UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” INSTITUTO A VEZ DO MESTRE BULLYING – A AUTOAFIRMAÇÃO POR MEIO DA AGRESSÃO Por: Carlos Augusto da Silva Santos Júnior Orientador Prof. Ana Paula Ribeiro Rio de Janeiro 2010 2 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” INSTITUTO A VEZ DO MESTRE BULLYING – A AUTOAFIRMAÇÃO POR MEIO DA AGRESSÃO Apresentação Candido de Mendes monografia como à requisito Universidade parcial para obtenção do grau de especialista em Psicologia Jurídica Por: Carlos Augusto da Silva Santos Júnior 3 AGRADECIMENTOS Agradeço a todos que, direta ou indiretamente, contribuíram elaboração deste trabalho. para 4 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho aos meus pais, eternos professores da faculdade da vida. 5 METODOLOGIA Este trabalho foi elaborado com base no exposto no manual “Como Produzir uma Monografia Passo a Passo – Siga o Mapa da Mina”. Para o seu desenvolvimento, foi feita pesquisa bibliográfica, bem como pesquisa do tema em sites da internet, filmes e artigos de jornais de grande circulação. Ressalta-se que a pesquisa em jornais foi de extrema importância para o desenvolvimento deste trabalho – uma vez que o referido tema tem sido bastante noticiado atualmente. 6 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 7 CAPÍTULO I - BULLYING E AGRESSÕES SIMILARES 9 CAPÍTULO II - PANORAMA GERAL DO BULLYING 19 CAPÍTULO III – CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS DO BULLYING 29 CONCLUSÃO 39 ANEXOS 48 BIBLIOGRAFIA 52 ÍNDICE 53 7 INTRODUÇÃO Eis aí um tema bastante comentado nos dias atuais. Praticamente todos alguma vez já passaram ou conhecem alguém que já tenha passado por tal constrangimento – seja na escola, na vizinhança ou, até mesmo, no local de trabalho. Infelizmente, é cada vez mais comum a disseminação regular de apelidos depreciativos, boatos e fofocas, que acabam por levar suas vítimas ao isolamento, à fobia social e, em casos extremos, ao desejo de vingança por conta das humilhações sofridas. O bullying é diferente de uma brincadeira inocente, sem intenção de ferir. Não se trata de um ato de violência pontual, de troca de ofensas no calor de uma discussão, mas sim de atitudes hostis, que violam o direito a integridade física e psicológica e à dignidade humana. Ameaça o direito à educação, ao desenvolvimento, a saúde e a sobrevivência de muitas vítimas. As vítimas se sentem indefesas, vulneráveis, com medo e vergonha, o que favorece o rebaixamento de sua auto-estima e a vitimização continuada e crônica. Em todo o mundo, milhões de estudantes deixam de comparecer às aulas por medo de sofrer bullying. Muitas pessoas vão para o local de trabalho receosas com a intimidação constante em seu ambiente profissional. Isso sem mencionar pessoas que se tornam anti-sociais temendo virar alvo de fofocas ou boatos em sua vizinhança. O bullying interfere no processo de aprendizagem e no desenvolvimento cognitivo, sensorial e emocional. Favorece o surgimento de um clima escolar de medo e insegurança, tanto para aqueles que são alvos como para os que assistem calados às mais variadas formas de ataques. O baixo nível de aproveitamento, a dificuldade de integração social, o desenvolvimento ou agravamento das síndromes de aprendizagem, os altos índices de reprovação e evasão escolar têm o bullying como uma de suas causas. Esta agressão – que, por muitas vezes, é interpretada como “brincadeira própria da idade”, no caso de crianças e adolescentes - traz uma série de 8 prejuízos, que se refletem não apenas no processo de aprendizagem e socialização, mas, sobretudo, na saúde do indivíduo. Muitos indivíduos que são vítimas de bullying por um período prolongado de tempo manifestam tendências suicidas ou dão cabo à própria existência. Outros tantos reproduzem a vitimização contra terceiros ou integram-se às gangues com o intuito de revide. Alguns, após anos de sofrimento, chegam ao limite de suas forças e, não suportando mais as humilhações que lhes são imputadas, entram armados na escola, protagonizando grandes tragédias. Como podemos ver, o bullying, mais do que uma manifestação de intolerância, é um tema de grande relevância. 9 CAPÍTULO I BULLYING E AGRESSÕES SIMILARES 1.1) Conceito Entende-se por bullying “todo ato de violencia física ou psicológica, intencional ou repetida, praticado com a intenção de constranger uma pessoa ou determinado grupo de indivíduos incapazes de se defender”1. O termo bullying vem da língua inglesa, sendo usado para descrever o desejo consciente e deliberado de maltratar uma outra pessoa e colocá-la sob tensão, uma forma de assédio por parte de alguém mais forte em relação a outro indivíduo (ou grupo) mais fraco – isto é, bullying deriva de bully, que significa “valentão”, “brigão”. Tal assédio vai além dos apelidos maldosos (caso das crianças e adolescentes), sendo, também, uma característica de quem gosta de ofender, humilhar, discriminar e/ou intimidar outrem. Não obstante o estrangeirismo, a adoção universal do termo bullying se deu em razão da dificuldade em traduzi-lo para diversas línguas. Durante a realização da Conferência Internacional Online School Bullying and Violence, ocorrida em 2005, ficou caracterizado que o amplo conceito dado à palavra dificulta a identificação de um termo nativo correspondente em países como Alemanha, França, Espalha, Portugal, Brasil, e muitos outros. Convém ressaltar que fenômeno bullying começou a ganhar espaço nos estudos desenvolvidos por pedagogos e psicólogos ligados às instituições de ensino, ganhando destaque em meados da década de 90. Os alvos de bullying (as vítimas) são, geralmente, pessoas vistas como diferentes ou “esquisitas”. Indivíduos tímidos, retraídos, passivos, submissos, ansiosos, temerosos, com dificuldades de defesa, de expressão e de relacionamento. Isto sem mencionar as diferenças de raça, religião, opção sexual, desenvolvimento acadêmico, sotaque, maneira de ser e de se vestir. 1 Cf CALHAU, Lélio Braga. Bullying: o que você precisa saber, p. 09. 10 A Intimidação e a prepotência são algumas das estratégias que o bully adota para impor sua autoridade e manter suas vítimas sob domínio. Na família, os bullies podem ser identificados na figura de genitores, irmãos ou cônjuges autoritários e cruéis, que atormentam a vida de suas vítimas, minando seus esforços e sua auto-estima. Na escola eles aterrorizam, provocam, manipulam e hostilizam os mais fracos e indefesos. No trabalho, suas atitudes são prepotentes, dissimuladas e perversas. Basicamente, o bullying se traduz em fazer com que alguém se sinta inseguro, insignificante e/ou amedrontado, excluindo essa pessoa de atividades, jogos ou de um grupo social. O que convém ser salientado não é a ação em si, mas o efeito que esta tem sobre a vítima. Os bullies estão em toda parte, suas atitudes podem ser notadas no trânsito, nos condomínios, nas filas de banco, nos hospitais, nas delegacias, nas forças armadas, nos presídios, nos asilos de idosos, na política, nas igrejas, enfim nos mais diversos contextos sociais. 1.1.1) Modalidades de Bullying De acordo com o pesquisador Dan Olweus2: “Para que um comportamento seja caracterizado como bullying, é necessário distinguir os maus-tratos ocasionais e não graves dos maus tratos habituais e graves”. Podemos afirmar que existem duas modalidades de bullying: o bullying direto e o bullying indireto (também conhecido como agressão social). O bullying direto é forma de agressão comum entre indivíduos do sexo masculino, caracterizando-se por agressões físicas (socos, pontapés, empurrões, etc). Quanto ao bullying indireto (ou agressão social), trata-se de uma forma de intolerância mais comum entre indivíduos do sexo feminino e crianças 2 OLWEUS, Dan, apud FANTE, Cleo. Fenômeno Bullying (p.54). 11 pequenas, caracterizando-se por forçar a vítima ao isolamento social (geralmente, em virtude de sua etnia, religião, deficiência, incapacidade, etc). Segundo Aramis Lopes, pediatra e coordenador do Programa de Redução do Comportamento Agressivo entre Estudantes, essa diferença entre os agressores nas referidas modalidades de bullying se dá pelo fato de os meninos serem mais explícitos, ao passo que as meninas são educadas para serem mais recatadas e discretas. Sendo assim, a estratégia delas é mais sutil que a dos bullies do sexo masculino. 1.2) Agressões Similares Há agressões similares ao bullying, como o assédio moral, assédio sexual, o abuso de poder e o cyberbullying. 1.2.1) Assédio Moral O assédio moral, também chamado de mobbing, conforme afirma MarieFrance Hirigoyen, em seu livro Assédio Moral: A Violência Perversa No Cotidiano (p. 49): “ocorre no local de trabalho, caracterizando-se pelo fato de o chefe se aproveitar da condição de superior para humilhar o subalterno”. De modo geral, o termo bullying é utilizado para definir o abuso ou agressão em ambientes escolares, enquanto o termo mob tem sido empregado para designar a Máfia. Logo, mobbing nos remete à idéia da constituição de grupos com caráter mafioso no ambiente laboral, ou seja, grupos que exercem pressões e ameaças sobre outros trabalhadores. O assédio moral se caracteriza pela humilhação repetitiva e de longa duração que interfere na vida do trabalhador de modo direto, comprometendo sua identidade, dignidade e relações afetivas e sociais, ocasionando graves 12 danos à saúde física e mental, que podem evoluir para a incapacidade laborativa, desemprego ou mesmo a morte, constituindo um risco invisível, porém concreto, nas relações e condições de trabalho. Existem inúmeros relatos de trabalhadores que sofreram humilhações e maus-tratos desde que surgiram as primeiras relações de trabalho no mundo. A novidade reside na intensificação, gravidade, amplitude e banalização do fenômeno. Muito mais do que isso, o novo está na abordagem que tenta estabelecer o assédio como conseqüência da organização do trabalho e a não tratá-lo como inerente ao trabalho. Em nosso país, a própria história relata o sofrimento a que eram submetidos os trabalhadores, desde a época da escravidão até o período da industrialização, pela ausência de direitos dos trabalhadores. Infelizmente, nos dias atuais, as organizações continuam a repetir os maus-tratos a seus empregados ou são complacentes e coniventes com a prática de comportamentos humilhantes, realizados por seus dirigentes. Ressalta-se que os trabalhadores que mais sofrem este tipo de assédio são os profissionais da saúde, da educação, de telemarketing, de comunicação e os bancários. 