Tratamento da Pirataria pelas Empresas e pelas Teorias de Estratégia Autoria: Arnaldo Luiz Ryngelblum RESUMO Este trabalho procura avaliar a eficiência das estratégias organizacionais frente à Pirataria, considerada aqui como uma influência ‘hetero-racional’, ou seja, distinta da racionalidade privilegiada pelos atores geralmente considerados pelas Teorias em Estratégia. A revisão teórica faz um levantamento das recomendações teóricas contra a Pirataria, para em seguida apresentar um levantamento de ações empresariais, com o objetivo de verificar sua eficácia e comparação às recomendações teóricas. Constatou-se que as empresas evitam utilizar seu instrumental tradicional contra o concorrente ilegal, recorrendo sobretudo a ações delegadas para tentar parar ou eliminar os efeitos trazidos pela Pirataria. Por outro lado, abdica de uma associação mais efetiva com esses atores delegados, submetendo-se largamente aos objetivos e métodos destes últimos. Esse tipo de atitude está sobretudo calcado numa visão estratégica tradicionalista. Assim, para buscar melhores resultados faz-se necessária uma nova perspectiva teórica que considere a especificidade dessa contingência. INTRODUÇÃO A Pirataria poderia num primeiro momento ser assemelhada a uma concorrência tradicional de mercado, uma vez que aqueles que pirateiam produtos vão disputar praticamente os mesmos consumidores que as empresas detentoras da patente ou dos direitos originais, já que os negócios piratas não respeitam as condições legais – pagamento dos direitos de autoria, de patentes e pagamento de tributos - que limitam a atuação das empresas regulares e, assim, encontram condições para ampla autonomia de ação. A Pirataria poderia ser, por isso, incluída numa categoria distinta, na qual determinadas influências marcam decisivamente as ações empresariais, mas não seguem necessariamente uma racionalidade de mercado. As empresas legalmente estabelecidas têm seus negócios afetados pela ação de firmas piratas ao perderem vendas para os mesmos, em função de produtos funcionalmente semelhantes ou praticamente idênticos. Entretanto, um negócio ‘legal’ em princípio não arriscaria investir e correr riscos de ser fechado pelas autoridades, por distintos tipos de infração, o que define uma decisão racional. As empresas tendem cada vez mais a sofrer pressões e influências de atores externos a elas, que não se preocupam, necessariamente ou exclusivamente, com sua otimização econômica. Ou seja, trata-se de atores que, diferentemente de concorrentes, fornecedores, distribuidores e, até mesmo, consumidores, não estão necessariamente preocupados com seu desempenho econômico individual. Concorrentes, fornecedores e distribuidores, enquanto empresas, supõe-se que realizem ações que busquem atingir o melhor resultado de vendas, custos, divulgação, etc., cujo objetivo é atingir as metas empresariais. Os consumidores supõe-se que busquem obter os produtos demandados nas condições apropriadas pelo menor preço. As diferentes influências de governo, nas suas diferentes instâncias e níveis, e seus órgãos de atuação específicos, sobre as empresas não seguem necessariamente uma racionalidade como a destas últimas. Governos não agem balizados exclusivamente por considerações de viabilidade e desempenho econômico. Ou seja, suas ações podem estar orientadas por diferentes considerações de caráter político, social, legal. Essas considerações referem-se a interesses situados num quadro institucional fora do contexto de mercado, ou melhor ainda, abrangendo aspectos que englobam mas ultrapassam tais aspectos. É esse também o caso, à medida que a sociedade se sofistica na maneira pela qual luta por seus interesses, das ONGs e organizações que defendem interesses comunitários. Um outro 1 tipo de ator organizacional surge também quando diferentes atores associam-se em sindicatos e associações para conduzirem suas lutas em grupo, devido à maior força gerada pela soma das partes. Esta contingência pode muitas vezes extrapolar o mero âmbito econômico, quando fazem lobby junto ao governo, por exemplo. Nota-se aqui, além das contingências anteriormente mencionadas (políticas, sociais, legais), outras de caráter cultural, psicológico, ético, como por exemplo a valorização das práticas tradicionais de populações locais. O oposto ao termo racionalidade, ‘não-racionalidade’, não esgota a lógica por trás de eventos que não perseguem objetivos estritamente econômicos, pois estes também embutem lógicas que, a partir de condições iniciais, buscam atingir um estágio final explícito. Entretanto, não há parâmetros seguros que orientem o observador sobre que tipo de objetivos são perseguidos e que resultados podem ser esperados destas realizações. A racionalidade econômica pressupõe a busca da otimização do lucro, do retorno sobre o investimento e outros indicadores assemelhados, que têm uma definição lógica e matemática. Na outra situação, os objetivos podem ser de diferentes tipos e nem mesmo ser mensuráveis. O termo que iremos adotar neste trabalho, portanto, para referir-se às orientações seguidas por esses eventos será ‘outras racionalidades’ (‘hetero-racionalidades’), como um termo que busca explicá-las melhor. As influências de qualquer tipo sobre as empresas somente serão consideradas relevantes quando a racionalidade econômica destas for afetada. Nessa situação, empresas que lutam contra influências 'hetero-racionais' experimentam uma perda de resultados. Porém, há aí três tipos distintos de influência: uma ocorre na medida em que os atores externos assumem, de alguma forma, o papel de concorrentes. É este o caso da Pirataria. Outra, quando o influenciador não tem interesse direto no mercado de atuação da empresa, como a ação governamental. Uma terceira situação ocorre quando o consumidor é o próprio agente da pirataria, como pode ocorrer no caso de livros e CDs, quando este reproduz sem autorização. Na primeira situação, existe uma possibilidade de maior previsibilidade do comportamento desse tipo de atores. É evidentemente mais fácil lidar com contingências que podem ser previstas em relação a seus efeitos sobre as empresas. Ainda que não seja possível, por exemplo, precisar como exatamente reagirá o consumidor quando um concorrente lança um novo produto, é ainda assim possível supor que ele irá experimentá-lo, se o produto (parecer) preencher as necessidades específicas esperadas, se vier a saber de sua existência, se for possível encontrálo e se seu preço lhe for acessível. É exatamente essa a lógica por trás de um grande grupo de Teorias