REVISTA DE BIOLOGIA E CIÊNCIAS DA TERRA
ISSN 1519-5228
Volume 12 - Número 1 - 1º Semestre 2012
Variações temporais na densidade de espécies lenhosas regenerativas em áreas
impactadas por Usinas Hidrelétricas
André Eduardo Gusson1; Vagner Santiago do Vale2; Glein Monteiro de Araújo3; Ivan Schiavini4
RESUMO
Este estudo investiga os efeitos da inundação de um reservatório nas principais populações
regenerativas de plantas em florestas estacionais deciduais impactadas por Usinas Hidrelétricas.
Foram feitas amostragens das populações antes e depois do momento da inundação, sendo
calculadas as taxas de mortalidade e recrutamento das principais espécies. O aumento da umidade
teve efeitos sobre a estrutura populacional das principais espécies na comunidade lenhosa
regenerativa, agindo de forma negativa ou positiva sobre as taxas mortalidade e recrutamento,
dependente da espécie. A intolerância à disponibilidade hídrica por algumas espécies merece uma
atenção especial, pois implicam no plano de manejo e recuperação das áreas impactadas pelo
reservatório artificial.
Palavras-chave: Barragens; Floresta Decidual; Mortalidade; Perturbação.
Temporal variations in the density of regenerating woody plants in impacted areas by
Hydropower
ABSTRACT
This study investigates the effects of reservoir flooding in the more important regenerative plants
population distributed in deciduous season forests impacted by Hydropower. Samples were
collected from the plant population before and after the flood and calculated specie’s mortality and
recruitment rates. To evaluate the moisture content variation in soil samples were collected before
and after the flood. The increased of the moisture had effects on the population structure of woody
species in the regenerative community, acting negatively or positively about mortality and
recruitment rates, depending on specie. Species not tolerant to increase water availability need a
special attention, because it implies the management plan and rehabilitation of impacted sites by
artificial reservoir.
Keywords: Dams; Deciduous Forest; Disturbance; Mortality.
83
INTRODUÇÃO
Nos últimos 30 anos, a América do Sul
apresentou um grande aumento no número de
reservatórios (BRANDT, 2000), sendo a
maioria
destes
reservatórios
artificiais
associados às grandes Usinas Hidrelétricas UHEs (SAMPAIO et al., 2005). Estes
reservatórios modificam a paisagem e
subsidiam
novas
condições
ambientais
(NILSSON e SVEDMARK, 2002), resultantes
principalmente
pela
inundação
dos
reservatórios e a perda de habitat (NILSON et
al., 2005). Ainda, as áreas impactadas pelos
reservatórios artificiais deslocam uma grande
quantidade de cobertura vegetal que, como
medida compensatória, áreas adjacentes aos
reservatórios devem ser recuperadas através do
plantio de mudas, principalmente nativas.
Estudos demonstram que as populações
vegetais apresentam respostas diferentes para os
efeitos da inundação (REA e GANF, 1994;
DENTON e GANF, 1994; CASANOVA e
BROCK, 2000), visto que o regime de água
modifica a interação competitiva entre as
espécies (KEDDY e REZNICEK, 1986). A
recuperação de áreas em grande escala muitas
vezes envolve a montagem de viveiros e a
produção de mudas para viabilizar o plano de
recuperação. No entanto, o foco é uma
produção maciça e menor preocupação com as
respostas sobre estabelecimento e desempenho
das espécies.
As inundações e conseqüente aumento
da disponibilidade de água eliminam algumas
espécies, favorecem a expansão de outras e
podem
afetar
significativamente
o
estabelecimento
de
uma
comunidade
(SEABLOOM et al., 1998). Assim, o estudo
sobre o comportamento das espécies em
diferentes condições ambientais torna-se uma
ferramenta extremamente fundamental e
aplicável para o plano de recuperação das áreas
diretamente afetadas pelos reservatórios. O
objetivo do trabalho foi verificar o efeito da
inundação sobre as populações das principais
espécies na comunidade lenhosa regenerativa
em áreas de florestas estacionais deciduais sob
a influência de reservatórios artificiais,
buscando relacionar a maior disponibilidade de
água no solo com a mortalidade, sobrevivência
e recrutamento dos indivíduos juvenis das
espécies.
MATERIAIS E MÉTODOS
Área de estudo
O estudo foi conduzido em duas
florestas estacionais deciduais localizadas às
margens do reservatório da UHE Amador
Aguiar I, Minas Gerais, Brasil: área 1 (68 ha,
18º48’ S e 48º07’ W) área 2 (17 ha, 18º47’ S e
48º06’ W). Estas florestas estão sob forte
influência da sazonalidade, com duas estações
bem definidas: uma seca, que compreende os
meses de abril a setembro, e outra chuvosa,
entre os meses de outubro a março (ROSA et
al., 1991). As florestas deste estudo fazem parte
de um conjunto de áreas que foram diretamente
afetadas pelo enchimento do reservatório
artificial da UHE Amador Aguiar I localizado
no vale do rio Araguari, Estado de Minas
Gerais, Brasil. O reservatório artificial da UHE
apresenta uma característica peculiar referente a
outras UHEs na não oscilação do espelho
d’água. Informações detalhadas sobre a
localização e descrição do local de estudo
podem ser encontrados em Siqueira et al.,
(2009) e Gusson et al., (2011).
