Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 ESTUDO SOBRE O FENÔMENO BULLYING EM ESCOLAS DE ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO DA REGIÃO NOROESTE DO RS STUDY ABOUT THE PHENOMENON OF BULLYING IN ELEMENTARY AND HIGH SCHOOLS FROM THE NORTHWEST REGION OF RIO GRANDE DO SUL Samara NIKODEM 1 Lizete Dieguez PIBER 2 RESUMO O presente artigo é fruto dos resultados obtidos por intermédio do projeto intitulado "Estudo Sobre Incidência de Bullying em Escolas do Ensino Fundamental e Médio da Região Noroeste do RS”. Participaram da amostra, respondendo ao questionário modelo Kidscape, escolas de dois municípios, Santo Ângelo e Santo Cristo. Em Santo Ângelo, participaram da amostra 1640 alunos. Nas escolas, foi solicitada a participação dos professores, totalizando 92 professores. No município de Santo Cristo, participou da pesquisa apenas uma escola estadual. Nesta, houve a participação de 92 alunos e de 6 professores.A partir da análise dos dados pode-se afirmar a existência de bullying em ambas as cidades investigadas. A forma de ocorrência mais comumente utilizada são as agressões verbais, sendo os agressores mais frequentemente do sexo masculino. Outra constatação interessante no sentido de alertarmos sobre as intervenções realizadas neste problema foram às respostas obtidas pelos sujeitos no que diz respeito as possíveis soluções, tais como, pais darem mais educação aos filhos, ajuda de psicólogos especializados, denunciar os agressores, bater nos agressores, prendê-los em cadeias, ignorar, expulsar o aluno, dentre outros, denotando que a escola não está conseguindo lidar com o problema, ignorando-o muitas vezes, permitindo que o bullying acometa o aluno sem este poder defender-se. Quanto aos professores, confirma-se a ocorrência do fenômeno na trajetória escolar da maioria destes. Portanto, evidencia-se que as práticas de bullying são recorrentes nas escolas públicas e privadas, podendo ocorrer em cidades de pequeno e médio porte, produzindo diferentes níveis de sofrimento psíquico aos sujeitos envolvidos. Palavras Chave: bullying, violência, escola ABSTRACT This article is based on the results obtained through the project entitled "Study on incidence of Bullying in elementary and high schools in the Northwest region of the state of Rio Grande do Sul”. Participated in the study, responding to the questionnaire model Kidscape, schools from two cities, Santo Ângelo and Santo Cristo. In Santo Ângelo, participated in the survey 1640 individuals. In schools, we requested the participation of teachers, totalizing 92 teachers. In the city of Santo 1 Estudante do curso de psicologia da URI- campus Santo Ângelo, bolsista do Programa de Iniciação Científica PIIC, da universidade. 2 Bolsista do PIIC/URI, Acadêmica do Curso de Química Industrial, URI-FW. Vivências. Vol.7, N.12: p.105-121, Maio/2011 105 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 Cristo, participated in the survey only one state school. In this there was the participation of 92 students and 6 teachers. From the data analysis we can affirm the existence of bullying in both cities investigated. The most commonly used form is the verbal aggression, and the aggressors were more often male. Another interesting finding in the sense of warnings about the interventions in this problem were the responses obtained by the subjects regarding the possible solutions, such as parents should give their children more education, specialized help from psychologists, to denounce the aggressors, to beat the aggressors, arrest them in jail, to ignore them, to expel the student from the school, among others, showing that the school is failing to deal with the problem, ignoring it many times, allowing that bullying affects students that have no power to defend itself. About the teachers, this study confirms the occurrence of the phenomenon in the school trajectory for most of these. Therefore, it is evident that the practice of bullying are applicants in public and private schools, affecting and producing different levels of psychological suffering in the subjects involved. Key words: Bullying, violence, school INTRODUÇÃO Práticas de violência são recorrentes no âmbito da instituição escola e muito tem preocupado educadores e gestores dos sistemas de ensino. Apesar do bullyng ser um fenômeno antigo e que ocorre em escala mundial, poucos estudos tem se debruçado de forma séria e consequente sobre tal temática. Levantamento realizado pela ABRAPIA (Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência) em 2002, envolvendo 5875 estudantes de 5a a 8a séries, de onze escolas localizadas no município do Rio de Janeiro, revelou que: 40,5% desses alunos admitiram ter estado diretamente envolvidos