UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL PROGRAMA DE EDUCAÇÃO PARA A DIVERSIDADE POLO UAB ARAÇUAÍ – MG FRANCISCO RAMALHO LAGOA GRANDE: UMA COMUNIDADE QUILOMBOLA DE JENIPAPO DE MINAS – MG, NO CONTEXTO DA REALIDADE BRASILEIRA. Araçuaí – MG. Julho – 2012. Lagoa Grande: uma Comunidade Quilombola de Jenipapo de Minas – MG, no Contexto da Realidade Brasileira. Francisco Ramalho Monografia apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação para a Diversidade da Universidade Federal de Ouro Preto, como requisito parcial à obtenção do grau de Especialista em Gestão de Políticas Públicas (Área de Concentração: Gênero, Raça e Etnia) e aprovada pela Banca Examinadora constituída pelos seguintes professores: Prof. Ms. Adriano Toledo Paiva Orientador Prof. Ms. Diego Omar da Silveira Avaliador Profª. Ms. Marileide Lázara Cassoli Avaliador Ouro Preto, Minas Gerais Agosto de 2012 FRANCISCO RAMALHO LAGOA GRANDE: UMA COMUNIDADE QUILOMBOLA DE JENIPAPO DE MINAS – MG, NO CONTEXTO DA REALIDADE BRASILEIRA. Monografia apresentada ao Programa de PósGraduação em Educação para a Diversidade da Universidade Federal de Ouro Preto, como requisito parcial à obtenção do grau de Especialista em Gestão de Políticas Públicas. Área de Concentração: Gênero, Raça e Etnia. Orientador: Prof. Ms. Adriano Toledo Paiva Araçuaí – MG Julho – 2012. AGRADECIMENTOS: Agradeço ao Movimento de Pequenos Agricultores (MPA) e à Comissão Pastoral da Terra (CPT) pela dedicação à luta em defesa das causas a favor do povo brasileiro. São exemplos de fortalecimento da luta popular, do empoderamento do povo, na busca de uma sociedade mais justa. Aqui, lembro todos os agentes e militantes desta pastoral e movimento sociais que contribuíram para a realização deste trabalho. Que a energia despendida, seja transformada em qualidade de vida dos grupos sociais excluídos. Aos amigos Marivaldo e Karine, que prontamente se colocaram à disposição para me ajudarem em cada momento solicitado. À Eva, minha colega de curso e sempre companheira de militância, a quem devo muito pelo exemplo de coragem e pelas idéias iluminadas. À equipe idealizadora e promotora deste curso que, além de crescimento profissional, foi, para mim, motivo de realização enquanto pessoa. Ao Adriano Toledo Paiva, meu orientador. Aos tutores presenciais, Márcia e Pierry, que nos momentos de incertezas, imediatamente buscaram uma resposta tranquilizadora. Aos familiares, especialmente à minha companheira, Rosa Maria; meus filhos: João Gabriel e Pedro Augusto; minha sobrinha, Gabriela; que me fortalecem e motivam em cada dia da vida. Enfim, agradeço a todos que colaboraram com a minha participação neste curso e com a execução desse trabalho. RESUMO RAMALHO, Francisco. Lagoa Grande: uma comunidade quilombola de Jenipapo de Minas - MG, no contexto da realidade brasileira. Araçuaí, UFOP, 2012. (Monografia de Pós Graduação) RESUMO. Esta monografia apresenta uma discussão sobre a questão quilombola no Brasil em que, pela realização de uma memória histórica, constata-se que a questão quilombola está diretamente relacionada à exclusão social sofrida pelo negro no processo histórico brasileiro. Sendo assim, faz-se justa a luta, cada vez mais forte, pelo resgate da dívida que o Estado brasileiro acumula com os grupos sociais excluídos. Quilombo torna-se sinônimo de reparação da exclusão imposta ao negro na realidade brasileira. Através do contato direto com os moradores da comunidade Lagoa Grande, localizada no município de Jenipapo de Minas – MG, percebe-se que esta comunidade se identifica enquanto quilombola e luta para conquistar uma reparação – a posse da terra – pelos danos sofridos. Mas, ao analisar a conjuntura atual brasileira, há um forte embate político. Os grupos sociais dominantes, especialmente ligados ao agronegócio, usam de todos os meios para manter seus históricos privilégios. Palavras-chave: Quilombo; Comunidade Lagoa Grande; Reparação. LISTA DE ABRREVIATURAS ABA - Associação Brasileira de Antropologia ADCT - Ato das Disposições Constitucionais Transitórias ADIN - Ação Direta de Inconstitucionalidade CPT - Comissão Pastoral da Terra DEM - Democratas FCP - Fundação Cultural Palmares FETAEMG - Federação dos Trabalhadores Rurais do Estado de Minas Gerais INCRA - Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária MPA - Movimento de Pequenos Agricultores PFL - Partido da Frente Liberal RTID - Relatório Técnico de Identificação e Delimitação UFVJM - Universidade Federal dos Vales Jequitinhonha e Mucuri SUMÁRIO INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 6 CAPÍTULO I 1. FUNDAMENTOS DA QUESTÃO QUILOMBOLA NO BRASIL 1.1. Breve reflexão: um percurso histórico.......................................................... 8 1.2. Conjuntura atual: malvada herança. ......................................................... 10 1.3. A questão quilombola como política pública afirmativa – resgate da dívida que o estado brasileiro deve aos grupos negros. ................................... 13 1.4. Em que consiste o ser quilombola? ............................................................. 14 1.5. Fases do processo para conquistar a posse da terra. ................................. 18 CAPITULO II 2. REFLEXÃO SOBRE A COMUNIDADE QUILOMBOLA LAGOA GRANDE 2.1 Origem ............................................................................................................ 20 2.2. História atual: luta pela sobrevivência ....................................................... 24 2.3. Condições sócio-econômica-culturais ......................................................... 26 2.4. Conflito .......................................................................................................... 28 2.5. Organização/identidade ............................................................................... 29 2.6. Sonho: titulação do território ...................................................................... 31 CAPÍTULO III 3. DESAFIOS ATUAIS: ...................................................................................... 33 CONCLUSÃO...................................................................................................... 35 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ............................................................. 36 INTRODUÇÃO A história do Brasil, nos últimos 500 anos, é caracterizada por constante luta dos grupos sociais mais pobres. Luta que se manifesta, em primeiro lugar, pela própria sobrevivência. Não raramente, é motivada também pelo esforço de se conquistar dignidade, pois o Estado brasileiro, em todo esse período, assumiu-se extremamente elitista, defendendo claramente os interesses e o poder das classes dominantes. Com o intento de refletir sobre a temática exclusão e inclusão social brasileiras, propõe-se com este trabalho discutir sobre a questão quilombola no Brasil, a partir da concepção de quem foi dominado – o negro que sofreu e sofre com o racismo. Na primeira parte, faz-se uma abordagem sobre a exclusão social sofrida pelo negro no processo da construção histórica do Brasil, desafiando-se a responder o porquê da existência dos quilombos neste país. Propõe-se, também, fazer uma breve abordagem sobre questões conceituais envolvendo o tema e sobre o processo para titulação do território quilombola. Na segunda parte, apresenta-se um estudo de caso da comunidade quilombola Lagoa Grande, localizada no município de Jenipapo de Minas – MG, abordando sua originalidade e suas especificidades. Com essa perspectiva, vem à tona sua história, os conflitos, as condições sócio-econômica e cultural, a organização, a identidade enquanto quilombola e a construção para a conquista do sonho: a titulação do território. O trabalho de campo foi realizado, principalmente, através de entrevistas diretas com os moradores. A acolhida foi sempre calorosa e espontânea, por parte de cada família visitada. Praticamente, todas as casas foram visitadas, sendo ouvidos os relatos de suas histórias passadas e presentes. A descontração tomou conta, em alguns momentos da conversa. Mas, em sua maioria, foram momentos de se emocionarem ao fazer memória da história de suas vidas e de seus antepassados. 7 São enormes as forças contrárias. O agronegócio, bem representado pela chamada bancada ruralista, tem tentado abortar o processo de conquistas e empoderamento dos grupos historicamente discriminados, especialmente dos grupos quilombolas. Rapidamente, essa discussão é abordada na terceira parte deste trabalho. É de sonho, organização e luta que se constrói a história. 