ao levantar os aspectos fundamentais do jogo teatral e da forma como eles foram experimentados por este grupo de professoras, aponto para características que permitem uma atitude criadora. O estabelecimento de regras como parte da estrutura do jogo nos remete à necessidade de o professor ter em mente o acordo do grupo ao estruturar sua ação docente. Será por intermédio do estabelecimento das regras, que sejam refletidas, assumidas coletivamente, que encontraremos a liberdade de expressão do grupo de trabalho, seja um grupo de professores ou de alunos e professores. Poderíamos dizer que no conto de fadas experimentado pelo aprendizado, as estórias devem iniciar-se com o “casaram”, pois é com este acordo estabelecido pelo corpo docente e o corpo discente que devemos começar nosso diálogo. Partir deste acordo é um ganho para a relação de ensinoaprendizagem. Ao ter como base uma estrutura que pressupõe o acordo coletivo, os jogos teatrais dão ao aprendizado uma importante referência. (FARIA, 2002, p.125) Ao estabelecermos uma situação de trabalho que parte do acordo de grupo, criam-se condições para que a improvisação ocorra dentro dos limites estabelecidos, permitindo uma maior liberdade de expressão. Criar livremente não significa poder fazer tudo e qualquer coisa a qualquer momento, em quaisquer circunstâncias e de qualquer maneira. Vemos o ser livre como uma condição estruturada e altamente seletiva, como condição sempre vinculada a uma intencionalidade presente, embora talvez inconsciente, e a valores a um tempo individuais e sociais. (OSTROWER, 1987, p.165) Será, também, no estabelecimento do foco que conseguiremos a possibilidade de improvisações diversificadas. O fato de trabalharmos com 65 improvisações leva à perspectiva de que um mesmo problema pode ser resolvido de diferentes formas, com soluções variadas. Experimentar essa multiplicidade de formas e soluções faz com que o professor experimente o pensamento divergente, que dará a ele condições de encontrar diversos caminhos, tanto para suas proposições didáticas, como para a resolução de conflitos existentes em seu cotidiano. O conceito de presença, necessário para o estabelecimento do jogo teatral, também é fundamental para a atuação docente. Colocar-se na relação de ensino-aprendizagem, tendo interesse pelo que é apresentado para o grupo de alunos é condição mínima para que esta relação tenha uma base que poderá gerar espaços de criação. Sem o interesse, não ocorre envolvimento e, sem o envolvimento com o objeto de estudo, não existe a possibilidade de criação. Portanto, para que se estabeleça um estado criativo é necessária a condição básica de envolvimento com o que se estuda, possibilitando o aprendizado. (FARIA, 2002, p.98) Esta condição de envolvimento é necessária não, apenas, para o aluno na condição de aprendiz, mas também para o professor, não porque ele, também, aprende ao ensinar, mas porque o ensinar é permeado de transformações, de situações mutantes que exigem este envolvimento. Um aspecto que se fez evidente durante todo o trabalho, e que foi retratado por mim na cena que abre este capítulo, foi o do trabalho corporal. Incluir o corpo em seus movimentos, em sua percepção, em suas possibilidades de expressão deu condições ao grupo de um aprendizado diferenciado. O aprendizado estabelecido com a participação do corpo possibilitou outras percepções sobre as questões debatidas. Trazer o corpo com seu universo de movimentos e expressões possibilita ao professor outra compreensão sobre si e sobre o aluno. A comunicação estabelecida entre o grupo por intermédio do contato corporal permitiu novas perspectivas, novos pontos de vista sobre situações vividas e debatidas. O contato com o próprio corpo, assim como com os corpos 66 do grupo que trabalhou conjuntamente, possibilitou um conhecimento do outro diferenciado. A existência da platéia, parte integrante do jogo teatral, também, possibilitou diferentes pontos de vista para os temas trabalhados. O fato de jogar tanto na posição do jogador como na da platéia permite o exercício de colocar-se no lugar do outro, ao ouvir da platéia sobre aquilo que você acredita ter feito e ao falar para o jogador a sua percepção sobre o que ele fez. A existência da platéia como parte do jogo traz a perspectiva da avaliação como parte da construção do trabalho docente; avaliação que é feita, partindo do foco estabelecido, o que dá parâmetros e perspectivas para o que será avaliado. Esta forma de avaliar possibilita um exercício permanente sobre a multiplicidade de soluções possíveis para uma mesma situação. Explorar a personagem, também, é um aspecto relevante no fazer teatral que permite ao professor vivenciar o conceito de alteridade. No momento em que o jogador experimenta diferentes personagens sobre o tema trabalhado ele encontra perspectivas não percebidas em seu papel de docente. Experimentar a situação ficcional, o exercício do “como se”, a possibilidade de criar situações que ampliam o cotidiano, que dão outras leituras da realidade, que abrem portas, permite um estado de inventividade, de permitir-se criar uma nova forma de experimentar a realidade, não apenas como um sonho desejável, mas como realidade a ser permanentemente transformada. Un gran sábio ruso decía que así como la electricidad se manifesta y actúa no sólo en la magnificiencia de la tempestad y en la cegadora chispa del rayo sino también en la lamparilla de una linterna de bolsillo, del mismo modo existe creación no solo allí donde da origen a los acontecimientos históricos, sino también donde el ser humano imagina, combina, modifica y crea algo nuevo, por insignificante que esta novedad parezca al compararse con las realizaciones de los grandes genios42. (VIGOTSKY, 2000, p.11) 42 Um grande sábio russo dizia que assim como a eletricidade se manifesta e atua não apenas na magnificência da tempestade e na chispa ofuscante do raio, mas também na lâmpada de uma lanterna de bolso, do mesmo modo existe criação não apenas ali na origem dos acontecimentos históricos, mas também onde o ser humano imagina, combina, modifica e cria algo novo, por insignificante que esta novidade pareça se comparada com as realizações dos grandes gênios. (Tradução livre) 67 Foi possível observar, nos jogos realizados pelo grupo, este processo criativo, nas diferentes combinações, elaborações, percepções do universo escolar que foi experimentado nas várias situações apresentadas. CAPÍTULO 3 Reflexão sobre os Encontros 71 CAPÍTULO 3: Reflexão sobre os Encontros CENA 3 CENÁRIO: O cenário é composto por paredes de vidro, por onde escorre água. No chão, também, há água, formando poças. É necessário que existam suportes ou ganchos onde as atrizes possam se segurar. PERSONAGENS: Quatro professoras vestidas, apenas, com malhas e meias cor da pele. Duas pessoas que atuam como carregadores, vestidos de preto. A cena se inicia com o palco vazio, somente com a água escorrendo pelas paredes de vidro. É possível ver o pé de uma das professoras. Em partes diferentes do cenário, aparecem as quatro professoras que vão escorregando lentamente pelas paredes de vidro, cada uma em um ritmo diferente da outra, porém todas tentam desesperadamente se manter na parte de cima da parede de vidro. PROFESSORA 1: Ele dava pena, eu não sabia o que fazer, o menino vinha todo dia com uma cara de fome que não adiantava mais comer. Um dia, tentei dar um lanche a mais, chamei ele para conversar e ofereci o maior sanduíche que existia na lanchonete. É claro que eu sabia que isso não queria dizer nada, seria só um lanche. Mas pensei que poderia adiantar, que, pelo menos ,naquele dia, ele mudaria de cara. Que tonta eu, mas ele ficou com uma cara alegre. Não adiantou nada porque, mesmo alegre, continuava com cara de fome. Nem sei se tinha fome mesmo, nem sei do que era a fome. Na minha barriga ia crescendo um vazio cada vez maior. PROFESSORA 2: Eu já não aprendo mais nenhum nome, já quase não pergunto mais. Não são dos alunos, estes já não aprendo faz muito tempo. Não aprendo mais os nomes dos professores. Parece dança das cadeiras, quando você vê, a cadeira já foi ocupada por outro e, aquilo que você havia pensado em fazer junto, fica para o dia que der, quem sabe no ano que vem. 72 PROFESSORA 3: Comecei a ter asma, claro que é mentira isso. Quem é que começa a ter asma depois dos 30 anos de idade? Eu tenho é claustrofobia de ver tanta gente na minha frente. Fico olhando aquelas crianças e não sei o que fazer com tanto pedido, com tanta menina falando: tia eu posso ir no banheiro?, tia me dá mais uma folha?, tia olha aqui se ficou bom o meu desenho! Tenho vontade de tampar os ouvidos, fico apressada, fico agoniada de não conseguir que eles deem passos mais largos, mais amplos. Quando um quer andar, correr, saltar, tem sempre alguns que seguram, que ficam para trás e eu fico com eles, sem poder ajudar os que correm a não cair. Tenho asma. (Enquanto a professora 3 fala, a professora 1 chega ao chão, onde fica deitada imóvel. Neste momento, os dois carregadores entram no palco e carregam a professora 1 para a coxia. No meio da fala da professora 4, ela reaparece no mesmo ponto do início da cena e recomeça a escorregar. Isto ocorre com todas as professoras, conforme chegam ao chão. PROFESSORA 4: Não adianta reclamar, não há salário que baste, não há vontade que chegue para melhorar coisa nenhuma. É sempre o mesmo nhém nhém nhém, a mesma ladainha de sempre. Falta é olhar para os lados e procurar o que fazer, como melhorar. Mas nada melhora com esse monte de gente que não tá nem aí com nada. Dá uma aula bem porcaria para fazer jus ao que ganha. PROFESSORA 2: Não sei onde está escrito quem responde pelo quê, sei que tem coisas pelas quais ninguém responde, não compete a ninguém, vão andando empurradas até que explodem e aí não adianta mais reclamar. Em algum lugar devem estar definidas quais são as funções de cada funcionário, do professor, do coordenador, do diretor, da merendeira, do porteiro. Mas ninguém nunca leu e, se leu, escondeu. Eu sei é que sobram alunos perdidos. PROFESSORA 1: Perdidos estão os pais, “tão longe, de mim distante, onde irá, onde irá teu pensamento?”... Estão perdidos em alguma floresta encantada que não deixa que eles olhem as lições dos filhos, nem as orelhas, nem as unhas, nem os decotes. Não olham para nada. Devem andar de venda dentro de casa. PROFESSORA 4: Me falta vontade, tenho uma preguiça danada quando vejo estas pilhas de papéis mal escritos que eu tenho que ler. Sou tomada de 73 momentos dom quixotescos, nos quais resolvo que vou conseguir, que vou fazer com que estes meninos aprendam a ler, a escrever, a apreciar um bom romance. Começo a agendar visitas aos museus, promovo um clube de leitura, são poucos os que aparecem. Eu não queria poucos, queria todos, mas continuo com os poucos porque alguns fazem descobertas fascinantes, me contam sobre o livro lido com mais encanto que criança quando vê o Papai Noel. Continuo, escondo a preguiça, choro de emoção e volto a corrigir a pilha de redações. PROFESSORA 3: Quando comecei, sonhava com uma sala bem equipada, com uma estante de livros de madeira clara, com espaço para colocar alguns livros de frente, com um tapete com almofadas para ser o canto da leitura. Uma sala com mesas amplas e lápis colorido em potinhos para cada aluno, além do lápis preto, da borracha, do apontador. Um armário com os mapas que usaríamos no decorrer do ano e dois murais, um para os trabalhos dos alunos e um para os recados, as notícias... Não existia computador e não fazia falta um Power point. Agora sonho com uma sala com carteiras inteiras, que não estejam quebradas e que tenha uma para cada aluno. Não seria a sala do sonho, mas, se fosse assim e limpa já seria bom demais. E se todos os alunos tivessem caderno e estojo completo, já chegaria perto do paraíso! ____________________________________ A cada encontro, refletíamos sobre os jogos, sobre os temas escolhidos, sobre as situações vividas pelas professoras em seu cotidiano escolar. Lembrávamos casos, lembrávamos fatos vividos, sentimentos, situações passadas tanto na condição de professora como de aluna. Foram trazidos exemplos que se relacionavam aos jogos, personagens reais com as quais cada uma das professoras se deparou em seu cotidiano, pais, alunos, diretoras, inspetores, serventes... Pensar sobre todas as inquietações e questões apresentadas foi uma grande possibilidade de compreendermos a escola sob muitos pontos de vista, porém, as conquistas não conseguiram fazer com que desaparecesse o 74 sentimento de impotência, a angústia, a revolta, a frustração, mesmo que todos estes sentimentos estivessem acompanhados do desejo de mudança, da crença de que se não fosse possível resolver o gigantesco universo de ausências, de problemas, ao menos buscaríamos formas de melhorar no espaço onde nossos braços alcançassem. A cena que abre este capítulo mostra parte desses sentimentos, ainda que seja mais forte a tristeza e a impotência nela apresentadas. O texto que se segue apresenta nossas reflexões, tendo como referência os temas explorados nos encontros. Procuro mostrar a importância da troca de idéias, de enfoques, de percepção para a conquista de uma docência criativa. A formação dos professores da educação básica se inicia nos cursos de graduação, ou nos cursos de Magistério, em nível médio, e deveria continuar em todo o decorrer da carreira docente. Considerada como parte da construção profissional do professor, os cursos de capacitação, aprimoramento, especialização, extensão que traduzem uma das formas de educação continuada tendem a repetir processos já vivenciados ao longo da formação inicial. Assim, os índices de insatisfação, deserção ou absenteísmo em relação a essas práticas são elevados. “O meu ponto de partida é portanto uma ausência. A ausência, nos cursos de formação docente inicial e continuada, daquele saber dos professores e professoras que é forjado no e pelo trabalho cotidiano desenvolvido em interação com os alunos, na sala de aula, ou seja, o saber da experiência.” (NOGUEIRA, p.2002) Entendo que a formação continuada deve ser pensada como um processo permanente, que parta de problemas concretos experimentados pelo professor podendo ser uma reflexão que relacione a teoria à prática por ele vivida. Contemplando as experiências já vivenciadas como questões e tensões do cotidiano e a contraposição que representam – ou não – às teorias e práticas iniciais, compreendo a formação em serviço no sentido de uma reflexão - dialética – da sua condição de educador. 75 Para que esta reflexão ocorra, no sentido de transformar a prática que apresenta limites tanto no aspecto dos conceitos como das escolhas metodológicas feitas por ele, é necessário que o professor tenha autonomia, tenha independência intelectual, não se colocando, somente, na postura de aprendiz. Boing (2008) propõe que a formação continuada de professores, além de ser continuada, seja também situada, personalizada, enredada e em serviço. Nesta perspectiva, o autor apresenta sugestões como trocas entre escolas particulares e públicas e entre universidades e escolas; assim como a importância de que a formação ocorra em serviço, condição sem a qual o professor, muitas vezes, fica excluído. Trabalhar com a reflexão, como parte da formação dos professores é entender a formação como um processo de construção de sentido. Esta só será possível na proposição de que cada professor possa inventar permanentemente as formas pelas quais quer estar no mundo, entender e repensar suas concepções de educação e que possa dialogar com os seus colegas para a construção de um espaço comum. Esse lugar comum é uma escola que comporte as particularidades de cada um, mas que tenha um projeto de educação coletivo, dialogado e em constante reflexão. Para que possamos ser “construtores de nós mesmos” (RIOS, 2001), precisamos acreditar que o conhecimento a ser transmitido na aprendizagem não é algo fechado e pré-definido, o que desconsideraria as relações estabelecidas no momento exato de sua construção. Se entendermos o conhecimento como algo previamente definido, não há nada além da reprodução enfadonha, que congela a capacidade de novas perspectivas para o estar no mundo, para o existir. (FARIA, 2002) Dentro dessa perspectiva, entendo que a reflexão estética, ocorrida nesta pesquisa, principalmente, por meio da escrita dramatúrgica, poderá contribuir para um novo olhar sobre os conflitos e as dificuldades encontradas pelos professores, 76 já que ela rompe com a idéia do conhecimento como algo estático, imutável e previamente definido. No decorrer de todo o trabalho de campo desenvolvido com as professoras, estabelecemos diferentes momentos para refletir sobre o processo de jogo teatral e da escrita dramatúrgica. Ao iniciar o trabalho, foi lido o relato referente ao encontro anterior, que buscava ser um instrumento principalmente de reflexão. Após a leitura, as demais participantes complementaram o que foi necessário para este momento de retomada sobre o trabalho realizado. No final dos jogos ou de parte deles, também, existiram momentos de reflexão sobre o ocorrido, relacionando-os aos temas escolhidos. A leitura das cenas escritas pelas professoras foi intercalada de momentos de discussão sobre os aspectos trazidos pelos textos, que possibilitavam uma maior compreensão tanto da temática escolhida, quanto dos jogos que haviam gerado as cenas, ou mesmo sobre o processo de escrita dramatúrgica. Tivemos ainda dois encontros destinados somente à reflexão e avaliação do trabalho desenvolvido, sendo um no meio da pesquisa e outro no final. A escolha por termos diferentes momentos de reflexão, assim como diferentes instrumentos, já que além de conversarmos sobre o ocorrido também foram feitas reflexões escritas, se deve ao fato de compreendermos que será somente com a retomada do jogo, com o pensar e com a troca de opiniões que poderemos nos apropriar da experiência e ampliar seu significado, relacionando-a a outras situações e questões. Convém observar a posição aqui assumida de que a criação, em seu sentido mais significativo e mais profundo, tem como uma das premissas a percepção consciente (OSTROWER, 1987, p.6). Esta fala de Ostrower deixa clara a importância da compreensão do processo criativo experimentado no jogo, não apenas como forma de compreensão distanciada do fazer criativo, mas como necessidade para que a criação ocorra. A criatividade se dá com a consciência de seus atos, de suas escolhas. 77 Ao iniciarmos o trabalho, foi entregue um questionário inicial e, a partir das perguntas 18 e 19, definimos quais seriam os temas para os encontros, conforme relatado no capítulo 143. As temáticas apontadas como relevantes para serem debatidas durante a pesquisa podem ser divididas em grupos. Desta forma, podemos compreender que as professoras identificaram dificuldades que dizem respeito às condições materiais das escolas, quando sugerem temáticas como: falta de espaço e de recursos físicos. Evidenciam dificuldades referentes à relação estabelecida entre escola e poder público nas temáticas: gestão ruim, políticas públicas ineficientes e legislação. Quanto à relação com os pais e a comunidade podem ser incluídas as temáticas: ausência dos pais/comunidade e crise de valores sociais. Quanto às condições do trabalho docente surgem: capacitação, salas muito cheias, baixos salários, falta de apoio, auto-estima, desvalorização do ensino, falta de estímulo e rotatividade. Na relação com o aluno, são apontadas: falta de perspectiva do aluno e do professor, relacionamento professor/aluno – interpessoais e heterogeneidade. No que diz respeito à postura docente aparecem: divergências (entre os professores), falta de compromisso docente, frequência do professor, responsabilidade compartilhada e criatividade. Evidentemente, a separação destes temas em grupos não exclui a relação existente entre eles e a possibilidade de que um mesmo tema esteja em mais de um. Entretanto, esta análise procura apontar alguns aspectos relevantes das temáticas escolhidas, as quais remetem a diferentes conflitos vividos pela escola, que refletem a imagem negativa que a sociedade tem percebido sobre elas, gerando uma busca de “culpados”, conforme Santos ao comentar sobre as críticas à baixa qualidade das escolas públicas. Nesse contexto é apontado um grande número de “culpados” e de fatores responsáveis por essa situação. Os dirigentes dos sistemas de ensino culpam as escolas e os professores; os diretores reclamam da falta de 43 São eles: falta de apoio, divergências (entre os profs), falta de espaço físico, falta de recursos físicos, capacitação, salas muito cheias, heterogeneidade, ausência dos pais/comunidade, falta de perspectiva do aluno e do professor, auto-estima, desvalorização do ensino, baixos salários, falta de estímulo, falta de compromisso docente, freqüência do professor, rotatividade, gestão ruim, políticas públicas ineficientes, legislação, crise de valores sociais, criatividade, responsabilidade compartilhada, relacionamento prof./aluno - interpessoais 78 responsabilidade dos professores e das exigências burocráticas da secretaria; os pais reclamam das mudanças no ensino em que, por exemplo, praticamente foram extintas as avaliações somativas e a repetência; os professores queixam-se do desinteresse da família em relação à vida escolar dos filhos e da disciplina e violência escolar. (...) No entanto, falta nesse processo de culpabilização a identificação de outros fatores que também influenciam na qualidade do ensino público, como aqueles relacionados ao financiamento da educação (salário dos docentes, estrutura física e de equipamentos da escola, entre outros), assim como uma maior integração das políticas públicas. (SANTOS, 2007, p.235/236) Um dos aspectos apontados por Santos, de uma maior integração das políticas públicas pode ser observado na formação de professores. Nas condições de trabalho com que me deparei nesta pesquisa, não foi possível estabelecer um grupo de uma mesma escola, onde a formação pudesse ocorrer em serviço, devido ao tempo que os professores dispõem para a resolução de problemas cotidianos. Volta-se à perspectiva da culpabilização, já que as condições apresentadas não permitem que o grupo de professores trabalhem conjuntamente e reflitam sobre o próprio trabalho. Uma das temáticas sugeridas, que não foi possível explorar nesta pesquisa, foi a da rotatividade dos professores. A ausência de uma equipe que se mantenha por um tempo longo, trabalhando conjuntamente, podendo, assim, estabelecer vínculos e refletir sobre as propostas realizadas é um dos fatores que impede a formação de um corpo coeso. “...a rotatividade é outro fenômeno que dificulta a escola formar um corpo docente mais estável. (...) Dentro da escola, professores e alunos estão em constante rotatividade.” (BOING, 2008, p.159) Apesar da amplitude temática sugerida, só foi possível explorar quatro dos temas, devido ao número de encontros e nosso interesse em explorar a temática em profundidade. Desta forma, nos dois primeiros encontros foi trabalhado o tema Gestão. 79 3.1 GESTÃO O primeiro jogo proposto para o tema Gestão foi Tensão Silenciosa44, no qual a situação imaginada deveria se relacionar ao tema da Gestão. Como este foi o primeiro encontro no qual trabalhamos com jogos, foi difícil para o grupo a compreensão da proposta e as situações criadas demonstraram a existência de alguma tensão, que, entretanto não impediram a fala. Foram propostas pelas participantes duas situações. A primeira foi a aplicação de uma prova que é interrompida pela diretora para dar um aviso à professora, criando o conflito entre ouvir a diretora ou vigiar as possíveis colas dos alunos. A segunda situação foi a visita de uma supervisora a uma escola na qual faltou água e os alunos foram parcialmente dispensados. A diretora percorre as salas com a supervisora tentando esconder o fato da dispensa que é relatado por uma das professoras. Ao refletirmos sobre as cenas criadas, surgiram questões referentes à primeira cena, como a da falta de programação prévia das escolas, que acaba fazendo com que a diretora venha falar com a professora no momento da prova, além de partir-se do pressuposto de que é natural os alunos colarem nas provas. Na segunda cena, comentamos sobre o despreparo da escola para a falta de água, o fato de as professoras não terem seguido a orientação da diretora e a tentativa de omiti-lo da Inspetora. Sandra relatou uma situação semelhante vivida pela escola em que trabalha, que está sem bebedouro para os alunos, devido à reforma pela qual passa, fazendo com que os alunos tenham que tomar água na cozinha. Foi comentado pelo grupo o fato de nesta situação não existir uma previsão do que fazer com um acontecimento como esse, que, embora não seja cotidiano, é frequente e previsível. Foram abordados diversos aspectos apresentados pela cena, como o descrédito da diretora, já que as professoras não seguem a sua orientação; a postura da Supervisora, que se preocupa somente com o fato de os alunos terem sido dispensados, não se preocupando com a falta de água, com a falta de 44 Este jogo tem como foco o silêncio entre os jogadores. Os jogadores estabelecem o Onde, o Quem e o O Quê e a tensão deve ser tão forte que eles sejam incapazes de falar, como por exemplo: Casal de idade avançada ouvindo um ladrão caminhando no andar térreo. As instruções devem levar ao foco, tais como: Foco no silêncio! Comunique através do silêncio! 80 comunicação entre os profissionais, e com a tentativa de esconder um fato de uma profissional que deveria trabalhar junto com a escola. Em alguns momentos, foi observado que o problema dessa situação era a Supervisora ter aparecido na escola justamente neste dia, como se os demais problemas apresentados pela cena não fossem tão significativos quanto o fato de a supervisora, encarada como uma chefia, ter percebido o ocorrido. Nas duas situações, assim como na reflexão sobre ambas, fica evidente a falta de trabalho conjunto e o fato da não existência de uma equipe com a qual o trabalho é realizado e as dificuldades superadas. Na continuidade do tema Gestão, propus que cada grupo improvisasse, partindo de uma cena escrita no encontro anterior45. A primeira cena realizada partiu da situação na qual o porteiro não abre o portão no horário adequado para o início das aulas. Na cena proposta pelo grupo, o porteiro estava dormindo e o grupo de alunos fica batendo na porta enquanto combina de sair da escola e fazer outro programa. O porteiro do lado de dentro, além de estar dormindo, ao acordar, demora a encontrar seus óculos, sem os quais não consegue abrir o portão. Por fim, o portão é aberto e os alunos entram. A segunda cena realizada apresentou duas alunas no pátio da escola sem uniforme, com mini-blusa (esta informação foi dada pela jogadora) conversando com a coordenadora que apresenta diversos argumentos para convencê-las a usar o uniforme, terminando por obter a concordância de ambas de que no dia seguinte viriam com ele. A terceira cena apresentou dois alunos brincando no pátio da escola, mexendo no lixo e em objetos indevidos e reclamando de não terem com o que brincar. Enquanto isso, a diretora e a inspetora conversam entre si, ao mesmo tempo em que tentam acalmar os alunos, e combinar uma reunião para que os inspetores pudessem apresentar sugestões de melhora do recreio. Ao comentarmos a primeira cena, foi pontuado pela Rocha que a perspectiva que o grupo teve de discussão do tema da gestão nesta cena se dava 45 Ver anexo 3. 81 por compreender que, por melhor que seja a gestão de uma escola, o bom andamento do trabalho depende do comprometimento de cada funcionário. A situação de desrespeito ao uso do uniforme possibilitou uma ampla reflexão sobre diferentes aspectos, como o da segurança do aluno de Educação Infantil e das primeiras séries do Fundamental, que pode ser reconhecido como aluno daquela escola ao utilizar o uniforme; trouxe também o aspecto das “tribos” traduzidas nas roupas dos adolescentes, da identidade com a escola e do comprometimento dos pais que, ao matricularem seus filhos estão a par das normas e não cooperam no sentido de que as mesmas sejam cumpridas. Muchos docentes e instituciones no han encontrado todavía la manera de definir una nueva división del trabajo frente a la multiplicación de las configuraciones familiares, la inestabilidad y flexibilidad de sus estructuras y dinámicas y la carencia de recursos básicos, no solo económicos, sino también afectivos, temporales etc., necesarios para acompañar el crecimiento y el aprendizaje escolar de las nuevas generaciones. Los docentes oscilan entre la queja por la falta de participación de los padres o por el intervensionismo que en muchos casos juzgan excesivo que constituye un obstáculo para su propio trabajo en las instituciones46. (FANFANI, 2007, p.341) Fanfani deixa claro um conflito presente na instituição escolar e para a maior parte dos docentes sobre a forma pela qual a família deve participar da educação. No debate com as professoras, o aspecto do cumprimento da norma estabelecida não excluiu a evidência do conflito existente quanto ao uso do uniforme, que traz em si não, apenas, a discussão sobre a utilização de uma vestimenta padrão, que leve à identificação da escola, como qual deve ser a vestimenta adequada a ser usada na escola, tanto para os alunos como para os professores. No capítulo dois, foram descritos os diversos aspectos que essa reflexão gerou, tendo em vista questões morais e o debate sobre a sexualidade implícito em discussões sobre o decote e a altura das saias ou “shorts”. 46 Muitos docentes e instituições ainda não encontraram a maneira de definir uma nova divisão do trabalho frente à multiplicação das configurações familiares, a instabilidade e flexibilidade de suas estruturas e dinâmicas e à carência dos recursos básicos, não só econômicos, mas também afetivos, temporais etc., necessários para acompanhar o crescimento e a aprendizagem escolar das novas gerações. Os docentes oscilam entre a queixa pela falta de participação dos pais ou pelo intervencionismo que em muitos casos julgam excessivo, que constitui um obstáculo para seu próprio trabalho nas instituições. (Tradução livre) 82 En el nuevo contexto social y cultural, la institución escolar tiende a ser vista por los docentes como "una isla de orden en un océano de ignorancia y desorden" (Dubet y Duru-Bellat, 2000, p. 45). La crisis social tiende a ser percibida como crisis moral. Los problemas de disciplina, la violencia escolar, los desórdenes, la poca predisposición al esfuerzo, la falta de interés etc. son la expresión de los defectos de la educación. Los docentes ven amenazada su identidad y tienden a sentirse obligados a convertirse en trabajadores sociales, "educadores" y psicólogos47. (FANFANI, 2007, p.338) A crise social apontada por Fanfani ficou evidente na conversa com as professoras sobre uniformes, tanto pela complexidade de questões trazidas, como pela tentativa de simplificá-las com argumentos que buscavam uma solução unicamente prática, como o de seguirmos as normas estabelecidas, acreditando que, com esta medida, o conflito desapareceria. Entretanto, para o grupo ficou tão evidente a necessidade de aprofundamento sobre o tema, que foi feita a escolha de trabalharmos com a temática da crise de valores sociais no quarto encontro, como relatado por Lilá: O caminho destes assuntos enfocou-se mais na questão dos uniformes, que agregasse a contexto político, social e econômico, gerando assim um “Tissuname” de informações e experiências que levariam o dia todo em debate, deixando muito claro a importância de uma gestão criativa em todas as situações e a presença da família na vida escolar de seus filhos. Com isso explodiu o próximo tema Crise de valores sociais, um assunto muito rico e também bastante polêmico que barra (em partes) o poder de uma gestão criativa, uma vez que a mesma não pode adentrar privacidades familiares para resolver algumas questões.” (Relato 3º encontro – Lilá) 47 No novo contexto social e cultural, a instituição escolar tende a ser vista pelos docentes como “uma ilha de ordem em um oceano de ignorância e desordem” (Dubet e Duru-Bellat, 2000, p.45). A crise social tende a ser percebida como crise moral. Os problemas de disciplina, a violência escolar, as desordens, a pouca predisposição ao esforço, a falta de interesse etc. são a expressão dos defeitos da educação. Os docentes veem ameaçada sua identidade e tendem a sentir-se obrigados a converterem-se em trabalhadores sociais, “educadores” e psicólogos. (Tradução livre) 83 3.2 CRISE DE VALORES SOCIAIS Para a exploração dessa temática, foi sugerido o jogo Vendo o Mundo48 em que cada narrativa deveria ser feita como uma personagem sorteada das personagens criadas pelas professoras no encontro anterior. Antes deste jogo, já havia sido feito o Jogo da Bola com a gestualidade da personagem sorteada. As cenas narradas foram: Sandra – Adolescente narra situação de estar em um baile funk e ter sido agarrada pelo Joãozinho, ficando toda roxa. Lilá – Professora que demonstra preocupações com a escola enquanto está lavando louça. Rocha – Aluna adolescente que diz que irá sem uniforme na escola, mesmo que tenha que enfrentar a coordenadora. Maria – Pai bêbado em conflito sobre ir ao bar ou para a reunião da escola dos filhos. Ana – Inspetora narra situação das crianças atravessando a rua sem segurança. Déia – Aluna que reclama da vida e dos pais. Memê – Inspetora narra situação na qual os alunos colocam fogo no corredor e na sala. Julia – Professora narra situação de um grupo de alunos fumando próximo à escola e que declara que fará uma campanha contra o tabaco. Néia – Professora se queixa de aluna que vem sem uniforme e informa a todo o momento que já tem vinte anos de magistério. Após a realização do jogo, Vendo o Mundo, foi sugerida uma improvisação quando cada participante entraria com a personagem trabalhada nos dois jogos anteriores e com o Onde definido como uma festa junina de uma escola. No meio das cenas, eu informei que havia ocorrido o som de um tiro. 48 Neste jogo deve-se narrar um acontecimento enquanto a orientadora faz perguntas que busquem uma descrição maior sobre o que está sendo narrado, tais como: Focalize as cores da cena, focalize os sons, etc. 84 Ao comentarmos as improvisações feitas, foi ressaltada a professora que trabalhava na barraca e demonstrava estar insatisfeita com a situação, caso recorrente de acordo com a opinião do grupo. Observei o fato de ela estar mais preocupada com as prendas que poderiam ser roubadas do que com os alunos e retomamos o aspecto da gestão dentro desta situação, uma vez que o professor pode se sentir responsabilizado pelos bens materiais, tendo uma atitude como esta. Em estudo que realizei em 1978 a respeito da satisfação / insatisfação no trabalho com professores de doze escolas municipais de 1ª a 4ª séries da cidade de São Paulo foi observada, de fato, uma tendência da maioria das professoras, quando solicitadas a identificarem os fatores de satisfação/ insatisfação no trabalho, a apontarem os intrínsecos como de satisfação (perceber o produto do próprio trabalho, trabalhar com gente -crianças) e os extrínsecos como de insatisfação (baixa remuneração, trabalho burocrático), o mesmo ocorrendo em pesquisas mais recentes. (PENIN, 2008) Embora Penin aponte os fatores extrínsecos ao trabalho, como responsáveis pela insatisfação dos professores, é interessante observar que a situação criada, na qual a professora é obrigada a trabalhar em uma barraca da festa junina da escola, também gera insatisfação. De fato, podemos observar que a função assumida não é uma função docente, além do fato de que, muito provavelmente, a festa ocorra em horário diferente do seu horário de trabalho, aspectos que se relacionam aos fatores apontados por Penin. As cenas ainda suscitaram discussões sobre a postura da família, evidenciada pelo pai que bebia e pela ausência dos pais de uma aluna ainda pequena que estava na festa junina sozinha. Também foi comentado sobre a visão preconceituosa para com a aluna que desafiava a coordenação, utilizando roupas provocantes, já sendo apontada como possível responsável pelo tiro. Outro aspecto foi o da aluna que só estava interessada em se “amassar” com o Joãozinho. O receio de roubo e violência, também, foi apresentado pela postura da professora que demonstra medo em ter as prendas roubadas. Devido à falta de tempo para exploração de todos estes aspectos da temática, definimos por mantê-la por mais um encontro. Cada participante 85 escreveu um relato sobre uma das cenas, do ponto de vista da personagem com que trabalhou. E, dando continuidade a temática crise de valores sociais, fizemos a leitura desses textos, que ampliaram os aspectos já trazidos pelas improvisações, o que foi apontado no relato de Néia: Durante o nosso debate sugiram questões familiares, culturais, econômicas, estéticas, sexuais, raciais. Além de temas como motivação, valorização, preconceito, consumismo e o papel da mídia em nossas vidas. Percebi que o assunto levantou muitos exemplos vividos por nos mesmas, mexendo com os nossos sentimentos e angustias. A nossa conversa foi longa e agradável e nem percebemos a hora passar. O debate foi encerrado com um gostinho de quero mais. (Relato 5º encontro – Néia) Discutimos a questão da banalização da violência, na qual foram colocadas opiniões sobre a indiferença com que se trata uma situação como esta, no sentido de que, atualmente, a maior parte das pessoas que ouve um tiro ignoraria o fato, mantendo-se em sua atividade. Questionei o grupo sobre esta opinião, discordando de que a maior parte das pessoas encare essa situação sem medo. Durante essa discussão, em diversos momentos, surgiram comentários sobre a provável atitude de professores ignorarem um fato como um tiro, como se nosso grupo não fosse de professores. Novamente, retomei a questão, lembrando que somos todas professoras e que nenhuma de nós trataria uma situação dessas, ignorando o medo e o perigo apresentados. Este não foi o primeiro momento no qual eu observei uma postura de generalização de condutas dos professores, que se diferenciam daquela que as professoras ali presentes tomariam. Voltamos então ao que já afirmamos: o professor não é uma entidade abstrata, um protótipo idealizado como muitas vezes o vemos tratado na pesquisa, em textos reflexivos em educação, ou em documentos de políticas públicas ou intervenções educacionais. Ele é uma pessoa de um certo tempo e lugar. Datado e situado, fruto de relações vividas, de uma dada ambiência que o expõe ou não a saberes, que podem ou não ser importantes para sua ação profissional. (GATTI, 1996, p.88) A fala de Gatti evidencia não, apenas, a visão de pesquisas ou documentos, mas de professores que assumem o discurso como um todo, como 86 uma classe abstrata, com valores e condutas que não seriam a delas, mas daquele grupo ou de boa parte dos professores com quem convivem. Assume-se para a classe docente, o discurso da banalização da violência que passa a ser tratado de forma generalizante. Na discussão com o grupo, ao afirmarem que a maioria dos professores ignoraria a situação de violência, as professoras não apenas apresentam uma visão do todo dos professores como uma classe levada pela pouca reflexão sobre questões fundamentais da sociedade, como demonstram uma não identificação com sua classe, uma vez que afirmam que teriam uma atitude totalmente diversa, seja pelo medo que a situação gera, como pela gravidade da mesma. Sobre a temática do preconceito ao feio e ao pobre surgiram opiniões que apontavam a beleza como um conceito relativo, entretanto, também, foi considerado o padrão de beleza assumido pela sociedade e divulgado pela mídia. Discutimos a dificuldade que um adolescente sente em enfrentar este padrão e de poder valorizar outras formas de beleza. Também foi dito que só é feio quem é pobre, já que a beleza pode ser comprada por meio dos diversos tratamentos estéticos existentes. Falamos sobre a precocidade com que este tema tem sido abordado, gerando uma expectativa de importância a uma apresentação estética cada vez mais cedo. Néia relatou o caso de uma aluna de três anos, gordinha, com pais e avós magros que a questionou sobre ela ser gorda, ficando muito satisfeita com a resposta afirmativa da professora. Este mesmo questionamento foi feito por vários dias. É interessante observar o papel assumido pela professora, que se orgulhou do fato de a aluna ter se identificado com ela, ao mesmo tempo em que ressaltou a importância que a professora pode ter na construção da identidade da criança que, na ausência de um familiar com quem se identificar fisicamente, estabeleceu esta identificação com a professora. Ao comentarmos a atitude da personagem-professor, que se sente cobrado a fazer algo no momento do tiro, foi, também, levantada a possibilidade de que ele poderia ter agido por se sentir responsável e não pelo receio da cobrança. 87 Esta visão do grupo de que a atitude do personagem ser de medo da cobrança pode denotar uma preocupação por parte das professoras com as cobranças vividas, mais do que com as responsabilidades. Esta visão traz a perspectiva de Gatti quando diz: Sem o envolvimento direto dos professores no repensar de seu modo de ser e sua condição de estar numa dada sociedade e em seu trabalho – o que implica análise de sua identidade pessoal e profissional – as alternativas possíveis na direção de uma melhor qualidade da educação e do ensino não se transformarão em possibilidades concretas de mudança. (GATTI, 1996, p.89) Na discussão do tema da sexualidade, surgiram diversas visões, considerando tanto o aspecto do lugar onde deve ser experimentada a prática da sexualidade, os limites do que deve ser permitido ou não, o excesso de interesse e de importância dado ao tema, em detrimento de outros interesses também importantes para o jovem. Rocha comentou de um projeto desenvolvido pela secretaria da educação sobre o tema que discute formas de trabalhar com a sexualidade, considerando-se as novas descobertas sociais relativas à possibilidade de identificar a paternidade por exames que não existiam. Sandra falou dos perigos relativos às doenças sexualmente transmissíveis e à gravidez precoce. Ficou clara a necessidade de ser pensada uma educação sexual que discuta o tema relacionado ao aspecto da afetividade. Lilá relatou sua experiência pessoal de ter sido mãe aos quatorze anos e contou da importância de um professor, que foi à sua casa para trazê-la de volta à escola, sendo um dos responsáveis por ela não ter deixado de estudar e ter escolhido a profissão docente. Esta temática da sexualidade evidencia, novamente, a situação vivida pelos professores que passam a assumir papéis anteriormente destinados à família, vivenciando uma cobrança aque não são capazes de atender. Paradoxalmente, essa ausência da sociedade projeta sobre os professores um excesso de expectativas e missões, esperando-se que eles, para além do conhecimento e da cultura, ajudem a restaurar valores, a dotar os jovens dos padrões de comportamento e das competências e habilidades necessárias ao enfrentamento dos desafios impostos pelo mundo globalizado. 88 Diante disso, Nóvoa defende a necessidade de uma afirmação pública dos professores como “comunidade profissional”, pois, se no passado eles tiveram voz ativa nos debates educativos e grande parte de sua formação se deu no interior de movimentos pedagógicos, hoje o que há é silêncio e uma atitude defensiva por parte deles, ante as cobranças de que são objeto. (NOGUEIRA, 2002) A última cena trouxe a discussão da desvalorização do professor. Foram abordados muitos aspectos sobre a atual condição docente, desde as condições salariais, o pouco reconhecimento social, que é ainda menor quando se é professor de educação infantil, o excesso de trabalho, a falta de remuneração pelo trabalho realizado fora do espaço escolar; porém, o que ficou mais claro foi a falta de valorização pelo próprio professor. Como solução para esta situação foi apontada a necessidade de o professor se valorizar por si só, ao que eu rebati com a necessidade de fortalecermos o trabalho coletivo. É muito recorrente a crença de que só fica nessa profissão quem ama o que faz. Esta fala traz a perspectiva da profissão de professor como uma vocação, que só poderá se efetivar mediante uma dedicação completa, sem interesse, sem qualquer caracterização profissional, como explica Fanfani. También es importante recordar que el oficio docente siempre tendió a definirse como una mezcla no siempre equilibrada de profesionalismo y de vocación. La idea de "misión" impone un deber de humildad y de dedicación cualidades clásicas del buen maestro de escuela49. (FANFANI, 2007, p.343) Tal perspectiva exclui a necessidade de trabalho conjunto e de reflexão sobre as condições que a educação tem vivido, sobre os papéis assumidos pelos professores e, também, pelas escolas, como instituições que passaram a abarcar diferentes funções, não conseguindo, em sua maioria, obter qualidade em qualquer uma delas. (...) novas práticas de ensino só nascem com a recusa do individualismo. Historicamente, os docentes desenvolveram identidades isoladas. Falta uma dimensão de grupo, que rejeite o corporativismo e afirme a existência de um 49 Também é importante recordar que o ofício docente sempre tendeu a definir-se como uma mistura não sempre equilibrada de profissionalismo e de vocação. A idéia de “missão” impõe um dever de humildade e de dedicação qualidades clássicas de um bom professor de escola. (Tradução livre) 89 coletivo profissional. Refiro-me à participação nos planos de regulação do trabalho escolar, de pesquisa, de avaliação conjunta e de formação continuada, para permitir a partilha de tarefas e de responsabilidades. As equipes de trabalho são fundamentais para estimular o debate e a reflexão. É preciso ainda participar de movimentos pedagógicos que reúnam profissionais de origens diversas em torno de um mesmo programa de renovação do ensino. (NÓVOA, 2001) Ao chegarmos à metade da pesquisa de campo, no sexto encontro foi feita uma primeira avaliação para podermos refletir o que havia de significativo até então e repensar as opções para os encontros seguintes. Para tanto, cada participante recebeu: Os relatórios escritos pelas professoras. Os textos escritos pelo participante, cada uma recebeu apenas os textos escritos por si. Sínteses de cada encontro que continham o nome dos jogos propostos e uma breve descrição de como eles ocorreram. A fotocópia dos jogos propostos, retiradas do texto de Viola Spolin (2001). As respostas de todas as participantes para a pergunta do questionário inicial, sem a identificação da respondente: O que existe de melhor e de pior em ser professor? Ao questionar o grupo sobre o mais significativo no primeiro encontro, Lilá ressaltou a importância de termos feito a escolha dos temas partindo do que o grupo entendeu como relevante, de forma democrática. Comentou o quanto esta forma poderia ser utilizada em seu local de trabalho onde, por vezes, não conseguem encontrar temas de discussão que interessem às professoras. Informou da empolgação de suas colegas de trabalho pelos relatos compartilhados sobre os encontros ocorridos na pesquisa. Esta observação denota, não apenas o quanto boa parte dos cursos de formação de professores estão distantes de suas práticas, como o trabalho desenvolvido nas escolas ignora a percepção dos professores sobre os conflitos 90 por eles vividos, assim como desconsidera as contribuições que os mesmos devem oferecer na reflexão sobre as possíveis soluções. Por um lado, a ideia de escola aprendente, isto é, da escola como o lugar da formação dos professores, como o espaço da análise colectiva das práticas, enquanto rotina sistemática de acompanhamento, de supervisão e de reflexão sobre o trabalho docente. Não se trata de acrescentar novas tarefas à longa lista de tarefas que os professores são já chamados a desempenhar. Nem se trata de desviar a atenção dos professores do trabalho pedagógico propriamente dito. Trata-se, sim, de fazer evoluir a profissão de uma dimensão individual para uma dimensão colectiva. Trata-se, sim, de transformar a experiência colectiva em conhecimento profissional. (NÓVOA, 2003) Nóvoa esclarece a possibilidade de a escola desenvolver seu objetivo, tendo como perspectiva a reflexão do professor sobre o seu trabalho e a possibilidade de ser criada uma rotina que incorpore esta reflexão, tornando-a coletiva. No debate sobre os aspectos significativos do primeiro encontro, Sandra ressaltou a importância de a aula não ficar focada somente em mim e contar com a participação dos professores, opinando que a mesma prática deveria ser feita aindapelos professores em sala de aula com seus alunos. Este posicionamento gerou uma polêmica sobre a viabilidade desta prática com salas muito cheias, com argumentos que demonstravam a viabilidade e a inviabilidade de desenvolver um trabalho semelhante com um número excessivo de alunos. Foram feitos diversos relatos que mostravam dificuldades e possibilidades de trabalhar, apesar do número excessivo de alunos. Os diferentes posicionamentos, por parte do grupo, sobre como realizar o trabalho com salas muito cheias, não foram solucionados nem discutidos em profundidade, devido ao foco de nossa reflexão ser outro naquele momento. Com relação ao segundo encontro, o mais marcante foi o trabalho corporal, a realização dos jogos como possibilidade de maior integração do grupo, maior afinidade. Questionei quais os temas debatidos e surgiram questões como a dificuldade dos gestores em adequar as propostas à realidade escolar; as dificuldades de comunicação; procedimentos no trabalho. a necessidade de serem estabelecidos 91 Antes de continuarmos a retomada, solicitei que cada uma fizesse um gesto que sintetizasse o segundo encontro. Os gestos foram: Depois que todas haviam feito seu próprio gesto, foi feito mais um que eu não vi por estar de costas, porém o grupo pediu que fosse repetido para mim. Figura 2. Gestos síntese do segundo encontro 92 É interessante observar o quanto os gestos remetem à idéia de reflexão, de coletivo e de algo a alcançar. No gesto final, feito pela Memê, embora fique evidente o aspecto de humor contido nele, também é claro o desespero simbolizado pelo “arrancar os cabelos”. Em muitos momentos de nossas reflexões, esse sentimento se fez presente, devido à quantidade de problemas e as muitas necessidades apresentadas pelas escolas em contraponto com os recursos das mesmas. Na avaliação do terceiro encontro, foi valorizado o fato de já termos cenas escritas pelo grupo e das improvisações, assim como as cenas partirem de situações reais. A Cris comentou que as dramatizações foram mais elaboradas e que o grupo estava mais solto para improvisar, compreendendo que o fato de as cenas se relacionarem ao cotidiano facilitou. Solicitei que cada uma escolhesse uma palavra que sintetizasse o encontro, as palavras foram: Néia – coletivo; Memê – integração; Ana - improviso; Jô - interação; Sandra - envolvimento; Lilá – polêmica; Cris - união; Rocha - criação. As palavras-síntese reafirmam a importância dada pelo grupo à possibilidade de trabalho conjunto. Percebo que, neste momento, tendo já feito diversos jogos que trabalhavam a integração do grupo, ficou clara a possibilidade de desenvolvermos um trabalho coletivo e do quanto este grupo já havia estabelecido alguns vínculos que possibilitaram uma maior tranquilidade à improvisação e, consequentemente, ao fato de se exporem. O relato de Rocha sobre este encontro demonstra a valorização do grupo: O grupo participa, traz dúvidas, descreve suas experiências, interage e a cada encontro, percebemos que a reflexão é muito importante para todos. (Relato 6º encontro – Rocha) Na avaliação do quarto encontro, Rocha trouxe a personagem como aspecto marcante. Pedi que cada uma criasse uma personagem que sintetizasse o encontro, as personagens criadas foram: Lilá - pai preocupado; Néia - aluno rebelde; Sandra - professor preocupado; Memê - professor participativo; Ana aluno descontraído; Rocha – cidadão preocupado; Cris – criança alegre. A Jô não definiu nenhuma personagem, pois não estava no encontro. 