Banco de Memórias e Histórias de Vida da Academia Nacional de Direito do Trabalho (BMHV-ANDT). Todos os direitos reservados. 2012. Christovão Piragibe Tostes Malta “As pessoas querem fazer parte da Academia, acham importante, pois não há outra organização como essa no setor trabalhista.” Realizar a entrevista com Dr. Christovão Piragibe foi quase uma façanha. E isso não por causa de alguma dificuldade especialmente imposta pelo entrevistado, mas por força de certas circunstâncias. Ao chegarmos ao edifício de seu escritório, na rua Santa Luzia, centro do Rio de Janeiro, fomos surpreendidos com o fato de que todos os elevadores estavam quebrados. Depois de subir 15 andares pelas escadas, o encontramos tranquilo e bem disposto, nos aguardando. E isso mesmo depois de ele haver feito a escalada alguns minutos antes... Dono de um divertido senso de humor e ao mesmo tempo de uma sinceridade quase desconcertante, a curta, porém intensa, entrevista com Dr. Tostes Malta, possibilitou revisitar alguns acontecimentos delicados e polêmicos dos primórdios da Academia, constituindo-se assim num relato ao mesmo tempo divertido e importante do ponto de vista histórico. A entrevista foi realizada no dia 15 de julho de 2011. Ascendência Jurídica Sou de uma família de pessoas que eram ligadas ao Direito. O meu avô materno foi desembargador, ainda naqueles tempos remotos em que os desembargadores eram nomeados pelas autoridades competentes. Meu pai também era ligado ao Direito, tendo inclusive entrado para Justiça do Trabalho. Começou como juiz na vara e foi mantido na Regional do Trabalho. Foi presidente do Tribunal do Trabalho e depois nomeado Ministro do Tribunal Superior do Trabalho, isso tudo sem concurso, como era comum na época. Os cargos mais importantes no Judiciário eram ocupados por pessoas sem concurso. Além do meu pai e de sua família, ainda tive muitos juízes pelo lado materno. Banco de Memórias e Histórias de Vida da Academia Nacional de Direito do Trabalho (BMHV-ANDT). Todos os direitos reservados. 2012. Banco de Memórias e Histórias de Vida da Academia Nacional de Direito do Trabalho (BMHV-ANDT). Todos os direitos reservados. 2012. Comecei como advogado. Fiz a antiga Faculdade Nacional de Direito, segui o caminho da família. Advoguei por poucos anos e fiz concurso para juiz do Trabalho. Nessa ocasião, por volta do ano de 1957, tinha vinte e poucos anos, e era o mais novo no Tribunal. Fiquei atuando como juiz, o que muito me agradava, ao contrário da advocacia. Esforçava-me para manter o serviço em dia. Entre nós, os juízes, havia sempre os mais rápidos, fazíamos até campeonato para agilizar as pautas. A pessoa dava a entrada, e no máximo, dentro de quinze dias já estava julgado. É possível que as coisas funcionem assim. Aqui no Rio, por exemplo, alguns juízes andam muito depressa, mas outros demoram muito... No Tempo da Revolução: Professor por Acaso Evaristo de Moraes, que ainda é vivo e mora em Copacabana, era catedrático na Nacional. Ele era um homem radical, e dizia muitas coisas, o que fez com que os militares chegassem à conclusão de que ele não poderia mais ensinar, sendo gentilmente convidado a se afastar. Ele ministrava cursos de mestrado e de doutorado nessa mesma faculdade. Nessa ocasião, mesmo não trabalhando nessa área, recebi o amável convite, uma espécie de intimação, dizendo que eu havia sido indicado para assumir o lugar do professor Evaristo. Disse que deveria estar havendo um engano, pois acreditava não ter nenhuma condição de substituí-lo. A resposta foi taxativa, dizendo que eu seria, efetivamente, o professor no curso de doutorado. Fiquei lá algum tempo. No segundo dia, para minha surpresa, um aluno comentou que a turma gostava do Evaristo, que era sempre sensacional, mas pedia para que eu transformasse o curso de doutorado num curso