8 CAPÍTULO I FUNDAMENTOS DA QUESTÃO QUILOMBOLA NO BRASIL. BREVE REFLEXÃO: UM PERCURSO HISTÓRICO. O Brasil tem uma enorme dívida social com a população mais pobre, principalmente com a população negra, pois além de sofrer discriminação pela pobreza também é discriminada pela “raça”1, tornando um dos grupos sociais brasileiros que se encontra nas piores condições de vida e de trabalho. Encontra-se nesta condição exatamente pela forma em que este grupo foi relegado no decorrer da história brasileira. “A política pública promovida pelo Estado e por governos ao longo da história do país privilegiou uma pequena elite e desconsiderou todo o restante da sociedade”.2 Na história brasileira, o negro é inserido e permanece na condição de escravo por quase 400 anos. Durante esse longo período, o sistema escravista existiu legalmente, sendo, o negro, usado como mão-de-obra e mercadoria, dentro da lógica mercantilista de acumulação de capital dos países europeus. O genocídio dos povos nativos do território americano e a escravidão de povos africanos demonstram a força da brutalidade usada pelo europeu para atingir seu objetivo de acumular capital. Assim, o despertar do capitalismo, em sua fase comercial, é marcado pela atitude mais grosseira, rude, que a espécie humana já praticou – a escravidão. A história do Brasil tem esta marca: ter sido palco de uma escravidão extremamente agressiva, violenta. 1 HEILBORN, Maria Luiza; ARAÚJO, Leila; BARRETO, Andreia (org.). Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça/GPP – GeR. Rio de Janeiro: CEPESC; Brasília: Secretaria de Políticas para as mulheres, módulo I, 2010, p.22 e 23. Do ponto de vista científico não existem raças humanas; há apenas uma raça humana. No entanto, do ponto de vista social e político é possível (e necessário) reconhecer a existência do racismo enquanto atitude. Assim só há sentido em usar o termo raça numa sociedade racializada, ou seja, que define a trajetória social dos indivíduos em razão da sua aparência. Segundo Kabengele Munanga, professor de antropologia da USP, o conceito de raça, tal como empregamos hoje, nada tem de biológico. É um conceito carregado de ideologia, pois como todas as ideologias ele esconde uma coisa não proclamada: a relação de poder e de dominação. 2 HEILBORN, Maria Luiza; ARAÚJO, Leila; BARRETO, Andreia (org.). Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça/GPP – GeR. Rio de Janeiro: CEPESC; Brasília: Secretaria de Políticas para as mulheres, módulo IV, 2011, p. 21-22. 9 Antes mesmo de se iniciar o lento processo jurídico de abolição da escravidão, o governo brasileiro tomou medidas para impedir ao negro, quando em liberdade, o acesso a terra, que se tornaria, pela Lei de Terras de 1850, titulada por meio da compra, ou seja, somente se tornaria dono quem tivesse condições de comprar. De acordo com Carvalho, Schmitt e Turatti “ainda durante a escravidão, a Lei de Terras de 1850 veio substituir o direito à terra calcado na posse por um direito auferido via registros cartoriais que comprovassem o domínio de uma dada porção de terra”3. Ilka Boaventura Leite aborda esta Lei como um importante instrumento usado pelos grupos dominantes para manter o negro excluído do acesso a terra: Já a primeira Lei de Terras, escrita e lavrada no Brasil, datada de 1850, exclui os africanos e seus descendentes da categoria de brasileiros, situando- os numa outra categoria separada, denominada “libertos”. Desde então, atingidos por todos os tipos de racismos, arbitrariedades e violência que a cor da pele anuncia – e denuncia –, os negros foram sistematicamente expulsos ou removidos dos lugares que escolheram para viver, mesmo quando a terra chegou a ser comprada ou foi herdada de antigos senhores através de testamento lavrado em cartório.4 Quando promulgada a Lei Áurea em 1888, a terra já estava cativa. Já havia sido transformada em mercadoria e sua posse vinculada ao poder de compra do proprietário. O negro, que não possuía condições financeiras para efetuar uma compra, estava impedido de ter acesso a terra. Assim, A suposta liberdade conquistada em 1888 não representou transformação social. Os meios de produção continuaram sob controle dos mesmos grupos sociais que já os possuíam, ocorrendo a manutenção de toda a estrutura escravocrata. Contemporâneo ao período da abolição, o negro era considerado como o de pior qualidade existente na sociedade brasileira, que se apresentava fadada ao fracasso pela alta porcentagem de negros que compunha a nação. Necessitava-se 3 SCHMITT, Alessandra; TURATTI, Maria Cecília Manzoli; CARVALHO, Maria Celina Pereira de. A Atualização do Conceito de Quilombo: Identidade e território nas definições teóricas. Revista Ambiente e sociedade, São Paulo, ano V, nº 10, 1º semestre de 2002, p.3. 4 LEITE, Ilka Boaventura. Os quilombos no Brasil: questões conceituais e normativas. Etnografia, vol. IV (2), 2000, p. 335; 10 incentivar a imigração de europeus para tornar o país mais propício ao desenvolvimento, ou seja, era necessário branquear o povo brasileiro. 5 Posteriormente, prevaleceu a falsa ideologia da democracia racial, por meio da consideração de que houve uma harmoniosa relação entre as três raças – branca, negra e indígena – no processo de formação do Brasil, negando o racismo e todas as formas de exclusão sócio-político-econômicas sofridas pelo negro e índio. Essa ideologia contribuiu para o estabelecimento, a aceitação e o não questionamento dessa desigualdade, como mostra Carlos Hasenbalg, que considera a democracia racial “uma poderosa construção ideológica, cujo principal efeito tem sido manter as diferenças inter-raciais fora da arena política, criando sérios limites às demandas dos negros por igualdade”6. Essa concepção foi responsável por influenciar as decisões políticas, priorizando a implementação de políticas públicas universalistas, destinadas igualmente a todos os grupos sociais, sobrepondo às políticas afirmativas, que consistem em políticas públicas específicas para empoderar algum grupo socialmente discriminado no decorrer do processo histórico. Assim, perpetuam-se a desigualdade e, consequentemente, a exclusão social no território brasileiro, especialmente dos mesmos grupos que secularmente sofrem com a discriminação. CONJUNTURA ATUAL: MALVADA HERANÇA. A falta de política pública afirmativa, ou qualquer atitude do Estado brasileiro, para reparar os danos cometidos contra o negro, contribuiu para a tamanha desigualdade social existente no Brasil atual. Como consequência, atualmente: Dentre os 10% dos/as brasileiros/as mais pobres, 70,6% são negros/as; em setembro de 2009, um/a trabalhador/a branco/a ganhou em média 90,7% a mais que os/as trabalhadores/as 5 HEILBORN, Maria Luiza; ARAÚJO, Leila; BARRETO, Políticas Públicas em Gênero e Raça/GPP – GeR. Rio de Janeiro: de Políticas para as mulheres, módulo III, 2010. 6 HEILBORN, Maria Luiza; ARAÚJO, Leila; BARRETO, Políticas Públicas em Gênero e Raça/GPP – GeR. Rio de Janeiro: de Políticas para as mulheres, módulo I, 2010, p. 66. Andreia (orgs.). Gestão de CEPESC; Brasília: Secretaria Andreia (orgs.). Gestão de CEPESC; Brasília: Secretaria 11 negros/as; 36,3% dos/as pessoas negro/as que cursam o ensino fundamental têm mais de 18 anos, o que revela uma trajetória escolar acidentada. Para branco/as, esta proporção é de 6,1%; É verdade que o trabalho doméstico se apresenta como importante ocupação para as mulheres (93,6%), no entanto, este resultado expõe a precariedade deste tipo de ofício. Em 2008, apenas 25,8% das trabalhadoras domésticas tinham carteira assinada, contra 41,4% em mesma função. Vale destacar que esta é a área onde se concentra a maioria da população negra7. Outro bom exemplo da desigualdade social existente no país se mostra com os dados da concentração de terra, gerando uma realidade de extrema exclusão social que sobrecarrega principalmente o negro. O Brasil amarga um alto nível de concentração da terra nas mãos dos mesmos grupos sociais que secularmente apossaram e mantém o controle sobre as terras brasileiras. A tabela, abaixo, apresentada por Souza e Lima, sobre este assunto, nos indica claramente a tamanha desigualdade dessa distribuição8. TABELA 1 ÍNDICE DE GINI DA DISTRIBUIÇÃO DE TERRA PARA BRASIL E UNIDADES DE FEDERAÇÃO, 1970-95/96 REGIÃO Índice de Gini 1970 1975 1980 1985 1995/96 Brasil 0,838 0,850 0,850 0,853 0,852 Acre 0,601 0,617 0,617 0,612 0,714 Alagoas 0,830 0,841 0,841 0,855 0,860 Amapá 0,867 0,851 0,851 0,862 0,832 Amazonas 0,727 0,919 0,919 0,815 0,804 Bahia 0,795 0,806 0,806 0,835 0,829 Ceará 0,784 0,777 0,777 0,810 0,841 Distrito Federal 0,786 0,774 0,774 0,768 0,795 Espírito Santo 0,587 0,612 0,612 0,660 0,679 Goiás 0,743 0,753 0,753 0,758 0,731 Maranhão 0,923 0,924 0,924 0,921 0,901 Mato G. do Sul 0,916 0,906 0,906 0,856 0,816 Mato Grosso 0,939 0,941 0,941 0,907 0,866 Minas Gerais 0,742 0,748 0,748 0,764 0,765 Pará 0,877 0,868 0,868 0,822 0,809 7 8 Idem, p 54; SOUZA, Paulo Marcelo de; LIMA, João Eustáquio de. A Distribuição da Terra no Brasil e nas Unidades da Federação, 1970-95/96. Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v. 34, n. 1, jan-mar. 2003, p. 118. Disponível em: http://www.bnb.gov.br/content/aplicacao/Publicacoes/RENNumeros_Publicados/docs/ren2003_v34_n1_a4.pdf Acessado em 21 de julho de 2012; às 18:42 horas. 12 Paraíba 0,817 0,841 0,841 0,839 0,830 Paraná 0,690 0,719 0,719 0,742 0,733 Pernambuco 0,832 0,824 0,824 0,825 0,816 Piauí 0,888 0,895 0,895 0,894 0,870 Rio de Janeiro 0,783 0,784 0,784 0,810 0,784 Rio G. do Norte 0,849 0,858 0,858 0,849 0,849 Rio G. do Sul 0,746 0,746 0,746 0,755 0,755 Rondônia 0,662 0,619 0,619 0,647 0,760 Roraima 0,610 0,884 0,884 0,748 0,810 Santa Catarina 0,631 0,643 0,643 0,672 0,659 São Paulo 0,771 0,767 0,767 0,764 0,751 Sergipe 0,799 0,849 0,849 0,854 0,842 Tocantins 0,681 0,695 0,695 0,706 0,718 FONTE: SOUZA, Paulo Marcelo de; LIMA, João Eustáquio de. A Distribuição da Terra no Brasil e nas Unidades da Federação, 1970-95/96. Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v. 34, n. 1, jan-mar. 2003, p. 118. Disponível em: http://www.bnb.gov.br/content/aplicacao/Publicacoes/RENNumeros_Publicados/docs/ren2003_v34_n1_a4.pdf Acessado em 21 de julho de 2012; às 18:42 horas. Para se entender os dados da tabela anterior e refletir sobre a elevada taxa da concentração de terra no Brasil, observem os Valores do Índice de GINI expressos na tabela seguinte9: TABELA 2 CONCENTRAÇÃO DA TERRA, SEGUNDO VALORES DO ÍNDICE DE GINI Faixa do Índice de Gini 0,000 a 0,100 0,101 a 0,250 0,251 a 0,500 0,501 a 0,700 0,701 a 0,900 0,901 a 1,000 Classificação Concentração nula Concentração nula a fraca Concentração fraca a média Concentração média a forte Concentração forte a muito forte Concentração muito forte a absoluta FONTE: SOUZA, Paulo Marcelo de; LIMA, João Eustáquio de. A Distribuição da Terra no Brasil e nas Unidades da Federação, 1970-95/96. Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v. 34, n. 1, jan-mar. 2003, p. 119. Disponível em: http://www.bnb.gov.br/content/aplicacao/Publicacoes/RENNumeros_Publicados/docs/ren2003_v34_n1_a4.pdf Acessado em 21 de julho de 2012; às 18:42 horas. 9 Idem, p. 119. 13 Como se tem observado pelo Índice de GINI, a concentração de terra no Brasil atinge um nível muito forte, expressando, ao mesmo tempo, a falta de políticas públicas para colocar em prática a função social da terra. A lei que defende a propriedade está acima da defesa da vida. A QUESTÃO QUILOMBOLA COMO POLÍTICA PÚBLICA AFIRMATIVA – RESGATE DA DÍVIDA QUE O ESTADO BRASILEIRO DEVE AOS GRUPOS NEGROS. A implantação de políticas públicas afirmativas, objetivando ascender socialmente grupos historicamente discriminados, é fato muito recente no Brasil. A ascensão social negra dependia, até pouco tempo, única e exclusivamente de habilidades individuais, acarretando a permanência dos/as negros/as na pior condição sócio-econômica em relação aos demais grupos sociais do país. Há muito trabalho por se fazer em prol do resgate dessa dívida. O caminho para se atender a esse objetivo é a implantação de políticas públicas afirmativas de reconhecimento, mas, principalmente, de redistribuição de renda e riqueza, como propõe Iradj Egrare: A promoção da cidadania dos afro-descendentes extrapola qualquer valorização restrita ao campo da cultura, permeando os campos da segurança pública, prevenção e superação da violência, acesso a serviços de educação, saúde, lazer, esporte, transporte, moradia, dentre outros.10 Nancy Fraser sugere o reconhecimento de status e paridade participativa, como uma questão de justiça social: “proponho conceber o reconhecimento como uma questão de justiça”11. Ao mesmo tempo, questiona a negação desse direito: “é injusto que a alguns indivíduos e grupos seja negado o status de parceiros plenos na interação social, simplesmente como uma consequência dos padrões institucionalizados do valor cultural”12. Para que haja paridade participativa é preciso garantir condições objetivas, como ausência de desigualdades material, ou seja, é necessário que se promova a distribuição de riqueza. Mas, conquista-se 10 HEILBORN, Maria Luiza; ARAÚJO, Leila; BARRETO, Andreia (orgs.). Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça/GPP – GeR. Rio de Janeiro: CEPESC; Brasília: Secretaria de Políticas para as mulheres, módulo I, 2010, p.55. 11 FRASER, Nancy. Reconhecimento sem ética. In HEILBORN, Maria Luiza; ARAÚJO, Leila; BARRETO, Andreia (orgs.). Gestão de Políticas públicas/GPP – GeR: módulo I. Rio de Janeiro: CEPESC; Brasília: Secretaria de Políticas para as mulheres, 2010, p. 40. 12 Idem; p. 40. 14 igualdade material somente através da luta. Para este fim, é preciso empoderar os grupos sociais historicamente discriminados, alargando sua parcela de poder e participação ativa nas decisões que afetam suas vidas. E assim, despertar a identidade de resistência e de projetos, abordadas por Manuel Castells13, na conquista, posse e tomada de decisões. É necessário oportunizar ao/à negro/a o acesso aos bens essenciais como saúde, educação, meios de produção, efetuando distribuição de riqueza e reconhecendo a importância do negro para a construção da sociedade brasileira. A política pública de titulação de território quilombola se apresenta como uma recompensa, uma reparação, mesmo tardia, da negação sofrida pelo negro com o sistema escravista implantado no Brasil e suas conseqüências. EM QUE CONSISTE O SER QUILOMBOLA? O negro não aceitou passivamente a escravidão. Em todos os momentos da história brasileira percebe-se que o negro reagiu, resistiu, lutou e se organizou em busca de condições materiais que lhe garantisse a liberdade. Munanga e Gomes definem: “a esse processo de luta e organização negra existente desde a época da escravidão, podemos chamar de resistência negra”.14 A expressão máxima da resistência e organização dos grupos negros escravizados se dá com os quilombos. A princípio, o quilombo era relacionado com a fuga de negros que sofriam com a escravidão, estabelecendo-se em lugar de difícil acesso para dificultar a ação dos colonizadores. Munanga e Gomes esclarecem que este conceito tem origem no período escravista colonial, segundo os interesses da coroa portuguesa. Em 1740, o Conselho Ultramarino “considerava quilombo toda habitação de negros fugidos, que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados e nem se achem pilões nele”.15 Os mesmos autores questionam esse ponto de vista e apresentam um conceito que sugere modo de vida pautado pela colaboração e solidariedade entre as pessoas: 13 HEILBORN, Maria Luiza; ARAÚJO, Leila; BARRETO, Andreia (orgs.). Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça/GPP – GeR. Rio de Janeiro: CEPESC; Brasília: Secretaria de Políticas para as mulheres, módulo I, 2010, p. 41. 14 MUNANGA, Kabengele; GOMES, Nilma Lino. O negro no Brasil de hoje. São Paulo: Global, 2006, p. 69. 15 Idem, p. 70. 15 Neste sentido, quilombo não significa refúgio de escravos fugidos. Tratava-se de uma reunião fraterna e livre, com laços de solidariedade e convivência resultante do esforço dos negros escravizados de resgatar sua sociedade livre. Os quilombolas eram homens e mulheres que se recusavam viver sob o regime da escravidão e desenvolviam ações de rebeldia e de luta contra esse sistema.16 O acúmulo de força adquirido pela luta e resistência negra até a década de 1980, consolidou, através da Constituição Federal de 1988, com a publicação do artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), que define: “aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”17. Segundo o antropólogo, José Augusto Laranjeiras Sampaio, coordenador do grupo de trabalho sobre Quilombos da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) de 2004-2008, a constituição de 1988 abre uma nova possibilidade, diferente de todos os textos constitucionais anteriores: Fruto de intensa mobilização social, o texto da Constituição federal de 1988 é o primeiro a reconhecer a diversidade étnica e cultural que conforma a nacionalidade brasileira; que rompe com a idéia de uma nação homogênea pautada por uma única língua, um mesmo credo etc. Pela primeira vez, o Brasil se assume formalmente como país pluriétnico e multicultural.18 Essa garantia constitucional desafia o Estado brasileiro à organização necessária para a implantação do artigo 68 do ADCT. A promulgação da constituição e a necessidade de regulamentação do Artigo 68 provocaram discussões de cunho técnico e acadêmico que levaram a esta revisão dos conceitos clássicos que dominavam a historiografia sobre a escravidão, instaurando a relativização e adequação dos critérios para se conceituar quilombo, de modo que a maioria dos grupos que hoje, efetivamente, reivindicam a titulação de suas terras, pudesse ser contemplada por esta categoria, uma vez demonstrada, por meio de estudos científicos, a existência de uma identidade social e étnica por eles compartilhada, bem como a antiguidade da ocupação de suas terras e, ainda, suas 16 Idem, p. 72. FERNANDES, Marcos Antônio Oliveira (org). Constituição da República Federativa do Brasil. 