1.2.2) Assédio Sexual Conforme afirma Rodolfo Pamplona Filho, em seu livro O Assédio Sexual Na Relação de Emprego (p.18): “O assédio sexual é caracterizado, geralmente, pelo fato de o superior hierárquico se aproveitar de tal condição para exigir favores sexuais de seu subordinado”. Este tipo de assédio não se restringe ao local de trabalho, podendo ocorrer, também, em ambiente acadêmico – ou em qualquer outro local onde a vítima se sinta constrangida publicamente com gestos ou palavras, ou ainda 13 impedida de reagir por se encontrar impossibilitada de deixar o local (como, por exemplo, em transportes coletivos lotados). Outra forma de assédio sexual é o ato de seduzir ou induzir a vítima a práticas sexuais não consensuais quando esta se encontra sob efeito de alguma substância que altere seu autocontrole, como o álcool ou alguma outra substância alucinógena. O assédio sexual caracteriza-se por alguma ameaça, insinuação de ameaça ou hostilidade contra o subordinado, fundada em teor sexual. Em geral, o assédio sexual é praticado contra mulheres. No entanto, pode, também, ter homens como alvo. 1.2.3) Abuso de Poder O abuso de poder se caracteriza pela imposição da vontade de um sobre o outro, tendo por base o exercício de poder. Dentre as modalidades de abuso de poder existentes, podemos destacar: o abuso de poder econômico (no qual se tira vantagem ilícita de dinheiro ou bens materiais em detrimento de outrem); político (que ocorre quando se usa a autoridade ou influência para sobrepujar o mais fraco de modo ilegítimo); no domínio da informação (o indivíduo detém o conhecimento ou a informação e os nega aos demais a fim de obter vantagens); ideológico (utiliza-se a ideologia socialmente aceita como forma de vencer opositores); e o nepotismo (também conhecido como apadrinhamento, no qual se usa a autoridade para favorecer alguém de forma ilícita). 1.2.4) Cyberbullying O cyberbullying (também conhecido como “assédio virtual”) “é a modalidade de agressão que consiste em expor a vítima ao ridículo em sites de relacionamento”3 e, ainda, no envio de e-mails ofensivos e difamatórios. 3 Cf MALDONADO, Maria Tereza. A Face Oculta: Uma História de Bullying e Cyberbullying, p.12. 14 Tal modalidade de agressão é comum entre adolescentes, que se utilizam da internet (mais precisamente de sites de ódio, comunidades preconceituosas ou blogs de intolerância) para divulgar mensagens negativas sobre uma pessoa ou um grupo. Trata-se de um tipo de agressão que vem preocupando especialistas, pais e educadores em todo o mundo, por seu efeito multiplicador do sofrimento das vítimas. Na sua prática utilizam-se as modernas ferramentas da internet e de outras tecnologias de informação e comunicação, móveis ou fixas (leia-se: e-mails, torpedos, blogs, fotoblogs, Orkut, MSN), com o intuito de maltratar, humilhar e constranger. É uma forma de ataque perversa, que extrapola em muito os muros da escola, ganhando dimensões incalculáveis. A diferença deste para o bullying propriamente dito está nos métodos e nas ferramentas utilizadas pelos praticantes. O bullying ocorre no mundo real, enquanto o cyberbullying ocorre no mundo virtual. Geralmente, nas demais formas de maus-tratos, a vítima conhece seu agressor, sejam os ataques diretos ou indiretos. No cyberbullying, os agressores se motivam pelo "anonimato", valendo-se de nomes falsos, apelidos ou fazendo-se passar por outras pessoas. Cabe atribuir o surgimento do cyberbullying ao desenvolvimento e aprimoramento dos recursos tecnológicos de comunicação e informação, especialmente da internet e dos telefones móveis, aliados ao despreparo ético dos usuários em relação ao uso responsável desses recursos, ancorado no anonimato e na certeza da impunidade, o que converteu o fenômeno num problema social. É necessário lembrar, ainda, que prática semelhante acontece desde há muito tempo, em brincadeiras de "amigo oculto", ou de "correio elegante". Nas trocas de mensagens algumas pessoas eram alvejadas com textos pejorativos e os autores se escondiam no anonimato, obviamente sem os recursos tecnológicos atuais. A intenção de ferir, de magoar e de ridicularizar é a mesma. 15 1.3) Bullying Homofóbico O bullying homofóbico, como o nome já sugere, consiste na prática de ataques contra os homossexuais. Ou seja, submeter homossexuais a chacotas, humilhações, ameaças, perseguições e exclusões sociais. Cleo Fante e José Augusto Pedra afirmam em seu livro Bullying Escolar: Perguntas e Respostas (p. 63): “Em caso de ambiente escolar, muitos alunos que assumem a sua opção sexual (ou aqueles que parecem assumi-la) sofrem terrivelmente o rechaço e a resistência frente à diversidade afetivo-sexual. Essa prática infelicita ainda mais o jovem, que está num momento de descoberta e de auto-afirmação”. Convém ressaltar que, nos dias atuais, muitas pessoas internalizam a homofobia, disfarçando-a de moralismo, conservadorismo, preconceito ou machismo exacerbado. Devido à nossa norma social e religiosa conservadora, o tema sexualidade ainda é um tabu, motivo pelo qual a homossexualidade é tratada de forma preconceituosa e superficial. Por conta disso, os homossexuais são desrespeitados, desvalorizados e ridicularizados nos diversos contextos inclusive no escolar, trazendo inúmeros prejuízos ao indivíduo em formação. Enfatiza-se, ainda, que a maioria das escolas não está preparada para discutir a questão. Educar para a diversidade é dever de todas as instituições de ensino – todavia, o despreparo de muitos professores e funcionários acaba por prejudicar ainda mais a questão. Alguns reproduzem o preconceito na forma piadinhas, imitações, insinuações e brincadeiras dentro e fora das salas de aula. As conseqüências de um ensino omisso ou homofóbico são inúmeras e graves, uma vez que a escola interfere decisivamente na formação do indivíduo. 16 1.4) Bullying Escolar Muitos se perguntam se somente agora a perseguição contra alunos em escolas se tornou evidente e reconhecida. Ou se só agora perceberam a solidão de crianças marginalizadas pelos colegas. Na verdade, estes comportamentos sempre existiram, porém, o que mudou foi a intensidade de sua freqüência e de seu teor agressivo – reflexo de um mundo individualista, cada vez mais bélico e carente de humanidade. Existem vários fatores que geram tal atitude: 1) O agressor pode ter sido, ele mesmo, alvo de bullying em alguma época; 2) Pode estar querendo chamar a atenção; 3) Sente-se poderoso e superior aos outros e, assim, busca lidar com sua baixa autoestima e complexos; 4) Crê que o bullying trará popularidade dentro de um grupo; 5) Sente inveja ou ciúme daquele que vem a sr a vítima; 6) Ele mesmo (o agressor) pode ser vítima de um sistema familiar disfuncional, no qual os pais sejam distantes e falte uma relação afetivo/corporal entre pais e filhos, ou onde os pais sejam superprotetores (gerando filhos egocêntricos) ou, ainda, onde os pais sejam, eles mesmos, pessoas agressivas. Na realidade, tais pessoas precisam tanto de ajuda quanto suas vítimas, sob perigo de se tornarem adultos infratores da lei, com comportamentos antissociais e/ou violentos. 1.4.1) Relação Entre o Trote Universitário e o Bullying Culturalmente, o trote universitário não é considerado bullying, e sim um rito de passagem esperado pelo calouro e seus familiares. Entretanto, é 17 encarado atualmente como uma prática inadequada, por ser geradora de constrangimento e, em muitos casos, de violência. O trote universitário é uma prática antiga, permitida e ainda tolerada pela sociedade. Contudo, pode dar origem ao bullying na medida em que as ações negativas se tomem persistentes. Inúmeros calouros acabam sendo ridicularizados pelos veteranos ao longo do período universitário. São constrangidos, apelidados pejorativamente, ridicularizados, ameaçados, perseguidos e humilhados. Muitos são obrigados a prestar serviços, pagar festas, fotocópias, fazer trabalhos escolares ou servir de diversão para os autores. Por meio de tais “brincadeiras” e justificativas hierárquicas, demonstram em suas atitudes o desrespeito, o preconceito, a intolerância e a dificuldade de empatia e solidariedade humana. 1.4.2) Relação Entre os Professores e o Bullying Em muitas escolas, há professores que são constantemente assediados sexual e moralmente, humilhados, ameaçados, perseguidos e ridicularizados por seus alunos e até mesmo por seus colegas. São agredidos com palavras abusivas, piadinhas e comentários sexistas em sala de aula. Sofrem em seu ambiente de trabalho, sem saber o que fazer e às vezes a quem recorrer. Ao procurarem a direção escolar em busca de auxílio, muitos acabam sendo mal-interpretados e rotulados de incompetentes. Quando chamam os pais dos autores dos maus-tratos para uma conversa, a maioria não comparece. Se reclamarem aos próprios alunos, estes geralmente dizem que são brincadeiras inofensivas e que o professor é sensível demais. Tudo isso, obviamente, causa grande mal-estar aos profissionais do ensino, prejudicando sua auto-estima e o desempenho de suas funções – o que, conseqüentemente, gera acentuado estresse, desânimo e fadiga, que se refletem nas relações familiares e com seus alunos e colegas de trabalho. 18 Todavia, o contrário também acontece. Muitos professores (além de outros profissionais que trabalham na escola) praticam bullying contra os alunos. Comparam, constrangem, criticam, chamam a atenção publicamente, menosprezam, mostram preferência a determinados alunos em detrimento de outros, humilham. Rebaixam sua auto-estima e a capacidade de aprendizado, agridem verbal e moralmente, fazem comentários depreciativos e preconceituosos. Cabe frisar que a vítima de um professor sofre terrivelmente na escola, pois esse fato gera inúmeros sentimentos negativos, cujos resultados geram sensação de impotência – o que acaba por prejudicar o rendimento escolar e promover a sua desmotivação para os estudos. 