“ELE: O Meu Corpo”
Meu corpo sou eu com os arredores...
Minha conexão com o universo e o isolamento no aglomerado;
O escudo que protege e a enseada no azul do mar.
É aquele que no silêncio me denuncia e fala quando me calo;
Meu corpo é o aço que me oculta e o prisma que me reflete...
Vereda de prazeres e o desembarque da dor.
Depende de como o percebo:
Depende pelo que me deixo influenciar.
Geise de Oliveira
Machulek
DEDICATÓRIA
Dedicado aos meus filhos Ludwan e Cauan (Geise) .
Dedicado aos meus filhos Carla e Vítor (José Carlos)
AGRADECIMENTOS
Aos educadores e direção da escola, que possibilitaram a realização
deste estudo participando voluntariamente.
PREFÁCIO
A Sociedade na qual vivemos, atravessada pelas demandas apelativas
das mídias e redes sociais, passa por constantes e rápidas transformações que
afetam a vida humana de muitos modos e intensidades. As pessoas
invariavelmente encontram-se vulneráveis diante de interpelações midiáticas
cujo escopo fundamental é atuar como dispositivo organizador ou reorganizador
das rotinas da vida cotidiana. Se um dia a mídia foi formadora de opiniões, hoje
ela é, essencialmente, uma sutil criadora de novos hábitos cotidianos.
Para interferir na esfera dos hábitos cotidianos das pessoas a mídia
trabalha com a imagem. A imagem tem o poder de impressionar e de passar da
impressão a um novo hábito sem a mediação de um discernimento reflexivo.
Esta estratégia estética de instituir novos hábitos cotidianos a partir de
impressões imagéticas se constitui em um recuo da razão enquanto
possibilidade de ponderar e escolher de forma livre e consciente. Sem o
benefício da dúvida racional as pessoas terminam reféns de certezas
imaginárias.
A indução de novos hábitos cotidianos na vida das pessoas pode afetar
de muitos modos o corpo. Muitos dos apelativos midiáticos estão dirigidos à
estética do corpo. O corpo tem uma forma que o define e esta performance se
estende à pessoa, pois desde o ponto de vista estético a pessoa tem a forma de
seu corpo, assim se percebe e é percebida, podendo tanto sofrer como celebrar
esta percepção.
A percepção de si mesmo, por mais profunda que se possa pretender ser,
não escapa da percepção do corpo próprio com sua forma estética, isto é, todo
voltar-se sobre si mesmo passa pelo corpo e se faz ressentir de algum modo.
Todas as expectativas que as pessoas têm umas em relação às outras também
passam pelo corpo e produzem o estremecimento de um compasso de espera
que pode oscilar da aceitação à rejeição. O corpo padece sua imagem, e a mídia
aprendeu a controlar esta verdade.
A pesquisa apresentada no presente livro se debruçou sobre a temática
da imagem de corpo em educadores, fazendo ver que a população pesquisada
se debate em dilemas existenciais produzidos pela insatisfação estética com a
imagem corporal e pelo desejo de um corpo diferente.
Esses educadores são pessoas cuja intervenção social na forma de
trabalho recai sobre uma população ainda maior e, talvez, ainda mais frágil frente
aos apelativos midiáticos de customização estética do corpo, que são: as
crianças, os adolescentes e os jovens, em pleno processo de amadurecimento
de sua humanidade. Amadurecer é construir e aprofundar o sentido de pertença
à humanidade que nos transcende e trans-ascende, na existência, no tempo e
no espaço. A construção desta pertença sacode as fibras da existência e, de
modo especial, as fibras de um corpo próprio em frenética transmutação.
O desempenho estético do educador, corporalmente presente, é
fundamental neste processo de crescimento onde o jovem ser humano constrói
sua humanidade, corporalidade e identidade, sempre em relação com outros
seres humanos, ainda quando esta relação se de na forma de ausência. A
imagem que o educador tem de seu corpo e as manifestações de satisfação e
de insatisfação em relação a sua forma estética tem uma força impressiva e
performática sobre os educandos que habitam o entorno cotidiano onde
acontece a posta em cena da humanidade feita existência corporal na vida de
cada um.