para iniciantes, pois os alunos nada sabiam. Assim o tempo foi passando. Suponho que as pessoas que ali estavam fossem militares. Estavam lá, gentilmente, não ostensivamente. Esse negócio sempre me chateou bastante, pois reconheço que, por um lado eu fui um pouco medroso, mas se acontecesse de novo, com aquela estrutura militar, não sei se teria coragem de dizer que eu não queria, ou que não iria desempenhar esse trabalho. Achava ridículo ficar no lugar do Evaristo que era um super fenômeno, ele era inigualável. Banco de Memórias e Histórias de Vida da Academia Nacional de Direito do Trabalho (BMHV-ANDT). Todos os direitos reservados. 2012. Banco de Memórias e Histórias de Vida da Academia Nacional de Direito do Trabalho (BMHV-ANDT). Todos os direitos reservados. 2012. Juiz do Trabalho Depois disso fiz concurso para juiz do Trabalho. Quando eu fiz o concurso, fez também uma pessoa chamada Jorge Salomão que já havia passado em sete concursos, todos em primeiro lugar. Nunca pensei que eu ia ficar na frente dele. Fiquei sendo o primeiro colocado no primeiro concurso que teve aqui. Essa contingência do Salomão me facilitou a vida, porque depois eu fui promovido para o Tribunal Regional. Fiquei como juiz substituto por só dois meses, apesar de o tempo normal ser de dois anos. Isso aconteceu porque, como não tinha outras pessoas e nunca tinha havido nenhum concurso, eu era o primeiro. Foi bom, todos eram muito entusiasmados com essas coisas. Em tempo mínimo comecei a ser convocado no Tribunal. O Tribunal não é tão humano como a Vara. Na Vara, o juiz fala diretamente, e deixa algumas vezes que as pessoas falem. No Tribunal é uma coisa mais isolada, inclusive, raramente a própria parte não costuma estar presente. O Tribunal aqui também funcionava bem, andava depressa. Houve um tempo, não sei como está agora, que demorava anos para você ser julgado. O Tribunal Superior do Trabalho também funciona atrasadamente, não tenho certeza de como está atualmente. Passados muitos anos, um primo meu que era advogado, e que tinha sido meu estagiário no tempo que eu era advogado, fez um escritório que estava indo muito bem. Nessa ocasião, ele perguntou se eu já havia verificado meu tempo de serviço, e disse que eu poderia me aposentar com vencimentos integrais. Convidou-me então para trabalhar com ele. Eu respondi, dizendo que aquilo era uma inversão, pois antigamente ele era meu assistente, e, a partir de então, eu seria seu assistente. Aceitei o convite. Se eu pudesse pular esse pedaço eu pularia, mas eu não sou muito bom na advocacia, também não sou bom orador, nada disso, mas a gente é sempre um pouco, quer dizer, bastante, movido pelo dinheiro. No Tribunal Regional o ambiente era ótimo, tinha muitas pessoas educadas. O Tribunal é bom, tem muitos rituais, mas tudo é muito bem organizado, com uma aparência ótima, os desembargadores são educados, tudo funciona adequadamente. O pessoal não ganha muito quando chega lá, no fim você pode estar trabalhando de graça. Eu me voltei para advocacia e fiquei aqui; estou na advocacia. Agora não sou mais o chefe do escritório, o chefe daqui é meu filho, o número dois. No Banco de Memórias e Histórias de Vida da Academia Nacional de Direito do Trabalho (BMHV-ANDT). Todos os direitos reservados. 2012. Banco de Memórias e Histórias de Vida da Academia Nacional de Direito do Trabalho (BMHV-ANDT). Todos os direitos reservados. 