“ELE: O Meu Corpo” Meu corpo sou eu com os arredores... Minha conexão com o universo e o isolamento no aglomerado; O escudo que protege e a enseada no azul do mar. É aquele que no silêncio me denuncia e fala quando me calo; Meu corpo é o aço que me oculta e o prisma que me reflete... Vereda de prazeres e o desembarque da dor. Depende de como o percebo: Depende pelo que me deixo influenciar. Geise de Oliveira Machulek DEDICATÓRIA Dedicado aos meus filhos Ludwan e Cauan (Geise) . Dedicado aos meus filhos Carla e Vítor (José Carlos) AGRADECIMENTOS Aos educadores e direção da escola, que possibilitaram a realização deste estudo participando voluntariamente. PREFÁCIO A Sociedade na qual vivemos, atravessada pelas demandas apelativas das mídias e redes sociais, passa por constantes e rápidas transformações que afetam a vida humana de muitos modos e intensidades. As pessoas invariavelmente encontram-se vulneráveis diante de interpelações midiáticas cujo escopo fundamental é atuar como dispositivo organizador ou reorganizador das rotinas da vida cotidiana. Se um dia a mídia foi formadora de opiniões, hoje ela é, essencialmente, uma sutil criadora de novos hábitos cotidianos. Para interferir na esfera dos hábitos cotidianos das pessoas a mídia trabalha com a imagem. A imagem tem o poder de impressionar e de passar da impressão a um novo hábito sem a mediação de um discernimento reflexivo. Esta estratégia estética de instituir novos hábitos cotidianos a partir de impressões imagéticas se constitui em um recuo da razão enquanto possibilidade de ponderar e escolher de forma livre e consciente. Sem o benefício da dúvida racional as pessoas terminam reféns de certezas imaginárias. A indução de novos hábitos cotidianos na vida das pessoas pode afetar de muitos modos o corpo. Muitos dos apelativos midiáticos estão dirigidos à estética do corpo. O corpo tem uma forma que o define e esta performance se estende à pessoa, pois desde o ponto de vista estético a pessoa tem a forma de seu corpo, assim se percebe e é percebida, podendo tanto sofrer como celebrar esta percepção. A percepção de si mesmo, por mais profunda que se possa pretender ser, não escapa da percepção do corpo próprio com sua forma estética, isto é, todo voltar-se sobre si mesmo passa pelo corpo e se faz ressentir de algum modo. Todas as expectativas que as pessoas têm umas em relação às outras também passam pelo corpo e produzem o estremecimento de um compasso de espera que pode oscilar da aceitação à rejeição. O corpo padece sua imagem, e a mídia aprendeu a controlar esta verdade. A pesquisa apresentada no presente livro se debruçou sobre a temática da imagem de corpo em educadores, fazendo ver que a população pesquisada se debate em dilemas existenciais produzidos pela insatisfação estética com a imagem corporal e pelo desejo de um corpo diferente. Esses educadores são pessoas cuja intervenção social na forma de trabalho recai sobre uma população ainda maior e, talvez, ainda mais frágil frente aos apelativos midiáticos de customização estética do corpo, que são: as crianças, os adolescentes e os jovens, em pleno processo de amadurecimento de sua humanidade. Amadurecer é construir e aprofundar o sentido de pertença à humanidade que nos transcende e trans-ascende, na existência, no tempo e no espaço. A construção desta pertença sacode as fibras da existência e, de modo especial, as fibras de um corpo próprio em frenética transmutação. O desempenho estético do educador, corporalmente presente, é fundamental neste processo de crescimento onde o jovem ser humano constrói sua humanidade, corporalidade e identidade, sempre em relação com outros seres humanos, ainda quando esta relação se de na forma de ausência. A imagem que o educador tem de seu corpo e as manifestações de satisfação e de insatisfação em relação a sua forma estética tem uma força impressiva e performática sobre os educandos que habitam o entorno cotidiano onde acontece a posta em cena da humanidade feita existência corporal na vida de cada um. O educador, pela sua formação e pelos compromissos de sua profissão, está vinculado aos processos de construção do conhecimento e ao desenvolvimento de habilidades relacionadas à reflexão e ao discernimento, por tanto, uma população que, ao menos teoricamente, reuniria as condições para afrontar os apelativos midiáticos que atravessam o corpo e a existência das pessoas. Como tal, o educador é convidado a discernir