Pós Graduação em Letras
Área de Concentração: Lingüística e Língua Portuguesa
Linha de pesquisa: Enunciação e Processos discursivos
DrªJane Quintiliano Guimarães Silva
Da enunciação ao enunciado:
processos de discursivização na/da
atividade da linguagem
1
Da enunciação ao enunciado:
processos de discursivização na/da
atividade da linguagem
Jane Quintiliano G. Silva ( PUCMINAS)
Considerações iniciais
Na
tentativa
e, por extensão, à área de concentração que
de
explicitar
as
condições de produção/emergência do texto
que
aqui
se
oferece
à
leitura
e,
por
conseguinte, levar a efeito o seu propósito
norteador – esboçar um projeto de trabalho a
ser desenvolvido no interior da linha de
pesquisa “Enunciação e Processos discursivos”
que integra o Programa de Pós-graduação
stricto sensu, Mestrado em Letras, PUCMINAS
–, julgo oportuno, para este momento da
reflexão,
descrever,
de
forma
breve,
elementos de minha trajetória acadêmica,
particularmente,
aqueles
relacionados
às
experiências de pesquisa e ensino.
Dada
a
natureza
da
atividade
discursiva em foco, tal expediente, a meu
ver, afigura-se relevante na medida em que
por meio dele objetivo tanto assinalar os
espaços de tomada de posições teóricas e
metodológicas que orientaram (e orientam)
o
meu
modo
de
olhar
os
fatos
/fenômenos/práticas da linguagem, como
criar
possibilidades
para
estabelecer
relações de diálogo (e de pertença) com as
orientações teóricas e metodológicas que
subjazem à linha de pesquisa em destaque
a hospeda. Suponho que, ao instaurar esse
movimento, trago
históricas,
nele inscritas marcas
políticas,
engendradas
no
sociais
processo
e
pessoais
das
práticas
sociais e discursivas que me envolvem. Ou,
deixa-se ali entrever a história de nossas
interações,
de
inserção
nas
práticas
discursivas de uma dada comunidade, no
nosso caso, a acadêmico-científica.
Do pesquisador e professor
A minha trajetória de pesquisadora,
no âmbito dos estudos da linguagem, vem
sendo construída, a partir do início da
década 90, quando ingressei no Mestrado
em Educação FAE/UFMG, para desenvolver
um
estudo
chamada
sobre
tipologia
o
funcionamento
textual
escolar,
da
que
compreende basicamente os tipos narrativo,
descritivo e dissertativo. Como sabemos,
essa tipologia textual, no universo das
práticas de ensino de língua materna, possui
uma longa história, na qual refletem as
concepções
de
texto,
de
língua,
de
autor/produtor, de interlocutor, enfim, dos
usos da linguagem e o seu ensino, as quais,
no entanto, nem sempre levaram em conta
2
a
multiplicidade
textos
e
heterogeneidade
produzidos
na
vida
dos
cotidiana.
A
André Petitjean, 1989; Maingueneau, 1989;
Bakhtin,
1990,
1992,
1997;
Marcuschi,
“As
1995a, b, entre outros, nesse percurso,
tipologias textuais e a produção de texto na
acabei por produzir um pequeno trabalho
escola”.
teórico
dissertação
produzida
intitula-se
Embora à época a discussão sobre
sobre
(terminologia
gênero
adotada
discursivo
por
mim
nos
o ensino de gênero textual nas nossas
primeiros estudos) e tipo textual, no qual
escolas fosse relativamente tímida, com os
procuro desenvolver uma reflexão sobre a
resultados dessa pesquisa, fundamentada
que funcionamento da linguagem as noções
nas
dialogismo
de “gênero discursivo” e “tipo textual” se
bakhtiniano, ia ficando claro para mim que é
referem, na atividade de classificação dos
através dos gêneros que as práticas de
textos (cf. Silva, 1999). Aí, devo dizer,
ensino de linguagem deveriam encarnar
instalava-se o desejo de empreender um
uma
de
trabalho de investigação sistemática sobre
aprendizagem de textos. Noutras palavras,
os gêneros textuais que, a princípio, não
remetendo-me a uma das passagens do
havia a preferência por um ou outro gênero,
trabalho citado, as direções subsumidas por
vez
essa
exploratoriamente, operar com a teoria dos
hipóteses
da
teoria
significação
nas
investigação
do
atividades
pautavam-se
no
a
intenção
maior
era
a
de,
gêneros e a sua aplicação.