O educador, pela sua formação e pelos compromissos de sua profissão,
está vinculado aos processos de construção do conhecimento e ao
desenvolvimento de habilidades relacionadas à reflexão e ao discernimento, por
tanto, uma população que, ao menos teoricamente, reuniria as condições para
afrontar os apelativos midiáticos que atravessam o corpo e a existência das
pessoas. Como tal, o educador é convidado a discernir e acompanhar o processo
de discernimento dos educandos em relação à complexidade de uma existência
sempre corporificada; de um corpo sempre acuado por uma imagem de corpo;
de uma mídia decidida a manipular os padrões estéticos da existência pela
manipulação da forma corporal e, por último, mas não menos importante, de uma
razão que, de forma tensa, mantém aberta a possibilidade do benefício da dúvida
e da escolha.
Acompanhar processos formativos de discernimento é um grande desafio
para os educadores, tanto em relação à formação que receberam quanto às
condições nas quais realizam o seu trabalho. A pesquisa acena de maneira
acertada para fato de que a responsabilidade de construir estas condições recai
sobre as políticas públicas e sobre a gestão responsável dos espaços e
processos educativos, com estes assinalamentos instiga novas pesquisas e
novas reflexões sobre a estética do corpo próprio na construção educativa da
identidade humana.
Prof. Dr. Márcio Luís Costa - Setembro, 2014.
Universidade Católica Dom Bosco - UCDB
LISTA DE TABELAS
TABELA 1 – Perfil sociodemográfico dos educadores ................... 55
TABELA 2 – Resultado do teste BSQ para os diferentes níveis de
alteração da imagem corporal dentre os educadores .. 58
TABELA 3 – Resultados da percepção corporal pela Escala de
Silhuetas Corporais (SMT) real e ideal corporal entre os
educadores ................................................................. 59
TABELA 4 – Análise do perfil sociodemográfico com relação ao
questionário de imagem corporal (BSQ) ..................... 64
TABELA 5 – Análise do perfil sociodemográfico com relação à
escola de imagem corporal (SMT) .............................. 65
ÍNDICE
1 INTRODUÇÃO ............................................................................. 8
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA .................................................. 15
2.2 CORPO ................................................................................ 22
2.2.1 Corpo na História: Antiguidade, Idade Média, Modernidade
e Atualidade ............................................................................ 25
2.2.2 A Beleza: Modelos e Padrões............. Erro! Indicador não
definido.
2.2.4 Narcisismo e Bodybuyilding Erro! Indicador não definido.
2.2.5 Corpo Diferente e Corpo que Envelhece ... Erro! Indicador
não definido.
2.2.6 Obesidade .......................... Erro! Indicador não definido.
2.2.7 Insatisfação Corporal .......... Erro! Indicador não definido.
3 OBJETIVOS ................................... Erro! Indicador não definido.
3.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS .... Erro! Indicador não definido.
4 MÉTODO........................................ Erro! Indicador não definido.
4.2 PARTICIPANTES ..................... Erro! Indicador não definido.
4.3 LOCAL DA PESQUISA............. Erro! Indicador não definido.
4.4 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO .... Erro! Indicador
não definido.
4.5 INSTRUMENTOS ..................... Erro! Indicador não definido.
4.5.1 Questionário de Imagem Corporal Body Shape
Questionnaire (BSQ) – (Anexo 1) Erro! Indicador não definido.
4.5.2 Escala de Silhuetas Corporais - Silhouette Matching Task
(SMT) (Anexo 2) .......................... Erro! Indicador não definido.
4.5.3 Questionário sociodemográfico (Apêndice 2) ............ Erro!
Indicador não definido.
4.6 PROCEDIMENTO .................... Erro! Indicador não definido.
4.7 ASPECTOS ÉTICOS DA PESQUISA ....... Erro! Indicador não
definido.
5 RESULTADOS E DISCUSSÃO ...... Erro! Indicador não definido.
5.1 PERFIL SOCIODEMOGRÁFICO DOS EDUCADORES ... Erro!
Indicador não definido.
5.3 PERFIL DOS EDUCADORES EM RELAÇÃO AOS
INSTRUMENTOS UTILIZANDO-SE O TESTE EXATO DE
FISHER .......................................... Erro! Indicador não definido.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............ Erro! Indicador não definido.
REFERÊNCIAS ................................. Erro! Indicador não definido.
APÊNDICES ....................................................................................Er
ro! Indicador não definido.
ANEXOS..........................................................................................Er
ro! Indicador não definido.
1 INTRODUÇÃO
O ser humano é estimulado a buscar sucesso e perfeição nas
mais variadas esferas da vida, em suas relações pessoais e no
âmbito profissional, conduzido por valores pessoais ou padrões
estipulados pela sociedade. Atualmente, a disputa no mercado de
trabalho e o incentivo ao contínuo aprimoramento são dois
importantes fatores. Neste contexto, observa-se que, pessoas
fisicamente atraentes são mais facilmente aceitas em ambientes
sociais e que outras, sem tais atrativos físicos, podem ser facilmente
rejeitadas. Isso ocorre pelo fato de que seres humanos têm atitudes
referentes à estética e à beleza que influenciam seu modo de se
relacionarem com os demais.
