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CIDADANIA E EDUCAÇÃO DOS NEGROS ATRAVÉS DA IMPRENSA NEGRA EM SÃO
PAULO (1915- 1933).
Pedro de Souza Santos
Maria Angela Borges Salvadori
Universidade São Francisco
RESUMO
Este trabalho tem como proposta a investigação de processos de educação da população negra em São
Paulo e a contribuição da imprensa negra enquanto meio de circulação de idéias e transmissão de
valores e conceitos. O período analisado compreende desde 1915, quando é criado o primeiro jornal da
imprensa negra “O Menelick” até 1933, ano de criação do jornal “A Voz da Raça”, que circulou
durante o Estado Novo. Para tanto a nossa principal fonte de pesquisa são os jornais da imprensa
negra, que embora sendo uma imprensa de circulação restrita e precária irá exercer uma função social
e política durante a sua trajetória. A população negra no Brasil diante da tentativa de negação da sua
humanidade e da moldagem da sua subjetividade, criou estratégias variadas de luta, buscando resgatar
nessa perspectiva a condição de sujeito. Uma dessas estratégias foi a imprensa negra, com a
publicação de vários jornais escritos e dirigidos por negros que tinham como objetivos, entre outros a
valorização da raça, a divulgação do seu patrimônio cultural, reivindicações, protestos e a discussão
sobre a inserção do negro na sociedade. Alguns desses jornais refletiam as inquietações da
comunidade negra e, num sentido mais amplo, tinham um caráter pedagógico e instrutivo, pois além
de um forte apelo político, apresentavam em seus editoriais diversas matérias relacionadas ao
cotidiano da comunidade negra, festas, esportes, concursos de beleza, poesias, textos de protesto - que
de certa forma contribuíram para a formação de uma subjetividade nessa população e sua inserção na
sociedade dos brancos. A importância conferida à educação nos jornais da imprensa negra,
principalmente aquela difundida no seio familiar, evidencia a preocupação e a necessidade dessa
população em conquistar espaços numa sociedade rigidamente hierarquizada e preconceituosa. Várias
matérias vinculavam a idéia da ascensão social do negro via educação. Nesse sentido podemos discutir
o papel da imprensa negra enquanto instrumento de luta do negro frente à sociedade estabelecida. Em
várias dessas publicações é visível a preocupação com a ética, a moral e com o resgate do negro da
situação de marginalidade em que foi colocado. A intenção é de identificar as possíveis contribuições
da imprensa negra na constituição de uma instrução não escolarizada da população negra em São
Paulo, e de que maneira os valores proclamados nesses jornais eram difundidos e compartilhados.
Com base nas análises da história social, o estudo das ações de diversos sujeitos, nessa perspectiva
procuramos dar voz a aqueles indivíduos que por muito tempo foram silenciados. Busca-se analisar
algumas das ações educativas de indivíduos e grupos que mais recentemente, têm sido resgatados do
ostracismo ao qual foram, por muito tempo, condenados. Os resultados preliminares da pesquisa
sinalizam não apenas para a importância da imprensa negra no processo de educação informal dessa
população, mas também para a necessidade de repensar e questionar certa historiografia que, na
análise dessa documentação atribui-lhe uma valoração progressiva, julgando menos político os jornais
não diretamente vinculados a organizações mais eminentemente políticas de cunho partidária.
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TRABALHO COMPLETO
Para nossos leitores
O estado lamentável em que jazem os homens de côr no Brazil,
oprimidos de um lado pelas idéias escravocratas que de todo não
desapareceram do nosso meio social e de outro pela nefasta ignorancia em
que vegetam este elemento da raça brazileira, inconsciente da sua humilde
situação moral, impõe uma reacção salutar para que possam em dias futuros
ter a consciencia lucida, de que para elles, os seus direitos são compuscados.
(...).
