CAMINHOS DE FORMAÇÃO: SEMINÁRIO Maria do Socorro Leal Lopes Maria Salonilde Ferreira Resumo Este estudo apresenta um recorte de nossa pesquisa, construído a partir de estudos que vêm sendo desenvolvidos no curso de Doutorado na área de Educação. Investigar a relação entre o desenvolvimento conceitual dos professores que atuam nas séries iniciais do ensino fundamental e sua prática docente, especialmente, as contribuições da prática crítico-reflexiva e da colaboração para a transformação da docência dessas professoras se constitui objetivo dessa pesquisa, que vem sendo desenvolvida em uma Escola Municipal de Teresina. Para atingir os objetivos propostos optamos pela pesquisa colaborativa. Esta vertente de pesquisa tem o mérito de fazer pesquisa com os sujeitos e não sobre e para os sujeitos. Com essa intenção o estudo em referência postula, articular pesquisa e formação. Estamos, nesse sentido, realizando um estudo em torno da formação e da prática docente, buscando alcançar os conceitos de currículo, ensino e aprendizagem, que foram construídos pelas professoras, interlocutoras da pesquisa, ao longo da sua formação acadêmica propiciado pelo currículo de formação inicial, além dos conhecimentos da prática - construídos no exercício da prática pedagógica. Palavras-chave: Seminário. colaborativa. Formação docente. Transformação docente. Pesquisa CHEMINS DE FORMATION: SEMINAIRE Résumé Cette étude présente un aperçu de notre recherche, en s'appuyant sur des études qui ont été développés dans le cours de doctorat en éducation. Pour étudier la relation entre le développement conceptuel des enseignants travaillant dans les premières classes de l'école élémentaire et leur pratique d'enseignement, en particulier les contributions de la pratique critique et de réflexion et de collaboration pour transformer l'enseignement des enseignants est l'objectif de cette recherche, qui a été développés dans une école municipale de Teresina. Pour atteindre les objectifs proposés, nous avons choisi de recherche en collaboration. Cet axe de recherche a le mérite de sujets de recherche et non pas le ou les thèmes. Dans cette intention, en référence à l'étude des postulats, conjoints de recherche et de formation. Nous sommes, en effet, la réalisation d'une étude autour de la formation et la pratique pédagogique, en cherchant à atteindre les concepts du programme d'études, d'enseignement et d'apprentissage, qui ont été construits par les enseignants, les interlocuteurs de la recherche au long de leur cursus académique rendue possible par la formation initiale , outre les connaissances de la pratique - construits dans l'exercice de la pratique pédagogique. Mots-clés: Séminaire. Collaborative Research. Formation des enseignants. Personnel de fabrication. 1 CAMINHOS DE FORMAÇÃO: SEMINÁRIO Iniciando o percurso... Este estudo apresenta um recorte de nossa pesquisa, construído a partir de estudos que vêm sendo desenvolvidos no curso de Doutorado na área de Educação. Investigar a relação entre o desenvolvimento conceitual dos professores que atuam nas séries iniciais do Ensino Fundamental e sua prática docente, especialmente, as contribuições da prática crítico-reflexiva e da colaboração para a transformação da docência dessas professoras se constitui objetivo dessa pesquisa, que vêm sendo desenvolvida em uma Escola Municipal de Teresina. Considerando a natureza do estudo para atingir os objetivos propostos optamos pela pesquisa colaborativa fundamentada no materialismo histórico- dialético. Nesse sentido, para demandar a produção desse conhecimento o fazemos colocando como centro da discussão o seminário de formação na condição de um dos procedimentos de produção de dados da pesquisa, bem como instrumento de formação das professoras partícipes do estudo. Para Lopes (2002, p.16), a formação contínua de professores é “um processo dinâmico por meio do qual os professores no exercício de sua prática profissional, através de palestras, seminários, cursos, oficinas ou outras propostas vão adequando sua formação às exigências do ato de ensinar, buscando ensinar”. A concepção materialista de Marx é notadamente marcada pela concepção de natureza e pela relação do homem com essa natureza. O homem usa a natureza conscientemente conforme suas necessidades, transformando-a sem, contudo, se confundir com a natureza, isso o diferencia dela. Portanto, o homem enquanto ser natural, por ter sido criado pela natureza, depende dela e de sua transformação para sobreviver e nessa relação com a natureza o homem constrói e transforma a si mesmo e a própria natureza. Essa atividade diferencia o homem dos outros animais, considerando que sua atividade é movida pela consciência e sua produção não é determinada apenas pelas suas necessidades imediatas, mas também conforme necessidades mediatas. Assim, o homem é visto como ser que objetiva a si e à própria natureza que passa a ser objetivada por ele por meio de sua atividade prática, o trabalho. 