MODELAGEM MATEMÁTICA E A PEDAGOGIA HISTÓRICO CRÍTICA: É POSSÍVEL APROXIMÁ-LAS? BISCONSINI, Vilma Rinaldi [email protected] LAVAQUI, Vanderlei [email protected] TAMBARUSSI, Gracikel Deliceus [email protected] RESUMO: Neste trabalho, propõe-se discutir a possibilidade de aproximação teóricometodológica entre a Pedagogia Histórico-Crítica e a Modelagem Matemática. Para isso, parte-se do pressuposto de que ambas defendem que o ensino da Matemática pode ser realizado a partir da realidade social do estudante. Então, faz-se um percurso pela Modelagem Matemática e, progressivamente, vai sendo apresentada a Pedagogia Histórico-Crítica, realizando comparações e análises da proposta didático-metodológica de cada uma. Conclui-se que há viabilidade para tal aproximação e aponta-se para a necessidade de que haja, na continuidade da pesquisa, maior aprofundamento teórico das duas perspectivas, buscando aprofundar as relações entre elas. Por último, relata-se e reflete-se sobre uma experiência com Modelagem Matemática que despertou o interesse pela pesquisa na área em questão. Palavras-chave: Modelagem Matemática; Pedagogia Histórico-Crítica; Ensino e Aprendizagem de Matemática. INTRODUÇÃO Este trabalho apresenta um estudo inicial1 sobre Modelagem Matemática e reflete sobre uma possível aproximação desta com a Pedagogia Histórico-Crítica, como uma alternativa de ensino da Matemática, principalmente a partir da 5ª série. Para tanto, centrase na preocupação em entender mais profundamente o ensino e a aprendizagem da Matemática nas séries finais do Ensino Fundamental, a partir, por exemplo, da 5ª série, ao indagar se as crianças têm, até esta série, construídos, por exemplo, os conceitos 1 Estudo apresentado como requisito de projeto de pesquisa para a seleção de ingresso de professores no Programa de Desenvolvimento Educacional do Paraná – PDE, turma de 2009. 374 geométricos de unidade de medida, de área, de espaço e de forma. Outras indagações também são pertinentes: Se os conceitos não estão consolidados, o caminho do ensino na perspectiva da tendência metodológica da Modelagem Matemática pode ampliar e consolidar tais conhecimentos? Em que medida a Modelagem Matemática, aproximandose da Pedagogia Histórica-Crítica, poderá atender essa expectativa? Defende-se, neste texto, que a Modelagem Matemática propõe um trabalho, em sala de aula, a partir de situações-problema apresentadas pelos estudantes. Desse modo, eles podem sugerir situações passíveis de se tornarem objetos de estudo em Matemática e, ainda, que esses problemas da realidade sejam entendidos com a instrumentalização da Matemática, de modo crítico. A partir disso, os estudantes podem construir esses conhecimentos de modo mais significativo, diferentemente de situações em que simulações são apenas subterfúgios para a introdução do conteúdo. Além desses argumentos, considera-se, por exemplo, que a Geometria é um conhecimento que está muito presente no contexto dos estudantes. Desse modo, é possível problematizá-lo, ou seja, partir diretamente de questões propostas por eles ou instigadas pelo professor que, neste caso, assume a postura de mediador, que compreende a realidade como um complexo de contradições, portanto passível de ser entendida criticamente pelos estudantes. Assim, apresenta-se um estudo inicial de fundamentação teórica em Modelagem Matemática como tendência metodológica, visando a diversificar o trabalho em sala de aula com o ensino da Matemática, a partir da 5ª série. Outra discussão busca a aproximação da fundamentação teórica da Pedagogia Histórico-Crítica, e sua perspectiva de problematização da realidade, com a Modelagem Matemática como metodologia de ensino. Essa aproximação ocorre na medida em que ambas as perspectivas de ensino propõem o trabalho pedagógico considerando como ponto de partida a realidade problematizada pelos estudantes. MODELAGEM MATEMÁTICA: ORIENTAÇÃO TEÓRICO-METODOLÓGICA As pesquisas em Educação Matemática têm apontado possibilidades quanto à utilização da Modelagem Matemática no processo de ensino e de aprendizagem. Dispõese, atualmente, de fundamentação teórica e de relatos de experiências que auxiliam e, em grande medida, dão suporte em relação à adoção dessa perspectiva em sala de aula. 375 Existem produções teóricas e ações desencadeadas por pesquisadores e programas de pós-graduação, com uma história de aproximadamente vinte anos de pesquisas na área de Educação Matemática, envolvendo essa tendência metodológica. Entretanto, boa parte dos professores atuantes na Educação Básica, mais especificamente nas séries finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio, ainda não dispõem, suficientemente, de uma fundamentação teórica e conhecimentos didáticos sistematizados sobre a Modelagem Matemática para desencadeá-la em suas práticas pedagógicas. Os resultados das pesquisas em Educação Matemática aparecem nas DCE-PR (Diretrizes Curriculares da Educação Básica do Paraná para a disciplina de Matemática), quando estas, explicitamente, apontam tendências metodológicas da Educação Matemática e, dentre elas, a Modelagem Matemática como uma das possibilidades para enriquecer o