18. Ed. São Paulo: Rideel, 2012, p. 113. 18 SANTOS, Maria Elizabete Gontijo dos; CAMARGO, Pablo Matos (org.). Comunidades quilombolas de Minas Gerais no séc. XXI: história e resistência. Belo Horizonte, Autêntica/CEDEFES, 2008, p 17 17 16 práticas de resistência na manutenção e reprodução de seus modos de vida característicos num determinado lugar.19 As próprias autoras, Schmitt, Turatti e Carvalho, ampliam a reflexão, defendendo que “este sentimento de pertença a um grupo e a uma terra é uma forma de expressão da identidade étnica e da territorialidade”20. Maria Neusa Mendes de Gusmão, defende que: “A territorialidade supõe identificação e defesa por parte do grupo; supõe a tradição histórica e cultural construída através dos tempos. Supõe uma relação espaço/tempo particular de constituição da comunidade negra e de sua vivência. Resulta da apropriação exclusiva do solo via seu ordenamento simbólico e engendra o conjunto de relações vividas como passado, como presente”.21 Ilka Boaventura Leite relaciona o conceito de quilombo a uma associação solidária, mesmo que ainda não possua a posse da terra: De todos os significados do quilombo, o mais recorrente é o que remete à idéia de nucleamento, de associação solidária em relação uma experiência intra e intergrupos. A territorialidade funda-se imposta por uma fronteira construída a partir de um modelo específico de segregação, mas sugere a predominância de uma dimensão relacional, mais do que de um tipo de atividade produtiva ou vinculação exclusiva com a atividade agrícola, até porque, mesmo quando ela existe ela aparece combinada a outras fontes de sobrevivência.22 Leite ainda acrescenta: O ato de aquilombar-se, ou seja, de organizar-se contra qualquer atitude ou sistema opressivo passa a ser, portanto, nos dias atuais, a chama reacesa para, na condição contemporânea, dar sentido, estimular, fortalecer a luta contra a discriminação e seus efeitos. Vem, agora, iluminar uma parte do passado, aquele que salta aos olhos pela enfática referência contida nas estatísticas onde os negros são a maioria dos socialmente excluídos. Quilombo vem a ser, portanto, o mote principal para se discutir uma parte da cidadania negada.23 19 SCHMITT, Alessandra; TURATTI, Maria Cecília Manzoli e CARVALHO, Maria Celina Pereira de. A Atualização do Conceito de Quilombo: Identidade e território nas definições teóricas. Revista Ambiente e sociedade, São Paulo, ano V, nº 10, 1º semestre de 2002, p. 3-4. 20 Idem, p. 4. 21 GUSMÃO, Neusa Maria Mendes de. Negro e Camponês: política e identidade no meio rural brasileiro. São Paulo em Perspectiva, 6 (3): 116-122, julho/setembro, 1992, p. 121. 22 LEITE, Ilka Boaventura. Os quilombos no Brasil: questões conceituais e normativas. Etnografia, vol. IV (2), 2000, p. 344. 23 Idem, p. 349. 17 Alfredo Wagner Berno de Almeida apresenta-nos a proponente esperança da execução da lei quilombola como instrumento de transformação na estrutura social: Está em pauta uma unidade social baseada em novas solidariedades, a qual está sendo construída consoante a combinação de formas de resistência que se consolidaram historicamente e o advento de uma existência coletiva capaz de se impor às estruturas de poder que regem a vida social. Tem-se uma flagrante politização do problema com o processo de consolidação do movimento quilombola enquanto força social. Sua compreensão requer os novos conceitos de etnia e de mediação capazes de permitir esclarecimentos sobre esses fenômenos políticos em transformação. A aceitação desse pressuposto concorre para libertar os argumentos analíticos de todas essas amarras construídas historicamente e que ainda hoje, mesmo com boa vontade, muitas vezes acabamos por reproduzir ante a trajetória de afirmação étnica e política que esses grupos sociais designados como quilombolas estão desenvolvendo.24 A definição do conceito de quilombola foi regulamentada somente em 2003 com o decreto 4887/03, em seu artigo 2º, estabelecendo a auto definição: Consideram-se remanescentes das comunidades de quilombos, para fins deste decreto, os grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto-atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida.25 A importância e significado do artigo 2º do decreto 4887/03 é tornar claro que no Brasil quem se define enquanto quilombola é o próprio grupo pela auto definição. O ponto de partida para se ter acesso à política pública afirmativa que garante ao quilombola uma terra para se viver consiste, primeiramente, em assumir a sua identidade. Reconhecer-se enquanto quilombola. Em segundo lugar, exigir do Estado brasileiro o cumprimento da Lei, para efetivamente, serem implantados os direitos quilombolas, com a titulação do território. 24 ALMEIDA, Alfredo Wagner Berno. Os quilombos e as novas etnias. In: O’DWYER, Eliane Cantarino (org.). Quilombos: identidade étnica e territorialidade. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002, p. 79-80. 25 ANDRADE, Lúcia M.M. de. Terra de quilombo: herança e direito. São Paulo: Comissão Pró-índio de São Paulo, 2005, p. 24. 18 FASES DO PROCESSO PARA CONQUISTAR A POSSE DA TERRA. O primeiro passo para uma comunidade iniciar o processo que objetiva a titulação da terra depende da manifestação e atitude da própria comunidade, que através da auto definição se assume enquanto quilombola. Esta auto-definição deve ser certificada pela Fundação Cultural Palmares “mediante Certidão de Registro no Cadastro Geral de Remanescentes de Comunidades de Quilombos do referido órgão”26. A identificação e a delimitação da terra reivindicada serão estabelecidas por um grupo técnico multidisciplinar, criado pelo INCRA, que elabora o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID), contendo informações detalhadas sobre os mais diversos aspectos da comunidade. Resumidamente, o RTID se subdivide em duas partes: “Relatório antropológico de caracterização histórica, econômica, ambiental e sócio-cultural da área quilombola identificada”27 e “levantamento fundiário”28. Estando em termos, o RTID será apreciado pelo Comitê de Decisão Regional do INCRA, sendo, posteriormente, encaminhado ao superintendente do INCRA para providenciar a publicação, que deve acontecer no Diário oficial da União. Concomitante à sua publicação, o RTID deve ser encaminhado a vários órgãos governamentais para que estes manifestem sobre suas competências. As fases seguintes do processo são: a contestação, sendo definidos os prazos para este fim, e a análise da situação fundiária das áreas pleiteadas. Depois de finalizados os trabalhos dessas duas fases, deve-se publicar os devidos resultados no Diário Oficial da União. Em seguida, faz-se a demarcação e, posteriormente, a titulação. Titulação de caráter coletivo, que acontece com três características bem definidas no artigo 24 da Instrução Normativa nº 49 de 29 de setembro de 2008: inalienabilidade, imprescritibilidade e de impenhorabilidade. Art. 24. O Presidente do INCRA realizará a titulação mediante a outorga de título coletivo e pró-indiviso à comunidade, em nome de sua associação legalmente constituída, sem nenhum 26 Diário oficial da união – seção 1, Brasília, n. 190, p. 84, 01 de outubro de 2008. Disponível em: http://www.in.gov.br/visualiza/index.jsp?data=01/10/2008&jornal=1&pagina=83&totalArquivos= 108. Acessado em: 21/07/2012, às 17 horas e 16 minutos. 27 Idem, p. 84. 28 Idem, p. 84. 