2 Pode-se distinguir os homens dos animais pela consciência pela religião ou por tudo que se queira. No entanto, eles próprios começam a se distinguir dos animais logo que começam a produzir seus meios de existência, esse salto é condicionado por sua constituição corporal. Ao produzirem seus meios de existência, os homens produzem, indiretamente, sua própria vida material. A forma como os homens produzem seus meios de vida depende sobretudo da natureza dos meios de vida já encontrados e que eles precisam reproduzir. Não se deve, porém, considerar tal modo de produção de um único ponto de vista, ou seja, a reprodução da existência física dos indivíduos. Trata-se muito mais de uma forma determinada de atividade dos indivíduos, de uma forma determinada de manifestar sua vida, um modo de vida determinado. Da maneira como os indivíduos manifestam sua vida, assim são eles. O que eles são coincide, portanto, com sua produção, tanto com o que produzem como com o modo como produzem. O que os indivíduos são, por conseguinte, depende das condições materiais de sua produção. (A Ideologia Alemã, PP. 44 - 45) Assim, Marx explica que é pela produção que se pode desvelar o caráter social e histórico do homem, e esse homem por meio do trabalho - atividade pré-direcionada conscientemente, e não pelas leis biológicas - desenvolve “capacidades e habilidades para além daquelas previstas pela sua espécie animal”. (OLIVEIRA, 2006, p.21). Assim, com essa capacidade de ultrapassar o real e rompendo com o paradigma “biológico de organismo-meio” passando a objetivar-se, o paradigma fundamental “passa ser o sóciohistórico”, isto é, a realidade resultante da relação objetivada para si. Nessa mesma direção, conforme Vygotsky, o homem transforma a natureza adaptando-a a si e não para adaptar-se ao que existe. Esse princípio confirma e legitima a apropriação cultural, construída Marx histórica e socialmente, fundamentado na categoria de atividade humana de, por meio do qual o homem se humaniza adaptando a natureza a si e não ao contrário e, assim, torna-se transformador da realidade e de si. Dessa forma, esse homem transformador e transformado vai construindo o patrimônio cultural por meio da relação homem-sociedade a qual, nessa perspectiva Vigotskyana, se torna indissolúvel. Conforme Oliveira (2006, p.24): [...] os pontos essenciais da categoria marxiana de atividade que fundamenta a obra de Vigotski e de uma das suas implicações para o 3 trabalho educativo, qual seja: a atividade a ser desenvolvida no trabalho educativo é exatamente aquela que está organizada de modo a que o educando possa desenvolver-se como sujeito transformador em seu contexto social, não só conhecendo a complexidade da prática social existente mas também seus limites no sentido de contribuir com sua atuação para as transformações desse contexto e de si mesmo. É nesse processo de objetivar-se que o homem satisfaz suas necessidades materiais e, por meio do seu trabalho, transformando a natureza, produz conhecimento. É esse conhecimento objetivado, compartilhado e interativo que embasa a colaboração como ação primordial na construção/transformação do homem e da realidade na qual atua. O âmbito da investigação colaborativa ainda é recente, no Brasil. Entretanto, estudos vêm consolidando essa vertente de pesquisa que tem o mérito de fazer pesquisa com os sujeitos e não sobre e para os sujeitos. Com essa intenção essa pesquisa postula articular pesquisa e formação. Segundo Ibiapina e Ferreira (2006, p. 100), “investigar coletivamente significa envolvimento de investigadores e professores em projetos comuns que beneficiem a escola e o desenvolvimento profissional do docente”. Nesse sentido, além de projetos comuns, pesquisadores e colaboradores partilham tarefas comuns de investigação da realidade educativa tanto na tomada de decisões quanto na investigação, propiciando o desenvolvimento de uma parceria entre os atores envolvidos no estudo. Realizaremos um estudo em torno da formação e da prática docente, buscando alcançar os conceitos de currículo, ensino e aprendizagem que foram