UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES
PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU”
INSTITUTO A VEZ DO MESTRE
BULLYING – A AUTOAFIRMAÇÃO POR MEIO DA AGRESSÃO
Por: Carlos Augusto da Silva Santos Júnior
Orientador
Prof. Ana Paula Ribeiro
Rio de Janeiro
2010
2
UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES
PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU”
INSTITUTO A VEZ DO MESTRE
BULLYING – A AUTOAFIRMAÇÃO POR MEIO DA AGRESSÃO
Apresentação
Candido
de
Mendes
monografia
como
à
requisito
Universidade
parcial
para
obtenção do grau de especialista em Psicologia
Jurídica
Por: Carlos Augusto da Silva Santos Júnior
3
AGRADECIMENTOS
Agradeço a todos que, direta ou
indiretamente,
contribuíram
elaboração deste trabalho.
para
4
DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho aos meus pais,
eternos professores da faculdade da vida.
5
METODOLOGIA
Este trabalho foi elaborado com base no exposto no manual “Como
Produzir uma Monografia Passo a Passo – Siga o Mapa da Mina”.
Para o seu desenvolvimento, foi feita pesquisa bibliográfica, bem como
pesquisa do tema em sites da internet, filmes e artigos de jornais de grande
circulação.
Ressalta-se que a pesquisa em jornais foi de extrema importância para o
desenvolvimento deste trabalho – uma vez que o referido tema tem sido
bastante noticiado atualmente.
6
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
7
CAPÍTULO I -
BULLYING E AGRESSÕES SIMILARES
9
CAPÍTULO II -
PANORAMA GERAL DO BULLYING
19
CAPÍTULO III –
CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS DO BULLYING 29
CONCLUSÃO
39
ANEXOS
48
BIBLIOGRAFIA
52
ÍNDICE
53
7
INTRODUÇÃO
Eis aí um tema bastante comentado nos dias atuais. Praticamente todos
alguma vez já passaram ou conhecem alguém que já tenha passado por tal
constrangimento – seja na escola, na vizinhança ou, até mesmo, no local de
trabalho.
Infelizmente, é cada vez mais comum a disseminação regular de
apelidos depreciativos, boatos e fofocas, que acabam por levar suas vítimas ao
isolamento, à fobia social e, em casos extremos, ao desejo de vingança por
conta das humilhações sofridas.
O bullying é diferente de uma brincadeira inocente, sem intenção de
ferir. Não se trata de um ato de violência pontual, de troca de ofensas no calor
de uma discussão, mas sim de atitudes hostis, que violam o direito a
integridade física e psicológica e à dignidade humana. Ameaça o direito à
educação, ao desenvolvimento, a saúde e a sobrevivência de muitas vítimas.
As vítimas se sentem indefesas, vulneráveis, com medo e vergonha, o que
favorece o rebaixamento de sua auto-estima e a vitimização continuada e
crônica.
Em todo o mundo, milhões de estudantes deixam de comparecer às
aulas por medo de sofrer bullying. Muitas pessoas vão para o local de trabalho
receosas com a intimidação constante em seu ambiente profissional. Isso sem
mencionar pessoas que se tornam anti-sociais temendo virar alvo de fofocas ou
boatos em sua vizinhança.
O bullying interfere no processo de aprendizagem e no desenvolvimento
cognitivo, sensorial e emocional. Favorece o surgimento de um clima escolar
de medo e insegurança, tanto para aqueles que são alvos como para os que
assistem calados às mais variadas formas de ataques. O baixo nível de
aproveitamento, a dificuldade de integração social, o desenvolvimento ou
agravamento das síndromes de aprendizagem, os altos índices de reprovação
e evasão escolar têm o bullying como uma de suas causas.
Esta agressão – que, por muitas vezes, é interpretada como “brincadeira
própria da idade”, no caso de crianças e adolescentes - traz uma série de
8
prejuízos, que se refletem não apenas no processo de aprendizagem e
socialização, mas, sobretudo, na saúde do indivíduo.
Muitos indivíduos que são vítimas de bullying por um período prolongado
de tempo manifestam tendências suicidas ou dão cabo à própria existência.
Outros tantos reproduzem a vitimização contra terceiros ou integram-se às
gangues com o intuito de revide. Alguns, após anos de sofrimento, chegam ao
limite de suas forças e, não suportando mais as humilhações que lhes são
imputadas, entram armados na escola, protagonizando grandes tragédias.
Como podemos ver, o bullying, mais do que uma manifestação de
intolerância, é um tema de grande relevância.
9
CAPÍTULO I
BULLYING E AGRESSÕES SIMILARES
1.1) Conceito
Entende-se por bullying “todo ato de violencia física ou psicológica,
intencional ou repetida, praticado com a intenção de constranger uma pessoa
ou determinado grupo de indivíduos incapazes de se defender”1.
O termo bullying vem da língua inglesa, sendo usado para descrever o
desejo consciente e deliberado de maltratar uma outra pessoa e colocá-la sob
tensão, uma forma de assédio por parte de alguém mais forte em relação a
outro indivíduo (ou grupo) mais fraco – isto é, bullying deriva de bully, que
significa “valentão”, “brigão”. Tal assédio vai além dos apelidos maldosos (caso
das crianças e adolescentes), sendo, também, uma característica de quem
gosta de ofender, humilhar, discriminar e/ou intimidar outrem.
Não obstante o estrangeirismo, a adoção universal do termo bullying se
deu em razão da dificuldade em traduzi-lo para diversas línguas. Durante a
realização da Conferência Internacional Online School Bullying and Violence,
ocorrida em 2005, ficou caracterizado que o amplo conceito dado à palavra
dificulta a identificação de um termo nativo correspondente em países como
Alemanha, França, Espalha, Portugal, Brasil, e muitos outros.
Convém ressaltar que fenômeno bullying começou a ganhar espaço nos
estudos desenvolvidos por pedagogos e psicólogos ligados às instituições de
ensino, ganhando destaque em meados da década de 90.
Os alvos de bullying (as vítimas) são, geralmente, pessoas vistas como
diferentes ou “esquisitas”. Indivíduos tímidos, retraídos, passivos, submissos,
ansiosos, temerosos, com dificuldades de defesa, de expressão e de
relacionamento. Isto sem mencionar as diferenças de raça, religião, opção
sexual, desenvolvimento acadêmico, sotaque, maneira de ser e de se vestir.
1
Cf CALHAU, Lélio Braga. Bullying: o que você precisa saber, p. 09.
10
A Intimidação e a prepotência são algumas das estratégias que o bully
adota para impor sua autoridade e manter suas vítimas sob domínio. Na
família, os bullies podem ser identificados na figura de genitores, irmãos ou
cônjuges autoritários e cruéis, que atormentam a vida de suas vítimas, minando
seus esforços e sua auto-estima. Na escola eles aterrorizam, provocam,
manipulam e hostilizam os mais fracos e indefesos. No trabalho, suas atitudes
são prepotentes, dissimuladas e perversas.
Basicamente, o bullying se traduz em fazer com que alguém se sinta
inseguro, insignificante e/ou amedrontado, excluindo essa pessoa de
atividades, jogos ou de um grupo social. O que convém ser salientado não é a
ação em si, mas o efeito que esta tem sobre a vítima.
Os bullies estão em toda parte, suas atitudes podem ser notadas no
trânsito, nos condomínios, nas filas de banco, nos hospitais, nas delegacias,
nas forças armadas, nos presídios, nos asilos de idosos, na política, nas
igrejas, enfim nos mais diversos contextos sociais.
1.1.1)
Modalidades de Bullying
De acordo com o pesquisador Dan Olweus2:
“Para que um comportamento seja
caracterizado como bullying, é necessário
distinguir os maus-tratos ocasionais e não
graves dos maus tratos habituais e
graves”.
Podemos afirmar que existem duas modalidades de bullying: o bullying
direto e o bullying indireto (também conhecido como agressão social).
O bullying direto é forma de agressão comum entre indivíduos do sexo
masculino,
caracterizando-se
por
agressões
físicas
(socos,
pontapés,
empurrões, etc).
Quanto ao bullying indireto (ou agressão social), trata-se de uma forma
de intolerância mais comum entre indivíduos do sexo feminino e crianças
2
OLWEUS, Dan, apud FANTE, Cleo. Fenômeno Bullying (p.54).
11
pequenas, caracterizando-se por forçar a vítima ao isolamento social
(geralmente, em virtude de sua etnia, religião, deficiência, incapacidade, etc).
Segundo Aramis Lopes, pediatra e coordenador do Programa de
Redução do Comportamento Agressivo entre Estudantes, essa diferença entre
os agressores nas referidas modalidades de bullying se dá pelo fato de os
meninos serem mais explícitos, ao passo que as meninas são educadas para
serem mais recatadas e discretas. Sendo assim, a estratégia delas é mais sutil
que a dos bullies do sexo masculino.
1.2) Agressões Similares
Há agressões similares ao bullying, como o assédio moral, assédio
sexual, o abuso de poder e o cyberbullying.
1.2.1) Assédio Moral
O assédio moral, também chamado de mobbing, conforme afirma MarieFrance Hirigoyen, em seu livro Assédio Moral: A Violência Perversa No
Cotidiano (p. 49):
“ocorre no local de trabalho, caracterizando-se
pelo fato de o chefe se aproveitar da condição de
superior para humilhar o subalterno”.
De modo geral, o termo bullying é utilizado para definir o abuso ou
agressão em ambientes escolares, enquanto o termo mob tem sido empregado
para designar a Máfia. Logo, mobbing nos remete à idéia da constituição de
grupos com caráter mafioso no ambiente laboral, ou seja, grupos que exercem
pressões e ameaças sobre outros trabalhadores.
O assédio moral se caracteriza pela humilhação repetitiva e de longa
duração que interfere na vida do trabalhador de modo direto, comprometendo
sua identidade, dignidade e relações afetivas e sociais, ocasionando graves
12
danos à saúde física e mental, que podem evoluir para a incapacidade
laborativa, desemprego ou mesmo a morte, constituindo um risco invisível,
porém concreto, nas relações e condições de trabalho.
Existem inúmeros relatos de trabalhadores que sofreram humilhações e
maus-tratos desde que surgiram as primeiras relações de trabalho no mundo. A
novidade reside na intensificação, gravidade, amplitude e banalização do
fenômeno. Muito mais do que isso, o novo está na abordagem que tenta
estabelecer o assédio como conseqüência da organização do trabalho e a não
tratá-lo como inerente ao trabalho.
Em nosso país, a própria história relata o sofrimento a que eram
submetidos os trabalhadores, desde a época da escravidão até o período da
industrialização, pela ausência de direitos dos trabalhadores. Infelizmente, nos
dias atuais, as organizações continuam a repetir os maus-tratos a seus
empregados
ou
são
complacentes
e
coniventes
com
a
prática
de
comportamentos humilhantes, realizados por seus dirigentes.