Estratégicas: elas partem do pressuposto que podem determinar os efeitos sobre as empresas das influências de atores externos à mesma sobre ela. Concorrentes agem de determinada forma, isso afeta tal e tal dimensão empresarial. Antecipação (pró-atividade) ou reação são duas alternativas estratégicas quando se crê poder prever com alguma segurança o futuro. No entanto, quando o futuro não segue uma lógica ‘tradicional’ então é mais difícil antecipar-se a ele, pois não se sabe o que pode acontecer. Especificamente, reagir a posteriori pode ser uma opção, mas tudo depende da magnitude do impacto, o que, num cenário racionalista, acredita-se ser possível antecipar. Qual a racionalidade da Pirataria? Apesar de seu aspecto claramente a-ético, pode-se argumentar que algo da lógica do negócio pirata pode ser previsto ou imaginado. É, por exemplo, possível imaginar-se o que pode ser pirateado e, aproximadamente, em que condições. O produto tem que ser quase idêntico ou muito semelhante ao objeto da pirataria. O preço, evidentemente, inferior. E, mesmo aqui parece vigorar uma versão da lei de oferta e procura, onde o bem assume o valor dentro de uma faixa de preço praticada pelos vários ofertantes ilegais. Outros aspectos, no entanto, não são facilmente previsíveis, por exemplo, a distribuição, a qualidade do produto, os volumes ofertados, dentre alguns aspectos mais importantes. Além disso, é difícil prever o comportamento dos demais atores envolvidos. Em 2 que medida os consumidores poderão preferir uma contrafação; qual a capacidade e disposição de intervenção dos agentes da lei; que eventos poderão lograr a cobertura da mídia, dentre outros. A questão portanto é como deve a empresa regularmente estabelecida conduzir sua estratégia quando o ator externo tem uma lógica hetero-racional e concorre pelo mesmo mercado. Este trabalho propõe-se, numa primeira etapa, revisar como as principais teorias em estratégia analisam essa circunstância e suas recomendações para a ação. Em seguida, apresentaremos um levantamento de atitudes empresariais a respeito da questão, para examinar que recursos têm sido utilizados no cotidiano empresarial. Esta observação empírica irá embasar uma discussão sobre a racionalidade das propostas teóricas discutidas frente às atitudes adotadas pelas empresas e os resultados conseguidos. VISÃO DAS TEORIAS EM ESTRATÉGIA A RESPEITO DE INFLUÊNCIAS AMBIENTAIS HETEROGÊNEAS Do ponto de vista do agir estratégico, podemos diferenciar as teorias estratégicas segundo três eixos (Whittington, 2002)1 importantes para a nossa análise – (I) Desempenho: [Ia] dentre as que acreditam no planejamento racional do desempenho, ou seja, na otimização econômica e [Ib] aquelas que avaliam não ser possível perseguir metas ótimas, pois não seria possível determiná-las; (II) Processos e Atividades: [IIa] dentre as que acreditam ser possível préestabelecer as maneiras de executar o trabalho e, portanto, os processos que irão permitir a realização estratégica, [IIb] um outro grupo que argumenta que o planejamento sofre ao longo do tempo renovadas influências, surpresas, novidades, que devem levar a revisões das intenções inicias, constituindo-se portanto em um método incremental, [IIc] enquanto outras pensam que toda a atividade é construída in situ e passo a passo, pelos atores participantes dessas ações, de forma totalmente espontânea ou construída a partir de experiência prévia. Por isso, seria infrutífero planejar com antecedência; (III) Gênero ambiental: [IIIa] onde algumas teorias acreditam que seja possível perceber as contingências provenientes do meio ambiente em relação às quais a organização tem capacidade de agir para defender-se ou para anteciparse a elas, [IIIb] outras enxergam o meio ambiente como altamente restritivo, e em relação ao qual a empresa deve acautelar-se, antecipar-se para não correr o risco de ser extinta, [IIIc] enquanto um outro grupo não se ocupa especificamente das influências ambientais por privilegiar a importância do indivíduo, que nesse caso é o intermediário entre os inputs vindos de fora e a forma de lidar com os mesmos. As percepções das teorias acerca das influências ambientais e suas consequências sobre as empresas, de que trata o trabalho, podem ser classificadas conforme indicado neste terceiro grupo. No entanto, as teorias não distinguem explicitamente segundo influências racionais e hetero-racionais. Algumas são mais específicas ao mencionar quais os inputs mais relevantes na sua análise (tecnologias, p.ex). No caso das contingências dos atores de mercado, sabemos ou podemos levantar a frequência e regularidade das compras dos consumidores, distintas ações da concorrência, approach dos fornecedores e distribuidores, etc. Também, conhecemos por experiência ou analogia o conteúdo dessas ações e sua importância. Contingências hetero-racionais, por sua vez, caracterizam-se pela incapacidade relativa de prever-se – 1_quais atores ambientais que podem manifestar-se, uma vez que não são atores cujas ações regulares estejam especificamente voltadas para afetar esta ou aquela empresa ou setor; 2_o conteúdo de sua manifestação: o que será feito, condições, momento em que ocorrerá, etc.; 3_o peso relativo sobre a empresa de sua atitude. Na Pirataria, os grandes desconhecidos dessa equação são o número de diferentes provedores de produtos no mercado, os produtos exatos a serem submetidos à contrafação, os volumes envolvidos, a qualidade com que serão produzidos e, de certa forma, os locais de distribuição. Quanto aos preços que serão praticados, a incerteza pode referir-se à distância em relação ao preço do produto legal, pois dependendo do caso e do momento pode haver maior ou menor 3 distanciamento. Por outro lado, a Pirataria embute uma familiaridade, pois assemelha-se a uma concorrência regular, onde a grande diferença é que nesta última os produtos ofertados são distintos em relação a seus outros concorrentes legais. É então evidente, em função da classificação anterior, que a percepção, a apreciação e a reação frente aos distintos tipos de contingências ambientais, varia de acordo com o modelo estratégico teórico em questão, segundo sua racionalidade. Os modelos do Design, Planejamento e Posicionamento (Mintzberg et al.,2000) [Ia–IIa– IIIa] incluem, entre outros, Ansoff (1965) e Porter (1989). Estes autores propuseram teorias que, apesar das diferenças entre si, posicionam-se semelhantemente nos três eixos apresentados. No modelo de Ansoff, as influências originadas no meio ambiente são oportunidades ou ameaças, em relação