Coleta e análise de dados
Em março de 2006 foi realizado o
primeiro censo populacional para as principais
espécies da comunidade lenhosa indicadas por
Siqueira et al. (2009), representadas no estrato
regenerativo em cada área. Foram demarcadas
40 parcelas de 5 m x 5m em cada área, alocadas
paralelamente a cota de inundação, sendo
amostrados e marcados todos os indivíduos
vivos que apresentaram altura superior a 1 m e
circunferência altura do peito (CAP) < 15 cm,
quando atingida. Foram coletadas dimensões
de altura e diâmetro na base do solo (DBS) de
84
cada individuo amostrado. Em março de 2009,
foram realizadas novas coletas utilizando o
mesmo critério de inclusão para os recrutas e
novos indivíduos que alcançaram o critério de
inclusão da amostragem.
A variação do teor de umidade do solo
ao longo do ano foi avaliada por coletas
trimestrais de solo entre os anos de 2005 e 2008
nas profundidades de 0-10 cm, 20-30 cm e 4050 cm e secas em estufa à 105ºC por 24 horas
(Gusson et al., 2011). As taxas de mortalidade
(M) e recrutamento (R) foram calculadas
utilizando as equações propostas por Sheil e
May (1996). As análises estatísticas
demonstrando as variações do teor de umidade
entre os anos e estações anuais foram
conduzidas e apresentadas por Gusson et al.,
(2011).
RESULTADOS
As análises do teor de umidade
demonstraram que ocorreram variações entre os
anos e entre o gradiente de profundidade,
aumentando o teor de umidade ao longo dos
anos, em ambas as áreas (Gusson et al., 2011).
Segundo os autores, esta mudança foi mais
perceptível na estação seca (setembro), onde o
teor de umidade, que não variava em 2005 (área
1 p = 0,534 e área 2 p = 0,635), provavelmente
porque no auge da estação seca o solo atinge o
máximo de déficit hídrico, após a inundação as
variações do gradiente ficaram extremamente
evidente (área 1 p = 0,025 e área 2 p = 0,022).
As taxas de mortalidade e recrutamento
das principais espécies da comunidade
regenerativa, como resposta às novas condições
impostas pela inundação, variaram entre as
áreas. Na área 1, A. colubrina, M. urundeuva,
Guazuma ulmifolia, Tabebuia roseoalba e
Lithraea molleoides apresentaram taxas de
mortalidade superior, enquanto que, Myrcia
splendens, Rhamnidium elaeocarpum e
Cecropia pachystachya as taxas foram
superiores para o recrutamento. Resultados
semelhantes foram observados na área 2, com
M. urundeuva, Guazuma ulmifolia e
Platypodium elegans apresentando taxas de
mortalidade superior e Tabebuia roseoalba, A.
colubrina, Acacia polyphylla, Campomanesia
velutina
e
Piptadenia
gonoacantha
apresentando taxas de recrutamento superior
(Tabela 1).
Tabela 1 - Lista das principais espécies representadas na comunidade regenerativa de duas florestas estacionais deciduais
sob a influência de reservatório artificial.
Espécies área 1
N0
NF
R
S
M
T.M
T.R
AB
Myrcia splendens (Sw.) DC.
97
301
236
65
32
6,45
13,07
0,42
Anadenanthera colubrina (Vell.) Brenan
Myracrodruon urundeuva Allemão
Guazuma ulmifolia Lam.
Rhamnidium elaeocarpum Reissek
Campomanesia velutina (Cambess.) O.Berg
Tabebuia roseoalba (Ridl.) Sandwith
Lithraea molleoides (Vell.) Engl.
Cecropia pachystachya Trécul
49
45
39
32
19
13
12
4
64
33
41
53
20
17
10
9
47
11
28
32
6
15
6
7
17
22
13
21
14
2
4
2
32
23
26
11
5
11
8
2
16,17
11,24
16,73
6,78
4,96
26,80
16,73
10,91
12,24
5,56
11,38
10,06
5,00
14,71
10,00
12,96
0,16
0,34
0,23
0,24
0,51
0,41
0,83
0,13
85
Espécies área 2
Tabebuia roseoalba (Ridl.) Sandwith
N0
94
NF
137
R
47
S
90
M
4
T.M
0,72
T.R
5,72
AB
1,24
Anadenanthera colubrina (Vell.) Brenan
77
139 93
46
31
8,23
11,15 0,24
Acacia polyphylla DC.