pressuposto de que:
Optando
na verdade, o que se aprende (ou se
deve ensinar) a escrever são os
gêneros
discursivos
que
correspondem
a
atividades
discursivas reais e concretas que o
sujeito pratica no universo social em
que está inserido. Desse modo,
parece evidente que, para se
apropriar da linguagem escrita, em
seus
processos
diversos
de
funcionamento, que ocorrem e se
manifestam sob a forma de texto,
não basta uma prática escolar de
escrita cuja diretriz se dá por meio
de um tema qualquer e por indicação
de tipos textuais. Escrevem-se, entre
outras
coisas,
cartas,
convites,
diários, contos, crônicas, procuração,
declarações, lista de compra, etc.
São essas diferentes práticas de
escrita, que figuram na sociedade,
com
usos
e
funções
sociais
diferentes, é que devem constituir o
objeto de aprendizagem de língua na
escola (cf. Silva, 1995: 202).
Convicta
que
desse
pressuposto
por
essa
frente
de
pesquisa, o meu doutorado me conduziu a
uma interlocução mais intensa e metódica
com
o
tema,
bibliográfico,
mediante
na
levantamento
tentativa
de
construir
parâmetros para operacionalizar teórica e
metodologicamente com a categoria gênero.
Dessa pesquisa, resultou a tese, intitulada,
“Um estudo sobre o gênero carta pessoal:
das práticas comunicativas aos indícios de
interatividade na escrita dos textos”
Sobre
essa
etapa
da
minha
formação, importa ressaltar alguns aspectos
que
iluminam
questões
relativas
ao
processo de construção da pesquisa (e do
objeto)
e
do
pesquisador.
Sob
uma
abordagem lingüístico-textual, o trabalho de
e
motivada por leitura de alguns autores,
como Isenberg, 1987; Bronckart, 1987;
análise dos dados – que compreendiam
textos
escritos
configurando,
em
por
alunos
termos
–
ia-se
metodológicos,
3
mais como um espaço de formação do
práticas
pesquisador, de emergência de nova prática
acadêmico/escolar.
de pesquisa, de um fazer científico, fundado
discursivas
A
frente
de
do
domínio
pesquisa
por
mim
em novos gestos de compreensão do objeto
empreendida, nesse universo, toma como
em foco, ou seja, em uma concepção que
central
toma
subjetividade/subjetivação nos processos de
a
língua/texto
como
atividade
o
tema
construção
emergência
constitutiva
produção acadêmica.
A proposição desse
recorte
pelo
sujeitos,
gerada
em
situações reais de uso.
Filiar-se
a
essa
posição
se
autoria
constrói
nos
da
comunicativa, atividade cognitiva, atividade
de
da
da
eventos
interesse
de
de
compreender como os sujeitos vão, ao longo
metodológica era algo que implicava, a
de
rigor, a construção de uma identidade de
construindo
pesquisador para qual passava a ficar claro
implicada nas ações e/ou tarefas do mundo
o princípio de que não se pode desenvolver
acadêmico e profissional. Em outros termos,
análise de texto e de discurso adotando
toma-se essa orientação na perspectiva da
qualquer
construção, pelo aluno, de uma posição de
concepção
de
língua/gem,
de
texto, de gramática, pois, caso o faça,
suas
experiências
uma
na
academia,
posição
identitária
autoria na sua atividade linguageira.
pode-se correr o risco de criar objetos
Ora, entende-se que as categorias
adulterados. Ora, sob esse enfoque, o texto,
eleitas, para pensar tanto o fenômeno em
o
cena
objeto
observável
do
pesquisador
e
como
a
própria
problemática
ali
materializado numa dada língua natural,
instalada, inscrevem-se na mesma ordem
traz na materialidade de seus enunciados
do paradigma epistemológico, projetado no
um
âmbito da linha de pesquisa Enunciação –
conjunto
operações
de
e
pistas
resultantes
mecanismos
discursivos
de
lingüísticos,
enunciativos
que
Processos
discursivos.