2012. momento ele está fazendo uma viagem com os filhos pela França e eu estou aqui no lugar dele. Quando ele vier eu vou falar: Você deu azar, porque vieram uns entrevistadores aqui, pessoas de primeira categoria. Publicações Tive coragem de publicar bastante. Uma ocasião, lembro-me que eu fui à casa de meu pai, pois eu sempre ouvia a opinião dele, apesar de nem sempre fazer o que ele mandava. Falei que iria fazer uma modificação em um folhetinho feito por mim que se chamava “Prática do Processo Trabalhista” e que já obteve trinta e cinco edições, pois é uma coisa que o público gosta. Pedi então que meu pai desse sua opinião antes que fosse para o editor, pois ele prestava mais atenção nessas coisas do que eu. Minha sugestão era mudar os nomes que aparecem em latim nos livros de Direito, por nomes de juízes de tribunais. Meu pai ficou horrorizado, pois era uma pessoa mais circunspecta que eu, e me alertou que, a partir daí eu iria arranjar uma porção de inimigos, deixando as pessoas envolvidas com muita raiva e com firme propósito de me processar. Fizemos então um acordo, tiraria aqueles que eram mais amigos e deixei os outros que eram mais obscuros. Os nomes em latim não iriam ter mais, somente nomes de pessoas existentes. E foi o que fiz. Passados uns quatro meses, o tempo que levou para a impressão, recebi os livros com os nomes de juízes dos Tribunais Regionais, principalmente de São Paulo. Escreveram uma carta e assinaram uma porção de juízes, dizendo que gostaram muito da homenagem e ainda indicando nomes que não poderiam faltar na próxima edição. Nós temos nos esforçado nos livros de Direito para evitar colocar citações inúteis, essas coisas se colocam no rodapé, não dentro do texto. O aluno em faculdade ainda não sabe nada. Nós também não sabemos nada, acredito que a vida inteira somos ignorantes. Não tem porque colocar o nome de uma pessoa que viveu há cinco mil anos, se não influi em nada, mas sei também que isso é uma tradição. Quando saiu esse negócio de Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, aquele meu primo sugeriu que fizéssemos um livro sobre esse assunto, uma coisa fácil, pequena, pois não havia nada publicado e achamos que iria vender na certa. Resolvemos não colocar nomes de pessoas, pois esse assunto Banco de Memórias e Histórias de Vida da Academia Nacional de Direito do Trabalho (BMHV-ANDT). Todos os direitos reservados. 2012. Banco de Memórias e Histórias de Vida da Academia Nacional de Direito do Trabalho (BMHV-ANDT). Todos os direitos reservados. 2012. estava só começando. Sendo assim, colocamos um nome fictício, Altamirando J. Casais. Era um livro fininho e se chamava “O fundo de garantia do tempo e serviço, conforme a opinião de Altamirando J. Casais”. O livro esgotou em menos de três meses, porque nunca tinha havido nada sobre isso, e o editor que era o Calheiros Bomfim – que ainda está vivo, com 93 anos. Depois desse sucesso quisemos colocar o nosso nome, já que vendeu tanto e seria muito bom para propaganda, mas Calheiros me desaconselhou e o nome ficou, Altamirando J. Casais. Depois desapareceu. Anos depois recebi uma carta de uma pessoa desconhecida dizendo que ele era um colecionador de livros, e soube que nós éramos primos do Altamirando. Depois apareceu um sujeito que tomou esse negócio de Fundo de Garantia e nos expulsou do mercado, isso porque o trabalho dele era bem melhor do que o nosso. A Fundação da Academia A história da Academia Nacional de Direito do Trabalho está intimamente relacionada com o nome do ministro Arnaldo Süssekind. Era ele quem comandava as coisas. Agora ele está bem idoso, ele deve estar com 93 ou 94 anos, mas, todas as coisas que aconteceram aqui, no Brasil, vieram do Süssekind. O homem era sensacional; ele e o Délio Maranhão, que já faleceu. Ele e o Süssekind eram unha e carne. Délio Maranhão era uma pessoa preparadíssima, e não tinha nada de fofoqueiro. Suas funcionárias, segundo a lenda que existe, diziam que o Doutor Délio tinha uma porção de qualidades: era um homem cultíssimo, boníssimo, educadíssimo... Tinha apenas um grande defeito que era ser absolutamente fiel à sua esposa. Um dia o Süssekind falou-me que estava fundando uma Academia e que já estava colocando as pessoas que