19 CAPÍTULO II PANORAMA GERAL DO BULLYING 2.1) O Que As Pesquisas Mostram Recentes pesquisas mostram que os índices mundiais de alunos envolvidos no fenômeno em questão variam de 6 a 40%. Estudos realizados na Noruega demonstraram que 1 em cada 7 estudantes estava envolvido em casos de bullying, isto é, 15% do total de alunos matriculados na educação básica seriam vítimas ou agressores. Pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em 21 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre a qualidade de vida das crianças e dos adolescentes demonstra que os Índices de bullying são alarmantes. A maior incidência está em Portugal, na Suíça e na Áustria, que apresentam 40% das vítimas desta violência. Infelizmente, o bullying vem crescendo em todo o mundo (principalmente o bullying escolar). Em 2000, os índices apontavam que 7 a 24% dos alunos estavam envolvidos. Hoje, os índices evidenciam crescente envolvimento, de 5% a 35%. Dados obtidos pelo Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar (Cemeobes), em 2007, revelam que a média de envolvimento dos estudantes brasileiros é de 45% acima dos índices mundiais. O mais preocupante é que crianças na mais tenra idade escolar já apresentam envolvimento e evidências de prejuízos sofridos. Acredita-se que o aumento dos índices está relacionado à tendência da vítima de reproduzir os maus-tratos sofridos. Por isso, o fenômeno se expande e envolve um número cada vez maior de alunos. Além desse fator, motivos variados impulsionam o aumento das práticas de bullying nas escolas ou a integração das vítimas em grupos que se dedicam ao assédio. Dentre eles podemos citar o estímulo à competitividade e ao individualismo, principalmente em decorrência da pressão exercida pela família e a escola quanto à obtenção de resultados, especialmente nos vestibulares; a banalização da violência e a 20 certeza da impunidade; o desrespeito e a desvalorização do ser humano, evidenciados em diversos contextos, principalmente a mídia; a educação familiar permissiva e a ausência de limites e, sobretudo, a deficiência ou ausência de modelos educativos baseados em valores humanos, orientados para a convivência pacífica, solidariedade, cooperação, tolerância e respeito às diferenças, que despertam os sentimentos de empatia, afetividade e compaixão. 2.2) O Bullying Não É Um Fenômeno Novo Apesar de estar sendo tão comentado nos dias atuais, o bullying sempre existiu. Podemos dizer que o referido fenômeno existe desde o surgimento da escola. Porém, somente há pouco mais de três décadas é que se tornou assunto estudado, com parâmetros científicos. Brincadeiras de mau gosto, gozações, rixas e brigas escolares sempre existiram. Entretanto, para tudo, existem limites. Ações e comportamentos excessivos de crianças e adolescentes no ambiente escolar, ainda ignorados ou tratados como “normais” por pais e professores, tornou-se um grande problema do século XXI. Em um primeiro momento, podem parecer comportamentos agressivos que ocorrem nas escolas e que são tradicionalmente admitidos como naturais. Para alguns, atitudes inerentes ao “amadurecimento” de crianças e adolescentes; para outros, ações de profundo desrespeito ao próximo e que carecem de análise. Em diversos países, o despertar para essa realidade se deve ao trabalho de pesquisadores e estudiosos do assunto. Os estudos resultantes muito têm contribuído para a conscientização de pais e profissionais das áreas de educação, saúde e segurança pública, que passaram a se interessar e a estudar o tema, levando em conta principalmente suas conseqüências danosas para os envolvidos. A escola é o primeiro contato da criança com o âmbito público, sendo um espaço plural por natureza. Justificando-se na agitação da vida moderna, 21 onde as famílias têm um, no máximo dois filhos, sendo deixados em creches e escolas cada vez mais cedo, os pais, indiretamente, transferem a responsabilidade pela educação dos filhos às escolas. É neste ambiente que crianças e adolescentes entram em contato com um conjunto de valores diferentes daqueles de sua família. É na escola que, via de regra, deverão aprender a viver em sociedade, tendo noções do coletivo, da convivência harmônica e democrática. Infelizmente, muitas escolas não admitem a existência do fenômeno. Algumas insistem em afirmar que tais práticas não ocorrem em suas dependências. Talvez temendo tornar-se discriminadas ou perder alunos. Há casos de escolas que afirmam a ausência de bullying como estratégia de marketing. Contudo, a omissão em nada contribui para a redução desse tipo de comportamento - ao contrário, dificulta as possibilidades de ações preventivas e colabora na sua proliferação. Por outro lado, inúmeras são as escolas em nosso país que são conscientes do fenômeno e estão desenvolvendo estratégias de enfrentamento que se mostram eficazes. Vale ressaltar que o bullying acontece em todas as escolas (sejam públicas ou privadas), independentemente da sua localização, turno ou poder aquisitivo da comunidade escolar. O que varia são os índices encontrados em cada realidade escolar, de acordo com a sua própria peculiaridade. Uma prova de que o bullying não é um fenômeno novo pode ser vista em alguns filmes antigos. Em “Forrest Gump – O Contador de Histórias”, por exemplo (cuja história se passa no início do século XX), o protagonista (vivido por Tom Hanks) sofre perseguições por ser um jovem problemático com QI inferior ao do restante da população. Outro filme antigo que traz o tema à baila é “Te Pego Lá Fora” (que se passa na década de 1980). Este sublinha bem o bullying escolar, retratando a figura do bully (que é um rapaz alto, forte e valentão) perseguindo a vítima (um menino franzino, frágil e com baixa autoestima). Retratando o bullying escolar, podemos citar, ainda, o filme “Meninas Malvadas”, no qual uma garota criada na selva africana só conhece uma escola aos 16 anos. Ela começa a andar com um grupo de “patricinhas” (meninas 22 fúteis) que gostam de esnobar os outros. Para vingar-se, a adolescente passa a agir da mesma forma. Convém citar, ainda, o longa “Nunca Fui Beijada”, no qual uma jornalista (interpretada por Drew Barrymore) recebe a missão de fazer uma reportagem sobre o comportamento dos adolescentes na escola. O grande problema é que a moça nunca havia sido beijada e não era das mais populares na época de colégio. O filme mostra como a protagonista vira motivo de chacota para seus colegas. 2.3) Principais Locais de Ataque Às Vítimas Convém ressaltar que os ataques às vítimas ocorrem em vários lugares pátios de recreio, playgrounds, banheiros, corredores, salas de aula, bibliotecas, quadras esportivas, salas de informática, laboratórios e imediações das escolas. Também ocorrem em outros locais fora da escola, mas de convivência comum aos alunos, como condomínios, lan houses, shoppings e outros locais onde crianças ou adolescentes se reúnem. Na maioria dos países, constatou-se que o pátio de recreio é o lugar de maior incidência dos ataques bullying. Entretanto, no Brasil, as pesquisas apontam para a sala de aula. Isso se justifica pelo fato de ser tema novo de discussão no meio educacional brasileiro, motivo pelo qual a maioria dos professores desconhece a relevância do fenômeno e não sabe como agir ao se deparar com a questão. Muitos profissionais do ensino agem de acordo com as suas próprias experiências e acreditam ser o bullying necessário para o amadurecimento do indivíduo. Outros não dão importância por acreditarem que são "brincadeiras próprias da idade", sem maiores conseqüências. Há ainda aqueles que pensam que os próprios alunos devem resolver seus problemas, sem intromissão dos adultos. Porém, todo professor, treinado ou não para lidar com o bullying, é capaz de observar as relações interpessoais e perceber os sinais que são emitidos por aqueles que se sentem incomodados ou vitimizados. 23 2.4) Como Os Professores Podem Identificar o Bullying No Brasil, a bibliografia sobre o tema pode ser escassa, com poucos livros disponíveis no mercado nacional. Todavia, existem nos meios de comunicação (principalmente na internet) uma série de artigos e reportagens sobre bullying. Quando os professores são treinados para a identificação, o diagnóstico e o encaminhamento do problema, tornando-se aptos a desenvolver estratégias psicopedagógicas de prevenção, são capazes de intervir de forma adequada em tais circunstâncias. É possível constatar em cursos de capacitação e pós-graduação que um percentual expressivo de professores percebeu o bullying ou esteve envolvido por ele quando era estudante. Muitos ainda sentem os efeitos do bullying exercido por parte dos próprios colegas professores. Cabe frisar, entretanto, que muitos professores e escolas têm se empenhado nessa causa e conseguido resultados expressivos. 2.5) O Bullying Na Mídia É do conhecimento de todos que a mídia tem divulgado bastante o tema, principalmente após as tragédias ocorridas em inúmeras escolas de diversos países. Tragédias resultantes do sofrimento das vítimas, que, no limite da exaustão emocional, planejam dar fim à própria vida, procurando antes matar o maior número possível de colegas da escola. 2.5.1) O Bullying Na Mídia Mundial Em 1997, nos Estados Unidos (mais precisamente na cidade de West Paducah, Kentucky), um adolescente de 14 anos atirou contra colegas, matando quatro deles e uma professora, além de cinco feridos. Em 1998, em Jonesboro, Arkansas, dois estudantes, de 11 e 13 anos, mataram quatro meninas e uma professora. Ainda em 1998, em Springfield, Oregon, dois 24 adolescentes de 17 e 18 anos mataram dois colegas e feriram outros 20. Em 1999, em Littleton, Colorado, dois estudantes protagonizaram a tragédia de Columbine. Mataram 12 colegas, um professor e deixaram dezenas de feridos, depois se suicidaram. Em abril de 2007, em Blacksburg, Virginia, o estudante Cho Seung-Hui, da Universidade de Virgínia Tech, EUA, foi protagonista do maior massacre em escola do mundo. O jovem atirou contra colegas e professores, deixando 32 mortos e 29 feridos, e depois cometeu suicídio. Colegas de classe do sulcoreano em anos anteriores disseram que ele era muito tímido e, por isso, ridicularizado e intimidado. Na faculdade, era alvo de muitas gozações, por causa dos textos que escrevia. O jovem não resistiu às constantes humilhações e resolveu se vingar dos colegas, uma vez que se sentia perseguido. Sua intenção era a de se transformar num mártir, servir de exemplo para os futuros garotos frágeis e indefesos iguais a ele. Em novembro de 2007, na cidade de Tuusula, Finlândia, um jovem isolado pelos colegas de escola, após veicular na internet um vídeo intitulado "Massacre na Escola Jokela”, deixou oito mortos e vários feridos. A escola Jokela Hight tinha 400 alunos entre 12 e 18 anos. Outras tragédias também ocorreram no Canadá, no Japão, na Escócia, na Alemanha e na Argentina. 