Nesse
sentido,
trabalhar com a categoria sujeito, sob o
regulam/ajustam, em grau maior ou menor,
recorte
o processo de produção de sentido.
autoria/posicionamento identitário é, sem
Adotando
a
pesquisa
subjetividade/
um
dúvida, uma tarefa complexa que exige uma
princípio de produção de conhecimento,
abordagem interdisciplinar e requer, como
venho
já
desenvolvendo
como
da
trabalhos
de
investigação que se articulam com um
1
exposto,
a
instâncias/planos
incursão
pelas
constitutivos
do
conjunto de pesquisas integradas , cujo foco
funcionamento e configuração da atividade
recai
formação
discursiva.
identitária do professor no universo das
Por
sobre
o
processo
de
fim,
devo
registrar
que
a
relevância e as contribuições da pesquisa, a
Deve-se esclarecer aqui que o corpus por mim
investigado é constituído aproximadamente 120 textos,
exemplares de resenhas, produzidas por alunos de
Letras, no percurso de três períodos escolares, o que
confere à investigação um caráter longitudinal. Com a
frente de trabalho que se encontra em andamento, o
corpus se constitui de 45 memoriais.
1
meu ver, explicam-se, primeiramente, pelo
fato de que se ampliarem as possibilidades
para uma compreensão mais aprofundada e
sistemática
acerca
dos
processos
de
4
formação identitária/ posição-autor e, por
emergir
(ou
não)
os
movimentos
conseguinte, e dos modos de textualizar/de
estratégias de uma posição de autoria.
e
dizer que concorrem para efetivar/ fazer
Proposta de trabalho
Da enunciação ao enunciado: processos de discursivização na/da atividade da
linguagem
1 Apresentação
portanto, como objeto de investigação. Para
ilustrar essa tendência, reporta-se aqui à
1.1 Justificativa
Na constituição da linha de pesquisa
“Enunciação
e
Processos
discursivos”,
prevê-se a emergência de um amplo quadro
de referências teóricas e metodológicas que
pode contribuir para construção de estudos
sobre a língua/gem sob a perspectiva que
eleja
a
língua
discursiva,
como
(inter)
uma
atividade
subjetiva,
cognitiva,
concebida na e para interação, daí seu
caráter
palavras,
social
e
esse
histórico.
recorte,
Em
que
outras
pressupõe
movimentos da/na atividade linguageira,
fundados
na
relação
possibilidades
estudos
para
sobre
contemplam
enunciação,
fatos
interpessoal,
que
se
da
elementos
da
abre
invista
em
linguagem
que
do
discurso/da
língua/gem
(em
funcionamento), da interação, da ação dos
sujeitos na atividade discursiva. Esses fatos,
dentre outros, vale salientar, por longo
tempo,
na
história
dos
estudos
da
linguagem, ficaram à sombra, por serem
vistos como algo caótico, assistemático,
sujeito
às
oscilações
e
inconcebíveis,
distinção saussuriana entre língua e fala, em
que esta, por trazer em sua emergência as
vozes,
as
emoções,
os
traços
da
circunstância de uso da língua, as marcas
da singularidade e da subjetividade dos
falantes, fora alçada à condição de um
objeto não legítimo para fins de um estudo
sistemático.
Seguindo-se esse raciocínio, acha-se
perfeitamente adequada a observação que
Mari (1997, 148) apresenta, ao ponderar
que o que se vê, na história moderna da
lingüística, é um outro padrão de percepção
dos fatos da linguagem e isso se instaurou,
dentre outros fatores, com
(...) o processo migratório que
a
lingüística
passagem
enfrentou
do
plano
na
do
enunciado para o plano da
enunciação
pelo
(...)
processo
A
incursão
enunciativo
redefine o problema em outros
patamares. A estrutura perde a
sua autonomia no processo e
toda a ilusão que alimentou em
5
favor de um ‘eu’, consagrado
considerações tecidas, formular, para os
como
termos-chave que tematizam a linha de
centro
começa
a
do
ser
sentido,
desfeita,
em
pesquisa em foco, a seguinte interpretação:
favor da aceitação da voz de
a) com o
um outro (...)
compreender
termo "enunciação", deve-se
que
a
enunciação
é
uma
atividade por meio da qual o sujeito coloca a
Os efeitos de deslocamento dessa
ordem
se
refletem
numa
guinada
língua em funcionamento e dela se apropria,
mas também age com e sobre ela nos
significativa, que, no curso da história das
eventos
idéias
em
implica a emergência de eu e um tu que se
uma série de rupturas que, permitiram uma
mostram, discursivamente, na materialidade
redefinição
e,
dos enunciados.
