Grupo europeu de negócios sociais chega ao
Brasil
18/12/13 // Empresa // Brasil
por Patrícia Gomes
Se os negócios sociais no Brasil ainda são um conceito que ainda não foi amplamente
difundido, no mundo não é bem assim. O grupo francês SOS, que tem mais de 300 empresas
espalhadas por 20 países, já atua na área há 30 anos e agora chega em terras brasileiras atraído
pelas oportunidades daqui. “Os brasileiros têm um espírito empreendedor particularmente
forte e eles tendem a orientá-lo na direção da inovação tecnológica e dos novos mercados
digitais. É um movimento completamente novo, muito promissor e que tem se expandido
rapidamente”, diz Nicolas Hazard, vice-presidente do Grupo SOS e presidente do CDI
(Comptoir de l’Innovation), uma empresa social que ajuda a medir o impacto social e
financeiro dos negócios da rede.
Em entrevista ao Porvir, Hazard fala do conceito de negócios sociais que as empresas adotam
e aponta razões por acreditar que empresas com esse perfil estejam se espalhando no mundo.
No Brasil, o grupo já identificou como oportunidade de atuação a construção de creches para
a população de baixa renda – na França, para atacar questão semelhante, eles desenvolveram
um modelo de negócio para os centros de primeira infância em que o valor cobrado cabe no
bolso de famílias pobres. “Juntos, podemos encontrar soluções inovadoras para setores que
têm necessidades urgentes, como a primeira infância, área em que há uma enorme falta de
opção para os pais matricularem seus filhos”, diz ele. E o diagnóstico não poderia ter sido
mais preciso. Nesta semana mesmo, o Ministério Público de São Paulo determinou que o
prefeito Haddad cumpra a promessa de campanha e crie 105 mil vagas de creche até 2016.
crédito Matthew Benoit / Fotolia.com
As empresas do Grupo SOS prestam serviços que o Estado não tem codições de oferecer
sozinho em principalmente cinco áreas: saúde, educação, solidariedade, terceira idade e
emprego. “Devido à natureza política das empresas sociais, é essencial que elas constituam
um complemento ao Estado, não uma substituição”, disse o francês.
Veja abaixo a entrevista completa com Hazard.
Das definições de negócios sociais, qual é a que vocês acreditam?
O negócio social tem que combinar um modelo de negócio sustentável com um forte impacto
social. O método consiste em usar ferramentas clássicas de negócios para dar escala às
atividades das empresas sociais. O lucro é um pré-requisito e o principal foco da companhia é
atacar questões ambientais e sociais.
Algum tempo atrás, o conceito de negócios sociais se confundia com o de caridade. Como
o campo está hoje?
Na medida em que o movimento dos negócios sociais se espandiu pelo mundo, os governos
começaram a entender seu poder para resolver questões sociais. Devido à natureza política
das empresas sociais, é essencial que elas constituam um complemento ao Estado, não uma
substituição. É absolutamente necessário que haja uma forte relação de confiança para que os
negócios sociais trabalhem lado a lado com o governo. Em Paris, por exemplo, trabalhamos
com o governo da cidade para lançar o Social Good Lab, uma incubadora de tecnologias com
impacto social. Essa iniciativa não seria possível sem a cooperação do setor público e o Le
Comptoir de l’Innovation.
Como estão os negócios sociais pelo mundo?
Para qualquer empreendedor social, o Brasil é um mercado promissor, não apenas pelo seu
tamanho mas também por muitas das questões sociais que tem enfrentado: desigualdades
sociais e econômicas, falta de educação, pobreza, baixa qualidade do sistema de saúdem entre
outros
Depois da crise de 2007, ficou bastante óbvio que o mundo precisava de um novo paradigma
macroeconômico. Isso reforçou a ideia já existente de que as ferramentas de negócio – graças
a sua eficiência econômica – tinham um papel central na solução de problemas e na
complementação da atuação do governo na oferta de serviços públicos. As novas gerações
sabem que alguma coisa precisa mudar na forma como construímos e conduzimos nossas
sociedades e elas precisam de uma proposta forte e clara. Os negócios sociais são uma das
melhores respostas para as novas necessidades do mundo. Não apenas eles podem resolver
questões relacionadas à pobreza e à exclusão, mas também contribuir para o crescimento
econômico e a geração de empregos. Muitas organizações internacionais estão contribuindo
para fazer dos negócios sociais um movimento global, mas ainda há muito a ser feito. Então,
claro, cada país tem suas próprias necessidades e por isso terá uso e interpretação específicos
para os negócios sociais.
Quais são as cinco áreas em que vocês atuam?
Para combater a pobreza e a exclusão social, o Grupo SOS tem uma abordagem holística na
qual cinco áreas (saúde, educação, solidariedade, terceira idade e emprego) têm importância
fundamental para o desenvolvimento social. Consideramos a educação uma das principais
soluções para as desigualdades sociais e, por isso, temos trabalhado para garantir que todas as
crianças tenham as mesmas oportunidades. A educação é provavelmente a melhor opção para
a mobilidade social, é um investimento de longo prazo.