2.5.2) O Bullying Na Mídia Brasileira Em janeiro de 2003, na cidade de Taiúva, no interior paulista, um tímido jovem de 18 anos, depois de concluir o ensino médio, atirou contra 50 pessoas durante o horário de recreio da escola onde estudara. Atingiu oito pessoas e depois se matou com um tiro na cabeça. As vítimas sobreviveram, porém uma delas ficou paraplégica. Esse adolescente era obeso desde a infância e foi motivo de piada para os colegas de escola. Mesmo após emagrecer mais de 30 quilos continuaram zoando ele. Era ofendido, apelidado pejorativamente, humilhado. Em fevereiro de 2004, na cidade de Remanso, interior baiano, outro 25 adolescente de 17 anos, também protagonizou uma tragédia. Após ser constantemente ridicularizado e humilhado na escola, resolveu se vingar. Foi até a casa do seu agressor principal, um garoto de 13 anos, e desferiu um tiro em sua cabeça. Após atirar contra o colega, seguiu para uma escola de informática para tentar matar uma professora de quem não gostava. Uma funcionária tentou impedir sua entrada, mas ele disparou fatalmente contra a cabeça dela e fez mais alguns disparos, ferindo duas pessoas. Sua intenção era a de cometer o suicídio, porém conseguiram desarmálo. Em seu bolso foi encontrado um bilhete dizendo que queria matar mais de 100 pessoas e ser conhecido na história de Remanso como o "terrorista suicida brasileiro”. Convém enfatizar a contribuição da imprensa na luta contra qualquer forma de violência, seja dentro ou fora da escola. No caso específico do bullying, é notório o crescente interesse da imprensa, na medida em que aborda o tema e abre espaços para que estudiosos possam conscientizar, discutir e alertar a sociedade para esse fenômeno psicossocial expansivo, de caráter epidemiológico, que, somado a outras formas de violência, precisa ser contido. A imprensa é uma grande aliada para o despertar das autoridades, especialmente no sentido de se criar políticas públicas emergenciais que visem conter a propagação do fenômeno e encontrar soluções que reduzam sua incidência e minimizem seus efeitos. Um exemplo a ser citado no que diz respeito à preocupação com o referido fenômeno é a campanha lançada pelo apresentador Serginho Groissman. A idéia da campanha surgiu quando o seu programa (o “Altas Horas”, da Rede Globo de Televisão) recebeu o menino Felipe Matos (que se declarou vítima de bullying). Serginho alerta para as conseqüências psicológicas que os atos de bullying podem causar e incentiva as conversas entre pais e filhos, amigos e escola. 26 2.5.3) O Bullying Abordado Pelo Cinema Nacional Recentemente (mais precisamente no primeiro semestre de 2010), o cinema brasileiro abordou o fenômeno bullying (tanto o bullying propriamente dito quanto o cyberbullying) no filme “As Melhores Coisas do Mundo”. No longa, o personagem principal (um adolescente de 16 anos de idade) sofre no colégio com o escarnecimento dos colegas após a separação dos pais. O grande problema (o fato gerador das agressões físicas e psicológicas sofridas pelo protagonista) é o fato de seu pai deixar a família para viver com o namorado – assumindo, assim, a sua homossexualidade (que não é tolerada pelos colegas de escola do rapaz). O cyberbullying é mostrado por meio de uma das alunas do colégio que expõe situações constrangedoras envolvendo outros alunos em um blog – que é acessado por mais de 90% do quorum escolar, gerando, obviamente, comentários maldosos a respeito das vítimas dessa exposição virtual. Outro filme que aborda o tema em questão é “Antônia”. A história, que se passa em uma periferia paulistana, enfatiza o bullying homofóbico. Um rapaz, ao ter sua homossexualidade revelada, sofre agressões físicas dos rapazes da comunidade – que não aceitam a sua opção sexual. 2.6) O Bullying Discutido Na Política O bullying tem sido um tema recorrente nos debates públicos nacionais. Em decorrência da importância do tema, a Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara Federal aprovou, recentemente, a obrigatoriedade de escolas públicas e privadas adotarem medidas de conscientização, prevenção, diagnose e combate ao bullying escolar. Ligados ao tema, parlamentares da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás estão atentos às discussões e já formataram projetos no âmbito estadual para combater esse problema. No início deste ano (mais precisamente em 23/02/2010), a Comissão de Constituição e Justiça da Casa aprovou a proposta do deputado Thiago Peixoto (PMDB) sobre o bullying (humilhação, 27 agressão, ofensa) escolar. O objetivo da medida é combater a violência psicológica e física nas escolas estaduais e privadas de educação infantil, ensino fundamental e ensino médio de Goiás. De acordo com o projeto, as escolas deverão incluir métodos pedagógicos de conscientização, prevenção, diagnóstico e combate ao bullying, respeitando as medidas estabelecidas no Estatuto da Criança e do Adolescente. As ações serão desenvolvidas com palestras, debates, distribuição de cartilhas de orientação aos pais, alunos, professores e servidores. O parlamentar alerta que, nesse momento, vários casos de violência podem estar acontecendo em alguma instituição de ensino – e que o Poder Público não pode ficar de braços cruzados diante de uma prática que fere a educação e a saúde física e psicológica de nossos estudantes. Para Thiago, outro ponto fundamental é inserir a família no processo. Diversos especialistas da área educacional já demonstraram a necessidade de abordar o tema com discussões envolvendo não apenas os discentes e docentes, mas a sociedade como um todo, principalmente a família. O deputado estadual Humberto Aidar (PT) é outro parlamentar empenhado em combater as práticas de violência física ou psicológica nas instituições de ensino e de educação infantil em Goiás. Um projeto de sua autoria tramita nas Comissões da Assembléia Legislativa do Estado de Goiás e dispõe sobre o desenvolvimento de política antibullying.Segundo o deputado, a proposta busca reduzir a prática e promover a cidadania, a capacidade empática e o respeito aos demais. Além disso, pretende disseminar conhecimento sobre o fenômeno bullying nos meios de comunicação e nas instituições, permitindo que se identifique concretamente, em cada instituição, a incidência e a natureza destas práticas. O desenvolvimento de planos locais de prevenção e combate, capacitação de docentes e equipes pedagógicas, orientação de vítimas, agressores e familiares também estão presentes no projeto de lei. Segundo a justificativa do deputado, essa proposta impõe-se com inequívoca necessidade de aprovação, pois aborda um problema que tem 28 preocupado pais, professores, alunos e toda uma população de crianças, adolescentes e jovens que foram, ou são vítimas em potencial deste fenômeno que tem assolado, especialmente, o ambiente escolar. O texto aprovado na Câmara Federal define bullying termo sem tradução exata no português como a prática de atos de violência física ou psíquica de modo intencional e repetitivo, exercida por indivíduo ou grupos de indivíduos, contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de constranger, intimidar, agredir, causar dor, angústia ou humilhação à vítima. O texto indica, ainda, algumas práticas classificadas como formas de bullying: a exclusão de aluno do grupo social; a injúria, calúnia ou difamação; a perseguição; a discriminação; e o uso de sites, redes sociais ou comunicadores instantâneos (messengers) para incitar a violência, adulterar fotos, fatos e dados pessoais - o chamado cyberbullying. Ressalta-se, ainda, a aprovação de uma lei de combate ao bullying nas escolas pela Assembléia Legislativa de MS em maio de 2010. De acordo com a lei, em seu artigo 1º, “As escolas públicas e privadas do Estado de Mato Grosso do Sul deverão incluir em seu projeto pedagógico Programa contendo medidas de conscientização, prevenção e combate ao bullying escolar". A Lei também estabelece que as escolas deverão enviar bimestralmente relatórios sobre o problema à Secretaria de Educação e à Promotoria de Infância e Adolescência. 29 CAPÍTULO III CAUSAS E CONSEQUENCIAS DO BULLYING 3.1) Conseqüências do Bullying Devido à enorme pressão a que o bullying sujeita o indivíduo, este tornase frágil. Uma vez fragilizada, a vítima apresenta dificuldades de comunicação com os outros, o que influencia negativamente na sua capacidade de desenvolvimento em termos sociais, profissionais e emocionais (ou afetivos). Depois de prolongado período de tempo sendo exposta aos ataques em questão, a vítima do bullying poderá ter prejuízos irreparáveis ao seu desenvolvimento cognitivo, emocional e socioeducacional. Dependendo da estrutura psicológica do indivíduo, o bullying pode causar ansiedade, tensão, medo, raiva, irritabilidade, dificuldade de concentração, déficit de atenção, angústia, tristeza, desgosto, apatia, cansaço, insegurança, retraimento, sensação de impotência e rejeição, sentimentos de abandono e de inferioridade, mágoa, oscilações do humor, desejo de vingança e pensamentos suicidas, depressão, fobias e hiperatividade, entre outros. Além de conviver com um estado constante de pavor, uma criança ou adolescente vítima de bullying talvez sejam as que mais sofrem com a rejeição, isolamento, humilhação, a tal ponto de se verem impedidas de se relacionarem com quem ela deseja, de brincar livremente, de fazer a tarefa na escola em grupo, porque os mais fortes e intolerantes lhe impõem tal sofrimento. Também faz parte dessa violência impor à vítima o silêncio, isto é, ela não pode denunciar à direção da escola nem aos pais, sob pena de piorar sua condição de discriminada. Pais e professores só ficam sabendo do problema através dos efeitos e danos causados (como a resistência em voltar à escola ou a queda do rendimento escolar, por exemplo). Ressalta-se, ainda, que, no âmbito universitário, não são raros os casos de mestrandos e doutorandos, no decorrer de sua pesquisa, serem vítimas de várias formas de pressão psicológica, como os prazos de entrega dos 30 trabalhos, falta de dinheiro para continuar a pesquisa, falta de apoio do orientador, familiares, colegas e amigos. E, também, de assédio moral, bullying, etc. O bullying, neste caso específico, tem o poder levar o pesquisador ao travamento de sua produção intelectual, além de causar danos à sua existência cotidiana. Talvez o pior efeito da pressão sofrida nos casos de bullying seja a vítima se sentir condenada à ‘inexistência’ ou à ‘invisibilidade’, geralmente levado a cabo por grupo que combina entre si ignorar um colega, fazer de conta que ele não existe, desqualificá-lo na sua competência intelectual, ou rejeitar um pedido seu, etc. Há casos em que esse