construídos pelos professores ao longo da sua formação acadêmica propiciado pelo currículo de formação inicial, além dos conhecimentos da prática - construídos no exercício da prática pedagógica. Intentamos fazer um contraponto dos conhecimentos curriculares com os conhecimentos profissionais para redimensionar a formação-ação do professor, tendo em vista a reelaboração desses conceitos no percurso profissional e a transformação da docência desses professores. A formação de professores, portanto, conforme Nóvoa (1995, p.26), precisa ser redimensionada, tendo em vista, abranger as dimensões dos diversos tipos de formação, ou seja, falar de formação de professor, é reconhecer que nos últimos tempos ela aparece associada à educação e evoca contextos diferenciados (formação inicial, formação contínua, formação profissional, formação pedagógica). Indicando um 4 continuum ao longo da vida e ocorrendo a partir das necessidades dos professores, mediante as atividades que estão desenvolvendo na prática docente. Nessa perspectiva, Porto (2000, p. 13) assim se manifesta: “[...] associa-se o conceito de formação de professores à idéia de inconclusão do homem”. Assim, para o desenvolvimento da formação das professoras partícipes da pesquisa utilizamos como estratégia de formação o Seminário, a partir do levantamento das necessidades formativas das professoras da escola onde a pesquisa está sendo desenvolvida. O contexto do estudo O contexto de realização dessa pesquisa é a Escola Municipal Benjamim Soares de Carvalho. O que justifica essa opção é a lotação, nessa escola, de um número representativo de professoras egressas do curso de Pedagogia convênio UFPI/ PMT, a facilidade de acesso, tendo em vista que a pesquisa exige uma efetiva participação da pesquisadora no campo empírico de sua realização. A Escola Municipal Benjamim Soares de Carvalho foi construída e inaugurada na segunda metade da década de 90. O nome é uma homenagem ao professor Benjamim Soares de Carvalho, em reconhecimento ao trabalho dedicado à educação. Essa escola foi construída para atender as necessidades da comunidade vila Confiança e comunidades vizinhas, localizadas na zona sul de Teresina - Piauí. Desde sua inauguração a escola funciona atendendo alunos de Educação Infantil e Ensino Fundamental, nos turnos manhã e tarde, e ensino noturno a partir de 1990 somente com Ensino Fundamental, séries iniciais e finais. Para esta pesquisa estamos considerando apenas os dados do ensino diurno, manhã e tarde. No momento (2009), a escola apresenta uma clientela de 524 alunos, sendo 264 do sexo masculino e 260 do feminino, distribuídos em 20 (vinte) salas de aulas, sendo 10 no turno da manhã e 10 no turno da tarde. A infraestrutura da escola conta com 10 salas de aula, banheiros individualizados por sexo para aluno e para servidores, sala de professores/as, diretoria, secretaria, biblioteca, cozinha, pátio interno coberto, quadra de esporte, jardim de inverno e laboratório de informática. Apresenta uma boa conservação na manutenção da pintura e dos equipamentos. O seu corpo docente, técnico e administrativo é constituído de uma diretora, uma diretora adjunta, um supervisor escolar, 22 professoras (sendo que no momento 6 se encontram fora da sala de aula, afastadas por motivos de saúde, dentre eles, a maioria por calo nas cordas vocais ou depressão. Portanto existe um número considerável de 5 professoras substitutas, estudantes de pedagogia exercendo a atividade de titular da turma. Possui um quadro de pessoal formado por 1 secretária, 3 agentes de portaria, 2 merendeiras, 6 auxiliares de serviços, 6 auxiliares de administração e 5 apoios. A escola tem professor premiado pelo prêmio “Professor Alfabetizador”. A escola venceu também o Projeto Nutrir, etapa de Teresina, realizado pelo Projeto Educação Alimentar, integrado ao Programa Nutrir, idealizado pela Fundação Nestlé Brasil. Funciona também na escola um posto de “coleta seletiva de lixo” dando prioridade para os plásticos e papéis, sendo uma iniciativa da direção que tem rendido bons lucros para a escola. Partícipes: professoras colaboradoras do estudo Com a finalidade de visualizarmos melhor o perfil do grupo de partícipes da pesquisa com maior compreensão, traçamos o Quadro 01. Para preservar a identidade das professoras, negociamos o cognome e cada uma escolheu como gostaria de ser ressaltada no estudo. Partícipes Formação Acadêmica Pedagogia Tempo de Série que atua Cursos q/participou nos 3 últimos Anos graduação 5 anos 1º ano Pcn’s Violeta Gestar