Para Miorim (2006), o corpo é a matriz de manifestação da
vivência psíquica. A psique representa uma faculdade imaginativa
interligada ao corpo que, paralelamente, molda e estabelece
transformações conforme a vida imaginária e os dinamismos
arquétipos do indivíduo. O sentido de corpo se faz presente em
aspectos emocionais, afetivos, culturais e sociais, conforme as
características individuais acolhidas socialmente, em uma contínua
procura pelos estados de saúde e beleza. Uma das possibilidades de
deterioração do corpo reside nas práticas nocivas à saúde física e
mental visando moldar, modelar ou esculpir suas formas de acordo
com o desejado (GAUDIOSO, 2009).
A indústria corporal através dos meios de comunicação
encarrega-se de criar desejos e reforçar imagens, padronizando
corpos. Corpos que se veem fora de medidas, sentem-se
cobrados e insatisfeitos. O reforço dado pela mídia em mostrar
corpos atraentes faz com que uma parte de nossa sociedade se
lance na busca de uma aparência física idealizada. (RUSSO,
2005, p. 81).
A necessidade de se sentir adequado quanto à aparência e
forma física pode gerar preocupação excessiva com a imagem
corporal, ocasionalmente interferindo na maneira como uma pessoa
se alimenta, realiza suas atividades pessoais e profissionais e nos
cuidados que despende ao próprio corpo. Quando isso ocorre, é
comum a realização de práticas que objetivam reduzir o peso
corporal e modificar as “formas” que não agradam, muitas das vezes
sem fundamento ou aconselhamento profissional habilitado, à custa
de
dietas
“milagrosas”,
jejuns
prolongados,
ingestão
de
medicamentos e de substâncias de origem e indicação duvidosa.
Forma-se, com isso, um quadro favorável à ocorrência de prejuízos
à saúde e ao desenvolvimento de transtornos de imagem corporal e
alimentares.
Observa-se a importância da percepção corporal nas várias
etapas da vida: nos primeiros anos do ser humano, nas etapas de
crescimento e desenvolvimento, na idade adulta e no processo de
envelhecimento. A imagem corporal pode ter influência positiva ou
negativa nos âmbitos profissional e pessoal, nos relacionamentos e
consequentemente, na qualidade de vida e saúde do indivíduo.
Trata-se de um assunto com tamanha relevância e repercussão na
atualidade que tem despertado o interesse de estudos para discutir
e melhor compreender a formação da imagem corporal e sua
influência física e emocional.
Para Gaudioso (2009), a imagem corporal pode ser percebida
pela estima e insatisfação com o corpo. O gostar ou não do corpo, de
seu peso e de sua forma, percentual de gordura e aspectos afetivos
intrínsecos ao ser humano são fatores determinantes para o
posicionamento social, mecanismos defensivos e projeções reais na
descoberta da identidade.
No trabalho da pesquisadora como nutricionista na escola de
tempo integral alvo do estudo, observou-se que o longo período
diário que os educadores permanecem no local reflete em sua
percepção corporal bem como no hábito alimentar individual dos
profissionais e na realização de atividades físicas, uma vez que a
alimentação no ambiente escolar é planejada para as necessidades
nutricionais dos educandos, ainda em fase de crescimento e
desenvolvimento. A unidade educacional é de distante acesso para
a maioria dos educadores e não há venda de nenhum tipo de
alimento na escola, o que resulta na opção comum dos profissionais
em realizarem suas refeições no local de trabalho, mesmo tendo
intervalos para almoço e lanches.
Na sala reservada para o trabalho da nutricionista e da psicóloga
no atendimento dos alunos e familiares na escola, era comum a
presença de funcionários de vários setores em busca de atendimento
nutricional.
Relatavam
insatisfação com
a aparência física,
dificuldades para diminuição do peso corporal e realização de
atividades físicas como caminhada e corrida, práticas mais
acessíveis à população. O principal argumento para a não realização
das atividades era a falta de locais apropriados na região para a sua
prática noturna, único período disponível, como praças e parques
bem iluminados.