tipo de vítima passa a sofrer tão baixa autoestima que nem sequer tem forças para desabafar com alguém. Cabe frisar que o bullying também está relacionado ao desenvolvimento de transtornos psicológicos graves. O mais enfatizado pela mídia mundial, em razão das tragédias provocadas, é o caso do aluno vítima, que, depois de prolongado período de tempo sendo alvo de ataques, chega ao limiar da sanidade e resolve dar fim à própria vida, antes, porém, levando com ele quantos puder. Mune-se de armamento, vai à escola, lá alveja quantos pode e, depois, comete suicídio. Ressalta-se, ainda, que, em decorrência da vitimização, muitas crianças se tornam ainda mais introvertidas, tristes, ansiosas ou irritadas. Geralmente, vão se fechando e se isolando das demais, perdendo o contato com seus colegas de classe e o interesse pelos estudos. Suas mentes ficam aprisionadas às construções inconscientes de cadeias de pensamentos, geradoras de emoções aversivas, que mobilizam aflição, tensão e medo de ser atacadas a qualquer momento. Por isso, perdem a concentração e se dispersam em viagens mentais, na expectativa aversiva de um novo ataque ou montando estratégias de defesa, esquiva ou revide. Quando em aula, caso tenham alguma dificuldade de entendimento ou ainda se lhes restarem dúvidas, temem saná-las, pois sabem que se converterão em alvos de escarnecimentos ou críticas. Como não conseguem acompanhar o rendimento da turma, inventam desculpas para faltar às aulas, 31 uma vez que a escola tornou-se local de infelicidade e insegurança. Por isso, a aprendizagem fica comprometida e a queda do rendimento escolar vai se acentuando, perdendo aos poucos o interesse acadêmico. Por esses motivos, o rendimento escolar acaba sendo prejudicado, gerando ainda mais constrangimento. Assim, muitos alunos não resistem e mudam de escola ou optam pela evasão escolar. Outros ainda desenvolvem fobia escolar, comprometendo suas relações sócio-educacionais e afetivas. Outra característica das vítimas do abuso em questão é a sua tendência a se recolher e se isolar dos demais. Elas querem ser deixadas em paz, ou mesmo não ser notadas por seus agressores. A vitimização compromete sua auto-estima e, dessa forma, elas vão se fechando para novos relacionamentos, dificultando a integração social. Muitas vítimas não superam essa dificuldade no decorrer do seu desenvolvimento acadêmico e se tornam adultos com probabilidades de comportamentos depressivos ou compulsivos. Tendem, a apresentar dificuldades na vida sentimental, por não confiarem nos parceiros. No local de trabalho, podem apresentar dificuldade para se expressar, falar em público e liderar, déficit de concentração, insegurança, dificuldade de resolução de conflitos, de tornada de decisões e iniciativas. Quanto à educação dos filhos, projetam sobre eles seus medos, suas desconfianças e inseguranças, em muitos casos tornando-se pais superprotetores. 3.2) Fatores Que Justificam A Insegurança das Vítimas Alguns fatores podem justificar a dificuldade de defesa das vítimas, como: estar em minoria frente aos agressores; ser de menor estatura ou força física; apresentar pouca habilidade de defesa e de auto-expressão; inabilidade em lidar com as circunstâncias estressantes e desagradáveis; pouca flexibilidade psicológica e baixa resistência à frustração. No entanto, isso ocorre principalmente por sentirem medo de seus agressores. Podemos, ainda, salientar alguns motivos que colaboram para que a maioria das vítimas de bullying se cale: falta de apoio e compreensão quando se queixam para os adultos; medo de represálias dos agressores; vergonha de 32 se expor perante os colegas como incompetentes e “fracotes”; temor pelas reações dos familiares; mobilização de raiva voltada contra si mesma, pela incapacidade de defesa ou por concordar com os seus agressores, acreditando ser merecedora dos maus-tratos sofridos. Todavia, é necessário frisar que, em determinados casos, a vítima desenvolve um mecanismo de defesa, que lhe faculta superar o problema. Elas se dedicam ao extremo aos estudos ou a outras atividades, conseguindo destaque e notoriedade. Como exemplo, podemos citar as gozações e a exclusão que sofreu na escola o renomado escritor Rubem Alves. Por ser oriundo do interior, em função das roupas que usava e do sotaque mineiro, estudando numa escola de elite do Rio de Janeiro, ele passou por vários sofrimentos emocionais. Contudo, um grande número de vítimas não consegue resultado satisfatório de auto-superação. Ao contrário, muitas pedem para ser deixadas em paz, mas parece que ninguém as ouve. Algumas conseguem interromper os maus-tratos mediante a violência, como forma de revide. Outras se encorajam e buscam auxílio junto aos adultos, conseguindo ou não resultados positivos. Em casos extremados, algumas vítimas, no limiar do sofrimento, resolvem dar fim à própria vida. Outras se armam, se vingam de colegas e professores, para, em seguida, cometer suicídio. Existem outras que perdem a autoconfiança e desenvolvem tiques nervosos, ansiedade, obsessões, compulsões, fobia escolar e social, bloqueios, dificuldade de manter-se controlada em focos de tensão, além de transtornos psicológicos. 3.3) As Conseqüências da Vitimização no Contexto Profissional Segundo David E. Zimerman, em seu livro Psicanálise em Perguntas e Respostas – Mitos e Verdades (p. 113): "Esses traumas psicológicos ficam representados no ego da criança, de modo que posteriores 33 acontecimentos, aparentemente banais, podem incidir e evocar essas representações traumáticas, determinando um estado de ‘desamparo’, muitas vezes acompanhado de uma intensa angústia, de um estado de pânico totalmente desproporcional ao manifesto fator desencadeante. Os acontecimentos externos traumáticos costumam ser administrados pelo ego do indivíduo traumatizado por meio de uma lenta elaboração". Muitas vítimas de bullying abrem mão de promoções por medo de exercer a liderança. Outras apresentam dificuldades com figuras de autoridade. Há, ainda, aquelas que se mantêm passivas e submissas, preferindo cargos inferiores pelo medo de lidar com situações de conflito ou de tomada de decisões (uma vez que sua autoestima ficou prejudicada). Alguns indivíduos vitimizados se tomam muito competentes, mas se isolam no ambiente de trabalho, por não saber se relacionar com os colegas ou temer a relação com o público. Outros se tomam competitivos, individualistas e egoístas, com dificuldades de empatia, de solidariedade e de compartilhamento de idéias. Muitos se valem de subterfúgios, como manipulação, fofoca e difamação, para obter vantagens de ascensão. Existem, também, aqueles que desenvolvem um nível de exigência pessoal muito rígido, com baixa resistência à frustração, elevado nível de estresse e mecanismos compulsores. Convém enfatizar que muitas vítimas de bullying acabam por reproduzir, inconscientemente, a vitimização sofrida, adotando atitudes autoritárias, agressivas, intolerantes, insinuantes e pouco afetivas, tanto no trabalho como nas relações familiares. 3.3.1) O Apoio dos Pais no Combate ao Bullying O bullying acontece principalmente nas escolas porque é nesse ambiente que as crianças se reúnem e fazem amigos e inimigos. Assim, no colégio, um adolescente pode ser considerado "escravo" por outros. Da mesma forma, uma criança pode ser obrigada a dar dinheiro para os colegas mais velhos e fisicamente mais fortes. Caso contrário, o jovem pode sofrer algum 34 tipo de violência. Além disso, algumas características físicas podem valer alguns apelidos pejorativos a crianças e adolescentes. A funcionária pública Biribaldina da Silva (nome fictício – ver anexo 1) tem um filho de oito anos que é vítima de bullying numa escola particular da cidade do Rio de Janeiro. Segundo ela, o filho foi apelidado pelos colegas de “gordo” e “catarrão”, por causa de um resfriado. De acordo com a funcionária pública, o jovem sofre muito com essa situação. Atualmente, ele tem vergonha de comer na frente de outras pessoas por isso, não gosta de levar lanche para a escola. Para orientar o filho e mostrar que não é defeito ser gordo, a funcionária pública conversa muito com o menino para convencê-lo de que ele não é nada do que as crianças dizem. Ressalta-se, no entanto, que não são apenas crianças nas escolas que se tornam vítimas do bullying. Ele ainda pode atingir jovens e adolescentes na faculdade. É o caso do estudante Anzebraldo de Melo (nome fictício – ver anexo 2), que está no quarto ano de Ciências da Computação de uma universidade da cidade do Rio de Janeiro. De acordo com o estudante, foram muitas as situações em que teve vontade de bater nos colegas. O jovem contou que desde pequeno sempre foi motivo de chacota por ser gordo – motivo pelo qual pediu ajuda aos pais, que o orientaram a ignorar os colegas que escarneciam dele. As marcas do bullying na infância podem permanecer na vida da pessoa por um longo tempo, pois nem sempre é possível esquecer as humilhações da época de escola. A assistente administrativa Marlowa Creuzibele (nome fictício – ver anexo 3) sempre foi alvo de piadinhas por ter a pele clara e ser magra. Quando estava na sexta série, Marlowa era conhecida pelos colegas como “esqueleto”, “mosquito”, “tripa seca” ou “mosca morta”. Na época, a jovem não agüentou tanta gozação e pediu transferência para o período da manhã. Apesar de essa situação ter acontecido há 10 anos, a jovem contou que isso ainda traz prejuízos para a sua vida, uma vez que ela foi chamada de feia tantas vezes que não consegue se sentir bonita. 