e acompanhar o processo de discernimento dos educandos em relação à complexidade de uma existência sempre corporificada; de um corpo sempre acuado por uma imagem de corpo; de uma mídia decidida a manipular os padrões estéticos da existência pela manipulação da forma corporal e, por último, mas não menos importante, de uma razão que, de forma tensa, mantém aberta a possibilidade do benefício da dúvida e da escolha. Acompanhar processos formativos de discernimento é um grande desafio para os educadores, tanto em relação à formação que receberam quanto às condições nas quais realizam o seu trabalho. A pesquisa acena de maneira acertada para fato de que a responsabilidade de construir estas condições recai sobre as políticas públicas e sobre a gestão responsável dos espaços e processos educativos, com estes assinalamentos instiga novas pesquisas e novas reflexões sobre a estética do corpo próprio na construção educativa da identidade humana. Prof. Dr. Márcio Luís Costa - Setembro, 2014. Universidade Católica Dom Bosco - UCDB LISTA DE TABELAS TABELA 1 – Perfil sociodemográfico dos educadores ................... 55 TABELA 2 – Resultado do teste BSQ para os diferentes níveis de alteração da imagem corporal dentre os educadores .. 58 TABELA 3 – Resultados da percepção corporal pela Escala de Silhuetas Corporais (SMT) real e ideal corporal entre os educadores ................................................................. 59 TABELA 4 – Análise do perfil sociodemográfico com relação ao questionário de imagem corporal (BSQ) ..................... 64 TABELA 5 – Análise do perfil sociodemográfico com relação à escola de imagem corporal (SMT) .............................. 65 ÍNDICE 1 INTRODUÇÃO ............................................................................. 8 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA .................................................. 15 2.2 CORPO ................................................................................ 22 2.2.1 Corpo na História: Antiguidade, Idade Média, Modernidade e Atualidade ............................................................................ 25 2.2.2 A Beleza: Modelos e Padrões............. Erro! Indicador não definido. 2.2.4 Narcisismo e Bodybuyilding Erro! Indicador não definido. 2.2.5 Corpo Diferente e Corpo que Envelhece ... Erro! Indicador não definido. 2.2.6 Obesidade .......................... Erro! Indicador não definido. 2.2.7 Insatisfação Corporal .......... Erro! Indicador não definido. 3 OBJETIVOS ................................... Erro! Indicador não definido. 3.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS .... Erro! Indicador não definido. 4 MÉTODO........................................ Erro! Indicador não definido. 4.2 PARTICIPANTES ..................... Erro! Indicador não definido. 4.3 LOCAL DA PESQUISA............. Erro! Indicador não definido. 4.4 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO .... Erro! Indicador não definido. 4.5 INSTRUMENTOS ..................... Erro! Indicador não definido. 4.5.1 Questionário de Imagem Corporal Body Shape Questionnaire (BSQ) – (Anexo 1) Erro! Indicador não definido. 4.5.2 Escala de Silhuetas Corporais - Silhouette Matching Task (SMT) (Anexo 2) .......................... Erro! Indicador não definido. 4.5.3 Questionário sociodemográfico (Apêndice 2) ............ Erro! Indicador não definido. 4.6 PROCEDIMENTO .................... Erro! Indicador não definido. 4.7 ASPECTOS ÉTICOS DA PESQUISA ....... Erro! Indicador não definido. 5 RESULTADOS E DISCUSSÃO ...... Erro! Indicador não definido. 5.1 PERFIL SOCIODEMOGRÁFICO DOS EDUCADORES ... Erro! Indicador não definido. 5.3 PERFIL DOS EDUCADORES EM RELAÇÃO AOS INSTRUMENTOS UTILIZANDO-SE O TESTE EXATO DE FISHER .......................................... Erro! Indicador não definido. 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............ Erro! Indicador não definido. REFERÊNCIAS ................................. Erro! Indicador não definido. APÊNDICES ....................................................................................Er ro! Indicador não definido. ANEXOS..........................................................................................Er ro! Indicador não definido. 