trabalho do professor em sua prática pedagógica. Os conteúdos propostos devem ser abordados por meio de tendências metodológicas da Educação Matemática que fundamentam a prática docente, das quais destacamos: resolução de problemas; modelagem matemática; uso de mídias tecnológicas; etnomatemática; história da Matemática; investigações matemáticas. (PARANÁ, 2008, p. 35, grifo nosso) É possível perceber que as discussões teóricas avançam na reflexão sobre o ensino da Matemática e indicam a Modelagem Matemática como possibilidade de interferir no processo de ensino e de aprendizagem da Matemática. A Modelagem Matemática tem como pressuposto a problematização de situações do cotidiano. Ao mesmo tempo em que propõe a valorização do aluno no contexto social, procura levantar problemas que sugerem questionamentos sobre situações de vida. [...] O trabalho pedagógico com a Modelagem Matemática possibilita a intervenção do estudante nos problemas reais do meio social e cultural em que vive, por isso, contribui para sua formação crítica. (PARANÁ, 2008, p. 64-65) A Modelagem Matemática, nessa perspectiva, representa um avanço, interferindo na formação de sujeitos, em condições de refletirem-se e instrumentalizarem-se, ao participarem ativamente do processo de construção de conhecimentos matemáticos. As DCE-PR, embasadas nas pesquisas em Educação Matemática, apontam a Modelagem Matemática como um dos possíveis encaminhamentos metodológicos em sala de aula. Nesse sentido, Bassanezi (2006, p. 7) afirma que: [a] Modelagem Matemática utilizada como estratégia de ensino-aprendizagem é um dos caminhos a ser seguido por tornar um curso de matemática, em qualquer nível, mais atraente e agradável. Tal processo, que consiste na arte de transformar problemas da realidade em problemas matemáticos, resolvê-los e, então, interpretar suas soluções na linguagem do mundo real, é um processo dinâmico e atraente. Um modelo eficiente permite fazer previsão, tomar decisões, explicar e entender, enfim, participar do mundo real com capacidade de influenciar em suas mudanças. 376 A Modelagem Matemática, como tendência metodológica para o ensino da Matemática, é defendida como possibilidade de romper com o paradigma do ensino tradicional, como propõe D’Ambrósio (1989, p.17): A Modelagem Matemática tem sido utilizada como uma forma de quebrar a forte dicotomia existente entre a matemática escolar formal e a sua utilidade na vida real. Os modelos matemáticos são formas de estudar e formalizar os fenômenos do dia a dia. Através da Modelagem Matemática o aluno se torna mais consciente da utilidade da matemática para resolver e analisar problemas do dia a dia. Esse é um momento de utilização de conceitos já aprendidos. É uma fase de fundamental importância para que os conceitos trabalhados tenham um maior significado para os estudantes, inclusive com o poder de torná-los mais críticos na análise e compreensão de fenômenos diários. A Modelagem Matemática representa uma tendência metodológica para a condução do processo de ensino e de aprendizagem. Nesse movimento, parece ainda não haver um consenso bem estabelecido quanto a seu entendimento, se como metodologia ou estratégia de ensino da Matemática, como mostra Bean (2002 citado por SILVEIRA, 2005, p. 3): Uma questão que ainda não se tem consenso e que aparece na literatura é se a Modelagem Matemática é uma metodologia (FIORENTINI, 1996); um método de ensino-aprendizagem (BIEMBENGUT, 2000); um ambiente de aprendizagem (BARBOSA, 2001) ou uma estratégia de ensino e aprendizagem (BASSANEZI, 2002). Por outro lado, existem autores que afirmam que o conceito de Modelagem Matemática não está bem definido nos trabalhos acadêmicos no âmbito da Educação Matemática e assinalam que essa falta de clareza reside, em parte, na complexidade de transferir ou adaptar a atividade do modelador ao campo de ensino de matemática onde atua o professor de matemática. Apesar dos diferentes entendimentos acerca dessa questão, assume-se que a Modelagem Matemática apresenta-se como uma alternativa de encaminhamento metodológico para o processo de ensino e de aprendizagem. Para uma concepção progressista de educação, essa forma de encaminhamento permite considerar a prática social do estudante como um ponto de partida para o trabalho do docente. Possibilita, ainda, que, durante o processo, o estudante participe, reflita, generalize, construa conceitos matemáticos e perceba, com uma visão crítica, a presença da Matemática em diferentes contextos. PERCURSOS DA MODELAGEM MATEMÁTICA Historicamente, a modelagem está presente no processo de construção do conhecimento humano desde os primórdios. Os seres humanos primitivos, observando o 377 ambiente, buscavam formas de reconhecer regularidades e dar explicações a fenômenos físicos e a problemas de ordem prática. No entanto, é na civilização grega que a Matemática passou a ser sistematizada de forma mais racional, com a busca de modelos que permitissem explicar os fenômenos sem recorrer tão somente à intuição e observações empíricas, mas utilizando o pensamento dedutivo. De acordo com as necessidades, em cada época a humanidade construiu um