Ressalta-se que os trabalhadores que mais sofrem este tipo de assédio
são os profissionais da saúde, da educação, de telemarketing, de comunicação
e os bancários.
1.2.2) Assédio Sexual
Conforme afirma Rodolfo Pamplona Filho, em seu livro O Assédio
Sexual Na Relação de Emprego (p.18):
“O assédio sexual é caracterizado,
geralmente, pelo fato de o superior
hierárquico se aproveitar de tal condição
para exigir favores sexuais de seu
subordinado”.
Este tipo de assédio não se restringe ao local de trabalho, podendo
ocorrer, também, em ambiente acadêmico – ou em qualquer outro local onde a
vítima se sinta constrangida publicamente com gestos ou palavras, ou ainda
13
impedida de reagir por se encontrar impossibilitada de deixar o local (como, por
exemplo, em transportes coletivos lotados).
Outra forma de assédio sexual é o ato de seduzir ou induzir a vítima a
práticas sexuais não consensuais quando esta se encontra sob efeito de
alguma substância que altere seu autocontrole, como o álcool ou alguma outra
substância alucinógena.
O assédio sexual caracteriza-se por alguma ameaça, insinuação de
ameaça ou hostilidade contra o subordinado, fundada em teor sexual.
Em geral, o assédio sexual é praticado contra mulheres. No entanto,
pode, também, ter homens como alvo.
1.2.3) Abuso de Poder
O abuso de poder se caracteriza pela imposição da vontade de um
sobre o outro, tendo por base o exercício de poder.
Dentre as modalidades de abuso de poder existentes, podemos
destacar: o abuso de poder econômico (no qual se tira vantagem ilícita de
dinheiro ou bens materiais em detrimento de outrem); político (que ocorre
quando se usa a autoridade ou influência para sobrepujar o mais fraco de
modo ilegítimo); no domínio da informação (o indivíduo detém o conhecimento
ou a informação e os nega aos demais a fim de obter vantagens); ideológico
(utiliza-se a ideologia socialmente aceita como forma de vencer opositores); e o
nepotismo (também conhecido como apadrinhamento, no qual se usa a
autoridade para favorecer alguém de forma ilícita).
1.2.4) Cyberbullying
O cyberbullying (também conhecido como “assédio virtual”) “é a
modalidade de agressão que consiste em expor a vítima ao ridículo em sites de
relacionamento”3 e, ainda, no envio de e-mails ofensivos e difamatórios.
3
Cf MALDONADO, Maria Tereza. A Face Oculta: Uma História de Bullying e Cyberbullying,
p.12.
14
Tal modalidade de agressão é comum entre adolescentes, que se
utilizam da internet (mais precisamente de sites de ódio, comunidades
preconceituosas ou blogs de intolerância) para divulgar mensagens negativas
sobre uma pessoa ou um grupo.
Trata-se de um tipo de agressão que vem preocupando especialistas,
pais e educadores em todo o mundo, por seu efeito multiplicador do sofrimento
das vítimas. Na sua prática utilizam-se as modernas ferramentas da internet e
de outras tecnologias de informação e comunicação, móveis ou fixas (leia-se:
e-mails, torpedos, blogs, fotoblogs, Orkut, MSN), com o intuito de maltratar,
humilhar e constranger. É uma forma de ataque perversa, que extrapola em
muito os muros da escola, ganhando dimensões incalculáveis.
A diferença deste para o bullying propriamente dito está nos métodos e
nas ferramentas utilizadas pelos praticantes. O bullying ocorre no mundo real,
enquanto o cyberbullying ocorre no mundo virtual. Geralmente, nas demais
formas de maus-tratos, a vítima conhece seu agressor, sejam os ataques
diretos ou indiretos. No cyberbullying, os agressores se motivam pelo
"anonimato", valendo-se de nomes falsos, apelidos ou fazendo-se passar por
outras pessoas.
Cabe atribuir o surgimento do cyberbullying ao desenvolvimento e
aprimoramento dos recursos tecnológicos de comunicação e informação,
especialmente da internet e dos telefones móveis, aliados ao despreparo ético
dos usuários em relação ao uso responsável desses recursos, ancorado no
anonimato e na certeza da impunidade, o que converteu o fenômeno num
problema social.
É necessário lembrar, ainda, que prática semelhante acontece desde há
muito tempo, em brincadeiras de "amigo oculto", ou de "correio elegante". Nas
trocas de mensagens algumas pessoas eram alvejadas com textos pejorativos
e os autores se escondiam no anonimato, obviamente sem os recursos
tecnológicos atuais. A intenção de ferir, de magoar e de ridicularizar é a
mesma.
15
1.3) Bullying Homofóbico
O bullying homofóbico, como o nome já sugere, consiste na prática de
ataques contra os homossexuais. Ou seja, submeter homossexuais a chacotas,
humilhações, ameaças, perseguições e exclusões sociais.
Cleo Fante e José Augusto Pedra afirmam em seu livro Bullying Escolar:
Perguntas e Respostas (p. 63):
“Em caso de ambiente escolar, muitos alunos que
assumem a sua opção sexual (ou aqueles que
parecem
assumi-la)
sofrem
terrivelmente
o
rechaço e a resistência frente à diversidade
afetivo-sexual. Essa prática infelicita ainda mais o
jovem, que está num momento de descoberta e
de auto-afirmação”.
Convém ressaltar que, nos dias atuais, muitas pessoas internalizam a
homofobia, disfarçando-a de moralismo, conservadorismo, preconceito ou
machismo exacerbado.
Devido à nossa norma social e religiosa conservadora, o tema
sexualidade ainda é um tabu, motivo pelo qual a homossexualidade é tratada
de forma preconceituosa e superficial. Por conta disso, os homossexuais são
desrespeitados, desvalorizados e ridicularizados nos diversos contextos inclusive no escolar, trazendo inúmeros prejuízos ao indivíduo em formação.
Enfatiza-se, ainda, que a maioria das escolas não está preparada para
discutir a questão. Educar para a diversidade é dever de todas as instituições
de ensino – todavia, o despreparo de muitos professores e funcionários acaba
por prejudicar ainda mais a questão. Alguns reproduzem o preconceito na
forma piadinhas, imitações, insinuações e brincadeiras dentro e fora das salas
de aula. As conseqüências de um ensino omisso ou homofóbico são inúmeras
e graves, uma vez que a escola interfere decisivamente na formação do
indivíduo.
16
1.4) Bullying Escolar
Muitos se perguntam se somente agora a perseguição contra alunos em
escolas se tornou evidente e reconhecida. Ou se só agora perceberam a
solidão de crianças marginalizadas pelos colegas.
Na verdade, estes comportamentos sempre existiram, porém, o que
mudou foi a intensidade de sua freqüência e de seu teor agressivo – reflexo de
um mundo individualista, cada vez mais bélico e carente de humanidade.
Existem vários fatores que geram tal atitude:
1)
O agressor pode ter sido, ele mesmo, alvo de bullying em
alguma época;
2)
Pode estar querendo chamar a atenção;
3)
Sente-se poderoso e superior aos outros e, assim, busca lidar
com sua baixa autoestima e complexos;
4)
Crê que o bullying trará popularidade dentro de um grupo;
5)
Sente inveja ou ciúme daquele que vem a sr a vítima;
6)
Ele mesmo (o agressor) pode ser vítima de um sistema familiar
disfuncional, no qual os pais sejam distantes e falte uma
relação afetivo/corporal entre pais e filhos, ou onde os pais
sejam superprotetores (gerando filhos egocêntricos) ou, ainda,
onde os pais sejam, eles mesmos, pessoas agressivas.
Na realidade, tais pessoas precisam tanto de ajuda quanto suas vítimas,
sob perigo de se tornarem adultos infratores da lei, com comportamentos
antissociais e/ou violentos.
1.4.1) Relação Entre o Trote Universitário e o Bullying
Culturalmente, o trote universitário não é considerado bullying, e sim um
rito de passagem esperado pelo calouro e seus familiares. Entretanto, é
17
encarado atualmente como uma prática inadequada, por ser geradora de
constrangimento e, em muitos casos, de violência.
O trote universitário é uma prática antiga, permitida e ainda tolerada pela
sociedade. Contudo, pode dar origem ao bullying na medida em que as ações
negativas
se
tomem
persistentes.
Inúmeros
calouros
acabam
sendo
ridicularizados pelos veteranos ao longo do período universitário. São
constrangidos,
apelidados
pejorativamente,
ridicularizados,
ameaçados,
perseguidos e humilhados. Muitos são obrigados a prestar serviços, pagar
festas, fotocópias, fazer trabalhos escolares ou servir de diversão para os
autores.
Por meio de tais “brincadeiras” e justificativas hierárquicas, demonstram
em suas atitudes o desrespeito, o preconceito, a intolerância e a dificuldade de
empatia e solidariedade humana.
1.4.2) Relação Entre os Professores e o Bullying
Em muitas escolas, há professores que são constantemente assediados
sexual e moralmente, humilhados, ameaçados, perseguidos e ridicularizados
por seus alunos e até mesmo por seus colegas. São agredidos com palavras
abusivas, piadinhas e comentários sexistas em sala de aula. Sofrem em seu
ambiente de trabalho, sem saber o que fazer e às vezes a quem recorrer.
Ao procurarem a direção escolar em busca de auxílio, muitos acabam
sendo mal-interpretados e rotulados de incompetentes. Quando chamam os
pais dos autores dos maus-tratos para uma conversa, a maioria não
comparece. Se reclamarem aos próprios alunos, estes geralmente dizem que
são brincadeiras inofensivas e que o professor é sensível demais. Tudo isso,
obviamente, causa grande mal-estar aos profissionais do ensino, prejudicando
sua auto-estima e o desempenho de suas funções – o que, conseqüentemente,
gera acentuado estresse, desânimo e fadiga, que se refletem nas relações
familiares e com seus alunos e colegas de trabalho.
18
Todavia, o contrário também acontece. Muitos professores (além de
outros profissionais que trabalham na escola) praticam bullying contra os
alunos. Comparam, constrangem, criticam, chamam a atenção publicamente,
menosprezam, mostram preferência a determinados alunos em detrimento de
outros, humilham. Rebaixam sua auto-estima e a capacidade de aprendizado,
agridem
verbal
e
moralmente,
fazem
comentários
depreciativos
e
preconceituosos.
Cabe frisar que a vítima de um professor sofre terrivelmente na escola,
pois esse fato gera inúmeros sentimentos negativos, cujos resultados geram
sensação de impotência – o que acaba por prejudicar o rendimento escolar e
promover a sua desmotivação para os estudos.