93 Neste momento, as personagens criadas fizeram referência clara à cena da Festa Junina ocorrida no encontro. É interessante observar que as reflexões ainda se voltam muito para diferentes aspectos da escola, o que se percebe com personagens relativas aos pais e alunos, não estabelecendo o foco no professor. Ao retomarmos o quinto encontro, foi ponderado que ele apresentou aspectos do trabalho do professor, que não tem condições e espaço para lidar com os problemas que surgem no cotidiano escolar. Discutimos aspectos que apontavam para a atual condição da escola na sociedade e da importância de se repensar a forma pela qual ela poderá atender às dificuldades apresentadas por todos os alunos que a frequentam, sem que se perdesse o foco no ensino. Também foi apontado o fato de a forma de ensinar ter ficado obsoleta, pouco adequada aos alunos que estão hoje na escola. Solicitei que cada uma escolhesse um lugar, um espaço que sintetizasse este encontro: Sandra – abismo; Cris – tribunal; Rocha – computador com todas as falhas humanas; Jô – um lugar confuso no qual as pessoas apontam os erros; Lilá – bolsa de valores com baixas e altas ; Ana – espaço grande onde poucos atuam e a maioria só observa; Memê - um furacão. Tanto a fala sobre o papel da escola, como os espaços escolhidos demonstram a quantidade de conflitos e as dificuldades pelas quais a escola passa. Surgem espaços nos quais se evidência o descontrole da instituição, como o abismo e o furacão. A falta de comunicação pode se evidenciar nos espaços de Jô e Lilá, o excesso de julgamento e de culpabilização é uma leitura possível na imagem de Cris e a falta de interesse ou de atitude transparece na sugestão de Ana. ... a crise do ensino é aqui a impossibilidade de manter um modelo de ofício em plena decomposição: o modelo do docente disciplinador e erudito, transmitindo o mais claramente possível, graças ao seu perfeito domínio da exposição magistral e à sua paixão intelectual, o patrimônio nacional e a grande cultura universal, a alunos escolhidos a dedo, por sua origem de classe, próximos da cultura escolar e dos seus códigos implícitos, e destinados ao status de membros da elite meritocrática ... (TARDIF e LESSARD, 2008, p.259) 94 Não há dúvida de que as professoras expressam em suas imagens um exemplo de escola que mantém um modelo de ofício em decomposição, como foi afirmado por Tardif e Lessard e não, apenas, do ofício do professor, mas também da instituição escolar, que em sua maioria, ainda não encontrou soluções para esta nova condição. Na leitura às respostas dadas à pergunta 20 do questionário50 por todas as participantes sobre o que há de melhor em ser professor, observa-se o aprendizado do aluno como resposta. Solicitei ao grupo que pensássemos formas pelas quais esta pesquisa poderia contribuir com o grupo, no sentido de colocarmos o foco das discussões no trabalho do professor, podendo, assim, encontrar caminhos para se chegar ao que há de melhor em ser professor. Foram apontados aspectos como a relação com o aluno, a auto-estima do professor, a troca com os colegas, a coragem para com o novo, formas de motivar o aluno. Foram dados alguns exemplos que propõem formas diferenciadas de trabalho com alunos. Retomamos todos os temas levantados no primeiro encontro, comentando o quanto eles poderiam ser uma forma de utilizar novas metodologias que instrumentalizassem o grupo para possibilitar o aprendizado do aluno. Ficou definido que daríamos sequência ao trabalho com a temática: relacionamento professor/aluno. 3.3 RELACIONAMENTO PROFESSOR/ALUNO. Como forma de explorarmos a temática relacionamento professor/aluno realizamos o jogo Contato, como relatado no capítulo 2, mobilizando o grupo para uma grande discussão sobre a importância do contato físico entre professor e alunos. Diversos aspectos foram considerados, como a diferença entre as possíveis formas de contato, conforme a faixa etária com que se trabalha. Na discussão, veio à tona uma das cenas na qual seria muito difícil ajudar a criança que havia se machucado sem o contato corporal. Ficou clara a importância do 50 Ver Anexo 1 95 contato físico nas diferentes faixas etárias, apesar das diferenças e da necessidade de se esclarecer os limites deste contato. Cris comentou como o contato é mais fácil de ocorrer quando é para acolher o aluno em uma situação de dor, do que em uma situação de alegria. Néia ressaltou que ele não precisa ser necessariamente corporal, um olhar também é uma forma de contato. Ela deu o exemplo de que na faculdade uma professora surpreendeu as alunas ao chamá-las pelo nome no segundo dia de aula.51 Ficou claro para todo o grupo que é necessário que o professor estabeleça algum contato com o aluno, seja pelo contato físico, seja de outras formas, porém esclarecendo ao aluno que ele é tratado de forma particular e não como um número a mais. Néia trouxe a dificuldade de estabelecermos o limite do que devemos compartilhar da vida pessoal com os alunos, ressaltando a importância de que o aluno perceba o professor como uma pessoa e que os alunos saibam com quem estudam. Lilá relatou um caso de dois alunos que ela conseguiu mudar uma conduta de dificuldade de aprendizagem ao pedir que eles a auxiliassem no trabalho, levando a bolsa dela ou pequenas atividades semelhantes. Ficou claro para o grupo o que demonstrar confiança no aluno é uma maneira de conquistá-lo para o aprendizado. Julia apontou a dificuldade que o professor iniciante tem para saber como lidar com os alunos. Ana comentou que em todos os momentos são apresentados desafios, não apenas no início da carreira docente, relatando uma situação de dificuldade de relacionamento com o grupo de alunos que quase fez com que ela desistisse da carreira. Questionadas se o principal desafio do professor é o de estabelecer uma boa relação com os alunos, o grupo confirmou, apontando como recursos para 51 Este comentário era referente à professora Colaboradora, que apesar de não tenha sido nomeada, as professoras deram risada e olharam para ela no momento que este comentário foi feito. 96 esta dificuldade o estabelecimento de regras de convívio no início do trabalho e a certeza de estar fazendo um bom trabalho, ainda que considerem que parte da aula depende do aluno. Como formas de o professor conquistar esta segurança, foi sugerida a necessidade da preparação da aula e a importância de ser estabelecida uma rotina de trabalho. Novamente, nessa fala, não aparece o coletivo como possibilidade de construção do trabalho e de reflexão sobre as opções feitas. Na avaliação das cenas, foi retomado um momento em que uma personagem professora elogia uma aluna que não apresenta dificuldades em compreender a matéria, em oposição à outra que tinha muitas dúvidas. No momento em que a cena ocorreu, uma das participantes comentou sobre o preconceito expresso pela professora. Ficou evidente, nesse procedimento, o quanto fazemos comentários que reforçam a idéia de que o bom aluno é aquele que não tem dúvidas e não questiona o professor, ao mesmo tempo em que pregamos a formação de cidadãos críticos. Esta situação demonstrou as possibilidades que o jogo trouxe à percepção de condutas pouco conscientes, uma vez que a professora sequer havia se conscientizado do comentário feito, não sendo, apenas, um comentário de um personagem, mas algo que poderia ter sido dito por ela enquanto docente. Somente no momento da reflexão coletiva é que ela se questionou sobre a atitude tomada. Em continuidade à temática relacionamento professor/aluno foram realizadas cenas que partiram do texto escrito pela Rocha na qual duas professoras conversavam sobre o conflito vivido por uma delas por não saber como lidar com a turma de alunos que assumiu, pela primeira vez, naquele ano. Em um determinado momento da cena, está escrito: “(Lilá) para de chorar e ouve a amiga, que continua a falar sobre sua prática e reflexões.”52 Foi solicitado que formassem duplas e fizessem uma cena na qual a prática e as reflexões indicadas 52 O nome da Lilá foi colocado na cena como sendo a personagem, pois este texto partiu de uma improvisação ocorrida no 7º encontro. 97 no texto de Rocha fossem ditas de maneira a convencer a outra professora a seguir com a docência. A primeira dupla, composta pela Rocha e Sandra, trouxe como principais argumentos o valor de limites, a delimitação de papéis e a credibilidade no que a professora faz. A cena da Julia e Jô apresentou a necessidade de regras de conduta, como combinar com a direção e coordenação da escola o apoio necessário, em forma de punições, a imposição de limites e a valorização dos alunos que querem aprender. Nesta cena, a Julia enfocou que a professora não deve perder o seu objetivo de foco. Lilá e Ana disseram que o estudo deve ser valorizado por parte da professora, porém ao mesmo tempo ressaltaram que é no dia-a-dia que sabemos como resolver os conflitos, da preocupação com os alunos, do carinho, dos limites, das parcerias e do apoio de alguém com mais experiência. Néia e Memê enfocaram as regras, a necessidade de demonstrar autoridade, ainda que seja com berros, a apresentação de atividades envolventes, de um ambiente prazeroso e criativo. Néia falou sobre seu choque em não poder assumir a imagem de uma professora boazinha. Cris e Lilá apresentaram a possibilidade de formar assembléias nas quais os alunos participam das definições, jogarem as responsabilidades aos alunos, expor os seus trabalhos, valorizando-os, ter um envelope de sugestões para os mais tímidos. Nessa cena, Lilá começou declarando estar preparada para um salário baixo, mas não para essas condições de trabalho. A fala de Lilá remete à Boing quando ele afirma: O sofrimento, lembrando, acontece quando há uma distância entre o trabalho prescrito e o trabalho real. O professor deseja fazer uma coisa, mas as condições reais de trabalho impedem que ele alcance os seus objetivos. (...) Para superar o sofrimento, segundo Dejours, é preciso colocar em cena algumas estratégias de reconhecimento pessoal, de recuperação da integridade da pessoa. Essas estratégias estão presentes no próprio trabalho, não fora dele. A psicodinâmica do trabalho, então, não é mera perspectiva de análise do trabalho, mas conseqüência do fato de todo trabalho ser realizado por um ser humano. (BOING, 2008, p.149) Na reflexão sobre as cenas, ficou claro para o grupo a importância dos alunos participarem no estabelecimento de regras e normas. Foi feita a ressalva 98 de que na educação infantil os alunos são muito severos com as punições que propõem, sendo necessária a mediação do professor para que estas regras sejam adequadas. Retomei uma fala apresentada em uma das cenas na qual a professora afirma a necessidade de manter os seus objetivos, questionando se os objetivos dos alunos são diferentes. A princípio, o grupo reagiu afirmando serem diferentes, mas, ao debatermos melhor a questão, surgiu a visão de que os alunos e professores têm objetivos comuns, sendo o aprendizado o central, embora parte dos alunos não tenha esta intenção. Foi ressaltada a importância de termos em mente a maioria do grupo e, não apenas, os alunos com problemas de inadequação ao trabalho. Hoje, este ideal-tipo de aluno desapareceu completamente e temos diante de nós uma diversidade “explosiva”, constituída por alunos de todas as origens; de alunos que querem estar na escola, mas que não têm qualquer intenção de estudar ou de aprender. É difícil tratar um doente que não se quer curar (mas, em certos casos, é possível recorrer à anestesia). É impossível ensinar um aluno que não quer aprender. E para esta situação, nenhum de nós estava verdadeiramente preparado. (NÓVOA, 2003) A discussão da dificuldade em lidar com o aluno que não quer aprender se somou à reflexão sobre o papel da escola, pela ausência dos pais no que diz respeito à educação dos filhos, deixando para a escola um papel duplo. Nesse momento, ficaram evidentes as dificuldades enfrentadas pelos professores, que assumem papéis que não lhes cabem, devido ao convívio com crianças que não são assistidas pela família ou por qualquer outra instituição, fazendo com que esta confusão se instaure. 99 3.4 RESPONSABILIDADE COMPARTILHADA Para o encontro seguinte, o nono encontro, cujo tema foi Responsabilidade Compartilhada, propus o jogo Preso.53 Cada grupo tinha quatro pessoas. O primeiro grupo escolheu um elevador para estar preso e no meio da cena, logo que o elevador para, uma das professoras diz ter claustrofobia. Elas tentam várias soluções e, em meio ao jogo, pretendem resolver a situação com a porta se abrindo; porém, eu interferi, informando que a solução não havia dado certo. Outra professora fica com vontade de fazer xixi e depois de um bom tempo, elas se lembram da possibilidade de usar o celular e, assim conseguem pedir socorro. Na cena escolhida, as personagens também eram professoras. A Julia, que declarou ter claustrofobia ficou de fato bastante pálida e a Néia, que a personagem queria fazer xixi, teve que ir ao banheiro assim que a cena terminou. A segunda cena foi de quatro amigas que estão escalando uma montanha e caem em um abismo. Uma das personagens, que nunca havia feito este tipo de atividade, se apavora e a outra machuca o pé. Duas mantêm melhor o controle e encontram soluções, uma consegue sair do abismo e chama um helicóptero que vem retirá-las. O grupo se utiliza de narrações para informar o ocorrido, como a passagem de algumas horas ou a chegada do helicóptero. Na reflexão sobre o ocorrido, foi comentado pelo grupo que fez a cena do abismo que, apesar de a cena ter ocorrido em um abismo real, também poderia ter sido em um abismo simbólico, emocional, psicológico, de condição de vida. Comentou-se como é difícil ser percebida esta prisão quando se refere à condição de vida. Foi observada a relação entre a situação vivida nos grupos nas cenas e os diferentes grupos com que convivemos e trabalhamos, em que existem pessoas mais frágeis, enquanto outras assumem o papel de organizadoras, de líder, com papéis assumidos conforme as características pessoais. 53 Neste jogo o jogador está preso e deverá encontrar formas de sair desta prisão. O que o prende é definido pelo participante. Embora a proposta de Spolin seja para um jogador individual, pedi às professoras que fizessem em grupo. 100 Apresentou-se a dificuldade de dialogar demonstrada nas cenas, assim como terem ocorrido atitudes guiadas pela emoção, esquecendo-se, inclusive, dos recursos mais óbvios, como o celular na cena do elevador. Lilá relatou sobre um curso feito em que ela pôde conhecer o treinamento pelo qual passa um brigadista de incêndio, que é preparado para se manter tranquilo e saber utilizar os recursos disponíveis, sendo o elo forte em uma situação de conflito. Comentamos da importância do professor ter os recursos à mão e não chegar despreparado ao convívio escolar, como estavam os escaladores de montanha da cena. Néia questionou a quem cabe o papel de ponto forte na sala de aula e a maior parte do grupo entendeu que este papel cabe ao professor. Entretanto, Júlia narrou uma situação na qual um aluno tentou desestabilizá-la durante uma aula e outro aluno fez gestos, auxiliando-a sobre como agir para que ela pudesse dar continuidade ao trabalho. Este encontro se realizou na semana do dia dos professores e a Lilá levou para o grupo um rocambole para que pudéssemos comemorar a data. Antes que ele fosse servido, Julia nos disse ser este o primeiro dia dos professores de sua vida como professora. Tanto a delicadeza de Lilá como a importância dada pela Julia de poder estar comemorando o dia das professoras com o grupo são aspectos significativos do reconhecimento desses elementos com relação ao trabalho feito na pesquisa. A identidade profissional dos docentes é assim entendida como uma construção social marcada por múltiplos fatores que interagem entre si, resultando numa série de representações que os docentes fazem de si mesmos e de suas funções, estabelecendo, consciente e inconscientemente, negociações das quais certamente fazem parte suas histórias de vida, suas condições concretas de trabalho, o imaginário recorrente acerca dessa profissão — certamente marcado pela gênese e desenvolvimento histórico da função docente —, e os discursos que circulam no mundo social e cultural acerca dos docentes e da escola. (GARCIA; HYPOLITO; VIEIRA, 2005, p.54) A existência de momentos como desse lanche, certamente possibilitam a construção de uma representação positiva sobre a profissão de professor, que 101 poderá caminhar para uma identidade profissional favorável à valorização pessoal e social. Em continuidade à temática Responsabilidade Compartilhada, no décimo encontro, último em que realizamos jogos teatrais, pedi que cada uma das participantes escolhesse características de qualquer professor que escrevi na lousa. As palavras foram: versátil, dinâmico, rígido, criativo, lento, áspero, severo, falante, gorda, atencioso, assíduo, organizada, relaxada, feliz, cansada, responsável, estressada, compromissada, neurótica, sistemática, vaidosa, caprichosa. Com as características escritas, pedi que cada uma escolhesse algumas delas, de forma a criar uma personagem de professor. Depois disso, escolhemos três situações problemas, sendo que, necessariamente, deveriam ser uma em Educação Infantil, uma em Ensino Médio e a terceira que envolvesse a Coordenação da escola. As situações-problemas criadas foram: • Uma professora que maltrata um aluno de Educação Infantil. Os maus tratos são psicológicos e verbais. • Um aluno do Ensino Médio que dorme toda aula e que reage de forma agressiva com a professora quando esta tenta acordá-lo. • Um professor que enche a lousa com matéria, não se utilizando de nenhuma outra estratégia de aprendizagem. Dividi o grupo em trios e solicitei que elas improvisassem uma cena na qual deveriam conversar sobre um dos conflitos, assumindo a postura e os argumentos da professora que elas haviam criado anteriormente. Na primeira cena, foi discutida a situação do professor que, apenas, coloca a matéria na lousa e a Julia representou uma professora que não tinha o menor interesse em conversar sobre o assunto, argumentando que era problema do professor somente, que a coordenação não deveria se intrometer nisso. Lilá e Néia defendiam a postura de que algo deveria ser feito, já que os alunos estavam sendo prejudicados. As três conseguiram deixar a personagem bem caracterizada, tanto na forma de se movimentar, como nos argumentos utilizados. 102 A segunda cena, feita pela Rocha, Memê e Cris discutia a situação do aluno que dormia em sala de aula. Esta sugestão foi dada pela Memê e ela assumiu o papel da professora que está com o problema. Transpareceu ser algo que ela realmente vivencia em sua prática docente. As personagens apareceram muito pouco e os argumentos giraram em torno da possibilidade de a professora conversar com o aluno para tentar alterar esta postura, o que era rebatido com a necessidade de uma intervenção da coordenação para que, então, a professora pudesse retomar a conversa com o aluno. A terceira cena debateu a situação da criança que sofre maus tratos por parte de uma professora. Jô entrou claramente como uma personagem e conseguiu manter a caracterização da mesma, embora a Ana e a Sandra não tenham caracterizado muito bem as suas personagens, agindo como elas mesmas. Durante a conversa, elas ponderaram sobre os problemas que a professora deveria estar passando para agir daquela forma, uma vez que ela sempre havia sido uma boa educadora. Definiram que uma delas conversaria com a agressora e que, ainda, não levariam a questão para a coordenação. Ao debatermos as cenas, Memê apresentou a questão do professor que não sabe o que fazer com o aluno que dorme e que, muitas vezes, não leva o problema para a coordenação, pois não terá o respaldo da mesma. Sandra, que é coordenadora, disse que, muitas vezes, procura os professores para falar sobre problemas que estão ocorrendo e que o professor não apresenta nenhuma receptividade para encontrar soluções conjuntamente. Ao refletirmos sobre o caso do aluno maltratado, ficou evidente a dificuldade de expor um colega que esteja com uma conduta inadequada. Foram apresentados diversos argumentos, desde a questão ética, até do protecionismo que observamos entre os pares. Algumas professoras relataram casos nos quais elas chegaram a conversar com alguma colega que teve uma atitude inadequada, mas ficou evidente a dificuldade de apresentar a queixa para outras instâncias. Julia argumentou da dificuldade de falar sobre o trabalho do outro com receio de que ele faça o mesmo. 103 Ficou clara a atitude corporativa e Rocha pontuou o desconhecimento dos aspectos legais que estão implicados e as formas de lidarmos com condutas inadequadas dos professores. Comentamos sobre a solidão resultante desta postura de não desejar a interferência dos colegas, por receio de críticas. Os hábitos, profundamente arraigados, de trabalho solitário, individual(ista) e não-cooperativo dos professores são um dos principais fatores de empobrecimento dos ambientes de ensino/ aprendizagem e das práticas educativas. (...) O modelo do professor fechado a sete chaves na sua sala (cela) de aula, “orgulhosamente só” no desempenho, mais ou menos ritualizado e raramente refletido, das tarefas curriculares que lhe cabem (ou ele julga caberem-lhe), é ainda hoje o “modelo” prevalecente entre os professores e nas escolas do 1º ciclo. (CENTRO DE FORMAÇÃO CAMILO CASTELO BRANCO In NÒVOA, 2001, p.116) Nas situações propostas e debatidas nas cenas, a solidão docente transparece em diversas facetas, seja no professor que enfrenta dificuldades com o aluno que dorme e não solicita auxilio da coordenação por não acreditar no seu apoio, no professor que não utiliza recursos didáticos além da escrita de conteúdo na lousa e que tampouco busca a troca com seus pares e, por fim, da professora que agride um aluno ou das professoras que assistem à agressão e, por receio das consequências, preferem “proteger” a colega a enfrentar o problema e respeitar o direito de integridade do aluno. O relato de Ana apresenta a complexidade da discussão e a importância dada ao trabalho coletivo. Após (o jogo) foram feitos os comentários. Júlia falou sobre a união do grupo e o entrosamento. Fundamental para a responsabilidade compartilhada. Rocha e Memê comentaram sobre o isolamento do professor na sala de aula. Várias questões foram levantadas, como: Atitudes inadequadas e responsabilidades dos professores e coordenadores enquanto grupo. Questão do trabalho coletivo ou de convivência? Problemas na sala de aula, “não quero ninguém se metendo, acabo ficando sozinha”. Situações do dia-a-dia. Posicionamento de professores. Respeito para com o outro. As questões complexas entre aluno-professor, professor-aluno. (Relato 10º encontro – Ana) 104 No décimo primeiro encontro, fizemos a segunda avaliação, sendo esta geral sobre a pesquisa. Iniciamos com o décimo encontro, quando foi observada a necessidade de o professor ter um papel de liderança em seu trabalho, e das diferentes formas de liderar, pontuando a diferença entre um líder e uma postura autoritária. Foi comentada a importância de que esta liderança seja conquistada, seja ela proveniente da integração do grupo. Conversamos sobre a diferença entre autoridade e autoritarismo, com respeito ao grupo com que se trabalha. Recuperamos as falas do encontro, ressaltando a necessidade de o professor criar vínculos, estabelecer uma condição de liderança conjunta e do reconhecimento do papel do professor, da autoridade dada a ele pelo seu papel. Lilá comentou as possibilidades que as dinâmicas ofereceram à compreensão de conceitos que, somente com a discussão teórica, não são entendidos. Néia observou que pelos jogos foi possível refletir sobre o seu trabalho como professora, percebendo nas caracterizações de professores, nas personagens professores que apareceram nas cenas o quanto ela assume ou não algumas destas características. Comentamos, ainda, da dificuldade em questionar o trabalho de um colega, mantendo uma postura corporativista, sobre as diferenças entre a escola pública e a particular, da estabilidade do professor no ensino público dificultar qualquer mudança de comportamento dos professores. Refletindo sobre os diferentes papéis dentro da escola, foi ressaltado o desconhecimento dos mesmos, as dificuldades em lidar com o aspecto hierárquico e que discussões não sejam levadas para o nível pessoal. Sandra relatou uma situação de Conselho de Classe, na qual um aluno foi desrespeitoso com uma professora e ela disse a ele que, antes de falar ou questionar o trabalho do professor ele fosse fazer faculdade e estudar para poder questionar. Contestei a fala da Sandra, argumentando que o diálogo deve ser possível entre todos, independentemente de seu nível de instrução, o que não excluí a necessidade de ser de forma adequada não levando para uma discussão 105 pessoal. Julia relatou uma situação na qual um aluno disse que ela deveria ser tratada de igual para igual, por ser quase da mesma idade que ele. Esses relatos nos fizeram retomar a idéia de que a autoridade do professor está ancorada no fato dele ser alguém que detém um saber, o que o legitima a esta função. Roldão (2005), contribui para a discussão sobre o conceito de profissionalidade, com a intenção de responder a questão: o que é um professor? Na tentativa de responder esta questão, irá escolher quatro descritores de profissionalidade, sendo a especificidade da função, o saber específico, o controle sobre a atividade e a pertença a um corpo coletivo. No que diz respeito aos dois últimos aspectos, a autora irá discutir a situação de “liberdade” vivida pelo professor, que se isola dentro da sala de aula, com um suposto poder dentro desta condição, não criando um corpo coletivo que o sustente, com o qual ele discuta e defina os critérios de avaliação de seu trabalho; critérios estes que terminam por serem definidos sem a participação dos professores. “Mas essa liberdade aparente constitui-se antes como um factor de antiprofissionalidade, na medida em que justamente substitui a legitimidade do saber que fundamenta a ação, o controlo sustentado do grupo profissional, pelo arbítrio de cada agente individual, a quem não é exigido fundamento para o que faz, nem é assegurada qualquer garantia de legitimação pelos seus pares.” (ROLDÃO, 2005, p.111) Como síntese do décimo encontro, solicitei a escolha de um figurino que o simbolizasse. Néia escolheu o de uma bailarina e o explicou pela flexibilidade, pela necessidade de saber viver nas pontas dos pés, por ter jogo de cintura e pelas características da bailarina, pela sua postura. Lilá escolheu uma fada com asas e uma varinha de condão, mas com chapéu de bruxa e uma verruga no nariz. Explicou que esta escolha se deve ao fato de os professores necessitarem, em alguns momentos, asas para voar e buscar novas expectativas e esperanças. A varinha de condão é para poder transformar o aluno com um toque, o chapéu é porque, algumas vezes, somos vistas como bruxas e a verruga é um detalhe para ficar mais feio. Ana escolheu um mágico pela necessidade de, muitas vezes, tirarmos da cartola soluções para os conflitos que vivenciamos. 106 Sandra escolheu o de um médico, porque ele é a pessoa que pode orientar um caminho para a cura, que é a do paciente. Jô, também, escolheu o de médico, por ser alguém que escuta. Julia escolheu a de um alpinista, por ser alguém que tem um desafio muito grande, que tem um caminho difícil para fazer e que leva consigo muitos recursos para poder conquistá-lo. Rocha escolheu “Dom Quixote”, por esta ser uma profissão na qual sempre é necessário lutar, além dele ser um cavaleiro. Memê escolheu um, metade militar e metade bufão, pois o professor precisa ter um lado de alegria, de palhaçada e, também, saber segurar as rédeas. Cris escolheu uma cozinheira por ser alguém que mistura os ingredientes, um pouquinho de amor, de afeto, de conhecimento e, assim, vai formando o ser. É interessante observar que, embora eu tenha solicitado uma síntese do 10º encontro, como a discussão rodou em torno do papel do professor, foram criados figurinos/personagens que sintetizavam o professor. Na retomada do nono encontro, o jogo Preso foi relembrado, estabelecendo-se uma analogia à condição do professor, ressaltando o despreparo para lidar com os imprevistos, ainda que não seja possível prever ou evitar qualquer fato inesperado. Comentamos sobre a diferença entre estarmos despreparados e termos domínio sobre qualquer imprevisto, ressaltando a importância de nos estruturarmos e nos prepararmos, não apenas quanto à programação de atividades, como também antecipando possíveis problemas. Rocha comentou quanto esta condição de improviso domina a situação escolar, não apenas dentro da escola, mas também por parte da Secretaria da Educação. Há uma parte de cientista no trabalho do professor: na aquisição do conhecimento, no estudo aturado, no rigor da planificação e da avaliação. Mas há também uma parte de artista, no modo como se reage a situações imprevistas, como se produz o jogo pedagógico, que é sempre um jogo-emsituação. (NÓVOA, 2003) A fala de Nóvoa deixa clara a diferença entre a improvisação como uma postura de flexibilidade que leva à criação e a improvisação como falta de preparo para as situações docentes. Cris relacionou esta discussão à compreensão equivocada de propostas pedagógicas, como o construtivismo, na qual, muitas 107 vezes, se entende que tudo deve surgir do aluno isentando a preparação do professor. Solicitei um objeto de cena como síntese desse encontro. Cris escolheu a cortina, porque, desde criança, ela teve a expectativa na espera de a cortina abrir, a expectativa do novo, da descoberta e que a educação é uma descoberta. Néia escolheu o espelho e a penteadeira do camarim, pela condição de preparação da cena. Jô escolheu uma cadeira, pois sempre esperamos algo diferente e os alunos também. Memê escolheu as roupas das personagens, pois o professor, embora utilize diversos figurinos, tem algo que se mantém. Julia escolheu um livro. Lilá escolheu um difusor de águas, um bebedouro. Ana escolheu um relógio, já que os professores são comandados pelo tempo. Sandra escolheu um abajur e Rocha a iluminação de cena. Na avaliação do oitavo encontro, o aspecto mais marcante foi o despreparo dos professores para as situações cotidianas. Julia comentou a dificuldade que sentiu ao começar a dar aula, não tendo qualquer orientação sobre o que fazer. Parte das professoras apresentou a situação da falta de colaboração da coordenação das escolas, que não dão qualquer apoio aos professores, permitindo o erro para depois criticá-lo. A falta de informação em questões básicas do funcionamento da escola, como a forma devida de preenchimento do Diário de Classe também foi ressaltada. Rocha perguntou de quem seria este papel, afirmando não ser do Coordenador, o que gerou um questionamento sobre qual a função da coordenação. A Memê comentou que é papel do coordenador intermediar o contato entre professor e direção e afirmou nunca ter tido apoio de qualquer coordenador, afirmação confirmada pelas outras participantes. Sandra esclareceu que a função do coordenador é pedagógica, dando como exemplo quando ele propõe um texto para reflexão, que foi reforçado pela Rocha ao afirmar que é muito mais fácil para o coordenador ser um simples preenchedor de papéis. Retomou-se a questão da falta de conhecimento dos papéis dentro da escola. Lilá observou que quando ela fez magistério aprendeu a preencher Diário de Classe, o que, atualmente não se ensina na faculdade, assim como nenhuma disciplina que trabalhe com a prática escolar. 108 Confirmando esse baixo status nos cursos de Pedagogia das instituições de renome do País os conteúdos relacionados à prática, ou seja, à aprendizagem das tarefas diárias da docência, tais como elaboração e uso de atividades de ensino, produção de material, contatos com experiências bem-sucedidas no campo da aprendizagem, solução de problemas presentes no campo de ensino, ocupam relativamente pequeno espaço nos currículos. (SANTOS in SOUZA, 2007, p.249) O exemplo do Diário de Classe pode parecer pequeno perante as diversas situações vividas pelo professor. Entretanto, a discussão do grupo apontava claramente para a falta de preparo com o qual o professor sai das universidades e que este despreparo continua sendo vivido sem qualquer apoio ou orientação para as situações cotidianas. Evidencia-se, novamente, não apenas a falta de um trabalho coletivo no qual o professor se sinta inserido, como o sentimento de abandono sentido já no início da carreira. A falta de clareza dos papéis seja do professor, coordenador ou diretor, também, é sentida nas falas apresentadas. Observa-se na escola pública um despreparo para receber os novos professores e, ainda, para o diálogo com os antigos. As dúvidas se acumulam, permitindo um ruído permanente na comunicação e, consequentemente, no trabalho realizado junto aos alunos. O excesso de atribuições somado aos conflitos vividos nas relações internas e externas à escola não possibilita a criação de uma situação que leve a melhora de qualidade. As condições estruturais fazem com que se retome permanentemente o discurso das culpas, sem que se criem soluções inclusive para as questões mais simples. Como síntese do oitavo encontro, solicitei que cada uma delas escolhesse uma sonoplastia. Cris escolheu o barulho de descarga, Jô escolheu o tan-tan-tantan de Bethoven, Memê escolheu o barulho de um tambor, Néia escolheu as batidas do coração, porque é vital e todo mundo precisa dele, Julia escolheu o som de uma bomba, Rocha escolheu o barulho do sinal, Ana escolheu a música “We are the champions”, Sandra escolheu alguma música do Gipsy Kings e Lilá escolheu a música ‘Mundo ideal’ (do filme Aladin). 109 As escolhas da sonoplastia se relacionam diretamente a discussão na qual muitos problemas foram levantados e poucas soluções encontradas. O fato de termos trabalhado com um grupo que não leciona na mesma escola e que, consequentemente, não trouxe os conflitos pré-existentes ao trabalho, certamente permitiu uma maior abertura para escutar o outro sem preconceitos. Entretanto, esta mesma característica pode ter dificultado uma maior liberdade de expressão. As reflexões das participantes, no decorrer dos encontros, evidenciou a importância dada à reflexão, ao questionamento sobre a própria prática e à escuta do outro. Fica claro o sentimento de cooperação, de apoio pelos pares, pelo fato de poderem refletir juntas sobre os conflitos vividos. Ao retomarmos aspectos explorados, tendo em vista os temas trabalhados, podemos observar que, quanto ao tema gestão, foi apontada a dificuldade dos gestores em adequar as propostas à realidade escolar; a falta de programação prévia da escola, o despreparo da escola, o descrédito da diretora, a ausência de delimitação de papéis e o desconhecimento dos aspectos legais da escola. É interessante observar que parte dos problemas apresentados poderia ser minimizada, se toda a equipe de educadores tivesse uma atitude de maior preparo para lidar com o inesperado, uma postura que buscasse respostas inusuais para os conflitos vividos. Outra característica presente nos jogos e que, também, seria necessária para os problemas o estabelecimento de regras, o esclarecimento do acordo do grupo. Se pensarmos que tanto os aspectos legais da escola, quanto a definição dos papéis são regras com as quais necessitamos conviver no espaço escolar, dar o devido valor para o seu conhecimento e para a definição de como o grupo se organizará dentro destas regras é um grande passo para que muitos dos conflitos apresentados desapareçam. Com relação ao tema crise de valores sociais, exploramos as mudanças do papel da escola na sociedade, o fato das metodologias de ensino terem ficado obsoletas, os conflitos vividos sobre o papel da família na formação, a 110 banalização da violência, a desvalorização da cultura, o preconceito à pobreza, à aparência que fuja aos padrões de beleza definidos pela mídia, a sexualidade e a paixão. Novamente, se nos remetermos ao jogo, observaremos que alguns aspectos poderiam contribuir para uma outra forma de lidar com a crise de valores sociais. O colocar-se no lugar do outro, experimentado tanto na vivência de personagens como na da platéia poderia ser uma maneira de trabalharmos os diferentes papéis educativos, dos pais e dos educadores. A exploração do corpo, a descoberta de seu potencial criativo, certamente, apresentaria uma abordagem sobre a forma de lidarmos com os padrões de beleza, assim como sobre a sexualidade muito diferentes da que encontramos em uma educação que compartimenta o aprendizado entre corpo e mente. Quanto à responsabilidade compartilhada, foi apontado o comprometimento dos funcionários e dos pais para o bom andamento do trabalho, a importância da troca com os colegas e do apoio da direção ao trabalho do professor e a necessidade dos alunos participarem no estabelecimento de regras e normas, assumindo sua responsabilidade para com o aprendizado. Novamente, no tema responsabilidade compartilhada o estabelecimento de regras e a compreensão sobre a necessidade da definição de um foco comum dariam para este tema contribuições significativas na condução de seus conflitos. Sobre o tema relacionamento professor/aluno (relações interpessoais) foi ressaltada a necessidade de a aula não ficar focada somente no professor e contar com a participação dos alunos; as dificuldades de comunicação, tanto entre os professores como entre corpo docente e discente; a possibilidade de se colocar no lugar do outro, rompendo com uma atitude na qual observamos pouco o outro para passar a uma em que se valorize a percepção. Foi apontada a necessidade do contato físico entre professor e alunos que ocorrerá de forma diferenciada, dependendo da faixa etária com a qual se trabalha. Exploramos a dificuldade do professor iniciante para lidar com os alunos, da necessidade do professor preparar sua aula, sua rotina de trabalho, a importância de termos em 111 mente a maioria do grupo e não, apenas, os alunos com problemas de inadequação ao trabalho, valorizando os alunos que querem aprender e demonstrando confiança no aluno, como maneira de conquistá-lo para o aprendizado. Sobre o envolvimento do aluno surgiu a necessidade de ser solicitada a participação e, também, o conflito entre a idéia de que o bom aluno é aquele que não tem dúvidas e não questiona o professor, ao mesmo tempo que pregamos a formação de cidadãos críticos. Também foi apontada a necessidade de serem definidos limites. Nesta temática, surge, com muita força, a importância da percepção do outro. Toda a estrutura do jogo teatral solicita um trabalho conjunto. Ao estabelecermos um foco comum, cada um precisa estar atento ao grupo para poder manter-se no foco, dentro de uma improvisação. O jogo só ocorre quando olhamos para o outro, quando, além de estarmos conscientes de nossas atitudes e necessidades, também percebemos o todo e interagimos. Além dos aspectos apontados acima, outras reflexões surgiram com muita intensidade como a desvalorização do ensino e do professor, a baixa auto-estima, aos salários baixos, a necessidade do estabelecimento de uma equipe entre professores, direção, coordenação e funcionários, sem a qual sofre-se de uma solidão permanente, assim como sugestões para uma formação de professores e para a sua prática docente que serão retomadas no capítulo 5. CAPÍTULO 4 Escrita Dramatúrgica 115 CAPÍTULO 4: Escrita Dramatúrgica CENA 4 A cena se inicia com quatro escritoras, uma em cada canto do palco. Cada uma escreve de uma forma. ESCRITORA 1: Sentada em frente a uma mesa de madeira pequena, com um computador pequeno a sua frente e pilhas de papéis organizadas ao lado do computador. Escreve com a postura ereta, silenciosamente. De vez em quando consulta seus papéis e faz pequenas anotações, recolocando-os no lugar de forma organizada. ESCRITORA 2: Escreve deitada em um puf, com um caderno na mão que, também, pode ser um diário. A todo o momento, para, se vira, coloca os pés para cima ou para baixo, suspira e continua escrevendo. ESCRITORA 3: Sentada em uma poltrona rodeada de livros escreve apoiada em alguns livros, com papéis que se desprendem e, em alguns momentos, caem de suas mãos. Ela fala um pouco enquanto escreve, fala sozinha. Abre livros a todo o momento, faz pequenas leituras e volta a escrever. ESCRITORA 4: Sentada em uma cadeira de madeira, com uma mesa pequena a sua frente, escreve de forma nervosa, rabisca quase tudo o que escreve e, de tempos em tempos, joga fora uma folha, amassando-a completamente. Quando já escreveu um pouco, levanta e dá voltas ao redor da cadeira, olhando para o papel, senta-se novamente e recomeça a escrever com força. No centro do palco, vê-se uma menina de, aproximadamente, cinco anos desenhando letras em uma folha de papel. Cada letra que é desenhada é também falada. A menina demonstra dificuldade para escrever cada letra, faz força com as mãos, mas fica feliz quando termina cada uma das letras. Depois de escrever algumas letras, olha para a folha e lê seu nome completo, radiante. Gruda o papel 116 em sua blusa, com uma fita crepe e sai cantando as letras, repetindo o seu nome pelo meio da platéia até sumir. A luz se apaga. ____________________________ No decorrer de toda a pesquisa, a perspectiva de escrever textos foi um desafio para as professoras participantes, foi permeada pelo medo, pela tensão, pela expectativa e por momentos de satisfação em ter conseguido escrever. Este capítulo irá analisar os textos produzidos pelas participantes no decorrer da Pesquisa. A partir do segundo encontro, após a realização dos jogos teatrais e a reflexão sobre os mesmos, solicitei que fossem escritas cenas teatrais que refletissem sobre os jogos e sobre a temática proposta54. Desta forma, tivemos uma cena escrita no segundo encontro, a criação de uma personagem no terceiro encontro e mais duas cenas no quarto e quinto encontros. No sexto encontro, não foi feita a escrita de nenhuma cena, já que este foi o momento da primeira retomada reflexiva sobre o trabalho realizado até então. No sétimo encontro, eu levei alguns exemplos de peças teatrais e um modelo de escrita, no qual cada participante deveria definir o espaço e as personagens da cena, seguindo-se de diálogos e rubricas. Nos três encontros seguintes, também solicitei a escrita de uma cena, mantendo-se a estrutura de diálogo e rubricas. Na segunda retomada avaliativa, que ocorreu no décimo primeiro encontro, não foram escritas cenas e nosso último encontro foi para que cada participante pudesse escrever uma peça que sintetizasse o trabalho desenvolvido nos encontros anteriores, podendo escolher, não apenas a forma de apresentação da peça, como também o aspecto a ser abordado. A proposta de desenvolver uma escrita teatral na formação de professores se deveu ao fato de compreender que, por intermédio de uma elaboração criativa, que dialogasse tanto com os jogos realizados, como com as reflexões sobre os 54 Ver quadro na Introdução. 117 mesmos, seria possível uma compreensão sobre a importância da escrita dramatúrgica na formação de professores. O depoimento de Julia demonstra ter sido acertada esta opção. Escrever cenas foi difícil, ainda mais com um tempo limitado. Mas eu acredito que foi fundamental para fixarmos nossas idéias, desenvolvermos outras habilidades e aprimorarmos nosso conhecimento acerca do teatro. Temos um monte de idéias, mas quando passamos para o papel, boa parte do que refletimos se perde. Ao mesmo tempo, quando escrevemos, somos forçados a refletir mais e a organizar o nosso pensamento, forçando um aprendizado mais efetivo. (QF Julia) Atualmente verificamos inúmeras propostas de apropriação e análises sobre o significado do texto na encenação, considerando-se os múltiplos formatos de texto para uma montagem teatral, como poemas, cartas, que ampliaram significativamente a referência do texto para além do texto dramático. (ver RYNGAERT,1998; PAVIS,1999; PUPO, 2005; RAMÍREZ, 2004 dentre outros). Nesta pesquisa, trabalhou-se a escrita dramática em seu formato de diálogos e rubricas55 como referência, já que o objetivo de trabalhar com a escrita foi o de possibilitar uma reflexão sobre a prática docente, permitida pelo diálogo com os jogos teatrais. Sendo um grupo de professoras que não tinham formação teatral e que não trabalhavam com o ensino de teatro, compreendi que a criação de cenas, por intermédio de diálogos e rubricas, permitiria uma maior visualização do espaço teatral. Neste sentido, a análise dos textos produzidos será feita tendo como referência a relação estabelecida com o jogo e com os temas escolhidos para a reflexão. Não foi possível analisar todos os textos individualmente, já que temos setenta e uma cenas escritas no decorrer dos encontros e nove peças como reflexão final56. Entretanto, mostrarei as múltiplas relações estabelecidas entre o jogo teatral, a escrita dramatúrgica e a reflexão apoiada nos temas escolhidos, 55 Texto escrito pelo dramaturgo destinado a esclarecer a apresentação da montagem teatral, como, por exemplo, a movimentação dos atores. 56 Ver anexos 3 e 4. 118 identificando quais os aspectos de uma escrita criativa permitiram uma melhora na formação e na prática das professoras envolvidas na pesquisa. A dificuldade com a escrita e, também, com a fala em uma representação era algo previsto e, para tanto, foram propostos jogos que permitissem um maior domínio da fala, uma maior fluidez, buscando-se não apenas mais tranquilidade para o uso da palavra falada como também para a escrita que ocorreria na seqüência. Um dos jogos realizados no segundo encontro foi o Fala Espelhada57. Foram feitas três duplas e um trio e pedi que falassem sobre o tema Gestão, tema escolhido para este encontro. Embora todas as duplas tenham realizado o jogo, ao comentarmos, a maioria manifestou dificuldade em falar sobre o tema, somente a Lilá avaliou ser mais difícil espelhar do que falar. Foi observado, também, sobre a dificuldade em manter um discurso com a escuta da repetição feita pelo espelho. A proposta de trabalhar com este jogo se deveu ao fato de que para ser possível espelhar a fala de alguém é necessário estar atento não somente ao significado da fala, mas também à forma como as palavras são ditas, ao ritmo utilizado, à altura da voz, à dicção, a clareza com a qual as palavras são pronunciadas. Não apenas a pessoa que irá espelhar necessita desta atenção, mas também aquele que é espelhado pode perceber características da própria fala. A dificuldade apresentada pelo grupo em falar sobre o tema certamente se relacionava ao fato de ser o primeiro encontro que trabalhamos com os jogos e da exposição sentida neste momento, já que, no decorrer de todos os encontros, ao interrompermos os jogos para refletir sobre os mesmos e sobre as temáticas escolhidas não havia nenhuma dificuldade na fala. Possivelmente, o fato de ser uma fala que seria imitada gerou algum constrangimento, ocasionando dificuldades. 57 Neste jogo uma pessoa fala e a outra repete a fala, como um espelho. 119 Ao final do encontro, solicitei que cada participante escrevesse uma cena que fizesse referência ao tema Gestão, podendo ou não se remeter às situações que haviam surgido nos jogos teatrais. Não foi dada, neste momento, qualquer referência sobre a forma textual que a cena deveria ter e foi possível observar que as cenas exploraram a temática escolhida, mas nenhuma delas retratou os jogos ocorridos no encontro. A escrita se apresentou com o formato de um relato, no qual foi possível identificar os conflitos existentes, mas sem formatação teatral. As situações propostas foram: No início do ano, ao começar o planejamento, a diretora propõe um aquecimento para o grupo. No portão da escola, após 15 minutos do início das aulas, o portão ainda não foi aberto, fazendo com que muitos alunos fossem embora. Um professor propõe para a coordenação e direção da escola a realização de um projeto e elas aceitam, possibilitando uma grande ação que envolve toda a comunidade escolar. Em uma sala, a coordenadora conversa com uma professora sobre a necessidade de proporcionar o sono para seus alunos de 3 anos. Os alunos choramingam na sala ao lado e a professora só se preocupa com as punições possíveis a ela. Diretor conversa com inspetores para melhorar o intervalo das aulas. Diretora busca soluções para o fato de uma mãe ter registrado queixa de maus tratos por parte de uma de suas professoras, injustamente, ocasionado pela ausência de registros da professora sobre as condições que a aluna chega à escola. Diretora e grupo de alunos buscam soluções para diminuir a ausência dos professores, tendo como primeira solução o diálogo entre alunos e professores faltosos. Aluno debate com professora sobre seu direito de permanecer em sala sem uniforme, devido a orientações desencontradas da direção da escola. Pai destrata professora em meio a uma reunião de pais, devido a falta de esclarecimentos sobre uma briga de alunos. 120 As situações denotam a amplitude de problemas de gestão, com exceção da cena na qual a direção aprova a realização de um bom projeto do professor. Os conflitos referem-se a diversas relações interpessoais da escola, questionando a forma como são estabelecidas as relações com os pais, as diferentes orientações que geram problemas desnecessários, o desconhecimento de procedimentos necessários como no caso da professora que não registra o fato de uma aluna chegar à escola com sinais de maus tratos, o descompromisso do porteiro que não abre o portão na hora certa ou da professora que não se interessa em conhecer metodologias de trabalho que favoreçam seus alunos. A cena que sugere que no início do ano seja proposto um aquecimento em uma reunião de professores foi conseqüência direta do reconhecimento da importância do trabalho corporal desenvolvido no encontro, que ocorreu juntamente com a reflexão sobre essa atividade. Como o terceiro encontro deu continuidade ao tema Gestão, levei uma síntese das cenas escritas pelas professoras e trabalhamos com esta síntese na leitura, buscando a exploração de diferentes entonações para uma mesma frase, seguindo a proposta de Koudela para a exploração do texto. Uma estratégia adotada para a coordenação das oficinas foi o procedimento “colado ao texto” (Steinweg, 1986). Na prática desenvolvida nas oficinas que o Prof. Dr. Reiner Steinweg ministrou na ECA, em 1989, as palavras do texto eram mantidas literalmente, sendo que a improvisação se desenvolvia no plano das ações e gestos, através dos quais as atitudes eram imitadas. O texto não era decorado. A cada nova versão, os participantes liam o texto. Esse processo de apropriação do texto não visa perguntar, num primeiro momento, pelo seu sentido. Ao “brincar” com o texto, os jogadores permitem o livre jogo de associações de imagens e significados que o texto provoca, sem se fixar em um único significado ou buscar uma mensagem / lição totalizante. (KOUDELA, 1996, p.20) Na proposta apresentada por Koudela é possível observar as possibilidades de apropriação do texto que, por intermédio do jogo, permite a ampliação dos significados possíveis. As diferentes formas de ler o texto, explorando intenções, apresentadas nos gestos e na voz, permite novas percepções e atribuições de significados. 