Você vê diferenças importantes entre as oportunidades para empreendedores no mundo
se comparadas com as do Brasil?
Os brasileiros têm um espírito empreendedor particularmente forte e eles tendem a orientá-lo
na direção da inovação tecnológica e dos novos mercados digitais. É um movimento
completamente novo, muito promissor e que tem se expandido rapidamente. O uso de
tecnologias inovadoras que combatem a exclusão social é provavelmente um campo em que
os empreendedores devem encontrar uma variedade de oportunidades. Para qualquer
empreendedor social, o Brasil é um mercado promissor, não apenas pelo seu tamanho mas
também por muitas das questões sociais que tem enfrentado: desigualdades sociais e
econômicas, falta de educação, pobreza, baixa qualidade do sistema de saúdem entre outros.
Há diferenças entre os estados do Brasil: São Paulo não tem os mesmos problemas
relacionados a educação, por exemplo, que o Maranhão. E você não poderá combatê-los da
mesma maneira. Você terá que adaptar as necessidades da dpopulação para o ambiente.
Quais são as empresas mais interessantes que têm resolvido problemas educacionais?
Existe uma empresa brasileira chamada Geekie que está revolucionando a forma como os
estudantes aprendem. Eles têm uma plataforma on-line que adapta os conteúdos às
necessidades dos alunos. Isso os ajuda no processo de aprendizado e permite que os
estudantes obtenham melhores notas, além de prepará-los para o Enem. É um jeito brilhante
de usar tecnologia para lutar contra desigualdades e dar aos jovens brasileiros melhores
chances na vida. Na França, o Grupo SOS se dedica a centros destinados a primeira infância.
Investir em crianças pequenas é essencial para uma educação melhor e permite que as mães
sigam suas carreiras. Esses serviços são acessíveis para famílias de baixo poder aquisitivo.
Nos últimos 30 anos, desenvolvemos a Crescendo, uma rede de serviço de cuidados à criança
voltados a primeira infância, creche e centros sociais. Graças a um sistema de equalização de
preços, conseguimos construir um modelo sustentável e hoje a Crescendo recebe
semanalmente 2.000 famílias em suas 30 unidades.
Quais são suas expectativas para o futuro no Brasil?
Os negócios sociais estão se expandindo no Brasil. O conceito está se espalhando e podemos
ver a multiplicação de iniciativas e novas estruturas prontas para apoiá-los. Queremos
contribuir com esse movimento ao apoiar e criar projetos numa perspectiva de longo prazo.
Com base na gama de negócios que desenvolvemos nos últimos 30 anos, poderemos
contribuir com soluções eficientes para diferentes problemas sociais no Brasil. É por isso que
estamos começando a trabalhar com organizações e institutos brasileiros que estão liderando
esse movimento no país. Juntos, podemos encontrar soluções inovadoras para setores que têm
necessidades urgentes, como a primeira infância, área em que há uma enorme falta de opção
para os pais matricularem seus filhos. Também acreditamos que podemos ajudar empresas e
instituições brasileiras a desenvolver ferramentas de mensuração de impacto social e
desempenho financeiro, algo crucial para a aceleração e expansão do conceito dos negócios
sociais no Brasil.
Como você mede o impacto de cada empresa do grupo? Como é a ferramenta de
medição que vocês criaram?
Os negócios sociais são uma das melhores respostas para as novas necessidades do mundo.
Não apenas eles podem resolver questões relacionadas à pobreza e à exclusão, mas também
contribuir para o crescimento econômico e a geração de empregos
Porque tínhamos empresas em diferentes setores e que produziam tipos diferentes de impacto
social, precisávamos de uma ferramenta muito completa e eficiente que pudesse analisar esse
impacto e, ao mesmo tempo, garantir que nossos modelos de negócio eram apropriados e
efetivos. Foi assim que o CDI Ratings nasceu. É parte dos serviços oferecidos pelo Le
Comptoir de l’Innovation. O CDI Ratings é uma ferramenta complexa para monitorar, avaliar
e reportar nosso desempenho social, adaptado para nossas cinco áreas de atividade.
Nós usamos 600 critérios em 15 setores para oferecer uma análise financeira e extrafinanceira
que nos permita monitorar e relatar o desempenho financeiro e social de uma empresa, além
de facilitar a mediação entre investidores e empreendedores sociais. Assim sendo, nós
avaliamos a missão social e o impacto, a governância, as políticas de recursos humanos e
ambientais, além de outros elementos-chave para o funcionamento de uma empresa. Mas o
CDI Ratings não está apenas preocupado com o impacto social: temos que ter certeza que as
empresas têm sustentabilidade econômica e que o modelo de negócio também está
funcionando. Então fazemos também uma análise financeira extensiva, atentando para a
estratégia, o posicionamento no mercado, as operações e a estrutura financeira.
Ao fim do processo, sabemos onde e por que uma empresa está indo bem ou mal e estamos
aptos a dar uma assistência sobre melhores práticas e métodos. Isso nos ajuda e ajuda as
empresas que prestamos serviços não apenas a otimizar o impacto social e o desempenho
financeiro, mas também a ter mais credibilidade e atrair investidores.
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