19
CAPÍTULO II
PANORAMA GERAL DO BULLYING
2.1) O Que As Pesquisas Mostram
Recentes pesquisas mostram que os índices mundiais de alunos
envolvidos no fenômeno em questão variam de 6 a 40%. Estudos realizados na
Noruega demonstraram que 1 em cada 7 estudantes estava envolvido em
casos de bullying, isto é, 15% do total de alunos matriculados na educação
básica seriam vítimas ou agressores. Pesquisa do Fundo das Nações Unidas
para a Infância (Unicef) em 21 países da Organização para Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre a qualidade de vida das crianças e
dos adolescentes demonstra que os Índices de bullying são alarmantes. A
maior incidência está em Portugal, na Suíça e na Áustria, que apresentam 40%
das vítimas desta violência.
Infelizmente, o bullying vem crescendo em todo o mundo (principalmente
o bullying escolar). Em 2000, os índices apontavam que 7 a 24% dos alunos
estavam envolvidos. Hoje, os índices evidenciam crescente envolvimento, de
5% a 35%. Dados obtidos pelo Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação
sobre o Bullying Escolar (Cemeobes), em 2007, revelam que a média de
envolvimento dos estudantes brasileiros é de 45% acima dos índices mundiais.
O mais preocupante é que crianças na mais tenra idade escolar já apresentam
envolvimento e evidências de prejuízos sofridos.
Acredita-se que o aumento dos índices está relacionado à tendência da
vítima de reproduzir os maus-tratos sofridos. Por isso, o fenômeno se expande
e envolve um número cada vez maior de alunos. Além desse fator, motivos
variados impulsionam o aumento das práticas de bullying nas escolas ou a
integração das vítimas em grupos que se dedicam ao assédio. Dentre eles
podemos citar o estímulo à competitividade e ao individualismo, principalmente
em decorrência da pressão exercida pela família e a escola quanto à obtenção
de resultados, especialmente nos vestibulares; a banalização da violência e a
20
certeza da impunidade; o desrespeito e a desvalorização do ser humano,
evidenciados em diversos contextos, principalmente a mídia; a educação
familiar permissiva e a ausência de limites e, sobretudo, a deficiência ou
ausência de modelos educativos baseados em valores humanos, orientados
para a convivência pacífica, solidariedade, cooperação, tolerância e respeito às
diferenças, que despertam os sentimentos de empatia, afetividade e
compaixão.
2.2) O Bullying Não É Um Fenômeno Novo
Apesar de estar sendo tão comentado nos dias atuais, o bullying sempre
existiu. Podemos dizer que o referido fenômeno existe desde o surgimento da
escola. Porém, somente há pouco mais de três décadas é que se tornou
assunto estudado, com parâmetros científicos.
Brincadeiras de mau gosto, gozações, rixas e brigas escolares sempre
existiram. Entretanto, para tudo, existem limites. Ações e comportamentos
excessivos de crianças e adolescentes no ambiente escolar, ainda ignorados
ou tratados como “normais” por pais e professores, tornou-se um grande
problema do século XXI.
Em um primeiro momento, podem parecer comportamentos agressivos
que ocorrem nas escolas e que são tradicionalmente admitidos como naturais.
Para alguns, atitudes inerentes ao “amadurecimento” de crianças e
adolescentes; para outros, ações de profundo desrespeito ao próximo e que
carecem de análise.
Em diversos países, o despertar para essa realidade se deve ao trabalho
de pesquisadores e estudiosos do assunto. Os estudos resultantes muito têm
contribuído para a conscientização de pais e profissionais das áreas de
educação, saúde e segurança pública, que passaram a se interessar e a
estudar o tema, levando em conta principalmente suas conseqüências danosas
para os envolvidos.
A escola é o primeiro contato da criança com o âmbito público, sendo
um espaço plural por natureza. Justificando-se na agitação da vida moderna,
21
onde as famílias têm um, no máximo dois filhos, sendo deixados em creches e
escolas cada vez mais cedo, os pais, indiretamente, transferem a
responsabilidade pela educação dos filhos às escolas.
É neste ambiente que crianças e adolescentes entram em contato com
um conjunto de valores diferentes daqueles de sua família. É na escola que, via
de regra, deverão aprender a viver em sociedade, tendo noções do coletivo, da
convivência harmônica e democrática.
Infelizmente, muitas escolas não admitem a existência do fenômeno.
Algumas insistem em afirmar que tais práticas não ocorrem em suas
dependências. Talvez temendo tornar-se discriminadas ou perder alunos. Há
casos de escolas que afirmam a ausência de bullying como estratégia de
marketing. Contudo, a omissão em nada contribui para a redução desse tipo de
comportamento - ao contrário, dificulta as possibilidades de ações preventivas
e colabora na sua proliferação. Por outro lado, inúmeras são as escolas em
nosso país que são conscientes do fenômeno e estão desenvolvendo
estratégias de enfrentamento que se mostram eficazes.
Vale ressaltar que o bullying acontece em todas as escolas (sejam
públicas ou privadas), independentemente da sua localização, turno ou poder
aquisitivo da comunidade escolar. O que varia são os índices encontrados em
cada realidade escolar, de acordo com a sua própria peculiaridade.
Uma prova de que o bullying não é um fenômeno novo pode ser vista
em alguns filmes antigos. Em “Forrest Gump – O Contador de Histórias”, por
exemplo (cuja história se passa no início do século XX), o protagonista (vivido
por Tom Hanks) sofre perseguições por ser um jovem problemático com QI
inferior ao do restante da população.
Outro filme antigo que traz o tema à baila é “Te Pego Lá Fora” (que se
passa na década de 1980). Este sublinha bem o bullying escolar, retratando a
figura do bully (que é um rapaz alto, forte e valentão) perseguindo a vítima (um
menino franzino, frágil e com baixa autoestima).
Retratando o bullying escolar, podemos citar, ainda, o filme “Meninas
Malvadas”, no qual uma garota criada na selva africana só conhece uma escola
aos 16 anos. Ela começa a andar com um grupo de “patricinhas” (meninas
22
fúteis) que gostam de esnobar os outros. Para vingar-se, a adolescente passa
a agir da mesma forma.
Convém citar, ainda, o longa “Nunca Fui Beijada”, no qual uma jornalista
(interpretada por Drew Barrymore) recebe a missão de fazer uma reportagem
sobre o comportamento dos adolescentes na escola. O grande problema é que
a moça nunca havia sido beijada e não era das mais populares na época de
colégio. O filme mostra como a protagonista vira motivo de chacota para seus
colegas.
2.3) Principais Locais de Ataque Às Vítimas
Convém ressaltar que os ataques às vítimas ocorrem em vários lugares pátios de recreio, playgrounds, banheiros, corredores, salas de aula,
bibliotecas, quadras esportivas, salas de informática, laboratórios e imediações
das escolas. Também ocorrem em outros locais fora da escola, mas de
convivência comum aos alunos, como condomínios, lan houses, shoppings e
outros locais onde crianças ou adolescentes se reúnem.
Na maioria dos países, constatou-se que o pátio de recreio é o lugar de
maior incidência dos ataques bullying. Entretanto, no Brasil, as pesquisas
apontam para a sala de aula. Isso se justifica pelo fato de ser tema novo de
discussão no meio educacional brasileiro, motivo pelo qual a maioria dos
professores desconhece a relevância do fenômeno e não sabe como agir ao se
deparar com a questão.
Muitos profissionais do ensino agem de acordo com as suas próprias
experiências e acreditam ser o bullying necessário para o amadurecimento do
indivíduo. Outros não dão importância por acreditarem que são "brincadeiras
próprias da idade", sem maiores conseqüências. Há ainda aqueles que pensam
que os próprios alunos devem resolver seus problemas, sem intromissão dos
adultos. Porém, todo professor, treinado ou não para lidar com o bullying, é
capaz de observar as relações interpessoais e perceber os sinais que são
emitidos por aqueles que se sentem incomodados ou vitimizados.
23
2.4) Como Os Professores Podem Identificar o Bullying
No Brasil, a bibliografia sobre o tema pode ser escassa, com poucos
livros disponíveis no mercado nacional. Todavia, existem nos meios de
comunicação (principalmente na internet) uma série de artigos e reportagens
sobre bullying. Quando os professores são treinados para a identificação, o
diagnóstico e o encaminhamento do problema, tornando-se aptos a
desenvolver estratégias psicopedagógicas de prevenção, são capazes de
intervir de forma adequada em tais circunstâncias.
É possível constatar em cursos de capacitação e pós-graduação que um
percentual expressivo de professores percebeu o bullying ou esteve envolvido
por ele quando era estudante. Muitos ainda sentem os efeitos do bullying
exercido por parte dos próprios colegas professores.
Cabe frisar, entretanto, que muitos professores e escolas têm se
empenhado nessa causa e conseguido resultados expressivos.
2.5) O Bullying Na Mídia
É do conhecimento de todos que a mídia tem divulgado bastante o tema,
principalmente após as tragédias ocorridas em inúmeras escolas de diversos
países. Tragédias resultantes do sofrimento das vítimas, que, no limite da
exaustão emocional, planejam dar fim à própria vida, procurando antes matar o
maior número possível de colegas da escola.
2.5.1) O Bullying Na Mídia Mundial
Em 1997, nos Estados Unidos (mais precisamente na cidade de West
Paducah, Kentucky), um adolescente de 14 anos atirou contra colegas,
matando quatro deles e uma professora, além de cinco feridos. Em 1998, em
Jonesboro, Arkansas, dois estudantes, de 11 e 13 anos, mataram quatro
meninas e uma professora. Ainda em 1998, em Springfield, Oregon, dois
24
adolescentes de 17 e 18 anos mataram dois colegas e feriram outros 20. Em
1999, em Littleton, Colorado, dois estudantes protagonizaram a tragédia de
Columbine. Mataram 12 colegas, um professor e deixaram dezenas de feridos,
depois se suicidaram.
Em abril de 2007, em Blacksburg, Virginia, o estudante Cho Seung-Hui,
da Universidade de Virgínia Tech, EUA, foi protagonista do maior massacre em
escola do mundo. O jovem atirou contra colegas e professores, deixando 32
mortos e 29 feridos, e depois cometeu suicídio. Colegas de classe do sulcoreano em anos anteriores disseram que ele era muito tímido e, por isso,
ridicularizado e intimidado.
Na faculdade, era alvo de muitas gozações, por causa dos textos que
escrevia. O jovem não resistiu às constantes humilhações e resolveu se vingar
dos colegas, uma vez que se sentia perseguido. Sua intenção era a de se
transformar num mártir, servir de exemplo para os futuros garotos frágeis e
indefesos iguais a ele.
Em novembro de 2007, na cidade de Tuusula, Finlândia, um jovem
isolado pelos colegas de escola, após veicular na internet um vídeo intitulado
"Massacre na Escola Jokela”, deixou oito mortos e vários feridos. A escola
Jokela Hight tinha 400 alunos entre 12 e 18 anos. Outras tragédias também
ocorreram no Canadá, no Japão, na Escócia, na Alemanha e na Argentina.
