O DIAPASÃO CATEQUÉTICO E O MÉTODO DE ENSINO DE FILOSOFIA
NAS ESCOLAS PÚBLICAS DE SERGIPE NO SÉCULO XIX
Marcus Éverson Santos
[email protected]
Prof.Dr. Jorge Carvalho Nascimento
Universidade Federal de Sergipe
Eixo temático: Práticas escolares.
Palavras-chave: História, catequese, ensino, filosofia, método.
1 – Introdução e justificativa
O presente trabalho pretende mostrar os primeiros passos para o projeto de
pesquisa sobre a influência da Ratio Studiorum nos métodos de ensino de filosofia das
escolas secundárias de Sergipe durante o século XIX. Inicialmente tratamos apenas de
comentar o material historiográfico encontrado até o momento, indicar a metodologia da
pesquisa e muito brevemente o referencial teórico que pretendemos usar no tratamento
das fontes e no trabalho de escrita histórica.
O interesse da pesquisa surgiu a partir das indicações deixadas por várias fontes
historiográficas dentre elas destacamos o livro Os Estudos Filosóficos em Sergipe de
Jackson da Silva Lima e O Ensino Público em Aracaju de José Calazans. O primeiro
busca enfocar os estudos filosóficos tendo como ponto de partida alguns nomes dos
estudos
filosóficos
pouco
conhecidos,
dentre
os
que
ficaram
consagrados
nacionalmente. Desse modo, Lima investe em apresentar tais personagens recorrendo ao
estudo de fontes como: teses, monografias e ensaios publicados em periódicos, jornais e
revistas especializadas. Para entender a estrutura do funcionamento de ensino das
primeiras cadeiras de filosofia, Lima fez uso de extensa documentação principalmente
centrada nos regulamentos e regimentos oficiais da época.
Um dos grandes méritos do estudo feito por Lima, além da extensa e quase
exaustiva pesquisa em fontes primárias de referência que nos lega soma-se o fato de ter
sido um dos primeiros pesquisadores a periodizar os estudos filosóficos em Sergipe
dividindo-os em três fases: Inicial ou preparatória de 18311 até 18702; a fase de
1
estruturação ou autonômica de 18713 a 19324; e por fim, a fase contemporânea que se
estende dessa última data até nossos dias.
Na documentação estudada por Lima no século XIX, tanto a instrução pública
quanto a privada estavam submetidas aos ditames dos regulamentos e regimentos que
determinavam o método de ensino e o modelo de escola para as províncias. Aos
professores e diretores de escolas eram imputadas regras de conduta e doutrinárias que
impediam a execução livre e desinteressada de seu trabalho em sala de aula. Nenhuma
escola recebia da administração pública licença para funcionar se sua estrutura política e
pedagógica não estivesse coadunada com as recomendações do pensamento católico
dominante (LIMA, 1995).
O estudo de Lima indica-nos ainda que os regulamentos para o ensino deveriam
garantir um método que estivesse de acordo com as regras da Ratio Studiorum (Plano de
Estudos). Esse plano de estudos aprovado por volta do século XVI, sintetizava uma
experiência pedagógica criada pelos jesuítas com intuito de regular os cursos,
programas, métodos e disciplinas das escolas da Companhia de Jesus. Entretanto,
segundo Lima, as cadeiras de filosofia em Sergipe - em sua fase inicial de fundação foram marcadas por enorme desarticulação com freqüentes mudanças de professores e
evasões. A exceção da 4ª cadeira5 - que existiu na província de São Cristóvão - que
durou dez anos até sua extinção em 1855.
Já o artigo de José Calazans6 sobre o ensino público em Aracaju, tido como um
dos estudos mais importantes da historiografia sobre a educação em Sergipe, chama-nos
a atenção a seguinte divisão histórica: o primeiro período que ocorreu entre os anos
1830 a 1855, o segundo de 1855 a 1871 e o terceiro segue até o ano de 1935 onde se
tem início a fase contemporânea com a passagem de Manuel Franco Freire pelo
departamento de educação.
Calazans realiza essa periodização tomando como referência alguns fatos que
marcaram tanto a história da educação quanto a formação política e social de Aracaju.