A igualdade e a fraternização dos povos preconisadas pelos principios
de 89 na França e que a Republica implantou como symbolo da nossa
democracia, com relação aos negros é uma ficção é uma mentira que até hoje
não foram postas em prática. (OLIVEIRA, O Alfinete, 22 Set. 1918, p. 1).
A imprensa negra, embora criada e produzida para um público preferencialmente marcado se
propagou para leitores diversos e, no período posterior à abolição, se destacou tanto no sentido de
combater o preconceito racial em suas múltiplas manifestações quanto para tentar afirmar socialmente
os negros, seja pela instrução, seja pela luta contra o que, para alguns, era tido como apatia. Neste
sentido, os periódicos da imprensa negra foram um instrumento para a maior integração deste grupo na
sociedade republicana das primeiras décadas do século XX.
Em muitos dos periódicos trabalhados, a educação é apresentada como o caminho para o negro
ascender socialmente. Assim, várias recomendações são feitas às famílias para que eduquem os seus
filhos. Comumente eram invocados os exemplos de Luiz Gama, José do Patrocínio, Cruz e Souza,
dentre outros, como símbolo para a raça.
Parte significativa dos jornais da imprensa negra, utilizavam-se do termo raça para se referirem
à população negra.
Os jornais: características gerais
Neste trabalho foram analisados os seguintes jornais: O Menelick, A Rua, O Xauter, O Alfinete,
O Bandeirante, A Liberdade, O Kosmos, Getulino, O Clarim, O Clarim da Alvorada, Elite, O
Patrocínio, Auriverde, Progresso, Chibata e A Voz da Raça . O período1 da pesquisa compreende o
ano de 1915, com a publicação de “O Menelick”, até 1933 quando a Frente Negra Brasileira publica o
jornal “A Voz da Raça”.
Esses periódicos normalmente tinham o formato in-quarto2 e as suas dimensões3, em geral, eram
de 32 a 46 cm por 23 a 32 cm. A primeira página apresentava o cabeçalho com o nome do jornal,
subtítulo - Orgam mensal, noticioso, literario e critico dedicado aos homens de cor, nome dos
redatores, local, data, número de edição e em alguns o valor do jornal.
Normalmente no primeiro número do jornal vinha uma nota de esclarecimento do seu nome,
que muitas vezes trazia um significado de conscientização, como por exemplo “O Menelick” que tinha
esse nome em homenagem ao rei Menelick II da Abissínia, descendente da rainha de Sabá e Salomão,
que promoveu a unificação da Etiópia e derrotou os italianos em sua tentativa de invasão. Outro jornal
“O Xauter”, tinha um significado bastante peculiar, “guia dos caminhantes nos areaes da Arabia
deserta”.(O Xauter, n.2, 16 de maio de1916, p. 1).
A periodicidade destes jornais, em alguns casos, era semanal; em outros, quinzenal ou ainda
mensal. Eram vendidos avulsos ou por assinatura semestral e anual. O valor do jornal avulso neste
1
Algumas citações de edições que ultrapassam o ano limite observado, mas correspondem ao contexto de
análise.
2
Possuíam 4 páginas. Popkin, utilizou essa denominação para descrever os jornais de 4 páginas publicados na
França revolucionária no século XVIII.
3
Alguns jornais posteriores à década de 1930 possuíam dimensões maiores muito próximas as dos jornais de
hoje.
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período variava entre 100 e 200 réis, a assinatura semestral em torno de 3 a 4 mil réis e a assinatura
anual entre 5 a 12 mil réis.
O fator econômico dificultava o acesso e a circulação destes jornais entre as camadas
populares, embora não os impedisse de modo definitivo. A esse respeito, Correia Leite, fundador e
colaborador do jornal “O Clarim da Alvorada”, esclarece que, “ninguém comprava e nós dávamos os
jornais gratuitamente. Pagávamos o papel com nosso dinheiro e sempre tínhamos prejuízo”. (apud
FERRARA, 1981, p. 50).