às quais a empresa irá desenvolver estratégias que buscam ora aproveitar as oportunidades, ora proteger-se ou defender-se das ameaças, fazendo uso de seus pontos fortes visando otimizar seu desempenho econômico. O modelo não distingue a priori entre diferentes tipos de influências e atribui-lhes valor e prioridade idênticos. Ou seja, pressupõe que a empresa poderá sempre lidar adequadamente com não importa qual contingência provocada pelos atores ambientais (IIIa). Assume, igualmente, que as ações necessárias para implementar as medidas que irão responder às contingências externas podem ser pré-estabelecidas e seguidas pelos integrantes da empresa etapa a etapa (IIa). Dessa forma, tanto os inputs racionais quanto os hetero-racionais terão tratamento equivalente pela empresa e imagina-se a adoção de estratégias pré-dimensionadas, de iniciativa da empresa, que serão mais adiante detalhadas pelas várias áreas funcionais para obter o desempenho buscado. No caso da influência de produtos pirateados, uma clara ameaça, temos um produto idêntico, ou bastante aproximado, àquele comercializado pela empresa, sendo oferecido por preço substancialmente inferior e em um grande número de pontos de distribuição alternativos e em alguns comuns aos legais. Fazendo uso do raciocínio do modelo teórico ansoffiano, as empresas deveriam planejar o acionamento de seus instrumentos - pontos fortes - para combater os produtos piratas. Tais ferramentas próprias são as políticas de marketing, qualidade, volume, marca, preços e condições, etc. A racionalidade econômica dirá que não é possível rivalizar com o preço do produto pirata, que não remunera os direitos de autoria, não arca com os custos tributários, nem tem as despesas de uma estrutura administrativa de ordem próxima a uma empresa estabelecida. A conclusão é que cabe ao jurídico agir, uma vez que esses negócios agem na ilegalidade. Dessa forma, não é nem mesmo imaginada a tentativa de combatê-los com os instrumentos funcionais tradicionais, o que implicaria experimentar uma aproximação de preços, pelo menos para os títulos e modelos mais visados, a veiculação das possíveis diferenças de desempenho, rentabilidade, durabilidade e outras características de qualidade que um produto contrafeito deixasse de apresentar, a promoção de serviços complementares ao usuário-consumidor no pós-venda, que pudessem atrair por seu apelo, etc. Muitos destes não são acionados devido ao receio de revelar ao mercado a presença de produtos piratas. No modelo de Porter, as estratégias empresariais originam-se sobretudo das cinco forças geradas dentro de um setor econômico e suas contingências. Como no modelo de Ansoff, tais forças são vistas tendo idênticas prioridades para as empresas, com teor exclusivamente econômico e principalmente concorrencial. Igualmente válido é o pressuposto que sempre é possível identificar e lidar com as pressões desses atores externos. Uma empresa irá adotar a liderança de custos, a diferenciação ou a focalização como estratégia em função dos efeitos trazidos por aquelas forças. Para tanto, esta deverá manipular os fatores que compõem sua cadeia de valor e que lhe permitirão seguir esta ou aquela direção. 4 O modelo prioriza desta forma uma perspectiva econômica dos eventos, excluindo o restante do meio-ambiente, declaradamente abandonando outras formas de racionalidade que agem sobre as empresas. No caso da Pirataria, dentre as alternativas de estratégias genéricas propostas por Porter, a escolha reduz-se fundamentalmente à diferenciação, e ainda assim com restrições. A focalização é uma opção voltada para segmentos restritos, que deverá no final de contas definir-se por uma alternativa de custos ou diferenciação, conforme indicação do próprio modelo. A estratégia de liderança de custos, por sua vez, também não é viável, uma vez que a empresa é consciente que não poderá obter uma estrutura de custos menor que o do negócio pirata. Já a opção de diferenciação não pode ser buscada no produto em si. Isto porque o produto pirata perseguirá sempre a reprodução do produto propriamente dito. Assim, para Porter, a estratégia ideal será a de outras formas de diferenciação, que não passem pelo produto em si, trazendo novos benefícios aos consumidores e fugindo da concorrência direta. Essas restrições limitam em muito a eficiência do modelo nessa circunstância. As abordagens teóricas do grupo anterior são aquelas que propõem mais explicitamente processos formais de planejamento estratégico, com ações pré-definidas e parâmetros de desempenho. Outras abordagens têm entendimentos diferentes sobre as variáveis do agir estratégico. Tanto em relação à definição, implantação e controle estratégico que são vistos como partes de um processo incrementalista, que não podem ser previstos com antecedência. A Ecologia Populacional (Hannan e Freeman, 1977) e a Teoria da Dependência de Recursos (Pfeffer e Salancik, 1978) são teorias cuja perspectiva quanto ao ambiente é do gênero limitativo, pois uma empresa pode sofrer restrições de recursos controlados por outras organizações, mas que eventualmente poderão ser enfrentadas (IIIb ou a). Entretanto, sua visão de desempenho alinha-se com a possibilidade da empresa ter um desenvolvimento plenamente racional (Ia). Na visão da Ecologia, as empresas devem desenvolver habilidades para conseguir os recursos e antecipar-se às restrições ambientais, o que nem sempre é possível, o que faz com que algumas empresas terminem por desaparecer ao não conseguirem adaptar-se às novas condições. Por essa razão, o conceito de ambientes que ‘selecionam’ quem vai sobreviver. A teoria imagina também a possibilidade de empresas serem surpreendidas por empresas de setores distintos aos seus, sobretudo quando estas introduzem inovações que podem substituir os produtos das primeiras. Ainda assim, a postura estratégica é da necessidade de antecipação. No caso da Teoria da Dependência, uma empresa deve lançar mão de suas capacidades distintas para evitar as consequências que poderiam advir de ambientes com recursos restritos, entretanto não são os produtos de uma empresa o que lhe permite obter vantagem competitiva, mas sim, algumas características próprias dessa empresa que imprimem um diferencial ao produto. São recursos únicos, competências cuja reprodução e substituição não é acessível à maioria, que permitem à empresa superar as limitações do mercado. Esses modelos teóricos admitem lógicas hetero-racionais, que se traduzem nas diferentes razões que podem levar a ameaças de limitação de recursos do mercado, inclusive