Dentre esses fatos, pretendemos nos ocupar especialmente com os que se referem à
formação das primeiras cadeiras de filosofia e de suas precárias condições em Sergipe.
Pedro Calazans informa que durante muito tempo o Estado viveu dolorosa crise
financeira7 faltava papel, livro e até assentos para os alunos. Juntavam-se aos montes os
pacotes com solicitações de material feitas pelo regente da cadeira, quase sempre não
atendidas. 8
2
Sobre o descompasso entre a educação oferecida e a estrutura sócio-econômica
da Província cabe lembrar o que nos diz Thetis Nunes9 em seu livro A História da
Educação em Sergipe ao afirmar ser por conta das condições econômicas da província e
dos alunos que o ensino das primeiras cadeiras de filosofia foram insipientes. Os alunos
que cursaram as primeiras cadeiras pertenciam em sua maioria a classe economicamente
desfavorecida da sociedade sergipana na época. Segundo ela esse teria sido um dos
principais fatores para o conturbado momento histórico da educação sergipana: as
condições materiais do ensino público em Sergipe.
A historiadora Maria Thetis Nunes em seu livro a História da Educação em
Sergipe chama-nos atenção para o fato de que10 a história da educação – enquanto ramo
de pesquisa - não pode ser vista como um fenômeno completamente dissociado das
vicissitudes políticas, sociais e econômicas vigentes em uma época (NUNES, 1984) A
obra de Thetis Nunes, seguiu muitas das indicações historiográficas deixadas por
Calasans e constitui atualmente também uma importante fonte de conhecimentos sobre
o ensino de filosofia no ensino secundário principalmente pelas indicações documentais
e estatísticas que apresenta.
Já no livro (relatório) de José Antonio Nunes Mendonça sob o título A educação
em Sergipe11 apresentado ao Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais sobre a
educação e o sistema escolar, lemos algo parecido quando diz: “Iniciamos o nosso
relatório por exposição dos aspectos geo-econômicos e sócio-culturais do Estado,
porque não se pode compreender um sistema escolar senão à luz da estrutura social
que o condiciona e a que serve”.
Para entender melhor as contribuições de cada uma dessas fontes
historiográficas o projeto deverá examinar as documentações propostas por cada uma
dessas fontes historiográficas para delinearmos as condições históricas do ensino púbico
de filosofia em Sergipe. Cada uma dessas fontes historiográficas aqui indicadas são
tidas como as mais importantes para o conhecimento da história da educação em
Sergipe. Entretanto, embora indiquem conclusões semelhantes em muitos momentos
aqui não analisados, tais obras foram escritas a partir de metodologias diferenciadas na
escolha e interpretação das fontes.
Ora, se por um lado, a educação pode ser considerada como um dos principais
veículos de inculcação social e se, por outro, não podemos compreendê-la sem os
condicionamentos que a sociedade a impõe, justifica-se investigar a influência cultural
social, cultural, política e filosófica empreendida pelo pensamento cristão na sociedade
3
sergipana no período em questão. Certamente, por trás dos traços ideológicos mais
marcantes de nossa cultura estarão presentes também aqueles que nos legou a presença
dos jesuítas no Brasil.
Acreditamos que a historiográfica sobre a formação da inteligência filosófica
brasileira não pode ser entendida a contento sem que possamos, antes disso, falar da
presença marcante dos colégios da Companhia de Jesus e da forte presença do
pensamento cristão no Brasil. De início, tal comentário nos leva a seguinte assertiva: o
pensamento cristão deixou marcas indeléveis em nossa cultura, dentre outras coisas, tais
marcas moldaram o caráter dos métodos de ensino que formaram uma parte
significativa da elite intelectual nacional.
Quando chegaram ao Brasil, os jesuítas12 obedeciam às orientações do Concílio
de Trento e da obra de Tomás de Aquino sobre a “unidade do corpo” significando dizer
que, só a partir da integração harmônica de seus membros é que se poderia pensar uma
base ou concepção de sociedade. Os jesuítas, na parte temporal de sua prédica,
buscavam apontar para a questão da ‘subordinação de todos os estamentos sociais ao
bem comum’13 (WEFFORT, 2006.).