Esses jornais eram mantidos por associações ou com o próprio dinheiro de seus membros, em
algumas ocasiões eram realizados bazares com objetos doados pela comunidade para conseguir
fundos.
As matérias, em geral, não estavam ordenadas em uma seqüência; antes, encontravam-se
dispostas arbitrariamente pelas páginas e, ao que parece, a preocupação dos redatores era a de ocupar
todos os espaços dos jornais. Os anúncios eram colocados geralmente na última página e, pela leitura
dos mesmos, pode-se perceber que muitos deles eram de comerciantes brancos, embora os jornais não
façam nenhuma menção ou diferenciação a esse respeito. Os anúncios, provavelmente, eram uma das
maneiras para obtenção de recursos financeiros para auxiliar na sobrevivência destes jornais.
Algumas idéias e valores presentes nos jornais da imprensa negra.
Uma característica comum em grande parte desses jornais era a prescrição de condutas através
de diversas matérias, entretanto, os leitores se apropriam de maneira diversa do texto escrito, dando
sentidos múltiplos a sua interpretação. Segundo Natalie Zemon Davis (1990), o leitor não é como uma
folha em branco pronto a receber uma mensagem carimbada, ele estabelece uma relação de diálogo
com a palavra escrita.
Carta sem cor
Devemos nos preocupar menos com o passado da raça, tratando agora de
educal-a, preparando-a para as formidaveis lutas de amanhã.
O passado foi horrivel e o presente pessimo; que devemos esperar do futuro?
Tudo, se tivermos o livro por escopo; nada se continuarmos o culto das
tabernas! (FLORENCIO, O Alfinete, n. 77, 11 Nov. 1921, p. 2-3).
Alguns desses jornais refletiam as inquietações da comunidade negra e, num sentido mais
amplo, tinham um caráter pedagógico e instrutivo, pois além do forte apelo político para a tomada de
uma certa consciência considerada adequada por seus editores, apresentavam em suas páginas diversas
matérias relacionadas ao cotidiano de parte dessa população, o que acredita-se, pode ter contribuído
para o processo de formação de sua subjetividade. Além disso, a divulgação de eventos do cotidiano –
tais como festas, bailes, concursos de poesia e beleza, que raramente apareciam nos periódicos da
grande imprensa, pode também ter contribuído para um processo de auto-reconhecimento e construção
da identidade por meio da observação e identificação do seu patrimônio cultural.
A preocupação com a educação é constante nesses jornais e o combate ao analfabetismo, uma
missão:
Aos leitores
[...] o combate ao analphabetismo, essa praga que nos fazem mais escravos
do que quando o Brazil era uma feitoria; [...]. Vamos, meus amigos um
pouco de boa vontade, porque combater o analphabetismo é dever de honra
de todo brasileiro.
Nós, homens de côr, conscientes dos nossos deveres, para com a nossa muito
amada patria, desejamos que os homens, mulheres e crianças da nossa raça
aprendam a ler para obterem um lugar digno no seio da sociedade brazileira.
(O Alfinete, n. 8, 9 de mar. de 1919, p. 1)
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Ao lado da preocupação com o combate ao analfabetismo estava a necessidade de lutar contra
tudo aquilo que era considerado imoral para o negro. Nessa perspectiva, inúmeras matérias de diversos
jornais criam um código moral e divulgam uma série de comportamentos que consideram modelares
para o negro, ao mesmo tempo, condenam aqueles outros tidos como potencialmente perniciosos:
A preguiça
Segundo uma antiga máxima em que está contida uma verdade profunda, é a
preguiça a mãe de todos os vicios. [...].
O homem que trabalha, é uma verdade corriqueira não tem tempo disponível
para engendrar cousas que prejudiquem a outrem. [...].
Onde se encontram os preguiçosos?