atitudes de atores do mercado que visam a prejudicar, isolar, enfraquecer. Entretanto, não é esse o caso da Pirataria, pois esta não está relacionada com problemas de recursos, mas sim, de concorrência ilegal. Prevenir-se com antecedência para recursos escassos, conforme imagina a Ecologia, ou o aproveitamento de competências específicas à organização, segundo a Teoria da Dependência têm efeitos muito limitados nesse caso. No máximo, alguma competência que não se reflita no produto propriamente, que pudesse permitir a uma empresa atrair seu consumidor, que veria vantagem em abandonar o concorrente pirata. Se, de outro lado, imaginarmos uma Pirataria que pudesse fazer desaparecer seus concorrentes legais, da mesma forma como a informática afetou diferentes setores com suas inovações, como sugere uma 5 outra versão da Ecologia, seria um contrasenso, na medida em que igualmente desapareceriam os produtos a serem copiados. A Teoria dos Stakeholders (Freeman, 1984) está fundada na capacidade da empresa ser influenciada e, por sua vez também, influenciar atores e suas coalizões em seu ambiente externo sobretudo: fornecedores, acionistas, distribuidores, executivos, etc. Esse meio ambiente é constituído por sistemas reguladores e profissionais de considerável interdependência e complexidade, o que naturalmente restringe em muito as possibilidades de ação da empresa (IIIa ou b). Frooman (1999) busca um levantamento de como stakeholders agem para influenciar a tomada de decisão da firma e, portanto, seu comportamento, deixando claro que os interesses dos stakeholders e da firma divergem, ocasionando um conflito entre eles. A literatura da stakeholder theory aponta para três tipos de abordagem: identificar as características dos stakeholders; identificar os interesses dos mesmos; identificar suas estratégias para influenciar a firma. Nesse último caso, fala-se em boicotes, resoluções de stockholders, vendetas modificadas, desinvestimentos, campanhas de cartas, dentre outras. Dessa maneira, esta teoria pode ser enquadrada como as duas anteriores, quanto à visão limitativa do meio ambiente, que nesse caso é visto de forma menos categórica que nas outras, quanto à visão de capacidade de desempenho racional, e onde as estratégias são desenvolvidas incrementalmente (IIb). A estratégia indicada pela teoria para lidar com essa vinculação com o exterior é reduzir a dependência com o meio ambiente. Algumas formas de reduzir tal dependência são por meio de readaptação ou reestruturação da empresa, por exemplo internalizando um peça adquirida de fora, assumindo o controle de outra empresa ou fundindo-se a esta, ou ainda, organizando redes cooperativas, via terceirização ou aliança estratégica. A Pirataria, enquanto um formato de concorrência, é encarada por essa teoria como uma contingência importante sobre a empresa e, portanto, o melhor caminho para lutar contra os prejuízos por ela gerados seria por meio de uma redução da dependência dessa influência, por exemplo, unindo esforços com outros produtores para combatê-la, resultando em maior poder de fogo. Na prática, as associações criadas com esse fim ou parcialmente voltadas para isso parecem não dispor de recursos e condições suficientes para desenvolver programas eficazes, além de terem que repartí-los em distintas direções para atender seus vários membros. Os modelos de Rede de Empresas (Ebers e Jarillo, 1998) e outros assemelhados (Achrol e Kotler, 2000; Dwyer et al., 1987; Anderson e Narus, 1990; Nohria, 1992) percebem o relacionamento entre organizações de forma colaborativa, o que vai de encontro aos modelos competitivos, essencialmente adversariais, como acima, e também enxerga o ambiente de forma não restritiva. A colaboração nos modelos adversariais, por outro lado, somente ocorre quando há uma restrição importante e será a alternativa adotada, no limite. Esses ainda são modelos cujo desempenho são concebidos de forma racional (Ia), mas a estratégia é percebida como uma construção passo a passo (IIb). Entretanto, o meio-ambiente mais próximo são os próprios componentes da rede, com quem o prévio entendimento permite retirar parte da instabilidade presente nas influências externas. A estratégia de ação nesse modelo é definida pela empresa central (hub), que via de regra domina o marketing do produto final, e se ela restringir-se à rede formada por sua cadeia de suprimentos e outros parceiros, como é proposto pelo modelo teórico para lutar contra produtos piratas, dificilmente conseguirá assumir a fatia de mercado dos mesmos, que vem crescendo nos últimos anos, devido à falta de ênfase deste modelo pela concorrência. Para a Escola da Aprendizagem (Argyris, 1982; Nonaka e Takeushi, 1995) , o raciocínio e o comportamento humanos é que permitem o diagnóstico, a análise e a ação organizacionais. No entanto, não é possível conhecer as diferentes possibilidades dos efeitos da ação organizacional, por isso a ênfase em valer-se de experiências anteriores como referencial para 6 ações futuras (Ib). A estratégia organizacional, por sua vez, é o resultado da combinação de pequenas ações e decisões tomadas por todos os indivíduos na organização, submetida a ajustes mútuos entre todos os participantes (IIc). O problema com esse tipo de modelo é que ao não privilegiar uma análise estrutural e ambiental fica-se com poucas pistas sobre a direção estratégica que pode vir a ser adotada (IIIc). A única coisa que sabemos é que os administradores tendo feito um diagnóstico da situação enfrentada irão optar, seja por um procedimento tradicional com algum aperfeiçoamento a partir de aprendizado anterior, seja por uma revisão de métodos e práticas para lidar com uma nova realidade. No caso, ao enfrentarem uma concorrência desleal, os administradores organizacionais continuarão a adotar as práticas até aqui utilizadas, ou seja, repressão policial e jurídica, lobby e propaganda institucional, com aperfeiçoamentos menores. Os administradores poderão alternativamente adotar uma estratégia radicalmente diversa daquela seguida até aqui (ou, com elementos novos) para conseguir resultados verdadeiramente inovadores, que não é possível saber entretanto a priori de que teor seria. No Institucionalismo (DiMaggio e Powell, 1991), as organizações são atores que fazem parte de processos sociais, que são formatados pela interação de todos os atores participantes (IIb, e mesmo, c) ― empresas, governo e seus órgãos, mídia, comunidades, dentre outros. Esses mesmos processos, por sua vez, formatam igualmente esses atores, determinando suas