121 Também utilizamos as situações propostas acima para improvisação em três pequenos grupos. Para que o grupo percebesse formas de registro escrito de uma cena teatral, solicitei que, enquanto um grupo estivesse improvisando uma cena, o segundo observaria e o terceiro faria anotações do que ocorria com o primeiro grupo. Desta forma, todos os grupos, além de improvisarem, anotaram uma das cenas e observaram outra. Esta solicitação teve a intenção de que as participantes pudessem perceber possibilidades sobre escrever uma cena teatral, tendo em vista a movimentação dos atores, solicitação que foi indiretamente indicada no encontro anterior, a de saber escrever uma peça de teatro. O receio pela escrita, assim como o desconhecimento sobre a forma textual a ser adotada para a escrita de uma peça teatral se fez presente dede o primeiro momento, como pode ser observado no relato da Jô: Confesso que quando descobri que escreveria cenas teatrais fiquei com medo, mas sou uma pessoa que gosta de desafios e queria ir até o fim para saber a minha capacidade. Foi interessante, ao escrever uma cena você vive junto com o personagem e enriquece a fala. A importância desta escrita é que você encena e depois escreve ou a cena que você fez ou a que assistiu, e a escrita é um processo de reflexão. (QF Jô) O medo de escrever, o medo do erro, da avaliação punitiva, todas as dificuldades sentidas no processo de aprendizagem da escrita dramatúrgica apareceram quando solicitei a produção textual. Exatamente por identificar esta dificuldade, procurei, inicialmente, não dar diretrizes muito limitadoras, permitindo que o grupo estabelecesse relações entre o jogar e o escrever, entre a possibilidade criativa nos dois espaços. Compreendi que seria necessário esperar alguns encontros para que fossem apresentados modelos de escrita, permitindo, desta forma, maior exploração de possibilidades no início da pesquisa. No final do terceiro encontro, após a realização dos jogos e a reflexão sobre os mesmos, pedi que cada participante criasse uma personagem, partindo 122 das cenas trabalhadas ou das situações propostas no segundo encontro. Ficou evidente a interferência da reflexão sobre as cenas e dos relatos de situações escolares na criação das personagens. Nove personagens surgiram das cenas e da reflexão sobre as mesmas, duas personagens surgiram dos textos escritos no segundo encontro, foram elas: • Porteiro / Zelador (escritos por quatro professoras) • Adolescente (revoltada) que não quer usar uniforme: (escritos por três professoras) • Pai agressivo • Inspetora de alunos • Pai analfabeto e agressivo • Professora que tenta convencer a aluna a usar uniforme É interessante observar a força que o jogo teatral teve na criação das personagens, já que a maioria foi criada, partindo do jogo, embora houvesse outras personagens interessantes e que se relacionavam ao tema nas cenas escritas. Além das personagens propostas pelos jogos, uma personagem marcantes foi a da aluna que não quer usar uniforme e a força desta personagem se deu muito mais pela narrativa da Sandra sobre uma aluna que havia cortado a camiseta da escola, deixando a vista seu sutiã vermelho. Ao definir o conceito de experiência Larrosa irá afirmar que o saber da experiência não pode beneficiar-se de qualquer alforria, quer dizer, ninguém pode aprender da experiência de outro, a menos que essa experiência seja de algum modo revivida e tornada própria (2001, p.27). A narrativa feita por Sandra sobre o conflito vivido com a aluna que modificou o uniforme foi tão contagiante, que somada à cena improvisada sobre esta situação, permitiu as outras professoras se apropriarem dessa personagem, recriando-a. Esta possibilidade de imaginar a partir da experiência alheia é descrita por Vigotsky: 123 Em tal sentido la imaginación adquiere uma función de suma importância em la conducta y em el desarollo humano, convertiéndose em médio de ampliar la experiência del hombre que, al ser capaz de imaginar lo que no há visto, al poder concebir basándose em relatos y descripciones ajenas lo que no experimento personal y directamente, no está encerrado em el estrecho círculo de su propia experiência, sino que puede alejarse mucho de sus límites asimilando, con ayuda de la imaginación, experiencias históricas o sociales ajenas58 (2000, p.20). A escrita das cenas foi um desafio, desde o início, mas apesar das dificuldades encontradas, houve o reconhecimento da importância que esta escrita adquiriu no decorrer da pesquisa, conforme relato da Memê: As cenas teatrais trouxeram um reforço para o entendimento das situações, que tanto o corpo docente, como todos os que trabalham na escola vivenciam, tanto as situações do dia-a-dia, como as inesperadas. Ao escrevermos as cenas, despertamos para um envolvimento mais intenso com o processo ensinoaprendizado. A escrita depende, em minha opinião, da compreensão de uma realidade anteriormente assimilada. (QF Memê) No quarto encontro, propus o jogo Vendo o Mundo59. Cada participante sorteou uma personagem criada no terceiro encontro e fez a narrativa como se fosse ela. Houve certa dificuldade em narrar um acontecimento e as três primeiras jogadoras expressaram características, sentimentos ou opiniões das personagens. Eu retomei a instrução de que deveria ser narrado um acontecimento e, então, eles ficaram mais evidentes. Como solicitei que os acontecimentos fossem curtos, fiz poucos comentários ou instruções, pois provocaria um aumento no tamanho da narrativa. As cenas narradas foram: 58 Neste sentido a imaginação adquire uma função de suma importância na conduta e no desenvolvimento humano, convertendo-se em meio de ampliar a experiência do homem que, ao ser capaz de imaginar o que não viu, ao poder conceber baseando-se em relatos e descrições alheias o que não experimentou pessoal e diretamente, não está fechado no estreito círculo de sua própria experiência, mas sim que pode distanciar-se muito de seus limites, assimilando com ajuda da imaginação, experiências históricas ou sociais alheias. (Tradução livre) 59 Neste jogo deve-se narrar um acontecimento enquanto a orientadora faz perguntas que busquem uma descrição maior sobre o que está sendo narrado, tais como: Focalize as cores da cena, focalize os sons, etc. 124 Sandra – Adolescente que não quer usar uniforme narra situação de estar em um baile funk e ter sido agarrada pelo Joãozinho, ficando toda roxa. Lilá – Professora que está lavando louça e demonstra preocupação com a escola. Rocha – Aluna que diz que irá sem uniforme na escola, mesmo que tenha que enfrentar a coordenadora. Maria – Pai bêbado em conflito sobre o que fazer, ir ao bar ou para a reunião da escola dos filhos. Ana – Inspetora narra situação das crianças atravessando a rua sem segurança. Déia – Aluna que reclama da vida e dos pais. Memê – Inspetora narra situação na qual os alunos colocam fogo no corredor e na sala. Julia – Professora narra situação de um grupo de alunos fumando próximo à escola e ela declara que fará uma campanha contra o tabaco. Néia – Professora se queixa de aluna que vem sem uniforme e declara todo momento que já tem vinte anos de magistério. As situações narradas possibilitaram não apenas uma maior criação e caracterização da personagem explorada, como também o surgimento de questões presentes no cotidiano escolar percebidas do ponto de vista da mesma. Na seqüência, foram feitas improvisações com as mesmas personagens, que ocorriam em uma festa junina. Solicitei que cada uma escrevesse uma cena do ponto de vista da personagem com que trabalhou durante os jogos, podendo propor diferentes soluções para o ocorrido e tendo em vista a temática do encontro que era Crise de Valores Sociais. Retomei a atividade do encontro anterior na qual cada uma delas anotou a cena de outro grupo, ressaltando que uma peça teatral deve apontar a movimentação dos atores e suas falas. Entretanto, não pedi que a escrita seguisse necessariamente este formato. Todas as cenas se referiram à situação da festa junina, duas delas não foram escritas em primeira pessoa. As personagens surgiram com clareza, tendo 125 inclusive a incorporação da forma de falar da personagem no jogo, como pode ser observado nas cenas de Maria e de Déia: Eu fui na festa junina da escola, onde meus filhos estudam e só fui porque eu fiquei sabendo que lá ia ter umas biritas, isso é, quentão, vinho quente e umas batidas também. Há! Se não eu nem iria lá, não quero nem saber de ir em escola preocupando com os filhos. Se não fosse pela minha mulher, eles nem estaria estudando. Até hoje com a idade que estou, quase 40 anos e não sei nem escrever o meu nome. E tem mais, se estão na escola, a obrigação é da escola e não minha. Já que a mãe deles achou melhor que eles estudassem, então ela tem obrigação de dar educação pra eles. Mas a festa junina foi muito boa, pois eu tomei todas e nem vi as crianças, quando lembrei delas eu já estava em casa. A mulher é que deu por falta dos meninos. (Cena Maria – 4º encontro) Marcela: Fala Veia! Mãe: Oi filha, o que houve ontem quando você saiu de casa gritando dizendo que iria para casa do seu pai e voltou com a roupa toda suja? Marcela: É Veia, eu tava querendo um barato aí que não deu certo. Te pedi uma grana pra ir na festa junina na escola e você não me deu... Mãe: Mas filha é fim de mês e eu não tenho dinheiro... Mas afinal você foi a festa? Marcela: Fui e me dei mal... Rolou um tiro bem no meio da festa... Eu tava me borrando de medo e a todos me acusando, perguntando da arma, como se eu tivesse atirado. Mãe: Minha nossa filha, por que isso? Marcela: Porque sou feia e “malacabada”, e ainda por cima sou pobre... todos me olham como marginal e não como uma adolescente que procura um lugar ao sol. (Cena Déia – 4º encontro) A cena de Déia traz a fala das personagens, criando, inclusive, uma situação que faz referência ao jogo, mas que já coloca a personagem em um novo contexto, enquanto a cena de Maria traduz não apenas a situação vivida pela personagem do pai na festa junina, mas também um dos conflitos vividos pela escola, no que diz respeito à temática escolhida, ao papel da família na 126 educação. As duas cenas trazem as personagens com muita força e caracterização. A cena criada por Lilá, abaixo reproduzida, introduz uma das questões trazidas nas reflexões sobre o papel do professor, que é da impotência vivida perante tantos conflitos apresentados pelos alunos. A escrita ampliou a percepção dos conflitos experimentados no jogo, trazendo novos elementos para a compreensão de experiências vividas na escola. Em um sábado do mês de junho aconteceu a nossa festa junina, como toda escola a preparação decorreu-se por um mês anterior. Tudo estava bem naquela tarde houve a presença de muitos alunos, coisa que me preocupava, pois como inspetora e com contato maior com os alunos muitos haviam dito que não viriam, pois, já são bem grandinhos para dançar quadrilha. Minha preocupação era grande, pois, os pais já estavam ausentes destes momentos há um tempo. Bom no decorrer da festa acompanhei o comportamento de uma aluna em especial, a mesma é um tanto rebelde e não se mistura com ninguém da escola, isolo-se e procura chamar a atenção no seu modo de ser, mas naquele dia ela estava inquieta; tentei me aproximar e conversar, porém, era repulsiva. Observei que olhava muito para um homem que estava na barraca de bebidas, já bêbado. Então perguntei se ela o conhecia. Muito alterada me respondeu que antes não tivesse conhecido, pois, aquele era seu pai, ao qual, sentia muita vergonha. Terminou sua fala dizendo que desde quando nasceu não sabe como seu pai é sem estar bêbado. Sua fala calou a minha, e um sentimento de impotência tomou conta de mim. Então decidi que, se não podia fazer algo por seu pai tentaria fazer por ela. (Cena Lilá – 4º encontro) Além da questão da violência, surgiram, nas diversas cenas, outras temáticas como a falta de responsabilidade do pai para com a educação dos filhos, o alcoolismo, o relacionamento amoroso/sexual dos alunos, o desinteresse da professora em participar da festa. 127 As cenas criadas se relacionam diretamente ao jogo, trazendo aspectos que surgiram nas improvisações, entretanto, ampliam a percepção dos conflitos presentes na escola. Demos continuidade à mesma temática no quinto encontro e após a leitura das cenas escritas no encontro anterior e a reflexão sobre as questões trazidas pelas cenas, propus que, em duplas, fosse feita a escolha de uma das questões discutidas para uma conversa entre duas personagens, no qual um delas, necessariamente, seria de uma professora. Nas cenas apresentadas, surgiram diversas personagens que já haviam sido trabalhadas no quarto encontro e que haviam narrado os textos do quarto encontro, como o pai bêbado, a aluna “desarrumada” e a aluna que só pensa em sexo. Solicitei que cada uma escrevesse uma cena do ponto de vista de alguma das professoras representadas, demonstrando a forma como ela se sentiu na situação vivida. A proposta de que as cenas fossem escritas do ponto de vista da professora teve como objetivo voltar a atenção para o professor e refletir sobre a forma como o professor vivencia os conflitos apresentados no cotidiano escolar. A maioria das cenas escritas no quinto encontro trouxe a percepção das professoras; porém, os textos ficaram muito mais como um relato dos sentimentos e conflitos vividos do que a definição de uma cena que pudesse ser representada. Apesar da riqueza que os textos apresentaram nestes quatro primeiros encontros e da realização de jogos que procuraram demonstrar possibilidades para que a escrita se remetesse à cena teatral, entendi ser necessária a apresentação de peças teatrais como uma referência para o grupo. Compreendo que para professoras que não tinham intimidade com o teatro, poder escrever em forma de diálogos e com indicações sobre a movimentação dos atores ou dos demais elementos que compõem uma peça, como cenário, figurino, etc. seria um ganho na possibilidade de diálogo com os jogos teatrais. 128 Dentro desta perspectiva, no sétimo encontro levei textos de diversos autores para que as professoras pudessem ler. Parte do grupo, além de folhear os livros no encontro, também levou para casa para poder ler a peça na íntegra. Para a escrita deste encontro, eu levei um modelo e solicitei que as cenas fossem escritas com a definição das personagens, do local onde a cena ocorre e com diálogos e rubricas. Após a escrita, perguntei sobre as dificuldades que surgiram para escrever desta forma e o grupo entendeu como principal dificuldade definir os diálogos, porém, também apontou ser difícil imaginar a cena para poder escrever. Além da entrega de uma folha que continha a solicitação deste formato de texto, também dei explicações simples sobre o mesmo, como pode ser observado no relato da professora colaboradora: Às 9h46min, Lelê diz que precisa interromper para escrita da cena de hoje que tem início com o entendimento dos elementos que constam da folha entregue a cada uma. A folha contém alguns elementos fundamentais à escrita de uma cena como: Movimentos ( o que acontece e não o que estão pensando) Personagens (quem são as pessoas) Espaço (onde se desenrola) Os dois instrumentos para escrita de uma cena: Rubrica (indicadores de um movimento) Diálogos (Falas dos personagens) Entendo que estas duas ações, a de explicar de forma mais detalhada quais os elementos de um texto dramatúrgico e de levar exemplos de diferentes autores possibilitou uma mudança significativa nos textos escritos pelas professoras. A importância do modelo foi discutida por Ronca em seu livro Docência e ad-miração: da imitação à autonomia (2007) onde apresenta a relação do trabalho de Van Gogh e Millet, demonstrando a importância do mestre, da referência na possibilidade da construção de um trabalho criativo. Ao analisar a obra dos dois pintores estabelece um paralelo com o papel do docente e os seus mestresmodelos, partindo de uma entrevista com uma professora. 129 O contato com outros textos somados à minha explicação sobre a forma que o texto deveria assumir provocou uma alteração completa nas cenas, como pode ser visto na cena de Rocha: CENA: A primeira turma Local: Casa da professora Julia Personagens: Professora Julia, experiente e acolhedora Professora Lilá, iniciante e desesperada CENA 1: Sentada em sua mesa de trabalho, em casa a professora Julia corrige, os trabalhos e avaliações de seus alunos, quando ouve o som da campainha. Surpresa, fala em voz alta: - Um minuto, por favor! Organiza seus papéis para não se perder e vai até a porta e gira a chave. Desesperada, entra sua amiga, também professora, Lilá, que acaba de conseguir um emprego numa escola de educação infantil. Cumprimentam-se (Julia) diz contente: - Olá, Lilá que surpresa. - Aconteceu alguma coisa? Você parece estar nervosa. (Lilá) diz desesperada - Aconteceram muitas coisas!! E eu não estou pronta para tanto! (Julia) tenta confortar - Calma! Vamos sentar, e conversar quem sabe, te ajudo! (Lilá) Já em lágrimas - Não tem como! Estou desesperada. Tenho 42 alunos para trabalhar em sala de aula e não consigo nem manter a turma em ordem. É horrível!!! - Ninguém me disse na faculdade que era assim! E chora copiosamente (Julia) Dá uma gargalhada, e diz aliviada - É isso, estava preocupada, pensei que fosse algo ruim. - Isso é perfeitamente, normal - Você vai conseguir resolver tudo com um pouco de paciência e técnicas. (Lilá) sem acreditar: - Eles são incontroláveis, pulam, sobem nas carteiras, gritam o tempo todo. (mais choro) (Julia) bem ponderada - Mas você está em adaptação, e os alunos também. 130 - Você vai precisar de ajuda, porém quem tem que ser forte e profissional é você. (Julia) amiga - Você acha que consegue? Então qual o problema? (Lilá) para de chorar e ouve a amiga, que continua a falar sobre sua prática e reflexões. (Lilá) mais tranqüila - Bem, este é meu desafio, vou rever meu trabalho e mudar algumas coisas! Vai dar certo! A cena de Rocha reflete uma das improvisações que surgiram a partir do jogo Contato. As cenas escritas60 neste encontro trazem relação direta com as improvisações que surgiram no jogo Contato61. As situações escritas se basearam nas improvisações. As cenas da Cris, Sandra e Julia fizeram uma referência mais direta à reflexão decorrente do jogo, na qual discutimos a importância do contato entre professores e alunos. A cena da Maria retoma um conflito apresentado no quinto encontro, mas se utiliza do contato corporal como opção para lidar com o problema. Neste momento da pesquisa, é possível perceber o quanto a escrita das cenas estabelece aproximações, não apenas com os jogos propostos, mas também com os temas explorados, criando uma malha de relações entre as reflexões feitas nos vários encontros. São criadas situações que relacionam diferentes aspectos do cotidiano escolar, com propostas e soluções para os conflitos apresentados. Estas relações são perceptíveis nas cenas que retratam situações como a da aluna que só pensa em sexo, do pai que não vai à escola quando é chamado e está sempre bebendo no bar, da aluna desleixada, que não tem o apoio dos pais e da ex-aluna que declara o quanto foi importante o contato corporal e o estímulo dado pela professora para que ela pudesse ter uma carreira profissional. 60 61 Ver anexo 3. Relatado no capítulo 2, item 2.3. 131 No oitavo encontro, não foi possível escrever nenhuma cena por falta de tempo e, apenas, três professoras escreveram em casa cenas que trouxeram diferentes aspectos da atuação docente. O nono e o décimo encontro tinham como tema Responsabilidade Compartilhada. Pedi, no nono encontro, que cada uma escrevesse duas palavras em dois pedaços de papel sobre o tema Responsabilidade Compartilhada e fizemos o jogo Construindo uma história a partir de seleção randômica de palavras.62 Deixei bem claro que era para ser contada uma história e não para ser feita uma exposição teórica sobre o tema, entretanto as falas foram muito mais teóricas do que uma narrativa. As palavras escritas foram: cumplicidade, dividir (2 vezes), diálogo, aceitar, conjunto, assumir (2 vezes), consciência, união, divisão, ações, grupo, educar, valores, solidariedade. A história narrada por todas foi a de um aluno que, chorando, procura a professora e ela pensa o que fazer para não dificultar a situação do aluno, perguntando-lhe o que está acontecendo. Pela fala do aluno, a professora percebe que ele estava sofrendo por se sentir discriminado, tanto pelos professores como pelos outros alunos. Percebendo estes problemas, os professores se reúnem para procurar soluções. Aos poucos, os professores percebem que ele não é o único a vivenciar este tipo de problema. Então, os alunos e professores decidem que irão se unir para restabelecer a confiança desta criança. O grupo todo passa a sentar para dialogar e definem que os alunos irão ajudar em diferentes funções da escola, como ser responsável pela carteirinha da escola, fazer a ponte entre secretaria e escola, ser responsável pela biblioteca, etc. O fato desses alunos assumirem estes papéis faz com que eles sejam vistos de outra forma. Estas medidas se tornaram um projeto que ganhou destaque, não apenas na comunidade, mas também junto a outras escolas que adotaram o mesmo projeto. 62 Neste jogo uma história é criada conforme as palavras são sorteadas pelas participantes. 132 Neste mesmo encontro, realizamos o jogo Preso e, ao final, pedi que cada uma escrevesse uma cena teatral, seguindo o modelo de uma cena, na qual o tema vivenciado fosse trabalhado. Duas cenas retrataram o jogo do preso, duas narraram reuniões de pais, uma narrou uma reunião de professores, uma relatou o nosso encontro, uma apresentou uma situação de sala de aula na qual a professora discute o significado da palavra responsabilidade e a última foi de uma pessoa socorrendo uma vizinha idosa, que caiu e se machucou. É interessante observar que esta forma de escrita foi incorporada, apesar das dificuldades sentidas pelo grupo, o que pode ser percebido nos depoimentos de Néia e Cris: Escrever as cenas foi difícil, senti muita insegurança no inicio, pois, passar para o papel o que criamos e imaginamos é extremamente diferente de interpretar a cena. Escrevê-las foi muito importante, aprendi a concentrar-me e arrumar uma maneira de transferir minhas idéias para o papel. (QF Néia) Escrever as cenas foi a parte mais difícil, mesmo sabendo que o registro é fundamental em todas as situações, sempre reclamava comigo mesma quando tinha que escrevê-las. Tive, e ainda tenho dificuldades, sei que evolui, mas sinto que foi pouco, mesmo me esforçando. (QF Cris) Vigotsky irá explorar essa dificuldade, falando sobre o sofrimento decorrente do processo criativo. Crear es fonte de júbilo para el hombre, pero acarrea también sufrimientos conocidos com el nombre de las torturas de la creación. Crear es difícil, la demanda creadora no coincide siempre con la posibilidad de crear y de aquí surge al decir de Dostoevskii, la tortura de que la palabra no siga al pensamiento. Los poetas llaman a este sufrimiento, tortura de la palabra63. (VIGOTSKY, 2000, p.49) 63 Criar é fonte de júbilo para o homem, porém acarreta também sofrimentos conhecidos com o nome de torturas da criação. Criar é difícil, a demanda criadora não coincide sempre com a possibilidade de criar e deste ponto surge o dizer de Dostoievsky, a tortura de que a palavra não siga os pensamentos. Os poetas chamam a este sofrimento, tortura da palavra. 133 Em todos os depoimentos das professoras, observamos esta dificuldade em traduzir em palavras escritas as idéias e imagens decorrentes das cenas. O fato de não termos explorado a escrita também pelo jogo64, com propostas que explorassem esta dificuldade, certamente fez com que ela permanecesse, ainda que com uma pequena melhora. O décimo encontro foi o último em que realizamos jogos teatrais e, após as improvisações, pedi que cada participante escrevesse em casa, uma cena que demonstrasse como um professor resolveria um dos conflitos apresentados nos jogos. Sete cenas foram escritas, todas elas se remetiam às situações de improvisação. Neste momento, é possível observar que muitas das personagens criadas nas cenas surgem com um vocabulário próprio. Esta criação, evidente na forma como ele se expressa, denota uma maior tranquilidade com a escrita, pela possibilidade de uma maior liberdade, que se remete à personagem, sem uma limitação imposta pela norma culta da escrita. Na caracterização das cenas não foi possível para o grupo a definição de espaços para uma representação. Eles são criados sem qualquer preocupação com a viabilidade de uma representação, tendendo muito mais para uma escrita do romance do que dramatúrgica. Já no que diz respeito à gestualidade das personagens, é possível identificar várias indicações, tanto da movimentação em cena como do sentimento com o qual uma fala é dita. O comentário de Rocha demonstra a percepção de vários aspectos da linguagem teatral: Quanto ao teatro o que o curso propôs trazer para a prática do professor uma linguagem diferente, que é a escrita teatral. A criação de personagens, a idealização de cenas, a improvisação, os jogos, o uso do corpo como expressão, a música enfim todos os elementos já conhecidos na teoria, aplicados de forma simples, porém significativa, para o grupo. Ao transportarmos para a 64 Spolin (2008, p.161-167) apresenta jogos nos quais a escrita é explorada. 134 prática docente, percebemos que a escrita teatral abre um leque de possibilidades infinitas para a mudança das práticas do dia a dia em sala de aula. (QF Rocha) 4.1 ESCRITA DAS PEÇAS No último encontro, pedi que iniciassem a escrita da peça e que deveriam sintetizar o que havia ficado de mais significativo nesta pesquisa para cada uma. Ficou claro que nenhuma das professoras havia vindo com alguma idéia prévia sobre o que escrever e que a dificuldade em começar era grande. Ficamos por volta de uma hora e quinze escrevendo. Em alguns momentos, pediram-me para ler o que havia sido iniciado e para tirar dúvidas sobre os caminhos escolhidos. Da mesma forma como foi difícil iniciar a escrita, foi difícil terminar em tão pouco tempo. Três professoras me pediram para terminar em casa e que me enviariam o texto por e-mail, o que foi aceito. Ficou evidente que o tempo para a elaboração por escrito foi pouco, ainda mais em uma forma textual tão pouco conhecida pelo grupo. As peças finais não se diferenciam em sua forma ou em seu aspecto criativo das cenas escritas nos encontros anteriores, entretanto são uma reflexão dos aspectos que cada participante considerou como mais relevante na participação da pesquisa, razão pela qual faço uma análise de cada uma delas, relacionando-as aos demais textos da mesma participante. Apresento, a seguir, a peça escrita pelas participantes, com análise correspondente65. Optei por colocar os textos na íntegra, no corpo da tese por compreender que, desta forma, o leitor terá maior fluidez para acompanhar a análise feita na sequência, que ficaria prejudicada com a colocação dos mesmos em anexo. 65 As peças foram transcritas literalmente, sem qualquer correção ou alteração por parte da pesquisadora. É importante ressaltar que as professoras tampouco tiveram a possibilidade de revê-las após a entrega. A formatação utilizada nestes textos não segue o padrão adotado quanto ao recuo, devido a opção por uma melhor utilização da página. 135 4.1.1 Ana “CENA 1 Lelê entra na sala de professores. Um espaço amplo com uma mesa enorme, circulada por várias cadeiras, pois é o espaço onde acontece as reuniões. Neste dia apenas quatro professoras se encontram no local. Lelê chorando diz: Meninas, me ajude! Estou com um problema na minha sala de aula, e sozinha, já tentei, e creio que não vou resolvê-lo. Ana (assustada) mas como? Que problema? Lelê: Um aluno que não faz nada, dorme e quando está acordado só atrapalha... me xinga de palavrões absurdos, bate nos colegas e ainda sai da sala na hora que bem entende. A mãe? Nem conheço... Já pedi à Direção, para tomar as devidas providências, e até agora, nada! Néia (preocupada): É preciso haver uma colaboração de todos, pois o problema não é só da Lelê. Todos nós estamos envolvidas no processo de aprendizagem e nos problemas da escola. O seu aluno hoje, será o meu amanhã. Sandra, que até então se mantinha alheia, tenta acalmar Lelê: Calma, sozinha realmente, você não conseguirá resolver a situação. Nós somos um grupo, e juntas, pensaremos na melhor maneira de resolver esse impasse... Lelê, mais calma, volta para a sala de aula. No outro dia... As crianças chegam agitadas, o sinal toca exatamente às 7 horas da manhã. E Lelê, que sempre chega cedo, não aparece. Suas colegas preocupadas, procuram saber se ela ligou avisando. Na secretaria nenhum recado. Após a angústia da manhã, duas colegas decidem ir até a casa de Lelê, que não é longe, apenas dois quarteirões dali. Ao chegarem, Néia toca a campainha. Priiii. Depois de uns 5 minutos, Lelê atende a porta. Seu ar é de cansada. A palidez e os olhos inchados são visíveis. Mesmo sem ser convidadas, Néia e Jô entram. O espaço da sala está escuro, mas se vê livros sobre a mesa, papéis rasgados e o quadro onde ficava o diploma de Lelê, quebrado sobre o tapete. Néia recolhe os cacos e o papel intacto, por sorte (diploma) e pede uma explicação a Lelê. Ela (aos prantos) diz que tomou uma decisão; não voltará à sala de aula. Jô e Néia conversam bastante com Lelê. Convence-a a viajar por uns dias, refletir sobre essa decisão, que por certo foi tomada, num momento de nervoso e angústia. Lelê já mais animada, após o diálogo. Recolhe os papéis rasgados, organiza o espaço da sala, que ela mesma havia revirado, após um momento de fúria. Lelê reflete e diz: Pensando bem, quem sou eu para se deixar levar por ataques de medo e angústia? Daqui à uma semana, prometo à vocês que voltarei mais animada e com certeza, vou resolver essa situação com meu aluno, família e direção. OBS: A importância do diálogo e a interação de todos em um grupo.” A peça apresentada por Ana se divide em duas cenas. Entre as duas cenas é feita uma explicação de uma terceira situação na porta da escola e na 136 secretaria na qual se percebe a ausência da professora. A colocação desta cena evidencia o pouco domínio do teatro, já que a narrativa se dá sem indicações de movimentação de cena ou de diálogo. Além desta característica são feitas referências ao espaço e a uma possível sonoplastia, quando é colocado o som da campainha ou é feita a descrição da desordem na sala da casa da personagem Lelê. Esta cena se remete ao jogo realizado no décimo encontr, no qual este mesmo conflito era apresentado. Ana irá acrescentar ao conflito proposto no jogo a opção de a professora desistir de dar aula e, na seqüência, desistir de sua decisão quando recebe o apoio das colegas. Em um dos encontros, ao refletirmos sobre a falta de estímulos do professor, Ana disse que pouco tempo antes havia pensado em desistir da docência, ao se defrontar com uma sala de aula muito difícil de trabalhar, mas que havia voltado atrás e encontrado formas de enfrentar os problemas, encontrando-se em uma situação confortável. A criação desta cena nos remete a Vigotsky, ao afirmar: (...) La actividad creadora de la imaginación se encuentra en relación directa con la riqueza y la variedad de la experiencia acumulada por el hombre, porque esta experiencia es el material con el que erije sus edificios la fantasia. Cuanto más rica sea la experiencia humana, tanto mayor será el material del que dispone esa imaginación. Por eso la imaginación del niño es más pobre que la del adulto, por ser menor su experiencia66. (2000, p.17) A escolha por uma cena que expressasse a importância do trabalho coletivo, do apoio do grupo, também, ressalta um dos aspectos presentes no decorrer de toda esta pesquisa. 66 A atividade criadora da imaginação se encontra em relação direta com a riqueza e a variedade da experiência acumulada pelo homem, porque esta experiência é o material com o qual a fantasia ergue seus edifícios. Quanto mais rica for a experiência humana, tanto maior será o material de que dispõe essa imaginação. Por isso a imaginação da criança é mais pobre que a do adulto, por ser menor sua experiência. (Tradução livre) 137 Esta possibilidade de apoio das colegas se confronta com a ausência de atitudes por parte da Direção da escola e dos pais. O estímulo dado pelas colegas mobiliza a professora a rever sua intenção de desistir da profissão, levando-a a refletir, inclusive, sobre a situação em que tomou esta decisão: em meio a um “ataque de medo e angústia”, porém, fica evidente a necessidade de retomar o diálogo, tanto com os pais como com a direção, já que, sem uma ação conjunta, a atitude do aluno não se alteraria. A cena propõe aspectos discutidos nos diversos temas trabalhados, ao apresentar problemas com a gestão da escola e com a ausência dos pais. Com relação à condição docente, demonstra o desespero vivido pela professora, ao sentir-se desrespeitada e impotente perante esta situação. 4.1.2 Cris “CENA 1 Em uma escola pública, bem organizada, limpa e equipada, a coordenadora Lúcia em início de carreira deparou-se com uma série de questões voltadas a ação pedagógica. Lúcia era tranqüila, séria e dedicada, vestia-se com discrição, vivia ajeitando seus óculos no nariz. Num primeiro momento sofreu exclusão por parte dos professores. Era só a Lúcia falar para os rostos se entortarem e olhares lhe fitarem. Em uma das reuniões pedagógicas... A sala estava organizada com as cadeiras em forma de círculos, o que fez a professora Maria Eduarda comentar: (com deboche) – Não sei para que tudo isso? – só vamos falar bobeiras aqui. Rosa completou (com ironia) – Podia ter trago um lanchinho para completar (risos gerais). Lúcia entrou na sala, o silêncio foi geral, dava para ouvir o toc-toc do seu sapato. - Bom dia! (com um largo sorriso) - Bom dia! ( com desânimo) responderam as professoras. Lúcia continuou (com alegria) – Hoje vamos trocar experiências – Quem gostaria de contar algo interessante, alguma atividade significativa que ocorreu em sua sala de aula. Mais uma vez o silêncio reinou. (olhares se fitaram, formando um complô contra Lúcia) Lúcia incentivou mais uma vez – Quem gostaria de começar, vamos... Será apenas um bate papo. Ninguém se manifestou. Lúcia aguardou mais um pouco, e nada. 138 - Bom! (disse desanimada) então vamos tratar as datas das provas, trabalhos e eventos. Todas as professoras abriram seus cadernos e começaram as anotações CENA 2 Lúcia depara-se com um aluno muito nervoso no pátio, ele caminhava de um lado para outro, balançando a cabeça negativamente, com o rosto vermelho e os olhos brilhando. Ela aproxima-se vagarosamente (demonstrando tranqüilidade) – Oi, rapaz, o que aconteceu para você estar fora da sala. Ele muito nervoso, começa a falar rapidamente e, nada podia ser compreendido. Lúcia o acalma, colocando as mãos em seu ombro: - Qual é o seu nome? - Roberto (voz grossa e firme) - Bem, Roberto, sente aqui comigo – Conte o que aconteceu com calma. Aproximam-se do banco e sentam. - É aquela professora. Ela só sabe passar coisas na lousa, não respeita nenhum aluno, não escuta ninguém (respira fundo e continua) vive gritando e hoje me colocou para fora porque cochilei em sua aula. - E porque você dormiu, está muito cansado (com voz suave) - É eu estou. Minha avó está doente, estou passando a noite com ela, e não durmo direito. - Olha, falarei com a professora, fique tranqüilo. Só que agora vá para a biblioteca e aproveite para resolver algum trabalho pendente. CENA 3 Lúcia discretamente entra na sala dos professores (no intervalo) aproxima-se de Joana, a professora de Roberto e sussurra – Gostaria de falar com você após a aula. Joana (alta, gorda, cabelos negros, expressão surpresa) – Tudo bem! (e volta a tomar seu café) CENA 4 Joana bate na porta da sala de Lúcia e aguarda ser atendida (rosto sério) Lúcia abre a porta, solta um sorriso e convida Joana para entrar. Joana logo começa a falar: - Bem, o que aconteceu? Estou ansiosa para saber e com pressa, pois, tenho dentista marcado. Lúcia senta em sua cadeira e fala tranquilamente: - Joana, encontrei Roberto no pátio. Joana nem escuta o resto, corta a fala de Lúcia e emenda. - Ah! É isso, aquele menino dormiu na minha aula, veja que absurdo. Lúcia com muita paciência diz: - Eu entendo a sua indignação, sei que preparou sua aula, que é compromissada. Mas, ( pegou na mão de Joana, que estava apoiada na mesa) sabe porque Roberto dormia, perguntou a ele? Joana arregala os olhos e responde: - Não, não perguntei. Lúcia olha bem nos olhos de Joana, passando confiança. - Ele passa a noite cuidando da vovó doente. Joana fica perdida, sem graça e com a voz trêmula diz: - Nossa que responsabilidade. Lúcia – Pois é, posso lhe dar uma dica, de professora experiente? 139 Joana – Sim, é claro. Lúcia – Procure conversar com seus alunos, escutá-los e muitos de seus problemas em sala de aula serão resolvidos. Joana olhou carinhosamente para Lúcia – É mesmo fiquei tão nervosa com a situação e agi por impulso. Lúcia – Confie em seus alunos e em seu trabalho, tudo correrá bem. Joana aperta a mão de Lúcia, como forma de agradecimento e sai da sala reflexiva. Encontra com Maria Eduarda no corredor, que vendo a colega pensativa pergunta: - O que foi, aonde vai. Joana, sorrindo – Vou desculpar-me com um aluno. Maria Eduarda, com o rosto surpresa – E ela, Lúcia, como foi, o que ela disse? Joana sorri e diz – A Lúcia, ah, hoje conheci quem é a verdadeira Lúcia e gostaria que vocês também conhecessem. Ela é humana! Mais humana do que muitas de nós. Tema: Amante da profissão” A peça proposta por Cris traz como tema Amante da Profissão e apresenta, em quatro cenas, a conduta de uma coordenadora que procura melhorar a condição da escola na qual trabalha. As cenas são propostas de forma a se visualizar uma possível encenação, mesmo nos momentos em que ocorre uma descrição do espaço e das personagens, esta narrativa se dá com clara intenção de caracterização das mesmas. A peça apresenta, dentre outros, dois conflitos trabalhados no décimo encontro, o do aluno que dorme em sala de aula e o da professora que só coloca matéria na lousa. Soma-se a estes dois problemas um dos aspectos discutidos a partir do jogo Contato, que é o da necessidade de diálogo entre professores e alunos e entre coordenação e corpo docente. A condição na qual o aluno vem à escola retrata diversas reflexões feitas pelo grupo que apresentavam o pouco preparo dos alunos para o estudo, seja pela ausência de materiais e uniforme, pela falta de condições de saúde e higiene ou pelo pouco acompanhamento dos familiares nas necessidades de estudo. 140 Somam-se a este quadro os alunos trabalhadores que não conseguem ter atenção às aulas pela falta de sono ou pelo cansaço excessivo. Quanto à atuação da professora, a peça retrata a pouca diversidade na proposição de atividades e na apresentação de conceitos, fazendo com que os alunos percam o interesse pelo que lhes é apresentado. Além deste baixo preparo para a construção de conhecimento, ela tampouco se apresenta disponível ao diálogo, o que já é perceptível no início da peça. Na primeira cena é apresentada uma situação que demonstra a apatia e o desânimo dos professores, mesmo quando a coordenação procura encontrar formas de diálogo, de troca de experiências. A escolha apresentada na cena é de manter-se no cumprimento das obrigações burocráticas, representada no ato mecânico de abrirem os cadernos e fazerem anotações. Embora os conflitos propostos por Cris recuperem diferentes momentos de reflexão do grupo, ela faz uma elaboração nova, criando situações e sintetizando aspectos explorados nas reflexões e nas improvisações. As personagens apresentadas são bastante idealizadas, já que a coordenadora é alguém permanentemente disposta, justa e sorridente. O aluno que dorme só o faz por cuidar da avó doente durante a noite e a professora, apesar de ter inicialmente uma atitude de deboche e descaso, em apenas uma conversa altera a sua conduta e se mostra totalmente receptiva. Nas cenas escritas por Cris, no decorrer dos encontros, encontra-se esta mesma postura conciliadora, as personagens são responsáveis, amorosas e dedicadas, além de retratarem desfechos felizes para os conflitos apresentados. Embora tal idealização possa nos remeter a uma idéia romantizada dos problemas e das condutas existentes no ambiente escolar, Cris nos apresenta possibilidades de diálogo entre os pares, de relações mais amorosas e seu desejo de um espaço escolar onde as dificuldades e os conflitos não aniquilem a possibilidade de um trabalho conjunto. 141 4.1.3 Jô “PEÇA TEATRAL Local: Sala de estar. Em uma sala de estar um grupo marcou um encontro. As personagens são: Rocha uma pessoa que gosta de seguir regras, Sandra que acha que tem jeito para tudo, Memê que resolve as coisas do seu jeito e consegue resultados da maneira que faz, Julia com seu jeito sensível buscando o melhor, Lilá com seu semblante de brava mas conhecendo bem não é assim é alguém que busca fazer a diferença, Néia alegre, sorridente com boas idéias, Jô observadora, Cris valoriza seus alunos como uma boa professora deve fazer e Ana uma professora que soube conquistar seu espaço e Márcia com uma vontade enorme de falar, mas não pode, quem conduz o grupo é a Lelê. As 8h20 Lelê arruma a sala de uma maneira que todas possam se olhar, deixa os colchonetes do lado do sofá para utilizar no decorrer do curso. E as meninas começam a chegar. Márcia chega após a Lelê: bom dia como vai tudo bem? Lelê: Tudo bem e você. Márcia se dirigiu ao local de realizar seus estudos, Lelê continuou sentada, enquanto isso chegava as meninas. Rocha e Sandra: Bom dia! Como vão. Jô Bom dia meninas. Néia, Cris e Lilá chegam juntas: Bom dia Ana com sua mochila também chega e diz: Bom dia Memê também chega e diz: Bom dia para todas. Julia chega um pouco mais tarde e com seu rosto vermelho sorri e fala: Bom dia. Enquanto todas se acomodam, Lelê passa as cordenadas: hoje vamos pegar os colchonetes colocá-los no chão um ao lado do outro, em seguida formarão em duplas com os quais deitarão cada um em seu colchão e juntarão os pés com as pernas para cima. Sem soltar os pés segurem as mãos da colega do lado em movimento. Todas riam constantemente. Depois Lelê pediu que fossem se juntando Jô disse: Vem Néia me da a mão. Lilá: me dá seu pé Ana Cris: a perna da Ana vai demorar a chegar aqui Julia, Rocha e Sandra: há, há, há. Jô: vai dar um nó. Lelê comandando o grupo diz: agora da maneira que estão levantem sem soltar as mãos. Julia: vai ser difícil. Cris: vai Jô vira pra esse lado Jô: Ana passa por cima Néia: vamos tentar inverter esse lado Sandra: deixa eu tentar Rocha: há, há, há... deixa eu virar Lilá: vou tentar passar por aqui Lelê: isso não parem, continuem desfazendo o nó. 142 Lilá: vem por aqui Cris Sandra: deixa eu virar Rocha: Passa o braço por cima da Julia Julia: Conseguimos!!! Todas batem palmas: pá, pá, pá... Lelê: muito bom! Agora vamos sentar. O que acharam, qual o sentido desse jogo pra vocês. Jô: a participação de todas só mostrou o quanto a união é importante. Ana: é Sandra: foi muito bom. Lilá: É principalmente na hora de sair da situação Cris: Uma precisava da outra pra se soltar. Lelê: no que essa atividade refletiria na profissão que exercem. Sandra: Eu acho que em todos os aspectos Jô: mostrou que se nos unirmos tudo fica mais fácil de resolver Rocha: tudo que falamos aqui é bonito mas na prática é diferente quer ver. Na educação é preciso delegar tarefas e cada um precisa saber o seu papel. E qual é o papel do professor? Jô: mas se nos juntarmos não é mais fácil? Cris: eu concordo com a Jô, pois se todos trabalharmos juntos vamos obter melhores resultados Rocha: mas onde queremos chegar com tudo isso. Não é na Gestão? As coisas não são assim. Lilá: ai entra outra questão e vamos sair do assunto novamente. Lelê: então meninas vamos voltar ao assunto. O que acharam dos encontros, o que significou para vocês? Lilá: para mim muito, vou sair daqui diferente Sandra: é foi muito importante, os jogos, o aquecimento. Jô completa: realmente, a interação, participar com o outro buscando soluções para resolver problemas completando a cena do outro, foi uma parte bem significativa. Néia: eu também achei, na hora que tivemos que sair de uma situação da qual precisávamos uma da outra. Ana: é foi muito bom. Lelê: Quero que me digam um personagem que gostariam de ser nesses contextos. Néia: Gostaria de ser uma bailarina, para saber driblar as situações. Lilá: Gostaria de ser uma fada com varinha de condão, um chapéu e nariz de bruxa Sandra: Eu queria ser um médico Jô: há, sabia que pensei nisso? Sandra continua: O médico já traz toda solução, sabe como curar as doenças e principalmente não se procura um médico apenas quando está doente. Lelê: e você Jô Jô: Eu também acho, o médico ouve, se aprofunda no problema e busca soluções Lelê: descrevem um som Lilá: música mundo ideal Jô: o som de Betovem Sandra: um som de bateria Memê: Uma marcha fúnebre 143 Cris: hoje estou sem foco Lelê: agora escolham algo que há no teatro Néia: Eu seria a cortina, o abrir da cortina para ver o que vem depois é muito importante Jô: Eu seria as cadeiras aguardando qual surpresa viria Lilá: Eu pensei nas lâmpadas Cris: Eu também, pensei nas luzes. Lelê: isso muito bem achei incrível como são capazes de ver o quanto são sensíveis na escolha dos sons, dos objetos selecionados para o teatro, em tudo feito até aqui. Todas se levantam e batem palmas: pá, pá, pá...” A peça de Jô apresenta um possível dia de nossa pesquisa, no qual ela agrupa diversas situações experimentadas pelo grupo em dias distintos. As personagens são exatamente as pessoas que participaram da pesquisa até o final e ela escolhe um dos jogos realizados no qual o grupo se movimenta conjuntamente, conseguindo desfazer um nó de pernas e braços. Na sequência, Jô recupera palavras-sínteses escolhidas por elas nos encontros nos quais avaliamos a pesquisa. A forma de apresentação da peça procura definir uma possível encenação; o diálogo estabelecido indica uma possível movimentação dos atores. Apesar de todo o receio apresentado pela escrita das cenas, tanto nas reflexões como no questionário final, Jô consegue escrever um texto dramatúrgico no final da pesquisa. É interessante observar que Jô caracteriza cada uma das participantes com aspectos marcantes apresentados no decorrer da pesquisa e traz para sua síntese as palavras escolhidas por elas, que apresentaram um enorme simbolismo sobre diferentes momentos. A escolha por uma cena que se remete ao momento de reflexão do grupo denota a importância dada à avaliação, à reflexão sobre o trabalho realizado. Em seu questionário final, Jô opina como aspecto negativo do trabalho o fato das discussões algumas vezes se tornaram repetitivas e resistentes sobre o que cada uma acreditava. Esta escolha pelas palavras-sínteses certamente 144 demonstra que ela valorizou muito a opinião do grupo, mesmo reconhecendo que, em alguns momentos, as discussões eram excessivas. Outro aspecto valorizado no trabalho é a possibilidade de encontrarem soluções coletivamente. A escolha do aquecimento que propunha um intenso contato corporal e sua mobilidade como possibilidade de resolução de um conflito denota a importância dada ao corpo no trabalho escolar. É na comunicação corporal que o grupo encontra soluções e somente após este contato a reflexão consegue se traduzir em imagens sintéticas e significativas. A peça de Jô apresenta de forma sintética os aspectos do trabalho mais relevantes para ela; no entanto, a cena criada ainda se mantém colada à situação vivida. 4.1.4 Julia “CENA 1 Local: Escola Personagens: Professora Novata Clara Professora Ana A professora Ana estava explicando equação de 1º grau aos alunos da 1ª série C, quando alguém bateu na porta da sala... (som de batidas na porta). A professora Ana parou a explicação e foi ver quem era... Ao abrir a porta, deparou-se com a professora Clara, em lágrimas... ANA: Clara, o que houve? CLARA: (aos prantos) estou perdida. Não sei o que faço com os alunos. Eles não me respeitam. ANA: Clara, se acalma. Vamos dar um jeito nisso. Você começou a lecionar a pouco tempo. É normal se sentir assim no início. CLARA: Acho que não sirvo para isso... ANA: Clara, vá até a sala dos professores, lave o rosto e me espere. Assim que bater o sinal conversamos, mas tente se acalmar, pois vou te ajudar a resolver isso. CENA 2 Local: Corredor da Escola Personagens: Aluno Pedro, o piadista da sala, o mestre da bagunça. Na versão dos professores: “ o reizinho da sala”. Aluno João e professora Clara. Pedro e João caminham em direção ao banheiro quando encontram a professora Clara com o rosto vermelho (de tanto chorar) 145 PEDRO: Tá chorando! Tá chorando! A professora não responde e, sem olhar para atrás, caminha até a sala dos professores. João se espanta com a atitude do amigo, mas, com medo de se expor, não diz nada. CENA 3 Local: Sala dos professores Personagens: Ana, Clara Assim que o sinal bateu, Ana desceu rapidamente em direção a sala dos professores. E encontrou Clara, ainda com o rosto vermelho. ANA: Clara, você está mais calma? Eu também já passei por isso. CLARA: Ana, quando iniciei a aula, todos viraram-se de costas e começaram a rir de mim. Fiquei sem reação. ANA: E o que aconteceu depois? CLARA: Pedi para virarem pra frente, mas eles não obedeceram e continuaram de costas, rindo cada vez mais alto. Então não agüentei e comecei a chorar. ANA: Você foi até a diretoria explicar a situação? CLARA: Fui primeiro conversar com você. Depois fiquei aguardando a chegada da diretora. Como ela ainda não está no colégio, conversei com a coordenadora e ela me disse para eu ser mais rígida em sala de aula, que não vou conseguir nada chorando. ANA: Rígida? A escola deve ser mais rígida. Como eles querem que o professor mantenha a autoridade em sala se não dão respaldo e apoio ao mesmo? Ela falou, por exemplo, em punir os alunos? CLARA: Como eu contei que a sala inteira aprontou comigo, ela disse que não poderia punir uma sala inteira. Eu realmente não estou na profissão certa. Todos me odeiam. Não sou uma boa professora. ANA: Você não deve pensar assim! Tenho certeza que muitos alunos não queriam participar desta falta de respeito, mas temem retaliação dos colegas. Ana, você tem que entender que eles estão em fase de auto-afirmação. Eles acabam segundo a vontade de uns poucos alunos da sala. Mas isso não pode ocorrer novamente. Temos que debater este assunto e procurar soluções. Hoje aconteceu com você, amanhã é comigo ou com um e nossos colegas. Não podemos deixar isso passar batido. E isso diz respeito a todos nós e a educação de nossos alunos.” A peça escrita por Julia apresenta três cenas de uma situação semelhante a um dos jogos realizados nos encontros67, que foi trabalhado por todo o grupo. Julia define as cenas com clareza, propondo o local de cada uma delas e as personagens que participam da cena antes de iniciar o diálogo ou a descrição das ações. Esta forma de apresentar o texto demonstra um domínio sobre a situação 67 No oitavo encontro foi proposto um jogo no qual cada dupla deveria improvisar sobre uma situação na qual uma professora visita uma colega, desesperada, pedindo ajuda. Estas cenas foram descritas no capítulo 3. 146 da encenação, com uma clara intenção de caracterização do texto, remetendo-o à representação. Julia retoma o conflito da professora que pretende desistir da docência por não saber como agir com os alunos. Ela acrescenta uma atitude dos alunos não apresentada nos jogos, na qual todos se viram de costas para a professora no início das aulas. Com esta escolha recupera um dos aspectos discutidos em nossos encontros, o da violência e da falta de clareza dos papéis e condutas necessárias para o aprendizado. Nas cenas 2 e 3 demonstra a necessidade de os alunos agirem conforme o grupo, por medo de retaliações, mesmo não estando de acordo com a atitude tomada. Esta caracterização de alunos adolescentes demonstra uma dificuldade encontrada pelos professores, principalmente quando não há uma equipe de apoio e clareza sobre como lidar com esta fase, permitindo que ocorram atitudes agressivas não apenas com relação aos professores, mas também dentro do grupo que sofre discriminações. No decorrer da cena, a personagem Ana, também, questiona e se revolta com a ausência da Direção e com a conduta da Coordenação, que não dão qualquer apoio para a professora, retomando questões surgidas ao debatermos o tema Gestão. Finaliza a cena enfocando a importância de ser feito um trabalho conjunto entre o corpo docente, como forma de lidarem com o conflito apresentado. A peça da Julia, assim como a da Ana, apresenta uma professora desesperada, que passa a acreditar que não pode ser docente não apenas por não saber como lidar com um grupo de alunos, mas, principalmente, pela falta de clareza sobre o papel do professor e pela falta de apoio vivenciada. Em recente estudo sobre as motivações que levaram professores ao abandono da docência, Lemos (2009) apresenta, dentre outros, a desvalorização profissional e a indisciplina dos alunos, como os motivos de maior recorrência. Os relatos de professores sobre a indisciplina dos alunos são frequentes. Queixam- 147 se da perda de autoridade diante dos alunos, da falta de apreço por parte da coordenação e da direção por suas reclamações, da perda de controle sobre os alunos. (LEMOS, 2009, p.125) A peça criada por Julia apresenta uma professora no limite do abandono da docência, vivenciando os problemas que Lemos coloca como centrais para a intenção de desistir da docência. 4.1.5 Lilá “O Conflito de Pedro Pedro um menino normal que mora na favela de Paraisópolis tem apresentado problemas de conduta. Certa vez enquanto todos brincavam Pedro, isoladamente no canto do pátio de sua escola chorava. Dona Sebastiana a inspetora viu que ele precisava de ajuda. Aproximou-se e disse: - Pedro, o que você tem? Pedro: Nada vai embora e me deixe em paz Dona Sebastiana: Mas você não quer mesmo conversar? Pedro: Não já disse que ninguém pode me ajudar. Ele saiu correndo para o banheiro dos meninos e lá ficou por horas. Dona Sebastiana com uma expressão intrigada levou o caso para a coordenação relatando: Dona Sebastiana: Maria o Pedro está com problemas, não quis se abrir comigo, estava chorando no pátio e agora trancou-se no banheiro. Maria: Você já perguntou para os colegas dele se houve brigas no pátio? Dona Sebastiana: Não, vou verificar isso agora mesmo. Ela saiu para ver se conseguia alguma informação. Passado algum tempo Pedro saiu do banheiro e foi para a sala de aula, mas ninguém tocou no assunto. Ao término de mais um período de aula todos saíram correndo pelo portão a fora. Maria a coordenadora chamou a professora de Pedro para uma breve conversa Maria: Bom, Sofia, você já sabe o que aconteceu hoje. Sofia: Sim, Dona Maria, já sei, mas não tenho nenhuma explicação. Maria: Olha, gostaria que você observasse melhor o Pedro, acredito que ele tem problemas sérios. Sofia: Sim, vou observar. As duas caminharam para saída ainda conversando sobre o assunto. Para uma criança de nove anos muitas coisas poderiam causar esta conduta, porém, para muitos passava despercebido. Como morava em um barraco simples, sem muitas condições de higiene e saneamento básico, poucos eram os que visitavam sua casa. 148 Em uma tarde fria do mês de junho, para surpresa de Pedro chega a sua casa a Dona Maria e a sua professora Sofia. Batem palmas no portão bem remendado de madeiras, nesta hora vários cachorros começam a latir. Maria chama: - Pedro, ô Pedro, sabemos que você está em casa. Sofia: Pedro, sou eu, sua professora, vem abrir o portão. Pedro entrou em pânico, não queria que elas entrassem, pois tinha vergonha de sua casa. Maria: Pedro, por favor viemos te ajudar. Sofia: Abra, seremos breve. Pedro: Não, não posso... E um silêncio pairou. Neste momento a Dona Maria e Sofia sentem-se impotentes diante da situação. Passados três dias sem que aparecesse na escola, Pedro bem abatido entrou na sala com uma fisionomia angustiada. Sofia diz: Pedro que bom vê-lo, depois podemos conversar? Pedro abaixou a cabeça e não disse nada. Quando aproximou o horário do intervalo a professora chamou Pedro em sua mesa e disse: - Pedro, vamos até a sala da Dona Maria? Precisamos conversar. Pedro: Sim, professora. A professora pediu para que uma colega ficasse uns minutos em sua sala e desceu com Pedro. Abraçados no meio do caminho encontraram um colega que mora ao seu lado e ele disse: - Bele, Pedro? Pedro: Bele. Mas a professora muito esperta percebeu um ar de ironia naquele menino conhecido como Grito o bocão e perguntou para Pedro: - Você o conhece? Pedro: Sim, professora. Sofia: Mas porque você abaixou a cabeça quando o viu? Pedro: Nada não Fessora, vamô logo. A professora Sofia sentiu que tinha que envolvia este Grito, mas resolveu esperar para ver como seria a conversa com Dona Maria. Chegando lá em sua sala Pedro já foi logo dizendo: - Eu não vou falar nada porque eu não fiz nada!!! Dona Maria percebendo sua aflição convidou-o para ir até a cantina tomar um lanche com ela. - É Pedro você parece nervosos vamos tomar um lanche? Pedro: Ah!, não eu não tenho grana Ficou entusiasmado no início mas logo se recompôs. Durante seu lanche, a Dona Maria, a professora e a Dona Sebastiana perceberam sua ânsia por comer. E tentaram conversar ali mesmo. Maria: É Pedro, fomos na sua casa fazer uma visita, mas você não nos atendeu! Sofia: Por que? Você tem vergonha da sua casa? Pedro: Não, não posso falar. Sebastiana: Pedro eu te conheço desde 6 anos, você sempre foi alegre, brincalhão, feliz... e agora o que há com você? Queremos te ajudar. 