1 INTRODUÇÃO O ser humano é estimulado a buscar sucesso e perfeição nas mais variadas esferas da vida, em suas relações pessoais e no âmbito profissional, conduzido por valores pessoais ou padrões estipulados pela sociedade. Atualmente, a disputa no mercado de trabalho e o incentivo ao contínuo aprimoramento são dois importantes fatores. Neste contexto, observa-se que, pessoas fisicamente atraentes são mais facilmente aceitas em ambientes sociais e que outras, sem tais atrativos físicos, podem ser facilmente rejeitadas. Isso ocorre pelo fato de que seres humanos têm atitudes referentes à estética e à beleza que influenciam seu modo de se relacionarem com os demais. Para Miorim (2006), o corpo é a matriz de manifestação da vivência psíquica. A psique representa uma faculdade imaginativa interligada ao corpo que, paralelamente, molda e estabelece transformações conforme a vida imaginária e os dinamismos arquétipos do indivíduo. O sentido de corpo se faz presente em aspectos emocionais, afetivos, culturais e sociais, conforme as características individuais acolhidas socialmente, em uma contínua procura pelos estados de saúde e beleza. Uma das possibilidades de deterioração do corpo reside nas práticas nocivas à saúde física e mental visando moldar, modelar ou esculpir suas formas de acordo com o desejado (GAUDIOSO, 2009). A indústria corporal através dos meios de comunicação encarrega-se de criar desejos e reforçar imagens, padronizando corpos. Corpos que se veem fora de medidas, sentem-se cobrados e insatisfeitos. O reforço dado pela mídia em mostrar corpos atraentes faz com que uma parte de nossa sociedade se lance na busca de uma aparência física idealizada. (RUSSO, 2005, p. 81). A necessidade de se sentir adequado quanto à aparência e forma física pode gerar preocupação excessiva com a imagem corporal, ocasionalmente interferindo na maneira como uma pessoa se alimenta, realiza suas atividades pessoais e profissionais e nos cuidados que despende ao próprio corpo. Quando isso ocorre, é comum a realização de práticas que objetivam reduzir o peso corporal e modificar as “formas” que não agradam, muitas das vezes sem fundamento ou aconselhamento profissional habilitado, à custa de dietas “milagrosas”, jejuns prolongados, ingestão de medicamentos e de substâncias de origem e indicação duvidosa. Forma-se, com isso, um quadro favorável à ocorrência de prejuízos à saúde e ao desenvolvimento de transtornos de imagem corporal e alimentares. Observa-se a importância da percepção corporal nas várias etapas da vida: nos primeiros anos do ser humano, nas etapas de crescimento e desenvolvimento, na idade adulta e no processo de envelhecimento. A imagem corporal pode ter influência positiva ou negativa nos âmbitos profissional e pessoal, nos relacionamentos e consequentemente, na qualidade de vida e saúde do indivíduo. Trata-se de um assunto com tamanha relevância e repercussão na atualidade que tem despertado o interesse de estudos para discutir e melhor compreender a formação da imagem corporal e sua influência física e emocional. Para Gaudioso (2009), a imagem corporal pode ser percebida pela estima e insatisfação com o corpo. O gostar ou não do corpo, de seu peso e de sua forma, percentual de gordura e aspectos afetivos intrínsecos ao ser humano são fatores determinantes para o posicionamento social, mecanismos defensivos e projeções reais na descoberta da identidade. No trabalho da pesquisadora como nutricionista na escola de tempo integral alvo do estudo, observou-se que o longo período diário que os educadores permanecem no local reflete em sua percepção corporal bem como no hábito alimentar individual dos profissionais e na realização de atividades físicas, uma vez que a alimentação no ambiente escolar é planejada para as necessidades nutricionais dos educandos, ainda em fase de crescimento e desenvolvimento. A unidade educacional é de distante acesso para a maioria dos educadores e não há venda de nenhum tipo de alimento na escola, o que resulta na opção comum dos profissionais em realizarem suas refeições no local de trabalho, mesmo tendo intervalos para almoço e lanches. Na sala reservada para o trabalho da nutricionista e da psicóloga no atendimento dos alunos e familiares na escola, era comum a presença de funcionários de vários setores em busca de atendimento nutricional. Relatavam insatisfação com a aparência física, dificuldades para diminuição do peso corporal e realização de atividades físicas como caminhada e corrida, práticas mais acessíveis à população. O principal argumento para a não realização das atividades era a falta de locais