ferramental matemático para resolver problemas de ordem empírica, tecnológica e científica, com destaque, nas últimas décadas do século XX e nesse início de século, aos subsídios para a resolução de situações-problema resultantes das atividades socioeconômicas, nas ciências humanas e biológicas. Pesquisadores na área de Educação Matemática têm apresentado diferentes definições para a Modelagem Matemática. Para Bassanezi (2002, p. 16), um dos pioneiros em estudos nesse tema no Brasil, “[...] a modelagem pode ser tomada tanto como método científico de pesquisa quanto como uma estratégia de ensino-aprendizagem”. Por sua vez, na busca por uma definição, o mesmo autor declara que (p. 16): “A modelagem matemática consiste na arte de transformar problemas da realidade em problemas matemáticos e resolvê-los interpretando suas soluções na linguagem do mundo real”. Segundo Burak (1992, p. 62), “[...] a Modelagem Matemática constitui-se em um conjunto de procedimentos cujo objetivo é construir um paralelo para tentar explicar, matematicamente, os fenômenos presentes no cotidiano do ser humano, ajudando-o a fazer predições e a tomar decisões”. De acordo com Chaves (2005, p. 11), a Modelagem Matemática é: [...] um método que transforma uma situação/questão escrita na linguagem corrente e proposta pela realidade em linguagem simbólica da matemática, fazendo aparecer um modelo matemático, que por ser uma representação significativa do real, se analisado e interpretado segundo as teorias matemáticas, devolve informações interessantes para a realidade que se está questionando. Para Biembengut e Hein (2005, p. 12) Modelagem Matemática é o processo que envolve a obtenção de um modelo. Este, sob certa óptica, pode ser considerado um processo artístico, visto que, para se elaborar um modelo, além do conhecimento de matemática, o modelador precisa ter uma dose significativa de intuição e criatividade para interpretar o contexto, saber discernir que conteúdo matemático melhor se adapta e também ter senso lúdico para jogar com as variáveis envolvidas. 378 No âmbito educacional, as definições apresentadas para a modelagem implicam em um significado diferenciado para o processo de ensino e de aprendizagem, na medida em que deslocam o eixo de um ensino com características tradicionais para uma abordagem em que o cotidiano, o real e a problemática social passam a oferecer elementos para implementar novas alternativas metodológicas de ensino da Matemática. Essa concepção apresenta ao professor a possibilidade de desenvolver de forma significativa os conceitos/conteúdos matemáticos, partindo de situações da realidade do estudante, passando por um processo de sistematização e generalização, permitindo a eles vislumbrarem outras possibilidades de analisar problemas, tendo a Matemática como um ferramental para uma interpretação dessa realidade. Percebe-se, ainda, a Modelagem Matemática como um processo que visa traduzir as linguagens do mundo real para a linguagem da Matemática. Isso implica admitir que a Modelagem Matemática possibilita estabelecer um elo entre a Matemática e a realidade, permitindo ao estudante interagir no processo de elaboração de um modelo matemático. Entretanto, para que se possa colocar em prática o processo de obtenção de um modelo matemático, há a necessidade de uma sequência de etapas/procedimentos que orientem o trabalho do professor junto aos estudantes, a fim de garantir que toda a ação seja significativa, do ponto de vista da apropriação de conhecimentos matemáticos. Nessa direção, adotar-se-á o encaminhamento das ações elaboradas por Biembengut (1997), que agrupa e identifica os procedimentos em três etapas: interação com o assunto; matematização e modelo matemático. De acordo com a autora, a etapa denominada interação com o assunto pode ser subdividida em duas sub-etapas: reconhecimento da situação-problema e familiarização com o assunto a ser modelopesquisa. Nessa etapa, a situação-problema a ser abordada e estudada será delineada e, para que ela possa ser melhor compreendida pelos estudantes, podem ser encaminhadas pesquisas bibliográficas acerca da temática, em livros e revistas especializadas. Pode-se ainda, buscar, junto a especialistas da área, informações e dados relevantes sobre a situação objeto de estudo. A segunda etapa do processo é denominada matematização, que, por sua vez, é constituída de duas sub-etapas: formulação do problema-hipótese e resolução do problema em termos do modelo. Para Biembengut (1997), esta é a fase mais complexa e desafiadora, pois é nela que se dará a tradução da situação-problema para a linguagem matemática. Assim, intuição e criatividade são elementos indispensáveis aos envolvidos nesse processo. Para formular e validar as hipóteses é necessário: a) classificar as informações (relevantes e não relevantes) identificando fatos envolvidos; 379 b) decidir quais os fatores a serem perseguidos, levantando hipóteses; c) identificar constantes envolvidas; d) generalizar e selecionar variáveis relevantes; e) selecionar símbolos apropriados para as variáveis; f) descrever estas relações em termos matemáticos. Ao final dessa etapa, deve-se