149 Pedro: Ninguém pode me ajudar. Nesta hora o choro veio sem ao menos disfarçar e a conversa não rendeu mais. Dona Maria e a professora levaram o caso para Tereza a diretora que disse: - Então neste caso chamaremos a família para uma conversa.. Maria: Mas ele não irá levar o bilhete, pois está em pânico. Sofia: Neste caso eu levo então e tento deixar com algum vizinho. Mas Sofia ainda estava preocupada com a reação de Pedro ao ver o Grito bocão. Começou a associar com situações passadas, onde percebeu que Grito estava mesmo envolvido. Porque uma situação como esta tem um reflexo tão sério na escola? Esta pergunta não saia da cabeça de Sofia. Por fim duas semanas depois foi agendado uma reunião com os pais. Neste conselho estava a coordenadora, a diretora e a professora além dos pais. Tereza iniciou perguntando: - Vocês conhecem bem seu filho? Mãe: lógico, ele saiu de dentro de mim! Pai: Que pergunta é essa qué sabe se nóis ama nosso fio? Pai: nóis amamo sim por isso... Calou-se como se estivesse escondendo algo que não podia dizer Maria: Termina Sr. Antonio o que ia dizer mesmo? Sofia: Olha vocês tem um filho excelente, mas que esta com problemas. Mãe: probrema, todos tem, ele também, mas vamô logo que tenho que puxa carrinho. Maria: Gente o caso é sério vocês precisam nos dizer o que esta acontecendo. Pedro não esta bem na escola tem emagrecido e não tem mais amigos. Com um barulho enorme na porta, Pedro entra na sala desesperadamente, dizendo: - Fala mãe, fala pai se vocês não fala eu falo. Os pais entram em pânico e começam a chorar. O clima é tenso naquela sala e Pedro desabafa: - Sabe, fessora, a senhora lembra do Grito? Então eu e ele fomos ao mercado e ele quis roubar doces eu não queria, porque nunca fiz isso. Derepente ele colocou muitos chocolates no meu bolso, uma senhora viu e chamou o segurança, ele um humilhou e sabe o Grito pôs a culpa em mim e saiu fora. Meus pais foram chamados e desde então só porque moro na favela eu sou o ladrão e Grito ficou bem na fita... Tereza: Mas e seus pais Pedro: Então a partir daí eles me prendem em casa porque não qué um tio ladrão. A conversa rendeu a tarde toda e todos perceberam que onde você mora não faz quem você é!” A peça escrita por Lilá traz o conflito de um aluno, Pedro, que estava sendo culpado de furto injustamente. A peça apresenta diversas situações, que ocorrem na escola e na porta da casa do Pedro e, embora todas as cenas ocorram em forma de diálogo, não existe qualquer separação de cenas ou definição dos espaços de forma a ficar mais clara a relação com uma possível encenação. 150 A situação proposta apresenta uma escola na qual professores, coordenação, direção e funcionários trabalham conjuntamente e atuam para além do espaço escolar, procurando o aluno ou os pais em sua casa, quando necessário. Dentre as personagens, o aluno Pedro, assim como seus pais, demonstram viver em condição de pobreza, o que pode se evidenciar tanto pela casa com o portão remendado, como pelo desejo do menino de comer um sanduíche e não ter condições de comprá-lo. A fala, também, demonstra ser de pessoas que não dominam a norma culta. O conflito, embora não diga respeito à situação escolar, passa a interferir na conduta do aluno, fazendo com que ele não tenha mais disposição para os estudos e demonstre tristeza no dia-a-dia. Em outras cenas criadas por Lilá, ela, também, traz conflitos que estão além do espaço escolar e incluí situações que ocorrem na casa das personagens ou na rua. São apresentadas cenas nas quais os professores necessitam sair da escola para resolver problemas detectados nos alunos, com relação à aprendizagem ou a estados de ânimo, como perda da alegria e da vontade de estudar. Estas cenas nos remetem à discussão do papel da escola e das dificuldades enfrentadas por lidar com um público bastante diversificado e com carências em aspectos que vão muito além do aprendizado escolar. Nos jogos realizados, Lilá improvisou uma aluna que procura a professora para falar sobre sua necessidade de fazer sexo com o namorado. Esta improvisação foi muito engraçada, pois ela não parava de falar e rebatia qualquer argumento da personagem-professora sobre a importância dos estudos com frases que expressavam a intensidade de seu desejo sexual. A jogadora, que atuava como a professora, perdeu o foco e ficou pessoalmente envergonhada, declarando, após o jogo, que não sabia o que fazer em uma situação como aquela. 151 No debate sobre esta questão, Lilá relatou o fato de ter continuado seus estudos e ter se tornado professora devido à dedicação de um professor que foi à sua casa quando ela engravidou ainda adolescente, incentivando-a a voltar a estudar assim que o bebê nascesse. Novamente com Lilá, assim como com Ana, encontramos aspectos de sua experiência, definindo características, tanto de sua atuação docente, como de sua concepção sobre quais os aspectos mais significativos do papel da escola. Lilá nos remete à importância dada às relações interpessoais e ao envolvimento de toda a equipe, possibilitando um trabalho não apenas junto ao aluno, mas também aos pais. 4.1.6 Memê “PEÇA TEATRAL Aluno 1 e aluno 2 (adolescentes com 14/15 anos aproximadamente) Professora CENA I Em sala de aula, a professora explica a matéria, enquanto a maioria dos alunos presta atenção, dois alunos no fundo da sala chamam a atenção pelo barulho que fazem. PROF: O assunto ao qual estou me referindo é sobre os Elementos estruturais do Conto e... (interrompe a fala e olha para os alunos que estão conversando alto e ouvindo música no I-pod, a professora dirige-se a eles) PROF: Será que vocês poderiam prestar atenção ao que estou explicando? É sobre um assunto, que será pedido num trabalho que irá valer nota posteriormente. Os alunos só param quando a professora lhes dirige a palavra, mas em seguida continuam conversando, como se ninguém os tivesse chamado a atenção. PROF: (voltando-se para os outros alunos) Continuando o assunto sobre os elementos de análise do conto, temos os personagens principais e os secundários, o tempo, o espaço, o conflito, o foco narrativo, o clímax, o enredo e o desfecho. Quanto aos personagens principais, temos... (nisso o celular de um dos alunos daqueles que faziam barulho anteriormente toca, e um deles grita alto para outro atender, conturbando a aula. A professora olha para eles com severidade). PROF: Vocês não perceberam que estão perturbando a aula? Vejo-me obrigada a pedir que vocês saiam da sala e venham até aqui (aponta para a porta) para termos uma conversa. 152 (Os alunos resistem em sair da sala, mas a professora mantém-se firme, demonstrando segurança e firmeza em sua ordem. Ela pede novamente, e então, os alunos levantam-se e dirigem-se para fora da sala. A professora sai com eles até a entrada da sala e em particular fala com eles.) PROF: Se o comportamento de vocês continuar igual, sou obrigada a encaminhálos até a direção da escola. ALUNO 1: É fessora, hoje eu não to a fim de assistir aula, sabe como é... Tô afim é de ouvir uma musiquinha, sabe, maior barato... sabe, fessora... (A professora percebe que os olhos do aluno estão bem vermelhos, o que poderia ser indício de que ele estaria drogado, mas não poderia afirmar nada sobre isto). PROF: Bem, se vocês não querem participar da aula, tudo bem, vocês podem ficar fora, mas vocês terão que antes conversar com a diretora, para explicarem o porquê que vocês não querem se comportar e assistirem a aula. (A professora volta para a sala de aula e prepara uma folha de encaminhamento dos alunos para a diretoria. Em seguida, chama e pede para o inspetor de alunos levá-los junto com o encaminhamento até a Diretoria). CENA II A Diretora conversa com os alunos sobre o comportamento dos mesmos em sala de aula. DIRETORA: Vocês até hoje não sabem se comportar em uma sala de aula? Há quanto tempo vocês estão na escola e ainda não aprenderam a se comportar como alunos? Vou dar uma suspensão para vocês e para que vocês retornem à escola só após eu conversar com seus pais. Os alunos retrucam: ALUNO 1: É... Mas meus pais trabalha... e não poderão vir... a Sra. sabe... ALUNO 2: Meu pai vai me quebrar, de tanto me bater... DIRETORA (irredutível): Bom, a suspensão já foi dada, e vocês, se quiserem continuar na escola, poderão vir só depois que eu falar com seus pais. (A Diretora entrega a carta de suspensão aos alunos e pedem para eles se retirarem. CENA III Os alunos saem nervosos, voltam para a sala e pedem para falar com a professora fora da sala. ALUNO 2: Prof. A Sra. já sabe o que aconteceu com a gente. Nós fomos suspensos e só poderemos voltar à escola quando nossos pais vierem falar com a Diretora. Meu pai é violento e quando ele souber o que aconteceu, eu nem sei... Tenho certeza de que ele vai me bater... ALUNO 1: É... fessora... Será que a Sra. não pode dar um jeito nisto prá nóis... Eu prometo que vou ficar bem quietinho na sua aula, fessora PROF: Infelizmente, não posso fazer nada. Se a Diretora suspendeu vocês, não há o que fazer. ALUNO 1: É, mas, fessora, nós pedimos perdão prá Sra. na frente dela, e aí... ela perdoa a gente também. (Aluno 2 apóia aluno 1, fazendo movimentos com a cabeça). PROF: Não, não, não posso fazer isto. É bom mesmo que seus pais venham conversar com a diretora, pois já faz tempo que vocês não se comportam bem na aula. Agora, podem pegar o material de vocês e irem para suas casas. 153 ( Os alunos entram em sala e pegam seus materiais e suas mochilas. Olham para a professora com uma mistura de raiva e de arrependimento. Após uma semana, eles retornem para a sala de aula. A professora fica surpresa com o retorno deles.) CENA IV PROFA: Opa! Vocês retornaram?! Ficou, então, tudo resolvido entre vocês, seus pais e a diretora? ALUNO 1: É... fessora. Meu pai teve que pedir no trabalho dele para deixarem ele vir, e quando ele voltou pra casa, me deu o maior sermão, e falou que ia me expulsar de casa, se eu não ficar bem na escola e ele tiver que falar com a diretora de novo. E ele faz isso mesmo, ele já expulsou meu irmão mais velho, fessora. Meu irmão não pode nem visitar a gente mais. ALUNO 2: E eu levei a maior surra. Só não apanhei mais, porque minha mãe chegou e não deixou ele me bater mais. PROF: Bem, agora espero que vocês mudem suas condutas em sala de aula e acompanhem a matéria direitinho, para que não se repita de novo, o que aconteceu com vocês, certo? (Os alunos entram e sentam-se em suas carteiras, mostrando-se comportados e a professora inicia sua aula, neste dia sentindo que algo de necessário foi feito em prol destes dois alunos).” A peça proposta por Memê apresenta o conflito entre dois alunos e uma professora pela atitude de descaso dos alunos em sala de aula. As cenas se passam todas dentro do espaço escolar, sendo três delas na sala de aula e uma na diretoria. O problema causado pela atitude dos alunos é resolvido pela interferência da Diretora e pela atuação dos pais. A peça está estruturada com evidente preocupação com uma possível encenação, já que são dadas indicações da movimentação dos atores e suas falas são escritas de acordo com as personagens criadas. Os alunos que apresentam desinteresse possuem aparelhos eletrônicos (ipod e celular) que são mais atrativos que a aula. Este problema é enfrentado por boa parte dos professores e são poucas as escolas que encontraram possibilidades de inclusão das novas tecnologias para o aprendizado. Também é feita referência à possibilidade de um dos alunos ter consumido droga; entretanto, não existia nenhuma prova sobre o consumo. 154 A cena não discute as dificuldades enfrentadas pela escola devido ao uso inadequado de novas tecnologias ou ao consumo de drogas. O fato de a professora não poder provar o possível consumo de droga faz com que ela se exima da responsabilidade de procurar soluções para esta questão, buscando, apenas, uma maneira com que os alunos assumam uma conduta que permita o desenvolvimento da aula. O conflito apresentado mostra uma professora decidida, que tem pleno domínio sobre a sala de aula e que tem o apoio da direção da escola. É interessante observar que, apesar da clareza sobre a necessidade de limites para os alunos, que agiam com total descaso para com o trabalho escolar, a forma de convencimento dos alunos é por intermédio de ameaças. Desde o início da cena, os alunos são advertidos sobre a necessidade de estarem atentos à explicação, pois, posteriormente, teriam que fazer um trabalho sobre a matéria exposta, valendo nota. Na sequência, os alunos são encaminhados para a direção, que soluciona o problema, não permitindo que os alunos entrem na escola até que os pais compareçam à mesma. A ameaça da nota não foi convincente para uma mudança de postura por parte dos alunos; entretanto, a perspectiva da punição vinda dos pais coloca os alunos em uma nova postura. Apesar da tentativa de alteração da punição, os alunos são punidos e, com a atitude violenta dos pais, que em um dos casos ameaça o filho de ser expulso de casa e no outro, bate, mudam o seu comportamento, passando a não mais atrapalhar a aula. É interessante observar que a professora, no final da cena, se sente satisfeita por haver conseguido alterar a conduta dos alunos, compreendendo que os mesmos teriam melhores oportunidades. Evidentemente, é a valorização dos limites e o estabelecimento de normas e de uma ordem que permita ao trabalho que está sendo valorizado, mesmo que, junto com isso, os alunos tenham tido que passar por uma situação de violência. 155 Memê, na criação de uma personagem-síntese, criou uma personagem meio bufão, meio militar e argumentou que o professor, em alguns momentos, tem que saber ser engraçado e que em outros tem que agir com severidade. Também no jogo realizado no oitavo encontro, no qual uma professora ajuda sua colega com argumentos sobre como agir com os alunos, ela explicita a necessidade de mostrar autoridade, nem que seja com berros. A escolha de uma cena como esta para síntese da pesquisa possivelmente se relacione à compreensão da necessidade de um trabalho conjunto entre professora, direção e pais para a definição de limites e de condutas adequadas à sala de aula. Porém, cabe ressaltar que a perspectiva do jogo teatral no que diz respeito ao estabelecimento de regras e de um acordo de grupo, traz em sua estrutura a perspectiva de uma atitude democrática, na qual se busca não apenas o direito de se posicionar por parte dos envolvidos, como também o estabelecimento de regras que façam sentido para todos. Não há dúvidas de que a instituição escolar vive uma crise de sentido, permitindo que boa parte do trabalho ocorra em permanente estado de ameaça. 4.1.7 Néia “Cena final Personagens: - Professoras: Kátia / Ana Paula - Aluno: Caio - Marido de Kátia CENA 1 – Casa de Kátia Kátia (de manhã ao levantar) - Ah! Está na hora, não tenho nem vontade de levantar desta cama. Marido de Kátia - Calma, meu bem! É final de ano sei que está cansada, já esta chegando as férias. Força! Vamos... levante Kátia - Não tem jeito, lá vou eu para minha luta diária. CENA 2 – Escola onde Kátia trabalha Kátia (chegando na escola onde trabalha) apressada - Bom dia! Bom dia! Preciso ir logo, até mais tarde. Bruna (secretária da escola) - Bom dia! Até mais tarde 156 Kátia - Bom dia! Crianças! Vamos passar a rotina de hoje. - Cadê o Caio? Ele não veio? - Que bom! Terei um dia de paz hoje. Nem acredito. CENA 3 – Intervalo / sala dos professores Profa. Ana Paula - Bom dia! Kátia, está tudo bem com você, ultimamente percebo que anda cansada. Profa. Kátia - Bom dia! É verdade estou esgotada e nem tenho vontade de vir dar aula Profa. Ana Paula - Por que? O que está perturbando você. Profa. Kátia - Estou com um aluno muito difícil, ele grita, chinga e bate em todas as crianças da sala. - Já tentei de tudo e não consigo integrar este aluno com a sala. Profa. Ana Paula - Você já tentou falar com a família dele. Kátia - Sim, e percebi que a criança é quem manda na casa. - E não obtive nenhuma ajuda por parte deles Ana Paula - E qual foi a orientação da coordenação? Kátia - Para deixá-lo ao meu lado e conversar com ele sobre suas atitudes. Ana Paula - Estou entendendo, você está com problemão e não tem ninguém para te auxiliar. - E esta situação está deixando você sem chão e sem saber o que fazer. - Vou ajudá-la. Kátia - Poxa! Quem sabe você é a luz no fim do túnel. - Obrigada * Acabou o intervalo e ambas voltaram para a sala de aula CENA 4 – Horário de saída Kátia - Ana Paula, podemos conversar agora? Ana Paula - Claro que sim. Sente-se. - O que você acha de trocarmos ele uns dias de sala, ele ficará comigo e perceberá a falta de seus amigos e de você. Kátia - Adorei a idéia! Vamos pedir a coordenação para autorizar esta troca por 3 dias. Ana Paula CENA 5 – (Sala de aula) Kátia 157 - Bom dia crianças! Hoje teremos uma novidade. - O Caio foi convidado para passar 3 dias na sala da Profa. Ana Paula. - Então, Caio pegue seu material que já está na hora Caio - Eu não quero ir. Vou ficar aqui. Kátia - Você vai gostar, no final do dia vou lá visitar você. *Caio foi CENA 6 (Caio na sala da Profa. Ana Paula) Caio - Professora, já posso voltar para a minha sala agora Profa. Ana Paula - Não, você é meu convidado por 3 dias e depois você volta tá. Caio - Eu estou com saudades da Profa. Kátia. Você promete que depois eu vou voltar para lá. Profa. Ana Paula - É claro, sei que você vai ficar comportado e voltará para a sua sala. CENA 7 (Depois de 3 dias) Profa. Kátia - Bom dia! Hoje é o dia de Caio voltar, vamos chamá-lo. - Oi Caio! Tudo bem? Vamos para a nossa sala Caio (saiu correndo e abraçou a profa. Kátia) - Oba! Oba! Hoje eu vou voltar? Kátia - Sim, todos vieram te buscar Caio (deu um abraço na profa) - Obrigada pelo convite profa Ana Paula, mas quero ficar com a minha turma. *Todos voltaram para a sala Kátia - Seja bem vindo Caio, nós sentimos sua falta. Caio - Eu também, prometo que vou ser legal com vocês. CENA 8 (dias depois) Kátia - Ana Paula, nem sei como lhe agradecer pela ajuda - Meus alunos estão recebendo bem o Caio e ele está integrado ao seu grupo. Ana Paula - Que bom! Fico feliz por você e por ele. Kátia - Obrigada! CENA 9 (em casa) Kátia - Nossa! Quase perdi a hora, hoje temos um dia cheio na escola. - Vamos terminar a maquete para a exposição. 158 Marido de Kátia - Nossa! O que aconteceu, cadê seu desanimo e cansaço Kátia - Acabaram Marido - Como? O que aconteceu? Kátia - Recebi apoio de uma prof que trabalha comigo - Ela me ajudou a resolver o problema que eu tinha - Agora, sei com quem posso contar. - Lá vou eu, estou com pressa. Kátia deu um beijo em seu marido e saiu FIM!!! A peça escrita por Néia apresenta nove cenas, sendo parte delas na casa de uma professora e as demais na escola na qual leciona. Existe uma clara preocupação em escrever a cena de forma dramatúrgica, não apenas pelos diálogos como também pela indicação de ações das personagens. O conflito apresentado pela peça é de uma professora que não sabe o que fazer com um aluno indisciplinado e que recebe a ajuda de uma colega, após uma tentativa frustrada de receber auxilio da coordenação. Novamente neste caso, assim como na cena de Memê, o castigo e a exclusão são a solução para a postura inadequada do aluno. Desta vez não sendo possível contar com o apoio nem da família, nem da coordenação, o aluno é transferido para outra sala por três dias, fazendo com que ele sinta a falta da professora e dos colegas. A faixa etária dos alunos não é claramente definida, mas fica evidente que são alunos pequenos, sendo provavelmente de Educação Infantil ou das primeiras séries do Ensino Fundamental, o que faz com que a medida adotada seja eficiente. Embora a escolha pelo castigo seja apresentada, desta vez ele é disfarçado, fazendo com que possa ser compreendido como um passeio para a 159 classe vizinha. Entretanto, a professora deixa claro em sua fala ao ser questionada pelo aluno se poderá voltar para sua sala: - É claro, sei que você vai ficar comportado e voltará para a sua sala. Pela forma como a cena é finalizada, Néia esclarece que a relação estabelecida entre ela e nossa pesquisa se dá pela importância da professora ter com quem contar, ter alguém em quem se apoiar, podendo, assim, voltar a ter vontade de trabalhar. Novamente na cena de Néia, como em outras apresentadas, a falta de apoio gera desestímulo e desinteresse pelo trabalho. Em nenhum momento se percebe a existência de outros profissionais que pudessem auxiliar a professora, como a coordenadora pedagógica ou a orientadora educacional. Nesta peça, assim como em outras situações narradas, são os professores, que agiram em auxílio da colega em relação ao conflito apresentado. 4.1.8 Rocha “PEÇA TEATRAL: O menino e o professor CENA 1 Em cena, a criança, aproximadamente treze anos de idade, olhos brilhantes e uma expressão de descoberta. Seu nome é Pedro Henrique. O professor, trinta anos, ar jovial e corpo atlético, novo na cidade, seu nome é Jaime. É um domingo ensolarado, e o parque da cidade está repleto de amantes da saúde e do bem estar. Muitos andam de bicicleta, correm ou simplesmente dormem à sombra das árvores. Quando de repente Pedro Henrique, que andava em sua bicicleta, perde o freio e atropela uma pessoa, e os dois caem no gramado. A preocupação é geral, o atropelado, levanta e logo vai prestar socorro do menino que também se levanta, assustado. O ATROPELADO: Você está bem? A CRIANÇA: Estou bem sim, perdi o freio. O ATROPELADO: Você surgiu do nada, tem certeza que está tudo bem? Você está sozinho? A CRIANÇA: Minha mãe está na lanchonete. Vou encontrar com ela. Os dois se olham e começam a rir, pois o tombo foi realmente engraçado. 160 CENA 2 Na escola, sala quinze, oitava série, a turma numa algazarra só, o Pedro Henrique, contando o acontecido no parque. Todos rindo e curiosos da aventura do amigo. Entra o novo professor de Ciências, Jaime, a turma ainda não o conhecia. PROFESSOR : Bom dia turma! Disse entusiasmado. Todos foram se acalmando e se colocando no lugar. PROFESSOR: Hoje é o nosso primeiro dia..... Foi interrompido com as gargalhadas no fundo da sala.... PROFESSOR: Alguém quer explicar o motivo da gargalhada? Levanta-se Pedro Henrique. Bom dia Professor, não sabia que seria nosso professor. PROFESSOR: Pois é, um acidente no parque quase nos separou. Mas estamos aqui e vamos ter muito trabalho pela frente. Pois pretendo mostrar a vocês o mundo mágico das Ciências usando o nosso exemplo. PEDRO: Que exemplo? PROFESSOR: O acidente, O TOMBO será o nosso primeiro trabalho nesta turma. As cenas são curtas, mas mostram o que considero como um aprendizado muito importante neste curso. Todas as nossas ações e nossa relação com o mundo e as coisas tem um aprendizado e precisam ser interpretados e avaliados constantemente. Alessandra, obrigada por fazer parte deste momento de aprendizado.” Rocha A peça de Rocha apresenta duas cenas que definem o espaço e as personagens com clareza. A primeira delas é a de uma criança que atropela um homem no parque, com sua bicicleta, mas nenhum dos dois se machuca, terminando em risadas. A segunda é em uma sala de aula na qual o menino está contando para os colegas o acidente no parque e o novo professor entra na sala, e é o homem que havia sido atropelado. O professor aproveita o incidente para dar a matéria. Rocha se preocupa em caracterizar as personagens e dar referências de suas ações, demonstrando preocupação em escrever um texto dramatúrgico. É interessante observar que o professor retratado na cena soube aproveitar uma situação cotidiana e um motivo que poderia ser tomado como dispersão dos alunos, passa a ser forma de mobilização para a aula e seus conteúdos. 161 No final da cena, Rocha explica a importância da relação entre as ações, o mundo e o aprendizado. A fala de Rocha, assim como sua cena, nos remetem a Ostrower quando ela diz: Toda atividade humana está inserida em uma realidade social, cujas carências e cujos recursos materiais e espirituais constituem o contexto de vida para o indivíduo. São esses aspectos, transformados em valores culturais, que solicitam o indivíduo e o motivam para agir. Sua ação se circunscreve dentro dos possíveis objetivos de sua época. Assim o conceito de materialidade não indica apenas um determinado campo de ação humana. Indica também certas possibilidades do contexto cultural, a partir de normas e meios disponíveis. (1987, p.43) A fala de Ostrower propõe a idéia de que qualquer ação criativa se relaciona, não somente com a materialidade que dispõe para criar, o que, no caso do teatro, diz respeito ao corpo dos atores, ao espaço, adereços, sonoplastia e demais recursos que possam existir, mas também com o momento histórico em que a obra é feita. Toda criação se relaciona com o lugar onde é feita, com a época em que é produzida. Estas relações definem características e possibilidades, além de limites. Na cena escrita por Rocha, no décimo encontro68, ela apresenta uma conversa entre um professor, que em sua aula só coloca matéria na lousa, a coordenadora e o diretor. Em um determinado momento da cena, o professor afirma que estes alunos não irão muito longe, que não tem condição de aprender, são alienados e não vão chegar a cursar a Universidade. Neste momento o Diretor interfere e afirma: - Professor, estou nessa profissão a trinta anos, professores com vontade e preparados, vi muitos, professores desmotivados e despreparados, vi centenas, porém alunos prontos, nunca vi nenhum... O Senhor é O professor e é o Senhor que tem que estar preparado. Rocha, ao ressaltar a importância do preparo do professor para a docência que, segundo ela mesma, se relaciona ao estar no mundo, ao existir, além de chamar a atenção para o estado de transição, de permanente transformação pelo 68 Ver anexo 3. 162 no qual o aluno se encontra, remete à Oliveira em sua reflexão sobre as relações entre o trabalho do professor e do artista. O espaço da criação foi tratado e entendido como um espaço comum de artistas e educadores. Ambos exercem, guardadas as proporções devidas e sempre ressaltadas ao longo da presente tese, o ato criativo em seus ofícios. No caso do educador, o qual me toca particularmente, é preciso que o Outro seja considerado no processo de educação como o agente fundamental, e não como matéria-prima amorfa a servir aos interesses ideológicos ou técnicos de um modelo educacional tendencioso, limitando-se, por isso mesmo, desumano. (2004, p.255) Oliveira demonstra a importância de que a criação docente se dá em relação, não há um ato solitário do professor, já que ele tem diante de si uma pessoa com quem ele necessita estabelecer contato e, a partir daí, poderá criar. 4.1.9 Sandra “O PROBLEMA DE MARI CENA 1: Mari entra no palco, senta-se no sofá e começa a explicar para a platéia a situação que está querendo resolver. Mari: Finalmente minhas férias chegaram! Quero descansar muito e também resolver aquele velho probleminha de autoridade. Não vejo a hora que comecem as aulas do Curso de Liderança. Dizem que esse curso ensina técnicas milagrosas que ajudam a gente a se relacionar melhor e ser um chefe mais legalzinho... Eu trabalho como gerente numa empresa e já passei por situações terríveis com alguns funcionários. Imaginem que o Fernando, o estagiário magrelo, nem tomou conhecimento da nova organização que implantei e ficou com cara de bobo quando chamei-o para conversar..... A Belinha, minha secretária, essa eu não agüento mais. É muito boa pessoa mas eu peço uma coisa e ela faz outra, é sempre assim, nunca faz exatamente o que peço! Eu preciso aprender a lidar com essas pessoas senão vou ficar maluquinha logo, logo!!! Cena 2: Cenário do curso. Cinco pessoas sentadas em volta de uma mesa e um coordenador dando informações sobre o curso. Coordenador: Meu nome é Sérgio. Sejam bem-vindos e estejam a vontade para perguntarem o que quiserem. Em primeiro lugar, gostaria que cada um de vocês 163 se apresentasse e falasse um pouco sobre sua vida profissional e também o porquê buscaram este curso. Narrador: Os participantes começaram a falar sobre sua vida profissional e as razões que os levaram a estar ali. Eram dois executivos, um médico e até uma dona de casa. Mari sentiu-se a vontade diante do grupo e falou muito sobre o problema de autoridade que tinha com os funcionários da empresa que trabalhava. A dificuldade de Mari era praticamente a mesma dos demais; inclusive da dona de casa que tinha problemas de relacionamento com os filhos. Coordenador: Muito bem! A partir deste momento, passaremos a entender e praticar algumas atividades de integração e sensibilização de grupos e, posteriormente, trabalharemos com jogos teatrais e vocês aprenderão algumas técnicas que os ajudarão muito nos relacionamentos interpessoais. Os participantes mostraram-se um pouco perturbados, porém, ansiosos pelo que fariam. Começaram a se agitar nas cadeiras e falarem entre eles sem parar. Cena 3: Mari está novamente deitada no sofá e conta para a platéia tudo o que aprendeu no curso. Mari: Gente, vocês nem imaginam as coisas maravilhosas que eu aprendi no tal Curso de Liderança. Agora eu me sinto mais livre, leve e solta.......com vontade de fazer um monte de coisas diferentes. A minha capacidade de observação aumentou e minha auto-estima está muito elevada. Percebi que sou capaz de alterar muitas situações na minha vida e ser uma pessoa mais assertiva . O estagiário Fernando e a secretária Belinha estão até me olhando diferente. Parece que eles prestam mais atenção em tudo o que eu falo e estão mais competentes também. Mari levanta-se do sofá e dirige-se ao público dizendo: Mari: Recomendo que todos vocês façam um curso como este e aprendam a usar os jogos teatrais sempre que estiverem envolvidos em alguma situação com grupos. Começa a cantar e dançar enquanto as cortinas se fecham.” Sandra apresenta uma peça onde cada cena já está proposta para uma encenação. É o único texto que define cenários e não apenas locais da cena. As rubricas definem a movimentação dos atores e, dentre as personagens, é incluído um personagem-narrador que explicita parte da cena para a platéia. É interessante observar que a peça relaciona o trabalho da pesquisa com um curso de liderança, apresentando os jogos teatrais como um ótimo recurso, que oferece técnicas para lidar com grupos. Apesar da situação criada ser distante do universo escolar, Sandra reconhece, no jogo teatral, a possibilidade de encontrar formas de ser mais clara, mais comunicativa e mais bem compreendida em suas relações. Entretanto, 164 diferentemente do que se deseja no espaço escolar, a queixa da personagem, que poderia se identificar com o professor ou coordenador de uma escola, é de que o estagiário não havia tomado conhecimento da nova organização implantada por ela e que a secretária não fazia as coisas que ela pedia, apesar de ser boazinha. Se pensarmos na possibilidade de um paralelo entre o professor e a personagem da chefe apresentada na cena, ou dos funcionários em paralelo aos alunos, certamente a compreensão de educação se dá na perspectiva de alunos que somente obedecem ao que lhes é proposto pelo professor, sem nenhuma interferência nas escolhas do que e de como será o aprendizado. Porém, a experiência do jogo teatral permite que a personagem se sinta mais livre, com desejo de mudanças, mais observadora e com maior auto-estima. Podemos imaginar que, com estas novas características, a personagem poderá estar mais atenta às pessoas com quem trabalha e com mais liberdade para criar novas soluções para os problemas enfrentados. ________________________________________________ As peças criadas pelo grupo demonstram a ampliação do domínio das professoras na escrita dramatúrgica. Todas as peças foram estruturadas em diálogos e apresentaram indicações dos movimentos dos atores. Algumas das professoras, também, deram referências de cenários e caracterizações das personagens. A dificuldade em escrever, expressa tanto verbalmente como nos questionários finais, certamente foi enfrentada por este grupo e parcialmente superada, o que se percebe na qualidade conquistada neste curto período de trabalho. Antes da escrita das peças, no décimo segundo encontro, solicitei que fosse feita uma síntese de nosso curso, na qual fossem apresentados os aspectos significativos para cada participante. Três das peças criadas exploraram 165 o desespero das professora pela indisciplina dos alunos e pela falta de apoio da coordenação e direção. Duas apresentaram alunos com condutas inadequadas, mas as professoras tinham o apoio da direção e/ou dos pais. Uma apresentou um aluno com problemas que é ajudado pela equipe da escola. Duas peças retratam situações externas à escola, sendo uma referente a esta pesquisa e outra a um curso no qual a personagem não é de uma professora. Somente uma peça apresentou uma situação de ensino positiva. Na maioria das peças criadas, fica evidente a importância dada ao trabalho coletivo, à possibilidade de sentir-se parte de um grupo, de ter pessoas com quem refletir e a quem pedir ajuda nos conflitos cotidianos. A violência vivenciada, tanto pelos professores, ao serem agredidos e desrespeitados pelos alunos, como pelos alunos, no abandono ou na agressão física e verbal sofrida pelos pais, também esteve presente em parte das peças. Muitas cenas foram escritas, personagens criados, conflitos explicitados e mais bem percebidos pelo ato de escrever, de elaborar parte do que foi experimentado pelos jogos e pela reflexão sobre os mesmos. (...) Pensamos através da fala silenciosa. Realmente pensa-se falando. Mas o pensar e o falar só se tornam possíveis dentro do quadro de idéias de uma língua. Esta, por sua vez, está inserida no complexo de relacionamentos afetivos e intelectuais próprios de uma cultura. Assim, cada um de nós pensa e imagina dentro dos termos de sua língua, isto é, dentro das propostas de sua cultura. (...) Usamos palavras. Elas servem de mediador entre o nosso consciente e o mundo. Quando ditas, as coisas se tornam presentes para nós. (OSTROWER, 1987, p.20-21) Entendo que nos muitos diálogos que estabelecemos entre o grupo, seja por intermédio dos jogos, das conversas ou da construção de textos escritos que, também, foram lidos e, novamente, foram fonte de jogos e de outras reflexões, pudemos compreender melhor os conflitos vividos dentro da escola, diferentes facetas do papel do educador. As peças escritas apresentaram novas elaborações do que foi experimentado pelo grupo nos jogos e nas reflexões. Foi possível perceber na 166 maior parte dos textos, o descolar-se que permitiu ao grupo ir além do que foi visto, ouvido e falado. As criações feitas por intermédio desta escrita criativa nos indicam as relações estabelecidas entre o que vivenciamos no curso e as experiências individuais como docentes. Nos textos, observamos, ainda, referências a conflitos explorados nas improvisações; entretanto, somente uma das peças reproduz atividades de um encontro nosso, três delas partem de conflitos semelhantes, porém reelaborados e cinco propõem situações novas, que apresentam temáticas dos vários encontros. As professoras participantes da pesquisa, no decorrer da escrita, trouxeram novas personagens, criaram situações e conflitos que relacionavam o cotidiano docente com os temas e os jogos experimentados. A dificuldade em escrever, em encontrar situações e conflitos que pudessem refletir o que vivenciamos pelo jogo e pela reflexão, foi sendo superada a cada encontro, nos textos que se tornaram cada vez mais dramatúrgicos. A criação de personagens, de conflitos, a imaginação de situações permitiu um diálogo maior com o jogo teatral. A busca por uma escrita que levasse à cena, possibilitou novas percepções sobre o jogo. Esta troca entre jogo e escrita apresentou, não apenas, um aumento na qualidade dos textos, mas, também, contribuições da escrita para o jogo. A compreensão da escrita como um instrumento de reflexão e de criação permite ao professor um novo enfoque para uma prática presente em seu trabalho. Incluir a criação no ato de escrever pode apresentar não apenas uma outra postura para o docente no preparo de suas aulas, como também no encaminhamento junto aos alunos. Iniciei este capítulo com uma cena que apresenta uma criança aprendendo a escrever o próprio nome e considero que a escrita dramatúrgica, nesta 167 pesquisa, possibilitou a experiência do criar com as palavras, na busca de uma melhor compreensão sobre o que é ser docente. Entendo que a criação construída pela escrita dramatúrgica foi um elemento significativo desta proposta de formação de professores, que pretende ainda permitir ao professor uma postura de reflexão sobre o próprio trabalho, assim como uma atitude criativa, de permanente percepção e transformação do universo onde está inserido. CAPÍTULO 5 Considerações finais 171 CAPÍTULO 5: Considerações Finais CENA 5: ESCOLA CENA 1 A peça começa com as cortinas fechadas, metade da platéia está vazia, os espectadores só podem se sentar da metade para cima do teatro. Em meio às cadeiras vazias, somente uma pessoa, a personagem platéia, quieta, olhando. Não é possível definir a idade desta pessoa, porém observa-se a expectativa sobre o que virá. Nas paredes laterais do teatro estão colocados pequenos camarins, penteadeiras com espelhos, semelhante a um camarim. Notam-se diversos objetos de cena, de figurino, maquiagens, adereços para personagens dos mais diversos tipos. Uma pessoa começa a se movimentar em frente às cortinas, no pequeno espaço que a separa entre a cortina e o final do palco, anda de lá para cá. Desde que o público entrou no teatro, ouve um barulho de descarga intercalado com um sinal de escola. A personagem que caminha é uma professora típica, calça jeans, óculos, meio gordinha, com livros e cadernos nas mãos, uma bolsa pendurada, uma blusa que não se ajeita completamente no corpo, afinal ela carrega coisas a mais do que os braços dão conta. PERSONAGEM 1: Este grupo que vocês irão assistir é uma surpresa e, é uma surpresa por ser surpreendente. Falam com vontade, todas falam com muitos atropelos, mas não é por não saberem ouvir, é pela necessidade de falar, de explicar o que foi pensado, como aquilo foi vivido, o que se passou no corpo, nos olhos, nas “minhocas” que levam dentro da cabeça e que, em dias como esses, se movimentam com mais rapidez, com mais vontade. Para mim, foi uma grata surpresa, não precisei descobrir em nenhum momento maneiras de mantê-las interessadas. Já é tão difícil provocar os movimentos das minhocas, foi uma grande sorte não precisar, também, encontrar maneiras de acender as pequenas fogueiras das articulações. 172 Enquanto a PERSONAGEM 1 fala, caminhando pelo pequeno espaço do palco, algumas personagens se colocam em frente aos espelhos e terminam de se maquiar ou vestir. CENA 2 A cortina se abre, aos poucos, a PERSONAGEM PLATÉIA se mexe ainda mais na cadeira, ficando quase em pé. O som de descarga e de sinal vai sendo substituído pelo de tambores. No palco, um cenário cheio de caixas de diversos tamanhos, colocadas de forma a causar a impressão de um abismo, ou de um computador visto por dentro. Algumas personagens já estão no palco e, as outras, saem de seus camarins e se dirigem ao palco. A PERSONAGEM 1 fica de canto, observando. As personagens são: Pai preocupado Aluno rebelde Professor preocupado Professor participativo Aluno descontraído Cidadão preocupado Criança alegre. Todos caminham entre as caixas, cada qual falando e se movendo conforme suas características. Nenhum deles parece se ver, todos falam ao mesmo tempo e não se tocam, independentemente da proximidade em que estejam. A PERSONAGEM-PLATÉIA perde o interesse, se ajeita na cadeira e dá sinais de que dorme. CENA 3 Um barulho de bomba e um vento, um furacão que vai derrubando todas as caixas, as personagens se movimentam cada vez com maior rapidez, mantendo 173 as falas e os movimentos, porém, mais acelerados. A PERSONAGE-PLATÉIA acorda assustada, volta a olhar, sem tanto interesse. A PERSONAGEM 1 corre em volta do palco e joga para fora dele todas as caixas que encontra pelo caminho. Aos poucos, o palco vai se esvaziando até ficar totalmente vazio, permanecendo os personagens que ainda se movimentam e falam com muita rapidez. Personagem 1 anda pelo palco, enquanto retira as últimas caixas. PERSONAGEM 1: Aquecimento, Jogo do preso, movimentem as articulações, fala espelhada, o mais significativo, jogo da bola, escrita das cenas, pega-pega com explosão, contato, escrita das cenas, carimbó, dança dos pés, aquecimento, o que vocês acharam? Quatro músicas começam a tocar ao mesmo tempo, são elas: tan-tan-tan-tan de Bethoven, “We are the champions”, música do Gipsy Kings e ‘Mundo ideal’ (do filme Aladin). As personagens saem todos do palco, fica somente a PERSONAGEM 1 encostada na parede, em um lado do palco. Quando todos saem, a música para e fica um som de batidas do coração baixo. Entra o BUFÃO/MILITAR apresentando seu lado militar para a platéia. BUFÃO/MILITAR: Fica quieto! Senta! Você aí, acorda e nem pense em ser grossa comigo, nem pense em responder que aqui quem dá as ordens sou eu. (Vira o lado Bufão) Ora, ora. Quanta gente, quantos olhos! Olhem só para aquele, em uma só cara tem quatro olhos, isso é que é ser curioso. Há, há, há. Entra uma dupla de médicos, fazendo o jogo do espelho, um deles carrega um abajur. O BUFÃO/MILITAR sai do foco, mas permanece em um lado do palco se apresentando ora como Bufão, ora como Militar, fazendo gestos de acordo com cada personagem. MÉDICA 1: Não, não, não, a função do médico não é curar. MÉDICA 2: Você não me entendeu, estou de acordo, a cura se dá no paciente e é sabendo escutá-lo que podemos perceber quais são as suas necessidades. 174 MÉDICA 1: E há quem diga que é só quando as pessoas já estão doentes que podemos fazer alguma coisa. A verdade é que o que elas nos falam se relaciona, sempre, com a sua vida pessoal. Ou será que o que ouvimos é que se relaciona sempre com a nossa vida pessoal? Colocam o abajur em uma parte do palco e acendem a lâmpada, continuam a falar; porém, já não se escuta mais a conversa dos dois, pois entra uma bailarina cruzando o palco. O som das batidas de coração ficam mais fortes e ela dá algumas piruetas e saltos. Quase no mesmo momento, entra, do outro lado do palco, um Dom Quixote, que fala para um alpinista que vem logo atrás. DOM QUIXOTE: Eu concordo com você que precisamos sempre continuar a escalar, a subir, o caminho é longo. O alpinista olha e suando, com movimentos de quem está em meio a uma montanha, carregando um livro, além dos equipamentos, faz movimentos de concordância. DOM QUIXOTE: Mas, além do sonho, além da necessidade de acreditarmos, eu gostaria muito que pudéssemos esclarecer: Afinal, quem é responsável pelas coisas? Sem esta definição não há montanha que chegue ao fim. O foco da cena passa para uma fada, com asas e uma varinha de condão, mas com chapéu de bruxa e uma verruga no nariz, jogando água em toda a cena com um bebedouro portátil. A fada faz mágicas em pessoas invisíveis com sua varinha de condão, enquanto fala: FADA: Ora, mas o que você quer, não é o suficiente ter te transformado em alguém interessado. (Vira para outra pessoa invisível) Qual o problema da minha verruga? (Vira novamente) Bruxa, bruxa. Sou fada e bruxa, não apenas uma. A luz da fada se apaga e se acende em uma cozinheira que já estava no canto do palco, com uma grande panela, como um caldeirão e muitos ingredientes que são colocados com movimentos variados, ora de forma carinhosa, ora de forma enérgica, ora ansiosa, ora curiosa. 175 CENA 4 Ouve-se o som muito alto de um relógio e entra um mágico que tira da cartola diários de classe, giz, apagador, livros, réguas, esquadros, microscópios, mapas, globos e vai distribuindo para todas as personagens que estão congeladas. No momento em que as personagens pegam os objetos, tiram os figurinos de suas personagens e vão se tornando professoras típicas, algumas de óculos, gordas ou magras, com roupas de vários tipos, mas com cara de professores. Todas, inclusive o mágico, estão dando aula, algumas falam de forma tranqüila, outras enérgicos, propõem atividades, consolam alunos, discutem com outros, dão explicações, corrigem provas, preparam aulas, escrevem na lousa, apitam um jogo, ensaiam uma dança, contam uma história, pegam uma criança que se machucou no parque... O som do relógio permanece baixo, as personagens-professores se movimentam de forma quase imperceptível e a PERSONAGEM 1 vai até a frente do palco. Enquanto ela fala, ouve-se, aos poucos, uma música cantada pelas demais personagens, como uma ciranda. PERSONAGEM 1: Ei, você! Ainda aí? Sobe aqui, pode trazer a tua cadeira se precisar. (A PERSONAGEM-PLATÉIA sai de sua cadeira e vai com ela em direção ao palco, enquanto a personagem 1 continua a falar) Agora seria a hora de fechar a cortina, mas embora seja a nossa última cena, a cortina terá que continuar aberta. É que estas professoras aqui continuam com vontade de conversar. Eu, como uma delas, também continuo e, embora esta seja nossa última cena, preciso dizer que agradeço a cada uma que chegou até aqui e também às que saíram em cenas anteriores, antes de a peça acabar. Agradeço a disponibilidade de participar do sonho que começou nas minhas minhocas e de possibilitarem não apenas que ele acontecesse, como também que se transformasse, que ganhasse caras e caretas, além de corpos e de formas, que eu jamais poderia imaginar sozinha. Termino esta peça com vontade de criar outras mais. Oxalá me depare com outras personagens/professoras como vocês. A PERSONAGEM 1 sai da frente do palco e se junta às demais personagens em movimentos e canto. 176 A peça que abre este capítulo foi escrita assim que terminei de realizar a pesquisa de campo. Escrevi, tendo como base as diversas reflexões feitas pelas professoras no decorrer da pesquisa, parti das sínteses apresentadas pelo grupo para criar uma peça que sintetizasse para mim aspectos significativos do trabalho. A leitura da peça, certamente possibilitou aos leitores uma ou algumas compreensões sobre o significado que a mesma pode oferecer para cada um. Entretanto, farei a seguir, uma análise das cenas apresentadas, relacionando-as com os aspectos que entendo poderão responder à questão central desta tese, isto é, questionar em que medida a participação em um experimento de improvisação, por meio do jogo teatral, a escrita dramatúrgica e a reflexão do professor de educação básica podem ser considerados como instrumento para formação continuada. A primeira cena apresenta, antes mesmo de a cortina se abrir, uma personagem indefinida, mas com bastante expectativa sobre o que veria no teatro. A escolha pela existência desta personagem se baseou tanto na expectativa dos alunos perante o aprendizado, como na dos professores, principalmente no início de carreira, diante da possibilidade do educar. Nas respostas dadas à pergunta 2069 do questionário inicial desta pesquisa, fica evidente que, para aquelas professoras, possibilitar o aprendizado é o que há de melhor na docência. A expectativa deste aprendizado, da aquisição de novos conhecimentos, novas formas de pensar, novas formas de compreender e estar no mundo é, sem dúvida, o principal motor, tanto para quem vai à escola na condição de aluno, como para quem escolhe a profissão de educador. Nesta mesma cena observam-se diversos pequenos camarins na lateral do teatro. Podemos compreender esta escolha como a possibilidade de o professor se transformar, criar tipos, personagens como recurso para a atuação docente. Porém, chamo a atenção para outro aspecto que permeia esta abordagem sobre a formação dos professores, que é o papel assumido pela escola como instituição dentro da sociedade. 69 O que existe de melhor e de pior em ser professor? 177 Em diferentes momentos da pesquisa, foi possível observar a multiplicidade de papéis assumidos pelos educadores dentro da escola. Atribui-se à escola a função de educar dentro de uma abrangência bastante questionável. Destina-se à escola o ensino de hábitos de higiene, de orientação alimentar, de orientação sobre a saúde, a educação sexual, da moral, da ética, além, evidentemente, do aprendizado dos diferentes conceitos sistematizados em forma de disciplinas curriculares, como Português, Matemática, História, Física, etc. A simples observação da realidade escolar, apresentada na resposta de Julia à pergunta 1170 do questionário final, demonstra claramente a necessidade de que sejam reformuladas as condições estruturais da organização do sistema público de ensino, para que o professor possa contribuir mais significativamente para a aprendizagem do aluno: Eu levei um grande susto no início do ano, quando me deparei com a desorganização do sistema escolar estadual. Sabia que o ensino público não estava uma maravilha, mas percebi que a realidade é ainda mais cruel. E essa idéia permaneceu ao longo do curso. (QF Julia) A desorganização do sistema escolar apontado por Julia se deve a uma série de fatores importantíssimos para a compreensão do problema, tais como a falta de recursos físicos adequados, salas sujas, cadeiras em mal estado, falta de equipamentos; necessidade de avaliação médica para problemas de visão e audição, dentre outros. Ressalto, neste momento, a necessidade do estabelecimento de uma política pública que compreenda os limites da atuação escolar e incorpore ações de outras instituições sociais para o atendimento das necessidades apresentadas pelos alunos, permitindo não apenas a entrada nas séries iniciais, mas sua permanência até a conclusão do Ensino Médio. A condição das escolas, a falta de apoio da sociedade, a violência percebida nas relações cotidianas levam a um estado de insatisfação por boa parte dos docentes, ocasionando, por vezes, o abandono, conforme relatado por Lemos (2009). 70 Participar deste curso provocou alguma mudança na imagem que você tem das escolas? Por que? 178 É interessante observar que para professoras com maior tempo de docência e maior conhecimento do universo escolar, a pesquisa possibilitou uma nova compreensão sobre as escolas, ainda que tenha sido somente para parte das participantes. De alguma forma, ocorreu uma certa mudança na imagem que eu tenho da escola, pois todas as situações vivenciadas através das cenas teatrais, envolvendo todos os que trabalham na escola, ampliaram os meus conceitos em uma visão mais ampla e mais completa do funcionamento da escola, como um todo.(QF Memê) A imagem que eu tenho das escolas permanece a mesma. Acho que o que mudou foi o que pode ser feito dentro de uma escola e alterar a qualidade de ensino. (QF Sandra) Compreendo que uma proposta de formação continuada deve permitir aos educadores uma ampliação da compreensão sobre o funcionamento da escola e apontar caminhos para a solução de parte dos problemas vivenciados. A exploração do conceito do Onde, do espaço na cena teatral, possibilitou o estabelecimento de relações entre ele e as situações escolares. Os cenários e objetos de cena escolhidos nos momentos de reflexão como símbolos sobre os encontros, também permitiram uma ampliação da compreensão dos problemas vividos. A sonoplastia proposta para a primeira cena aborda dois aspectos presentes em nossas reflexões: a falta de tempo para a reflexão sobre o trabalho, simbolizada pelo sinal e a necessidade de limpeza de uma condição de atuação bastante degradante, simbolizada pela descarga. O aspecto da sujeira que a descarga aponta pode ser observado, também, nas condições físicas de boa parte dos edifícios escolares; entretanto, o foco desta pesquisa está no educador e a desvalorização vivida por estes profissionais é fator de desestímulo e decepção com a profissão. 