19 ônus financeiro, com obrigatória inserção de cláusula de inalienabilidade, imprescritibilidade e de impenhorabilidade, devidamente registrada no Serviço Registral da Comarca de localização das áreas.29 A conquista do título do território é o que a comunidade Lagoa Grande, assim como tantas outras pelo Brasil afora, espera. Mas, como se observa, o processo é lento. As fases a serem cumpridas para que se chegue à titulação do território se arrastam por longos anos. 29 Idem, p. 84. 20 CAPÍTUO II: REFLEXÃO SOBRE A COMUNIDADE QUILOMBOLA LAGOA GRANDE. ORIGEM As famílias da Comunidade Lagoa Grande representam um recorte da forma como o Estado brasileiro tem tratado seu povo no decorrer dos últimos 500 anos. Como grupo negro, sua dignidade sempre foi negada. Situada no Médio Jequitinhonha, a trinta e sete quilômetros da sede do município de Jenipapo de Minas, quando pensada no contexto da grande região de Minas Novas30, onde se encontra localizada, acredita-se que a comunidade Lagoa Grande, e circunvizinhança, tenham passado pelo processo de ocupação pelo homem branco na época da decadência do ouro em Minas Novas, ainda no século XVIII. Sobre a ocupação do Médio Jequitinhonha, vejamos a conclusão de João Valdir Alves de Souza: A extração do ouro em Minas Novas era intensa e fazia a fama da região. A que parece, no entanto, foi uma fama momentânea, mas suficiente para deixar profunda marca na memória local, pois, ainda hoje, inspira vasta manifestação de saudosismo em relação a um suposto passado de glórias. Além da exploração na confluência do Bom Sucesso com o Fanado, outras minas foram descobertas nas redondezas. A três léguas ao norte, ricas minas foram descobertas no local onde se formaria o arraial de Santa Cruz da Chapada, atualmente Chapada do Norte. Um pouco mais adiante, à margem direita do rio Araçuaí, formou-e um arraial, imediatamente transformado em paróquia de Nossa Senhora da Conceição da Água Suja, mais tarde Berilo. Mais além, à margem esquerda do Araçuaí, outro arraial aurífero foi edificado, com o nome de São Domingos, virgem da Lapa no dias de hoje.31 30 JARDIM, Maria Nelly Lages. O Vale e a Vida: História do Jequitinhonha. Belo Horizonte: Armazém de Idéias, 1998, p. 78. O termo de Minas Novas fica ao norte, estendendo-se do Distrito Diamantino propriamente dito, da Serra do Itambé e da Vila do Príncipe, até os limites da Capitania da Bahia, no Rio de Contas; limita-se a leste com a capitania de Porto Seguro, pela Serra do mar e seus ramos: a Serra das Esmeraldas, dos aimorés, Negra e Jacuí; e a oeste com a jurisdição da Barra pelas extensas serras: Branca, das Almas e do Gavião, bem como o Rio Verde. 31 SOUZA, João Valdir Alves de; HENRIQUES, Márcio Simeone (org.). Vale do Jequitinhonha: formação histórica, populações e movimentos. Belo Horizonte: UFMG/PROEX, 2010, p. 31. 21 Histórias relacionadas à exploração aurífera ainda se fazem presentes na mente de muitos moradores da comunidade, como nos é relatado pelo senhor Geraldo Alves Vieira: Eu vi um negócio numa lavra aí em cima. Eu fui para encontrar com um cara que nós estávamos mexendo com um negócio. Na lavra tinha uns homens trabalhando. Então quando eu cheguei lá, por volta de 11:00 horas, eles já tinham vindo almoçar e eu subi para a lavra. Lá na lavra eu vi aquele movimento, falei “os meninos já almoçaram e já estão aí trabalhando. Eu passei lá no garimpo deles ai estava batendo, batendo, quebrando de marreta, rodando carrinho, rapando com a pá”. Eu queria entrar lá dentro do túnel, mas não entrei. Falei: “deixa eles quietos, eles estão trabalhando. Se eu entrar lá, eu vou atrapalhar”. Desci. Quando eu chego cá no barraco, os meninos estavam lá no barraco. Eu perguntei os meninos: “os meninos não eram vocês que estavam lá não?” – Não. Depois que você subiu, nós não fomos lá não. Tinha um movimento lá dentro do túnel, que fazia medo: rodando carrinho, batendo marreta, estava conversando lá dentro e não era ninguém. Nesse túnel que eu vi esse negócio, Idael também, Idael de Neco, foi ver o povo dele trabalhando. Ele foi com o Kelé. Então, eles entraram dentro desse túnel. Esse túnel tinha uns 100 metros de fundura. Kelé entrou lá com Idael. O gasômetro apagou lá dentro e eles ficaram lá dentro. Aí eles começaram a se perderem dentro do chão. Aí, quando eles viraram para trás para saírem para o lado de fora, Kelé na frente e Idael atrás, andando no escuro. Anda é com os braços abertos pegando nas paredes. Kelé bem na frente, Idael pegou na barriga de um troço, um trem cabeludo. Aí o Idael gritou: “não brinca não moço!” Kelé respondeu lá da frente: “não sou eu não moço. Eu não estou mexendo com você aí não.” E Idael abraçado com esse troço lá dentro, não sei que capeta que era. Aí Idael saiu de lá assombrado, do mesmo túnel que eu vi esse movimento.32 O negro é inserido nesse espaço, como mão-de-obra para realizar todo tipo de trabalho pesado, concomitantemente ao início da exploração branca. Há, no cemitério local, a lápide da senhora Germana Carolina Neiva Lima, com a data de seu nascimento em 15 de julho de 1867. As lembranças dessa senhora são muito vivas na memória de muitos moradores, pela fama dos maus tratos que cometia às pessoas que trabalhavam na fazenda. Segundo relatos, o nascimento dessa senhora aconteceu naquela localidade. Isso significa que desde o período em que a escravidão ainda era legalmente instituída no Brasil, já havia trabalho escravo nessa localidade. Veja foto da lápide: 32 Depoimento conferido por Geraldo Alves Vieira a Francisco Ramalho. Comunidade Lagoa Grande – município de Jenipapo de Minas – MG, no dia 29/04/2012, às 10:00 horas. 22 FOTO I LÁPIDE DE GERMANA CAROLINA NEIVA LIMA Foto I [Lápide do Túmulo de Germana Carolina Neiva Lima, Cemitério da Comunidade Lagoa Grande – município de Jenipapo de Minas – MG]. Realizada por Francisco Ramalho. Muitos lembram que seus antepassados sofreram como escravos naquela localidade. Seus avôs e pais, nascidos e criados no local, ainda realizavam trabalhos em regime de escravidão. Em entrevista, a Dona Maria do Rosário Nunes dos Santos confirma a existência dessa relação de exploração e dominação entre as pessoas, nessa localidade, abordando vários aspectos comprobatórios dessa afirmativa: Entrevistador: Nessa fazenda já teve trabalho escravo, dona Rosária? Entrevistada: Uai, os velhos falavam que já, por causa do bisavô do meu esposo e a bisavó e a avó era do tempo dos escravos. Moravam nessa mesma fazenda. Entrevistador: Como é que eles trabalhavam? Entrevistada: Uai, ficavam trabalhando pra eles (os donos da fazenda), só para ganhar o prato, porque trabalhava e não recebia. Só lá dentro da fazenda. As mulheres mesmo, a esposa do meu sogro, tudo, ficaram trabalhando somente dentro da fazenda mesmo. Entrevistador: E em relação ao sofrimento, a senhora já ouviu contar alguma coisa de que eles eram obrigados a trabalhar, a senhora poderia relatar pra gente? 23 Entrevistada: O meu sogro contava e a minha cunhada também contava, que trabalhavam e ainda agüentavam os xingos e, se facilitassem, recebia taca mesmo. E arremata que a minha sogra disse que era até filha de fazendeiro aí. Era dos Neiva. Só que deixava debaixo dos panos para não saber que ela era parente deles. Saiu daí da fazenda morta. Eles morreram todos aí dentro dessa fazenda sem nada. [...] Entrevistador: Dona Rosária, as pessoas negras que trabalhavam antes tinham liberdade para manifestar a cultura deles? Entrevistada: Não, eles saíam escondidos. À noite, depois que os patrões deitavam para dormir, aí eles saíam escondidos e iam para outra fazenda, Ribeirão de São Miguel. Os negros levavam as negras para poder dançar com eles. Lá na dança, eles falavam dança de umbigada, disse que um dia eles foram dançando, até que a cornicha de rapé (feita com chifre de boi) caiu de dentro do seio da negra e enfiou dentro do umbigo dela. Na hora que bateu, ela morreu. Eles apanharam ela morta lá e dizem que trouxeram na cacunda. Chegou e enrolou ela bem enroladinha e pôs na cama. Quando foi no outro dia de manhã, dizem que eles (os patrões) perguntavam: “por que essa mulher não levanta? Cadê a negra que não levantou para fazer o café?” Quando eles olharam, ela tava bem morta lá na cama.33 Entre outros aspectos, nesta entrevista da D. Maria do Rosário, fica clara a falta de liberdade. A manifestação cultural e os poucos momentos de lazer, aconteciam escondidos aos olhos dos patrões. Acrescentando a essa discussão, seu Manoel Esteves Otoni comenta sobre a obrigatoriedade de sempre estar à disposição para o trabalho sem remuneração e os maus tratos recebidos por seus antepassados, forçando muitas vezes a fuga: Já aqueles mais velhos, tomava taca se não viesse no serviço. Quantas vezes o velho Caio falava com pai que se ele não fosse trabalhar, vinha buscar ele. (...) Quem pegou essa taca aqui foi a minha bisavó, que era a velha Sra. Viana, tio Júlio já pode ter pegado, que ele era mais velho, era cozinheiro deles. [...] a mãe Viana trabalhava nessa fazenda e não ganhava nada. Trabalhou tanto tempo lá no Ribeirão, aqui na Canoa tinha Tereza Coelho, que quando conheceu a nossa bisavó, aqui, já a conheceu velha. Os filhos dela todos trabalhavam nessa fazenda uns até saiu dessa fazenda para outra, deve ser por causa da taca, porque eles fugiam, claro que desse povo nosso tem desses lados de queixada tudo tem deles para lá.34 33 Entrevista conferida por Maria do Rosário Nunes dos Santos a Francisco Ramalho. Comunidade Lagoa Grande – município de Jenipapo de Minas – MG, no de 28/04/2012, às 15:30 horas. 