obter um conjunto de expressões e fórmulas, ou equações algébricas, ou gráficos, ou representações, ou programa computacional, que levem a solução ou permitam a dedução de uma solução. Dessa forma, o problema passa a ser resolvido com o ferramental matemático de que se dispõe. Isto, de um lado, requererá um conhecimento razoável por parte do professor e dos estudantes, sobre as entidades matemáticas envolvidas na formulação do modelo e, de outro, abre espaço para a pesquisa e a reflexão. Por fim, a terceira etapa do processo, que é chamada pela autora de modelo matemático, corresponde à interpretação da solução e validação do modelo. Nesta etapa do processo, torna-se necessário avaliar – antes de partir para as conclusões e utilização do modelo matemático obtido – em que nível o modelo se aproxima da problemática abordada inicialmente. A interpretação do modelo deve tomar como referência a situação-problema, por meio de uma análise das implicações da solução, oriunda do modelo que está sendo investigado; assim, ter-se-á elementos para averiguar a adequabilidade do modelo em face à problemática. Retornando à situação-problema investigada, pode-se avaliar o quão significativa é a solução obtida. Por sua vez, caso o modelo não atenda às necessidades que o gerou, o processo deve ser retomado na segunda etapa, alterando-se, por exemplo, hipóteses e variáveis com vistas a permitir que o modelo encontrado possa representar, da melhor forma possível, a realidade que o originou. A incorporação da Modelagem Matemática na Educação Básica – séries finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio – objeto deste estudo – e suas orientações teóricometodológicas estão sujeitas a alterações, levando em consideração o grau de escolaridade dos estudantes, o tempo disponível que terão para o trabalho em sala, o programa a ser cumprido e a abertura, por parte da comunidade escolar, para implantar mudanças. O professor precisa ter conhecimento sobre modelagem e, para tanto, ter oportunidade de realizar estudos sobre essa tendência. POSSÍVEIS APROXIMAÇÕES ENTRE A PEDAGOGIA HISTÓRICO-CRÍTICA E A MODELAGEM MATEMÁTICA 380 Nesse estudo, parte-se do pressuposto de que é possível aproximar a tendência metodológica da Modelagem Matemática dos fundamentos teóricos da Pedagogia Histórico-Crítica. A coerência dessa aproximação está no que ambas propõem como ponto de partida para o trabalho em sala de aula – a realidade do estudante. O entendimento desse ponto de partida é que essa realidade é o princípio didáticometodológico, a partir da concepção que fundamenta a educação na perspectiva de Saviani (2003, p. 80), quando afirma que: A cultura popular, do ponto de vista escolar, é da maior importância enquanto ponto de partida. Não é, porém, a cultura popular que vai definir o ponto de chegada do trabalho pedagógico nas escolas. [...] O povo precisa da escola para ter acesso ao saber erudito, ao saber sistematizado [...]. As questões que emergem da realidade podem ser problematizadas e transpostas como objeto de ensino, ao mesmo tempo em que precisam ser compreendidas criticamente por meio dos conhecimentos historicamente produzidos e sistematizados. Na Pedagogia Histórico-Crítica, segundo os estudos de Gasparin (2002, p. 3-4) em Uma didática para a pedagogia histórico-crítica, têm-se que: O ponto de partida do novo método não será a escola, nem a sala de aula, mas a realidade social mais ampla. A leitura crítica dessa realidade torna possível apontar um novo pensar e agir pedagógicos. Deste enfoque, defende-se o caminhar da realidade social, como um todo, para a especificidade teórica da sala de aula e desta para a totalidade social novamente, tornando possível um rico processo dialético de trabalho pedagógico. Na Modelagem Matemática, o momento denominado de interação do assunto, em que prevê o reconhecimento da situação-problema e sua familiarização por parte do estudante, aproxima-se, na perspectiva da Pedagogia Histórico-Crítica, da proposição que toma como ponto de partida a prática social inicial, quando propõe como encaminhamentos o anúncio do conteúdo e a vivência cotidiana desse conteúdo. As demais fases descritas nesse estudo de Gasparin (2002) compõem-se de: problematização; instrumentalização; catarse e prática social final. Estas fases podem fornecer elementos teóricos e práticos que venham subsidiar o desenvolvimento da Modelagem Matemática, enquanto encaminhamentos metodológicos para o ensino da Matemática. No estudo desenvolvido por Biembengut e Hein (2005, p. 13) são mostradas as etapas da Modelagem Matemática, sendo: interação (reconhecimento da situaçãoproblema e familiarização com o assunto a ser modelado – referencial teórico); matematização (formulação do problema – hipótese e resolução do problema em termos do modelo); modelo matemático (interpretação da solução e validação do modelo – avaliação), quando formula o problema e resolve-o, e o modelo matemático com a interpretação e validação do modelo. 