Nos botequins, nas esquinas, pelas ruas, a esmo ou junto nas mesas de jogo,
completamente esquecido de tudo. (FREITAS, O Progresso, n. 5, Jul. 1932,
p.2).
A crítica à preguiça e a outros comportamentos considerados inadequados não deve ser
entendida como sinônimo de uma visão negativa dos próprios periódicos em relação à população
negra. Tampouco deve ser dela deduzida uma suposta vida desregrada por parte dos negros.
Considerando que esta população estava inserida em uma sociedade preconceituosa que a todo
momento associava ao negro características negativas, é possível pensar que tais mensagens se
constituíam, antes, numa forma de combate ao preconceito e de integração social, tomando para si
valores socialmente valorizados também por outros grupos sociais. Cabe aqui retomar as palavras de
Robert Slenes: “A afirmação de que os escravos viviam em geral na licenciosidade, na promiscuidade
ou na prostituição conduz facilmente ao argumento de que eles foram profundamente marcados por
essa experiência”.(SLENES, 1989, p. 190).
Nesse sentido pode-se entender que a valorização de certos padrões morais vinculada nesses
jornais funcionou naquele contexto como uma estratégia de afirmação do negro enquanto sujeito que
lutava por espaços na sociedade.
Naquele período São Paulo abrigava diversos clubes para negros onde eram realizadas
atividades variadas. Com a criação desses jornais, as atividades desenvolvidas por esses clubes passam
a ser divulgadas a um número maior de pessoas, que conseqüentemente contribuem com o aumento de
número de sócios nesses estabelecimentos.
Em uma matéria do jornal “A Liberdade”, observam-se algumas recomendações feitas por um
grupo de sócias quanto a certos hábitos de lazer considerados inadequados para as moças: “As
sociedades recreativas, que queiram a sua boa ordem e respeito na suas sociedades durante os ensaios,
não devem aceitar como sócias e convidadas as senhoras que tem dançado maxixe ao Colombo”.(A
Liberdade, 14 Jul. 1919, p. 2).
A princípio esta recomendação soa um tanto estranho por associar um gênero de dança à boa
ordem, impressão esta desfeita após analisar o maxixe4, considerado escandaloso e polêmico pela
extrema sensualidade de sua dança e pelo uso freqüente da gíria carioca quando cantado.
Possivelmente essas mulheres que escreveram a matéria estavam preocupadas com a imagem
do clube do qual faziam parte e com a sua própria ou talvez até apreciassem o gênero, mas por ser
considerado pernicioso pela sociedade branca optaram por rejeitá-lo.
Na edição nº 8 do jornal “O Alfinete”, de 1919, em uma matéria intitulada Echos do Carnaval,
o autor faz uma crítica às moças que estavam fantasiadas de mulheres de apaches e explica que o
apache5 é vagabundo, ladrão e vive em tabernas, fato que as moças desconheciam.
Vários estudos sobre a história da educação no Brasil indicam que a questão moral nesse
período era latente. Abandonada a idéia de que a simples alfabetização seria garantia de superação do
atraso, passava-se a acreditar na educação, aliada à saúde, como garantia de construção da nação e sua
4
Em 1875 nasce o maxixe, ele surge da mistura do lundu com o tango argentino, a habanera cubana e a polca.
Segundo Perrot, apache era uma denominação dada na França no século XX, ao jovem de dezoito a vinte e
cinco anos, que vive em grupo e na cidade e que gosta de dança e de mulheres.
5
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orientação no sentido do progresso. Era esse o contexto no qual a população negra estava inserida e,
voluntária ou involuntariamente, compartilhava desses códigos. Não é possível pensar os negros como
estando aquém dessa realidade, porque excluídos, ou além dela, porque heróicos.
Histórias: lições para a vida
Vários desses jornais apresentavam em seus editoriais histórias e personagens que, de alguma
maneira, possibilitavam aos leitores apreenderem significados de alguns conceitos e atitudes.