apropriados na região para a sua prática noturna, único período disponível, como praças e parques bem iluminados. Contudo, é possível que, mesmo em regiões providas de locais apropriados para a prática de atividades físicas e com iluminação adequada para o período noturno, muitas pessoas não se exercitem ainda devido ao cansaço da jornada de trabalho, principalmente nos casos de dupla jornada, com os afazeres domésticos. Conhecer a realidade da população estudada foi uma forma de embasamento para uma posterior devolutiva àquela comunidade e suas necessidades. O interesse pelo estudo da imagem corporal teve início durante o período de graduação da pesquisadora, quando realizava atendimento ambulatorial em nutrição e saúde coletiva em uma unidade de saúde pública. Durante um dos atendimentos, uma paciente relatou: “[...] esperei quatro meses para conseguir ver você... Evito sair de casa, me sinto feia com esse corpo...”, aludindo ao excesso de peso adquirido no período de um ano. Isso evidenciou que o descontentamento com a forma corporal influencia a autoestima, sendo relevante no cotidiano de uma pessoa que se sente acima ou abaixo do peso corporal preconizado no meio em que vive. Percebe-se, em inúmeras circunstâncias, que o ser humano é levado a concretizar no próprio corpo as idealizações de sua cultura. Essa representação é estimulada por meio de punições (desprezo e críticas a sua forma corporal) e gratificações (dinheiro, poder, admiração). Os ganhos secundários pela adequação aos padrões podem ser tão poderosos que são capazes de induzir à renúncia ao contato interno e perda da conexão com o corpo real (TAVARES, 2003). Este estudo realizou um levantamento bibliográfico nos bancos de dados das bibliotecas virtuais SciELO (Scientific Electronic Library Online), LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde) e PubMed (US National Library of Medicine and National Institutes of Health), em que se evidenciou a ausência de estudos relacionados à percepção e satisfação com a imagem corporal entre educadores de escolas de tempo integral no Estado de Mato Grosso do Sul (MS), modalidade de ensino que é um projeto piloto na capital (Campo Grande), que pode ser implantado em outros municípios do interior do Estado. Focalizando-se nesta condição, o presente estudo propiciará dados relevantes acerca da concepção corporal dos atores sociais envolvidos neste processo educacional. Utilizando-se da metodologia quantitativo-descritiva e de questionários autoaplicáveis, padronizados, validados e traduzidos para a língua portuguesa, este estudo aborda a percepção do corpo entre os educadores de tempo integral em uma escola pública de Campo Grande (MS) e a prevalência de transtornos de imagem corporal relacionados à satisfação e insatisfação com a aparência corporal, visando deste modo, conhecer a influência desta imagem em seus hábitos de vida, com a particularidade de serem sujeitos de pesquisa situados em um ambiente em que colaboram no processo de educação e aprendizado infantil. A fundamentação teórica que norteou essa pesquisa apoiou-se nas contribuições de Michel Foucault (1997), Maurice Merleau-Ponty (1975-1984), Paul Shilder (1999), Martin Heidegger (1997) entre outros, que abordam temas relevantes ao estudo da percepção corporal e fatores que influenciam nas condições de satisfação e de insatisfação. Os capítulos que sustentem teoricamente a organização deste trabalho versam sobre a imagem corporal, o corpo e a insatisfação corporal, organizados em três capítulos, a saber: o primeiro capítulo introduz o assunto desenvolvido, os fundamentos para a pesquisa e faz uma breve apresentação dos temas abordados; o segundo capítulo conceitua a imagem corporal e o contexto de sua percepção pelo indivíduo e sociedade; o terceiro capítulo focaliza o corpo, revisando os seus sentidos através da história, modelos e padrões relacionados a beleza, visão do corpo como máquina humana, narcisismo, construção e busca do corpo perfeito, obesidade e envelhecimento corporal, tratando, por fim, da influência desses aspectos na insatisfação com a imagem do corpo. Os resultados e a discussão do estudo são abordados e detalhados no capítulo cinco, seguido das considerações finais acerca dos resultados conclusivos da pesquisa. . 