MEU CORPO NÃO É ESSE. ISSO É APENAS UM RASCUNHO… A REPRESENTAÇÃO DO CORPO NA AIDS. Igor Francês Carlos Mendes Rosa Este trabalho discute arranjos imaginários de sujeitos marcados pelo diagnóstico de aids, em especial as novas representações advindas da expectativa relacionada às mudanças corporais decorrentes da doença. Com a aids, uma nova dimensão simbólica adentrou o campo das práticas sexuais, vinculando a estas o signo da morte; potencializando, no imaginário social sobre a doença, a equação aids igual à morte. Ao prazer de fazer sexo, somou-se o risco fatal da contaminação. O sujeito é atingido em duas dimensões com as quais aprendemos a pensá-lo: no real do corpo, afetado por um vírus, e em seu imaginário, porque o eu é também corporal, uma vez que o sujeito se pensa indissociavelmente como um corpo. O diagnóstico possui, então, uma vertente imaginária na medida em que confere uma nova roupagem ao sujeito, coloca-o em uma parcela específica da sociedade e promove novos significantes para as fantasias relacionadas ao seu corpo e sua vida. Este trabalho é uma explanação inicial das reflexões e pesquisas desenvolvidas por integrantes do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social (LIPIS) da PUC-Rio. Aqui retomamos alguns estudos já concluídos acerca da condição dos pacientes portadores do vírus HIV (FRANCÊS, 2011; FRANCÊS et al., 2011b; MOREIRA et al., 2012), colocando tais achados em diálogo com outros estudos, como as diferentes formas de representação do sofrimento na atual sociedade. A abordagem teórico-exploratória parece-nos a melhor maneira de introduzir estas temáticas, com vistas a maiores aprofundamentos em trabalhos posteriores. Freud, em Mal-estar na Civilização (1930), escreveu que uma das três principais fontes do sofrimento humano estaria relacionada ao não controle sobre os destinos do corpo, com marcha constante em direção a seu próprio fim. Para ele, viver em sociedade exigiu do ser humano uma renúncia pulsional. Mas não podemos esquecer que ainda somos dotados da agressividade da qual “abrimos mão”, e que se apegar aos invólucros neurolépticos que a atenuam, tais como as ritalinas, não resolve o problema. Tal alternativa moderna provoca mal-estar, à medida que oferece um corpo mercadoria, tanto da indústria cultural quanto da indústria da saúde. 1 Mesmo que vivenciemos, hoje, um avanço tecno-científico que proporciona mais saúde ao corpo, apenas somos capazes de prolongar o nosso sofrimento, adiando, quando muito, o fechar de cortinas para o espetáculo da vida. “Visto como um software, o corpo tem seu estatuto modificado em nossa cultura – a visão do corpo como objeto de design, e não mais de desejo, o faz obsoleto, tal qual bens de consumo que são marcados pela obsolência típica da sociedade em que vivemos. Por esta razão, o corpo deve sofrer constantes alterações em busca de novas identidades; novas imagens lhe são emprestadas num devir eterno e constante” (NOVAES, 2010, p. 48). Aqui, a autora argumenta sobre a digitalização da imagem corporal; dos corpos virtuais, projetados com o auxílio dos programas de edição de imagens, que podem ser vistos, mas não tocados; dos corpos gelados “remendados” e dilacerados pelos bisturis da estética, das dietas e das academias. Viveríamos, hoje, uma artificialização dos corpos, pautada pelo padrão estético vigente: corpos sarados e definidos. Este trabalho, contudo, não tem por objetivo principal discorrer sobre as biotecnologias empregadas para modificar corpos, ou sobre intervenções artísticas corporais, ou sobre um estatuto do corpo. Ainda assim, isso tudo serve de pano de fundo para nossas discussões. Pretendemos falar não sobre um corpo moldado para as apresentações, aquele forjado para ser mostrado, mas, ao contrário, sobre corpos que se tentam esconder, posto que eles se apresentam como aquilo que não pode ser visto. Que corpos são esses? São os corpos marcados pelo preconceito e pelo estigma; marcados por uma relação direta com a morte, por carregarem consigo o vírus mortal da aids. Na verdade, não são corpos, são rascunhos de uma identidade comprometida; de sujeitos que precisam de rearranjos para sobreviver. Podemos usar como ilustração o caso de um paciente que sempre carregava consigo uma foto feita antes da instalação da doença. Ele a grudava na parede da enfermaria, e sempre fazia questão de dizer: “Eu era assim. Não sou mais, mas esse não é o meu corpo, é apenas um rascunho…”. Dessa forma, este trabalho discute arranjos imaginários de sujeitos marcados pelo diagnóstico de aids, em especial as novas representações advindas da expectativa relacionada às mudanças corporais decorrentes da doença. O que muda no corpo? Como essas mudanças são encaradas pelo paciente e pelos demais que precisam conviver com ele? Com a aids, uma nova dimensão