No jornal “O Clarim”, uma matéria escrita por Costa Rego, intitulada A abolição e o pão ,
publicada por ocasião das comemorações do dia 13 de Maio, conta a história “da cafuza Joanna
Baptista, filha de uma india, que sendo forra e, poes senhora de si , espontaneamente compareceu
perante a autoridade judiciaria, aos 19 de Agosto de 1780, na cidade do Pará com o objetivo declarado
de vender-se”. (REGO, O Clarim, n. 4, Maio de 1935, p, 4. Grifo do autor).
A história conta que ela se vendeu pela quantia de 80 mil réis, algo intrigante, pois o valor para
a época era considerado baixo e também porque no período da escravidão os negros estavam
justamente lutando pela liberdade. Como interpretar a atitude dessa mulher?
[...] Joanna Baptista declara e o escrivão toma termo, o seguinte. . . e como
ao presente se achava sem pae e sem mãe que dessa pudesse tratar e
sustentar assim para a passagem da vida como em suas moléstias, nem tinha
meios para poder viver em sua liberdade, [...] assim o fazia ella outorgante
de sua livre e espontanea vontade sem constrangimento de pessoa alguma
tinha ajustado e contractado com o dito Pedro da Costa vender-se a si mesma
por sua escrava. Como se tivera nascido de ventre captivo [...]. (REGO, O
Clarim, n. 4, maio de 1935, p. 4).
O fato de Joanna querer vender-se para ter um regalo ao sol, alguém que a sustente até o fim dos
seus dias, não era justamente um tipo de comportamento que os negros combatiam como sendo
imoral? Qual a relação com 13 de maio?
Commentando este documento Carlos Pontes lembra o principio dos
romanos que tornava inalienavel a liberdade. Mesmo em 1780, os romanos
estavam em bem remota antiguidade. Contra todos os principios, o que
prevalecia no caso era a razão da cafuza: não tinha meios para viver em sua
liberdade.
[...], a liberdade que, vê-se pelo caso da cafuza Joanna Baptista era alguma
coisa de peor que a escravidão. [...].
A cafuza Joanna Baptista pode haver sido como pareceu a Carlos Pontes,
uma escrava original: mas o que ella fazia, vendendo a um senhor sua
própria liberdade, era sorrir, com a antecedencia de cento e nove annos dos
estadistas que deram a abolição sem dar o pão. (REGO, O Clarim, n.4, Maio
1935, p. 5).
A matéria pode ser compreendida, apesar de um provável estranhamento inicial, como uma
crítica aos desdobramentos posteriores da Lei Áurea. Se é certo que o Império pode desfrutar, em seu
período final, de certo apoio por parte dos negros, obtido pelas medidas de caráter abolicionista,
também é certo que os primeiros anos da República foram de intensa perseguição contra as classes
populares em geral e os negros, em particular. A Monarquia promoveu a lei que libertou os escravos,
mas foi a República o momento de vivenciar essa lei.
Por outro lado, esta história procura mostrar a ação de diversos negros que, mesmo depois da
conquista da liberdade, se conjugaram com seus senhores para continuarem trabalhando nas fazendas,
casas e comércios. “Estamos na verdade diante da guerra entre sujeitos históricos que concebem a vida
de forma radicalmente diferente”. (CHALHOUB, 1988, p.102).
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É preciso considerar também a possibilidade da matéria ter sido escrita de modo ficcional, com
o objetivo de denunciar o descaso com que os negros foram tratados após a promulgação da lei Áurea.
A mulher na imprensa negra: lições de liberdade.
Nos primeiros jornais da imprensa negra as matérias relativas à mulher e ao feminino, no geral,
enalteciam algumas qualidades que estavam associadas ao lar. No caso das que escreviam nos jornais,
tratavam-se com freqüência de poemas e das chamadas notícias sociais. A partir da segunda metade da
década de 1920, contudo, esta situação se altera e as mulheres6 passam a escrever outras matérias,
inclusive de cunho contestatório e relacionadas às desigualdades de gênero.