Próletramento Pedagogia 7 anos Apoio Ped. Pcn’s Jasmim Específico Profª Próletramento Pedagogia 3 anos 2º ano Pcn’s Girassol Profª Próletramento Margarida Pedagogia 8 anos 4ºano Pcn’s Proletramento Rosa Pedagogia 29 anos Mag. Superior Reuni Anpae/Ne Enc. Pesq. Nac. e no Pi Quadro 01 – Perfil das professoras partícipes da pesquisa Fonte: Questionário respondido pelas professoras, Teresina, 2008. Durante as negociações foi acertado que as partícipes escolheriam codinomes relacionados a critério de interesse, obedecendo a propriedades comuns para a escolha da espécie, optamos por sermos chamadas por nomes de flores de acordo com as características que cada uma achava identificar-se e para homenagear a natureza que nos acolhe, e assim, ficaram conhecidas como: Violeta, Jasmim, Girassol, Margarida e Rosa. 6 Para a coleta das informações do perfil e das necessidades formativas por elas evidenciadas, aplicamos um questionário, que a seguir passaremos a discorrer sobre as informações nele enunciadas por partícipe: Violeta Características predominantes: inteligente e ousada, procura sempre desenvolver seu trabalho com esmero e competência. Formação: Licenciatura Plena em Pedagogia – magistério das séries iniciais. Percurso docente: ingressou no magistério há 11 anos somente com o curso médiopedagógico, concluiu o curso superior há 5 anos. Nos últimos 3 anos participou apenas de cursos de formação continuada oferecidos pela Secretaria Municipal de Educação- SEMEC, os quais obedecem a uma agenda institucional do Ministério da Educação e Cultura-MEC. Jasmim Características predominantes: é prática e criativa, possui vasta experiência no ensino fundamental e desenvolve seu trabalho com muito zelo e respeito à história do aluno. Formação: Licenciatura Plena em Pedagogia – magistério das séries iniciais. Percurso docente: ingressou no magistério há 36 anos somente com o curso médiopedagógico, concluiu o curso superior há 7 anos. Nos últimos 3 anos participou apenas de cursos de formação continuada oferecidos pela Secretaria Municipal de Educação- SEMEC, seguindo orientações da agenda institucional do Ministério da Educação e Cultura-MEC. Girassol Característica predominante: alegre, inteligente, criativa, participativa e procura sempre investir em sua qualificação profissional, desenvolve o seu trabalho com muita responsabilidade. Formação: Licenciatura Plena em Pedagogia – magistério das séries iniciais. Percurso docente: ingressou no magistério há 23 anos somente com o curso médiopedagógico, concluiu o curso superior a 3 anos. Nos últimos 3 anos participou apenas de cursos de formação continuada oferecidos pela Secretaria Municipal de Educação- SEMEC, em obediência à agenda institucional do Ministério da Educação e Cultura- MEC. 7 Margarida Características predominantes: segura e bem posicionada, desenvolve seu trabalho com muita dedicação. Formação: Licenciatura Plena em Pedagogia – magistério das séries iniciais. Percurso docente: ingressou no magistério há 22 anos somente com o curso médiopedagógico, concluiu o curso superior há 8 anos. Nos últimos 3 anos participou apenas de cursos de formação continuada oferecidos pela Secretaria Municipal de Educação- SEMEC, os quais obedecem à agenda institucional do Ministério da Educação e Cultura-MEC. Rosa Características predominantes: objetiva, comprometida, inteligente, colaborativa e procura sempre investir em sua qualificação profissional, desenvolve o seu trabalho com muita responsabilidade. Formação: Licenciatura Plena em Pedagogia. Percurso docente: ingressou no magistério há 28 anos já graduada em Pedagogia, concluiu o curso superior há 29 anos. Nos últimos 3 anos participou apenas de eventos promovidos pelas IES, onde exerce sua ação profissional, realiza estudos de pósgraduação e pelo Ministério da Educação e Cultura-MEC. Como podemos observar o grupo foi constituído com a participação de 4(quatro) professoras e nós, a coordenadora da pesquisa. Ademais, podemos inferir pelos perfis e pelos percursos, que as professoras vivenciam ações marcadas por singularidades e ações institucionalizadas que demarcam suas histórias de formação/ação. Conforme García (apud NÓVOA, 1997, p.54): “[...] parece-nos necessário salientar que, quando falamos de formação de professores, estamos assumindo determinadas posições (epistemológicas, ideológicas, culturais) relativamente ao ensino, ao professor e aos alunos”. Assim, segundo Sacristán (1990), a formação do professor deve estar imbuída de um sentimento propiciador de reflexões