381 Nessa proposta de trabalho, têm-se a consciência de ser este um estudo incipiente e, portanto, de necessário aprofundamento teórico, para não se cometer a leviandade de tentar aproximar questões teóricas contraditórias. A hipótese é que a Modelagem Matemática, enquanto tendência metodológica, reafirme sua contribuição para a formação de estudantes, conforme prevê as DCE: Pela Educação Matemática, almeja-se um ensino que possibilite aos estudantes análises, discussões, conjecturas, apropriação de conceitos e formulação de idéias. Aprende-se Matemática não somente por sua beleza ou pela consistência de suas teorias, mas, para que, a partir dela, o homem amplie seu conhecimento e, por conseguinte, contribua para o desenvolvimento da sociedade. (PARANÁ, 2008, p. 48) Visando explicitar essa possível aproximação, apresenta-se um quadro-resumo com algumas características importantes de ambas as propostas. Pedagogia Histórico Crítica2 Modelagem Matemática3 Prática social inicial: é uma primeira Escolha do tema: é o início do estudo. leitura da realidade a partir de um tema a Parte-se de um tema de interesse dos ser estudado. Este momento é o ponto de estudantes, seguido de pesquisa para partida que considera a vivência do aluno: interação do tema, sendo este o momento o que os estudantes sabem e o que de delimitação da situação-problema que precisam saber a respeito do conteúdo a precisa ser estudado. ferramental matemático a ser construído, Problematização: questões que levam o para responder o problema. Os passos são: estudante a perceber a necessidade de interação (reconhecimento da situação- conhecer o conteúdo matemático para problema e familiarização com o assunto entender esse problema. a ser modelado – referencial teórico) Instrumentalização: resolvida a partir do ao Matematização: seleciona-se uma questão momento em que o conteúdo deve ser que constitui o problema a ser resolvido. trabalhado ser Os estudantes fazem pesquisas orientadas disponibilizado ao estudante, para que para delimitar o conteúdo matemático. assimile-o, recrie-o e, ao incorporá-lo, Neste momento, trabalha-se esse conteúdo, transforme-o em instrumento de construção aplica-o a modelos similares e retorna-se à pessoal e profissional. questão como corresponde ser instrumento a principal. Matematização (formulação do problema – hipótese e resolução do problema em termos do 2 Quadro dos passos da Pedagogia Histórico-Crítica organizados no trabalho de Gasparin (2002). Quadro dos procedimentos para o trabalho com Modelagem Matemática organizados no Trabalho de Biembengut e Hein (2005). 3 382 modelo) Catarse: é o momento da verdadeira Modelo matemático: é validado por meio apropriação do conhecimento matemático de sua aplicação ao problema inicial e a por parte dos estudantes – é a síntese do outras situações. Se o modelo não atender conhecimento do cotidiano e do científico, as necessidades que o geraram, este deve do teórico e do prático. ser retomado. Modelo matemático Prática social final: é o momento em que (interpretação da solução e validação do o estudante percebe que a teoria pode ser modelo – avaliação). traduzida em prática, tendo maior clareza científica dessa realidade na sua totalidade. A discussão que se deseja encaminhar, a partir desse quadro comparativo, não pode ser restrita, apenas, a uma análise superficial dos passos e/ou etapas empíricas de um encaminhamento em sala de aula. A Pedagogia Histórico-Crítica, por sua consistência teórica, fornece a fundamentação para a formação de sujeitos críticos capazes de, a partir da aquisição do conhecimento historicamente produzido, agir no sentido de participar das transformações necessárias à sociedade moderna. Assim, a educação e, em especial, a Educação Matemática, ao defender essa perspectiva para a formação escolar dos estudantes, pode buscar na Pedagogia Histórico-Crítica os fundamentos que dão sustentação a essas ações. Por sua vez, a Modelagem Matemática fornece um encaminhamento metodológico em condições de articular os objetivos da Pedagogia Histórico-Crítica com a prática do professor de Matemática em sala de aula. Outro aspecto importante a ser considerado é que a Modelagem Matemática trata diretamente da especificidade do ensino da Matemática, atendendo, de forma mais específica, o trabalho com os assuntos/conteúdos dessa disciplina nas séries finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio. Em contraposição às sugestões didáticas do trabalho de Gasparin (2002), em Uma didática para a pedagogia histórico-crítica aparece uma proposta mais abrangente direcionada a todas as disciplinas/áreas do conhecimento escolar. Adicionalmente, parece ser importante ressaltar que as pesquisas em Modelagem Matemática possuem uma base de experiências interessantes e significativas para o ensino da Matemática no Brasil e no mundo, pois há mais de vinte anos concentra pesquisas em Educação Matemática. 