Em uma matéria intitulada A mulher moderna e a sua educação, do jornal O Clarim, a sua
autora faz uma crítica à sociedade machista e patriarcal da época e mostra a educação como meio de
chegar à igualdade entre os sexos:
A vida activa dos nossos dias, mobilisando todos os seres capazes, não podia
deixar de utilizar como elemento de primeira plana, a mulher valida,
principalmente aquella que pela instrução, se tornou capaz para certos
serviços como o homem.
Mau grado, porém, todos os ensinamentos da vida pratica, muitos paes
existem ainda que não comprehendem as vantagens de uma educação
moderna. (O Clarim, n. 4, Maio 1935, p. 5).
Em outra matéria publicada nesse mesmo jornal, com um tom mais contestatório e palavras
engajadas, observa-se uma crítica à ação de algumas mulheres da elite branca:
Carta a Nice
As mulheres abastadas de nossa terra, essas que dizem de nobre estirpe e alta
linhagem, mas que se esquecem na sua ignorancia, que a sua genealogia, se
fôr aprofundanda, vae acusar no mais remoto dos seus descendentes, um
degredado lusitano ou um velho negro da Africa e quando muito um produto
do cruzamento racial, um mameluco, essas mulheres minha amiga é que
pretendem fundar uma escola onde as famílias de São Paulo poderão
encontrar para seu lar, auxiliares revestidas de idoneidade e competencia.
[...].
O nome que deram a nova escola foi o de Luiz Gama. Nós bem sabemos
Nice, quem foi Luiz Gama e o seu nome em tal escola é o oppobrio é a
vergonha, é o ridiculo com que nos querem atingir (ARAUJO, O Clarim, n.
4, Maio 1935, p.6).
A ação que a autora critica é a atitude de algumas mulheres brancas da elite em criar uma escola
para os negros. Nesse sentido, ela procura mostrar às leitoras que, por trás da capa da philantropia
está escondida à exploração. No decorrer desta carta evidencia-se o conhecimento da autora a respeito
da história de luta dos negros e, num determinado momento, ela inclusive cita a antropologia de Franz
Boaz para confirmação da inexistência da inferioridade da inteligência.
Ela termina sua carta esclarecendo que Nice são todas as leitoras: “Isso, somente isso, Nice, era
o que eu tinha para lhe dizer hoje, que é o dia maximo de uma maxima conquista, porque falando a
você, eu tenho a certeza plena e a plena convicção de estar fallando a todas as mulheres de nossa
raça”.(ARAUJO, O Clarim, n. 4, Maio 1935, p.6).
6
Fato interessante é que alguns autores nesses jornais utilizavam-se algumas vezes de pseudônimos femininos.
Jayme de Aguiar, de “O Clarim da Alvorada”, assinava como Maria Rosa e Ana Maria, por exemplo.
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Em outros jornais posteriores a esse aparecem diversas colunas escritas por mulheres, inclusive
matérias destinadas às crianças nas quais são contadas histórias cujo objetivo é instruí-las.
Os exemplos: lições práticas
Só se reconhece a importância das lutas que aparecem de forma explicita,
isto é, aquela cujas razões podem ser remetidas as premissas adotadas e que
atestam uma racionalidade do desenvolvimento histórico. Já as pequenas
lutas disseminadas pelo cotidiano, não organizadas num todo coerente e
dotado de ideário próprio, e quase sempre reprimidas e derrotadas, são
deixadas de lado. (AZEVEDO, 2004, p. 154).
Uma característica comum desses jornais eram as matérias a respeito de negros que
conseguiram conquistar seu espaço na sociedade, principalmente através do trabalho e da educação.