na
preciso que se opere com a idéia de
da
discurso, de língua e sujeitos que em cena
linguagem. Somente para ilustrar, apontam-
assumem uma função enunciativa e se
se,
definem intersubjetivamente.
lingüísticas,
consubstanciaram
metodológica
fundamentalmente,
abordagem
dos
fatos
como
metodológico,
epistemológica
e
fenômenos
deslocamento
mudanças
teórico-
ato
de
enunciar
Pensar em enunciação é
b) com o termo "processos discursivos",
língua para a fala e para o discurso, da
deve-se assinalar o caráter dinâmico e
competência
processual
o
como:
O
da
para
tais
interações.
desempenho;
do
que
se
reveste
a
atividade
enfoque da forma para a função, da frase
discursiva, na qual se atualiza um conjunto
para
de ações lingüístico-discursivas para levar a
o
texto;
do
enunciado
para
a
enunciação.
efeito um sentido - projeção da enunciação
Antes de encerrar esta seção, vale
no enunciado (processo de referenciação
assinalar que, com relação aos termos-
pessoal,
chave da linha de pesquisa, “enunciação e
intradiscurso; estratégias (re) formulação
processos
uma
textual; estratégias de referenciação textual
articulação metodológica que deixa entrever
(prevêem- se aqui também as diferentes
a sugestão de percurso (metodológico) que
formas de semiose).
nos
discursivos”,
levaria
A partir desse quadro de discussão,
pelos
a proposta de trabalho aqui em pauta
diferentes planos e sistemas – enunciativo,
estabelece como ponto de partida, para
discursivo, conceitual, lingüístico e textual –
levar a efeito os objetivos em mente, a
que convergem (imbricam e se pressionam)
implementação de uma disciplina, cujo
na tessitura do texto, o que concorre para
nome procuraria projetar o alcance que
enfatizar
intenta:
a
enunciação/
único
à
dimensão
do
interdiscurso,
seu
acontecimento
da
presume-se
espaciotemporal);
incursão
processual
na
abordagem do objeto (Beugrande, 1997).
Sob essa orientação, que, a rigor,
Da
enunciação
ao
enunciado:
processos da discursivização na atividade
da linguagem (?)
intenta precisar abrangência da linha de
Nesses termos, salienta-se mais uma vez
pesquisa,
que o estudo a ser empreendido no campo
procuro,
com
bases
nas
6
dessa
disciplina
e
viés histórico, pretende desenvolver uma
oportuno tendo em vista que a abordagem
reflexão sobre os estudos da enunciação
enunciativa tem ocupado um espaço cada
que
vez
discurso
mais
mostra-se
expressivo
linguagem.
Para
adequado
dos
estudos
acercar-me
da
desse
operem
e
com
enunciação,
atividade
do
língua,
sujeito.
Essa
orientação visa rastrear os trabalhos que
propósito, passo agora tanto à indicação dos
promoveram
objetivos norteadores da ação acadêmica
enunciação /subjetividade no estudo da
bem
linguagem.
como
à
proposição
dos
a
A
introdução
partir
/inclusão
desse
da
recorte,
a
temas/conteúdos que se afiguram como
disciplina também se volta para um exame
objetos
das operações discursivas, com ênfase nos
de
reflexão
na
composição
do
quadro teórico, metodológico e conceitual a
mecanismos
ser explorado pela disciplina.
enunciativas: (1) ancoradas na enunciação/
e
estratégias
(meta)
no acontecimento discursivo (referenciarão
2 Objetivo Geral:
pessoal, espacio-temporal) e ancoradas no
A disciplina visa propiciar uma reflexão
enquadre social/institucional (assunção de
sistemática
posições
sobre
a
problemática
da
discursivas/identitárias);
(2)
enunciação, numa abordagem discursiva,
atualizadas
ressaltando-se
discursos (modos dizer que refletem as
a
relação
entre
língua,
entre
enunciados
e
entre
discurso e (inter) subjetividade.
ações do sujeito sobre o seu próprio dizer,
2.1 Objetivos específicos:
sobre o dizer do outro, sobre o dito; nesse
a) Refletir sobre os objetos e princípios
processo
teóricos,
gerenciamento
metodológicos
e
conceituais
prevê-se
de
o
chamado
vozes,
e,
por
defendidos pelos estudos enunciativos a fim
conseguinte, relações de interdiscurso e
de
intradiscurso).
assinalar
as
especificidades
e
singularidade de cada um dos estudos, sob
um viés histórico.