que levem a uma tomada de consciência das limitações sociais, culturais e ideológicas da própria formação docente, pressupondo assim, uma valorização dos aspectos contextuais, organizativos, orientados para a mudança. Dessa forma, desenvolvemos o seminário que apresentamos a seguir: Seminário de Formação O Seminário de Formação se apresenta como um espaço de acesso aos dados por parte desta pesquisadora (necessidades formativas e conceitos prévios). Essa técnica foi 8 escolhida possibilitar um espaço para difundir ideias e/ou refleti-las no intuito de propiciar uma ambiente favorável para identificar problemas, realizar estudos e reflexões pertinentes, propor pesquisas necessárias à solução de problemas, além de realização da formação das professoras partícipes da pesquisa. Para nosso estudo, fizemos uma proposta de desenvolvermos sob forma de Seminário de Formação o estudo dos temas levantados no questionário, que foi aceito pelo grupo de partícipes. Assim, planejamos e cadastramos na Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Piauí o Seminário: A pesquisa colaborativa como estratégia de formação de professores, o qual realizamos na primeira etapa do processo de intervenção com o objetivo de desenvolver uma reflexão crítica dos temas levantados para o estudo, bem como uma metodologia colaborativa no desenvolvimento das atividades do seminário com a finalidade de reelaborar os conceitos de currículo ensino e aprendizagem e sua relação com a transformação da atividade docente. A seguir, apresentaremos detalhadamente as etapas do seminário. As reuniões para a realização do Seminário de Formação aconteceram em dias de sábado pela manhã na escola onde os partícipes exercem sua prática docente. A primeira reunião foi agendada com a interveniência da administração e da supervisão escolar, sendo que a seguinte fica pré-agendada conforme a interveniência dos partícipes e os acontecimentos previstos para o período. Inicialmente, fizemos a sensibilização do grupo de partícipes, incluindo-se a negociação de lugares e períodos em que iríamos desenvolver a investigação-ação, o levantamento das necessidades formativas e dos conhecimentos prévios do grupo, das sessões de estudo/formação, alternando reflexões inter/intra/subjetivas para ao final reelaborar os conceitos de currículo, ensino e aprendizagem, enfim transformar a nossa própria docência, assumindo, assim, uma atitude frente ao caminho e a caminhada empreendida na prática docente. Esse movimento expressa inicialmente os anseios e/ou necessidades formativas geradas no processo da nossa formação/ação e dão aos partícipes oportunidades de exposição dos conhecimentos científicos e das vivências (prática) passando por uma análise e reconstrução da organização da docência (ação). A seguir, apresento o Quadro 02, com a ilustração da sequência de estudo após as negociações e acertos com as partícipes e com a orientadora do estudo. 9 TEMAS NEGOCIADOS Nº de Temas Ordem 01 Prática Pedagógica Reflexiva/Colaboração 02 Planejamento 03 Alfabetização: métodos e sua aplicação 04 Conhecimento/conceito científico/saber escolar O5 Currículo 06 Ensino 07 Aprendizagem Quadro 03 – Temas negociados para estudo Fonte: Questionário respondido pelas professoras, Teresina, 2008 Assim, dar seguimento à viagem investigativa e à tarefa que estamos desenvolvendo, tem sido muito prazerosa, pois entre os temas levantados, estavam os temas de interesse desta pesquisa. Após essa etapa de levantamento e definição dos temas, passamos ao planejamento do seminário e à seleção de material para estudo dos temas além de convidar a professora Drª. Antonia Edna Brito, autoridade em Alfabetização, para assumir o seminário de Alfabetização. Para melhor entendimento, passamos a apresentar o quadro nº 03 com a síntese da organização e desenvolvimento do seminário que foi realizado de setembro de 2008 a maio de 2009 em encontros mensais ou bimestrais conforme disponibilidade das professoras e da coordenadora da pesquisa, pois a mesma se encontrava em outro estado realizando estudos teóricos obrigatórios do curso de Doutorado. TEMÁTICA Formação Crítica: Bases Teórico-Metodológicas A conquista: pesquisadores e professores pesquisando colaborativamente. Entre planejamento necessário e decisão improvisada, aprender a exercer seu julgamento pedagógico e a agir com DIMENSÃO REFERÊNCIAS DATA REFLEXIVA IMPLICADA As partícipes NO realizam a leitura MAGALHÃES & 06/09/2008 antecipadamente dos textos. outras, 2006. No seminário, após abordagem do tema, em