179 A Personagem 1 que atua como narradora na peça, na cena 1 fala do grupo a que a platéia irá assistir, ressaltando o fato de ser um grupo que fala com vontade, todas falam com muitos atropelos, mas não é por não saberem ouvir, é pela necessidade de falar, de explicar o que pensou, como aquilo foi vivido, o que se passou no corpo, nos olhos, nas minhocas que levam dentro da cabeça e que em, dias como esses, se movimentam com mais rapidez, com mais vontade. Esta fala da personagem acentua a importância da reflexão, da troca, do diálogo presente em todos os momentos da pesquisa, que foi muito valorizado pelo grupo em suas respostas ao questionário final. Compreendo a reflexão como parte do processo criativo experimentado tanto nos jogos como na escrita dramatúrgica. O ato de refletir faz parte da criação, o criar se estabelece em permanente diálogo reflexivo, no movimento de percepção sobre as opções possíveis para que sejam feitas escolhas e novas formas sejam definidas (Dewey, 1974). Em diferentes momentos do trabalho ficou evidente a necessidade do grupo falar, relatar situações vividas, poder refletir coletivamente sobre formas de lidar com os conflitos do cotidiano, sobre as angústias e dificuldades encontradas. O contato entre os pares foi valorizado, da mesma forma que o contato entre corpo docente e discente, como aspecto necessário para o aprendizado. Parte das respostas dadas à pergunta 371 do questionário final evidencia a importância da reflexão. Individualmente: o diálogo sempre. Coletivamente: o respeito ao outro e a necessidade de se trabalhar em grupo, valorizando o que o outro pode oferecer. (QF Ana) Individualmente refleti a cada encontro sobre a minha prática pedagógica. Hoje, compreendo um pouco mais qual é o meu papel, o da família e dos dirigentes da instituição, sempre em beneficio do aluno. Sinto-me mais solta devido às encenações e acredito que evolui em relação a escrita das cenas. Coletivamente ocorreu uma grande interação e afinidade a cada encontro. O 71 Quais os aprendizados que este curso possibilitou? Individualmente e coletivamente. 180 grupo, muito falante e critico, soube respeitar as opiniões e particularidades de cada membro, o que possibilitou discussões riquíssimas de cada tema. Ou seja, aprendemos a nos respeitarmos e crescemos em conhecimentos. (QF Cris) O curso proporcionou uma reflexão sobre minha prática docente, através dele analisei as atitudes, as relações e o meu procedimento diante aos meus alunos. Coletivamente, acrescentou muitas trocas de idéias e informações sobre a educação e nossa profissão. (QF Néia) Despertou o desejo pela pesquisa, sobre ao temas abordados, propôs reflexões importantes sobre a prática pedagógica principalmente na escola Pública, onde a maioria do grupo está inserida. Individualmente trouxe reflexões e mudança na forma de pensar o trabalho pedagógico da escola. Coletivamente proporcionou a troca de experiências e a perspectiva de multiplicação do que foi absorvido pelo grupo. (QF Rocha) Estas respostas apontam, não apenas para a importância da reflexão, mas também para o fato de que ao ser feito um trabalho conjunto, rompe-se com a conduta solitária tão frequente na docência. A possibilidade de quebra deste sentimento de solidão é fundamental para que o professor tenha um grupo que o apóie em suas escolhas, como também para a concepção sobre o educar, incluindo a relação estabelecida com o corpo discente e com a comunidade escolar. No decorrer de toda a pesquisa, foi valorizado o fato de fazermos escolhas coletivas. Essas foram feitas desde o início do trabalho, na definição dos temas a serem explorados e a estrutura do jogo teatral solicita, permanentemente, tal postura. As respostas de Jô e Lilá à pergunta 672 do questionário final evidenciam a necessidade do trabalho coletivo e as dificuldades que ele propõe: 72 O que você aprendeu sobre trabalho coletivo? 181 É importante quando você sabe que pode contar com o outro, que não está sozinho e pode trocar experiências. Na verdade não aprendi, e sim comprovei no que sempre acreditei que a união faz a força. (QF Jô) Que não é fácil. Os pensamentos são muito divergentes, os comentários nem sempre pertinentes, e o “achismo” muito forte, porém a troca é muito significativa, nos dá forças para acreditar que podemos fazer a diferença, que tem alguém que ama o mesmo que você, e que briga por um mesmo ideal, que nós sem o outro não somos nada. (QF Lilá) Um dos aspectos presentes no jogo teatral que leva ao trabalho coletivo é a existência de um foco comum e outro é a existência de regras para que o jogo ocorra. O estabelecimento de regras dentro de um acordo do grupo, seja de educadores, entre educadores e alunos, ou na relação com a comunidade é fundamental para a realização do trabalho. A valorização da reflexão, também, foi observada nas respostas dadas à pergunta 973 do questionário final que, embora apresentem a dificuldade em escrever um texto dramatúrgico, valoriza esta escrita como um processo de reflexão, como uma forma de organizar o pensamento, como uma elaboração necessária e fundamental para a assimilação da experiência vivida pelo jogo. A escrita dramatúrgica permitiu, não apenas uma reflexão individualizada sobre os encontros, mas também um novo momento de criação sobre o que havia sido experenciado pelo grupo. Com a solicitação de uma escrita que demandou novas situações, novas personagens, uma elaboração sobre o vivido, o grupo extrapolou os limites da experiência, estabelecendo novas relações, indo além do jogo e da temática proposta. O cenário escolhido para a cena 2 novamente explora a falta de organização, de compreensão e de apoio presente no trabalho docente. Embora a maior parte das personagens apresentadas nesta cena seja de pessoas 73 Como foi escrever cenas teatrais? Qual a importância desta escrita neste trabalho? 182 preocupadas, são pessoas que não se veem, não se comunicam, falam, mas não escutam. O trabalho corporal desenvolvido, por intermédio dos jogos teatrais, trouxe para esta pesquisa a possibilidade de notar o outro em aspectos normalmente desconsiderados. Poder entrar em contato com o aluno percebendo suas manifestações corporais, permite a percepção de sua totalidade, já que não se valoriza, apenas, o conhecimento que ele soube expressar verbalmente, mas sua condição como um todo, observada em seus gestos, expressões faciais, forma de falar. A exploração do conceito de fisicalização possibilita ao jogador a busca de soluções físicas, corporais, para os conflitos propostos. Esta busca fará com que o jogador coloque sua atenção em seus recursos corporais, percebendo por intermédio de seu corpo e de seus sentidos novas formas de expressão. O trabalho com a personagem experimentado no jogo e na escrita, também, permite ao educador o exercício da alteridade, já que ele se coloca nas situações com a perspectiva de outros papéis, vivenciados pelos alunos, pais, funcionários, etc. Não há dúvida de que a compreensão dos conflitos e das opiniões vividas por todos os participantes da comunidade permitirá a proposição de acordos e soluções mais viáveis e que se aproximem das necessidades de todos. A estrutura do jogo, que estabelece a existência de parte do grupo no palco e parte na platéia, também, possibilita esta mesma ampliação da perspectiva do outro, já que você vê e é visto, ouvindo e comentando sobre o ocorrido no jogo a partir do foco estabelecido previamente. Da mesma forma que o jogo permitiu um maior conhecimento das “personagens” existentes na escola, também possibilitou a percepção de aspectos presentes no cotidiano escolar que não eram visíveis. As respostas dadas à questão 874 do questionário final confirmam esta afirmação. 74 Como os jogos teatrais interferiram na compreensão dos temas escolhidos? Qual foi a importância dos jogos teatrais para este trabalho? 183 Os jogos teatrais facilitaram a compreensão, devido à liberdade de expressão que usamos durante as cenas, e o uso da espontaneidade e a relação entre os participantes. O uso dos jogos teatrais foi fundamental para a interpretação dos temas abordados, sendo de suma importância no curso. Ele foi o grande diferencial em um curso de capacitação. Contendo aulas dinâmicas e reflexivas. (QF Néia) Os jogos, de forma muito objetiva, permitem o acesso a prática e levam ao campo da realização de ter o trabalho final, concreto e com a participação de todos os envolvidos. Quando colocados juntos aos temas tomam forma. (QF Rocha) A criação e encenação de cenas sobre esses temas proporcionaram uma vivência de situações relacionadas a eles. Acredito que uma situação vivida (mesmo como representação) aprofunda nosso conhecimento e compreensão sobre o tema abordado e foi assim que os jogos nos ajudaram. (QF Sandra) A cena três da peça que abre este capítulo apresenta a Personagem 1 retirando as caixas enquanto fala o nome de jogos teatrais realizados nesta pesquisa. A imagem desta cena se refere à importância do jogo para que pudessem surgir aspectos significativos da docência. As personagens que entram a seguir, bufão/ militar, médica 1 e 2, bailarina, dom Quixote, alpinista, fada e cozinheira propõem características do educador, a autoridade, o entretenimento, o conhecimento, o sonho, a busca, a persistência, o equilíbrio e a criação. Todas as características presentes nas personagens denotam a amplitude de posturas que a função docente solicita, quando o educador se dispõe a realizar um trabalho no qual ele se envolva com o corpo discente, percebendo-o em seus anseios, opiniões, carências, escolhas. A personagem da cozinheira nos remete à necessidade da criação na docência. As possibilidades experimentadas, tanto no jogo, como na escrita dramatúrgica e na reflexão sobre ambos permitiram a percepção do papel da criação na elaboração da experiência, permitindo uma nova configuração da 184 mesma. As respostas dadas à pergunta 1375 do questionário final demonstram a percepção das participantes sobre a criação. A criação é essencial no trabalho docente. É preciso muita criatividade para estimular os alunos com o conteúdo e tornar as aulas mais interessantes, mais dinâmicas e atraentes. O fato de trabalharmos com os jogos teatrais em todos os encontros, cuja base está na criação, me fez perceber ainda mais a importância da mesma. (QF Julia) No trabalho docente a criação é muito importante, para dinamizar as aulas e para resolver situações imprevistas, como no caso do professor perceber que os alunos estão com dificuldades de compreender bem o que está ensinando, o professor poderá lançar mão de outros recursos, através da criatividade. (QF Memê) O trabalho docente é imprevisível. Podemos organizar apenas parte da nossa prática mas no dia-a-dia, muitas situações novas aparecem. A criação faz parte da motivação do processo ensinoaprendizado. Acredito que dar aulas é diferente de ensinar e para ensinarmos, precisamos inovar, criar, fugir da rotina e principalmente, "convencer" nossos alunos a participarem desses movimentos. O curso trouxe uma série de situações inovadoras, completamente diferentes das que conhecemos e usamos. Acho que a maior motivação das participantes foi justamente essa: o que faremos hoje? O tema era previsto mas as atividades não. (QF Sandra) Sandra fala do imprevisível na docência. A proposta do jogo teatral está fundada na improvisação. O exercício de improvisar, de buscar soluções não conhecidas, ainda não imaginadas, que fogem à resposta previsível, permite ao educador a utilização do elemento surpresa, a exploração do novo, não pela valorização da novidade banal da distração fácil, mas pela possibilidade de apresentação dos múltiplos caminhos que o conhecer nos permite. O conceito de presença necessário ao jogo teatral, é, também, fundamental para qualquer criação. Sem envolvimento, sem que a pessoa se coloque 75 Qual a importância da criação no trabalho docente? Comente aspectos deste projeto que permitiram a você compreender a importância da criação no trabalho docente. 185 integralmente no seu trabalho, não será possível que ele seja criativo. As soluções diferenciadas para os conflitos que se apresentam só ocorrem quando o professor se envolve no trabalho, estando presente de forma integral na situação vivida. O domínio dos conceitos a serem explorados e a preparação da forma como eles serão apresentados é fundamental para garantir qualidade ao trabalho docente, porém não é suficiente para uma atuação criativa, que identifique conflitos e interaja com as pessoas presentes. A criação proposta nos diferentes textos elaborados, também, permitiu ao grupo a percepção da dificuldade em criar, assim como do prazer em conseguir elaborar uma nova forma textual que refletisse o processo experenciado. As respostas dadas à questão 1276 do questionário final apresentam a valorização da criatividade, do improviso e do trabalho coletivo, ressaltando também, a importância das regras, a comunicação, o trabalho corporal, o planejamento do trabalho e a reflexão. A quarta e última cena da peça apresenta professores com materiais como diários de classe, giz, apagador, livros, mapas, etc., doados por um mágico que possibilitam que o professor retire o figurino com que entrou em cena e possa dar aula com seus instrumentos de trabalho. Estes instrumentos não, apenas, nos remetem aos objetos cotidianos necessários à docência, mas ao conhecimento representado por eles. Retoma-se, aqui, a necessidade de que o professor esteja preparado para a docência, com a clareza de que este papel se estabelece e se ancora em um saber. A peça termina com a Personagem 1 chamando a Personagem-platéia para o palco, para que ela se junte às demais personagens e em sua fala agradece a participação das demais personagens, ressaltando a importância do envolvimento de todas elas para que esta peça fosse feita. Esta última fala é uma alusão à participação das professoras nesta pesquisa e ressalta o quanto a pesquisa pode se configurar desta forma pelo 76 Participar deste curso deu a você novos instrumentos para trabalhar as dificuldades que o trabalho lhe apresenta? Quais? 186 envolvimento de todo o grupo, permitindo que esta tese ganhasse a forma que ganhou, que não poderia ser criada sozinha. Nas respostas dadas às perguntas 2 e 477 do questionário final, podemos observar a valorização das dinâmicas, da orientação da coordenadora, da organização do material produzido, da troca de experiências, das reflexões, da liberdade de opinar, dentre outros. A valorização da preparação e da condução do trabalho nos remete a outro conceito presente no jogo teatral, que é a instrução por parte do coordenador do jogo. Este conceito nos levará ao entendimento do papel do professor como um coordenador, como alguém que orienta e conduz o trabalho, mantendo o diálogo e a percepção do grupo, permitindo, desta forma, que se construa um trabalho coletivo. Não fica qualquer dúvida da valorização dada ao preparo prévio do trabalho. O fato de o professor chegar à sala de aula com os recursos necessários para o aprendizado, entendendo-se como recurso não somente materiais disponíveis, mas, principalmente, o domínio do conhecimento a ser trabalhado, possibilita uma outra qualidade de trabalho. Sem o domínio conceitual do que será explorado, além da dificuldade na apresentação dos conceitos para os alunos, será quase impossível que o professor adapte seu curso para as condições solicitadas pelos alunos, já que não terá flexibilidade para a mudança. Nas respostas dadas à questão 1178 do questionário inicial, ficou evidente a necessidade de que a formação de professores se relacionasse à prática cotidiana. Entendo que a metodologia de trabalho desenvolvida nesta pesquisa atendeu a esta solicitação, não apenas porque partimos de sugestões dadas pelas participantes, como tambémporque em todas as propostas nos remetíamos a aspectos da prática vivenciada pelo grupo, tanto nos jogos, como na escrita e 77 2 - Qual a sua avaliação sobre este curso? Quais os aspectos positivos e negativos? 4 – Qual a sua avaliação sobre este curso como instrumento de capacitação, considerando a dinâmica dos encontros e a orientação da coordenadora. 78 Quais as suas sugestões para melhorar um curso de capacitação? 187 na reflexão. As respostas abaixo dadas à questão 10 do questionário final79 demonstram esta relação. Sim, sinto-me mais dedicada, compromissada e reflexiva em relação às atitudes pedagógicas. As discussões sobre os temas foram as principais medidas de reflexão pessoal. As cenas também foram importantes, colocava-me nas situações e tentava encontrar soluções para resolvê-las. (QF Cris) Sim, mostrou que posso ser mais dinâmica, tolerante e reflexiva durante minhas aulas. Posso ter um jogo de cintura diferente para cada situação que irei encontrar daqui para frente. (QF Néia) A cada momento percebo que tenho mudado algumas práticas e estou convencida de que com este grupo e este trabalho, muitas idéias já surgiram e tenho a intenção de colocá-las em prática em breve, junto aos professores que trabalho como coordenadora. Uma das ações que pretendo desencadear será o desenvolvimento do Projeto Político Pedagógico para Escola Pública. (QF Rocha) Os ensinamentos do curso mais a troca de experiências entre as participantes mostraram o quanto é possível trabalhar no magistério com dignidade e respeito. Embora a imagem do professor esteja desvalorizada, percebemos que podemos fazer muito para que nosso trabalho seja reconhecido e valorizado. (QF Sandra) As imagens criadas como resposta à pergunta 1480 do questionário final, tais como as de uma criança observando o horizonte, uma criança observando o horizonte, uma telespectadora, uma longa escada, um broto e uma árvore, alguém que sofreu e aprendeu, uma flor desabrochando para a vida, uma árvore, com muitos frutos e um centauro; podem ser lidas como imagens de perspectiva, sofrimento, estabilidade e expectativa. Se comparadas às respostas dadas à questão 15, pode-se perceber que a participação neste projeto provocou mudanças, já que permanecem algumas imagens, como a de perspectiva e 79 Participar deste curso provocou alguma mudança na sua imagem como professor? (Pense em você como professor e explique) 80 Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional até hoje? 188 estabilidade, mas surgem imagens de mudança, diversidade, busca e participação do todo. Foi possível observar, nesta pesquisa, a presença de educadoras comprometidas, disponíveis e interessadas. A forma de participação de cada uma não foi igual, não apenas porque cada professora é uma, como porque sua inserção no espaço educacional tampouco é a mesma. Encontramos em diferentes espaços sociais uma generalização de conduta dos professores, o que pôde ser visto, também, por parte deste grupo no decorrer da pesquisa. Esta generalização presente em muitos meios de comunicação e na opinião de parte da sociedade ignora a diversidade presente nos educadores, fazendo com que, muitas vezes, não sejam considerados os bons trabalhos realizados em parte das escolas públicas. A ausência de condições adequadas para o trabalho, seja pelos prédios mal construídos e preservados, pela falta de equipamentos, seja pela pouca formação dos educadores leva a uma generalização que não valoriza aspectos positivos, projetos bem sucedidos e opiniões importantes para a melhoria da condição escolar. Entendo que pensar a formação continuada de educadores é pensar em propostas que se disponham ao diálogo, que permitam o olhar para o outro, que criem condições para o estabelecimento de grupos de trabalho e que promovam uma atitude criativa. Qualquer proposta de formação de educadores apresentará limites nas possibilidades de transformação da situação escolar, já que para a criação de condições desejadas é necessário que se estabeleçam políticas públicas de revisão das condições gerais da escola e de seu papel na sociedade. No decorrer desta pesquisa discutimos questões relativas à gestão, ao relacionamento professor/aluno, à crise de valores sociais pela qual a escola e a sociedade passam e à responsabilidade compartilhada. Pudemos verificar, tanto 189 em nossas conversas como nos textos escritos os inúmeros problemas vivenciados pelos educadores que estão muito além das dificuldades em serem encontradas formas adequadas de ensino/aprendizagem. Foram relatadas situações cotidianas que expressam a fome de parte dos estudantes, a falta de higiene mínima, o descuido dos pais, os diversos problemas enfrentados com drogas, seja por parte dos pais muitas vezes expressos no alcoolismo, seja por parte dos alunos no envolvimento com diferentes tipos de drogas, o conflito sobre condutas éticas. A lista de problemas poderia se estender consideravelmente; entretanto, ressalto, apenas, alguns aspectos, somente para observar que é necessário repensar a situação escolar, partindo de diferentes atuações sociais. Embora uma proposta de formação de professores possa dar novos elementos para que os docentes lidem com tal complexidade, não podemos imaginar que, um corpo docente, por melhor que seja, conseguirá resolver tal situação. Tendo em mente esta situação enfrentada pela educação, esta pesquisa confirmou a necessidade de serem desenvolvidos trabalhos de formação que permitam ao professor ampliar sua visão sobre a escola e sobre soluções aos problemas enfrentados; que criem condições para o estabelecimento do trabalho em grupo; que revejam a auto-estima do professor; que possibilitem o exercício de alteridade; que forneçam instrumentos para a percepção do aluno em sua totalidade; que valorizem o conhecimento e o comprometimento. Avalio que a metodologia de formação continuada baseada na escrita dramatúrgica, no jogo teatral e na reflexão desenvolvida nesta pesquisa permitiu que as características acima descritas ocorressem. Explorar a aproximação por intermédio do corpo, do jogo, do imaginário, do diálogo, da elaboração estética produzida nas cenas abriu portas para a compreensão do ser professor, de seu papel, de seus limites. Desenvolver uma atitude criativa nas atividades propostas permitiu ao professor um novo olhar para a sua prática docente, para sua condição de 190 trabalho, despertando uma nova forma de experienciar e compreender sua atuação. Espero que esta tese contribua para a construção de novos caminhos na educação, para que possamos, cada vez mais, experimentar uma sociedade que se olhe, se perceba, sinta o prazer em criar coletivamente e descubra cotidianamente a possibilidade de conhecermos juntos. CAPÍTULO 6 Bibliografia 193 CAPÍTULO 6: Bibliografia AGUIAR, W. M. J, e BAPTISTA, M. T. D. S. “A transformação do professor como elemento mobilizador de mudança da realidade escolar.” In Psicologia da Educação - Revista do Programa de Estudos Pós-Graudados (PUC/SP), São Paulo, v. 1, n. 16, p. 83-101, 2004. ALMEIDA, M. I. “A reconstrução da profissionalidade docente no contexto das reformas educacionais: vozes dos professores na escola ciclada”. In Silva, A.M. et al. 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La imaginación y El arte en La infância (Ensayo psicológico) Madrid: Ediciones Akal, S.A., 2000. ZEICHNER, K. M. A formação reflexiva de professores: idéias e práticas. Lisboa: Educa, 1993. ANEXO 1 Questionário Inicial 203 ANEXO 1: QUESTIONÁRIO INICIAL 1.1 QUESTIONÁRIO INICIAL PILOTO 1. Nome: 2. Formação: Magistério: --Graduação: Especialização: --Mestrado: --Doutorado: --3. Tempo que leciona: 4. Onde leciona: 5. Para quais séries já lecionou: 6. O que leciona: 7. Como você avalia sua formação inicial (magistério / graduação)? 8. Freqüenta cursos de formação continuada? 9. O que leva você a fazer/ou não fazer um curso de formação continuada? 10. Qual a sua avaliação dos cursos de formação continuada? 11. Quais as suas sugestões para melhorar um curso de formação continuada? 12. Qual a importância da criação no trabalho docente? 13. Você tem alguma formação em arte? Se sim, em que área? 14. Já fez ou faz teatro? 15. Já fez algum curso de formação continuada que trabalhava com teatro? 16. Qual a sua imagem sobre você como professor? 17. Qual a sua imagem sobre as escolas? 18. Quais os principais problemas enfrentados pelos professores? 19. Quais os principais problemas enfrentados pelas escolas? 20. O que existe de melhor e de pior em ser professor? 21. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional até hoje? 22. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional à partir de hoje? 204 1.2 QUESTIONÁRIO INICIAL PESQUISA Este questionário é necessário a esta pesquisa para que possamos observar as opiniões dos participantes no decorrer de todo o trabalho. Nenhuma informação aqui apresentada será utilizada em qualquer espaço que não se relacione à pesquisa. A identificação solicitada é necessária para que seja possível analisar os diferentes textos produzidos por cada participante. Cada um poderá escolher o nome que quiser para se identificar, desde que seja utilizado sempre o mesmo. Obrigada. 1. Identificação: 2. Formação: Magistério: Graduação: Especialização: Mestrado: Doutorado: 3. Tempo que leciona: 4. Onde leciona: 5. Para quais séries já lecionou: 6. O que leciona: 7. Como você avalia sua formação inicial (magistério / graduação)? 8. Freqüenta cursos de capacitação? 9. O que leva você a fazer/ou não fazer um curso de capacitação? 10. Qual a sua avaliação dos cursos de capacitação? 11. Quais as suas sugestões para melhorar um curso de capacitação? 12. Qual a importância da criação no trabalho docente? 13. Você tem alguma formação em arte? Se sim, em que área? 14. Já fez ou faz teatro? 15. Já fez algum curso de capacitação que trabalhava com teatro? 16. Qual a sua imagem sobre você como professor? 17. Qual a sua imagem sobre as escolas? 18. Quais os principais problemas enfrentados pelos professores? 19. Quais os principais problemas enfrentados pelas escolas? 20. O que existe de melhor e de pior em ser professor? 21. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional até hoje? 22. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional a partir de hoje? 205 1.3 QUESTIONÁRIO INICIAL - RESPOSTAS AGRUPADAS 1. Identificação: Ana, Cris, Jô, Julia, Lilá, Memê, Néia, Rocha, Sandra. 2. Formação: Ana: Magistério, 6º semestre de Pedagogia; Cris: Jô: 6º semestre de Pedagogia; Julia: Lilá: Professora; Memê: Néia: Magistério cursando nível superior – Pedagogia; Rocha: Artes Plásticas; Sandra: Comunicação Social e História; Magistério: Ana, Cris, Lilá, Néia: sim Jô, Julia, Memê, Rocha, Sandra: não Graduação: Ana: Cris: Em conclusão (Pedagogia) Jô: não Julia: em geografia (Bacharelado e licenciatura) na USP Lilá: Pedagogia Memê: Letras e Psicologia Néia: Cursando 6º semestre de Pedagogia – UNIP Rocha: Licenciatura(Artes Plásticas) e Pedagogia Sandra: Os dois cursos são de Graduação Especialização: todas responderam não ou deixaram em branco. Mestrado: todas responderam não ou deixaram em branco. Doutorado: todas responderam não ou deixaram em branco. 206 3. Tempo que leciona: Ana: sete anos Cris: 13 anos Jô: não leciono Julia: Comecei no início deste ano Lilá: 15 anos Memê: 10 anos Néia: 15 anos Rocha: 18 anos Sandra: 16 anos 4. Onde leciona: Ana: EE Vila São Luis II Cris: CEI “Pequeno Ceareiro” – Prefeitura Jô: Julia: E. Alberto Levy Lilá: Cei Luz e lápis (Eletropaulo) Memê: EE Alberto Levy Néia: Colégio “Marquês de Monte Alegre” Rocha: Alberto Levy Sandra: EE Prof Alberto Levy 5. Para quais séries já lecionou: Ana: 1ª a 4ª séries Cris: Educação Infantil (1 a 5 anos) Jô: Julia: 1ª, 2ª e 3ª séries do Ensino Médio Lilá: de 1ª a 4ª e ed. Infantil Memê: 5ª, 6ª, 7ª, 8ª, EJA e 3º EM Néia: maternal (2 e 3 anos) jardim (3 e 4 anos) Jardim II (5 a 6 anos) Pré (6 a 7 anos) – Educação Infantil. Estagiária em Ensino Fundamental I (1ª a 4ª série) Rocha: Ensino Médio, 8ª séries Sandra: E. Fundamental (3ª à 8ª) E. Médio (1º, 2º e 3º) 207 6. O que leciona: Ana: Educação Infantil Cris: Atividades relacionadas as áreas de conhecimentos (Artes, Música e Movimento, Linguagem Oral e escrita, Natureza e sociedade e conhecimento lógico matemático) e projetos Jô: Julia: geografia Lilá: eixos do RCN Memê: Português Néia: Educação Infantil Rocha: Artes Plásticas Sandra: Atualmente, trabalho na coordenação pedagógica 7. Como você avalia sua formação inicial (magistério / graduação)? Ana: Ótima Cris: O curso de Magistério foi ótimo, tanto no aspecto teórico, como no prático. Os professores eram capacitados e empenhados, tornando-nos alunos reflexivos e com propostas educacionais. O curso de graduação também foi bom, muitos conteúdos já havia visto no magistério, porém, o que mudou, foi o meu ponto de vista em relação à educação. As experiências e a maturidade fizeram com que tivesse um olhar mais reflexivo perante os conteúdos e discussões. Jô: Boa, mas tenho muito que aprender. Julia: Ótima Lilá: De grande valor profissional e de alta qualidade, a graduação demorou mas está sendo importante, pois faço o que gosto e que me dá prazer. Memê: Boa Néia: (NÃO RESPONDIDA) Rocha: Fiz o curso pensando em atender um desejo pessoal, mas entendo que foi por imaturidade. Mas o desenvolvimento foi atendido e considero um curso de qualidade. Sandra: O curso de Comunicação foi fantástico, os professores eram muito exigentes e eu tive que ler muito. Na época (1980-1983) todos os livros tinham que ser lidos integralmente. Já o curso de História, embora tenha acrescentado muito em conhecimento e vivência, aconteceu em outros moldes. Somente eram 208 trabalhados fragmentos de obras “xerocadas” e, muitas vezes, quando eu pedia para trabalhar a obra toda, os alunos reclamavam. A maior parte do aprendizado neste curso foi conquistada sozinha. 8. Freqüenta cursos de capacitação? Ana: Eventualmente Cris: Sim, referentes a área educacional (Folclore ou Cultura popular: Teoria e prática; Transtorno de conduta). Jô: Sim Julia: Nunca freqüentei Lilá: Sim Memê: Já freqüentei, no momento, não. Néia: Realizei alguns curtos e gratuitos. Rocha: Na área de educação, sim. Sandra: Já freqüentei alguns cursos de capacitação (extensão universitária e disciplinas de mestrado). 9. O que leva você a fazer/ou não fazer um curso de capacitação? Ana: A necessidade de se inteirar das novas linguagens, a perspectiva de melhorar a prática pedagógica. Cris: Acredito nestes cursos, acrescentam no meu empenho em sala de aula. Costumo coloca-los em prática, e o retorno de meus alunos são os melhores certificados. Jô: Me torno uma pessoa informada e com isso posso escolher qual caminho seguir. Julia: Pretendo fazer cursos de capacitação em busca de aprimorar minha formação e me atualizar. Lilá: Oportunidades, interesses e atualização. Memê: Para melhorar minha atuação como professora. Néia: O que impede de realizar os cursos de capacitação é o fator financeiro. Rocha: Tempo e objetivo profissional. Sandra: O tema do curso. 209 10. Qual a sua avaliação dos cursos de capacitação? Ana: São bons. Cris: Gosto destes cursos, como já disse, acredito que realmente capacitem o profissional, que esta empenhado. Jô: É preciso se aprofundar na prática. Julia: (Não respondeu) Lilá: Tenho consciência de que são bons e importantes para que eu possa aplicar na minha carreira profissional. Memê: Para atualizar e manter as condições necessárias para obter bons resultados no ensino. Néia: Acredito que os cursos de capacitação são fundamentais e acrescentam muito na vida docente. Rocha: Os que participei acrescentaram na minha prática hoje. Sandra: Gostei muito de todos os que fiz; aprendi muito com eles. 11. Quais as suas sugestões para melhorar um curso de capacitação? Ana: Desenvolvê-los voltado para a prática do dia-a-dia. Cris: Disponibilidade de materiais (teóricos / práticos), ou criação destes materiais durante o curso. Horários mais flexíveis. Jô: Dinâmica, interação, prática. Julia: (Não respondeu) Lilá: Mais envolvimento, mais dinâmica e mais aplicação no cotidiano. Memê: Atuação na realidade de ensino / praticidade. Néia: A minha sugestão é que eles tenham um preço acessível e horários nos finais de semana. Rocha: Ter pesquisas atuais e a parte prática mais explorada. Sandra: Que além da teoria houvesse também dinâmicas. 12. Qual a importância da criação no trabalho docente? Ana: É de suma importância, pois a criação durante o processo, desperta o aluno para uma aprendizagem significativa, tira-o da “mesmice”, do desinteresse. Cris: Um professor criativo consequentemente permitirá que seus alunos criem e explorem diversos materiais. Jô: A pesquisa na qual nos torna seres reflexivos. 210 Julia: A criação é essencial. Lilá: A criatividade faz fluir em nós a chama que ascende o desejo pela vida, harmoniosamente. Memê: Muito necessária. A criatividade estimula a arte de ensinar. Néia: Será através da criação que o professor conseguirá manter suas aulas dinâmicas e interessante para seus alunos. Rocha: É de importância máxima, pois a cada dia o ser humano é outro e precisa se reinventar. Sandra: Acho fundamental criar na prática docente. A escola ainda continua funcionando como há 50 anos, só que as pessoas são diferentes, com valores e vivências diferentes do passado. Mas as práticas são exatamente iguais e aí é que o processo ensino-aprendizagem fica falho. 13. Você tem alguma formação em arte? Se sim, em que área? Ana, Cris, Jô, Néia: Não Julia: Toquei piano durante 5 anos, fiz um pouco de ballet e pintura aquarela Lilá: Não, só dom Memê: Não sei se “tai-chichuan” é arte. Se é, sim Rocha: Sim, Artes Plásticas e Desenho Geométrico Sandra: Não. Somente fiz alguns cursos de artesanato 14. Já fez ou faz teatro? Ana, Cris, Jô, Julia, Lilá, Néia, Sandra: Não Memê: Já, amador. Há 20 anos atrás Rocha: Sim, mas apenas como motivador em exercícios e na Faculdade 15. Já fez algum curso de capacitação que trabalhava com teatro? Ana, Cris, Jô, Julia, Memê, Néia, Rocha: Não Lilá: Sim, “acho que sim” Sandra: Não na prática. Fiz um curso de Pedagogia Antroposófica que ensinava sobre os benefícios de inserir arte na prática pedagógica 211 16. Qual a sua imagem sobre você como professor? Ana: Sou dinâmica e procuro fazer o diferencial para os meus alunos. Cris: Sou uma profissional dedicada, organizada, disposta e criativa. Acima de tudo, que acredita na educação e ama o que faz. Jô: Tenho muito que aprender Julia: Como comecei a lecionar este ano ainda estou “construindo” minha imagem. Lilá: Uma profissional aberta, disposta, prática, crítica e comprometida com minha atuação no “campo de batalha”. Memê: Sou uma professora que se esforça para fazer o melhor. Néia: A minha imagem como professora é de alegria e responsabilidade. Acredito em um futuro melhor para os meus alunos. Rocha: Exigente, visionária mas no campo técnico. Sandra: Sou muito exigente. Diversifico muito as atividades em sala de aula, inclusive uso como avaliação apresentações artísticas elaboradas pelos alunos mas não aceito atrasos, indisciplina, ociosidade,... os alunos têm muito trabalho nas minhas aulas. 17. Qual a sua imagem sobre as escolas? Ana: Ainda um espaço de cultura e conhecimento. Cris: Quando bem administradas, são excelentes escolas. Jô: Falta inovação, em alguns casos humanismo. Julia: (Não respondeu) Lilá: Um espaço de aprendizagem muito rico, mas pouco aproveitado. Memê: Precisam melhorar, serem reestruturadas. Néia: A minha imagem sobre a escola é que ela é a casa do saber – lugar para crescer. Rocha: Espaço de grande abrangência cultural mas com deficiências estruturais. Sandra: Acho que as escolas estão muito paternalistas. Elas estão perdendo a função de serem instituições do conhecimento e estão tornando-se instituições de assistência social. 212 18. Quais os principais problemas enfrentados pelos professores? Ana: A falta de apoio da sociedade e principalmente dos pais na “educação dos filhos”. Cris: Falta de capacitação e recursos físicos. Jô: Salas cheias, alunos de 2ª, 3ª ou 4ª série com alunos pré-silabicos e a falta de assistência dos pais. Julia: Falta de educação, respeito dos alunos, falta de materiais / equipamentos, salários baixos. Lilá: Apoio, divergências. Memê: Problemas disciplinares. Grande quantidade de alunos em salas de aulas. Néia: Os maiores problemas enfrentados pelos professores são as barreiras, a falta de espaço. A falta de estímulo, baixos salários e salas muito cheias. Rocha: Na rede pública em especial a falta de perspectiva dos alunos em relação ao próprio desenvolvimento acadêmico ou para a preparação para o trabalho. O professor se vê sem ferramentas adequadas para as novas linguagens e se coloca como vítima e não como agente de mudanças. Sandra: Auto-estima, desvalorização do ensino, baixos salários, má formação (cursos recentes), falta de estímulo profissional. 19. Quais os principais problemas enfrentados pelas escolas? Ana: A falta de verbas e o descaso de “alguns”. Cris: Falta de verbas, administração e recurso físicos. (demanda de alunos) – Rotatividade. Jô: Não poder contar com o Estado, uma vez que muitos materiais saem do bolso do professor, Professor acomodado, Diretor não participativo, isto é, uma gestão acomodada. Julia: Falta de professores, falta de verbas, indisciplina dos alunos. Lilá: Falta de compromisso docente e o apoio da comunidade. Memê: Indisciplina, falta de verbas, falta de equipamentos: laboratórios, salas de vídeos, etc. Néia: Os maiores problemas das escolas são os recursos e falta de verbas. Rocha: Conseguir atender uma política pública e ao mesmo tempo formar cidadão que rompa todas as barreiras criadas pela própria sociedade. 213 Sandra: Legislação permissiva, crise de valores e não participação da família na escola, má formação e desestímulo dos professores. 20. O que existe de melhor e de pior em ser professor? Ana: De melhor é: saber que você faz a diferença para muitos. De pior, são os momentos ruins, tais como: salário, desorganização, etc, que prefiro não comentar. Cris: O melhor de ser professor é acompanhar a evolução de seu aluno, percebendo que o seu trabalho funciona e torna cidadões. O pior seria a falta de apoio e reconhecimentos. Jô: O de melhor é querer fazer a diferença valorizando o ser humano. O pior é ser um professor indiferente. Julia: De melhor: contribuir para a formação das pessoas. De pior: frustração de não atingir os objetivos. Lilá: Instigar mentes humanas ou matar pensamentos e habilidades existentes. Memê: Melhor: quando ocorrem mudanças na aprendizagem dos alunos. Pior: falta de respeito e indisciplina dos alunos. Néia: O melhor é poder criar uma rotina diferente a cada aula e o pior é a quantidade de trabalho que levamos para casa. Rocha: Liberdade de ação / Enfrentar a rejeição. Sandra: Melhor: Trabalhar com pessoas, desafios, aprendizado contínuo, Pior: Desvalorização profissional. 21. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional até hoje? Ana: Imagem de (persistência) Cris: Estrada Jô: Uma pessoa que sempre esteve aberta para novos aprendizados. Julia: Uma escada Lilá: Um rio em seu percurso longínquo. Memê: Esforço, inquietação e busca de melhoria. Néia: Uma imagem de batalhadora, em busca de uma vida melhor. Rocha: Romper barreiras em prol de objetivos. Sandra: Aprendizado (semear) 214 22. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional a partir de hoje? Ana: Imagem de (mudanças) Cris: Continuo com a imagem de uma estrada, afinal, a educação sempre terá um longo caminho à percorrer. Que bom, pois, isto nos mostra as evoluções. Jô: Uma pessoa que estará sempre apta para pesquisar, buscar meios para fazer o melhor. Julia: Um ponto de interrogação Lilá: O reflexo do sol ou da lua sobre as águas deste rio. Memê: Melhoria ao passar os conteúdos. Maior interesse por parte dos alunos em assimiliar os conteúdos. Disposição e facilidade no relacionamento com o aluno. Néia: Uma imagem de uma flor desabrochando para a vida. Rocha: Sucesso em expor as idéias e executa-las. Sandra: Colheita dos frutos. ANEXO 2 Relatos 217 ANEXO 2: RELATOS 2º encontro – Escrito por Sandra “O grupo estava formado por nove participantes (Rocha, Memê, Júlia, Sandra, Lilá, Néia, Cris, Jô, Maria e Déia). As atividades começaram com um aquecimento em que os participantes andavam pela sala sem um roteiro definido. Depois, a cada comando da Alessandra, mudava-se de direção e observava-se os outros que passavam ao lado. Em seguida, ainda em movimento, cada uma falava o seu nome com um som diferente (alto, baixo, distorcido, devagar, soletrando...). Depois do aquecimento, todos ficaram parados e cada um falava o nome de um componente do grupo. A cada nome dito, o grupo movimentava-se. O grupo foi dividido em três grupos menores e cada um criou uma representação de um objeto em movimento; uma bicicleta, um trem e um barco foram representados. Todos ficaram motivados com essa atividade. Durante a conversa sobre o que havia sido observado nas apresentações, era notória a empolgação de todos. O tema gestão começou a ser discutido e cada um falou dos problemas relacionados ao tema mais comuns dentro da sua vida profissional. A partir desta conversa, o grupo foi dividido em duplas, onde teve início um exercício de espelhamento; enquanto um componente falava o outro repetia sua, simultaneamente. Seguiu-se um novo exercício em que dois grupos representavam uma situação sobre gestão sem o uso da fala. A última atividade foi a de criação individual e leitura de um pequeno texto teatral sobre o tema gestão.” 3º encontro – Escrito por Lilá Iniciamos este dia com a leitura do relatório referente à semana anterior, como forma de resgatar os acontecimentos e dar continuidade ao trabalho. Também foram dadas as boas vindas a mais uma pessoa ao grupo encerrando assim as possibilidades de novas adesões, o que achei interessante, pois se a cada semana fosse aumentando o número de pessoas talvez não conseguiríamos uma coesão do grupo. A partir da orientação da professora partimos para dinâmica, onde ficamos sem calçados e nos acomodamos em um colchonete procurando o máximo de conforto; com os olhos fechados ao seu comando de voz íamos fazendo movimentos com o corpo, atentando-nos para o contato que nosso corpo fazia com o solo. Os movimentos eram aleatórios, mas com muita expressão. Cada um fazia o seu, sentindo seu corpo, sua respiração, suas agonias, as sensações boas ou ruins, produzindo sons, ruídos, gemidos, murmúrios, dobrando, esticando, virando, abrindo, fechando... Coisas estranhas que nos fez sentir mais a matéria que somos e o espaço que ocupamos neste universo. O impulso para levantar foi uma força contra o chão que nos acolheu por instantes e nos jogou para o plano vertical em posição bipedante, após esta força nosso corpo ainda alucinado... Pedia mais; foi então que fomos desafiados a um exercício de concentração, atenção, e produção de movimentos sem uma 218 definição, porém os mesmos deveriam ser feitos um de cada fez exigindo a atenção para não confrontar com o do outro. Cada movimento mesmo sem emitir ruído, parecia produzir um som; neste momento a professora nos solicitou que os fizéssemos juntamente com o movimento do nosso corpo, a regra anterior deveria permanecer, sendo que, um a um os fazia em seqüência aleatória. Depois uma única observação, estes sons deveriam ser produzidos de maneira que abríssemos a boca, e só pararíamos quando um outro começasse. Foi engraçado e realizado de formas bem descontraídas...Aprendemos a conhecer nosso lado de loucura e nos divertimos muito. Ainda no colchonete viramos de costas e a professora nos entregou dez frases que ela mesma coletou das situações que escrevemos no encontro passado, o próximo passo continuou com cada uma escolhendo e lendo de diversas formas sua frase, primeiro todas juntas (foi uma barulheira), depois com intervalos de uma para outra em ordem aleatória mudando o tom, som e entonação. Viramos. O grupo foi dividido em três, os mesmos tiveram que escolher uma frase e os personagens sem combinar a cena e as falas, como se fosse um teatro de improviso, aliás, foi um teatro de improviso! Durante as apresentações um grupo anotava as observações do outro. As frases escolhidas para encenação foram: as chaves perdidas, a polêmica do uniforme escolar e a proposta para intervalos mais recreativos. Todas as apresentações foram boas e passaram (sem terem dito o seu título) a situação de maneira bem clara, não houve muito recurso e tempo, porém houve disposição e entrosamento. Como fechamento a professora abriu uma roda para leitura e comentários das anotações observadas, sem saber qual seria o rumo deste debate. Foram ouvidas todas as opiniões, o que achei muito educado por parte da professora. O caminho destes assuntos enfocou-se mais na questão dos uniformes, que agregasse a contexto político, social e econômico, gerando assim um “Tissuname” de informações e experiências que levariam o dia todo em debate, deixando muito claro a importância de uma gestão criativa em todas as situações e a presença da família na vida escolar de seus filhos. Com isso explodiu o próximo tema Crise de valores sociais, um assunto muito rico e também bastante polêmico que barra (em partes) o poder de uma gestão criativa, uma vez que a mesma não pode adentrar privacidades familiares para resolver algumas questões. Uma previa do que acho que vem a ser a Crise de valores nos dias atuais. “Talvez o problema mais grave dos pais seja, exatamente, fazer aquilo que acham melhor para seus filhos. Se ao menos eles fizessem apenas o que é bom para os filhos, talvez o prejuízo não fosse tão grave quanto buscarem sempre fazer o melhor para os filhos”. O problema é que melhor na opinião dos pais, não significa necessariamente mais correto, adequado e sensato. A dúvida que surge nessa postura é sobre o conceito do que seria, exatamente, esse melhor, melhor em que sentido; melhor para o bem estar do pai, do filho, da família, melhor emocionalmente, financeiramente, culturalmente, melhor para a saúde... E assim por diante. O velho chavão “faço o que é melhor para vocês”, que brota das palavras de todo pai ou mãe que se preza, deveria ser corretamente 219 interpretado como sendo; “faço para vocês o que é melhor para mim”. Ballone GJ, Ortolani IV – A Família faz mal à Saúde?2002 4º encontro – Escrito por Déia Como de costume, iniciamos o encontro com a leitura do registro dos acontecimentos de encontro anterior. Então iniciamos nosso dia com movimentos do corpo. Começamos com relaxamento, depois buscando movimentos exatos, tentando localizar o músculo, o osso, etc. que estávamos movimentando. Então recebemos recortes com descrições de personagens que nós mesmos tínhamos criado no encontro passado. Nos sentamos em circulo e cada uma de nós criamos uma cena com os personagens que tínhamos em nossas mãos. Fomos dividas em grupos e a professora nos pediu para escolhermos uma bola qualquer, sem sabermos para qual finalidade. Escolhemos a bola e jogamos um jogo com essa bola (imaginária) e cada uma do grupo vivenciando o seu personagem. Foi uma atividade muito diferente, pois jogávamos um jogo imaginário, como personagens imaginários e sentimos como se as dificuldades fossem reais. Para quem assistia o desafio era saber qual bola foi escolhida e como os personagens estavam localizando-a no jogo. E muitas conseguiram reparar cada movimento da bola. O grupo 1 escolheu a bola de vôlei. O jogo começou e em certo momento a bola ficou pesada, e as integrantes nitidamente sentiram o peso. O grupo 2 escolheu a bola tipo Playcenter (grande e leve). E em algum momento a bola ficou menor. O grupo 3 preferiu a bola de ping pong. A bola durante o jogo foi ficando menor e menor, e aparentemente as integrantes do grupo quase não conseguiam visualiza - lá. Novamente fomos divididas em grupos, agora foram 2. Visualizamos uma festa junina na escola, onde nós encenamos os personagens em questão. Tivemos que mostrar como este personagem se comportaria nessa festa, lembrando que nenhuma sabia do personagem da outra. Em um momento da festa ouvimos um tiro. Devido à ação dos personagens, alguns foram descobertos imediatamente pelo restante do grupo e pelo outro grupo também. Para finalizar escrevemos uma cena com nossos personagens. 5º encontro – Escrito por Néia Puxa que frio!!! Foi assim que iniciamos o encontro. Todas nós estávamos cheias de roupas e bem geladas. Então, para aquecer o dia começamos a leitura dos textos que havíamos escrito no encontro anterior (onde a proposta era escrever uma cena com um personagem participando da festa junina, destacando o momento que apareceu o tema “crise de valores”). A professora solicitou que cada pessoa realizasse a leitura do seu próprio texto, tentando transmitir como era o personagem da cena. Após a leitura de todos os textos, conseguimos identificar os personagens e qual era a crise de valores em destaque em cada cena. Foi feita a leitura do relatório da aula anterior pela Déia, todas ouviram atentamente e concordaram com as observações feitas por ela. 220 Sentamos em circulo para debater sobre as crises de valores que apareceram nas cenas. Um tema bastante amplo e polêmico, cada questão que era abordada maior era o entusiasmo do grupo. Durante o nosso debate sugiram questões familiares, culturais, econômicas, estéticas, sexuais, raciais. Além de temas como motivação, valorização, preconceito, consumismo e o papel da mídia em nossas vidas. Percebi que o assunto levantou muitos exemplos vividos por nos mesmas, mexendo com os nossos sentimentos e angustias. A nossa conversa foi longa e agradável e nem percebemos a hora passar. O debate foi encerrado com um gostinho de quero mais. Dividimos o grupo em 3 duplas e 1 trio, e para relaxar um pouco a professora pediu para fazermos massagem uma na outra, massagear todas as partes do corpo e do rosto também. Foi uma sensação maravilhosa, pois dava para sentir a energia da outra pessoa, dava para ouvir e sentir a respiração dela. Cada grupo tinha que representar uma cena obtendo um professor e uma das questões dos valores que tínhamos discutido, além de fazer a cena como se estivesse comendo. Dupla1- conversa da professora com o inspetor de alunos, relatando a questão das freqüentes faltas dos professores. Dupla 2- conversa da professora com uma aluna adolescente, relatando a questão da sexualidade. Dupla 3- conversa de uma professora com uma aluna, relatando a questão da auto-estima e do cuidado com a aparência. Trio 4- conversa da professora com uma mãe e sua filha, relatando a questão do preconceito. As representações foram realizadas com improviso, pois quando dividimos os grupos só tivemos tempo de escolher o tema e quem seria cada personagem. Foi necessário muita criatividade e entrosamento para realizar a cena, já que os personagens deveriam estar comendo enquanto o dialogo aconteciam entre eles. As cenas foram bem interpretadas e transmitiu qual era a questão em evidência. Para encerrar o encontro, a professora solicitou que individualmente, fosse escrita uma cena, onde o professor estaria relatando como se sentiu ao enfrentar uma das questões da crise de valores citadas nas representações. Ah! Não posso deixar de comentar que as nossas atividades foram regadas de balas deliciosas. 6º encontro – Escrito por Rocha Este foi o sexto encontro do grupo, a proposta foi a revisão dos encontros anteriores. Foi uma ‘delícia’ participar, todos queriam falar e mostraram uma empolgação e certa agitação. Recebemos o material produzido nos encontros anteriores, organizados por período e personalizados. Nossos encontros, ricos encontros, trouxeram à tona uma série de questões, entre elas podemos destacar: O papel da escola como espaço legítimo das manifestações e necessidades da sociedade. O papel dos profissionais da educação. A gestão como ferramenta de desenvolvimento e melhoria das práticas e inovação da instituição de Ensino. Os relacionamentos interpessoais. 221 O papel da família A crise de valores. O grupo participa, traz dúvidas, descreve suas experiências, interage e a cada encontro, percebemos que a reflexão é muito importante para todos. Usamos uma simbologia para traduzir nossos encontros: 2º Encontro – Um gesto (foi fotografado) 3º Encontro – Uma palavra (Coletivo, integração, improviso, criação, união, interação, polêmica, envolvimento) 4º Encontro – Um personagem (Cidadão preocupado, professor preocupado, aluno rebelde, professor participativo, aluno descontraído) 5º Encontro – Um espaço (Tribunal, abismo, bolsa de valor, furacão, sistema de computador, uma confusão onde se apontam erros). Ao final do encontro o questionário passou a ser: ‘O que existe de melhor e pior em ser professor?’ Todos apontam que o melhor é a aprendizagem do aluno. Assim, o direcionamento dos próximos encontros será para este tema. 7º encontro – Escrito por Jô Relatório referente ao dia 30 de setembro de 2008. Inicio: Rocha realizou a leitura do relatório do encontro anterior. Em seguida afastamos as cadeiras, formamos um círculo, e nos alongamos, após o alongamento, foi proposto um jogo. - Pega-pega com explosão, no qual todas nós corríamos pela sala e apenas uma seria o pegador, quando uma de nós fosse pega, deveríamos explodir, e fazer um grande barulho, a forma do jogo mudava, com a orientação da Lelê, primeiro corríamos rápido, depois em câmera lenta, foi muito divertido. A próxima atividade foi encenar uma profissão, na qual uma iniciava e outra complementava inserindo outro tipo de mímica, e assim sucessivamente. A Néia começou tocando uma guitarra, a Memê complementou com a bateria e a Jô um trompete, foi muito divertido, primeiro foi sem barulho depois com barulho, nossa que banda! O próximo grupo preferiu ir para a cozinha, a Julia e a Cris picaram os ingredientes, a Lilá e a Sandra preparavam a comida, a Ana era a auxiliar enquanto a Memê degustava a comida preparada. Outro grupo partiu para a área da construção, bom achei que ali havia um pedreiro mexendo a massa (Lilá), um ajudante acrescentando areia (Cris) e outro rebocando a parede (Néia), Só que por surpresa a Lilá, não era um pedreiro e sim um marceneiro. O terceiro jogo seria encenar. Tema proposto: relacionamento professoraluno, até que ponto o contato é importante. A Rocha e Eu (Jô) estávamos tão relaxadas com as atividades, que deixamos o assunto um pouco de lado, fizemos relação médico-paciênte. Achei divertido, só precisávamos aderir à proposta. O segundo grupo (Memê, Déia e Sandra), a forma que a professora lecionava. O terceiro grupo (Lilá e Julia) foram duas professoras, uma com dez anos de carreira aconselhando a amiga iniciante para não desistir. O quarto grupo (Ana, Cris, Néia), um passeio ao pleycenter. 