2.5.2) O Bullying Na Mídia Brasileira
Em janeiro de 2003, na cidade de Taiúva, no interior paulista, um tímido
jovem de 18 anos, depois de concluir o ensino médio, atirou contra 50 pessoas
durante o horário de recreio da escola onde estudara. Atingiu oito pessoas e
depois se matou com um tiro na cabeça. As vítimas sobreviveram, porém uma
delas ficou paraplégica.
Esse adolescente era obeso desde a infância e foi motivo de piada para
os colegas de escola. Mesmo após emagrecer mais de 30 quilos continuaram
zoando ele. Era ofendido, apelidado pejorativamente, humilhado.
Em fevereiro de 2004, na cidade de Remanso, interior baiano, outro
25
adolescente de 17 anos, também protagonizou uma tragédia. Após ser
constantemente ridicularizado e humilhado na escola, resolveu se vingar. Foi
até a casa do seu agressor principal, um garoto de 13 anos, e desferiu um tiro
em sua cabeça.
Após atirar contra o colega, seguiu para uma escola de informática para
tentar matar uma professora de quem não gostava. Uma funcionária tentou
impedir sua entrada, mas ele disparou fatalmente contra a cabeça dela e fez
mais alguns disparos, ferindo duas pessoas.
Sua intenção era a de cometer o suicídio, porém conseguiram desarmálo. Em seu bolso foi encontrado um bilhete dizendo que queria matar mais de
100 pessoas e ser conhecido na história de Remanso como o "terrorista suicida
brasileiro”.
Convém enfatizar a contribuição da imprensa na luta contra qualquer
forma de violência, seja dentro ou fora da escola. No caso específico do
bullying, é notório o crescente interesse da imprensa, na medida em que
aborda o tema e abre espaços para que estudiosos possam conscientizar,
discutir e alertar a sociedade para esse fenômeno psicossocial expansivo, de
caráter epidemiológico, que, somado a outras formas de violência, precisa ser
contido.
A imprensa é uma grande aliada para o despertar das autoridades,
especialmente no sentido de se criar políticas públicas emergenciais que visem
conter a propagação do fenômeno e encontrar soluções que reduzam sua
incidência e minimizem seus efeitos.
Um exemplo a ser citado no que diz respeito à preocupação com o
referido fenômeno é a campanha lançada pelo apresentador Serginho
Groissman. A idéia da campanha surgiu quando o seu programa (o “Altas
Horas”, da Rede Globo de Televisão) recebeu o menino Felipe Matos (que se
declarou vítima de bullying). Serginho alerta para as conseqüências
psicológicas que os atos de bullying podem causar e incentiva as conversas
entre pais e filhos, amigos e escola.
26
2.5.3) O Bullying Abordado Pelo Cinema Nacional
Recentemente (mais precisamente no primeiro semestre de 2010), o
cinema brasileiro abordou o fenômeno bullying (tanto o bullying propriamente
dito quanto o cyberbullying) no filme “As Melhores Coisas do Mundo”.
No longa, o personagem principal (um adolescente de 16 anos de idade)
sofre no colégio com o escarnecimento dos colegas após a separação dos
pais. O grande problema (o fato gerador das agressões físicas e psicológicas
sofridas pelo protagonista) é o fato de seu pai deixar a família para viver com o
namorado – assumindo, assim, a sua homossexualidade (que não é tolerada
pelos colegas de escola do rapaz).
O cyberbullying é mostrado por meio de uma das alunas do colégio que
expõe situações constrangedoras envolvendo outros alunos em um blog – que
é acessado por mais de 90% do quorum escolar, gerando, obviamente,
comentários maldosos a respeito das vítimas dessa exposição virtual.
Outro filme que aborda o tema em questão é “Antônia”. A história, que
se passa em uma periferia paulistana, enfatiza o bullying homofóbico. Um
rapaz, ao ter sua homossexualidade revelada, sofre agressões físicas dos
rapazes da comunidade – que não aceitam a sua opção sexual.
2.6) O Bullying Discutido Na Política
O bullying tem sido um tema recorrente nos debates públicos nacionais.
Em decorrência da importância do tema, a Comissão de Segurança Pública e
Combate ao Crime Organizado da Câmara Federal aprovou, recentemente, a
obrigatoriedade de escolas públicas e privadas adotarem medidas de
conscientização, prevenção, diagnose e combate ao bullying escolar.
Ligados ao tema, parlamentares da Assembleia Legislativa do Estado de
Goiás estão atentos às discussões e já formataram projetos no âmbito estadual
para combater esse problema. No início deste ano (mais precisamente em
23/02/2010), a Comissão de Constituição e Justiça da Casa aprovou a
proposta do deputado Thiago Peixoto (PMDB) sobre o bullying (humilhação,
27
agressão, ofensa) escolar. O objetivo da medida é combater a violência
psicológica e física nas escolas estaduais e privadas de educação infantil,
ensino fundamental e ensino médio de Goiás.
De acordo com o projeto, as escolas deverão incluir métodos
pedagógicos de conscientização, prevenção, diagnóstico e combate ao
bullying, respeitando as medidas estabelecidas no Estatuto da Criança e do
Adolescente. As ações serão desenvolvidas com palestras, debates,
distribuição de cartilhas de orientação aos pais, alunos, professores e
servidores.
O parlamentar alerta que, nesse momento, vários casos de violência
podem estar acontecendo em alguma instituição de ensino – e que o Poder
Público não pode ficar de braços cruzados diante de uma prática que fere a
educação e a saúde física e psicológica de nossos estudantes.
Para Thiago, outro ponto fundamental é inserir a família no processo.
Diversos especialistas da área educacional já demonstraram a necessidade de
abordar o tema com discussões envolvendo não apenas os discentes e
docentes, mas a sociedade como um todo, principalmente a família.
O deputado estadual Humberto Aidar (PT) é outro parlamentar
empenhado em combater as práticas de violência física ou psicológica nas
instituições de ensino e de educação infantil em Goiás. Um projeto de sua
autoria tramita nas Comissões da Assembléia Legislativa do Estado de Goiás e
dispõe sobre o desenvolvimento de política antibullying.Segundo o deputado, a
proposta busca reduzir a prática e promover a cidadania, a capacidade
empática e o respeito aos demais.
Além disso, pretende disseminar conhecimento sobre o fenômeno
bullying nos meios de comunicação e nas instituições, permitindo que se
identifique concretamente, em cada instituição, a incidência e a natureza
destas práticas. O desenvolvimento de planos locais de prevenção e combate,
capacitação de docentes e equipes pedagógicas, orientação de vítimas,
agressores e familiares também estão presentes no projeto de lei.
Segundo a justificativa do deputado, essa proposta impõe-se com
inequívoca necessidade de aprovação, pois aborda um problema que tem
28
preocupado pais, professores, alunos e toda uma população de crianças,
adolescentes e jovens que foram, ou são vítimas em potencial deste fenômeno
que tem assolado, especialmente, o ambiente escolar.
O texto aprovado na Câmara Federal define bullying termo sem tradução
exata no português como a prática de atos de violência física ou psíquica de
modo intencional e repetitivo, exercida por indivíduo ou grupos de indivíduos,
contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de constranger, intimidar, agredir,
causar dor, angústia ou humilhação à vítima.
O texto indica, ainda, algumas práticas classificadas como formas de
bullying: a exclusão de aluno do grupo social; a injúria, calúnia ou difamação; a
perseguição; a discriminação; e o uso de sites, redes sociais ou comunicadores
instantâneos (messengers) para incitar a violência, adulterar fotos, fatos e
dados pessoais - o chamado cyberbullying.
Ressalta-se, ainda, a aprovação de uma lei de combate ao bullying nas
escolas pela Assembléia Legislativa de MS em maio de 2010. De acordo com a
lei, em seu artigo 1º, “As escolas públicas e privadas do Estado de Mato
Grosso do Sul deverão incluir em seu projeto pedagógico Programa contendo
medidas de conscientização, prevenção e combate ao bullying escolar". A Lei
também estabelece que as escolas deverão enviar bimestralmente relatórios
sobre o problema à Secretaria de Educação e à Promotoria de Infância e
Adolescência.
29
CAPÍTULO III
CAUSAS E CONSEQUENCIAS DO BULLYING
3.1) Conseqüências do Bullying
Devido à enorme pressão a que o bullying sujeita o indivíduo, este tornase frágil. Uma vez fragilizada, a vítima apresenta dificuldades de comunicação
com os outros, o que influencia negativamente na sua capacidade de
desenvolvimento em termos sociais, profissionais e emocionais (ou afetivos).
Depois de prolongado período de tempo sendo exposta aos ataques em
questão, a vítima do bullying poderá ter prejuízos irreparáveis ao seu
desenvolvimento cognitivo, emocional e socioeducacional. Dependendo da
estrutura psicológica do indivíduo, o bullying pode causar ansiedade, tensão,
medo, raiva, irritabilidade, dificuldade de concentração, déficit de atenção,
angústia, tristeza, desgosto, apatia, cansaço, insegurança, retraimento,
sensação de impotência e rejeição, sentimentos de abandono e de
inferioridade, mágoa, oscilações do humor, desejo de vingança e pensamentos
suicidas, depressão, fobias e hiperatividade, entre outros.
Além de conviver com um estado constante de pavor, uma criança ou
adolescente vítima de bullying talvez sejam as que mais sofrem com a rejeição,
isolamento, humilhação, a tal ponto de se verem impedidas de se relacionarem
com quem ela deseja, de brincar livremente, de fazer a tarefa na escola em
grupo, porque os mais fortes e intolerantes lhe impõem tal sofrimento.
Também faz parte dessa violência impor à vítima o silêncio, isto é, ela
não pode denunciar à direção da escola nem aos pais, sob pena de piorar sua
condição de discriminada. Pais e professores só ficam sabendo do problema
através dos efeitos e danos causados (como a resistência em voltar à escola
ou a queda do rendimento escolar, por exemplo).
Ressalta-se, ainda, que, no âmbito universitário, não são raros os casos
de mestrandos e doutorandos, no decorrer de sua pesquisa, serem vítimas de
várias formas de pressão psicológica, como os prazos de entrega dos
30
trabalhos, falta de dinheiro para continuar a pesquisa, falta de apoio do
orientador, familiares, colegas e amigos. E, também, de assédio moral,
bullying, etc. O bullying, neste caso específico, tem o poder levar o pesquisador
ao travamento de sua produção intelectual, além de causar danos à sua
existência cotidiana.
Talvez o pior efeito da pressão sofrida nos casos de bullying seja a
vítima se sentir condenada à ‘inexistência’ ou à ‘invisibilidade’, geralmente
levado a cabo por grupo que combina entre si ignorar um colega, fazer de
conta que ele não existe, desqualificá-lo na sua competência intelectual, ou
rejeitar um pedido seu, etc. Há casos em que esse tipo de vítima passa a
sofrer tão baixa autoestima que nem sequer tem forças para desabafar com
alguém.