No espaço de tempo que compreende os séculos XVI e XVII, jesuítas da
Companhia de Jesus como o padre Manoel da Nóbrega e Antonio Vieira,
respectivamente, foram os que maior influencia tiveram na cultura brasileira como
conquistadores de almas e ou articuladores das aldeias, igrejas e colégios que ajudaram
a criar sob os auspícios da Ratio Studiorum articulando o discurso entre a metrópole e
colônia.
Em contrapartida, por volta do século XVIII, a Ilustração chega a Portugal pelas
mãos do Marquês de Pombal. O cosmopolitismo e o iluminismo do marquês
estenderam-se para além de Portugal chegando a América portuguesa de tal modo que,
em inícios do século XIX ainda podem ser percebidas nas idéias, segundo Weffort, do
pensamento político de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), bem como nas
iniciativas de Rodrigo de Souza Coutinho (1745-1812), chefe do governo de D.João VI.
As convicções acerca das ‘concepções centralistas’ que permaneceram ao longo
do período imperial no Brasil e o sentimento de busca cientificista que marcaram essa
época até o início do período republicano também estarão presentes na história da
inteligência luso-brasileira. (WEFFORT, 2006.)
Entretanto, há quem acuse que teria sido justamente a presença dos jesuítas no
Brasil que fez com que a filosofia no país não passasse de notas de rodapé aos grandes
4
sistemas filosóficos vindos da Europa (COSTA, 1945). Cruz Costa em seu livro A
filosofia no Brasil, tornou-se fiel depositário desse tipo de acusação. Segundo ele, a
tendência por simplesmente comentar os sistemas europeus esteve presente nas obras de
grandes nomes da história da filosofia no Brasil, dentre eles, cita: Mont’Alverne,
Gonçalves de Magalhães, Visconte do Araguaia, Tobias Barreto, Silvio Romero e
Farias Brito. Á partir disso, segundo Costa, a submissão do método de ensino de
filosofia aos jesuítas presentes no Brasil justificaria de certo modo o porquê da
formação filosófica jamais ter atingido um nível compatível com o que se fez na
Europa. Sobre esse assunto, diz-nos ferinamente Cruz Costa:
O vago e tênue espírito filosófico português gravitou sempre ao redor dos
problemas patrísticos e dos comentários teológicos. Havia assim de nos
transmitir a passividade de espírito que tais comentários exigem. Apenas a
curiosidade de alguns espíritos, revoltados contra o despotismo da igreja, é
14
que nos viria abrir novos horizontes .
Destarte, muitos dos estudos historiográficos que tratam sobre a transplantação
do pensamento europeu e de seu suposto distanciamento com relação às vicissitudes da
vida brasileira tiveram que lidar com esse debate sobre a real presença da filosofia no
Brasil e dos métodos de ensino filosófico nas escolas. Nesse debate, criaram-se os que
defendem a presença marcante de personalidades tidas como autênticos representantes
da filosofia brasileira, e do outro estão os que não acreditam que a filosofa aqui tenha
aportado.
Frente à credibilidade das afirmações ao que parece equivocadas de Cruz Costa
sobre o estado de passividade de espírito da inteligência brasileira diante do domínio
português, coloca-se a tese de Luiz Alberto Cerqueira que em seu livro Filosofia
Brasileira – ontogênese da consciência de si indica-nos a presença de um autêntico
pensamento brasileiro com nascedouro por volta do século XVII. Para Cerqueira, a
filosofia, enquanto expressão da liberdade de reflexão só apareceu no Brasil a partir do
momento em que o pensamento entrou em contato com a expressão da filosofia
moderna de Descarte. Ainda segundo Cerqueira, esse contato levou a supressão do
aristotelismo português oficial na figura de Tomás de Aquino. Tal supressão se
verificaria a partir das reformas pombalinas, tornando-se o ponto de partida para uma
filosofia da consciência de si em contraposição a presença de princípios teológicometafísicos. (CERQUEIRA, 2002). Ao examinar esse paralelo entre o Cogito cartesiano
e o princípio da conversão jesuítica, ambos buscando estabelecer a anterioridade da
5
alma como um princípio para o conhecimento, o estudo de Cerqueira e as críticas feitas
por Cruz Costa nos oferece um breve quadro do debate sobre os estudos e o ensino
filosófico no Brasil sobre os quais não pretendemos nos alongar.