Em termos metodológicos, a disciplina
b) Analisar a relação enunciação, língua,
pretende desenvolver as suas atividades em
discurso
um
e
intersubjetividade
numa
quadro
em
que
se
combinam
a
perspectiva discursiva.
dimensão teórica e conceitual e a dimensão
c) Descrever e explicar analiticamente as
empírica.
operações discursivas presentes nos textos
trabalho de análise de textos empíricos
empíricos a fim de demonstrar a ação do
(oriundos do banco de dados do projeto de
sujeito no discurso e/ou no texto.
pesquisa
Propõe-se
por
mim
empreender
coordenado)
um
para
identificar e explicar, analiticamente, as
operações discursivas neles presentes, à luz
Esboço do quadro teórico-metodológico
de uma matriz teórica organizada a partir
da disciplina
dos princípios teóricos e metodológicos dos
O foco de interesse da disciplina
recai sobre uma abordagem que, sob um
estudos
do
campo
da
linguagem
em
questão. Nesse contexto, prevê-se também
7
o
desenvolvimento
uma
inauguração de um estudo de abordagem
discussão teórico-metodológica por meio da
enunciativa), o estudo de Antoine Culioli
qual se possa assinalar (ou não) as relações
(1973) que propõe um conjunto de co-
de interdisciplinaridade (ou de interlocução)
localizações (repérage) de enunciados e
entre
desenha
o
estudo/
sistemático
estudiosos
de
que
foram
tomados como referência para empreender
a
atuação
do
enunciador
no
enunciado/enunciação.
o trabalho de análise.
Ampliando essa discussão, podem-se
Composição do quadro de leituras e
propor
reflexões
particularmente, “Esboço de uma teoria da
De Benveniste a Bakhtin: percursos
os
estudos
de
Ducrot
(1987)
enunciação”, em que a autor rompe-se com
a unicidade do sujeito, que é dotado de uma
dos estudos enunciativos-
competência
psicofisiológica,
propondo
a
Não se pretende aqui desenvolver uma
tese seguinte: o sujeito /autor como a
discussão aprofundada sobre o tema. O que
origem dos atos ilocutórios realizados no
se quer, de fato, dada a natureza do
curso da enunciação, cuja atualização se dá
trabalho em pauta, é apresentar, de forma
por meio de marcas de primeira pessoa.
sumarizada, o universo de obras e estudos
Para encerrar esse percurso, apontam-se os
que poderão ser objeto de reflexão da
estudos
disciplina. Do ponto de vista da delimitação
Marxismo e Filosofia da Linguagem (1991),
dos estudos teóricos, para se compor o
que apresenta, de forma programática, a
quadro
explorado,
chamada Teoria Enunciativa, a qual opera
percurso
com o princípio do dialogismo: o da a
bibliográfico
sugere-se
que
a
a
ser
abertura
do
bakhtinanos,
particularmente,
teórico, metodológico e conceitual a ser
interação
desenvolvido se instaure com os estudos de
construção da língua e da constituição do
Benveniste (1989), particularmente, com o
sujeito; e o da
texto “O aparelho formal da enunciação”, a
discursos.
fim de refletir sobre a instauração da (inter)
criação verbal, Bakhtin pode contribuir para
subjetividade
da
um trabalho de sistematização sobre a
e
problemática em foco, na medida em que
Nesse quadro, na
sua reflexão incide sobre o pressuposto de
na
indissociabilidade
da
atividade do sujeito.
linguagem
ou
língua,
discurso
verbal
como
espaço
da
polifonia, relações entre
De igual modo, Em Estética da
tentativa de refletir sobre as chamadas
que
formas
da
fundamentalmente dialógica tendo em vista
enunciação, pretende-se investir em uma
que a compreensão responsiva, atitude que
discussão que enfatize os processos de
instaura a alteridade discursiva.
da
língua/sistema
e
as
a
enunciação
é
uma
atividade
discursivização das categorias enunciativas.
pertinente
À luz da breve descrição que aqui se
sugerir os estudos de Jakobson (1993)
talhou para promover uma visibilidade do
relativos aos embreantes /shiffers (tendo
que se pretende empreender, apontam-se,
em vista a hipótese de que ali se dá a
agora, a unidades de trabalho e/ou os
Na
esteira
desse
debate,
é
8
módulos de estudo que a disciplina poderá
Direções didático-pedagógicas:
compreender.