34 Depoimento conferido por Manoel Esteves Otoni a Francisco Ramalho. Comunidade Lagoa Grande – município de Jenipapo de Minas – MG, no dia 14/04/2012, às 10:00 horas. 24 De acordo com as pessoas mais velhas da comunidade, sua ancestralidade remonta há mais de dois séculos, vivendo dentro de uma mesma fazenda, subdividida em várias partes: Santa Cecília, Santa Polônia, Muquém, Ribeirão de São Miguel. Até a década de 1980, esta fazenda era terra devoluta. Uma das partes, a Fazenda Muquém, com 364 ha e 40 ares, foi medida e legitimada pela Rural Minas, a Cezar Francisco Araújo, em 18/09/1986, de acordo com o número de registro R-1.5.025, do Cartório Registro de Imóveis Minas Novas, situado à Rua Capelinha, nº 28, Bairro Saudade, da cidade de Minas Novas. Sendo, em 11/02/2009, transferida à empresa Viveiro de Mudas Santa Isabel, que mantém a propriedade dessas terras, usadas para o plantio de eucalipto. Sobre as demais partes, não foram encontrados registros naquele cartório. Mas, percebe-se que a divisão acontece somente no registro, pois todas as partes sempre foram e continuam sendo propriedade de um mesmo dono, compondo uma fazenda única de aproximadamente 1.200 hectares Os moradores da Comunidade Lagoa Grande tentam recuperar sua memória, seu passado, para se enxergarem no presente e construir sua dignidade perdida em meio às dominações e perseguições, sofridas pelos vários fazendeiros que já passaram por aquela fazenda. HISTÓRIA ATUAL: LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA Ao analisar a história da comunidade Lagoa Grande, percebe-se que os moradores não relatam somente histórias passadas, de seus pais e avós. Relatam suas próprias vidas: a falta de liberdade, a opressão, o sofrimento e, sobretudo, a exploração. Como se observa, a Dona Corina Esteves Nunes aborda todas essas questões em seu depoimento sobre o período em que Cezar Francisco Araújo era o dono da fazenda: Nós penávamos. Nós passamos até necessidade aqui. Meus meninos todos trabalhando mais Geraldo na chapada apanhando café. E meu quintalinho, até o corante que eu colhia aqui, até minha hortinha que eu colhia aqui, tinha que dá ele (se referindo ao proprietário), tinha que parti mais ele. Até o corante. Era de tudo. Cabeça de repolho desse tamanho ó (faz gesto). Ele levava. Era de tudo. E meu quintalinho aqui é assim quando não dava milho, que tem ano que não dá, né! Sabe o que ele fez da derradeira vez, tinha 15 anos que nós estávamos aqui, tudo quanto há que nós púnhamos aqui e ele levava. Eu tinha umas 25 porcas, eu tinha duas porcas e Roninho tinha uma. Três porcas criaram. O que ele fez? Aproveitou que eu tinha ido lá pra casa de mamãe, pois passava lá na casa dele, veio aqui e levou doze cabeças de porco, leitão, dava dois dessa leitoinha aí ó (mostra). E dois desse tamanho (faz gesto) já na hora de mata pra comer. Foram doze cabeças. Toda vida eu gosto de criar meus porcos para comprar coisa para meus meninos, comprar roupa, um calçado, comprar roupa de cama, comprar vasilhas. Quando eu cheguei aqui, minha filha, que eu fui no chiqueiro, um dos menino falou assim: “ô mãe Cezar veio aqui e levou todos os porcos da senhora. Pegou os maiores.” Fiquei caladinha né, daí quando eu fui no chiqueiro, falei: “Ô Benzinho, mas você não tem coração né?” (se referindo ao marido, que responde) _ Ele veio aqui e falou comigo que não deu o milho para pagar a renda, que ele levava os porcos mesmo. Uai, que caduquice é essa? Ô menina meu coração doeu nesse dia. Eu falei: “Ô benzinho, você Sabe, eu não vou lá na chapada buscar esses porcos, é porquê nós dois trabalhamos unidos. Tudo que eu quero, você quer. E tudo que você quer, eu quero. Mas esse que você fez aí, não foi meu querer não. Eu não vou nessa chapada buscar aqueles porcos de novo, porque você vai ficar com vergonha. Mas meu coração doeu. Faz falta para meus filhos”. Deixei prá lá. Falei: _ “Deus me dá outros”. E deu. Deixei prá lá, depois em diante num cobrou renda nossa mais não. Daí, ele um dia veio aqui e falou assim: _ Ó Zé Geraldo agora isso aí é seu. O quintal que tava fechado. Quer dizer que já tinha recebido o dobro daqui. _ Isso é seu ta bom. Fiquei caladinha. Só que não deu documento, né! Depois ele tomou uma batida aí e morreu. E os filhos dele venderam para outro fazendeiro. O fazendeiro veio aqui por todo mundo no curral de novo, do mesmo jeitinho que era de César e com isso ta aí até hoje.35 O quintal, a que D. Corina se refere anteriormente, é posse adquirida pelas famílias para produzirem mantimentos para a subsistência, pois garantiam a sobrevivência pelo que se produziam no quintal. A maior parte do tempo de toda a família era destinada aos trabalhos de graça, ou quase de graça, na produção da fazenda, principalmente, na produção de pastagens para gado, no cultivo e colheita de café e na produção de mantimentos para o dono da fazenda. Mas, além do trabalho de graça, eram obrigados a pagarem renda pela moradia e uso do quintal. Parte da produção do próprio quintal era destinada para o dono da terra como forma desse pagamento de renda. São muitos os relatos que demonstram a exploração e a dor sofridas por este povo. 35 Depoimento conferido por Corina Esteves Nunes a Francisco Ramalho. Comunidade Lagoa Grande – município de Jenipapo de Minas – MG, no dia 28/04/2012, às 17:30 horas. 26 CONDIÇÕES SÓCIO-ECONÔMICA-CULTURAIS Os moradores da comunidade Lagoa Grande sofrem com muitos problemas sociais, que afetam diretamente a vida das pessoas. No Brasil, mais vale a terra como mercadoria em que poucos têm acesso, do que a terra como dádiva da vida. Por isso, o acesso a terra sempre foi negado a essas famílias, que vivem isoladas em pequenos quintais cada vez mais cercados pela monocultura do eucalipto. Não conseguem produção suficiente para a própria sobrevivência, obrigando a juventude à migração compulsória para trabalhar, principalmente, no corte da cana em usinas açucareiro-alcooleiras do interior de São Paulo, ou à emigração para grandes centros urbanos. Sofrem com esse impacto da migração sazonal. Desde muito cedo, entre 17 e 18 anos, os homens jovens são forçados pela necessidade, a migrarem para trabalhar. Entre os meses de março e dezembro de todos os anos, encontram-se na comunidade somente idosos, mulheres e crianças. Gusmão refere-se à migração do meio rural brasileiro como conseqüência da pobreza “Muitos, premidos pela pobreza, abandonam tudo e passam a engrossar a periferia das grandes cidades”.36 Há uma relação direta entre migração e área produtiva. Pois, as primeiras famílias possuíam entre três e cinco hectares de terra, aproximadamente, destinada ao plantio de alimentos. Mas, uma vez que os filhos cresceram, constituíram novas famílias e continuaram trabalhando na mesma gleba, a produção proporcional por família diminuiu muito. A área, que já era pequena, tornou-se insuficiente para a produção de mantimentos, que não atende as necessidades alimentares de cada família. Pelo sistema consorciado de produção, em uma pequena área planta-se uma multiplicidade de produtos (frutas, verduras e cereais), destinados ao consumo humano e dos animais domésticos de pequeno porte. Para se produzir dependem exclusivamente da chuva. Devido às condições supra relacionadas, a comunidade ainda não tem soberania alimentar. Depende muito do que se compra. Mas, sobre o que se 36 GUSMÃO, Neusa Maria Mendes de. Negro e Camponês: política e identidade no meio rural brasileiro. São Paulo em Perspectiva, 6 (3): 116-122, julho/setembro, 1992, p 118. 