O que nos interessa destacar para o momento é que, a presença do pensamento
católico transplantado de Portugal para o Brasil - mesmo estando já enfraquecida nos
séculos XVII e XVIII com a expulsão dos jesuítas feita pelo o Marques de Pombal continuou a influenciar através de decretos e regulamentos o currículo e os métodos
práticos de ensino na história do ensino no Brasil e em particular em Sergipe (LIMA,
1995).
Antonio Villaça em seu livro O pensamento católico no Brasil nos chama
atenção ainda para o fato de que, por volta do final do século XIX, o pensamento cristão
particularmente na figura de Dom Vital passou por uma forte reação diante do
enfraquecimento promovido por Pombal. A partir desta reação, a igreja pretendia reaver
a influência perdida na sociedade brasileira. Sobre a figura de Dom Vital diz-nos
Villaça:
“É a primeira afirmação antipombalina – católica – da história espiritual do
Brasil." Nunca antes o catolicismo reivindicaria um lugar ao sol, uma
situação definida na paisagem brasileira. Nesse sentido, Dom Vital é o antiMonte Alverne, é o primeiro esforço para uma volta àquela unidade
ideológica anterior à ruptura pombalina. Dom Vital encarna a negação do
ecletismo, do espírito de indefinição. (VILLAÇA, 2006, p.10)
Deixando para avaliar a veracidade das fontes que levaram Villaça a fazer tal
afirmação sobre o movimento de reação católica no Brasil para outro momento, tal
indicação poderá nos servir a posteriori como uma referência importante para
entendermos melhor a forte influência do pensamento católico e de seus métodos de
ensino nas cadeiras escolares do século XIX.
Voltando ao contexto dos estudos e em particular do ensino filosófico em
Sergipe, de acordo com a periodização feita por Lima, o primeiro momento da história
dos estudos de filosofia é tido como espiritualista15. Ao longo dessa fase teria sido
completamente nula a participação do sergipano nas bibliografias divulgadas nesse
período sobre o tema. Isso se deve a determinados acontecimentos históricos que não
pretendemos explicitar no momento.
Em Sergipe, desde que o governo imperial delegou competência às províncias
para criar cadeiras preparatórias até a data de criação do Regulamento Orgânico da
Instrução Pública da Província em 24 de outubro de 187016 pelo menos oito cadeiras de
6
ensino de filosofia se sucederam ao longo do período proposto para nossa pesquisa. As
primeiras cadeiras ocorreram especialmente nas províncias de Laranjeiras, Estância e na
então capital do Estado, São Cristóvão.
A primeira cadeira de ensino de filosofia foi criada na província de São
Cristóvão através do decreto imperial de 11 de novembro de 1831, em que o presidente
era o Dr. Joaquim José Marcelino. A segunda cadeira foi criada em 1835 em Estância,
criada pela Carta de Lei de 5 de março de 1835. A terceira foi criada em 1840,
novamente em São Cristóvão, através da Lei 46, de março de 1840. A quarta cadeira foi
criada também em São Cristóvão e fora instituída pela Lei 139, de 10 de fevereiro de
1845. Em 1854, através da resolução 389, de 21 de Junho de 1854 em Estância foi
criada a quinta cadeira. Já a resolução 389, de 21 de Junho de 1854, criou a sexta
cadeira. Em 1862, foi criada a sétima cadeira integrando o currículo do Liceu
Sergipano, cujo regimento foi aprovado por ato do Presidente da Província, de 6 de
outubro de 1862. E por fim, em 1866 novamente em São Cristóvão, foi criada a oitava
cadeira através da resolução 764, de 17 de março (LIMA, 1995). Todavia, é importante
destacar que mesmo com a mudança da capital para Aracaju em 1855, a presença de
escolas e cadeiras de ensino filosófico em Sergipe continuaram escassas.