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 IMAGEM E PERCEPÇÃO CORPORAL A maneira de notar-se o próprio corpo, suas formas, atrativos e limitações assim como a imagem mental que o norteia é única em cada indivíduo, dependendo de sua conexão consigo e com estreito elo de ligação cultural e ambiental. Segundo Russo (2005), a imagem corporal é a maneira pela qual o corpo se apresenta para si e um dos focos de investigação frequentes do tema é o corpo humano. Para Cordás et al. (1998), imagem corporal é o modo de sentir o peso, o tamanho ou a forma corporal. Para Morgado (2009), imagem corporal é a representação mental que identifica o corpo, que se mantém em constante processo de construção e reconstrução por toda a vida. De acordo com Schilder (1999, p. 7) “[...] entende-se por imagem do corpo humano a figuração de nossos corpos formada em nossa mente, ou seja, o modo pelo qual o corpo se apresenta para nós". Gaudioso (2009) ressalta que as atitudes e comportamentos do corpo mostram o conceito daquilo que somos. Conforme Dittmar (2009), a imagem corporal é um aspecto relevante relacionado ao bem-estar e à saúde física e mental, sendo possível perceber um aumento significativo aumento nas pesquisas direcionadas ao corpo e à sua imagem individual que envolvem, dentre outras questões, as socioculturais. Indaga-se, com isso, sobre o poder de influência dos meios de comunicação de massa e a constante divulgação de um modelo de corpo perfeito, principalmente para as mulheres, como fator de risco para a insatisfação com a imagem corporal e baixa autoestima, capazes de gerar transtornos diversos para a saúde física e mental. De acordo com Grogan (2008), a percepção do corpo é instável e elástica, podendo variar conforme o humor da pessoa, o contexto da avaliação corporal e a presença de pistas sociais. A forma corporal real é passível de mudança via comportamentos, já a forma corporal idealizada é socialmente partilhada e pode se modificar através das diferentes culturas. Pode-se dizer que o ideal internalizado por uma pessoa é uma espécie de negociação entre a forma corporal desejada e o ideal socialmente partilhado e a forma atual que não agrada representa uma limitação para o corpo e não pode ser internalizada. É como bem pontuou Merleau-Ponty quando disse: “sou meu corpo” (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 208). Para Schilder (1999), conhecer o corpo é um contínuo esforço que progride pela experiência, erro e acerto. Apenas dessa maneira pode-se atingir o conhecimento corporal organizado, até mesmo porque o modelo postural está em constante autoconstrução. Como as emoções foram distanciadas das prioridades próprias ao viver do ser humano, o corpo comunica-se com os instintos necessários à continuidade da vida atribuindo ao seu funcionamento as marcas e os símbolos oriundos ao sentido de inúmeras patologias. Diante disso, a exaustão é um inconsciente e perturbador processo psicológico (GAUDIOSO, 2009). De acordo com Barros (2005), a imagem do corpo está sempre em transformação e se estrutura na mente e no contato do indivíduo condigo mesmo e com o mundo que o rodeia. O corpo é, antes de tudo, o primeiro e maior mistério: para que se esteja presente no mundo, é preciso reconhecer que somos um corpo em sua imensidão de complexos processos. Algo que nos faz ricos em sua consciência e inconsciência desconcertantes e pragmáticas e em suas atitudes, sempre corporais. Já Garner et al. (1982) ressaltam que a imagem individual que temos da aparência física tem dois principais componentes: a) o perceptivo, reflexo da figura mental e b) o relativo às atitudes pessoais, que corresponderia aos sentimentos. Maximo (1998) mostra que as relações entre o indivíduo e o seu ambiente são caracterizadas por gestos e ações que podem variar conforme as histórias de vida e o contexto sociocultural. Tais relações são permeadas por gestos conscientes e inconscientes, mímicas e expressões de afeto, que resultam da educação formal ou informal recebida, bem como do grau de proximidade entre indivíduos. O corpo é o veículo de interação presente em tais relações. Para Russo (2005), os meios de comunicação propagam a indústria corporal, que se encarrega de criar desejos e reforçar imagens, padronizando corpos que, quando se veem fora de medidas, sentem-se cobrados e insatisfeitos. Assim, uma parte da sociedade segue em busca de uma aparência física padronizada, propagada pela mídia como os corpos atraentes. Buscando essa atratividade ou perfeição, as pessoas lançam mão de atividades físicas e dietas dos mais variados tipos sem levar