Cabe frisar que o bullying também está relacionado ao desenvolvimento
de transtornos psicológicos graves. O mais enfatizado pela mídia mundial, em
razão das tragédias provocadas, é o caso do aluno vítima, que, depois de
prolongado período de tempo sendo alvo de ataques, chega ao limiar da
sanidade e resolve dar fim à própria vida, antes, porém, levando com ele
quantos puder. Mune-se de armamento, vai à escola, lá alveja quantos pode e,
depois, comete suicídio.
Ressalta-se, ainda, que, em decorrência da vitimização, muitas crianças
se tornam ainda mais introvertidas, tristes, ansiosas ou irritadas. Geralmente,
vão se fechando e se isolando das demais, perdendo o contato com seus
colegas de classe e o interesse pelos estudos. Suas mentes ficam aprisionadas
às construções inconscientes de cadeias de pensamentos, geradoras de
emoções aversivas, que mobilizam aflição, tensão e medo de ser atacadas a
qualquer momento. Por isso, perdem a concentração e se dispersam em
viagens mentais, na expectativa aversiva de um novo ataque ou montando
estratégias de defesa, esquiva ou revide.
Quando em aula, caso tenham alguma dificuldade de entendimento ou
ainda se lhes restarem dúvidas, temem saná-las, pois sabem que se
converterão em alvos de escarnecimentos ou críticas. Como não conseguem
acompanhar o rendimento da turma, inventam desculpas para faltar às aulas,
31
uma vez que a escola tornou-se local de infelicidade e insegurança. Por isso, a
aprendizagem fica comprometida e a queda do rendimento escolar vai se
acentuando, perdendo aos poucos o interesse acadêmico.
Por esses motivos, o rendimento escolar acaba sendo prejudicado,
gerando ainda mais constrangimento. Assim, muitos alunos não resistem e
mudam de escola ou optam pela evasão escolar. Outros ainda desenvolvem
fobia escolar, comprometendo suas relações sócio-educacionais e afetivas.
Outra característica das vítimas do abuso em questão é a sua tendência
a se recolher e se isolar dos demais. Elas querem ser deixadas em paz, ou
mesmo não ser notadas por seus agressores. A vitimização compromete sua
auto-estima e, dessa forma, elas vão se fechando para novos relacionamentos,
dificultando a integração social. Muitas vítimas não superam essa dificuldade
no decorrer do seu desenvolvimento acadêmico e se tornam adultos com
probabilidades de comportamentos depressivos ou compulsivos. Tendem, a
apresentar dificuldades na vida sentimental, por não confiarem nos parceiros.
No local de trabalho, podem apresentar dificuldade para se expressar,
falar em público e liderar, déficit de concentração, insegurança, dificuldade de
resolução de conflitos, de tornada de decisões e iniciativas. Quanto à educação
dos filhos, projetam sobre eles seus medos, suas desconfianças e
inseguranças, em muitos casos tornando-se pais superprotetores.
3.2) Fatores Que Justificam A Insegurança das Vítimas
Alguns fatores podem justificar a dificuldade de defesa das vítimas,
como: estar em minoria frente aos agressores; ser de menor estatura ou força
física; apresentar pouca habilidade de defesa e de auto-expressão; inabilidade
em lidar com as circunstâncias estressantes e desagradáveis; pouca
flexibilidade psicológica e baixa resistência à frustração. No entanto, isso
ocorre principalmente por sentirem medo de seus agressores.
Podemos, ainda, salientar alguns motivos que colaboram para que a
maioria das vítimas de bullying se cale: falta de apoio e compreensão quando
se queixam para os adultos; medo de represálias dos agressores; vergonha de
32
se expor perante os colegas como incompetentes e “fracotes”; temor pelas
reações dos familiares; mobilização de raiva voltada contra si mesma, pela
incapacidade de defesa ou por concordar com os seus agressores, acreditando
ser merecedora dos maus-tratos sofridos.
Todavia, é necessário frisar que, em determinados casos, a vítima
desenvolve um mecanismo de defesa, que lhe faculta superar o problema. Elas
se dedicam ao extremo aos estudos ou a outras atividades, conseguindo
destaque e notoriedade. Como exemplo, podemos citar as gozações e a
exclusão que sofreu na escola o renomado escritor Rubem Alves. Por ser
oriundo do interior, em função das roupas que usava e do sotaque mineiro,
estudando numa escola de elite do Rio de Janeiro, ele passou por vários
sofrimentos emocionais.
Contudo, um grande número de vítimas não consegue resultado
satisfatório de auto-superação. Ao contrário, muitas pedem para ser deixadas
em paz, mas parece que ninguém as ouve. Algumas conseguem interromper
os maus-tratos mediante a violência, como forma de revide. Outras se
encorajam e buscam auxílio junto aos adultos, conseguindo ou não resultados
positivos. Em casos extremados, algumas vítimas, no limiar do sofrimento,
resolvem dar fim à própria vida. Outras se armam, se vingam de colegas e
professores, para, em seguida, cometer suicídio. Existem outras que perdem a
autoconfiança e desenvolvem tiques nervosos, ansiedade, obsessões,
compulsões, fobia escolar e social, bloqueios, dificuldade de manter-se
controlada em focos de tensão, além de transtornos psicológicos.
3.3) As Conseqüências da Vitimização no Contexto
Profissional
Segundo David E. Zimerman, em seu livro Psicanálise em Perguntas e
Respostas – Mitos e Verdades (p. 113):
"Esses traumas psicológicos ficam representados
no ego da criança, de modo que posteriores
33
acontecimentos, aparentemente banais, podem
incidir e evocar essas representações traumáticas,
determinando um estado de ‘desamparo’, muitas
vezes acompanhado de uma intensa angústia, de
um estado de pânico totalmente desproporcional
ao
manifesto
fator
desencadeante.
Os
acontecimentos externos traumáticos costumam
ser administrados pelo ego do indivíduo
traumatizado por meio de uma lenta elaboração".
Muitas vítimas de bullying abrem mão de promoções por medo de
exercer a liderança. Outras apresentam dificuldades com figuras de autoridade.
Há, ainda, aquelas que se mantêm passivas e submissas, preferindo cargos
inferiores pelo medo de lidar com situações de conflito ou de tomada de
decisões (uma vez que sua autoestima ficou prejudicada).
Alguns indivíduos vitimizados se tomam muito competentes, mas se
isolam no ambiente de trabalho, por não saber se relacionar com os colegas ou
temer a relação com o público. Outros se tomam competitivos, individualistas e
egoístas, com dificuldades de empatia, de solidariedade e de compartilhamento
de idéias. Muitos se valem de subterfúgios, como manipulação, fofoca e
difamação, para obter vantagens de ascensão. Existem, também, aqueles que
desenvolvem um nível de exigência pessoal muito rígido, com baixa resistência
à frustração, elevado nível de estresse e mecanismos compulsores.
Convém enfatizar que muitas vítimas de bullying acabam por reproduzir,
inconscientemente, a vitimização sofrida, adotando atitudes autoritárias,
agressivas, intolerantes, insinuantes e pouco afetivas, tanto no trabalho como
nas relações familiares.
3.3.1) O Apoio dos Pais no Combate ao Bullying
O bullying acontece principalmente nas escolas porque é nesse
ambiente que as crianças se reúnem e fazem amigos e inimigos. Assim, no
colégio, um adolescente pode ser considerado "escravo" por outros. Da mesma
forma, uma criança pode ser obrigada a dar dinheiro para os colegas mais
velhos e fisicamente mais fortes. Caso contrário, o jovem pode sofrer algum
34
tipo de violência. Além disso, algumas características físicas podem valer
alguns apelidos pejorativos a crianças e adolescentes.
A funcionária pública Biribaldina da Silva (nome fictício – ver anexo 1)
tem um filho de oito anos que é vítima de bullying numa escola particular da
cidade do Rio de Janeiro. Segundo ela, o filho foi apelidado pelos colegas de
“gordo” e “catarrão”, por causa de um resfriado.
De acordo com a funcionária pública, o jovem sofre muito com essa
situação. Atualmente, ele tem vergonha de comer na frente de outras pessoas por isso, não gosta de levar lanche para a escola.
Para orientar o filho e mostrar que não é defeito ser gordo, a funcionária
pública conversa muito com o menino para convencê-lo de que ele não é nada
do que as crianças dizem.
Ressalta-se, no entanto, que não são apenas crianças nas escolas que
se tornam vítimas do bullying. Ele ainda pode atingir jovens e adolescentes na
faculdade. É o caso do estudante Anzebraldo de Melo (nome fictício – ver
anexo 2), que está no quarto ano de Ciências da Computação de uma
universidade da cidade do Rio de Janeiro.
De acordo com o estudante, foram muitas as situações em que teve
vontade de bater nos colegas. O jovem contou que desde pequeno sempre foi
motivo de chacota por ser gordo – motivo pelo qual pediu ajuda aos pais, que o
orientaram a ignorar os colegas que escarneciam dele.
As marcas do bullying na infância podem permanecer na vida da pessoa
por um longo tempo, pois nem sempre é possível esquecer as humilhações da
época de escola. A assistente administrativa Marlowa Creuzibele (nome fictício
– ver anexo 3) sempre foi alvo de piadinhas por ter a pele clara e ser magra.
Quando estava na sexta série, Marlowa era conhecida pelos colegas
como “esqueleto”, “mosquito”, “tripa seca” ou “mosca morta”. Na época, a
jovem não agüentou tanta gozação e pediu transferência para o período da
manhã.
Apesar de essa situação ter acontecido há 10 anos, a jovem contou que
isso ainda traz prejuízos para a sua vida, uma vez que ela foi chamada de feia
tantas vezes que não consegue se sentir bonita.
35
3.4) Os Autores de Bullying no Contexto Social
O autor de bullying tem grande probabilidade de adotar comportamentos
antissociais ou delinqüentes, devido à falta de limites ou de modelos educativos
que direcionem seu comportamento de auto-realização na vida para ações
proativas e solidárias.
As
regras
de
convívio
escolar
e
social
são
encaradas
com
desmotivação, uma vez que ele se sente superior aos demais e aprendeu a
conviver sentindo-se mais gratificado com as próprias regras internalizadas,
que lhe dão maior notoriedade e destaque perante seus iguais.
Pela insegurança que sente, resultante da carência de amor e de limites,
suas ações são desprovidas de consideração, de empatia e de compaixão
pelos colegas, adotando postura desafiadora frente às figuras de autoridade,
como pais, professores e policiais, como expressão da necessidade de sentirse valorizado e respeitado.
Devido a isso, tais atitudes podem ser encaradas como pedido de ajuda
e sinalizador de que algo não está bem. O praticante de bullying apresenta
maior suscetibilidade ao envolvimento em gangues, brigas, tráfico, porte ilegal
de armas, abuso de álcool e de drogas. Tende a praticar a violência doméstica
e o assédio moral em seu local de trabalho, além de apresentar baixa
resistência à frustração.