Como já foi dito anteriormente, o ensino secundário e as primeiras cadeiras de
filosofia passaram por diversos problemas dentre os quais estão o baixo aproveitamento
dos alunos e as desistências. Segue-se que dentre as cadeiras, a 4ª nos chama atenção
por duas razões: primeiro por ter sido a que mais tempo durou (dez anos) funcionando
com regularidade entre os anos de 1847 até 1854 e segundo por ter justamente sob o seu
comando o Padre José Gonçalves Barroso. (LIMA, 1995).
De acordo com o Dicionário Bio-bibliográfico de Armindo Guaraná, o Padre
José Gonçalves Barroso17 nasceu na então Vila de Laranjeiras a 21 de Março de 1821 e
faleceu na cidade de São Cristóvão a 17 de Setembro de 1882. Logo após a sua
ordenação como padre tornou-se lente de Filosofia Racional e Moral em 1845, e os
cargos de secretário e lente de filosofia em 1846 no Liceu de São Cristóvão, de que foi
diretor também por nomeação feita pelo presidente Joaquim José Teixeira. Defensor dos
direitos da metrópole sergipana foi filiado ao partido liberal. Um dos seus grandes
méritos foi ter sido um grande orador, destacando-se na ‘tribuna sagrada’ o que levou a
ficar conhecido na província como sucessor de Frei José de Santa Cecília. Entre os anos
de 1866 e 1867, o pregador provinciano retornou ao magistério e prestou-se a dar aulas
7
de Latim e Filosofia no ‘Colégio Santo Antonio’. Por ato de 26 de Outubro de 1870,
tornou-se ainda inspetor paroquial da instrução pública de São Cristóvão.
O destaque que aqui damos a figura do Padre José Gonçalves Barroso ocorre por
duas razões pontuais: primeiro por ele ter sido professor de filosofia de uma das
cadeiras mais duradouras no período que nos propomos a estudar, segundo pelos cargos
públicos importantes que ocupou como lente, secretário e instrutor público de São
Cristóvão. Daí que, por essas razões - que parecem de início não servir para nada segue-se a importância de seus discursos, de seus diários, aulas inaugurais, possíveis
manuais utilizados em sala como fonte importante de pesquisa no sentido de entender a
prática de ensino de filosofia.
Sabemos, por exemplo, a partir das indicações de Pedro Calazans e Armindo
Guaraná, que Barroso tornou-se uma importante voz em defesa do pensamento católico
liberal da época. Tal indicação também poderá nos ajudar a entender, sobretudo, a
influência filosófica do Padre e da 4ª cadeira de Filosofia que comandou. Ao que
parece, as cadeiras de Filosofia, quando ocupadas por padres, não podiam abandonar as
prerrogativas impostas pelas autoridades a quem estavam subordinadas.
2 – O manual de ensino enquanto fonte de análise histórica
Em se tratando dos manuais didáticos e de seu uso pelo professor em sala de
aula, Lima destaca que no Art. 63, da Lei nº 200, de 31 de março de 1847, que criou o
2º Liceu de São Cristóvão, existe a indicação de que competia aos professores escolher
os manuais ou compêndios de ensino os quais deveriam ser aprovados por uma
Congregação. Dentre os manuais de ensino citados na documentação examinada por
lima encontramos o Compêndio do Padre Francês Barbe: Curso elementar de filosofia –
para uso das escolas18. Segue que o Regimento Interno do Liceu Sergipano, de 6 de
outubro de 1862, estabelece no art. 92, § 10, o uso desse compêndio nas escolas (LIMA,
1992). Por essas indicações, entendemos que o compêndio também pode se tornar fonte
de análise para entendermos a prática pedagógica do professor.
Para ilustrar melhor isso, vejamos a seguir a recomendação enviada e aprovada
pelo vigário geral Jacquemet sobre o uso do Compêndio de Barbe nas escolas:
Visto o relatório que nos foi presente, aprovamos a obra intitulada: Curso
elementar de filosofia para uso das casas de educação, compreendendo a
história da filosofia (pelo Rdo. Pe.E.Barbe, professor de filosofia) e
8
pertencente à biblioteca filosófica de que são editores os snrs. Jacques
Lecoffre et Cie. Este livro, escrito com método e clareza, apresenta sobre as
diversas partes da filosofia noções exatas e precisas. O autor, sem sair dos
justos limites, avaliou com discernimento os vários sistemas filosóficos, e em
ocasião oportuna fez ver (como cumpria a um filósofo cristão) a necessidade
de outra luz superior a da fraca razão humana. E assim julgamos poder
recomendar o presente Curso elementar de filosofia, como muito acomodado
ao fim que se intentou conseguir. Dado em Paris, sob o sinal de nosso vigário
geral, e selo de nossas armas, e a rubrica de nosso secretário, em 23 de
outubro de 1846.