estruturas e ações. Assim, a estratégia organizacional segundo esse modelo é condicionada pelas instituições que formam o ambiente no qual ela está inserida. Por exemplo, a legislação vigente, a existência de instituições financeiras, a diversidade de canais de distribuição, o número e sofisticação dos concorrentes, dentre outros. A estratégia e estrutura organizacional são o produto no entanto não somente das condições tecno-econômicas do contexto institucional, mas também de aspectos sóciohistóricos que devem ser levados em consideração e, ainda, a ação individual. Ou seja, a estratégia sofre a influência das restrições e limitações impostas por normas, regras, hábitos da convivência diária. Os domínios organizacionais e sua significação são estruturados a partir da prática dos atores sociais e são difíceis de serem alterados, pois os atores os controlam para que sejam mantidas as condições aprovadas. O Institucionalismo não acredita que somente a ação organizacional por si, sem a combinação com outros atores nesse meio-ambiente, seja capaz de reagir a contingências externas convenientemente. O modelo também não dá suporte à crença em resultados imediatistas, devido à sempre presente interação entre os participantes para a consecução de um processo. Por outro lado, essa teoria também não aponta a priori que direção uma empresa deve tomar, qual dimensão ela deve alterar para obter resultados, além de propor a análise de um quadro estratégico sumamente complexo. Entretanto, é através do ponto de vista Institucionalista que é possível perceber melhor a prática da Pirataria, pois a análise do ambiente admite fatores além dos econômicos tradicionais. Dessa forma, a dita leniência do Estado em tratar a questão, seja pela fiscalização inconstante e corrupta, seja pela apreensão de mercadorias que igualmente acontece esporadicamente e com pouco conhecimento dos produtos envolvidos, seja pela demora em julgar e punir infratores, etc., faz parte do quadro de análise institucionalista que reconhece nele um forte componente do meio-ambiente organizacional. Esse mesmo gênero de análise diz que o funcionamento do mercado ilegal está razoavelmente consolidado da maneira como é praticado, já que não foi substancialmente afetado pelas medidas tomadas até aqui. Fica claro também que a ação estratégica isolada por parte da empresa é limitada pelas interações produzidas pelos demais atores. Dessa forma, a maneira de agir para combater a Pirataria deve passar por várias das ações atualmente adotadas, mas que isoladamente não serão suficientes para impedir o progresso do fenômeno. Será preciso atacar todos os fatores envolvidos que, não eram considerados até 7 aqui de forma consistente, como os fabricantes ilegais ou informais, que não são constrangidos, ou tratados de forma insuficiente, como a legislação de repressão que não chega a inibir por sua penalização os participantes do processo, dentre outros aspectos. LIMITAÇÕES DAS TEORIAS EM ESTRATÉGIA PARA LIDAR COM INFLUÊNCIAS AMBIENTAIS HETEROGÊNEAS Como pudemos examinar anteriormente, a adaptação das Teorias para lidar com esse tipo de contingências e, mais especificamente, com a ameaça dos produtos piratas, sofre sérias limitações. As teorias que privilegiam o desempenho racional [Ia], o planejamento apriorístico [IIa] e a resposta adequada às injunções do meio ambiente [IIIa] são desde logo desmentidas pela realidade, que deixa claro que a Pirataria está avançando em vários mercados, dado o entendimento das empresas de que não é possível rivalizar economicamente contra esses negócios. Teorias que não falam em planejamento a priori, mas em construção passo a passo da estratégia [IIa] a partir de uma visão de restrições impostas pelo meio ambiente [IIIb] podem lidar melhor com lógicas hetero-racionais, pois admitem não apenas motivações tecnoeconômicas para a ação dos atores ambientais, mas também sócio-culturais. Entretanto, enfoques voltados para restrição de recursos ambientais não estão adaptados para analisar a Pirataria, como é o caso das Teorias da Ecologia Populacional e da Dependência de Recursos, já que não é esse o caso desse tipo de ameaça. Já, o modelo do stakeholder é melhor preparado, mas nem sempre a estratégia recomendada, focada na busca de cooperação com outras empresas será suficiente, pois alianças nesse caso podem ter pouca capacidade de atuação, sobretudo se mantiver o entendimento puramente racional da situação. Teorias de network e assemelhadas enfocam sobretudo a estruturação dos parceiros para atender o mercado e suas recomendações em termos de estratégia, e não privilegiam fatores tais como a Pirataria. A Aprendizagem que, por princípio, não persegue objetivos ótimos, nem acredita em planejamento pré-estabelecido, não enfoca diretamente diferentes questões ambientais, preferindo centrar sua atenção no desenvolvimento do indivíduo organizacional. Sabe-se que os gerentes são forçados a tomar decisões em condições de “racionalidade limitada”. Ou seja, existe a conscientização da imperfeição de conhecimento quanto ao ambiente, mas a direção estratégica não é sabida de antemão e não é possível saber com antecedência com que eficiência esse gestor poderá agir. Poucos autores abordaram a questão da melhor prática estratégica contra a pirataria. O artigo de Jacobs et al. (2001) traz um comparativo de alguns artigos que o fizeram, concluindo que a adoção de estratégias de marketing proativo são mais eficazes que outras soluções, mas sem provas cabais. A tabela a seguir traz esses artigos, as estratégias propostas por cada um e suas desvantagens segundo os autores: Artigo Estratégia Harvey, M.G. e I. A. Ronkainen Estratégia de comunicação Estratégia judicial Harvey, M.G. Estratégia de comunicação incentiva produtos legais Estratégia judicial mais agressiva Legislação e implementação mais eficaz Incentivos para rejeitar produtos piratas Comunicação sobre riscos dos produtos piratas Colocar identificadores Incentivos para o canal Informar público e varejo sobre riscos Bush, R.F., P.H. Bloch e S. Dawson Olsen, J.E. e K.L. Granzin Desvantagens Mensagem não atingir consumidores Assustar consumidores Custos do processo excedem benefícios por falta de legislação adequada Redundar em perda de vendas Assustar consumidores Custos elevados Custos do processo excedem benefícios por falta de legislação adequada Redundar em perda de vendas Custos elevados Mensagem não atingir consumidores Assustar consumidores Prejudicar relacionamento com canal 8 Estratégia de marketing proativa Chaudhry, P.E. e M.G. Walsh