383 A defesa desse encontro centra-se, então, na dialética teoria e prática, porque os fundamentos teóricos da Pedagogia Histórico-Crítica são relevantes para a educação quando embasam o fazer em sala de aula realizado na perspectiva da Modelagem Matemática. Nas duas perspectivas denotam-se problemas comuns, como a dificuldade de trabalhar a partir de temas problematizados pelos estudantes, que nem sempre coincidem com o currículo escolar instituído. Levando-se em conta que as escolas trabalham com disciplinas definidas pelo currículo, e que o conteúdo de cada uma dela é sempre previamente estabelecido e aprovado pelo corpo docente e pelos órgãos competentes, antes do início das aulas, torna-se difícil, para não dizer impraticável, estabelecer primeiramente quais questões sociais serão estudadas e, em função delas, quais os conteúdos mais significativos como resposta (GASPARIN, 2002, p. 37-38) Com relação à Modelagem Matemática, Biembengut e Hein (2005, p. 18) também apontam a dificuldade de trabalhar a partir de temas problematizados pelos estudantes, porque: Em cursos regulares, nos quais há um programa a ser cumprido – currículo – e uma estrutura espacial e organizacional nos moldes ‘tradicionais’ (como é a maioria das instituições de ensino), o processo da modelagem precisa sofrer algumas alterações, levando em consideração principalmente o grau de escolaridade dos estudantes, o tempo disponível que terão para o trabalho extraclasse, o programa a ser cumprido e o estágio em que professor se encontra, seja em relação ao conhecimento da modelagem, seja no apoio por parte da comunidade escolar para implantar mudanças. A esse processo de adaptação ao currículo e à organização do trabalho escolar, esses autores (2005, p. 18) denominam de Modelação Matemática, a qual “[...] norteia-se por desenvolver o conteúdo programático a partir de um tema ou modelo matemático”. Essa possibilidade permite ao professor fazer ajustes didáticos de modo a realizar seu trabalho segundo os princípios da Modelagem Matemática e, ao mesmo tempo, não se afastar do planejamento dos conteúdos a serem trabalhados no decorrer do ano. Entretanto, apesar da modelação ser um caminho importante no sentido de diversificar a prática pedagógica, neste trabalho busca-se ampliar estas possibilidades, considerando que a Modelagem Matemática prevê alguns encaminhamentos semelhantes ao propostos pela Pedagogia Histórico-Crítica. Esta poderá fornecer subsídios para a formação de um estudante crítico, consciente do seu papel na sociedade, especialmente no último momento/passo/etapa, em que, na Modelagem Matemática, objetiva-se validar o modelo matemático construído e, em 384 seu correspondente na Pedagogia Histórico-Crítica, busca-se retornar à prática social ou ao problema, analisando a realidade social e ampliando as discussões sobre a problemática abordada, conforme explicita Gasparin (2002, p. 8), ao defender que “o conhecimento teórico adquirido pelo educando retorna à prática social de onde partiu, visando agir sobre ela como entendimento mais crítico, elaborado e consistente, intervindo em sua transformação”. Outro aspecto que precisa ser analisado comparativamente é o modo de conceber o que é um problema. Para Saviani (1991, p. 21) “A essência do problema é a necessidade”. Esse é, então, o fundamento de problema para a Pedagogia Histórico-Crítica que é traduzido em problematização, como diz Gasparin (2002, p. 35): “[...] um desafio, ou seja, é a criação de uma necessidade para que o educando, através de sua ação, busque o conhecimento”. Em ambas as perspectivas, a problematização parte da realidade do estudante, sendo necessário olhar para essa realidade de forma questionadora e crítica para perceber as contradições existentes nela. REFLETINDO SOBRE UMA EXPERIÊNCIA COM MODELAGEM MATEMÁTICA Esse estudo não parte apenas de orientações teóricas para a elaboração do préprojeto de pesquisa para a participação no PDE. Vivenciou-se, antes disso, uma experiência de prática de sala de aula, além de se ter participado ativamente das reflexões e discussões para a elaboração das DCE de Matemática, no período 2003-2009. Desse modo, buscou-se articular os subsídios teóricos e práticos que motivaram a continuação e aprofundamento no assunto. O trabalho desenvolvido em sala, com Modelagem Matemática, foi norteado pela participação em inúmeras discussões e reflexões a respeito de estratégias metodológicas que pudessem contribuir com a melhoria do ensino da Matemática. Essas discussões e reflexões impuseram desafios, dentre eles o de desenvolver uma experiência com a Modelagem Matemática em sala de aula, com duas turmas de oitava série do Ensino Fundamental, de uma escola pública, do município de Assis Chateaubriand, Paraná. Num determinado momento, ao entrar na sala dessas duas turmas de oitava série, observando o comportamento dos estudantes — caracterizado pelo desânimo e por relativa inércia, procurou-se levar esses dois grupos a perceber o porquê de estudar Matemática. 