Contudo, é possível que, mesmo em regiões providas de locais
apropriados para a prática de atividades físicas e com iluminação
adequada para o período noturno, muitas pessoas não se exercitem
ainda devido ao cansaço da jornada de trabalho, principalmente nos
casos de dupla jornada, com os afazeres domésticos. Conhecer a
realidade da população estudada foi uma forma de embasamento
para uma posterior devolutiva àquela comunidade e suas
necessidades.
O interesse pelo estudo da imagem corporal teve início durante
o período de graduação da pesquisadora, quando realizava
atendimento ambulatorial em nutrição e saúde coletiva em uma
unidade de saúde pública. Durante um dos atendimentos, uma
paciente relatou: “[...] esperei quatro meses para conseguir ver
você... Evito sair de casa, me sinto feia com esse corpo...”, aludindo
ao excesso de peso adquirido no período de um ano. Isso evidenciou
que o descontentamento com a forma corporal influencia a
autoestima, sendo relevante no cotidiano de uma pessoa que se
sente acima ou abaixo do peso corporal preconizado no meio em que
vive.
Percebe-se, em inúmeras circunstâncias, que o ser humano é
levado a concretizar no próprio corpo as idealizações de sua cultura.
Essa representação é estimulada por meio de punições (desprezo e
críticas a sua forma corporal) e gratificações (dinheiro, poder,
admiração). Os ganhos secundários pela adequação aos padrões
podem ser tão poderosos que são capazes de induzir à renúncia ao
contato interno e perda da conexão com o corpo real (TAVARES,
2003).
Este estudo realizou um levantamento bibliográfico nos bancos
de dados das bibliotecas virtuais SciELO (Scientific Electronic Library
Online), LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em
Ciências da Saúde) e PubMed (US National Library of Medicine and
National Institutes of Health), em que se evidenciou a ausência de
estudos relacionados à percepção e satisfação com a imagem
corporal entre educadores de escolas de tempo integral no Estado
de Mato Grosso do Sul (MS), modalidade de ensino que é um projeto
piloto na capital (Campo Grande), que pode ser implantado em outros
municípios do interior do Estado. Focalizando-se nesta condição, o
presente estudo propiciará dados relevantes acerca da concepção
corporal dos atores sociais envolvidos neste processo educacional.
Utilizando-se da metodologia quantitativo-descritiva e de
questionários autoaplicáveis, padronizados, validados e traduzidos
para a língua portuguesa, este estudo aborda a percepção do corpo
entre os educadores de tempo integral em uma escola pública de
Campo Grande (MS) e a prevalência de transtornos de imagem
corporal relacionados à satisfação e insatisfação com a aparência
corporal, visando deste modo, conhecer a influência desta imagem
em seus hábitos de vida, com a particularidade de serem sujeitos de
pesquisa situados em um ambiente em que colaboram no processo
de educação e aprendizado infantil.
A fundamentação teórica que norteou essa pesquisa apoiou-se
nas contribuições de Michel Foucault (1997), Maurice Merleau-Ponty
(1975-1984), Paul Shilder (1999), Martin Heidegger (1997) entre
outros, que abordam temas relevantes ao estudo da percepção
corporal e fatores que influenciam nas condições de satisfação e de
insatisfação. Os capítulos que sustentem teoricamente a organização
deste trabalho versam sobre a imagem corporal, o corpo e a
insatisfação corporal, organizados em três capítulos, a saber: o
primeiro capítulo introduz o assunto desenvolvido, os fundamentos
para a pesquisa e faz uma breve apresentação dos temas
abordados; o segundo capítulo conceitua a imagem corporal e o
contexto de sua percepção pelo indivíduo e sociedade; o terceiro
capítulo focaliza o corpo, revisando os seus sentidos através da
história, modelos e padrões relacionados a beleza, visão do corpo
como máquina humana, narcisismo, construção e busca do corpo
perfeito, obesidade e envelhecimento corporal, tratando, por fim, da
influência desses aspectos na insatisfação com a imagem do corpo.
Os resultados e a discussão do estudo são abordados e detalhados
no capítulo cinco, seguido das considerações finais acerca dos
resultados conclusivos da pesquisa.
.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 IMAGEM E PERCEPÇÃO CORPORAL
A maneira de notar-se o próprio corpo, suas formas, atrativos e
limitações assim como a imagem mental que o norteia é única em
cada indivíduo, dependendo de sua conexão consigo e com estreito
elo de ligação cultural e ambiental.
Segundo Russo (2005), a imagem corporal é a maneira pela qual
o corpo se apresenta para si e um dos focos de investigação
frequentes do tema é o corpo humano. Para Cordás et al. (1998),
imagem corporal é o modo de sentir o peso, o tamanho ou a forma
corporal.