Segurança high tech – hologramas e palavras escondidas nas etiquetas Jacobs, L., A. C. Samli e T. Jedlik Marketing proativo melhor solução que Custos elevados Complexidade elevada do marketing Reproduzidos pelos piratas Complexo para implementar Estratégia de comunicação Estratégia legal Estratégia junto ao governo outras são muito caras e menos eficazes Adaptado de Jacobs et al. (2001) O quadro anterior mostra que, quem chegou a propor estratégias contra a pirataria, o fez dentro das lógicas inerentes às diversas teorias em estratégia já mencionadas e limitada à ação individual das empresas, que como observamos enfrentam dificuldades em lidar com esse tipo de contingência. PRÁTICA ESTRATÉGICA CONTRA A PIRATARIA A fim de comparar as recomendações das teorias de estratégia e o desempenho das empresas na luta contra a pirataria, foi feita uma pesquisa com base em dados secundários, a partir de um levantamento de artigos sobre o tema. Foi pesquisado o jornal “Folha de São Paulo”, diário de maior circulação no Brasil atualmente, durante o período entre início de 2003 e abril de 2004. O objetivo desse levantamento não é quantitativo, apesar de terem sido recolhidos artigos durante um período relativamente extenso. A idéia era obter informações de práticas distintas de diferentes empresas e instituições, de áreas diversas da economia, que pudessem dar uma indicação daquilo que tem sido feito na disputa contra negócios piratas, além da identificação dos distintos participantes. Os resultados são apenas indicativos das práticas correntes, já que não é possível identificar toda a formulação e realização estratégica a partir dos eventos levantados, pois os artigos jornalísticos não esgotam tudo que é praticado em cada caso. A exploração das práticas empresariais em profundidade poderá ser o tema de futura pesquisa. O levantamento foi conseguido utilizando-se o mecanismo de busca oferecido pelo jornal dos seguintes termos: pirataria – contrafação – maquiados. Para esse pedido obtivemos 424 artigos que incluiram estes termos e suas variações, em 2003, e 101, até abril 2004. Destes, 111 artigos diziam respeito ao tema, sendo que aí foram contados 129 eventos, já que em um mesmo artigo pode haver menção a mais de uma ação ou a uma ação referente a distintos produtos. Os demais artigos encontrados, ou não diziam respeito ao tema da pirataria de produtos, ou referiam-se a algum evento tratado em artigo anterior, sendo portanto uma repetição. A partir dos artigos listados foi elaborada uma tabela, como no exemplo abaixo: TÍTULO-AUTOR da FOLHA DE S. PAULO 31/12/2003 Próxima jogada D. Assis e A. Matias Ilustrada p.E1 TIPO de PIRATARIA DESCRITO Na esteira da febre dos games...O jogo Half Life 2 teve seu códigofonte disponibilizado na internet antes do lançamento. PRÁTICA EMPRESARIAL ou DELEGADA A contrapartida foi diferente do esperado: embora o lançamento do jogo tenha sido adiado, a empresa que criou o jogo permitiu que os jogadores fizessem modificações, que poderão ser vistas na versão final. A tabela é composta por três colunas: na 1ª, constam data do artigo, seu título, autores, quando é o caso, e localização no jornal; na 2ª, o tipo de ação da Pirataria de que trata o artigo; enquanto na 3ª coluna, buscou-se extrair o tipo de resposta ou estratégia empresarial adotada em função da ameaça, ou a ação delegada a um outro ator externo à empresa para lidar com o caso. É a partir do resumo das práticas descritas nesta última coluna que este trabalho pretende contrastar com as recomendações dos modelos teóricos. 9 São citados nesta seleção de artigos os seguintes tipos de Pirataria: download de música pela internet (6); reprodução de CDs de música e de DVDs (47); captação não-autorizada de sinal de TV por assinatura (2); reprodução de camisas de clubes e objetos de grife (9); refrigerantes e cervejas (1); produtos de limpeza (1); cigarros (10); remédios e transgenes (8); softwares (7); livros (3); combustíveis (5); games, brinquedos e cards (10); logotipos (1), além de casos não especificados (19). São citadas as seguintes práticas delegadas: Ação das Forças Armadas nas fronteiras (1); Ação decidida por Tribunais, que pode ser proposta também por uma empresa, porém não é considerada instrumento de ação estratégica (8, sendo 4 somente da RIAA2), busca reprimir pontualmente os infratores; Apreensão, destruição de produtos e fechamento de fábricas e pontos de venda pela Polícia (19, envolvendo normalmente várias classes de produto ao mesmo tempo) cita regularmente números elevados e, ao mesmo tempo, casos de corrupção policial e judicial; Instituições muitas vezes criadas exclusivamente para acompanhar e influir no controle da pirataria junto às instâncias governamentais, como a Abes, ABPD, BSA, ABDR, Etco, Apdif, IFPI, Assespro2 (13, envolvendo em muitos casos diferentes produtos a um só tempo); Ações do Governo em suas distintas instâncias, exceto a Polícia, o Judiciário e as Forças Armadas, tratadas em separado (16), envolvem reclamações de organismos estrangeiros quanto à alegada leniência do governo brasileiro, falta de uma Lei de Patentes, ação mais rápida do Inpi, etc. e ações específicas para lidar com a pirataria, como legislação e medidas de controle; Ações propostas por órgãos internacionais (3); e, Ações promovidas por Associações empresariais (6), que tratam sobretudo de intenções para o combate à pirataria; finalmente, são citadas ações que não são especificadas nos artigos (32). São citadas as seguintes práticas empresariais propriamente ditas: Ações de marketing, relacionadas à definição das características do produto final, ao preço e sua distância percebida pelos consumidores em relação aos concorrentes ilegais, à divulgação alternativa, a novos lançamentos buscando evadir a concorrência ilegal, à diversificação de receitas, a ações visando esclarecer o mercado quanto aos prejuízos causados pela pirataria (20). Ações operacionais, relacionadas à fabricação e introdução de dispositivos anti-pirataria, apresentações alternativas dos produtos e determinação da qualidade do produto (8). E, alianças entre empresas (2). Estas ações ou práticas empresariais mencionadas pelo noticiário podem envolver seja planejamento (5), seja ação aplicada (implementação de planos) (25). Uma consequência da anterior é a ação empresarial que envolve medidas que visam atacar diretamente (13) a ação pirata (ou seja, são especificamente voltadas para isso) ou que podem indiretamente servir nesse sentido (12), como por exemplo a estratégia de lançamento simultâneo de um filme em 65 