385 A primeira iniciativa foi a de buscar conhecimentos mais consistentes a respeito da Modelagem Matemática enquanto procedimentos em sala de aula. Estes subsídios foram encontrados, entre outros, especialmente nos trabalhos de Biembengut e Hein (2005). Num segundo momento, propôs-se aos estudantes outra forma de trabalho. Eles foram desafiados a pensar num problema ou situação que os incomodava e que, de certa forma, não conseguiam resolver, os quais, provavelmente, poderiam ser resolvidos com ferramentas matemáticas. Inicialmente, os estudantes aceitaram a proposta com um pouco de resignação, mas, como tinham um tempo para pensar, ou seja, para trazer tal problemática para a próxima aula, apareceram situações interessantes como: a) Quais os custos e a viabilidade para produção de chinelos de borracha, tipo “havaianas” decorados com miçangas? b) A confecção de artesanatos “toalhas” de crochê é viável do ponto de vista econômico? Justifica o trabalho de uma pessoa? c) Será que a quantidade de produto contida em uma embalagem é realmente a que consta no rótulo? Como comprovar isso? Feitas as discussões, com certa reserva por parte dos estudantes, decidiu-se estudar o problema das embalagens, proposta bem aceita pela maioria deles. Essa decisão comungou com as perspectivas iniciais dos professores, que queriam trabalhar com embalagens. Porém, decidiu-se adotar os encaminhamentos propostos pela metodologia da modelagem, ou seja, levantar a problemática a partir do interesse dos alunos. Há que se ressaltar o modo interessante com que um dos alunos problematizou a situação envolvendo embalagens, pois parece natural, em se tratando de embalagens, perguntas como: Quanto de material vai para produzir determinada embalagem? Ou qual é o volume dessa embalagem? Mas este aluno levantou outro questionamento: Será que a quantidade de produto contida em uma embalagem é realmente a que consta no rótulo? Como comprovar isso? Nesse momento, foi providenciada uma caixa com produtos de diversas embalagens como: caixa de leite; caixa de sabão em pó; lata de achocolatado no formato circular; etc. Na sequência do trabalho, solicitou-se que os estudantes trouxessem para as aulas embalagens no formato de prisma quadrangular e cilindros, pois já se tinha como meta não abordar todas as formas convencionais da geometria espacial, isso porque se estava experimentando um trabalho diferenciado, o que exigia um planejamento cuidadoso. Este 386 aspecto é ressaltado por Biembengut e Hein (2005, p. 28) ao assegurarem que: “[...] Há um inconveniente de não sabermos, inicialmente, por onde o modelo passará, ou seja, nem sempre o ferramental matemático requerido está ao alcance do educando e mesmo do professor”. Em sala, com os alunos, foi feita a relação entre as embalagens e os conhecimentos sistematizados sobre sólidos geométricos, levando os estudantes a reconhecer os diferentes formatos das embalagens, classificando-as de acordo com sua nomenclatura e identificando alguns elementos como face, aresta e vértice. A partir desse momento, organizou-se a sala em grupos, de modo que cada grupo ficasse com um prisma quadrangular. Em seguida, eles foram orientados para fazer o esboço dessa embalagem, colocando as medidas reais das três dimensões. O segundo passo foi planificar a embalagem e calcular a quantidade de matériaprima usada para a confecção dessa embalagem, revisando as unidades de medida de área. Por último, foi calculado o seu volume, com a revisão das unidades de volume, estabelecendo relação com medidas de capacidade e analisando com qual das medidas se estava trabalhando. Esse momento foi interessante porque permitiu observar que os estudantes conseguiram relacionar as discussões sobre embalagens e os conteúdos de geometria do livro didático, pois quando se trabalha os conteúdos somente a partir do livro didático, a impressão que se tem é que se está fora de situações reais, ou seja, o estudante nem sempre consegue perceber a relação entre a teoria e o uso prático dela. Outro fato importante foi os estudantes compreenderem que estudar os sólidos geométricos exigia recorrer a conhecimentos adquiridos em séries anteriores. Na sequência, realizou-se a experimentação que consistiu em medir a quantidade de leite existente na embalagem. Para isso, os estudantes confeccionaram uma caixa no formato de um cubo, com 10cm de aresta. Eles tinham conhecimento prévio de que 1000cm3 correspondem a 1000ml, ou seja, um litro. Foi revestido o interior da caixa com uma embalagem tipo saco plástico, o que permitiu transferir o leite da caixa original para a caixa cúbica que serviu para comprovar a medida contida no rótulo. Esse era o principal questionamento que o estudante havia feito no início do trabalho. O mesmo, no momento da atividade, reagiu de forma entusiástica ao constatar a veracidade contida no rótulo. Ele havia construído a resposta para sua indagação. Mais do que isso, naquele momento, o 387 estudante percebeu ter conquistado/se apropriado dos instrumentos matemáticos capazes de comprovar as medidas informadas nos rótulos das embalagens. Outro experimento realizado na mesma aula foi o de comprovar se a quantidade de sabão em pó constante no rótulo era realmente a de um quilograma. Com o auxílio de uma balança doméstica, pesaram esse produto e constataram a veracidade do rótulo. Nesses momentos, estampava-se na expressão dos estudantes a alegria dessa comprovação por meio de instrumentos matemáticos. No decorrer do trabalho, realizou-se a modelação da embalagem do achocolatado, no formato cilíndrico, a partir do seguinte encaminhamento: esboço da embalagem e registro das medidas reais da altura e do diâmetro. Em seguida, os