Ressalta-se, ainda, que os agressores têm maior probabilidade de
praticar atos delinqüentes e criminosos e violência doméstica. O pesquisador
Dan Olweus desenvolveu estudos com um grupo de adolescentes identificados
como autores de bullying com idades entre 12 e 16 anos. Em seus estudos, ele
concluiu que, antes de completar 24 anos de idade, 60% dos adolescentes
haviam sido apenados com pelo menos uma condenação legal. Nessa mesma
linha de pesquisa, estudiosos americanos disseram haver grande probabilidade
de esses agressores ainda terem, no mínimo, mais duas condenações legais
durante a vida.
No entanto, é importante considerar inicialmente o potencial de
36
agressividade que todos temos e que é necessário e inerente à vida. É graças
à agressividade que conseguimos, por exemplo, acordar cedo, ir à escola ou
trabalhar o dia todo e ainda nos encontrarmos dispostos à noite. A
agressividade é que nos permite a determinação e a auto-superação na vida.
Nesse aspecto, a agressividade é muito positiva e faz parte do repertório
psíquico de que todos dispomos.
Outro aspecto que merece ênfase é o da agressividade manifestada
como mecanismo de defesa. Em crianças que repentinamente se mostram
agressivas, isso pode ser um sinalizador de que algo não está bem, de pedido
de socorro ou, ainda, uma crise de frustração ou de oposição, uma forma de
expressar insatisfação com a vida ou ainda a forma encontrada para conseguir
o que quer. Logo, a agressividade nas crianças precisa ser observada e
controlada. É necessário que os adultos intervenham amorosamente e com
firmeza, para conter e direcionar o impulso agressivo para ações socialmente
gratificantes.
3.5) Conseqüências Para os Espectadores do Bullying
Embora não sofram diretamente as agressões, os espectadores do
bullying podem se sentir inseguros, incomodados e mesmo traumatizados pelo
sofrimento
do
outro.
Em
caso
de
bullying
escolar,
alguns
reagem
negativamente, uma vez que seu direito de aprender em um ambiente seguro e
solidário foi violado, o que pode influenciar seu progresso acadêmico e social,
além de prejudicar sua saúde física e emocional.
Convém ressaltar que o medo de ser alvo de bullying faz com que
muitos espectadores se inibam, prejudicando sua participação nas aulas. Não
se atrevem a fazer perguntas ao professor para sanar suas dúvidas por
temerem rótulos. Assim sendo, ao longo do tempo, acumulam dúvidas e, na
maioria dos casos, os familiares não conseguem ajudá-los, por falta de tempo
ou de conhecimento do tema. Preferem faltar às aulas a participar de
determinadas atividades em grupo.
Muitos espectadores se retraem, se isolam e se tornam quase
37
imperceptíveis, para não ser notados em sala de aula. Como defesa, adotam
posturas reativas, como agressividade, passividade ou apatia, o que repercute
no desenvolvimento de suas habilidades relacionais de fazer amigos e se
integrar aos grupos. Quando adultos, podem apresentar extremo retraimento,
timidez exacerbada, dificuldade de falar em público e de ampliar sua rede de
relacionamentos.
Percebe-se, ainda, que o bullying pode despertar apatia entre os
espectadores, que são acometidos de certa inércia social e indiferença ao
sofrimento do outro – devido à banalização da própria violência e até mesmo
sua validação. Isso ocorre por vários fatores, dentre eles, o sistema de normas
socioculturais, que norteiam as crenças e as opiniões das pessoas e sua
atitude nas situações de emergência. Outros se calam em razão do temor de
se tomar a próxima vítima. Outros se mobilizam internamente, mas não sabem
o que fazer nesses casos.
É necessário que os alunos sejam orientados sobre como encaminhar
uma denúncia, de forma anônima, frente a esse tipo de violência. Para isso é
necessário que conheçam as formas seguras de encaminhamento, para não se
expor a riscos desnecessários.
Cabe frisar que o silêncio do espectador é prejudicial a si mesmo.
Todavia, é necessário, antes de qualquer coisa, entender as causas desse
silêncio. Para muitos alunos, o ato de presenciar as situações de bullying gera,
a princípio, tensão, medo, raiva, revolta, inconformismo. Com o tempo, as
atitudes adotadas pelos intimidadores passam a fazer parte do cotidiano da
escola, gerando certa acomodação ou psicoadaptação. Alguns espectadores
vêem a agressão sofrida pelo outro como fonte de diversão e prazer. Com isso,
reforçam as atitudes maldosas dos agressores ou nelas se inspiram para
perseguir a mesma presa ou eleger outra.
Contudo, há espectadores que se incomodam, se angustiam e se
sentem impotentes. Nesse caso, gostariam de ajudar os colegas vitimizados ou
denunciar a perversidade dos intimidadores - porém o medo de se transformar
na "próxima vítima", associado ao fato de não saberem como fazer uma
denúncia com segurança, os impedem.
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Por outro lado, não fica bem para a sua popularidade, caso alguém os
veja em companhia de um "fracote", que não reaja aos ataques. É bastante
delicada a situação dos espectadores, pois estes também são tomados por
sensações de constrangimento e por emoções desagradáveis.
39
CONCLUSÃO
Para prevenir os maus-tratos entre os alunos, as escolas devem
oferecer, além da qualidade de ensino, ambiente seguro para o seu
desenvolvimento emocional e socioeducacional. É necessário, ainda, adotar
estratégias de intervenção e prevenção do comportamento agressivo,
disponibilizando-se espaços para que alunos e professores discutam o tema e
encontrem soluções para as situações apresentadas pelo grupo-classe.
Em caso de o aluno faltar às aulas ou desistir da escola por causa da
vitimização do bullying, a escola primeiramente deve se informar sobre o
motivo das faltas do aluno enviando um mensageiro à casa do estudante para
saber o que está acontecendo e convocar uma reunião com os pais. É
importante conscientizar os pais ou responsáveis de que a educação é um
direito de todos e um dever do Estado e da família (art. 205 da Constituição) e
que eles poderão responder perante o juiz da Infância e da Juventude caso
mantenham a criança fora da escola, inclusive por abandono intelectual (artigo
246, do Código Penal). Se a escola não tiver sucesso, o caso deve ser
encaminhado ao Conselho Tutelar ou ao Ministério Público.
Ressalta-se que a escola pode criar uma rede antibullying transformando
os espectadores em "alunos solidários". Estes devem ser treinados a auxiliar
seus colegas dentro e fora da escola. No horário de recreio podem percorrer os
espaços isolados ou que tenha mais dificuldade de supervisão a fim de fazer
companhia aos que são excluídos ou se isolam dos demais por temerem os
ataques. Podem desenvolver atividades, como o recreio dirigido, através de
brincadeiras, pequenas apresentações teatrais, musicais e corporais, como
relaxamento ou alongamento.
Com relação à vítima do bullying, esta deve entender que o silêncio é a
pior solução. Por isso, deve buscar ajuda, conversar com os pais, professores,
coordenação escolar ou um colega sobre as vivências desagradáveis que tem
sofrido na escola ou em qualquer outro ambiente, procurar não ceder às
pressões do grupo e nem ficar em lugares isolados dos demais, para não
facilitar a intimidação. No trajeto ou no transporte escolar, ficar sempre próximo
40
dos adultos ou de um amigo confiável.
Quanto ao intimidador, precisa saber que a escola dispõe de inúmeros
profissionais dispostos a ouvi-lo e entendê-lo, bem como ajudá-lo a canalizar
sua agressividade em ações proativas. A escola deve ensiná-lo a superar seus
problemas, respeitar e conviver com as diferenças e usar o diálogo como arma
de resolução de conflitos. Por outro lado, precisa saber que o seu
comportamento não é aceitável e, como tal, é passível de punição, de acordo
com o regimento interno escolar e o ECA (Estatuto da Criança e do
Adolescente).
É sabido por todos que o mundo moderno e suas transformações vêm
afetando diversos cenários, dentre eles o das relações interpessoais. As
diversas demandas do cotidiano têm comprometido o relacionamento familiar,
proporcionando certo distanciamento entre seus integrantes. Entretanto, é
imprescindível encontrar tempo para a convivência saudável, especialmente
com os filhos, manter diálogo constante, conversar sobre os diversos aspectos
da vida, conhecer o mundo deles - e deixar que conheçam o seu. É importante
que os filhos encontrem em casa um ambiente de amor e aceitação, favorável
a que se expressem, tanto sobre seus triunfos e suas conquistas como sobre
seus fracassos e suas dificuldades nos relacionamentos, nos estudos ou em
relação a si mesmos.
É importante os pais e educadores considerarem que, antes de
repreender os filhos ou alunos, é preciso ouvi-los sem animosidades, com
disposição de ajuda ao fortalecimento da auto-estima na resolução de seus
conflitos. Para isso, é necessário que se reforcem os aspectos positivos das
crianças e seus acertos, para que se sintam seguras e confiantes. Somente
assim é possível o rompimento da barreira que impede a vítima de denunciar
as agressões (físicas ou psicológicas).
Convém salientar que os pais devem estar sempre atentos aos
comportamentos, aos hábitos, às rotinas e às atitudes dos seus filhos.
Qualquer mudança pode sinalizar que algo diferente está acontecendo. Dessa
forma, a observação e o diálogo são ferramentas indispensáveis no cotidiano.
Os pais podem disponibilizar "espaços" e abertura para que a criança
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partilhe aquilo que lhe ocorre na escola, denuncie, expresse os sentimentos e
as emoções vivenciadas por ela, evitando fazer críticas ou duvidar daquilo que
a criança está relatando ou responsabilizá-la pelo acontecido – uma vez que,
nesse momento, a vítima anseia por encontrar segurança e compreensão para
falar de seu sofrimento, sem constrangimento ou julgamento. Caso a criança
relute em falar, o ideal é que os pais procurem a escola e relatem suas
observações, para que a escola tome as mesmas providências e sejam
encontradas soluções conjuntas de intervenção.
Infelizmente, é comum encontrar pais que, ao saber da vitimização dos
filhos, rotulam a criança de “fracote”. Aliás, não somente os pais, mas outros
integrantes da família colocam a vítima numa situação de inferioridade ainda
maior. Não são poucos os casos em que ela é exposta perante irmãos e
colegas de escola, parentes, amigos da família ou vizinhos. São feitos
comentários irônicos e ela é responsabilizada pela falta de competência para
lidar com a situação difícil em que se encontra.
Sabemos que não é essa a atitude que deve ser tomada. No entanto, a
ignorância ou a reprodução de experiências vividas pelos adultos faz com que
muitos deles acreditem que, se mexerem com os "brios" da pessoa, ela reagirá
positivamente frente a determinadas circunstâncias.
É fundamental que os pais compreendam que seus filhos não nasceram
prontos e ainda estão no processo básico de formação da personalidade, por
isso ainda não adquiriram habilidades para lidar com todos os tipos de
situações da vida. Devem evitar repreender, castigar ou reagir com
agressividade quando a criança expõe suas dificuldades e "fraquezas". Neste
caso ela precisa de acolhimento, carinho, apoio e compreensão, além de ações
junto à escola, na tentativa de que providências sejam tomadas para evitar ou
interromper a vitimização.