222 O quinto grupo (Maria e Néia), uma aluna que se machuca na hora do intervalo. Após as cenas, abrimos um círculo para discutir as cenas. Até que ponto o contato é importante? Os comentários foram os seguintes: A necessidade do contato físico. Diferenças de faixa etária. Existem várias maneiras de contato. O contato não precisa ser necessariamente físico o tempo todo, pode ser um relacionamento humano. O contado vem na ajuda da criança tirar a dor, a angústia. Pode ser com um olhar, pois, uma palavra propicia um bom relacionamento. Há várias maneiras de contato é necessário estar atento ao aluno. A necessidade de o professor incluir o aluno na sua profissão e não tratar-lo apenas como um número. Observar os comentários que pode surgir sem o professor se dar conta. Após um questionamento do aluno. Enfatizar a importância da participação do aluno na sala de aula, prestar atenção no que o aluno tem a dizer, pois é um contato e para isso é necessário ter humildade para envolvê-lo nessa participação. Após o comentário, escrevemos uma cena relacionada ao tema do discutido. Em seguida foi realizado um breve comentário, sobre a dificuldade em escrever a cena. Para finalizar, discutimos sobre a escolha do tema, para o encontro seguinte. 8º encontro – Escrito por Cris São Paulo, 7 de outubro de 2008. A manhã estava fria, todas nós bem agasalhadas e com sono. A proposta para o início das atividades foi bem aceita. Acomodadas em colchonetes, ao som de estios musicais, tais como: clássica, velha guarda, rock, forró, infantil e anos 70/80. A professora Lelê solicitou que, ao ouvirmos as músicas, imaginássemos cenas e lugares. Depois, na última música, que levantássemos e dançássemos criando movimentos, para todas imitarem. A experiência foi muito boa. Porém, fiquei curiosa em saber o que as colegas imaginaram. E vocês, também ficaram? Em seguida, Lelê comentou que selecionou duas cenas, escritas no encontro anterior. Para serem trabalhadas, focando o tema “Relacionamento professor/aluno”. A primeira cena “Tombo no parque” foi aquela onde a criança se machuca e a professora lhe conforta. Realizamos um jogo teatral, onde tínhamos que interpretar as duas personagens (professora e aluna), com expressões, gestos e tons de vozes diversificados. Foi divertido e algumas características (personalidades), apareceram: Professora autoritária, passiva, dengosa, indiferente. Aluna dengosa, chorosa, nervosa, autoritária. A segunda cena: “Professora experiente e professora iniciante”. Cuja proposta foi a de encenarmos a parte em que uma acalma a outra, encontrando palavras, argumentos para solucionar a situação. 223 Rocha e Sandra falaram sobre: estabelecer limites, resgate das atitudes, criar critérios com os alunos, credibilidade construída ao longo do tempo e determinação. Júlia e Jô: desafios e dificuldades dos professores, colocação de limite, onde as regras são estabelecidas com os alunos, construção de relacionamento leva tempo, busca de apoio do coordenador e direção e deixar claro para si mesmo o objetivo de trabalho a fim de agir com determinação. Ana e Lilá: professor tem que buscar, desempenhar o seu papel com confiança, colocar limite, transmitir afeto, amar o que faz, analisando os lados positivos e negativos da profissão. Néia e Memê: alunos necessitam de afeto, atenção, porém testam os limites, Professor deve mostrar que é ele que domina a sala, colocando a sua autoridade, se for preciso, ficando bravo. Propondo atividades envolventes em duplas ou grupos. Cris e Lilá: os desafios da profissão, persistência, e coragem para enfrentar as dificuldades. Proposta de assembléias com os alunos, sabendo a importância de seu papel em sala de aula, buscando o vínculo afetivo a fim de ser um bom relacionamento. Formamos a roda para o debate, e como sempre, com este grupo falante e polemico, muitos assuntos referentes ao tema “Relacionamento professor/aluno”, surgiram: - Objetivos do professor e aluno são os mesmos; - Confiança; - Limites; - Professor mediador; - Conquista da credibilidade; - Papel da escola; - Papel da família; - Divisão de responsabilidades; - Parceria; - Ética. O tempo passou depressa, e não tivemos tempo para a escrita da cena. Portanto, Lelê, pediu para que, se possível, escrevêssemos em casa uma das cenas dramatizadas no encontro e lhe enviássemos por e-mail. Rapidamente, folheamos os livros de peças teatrais que a Lelê levou, para entendermos como se escreve uma cena. Foi ótimo, pois muitas de nós, tínhamos dúvidas de como escrever uma. Este encontro foi produtivo, em relação ao tema escolhido, mas, o grupo sentiu a necessidade de abordar um pouco mais. Portanto, no próximo encontro, faremos outras atividades com o mesmo tema. “Daí às crianças a liberdade de escolher seu próprio trabalho, de decidir o momento e o ritmo deste trabalho e tudo mudará”. (Freneit) 9º encontro – Escrito por Julia Iniciamos o encontro com a leitura do relatório sobre a reunião anterior. Em seguida começamos a nos movimentar pela sala ao som de carimbó, um estilo musical de origem indígena. Depois nos dividimos em duplas e iniciamos uma seção de massagem, enquanto Lelê cantarolava "Ó cirandeiro, cirandeiro ó, a 224 pedra do teu anel brilha mais do que o sol", ao passo que aos poucos também nos dispusemos a cantar. Ao término da massagem, fizemos uma bela ciranda. Posteriormente Lelê recortou pedaços de papel e cada integrante do grupo escreveu duas palavras relacionadas ao tema escolhido no encontro – responsabilidade compartilhada. Então uma integrante do grupo escolheu um papel aleatoriamente e iniciou uma estória, em forma de narrativa, englobando a palavra escolhida na sorte. E assim prosseguimos respectivamente: cada uma retirando uma nova palavra e continuando a estória. Criamos uma estória conjuntamente, referente à questão da responsabilidade compartilhada, totalmente no improviso. Apareceram palavras como: cumplicidade, solidariedade, conjunto, grupo, assumir, educar, ações, dividir, entre outras. A estória destacou a importância da participação de toda a comunidade escolar (pais, alunos, professores, funcionários, diretores) no processo da educação; a atribuição de responsabilidades ao aluno, e o desafio da divisão de funções no ambiente escolar. Em seguida nos dividimos em dois grupos, cada um com 4 integrantes. Cada grupo ficou responsável por decidir um local ou uma situação em que os personagens deveriam se encontrar “presos”. Somente o local deveria ser definido previamente. O Grupo 1 criou uma cena no elevador que, ao parar, deixou as personagens “presas”. O Grupo 2 encenou uma escalada na montanha mal sucedida, em que as personagens caíram no abismo. Tanto um quanto outro mostrou que as pessoas reagem de formas diferentes frente a situações inesperadas, que o diálogo torna-se difícil em momentos de crise, e que a cumplicidade, a solidariedade e a união entre o grupo são elementos essenciais para solucionar situações de tensão. Depois o grupo fez uma pausa para comer o rocambole que gentilmente a Lilá trouxe para comemorar o dia dos professores, presenteando a todas nós. A sobremesa estava deliciosa. Para finalizar cada uma escreveu uma cena com base no tema “responsabilidade compartilhada” e em tudo que foi debatido durante o 9º encontro. 10º encontro – Escrito por Ana Iniciamos o encontro, todas acomodadas nos colchonetes, com a leitura do relatório do encontro anterior, feita pela Júlia. Após a leitura, Lelê propôs o novo tema sobre responsabilidade compartilhada. Rocha e Sandra, em sintonia, propuseram que este fosse voltado para a questão da "Gestão", o que todos concordaram. Após a definição do tema, fizemos o aquecimento corporal. Lelê pediu que deitássemos em dupla e / ou trio, apoiando os pés uns nos outros, e que ao som da música dançássemos, mexendo os pés, trocando duplas e trios. Foi muito divertido, difícil, foi soltar o nó que se formou com pés e pernas. Após, dançamos também com as mãos, tendo que desfazer o nó no final. Relaxamento feito iniciamos a proposta. Lelê pediu que imaginássemos um objeto, e que em trio, explorando-o, fizéssemos algo com o mesmo. A idéia era que todo o grupo interagisse. O primeiro grupo (Lilá, Ana e Cris) imaginou uma corda enorme e começaram a desenrolá-la. O segundo grupo formado por Sandra, Júlia e Rocha, imaginou uma barraca. Começaram a montá-la.Uma puxava de um lado, outra desenrolava nas pontas, outra encaixava, até conseguir montar. 225 O terceiro grupo (Néia, Jô e Memê), começaram a brincar com ioiôs, que se embaralharam, provocando uma grande confusão com os fios. Enfim, todos tiveram uma estratégia para resolver o problema. Em seguida, Lelê pediu que falássemos três características, podia ser física ou qualidade, etc. Enquanto ela escrevia as mesmas na lousa. Após, cada um escolheu três dessas, e montou um personagem professor. Algumas das características foram: versátil, dinâmica, gorda, relaxada, lenta, criativa, atenciosa, falante, estressada, neurótica, organizada, áspera, caprichosa, etc. Em seguida, juntas, pensamos em três situações problema que envolvesse o professor. Uma para educação infantil, uma para o ensino médio e uma que envolvesse gestão. Primeira situação: Aluno que trabalha o dia todo e dorme na sala de aula, ao ser acordado fica nervoso. Segunda situação: Criança maltratada psicologicamente e verbalmente, pelo professor de educação infantil. Terceira situação: Conflito entre professor e coordenador porque o professor só “enche” a lousa e mais nada. Após, Lelê pediu três professores em cena. Cada grupo escolheu uma situação problema. O jogo é estar numa reunião de professores formal e encontrar soluções para este conflito. Apontar a situação, mantendo as características e argumentos. O grupo 1: Lilá, Néia e Júlia ficaram com a situação três. O grupo 2: Cris, Rocha e Memê ficaram com a situação um. O grupo 3: Ana, Sandra e Jô ficaram com a situação dois. As cenas foram apresentadas na ordem acima. Após foram feitos os comentários. Júlia falou sobre a união do grupo e o entrosamento. Fundamental para a responsabilidade compartilhada. Rocha e Memê comentaram sobre o isolamento do professor na sala de aula. Várias questões foram levantadas, como: Atitudes inadequadas e responsabilidades dos professores e coordenadores enquanto grupo. Questão do trabalho coletivo ou de convivência? Problemas na sala de aula, “não quero ninguém se metendo, acabo ficando sozinha”. Situações do dia-a-dia. Posicionamento de professores. Respeito para com o outro. As questões complexas entre aluno-professor, professor-aluno. Para finalizar, Lelê pediu que escrevêssemos uma cena, na qual um professor maltrata e o outro resolve o conflito. Foi feito uma síntese de como serão os dois últimos encontros e a necessidade da participação de todos. O encontro foi muito bom e proveitoso. ANEXO 3 Cenas Organizadas por Encontros 229 ANEXO 3: CENAS ORGANIZADAS POR ENCONTRO 2º ENCONTRO “Uma professora, muito experiente, assumiu uma sala de crianças de 3 anos. Como estava acostumada a lecionar para crianças maiores, deparou-se com situações rotineiras inesperadas. Uma delas era o momento do sono. Dizia não ser capaz de colocar as crianças para dormirem, pois, nunca havia feito isso. A coordenadora pedagógica propôs leituras sobre o assunto, e mais uma vez, a professora recusouse à colocar em prática. A diretora apresentou os regulamentos da instituição e as funções do professor de desenvolvimento infantil, e a professora, sem dar importância ao fato comentou: “É colocarei as crianças para deitarem no colchão.” Estava preocupada com a punição e não com o bem estar de seus alunos.” Cris “Em uma escola havia uma criança DC (Deficiente Cerebral), todos os dias a menina chegava machucada. A professora não escrevia no livro de ocorrência o acontecido. Um certo dia a servente viu a professora fazendo cócegas na menina (pois gostava de brincar com a mesma) e interpretou da sua maneira. Um determinado dia, a mãe conversando com a servente disse que sua filha estava machucada. A servente logo disse que era a professora, pois a viu beliscando a menina. A mãe foi até a direção e quando a diretora foi olhar no livro de ocorrência não havia nada registrado, com isso não teve como defender a professora. A mãe foi até a coordenadoria de ensino registrar queixa da professora, na qual a diretora responde pela escola. Isto é, uma falta de comunicação entre a direção e o professor trouxe grandes problemas.” Jô “Gestão e organização, comunicação. A comunicação é central para uma boa gestão. A diretora de uma escola X, comunicou aos professores no início do ano, que o uniforme do aluno é obrigatório para a presença do mesmo na escola. O prazo limite para que os alunos pudessem entrar na escola sem o uniforme seria de duas semanas. Os professores ficaram incumbidos de avisar aos inspetores, a presença de alunos sem uniformes na sala de aula e os mesmos seriam encaminhados à direção. Acontece que a direção prolongou o prazo sem avisar os professores. Quando o professor Y retalhou a presença do aluno em sala de aula, o mesmo começou a rir e disse que não ia sair da sala. O pai desse aluno já havia conversado com a direção sobre a falta de grana para comprar o uniforme e a direção acabou lhe dando um prazo maior para isso. Se a direção tivesse avisado esse e os demais professores, essa situação teria sido evitada. O diálogo é essencial para o desenvolvimento de uma gestão escolar.” Julia “Certa vez um professor desejoso por realizar um projeto na escola, intitulado “Roteiros da vida real”, levou a proposta para a sua coordenação, a mesma por sua vez achou a idéia ótima e levou para a direção que por sua vez achou fabuloso e expressou todo seu apoio e deu espaço para o professor agir. O projeto teve um envolvimento multidisciplinar de maneira geral na escola desde a educação infantil até o ensino médio. Repercutiu na comunidade e famílias e refletiu positivamente na Diretoria de Ensino que por sua vez lançou informativos sobre o mesmo como forma de incentivo para outras escolas. O professor não se cabia de alegria, pois este 230 mesmo projeto havia sido barrado por 3 vezes em gestões passadas. Um simples sim, foi suficiente para um professor criativo mostrar que vale a pena acreditar em uma educação hoje dita como falida.” Lilá “Para que a direção possa andar em uma mesma direção em que os professores deverá haver interação entre eles. Por que não fazer esse aquecimento entre todos que trabalham na escola.” Maria “Em uma reunião de Pais e Mestres, em dado momento um pai levantou-se e comentando sobre o tratamento que uma professora deu ao seu filho, ameaçou a professora com palavras grosseiras e de baixo calão. A reunião foi tumultuada e encerrou-se antes do tempo. O pai saiu da reunião, gritando que ia processar a professora, denunciando-a ao Conselho Regional. Ele alegava que o colega de seu filho bateu nele, em sala de aula e que a professora não tomou nenhuma providência. A situação não foi devidamente solucionada anteriormente entre a professora, o pai e a direção, daí a ocorrência desta reunião.” Memê “Durante o intervalo dos alunos, o diretor da escola foi compartilhar este momento com os inspetores. O diretor observou o intervalo e não questionou nenhuma vez a atitude dos inspetores em relação aos alunos. Quando chegou ao final do dia, ele agendou uma reunião com todos os inspetores da escola na sexta-feira. No início da reunião ele apresentou um relatório sobre os assuntos que seriam discutidos com os inspetores. Não foi necessário o diretor questionar os funcionários individualmente, intimidando-os. E para o espanto dos inspetores o diretor abriu espaço para que eles resolvessem como o horário do intervalo poderia ser melhor. Este processo resultou no bom andamento e bem estar dos alunos e funcionários da escola.” Néia “Cena: A Gestão de Pessoas Numa escola de Ensino Médio acontece dentro de um dia vários momentos de ação e de decisão. Todos sabem seus papéis, mas precisam de direção. O sinal “bate” as 7:00, mas o portão ainda não abriu pois o inspetor perdeu a chave a caminho da escola. Os alunos já estranharam a situação e começam um murmúrio e logo algazarra. A vice-direção tem todas as chaves da escola organizada, porém seu horário neste dia será à tarde e as chaves ficam guardadas em sua sala. Bem, a Coordenadora liga para a Diretora, que liga para a Vice-Diretora que informa onde pode ser conseguida a chave reserva. Nisso se passou 10 minutos, muitos alunos foram embora, os professores continuaram na sala dos professores e o inspetor super “constrangido” finalmente abre o portão para mais um dia de aula.” Rocha “Na Escola, a diretora circula pelo corredor das salas de aula e depara-se com um grupo de alunos que a aborda e pergunta: Aluno: Senhora, por favor, por que os professores estão faltando tanto? Diretora: Alguns estão em licença mas quanto aos demais, não sei responder o porquê não vieram hoje. Aluno: Nós estamos desanimados com essa situação; todos os dias, temos aulas vagas e alguns professores nem deixam atividades para nós fazermos. Diretora: infelizmente, existem muitas questões dentro de uma escola que nós não temos controle. A questão da falta de professores é uma delas; não podemos fazer nada a respeito, só conversar. Por que vocês não tentam conversar com os professores que têm o hábito de faltar e descobrirem os seus motivos? 231 Aluno: Essa é uma boa idéia! Quem sabe esses professores descobrem que nós precisamos deles e revejam essa situação.” Sandra 3º ENCONTRO “Personagem da cena 2. Sr Antônio, porteiro da escola, mais ou menos 52 anos, trabalha há muitos anos na mesma escola. Conhece praticamente todas as crianças, jovens e pais. Toma calmante para dormir, usa óculos e é muito solícito com a comunidade escolar.” Ana “Caracterização de um personagem. Cena 2. Seu Antônio, o zelador do colégio, é um senhor com aproximadamente 54 anos, que sempre usa o seu uniforme cinza, que por sinal está em ótimo estado (limpo e passado). Seus sapatos são pretos e bem engraxados. Os cabelos, com aspecto grisalhos são penteados para trás, o que forma uma leve ondulação na franja. Mostra-se atencioso e eficaz em suas tarefas diárias, demonstrando irritação quando algo foge do seu controle. Este é o seu Antônio, de fala mansa e atitudes humildes, que faz o possível para atender à todos no colégio.” Cris “Maria tem 13 anos e está no ensino fundamental, tem muita preocupação com sua aparência. Vai para a escola como se fosse para um desfile de modas; maquiagem, brincos enormes, blusas super decotadas e roupas marcantes. Não usa uniforme, pois acha que fica muito masculinizada com camiseta e calça larga. Quando foi questionada pela professora, quanto ao uso do uniforme, ela comprou uma camiseta, porém personalizou conforme seu estilo de roupa, assim estaria cumprindo as regras e sem acabar com seu estilo. Estaria ela errada?” Déia “Caracterização de uma cena – 10. Pai destrata professora em meio a uma reunião de pais. Na reunião a professora fala para o pai o comportamento do seu filho, que ele era muito desatento às atividades e a desrespeitava. O pai nervoso, fala para a professora que é impossível, pois seu filho se bobear é o melhor da sala, pois só tira notas boas. A professora tenta explicar seus atos na sala, mas o pai não quer conversa destrata a professora sem dó nem piedade.” Jô “Cena 9. Personagem – aluna ‘Marcela’. Marcela tem 16 anos e está na 2ª série do Ensino Médio. Filha única de pais separados, ela tenta se destacar na escola com seu jeito ‘descolado’. Palavrão na boca dela, virou rotina. Seu cabelo e unhas vermelhas fazem parte do seu visual diário. Há quem diga que o ‘novo visual’ faz parte de um comportamento defensivo de uma menina que nunca se achou bonita. Marcela discorda do uso do uniforme, do qual ela considera esteticamente ‘careta’. De acordo com ela, a obrigatoriedade do uniforme é uma bobagem.” Julia “Aluno debate com professora seu direito de permanecer sem uniforme na sala de aula. Duas alunas com idade de 13 anos apresentaram-se na escola as 7h para assistir aula, porém, seus trajes eram ultrajante. Vestiam mini blusas, bem decotadas tanto na frente como atrás com intensão de mostrar o ‘piercing’ e a tatuagem. A sensualidade estava a todo vapor. Achando-se cheias de razão, pois estavam na 232 moda e a roupa era nova queriam mostrar para as amigas. Com postura irredutível e arrogância não aceitaram a imposição da professora. Uma estava com a blusa amarrada na cintura para disfarçar sua mini sais, sentindo-se protegida pelo seu direito demonstrava muita petulância.” Lilá “A inspetora é uma senhora de 40 anos+ - e muito preocupada com a cobrança dos alunos exigindo dela mais espaços e materiais esportivos para os jogos e brincadeiras na escola. A inspetora Ana Maria muito preocupada com a situação, procurou a diretora para que ambas solucionassem o problema.” Maria “Pai analfabeto. Tem 5 filhos. Todos meninos. Desempregado, com 40 anos aproximadamente. Foi porteiro, mas foi mandado embora, por faltar muito ao trabalho e chegar atrasado. Bebe muito e devido a bebida briga sempre com a mulher e bate nos filhos. Às vezes, bate na mulher também. Não gosta de freqüentar as reuniões de pais, mas às vezes se vê obrigado, porque sua esposa não pode, por trabalhar fora, para manter a casa.” Memê “Cena: Portão não foi aberto – perdeu a chave. Personagem: Senhor Antônio. Baixinho, barrigudo, cabelos bem cortados, moreno com aproximadamente 45 anos. Vestido com uma calça azul e uma camisa branca, sapatos pretos e surrados. Ele usa óculos, porém ele sempre esquece onde guardou.” Néia “Cena 1 – O inspetor de alunos. “Amável, solícito, educado, comunicativo, soluciona problemas, conhece todos os alunos, tem todas as chaves e abre todas as portas.O inspetor numa escola tem como característica principal o ‘querer’ fazer com que o aluno seja aluno e respeite todas as regras. Representar os limites e como tal se caracteriza como rígido, pontual e presente. Ele pode ter qualquer idade ou sexo mas tem que ser reconhecido.” Rocha “A professora que argumenta com as alunas sobre a importância do uso do uniforme é muito conservadora em alguns aspectos. Ela preserva bons modos, regras de conduta e o cumprimento das normas da escola. Silvia é o seu nome. Ela tem 40 anos e trabalha no magistério há 20 anos. Já trabalhou em diversas instituições de ensino e aprendeu que para o bom funcionamento da Escola, é necessário o cumprimento das normas estabelecidas. Segundo ela, os alunos precisam de limites estabelecidos porque a família já não tem conseguido cumprir esse papel, e essa falta de estrutura tem criado uma sociedade irresponsável.” Sandra 4º ENCONTRO “Era o dia da Festa Junina da Escola, o espaço enorme, todo enfeitado a caráter, bastante barracas de comes e bebes e brincadeiras... Corria tudo tranqüilo, pais e alunos participando felizes. Até que... de repente escutei um tiro, sai correndo apavorado, pois era eu quem cuidava do portão. Foi aí que encontrei uma mocinha, que, segundo ela, estava apenas se escondendo, atrás da barraca de tiro ao alvo. Fiquei desconfiado e chamei a inspetora. Fomos interroga-la, mas nada ficou claro em relação ao tiro. Procuramos por toda a escola e não encontramos nenhum suspeito.” Ana 233 “Marcela: Fala Veia! Mãe: Oi filha, o que houve ontem quando você saiu de casa gritando dizendo que iria para casa do seu pai e voltou com a roupa toda suja? Marcela: É Veia, eu tava querendo um barato aí que não deu certo. Te pedi uma grana pra ir na festa junina na escola e você não me deu... Mãe: Mas filha é fim de mês e eu não tenho dinheiro... Mas afinal você foi a festa? Marcela: Fui e me dei mal...Rolou um tiro bem no meio da festa... Eu tava me borrando de medo e a todos me acusando, perguntando da arma, como se eu tivesse atirado. Mãe: Minha nossa filha, por que isso? Marcela: Porque sou feia e “malacabada”, e ainda por cima sou pobre... todos me olham como marginal e não como uma adolescente que procura um lugar ao sol.” Déia “A festa junina desse ano deu o que falar. Eu já passei de tudo nesta escola, mas nunca tinha presenciado uma situação como essa. Tiro? Em plena festa escolar? Esse mundo ta perdido! Quando escutei o tiro, fiquei 5 segundos parado sem saber como agir. Vi crianças correndo, pais gritando... o espanto era quase geral. Digo “quase geral” porque um grupo de alunos ficou rindo do episódio... como podem achar essa situação engraçada? Corri para chamar um reforço policial e tentei acalmar os alunos espantados. Depois chamei a diretora e contei dos “tais alunos” (aqueles que se divertiram com o ocorrido)” Julia “Em um sábado do mês de junho aconteceu a nossa festa junina, como toda escola a preparação decorreu-se por um mês anterior. Tudo estava bem naquela tarde houve a presença de muitos alunos, coisa que me preocupava, pois como inspetora e com contato maior com os alunos muitos haviam dito que não viriam, pois, já são bem grandinhos para dançar quadrilha. Minha preocupação era grande, pois, os pais já estavam ausentes destes momentos há um tempo. Bom no decorrer da festa acompanhei o comportamento de uma aluna em especial, a mesma é um tanto rebelde e não se mistura com ninguém da escola, isola-se e procura chamar a atenção no seu modo de ser, mas naquele dia ela estava inquieta; tentei me aproximar e conversar, porém, era repulsiva. Observei que olhava muito para um homem que estava na barraca de bebidas, já bêbado. Então perguntei se ela o conhecia. Muito alterada me respondeu que antes não tivesse conhecido, pois, aquele era seu pai, ao qual, sentia muita vergonha. Terminou sua fala dizendo que desde quando nasceu não sabe como seu pai é sem estar bêbado. Sua fala calou a minha, e um sentimento de impotência tomou conta de mim. Então decidi que, se não podia fazer algo por seu pai tentaria fazer por ela.” Lilá “Eu fui na festa junina da escola, onde meus filhos estudam e só fui porque eu fiquei sabendo que lá ia ter umas biritas, isso é, quentão, vinho quente e umas batidas também. Há! Se não eu nem iria lá, não quero nem saber de ir em escola preocupando com os filhos. Se não fosse pela minha mulher, eles nem estaria estudando. Até hoje com a idade que estou, quase 40 anos e não sei nem escrever o meu nome. E tem mais, se estão na escola, a obrigação é da escola e não minha. Já que a mãe deles achou melhor que eles estudassem, então ela tem obrigação de dar educação pra eles. Mas a festa junina foi muito boa, pois eu tomei todas e nem vi as crianças, quando lembrei delas eu já estava em casa. A mulher é que deu por falta dos meninos.” Maria 234 “No sábado passado, teve uma festa junina lá na escola, e eu como inspetora de escola estava lá, assim como os alunos, professores, pais e alguns da diretoria. A festa estava bem movimentada, com música sertaneja, que eu gosto e teve até quadrilha. Tinha barracas com comidas, doces e quentão. Estava tudo indo muito bem quando em uma certa hora, já no final da festa, ouviu-se um tiro, que ninguém sabia de onde vinha. Foi uma gritaria e uma correria grande. Todo mundo ficou querendo se esconder, com medo de levar um tiro. As professoras ficaram preocupadas com suas barracas e alguns alunos se esconderam com medo de serem acusados. Gente, como é que pode, no meio de uma festa tão animada, alguém vir dar um tiro para acabar com ela! Eu tomei providências, eu sai à procura de quem fez esta barbaridade, mas eu não podia acusar ninguém, porque eu não vi. É, depois disso a festa acabou mesmo, e ao invés de irmos para casa alegres, pela festa, fomos assustados e com medo.” Memê “A professora chegou na festa com a cara fechada e desanimada, pois iria trabalhar na barraca de tiro ao alvo. Comentou com algumas pessoas que não gostava de trabalhar no domingo, porém era necessário que participasse da festa. Durante a festa aconteceu um fato inesperado, uma pessoa não identificada deu um tiro (de arma) no pátio tumultuando e assustando a todos. A professora abaixou-se no chão, ação imediata para proteger-se. Em seguida ficou preocupada em guardar e proteger as prendas e as fichas que haviam na barraca, pois ela era responsável pelos objetos de valores mantidos nela. Após o susto ela percebeu que não era um ladrão e que sua barraca estava segura, então lembrou-se de seus alunos e ofereceu ajuda para uma aluna que estava sozinha sem seus pais. Porém ela já estava protegida e acompanhada pelo inspetor de alunos.” Néia “Sábado depois da reposição de aulas, que todos tem que participar (“um saco”) teve uma festa. Nossa! Tava todo mundo lá! Foi uma festa junina, nem curto muito estas coisas, mas todo ano tem né! Sabe que eu não entendo muito bem porque os professores reclamam tanto. Bem, a escola estava animada, tinha comida, bebida barraquinhas. De repente aconteceu um barulho que fez todos correrem foi uma confusão louca. As inspetoras tentaram nos proteger, a direção acionou a Polícia. Depois de alguns minutos de pânico e de correria, tudo ficou em silêncio e a galera se reuniu para dar muita risada e ir ao shopping que é mais divertido.” Rocha “Belinha estava na festa junina da escola, enlouquecida, só queria encontrar o Joãozinho e reviver os momentos em que estiveram juntos no baile funk. Ela andava por todos os lados, agitada, bebendo vinho, como que para conter a sua ansiedade. Estava frio mas a saia que Belinha usava era tão curta que chamava a atenção de todos. Finalmente encontrou Joãozinho. Ele é um rapaz muito conhecido no bairro por ser líder de um grupo de “skaitistas”. Seu corpo é todo tatuado e seu cabelo todo trançado. Quando Belinha e Joãozinho se olharam, sentia-se o brilho nos rostos dos adolescentes. Eles foram para um canto da Escola, bem atrás de umas salas vazias, e ficaram se amassando durante quase toda a festa. Foram encontrados por um aluno que acabou contando para a diretora. D. Meire, a diretora, chamou o casal apaixonado e convocou seus pais para busca-los na Escola. Os pais dos meninos não deram muita atenção para o caso, o que deixou D. Meire furiosa.” Sandra 235 5º ENCONTRO “Sou professora há seis anos, e sempre me deparo com estas questões de preconceito entre os alunos. São vários tipos, porém em relação à cabelos, nunca havia acontecido. Percebi que a mãe é bem tranqüila em relação a questão racial, talvez a preocupação maior, era mesmo, em relação aos cabelos. Após uma conversa esclarecedora com as crianças e pais envolvidos, procuro sempre deixar um espaço na aula, para as crianças exporem seus medos e reclamações. Sinto que o respeito e a aceitação às diversidades e ao outro melhorou. Procuro cada vez mais integrá-los (as crianças) ao espaço escolar. Nestes casos, é sempre bom um diálogo aberto com as crianças em relação à todos os tipos de preconceitos.” Ana “Mesmo sabendo que um dia aconteceria. Ao deparar-me com aquela situação, de início, senti-me insegura. Uma aluna me procurar para falar de sexo. No mesmo instante pensei como transmitir segurança e responsabilidade, quando os hormônios estão aflorando por todos os lados. Respirei fundo e fui em frente. Escutei tudo que ela tinha a dizer e em uma conversa aberta, mostrei que a entendia e que também havia passado por tudo aquilo. Porém, temos que focar os nossos sonhos e tomar atitudes responsáveis antes de agirmos em algumas situações. Percebi seus olhos brilharem, suas mãos tocaram as minhas e um belo sorriso surgiu de seus lábios, que ao mesmo tempo movimentaram-se para aquela fala inesquecível. - Até que enfim alguém me escutou e me entendeu.” Cris “Hoje conversei com um pai que realmente me aborreceu. O encontrei por acaso em um bar no bairro da escola onde fui comer um lanche. Depois de tantas convocações que fiz para o comparecimento dele ou da esposa dele na escola... Há!! Não me contive, puxei logo o assunto da filha... Que pai mais irresponsável, ele teve a audácia de dizer que “eu” tenho toda a responsabilidade referente a educação de sua filha, e que sua obrigação era somente dar o que comer... Meu Deus!! Onde estão os valores da família? Onde eles foram parar? Um pai em plena luz do dia tomando pinga! Sem se preocupar com o futuro dos filhos e do seu próprio... para ele o pouco que tem, é suficiente... Que perspectiva de vida ele poderá passar aos filhos? Ainda bem que sou professora! Não consertarei o mundo, mas ajudarei a mudar o futuro de alguém. Esta causa é minha.” Déia “Ao me deparar com aquela menina, senti a necessidade de falar com ela. Estava sentada em um canto, toda suja e mal arrumada me aproximei, almocei com ela para tentar um contato. Falei das necessidades da higiene, mas a menina recebia tudo com uma grande negatividade, para tudo havia uma resposta negativa. Perguntei pelos seus pais, a resposta mais uma vez foi negativa. Tentei falar da sua inteligência, do seu caderno, mais não adiantou. Me senti impotente confesso que até triste, mas sei que não devo desistir e preciso arrumar uma outra forma para tentar mostrar o valor que ela tem.” Jô “Ontem fui tomar um lanche com uma aluna da escola. Ana me procurou porque precisava desabafar. Ela só pensa em fazer sexo com o namorado. O problema é que Ana tem apenas 12 anos. Tentei aconselhá-la a se concentrar mais nos estudos. Enfoquei a importância de uma carreira promissora. Ela quer ser advogada e, portanto, deve estudar para isso. Ressaltei também que ela é muito nova e deve aproveitar cada fase, sem pular etapas. Fiquei contente que ela me procurou, já que 236 não tem muito diálogo com os pais e quer uma orientação. Espero manter sempre este contato com ela.” Julia “Caramba! Acho que nunca vou estar preparada para falar deste assunto com um aluno, pois, a moral e a ética são muito fortes neste caso. Outro dia uma aluna me procurou dizendo que precisava de ajuda, pois, estava com muita vontade de se entregar (sexualmente) para um rapaz. O problema é que ela só tem 13 anos e não tem orientação de seus pais. Fiquei preocupada, com um sentimento de impotência, relutando com minhas palavras, pois não poderia ressaltar meus conceitos e sim transmitir valores. Achei que realmente o despreparo para lidar com a sexualidade na minha profissão, poderia ser um passo para o distanciamento afetivo dos meus alunos. Também acho complicado adentrar na particularidade de cada um, uma vez que, uma palavra pode salvar como também afundar. Como meio de me aprofundar procurei um curso de capacitação em relação a orientação sexual, e espero assim melhorar a minha desenvoltura quando perceber este comportamento nos meus alunos.” Lilá “Eu como professora de uma aluna que sofre com o preconceito na sala de aula por ser negra. Sei que é muito difícil de trabalhar com isso, pois vivemos num pais, onde falam não haver discriminação racial, mas não é verdade. Claro que na escola fica mais difícil de trabalhar com este problema. Pois são crianças ou adolescentes em formação. Estou muito preocupada, pois eu já conversei com os alunos sobre o assunto, fiz alguns trabalhos com eles, mas o problema continua.” Maria “Tenho uma aluna na 8ª série do fundamental, com 15 anos de idade, que se apresenta sempre vestida inadequadamente, com roupa suja, cabelos sem pentear e mesmo sem se lavar, desleixada, faltante e não participante. Às vezes, ela dorme em sala de aula, outras vezes fica sentada na última carteira, lá no fundo da sala e não faz e nem copia a tarefa. Percebe-se que ela tem sua auto-estima baixa. Outro dia, encontrei-me com ela na cantina da escola e tentei falar-lhe, para que melhorasse no seu comportamento e aparência,mas parece que não deu muito resultado; ela continua igual. Talvez, conversando com os pais dela, possa surgir algum efeito. Penso em encaminhá-la à coordenadora para que ela chame os pais para saber o porquê do seu comportamento displicente em sala de aula e da falta de cuidados consigo mesmo.” Memê “Hoje conversei com uma mãe que estava muito aflita e não sabia o que fazer. A sua filha é a “Aninha”, aquela do jardim II lembra... Então ela reclamou que seus amigos estavam chamando ela de “neguinha de cabelo duro”. A mãe me contou que quando ela chegou em casa queria tomar banho com sabão em pó e cândida para ficar branquinha e queria também que seu cabelo ficasse liso e bonito. Você acredita que a mãe não sabia o que fazer, pois a “Aninha” não queria mais vir para a escola. Eu fiquei triste e chocada pela atitude de meus alunos, pois estou trabalhando a questão da diversidade com eles. A única coisa que podia fazer para acalmar a mãe dela, foi prometendo que iria conversar com a turma sobre essa questão. Pois ninguém é igual a ninguém e todos merecem respeito e admiração como são.” Néia “Encontrei o pai do Rafael na lanchonete do bairro. Aproveitei a oportunidade para falar-lhe sobre o menino mas que decepção... O homem já meio bêbado, retrucou tudo o que eu disse. Ele se isenta da responsabilidade de pai e diz que a Escola e a 237 mãe do menino é que têm que resolver estas questões. Ele chegou a ser grosseiro comigo e para não me aborrecer, acabei desistindo.” Sandra “Ser professora nos dias atuais é superar as adversidades que a sociedade enfrenta. Na escola onde trabalho, a cada dia que passa os professores estão desmotivados e reflete na quantidade de licenças médicas e faltas as aulas dos profissionais. A desvalorização do professor é um fenômeno que passamos e dentro da sala de aula ela é mais contundente. Não basta ser competente, tem que ser mágico para reverter este quadro. Por mais difícil que esta profissão seja, ela é uma referência na vida escolar e de todos que passam pela instituição escola. A Política Pública vigente, a prática docente com problemas de formação, a massa de profissionais com poucos recursos de transformação pessoal precisa buscar no trabalho em equipe a solução, para transformar a escola. Fazer parte dessa luta diária é uma missão e muitos ainda não desistiram como e quanto tempo não sabemos.” Rocha 7º ENCONTRO 7º ENCONTRO - 30 DE SETEMBRO TEMA: Relacionamento professor/aluno CENA: Excursão ao Playcenter Local: Playcenter Personagens: dois alunos e uma professora CENA 1: Enfim chegou o dia tão esperado da excursão ao Playcenter. Todos os alunos agitados, só esperando a hora de chegar e estravasar nos brinquedos... Logo na entrada, Luana combina com a colega Janaina, para juntas, brincarem na montanha russa. Luana (toda feliz) diz a Janaina: - Jana, vamos na montanha russa? Janaina, entusiasmada, nem responde, já corre em direção ao brinquedo predileto... - Espere! Grita Luana. Vamos convidar a professora Néia... Afinal ela também não é nossa professora predileta? - É mesmo. Responde Janaina. Eu acho que ela vai adorar se divertir conosco... - Ei professora, vamos na montanha russa! Néia, preocupada, diz: - Ah, meninas, estou com medo! As duas (Janaina e Luana) respondem em coro... - Professora, não se preocupe, nós cuidaremos de você! Não tenha medo... ... Depois de alguns minutos... - E aí professora? Gostou? - Muito bom, mas... Agora deixe eu me recuperar... As duas colegas, seguiram pelo parque e... Janaina diz: - Ainda bem, que foi a Néia que nos acompanhou, imagina se fosse aquela chata da Eugênia... - Com certeza, não poderíamos nem correr, imagina brincar. Afinal ela é uma neurótica... Ana 238 7º ENCONTRO - 30 DE SETEMBRO TEMA: Relacionamento professor/aluno CENA: Um encontro casual Local: Parque do Ibirapuera Personagens: Professora Lara Ex-aluna Ingrid CENA 1: Professora Lara caminha pelo parque do Ibirapuera (Pensativa). Depara-se com uma adolescente, que alegremente diz: - Oi professora, tudo bem? Quanto tempo, hem! Lara busca em sua memória, de onde conhecia aquela linda garota. Até que encontra, e feliz diz - Nossa Ingrid, como você está linda! (nesse momento abraça a garota) – Eu estou muito bem, me conte de você? (olhar carinhoso e acolhedor) Ingrid pega na mão da professora e a leva para sentar no banco, que fica logo atrás. Acomodam-se, e Ingrid diz: - Estou ótima, concluí o Ensino Médio e iniciei o curso de Moda, o tão sonhado curso. A professora entusiasmada, pega na mão de Ingrid e fala: - Você não desistiu de seus sonhos, é uma vencedora, fico muito feliz! A garota emocionada continua: - Pois é, apesar das dificuldades financeiras, estou lá. Estudei muito e consegui a bolsa. E sabe o que me incentivou a não desistir (neste momento fica mais emocionada e lágrimas escorrem de seus olhos) A professora percebe a emoção, aproxima-se e pergunta: - Não, não sei. Você quer me contar? A aluna respira fundo e diz: - Claro! – Nos momentos difíceis procurei em nossas brincadeiras de faz de conta a inspiração. Lembrava-me das brincadeiras de cabeleireiro, onde você permitia que eu tocasse em seus cabelos. Dos bailes à fantasia, onde permitia que à produzisse. E nas suas falas acolhedoras e incentivadoras, quando eu comentava que seria estilista, e você com este mesmo olhar dizia – “Sim você será!” A professora muito emocionada e sem fala, sorriu e abraçou a sua ex-aluna, em gesto de amor e afeto comentou: - Foi muito bom revê-la, você é a prova viva de que ser professor vale a pena. Cris 7º ENCONTRO - 30 DE SETEMBRO TEMA: Relacionamento professor/aluno CENA: Local: Sala de aula Personagens: Professora Maria / Aluna Nina CENA 1: Na sala de aula a professora ministra sua aula normalmente, conforme a tinha preparado. Então a aluna Nina que tem 14 anos e é muito desatenta nas aulas questiona a professora sobre o assunto proposto. Além de não ter prestado nem um pouco de atenção no que dizia a professora ela disse que não estava entendendo nada. A professora se dirigiu a carteira da aluna com toda atenção e carinho a perguntou sobre suas dúvidas. Nina se comoveu com a ação da professora, tentando ajudá-la, enquanto ela só queria atrapalhar a aula. 239 CENA 2: Em sua casa, deitada em sua cama, Nina lembra da atenção que tivera hoje da professora, e resolve pegar os livros para estudar e tentar mostrar a professora que não foi tempo perdido tudo que ela teve que voltar de matéria por causa dela. CENA 3: No outro dia na sala de aula, Nina é a primeira a entrar na sala após o “sinal”...- “Bom Dia Professora!!” A professora surpresa por Nina já ter entrado em sala, mas não questionou nada com a menina... – “Bom dia, minha linda! Você não quer se sentar aqui perto de mim? Assim posso te acompanhar melhor!” Nina ficou por alguns instantes muda, observando o olhar carinhoso que a professora tinha com ela e com todos os outros alunos. – Sim professora... e ela foi logo se sentando, abrindo o caderno e atenta na aula. A professora então lembrou de tudo que já havia dito e feito com Nina, a tirando de sala, dando várias advertências. Tudo isso e nada. Nina só precisava de um pouco de atenção e de certeza que ela também é capaz. Déia 7º ENCONTRO - 30 DE SETEMBRO TEMA: Relacionamento professor/aluno CENA: Um ato de carinho Local: Pátio Personagens: Professora Neuza, a menina Néia e a amiga Ana CENA 1: A professora Neuza está no pátio observando seus alunos na hora do intervalo. Uma das meninas entusiasmada chama a amiguinha para brincar. - Ana vem brincar comigo - Vem aninha Toda saltitante a menina Néia, não parava de pular. Antes da sua amiguinha Ana chegar Néia cai no chão e começa à chorar. - Ai, ai, ai machuquei A professora se aproxima e pergunta o que aconteceu. - O que foi Néia Néia diz: - Eu caí, ta doendo. A professora tenta acalmá-la e diz. - Não foi nada Ajuda a menina se levantar à acompanha até o bebedouro e oferece água, e diz: - Está vendo, não falei – não foi nada, já passou. A menina se acalma e parece até esquecer o ocorrido e volta à brincar dizendo: - Ta bom professora. Jô 7º ENCONTRO - 30 DE SETEMBRO CENA: Local: Escola, sala de aula Personagens: Professora Ana TEMA: Relacionamento professor/aluno 240 José – aluno que senta na última carteira, não gosta de estudar, não presta atenção na aula. CENA 1: A professora Ana estava apagando a lousa, quando recebeu uma bolinha de papel nas suas costas. ANA: Quem jogou esta bolinha de papel? Silêncio na sala. ANA: Se o responsável não se manifestar, vou suspender a sala inteira. JOSÉ: Fui eu professora. A professora abriu a porta da sala e chamou o inspetor. ANA: José por favor, acompanhe o inspetor até a sala da direção. José atendeu o pedido da professora. No dia seguinte, durante o intervalo das aulas... ANA: José, você pode vir aqui um minuto, que eu gostaria de conversar com você? José se aproximou ANA: Você jogou a bolinha ontem sem querer, não foi? JOSÉ: Foi sem querer sim, me desculpa. ANA: Estou preocupada com você. Não te vejo fazendo exercícios, prestando atenção na aula. Você não gosta da minha aula? JOSÉ: Não professora, sua aula é boa. Eu é que não gosto mesmo de estudar. Não participo de nenhuma aula. ANA: José! Isso tem que mudar! Você tem que pensar no seu futuro! Você é um menino tão inteligente. Quero ver você fazendo as atividades na próxima aula. Você vai fazer? JOSÉ: Vou sim! ANA: Ótimo! Eu vou verificar até a próxima aula. JOSÉ: Até. Na aula seguinte, Ana foi até a carteira de José e ele realmente estava fazendo os exercícios. Julia 7º ENCONTRO - 30 DE SETEMBRO TEMA: Relacionamento professor/aluno CENA: Um fato real Local: Casa da professora Personagens: Professora Aluno CENA 1: Certa manhã de sábado a professora Silvia estava em sua casa, arrumando-a como de costume. Sem esperar ouve a campainha tocar, abre a porta e para sua surpresa defronta-se com Augusto seu aluno do 5º ano e diz: Profa.: - Olá Augusto! Que surpresa vê-lo aqui! Augusto: - É professora pensei muito antes de tomar esta decisão. Profa.: Bom! Mas entre, vamos conversar; Em que posso ajudá-lo? Augusto: - Sabe professora eu já tenho 12 anos estou no 5º ano, mas não sei ler direito. Profa.: - Sim, prossiga. Neste momento a professora segura sua mão dando-lhe conforto Augusto: - E eu tenho medo de chegar ao final de mais um ano com esta dificuldade. E ninguém fazer nada por mim. 241 Profa.: - Mas por que você resolveu procurar por mim e não a Janaina que é a professora de Língua Portuguesa? Augusto abaixa a cabeça, emudece e depois responde: Augusto: - Professora ela é minha irmã e sabe do meu problema, disse que não vai me ajudar porque outros alunos podem desconfiar disso e ela não quer que ninguém saiba da sua vida particular A professora Silvia fica abismada, leva a mão na boca e emudece. Passados alguns minutos ela pergunta. Profa.: - Ta certo, então porque ela não te ajuda em casa mesmo? Augusto: - Porque ela disse que em casa não é professora, e que lugar de aprender é na escola, e não quer misturar as situações. Com isso a professora Silvia, angustiada, pensa em como pode ajudá-lo. E questiona. Profa.: - Bom, se você veio até aqui escondido é porque precisa de ajuda e quer aprender mesmo. Porém precisamos do consentimento de seus pais. Tudo bem? Neste momento Augusto se desesperou, com medo dos seus pais não apoiarem sua idéia, mas acaba concordando. Para encerrar aquele assunto a professora ainda intrigada, faz uma última pergunta. Profa.: - Augusto, mas porque eu? Augusto: - Professora, mesmo dando-nos aulas de Ciências, percebi que acreditava em mim, quando em uma de suas aulas perguntou se eu havia entendido o assunto ou se precisava de ajuda. E a partir daí passei a confiar em você. A professora com os olhos cheios de lágrimas ficou sem fala. Lilá 7º ENCONTRO - 30 DE SETEMBRO TEMA: Relacionamento professor/aluno CENA: Local: Sala de aula Personagens: Eliana (aluna Ana (professora) CENA 1: A Ana está na sala de aula conversando com os seus alunos sobre a matéria. Quando entra na sala a Eliana (chorando) e diz: - Professora eu desesperada, pois estou grávida e não sei o que fazer. A Ana levanta e abraça a Eliana e tenta acalmá-la, dizendo: - Eliana fique calma, não precisa chorar, vai ao banheiro, lave o rosto e volte para conversarmos no final da aula. Eliana (chorando) falou: - Professora o meu pai vai me matar, quando ficar sabendo. - Conversaremos depois, e você verá que nada disso irá acontecer. E a Eliana saiu da sala em direção ao banheiro. Cena 2: A professora voltou para a sua mesa e continuou a conversa com os seus alunos. Com um ar de preocupada. Pois sabia que teria que ajudar a Eliana. Maria 7º ENCONTRO - 30 DE SETEMBRO TEMA: Relacionamento professor/aluno CENA:Professor dando aula Local: Sala de aula Personagens: Professor Antonio Janaina (aluna com dificuldades de aprendizado) 242 Iracema (aluna sem maiores dificuldades) CENA 1: Prof. Antonio: Bom dia, alunos. Vamos dar hoje continuidade à aula de Gramática. Copiem primeiro o que eu vou escrever na lousa, depois eu explico e se tiverem dúvidas, me perguntem, certo? Janaína: Prof: O Sr. Explicou, mas eu ainda não entendi a diferença entre artigo definido e indefinido. O Prof. Antonio se aproxima de Janaina e olhando bem para ela explica: Prof. Antonio: O e a são definidos. Quando se diz: A Maria saiu. Quem saiu? A Maria, e não outra pessoa. Estamos definindo esta pessoa, a Maria. Mas quando dizemos: Um gato pulou do telhado, não se define, quem é o gato. É um gato qualquer. Ainda um outro exemplo: Uma aluna entrou na sala, não estamos definindo quem é essa aluna, mas qualquer aluna, que pode ser você, ou a Iracema ou o Serginho, o Tiago, etc... Certo? Entendeu? Janaína: Eu entendi mais ou menos, professor. Prof. Antonio: Não se preocupe. Com os exercícios que eu vou passar agora, você vai entender, com certeza. Você é uma aluna esforçada e dedicada. Ao fazer os exercícios, ficará ainda mais fácil notar a diferença entre eles. (O prof. vai para a lousa e escreve vários exercícios com os artigos.) Em dado momento, a aluna Iracema levanta a mão e diz: Iracema: Professor, eu já sei qual é a diferença entre os artigos e os exercícios que o Sr. passou são bem fáceis. Prof. Antonio: Que ótimo que você já entendeu. Muito bem! (O prof. Aproxima-se novamente de Janaina para saber se ela sanou sua dificuldade.) Prof. Antonio: Conseguiu entender, agora? Janaína: Depois dos exercícios ficou mais claro, professor. Prof. Antonio: Ótimo. Na próxima aula, faremos mais exercícios para reforçar este ponto. Tchau, pessoal. Até a próxima aula. Memê 7º ENCONTRO - 30 DE SETEMBRO TEMA: Relacionamento professor/aluno CENA: “Levanta e sacode a poeira” Local: Parque da escola Personagens: Professora Isabel e alunas Ana e Bia CENA 1: A professora Isabel estava no parque com sua turma. • Aluna Ana (correndo): - Bia vem brincar de bola comigo? • Aluna Bia (sorrindo) responde: - Já vou, já vou... Quando Bia jogou a bola para a Ana ela caiu no chão. • Aluna Ana (chorando): - Aí, eu machuquei minha perna. • Profa. Isabel (preocupada): - O que foi Ana? • Aluna Ana - Eu cai e machuquei a perna. Bua, bua!!! • Profa. Isabel: - Calma! Vou te ajudar - Me dê suas mãos, vamos levantar. Fique calma! 243 • Aluna Ana - Ta bom!!! • Profa. Isabel: - Pronto, deixa eu ver sua perna. Está doendo muito? • Aluna Ana (chorosa): - Sim... snif, snif • Profa. Isabel: - Vamos limpar seu machucado e fazer um curativo. Não vai doer nada. • Aluna Ana - Então vou parar de chorar. • Profa. Isabel (sorrindo): - Prontinho sua perna está novinha em folha. - Sacode a poeira e vai brincar. Ana deu um beijo na professora e voltou a brincar. Néia 7º ENCONTRO - 30 DE SETEMBRO TEMA: Relacionamento professor/aluno CENA: A primeira turma Local: Casa da professora Julia Personagens: Professora Julia, experiente e acolhedora Professora Lilá, iniciante e desesperada CENA 1: Sentada em sua mesa de trabalho, em casa a professora Julia corrige, os trabalhos e avaliações de seus alunos, quando ouve o som da campanhia. Surpresa, fala em voz alta: - Um minuto, por favor! Organiza seus papéis para não se perder e vai até a porta e gira a chave. Desesperada, entra sua amiga, também professora, Lilá, que acaba de conseguir um emprego numa escola de educação infantil. Cumprimentam-se (Julia) diz contente: - Olá, Lilá que surpresa. - Aconteceu alguma coisa? Você parece estar nervosa. (Lilá) diz desesperada - Aconteceram muitas coisas!! E eu não estou pronta para tanto! (Julia) tenta confortar - Calma! Vamos sentar, e conversar quem sabe, te ajudo! (Lilá) Já em lágrimas - Não tem como! Estou desesperada. Tenho 42 alunos para trabalhar em sala de aula e não consigo nem manter a turma em ordem. É horrível!!! - Ninguém me disse na faculdade que era assim! E chora copiosamente (Julia) Dá uma gargalhada, e diz aliviada - É isso, estava preocupada, pensei que fosse algo ruim. - Isso é perfeitamente, normal - Você vai conseguir resolver tudo com um pouco de paciência e técnicas. (Lilá) sem acreditar: - Eles são incontroláveis, pulam, sobem nas carteiras, gritam o tempo todo. (mais choro) (Julia) bem ponderada - Mas você está em adaptação, e os alunos também. 