Jacquemet, vigário geral.
Por ordem de S.Ex. o Sr. Arcebispo de Paris.
P.Cruice, cônego honorário e secretário da comissão.
A partir dessa declaração posta na antecapa do compêndio passamos a ter uma
prova bem clara sobre o ‘justo limite’ o qual o professor não devia afastar-se em sua
metodologia: da fé cristã.
Na advertência posta pelo tradutor no compêndio lemos ainda: “As divisões
maiores a obra, a seqüência e dedução das matérias, e o modo por que vêm expostas e
discutidas, tudo é muito próprio para tornar compreensível, para adestrar a
inteligência e ajudar a memória dos alunos, a cuja instrução especial são
destinadas19”.
Temos a partir dessa breve exposição uma clara indicação sobre a importância
dos manuais usados em sala de aula na medida em que ele pode no revelar sobre que
tipo de conteúdos e a estrutura metódica que deveria reger as aulas de Filosofia Moral e
Racional e, por fim, mostrar que diretrizes o professor estava alienado a seguir em sua
prática pedagógica.
O uso do compêndio, ao que parece, devia garantir a perpetuação das cláusulas
filosóficas que pudessem garantir que a ‘luz superior’ a da razão humana fosse o guia
no caminho do pensamento cristão, garantindo com isso o sucesso do método
catequético.
Do mesmo modo que o compêndio de Barbe recebia autorização para ser
ensinado nas escolas outros livros tiveram que ser banidos da cadeira de filosofia nas
escolas da época. Os reguladores intelectuais dos livros baniam qualquer tipo de leitura
que pudessem perverter conforme as suas regras a juventude afastando-a dos princípios
cristãos. Um exemplo disso teria sido o livro ou folheto intitulado Fonte da Verdade ou
o Caminho da Virtude. (LIMA, 1995)
9
Essa confluência entre os regulamentos (A Ratio Studiorum) e de sua influência
filosófica nos métodos de ensino além de indicar o caráter inteiramente ideológico que
subjaz a feitura e a indicação de manuais, podem servir também como base para
compreensão das diversas representações sobre o ensino de filosofia em Sergipe.
Assim, a influência filosófico-metodológica da Ratio Studiourum de suas regras
de leitura e exegese na organização da prática do professor de filosofia está calcada na
memorização como elemento superior ao raciocínio centrada na figura do professor que na sua grande maioria foram padres – configura-se como um traço importante na
formação dos métodos de ensino de filosofia a serem analisados. O ‘pragmatismo’20 do
método jesuítico, tal como diz Thetis Nunes, sabia adequar-se muito bem às vicissitudes
do meio escolar e as condições às quais o professor deveria se submeter. Sobre isso,
para finalizar essa sessão, lemos na Ratio:
Os professores de filosofia (exceto caso de gravíssima necessidade) não só
deverão ter concluído o curso de teologia senão ainda consagrado dois anos à
sua revisão, afim de que a doutrina lhes seja mais segura e mais útil à
teologia. Os que foram inclinados a novidades ou demasiado livres nas suas
opiniões, deverão, sem hesitações, ser afastados do magistério. 21
3 - A metodologia da pesquisa
O método que usaremos para desenvolver a pesquisa será o empírico, ou seja,
tomaremos a observação das fontes documentais disponíveis tais como: regulamentos
de ensino, decretos, diários escolares, programas escolares, aulas inaugurais artigos de
revistas científicas e principalmente o compêndio de ensino utilizado pelo professor
como ponto de partida para análise e interpretação histórica. Munido dessas fontes
históricas, buscaremos interpretar as práticas dos professores de filosofia do século
XIX. Dentre essas fontes o destaque dado ao compêndio de ensino possui um maior
apelo por encontrarmos nele a ordem do discurso e das regras da Ratio Studiorum, eixo
investigativo importante no entendimento das representações que se pode construir
sobre a prática de ensino.