Para Morgado (2009), imagem corporal é a representação
mental que identifica o corpo, que se mantém em constante processo
de construção e reconstrução por toda a vida. De acordo com
Schilder (1999, p. 7) “[...] entende-se por imagem do corpo humano
a figuração de nossos corpos formada em nossa mente, ou seja, o
modo pelo qual o corpo se apresenta para nós". Gaudioso (2009)
ressalta que as atitudes e comportamentos do corpo mostram o
conceito daquilo que somos.
Conforme Dittmar (2009), a imagem corporal é um aspecto
relevante relacionado ao bem-estar e à saúde física e mental, sendo
possível perceber um aumento significativo aumento nas pesquisas
direcionadas ao corpo e à sua imagem individual que envolvem,
dentre outras questões, as socioculturais. Indaga-se, com isso, sobre
o poder de influência dos meios de comunicação de massa e a
constante divulgação de um modelo de corpo perfeito, principalmente
para as mulheres, como fator de risco para a insatisfação com a
imagem corporal e baixa autoestima, capazes de gerar transtornos
diversos para a saúde física e mental.
De acordo com Grogan (2008), a percepção do corpo é instável
e elástica, podendo variar conforme o humor da pessoa, o contexto
da avaliação corporal e a presença de pistas sociais. A forma corporal
real é passível de mudança via comportamentos, já a forma corporal
idealizada é socialmente partilhada e pode se modificar através das
diferentes culturas. Pode-se dizer que o ideal internalizado por uma
pessoa é uma espécie de negociação entre a forma corporal
desejada e o ideal socialmente partilhado e a forma atual que não
agrada representa uma limitação para o corpo e não pode ser
internalizada. É como bem pontuou Merleau-Ponty quando disse:
“sou meu corpo” (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 208).
Para Schilder (1999), conhecer o corpo é um contínuo esforço
que progride pela experiência, erro e acerto. Apenas dessa maneira
pode-se atingir o conhecimento corporal organizado, até mesmo
porque o modelo postural está em constante autoconstrução. Como
as emoções foram distanciadas das prioridades próprias ao viver do
ser humano, o corpo comunica-se com os instintos necessários à
continuidade da vida atribuindo ao seu funcionamento as marcas e
os símbolos oriundos ao sentido de inúmeras patologias. Diante
disso, a exaustão é um inconsciente e perturbador processo
psicológico (GAUDIOSO, 2009).
De acordo com Barros (2005), a imagem do corpo está sempre
em transformação e se estrutura na mente e no contato do indivíduo
condigo mesmo e com o mundo que o rodeia. O corpo é, antes de
tudo, o primeiro e maior mistério: para que se esteja presente no
mundo, é preciso reconhecer que somos um corpo em sua imensidão
de complexos processos. Algo que nos faz ricos em sua consciência
e inconsciência desconcertantes e pragmáticas e em suas atitudes,
sempre corporais.
Já Garner et al. (1982) ressaltam que a imagem individual que
temos da aparência física tem dois principais componentes: a) o
perceptivo, reflexo da figura mental e b) o relativo às atitudes
pessoais, que corresponderia aos sentimentos.
Maximo (1998) mostra que as relações entre o indivíduo e o seu
ambiente são caracterizadas por gestos e ações que podem variar
conforme as histórias de vida e o contexto sociocultural. Tais
relações são permeadas por gestos conscientes e inconscientes,
mímicas e expressões de afeto, que resultam da educação formal ou
informal recebida, bem como do grau de proximidade entre
indivíduos. O corpo é o veículo de interação presente em tais
relações.
Para Russo (2005), os meios de comunicação propagam a
indústria corporal, que se encarrega de criar desejos e reforçar
imagens, padronizando corpos que, quando se veem fora de
medidas, sentem-se cobrados e insatisfeitos. Assim, uma parte da
sociedade segue em busca de uma aparência física padronizada,
propagada pela mídia como os corpos atraentes. Buscando essa
atratividade ou perfeição, as pessoas lançam mão de atividades
físicas e dietas dos mais variados tipos sem levar em conta, muitas
das vezes, seu biótipo e a forma real de seu corpo em comparação
ao corpo desejado, quadro que pode gerar insatisfação quando não
se atinge o objetivo estabelecido.
A veiculação pelos meios de
comunicação de um padrão estético figura como expressão e
determinante das representações sociais sobre a beleza feminina e
masculina, reforçando a conduta de restrição alimentar (VITOLO;
BORTOLINI; HORTA, 2006).