35 3.4) Os Autores de Bullying no Contexto Social O autor de bullying tem grande probabilidade de adotar comportamentos antissociais ou delinqüentes, devido à falta de limites ou de modelos educativos que direcionem seu comportamento de auto-realização na vida para ações proativas e solidárias. As regras de convívio escolar e social são encaradas com desmotivação, uma vez que ele se sente superior aos demais e aprendeu a conviver sentindo-se mais gratificado com as próprias regras internalizadas, que lhe dão maior notoriedade e destaque perante seus iguais. Pela insegurança que sente, resultante da carência de amor e de limites, suas ações são desprovidas de consideração, de empatia e de compaixão pelos colegas, adotando postura desafiadora frente às figuras de autoridade, como pais, professores e policiais, como expressão da necessidade de sentirse valorizado e respeitado. Devido a isso, tais atitudes podem ser encaradas como pedido de ajuda e sinalizador de que algo não está bem. O praticante de bullying apresenta maior suscetibilidade ao envolvimento em gangues, brigas, tráfico, porte ilegal de armas, abuso de álcool e de drogas. Tende a praticar a violência doméstica e o assédio moral em seu local de trabalho, além de apresentar baixa resistência à frustração. Ressalta-se, ainda, que os agressores têm maior probabilidade de praticar atos delinqüentes e criminosos e violência doméstica. O pesquisador Dan Olweus desenvolveu estudos com um grupo de adolescentes identificados como autores de bullying com idades entre 12 e 16 anos. Em seus estudos, ele concluiu que, antes de completar 24 anos de idade, 60% dos adolescentes haviam sido apenados com pelo menos uma condenação legal. Nessa mesma linha de pesquisa, estudiosos americanos disseram haver grande probabilidade de esses agressores ainda terem, no mínimo, mais duas condenações legais durante a vida. No entanto, é importante considerar inicialmente o potencial de 36 agressividade que todos temos e que é necessário e inerente à vida. É graças à agressividade que conseguimos, por exemplo, acordar cedo, ir à escola ou trabalhar o dia todo e ainda nos encontrarmos dispostos à noite. A agressividade é que nos permite a determinação e a auto-superação na vida. Nesse aspecto, a agressividade é muito positiva e faz parte do repertório psíquico de que todos dispomos. Outro aspecto que merece ênfase é o da agressividade manifestada como mecanismo de defesa. Em crianças que repentinamente se mostram agressivas, isso pode ser um sinalizador de que algo não está bem, de pedido de socorro ou, ainda, uma crise de frustração ou de oposição, uma forma de expressar insatisfação com a vida ou ainda a forma encontrada para conseguir o que quer. Logo, a agressividade nas crianças precisa ser observada e controlada. É necessário que os adultos intervenham amorosamente e com firmeza, para conter e direcionar o impulso agressivo para ações socialmente gratificantes. 3.5) Conseqüências Para os Espectadores do Bullying Embora não sofram diretamente as agressões, os espectadores do bullying podem se sentir inseguros, incomodados e mesmo traumatizados pelo sofrimento do outro. Em caso de bullying escolar, alguns reagem negativamente, uma vez que seu direito de aprender em um ambiente seguro e solidário foi violado, o que pode influenciar seu progresso acadêmico e social, além de prejudicar sua saúde física e emocional. Convém ressaltar que o medo de ser alvo de bullying faz com que muitos espectadores se inibam, prejudicando sua participação nas aulas. Não se atrevem a fazer perguntas ao professor para sanar suas dúvidas por temerem rótulos. Assim sendo, ao longo do tempo, acumulam dúvidas e, na maioria dos casos, os familiares não conseguem ajudá-los, por falta de tempo ou de conhecimento do tema. Preferem faltar às aulas a participar de determinadas atividades em grupo. Muitos espectadores se retraem, se isolam e se tornam quase 37 imperceptíveis, para não ser notados em sala de aula. Como defesa, adotam posturas reativas, como agressividade, passividade ou apatia, o que repercute no desenvolvimento de suas habilidades relacionais de fazer amigos e se integrar aos grupos. Quando adultos, podem apresentar extremo retraimento, timidez exacerbada, dificuldade de falar em público e de ampliar sua rede de relacionamentos. Percebe-se, ainda, que o bullying pode despertar apatia entre os espectadores, que são acometidos de certa inércia social e indiferença ao sofrimento do outro – devido à banalização da própria violência e até mesmo sua validação. Isso ocorre por vários fatores, dentre eles, o sistema de normas socioculturais, que norteiam as crenças e as opiniões das pessoas e sua atitude nas situações de emergência. Outros se calam em razão do temor de se tomar a próxima vítima. Outros se mobilizam internamente, mas não sabem o que fazer nesses casos. É necessário que os alunos sejam orientados sobre como encaminhar uma denúncia, de forma anônima, frente a esse tipo de violência. Para isso é necessário que conheçam as formas seguras de encaminhamento, para não se expor a riscos desnecessários. Cabe frisar que o silêncio do espectador é prejudicial a si mesmo. Todavia, é necessário, antes de qualquer coisa, entender as causas desse silêncio. Para muitos alunos, o ato de presenciar as situações de bullying gera, a princípio, tensão, medo, raiva, revolta, inconformismo. Com o tempo, as atitudes adotadas pelos intimidadores passam a fazer parte do cotidiano da escola, gerando certa acomodação ou psicoadaptação. Alguns espectadores vêem a agressão sofrida pelo outro como fonte de diversão e prazer. Com isso, reforçam as atitudes maldosas dos agressores ou nelas se inspiram para perseguir a mesma presa ou eleger outra. Contudo, há espectadores que se incomodam, se angustiam e se sentem impotentes. Nesse caso, gostariam de ajudar os colegas vitimizados ou denunciar a perversidade dos intimidadores - porém o medo de se transformar na "próxima vítima", associado ao fato de não saberem como fazer uma denúncia com segurança, os impedem. 38 Por outro lado, não fica bem para a sua popularidade, caso alguém os veja em companhia de um "fracote", que não reaja aos ataques. É bastante delicada a situação dos espectadores, pois estes também são tomados por sensações de constrangimento e por emoções desagradáveis. 39 CONCLUSÃO Para prevenir os maus-tratos entre os alunos, as escolas devem oferecer, além da qualidade de ensino, ambiente seguro para o seu desenvolvimento emocional e socioeducacional. É necessário, ainda, adotar estratégias de intervenção e prevenção do comportamento agressivo, disponibilizando-se espaços para que alunos e professores discutam o tema e encontrem soluções para as situações apresentadas pelo grupo-classe. Em caso de o aluno faltar às aulas ou desistir da escola por causa da vitimização do bullying, a escola primeiramente deve se informar sobre o motivo das faltas do aluno enviando um mensageiro à casa do estudante para saber o que está acontecendo e convocar uma reunião com os pais. É importante conscientizar os pais ou responsáveis de que a educação é um direito de todos e um dever do Estado e da família (art. 205 da Constituição) e que eles poderão responder perante o juiz da Infância e da Juventude caso mantenham a criança fora da escola, inclusive por abandono intelectual (artigo 246, do Código Penal). Se a escola não tiver sucesso, o caso deve ser encaminhado ao Conselho Tutelar ou ao Ministério Público. Ressalta-se que a escola pode criar uma rede antibullying transformando os espectadores em "alunos solidários". Estes devem ser treinados a auxiliar seus colegas dentro e fora da escola. No horário de recreio podem percorrer os espaços isolados ou que tenha mais dificuldade de supervisão a fim de fazer companhia aos que são excluídos ou se isolam dos demais por temerem os ataques. Podem desenvolver atividades, como o recreio dirigido, através de brincadeiras, pequenas apresentações teatrais, musicais e corporais, como relaxamento ou alongamento. Com relação à vítima do bullying, esta deve entender que o silêncio é a pior solução. Por isso, deve buscar ajuda, conversar com os pais, professores, coordenação escolar ou um colega sobre as vivências desagradáveis que tem sofrido na escola ou em qualquer outro ambiente, procurar não ceder às pressões do grupo e nem ficar em lugares isolados dos demais, para não facilitar a intimidação. No trajeto ou no transporte escolar, ficar sempre próximo 40 dos adultos ou de um amigo confiável. Quanto ao intimidador, precisa saber que a escola dispõe de inúmeros profissionais dispostos a ouvi-lo e entendê-lo, bem como ajudá-lo a canalizar sua agressividade em ações proativas. A escola deve ensiná-lo a superar seus problemas, respeitar e conviver com as diferenças e usar o diálogo como arma de resolução de conflitos. Por outro lado, precisa saber que o seu comportamento não é aceitável e, como tal, é passível de punição, de acordo com o regimento interno escolar e o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). É sabido por todos que o mundo moderno e suas transformações vêm afetando diversos cenários, dentre eles o das relações interpessoais. As diversas demandas do cotidiano têm comprometido o relacionamento familiar, proporcionando certo distanciamento entre seus integrantes. Entretanto, é imprescindível encontrar tempo para a convivência saudável, especialmente com os filhos, manter diálogo constante, conversar sobre os diversos aspectos da vida, conhecer o mundo deles - e deixar que conheçam o seu. É importante que os filhos encontrem em casa um ambiente de amor e aceitação, favorável a que se expressem, tanto sobre seus triunfos e suas conquistas como sobre seus fracassos e suas dificuldades nos relacionamentos, nos estudos ou em relação a si mesmos. É importante os pais e educadores considerarem que, antes de repreender os filhos ou alunos, é preciso ouvi-los sem animosidades, com disposição de ajuda ao fortalecimento da auto-estima na resolução de seus conflitos. Para isso, é necessário que se reforcem os aspectos positivos das crianças e seus acertos, para que se sintam seguras e confiantes. Somente assim é possível o rompimento da barreira que impede a vítima de denunciar as agressões (físicas ou psicológicas). Convém salientar que os pais devem estar sempre atentos aos comportamentos, aos hábitos, às rotinas e às atitudes dos seus filhos. Qualquer mudança pode sinalizar que algo diferente está acontecendo. Dessa forma, a observação e o diálogo são ferramentas indispensáveis no cotidiano. Os pais podem disponibilizar "espaços" e abertura para que a criança 41 partilhe aquilo que lhe ocorre na escola, denuncie, expresse os sentimentos e as emoções vivenciadas por ela, evitando fazer críticas ou duvidar daquilo que a criança está relatando ou responsabilizá-la pelo acontecido – uma vez que, nesse momento, a vítima anseia por encontrar segurança e compreensão para falar de seu sofrimento, sem constrangimento ou julgamento. Caso a criança relute em falar, o ideal é que os pais procurem a escola e relatem suas observações, para que a escola tome as mesmas providências e sejam encontradas soluções conjuntas de intervenção. Infelizmente, é comum encontrar pais que, ao saber da vitimização dos filhos, rotulam a criança de “fracote”. Aliás, não somente os pais, mas outros integrantes da família colocam a vítima numa situação de inferioridade