É a partir da análise do compêndio, em conjunto com as outras fontes, que
buscaremos responder sobre a orientação de uma determinada prática no ensino de
filosofia. Entretanto, entendemos que a metodologia aqui escolhida não está livre de
injunções posteriores e que, portanto, poderão ser devidamente alteradas com o
andamento da pesquisa.
10
4 – O referencial teórico no tratamento das fontes
Diante dos paradigmas deixados pelas teorias cientificistas e marxistas no
tratamento das fontes históricas, a primeira contrapondo-se a filosofia da historia por
suas generalizações e a última atribuindo o sentido da historia às lutas entre as classes
dominantes e as dominadas, optamos por nos posicionar inicialmente sob a dimensão
interdisciplinar. O aporte teórico do nosso trabalho, pretende considerar, para melhor
compreeder o objeto, as concepções da História Nova e da História Cultural e o modo
como tais conceitos pode aplica-se à História da Educação. Entendemos que somente
tomando tal posição é que poderemos compreender melhor o nosso objeto de análise
examinando as fontes de forma mais ampla, considerando aspectos variados para uma
futura interpretação histórica.
5 – Considerações finais
Seguindo as principais fontes historiográficas da educação em Sergipe
pretendíamos com esse artigo, enquanto estudo inicial, apresentar a pertinência do tema
para um possível projeto de pesquisa.
Buscamos indicar que a partir do estudo das fontes e em especial dos
compêndios de ensino aprovados pela autoridade religiosa local para as escolas públicas
em Sergipe podemos entender melhor a prática de ensino de filosofia. Os professores
dessa disciplina, contratados por concurso ou por nomeação, deveria afinar o tom dos
debates filosóficos em sala sempre levando em conta o fato de que os vários sistemas
filosóficos – tal como conhecemos – devem remeter a uma outra ‘luz’ superior a da
‘fraca razão’ humana: a luz divina. Tudo indica que o ensino de filosofia que se fez em
Sergipe - mesmo a partir das inúmeras transformações políticas e sociais que sofreu permaneceu sendo influenciado pela metodologia medieval, tanto na escolha dos textos
ou compêndios de ensino quanto no tratamento disciplinar que os atores do processo
(professores e alunos) deveriam reproduzir.
Do mesmo modo que ocorreu no resto do país, o ensino de filosofia em Sergipe
esteve marcado pela forte presença da igreja católica com seus mosteiros, seminários e
escolas preparatórias.
11
A expressão ‘diapasão catequético’22 posto no título desse trabalho foi usada por
Jackson da Silva Lima para exprimir, por um lado, não só a presença do método
jesuítico, mas também para sintetizar de forma magistral o modo como os professores
eram mantidos nas escolas públicas quando estava diante da escolha de um método de
ensino que precisavam cumprir além da falta de estrutura das primeiras cadeiras.
Portanto, sobre a estrutura das escolas e de suas práticas nos dias atuais é
importante lembrar o que nos diz Cambi23 em seu livro a História da pedagogia ao
afirmar que, essa instituição (a escola), tal como ainda conhecemos até hoje é um
produto da Idade Média, ou seja, sua estrutura estava (e continua) ligada à presença do
professor que ensinava a muitos alunos de diversas procedências e que deve responder
pela sua atividade a igreja ou a outro poder.
A prática pedagógica desse professor tradicional estava ligada à discussão, ao
exercício, ao comentário, à argüição. Tudo isso fazia parte da práxis disciplinares
usando-se de prêmios e castigos. Registre-se que surgiu justamente nessa época a
organização monástica e universitária dos conteúdos culturais da escola moderna e
contemporânea, tanto no ensino de latim, o gramatical, o retórico quanto para a imagem
da filosofia como lógica e metafísica enquanto modelos estruturantes para os currículos
os quais devemos ainda desse período.
Referências
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Alves de Souza, professor do Liceu Nacional de Coimbra a partir da 4ª edição original.
Livraria Clássica de Nicolau A. Alves.
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Editora da UNESP, 1999 – (Encyclopaidéia).