244 - Você vai precisar de ajuda, porém quem tem que ser forte e profissional é você. (Julia) amiga - Você acha que consegue? Então qual o problema? (Lilá) para de chorar e ouve a amiga, que continua a falar sobre sua prática e reflexões. (Lilá) mais tranqüila - Bem, este é meu desafio, vou rever meu trabalho e mudar algumas coisas! Vai dar certo! Rocha 7º ENCONTRO - 30 DE SETEMBRO TEMA: Relacionamento professor/aluno CENA: Reunião de pais na escola Local: uma sala de aulas Personagens: a professora Sueli, o aluno Beto e sua mãe CENA 1: Beto e sua mãe entram na sala para assistirem a reunião de pais e mestres. A professora Sueli os recebe e encaminha-os para o canto da sala, onde ainda havia cadeiras vagas. Antes mesmo de sentar-se, Roberta, a mãe de Beto pergunta à professora: - D. Sueli, por que a senhora não gosta do meu filho, o que acontece? A professora ficou visivelmente nervosa e disse: - Mas eu gosto do Beto, o que será que o levou a pensar o contrário? O próprio Beto respondeu: - É que a senhora só abraça alguns alunos e eu, a senhora nunca abraçou. A professora sorriu para o menino e comentou: - Sabe, Beto, na realidade não sou eu que os abraço, eu só retribuo o abraço dos alunos que me recebem assim todos os dias. Você já imaginou se, ao entrar na sala de aulas, eu fosse abraçar cada um de vocês? Não sobraria tempo para a aula. Todos os dias, quando eu chego na classe, alguns alunos sempre me recebem com um abraço, você é testemunha disso, não é? A partir de hoje, eu gostaria que você também fizesse parte desse grupo que me espera na porta da sala. Eu terei o maior prazer em abraçá-lo também. Estamos combinados? Beto olhou surpreso para Sueli e balançou sua cabeça com um sinal afirmativo, informando que faria parte do “grupo dos abraços”. Sueli envolveu Beto em seus braços e beijou sua testa. Os olhos do menino lacrimejaram de emoção. Sandra 8º ENCONTRO “Cena: A União faz a força. Local: Escola. Havia uma diretora que assumiu o cargo em uma determinada escola. Tudo estava abandonado, os alunos matavam aula e os professores queriam apenas fazer seu horário. A diretora então resolveu convocar a todos para uma reunião, com o seguinte comunicado: Há algumas coisas que preciso entender e gostaria da ajuda de vocês me ajudassem. Uma professora falou: que legal agora apareceu alguém que quer nos ouvir. 245 Outra professora resmungou: agora deu, vou ter que utilizar o meu horário vago para uma reunião. Aproximou-se o horário e todos estavam lá, 14h. A diretora: Olá meu nome é Cleuza, percebi algumas coisas na escola que gostaria primeiro em ouvir vocês para em seguida encontrar soluções. A professora que reclamou no início resmungou: tomara que essa ladainha seja breve. A outra professora feliz com a nova diretora iniciou o diálogo: Aqui temos alunos que vem apenas uma vez por mês, que rabiscam as paredes da escola e principalmente alguns vândalos entram nos finais de semana para quebrar e roubar o que temos. A diretora falou: o problema é mais grave do que pensei. O que me sugerem para solucionar essa situação? Um professor levantou e disse: desculpa, mas com esses alunos aqui, não há mais nada a fazer. A diretora perguntou o nome do professor: Desculpe-me demoro um pouco para decorar nomes. Qual o seu nome? O professor: Carlos. A diretora: Então Carlos, já vivi situações piores em que alguns alunos me juraram de morte e não foi por isso que desisti. A professora Lucia entusiasmada: então o que fazer. A diretora: Convocar os pais. Carlos: duvido que venham. A diretora: Carlos! Só vamos saber se assim o fizermos. E assim continuaram a reunião, com várias anotações, alguns professores não acreditavam, mais aos poucos foram opinando. A diretora convocou os pais, como previsto apenas alguns compareceram. Passou o problema da escola para os pais e perguntou que estaria interessado em mudanças. Como já previsto alguns pais ficaram assustados e não deram muito crédito na diretora. Mesmo assim a diretora e os professores começaram a trabalhar. Havia um garoto que se chamava Paulinho, era ele o chamado maior problema da escola, andava com más companhias, pinchava à escola e estava começando com as drogas. Um dia à tarde, pegaram o Paulinho pinchando o banheiro da escola, o servente o levou até a secretaria. A diretora conversou com Paulinho e fez uma proposta: Bom, esta não é a primeira vez que você vem até a secretaria em seguida perguntou: Paulinho porque você vem à escola. Paulinho abaixou a cabeça e a diretora continuou, observei você desde que cheguei aqui e percebi a sua inteligência, gostaria de realizar algumas mudanças na escola e pensei que poderia me ajudar. Paulinho olha para a diretora assustado e diz: Como? Vi que você gosta de grafite e gostaria que desenhasse o muro da escola e conforme for seu desempenho podemos ver algo futuramente. Quero que vá e pense na proposta que fiz. No outro dia Paulinho chega à escola e foi direto para a secretaria. A primeira pessoa que encontra é a diretora que o cumprimenta: Olá Paulinho tudo bem? E ai pensou na minha proposta? Paulinho: Tudo bem eu aceito, mas preciso de alguém para me ajudar. A diretora: Você tem preferência? Paulinho: Não, mas os caras tem que ser feras. 246 A diretora: Então tudo bem, vamos selecionar um pessoal da escola. A seleção foi realizada, a diretora perguntou aos professores sobre os alunos e com isso selecionou os mais agitados e aqueles que pinchavam a escola. A diretora fez uma lista com o Paulinho do que precisaria e providenciou o material para dar início a mudança. Em um final de semana marcou com todos na escola e surpreendentemente todos estavam lá. A diretora providenciou uma bela de uma macarronada para todos e conseguiu fazer amizade com os alunos. No dia seguinte todos que chegavam à escola não acreditavam no que viam. E falavam: Nossa que lindo! É a escola parece outra. O professor Carlos disse: Gostei, agora sim. Com o primeiro passo dado, começaram a dar crédito para a diretora. Com isso todos resolveram participar e juntos melhoraram a escola e a comunidade começou a fazer parte do processo que crescia a cada dia. Todos que participaram da pintura do muro da escola especialmente Paulinho, começaram a dar crédito nas aulas e na escola que começaram à fazer parte dela.” Jô “Ana, uma professora muito experiente, descansa em seu lar após uma longa semana de aula. De repente! Alguém bate na porta. Era Lilá, uma professora iniciante muito abatida e aflita. Ana sem saber o que acontecera, pediu para que Lilá sentasse. Lilá impulsivamente começa a chorar, e diz que precisa de orientações experientes para ajudar seu aluno, que já esta com nove anos e não consegue ler. Este desafio (relata ela) é mais difícil do que dominar uma sala com quarenta crianças danadas. Quando ingressou na carreira, sabia que teria problemas sérios, mas a realidade é bem diferente do que só achar. Não queria abandonar seu sonho de menina, por achar que não é capaz de alfabetizar uma criança. Ana ouve tudo em silêncio. Fica com os olhos banhados em lágrimas, e com um abraço caloroso diz, que nunca viu um amor tão grande pelo seu próximo, como estava presenciando naquele momento. Seu incentivo para Lilá bastou para que ela abrisse um sorriso e acreditasse que era possível.” Lilá “Na 2ª série A da Escola Alberto Levy, havia uma turma de alunos que não gostava de estudar. Esses alunos cabulavam quase todas as aulas e as poucas que assistiam, bagunçavam e conversavam durante o tempo todo. Marina era a mais rebelde. Ela é filha de pais separados e parece que sua mãe adoeceu logo depois da separação. Seu pai sumiu e ela é que cuida da casa e de sua mãe. Certo dia, durante uma aula de Português, a professora Sibele perdeu a paciência e levou o grupo de cinco alunos até o pátio da escola e conversou seriamente com eles. Sibele: - eu cansei de esperar vocês amadurecerem. Ninguém tem culpa de revolta que vocês carregam. Quero ouvir uma solução para esta situação porque não permitirei mais esse comportamento perturbador durante as minhas aulas. Marina – acordou atacada hoje, heim, professora? 247 Sibele – Não Marina, não acordei atacada, simplesmente, não vou mais permitir que vocês desrespeitem o meu trabalho. Se vocês não têm objetivos claros de vida, eu respeito mas gostaria que vocês também respeitassem os meus que são ensinar e também aprender com vocês. Cauê – professora, desculpa a gente. Nós estamos brincando muito mesmo, estamos sem vontade de estudar e preguiçosos também. Mas a senhora não tem culpa disso. Sibele – Tudo bem, meninos, repensem nas ações de vocês e procurem se concentrar nos estudos, afinal, o ano está terminando e vocês precisam cuidar para não serem reprovados. Sibele deu um abraço em cada um dos meninos e pensou que, naquele momento, era exatamente de carinho que eles estavam precisando.” Sandra 9º ENCONTRO “Cena: (Quatro amigas fazendo Rapel) O Dia começou bonito propício para a prática do esporte e lá se forma as quatro amigas Lilá, Jô, néia e Ana em busca de aventura. Lilá como era a mais experiente nesse esporte, ditou as regras e organizou a descida. Néia também experiente ficou na retaguarda. Após observar equipamentos e amarração começou a aventura. Logo no primeiro impacto, Ana assustada tremia e falava sem parar, que nunca havia praticado o tal esporte. Néia muito tranqüila a acalmava. Néia: Calma Ana! É assim mesmo, às vezes acontecem alguns solavancos durante a descida... Jô menos assustada, porém com medo, pedia que néia tomasse cuidado na ponta da corda. De repente eis que se ouve um barulho: Néia diz: Lilá parece barulho de pedra se soltando... Lilá (puxando a corda) Está bem amarrada... Não se preocupe. Alguns minutos depois... (Néia assustada): Lilá a corda está frouxa. O que foi? Se acalmem. Lilá: Meninas, mas acho que a corda está arrebentadoooooo... Ana: Ai meu Deus!Eu tenho medoooo... Alguns segundos se passaram... Lilá (Tentando acalmar a todos) Preciso achar uma maneira de conseguir escalar esse lado, pois me parece que é menos elevado. Ana (Chorando): A primeira vez e me acontece isso... Jô (Não conseguindo se mexer). Acho que quebrei a perna. Néia examina Jô e constata que foi apenas uma torção no calcanhar. Após examinar as ferramentas e alimentos e constatar que tanto a água quanto a comida estão no fim, Lilá começa a escalda em busca de socorro. Néia em meio à água que sobe rápido tenta acalmar Ana e Jô. Néia (Aflita) Lilá vá mais rápido, a água está subindo muito... Lilá (no topo) Já estou quase lá, fiquem calmas!!! Após minutos que se pareciam séculos... Ouve se um barulho de helicóptero... O resgate chegou!Graças a Deus. 248 Ana: Por favor, me deixe ser a primeira. Néia: Calma Ana, primeiro os feridos... As amigas são içadas e termina assim mais uma aventura.” Ana “Tema: Que sufoco! Após uma tarde cansativa (professoras com expressões cansadas), um grupo de professoras seguia em direção ao elevador. Néia (reclama) – Nossa que demora para este elevador subir (aponta o dedo indicador no relógio de pulso). Rocha (com expressão séria) – Deve ser algum aluno brincando de apertar botão. (aperta botões imaginários à sua frente). Júlia (tranqüila) – Chegou! Vamos? Todas entram no elevador, a porta fecha e em seguida escuta-se um barulho e o elevador para: Sandra (debochada) – Só faltava essa. Justo hoje que vou ao salão de cabeleireiro. Néia (controlada) – Fiquem tranqüilas, logo alguém virá nos ajudar. Julia (nervosa) – Não suporto lugares fechados (respira fundo e puxa o ar) – Estou ficando sem ar. Rocha (impaciente) – Calma, Julia já vamos sair. (aperta o botão de emergência) e diz: Viu, logo alguém virá. Sandra (mostrando sinais de nervoso, aperta as mãos e diz) – Ai, estou com vontade de fumar. Néia (tranqüila) – Sandra, aqui não dá, a Júlia ficará mais sufocada. (solta um sorriso nervoso) – E eu, estou louca para fazer xixi, veja só se é hora. Rocha (olhar brilhante) – Alguém tem celular? Sandra (alegremente) – Problemas resolvidos! (tira o celular da bolsa e liga para pedir ajuda) Todas – Como não lembramos antes desta maravilhosa tecnologia. (Caem na gargalhada)” Cris "Cena: Reunião de Pais Local: sala de aula Dia 10, reunião de pais ou responsáveis às 19h. Às 18h50 os portões se abrem, os pais se dirigem para a sala de seus filhos. A reunião é às 19h, os pais chegam até a sala, cumprimenta a professora e senta. Um pai entra e pergunta para a professora: o nome do meu filho é Guilherme dos Santos ele estuda aqui? A professora olha na lista e diz que o não, pois seu nome não está na lista. O pai vira as costas e sai. A professora diz: é melhor aguardarmos mais cinco minutinhos, pois alguns pais devem estar atrasados. Em quanto aguardam os cinco minutinhos mais um pai entra na sala e pergunta se o seu filho estuda naquela sala, mais uma vez a professora olha na lista e diz que não achou o nome na lista. 249 Os pais sentados aguardam olhando a professora. Uma mãe pergunta: a reunião tem pauta professora? A professora: tem mais é pouca coisa. A mãe: vai demorar? A professora olha no relógio e diz: bom eu acho que é melhor começar. Rapidamente a professora faz a leitura da pauta e diz: vou entregar duas listas uma é de presença e outra é o que houve no conselho de escola, por favor, observem bem, quando houver um x embaixo do número 21, é que o aluno anda dando problema na sala. Mas observem também o lugar que tem um x e verifique o número abaixo para saber qual o desempenho dos filhos de vocês. Uma mãe: Professora o que significa esse x aqui na frente do nome do meu filho. A professora: vamos olhar em baixo: seu filho não presta atenção nas aulas, atrapalha quem quer estudar e fica falando piadinhas. A mãe: mas como? Ele é um ótimo filho. A professora: a senhora precisa ver o que está acontecendo com ele. Em seguida a professora vai até a frente e fala para os pais: a sala é bem falante, só que tem três alunos que dão muito trabalho, respondendo os professores, atrapalhando a aula e bem agressivos, vou falar os nomes e os pais que se encontrarem aqui, por favor, me avisem. Évelin Siqueira, um grande silêncio. Marco Antonio, o silêncio continuou. José Augusto, nenhum sussurro. Parece que os pais presente ter sentido um alívio, por não ser seu filho o da lista. A professora olhou para a sala e com um olhar decepcionado disse: Bom é só obrigada pela presença.” Jô “Cena – Reunião de Pais Local – Escola Personagens – Professora Ana, Coordenadora Ângela, diretora da escola, outros professores, pais de alunos O dia amanheceu ensolarado. Professores, coordenadores e diretora do Alberto Levy se reuniram na escola para mais uma reunião de pais. A professora Ana subiu para a sala 12, local que seria realizada a reunião de pais dos primeiros anos. ANA: Bom dia! Eu sou a professora Ana, de português. Muito prazer! Vocês são os pais de quem? CASAL1: Somos pais de Antônio. Como ele tem se saído? 250 ANA: O Antônio é um excelente aluno. Ele é muito estudioso e esforçado. As notas do terceiro bimestre estão ótimas. CASAL 2: Somos pais da Isabela. Ela tirou boas notas nesse bimestre? ANA: A Isabela foi muito bem. Melhorou muito em português desde o 1º bimestre. Ao prosseguir a reunião, Ana sentia-se frustrada. Apenas dois pais compareceram, justamente aqueles cujos filhos apresentam ótimo desempenho ao longo do ano.” Julia “Em um dia muito gostoso, com temperatura alta, ao som de um carimbó e uma ciranda o dia de Sandra começou. Sandra: Ah! Eu já resolvi com ele; Rocha: Mas como foi a reação dele? Sandra: Lógico que não gostou. Rocha: Bom, vamos esquecer e participar; Problemas corriqueiros de uma escola, sempre envolvem pessoas determinadas e comprometidas com a organização funcional da mesma. Sandra sentou-se ao meu lado. Sandra: Tudo bem gente? Bom dia! Ainda preocupada, respira fundo e divide o colchonete comigo. No decorrer da aula Sandra foi se soltando e deixando sua preocupação de lado. A professora parece que adivinhou, e nos propôs um tempo de massagem. Eu e Sandra ficamos juntas. Lilá: Sandra, eu vou ficar sentada mesmo. Sandra: Tudo bem vou começar pelos ombros para relaxar; Lilá: Cuidado que tenho cócegas. Sandra: Sem problemas, vou devagar. Naquele momento percebi que Sandra é muito afetiva, carinhosa e pronta para ajudar. Passado um tempo, trocamos de posições. Sandra: Ah! Eu vou deitar, tô precisando! Lilá: Ok! Só que tira o óculo; Durante a massagem que fazia em Sandra procurei ajudá-la para relaxar suas tensões, uma vez que percebi que sua manhã começara bem tumultuada. Sua expressão era de satisfação. Enfim terminou o curto tempo de massagem. Sandra: Obrigada! É profissional heim! Lilá: Eu é que agradeço. E assim terminou nossa aula, com um clima bem mais tranqüilo. Principalmente para Sandra.” Lilá “1º dia de aula A professora escreve na lousa a palavra “responsabilidade” e pergunta: • Quem sabe o que significa esta palavra? Paula diz: • É o dever que temos que cumprir. Professora: • Quem pode dizer algo além? André: • É realizar suas tarefas sozinhos. Igor diz: • Ah! Professora isso é coisa de adulto, nós não precisamos pensar nisso. 251 Profa • Pois bem, essa palavra não é somente para o adulto. A responsabilidade é algo que aprendemos no dia a dia, exercendo ela de maneira justa e compartilhada. Ajudando uns aos outros. Será através dela que iremos ter um bom ano, cheio de atividades positivas realizadas com responsabilidade.” Néia “No planejamento para o ano de 2008, os professores se reuniram as 7h00 do dia 31/01/2008, conforme comunicado divulgado, por telefone a todos os participantes. A sala estava organizada, com pauta, definida, equipamentos instalados e equipe de trabalho afinada. Na sala dos professores, começa a chegada e conversas sobre as férias e as famosas piadas em relação ao que se espera da reunião: - “Ai meu Deus, que será que estão inventando para este ano”. (disse a professora Kátia, insatisfeita) A coordenadora vai até a sala e cumprimenta a todos, informando que a reunião começaria pontualmente na sala 15. Começa a reunião: - Bom dia a todos (diz a Diretora) Entra o professor João, atrasado. - Oi pessoal! E vai passando pelas carteiras e beija algumas professoras, numa conduta imprópria. Faz barulho, derruba o material que carregava e falando alto. Numa expressão de horror, a Diretora que acabara de assumir a função naquela escola, mas com uma longa experiência, recomeça a falar. - Bom dia professor João! - Teremos um longo ano pela frente! Um silêncio, se instaurou, durou um interminável segundo. - E faremos o melhor que cada um pode compartilhar e assumir!” Rocha “A senhora idosa que mora na casa amarela gritava compulsivamente. Eu e a vizinha de frente corremos para ver o que se passava com a velha. Vizinha – Nossa, o portão da casa está trancado. Eu – temos que dar um jeito de entrar porque alguma coisa aconteceu com ela. Vizinha – Vamos pular através da grade que está em cima do muro. Subimos através do muro e conseguimos entrar no quintal da casa amarela. Fomos em direção de onde vinham os gritos. Eu – D. Rosa, mas o que aconteceu? Por que a senhora está deitada aí. Rosa – eu escorreguei e caí, não consigo levantar e por isso comecei a gritar. Obrigada por vocês terem vindo. Vizinha – vou chamar o resgate enquanto você tenta acalmá-lo. Prometo não demorar.” Sandra 10º ENCONTRO “Memê entra nervosa. Boa noite meninas! Cris preocupada diz: _O que foi Memê?Por que está com essa cara? Memê: 252 _Ah meninas, já não agüento mais, não sei mais o que fazer. O meu aluno chega na sala de aula e só dorme. Quando vou acordá-lo, fica nervoso. Rocha tenta achar uma solução. _Mas Memê, você já conversou com ele? _Imagina, só por tentar acordá-lo, ele já fica nervoso e fala muitos palavrões....E o que é pior, na frente dos colegas. Isso acaba me desmoralizando perante os demais... Acho que vou levar ao conhecimento da direção. - Diz Memê. Cris tenta amenizar. _E se você chegar antes dele na sala e chamá-lo para uma conversa, o diálogo sempre é bom. E a hora que ele é despertado, não e o melhor momento para uma conversa. Rocha: _Realmente, é melhor você ter uma conversa, mostrar que ele pode confiar em você. Se deixar para a direção resolver a situação, com certeza ele não se abrirá e nem confiará em você. Cris: _Eu concordo com a Rocha, você precisa mostrar a ele que quer ajudá-lo, que se preocupa e gosta dele. A partir daí, ele poderá expor o que está acontecendo.” Ana “Cena: Um sono confuso Em uma noite de terça-feira, muito fria, todos os alunos estavam atentos à aula de Ciências, cujo assunto era “O corpo humano”. Porém, Roger, (apoiado em sua mesa, com os olhos fechados), dormia. Dormia um sono profundo, daqueles, de dar inveja aos que possuem insônia. Seu sono (Roger suspira um pouco e volta a dormir) passou a incomodar alguns colegas, pois, chegou um momento em que Roger começou a roncar (roncar alto). Anita foi a primeira a reclamar, (com expressão brava) falou: _ E agora professora, o que faremos com um roncador na sala? A professora Lúcia, muito paciente, responde: _Simples, não faremos nada, ele deve estar muito cansado para dormir assim. Mario, um dos amigos de Roger, com tom de voz grave e indignado, afirma: _ Pois é “Pro”, ele trabalha o dia todo como entregador de jornais, seu “trampo” não é moleza. Anita, com tom de deboche comenta: _Pois que vá ter o seu “soninho” em casa. Uma confusão estava preste a surgir, todos os alunos falavam ao mesmo tempo, vários tons e ritmos de vozes podiam ser ouvidos, porém sem compreensão. A professora, com a voz alegre lança o desafio. _ Jovens, acalmem-se! Gostaria de saber quem pode acordar o nosso colega, para que ele participe deste debate sobre a sua vida. Com um olhar lançador continuou. Vocês gostariam de ser alvo de comentários enquanto dormem? Os alunos entre olharam-se e balançaram a cabeça negativamente. Naquele momento, como que por intuição, Roger acordou (bocejou), e perguntou: _O que está acontecendo? Perdi alguma coisa. Com rosto muito cansado continuou. Desculpem o meu sono, mas é que minha mãe estava doente, fiquei acordado ao seu lado na noite passada e hoje trabalhei muito. Afinal, todos fariam o mesmo pela mãe, não é mesmo? Todos perderam a voz, não sabiam o que fazer perante àquela injustiça que estavam cometendo. 253 A professora, com o olhar desafiador pergunta: _ Alguém gostaria de explicar o que estava acontecendo? Anita, muito envergonhada diz: _Ah, Roger, muito simples, a aula era sobre o corpo humano, não era? Então, estávamos analisando os sons que ele produz e você com o seu ronco colaborou muito, afinal, nada melhor que uma aula viva. (mostra um sorriso divertido) Roger achou graça no jeito de falar de Anita e falou (animado): _ Então, vou dormir mais um pouquinho, para que vocês continuem os seus estudos, Boa Noite! As gargalhadas foram contagiantes, a professora controlando para parar de rir falou: _Nada disso, senhor Roger, já analisamos suficientemente os seus roncos. Agora, o próximo assunto será o poder da visão. Então, fique de olhos bem abertos! (dá uma “piscadinha”). (Fiz a cena pensando nas características da professora, que escolhi no encontro: Versátil, Criativa, Feliz, Falante e Caprichosa).” Cris “Cena 1 - Aluno que dorme e fica nervoso ao ser acordado em sala de aula. Local: Sala de aula Personagens: professora Ana, aluno Rafael. Durante a aula de geografia, a professora Ana percebe que o aluno Rafael está mais uma vez debruçado em cima da carteira dormindo. E resolve se aproximar do rapaz... ANA: Rafael...Rafael...(murmura em voz baixa) E nada do rapaz responder... ANA: Rafael...Rafael...acorda! (com um tom de voz mais alto) O rapaz levanta a cabeça, com os olhos entreabertos, e responde nervoso... RAFAEL: Que foi? ANA: Você pode acordar, por favor? RAFAEL: To cansado! Que saco! ANA: Bom, isso não é postura adequada em sala de aula. Por favor, saia da sala, lave o rosto...e tente voltar mais disposto. RAFAEL: To atrapalhando você? ANA: Sim. RAFAEL: Não to fazendo nada e você vem me encher o saco! ANA: Agora você está faltando com educação e respeito. Não vou falar mais. Acate minhas ordens e conversaremos após a aula. O rapaz sai da sala irritado e bate a porta. Não retorna. Ana lhe encaminha uma advertência, faz um relatório sobre o comportamento do aluno e conversa com a direção a respeito.” Julia “CENA DO DIA 21/10 Na escola pública da zona sul, uma professora de ciências procurou a coordenadoria para expressar sua insatisfação com a sua coordenadora. A mesma se queixa que esta sendo perseguida por ela. Sua maior reclamação refere-se ao modo de falar diante de outras pessoas, expondo-a. 254 Porém, eu presenciei uma das reuniões pedagógicas, onde o assunto principal foi sobre o excesso de conteúdos passados na lousa, para puramente ser copiado. O assunto deu polêmica, e muita divergência de opiniões. Lógico que cada um estava defendendo sua postura, mas o que realmente me chamou a atenção foi o modo autoritário, inconveniente, anti-ético...que a coordenadora falava com alguns professores em especifico. Não sendo solucionada a questão, ficou aberta a discussão para novas propostas e estudos que possam ajudar os professores a aplicarem aulas mais dinâmicas e significativas. Talvez você não saiba quem eu sou, pois estou relatando esta cena, mas não me coloquei em papel de relevância. As observações que faço pode te dar uma pista... Eu sou uma...” Lilá “Professor que enche a lousa de matéria. Na sala de coordenação, professora e coordenadora conversam: Coordenadora: Professora, gostaria de falar com a Sra. A respeito de um assunto pedagógico. Antes de mais nada, eu sei que a Sra. Tem muitas classes para lecionar, em duas escolas, com as aulas distribuídas em dois períodos. Percebo que a Sra. está atribulada e mesmo estressada por toda a carga de trabalho, mas alguns alunos vieram comentar que normalmente a Sra. vem dando aulas, enchendo a lousa de matéria, sem explicações da mesma, e é só o que a Sra. faz. Professora: A Sra. está certa quando afirmou que ando atribulada e mesmo cansada por ter pego muitas aulas. Na verdade, encontro-me também desistimulada pelos problemas que estou enfrentando, na minha casa e na escola. Meu marido está desempregado e eu estou arcando com todas as despesas da casa. Eu sei que não tenho que trazer meus problemas pessoais para o meu trabalho, mas também, na escola, há muita indisciplina e eu estou com dificuldades de lidar com ela. Coordenadora: Quem sabe se a Sra. mudar sua forma de trabalhar em sala de aula, a indisciplina não melhora? Possivelmente dinamizando a aula com a formação de pequenos grupos ou em duplas, pedindo para que eles pesquisem alguns temas, procurando estimular as atividades, despertando o interesse dos aluno, para que se tornem atuantes em sala de aula, ao invés de simplesmente passar a matéria na lousa? Suas aulas provavelmente ficarão mais produtivas e o problema da indisciplina poderá ser amenizado. Professora: Realmente, eu percebo que da forma como venho trabalhando não está dando certo, e eu me encontro cada vez mais cansada. Procuro realmente mudar, e eu gostaria, que se possível, a Sra. me ajudasse, orientando-me inicialmente em como conduzir algumas tarefas. Coordenadora: Com certeza. Pode contar com o meu apoio, no que você precisar. Você pode já para as suas próximas aulas, levar um texto de sua matéria xerocado para distribuir para os alunos, com questões ou exercícios para serem resolvidos em grupos; e para as aulas seguintes procure preparar alguns assuntos ou temas para que eles pesquisem em casa ou traga revistas e jornais para que sejam feitas as pesquisas em classe. 255 Procure promover também alguns seminários ou debates sobre os temas escolhidos. Posteriormente, se você sentir alguma dificuldade em lidar com as situações, pode me procurar, que tentaremos resolvê-las juntas, certo? Professora: Ah! Sim! Agradeço sua atenção e disposição em me ajudar. Farei todo o esforço para mudar em benefício meu e dos alunos. Muito obrigada e até mais. Coordenadora: Até mais.” Memê “Cena: reunião de professores e coordenação, sobre a ação didática na sala de aula. Por que o professor só enche a lousa e mais nada... Coordenadora Bom dia! Hoje iremos abordar um tema muito importante em nossa reunião pedagógica. Vamos discutir se é necessário o uso da lousa diariamente. Professora Beatriz Eu uso a lousa todos os dias, pois, é a melhor maneira de manter os alunos quietos em sala. Professora Paula Eu não uso. Antes de qualquer coisa penso no processo de aprendizagem dos alunos, acredito que minha aula deve ser significativa. Professora Beatriz Como você faz para as crianças prestarem atenção na aula? Professora Paula Antes de qualquer atividade combino com os alunos como vai ser a aula do dia. Explico como iremos trabalhar o conteúdo programado sem precisar ficar copiando tudo da lousa. Professora Beatriz Entendi, mas e quando um dos alunos recusa-se de participar, o que você faz? Professora Paula Deixo sem realizar a atividade, porém devera permanecer na sala, realizando a leitura do conteúdo trabalhado. Após algumas aulas ele mesmo vai perceber que esta perdendo, e vai acabar realizando as atividades propostas. Professora Beatriz Poxa, nunca havia pensado em trabalhar assim... Será que você poderia me ajudar, mostrando como aplicar essas atividades mais dinâmicas. Professora Paula Será um prazer em compartilhar com você. A coordenadora percebeu que o interesse sobre o assunto foi geral e propôs; Coordenadora Vamos aproveitar o tempo que resta da nossa reunião para ouvir as dicas da professora Paula.” Néia “CENA: O ALUNO QUE DORME EM SALA DE AULA A professora, já incomodada com aquela situação, chamou o aluno de lado e perguntou: Professora:- por que você dorme em todas as aulas? Aluno:- é porque eu não consigo dormir durante a noite. Eu tomo um remédio que me deixa muito ligado. 256 Professora:- remédio? Remédio pra que? Aluno:- É para depressão. Há alguns anos, eu tomo esse remédio mas acho que não adianta nada; eu sempre fico triste e angustiado. Professora:- mas você já tentou mudar a tua rotina, talvez fazer um curso diferente ou até uma atividade física? Aluno:- não, nunca pensei nisso. O médico diz que eu tenho que tomar remédio a vida toda e eu já me conformei com isso. Professora:- jamais se conforme com uma situação que não seja boa. Busque outras alternativas, outros tratamentos. Pra tudo existe uma boa solução, basta que a procuremos. Aluno:- vou pensar no que a senhora está me falando, prometo. Professora:- Faça isso! Gostaria muito de te ver motivado, principalmente durante as minhas aulas e parasse de brigar comigo quando eu tento te acordar. Aluno:- Desculpa, professora, eu prometo que vou tentar melhorar e agradeço muito a sua preocupação comigo. Os dois retornaram à aula e o rapaz, pensativo depois do que tinha ouvido da professora, ficou acordado, porém, com os olhos e a mente bastante distantes dali.” Sandra ANEXO 4 Questionário Final 259 ANEXO 4: QUESTIONÁRIO FINAL QUESTIONÁRIO FINAL PILOTO 1. Nome: 2. Qual a sua avaliação sobre este curso? 3. Quais os aprendizados que este curso possibilitou? Individualmente e coletivamente. 4. Qual a sua avaliação sobre este curso como instrumento de formação continuada? 5. O que você aprendeu sobre teatro? 6. O que você aprendeu sobre trabalho coletivo? 7. O que você aprendeu sobre os temas escolhidos pelo grupo? 8. Como os jogos teatrais interferiram na compreensão dos temas escolhidos? 9. Participar deste curso provocou alguma mudança na sua imagem de você como professor? 10. Participar deste curso provocou alguma mudança na imagem que você tem das escolas? 11. Participar deste curso deu a você novos instrumentos para trabalhar as dificuldades que o trabalho lhe apresenta? 12. Qual a importância da criação no trabalho docente? 13. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional até hoje? 14. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional a partir de hoje? 260 QUESTIONÁRIO FINAL PESQUISA Este questionário é necessário a esta pesquisa para que possamos observar as opiniões dos participantes no decorrer de todo o trabalho. Nenhuma informação aqui apresentada será utilizada em qualquer espaço que não se relacione à pesquisa. A identificação solicitada é necessária para que seja possível analisar os diferentes textos produzidos por cada participante. Responda este questionário considerando-o um instrumento de reflexão sobre o trabalho realizado por este grupo. Para as respostas podem ser utilizados exemplos, situações, memórias, narrativas ou qualquer texto que você entenda como necessário para que possa ser mais bem compreendida. Utilize as folhas em anexo para respostas e não seja econômica ao respondê-las. Obrigada. 1. Identificação: 2. Qual a sua avaliação sobre este curso? Quais os aspectos positivos e negativos? 3. Quais os aprendizados que este curso possibilitou? Individualmente e coletivamente. 4. Qual a sua avaliação sobre este curso como instrumento de capacitação, considerando a dinâmica dos encontros e a orientação da coordenadora. 5. O que você aprendeu sobre teatro? Quais os conceitos teatrais que você percebe como possibilidades para o seu trabalho docente? 6. O que você aprendeu sobre trabalho coletivo? 7. Nos encontros foram trabalhados os temas Gestão escolar, Crise de valores sociais, Relacionamento prof./aluno (relações interpessoais) e Responsabilidade compartilhada. O que você aprendeu sobre eles? 8. Como os jogos teatrais interferiram na compreensão dos temas escolhidos? Qual foi a importância dos jogos teatrais para este trabalho? 9. Como foi escrever cenas teatrais? Qual a importância desta escrita neste trabalho? 10. Participar deste curso provocou alguma mudança na sua imagem como professor? (Pense em você como professor e explique porque) 11. Participar deste curso provocou alguma mudança na imagem que você tem das escolas? Por que? 12. Participar deste curso deu a você novos instrumentos para trabalhar as dificuldades que o trabalho lhe apresenta? Quais? 13. Qual a importância da criação no trabalho docente? Comente aspectos deste projeto que permitiram a você compreender a importância da criação no trabalho docente. 14. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional até hoje? Explique. 15. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional a partir de hoje? Explique. 16. Comente o que mais você considerou relevante neste trabalho, que não foi perguntado neste questionário. 261 QUESTIONÁRIO FINAL RESPONDIDO 262 4.1 QUESTIONÁRIO FINAL ANA 1. Identificação: Ana 2. Qual a sua avaliação sobre este curso? Quais os aspectos positivos e negativos? Muito bom. Confesso que teve mais aspectos positivos do que negativos, por isso vou me ater a eles. Os temas discutidos, as cenas e o relaxamento. Ótimo! 3. Quais os aprendizados que este curso possibilitou? Individualmente e coletivamente. Individualmente: o diálogo sempre. Coletivamente: o respeito ao outro e a necessidade de se trabalhar em grupo, valorizando o que o outro pode oferecer. 4. Qual a sua avaliação sobre este curso como instrumento de capacitação, considerando a dinâmica dos encontros e a orientação da coordenadora. Muito bom. Espero poder multiplicar esse aprendizado. 5. O que você aprendeu sobre teatro? Quais os conceitos teatrais que você percebe como possibilidades para o seu trabalho docente? Ainda sei pouco sobre o assunto, porém vejo muitas possibilidades para a sala de aula, principalmente na questão de inserir os alunos no “jogo”. 6. O que você aprendeu sobre trabalho coletivo? Muito. O trabalho coletivo é, principalmente, o dividir responsabilidades, inserir o outro no jogo, para juntos resolverem problemas de interesses mútuos. 7. Nos encontros foram trabalhados os temas Gestão escolar, Crise de valores sociais, Relacionamento professor/aluno (relações interpessoais) e Responsabilidade compartilhada. O que você aprendeu sobre eles? Aprendi que as relações são de suma importância dentro de um processo, seja ele educacional e/ou social. E que, é preciso, compartilhar as responsabilidades e os problemas em detrimento á crise de valores de uma sociedade. 8. Como os jogos teatrais interferiram na compreensão dos temas escolhidos? Qual foi a importância dos jogos teatrais para este trabalho? Através da proposta, que de certa forma, facilitou a percepção do outro no jogo, interferindo na postura e trazendo novos elementos para a atuação (cena). 9. Como foi escrever cenas teatrais? Qual a importância desta escrita neste trabalho? Foi muito difícil. A meu ver, o registro se faz necessário, pois é a partir dele que se pode criar a cena de uma maneira mais concisa (precisa). 10. Participar deste curso provocou alguma mudança na sua imagem como professor? (Pense em você como professor e explique porque) Sim. Sempre que participamos de um curso interessante, ficamos de uma certa maneira renovados, com um novo interesse e sede de mudança. Mas, o que mais me provocou, foi o desafio de trabalhar com jogos. Espero conseguir. 11. Participar deste curso provocou alguma mudança na imagem que você tem das escolas? Por que? Não, pois eu já trabalho na área e vivencio todos os problemas e as virtudes do espaço escolar. Além disso, tenho um certo zelo pelo espaço e profissão que escolhi, com isso sempre acredito em mudanças positivas. 263 12. Participar deste curso deu a você novos instrumentos para trabalhar as dificuldades que o trabalho lhe apresenta? Quais? Sim, dentre eles o diálogo, a criatividade e o teatro (explorar a criatividade, a música, etc). 13. Qual a importância da criação no trabalho docente? Comente aspectos deste projeto que permitiram a você compreender a importância da criação no trabalho docente. É com a inovação que transformamos nossas práticas, despertamos o interesse de nossos alunos e até mesmo avaliamos nosso trabalho. Os aspectos positivos ficam por conta dos jogos e, de uma certa maneira, no fato de se dar um passo em prol de uma mudança, de novas atitudes. 14. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional até hoje? Explique. Uma criança observando o horizonte, essa é a imagem 15. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional a partir de hoje? Explique. Um arco-íris, pois mudar é preciso. 16. Comente o que mais você considerou relevante neste trabalho, que não foi perguntado neste questionário. Acho que tudo o que foi relevante foi citado. 4.2 QUESTIONÁRIO FINAL CRIS 1. Identificação: Cris 2. Qual a sua avaliação sobre este curso? Quais os aspectos positivos e negativos? O curso foi ótimo. Nos aspectos Positivos: escolha dos temas dos encontros, as dinâmicas, os jogos teatrais, discussões e encenações. Negativos: a ordem em que realizávamos as atividades foram sempre as mesmas (dinâmica, cena, discussão e escrita da cena) e, isto foi um pouco monótono, pois, sempre sabíamos o que viria e, eu particularmente adoro novidades. 3. Quais os aprendizados que este curso possibilitou? Individualmente e coletivamente. Individualmente refleti a cada encontro sobre a minha prática pedagógica. Hoje, compreendo um pouco mais qual é o meu papel, o da família e dos dirigentes da instituição, sempre em beneficio do aluno. Sinto-me mais solta devido às encenações e acredito que evolui em relação a escrita das cenas. Coletivamente ocorreu uma grande interação e afinidade a cada encontro. O grupo, muito falante e critico, soube respeitar as opiniões e particularidades de cada membro, o que possibilitou discussões riquíssimas de cada tema. Ou seja, aprendemos a nos respeitarmos e crescemos em conhecimentos. 4. Qual a sua avaliação sobre este curso como instrumento de capacitação, considerando a dinâmica dos encontros e a orientação da coordenadora. As dinâmicas foram muito boas e podem ser colocadas em prática em nossas salas de aula, com alunos de diversas faixas etárias, necessitando, apenas, de pequenas adaptações. Portanto, considero o curso um ótimo instrumento de capacitação. Inclusive, já coloquei em prática alguns jogos, com crianças de três anos de idade. 264 5. O que você aprendeu sobre teatro? Quais os conceitos teatrais que você percebe como possibilidades para o seu trabalho docente? Apredi que devemos incorporar o personagem e que não podemos perde-lo no desenrolar das encenações. Que é um momento de concentração e sensibilidade. No meu trabalho com crianças pequenas, trabalharia atividades relacionadas a sensibilidade e concentração, pois, acredito serem as principais para incorporar um personagem. 6. O que você aprendeu sobre trabalho coletivo? Que os resultados serão positivos se houver respeito, interação e afinidade. Nosso grupo, diversificado, conseguiu alcançar esses itens, portanto, realizamos nossas tarefas com facilidade e cooperação. 7. Nos encontros foram trabalhados os temas Gestão escolar, Crise de valores sociais, Relacionamento prof./aluno (relações interpessoais) e Responsabilidade compartilhada. O que você aprendeu sobre eles? Gestão escolar: é um tema que engloba aspectos políticos, sociais e econômicos. Que uma gestão deve ser criativa e preocupada em beneficiar o principal envolvido, o aluno. Devendo convidar e escutar alunos, professores, famílias e comunidade antes de agir, assim, beneficiará a todos os envolvidos na instituição escolar. Crise de valores sociais: definições de papéis, qual o da escola e o da família. Como nos últimos tempos, está ocorrendo a banalização dos valores culturais, preconceitos, violências e conflitos familiares. Relacionamento prof./aluno: Que acima de tudo deve haver um respeito mútuo entre professores e alunos, um relacionamento baseado em confiança, parceria e responsabilidade. Responsabilidade compartilhada: Que o diálogo é fundamental para resolver qualquer situação. A responsabilidade, cumplicidade e união fazem parte integrante nos momentos de decisões. 8. Como os jogos teatrais interferiram na compreensão dos temas escolhidos? Qual foi a importância dos jogos teatrais para este trabalho? Os jogos, sempre estavam relacionados aos temas, como adoro atividades práticas, elas facilitaram muito na compreensão dos mesmos. Além disso, foram fundamentais na interação e afinidade do grupo. 9. Como foi escrever cenas teatrais? Qual a importância desta escrita neste trabalho? Escrever as cenas foi a parte mais difícil, mesmo sabendo que o registro é fundamental em todas as situações, sempre reclamava comigo mesma quando tinha que escrevê-las. Tive, e ainda tenho dificuldades, sei que evolui, mas sinto que foi pouco, mesmo me esforçando. 10. Participar deste curso provocou alguma mudança na sua imagem como professor? (Pense em você como professor e explique porque) Sim, sinto-me mais dedicada, compromissada e reflexiva em relação às atitudes pedagógicas. As discussões sobre os temas foram as principais medidas de reflexão pessoal. As cenas também foram importantes, colocava-me nas situações e tentava encontrar soluções para resolvê-las. 11. Participar deste curso provocou alguma mudança na imagem que você tem das escolas? Por que? Sim, porque escutando diversas situações, opiniões e realidades, pude constatar que o sistema educacional brasileiro funciona em alguns lugares. E que podemos 265 ter esperança em um futuro promissor, onde os alunos realmente serão alfabetizados, se nós professores nos dedicarmos em busca disso. 12. Participar deste curso deu a você novos instrumentos para trabalhar as dificuldades que o trabalho lhe apresenta? Quais? Sim, em relação ao improviso perante situações inesperadas, aos jogos teatrais e dinâmicas que favorecerão na interação e união dos alunos entre si e comigo. 13. Qual a importância da criação no trabalho docente? Comente aspectos deste projeto que permitiram a você compreender a importância da criação no trabalho docente. O professor criativo é o professor qualitativo, interessado, dinâmico, expressivo etc. Sua função é muito importante, pois, será mediador da situação ensinoaprendizagem, facilitador e orientador. É aquele que mostra caminhos e deixa o aluno seguir em busca de seus objetivos. Aulas criativas envolvem diálogo, interesse, participação, responsabilidade e amizade e, estes foram aspectos muito comentados no curso. 14. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional até hoje? Explique. Uma estrada, onde seguimos em busca de conhecimentos infinitos. 15. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional a partir de hoje? Explique. Continuo com a estrada, porém acrescento que será uma estrada rica em desafios, estímulos e mediações (orientações), onde seguimos em busca de conhecimentos. 16. Comente o que mais você considerou relevante neste trabalho, que não foi perguntado neste questionário. O questionário foi bem elaborado e abordou tudo que realizamos no curso. 4.3 QUESTIONÁRIO FINAL JÔ 1. Identificação: Jô 2. Qual a sua avaliação sobre este curso? Quais os aspectos positivos e negativos? Tive esse curso como bom, os aspectos positivos foram às cenas, a interação, o envolvimento de todas no aspecto coletivo. Quanto aos aspectos negativos, as conversas eram extensas e parecia muitas vezes que eram tidas para o lado pessoal, mesmo assim quero ressaltar que para mim foi muito importante, poder ouvir, observar e com isso mesmo ouvindo por repetidas vezes aprendi muito. 3. Quais os aprendizados que este curso possibilitou? Individualmente e coletivamente. Perceber o outro, observar seus aspectos positivos e respeitar os negativos, falar pouco, pois aprendi que escutar é muito melhor e aprendemos mais. Aprendi que não devemos viver de improvisação, mas às vezes improvisar é necessário, não a improvisação de uma aula, mas improvisar quando você trabalha em uma instituição precária, e a sua convicção de vida, não deixa que situações privem os alunos de participar de uma aula de qualidade só porque falta recursos. 4. Qual a sua avaliação sobre este curso como instrumento de capacitação, considerando a dinâmica dos encontros e a orientação da coordenadora. Achei um bom curso, pois, a dinâmica enriqueceu o encontro saindo das discussões e fazendo com que as improvisações fossem criativas e divertidas, 266 quanto à orientação da coordenadora nas dinâmicas foram necessárias para conduzir à dinâmica. 5. O que você aprendeu sobre teatro? Quais os conceitos teatrais que você percebe como possibilidades para o seu trabalho docente? Aprendi que escrever cenas não é tão difícil assim, que improvisar é ótimo, e que as coisas são melhores quando nos sentimos no mesmo barco e uma pode ajudar a outra. Os conceitos teatrais para se trabalhar, é ajudar a perceber o outro, a valorizar um trabalho em equipe, e a criatividade pode ser exercitada aos poucos respeitando os limites de cada um. 6. O que você aprendeu sobre trabalho coletivo? É importante quando você sabe que pode contar com o outro, que não está sozinho e pode trocar experiências. Na verdade não aprendi, e sim comprovei no que sempre acreditei que a união faz a força. 7. Nos encontros foram trabalhados os temas Gestão escolar, Crise de valores sociais, Relacionamento prof./aluno (relações interpessoais) e Responsabilidade compartilhada. O que você aprendeu sobre eles? Sobre Gestão, pude ver que se você tem um diretor que valoriza o outro é muito mais fácil de chegar a algum lugar. Sei que ouvi por muitas vezes que existe a hierarquia, mas como você pode estar no topo e ser feliz sozinho? Não acredito nisso, realizar as tarefas todos juntos é mais fácil enxergar os problemas, pois o outro terá abertura para falar sua opinião e terá certeza que será ouvido. Tenho estudado sobre isso, uma gestão participativa, e através de diversas análises constatei que aquela gestão que dividiu os problemas hoje tem sucesso na instituição em todos os sentidos. Percebi a resistência de algumas em aceitar essa concepção, mesmo assim continuo com o que acredito. Em relação a crise de valores, sei que muitas vezes as pessoas acham que ser pobre é ser mal educado e não é por aí, a escola tem um papel importante, infelizmente percebi que alguns acham que depende da família mas terminei o curso com a mesma concepção, só venceremos se enxergar o outro, valorizar o que ele tem de melhor, e se em casa é difícil ter essa concepção de vida a escola pode reverter essa situação com trabalhos que insiram a família na escola. Relação professor/aluno depende do que o professor acredita, se ele quer apenas receber seu salário, ou fazer a diferença. Em relação à responsabilidade compartilhada depende da família, da escola, dos professores de uma gestão participativa para um caminhar coletivo. Todas as ações andam juntas, e mesmo ouvido de algumas participantes do grupo que as coisas não são assim, tenho a absoluta certeza que quando estamos no mesmo barco, só vamos para frente se todos remar, pois se esperarmos apenas um remar, a maré vai levar o barco para um lugar tão distante, que talvez não conseguiremos mais voltar. 8. Como os jogos teatrais interferiram na compreensão dos temas escolhidos? Qual foi a importância dos jogos teatrais para este trabalho? Sem os jogos, não teríamos o contato com a outra. Seria difícil chegar a resultados tão ricos com que chegamos, através dos jogos interagimos e valorizamos o gesto da outra. Pra mim foi muito importante, com certeza vou saber utilizar o que aprendi em qualquer série e qualquer situação. 9. Como foi escrever cenas teatrais? Qual a importância desta escrita neste trabalho? Confesso que quando descobri que escreveria cenas teatrais fiquei com medo, mas sou uma pessoa que gosta de desafios e queria ir até o fim para saber a 267 minha capacidade. Foi interessante, ao escrever uma cena você vive junto com o personagem e enriquece a fala. A importância desta escrita é que você encena e depois escreve ou a cena que você fez ou a que assistiu, e a escrita é um processo de reflexão. 10. Participar deste curso provocou alguma mudança na sua imagem como professor? (Pense em você como professor e explique porque) Participar do curso me fez refletir sobre o outro, e o mundo doente em que vivemos, pois na realidade, mesmo o professor sendo desvalorizado, percebi que existem pessoas valentes que fazem a diferença, quando esse professor entra na sala de aula, tenta fazer o seu melhor e mesmo não obtendo grandes resultados o fato de refletir sobre a aula já o torna diferente. É uma concepção de professora que quero levar comigo. E com isso acreditar que podemos fazer algo, basta acreditar. 11. Participar deste curso provocou alguma mudança na imagem que você tem das escolas? Por que? Confesso que se não tivesse a concepção de vida que tenho, eu teria desistido, pois sinto que muitas pessoas que estão na área da educação mostram o lado ruim e para uma novata que acredita em um mundo diferente às vezes se confronta com algumas realidades. Mesmo assim todos os dias quando acordo, acredito que a grande doença das pessoas é a falta de amor e amor eu tenho para dar e sei que é um bom começo. 12. Participar deste curso deu a você novos instrumentos para trabalhar as dificuldades que o trabalho lhe apresenta? Quais? Sim, improvisar é uma delas, percebi que podemos interagir proporcionar que o aluno conheça o outro e respeite seus limites, perceba que viver com regras muitas vezes é necessário e importante. E de várias formas, com qualquer idade ajudá-lo a perceber da importância de trabalhar em grupo com isso inseri-lo socialmente. 13. Qual a importância da criação no trabalho docente? Comente aspectos deste projeto que permitiram a você compreender a importância da criação no trabalho docente. A importância é planejar e sempre focar o aluno em seu planejamento, é acreditar na importância do outro, é você dividir seu aprendizado e não guardar apenas para si. Não se tornar resistente as mudanças e sim acompanhá-las constantemente. 14. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional até hoje? Explique. Não consegui me inserir profissionalmente, hoje me vejo como tele- expectadora, pois optei em observar, escutar para aprender mais. Sei que a prática é muito mais importante do que a teoria, só que para fazer a diferença muitas vezes, é melhor você ficar no seu canto, calado, pois assim aprenderá mais com isso vai saber separar o que tem de bom e de ruim na profissão escolhida. 15. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional a partir de hoje? Explique. Atriz, pois sei que haverá situações que precisarão ser dribladas e para que sejam bem sucedidas terei que improvisar, não deixando de considerar e respeitar o outro. 268 16. Comente o que mais você considerou relevante neste trabalho, que não foi perguntado neste questionário. Ao decidir coletivamente os temas a serem trabalhados nos encontros, foi muito importante. Os jogos, as cenas, o relaxamento foram relevantes para o sucesso obtido no curso. Todas as vezes que interagíamos percebíamos que quando o trabalho é coletivo ele se torna melhor e de qualidade. Na verdade o curso serviu para comprovar que as coisas fluem quando você está bem com o outro, não competido, mais dividindo. As discussões algumas vezes se tornaram repetitivas e resistentes sobre o que cada uma acreditava. Mesmo assim percebi que mesmo havendo pessoas diferentes em um mesmo local, em algumas situações todas juntas chegamos a conclusão de que a mudança é necessária. 