em conta, muitas das vezes, seu biótipo e a forma real de seu corpo em comparação ao corpo desejado, quadro que pode gerar insatisfação quando não se atinge o objetivo estabelecido. A veiculação pelos meios de comunicação de um padrão estético figura como expressão e determinante das representações sociais sobre a beleza feminina e masculina, reforçando a conduta de restrição alimentar (VITOLO; BORTOLINI; HORTA, 2006). Para muitos autores, evidências históricas sugerem que as formas corporais foram sendo modificadas no Ocidente com o passar do tempo, defendendo a influência da cultura na definição das formas corporais consideradas ideais (GROGAN, 2008). De acordo com Silva (2010), as mudanças dos padrões corporais, dos cuidados com a aparência e do modo como se trata o corpo resultam das alterações nos conceitos de beleza construídas por meio de experiências históricas e sociais do ser humano. A imagem corporal tem papel mediador em todas as coisas, como a escolha de vestimentas, as preferências estéticas e até a habilidade de desenvolver empatia com as emoções dos outros. Dentre as diversas maneiras que o indivíduo possui para pensar a respeito de si, nenhuma é tão imediata e central como a imagem de seu próprio corpo (CASTILHO, 2001). O aspecto corporal se modificou segundo a influência dos costumes de cada período. No século XVII, pintores renascentistas como Rubens retratavam o ideal de beleza feminina em seus quadros, com corpos nus de mulheres em formas arredondadas. No início do século XX, a corpulência masculina era símbolo de status, mas, já no final daquele mesmo século, idealizava-se que os homens deveriam ser também magros. Esse aspecto corporal pode ser mantido ou modificado conforme costumes e crenças, como ocorre na Índia, onde magreza não é necessariamente sinal de elegância nem de status, mas símbolo de escassez de alimento e menor nível socioeconômico. Mulheres indianas não têm a silhueta esbelta como um ideal de beleza e os transtornos alimentares em seu país são, estatisticamente, não significativos (HERCOVICI, 1997). Cordás (2004) refere-se às “santas anoréxicas”, mulheres que no século XIII faziam jejum com objetivo de aproximar-se espiritualmente de Deus e apresentavam rígido comportamento, perfeccionismo, autossuficiência, insatisfação e distorções cognitivas. Era um comportamento similar ao das portadoras de anorexia da atualidade. O autor relata a história de uma jovem que, aos 16 anos, não aceitou o casamento planejado e imposto por seus pais e jurou permanecer virgem, entrando para um convento onde alimentava-se de pão e alguns vegetais e praticava a autoflagelação. A jovem, conhecida posteriormente por Santa Catarina de Siena, provocava vômitos ingerindo plantas. Morgan (2002) ressalta que a insatisfação com a imagem corporal é cada vez mais comum, pois, para a maior parte das mulheres, o ideal de magreza proposto é biologicamente impossível. Nesse cenário, as dietas restritivas e as cirurgias plásticas transmitem a falsa idéia de que o corpo é infinitamente maleável. A variação do tamanho ideal para o corpo da mulher pela sociedade ao longo da história, em parte, foi influenciada pela economia. Segundo Hercovici (1997), em períodos de escassez de alimento, a preferência era por formas mais arredondadas que simbolizavam poder e opulência. Já em épocas de abundância de alimentos, o corpo esbelto sinalizava autodisciplina. Quando as mulheres sentem-se pressionadas a demonstrar sua habilidade e capacidade intelectual, preferem a aparência magra, o que por muitas vezes não ocorre quando esta permanece no lar. O autor ainda ilustra que, no começo do século XX, as mulheres ascenderam ao mercado de trabalho e desde então se têm como ideal o perfil esbelto. Após a Segunda Guerra Mundial, com o retorno dos homens ao lar, a imagem do corpo ideal ficou deslocada com o curvilíneo modelo apresentado por Marilyn Monroe. Pode-se associar, na atualidade, o corpo à ideia de consumo, atribuindo a ele valores exacerbados, que oportunizam o avanço do que Russo (2005) chamou de “mercado do músculo”, uma situação em que o consumo de bens e serviços é destinado à manutenção deste corpo. Observa-se uma significante representação de formas mais avantajadas que o atual padrão de beleza mostrada no meio artístico: corpos maiores, trabalhados com exercício físico ou esculpidos em procedimentos cirúrgicos que aumentam ou destacam determinadas regiões como os