simbólica adentrou o campo das práticas sexuais, 2 vinculando a estas o signo da morte; potencializando, no imaginário social sobre a doença, a equação aids igual à morte. O diagnóstico marca uma ruptura na vida do sujeito, que carrega em seu corpo os signos de uma “doença maldita”. Como prognóstico temos a morte anunciada, que atinge em cheio a onipotência narcísica do sujeito. A experiência mostra-nos que conceitos de doença não descrevem meramente características naturais ou avaliam estados. Dentro de determinados contextos eles são coletivamente performativos. Isso significa dizer que o diagnóstico pode redefinir a realidade médica e social do indivíduo. Além disso, reorganiza o imaginário do indivíduo, e sua identidade e a forma de conceber o mal pelo qual este padece (VILHENA & ROSA, 2012). Freud (1914) privilegiou a ideia do corpo para a formação da subjetividade, ao apresentar o narcisismo como uma etapa intermediária entre o autoerotismo e o amor objetal. No que diz respeito, na obra freudiana, ao deslocamento da libido do eu para os objetos, temos o narcisismo secundário, ou ideal de eu, que Freud insistiu em ser de ordem externa. Tal projeção da libido na esfera do ideal dará sustentáculo para o surgimento de uma instância, responsável de certa forma por gerenciar o investimento objetal, a fim de atingir nessa dimensão o que foi perdido na dimensão narcísica. Daí surge o recalque e o agente crítico que mais tarde será conhecido por supereu. Além disso, aprendemos com Freud (1923) que o eu é corporal, e não simplesmente uma entidade de superfície, mas uma projeção da própria superfície: “É desse eu corporal que não se pode fugir quando se trata de fazer psicanálise com pacientes acometidos da síndrome da imunodeficiência adquirida. O trauma de um diagnóstico positivo atinge um eu que é corporal, ou seja, é no corpo que as primeiras sensações e sentimentos são vividos intensamente, somando-se às fantasias imaginárias que imediatamente acossam o sujeito a propósito de algo que invade seu corpo, vindo de fora, do exterior, para invadi-lo e destruí-lo” (MOREIRA, LEVY, FRANCÊS, 2012). Corpo marcado pelos estigmas sociais e também pelas incertezas da própria ciência em relação ao caminho mais adequado para se lidar com essa grande malignidade que acomete os sujeitos. Em uma vertente relacionada ao imaginário popular temos as fotografias de pessoas famosas que vão definhando na sua luta contra a imunodeficiência, prelúdio do que ocorrerá fatalmente com o sujeito atingido pelo diagnóstico. Por outro lado, as incertezas do saber médico, que ora colocam o corpo da 3 aids como frágil e incapaz de lutar por sua sobrevivência, mas em outro momento recomendam e incentivam o portador à pratica de exercícios físicos e ao contato com outros grupos relacionais. Além da clara predileção do saber anatomo-técnico pelas dores e afecções e pelo funcionamento biológico dos imunossupressores e células de defesa, excluindo da cena o corpo pulsional, com o qual o sujeito precisa construir novas relações tanto em nível erógeno quanto no âmbito do seu corpo somático. São novas dimensões relacionadas à angustia de castração, provocada pelas restrições físicas impostas pelo tratamento, pelo sofrimento e hospitalização, além das intervenções, injeções e curativos que agora se tornam frequentes. Mas existe uma outra dimensão desse impacto provocado pelo diagnóstico, uma vez que atinge um eu imaginário, no qual reside a fantasia ilusória de imortalidade, afetada duramente pela certeza científica da finitude do corpo, da morte. Mesmo que os medicamentos e terapêuticas desenvolvidos nas últimas décadas, tentem dar conta do avanço da epidemia de aids no mundo, e prometam adiar nossa mortalidade, a eficácia dos chamados ‘coquetéis’ é probabilística e não oferece resultados positivos em todos os casos. A associação aids e morte, tanto divulgada pela mídia e pelas propagandas da primeira década da epidemia, nunca deixou de se reinscrever no imaginário que cerca essa doença, o que ainda não deixou de ser também uma certeza científica, pois que a cura ainda não foi alcançada. Além do fato da experiência da morte representar a castração por excelência, uma vez que é irreversível e incapaz de ser compensada através de substitutos (GONÇALVES, 2001). Freud (1923) teorizou sobre a dificuldade que o eu tem de lidar com essa experiência desconhecida. Esse não representável com o qual o sujeito se depara foi tratado pelo mestre da psicanálise em seu “Além do princípio de prazer” com a inserção da pulsão de morte, o dispositivo sem representação por excelência, tendência ao inorgânico e a finalização da existência (Freud, 1920). Outro aspecto da teorização de Freud (1917) acerca da morte em Luto e melancolia informa-nos que o sujeito tende a redirecionar seus