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Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
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12
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2004.
LIMA, Jackson da Silva. Estudos filosóficos em Sergipe. – Sociedade Editorial de
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Queiroz, 1992.
MENDONÇA, José Antonio Nunes. A educação em Sergipe, Livraria Regina, Aracaju,
1958.
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Witter. Rio de Janeiro: Paz e terra. Aracaju: Secretaria de Educação e Cultura do Estado
de Sergipe: Universidade Federal de Sergipe, 1984.
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FRANCA, Leonel. O Método Pedagógico dos Jesuítas – O “Ratio Studiorum”. Pe.
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GUARANÁ, Manoel Armindo Cordeiro. Dicionário Bio-bibliográfico sergipano. Rio
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VILLAÇA, Antonio Carlos. O pensamento católico no Brasil. – Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2006.
Notas:
1
Data em que o governo imperial delegou às províncias a competência para criar cadeiras preparatórias.
Data do Regulamento Orgânico da Instrução Pública da Província de Sergipe.
3
Data da instalação do Atheneu Sergipense.
4
Data de Fundação do “Centro Dom Vital de Aracaju”.
5
Esta cadeira foi instituída pela lei nr. 139, de 10 de fevereiro de 1845.
6
Pedro Calazans. O ensino público em Aracaju de 1830 a1871. – Revista do Instituto Histórico de
Sergipe nº 20 1949-1951 vol.XV. pág.96-99.
7
Pedro Calazans. O ensino público em Aracaju de 1830 a1871. pág. 100.
8
Pedro Calazans. O ensino público em Aracaju de 1830 a1871. pág. 105
9
Maria Thetis Nunes, História da educação em Sergipe, pág. 61.
2
13
10
Críticas a parte que se possa fazer a posição dos autores referidos nesse parágrafo o estudo deixado por
Thetis e Nunes em conjunto com o estudo Calazans encontram-se entre os mais importantes da
historiografia sergipana referentes à história da educação.
11
Nunes Mendonça. A educação em Sergipe, Livraria Regina, Aracaju 1956. Pág.13-14
12
Extraído de: FRANCA, Leonel. O Método Pedagógico dos Jesuítas – O “Ratio Studiorum”. Pe. Leonel
Franca S.J Introdução e Tradução. Rio de Janeiro: Livraria AGIR Editora, 1952.
13
Weffort, Francisco C. Formação do pensamento político brasileiro: idéias e personagens. – São Paulo:
Ática, 2006. pág.91.
14
Costa, Cruz no Filosofia no Brasil 1945 pag. 79. Trata-se de um artigo intitulado: Alguns aspectos da
filosofia no Brasil primeiramente publicado na Revista Filosofia e Letras, da Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras n. 6, abril de 1938, São Paulo.
15
Estudos filosóficos em Sergipe, pág.17. O espiritualismo no Brasil representou a forte presença do
pensamento católico na formação cultural de nossas instituições.
16
Esse mesmo regulamento teria criado o Atheneu Sergipense.
17
Dicionário Bio-bibliográfico sergipano. Rio de Janeiro 1925. pág. 167-168.
18
Compêndio de Barbe – para uso das escolas. Tradução de Joaquim Alves de Souza pelo professor do
Liceu Nacional de Coimbra da 4ª edição original. Livraria Clássica de Nicolau A. Alves
19
Compêndio de Barbe – para uso das escolas. Advertência do tradutor, pág. VI.
20
Maria Thetis Nunes. Ensino secundário e sociedade brasileira, 1999, pág.27.
21
Extraído de: FRANCA, Leonel. O Método Pedagógico dos Jesuítas – O “Ratio Studiorum”. Pe. Leonel
Franca S.J Introdução e Tradução. Rio de Janeiro: Livraria AGIR Editora, 1952. Disponível no site do
HISTEDBR - Grupo de Estudos e Pesquisas "História, Sociedade e Educação no Brasil".
22
Maria Thetis Nunes. Ensino secundário e sociedade brasileira, 1999, pág.45.
23
Cambi, Franco. História da Pedagogia, 1999, pág.146.
14
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O DIAPASO CATEQUTICO E O MTODO DE ENSINO DE