Para muitos autores, evidências históricas sugerem que as
formas corporais foram sendo modificadas no Ocidente com o passar
do tempo, defendendo a influência da cultura na definição das formas
corporais consideradas ideais (GROGAN, 2008).
De acordo com Silva (2010), as mudanças dos padrões
corporais, dos cuidados com a aparência e do modo como se trata o
corpo resultam das alterações nos conceitos de beleza construídas
por meio de experiências históricas e sociais do ser humano. A
imagem corporal tem papel mediador em todas as coisas, como a
escolha de vestimentas, as preferências estéticas e até a habilidade
de desenvolver empatia com as emoções dos outros. Dentre as
diversas maneiras que o indivíduo possui para pensar a respeito de
si, nenhuma é tão imediata e central como a imagem de seu próprio
corpo (CASTILHO, 2001).
O aspecto corporal se modificou segundo a influência dos
costumes de cada período. No século XVII, pintores renascentistas
como Rubens retratavam o ideal de beleza feminina em seus
quadros, com corpos nus de mulheres em formas arredondadas. No
início do século XX, a corpulência masculina era símbolo de status,
mas, já no final daquele mesmo século, idealizava-se que os homens
deveriam ser também magros. Esse aspecto corporal pode ser
mantido ou modificado conforme costumes e crenças, como ocorre
na Índia, onde magreza não é necessariamente sinal de elegância
nem de status, mas símbolo de escassez de alimento e menor nível
socioeconômico. Mulheres indianas não têm a silhueta esbelta como
um ideal de beleza e os transtornos alimentares em seu país são,
estatisticamente, não significativos (HERCOVICI, 1997).
Cordás (2004) refere-se às “santas anoréxicas”, mulheres que
no século XIII faziam jejum com objetivo de aproximar-se
espiritualmente de Deus e apresentavam rígido comportamento,
perfeccionismo,
autossuficiência,
insatisfação
e
distorções
cognitivas. Era um comportamento similar ao das portadoras de
anorexia da atualidade. O autor relata a história de uma jovem que,
aos 16 anos, não aceitou o casamento planejado e imposto por seus
pais e jurou permanecer virgem, entrando para um convento onde
alimentava-se de pão e alguns vegetais e praticava a autoflagelação.
A jovem, conhecida posteriormente por Santa Catarina de Siena,
provocava vômitos ingerindo plantas.
Morgan (2002) ressalta que a insatisfação com a imagem
corporal é cada vez mais comum, pois, para a maior parte das
mulheres, o ideal de magreza proposto é biologicamente impossível.
Nesse cenário, as dietas restritivas e as cirurgias plásticas
transmitem a falsa idéia de que o corpo é infinitamente maleável.
A variação do tamanho ideal para o corpo da mulher pela
sociedade ao longo da história, em parte, foi influenciada pela
economia. Segundo Hercovici (1997), em períodos de escassez de
alimento, a preferência era por formas mais arredondadas que
simbolizavam poder e opulência. Já em épocas de abundância de
alimentos, o corpo esbelto sinalizava autodisciplina. Quando as
mulheres sentem-se pressionadas a demonstrar sua habilidade e
capacidade intelectual, preferem a aparência magra, o que por
muitas vezes não ocorre quando esta permanece no lar. O autor
ainda ilustra que, no começo do século XX, as mulheres ascenderam
ao mercado de trabalho e desde então se têm como ideal o perfil
esbelto. Após a Segunda Guerra Mundial, com o retorno dos homens
ao lar, a imagem do corpo ideal ficou deslocada com o curvilíneo
modelo apresentado por Marilyn Monroe.
Pode-se associar, na atualidade, o corpo à ideia de consumo,
atribuindo a ele valores exacerbados, que oportunizam o avanço do
que Russo (2005) chamou de “mercado do músculo”, uma situação
em que o consumo de bens e serviços é destinado à manutenção
deste corpo. Observa-se uma significante representação de formas
mais avantajadas que o atual padrão de beleza mostrada no meio
artístico: corpos maiores, trabalhados com exercício físico ou
esculpidos em procedimentos cirúrgicos que aumentam ou destacam
determinadas regiões como os glúteos, os seios, os braços, a
panturrilha e outras partes. Trata-se de prática adotada por homens
e mulheres para a conquista do que se considera esteticamente
como corpo perfeito ou ideal. É comum ver mulheres famosas por
seus dotes físicos avantajados, sejam eles naturais ou não.