Geralmente, nessas matérias, os redatores procuram mostrar aos leitores toda trajetória de vida desses
negros, a sua persistência e abnegação para conquistar seus objetivos. Nessa perspectiva essas
matérias procuravam instruir os leitores através dos exemplos, da possibilidade de conseguir um lugar
diferente na sociedade, do que os comumente reservados aos negros.
ENGº ANTONIO MARTINS DOS SANTOS
Em 2 de setembro de 1911 em Bom Sucesso, estado de Minas, nasceu
Antonio Martins dos Santos. De condição humilde, sempre sentiu
necessidade de trabalhar para vencer. [...].
[...], Antonio conseguiu formar uma base sólida para seus estudos vindo, em
3 de fevereiro de 1928 continuar sua instrução no meio mackenzista. [...].
Como estudante, soube também vencer. Abraçou por ideal, o estudo da
engenharia; especializou-se em eletricidade, terminando o curso e
defendendo tese em 19 de março de 1936. (ANDERS, A Voz da Raça, n. 67,
Jul. 1937, p.4).
O jornal “A Liberdade”, em suas duas primeiras edições no ano de 1919, traz uma matéria
relatando a historia de vida de Luiz Gama:
Este era natural da Bahia, foi vendido com outros escravos para o Rio de
Janeiro, ahi foi elle comprado pelo mercador de escravos da cidade de
Lorena, Antonio P. Cardoso. Remettido a cidade de Campinas, onde não
encontrou quem o comprasse por ser bahiano, e tendo aprendido a ler
escrever e contar, dotado de rara intelligencia, em breve tempo poude
adquirir sua liberdade. (Domingues, A liberdade, jul. 1919, p.1.).
[...] tornou-se pelo estudo e perseverança, excellente advogado, poeta e
escriptor, collaborou em diversos jornais, onde publicava belissimos artigos
sendo apreciado pelo seu estylo correcto e mordaz. (Dominuges, A
Liberdade, ago, 1919, p.1).
Nessas duas histórias distintas de vida observa-se algo semelhante: a determinação dos
protagonistas, mesmo diante da situação de desigualdade em que estavam inseridos, e a relevância
conferida à educação como meio que viabilizou a conquista de espaços comumente destinados à elite
branca. Ainda nessa direção observa-se que, possivelmente, os anúncios de formatura contribuíram
ainda mais para o reconhecimento da educação como meio de ascensão social.
Formatura
Formou-se em Comércio pelo Lyceu Salesianos, desta capital, recebendo o
grau de guarda-livros, o Snr. Deocleciano Nascimento.[...].
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Almejamos ao guarda-livros, Snr. Deocleciano Nascimento, um brilhante
futuro e que continue sempre a ser estudioso e só terá direito a ganhar com
esse digno procedimento. (O Bandeirante, Abr. 1919, p. 4).
Considerações finais:
O primeiro a fazer uma periodização da imprensa negra foi Roger Bastide, em um capítulo do
seu livro “Estudos Afro-brasileiros”. Para ele a história da imprensa negra se divide em três períodos:
O primeiro período tem início em 1915 com “O Menelick” e vai até 1930, quando acontece o
movimento de 1930; o segundo período, de 1930 a 1937, “é o período da formação, do
desenvolvimento e do apogeu da Frente Negra, a passagem da reivindicação jornalística à
reivindicação política”. (BASTIDE, 1973, p. 132, Grifos do autor); o terceiro período tem início a
partir de 1945 com a volta do regime democrático no Brasil. Assim, segundo Bastide, “de 1937 a 1945
é o vazio. É preciso esperar a volta do regime democrático para surgir de novo a imprensa de cor,[...]”.
(BASTIDE, 1973, p.133).