4.4 QUESTIONÁRIO FINAL JULIA 1. Identificação: Julia 2. Qual a sua avaliação sobre este curso? Quais os aspectos positivos e negativos? Aspectos positivos: • suscitou uma ampla reflexão sobre temas importantes relativos à educação e mesmo uma reflexão pessoal sobre minha postura em sala de aula, sobre minhas atividades pedagógicas, etc. • dinâmicas que trabalham com a expressão do corpo me trouxe mais desenvoltura em sala de aula Aspectos negativos • Não encontrei aspectos negativos, mas senti falta de trabalharmos mais com o teatro, de aprendermos técnicas de interpretação, por exemplo. 3. Quais os aprendizados que este curso possibilitou? Individualmente e coletivamente. O curso avançou no debate sobre a educação e nos fez refletir sobre nossa postura como profissional desta área e o que podemos fazer para lidar com as situações adversas que ocorrem diariamente. É fato que queremos uma educação pública de qualidade, mas os desafios são muitos. Particularmente, o curso me fez ver o quanto aprendi este ano. Apesar de ser uma novata na área, percebi que este ano foi um ano de muito aprendizado e que a minha experiência enquanto professora foi, sem dúvida, enriquecedora. O curso também me fez parar para pensar em muitos aspectos que haviam passados desapercebidos, como, por exemplo, o que fazer quando um colega de trabalho maltrata os alunos. O curso também mostrou que o trabalho coletivo é fundamental para termos sucesso, seja profissional ou pessoal. 4. Qual a sua avaliação sobre este curso como instrumento de capacitação, considerando a dinâmica dos encontros e a orientação da coordenadora. O curso apresentou-se como um interessante instrumento de capacitação. Aprendemos sobre diversos temas relevantes a área educacional, com o auxílio de diversas ferramentas e formas de expressão: cenas teatrais, debate e escrita dramatúrgica. A orientação da coordenadora e seus conhecimentos foram fundamentais para o desenrolar do curso. 269 5. O que você aprendeu sobre teatro? Quais os conceitos teatrais que você percebe como possibilidades para o seu trabalho docente? Aprendi o que são jogos teatrais, como escrever uma cena, como representar personagens, etc. Não sei responder quanto aos conceitos teatrais. 6. O que você aprendeu sobre trabalho coletivo? Aprendi que é um elemento fundamental para a educação. Sabemos que o sistema escolar apresenta diversas falhas e dificuldades e que sem a união de todos ficará difícil resolvê-los. Todos temos responsabilidade na educação das nossas crianças e adolescentes e por isso um trabalho em conjunto se faz tão necessário. Eu como professora, vejo que é fundamental receber um apoio da direção da escola, dos funcionários, coordenadores e pais dos alunos. 7. Nos encontros foram trabalhados os temas Gestão escolar, Crise de valores sociais, Relacionamento prof./aluno (relações interpessoais) e Responsabilidade compartilhada. O que você aprendeu sobre eles? Vou escrever brevemente sobre cada um, destacando alguns aspectos relevantes, pois os temas são bastante amplos. • Gestão Escolar – forma como é gerido o sistema escolar. Conversamos sobre gestão compartilhada, isto é, a importância da atuação de toda a comunidade escolar (pais, alunos, professores, funcionários e direção da escola) na gestão da escola. Também discutimos a importância da comunicação e da organização para uma boa gestão. • Crise de valores sociais - destacamos a banalização da violência; preconceito com aparência e pobreza; desvalorização do professor; desvalorização da cultura; valorização somente do que é novo, em detrimento do que é velho (perda da tradição); valorização do consumo e do ter, não do “ser”; invasão da vida pública sobre a vida privada, entre outros. • Relacionamento professor/aluno – debatemos sobre o papel do professor em sala de aula, da importância de saber o nome dos alunos, de lhes dar atenção, acompanhar seu desempenho ao longo do ano, e motivá-los com elogios. A aproximação é muito importante e não precisa necessariamente ser uma aproximação física. A autoridade e o respeito é algo a ser conquistado com o tempo. E devemos evitar comparações entre os alunos. • Responsabilidade compartilhada – a responsabilidade pelo aprendizado do aluno, não é somente do professor, nem do aluno, mas também dos pais, da direção (enfim, de toda a comunidade escolar). A este respeito, constatamos que o simples fato dos pais acompanharem o desempenho dos filhos na escola, vendo as lições, os trabalhos realizados e as notas, incentiva-os a continuar aprendendo. O incentivo aos estudos deve vir de todas as partes. Ninguém deve levar o barco sozinho, mas também não deve jogar a responsabilidade ao outro, tentando se livrar da situação – fato corriqueiro no cotidiano escolar, em que ninguém quer assumir sua responsabilidade. 8. Como os jogos teatrais interferiram na compreensão dos temas escolhidos? Qual foi a importância dos jogos teatrais para este trabalho? Eu acredito que os jogos teatrais foram um instrumento de aprendizado, uma vez que representamos papéis e situações, inseridos nos temas escolhidos. Como os jogos são baseados no “improviso”, a vivência pessoal foi a base da interpretação, pelo menos pra mim. A importância que vejo nos jogos teatrais é o fato de termos que nos expressar não somente através da fala, mas sim com o corpo, interagindo diretamente com outras pessoas, no desenrolar de uma situação. Se fôssemos apenas conversar ou debater sobre o assunto, não 270 vivenciaríamos a cena, como se ela estivesse realmente acontecendo, e nem precisaríamos nos esforçar para dialogar (contracenar) com as colegas, o que torna a situação mais real. Nota-se alguns aspectos que talvez não seriam evidenciados caso não houvesse a cena teatral. Por exemplo, lembro-se quando imitei o inspetor da escola durante uma festa junina, cujo inusitado aconteceu: ouviu-se um tiro de repente...Eu tive que tomar as providências de acordo com o que eu achava que um inspetor deveria fazer nesse momento. Ao discutirmos a cena, notamos que cada uma de nós sabia muito bem sobre o papel a desempenhar no âmbito escolar. Conseguimos diferenciar muito bem quem estava fazendo o inspetor, quem fez a professora, quem era a diretora, sem saber disso inicialmente. 9. Como foi escrever cenas teatrais? Qual a importância desta escrita neste trabalho? Escrever cenas foi difícil, ainda mais com um tempo limitado. Mas eu acredito que foi fundamental para fixarmos nossas idéias, desenvolvermos outras habilidades e aprimorarmos nosso conhecimento acerca do teatro.Temos um monte de idéias, mas quando passamos para o papel, boa parte do que refletimos se perde. Ao mesmo tempo, quando escrevemos, somos forçados a refletir mais e a organizar o nosso pensamento, forçando um aprendizado mais efetivo. 10- Participar deste curso provocou alguma mudança na sua imagem como professor? (Pense em você como professor e explique porque) A partir do curso passei a refletir e a repensar mais minhas ações como professora. Como sou iniciante na carreira, estou sempre me avaliando, trocando idéias com outros professores e tentando aprimorar minha forma de lecionar. Porém, a minha imagem como professora não sofreu alteração. 10. Participar deste curso provocou alguma mudança na imagem que você tem das escolas? Por que? Não. Eu levei um grande susto no início do ano, quando me deparei com a desorganização do sistema escolar estadual. Sabia que o ensino público não estava uma maravilha, mas percebi que a realidade é ainda mais cruel. E essa idéia permaneceu ao longo do curso. 11. Participar deste curso deu a você novos instrumentos para trabalhar as dificuldades que o trabalho lhe apresenta? Quais? O curso aguçou minha criatividade e meu lado artístico, que mantive aprisionado por muitos anos. Sempre fui muito tímida para me expor em público, tanto que obtive minha pior nota na escola nas aulas de teatro. E como professora, vejo que é fundamental saber se expressar e se comunicar com os alunos. 12. Qual a importância da criação no trabalho docente? Comente aspectos deste projeto que permitiram a você compreender a importância da criação no trabalho docente. A criação é essencial no trabalho docente. É preciso muita criatividade para estimular os alunos com o conteúdo e tornar as aulas mais interessantes, mais dinâmicas e atraentes. O fato de trabalharmos com os jogos teatrais em todos os encontros, cuja base está na criação, me fez perceber ainda mais a importância da mesma. 13. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional até hoje? Explique. Uma longa escada, porque sinto que estou subindo os degraus e quero chegar ao topo, isto é, à satisfação profissional. E para isso ainda terei muitos degraus para 271 subir. Mas já caminhei bastante, através de esforço e dedicação, e não pretendo parar por aqui. Vou seguir em frente e continuar subindo! rs 14. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional a partir de hoje? Explique. Um labirinto com diversas saídas. Escolho essa imagem porque minha vida profissional apresenta interrogações. Estou gostando de lecionar, mas não sei se é isso que quero para o futuro. Enquanto isso preciso me esforçar para achar as saídas do labirinto. E por isso quero me capacitar, estudar e aprender cada vez mais: pretendo iniciar o mestrado ano que vem, quero aprender outras línguas, etc. Qualquer que seja a saída, não posso esperar sentada, tenho que correr atrás e já tenho planos para isso. 15. Comente o que mais você considerou relevante neste trabalho, que não foi perguntado neste questionário. Todas as dinâmicas e temas trabalhados foram muito importantes. Mais do que nunca percebi a responsabilidade na qual estou inserida, uma vez que estamos tratando do elemento central da vida humana – a educação. 4.5 QUESTIONÁRIO FINAL - LILÁ 1. Identificação: Lilá 2. Qual a sua avaliação sobre este curso? Quais os aspectos positivos e negativos? O curso foi muito bom, com uma proposta interessante e diferente do que eu já participei nestes 15 anos de magistério. Tudo que contribuir para mais conhecimento e correlaciona-se com a prática com certeza tem aspectos muito positivos, principalmente nos dias de hoje onde a educação tem uma “fama” degradante. Parece que tudo esta perdido e que não vale mais a pena, porém, quando me defronto com situações como estas onde existe uma defesa por um ensino diferenciado e de maneira significativa, fico mais confortada, imaginando que é possível sim. O que achei de negativo foi o fato de ser o tempo muito restrito e de ter poucas pessoas participando, além de ter pessoas que trabalham no mesmo local e levaram assuntos de ordem especificas da sua instituição. 3. Quais os aprendizados que este curso possibilitou? Individualmente e coletivamente. Para mim possibilitou muita reflexão, dinâmica, observação, imaginação, criação, desejo, incentivo, coragem, respeito mútuo, capacitação e principalmente trabalho em equipe. 4. Qual a sua avaliação sobre este curso como instrumento de capacitação, considerando a dinâmica dos encontros e a orientação da coordenadora. Se bem aplicado o conteúdo aprendido no curso pode ser um rico instrumento de capacitação. Auxiliando todos os profissionais a dinamizar suas aulas com intuito de melhorar o desempenho do grupo, conquistando resultados positivos individual ou coletivamente. Uma orientação clara, se faz necessária para esta inovação, pois corre-se o risco de banalização do currículo a ser aplicado, em outras palavras virar um “oba, oba”. 272 5. O que você aprendeu sobre teatro? Quais os conceitos teatrais que você percebe como possibilidades para o seu trabalho docente? Aprendi muito pouco de teatro, pois, sei que há muito para se estudar, mas não posso negar que mudou o meu desempenho como docente, uma vez que é possível contextualizar um assunto sem fugir das “ditas” normas de ensino, estabelecidas por cada instituição. Sem contar que o teatro no meio escolar promove o desenvolvimento dos alunos, destacando-se: formação do grupo, socialização, contato entre os sujeitos, superação da timidez, superação dos limites, troca de experiências, busca dos próprios objetivos, responsabilidade, comprometimento, respeito, ouvir o outro, entender melhor as pessoas, saber dividir, pensar no outro, solidariedade, interação, enfrentar os problemas, ouvir as críticas construtivas, compartilhar, saber trabalhar em grupo, resolver os problemas do grupo, participação, resgate da auto-estima e da autoconfiança. Acho que não preciso dizer mais nada. 6. O que você aprendeu sobre trabalho coletivo? Que não é fácil. Os pensamentos são muito divergentes, os comentários nem sempre pertinentes, e o “achismo” muito forte, porém a troca é muito significativa, nos dá forças para acreditar que podemos fazer a diferença , que tem alguém que ama o mesmo que você, e que briga por um mesmo ideal, que nós sem o outro não somos nada. 7. Nos encontros foram trabalhados os temas Gestão escolar, Crise de valores sociais, Relacionamento prof./aluno (relações interpessoais) e Responsabilidade compartilhada. O que você aprendeu sobre eles? Aprendi que eles são de uma mesma ordem de fatores que envolvem a educação, que são bem polêmicos e que tirar proveito nas aulas com base nos jogos teatrais foi muito divertido. 8. Como os jogos teatrais interferiram na compreensão dos temas escolhidos? Qual foi a importância dos jogos teatrais para este trabalho? Os jogos interferiram de maneira séria, porém, muito sutis, fazendo-me refletir sobre as práticas de cada um, mesmo tendo que ser artista por um dia, aliás alguns minutos. De maneira mais descontraída o significa do pode ser mais internalizado. 9. Como foi escrever cenas teatrais? Qual a importância desta escrita neste trabalho? Achei difícil, mas necessária para a formalização de comportamentos e falas. Vejo como sendo importante para habituar o professor a manter sempre registro da sua prática. 10. Participar deste curso provocou alguma mudança na sua imagem como professor? (Pense em você como professor e explique porque) Sim, esta mudança foi gradativa, no decorrer do curso percebi o quanto ainda posso contribuir para uma significativa aula. 11. Participar deste curso provocou alguma mudança na imagem que você tem das escolas? Por que?] Não, ainda acho que as escolas podam seus profissionais com medo de deixálos ousar, pois, querem sempre modelos estereotipados, que atinjam os melhores resultados sem dar muito trabalho e sem criar “alvoroço”. Tudo bem certinho para não perturbar a paz e a ordem que muitos acham ser o ideal na escola. 273 12. Participar deste curso deu a você novos instrumentos para trabalhar as dificuldades que o trabalho lhe apresenta? Quais? Sim, principalmente a de relacionamentos em grupo, trabalho em equipe e saber como se integrar com a comunidade local. Dentro da sala de aula encontrei estímulos, que já apliquei e tive resultados muito bons. 13. Qual a importância da criação no trabalho docente? Comente aspectos deste projeto que permitiram a você compreender a importância da criação no trabalho docente. Diversificar a prática docente, estimular os alunos, proporcionar conhecimento estabelecido por um relacionamento de confiança agradável, romper barreiras do ensino fragmentado e linear, cultivar e valorizar a cultura artística, proporcionar trocar de conhecimentos e favorecimento das habilidades, respeitar a criação do outro e a sua própria... 14. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional até hoje? Explique. Um broto e uma árvore, que necessitou de muito sustento, água, póda, que em algumas vezes arrancaram folhas, galhos, muitos cachorros pararam para fazer xixi, muitos reclamaram da sujeira que as folhas fazem ao caírem no chão quando muda de estação, que ao crescer estourou a calçada do vizinho, mas... 15. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional a partir de hoje? Explique. ...que insistia em crescer, brotar, florir e multiplicar. Esta árvore se tornou adulta dentro de mim sua raízes agora são profundas, seus galhos extensos e com muitos novos brotos, já floriu em várias estações, e ainda encanta quando mesmo muito cansada flori. Essa árvore persiste dentro de mim, e posso dizer que se de nada valer a raiz, aproveite o tronco, se de nada valer o tronco, aproveite as folhas, se de nada valer as folhas, aproveite as flores e quem sabe os frutos, porém se nada disso valer, pelo menos deite debaixo da sombra e desfrute da suave brisa. 16. Comente o que mais você considerou relevante neste trabalho, que não foi perguntado neste questionário. As oportunidades sempre são únicas, por isso tudo foi relevante, e com certeza pode ser multiplicado. “ O conhecimento, quando adquirido e multiplicado, é conhecimento, mas se guardado é óbito” 4.6 QUESTIONÁRIO FINAL MEMÊ 1. Identificação: Memê 2. Qual a sua avaliação sobre este curso? Quais os aspectos positivos e negativos? O curso teve como aspectos positivos o de ser bem conduzido e direcionado com técnicas teatrais, que facilitaram as discussões sobre os temas ligados à escola e à educação. Proporcionou-nos também descontração e liberdade para nos posicionar e expor nossas opiniões frente às questões escolares. 274 3. Quais os aprendizados que este curso possibilitou? Individualmente e coletivamente. O curso possibilitou diálogos, integração grupal e auto-conhecimento, como também clareza nas questões críticas do ensino nas escolas públicas e particulares. 4. Qual a sua avaliação sobre este curso como instrumento de capacitação, considerando a dinâmica dos encontros e a orientação da coordenadora. Como instrumento de capacitação, o curso atingiu seu objetivo, o de tratar das questões de ensino, tanto pedagógicas como de organização da escola atreladas às técnicas teatrais, considerando a dinâmica dos encontros, as discussões e orientações satisfatórias. 5. O que você aprendeu sobre teatro? Quais os conceitos teatrais que você percebe como possibilidades para o seu trabalho docente? Alguns conceitos teatrais eu já tinha, pois há alguns anos atrás, atuei como amadora em peças teatrais, na Faculdade. Entretanto a diferença que houve foi o entrelaçamento entre os conceitos teatrais e o trabalho docente. Infelizmente não vi possibilidade de aplicar estes jogos aos alunos, devido as limitações que encontro em sala de aula, como espaço inadequado e grande quantidade de alunos. Gostaria, no entanto, que eles também usufruíssem dos benefícios que os jogos teatrais trazem, tais como descontração, conscientização, integração, criatividade, etc. 6. O que você aprendeu sobre trabalho coletivo? Um tema que foi bastante significativo, trabalhado no curso, foi o da responsabilidade compartilhada, na qual o trabalho coletivo está intrinsicamente ligado. 7. Nos encontros foram trabalhados os temas Gestão escolar, Crise de valores sociais, Relacionamento prof./aluno (relações interpessoais) e Responsabilidade compartilhada. O que você aprendeu sobre eles? Quanto à questão “Gestão Escolar” aprendi que a mesma é fruto de um trabalho hierárquico, que demanda posicionamentos e profissionalismo de toda equipe docente e discente da escola. Para que a escola funcione adequadamente é necessário que a responsabilidade seja compartilhada por todos que atuam na escola, para poder, então, enfrentar a crise de valores sociais e integrar devidamente o relacionamento professor/aluno. 8. Como os jogos teatrais interferiram na compreensão dos temas escolhidos? Qual foi a importância dos jogos teatrais para este trabalho? Os jogos teatrais favoreceram na compreensão dos temas escolares por oferecerem uma interligação da teoria temática com a prática vivenciada nos jogos. Estes propiciaram mais clareza nas situações conflitantes vividas pela escola, pois através deles pudemos ser autores e expectadores. Observamos as situações como participantes e também como observadores. 9. Como foi escrever cenas teatrais? Qual a importância desta escrita neste trabalho? As cenas teatrais trouxeram um reforço para o entendimento das situações, que tanto o corpo docente, como todos os que trabalham na escola vivenciam, tanto as situações do dia-a-dia, como as inesperadas. Ao escrevermos as cenas, despertamos para um envolvimento mais intenso com o processo ensinoaprendizado. A escrita depende, em minha opinião, da compreensão de uma realidade anteriormente assimilada. 275 10. Participar deste curso provocou alguma mudança na sua imagem como professor? (Pense em você como professor e explique porque) Participar deste curso provocou uma melhor percepção da minha imagem como professora. Pude observar que posso melhorar minha maneira de me relacionar com os alunos sendo mais paciente e compreensiva, mas também colocar os limites devidamente, pois que ter autoridade é diferente de ser autoritária. 11. Participar deste curso provocou alguma mudança na imagem que você tem das escolas? Por que? De alguma forma, ocorreu uma certa mudança na imagem que eu tenho da escola, pois todas as situações vivenciadas através das cenas teatrais, envolvendo todos os que trabalham na escola, ampliaram os meus conceitos em uma visão mais ampla e mais completa do funcionamento da escola, como um todo. 12. Participar deste curso deu a você novos instrumentos para trabalhar as dificuldades que o trabalho lhe apresenta? Quais? Participar deste curso deu-me um novo instrumento de trabalho, o de incluir maior quantidade de textos teatrais, como material didático e de ressaltar a importância do teatro em nossa Literatura, uma vez que a linguagem teatral retrata a linguagem real de personagens fictícios, tal como em “Vidas Secas”, por exemplo. 13. Qual a importância da criação no trabalho docente? Comente aspectos deste projeto que permitiram a você compreender a importância da criação no trabalho docente. No trabalho docente a criação é muito importante, para dinamizar as aulas e para resolver situações imprevistas, como no caso do professor perceber que os alunos estão com dificuldades de compreender bem o que está ensinando, o professor poderá lançar mão de outros recursos, através da criatividade. 14. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional até hoje? Explique. A imagem de alguém que sofreu e aprendeu. Sofreu para aprender sem apoio e estímulos positivos, sem reconhecimentos e adequada remuneração financeira. 15. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional a partir de hoje? Explique. A partir de hoje a imagem que se forma é a de que o trabalho docente é uma parte de um todo. Está ligado a um processo didático que inclui a participação de todos que trabalham na escola, desde os inspetores até a coordenação e direção. 16. Comente o que mais você considerou relevante neste trabalho, que não foi perguntado neste questionário. O que foi mais relevante neste trabalho foi a integração e amizade que se formou em nosso grupo, com a abertura de podermos expor nossas necessidades e queixas enquanto profissionais da educação. O resultado foi benéfico proporcionando-nos uma conscientização mais ampla e profunda do nosso papel enquanto educadores e da responsabilidade advinda deste papel. 276 4.7 QUESTIONÁRIO FINAL NÉIA 1. Identificação:Néia 2. Qual a sua avaliação sobre este curso? Quais os aspectos positivos e negativos? O curso foi bem elaborado e administrado, sendo prazeroso e significativo. Tendo como aspectos positivos: a integração do grupo, a espontaneidade, a interação, a dinâmica utilizada, a liberdade de expressão e principalmente o uso da reflexão. Quanto aos aspectos negativos tenho somente duas observações: as interrupções durante os encontros (batidas freqüentes na porta) e a duração de cada encontro (tempo curto). 3. Quais os aprendizados que este curso possibilitou? Individualmente e coletivamente. O curso proporcionou uma reflexão sobre minha prática docente, através dele analisei as atitudes, as relações e o meu procedimento diante aos meus alunos. Coletivamente, acrescentou muitas trocas de idéias e informações sobre a educação e nossa profissão. 4. Qual a sua avaliação sobre este curso como instrumento de capacitação, considerando a dinâmica dos encontros e a orientação da coordenadora. A dinâmica que a coordenadora apresentou durante o curso possibilitou uma excelente interação entre os participantes, fluindo com bastante clareza, reflexão e trocas sobre os temas abordados. As atividades realizadas serão utilizadas como instrumentos no processo educacional. 5. O que você aprendeu sobre teatro? Quais os conceitos teatrais que você percebe como possibilidades para o seu trabalho docente? O teatro não é estático, ele é dinâmico, espontâneo e muitas vezes retratam a realidade em que vivemos, porém, de maneira alegre e criativa. Ele possibilita um trabalho coletivo, onde as pessoas interagem unidas e realizam a atividade com prazer. O teatro acrescentará alegria, cultura, união e reflexão no meu trabalho docente. 6. O que você aprendeu sobre trabalho coletivo? O trabalho coletivo não é uma tarefa fácil, ele deve ser realizado por todo o grupo, para ser bem sucedido. A união e um bom relacionamento acrescentarão positivamente na atividade realizada. Cada componente deve doar o melhor de si, dando força ao grupo que pertence. 7. Nos encontros foram trabalhados os temas Gestão escolar, Crise de valores sociais, Relacionamento prof./aluno (relações interpessoais) e Responsabilidade compartilhada. O que você aprendeu sobre eles? Aprendi que todos são assuntos complexos, e difíceis de encontrar uma solução. Para obter um bom andamento da educação, eles devem ser abordados e solucionados juntos. Percebi que o papel da família e da comunidade é fundamental para o processo educacional funcionar bem, assim como cada funcionário deve exercer o seu papel dentro da escola. Em fim, esse é um assunto muito amplo e requer muita atenção por parte dos dirigentes de cada instituição. 8. Como os jogos teatrais interferiram na compreensão dos temas escolhidos? Qual foi a importância dos jogos teatrais para este trabalho? Os jogos teatrais facilitaram a compreensão, devido à liberdade de expressão que usamos durante as cenas, e o uso da espontaneidade e a relação entre os 277 participantes. O uso dos jogos teatrais foi fundamental para a interpretação dos temas abordados, sendo de suma importância no curso. Ele foi o grande diferencial em um curso de capacitação. Contendo aulas dinâmicas e reflexivas. 9. Como foi escrever cenas teatrais? Qual a importância desta escrita neste trabalho? Escrever as cenas foi difícil, senti muita insegurança no inicio, pois, passar para o papel o que criamos e imaginamos é extremamente diferente de interpretar a cena. Escrevê-las foi muito importante, aprendi a concentrar-me e arrumar uma maneira de transferir minhas idéias para o papel. 10. Participar deste curso provocou alguma mudança na sua imagem como professor? (Pense em você como professor e explique porque) Sim, mostrou que posso ser mais dinâmica, tolerante e reflexiva durante minhas aulas. Posso ter um jogo de cintura diferente para cada situação que irei encontrara daqui para frente. 11. Participar deste curso provocou alguma mudança na imagem que você tem das escolas? Por que? Sim, um bom andamento da escola depende de quem administra e comanda todo o grupo que pertence a ela. 12. Participar deste curso deu a você novos instrumentos para trabalhar as dificuldades que o trabalho lhe apresenta? Quais? Sim, aprendi que devo trabalhar em equipe, devo ser dinâmica, devo refletir sobre minhas ações, devo planejar ser flexível no processo de relacionamento professor / aluno. 13. Qual a importância da criação no trabalho docente? Comente aspectos deste projeto que permitiram a você compreender a importância da criação no trabalho docente. O professor deve ser criativo, tornando suas aulas interessantes e dinâmicas para os alunos. A criação possibilita novas técnicas e idéias, nova maneiras de elaborar uma boa aula. Este curso acrescentou que devo trabalhar coletivamente estimulando a imaginação e a criatividade de meus alunos, tendo uma rotina prazerosa. 14. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional até hoje? Explique. Seria uma flor desabrochando para a vida. Uma professora descobrindo o caminho certo a seguir. 15. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional a partir de hoje? Explique. Um coração pulsando, batendo sem parar, com muita energia, mantendo-se sempre vivo. Uma professora que já descobriu o caminho a seguir, sendo dinâmica com bastante espontaneidade e energia. Usando sempre da reflexão para manter-se na área da educação. 16. Comente o que mais você considerou relevante neste trabalho, que não foi perguntado neste questionário. O questionário abordou todos os assuntos relevantes durante o curso. Obs: Agradeço pela oportunidade e pela a honra de ter participado deste curso de capacitação. Obrigada. 278 4.8 QUESTIONÁRIO FINAL ROCHA 1. Identificação: ROCHA 2. Qual a sua avaliação sobre este curso? Quais os aspectos positivos e negativos? O curso foi importante principalmente na fase em que se encontra o profissional da educação, e para a função que exerço de coordenação trouxe reflexões e informações relevantes. Pontos positivos – Usar uma linguagem diferenciada, escolha dos temas pelo grupo, reflexões sobre a prática diária, prática do debate aberto e troca de experiências. Pontos negativos – O tempo para a produção escrita foi curto. 3. Quais os aprendizados que este curso possibilitou? Individualmente e coletivamente. Despertou o desejo pela pesquisa, sobre ao temas abordados, propôs reflexões importantes sobre a prática pedagógica principalmente na escola Pública, onde a maioria do grupo está inserida. Individualmente trouxe reflexões e mudança na forma de pensar o trabalho pedagógico da escola. Coletivamente proporcionou a troca de experiências e a perspectiva de multiplicação do que foi absorvido pelo grupo. 4. Qual a sua avaliação sobre este curso como instrumento de capacitação, considerando a dinâmica dos encontros e a orientação da coordenadora. A organização do material produzido, a condução das discussões, a pontualidade da Coordenadora, mostra o quanto seu empenho e dedicação possibilitam o resultado em pouco tempo. Sua prática foi de extrema importância para todos do grupo. Considero estes encontros como uma ferramenta que usarei ao longo da minha formação como profissional da educação. 5. O que você aprendeu sobre teatro? Quais os conceitos teatrais que você percebe como possibilidades para o seu trabalho docente? Quanto ao teatro o que o curso propôs trazer para a prática do professor uma linguagem diferente, que é a escrita teatral. A criação de personagens, a idealização de cenas, a improvisação, os jogos, o uso do corpo como expressão, a música enfim todos os elementos já conhecidos na teoria, aplicados de forma simples, porém significativa, para o grupo. Ao transportarmos para a prática docente, percebemos que a escrita teatral abre um leque de possibilidades infinitas para a mudança das práticas do dia a dia em sala de aula. 6. O que você aprendeu sobre trabalho coletivo? O trabalho coletivo, numa Escola é a parte fundamental para se atingir os objetivos propostos, porém alcançar um equilíbrio entre responsabilidade, definição de papéis e resultados, requer um elemento muito importante que é a liderança, exercida de forma democrática. 279 7. Nos encontros foram trabalhados os temas Gestão escolar, Crise de valores sociais, Relacionamento prof./aluno (relações interpessoais) e Responsabilidade compartilhada. O que você aprendeu sobre eles? Todos os temas abordados foram escolhidos, pelo grupo e fazem parte da prática dos profissionais, o tema Gestão escolar é um assunto que tenho muito interesse e percebi o quanto tenho refletido e na minha prática tenho trabalhado arduamente para chegar a uma prática eficiente das muitas teorias que existem. Entendo que desenvolver a capacidade de administrar pessoas é o foco que preciso ter, além da habilidade de trabalhar na construção e técnicas de projetos. 8. Como os jogos teatrais interferiram na compreensão dos temas escolhidos? Qual foi a importância dos jogos teatrais para este trabalho? Os jogos, de forma muito objetiva, permitem o acesso a prática e levam ao campo da realização de ter o trabalho final, concreto e com a participação de todos os envolvidos. Quando colocados juntos aos temas tomam forma. 9. Como foi escrever cenas teatrais? Qual a importância desta escrita neste trabalho? Escrever é a parte mais difícil do processo, pois requer: elaboração, conhecimento, técnicas. É muito importante fazer os registros, a escrita das cenas com disciplina e desenvolvimento de técnicas pode proporcionar resultados surpreendentes. 10. Participar deste curso provocou alguma mudança na sua imagem como professor? (Pense em você como professor e explique porque) A cada momento percebo que tenho mudado algumas práticas e estou convencida de que com este grupo e este trabalho, muitas idéias já surgiram e tenho a intenção de colocá-las em prática em breve, junto aos professores que trabalho como coordenadora. Uma das ações que pretendo desencadear será o desenvolvimento do Projeto Político Pedagógico para Escola Pública. 11. Participar deste curso provocou alguma mudança na imagem que você tem das escolas? Por que? Hoje tenho uma visão muito clara da realidade onde a Educação Escolar, se encontra, principalmente no âmbito da formação dos profissionais e como são as Políticas Públicas. Tenho uma formação fora da escola que me permite traçar metas e trazer conceitos e técnicas não são ainda aplicadas na Escola de forma sistemática. 12. Participar deste curso deu a você novos instrumentos para trabalhar as dificuldades que o trabalho lhe apresenta? Quais? Participar dos jogos, me proporcionou uma maior proximidade com o caráter humano da Educação escolar. Tenho pensado muito na valorização do ser humano, e nos relacionamentos que desenvolvemos neste curto espaço de tempo. 13. Qual a importância da criação no trabalho docente? Comente aspectos deste projeto que permitiram a você compreender a importância da criação no trabalho docente. A criação, assim como a liderança são questões que o decente tem que priorizar e desenvolver ao longo do processo de trabalho. Neste projeto pude compreender que a criação acontece a cada mudança de prática, a cada aplicação das teorias existentes. E que uma aula é acima de tudo um processo criativo onde dois lados constroem o todo. 280 14. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional até hoje? Explique. Uma árvore, com muitos frutos. Nasceu de um desejo, criou raízes, criou forma e dá frutos a cada ciclo e a cada estação. 15. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional a partir de hoje? Explique. Uma cidade, com todos os elementos da sociedade. Possui diversidade, está sempre em crescimento. 16. Comente o que mais você considerou relevante neste trabalho, que não foi perguntado neste questionário. O mais relevante, foi encontrar respostas as reflexões que tenho sobre o trabalho docente. Conheço muito bem a estrutura da Educação Pública, sei todos os acertos e erros dos profissionais que encaram esta profissão com vontade, ou sem vontade, porém entendo que a diversidade de idéias e de ideais é que fazem todo este contexto acontecer. Fico a cada dia mais presa a necessidade de buscar soluções ou melhor aprendizado que torne o meu trabalho eficiente e sei que parte dele não depende só de mim, depende do outro é isso o que importa. 4.9 QUESTIONÁRIO FINAL SANDRA 1. Identificação: Sandra 2. Qual a sua avaliação sobre este curso? Quais os aspectos positivos e negativos? O curso ofereceu subsídios para desenvolvermos novas estratégias de trabalho. O tempo foi curto mas o aprendizado foi grande. 3. Quais os aprendizados que este curso possibilitou? Individualmente e coletivamente. Os aquecimentos, os jogos e as discussões sobre os temas propostos mostraram o quanto é possível estudar e aprender sobre temas diversos de uma maneira agradável, interativa e prazerosa. 4. Qual a sua avaliação sobre este curso como instrumento de capacitação, considerando a dinâmica dos encontros e a orientação da coordenadora. Minha avaliação é extremamente positiva. Além do conteúdo, as dinâmicas, os materiais utilizados e o empenho da coordenadora e observadora foram impecáveis. Eu já utilizei atividades artísticas como instrumento de trabalho pedagógico (poesia, escultura, pintura, teatro, cinema, música...) e percebi o quanto foi interessante essa prática. Este curso trouxe novas informações e técnicas para aprimorar o meu trabalho. Acredito que as dinâmicas utilizadas durante os encontros despertaram em todas nós uma reflexão sobre nossa vida profissional. 5. O que você aprendeu sobre teatro? Quais os conceitos teatrais que você percebe como possibilidades para o seu trabalho docente? Aprendi principalmente a trabalhar com a improvisação. Sempre achei que tudo tinha que ser minuciosamente ensaiado e programado e percebi que não é bem assim. O que mais chamou minha atenção foi o trabalho corporal. Notei que quando trabalhamos com o corpo, a integração entre os membros do grupo aumenta e nos sentimos mais leves e livres. 281 6. O que você aprendeu sobre trabalho coletivo? Discutimos muito sobre responsabilidade compartilhada; aliás, esse é um tema que esteve presente em diversos setores da minha vida ao longo deste ano. Aprendi principalmente que quando criamos uma necessidade comum, todos acabam participando, cada um contribui de uma maneira (de acordo com o seu aprendizado e habilidades) para que a necessidade seja suprida. O grande segredo é fazer com que a situação torne-se realmente necessária para todos porque a partir daí, o envolvimento já está garantido. 7. Nos encontros foram trabalhados os temas Gestão escolar, Crise de valores sociais, Relacionamento prof./aluno (relações interpessoais) e Responsabilidade compartilhada. O que você aprendeu sobre eles? Estes temas fazem parte do nosso cotidiano. Durante os nossos encontros, pudemos aprofundar nossos conhecimentos e conhecer outros enfoques sobre eles. 8. Como os jogos teatrais interferiram na compreensão dos temas escolhidos? Qual foi a importância dos jogos teatrais para este trabalho? A criação e encenação de cenas sobre esses temas proporcionaram uma vivência de situações relacionadas a eles. Acredito que uma situação vivida (mesmo como representação) aprofunda nosso conhecimento e compreensão sobre o tema abordado e foi assim que os jogos nos ajudaram. 9. Como foi escrever cenas teatrais? Qual a importância desta escrita neste trabalho? Não foi fácil escrever as cenas. Acho que é outro tipo de escrita que temos que aprender. Estamos mais acostumadas ao gênero narrativo e o dramático ainda não é muito familiar. 10. Participar deste curso provocou alguma mudança na sua imagem como professor? (Pense em você como professor e explique porque) Os ensinamentos do curso mais a troca de experiências entre as participantes mostraram o quanto é possível trabalhar no magistério com dignidade e respeito. Embora a imagem do professor esteja desvalorizada, percebemos que podemos fazer muito para que nosso trabalho seja reconhecido e valorizado. 11. Participar deste curso provocou alguma mudança na imagem que você tem das escolas? Por que? A imagem que eu tenho das escolas permanece a mesma. Acho que o que mudou foi o que pode ser feito dentro de uma escola e alterar a qualidade de ensino. 12. Participar deste curso deu a você novos instrumentos para trabalhar as dificuldades que o trabalho lhe apresenta? Quais? Sim, principalmente o trabalho corporal. Aprendi que trabalhar o corpo coletivamente remete os participantes do grupo a uma mesma sintonia e a partir daí, qualquer ensinamento é bem-vindo. 13. Qual a importância da criação no trabalho docente? Comente aspectos deste projeto que permitiram a você compreender a importância da criação no trabalho docente. O trabalho docente é imprevisível. Podemos organizar apenas parte da nossa prática mas no dia-a-dia, muitas situações novas aparecem. A criação faz parte da motivação do processo ensino-aprendizado. Acredito que dar aulas é diferente de ensinar e para ensinarmos, precisamos inovar, criar, fugir da rotina e principalmente, "convencer" nossos alunos a participarem desses movimentos. O curso trouxe uma série de situações inovadoras, completamente diferentes das 282 que conhecemos e usamos. Acho que a maior motivação das participantes foi justamente essa: o que faremos hoje? O tema era previsto mas as atividades não. 14. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional até hoje? Explique. A imagem do Centauro que tem a parte animal, a humana e uma flecha apontada para o alto. Ele simboliza o sentir (animal) o pensar (humano) e o buscar (a flecha). 15. Que imagem você escolhe para retratar sua vida profissional a partir de hoje? Explique. Acho que a flecha do Centauro foi lançada mais longe porque os horizontes foram ampliados. 16. Comente o que mais você considerou relevante neste trabalho, que não foi perguntado neste questionário. Achei muito interessante trabalhar com símbolos de representação de situações. Justamente o tema das questões 14 e 15 deste questionário. Outra questão que foi muito relevante foi o envolvimento e carinho dedicados pela coordenadora e observadora. Vocês são ótimas, meninas! ANEXO 5 Jogos por Encontro 285 ANEXO 5: JOGOS POR ENCONTRO SEGUNDO ENCONTRO – 26 DE AGOSTO Tema: Gestão AQUECIMENTO: Caminhada no Espaço AQUECIMENTO DO GRUPO: O objeto move os jogadores. Os objetos escolhidos foram uma bicicleta tripla, um barco e um gira-gira. JOGO COM PALAVRAS: Fala Espelhada JOGO GERAL: Tensão Silenciosa • Aplicação de uma prova que é interrompida pela diretora para dar um aviso à professora. • Visita de uma supervisora a uma escola na qual faltou água e os alunos foram parcialmente dispensados. TERCEIRO ENCONTRO – 02 DE SETEMBRO Tema: Gestão AQUECIMENTO DO GRUPO: Dar e tomar: aquecimento. JOGO COM PALAVRAS: Leitura das cenas escritas no encontro anterior. JOGO GERAL: Foram feitas improvisações que partiram das situações escritas no final do segundo encontro. A primeira cena realizada partiu da situação na qual o porteiro não abre o portão no horário adequado para o início das aulas. Na cena proposta pelo grupo, o porteiro estava dormindo e o grupo de alunos fica batendo na porta ao mesmo tempo em que combina de sair da escola e fazer outro programa. O porteiro do lado de dentro está dormindo, quando acorda demora a encontrar seus óculos, sem o qual não consegue abrir o portão. Por fim o portão é aberto e os alunos entram na escola. A segunda realizada partiu da situação em que estão duas alunas no pátio da escola sem uniforme conversando com a coordenadora que apresenta diversos argumentos para convencê-las a usar o uniforme, terminando por obter a concordância de ambas de que no dia seguinte viriam com o mesmo. A terceira cena realizada partiu da situação que apresentava dois alunos brincando no pátio da escola, mexendo no lixo e em objetos indevidos e reclamando de não terem com o que brincar. Enquanto isso a diretora e a inspetora conversam entre si, ao mesmo tempo tentando acalmar os alunos, e combinam de realizar uma reunião para que os inspetores pudessem apresentar sugestões de melhora do recreio. QUARTO ENCONTRO – 09 DE SETEMBRO Tema: Crise de Valores Sociais AQUECIMENTO: Feito com o grupo deitado nos colchonetes, trabalhando a percepção do esqueleto e dos movimentos. Exploração de diferentes formas de andar. 286 AQUECIMENTO DO GRUPO: Jogo da bola. As bolas escolhidas foram de vôlei, de plástico (tipo playcenter) e de ping-pong. JOGO COM PALAVRAS: Vendo o Mundo com personagens sorteados. As cenas narradas foram: Sandra – narra situação de estar em um baile funk e ter sido agarrada pelo Joãozinho, ficando toda roxa. Lilá – Está lavando louça e demonstra a preocupação com a escola. Rocha – Aluna que diz que irá sem uniforme na escola, mesmo que tenha que enfrentar a coordenadora. Maria – pai bêbado em conflito sobre o que fazer: ir ao bar ou para a reunião da escola dos filhos. Ana – Inspetora narra situação das crianças atravessando a rua sem segurança. Déia – Aluna que reclama da vida e dos pais. Memê – Inspetora narra situação na qual os alunos colocam fogo no corredor e na sala. Julia – Narra situação de um grupo de alunos fumando próximo a escola e ela declara que fará uma campanha contra o tabaco. Néia – Professora se queixa de aluna que vem sem uniforme e declara a todo o momento que já tem 20 anos de magistério. JOGO GERAL: Cena Festa Junina A primeira cena teve como participantes o pai, duas alunas e duas inspetoras. Na segunda cena, os personagens eram uma aluna, uma professora e duas inspetoras. QUINTO ENCONTRO – 16 DE SETEMBRO Tema: Crise de Valores Sociais AQUECIMENTO: massagem em dupla JOGO GERAL: Em duplas, escolha de uma das questões discutidas para uma conversa entre dois personagens, no qual um deles necessariamente seria de uma professora. Além do diálogo, cada dupla deveria comer algo imaginário enquanto conversava. A primeira dupla foi de duas professoras conversando sobre a falta de professores na escola. A segunda dupla é composta de uma professora e o pai de uma aluna, aparentemente bêbado, em um bar. Nesta cena discutem sobre a quem cabe a educação da filha. A terceira cena retrata uma aluna em total desânimo e a professora tentando convencê-la a se arrumar, tomar banho, se pentear, e a aluna responde que nada disso adianta. A quarta dupla é de uma adolescente que pede conselhos à professora, pois ela só pensa em transar com o namorado. A professora tenta convencê-la a se interessar por outros assuntos, mas a aluna rebate os argumentos e apresenta muitos motivos para colocar seu desejo em prática. A última cena feita por um trio retrata uma situação de preconceito sofrido por uma criança que se sente discriminada por ser negra e ter uma aparência distinta das demais, em função do cabelo e da cor da pele. A professora fala sobre tudo o que faz para que não haja preconceito, a criança brinca em volta do diálogo e opina em muitos momentos, mas se mostra alegre e interessada no sorvete que toma. A mãe permanece calma, mas preocupada. 287 SEXTO ENCONTRO – 23 DE SETEMBRO Encontro para retomada e avaliação dos encontros anteriores, não foram realizados jogos teatrais. SÉTIMO ENCONTRO – 30 DE SETEMBRO TEMA: Relacionamento professor/aluno AQUECIMENTO: Pega-pega com explosão (feito também em câmera lenta) AQUECIMENTO DO GRUPO: Parte do todo # 3: Profissão O primeiro jogo formou uma banda de música, o segundo uma cozinha e o terceiro um canteiro de obras (iniciado por um serralheiro) JOGO GERAL: Contato A primeira dupla, feita pela Jô e Rocha definiu uma cena na qual um paciente vai a um consultório médico se queixando de tosse. A segunda cena foi feita pela Memê, Déia e Sandra mostrava uma aula de português na qual uma das alunas tem muita dificuldade em compreender o conteúdo exposto e a outra não. A terceira cena, feita pela Lilá e Julia, apresentou duas professoras, amigas, onde uma delas visita a outra desesperada por não saber o que fazer com seus alunos indisciplinados. A professora com mais tempo de docência consola a outra, incentivando-a a não desistir. A quarta cena feita pela Ana, Néia e Cris trouxe duas alunas e uma professora no playcenter, com as alunas levando a professora na montanha russa, apesar do medo da professora. A última cena feita pela Néia e Maria foi de uma aluna pequena que cai no pátio da escola e a professora auxilia-a a se levantar e lavar seu machucado. OITAVO ENCONTRO - 07 DE OUTUBRO TEMA: Relacionamento professor/aluno AQUECIMENTO: Deitadas imaginar uma cena conforme o ritmo das várias músicas, depois se movimentar conforme o ritmo de uma delas. JOGOS COM PALAVRAS: Leitura da cena escrita pela Jô no 7º encontro com diferentes interpretações. JOGO GERAL: Improvisação em dupla partindo da cena escrita pela Rocha, do momento em que ela escreve: (Lilá) para de chorar e ouve a amiga, que continua a falar sobre sua prática e reflexões. A primeira dupla, composta pela Rocha e Sandra, trouxeram como principais argumentos a necessidade de limites, a delimitação de papéis e a credibilidade no que a professora faz. A cena da Julia e Jô apresentou a necessidade de regras de conduta, a importância de combinar com a direção e coordenação da escola o apoio necessário, em forma de punições, a imposição de limites e a valorização dos alunos que querem aprender. Nesta cena a Julia enfocou a importância da professora não perder o seu objetivo de foco. Lilá e Ana falaram da importância do estudo, porém ao mesmo tempo ressaltaram que é no dia-a-dia que sabemos como resolver os conflitos, da importância da atenção aos alunos, do carinho, dos limites, das parcerias e do apoio de alguém com mais experiência. Néia e Memê enfocaram as regras, a necessidade de demonstrar autoridade, nem que seja com berros, a apresentação de atividades envolventes, de um 288 ambiente prazeroso e criativo. A Néia falou sobre seu choque em não poder assumir a imagem de uma professora boazinha. Cris e Lilá apresentaram a possibilidade de formar assembléias nas quais os alunos participam das definições, jogar as responsabilidades aos alunos, expor os trabalhos dos alunos, valorizando-os, ter um envelope de sugestões para os alunos mais tímidos. Nesta cena a Lilá começou declarando estar preparada para um salário baixo, mas não para estas condições de trabalho. NONO ENCONTRO - 14 DE OUTUBRO TEMA: Responsabilidade compartilhada AQUECIMENTO: Dança do Carimbó e Massagem em dupla. AQUECIMENTO DE GRUPO: Dança de uma ciranda: “ô cirandeiro, cirandeiro ó A pedra do teu anel brilha mais do que o sol Mandei fazer uma casa de farinha Bem bonitinha prá modo da gente entrar Ó faça sol, faça chuva ou faça vento Só não passa o movimento do cirandeiro a rodar.” JOGOS COM PALAVRAS: Construindo uma história a partir de seleção randômica de palavras. As palavras escritas foram: cumplicidade, dividir (2 vezes), diálogo, aceitar, conjunto, assumir (2 vezes), consciência, união, divisão, ações, grupo, educar, valores, solidariedade. A história narrada foi a de um aluno que procura a professora chorando, pois estava sofrendo por se sentir discriminado, tanto pelos professores como pelos alunos. Percebendo estes problemas os professores se reúnem para procurar o que fazer nesta situação. Aos poucos os professores percebem que ele não é o único a vivenciar este tipo de problema, então os alunos e professores decidem que irão se unir para restabelecer a confiança desta criança. O grupo todo passa a sentar para dialogar e definem que os alunos irão ajudar em diferentes funções da escola, como ser responsável pela carteirinha da escola, fazer a ponte entre secretaria e escola, ser responsável pela biblioteca, etc. O fato destes alunos assumirem estes papéis faz com que eles sejam vistos de outra forma. Estas medidas se tornaram um projeto que ganhou destaque não apenas na comunidade, mas também junto a outras escolas que também adotaram o mesmo projeto. JOGO GERAL: Preso em grupo O primeiro grupo escolheu um elevador para estar preso e no meio da cena, logo que o elevador para uma das professoras diz ter claustrofobia. Outra professora fica com vontade de fazer xixi e depois de um bom tempo elas se lembram da possibilidade de usar o celular e assim conseguem pedir socorro. A segunda cena foi de quatro amigas que estão escalando uma montanha e caem em um abismo. Uma delas que não havia nunca feito este tipo de atividade se apavora e outra machuca o pé. Duas mantém melhor o controle e encontram soluções, com uma conseguindo sair do abismo e chamando um helicóptero que retira todas de lá. 289 DÉCIMO ENCONTRO - 21 DE OUTUBRO TEMA: Responsabilidade compartilhada AQUECIMENTO: Dança com pés e mãos. AQUECIMENTO DE GRUPO: Envolvimento com objetos grandes. O primeiro trio escolheu uma mangueira de bombeiro que estava enrolada e elas ficaram procurando as pontas e desenrolando. O segundo escolheu uma barraca de acampamento que foi montada. O terceiro eram três ioiôs que se enredam e elas conseguem separá-los. JOGO GERAL: Uma cena com professores que debatem o conflito escolhido. Na primeira cena foi discutida a situação do professor que apenas coloca matéria na lousa e a Julia representou uma professora que não tinha o menor interesse em discutir o assunto, argumentando que era problema do professor somente, que a coordenação não deveria se intrometer nisso. Lilá e Néia defendiam a postura de que algo deveria ser feito, já que os alunos estavam sendo prejudicados. A segunda cena, feita pela Rocha, Memê e Cris discutia a situação do aluno que dorme na sala de aula. Esta sugestão foi dada pela Memê e ela assumiu o papel da professora que está com o problema. Os argumentos giraram em torno da possibilidade da professora conversar com o aluno para tentar alterar esta postura, o que era rebatido com a necessidade de uma intervenção da coordenação para que então a professora pudesse retomar a conversa com o aluno. A terceira cena debateu a situação da criança que sofre maus tratos por parte de uma professora. Durante a conversa, elas ponderaram muito sobre os problemas que a professora deveria estar passando para agir daquela forma, já que ela sempre havia sido uma boa professora. Definiram que uma delas conversaria com a professora agressora e que ainda não levariam a questão para a coordenação. 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