grupo, levantam os conceitos, para após análise reelaborarem o entendimento dos conceitos destacados, relacionando-os à IBIAPINA, Ivana prática docente. M. L. 2008. As professoras deveriam MEIRIEU, Phillipe 11/10/2008 compreender o 2005. planejamento na perspectiva crítica, procurando articular com a 10 discernimento com uma situação vivenciada, procurando relacionar as ações da reflexão crítica (descrever, informar confrontar e reconstruir) Alfabetização e os As professoras partícipes da Texto montado profª diferentes métodos pesquisa deveriam refletir Dra Antonia sobre a alfabetização e seus Edna, convidada diferentes métodos para relacionando-os à sua prática desenvolver sobre o docente tema neste seminário Maria I. Conhecimento/conceito As professoras deveriam CUNHA, científico/saber escolar refletir sobre o conhecimento da. 2006. relacionando-o à sua ação em sala de aula Currículo - um grande As professoras fazem a SAVIANI, desafio para o professor distinção entre os conceitos de Nereide. 2009 currículo como processo e currículo em Ação, relacionando essas definições com as situações vivenciadas no exercício docente. Ensinar: uma tarefa As professoras deveriam VEIGA, Ilma P. A. refletir sobre a complexidade 2006. complexa e laboriosa do processo ensinoaprendizagem para compreendê-lo na perspectiva crítica, articulando-o com sua prática docente. Quadro 03 – Temáticas discutidas no Seminário e referencial teórico utilizado Fonte: Dados da pesquisa. 25/10/2008 29/11/2008 04/04/2009 23/05/2009 O seminário representa inicialmente um espaço colaborativo e de parceria entre pesquisador e professoras, propiciador da articulação entre teoria e prática. O seminário foi gravado em áudio para melhor acompanhamento das reflexões e participação das professoras no evento. A nossa participação, enquanto coordenadora do evento, foi contribuir para desencadear um processo de reflexão crítica articulando-o com a prática docente. Assim, podemos destacar que o fortalecimento das relações e o desenvolvimento da confiança, construída ao longo dos seminários ou das visitas informais às professoras no decurso da formação se configura como uma ação positiva no sentido de consolidação das interações no grupo de professoras partícipes da pesquisa. Os dados serão analisados a partir da prática dos docentes partícipes da pesquisa Tomaremos como referência os estudos de Ferreira (2007) sobre análise da elaboração conceitual com o intento de fazer um contraponto dos conhecimentos científicos com o conhecimento escolar para redimensionar a formação-ação do professor, tendo em vista 11 a reelaboração dos conceitos de currículo, ensino e aprendizagem, considerados pelas professoras, fundamentais na atividade docente. Nessa perspectiva, procuraremos identificar a relação entre o desenvolvimento conceitual das professoras que atuam nas séries iniciais do Ensino Fundamental e sua prática docente, bem como analisar as contribuições da reflexão crítica e da colaboração para a transformação da docência. Buscaremos captar nas falas das professoras elementos que nos permitam entrecruzar os conhecimentos mobilizados quando do desenvolvimento do nível de elaboração conceitual e a utilização desses conceitos na prática pedagógica. Concluindo esse percurso... Consideramos o seminário um procedimento metodológico que se efetiva por meio de técnicas ao desenvolvimento de estudos, análise e interpretação de textos, discussão enfim, construção de conhecimento e formação dos envolvidos na ação. O uso desse procedimento requer que os envolvidos no estudo decidam em grupo, previamente, a temática a ser estudada ou investigada conforme o objetivo delineador da ação, cujo desenvolvimento, embasado na reflexão crítica e na colaboração, propicia a reconstrução da docência. Considerando que a pesquisa em desenvolvimento é do tipo colaborativa, o Seminário tem caráter de intervenção com a implicação dos partícipes na ação. Dessa forma, o Seminário se apresenta como instrumento de formação e de desenvolvimento profissional do docente. Referências GIROUX, H. Os professores como intelectuais: rumo a uma teoria crítica da aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. IBIAPINA, I. M. L. de M; FERREIRA, M. S. A Pesquisa mediando práticas colaborativas, Anais do IV Encontro de Pesquisa em educação da UFPI. Educação, práticas e formação de professores. Teresina, IBIAPINA, I. L. de M. ; COSME, M. V. C. de C. (Org) – EDUFPI, 2006. IBIAPINA, I.M. de L. 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