países, que também ajuda a reduzir a distribuição pirata antes do lançamento do mesmo. Apesar de que não é possível nesta análise considerar a significância dos números envolvidos, a simples diferença de eventos, num período extenso, entre ações delegadas (67) e empresariais (30) já é um forte indicador de que as principais ações contra os concorrentes ilegais não são assumidas pelas empresas. Se além disso, considerarmos no levantamento acima que apenas uma parte refere-se a ações diretamente dirigidas contra esse tipo de concorrente, veremos que essa hipótese praticamente se confirma. Por sua vez, as ações diretas buscam alternativas, e não, confrontar o produto pirata em seu próprio jogo de preço e distribuição. Um exemplo é a venda de fonogramas individuais através de lojas virtuais, o que cria um novo canal e evita uma ação de confronto. As matérias jornalísticas praticamente não citam as empresas especificamente prejudicadas; os briefings são assumidos sobretudo pelas associações e, principalmente, pelas instituições especialmente criadas para o combate à pirataria, o que parece sugerir falta de desejo de enfrentar um possível desgaste ou deixar claro ao público que existem similares ilegais disponíveis. 10 Também, é possível retirar, de forma marginal a partir dos textos, os demais atores que tornam possível a existência dos negócios ilegais no dia-a-dia. Assim, são mencionados os camelôs que fazem a distribuição de muitos dos produtos e a 'máfia' por trás dos mesmos; delegados e policiais suspeitos de acobertarem contrabandistas; fabricantes ilegais no país e no exterior; lojas em shoppings e galerias; legisladores e CPIs; dentre outros. O grande número de envolvidos nesses mercados e que dele dependem para sua sobrevivência sugere que a solução da pirataria não pode basear-se apenas em ações inibitórias e que, quanto mais o tempo passa sem progressos, mais difícil vai se tornando alterar o quadro em que o problema se insere. Algumas das dificuldades, anteriormente levantadas, para as teorias em estratégia lidarem com a influência heterodoxa implicada pela pirataria, também são mencionadas nos artigos examinados - o problema da distância de preços entre produtos legais e ilegais. Da mesma forma, a percepção de que é impossível rivalizar com a estrutura de custos do fabricante pirata também aparece nos depoimentos mencionados pelos artigos. Foram igualmente encontrados exemplos de diferenciação que busca fugir da concorrência centrada no produto, mas que nos exemplos pesquisados não são eficientes, por não conseguirem reduzir as vendas do produto pirata em benefício do legal. E, foi possível ainda encontrar a prática de organização de alianças cooperativas entre as empresas, sob o formato de diferentes associações, como forma de focalizar e concentrar esforços na luta contra essa influência devastadora. COMO ESTRATÉGIAS EMPRESARIAIS PODERIAM INCORPORAR AS NOVAS INFLUÊNCIAS ‘HETERO-RACIONAIS’ Nesta parte do trabalho iremos examinar os resultados obtidos na seção anterior, que indicam como as empresas tendem a reagir a ações de Pirataria e seus resultados, para compará-las com as indicações das Teorias em Estratégia. Repetidas declarações de empresas prejudicadas pela ação da Pirataria, ou de associações que congregam essas empresas, dão uma indicação do porte da contrafação no Brasil e outros países, e da dificuldade de combatê-la. Concomitantemente, é possível perceber que há um grande número de alternativas sendo buscadas pelos diferentes atores que lutam contra a Pirataria, seja as empresas, as associações, governos, judiciário e outros. Entretanto, até aqui não há uma prática claramente recomendada para combatê-la, até porque os resultados obtidos não têm indicado decréscimo da ação ilegal. As soluções que as empresas desenvolveram por conta própria, citadas acima (ações de marketing, operacionais e alianças com outras empresas), para enfrentar seus problemas com a Pirataria, como por exemplo a Sony, envolveram uma visão estratégica de tratamento racional da questão (variáveis Ia-IIa-IIIa), em contraste com a hetero-racionalidade da ação pirata. No caso específico da Sony, a opção tecnológica foi abandonada pois sua adoção significaria um custo adicional à estrutura da empresa, tornando a disputa com o produto pirata ainda mais desigual e menos viável. Essas ações evitaram basicamente a confrontação com o produto pirateado. No caso de recursos ao Judiciário, Polícia ou outras instâncias governamentais, foram encontrados conceitos de ações estratégicas (Ia-IIb-IIIb) onde as empresas compreenderam que é preciso contar com parceiros para resolver ou encaminhar algumas das ameaças ambientais enfrentadas. Assim, recorrer ao Governo ou associar-se a outras empresas que têm o mesmo objetivo pode ser uma medida interessante que, no entanto, não têm o poder em si de enfrentar todos os fatores que reproduzem a pirataria. Em resumo, pudemos observar que tanto o tratamento sugerido pelas teorias em estratégia quanto as ações empreendidas, no levantamento apresentado, diretamente voltadas contra os fabricantes piratas evitaram as ferramentas de competição, como preço, divulgação e distribuição em condições de concorrência mais direta com estes, ainda que de forma restrita e temporária. 11 Além de tudo o mais, a análise estratégica das empresas afetadas não tem levado em consideração vários dos atores participantes do comércio pirata, porque estes não se encaixam dentro dos modelos tradicionais, por não se constituirem em concorrentes ou distribuidores 'tradicionais', sendo assim deixados de fora da análise. Sabe-se no entanto que esses atores (camelôs, fabricantes ilegais, shoppings populares, etc.) constituem a espinha dorsal da contrafação. Um enfoque que privilegiasse esses elementos deveria envolver: (I) a fiscalização e a repressão por meio do fechamento de fábricas, de lojas e galerias de venda, da apreensão de produtos o que, como é possível imaginar, a estrutura existente de repressão pública não consegue dar conta. Trata-se de um grande número de fabricantes, intermediários, vendedores e ambulantes em busca de rendimentos. Ações repressivas constituem-se em respostas estratégicas que não são da iniciativa das empresas que sofrem a concorrência desleal, mas são desenvolvidas por organizações externas àquelas, e que seguem suas próprias orientações estratégicas, prioridades e timing. Faz-se então necessário aqui trabalhar em conjunto com estas, suprindo necessidades de informação, capital, pessoal especializado, esforços de