27 produz é de suma importância mencionar a excelente qualidade dos alimentos, livres de qualquer insumo químico e agrotóxicos. A solidariedade faz parte do dia a dia entre algumas famílias. Usam um sistema de colaboração entre si, por meio da troca de dias, facilitando a realização das atividades produtivas. Percebe-se que o papel da mulher é fundamental para a produção, uma vez que toda a família se envolve na produção. A falta de oportunidades para estudar é retratada pela alta taxa de analfabetismo, principalmente entre as pessoas mais velhas, pois destinavam todo o seu tempo para o trabalho. Entre os homens da comunidade, somente dois jovens concluíram o ensino fundamental, sendo que desistiram de continuar estudando antes de concluir o ensino médio. Percebe-se que as mulheres possuem um nível de escolaridade superior aos homens, totalizando um número de 12 mulheres que concluíam o ensino fundamental. Mas, somente uma jovem, até o momento presente, concluiu o ensino médio. O trabalho infantil, sempre usado como meio de contribuir com a aquisição mínima de alimentos para a sobrevivência da família, apresenta-se como outro fator que propiciou a baixa escolaridade, de acordo com a fala de Seu Manoel Esteves Otoni: César também pôs nós de escravidão nessa chapada. Trabalhava uma semana nós todos aqui de casa: esses meninos todos, eu e Nadir capinando café nessa chapada. Não dava para fazer uma feira, não dava de jeito nenhum, nós capinávamos cinco talhões de café e não dava.37 Muitas famílias ainda vivem em casas de pau-a-pique, construção feita de varas entrecruzadas com enchimento de barro. Poucas habitações possuem fossa sanitária. São muitos os casos de pessoas que utilizam medicamentos de uso contínuo, principalmente para o controle da hipertensão e da doença de Chagas. A comunidade tem difícil acesso à comunicação. O telefone mais próximo se localiza em uma casa de família, em comunidade vizinha, aproximadamente há sete quilômetros de distância. Se alguém precisar de socorro, sendo necessária uma comunicação mais rápida, esse é o único meio. 37 Depoimento conferido por Manoel Esteves Otoni a Francisco Ramalho. Comunidade Lagoa Grande – município de Jenipapo de Minas – MG, no dia 14/04/2012, às 10:00 horas. 28 CONFLITO A relação de domínio e excesso de exploração tem provocado a indignação dos moradores. Em certos momentos, o conflito tornou-se inevitável. Em 2007, duas famílias jovens haviam iniciado a construção de suas casas fora do quintal da casa de seus pais, em espaço que anteriormente era usado como área de plantio. O clima se tornou tenso. A pressão e as ameaças foram constantes. Em certo momento, as duas famílias foram abusivamente retiradas de suas casas. No caderno de conflitos no campo referente ao ano de 200738, anualmente publicado pela Pastoral da Terra, encontra-se registrado sobre este conflito pela terra da Comunidade Lagoa Grande. A dor e o sofrimento destas famílias foram intensos e ainda são marcadas pelo momento de angústia que passaram. Sentimentos bem retratados no depoimento de Marinete Coelho Rodrigues sobre o momento da desapropriação: Eles derrubaram a porta. Os policiais ficaram todos lá. Ficavam com Aqueles radio amador e perguntando se tinham achado alguma coisa. Aí eles responderam: deve ser que está escondido no mato, queriam dizer que era arma. Foi só depois que eles acharam essa arma lá em casa, que eles falaram que era uma ordem de despejo. Aí depois eles chegaram avisando que nós tínhamos que arrumar nossas coisas, aí só foi chegando carro, o caminhão de Marcos Antônio e o trator e levaram as coisas nossas lá para a casa de minha sogra. Derrubaram as cercas todas com os empregados dele, tirou o arame da cerca ali. Nesse tempo tinha até a roça nossa ali. Os meninos tiveram até que quebrar a roça verde. O milho nem estava seco ainda. Eu estava grávida de dois meses, nem sei como eu não perdi a Eloisa, de tanto susto que eu levei. Fiquei tremendo dias de susto. Eles levaram nossas coisas e colocaram tudo no terreiro de minha sogra. Zé e Janete não estavam aqui e mesmo assim eles entraram e tiraram as coisas. Eles abriram a porta foi chutando e eles nem estavam na casa esse dia. Aí levaram as coisas deles e colocaram no terreiro de minha sogra a casa dela encheu esse dia. Aí a gente teve que tirar o milho do paiol tudo para nós morarmos. Arrumar as coisas lá tudo, passar barro, depois nós foi colocando nossas coisas lá dentro.39 38 CANUTO, Antônio; LUZ, Cássia Regina da Silva; AFONSO, Batista Gonçalves; SANTOS, Maria Madalena (org.). Conflitos no Campo – Brasil 2007. Goiânia, CPT Nacional, 2008, p. 26. 39 Depoimento conferido por Marinete Coelho Rodrigues a Francisco Ramalho. Comunidade Lagoa Grande – município de Jenipapo de Minas – MG, no dia 28/04/2012, às 11:30 horas. 29 Recentemente, recuperaram a posse de suas casas. Mas, o risco de conflito ainda é eminente. De acordo com Maria Neusa Mendes Gusmão, essa é a realidade do negro no campo brasileiro. O drama de seu presente, que decorre da necessidade de resistir aos mecanismos desagregadores da expansão capitalista, transforma o contexto do homem negro no campo em um contexto e luta: luta por sua terra, luta por seu trabalho; luta para assegurar a vida entre os seus, entre os parentes.40 É lamentável, que as políticas públicas para amenizar a problemática do campo brasileiro não tenham, efetivamente, sido implantadas. Consequetemente, o resultado é percebido no aumento de conflitos: O número de conflitos por terra no Brasil, em 2011, aumentou em 21,34% em relação a 2010, ao passar de 853 para 1.035. Esse aumento foi generalizado. Houve aumento em 17 das 27 unidades da Federação, em duas outras o número se manteve igual a 2010.41 Espera-se do Estado brasileiro medidas para reverter essa realidade. ORGANIZAÇÃO/IDENTIDADE O despertar dessa comunidade para a organização e luta começou em 2003 quando, através do apoio do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA) e da Pastoral da Terra (CPT), a comunidade foi impulsionada à reflexão sobre as condições de vida em que suas famílias se encontravam. Inicialmente a reflexão aconteceu em torno da opressão que sofriam para ter acesso a direitos básicos, como: água, energia elétrica e o direito de ir e vir. Não possuíam água encanada em suas residências, sendo obrigadas a consumirem água de lagoas, poluídas pelo livre acesso de animais domésticos. Mesmo existindo um poço artesiano para abastecer a escola, que se localiza no centro da comunidade bem próxima das moradias. Até para beber e cozinhar, eram proibidos de captar água do poço. Em relação à energia elétrica, viram seus cadastros serem retirados do programa Luz 40 GUSMÃO, Neusa Maria Mendes de. Negro e Camponês: política e identidade no meio rural brasileiro. São Paulo em Perspectiva, 6 (3): 116-122, julho/setembro 1992, p. 118. 41 CANUTO, Antônio; LUZ, Cássia Regina da Silva e WICHINIESKI, Isolete (org.). Conflitos no Campo. Goiânia: Expressão Popular, 2012, p. 74. 30 para Todos42, sob a alegação de que o dono da fazenda não permitia a rede de luz passar em seu terreno. Até as cancelas em estradas que dão acesso à comunidade, eram trancadas. É nesse contexto e sob essas condições que se inicia a discussão de organização pela busca da liberdade. A manifestação como quilombola acontece a partir de reflexões, reuniões que provocam o exercício de pensar e assumir a identidade. Num desses encontros, em 26 de junho de 1999, a comunidade elaborou a Ata de auto declaração, Iniciando-se assim o processo de reconhecimento como quilombola junto à Fundação Cultural Palmares (FCP), conforme trecho da ata: Depois de realizarem ampla discussão sobre o assunto, os moradores da comunidade se auto reconheceram como remanescentes quilombolas, basendo-se, digo, baseando-se nas marcantes características afro-descendentes e no reconhecimento da história de seus antepassados, que sofreram com o trabalho escravo43. Em 03 de agosto de 2009, a Fundação Cultural Palmares emitiu a certidão de auto definição, atestando que a comunidade Lagoa Grande do município de Jenipapo de Minas “se auto define como remanescentes de quilombo”44. Em 27 de janeiro de 2011, em reunião com a comunidade e Grupo Técnico interdisciplinar, nomeado pela Superintendência Regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), foi iniciado, na comunidade, o estudo antropológico pelo INCRA, em parceria com a Universidade Federal dos Vales Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Em todo percurso de organização da comunidade Lagoa Grande, a articulação de entidades tem sido de suma importância, pois apóiam e fortalecem a luta dessa comunidade. Em destaque, menciona-se a atitude impulsionadora do MPA, da CPT, da Paróquia São Sebastião de Jenipapo de Minas, especialmente a pessoa do ex-pároco Pe. Paulo José de Araújo, e da Federação dos Trabalhadores Rurais do Estado de Minas Gerais (FETAEMG). Neusa Maria Mendes de Gusmão aborda a importância dessa articulação: Por esta mesma razão, a luta pela terra, ao inserir-se no movimento mais global das lutas sociais no campo, permite às comunidades negras contar com apoios de entidades, partidos, 42 Programa Nacional de Universalização do acesso e uso da energia elétrica - “luz para todos”, instituído pelo decreto nº 4.873, de 11 de novembro de 2003. 