Para Bittencourt (2009), imagem corporal é a referência do
homem a si mesmo e ao mundo. Os transtornos relacionados à
percepção e insatisfação com a própria imagem expõem as
fragilidades
e
o
desequilíbrio
inerentes
ao
ser
humano,
desencadeando reações singulares e subjetivas por meio da
percepção corporal, que influencia o processo de saúde e doença e
a busca por tratamento ou cura, uma vez que está condicionada, na
atualidade, a evidenciar o belo, dificultando o trato com o que é feio,
sujo, doente e tudo o que fere o olhar condicionado à perfeição.
Cirurgias para alterar a anatomia humana (suprime-se costelas,
enxerta-se músculos), a utilização de próteses para reconfigurar
o desenho das linhas do corpo são inovações relativamente
democratizadas e “naturalizadas” de agir com o corpo, possíveis
pelo avanço tecnológico (CHAVES, 2003, p.3).
A imagem que se tem acerca do próprio corpo é o aspecto
central para o bem-estar físico e mental. A obesidade, os transtornos
alimentares, a depressão e o uso do corpo e de suas formas para
moldar comportamentos trazem consequências muitas das vezes
insalubres, como a alimentação baseada em dietas, o desequilíbrio
nutricional, o abuso de medicamentos, de anabolizantes e de
cirurgias plásticas, na busca desenfreada por modelar, ajustar e
transformar o corpo (DITTMAR, 2009).
2.2 CORPO
O corpo é muito mais que um conjunto de órgãos, sensações e
reflexos: é a fronteira condicional da história humana, sendo ao
mesmo tempo natureza e cultura, células e órgãos, reflexos e
automatismos. Em sincronismo, também é sensibilidade, discurso e
imagem, desejos e lembranças. A isso, acrescentam-se territórios
geográficos e imaginários, ritmos e intenções. “Solitário e social, o
corpo é o eu e o outro, todos os outros que o rodeiam, vivos ou
mortos, que o sustentam, o afagam, o rejeitam, o abandonam” (LIMA,
2009, p. 3).
A aparência corporal tem sido bastante valorizada na atualidade
pela sociedade e pelos meios de comunicação, que repercutem de
maneira considerável sobre a vida das pessoas, o que pode gerar
prejuízos à saúde, decorrentes de uma série de intervenções.
Segundo Nicolino (2009), observa-se que em questões de gênero, o
contingente feminino sofre maior cobrança relacionada à valorização
corporal e, por consequência, despende maior atenção ao seu corpo.
Essa situação tem provocado questionamentos sobre a manutenção
de um corpo aparentemente dentro dos padrões estéticos que se
estendem inclusive aos valores, hábitos e à própria sensualidade,
dentre outras esferas da vida, conduzindo à reflexão de como esse
corpo é visto, sentido e representado.
Para Gaudioso (2009, s.p), a “sexualidade é a dimensão das
interações humanas que se ligam diretamente ao funcionamento do
corpo como mecanismo de prazer”. Nesse espaço, o corpo é objeto
social em relação às representações que se tem acerca dele e estas
são socialmente construídas e compartilhadas, tornando o corpo
objeto de troca social. O mecanismo de funcionamento da
sexualidade parte de experiências que constituem as representações
sociais individuais de corpo e de fantasia unicamente pessoais.
Para Shubert (2007), no corpo são pronunciados os discursos
da área da saúde, da psicologia, a esfera da produtividade, a
reprodução e o prazer, dentre tantos outros. Isso ocorre porque o
corpo é portador de muitos enunciados e interlocutor da natureza e
da cultura. É ainda local de inscrição dos sistemas simbólicos, que
recebe destaque como objeto de pesquisa das ciências sociais. Já
foi observado como algo intocável em alguns períodos históricos e
em outros, sua intangibilidade não o excluía de ser o cárcere da alma
e o alvo de punições. Com a chegada dos estudos da anatomia
humana, o corpo foi invadido com o propósito de desvendar seus
segredos, revelado segundo a racionalidade cientifica por sua
submissão às técnicas de exploração e dissecação.
A hipótese norteadora de ser o corpo um dos locus preferenciais
de atuação de uma pessoa é constatada nos mais diversos tipos de
investimentos realizados em cirurgias e procedimentos estéticos, de
moda, de dietas e ginástica. Investigar um “objeto” cercado por tantas
significações que ao longo da história teve seus sentidos alterados é
uma difícil tarefa, dado que o corpo é observado como algo a ser
modificado e as representações sociais que se tem sobre ele se
constroem e reconstroem constantemente. Na atualidade, o corpo
tornou-se objeto de consumo e nunca recebeu tanto cuidado e
atenção, que vão desde roupas, adereços, métodos, aparatos e
técnicas que possibilitam a sua transformação (SHUBERT, 2007;
CARVALHO 2009; SILVA e PORPINO, 2010).