alunos desenharam também sua planificação para calcular a quantidade de metal necessário para confecção dessa embalagem. Após, foi calculado o volume contido nela. É necessário novamente ressaltar que os estudantes já tinham conhecimento sobre cálculos de circunferência e círculo. O interessante foi observar que os estudantes perceberam que para calcular o volume de um prisma e de um cilindro, a fórmula construída é a mesma, ou seja, o volume é igual a área da base, multiplicado pela medida da altura. No entanto, o problema que os estudantes encontraram foi no momento de calcular a área da base. Neste ponto, eles precisaram recorrer ao estudo das áreas de figuras geométricas planas. Um outro aspecto a ser destacado é o fato de, após ter concluído os experimentos, de ter formalizado e validado os conceitos e fórmulas; de terem sido trabalhadas diversas situações-problema constantes no livro didático envolvendo o mesmo conteúdo; constatouse que os estudantes mostraram ter mais segurança e compreensão das situações envolvendo os conhecimentos de geometria espacial e plana. O desafio para o desenvolvimento desse trabalho residiu na preocupação inicial de planejar as aulas de modo que não se perdesse a perspectiva da problematização inicial e, na sequência, o desenvolvimento dos conteúdos. Assim, esse planejamento foi cuidadoso, precaução esta que é ressaltada por Biembengut e Hein (2005, p. 20, grifo do autor) ao dizer que “a escolha pelos alunos tem vantagens e desvantagens. Uma vantagem é que se sentem participantes no processo. Em contrapartida, as desvantagens podem surgir se o tema não for adequado para desenvolver o programa [...]”. Na perspectiva da Pedagogia Histórico-Crítica, quando esta se refere à instrumentalização, momento em que o professor 388 trabalhará os conteúdos matemáticos previstos e necessários para a resolução do problema inicial, Gasparin (2002, p. 37-38) destaca que: Levando-se em conta que as escolas trabalham com disciplinas definidas pelo currículo, e que o conteúdo de cada uma delas é sempre previamente estabelecido e aprovado pelo corpo docente e pelos órgãos competentes, antes do início das aulas, torna-se difícil, para não dizer impraticável, estabelecer primeiramente quais questões sociais serão estudadas e, em função delas, quais os conteúdos mais significativos que serão tratados como resposta. Nesse momento de trabalho com os conteúdos, destaca-se a importância da aquisição dos conhecimentos científicos pelos estudantes. Percebe-se que tanto a tendência metodológica da Modelagem Matemática quanto a Pedagogia Histórico-Crítica orientam, para essa perspectiva de formação de sujeitos, que, ao terem acesso ao conhecimento matemático, sejam capazes de estabelecer relações com a prática social, ou seja, que o conhecimento escolar torne-se um instrumento de entendimento crítico da realidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho apresentou, inicialmente, alguns aspectos da Modelagem Matemática no âmbito da Educação Matemática e sua presença em documentos oficiais que orientam o ensino de matemática na Educação Básica, indicando as Diretrizes Curriculares Estaduais do Paraná como exemplificação. Discutiu-se a utilização da Modelagem Matemática como uma possível estratégia/metodologia de ensino, destacando algumas características desse processo e avaliando que esta, embora esteja fortemente presente como uma tendência, tem sua efetiva presença em sala de aula, no trabalho do professor junto aos estudantes, ainda tímida. Ressaltou-se que as etapas apresentadas são uma referência para a realização de uma ação pedagógica, porém não representam um caminho único ou fechado a ser seguido, mas permitem indicar caminhos para o trabalho dos estudantes e dos docentes. Foram apresentados os fundamentos teóricos da Pedagogia Histórico-Crítica e realizou-se uma análise comparativa em relação à Modelagem Matemática, identificando que ela fornece um encaminhamento metodológico em condições de articular os objetivos da Pedagogia Histórica-Crítica com a prática do professor de Matemática em sala de aula. Descreveu-se uma experiência realizada junto a estudantes da oitava série de uma escola pública, de ensino regular, tomando como elemento norteador do trabalho as etapas 389 descritas na fundamentação teórica da Modelagem Matemática, que levou a uma reflexão em relação a uma aproximação com a Pedagogia Histórico-Crítica. Destacou-se, ainda, que o importante desse processo foi observar que os estudantes participaram dos trabalhos espontaneamente, bem como mostraram ter maior responsabilidade e envolvimentos com as atividades. Isso revelou que o fato de participarem da sugestão do trabalho propiciou, por parte dos estudantes, maior comprometimento e, consequentemente, melhor compreensão e aprendizagem do conteúdo. Finalmente, o experimento com Modelagem Matemática como uma possível forma de ensino se mostrou viável, o que dá maior segurança em aplicá-la na abordagem de outras problemáticas, seguindo suas orientações, especialmente de partir da problematização proposta pelos estudantes. 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