iriam fazer parte. Parece um pouco absurdo que ele pudesse escolher, mas era assim que funcionava. Esses dados são um pouco imprecisos, pois já faz muito tempo. Nessa época ele era muito amigo de meu pai, depois ele ficou doente e o Süssekind jamais esqueceu dele, telefonava sempre. Um dia ele disse que havia um camarada que estava querendo derrubar a Academia, logo depois da primeira eleição. Eu cheguei até a me perguntar: que Academia? A Academia já estava na cabeça dele. Banco de Memórias e Histórias de Vida da Academia Nacional de Direito do Trabalho (BMHV-ANDT). Todos os direitos reservados. 2012. Banco de Memórias e Histórias de Vida da Academia Nacional de Direito do Trabalho (BMHV-ANDT). Todos os direitos reservados. 2012. No dia em que ia ter a eleição soubemos que o nosso adversário não prestava para nada. Cheguei lá cumprindo as ordens do Süssekind, e eu soube que já havia uma quantidade enorme de procurações. Süssekind, por sua vez, já havia telefonado para todo esse pessoal, que havia decidido estar com ele. Cada vez que um votava, do outro lado ele falava: Foi revogado, está aqui, igualzinho esses filmes de aventura, foi bastante engraçado. Süssekind ficou por um bom tempo mandando ostensivamente como chefe e nós o admirávamos, pois é uma pessoa sensacional, um ser extraordinário. Pode-se dizer que ele foi a pessoa que mais influiu nessa área do trabalho na América do Sul. Ele esteve muito tempo na Europa fazendo algumas representações e sempre foi incapaz de fazer uma coisa errada. Ficou então na Academia e, quando era necessário resolver algo importante me telefonava, dizia que meu voto era igual ao dele. Outras pessoas se dedicaram também, como, por exemplo, o Antônio Carlos Bento Ribeiro. Antonio Carlos, por exemplo, é uma pessoa de rara utilidade porque ele controlava e tinha bastante intimidade com as pessoas da Academia. Enfim, foi assim a minha entrada na Academia, daquele dia em diante eu fui pecador, pois eu não ia e não vou muito às reuniões, mas de qualquer forma consto como membro fundador... Se tivesse tempo de me preparar melhor para essa entrevista, talvez tivesse anotado algumas coisas, ou mesmo inventado algumas coisas, já que nessas coisas da memória podemos inventar um caso melhor do que o verdadeiro. Por que não? A Importância da Academia As pessoas querem fazer parte da Academia, acham importante, pois não há outra organização como essa no setor trabalhista. Diferentemente ocorre com a Ordem dos Advogados, pois é uma organização da qual os advogados precisam pertencer. Com a Academia é diferente, tem um grupo de pessoas muito competentes, pessoas que gostam de estar lá e percebemos isso com a quantidade de cabeças que fazem parte dessa organização. Sem dúvida, a Academia teve um papel importante na história do Direito do Trabalho no Brasil, principalmente em função da influência do Arnaldo Süssekind. Agora, mais recentemente, percebo que a Academia começa a Banco de Memórias e Histórias de Vida da Academia Nacional de Direito do Trabalho (BMHV-ANDT). Todos os direitos reservados. 2012. Banco de Memórias e Histórias de Vida da Academia Nacional de Direito do Trabalho (BMHV-ANDT). Todos os direitos reservados. 2012. apresentar mais maturidade, da mesma forma como o próprio Direito do Trabalho no Brasil, de maneira geral. Penso que daqui para frente o papel e a importância da Academia irá crescer, já que hoje é muito maior o número de pessoas que militam no Direito do Trabalho e também a qualidade das discussões e debates em torno do tema. A Academia foi um pouco responsável por isso; por esse amadurecimento e por esse crescimento. Entrevista realizada por Dante Marcello Claramonte Gallian Banco de Memórias e Histórias de Vida da Academia Nacional de Direito do Trabalho (BMHV-ANDT). Todos os direitos reservados. 2012.