Já Pedretti (2008) afirma que o conhecimento cientifico
construído pelas ciências da saúde sugestiona um poder quase
ilimitado sobre o corpo, evidenciando a hipótese de superação dos
limites físicos do ser humano para tornar possível a criação de um
novo projeto do mesmo corpo e, partindo-se do suposto de que os
corpos masculinos e femininos, bem como as diferenças entre os
gêneros são constructos sociais formulados e firmados ao longo da
história, tais corpos transformam-se em objetos de consumo e geram
grandes investimentos. O culto corporal ganha, assim, dimensões
sociais até então inéditas e um corpo em forma apresenta-se como
símbolo de sucesso pessoal, ao qual tanto homens quanto mulheres
podem aspirar (GONÇALVES, 2008).
Nicolino (2009) pondera que a transformação a que se submete
o próprio corpo pode ser indicio da busca de uma nova identidade, o
mais perto possível da oferecida nos meios de comunicação como a
forma de alcançar o reconhecimento social. Considerando-se que o
belo é associado à juventude e a um corpo novo e rígido, sem
marcas, manchas, cicatrizes nem gordura extra, os cuidados diários
e disciplina são vistos como exemplo de controle constante, aliado à
sensação de culpa quando se adquire massa gorda. Esse sentimento
conduz ao aumento de mulheres que se martirizam por não terem o
corpo esculpido e as formas delineadas, sendo que tais resultados,
muitas das vezes, apenas podem ser alcançados por meio de formas
de intervenção invasivas.
2.2.1 Corpo na História: Antiguidade, Idade Média,
Modernidade e Atualidade
Para a sociedade grega antiga, considerada o apogeu do
desenvolvimento histórico-cultural da humanidade, o corpo humano
era referencial de integridade, sendo valorizado e concebido como
uma unidade, sem dualismos. Assim, os valores e ideais refletidos
nos exercícios físicos praticados neste período estavam ligados não
apenas ao fortalecimento do corpo, mas também ao intelecto, onde
atividades como a música, filosofia e política eram estimulados pela
sociedade visando o desenvolvimento e autonomia do corpo
enquanto totalidade. Com a ascensão do Império Romano e declínio
da Grécia, as práticas corporais seguiam caráter utilitarista voltadas
essencialmente à guerra, desta maneira a natureza humana
fragmentava-se e o corpo era símbolo de excelência onde, atributos
intelectuais e espirituais vinham em segundo plano (RODRIGUES e
CANIATO, 2009).
No período medieval a percepção corporal sobrevinha por
experiência. Experimentava-se o corpo e este era relacionado com
todo o universo de significados: era completo, a morada do “cosmos”
e o meio de comunicação com Deus. Continha o sagrado e o profano.
Havia liberdade nas formas e manifestações corporais e a gordura
era bem vista, tanto humana quanto animal. Era o corpo das
abundâncias e das formas opulentas que desconhecia as regras
alimentares de moderação e forma física e era visto como um todo,
sem fragmentações entre si e a alma: espírito e matéria não se
opunham e não era permitido aos medievais falar sobre tal separação
(BERGER, 2006).
Na Idade Média, a ritualização do corpo era constante e a Igreja
exerceu
papel
fundamental
na
formação
de
opinião
e
comportamento, direcionando as idéias que a pessoa poderia ou
deveria ter acerca de si. Isso despertou cuidado na maneira como se
manipulava o corpo e nas ações cotidianas como andar, rir, sentar,
cumprimentar outra pessoa ou até mesmo rezar, pois os gestos
poderiam ter relação com a lealdade ou a fé e poderiam ser
condenados por lembrarem o “diabo”. A mesma expressão corporal
poderia ser exaltada ou suspeita: para o homem da Idade Média era
preferível chorar a sorrir, pois o choro era visto como dádiva e o
sorriso era ligado ao mal, ...
O livro “Autoimagem Corporal – Um Estudo de Autopercepção
com Educadores de uma Escola de Tempo Integral” encontra-se à
venda no site Morebooks no link:
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Boa Leitura
Obrigada
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“ELE: O Meu Corpo” Meu corpo sou eu com os arredores... Minha