glúteos, os seios, os braços, a panturrilha e outras partes. Trata-se de prática adotada por homens e mulheres para a conquista do que se considera esteticamente como corpo perfeito ou ideal. É comum ver mulheres famosas por seus dotes físicos avantajados, sejam eles naturais ou não. Para Bittencourt (2009), imagem corporal é a referência do homem a si mesmo e ao mundo. Os transtornos relacionados à percepção e insatisfação com a própria imagem expõem as fragilidades e o desequilíbrio inerentes ao ser humano, desencadeando reações singulares e subjetivas por meio da percepção corporal, que influencia o processo de saúde e doença e a busca por tratamento ou cura, uma vez que está condicionada, na atualidade, a evidenciar o belo, dificultando o trato com o que é feio, sujo, doente e tudo o que fere o olhar condicionado à perfeição. Cirurgias para alterar a anatomia humana (suprime-se costelas, enxerta-se músculos), a utilização de próteses para reconfigurar o desenho das linhas do corpo são inovações relativamente democratizadas e “naturalizadas” de agir com o corpo, possíveis pelo avanço tecnológico (CHAVES, 2003, p.3). A imagem que se tem acerca do próprio corpo é o aspecto central para o bem-estar físico e mental. A obesidade, os transtornos alimentares, a depressão e o uso do corpo e de suas formas para moldar comportamentos trazem consequências muitas das vezes insalubres, como a alimentação baseada em dietas, o desequilíbrio nutricional, o abuso de medicamentos, de anabolizantes e de cirurgias plásticas, na busca desenfreada por modelar, ajustar e transformar o corpo (DITTMAR, 2009). 2.2 CORPO O corpo é muito mais que um conjunto de órgãos, sensações e reflexos: é a fronteira condicional da história humana, sendo ao mesmo tempo natureza e cultura, células e órgãos, reflexos e automatismos. Em sincronismo, também é sensibilidade, discurso e imagem, desejos e lembranças. A isso, acrescentam-se territórios geográficos e imaginários, ritmos e intenções. “Solitário e social, o corpo é o eu e o outro, todos os outros que o rodeiam, vivos ou mortos, que o sustentam, o afagam, o rejeitam, o abandonam” (LIMA, 2009, p. 3). A aparência corporal tem sido bastante valorizada na atualidade pela sociedade e pelos meios de comunicação, que repercutem de maneira considerável sobre a vida das pessoas, o que pode gerar prejuízos à saúde, decorrentes de uma série de intervenções. Segundo Nicolino (2009), observa-se que em questões de gênero, o contingente feminino sofre maior cobrança relacionada à valorização corporal e, por consequência, despende maior atenção ao seu corpo. Essa situação tem provocado questionamentos sobre a manutenção de um corpo aparentemente dentro dos padrões estéticos que se estendem inclusive aos valores, hábitos e à própria sensualidade, dentre outras esferas da vida, conduzindo à reflexão de como esse corpo é visto, sentido e representado. Para Gaudioso (2009, s.p), a “sexualidade é a dimensão das interações humanas que se ligam diretamente ao funcionamento do corpo como mecanismo de prazer”. Nesse espaço, o corpo é objeto social em relação às representações que se tem acerca dele e estas são socialmente construídas e compartilhadas, tornando o corpo objeto de troca social. O mecanismo de funcionamento da sexualidade parte de experiências que constituem as representações sociais individuais de corpo e de fantasia unicamente pessoais. Para Shubert (2007), no corpo são pronunciados os discursos da área da saúde, da psicologia, a esfera da produtividade, a reprodução e o prazer, dentre tantos outros. Isso ocorre porque o corpo é portador de muitos enunciados e interlocutor da natureza e da cultura. É ainda local de inscrição dos sistemas simbólicos, que recebe destaque como objeto de pesquisa das ciências sociais. Já foi observado como algo intocável em alguns períodos históricos e em outros, sua intangibilidade não o excluía de ser o cárcere da alma e o alvo de punições. Com a chegada dos estudos da anatomia humana, o corpo foi invadido com o propósito de desvendar seus segredos, revelado segundo a racionalidade cientifica por sua submissão às técnicas de exploração e dissecação. A hipótese norteadora de ser o corpo um dos locus preferenciais de atuação de uma pessoa é constatada nos mais diversos tipos de investimentos realizados em cirurgias e procedimentos estéticos, de moda, de dietas e ginástica. Investigar um “objeto” cercado por tantas significações