Cabe enfatizar que muitos pais acham graça ao saber das piadinhas ou
dos apelidos que os filhos recebem na escola. Com isso desvalorizam seus
sentimentos, dizem que são bobagens, brincadeiras da idade ou os incentivam
para que façam o mesmo. Para a vítima é difícil acreditar que são brincadeiras,
pois inúmeros sentimentos desagradáveis foram vivenciados, como vergonha,
42
raiva e medo. Revidar é praticamente impossível, pois se tivessem habilidades
de defesa já as teriam usado.
É necessário que os pais entendam que não é fácil para um adolescente
confessar que é ridicularizado, perseguido ou que apanha dos colegas. É como
se fosse um sinal de fraqueza, de impotência. Talvez, seja preferível apanhar
todos os dias a contar em casa o que ocorre na escola. Portanto, se a vítima se
encoraja e pede ajuda, deve ser ouvida pronta e atentamente.
Há, ainda, os pais que ficam com raiva e vão tirar satisfação dos
agressores dos filhos. É normal que os pais fiquem com raiva, chateados ou
aborrecidos ao descobrir que seu filho se converteu em "bode expiatório" e que
não está em segurança na escola. Porém, incentivar o revide, tirar satisfação
do agressor ou de seus pais em nada ajudará. Ao contrário, pode acarretar
problemas maiores para o filho e para si.
Não são poucos os pais (principalmente as mães) que adotam atitudes
impensadas, na ânsia de interromper a vitimização: intimidam o agressor,
pedindo explicações; apertam seu braço e o ameaçam; seguram-no ou
encurralam-no para o filho revidar; discutem ou mandam irmãos maiores da
vítima darem uma "lição" no agressor; exigem da escola providências e não
dão o tempo necessário para que as estratégias surtam efeito; pedem
transferência da escola, sem resolver a questão, o que acaba resultando em
prejuízos para a vítima, uma vez que esta tenderá a enfrentar os mesmos
problemas em outra escola.
O ideal é que os pais, em parceria com a escola, encontrem soluções
tanto para os filhos que são alvos, quanto para os autores de maus-tratos.
Ambos necessitam de ajuda e, muitas vezes, de encaminhamento a outros
profissionais, especialmente da área da saúde.
Contudo, há muitas crianças e adolescentes são vítimas da violência
doméstica e do excesso de correção disciplinar – isto é, o pai ou a mãe é o
agressor do próprio filho. Neste caso, a escola deve, primeiramente, proteger a
criança ou o adolescente e encaminhar o caso ao Conselho Tutelar ou ao
Ministério Público. Em hipótese alguma se deve falar aos pais sobre as
suspeitas, pois a criança poderá sofrer represálias ou ser retirada da escola.
43
Enfatiza-se que, neste caso, a denúncia deve ser feita em caso de
suspeita ou confirmação de maus-tratos. Nesse sentido, o professor tem papel
fundamental na observação de mudanças comportamentais, na constatação de
alguma "marca" ou lesão corporal e nos sentimentos expressos pelo aluno. Se
o diretor se sentir intimidado pelo agressor ou por seu responsável, poderá
recorrer à denúncia anônima. Deve fazer registro do fato e pedir sigilo em
relatório. Caso a escola se omita, estará cometendo uma infração
administrativa grave (de acordo com o ECA, em seu art. 245).
Em relação às famílias com pouca instrução frente a um fenômeno novo
(pelo menos no que se refere à nomenclatura utilizada atualmente), urge frisar
que qualquer pai, com ou sem instrução, pode observar mudanças no
comportamento dos filhos. O ideal é que seja estabelecido um ambiente
familiar com ênfase no diálogo, no respeito e na franqueza, para que os filhos
possam se sentir seguros ante as adversidades.
Por isso, é fundamental que a escola conscientize os pais sobre o
fenômeno e os oriente na observação e nos procedimentos que devem adotar,
além do estabelecimento de parceria com a escola. É importante que os pais
não vejam seus filhos apenas como vítimas, uma vez que muitas crianças
adotam comportamentos ambíguos no contexto familiar e escolar, e que
atendam às solicitações da escola quando esta se pronunciar.
Em meio a outras atribuições, é dever da escola zelar pela proteção das
crianças e dos adolescentes que estão sob sua guarda e vigilância. Em casos
graves a escola pode ser legalmente responsabilizada. Logo, os pais devem
comunicar imediatamente a direção escolar ao saber da intimidação e exigir
que sejam tomadas as devidas providências.
Caso a escola se omita, é importante que se busque auxílio junto ao
Conselho Tutelar ou outros órgãos de proteção à criança e ao adolescente. Em
alguns países, existem centros de apoio jurídico que orientam os pais nas
questões de intimidação e auxiliam nas ações judiciais impetradas contra a
escola. Há casos noticiados em que as escolas foram responsabilizadas e
tiveram que pagar indenizações milionárias às vítimas. O ideal é que todas as
escolas tenham em seu projeto político pedagógico programas preventivos
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contra o bullying.
Cabe sublinhar, ainda, que não existe um método específico para que as
vítimas do bullying possam se livrar de seus agressores. Muitas vítimas
recorrem aos profissionais de psicologia, que as ajudam na elevação da autoestima, nas habilidades de assertividade, resolução de conflitos e autosuperação. Algumas são resilientes e encontram suas próprias soluções e, com
o tempo, superam seus traumas. Outras carregam consigo os traumas da
vitimização, podendo tomar-se adultos inseguros, tensos, depressivos ou
agressivos, capazes de reproduzir no futuro o que sofreram na escola, na
constituição familiar ou no local de trabalho.
Há, também, aquelas que, em decorrência da vitimização, podem
desenvolver transtornos psicológicos, tais como: transtornos do humor/afetivos;
transtornos neuróticos, relacionados com o estresse; e transtornos da
personalidade e do comportamento adulto. Ainda há aquelas crianças com
transtornos do desenvolvimento psicológico, que podem ter sua situação
agravada pelo envolvimento bullying.
As escolas possuem um grande instrumento para reduzir o bullying e
seus efeitos negativos. Os profissionais que atuam junto aos alunos,
especialmente os professores, devem ensina-los como cultivar a solidariedade,
a tolerância, a justiça, a cooperação e, sobretudo, o respeito às diferenças.
Com isso, os alunos aprendem a respeitar e a valorizar as diferenças
individuais, resolver seus conflitos e conviver em harmonia.
O fato é que as pessoas que têm este comportamento (os agressores)
mascaram seus próprios temores internos, tentam driblar o que as amedronta,
amedrontando alguém e ferindo o outro, por medo de serem feridos primeiro.
Tais pessoas são intimamente infelizes e tentam lançar nos demais a sua
infelicidade.
Por outro lado, pouco ou nada sentem de responsabilidade por seus
atos e, freqüentemente, desejam exercer um controle sobre outra pessoa, com
o objetivo de sempre sair ganhando. São incapazes de compreender e de
apreciar os sentimentos alheios, mas são excelentes observadores do
comportamento humano, sempre escolhendo como alvo aqueles que se
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intimidam e se mostram medrosos e covardes, ou seja, aqueles que são
facilmente derrotados.
Na realidade, tais pessoas precisam tanto de ajuda quanto as suas
vítimas, sob perigo de que venham a se tornar marginais e infratores da lei,
adultos com comportamentos anti-sociais e/ou violentos, podendo vir a adotar,
inclusive, atitudes delinqüentes ou criminosas.
O melhor antídoto para lidar com o bullying e não se tornar um alvo fácil
é gostar de si mesmo, é acreditar em si próprio, é ter uma elevada autoimagem que abarque a aceitação de suas características próprias, aceitandoas como prova de sua individualidade no mundo, e, principalmente, não cultivar
o papel de vítima perante os demais.
Os alvos são pessoas ou grupos que são prejudicados ou que sofrem as
conseqüências dos comportamentos de outros e que não dispõem de recursos,
status ou habilidade para reagir ou fazer cessar os atos danosos contra si. São,
geralmente, pouco sociáveis e um forte sentimento de insegurança os impede
de solicitar ajuda. São pessoas sem esperança quanto às possibilidades de se
adequarem ao grupo.
A baixa auto-estima é agravada por intervenções críticas ou pela
indiferença dos adultos sobre seu sofrimento. Alguns crêem ser merecedores
do que lhes é imposto. Têm poucos amigos, são passivos, quietos e não
reagem efetivamente aos atos de agressividade sofridos. Muitos passam a ter
baixo desempenho escolar, resistem ou recusam-se a ir para a escola,
chegando a simular doenças. Trocam de colégio com freqüência, ou
abandonam os estudos.
Por outro lado, é importante que se conscientize de que não está
sozinho nessa situação, não sendo culpado pelo que acontece, embora seja
responsável pelo que possa vir a acontecer, se der poder a quem o ameaça,
submetendo-se por medo. É importante que relate os fatos para outras
pessoas como amigos e adultos que fazem parte de seu convívio (seus pais,
professores, orientadores, terapeutas), pois é realmente difícil interromper esse
processo sozinho.
Quem é perseguido em bullyings, deve procurar se filiar a grupos, clubes
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ou times e, principalmente quando é novo em uma escola, deve, durante os
intervalos das aulas (ou recreio), andar próximo a um amigo ou professor,
evitando ficar só e isolado.
As testemunhas, representadas pela maioria dos alunos, convivem com
a violência e se calam em razão do temor de se tornarem as "próximas
vítimas". Apesar de não sofrerem as agressões diretamente, muitas delas
podem se sentir incomodadas com o que vêem e inseguras sobre o que fazer.
Algumas reagem negativamente diante da violação de seu direito a aprender
em um ambiente seguro, solidário e sem temores. Tudo isso pode influenciar
negativamente sobre sua capacidade de progredir acadêmica e socialmente.
A equipe de uma escola deve ficar atenta aos alunos novos e àqueles
que permanecem sozinhos e isolados, procurando conversar com eles,
desenvolver um clima de amizade e confiança e procurando inseri-los em
atividades.
Sabe-se que, quando não há intervenções efetivas contra o bullying, o
ambiente escolar torna-se totalmente contaminado. Todas as crianças, sem
exceção, são afetadas negativamente, passando a experimentar sentimentos
de ansiedade e medo.
Em acréscimo às orientações comumente dadas pela equipe docente
sobre os malefícios do bullying, é importante que o estabelecimento de ensino
crie estratégias adequadas à redução deste tipo de comportamento. É
fundamental que o tema seja divulgado e que se dê aos alunos a oportunidade
de falar sobre bullying. É importante que se faça uma pesquisa da realidade,
que se escutem opiniões a respeito e que os pais sejam informados.