Esse autor, embora promova a periodização da imprensa negra em três momentos, analisa
somente os dois primeiros que compreendem o limite temporal da sua pesquisa. Miriam Nicolau
Ferrara também trabalha com uma periodização desses jornais: o primeiro período de 1915 com “O
Menelick até 1923 com o "Getulino" . Neste período o negro tenta sua integração à sociedade
brasileira; para tanto procura identificar-se com a sociedade dominante, assimilando ou copiando
valores brancos, [...]”. (FERRARA, 1981, p.184); o segundo período de 1924 com o jornal “O Clarim
da Alvorada” até 1937 com a instauração do Estado Novo. Neste período “as reivindicações ganham
força e a imprensa negra atinge seu ápice. [...]. Agora o problema do negro é visto e abordado de modo
mais direto e objetivo”. (FERRARA, 1981, p.185); o terceiro período vai de 1945 com a volta da
democracia até 1963, ano de paralisação da imprensa negra. Nesse período alguns jornais veiculam
propagandas eleitorais.
Segundo Clovis Moura, apoiando-se nessa periodização, os jornais da imprensa negra passam
do absenteísmo político na sua origem para uma participação mais política na sua última fase.
Para esses autores há um processo de evolução dentro da imprensa negra, delimitada por uma
ordem seqüencial na qual um modelo cede lugar a outro, e o aspecto político funciona como um
delimitador dessas fases. Nesse sentido os primeiros jornais são considerados apolíticos ou menos
políticos do que aqueles surgidos a partir da década de 1930 que, segundo eles, já apresentavam um
engajamento político partidário.
Os jornais da imprensa negra surgem das necessidades de dar visibilidade às diversas ações da
população negra, sejam elas culturais, esportivas e educacionais, e de combater o preconceito. Nesse
aspecto, procuram instruir o negro moralmente e intelectualmente para que possa ocupar um lugar na
sociedade. Assim a ação desses jornais se configura como um ato de luta política, que segue uma
dinâmica dentro de um determinado contexto histórico. Em outros termos, não participar dos grandes
acontecimentos políticos e da vida político-partidária do país, pode ser entendido como uma opção por
um outro caminho diferente de luta, mas não menos importante. Ou, ainda, é preciso buscar a história
desses jornais e dos sujeitos que se organizaram para sua produção e distribuição a partir de uma
ampliação do entendimento do campo político e da valorização das lutas mais cotidianas.
BIBLIOGRAFIA
1 - Jornais
O Menelick, São Paulo,out. 1915 – jan. 1916.
A Rua, São Paulo, fev. 1916.
3620
O Xauter, São Paulo, maio 1916.
O Alfinete, São Paulo, set. 1918 – nov. 1921.
O Bandeirante, São Paulo, set. 1918 – abr. 1919.
A Liberdade, São Paulo, jul. 1919 – out. 1920.
O Sentinela, São Paulo, out. 1920.
O Kosmos, São Paulo, ago. 1922 – jan. 1925.
Getulino, Campinas, ago. 1923 – maio 1926.
O Clarim d’Alvorada, São Paulo, Jan. 1925 – set. 1940.
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O Patrocínio, Piracicaba, abr. 1928 – mar. 1930.
Auriverde, São Paulo, abr./ maio 1928.
Progresso, São Paulo, jun. 1928 – ago. 1932.
Chibata, São Paulo, fev./mar. 1932.
A Voz da Raça, São Paulo, mar. 1933 – nov. 1937.
O Clarim, fev./maio 1935.
2 – Dissertações
FERRARA, Miriam Nicolau. A imprensa negra paulista 1915-1963. 1981. Dissertação (Mestrado em
Antropologia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São
Paulo.
3 - Livros e artigos
ARRUDA, Genésio de. Rebeliões escravas. In: Trabalhadores. Campinas: Fundo de Assistência à
Cultura, 1989, p. 26-35.
AZEVEDO, Célia Maria Marinho de. Onda negra, medo branco: O negro no imaginário das elites
século XIX. São Paulo: Annablume, 2004.
BASTIDE, Roger; Fernandes, Florestan. Brancos e negros em São Paulo. 3. ed. São Paulo: Nacional,
1971.
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