58
94
54
40
18
6,00
9,57
0,38
Campomanesia velutina (Cambess.) O.Berg
23
51
30
21
2
1,50
9,80
1,17
Myracrodruon urundeuva Allemão
20
9
2
7
13
16,05 3,70
0,52
Piptadenia gonoacantha (Mart.) J.F.Macbr.
12
26
18
8
4
6,53
11,54 1,04
Casearia mariquitensis Kunth
11
11
4
7
4
7,26
6,06
0,27
Guazuma ulmifolia Lam.
7
7
3
4
3
8,91
7,14
0,68
Platypodium elegans Vogel
6
5
1
4
2
6,53
3,33
0,74
N0 = número de indivíduos inicial; NF = número de indivíduos final; R = recrutas; S = sobreviventes; M = mortos; T.M =
taxa de mortalidade (% a.a); T.R = taxa de recrutamento (% a.a); AB = área basal média (cm2).
Como verificado principalmente em
Tabebuia roseoalba (Área1: T.M = 26,8 e T.R
= 14,71; Área 2: T.M = 0,72 e T.R = 5,72),
além da diferença de amplitude, ocorreram
respostas inversas para as taxas de mortalidade
e recrutamento dependente da área. Esta
inversão das taxas de mortalidade e
recrutamento pode ser explicada pela densidade
e maturidade dos indivíduos. Tabebuia
roseoalba apresentou média de área basal e
densidade superior na área 2, onde as taxas de
mortalidade conseqüentemente foram menores.
O mesmo pode ser observado em Myracroduon
urundeuva, Anadenanthera colubrina e
Guazuma ulmifolia.
DISCUSSÃO
As flutuações ocorridas nas taxas de
mortalidade, recrutamento e demais variáveis
demográficas podem estar relacionados tanto a
variáveis físicas do ambiente quanto a
estruturais das populações. Estas diferenças de
taxas podem ocorrer devido à variação no
tamanho dos indivíduos amostrados (PINTO,
1997) e ainda podem variar dentro de uma
mesma área ou entre períodos sucessivos de
monitoramento (ROLIM et al. 1999).
Dificilmente pode-se monitorar e controlar as
inúmeras variáveis ambientais em espaços
abertos. Além disso, os ambientes florestais
naturalmente
ocasionam
uma
grande
variabilidade temporal e espacial interferindo
nos valores das taxas de mortalidade e
recrutamento (ROSSI et al. 2007; ROLIM et al.
1999).
O estresse hídrico é um dos principais
fatores que podem afetar o estabelecimento e a
sobrevivência de novos indivíduos e
corresponde a fase onde ocorre uma das
maiores taxas de mortalidade no ciclo de vida
da planta (SOLBRIG, 1980). No sentido
inverso, Kramer et al., (2008) demonstram
correlações positivas entre a inundação e o
aumento da mortalidade de espécies arbóreas.
Nesse sentido, entende-se que o estresse hídrico
pode alterar os valores das taxas de mortalidade
pela maior disponibilidade ou pela escassez de
água. Muitos trabalhos demonstram que o
aumento da disponibilidade hídrica, neste caso,
o aumento de teor de umidade no solo
provocado pela inundação pode afetar a
sobrevivência,
o
crescimento,
o
estabelecimento, o recrutamento e a
distribuição das espécies de plantas (BLOM et
al., 1994; KERN, 1996; KEVIN e BROOKS,
2003; VERVUREN et al., 2003; GLENZ et al.,
2006; GLENZ et al., 2008).
Em longo prazo, apenas as espécies
tolerantes ao aumento da disponibilidade
hídrica permaneceram no ambiente, outras
novas poderão ocupar os espaços oferecidos
pelas espécies que não suportaram as novas
condições ambientais e por fim a estrutura e
diversidade destas áreas serão alteradas.
86
CONCLUSÃO
Este trabalho demonstra que, após a
inundação do reservatório, o aumento do teor
de umidade apresentou conseqüências negativas
para a estrutura populacional de algumas
espécies lenhosas da comunidade regenerativa.
Ainda, considera que as novas condições
ambientais impostas pelos reservatórios
artificiais podem promover o aumento ou
declínio populacional das espécies vegetais
nativas pré-estabelecidas, podendo alterar a
estrutura
e
composição
das
futuras
comunidades florestais. Tais informações
merecem destaque uma vez que, a recuperação
das margens de reservatórios artificiais esta
associada ao sucesso das espécies indicadas no
plano de recuperação das áreas impactadas.
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______________________________________
[1] - Mestre em Ecologia, Prof. ILES/ULBRA –
Itumbiara, Goiás ([email protected]).
[2] - Doutor em Ecologia, Pós Doutorando UFU,
Uberlândia, Minas Gerias ([email protected]).
[3] - Doutor em Ecologia, Prof. Universidade Federal de
Uberlândia, Uberlândia, Minas Gerias ([email protected]).
[4] - Doutor em Ecologia, Prof. Universidade Federal de
Uberlândia, Uberlândia, Minas Gerias
([email protected]).
SEABLOOM, E.W., van der VALK, A.G.,
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88
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