que ao longo da história teve seus sentidos alterados é uma difícil tarefa, dado que o corpo é observado como algo a ser modificado e as representações sociais que se tem sobre ele se constroem e reconstroem constantemente. Na atualidade, o corpo tornou-se objeto de consumo e nunca recebeu tanto cuidado e atenção, que vão desde roupas, adereços, métodos, aparatos e técnicas que possibilitam a sua transformação (SHUBERT, 2007; CARVALHO 2009; SILVA e PORPINO, 2010). Já Pedretti (2008) afirma que o conhecimento cientifico construído pelas ciências da saúde sugestiona um poder quase ilimitado sobre o corpo, evidenciando a hipótese de superação dos limites físicos do ser humano para tornar possível a criação de um novo projeto do mesmo corpo e, partindo-se do suposto de que os corpos masculinos e femininos, bem como as diferenças entre os gêneros são constructos sociais formulados e firmados ao longo da história, tais corpos transformam-se em objetos de consumo e geram grandes investimentos. O culto corporal ganha, assim, dimensões sociais até então inéditas e um corpo em forma apresenta-se como símbolo de sucesso pessoal, ao qual tanto homens quanto mulheres podem aspirar (GONÇALVES, 2008). Nicolino (2009) pondera que a transformação a que se submete o próprio corpo pode ser indicio da busca de uma nova identidade, o mais perto possível da oferecida nos meios de comunicação como a forma de alcançar o reconhecimento social. Considerando-se que o belo é associado à juventude e a um corpo novo e rígido, sem marcas, manchas, cicatrizes nem gordura extra, os cuidados diários e disciplina são vistos como exemplo de controle constante, aliado à sensação de culpa quando se adquire massa gorda. Esse sentimento conduz ao aumento de mulheres que se martirizam por não terem o corpo esculpido e as formas delineadas, sendo que tais resultados, muitas das vezes, apenas podem ser alcançados por meio de formas de intervenção invasivas. 2.2.1 Corpo na História: Antiguidade, Idade Média, Modernidade e Atualidade Para a sociedade grega antiga, considerada o apogeu do desenvolvimento histórico-cultural da humanidade, o corpo humano era referencial de integridade, sendo valorizado e concebido como uma unidade, sem dualismos. Assim, os valores e ideais refletidos nos exercícios físicos praticados neste período estavam ligados não apenas ao fortalecimento do corpo, mas também ao intelecto, onde atividades como a música, filosofia e política eram estimulados pela sociedade visando o desenvolvimento e autonomia do corpo enquanto totalidade. Com a ascensão do Império Romano e declínio da Grécia, as práticas corporais seguiam caráter utilitarista voltadas essencialmente à guerra, desta maneira a natureza humana fragmentava-se e o corpo era símbolo de excelência onde, atributos intelectuais e espirituais vinham em segundo plano (RODRIGUES e CANIATO, 2009). No período medieval a percepção corporal sobrevinha por experiência. Experimentava-se o corpo e este era relacionado com todo o universo de significados: era completo, a morada do “cosmos” e o meio de comunicação com Deus. Continha o sagrado e o profano. Havia liberdade nas formas e manifestações corporais e a gordura era bem vista, tanto humana quanto animal. Era o corpo das abundâncias e das formas opulentas que desconhecia as regras alimentares de moderação e forma física e era visto como um todo, sem fragmentações entre si e a alma: espírito e matéria não se opunham e não era permitido aos medievais falar sobre tal separação (BERGER, 2006). Na Idade Média, a ritualização do corpo era constante e a Igreja exerceu papel fundamental na formação de opinião e comportamento, direcionando as idéias que a pessoa poderia ou deveria ter acerca de si. Isso despertou cuidado na maneira como se manipulava o corpo e nas ações cotidianas como andar, rir, sentar, cumprimentar outra pessoa ou até mesmo rezar, pois os gestos poderiam ter relação com a lealdade ou a fé e poderiam ser condenados por lembrarem o “diabo”. A mesma expressão corporal poderia ser exaltada ou suspeita: para o homem da Idade Média era preferível chorar a sorrir, pois o choro era visto como dádiva e o sorriso era ligado ao mal, ... O livro “Autoimagem Corporal – Um Estudo de Autopercepção com Educadores de uma Escola de Tempo Integral” encontra-se à venda no site Morebooks no link: https://www.morebooks.de/pt/bookprice_offer_d5122f7a7ce748db5257db5e6c6afc4de7d0ae8c Boa Leitura Obrigada