ainda maior. Não são poucos os casos em que ela é exposta perante irmãos e colegas de escola, parentes, amigos da família ou vizinhos. São feitos comentários irônicos e ela é responsabilizada pela falta de competência para lidar com a situação difícil em que se encontra. Sabemos que não é essa a atitude que deve ser tomada. No entanto, a ignorância ou a reprodução de experiências vividas pelos adultos faz com que muitos deles acreditem que, se mexerem com os "brios" da pessoa, ela reagirá positivamente frente a determinadas circunstâncias. É fundamental que os pais compreendam que seus filhos não nasceram prontos e ainda estão no processo básico de formação da personalidade, por isso ainda não adquiriram habilidades para lidar com todos os tipos de situações da vida. Devem evitar repreender, castigar ou reagir com agressividade quando a criança expõe suas dificuldades e "fraquezas". Neste caso ela precisa de acolhimento, carinho, apoio e compreensão, além de ações junto à escola, na tentativa de que providências sejam tomadas para evitar ou interromper a vitimização. Cabe enfatizar que muitos pais acham graça ao saber das piadinhas ou dos apelidos que os filhos recebem na escola. Com isso desvalorizam seus sentimentos, dizem que são bobagens, brincadeiras da idade ou os incentivam para que façam o mesmo. Para a vítima é difícil acreditar que são brincadeiras, pois inúmeros sentimentos desagradáveis foram vivenciados, como vergonha, 42 raiva e medo. Revidar é praticamente impossível, pois se tivessem habilidades de defesa já as teriam usado. É necessário que os pais entendam que não é fácil para um adolescente confessar que é ridicularizado, perseguido ou que apanha dos colegas. É como se fosse um sinal de fraqueza, de impotência. Talvez, seja preferível apanhar todos os dias a contar em casa o que ocorre na escola. Portanto, se a vítima se encoraja e pede ajuda, deve ser ouvida pronta e atentamente. Há, ainda, os pais que ficam com raiva e vão tirar satisfação dos agressores dos filhos. É normal que os pais fiquem com raiva, chateados ou aborrecidos ao descobrir que seu filho se converteu em "bode expiatório" e que não está em segurança na escola. Porém, incentivar o revide, tirar satisfação do agressor ou de seus pais em nada ajudará. Ao contrário, pode acarretar problemas maiores para o filho e para si. Não são poucos os pais (principalmente as mães) que adotam atitudes impensadas, na ânsia de interromper a vitimização: intimidam o agressor, pedindo explicações; apertam seu braço e o ameaçam; seguram-no ou encurralam-no para o filho revidar; discutem ou mandam irmãos maiores da vítima darem uma "lição" no agressor; exigem da escola providências e não dão o tempo necessário para que as estratégias surtam efeito; pedem transferência da escola, sem resolver a questão, o que acaba resultando em prejuízos para a vítima, uma vez que esta tenderá a enfrentar os mesmos problemas em outra escola. O ideal é que os pais, em parceria com a escola, encontrem soluções tanto para os filhos que são alvos, quanto para os autores de maus-tratos. Ambos necessitam de ajuda e, muitas vezes, de encaminhamento a outros profissionais, especialmente da área da saúde. Contudo, há muitas crianças e adolescentes são vítimas da violência doméstica e do excesso de correção disciplinar – isto é, o pai ou a mãe é o agressor do próprio filho. Neste caso, a escola deve, primeiramente, proteger a criança ou o adolescente e encaminhar o caso ao Conselho Tutelar ou ao Ministério Público. Em hipótese alguma se deve falar aos pais sobre as suspeitas, pois a criança poderá sofrer represálias ou ser retirada da escola. 43 Enfatiza-se que, neste caso, a denúncia deve ser feita em caso de suspeita ou confirmação de maus-tratos. Nesse sentido, o professor tem papel fundamental na observação de mudanças comportamentais, na constatação de alguma "marca" ou lesão corporal e nos sentimentos expressos pelo aluno. Se o diretor se sentir intimidado pelo agressor ou por seu responsável, poderá recorrer à denúncia anônima. Deve fazer registro do fato e pedir sigilo em relatório. Caso a escola se omita, estará cometendo uma infração administrativa grave (de acordo com o ECA, em seu art. 245). Em relação às famílias com pouca instrução frente a um fenômeno novo (pelo menos no que se refere à nomenclatura utilizada atualmente), urge frisar que qualquer pai, com ou sem instrução, pode observar mudanças no comportamento dos filhos. O ideal é que seja estabelecido um ambiente familiar com ênfase no diálogo, no respeito e na franqueza, para que os filhos possam se sentir seguros ante as adversidades. Por isso, é fundamental que a escola conscientize os pais sobre o fenômeno e os oriente na observação e nos procedimentos que devem adotar, além do estabelecimento de parceria com a escola. É importante que os pais não vejam seus filhos apenas como vítimas, uma vez que muitas crianças adotam comportamentos ambíguos no contexto familiar e escolar, e que atendam às solicitações da escola quando esta se pronunciar. Em meio a outras atribuições, é dever da escola zelar pela proteção das crianças e dos adolescentes que estão sob sua guarda e vigilância. Em casos graves a escola pode ser legalmente responsabilizada. Logo, os pais devem comunicar imediatamente a direção escolar ao saber da intimidação e exigir que sejam tomadas as devidas providências. Caso a escola se omita, é importante que se busque auxílio junto ao Conselho Tutelar ou outros órgãos de proteção à criança e ao adolescente. Em alguns países, existem centros de apoio jurídico que orientam os pais nas questões de intimidação e auxiliam nas ações judiciais impetradas contra a escola. Há casos noticiados em que as escolas foram responsabilizadas e tiveram que pagar indenizações milionárias às vítimas. O ideal é que todas as escolas tenham em seu projeto político pedagógico programas preventivos 44 contra o bullying. Cabe sublinhar, ainda, que não existe um método específico para que as vítimas do bullying possam se livrar de seus agressores. Muitas vítimas recorrem aos profissionais de psicologia, que as ajudam na elevação da autoestima, nas habilidades de assertividade, resolução de conflitos e autosuperação. Algumas são resilientes e encontram suas próprias soluções e, com o tempo, superam seus traumas. Outras carregam consigo os traumas da vitimização, podendo tomar-se adultos inseguros, tensos, depressivos ou agressivos, capazes de reproduzir no futuro o que sofreram na escola, na constituição familiar ou no local de trabalho. Há, também, aquelas que, em decorrência da vitimização, podem desenvolver transtornos psicológicos, tais como: transtornos do humor/afetivos; transtornos neuróticos, relacionados com o estresse; e transtornos da personalidade e do comportamento adulto. Ainda há aquelas crianças com transtornos do desenvolvimento psicológico, que podem ter sua situação agravada pelo envolvimento bullying. As escolas possuem um grande instrumento para reduzir o bullying e seus efeitos negativos. Os profissionais que atuam junto aos alunos, especialmente os professores, devem ensina-los como cultivar a solidariedade, a tolerância, a justiça, a cooperação e, sobretudo, o respeito às diferenças. Com isso, os alunos aprendem a respeitar e a valorizar as diferenças individuais, resolver seus conflitos e conviver em harmonia. O fato é que as pessoas que têm este comportamento (os agressores) mascaram seus próprios temores internos, tentam driblar o que as amedronta, amedrontando alguém e ferindo o outro, por medo de serem feridos primeiro. Tais pessoas são intimamente infelizes e tentam lançar nos demais a sua infelicidade. Por outro lado, pouco ou nada sentem de responsabilidade por seus atos e, freqüentemente, desejam exercer um controle sobre outra pessoa, com o objetivo de sempre sair ganhando. São incapazes de compreender e de apreciar os sentimentos alheios, mas são excelentes observadores do comportamento humano, sempre escolhendo como alvo aqueles que se 45 intimidam e se mostram medrosos e covardes, ou seja, aqueles que são facilmente derrotados. Na realidade, tais pessoas precisam tanto de ajuda quanto as suas vítimas, sob perigo de que venham a se tornar marginais e infratores da lei, adultos com comportamentos anti-sociais e/ou violentos, podendo vir a adotar, inclusive, atitudes delinqüentes ou criminosas. O melhor antídoto para lidar com o bullying e não se tornar um alvo fácil é gostar de si mesmo, é acreditar em si próprio, é ter uma elevada autoimagem que abarque a aceitação de suas características próprias, aceitandoas como prova de sua individualidade no mundo, e, principalmente, não cultivar o papel de vítima perante os demais. Os alvos são pessoas ou grupos que são prejudicados ou que sofrem as conseqüências dos comportamentos de outros e que não dispõem de recursos, status ou habilidade para reagir ou fazer cessar os atos danosos contra si. São, geralmente, pouco sociáveis e um forte sentimento de insegurança os impede de solicitar ajuda. São pessoas sem esperança quanto às possibilidades de se adequarem ao grupo. A baixa auto-estima é agravada por intervenções críticas ou pela indiferença dos adultos sobre seu sofrimento. Alguns crêem ser merecedores do que lhes é imposto. Têm poucos amigos, são passivos, quietos e não reagem efetivamente aos atos de agressividade sofridos. Muitos passam a ter baixo desempenho escolar, resistem ou recusam-se a ir para a escola, chegando a simular doenças. Trocam de colégio com freqüência, ou abandonam os estudos. Por outro lado, é importante que se conscientize de que não está sozinho nessa situação, não sendo culpado pelo que acontece, embora seja responsável pelo que possa vir a acontecer, se der poder a quem o ameaça, submetendo-se por medo. É importante que relate os fatos para outras pessoas como amigos e adultos que fazem parte de seu convívio (seus pais, professores, orientadores, terapeutas), pois é realmente difícil interromper esse processo sozinho. Quem é perseguido em bullyings, deve procurar se filiar a grupos, clubes 46 ou times e, principalmente quando é novo em uma escola, deve, durante os intervalos das aulas (ou recreio), andar próximo a um amigo ou professor, evitando ficar só e isolado. As testemunhas, representadas pela maioria dos alunos, convivem com a violência e se calam em razão do temor de se tornarem as "próximas vítimas". Apesar de não sofrerem as agressões diretamente, muitas delas podem se sentir