A melhor maneira de se combater o bullying é através da cooperação de
todos os envolvidos: professores, funcionários, alunos e pais. Isto pode ser
feito através da criação de letras de músicas pelos alunos, da elaboração de
cartazes sobre o aspecto desumano do bullying, de atividades que promovam
debates e conscientizações sobre como lidar com este comportamento,
visando desenvolver e estabelecer lideranças positivas entre os alunos.
As escolas podem realizar, ainda, dramatizações que focalizassem
cenas de coação e desqualificação entre alunos, apresentação de vídeos sobre
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o assunto (com posterior debate entre alunos), dinâmicas de grupo visando um
compartilhamento de vivências de bullying, e reuniões com os familiares para
que possam participar do processo e se conscientizar de sua responsabilidade,
tanto na formação de alunos bully (agressores) como de alunos alvos de
bullying.
É importante lembrar que o bullying é fundamentalmente uma luta de
poder, baseada em uma liderança negativa. Sendo assim, uma medida
preventiva e profilática seria fomentar a criação de lideranças positivas em
maior número na escola – de modo a coibir a ação dos bullies.
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ANEXO 1 – ENTREVISTA
Entrevista com a funcionária pública Biribaldina da Silva (nome fictício),
cujo filho de oito anos de idade é vítima de bullying no colégio onde
estuda, na Zona Norte da Cidade do Rio de Janeiro.
Qual é a sua experiência com o bullying?
Resposta: Na verdade, quem sofre com esse problema é o meu filho de oito
anos, que é chamado pelos colegas de “gordo” e “catarrão”, por conta de um
resfriado.
Seu filho deve sofrer muito...
Resposta: Infelizmente, sim! Por causa disso, ele, agora, sente vergonha de
comer na frente de outras pessoas. Nem levar lanche para a escola ele leva
mais. E, para piorar a situação, uma coleguinha de classe dele o chamou de
gordo e fedido. Ao chegar em casa, meu filho tomou banho com um frasco
inteiro de perfume do meu marido.
E você, como mãe de uma vítima de bullying, como lida com a situação?
Resposta: Eu converso muito com eu filho a respeito disso. Sempre
procurando mostrar que ele não é nada disso que as outras crianças dizem.
Procuro apontar sempre os pontos positivos, as suas qualidades, justamente
para que ele na se sinta inferior a nenhum outro colega.
E ele está assimilando bem os seus conselhos?
Resposta: Sim! Desde que comecei a conversar com ele a respeito do
assunto, mostrando a ele que ser gordo não é sinônimo de derrota para
ninguém, notei uma diferença positiva em seu comportamento. Ele me disse,
semana passada, que alguns de seus colegas já pararam com as “zoações”.
Talvez seja um sinal de elevação da autoestima do menino...
Resposta: Espero que sim! (risos).
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ANEXO 2 – ENTREVISTA
Entrevista com o universitário Anzebraldo de Melo (nome fictício), que
sofreu com o bullying na infância e aprendeu a lidar melhor com as
gozações dos colegas na fase adulta.
Fale a respeito de sua experiência com o bullying.
Resposta: Desde pequeno, sou motivo de chacota por ser gordo! Na escola,
nas brincadeiras de rua, no clube, enfim, em qualquer lugar, sempre tinha um
para “implicar” com a minha barriga, com a minha gordura, etc...
Você sofre com isso atualmente?
Resposta: Pra você ter uma idéia, meu apelido na faculdade onde estudo é
“protuberância adiposa”! Isso sem mencionar a “galera” da turma de medicina,
que me chama de “supositório de baleia”! É dura a vida do gordinho aqui!
(risos).
E o que você faz para, digamos, suportar isso?
Resposta: Sinceramente, no meu tempo de criança, eu sofri mais com isso.
Tanto que, na época, eu pedi ajuda aos meus pais, pois não agüentava mais
ser achincalhado em todo lugar que fosse. Por diversas vezes, eu tive vontade
de bater nos meus colegas. Foi quando meus pais me aconselharam a ignorar
as brincadeiras ridículas. E funcionou, viu?!
E atualmente, você utiliza o mesmo método da infância? Ignora os
comentários maldosos dos colegas de universidade?
Resposta: Pra falar a verdade, ultimamente eu tenho levado a coisa mais pro
lado da brincadeira, sabe? Se alguém me põe um apelido, eu ponho outro na
pessoa. Dependendo da pessoa, ponho logo uns três apelidos, pra ver se ela
para de me aporrinhar... (risos).
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ANEXO 3 – ENTREVISTA
Entrevista com Marlowa Creuzibele (nome fictício), vítima de bullying na
infância que ainda não superou os traumas das gozações na sua fase
adulta.
Relate a sua experiência com o bullying, por favor.
Resposta: Desde criança, eu sempre fui alvo das gozações dos meus colegas
por ter a pele clara e ser muito magra.
Teve muitos apelidos?
Resposta: Tive vários. Na sexta série, por exemplo, ninguém na escola me
conhecia pelo nome. Só me chamavam de “esqueleto”, “mosquito”, “mosca
morta”, “tripa seca”... Isso sem mencionar os apelidos que eu não me lembro...
Como você reagia a esse tipo de escarnecimento?
Resposta: Confesso que, na época, não agüentei a “pressão” e pedi
transferência pro turno da manhã.
E qual foi o resultado disso?
Resposta: As gozações pararam, mas, eu fui tão achincalhada na época que,
até hoje, eu me olho no espelho e não consigo me achar bonita. Não consigo
nem mesmo acreditar em um elogio do meu marido.
Mas, com todo o respeito, você é uma mulher bonita, sim!
Resposta: Eu tento acreditar, mas acho que as gozações do meu tempo de
criança me deixaram traumatizada comigo mesma. Estou fazendo tratamento
com um analista para tentar mudar essa imagem negativa que me deixei criar...
Espero, de verdade, que você consiga reverter esse quadro. Que você
consiga se ver bonita no espelho! Boa sorte!
Resposta: Muito obrigada! Vou tentar! (risos).
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ANEXO 4 – FILMOGRAFIA CONSULTADA
1) “Te Pego Lá Fora” (EUA)
Título Original: Three O'Clock High
Ano de Produção: 1987
Direção: Phil Joanou
Elenco: Casey Siemaszko, Richard Tyson
Gênero: Comédia
Distribuição: Universal Pictures
2) “Forrest Gump – O Contador de Histórias” (EUA)
Título Original: Forrest Gump
Ano de Produção: 1994
Direção: Robert Zemeckis
Elenco: Tom Hanks, Robin Wright Penn, Gary Sinise, Sally Field
Gênero: Comédia Dramática
Distribuição: Columbia Tristar Pictures
3) “Meninas Malvadas” (EUA)
Título Original: Mean Girls
Ano de Produção: 2004
Direção: Tina Fey
Elenco: Lindsay Lohan, Rachel McAdams, Lacey Chabert, Amanda Seyfried
Gênero: Comédia
Distribuição: 20th Century Fox
4) “Nunca Fui Beijada” (EUA)
Título Original: Never Been Kissed
Ano de Produção: 1999
Direção: Raja Gosnell
Elenco: Drew Barrymore, David Arquette, Marley Shelton, Michael Vartan
Gênero: Comédia Romântica
Distribuição: 20th Century Fox
5) “As Melhores Coisas do Mundo” (Brasil)
Ano de Produção: 2010
Direção: Laís Bodanski
Elenco: Francisco Miguez, Denise Fraga, Zé Carlos Machado, Fiuk
Gênero: Drama
Distribuição: Warner Bros
6) “Antônia” (Brasil)
Ano de Produção: 2006
Direção: Tata Amaral
Elenco: Negra Li, Cindy Mendes, Leilah Moreno, Quelynah
Gênero: Drama Musical
Distribuição: 02 Filmes
52
BIBLIOGRAFIA:
CALHAU, Lélio Braga. Bullying: o que você precisa saber. RJ, Impetus, 2009.
TAYLOR, A.E. Bullying e Desrespeito: Como Acabar com Essa Cultura na
Escola. Artmed. 2009.
BASSEDAS, Eulália e HUGUEL, Teresa. Intervenção Educativa e Diagnóstico
Psicopedagógico. Artmed. 2009.
TIBA, Içami. Adolescentes: Quem Ama, Cuida. Integrare. 2008.
FANTE, Cleo. Fenômeno Bullying. Versus Editora. 2009.
TIBA, Içami. Família de Alta Performance: Conceitos Contemporâneos na
Educação. Integrare. 2009.
TIBA, Içami. Disciplina: Limite na Medida Certa. Integrare. 2009.
MIDDELTON-MOZ, Jane e ZAWADSKI, Mary Lee. Bullying: Estratégias de
Sobrevivência Para Crianças e Adultos. Artmed. 2009.
GUARESCHI, Pedrinho e SILVA, Michele Reis da. Bullying: Mais Sério do Que
Se Imagina. Saraiva. 2009.
FANTE, Cleo e PEDRA, José Augusto. Bullying Escolar: Perguntas e
Respostas. Artmed. 2008.
HIRIGOYEN, Marie-France. Assédio Moral: A Violência Perversa No Cotidiano.
Bertrand Brasil. 2009.
FILHO, Rodolfo Pamplona. O Assédio Sexual Na Relação de Emprego. LTR.
2009.
MALDONADO, Maria Tereza. A Face Oculta: Uma História de Bullying e
Cyberbullying. Saraiva. 2009.
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ÍNDICE
INTRODUÇÃO
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CAPÍTULO I BULLYING E AGRESSÕES SIMILARES
1.1) Conceito
1.1.1) Modalidades de Bullying
1.2) Agressões Similares
1.2.1) Assédio Moral
1.2.2) Assédio Sexual
1.2.3) Abuso de Poder
1.2.4) Cyberbullying
1.3) Bullying Homofóbico
1.4) Bullying Escolar
1.4.1) Relação Entre o Trote Universitário e o Bullying
1.4.2) Relação Entre os Professores e o Bullying
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CAPÍTULO II PANORAMA GERAL DO BULLYING
2.1) O Que As Pesquisas Mostram
2.2) O Bullying Não É Um Fenômeno Novo
2.3) Principais Locais de Ataque Às Vítimas
2.4) Como Os Professores Podem Identificar o Bullying
2.5) O Bullying Na Mídia
2.5.1) O Bullying Na Mídia Mundial
2.5.2) O Bullying Na Mídia Brasileira
2.5.3) O Bullying Abordado Pelo Cinema Nacional
2.6) O Bullying Discutido Na Política
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CAPÍTULO III –
CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS DO BULLYING
3.1) Conseqüências do Bullying
3.2) Fatores Que Justificam A Insegurança das Vítimas
3.3) As Conseqüências da Vitimização no Contexto Profissional
3.3.1) O Apoio dos Pais no Combate ao Bullying
3.4) Os Autores de Bullying no Contexto Social
3.5) Conseqüências Para os Espectadores do Bullying
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36
CONCLUSÃO
39
ANEXOS
48
BIBLIOGRAFIA
52
ÍNDICE
53
Download

instituto a vez do mestre