investimentos afetivos no caso da perda de um objeto amado. E também que este redirecionamento se apresenta como um processo onde o sujeito nunca abandona completamente uma posição de investimento libidinal, sem que outro objeto lhe acene como provável alvo de seu investimento. Será que podemos pensar em processo de luto pelo próprio corpo, que se inicia com o diagnóstico positivo e nunca chega a se completar, pois se trata de 4 um luto antecipado pelo corpo perdido ao se deparar com o diagnóstico de aids? As fantasias estereotipadas que relacionam aids e morte carregam a fantasia do paciente, que terá de elaborar tais imagens. O que não impedirá que ele efetivamente morra. O sujeito é, também, atingido em seu corpo erógeno, já que a aids vem imediatamente associada à sexualidade. A aids como doença sexualmente transmissível produziu no imaginário novos sentidos que abalam o eu e as instâncias ideais, destronando o eu-ideal de sua fantasia de perfeição narcísica e, abalando os ideais de eu que compõem modelos de realização pessoal e profissional. Ou seja, é o próprio mundo interno de fantasia que pode receber um diagnóstico positivo como uma catástrofe do eu (MOREIRA, LEVY, FRANCÊS, 2012). Entendemos, assim, o diagnóstico de aids como resultado de uma equação que apresenta, como termos, o exame de HIV e o imaginário social construído sobre a doença. Essa relação parece determinar a vida pós-diagnóstico. Parece que a morte é a única incógnita que torna a sentença verdadeira. Mesmo com o avanço das ciências biomédicas, com a introdução de novas terapias e drogas que aumentam a qualidade e a expectativa de vida de pacientes de HIV/aids, ainda temos muitos casos onde o óbito vem logo após a descoberta da doença. É interessante notar que, para alguns pacientes, o uso de medicamentos equivale à confirmação da doença, e consequentemente confirmar a doença remete a cenas anteriores, ligadas também ao imaginário sobre a epidemia. A figura de Cazuza é uma das mais lembradas. A aids tem como característica a modificação do corpo da pessoa doente: perda de peso e massa corporais (como acontece na lipodistrofia), presença de tumores que podem causar deformidades, diarreias, e tantas outras doenças oportunistas que se alojam, deteriorando ainda mais o corpo. Mesmo com os esquemas de tratamento, os pacientes não estão livres de reações adversas e efeitos colaterais. Muito para além das questões estéticas, as marcas evidenciadas no corpo atingem o sistema narcísico do sujeito, confrontando-o com sua finitude e seu desamparo constitutivo. É preciso, então, escutar esse corpo que sofre, transformá-lo em identidade, subjetivando-o, pois mesmo que a cultura e o modelo biomédico tratem de colocá-lo no lugar de um bem de consumo, é preciso lembrar que nele pode haver um bem sendo consumido, não só pelos estigmas sociais, como por práticas profissionais. 5 Referências FRANCÊS, I. HIV, da possibilidade à aceitação: paciente e terapeuta frente ao diagnóstico. 2011. Dissertação (Mestrado em Psicologia). Universidade Federal do Pará, 2011. FRANCÊS, I.; MOREIRA, A. C. G.; VILHENA, J. Pode haver máscara para uma figura sem rosto? O imaginário social da aids. In: LEMOS, F. C. S. [et al]. (Org.) Transversalizando no ensino, na pesquisa e na extensão. Curitiba: CRV Editora, 2012. FREUD, S. (1914). Sobre o Narcisismo: uma introdução. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol.XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996. FREUD, S. (1917[1915]). Luto e melancolia. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol.XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996. FREUD, S. (1920) Além do princípio de prazer. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol.XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996. FREUD, S. (1923) O ego e o Id. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol.XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996. FREUD, S. (1930[1929]) O mal-estar na civilização. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol.XXI. Rio de Janeiro, Imago. GONÇALVES, M. O. Morte e castração: um estudo psicanalítico sobre a doença terminal infantil. Revista Ciência e Profissão, Brasília, v.21, n.1, 2001. MOREIRA, A. C. G., LEVY, E. S.; FRANCÊS, I. (2012). Se seu corpo ficasse marcado: as delicadezas do eu corporal. In VILHENA, J.; NOVAES, J. V. (Orgs.). Corpo pra que te quero: usos, abusos e desusos. Rio de Janeiro: Ed. Apris/PUC-Rio, 2012. NOVAES, J. V. Com que corpo eu vou?: sociabilidade e usos do corpo nas mulheres das camadas altas e populares. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio: Pallas, 2010. VILHENA, J. & ROSA, C. Diagnóstico em saúde mental: por uma concepção não objetivista das representações da loucura. Revista Contextos Clínicos, v. 5, n. 1, p. 26-36, 2012. 6