43 Trecho da ata de auto declaração. 44 Trecho da auto-definição da Fundação Cultural Palmares. 31 etc. necessários para instrumentalizar a luta frente ao Estado, que historicamente tem sido adverso para o homem do campo.45 Atualmente, a comunidade aguarda ansiosa e esperançosa a conclusão do laudo antropológico. SONHO: TITULAÇÃO DO TERRITÓRIO Percebe-se que o objetivo e sonho principal das famílias da comunidade Lagoa Grande é conquistar o território. Adquirir a posse da terra, território quilombola, como reparação da cidadania negada a essas pessoas. Gusmão menciona que “a terra é um patrimônio comum das comunidades que a tomam como tal em razão dos fatores étnicos, da lógica endogâmica, casamento preferencial, regras de sucessão e outras disposições”46. As famílias de Lagoa Grande relatam uma história em comum, pois todos fazem parte da mesma história, em um mesmo território, sofrendo a mesma opressão e construindo o mesmo destino. Na realidade brasileira, devido à falta de acesso a terra, o negro sempre esteve a serviço dos grupos que possuem este meio de produção. O negro no rural é, assim, pequeno produtor de bens de subsistência ao mesmo tempo que força de trabalho à disposição do capital, mas é também um negro. A trajetória deste segmento envolve a presença contingente do sistema, tanto quanto envolve a transformação de a realidade histórica no tempo. Essa trajetória é resultante das condições de inserção no sistema produtivo como escravo, depois como trabalhador na roça familiar e, mais recentemente, num padrão associado a trabalhador assalariado para o capital.47 Mas, sonham com a transformação dessa realidade. Lutam pela conquista do território, pois somente assim, deixarão de ser mão-de-obra barata para o capital e construirão suas próprias alternativas. O território quilombola é o espaço de reverter parte da dominação sofrida. É a realização do sonho de liberdade. Assim, como houve o momento em que muitos foram obrigados a sair, a conquista do território propicia o retorno dos que foram. O reencontro para a prática da dignidade e do bem viver. 45 GUSMÃO, Neusa Maria Mendes de. Negro e Camponês: política e identidade no meio rural brasileiro. São Paulo em Perspectiva, 6 (3): 116-122, julho/setembro 1992, p. 121. 46 Idem, p. 119. 47 Idem, p. 117. 32 Quebrar paradigmas, secularmente construídos e enraizados, na busca de uma sociedade racialmente igualitária depende ainda de muita força, pois provoca mudanças na estrutura de poder local e do país. Mas, este é o propósito. 33 CAPÍTULO III DESAFIOS ATUAIS: Adquirir a posse da terra, para produzir, alimentar-se e manifestar livremente suas expressões culturais quilombolas, é o aspecto principal dessa conquista. Nesse sentido, a luta pela conquista da terra, enquanto espaço de reprodução do viver quilombola, se faz de suma importância para diminuir a desigualdade social, especificamente a desigualdade na distribuição da terra, no campo brasileiro. Mas, a articulação dos movimentos sociais, aqui se inclua os grupos quilombolas, assim como, as conquistas acumuladas por essa facção da sociedade, especificamente com a publicação do artigo 68 dos ADCT e o decreto 4887/03, são entendidos pelos grupos dominantes como uma ameaça aos seus privilégios acumulados no decorrer do processo histórico brasileiro. Faz-se pressão para que essa política pública de reparação aos grupos negros não prossiga, não vá adiante. Falta vontade política48 por parte do Estado brasileiro, hegemonicamente, controlado por grupos conservadores. Como já mencionado anteriormente, o processo é lento e o resultado pequeno. O governo Lula chegou ao seu último ano de mandato emitindo apenas 11 títulos às comunidades quilombolas, com a promessa de que seriam 57 comunidades em 2010. Até dezembro de 2011, somente 3 das 44 áreas decretadas para desapropriação havia sido tituladas pelo governo federal.49 Em Minas Gerais, por exemplo, até 2008, existia somente uma comunidade com posse da terra, Porto Coris, em Leme do Prado, que acabou sendo inundada com a construção da barragem hidrelétrica de Irapé. 48 SANTOS, Maria Elizabete Gontijo dos; CAMARGO, Pablo Matos (org.). Comunidades quilombolas de Minas Gerais no séc. XXI: história e resistência. Belo Horizonte, Autêntica/CEDEFES, 2008. 49 CANUTO, Antônio; LUZ, Cássia Regina da Silva; WICHINIESKI, Isolete (org.). Conflitos no Campo. Goiânia: Expressão Popular, 2012, p. 110. 34 Em 2004, o Partido da Frente Liberal (PFL), atual Democratas (DEM), acionou o Supremo Tribunal Federal com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) contra o decreto 4887/03. Há vários projetos de Lei, que se propõem substituir o decreto 4887/03, para minar a força transformadora da questão quilombola: As violências perpetradas pelo Estado brasileiro e particulares contra as comunidades quilombolas assumem, na atual conjuntura, uma face verdadeiramente hedionda. Trata-se não só de assassinatos, ameaças de morte, expulsões, mas também de despejos violentos determinados pelo poder Judiciário e executados pelo poder Executivo e de ataques aos direitos adquiridos pelos quilombolas no âmbito do Congresso Nacional. Entre os ataques a esses direitos estão: a Ação Direta de Inconstitucionalidade, Adin 3239, proposta pelo DEM (antigo PFL), contra o decreto 4887/2003; o projeto de Lei nº 44/07, de autoria do deputado federal Valdir Collato, do PDBSC; da PEC nº 161, de 2007; da PEC 215, já aprovada na CCJ da Câmara; da cobrança judicial de milhões de reais referente ao Imposto Territorial Rural em terras de Preto e o cada vez mais escasso orçamento público destinado à titulação de terras de quilombo.50 Diante da possibilidade de avanço na promoção da igualdade sócioeconômica de grupos negros, que vem consolidando por meio do autoreconhecimento, a elite brasileira trabalha para esvaziar a discussão sobre a questão quilombola, buscando diminuir sua força libertadora. Desarticular essas forças políticas é o maior objetivo da elite agrária brasileira. Por outro lado, há a força popular, a articulação quilombola, que se fortalece. A articulação dos movimentos sociais que somam força a esta questão de suma importância para um verdadeiro progresso brasileiro. Progresso não pautado exclusivamente pela ideologia desenvolvimentista, mas com sentido de fortalecimento da democracia social participativa. A autonomia e a soberania do povo brasileiro perpassam por temas que envolvem questões sociais como a questão quilombola. Desse embate político, o resultado não pode ser o retrocesso. 50 Idem, p. 110. 35 CONCLUSÃO O período de pesquisa e elaboração desse trabalho foi de suma importância para a percepção e esclarecimento sobre a maneira como o negro teve sua dignidade negada no processo histórico brasileiro. Dessa negação, surge a indignação e o impulso de luta em busca do resgate sócio-político-econômico. Marcante é a luta pela conquista da terra, que atualmente ganha expressão mais abrangente para os grupos negros com o significado de território – a terra não entendida, única e somente, como meio de produção para a sobrevivência. Mas, além disso, espaço de reprodução dos costumes e de toda particularidade do modo de viver do negro, que ainda busca sua proclamação de independência e liberdade. O contato direto com a comunidade Lagoa grande propiciou aprofundamento do conhecimento da realidade local reflexão sobre as condições de sobrevivência e perspectiva de organização da comunidade. No aspecto pessoal, este estudo representou relevante crescimento de cunho individual, contribuindo para o amadurecimento, enquanto pessoa, professor e militante de movimento social. 36 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, Alfredo Wagner Berno. Os quilombos e as novas etnias. In: O’DWYER, Eliane Cantarino (org.). Quilombos: identidade étnica e territorialidade. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002. 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