Somente
Para empreender a proposta de trabalho em
informação,
cada
para
efeito
módulo
de
poderá
pauta,
tomam-se
como
adequadas,
no
compreender uma carga horária de 8 horas,
âmbito das ações da disciplina, as seguintes
o que corresponderia a duas aulas de 4
atividades didáticas:
horas cada uma delas.
(1)
Aulas
expositivas
–
para
expor
e
fundamentar as reflexões sobre o tema em
Proposição das unidades de trabalho
pauta.
Unidade 1: A problemática da enunciação -
2)
Lingüística
problemática e/ou um autor organizados
da
enunciação
e
teorias
da
Seminários,
em
torno
de
uma
enunciação: as relações de interseção.
pelos
Unidade
basicamente o projeto de leitura/produção
2:
Introdução
da
categoria
alunos,
em
que
se
sujeito/subjetividade no campo dos estudos
de sentido apresentado pelo aluno.
da
(3)
linguagem
(teorias
da
enunciação,
Pragmática, Semântica da argumentação).
Unidade
3:
Processos
discursivos
1
Discussão
de
temas
avaliará
realizada
via
internet, nos MSN,, espaço que possibilita a
–
socialização
de
reflexões
e
tarefas
do
discursivização das categorias enunciativas.
universo acadêmico.
Unidade 4: Processos discursivos 2 – a
Avaliação
polifonia do/no discurso (argumentavidade
Prevê-se como instrumento de avaliação, a
da
produção de um artigo ou uma resenha
língua,
gerenciamento
de
vozes
e
definição dos lugares enunciativos).
teórica que propicie ao aluno sistematizar as
suas reflexões sobre o tema em foco.
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Objetivos
1. Analisar a enunciação como instância de mediação entre a língua e o discurso; 2. Estudar os processos de
discursivização, principalmente as projeções da enunciação no enunciado.
Justificativa
Este curso visa a estudar a enunciação como instância de mediação entre a língua e o discurso e os processos de
discursivização, principalmente as projeções da enunciação no enunciado. Os estudos enunciativos incorporam à
ciência da linguagem muitos fatos que tinham sido desprezados por uma Lingüística da língua ou uma Lingüística da
competência e, por esse motivo, tornam-se alvo de grande interesse por parte dos lingüistas e objeto de pesquisas
cada vez mais diversificadas.
Conteúdo
1. A problemática da enunciação.2.O enunciado e a enunciação enunciada.3.A debreagem e a embreagem.4.A
actorialização.5.A temporalização.6.A espacialização.7.A aspectualização.8.A modalização.9.O ethos do enunciador
e a imagem do enunciatário.10.A dêixis discursiva.11.O estilo e o ethos.12.A heterogeneidade constitutiva.13.A
heterogeneidade mostrada.14.Os conectores argumentativos.15.Os atos de linguagem.
5 Questões e perspectivas abertas
Com o passar dos anos, surgiram várias questões importantes para a agenda de investigação da ACD, mas que
ainda não foram adequadamente discutidas. Gostaríamos de mencionar algumas que são centrais, e que também são
discutidas em Meyer, 2001.
13
1.
problema da como operacionalizar as teorias, e de como relacionar a dimensão lingüística com as
dimensões sociais (o problema da mediação).
2.
A teoria lingüística a ser aplicada: é freqüente vermos o uso de um conjunto desconectado de indicadores
e variáveis lingüísticas na análise de textos, sem que essa análise esteja sustentada por noções teóricas e por
uma teoria gramatical.
3.
A noção de ‘contexto’, que com freqüência é definida ou de forma muito ampla, ou de forma muito restrita:
de quanta informação precisamos para analisar textos, e qual é o impacto causado pelas teorias?
4.
A acusação de parcialidade – como justificar e validar certas leituras do texto?
5.
Ainda não conseguimos tornar a inter ou transdisciplinaridade uma parte realmente integral das análises
textuais.
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Da enunciação ao enunciado: processos de