incomodadas com o que vêem e inseguras sobre o que fazer. Algumas reagem negativamente diante da violação de seu direito a aprender em um ambiente seguro, solidário e sem temores. Tudo isso pode influenciar negativamente sobre sua capacidade de progredir acadêmica e socialmente. A equipe de uma escola deve ficar atenta aos alunos novos e àqueles que permanecem sozinhos e isolados, procurando conversar com eles, desenvolver um clima de amizade e confiança e procurando inseri-los em atividades. Sabe-se que, quando não há intervenções efetivas contra o bullying, o ambiente escolar torna-se totalmente contaminado. Todas as crianças, sem exceção, são afetadas negativamente, passando a experimentar sentimentos de ansiedade e medo. Em acréscimo às orientações comumente dadas pela equipe docente sobre os malefícios do bullying, é importante que o estabelecimento de ensino crie estratégias adequadas à redução deste tipo de comportamento. É fundamental que o tema seja divulgado e que se dê aos alunos a oportunidade de falar sobre bullying. É importante que se faça uma pesquisa da realidade, que se escutem opiniões a respeito e que os pais sejam informados. A melhor maneira de se combater o bullying é através da cooperação de todos os envolvidos: professores, funcionários, alunos e pais. Isto pode ser feito através da criação de letras de músicas pelos alunos, da elaboração de cartazes sobre o aspecto desumano do bullying, de atividades que promovam debates e conscientizações sobre como lidar com este comportamento, visando desenvolver e estabelecer lideranças positivas entre os alunos. As escolas podem realizar, ainda, dramatizações que focalizassem cenas de coação e desqualificação entre alunos, apresentação de vídeos sobre 47 o assunto (com posterior debate entre alunos), dinâmicas de grupo visando um compartilhamento de vivências de bullying, e reuniões com os familiares para que possam participar do processo e se conscientizar de sua responsabilidade, tanto na formação de alunos bully (agressores) como de alunos alvos de bullying. É importante lembrar que o bullying é fundamentalmente uma luta de poder, baseada em uma liderança negativa. Sendo assim, uma medida preventiva e profilática seria fomentar a criação de lideranças positivas em maior número na escola – de modo a coibir a ação dos bullies. 48 ANEXO 1 – ENTREVISTA Entrevista com a funcionária pública Biribaldina da Silva (nome fictício), cujo filho de oito anos de idade é vítima de bullying no colégio onde estuda, na Zona Norte da Cidade do Rio de Janeiro. Qual é a sua experiência com o bullying? Resposta: Na verdade, quem sofre com esse problema é o meu filho de oito anos, que é chamado pelos colegas de “gordo” e “catarrão”, por conta de um resfriado. Seu filho deve sofrer muito... Resposta: Infelizmente, sim! Por causa disso, ele, agora, sente vergonha de comer na frente de outras pessoas. Nem levar lanche para a escola ele leva mais. E, para piorar a situação, uma coleguinha de classe dele o chamou de gordo e fedido. Ao chegar em casa, meu filho tomou banho com um frasco inteiro de perfume do meu marido. E você, como mãe de uma vítima de bullying, como lida com a situação? Resposta: Eu converso muito com eu filho a respeito disso. Sempre procurando mostrar que ele não é nada disso que as outras crianças dizem. Procuro apontar sempre os pontos positivos, as suas qualidades, justamente para que ele na se sinta inferior a nenhum outro colega. E ele está assimilando bem os seus conselhos? Resposta: Sim! Desde que comecei a conversar com ele a respeito do assunto, mostrando a ele que ser gordo não é sinônimo de derrota para ninguém, notei uma diferença positiva em seu comportamento. Ele me disse, semana passada, que alguns de seus colegas já pararam com as “zoações”. Talvez seja um sinal de elevação da autoestima do menino... Resposta: Espero que sim! (risos). 49 ANEXO 2 – ENTREVISTA Entrevista com o universitário Anzebraldo de Melo (nome fictício), que sofreu com o bullying na infância e aprendeu a lidar melhor com as gozações dos colegas na fase adulta. Fale a respeito de sua experiência com o bullying. Resposta: Desde pequeno, sou motivo de chacota por ser gordo! Na escola, nas brincadeiras de rua, no clube, enfim, em qualquer lugar, sempre tinha um para “implicar” com a minha barriga, com a minha gordura, etc... Você sofre com isso atualmente? Resposta: Pra você ter uma idéia, meu apelido na faculdade onde estudo é “protuberância adiposa”! Isso sem mencionar a “galera” da turma de medicina, que me chama de “supositório de baleia”! É dura a vida do gordinho aqui! (risos). E o que você faz para, digamos, suportar isso? Resposta: Sinceramente, no meu tempo de criança, eu sofri mais com isso. Tanto que, na época, eu pedi ajuda aos meus pais, pois não agüentava mais ser achincalhado em todo lugar que fosse. Por diversas vezes, eu tive vontade de bater nos meus colegas. Foi quando meus pais me aconselharam a ignorar as brincadeiras ridículas. E funcionou, viu?! E atualmente, você utiliza o mesmo método da infância? Ignora os comentários maldosos dos colegas de universidade? Resposta: Pra falar a verdade, ultimamente eu tenho levado a coisa mais pro lado da brincadeira, sabe? Se alguém me põe um apelido, eu ponho outro na pessoa. Dependendo da pessoa, ponho logo uns três apelidos, pra ver se ela para de me aporrinhar... (risos). 50 ANEXO 3 – ENTREVISTA Entrevista com Marlowa Creuzibele (nome fictício), vítima de bullying na infância que ainda não superou os traumas das gozações na sua fase adulta. Relate a sua experiência com o bullying, por favor. Resposta: Desde criança, eu sempre fui alvo das gozações dos meus colegas por ter a pele clara e ser muito magra. Teve muitos apelidos? Resposta: Tive vários. Na sexta série, por exemplo, ninguém na escola me conhecia pelo nome. Só me chamavam de “esqueleto”, “mosquito”, “mosca morta”, “tripa seca”... Isso sem mencionar os apelidos que eu não me lembro... Como você reagia a esse tipo de escarnecimento? Resposta: Confesso que, na época, não agüentei a “pressão” e pedi transferência pro turno da manhã. E qual foi o resultado disso? Resposta: As gozações pararam, mas, eu fui tão achincalhada na época que, até hoje, eu me olho no espelho e não consigo me achar bonita. Não consigo nem mesmo acreditar em um elogio do meu marido. Mas, com todo o respeito, você é uma mulher bonita, sim! Resposta: Eu tento acreditar, mas acho que as gozações do meu tempo de criança me deixaram traumatizada comigo mesma. Estou fazendo tratamento com um analista para tentar mudar essa imagem negativa que me deixei criar... Espero, de verdade, que você consiga reverter esse quadro. Que você consiga se ver bonita no espelho! Boa sorte! Resposta: Muito obrigada! Vou tentar! (risos). 51 ANEXO 4 – FILMOGRAFIA CONSULTADA 1) “Te Pego Lá Fora” (EUA) Título Original: Three O'Clock High Ano de Produção: 1987 Direção: Phil Joanou Elenco: Casey Siemaszko, Richard Tyson Gênero: Comédia Distribuição: Universal Pictures 2) “Forrest Gump – O Contador de Histórias” (EUA) Título Original: Forrest Gump Ano de Produção: 1994 Direção: Robert Zemeckis Elenco: Tom Hanks, Robin Wright Penn, Gary Sinise, Sally Field Gênero: Comédia Dramática Distribuição: Columbia Tristar Pictures 3) “Meninas Malvadas” (EUA) Título Original: Mean Girls Ano de Produção: 2004 Direção: Tina Fey Elenco: Lindsay Lohan, Rachel McAdams, Lacey Chabert, Amanda Seyfried Gênero: Comédia Distribuição: 20th Century Fox 4) “Nunca Fui Beijada” (EUA) Título Original: Never Been Kissed Ano de Produção: 1999 Direção: Raja Gosnell Elenco: Drew Barrymore, David Arquette, Marley Shelton, Michael Vartan Gênero: Comédia Romântica Distribuição: 20th Century Fox 5) “As Melhores Coisas do Mundo” (Brasil) Ano de Produção: 2010 Direção: Laís Bodanski Elenco: Francisco Miguez, Denise Fraga, Zé Carlos Machado, Fiuk Gênero: Drama Distribuição: Warner Bros 6) “Antônia” (Brasil) Ano de Produção: 2006 Direção: Tata Amaral Elenco: Negra Li, Cindy Mendes, Leilah Moreno, Quelynah Gênero: Drama Musical Distribuição: 02 Filmes 52 BIBLIOGRAFIA: CALHAU, Lélio Braga. Bullying: o que você precisa saber. RJ, Impetus, 2009. TAYLOR, A.E. Bullying e Desrespeito: Como Acabar com Essa Cultura na Escola. Artmed. 2009. BASSEDAS, Eulália e HUGUEL, Teresa. Intervenção Educativa e Diagnóstico Psicopedagógico. Artmed. 2009. TIBA, Içami. Adolescentes: Quem Ama, Cuida. Integrare. 2008. FANTE, Cleo. Fenômeno Bullying. Versus Editora. 2009. TIBA, Içami. Família de Alta Performance: Conceitos Contemporâneos na Educação. Integrare. 2009. TIBA, Içami. Disciplina: Limite na Medida Certa. Integrare. 2009. MIDDELTON-MOZ, Jane e ZAWADSKI, Mary Lee. Bullying: Estratégias de Sobrevivência Para Crianças e Adultos. Artmed. 2009. GUARESCHI, Pedrinho e SILVA, Michele Reis da. Bullying: Mais Sério do Que Se Imagina. Saraiva. 2009. FANTE, Cleo e PEDRA, José Augusto. Bullying Escolar: Perguntas e Respostas. Artmed. 2008. HIRIGOYEN, Marie-France. Assédio Moral: A Violência Perversa No Cotidiano. Bertrand Brasil. 2009. FILHO, Rodolfo Pamplona. O Assédio Sexual Na Relação de Emprego. LTR. 2009. MALDONADO, Maria Tereza. A Face Oculta: Uma História de Bullying e Cyberbullying. Saraiva. 2009. 53 ÍNDICE INTRODUÇÃO 7 CAPÍTULO I BULLYING E AGRESSÕES SIMILARES 1.1) Conceito 1.1.1) Modalidades de Bullying 1.2) Agressões Similares 1.2.1) Assédio Moral 1.2.2) Assédio Sexual 1.2.3) Abuso de Poder 1.2.4) Cyberbullying 1.3) Bullying Homofóbico 1.4) Bullying Escolar 1.4.1) Relação Entre o Trote Universitário e o Bullying 1.4.2) Relação Entre os Professores e o Bullying 9 9 10 11 11 12 13 13 15 16 16 17 CAPÍTULO II PANORAMA GERAL DO BULLYING 2.1) O Que As Pesquisas Mostram 2.2) O Bullying Não É Um Fenômeno Novo 2.3) Principais Locais de Ataque Às Vítimas 2.4) Como Os Professores Podem Identificar o Bullying 2.5) O Bullying Na Mídia 2.5.1) O Bullying Na Mídia Mundial 2.5.2) O Bullying Na Mídia Brasileira 2.5.3) O Bullying Abordado Pelo Cinema Nacional 2.6) O Bullying Discutido Na Política 19 19 20 22 23 23 23 24 26 26 CAPÍTULO III – CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS DO BULLYING 3.1) Conseqüências do Bullying 3.2) Fatores Que Justificam A Insegurança das Vítimas 3.3) As Conseqüências da Vitimização no Contexto Profissional 3.3.1) O Apoio dos Pais no Combate ao Bullying 3.4) Os Autores de Bullying no Contexto Social 3.5) Conseqüências Para os Espectadores do Bullying 29 29 31 32 33 35 36 CONCLUSÃO 39 ANEXOS 48 BIBLIOGRAFIA 52 ÍNDICE 53