esclarecimento, treinamento, motivação pelas empresas para dar apoio ao trabalho das organizações delegadas; (II) lobby junto aos legisladores e governantes visando reduzir tributos de limitada eficácia, como se pode entender, de um lado, devido à necessidade cada vez maior do Estado em se financiar e, de outro, pois uma possível redução tributária não seria capaz de reduzir a distância entre os preços praticados pelos piratas e os produtores legais. Mais uma vez, nesse caso, as empresas que sofrem com a contrafação recorrem a atores que são externos a elas, com suas agendas de prioridades particulares; (III) campanha publicitária, alertando os consumidores para produtos piratas e a ameaça de punições; (IV) desenvolvimento de instrumentos mais poderosos que os atuais de legitimação de esforços anti-pirataria, associados à criação de oportunidades alternativas para a ocupação da população que hoje depende economicamente desse trabalho. Como vemos, pelo exame anterior das práticas que vêm sendo adotadas no combate à pirataria, para uma ação mais efetiva seria preciso dar igual e concomitante tratamento aos fabricantes piratas, à fiscalização leniente, à corrupção, a intermediários, colaboradores e legisladores, além de aperfeiçoar os problemas da ação estratégica tal como ela é hoje desenvolvida. Pois eles constituem parte integrante da cadeia que movimenta esse setor ilegal. Fazê-lo significa reconhecer os mais distintos interesses envolvidos na questão, que muitas vezes não coincidirão com os objetivos perseguidos pelo combate à pirataria. Como, por exemplo, uma política deliberada de governo, porém não-formalizada, de permitir atividades informais como substitutivo à falta de políticas de emprego. Identificamos a partir dessa análise um modelo de atuação que se proponha a examinar um quadro ambiental bastante complexo, em seus diferentes aspectos incluindo o econômico, o tecnológico, mas também o político, o cultural e o social, e que reconheça a necessidade das empresas e suas associações trabalharem em parceria (restrita no tempo) com instituições da sociedade na resolução dos diferentes problemas que envolvem a fabricação pirata, sobretudo as distintas instâncias e organizações governamentais, o que pressupõe intercâmbios de distintos recursos e ações conjuntas. Nesta perspectiva, as empresas adotariam uma estratégia de confronto direto contra seus replicadores ilegais de forma limitada (produtos específicos) e temporária. Ao mesmo tempo, ações seriam desenvolvidas em conjunto com entidades parceiras visando desarmar as demais condições estruturais que alimentam a contrafação. CONCLUSÕES O caso da concorrência desleal é um caso que foge da circunstância de análise típica da estratégia empresarial, porque a situação é mais complexa que uma análise competitiva tradicional. No caso em questão o produto concorre com ‘ele próprio’. O consumidor não é 12 alertado pela empresa formal para o produto pirata, por receio de perda maior de vendas, mas por outro lado o consumidor não é informado das diferenças de qualidade, desempenho, sabor, etc. de um produto para outro. Uma política de preços mais flexível poderia em alguns casos reduzir o volume da contrafação, com a contrapartida de aumento da quantidade vendida. Aproximação de preços, pelo menos para os títulos e modelos mais visados, a veiculação das possíveis diferenças de desempenho, de rentabilidade, de durabilidade e outras características de qualidade que um produto contrafeito deixasse de apresentar, a promoção de serviços complementares ao usuário-consumidor no pós-venda, que pudessem atrair por seu apelo, são algumas ações que via-de-regra não são experimentadas. Ora, além das políticas de ações próprias que uma empresa pode adotar, há nesse caso necessidade de agir também em outras áreas ― (a) em conjunto com as autoridades encarregadas da repressão apontando fabricantes e distribuidores ilegais, sem delegar a terceiros esse acompanhamento; (b) pressão junto aos órgãos competentes por uma fiscalização mais atuante (tributos, vigilância sanitária, licenças, etc.); (c) desenvolver legitimidade contra a pirataria, que permita implementar uma política de redistribuição da ocupação informal em outras atividades. Ou seja, não é possível imaginar a supressão da Pirataria sem esboçar políticas públicas alternativas de emprego e trabalho para o exército de sub-empregados que participam desses negócios. São essas algumas áreas importantes de atuação que escapam do ambiente tradicional de intervenção das organizações. Assim, a estratégia empresarial deve abandonar os modelos que partem do pressuposto da auto-suficiência, do esforço isolado e do planejamento apriorístico, para adotar uma opção por parcerias específicas, que se encontram nesse caso fora de seu meio-ambiente tecno-econômico, mas que dividem com esta um interesse comum. Um modelo de atuação como esse não seria facilmente classificado pelos três eixos da classificação teórica – Desempenho, Processos e Ambiente – pois buscaria um planejamento racional, porém consciente de ingerências 'hetero-racionais' na ação empresarial, como no caso a política e a ação ilegal. Sobretudo, teria consciência dessas influências como algo a respeito do que as políticas empresariais podem agir somente com limitada eficiência. 1 Whittington não desenvolveu três eixos como aqui, porém o eixo do Desempenho é semelhante a seu ‘Resultados’, ainda que ele tenha tomado como oposto à ‘maximização dos lucros’, resultados ‘plurais’ (de diferentes tipos de racionalidade). Ele utiliza o eixo ‘Processos’ para indicar sua origem, se deliberada (de cima para baixo) ou emergente (de baixo para cima). 2 ABCF: Associação Brasileira de Combate à Falsificação; ABDR: Associação Brasileira de Direitos Reprográficos; Abes: Associação Brasileira de Empresas de Software; ABPD: Associação Brasileira de Produtores de Disco; ABTA: Associação Brasileira de Televisão por Assinatura; Apdif: Associação Protetora dos Direitos Autorais Fonográficos; Assespro: Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação, Software e Internet; BSA: Business Software Alliance; Etco: Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial; IFPI: Federação Internacional da Indústria Fonográfica; MPAA: Associação de Cinema dos Estados Unidos Riaa: Recording Industry Association of America. 13 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Achrol, R. S. e P. Kotler. 2000 “O Marketing na Economia de Rede” Revista da ESPM (encarte), agosto Anderson, J. C. e J. A. 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