em atos de Bullying, naquele ano, sendo 16,9% alvos, 10,9% alvos/autores e 12,7% autores de Bullying. Estes números permitem pensar nas vivências de sofrimentos a que um número significativo de alunos estão submetidos cotidianamente. É comum encontrar entre os adultos uma quantidade considerável de pessoas que traz consigo as marcas dos traumas que adquiriram nos bancos escolares. São sequelas que se evidenciam pelos prejuízos em aspectos essenciais à realização na vida, como dificuldades de lidar com perdas, comprometimentos nas relações afetivas, familiares e sociais, ou no desempenho profissional. Essas pessoas foram submetidas às diversas formas de maus-tratos psicológicos, verbais, físicos, morais, sexuais e materiais, através de zoações, apelidos pejorativos, difamações, ameaças, perseguições, exclusões. Brincadeiras próprias da idade? Não. Esses atos agressivos, intencionais e repetitivos, que ocorrem sem motivação evidente, em relações desiguais de poder, caracterizam o bullying escolar. Estudos realizados em diversos países já sinalizam para a possibilidade de que autores de bullying na época da escola venham a se envolver, mais tarde, em atos de delinqüência ou criminosos. A escola por muitas vezes não consegue identificar o problema que ocorre em seu ambiente, devido a isto, pretende-se a partir desta pesquisa identificar a incidência de bullying em cidades de médio e pequeno porte da região noroeste do Rio Grande do Sul e caracterizar as práticas mais usuais do fenômeno, para, a partir daí, buscar em parceria com as escolas e municípios pesquisados priorizar a conscientização geral dos alunos e estimulá-los ao engajamento em projetos antibullying. Vivências. Vol.7, N.12: p.105-121, Maio/2011 106 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 REVISÃO DA LITERATURA E FUNDAMENTOS TEÓRICOS A prática de bullying pode ser conceituada segundo Guareschi e Silva (2008, p. 17) “como forma de agressões intencionais e repetitivas adotadas sem motivação evidente e direcionadas aos outros”. Esta prática é muito ampla, isto é, ocorre não apenas no ambiente escolar, sendo além de agressiva, também negativa. Ela pode ser executada repetidamente, havendo sua ocorrência, principalmente, quando há um desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas. Pode-se dizer, dessa forma, que esse comportamento pode tanto ocorrer em escolas, universidades, no trabalho ou até mesmo entre vizinhos. Segundo Dantas (web, 2009), a palavra “Bully” origina-se do inglês, e possui o significado de valentão, se concentrando a prática do bullying na combinação entre a intimidação e a humilhação das pessoas, estas geralmente mais acomodadas, passivas, podendo ser reconhecida como uma forma de abuso psicológico, físico e social. Guareschi e Silva (2008), afirmam não haver, por vezes, um motivo evidente para a prática do bullying . O desequilíbrio de poder ocorre porque a vítima não consegue se defender das agressões por diversas razões: ser menor em estatura, possuir menos força física, estar em minoria, apresentar poucas habilidades para se defender, possuir características físicas ou psicológicas que possam levar à discriminação, ou também possuir pouca flexibilidade de ação em relação ao agressor. Insultos, intimidações, gozações, apelidos cruéis e acusações injustas, além de danos físicos, morais e materiais, são alguns exemplos das manifestações características do bullying. (p. 48). De outro modo, pode-se dizer que quando se toma o bullying como algo concreto e real, ele vai muito além da brincadeira sem graça, isto é, assume características específicas e definidas, podendo dessa forma ser diferenciado de outras formas de violência. Pode se definir violência, como sendo o uso de atitudes agressivas de uma pessoa e/ou grupo em relação à outra pessoa e/ou grupo, gerando conseqüentemente, conflitos sociais, e um ambiente sem diálogo e troca de idéias. A violência possui várias representações, além de haver sua incidência em diversos contextos. É nesse ponto que pode-se relacioná-la ao bullying, pois “nega a possibilidade da relação social que se instala pela comunicação, pelo uso da palavra, pelo diálogo e pelo conflito”(SPOSITO, 1998, apud GUARESCHI e SILVA, 2008, p. 49). A presença do fenômeno bullying na realidade escolar é incontestável e não possui, aparentemente, fatores determinantes, ou seja, independe da localização da escola, tamanho, turno escolar, séries iniciais ou finais, ou mesmo escola pública ou privada. Ele é responsável pela criação de um ambiente no qual predomina é um clima tenso, de medo e de perplexidade por parte das vítimas e também dos espectadores que, indiretamente, se envolvem nesta prática social sem saber o que fazer (FANTE, 2005 apud GUARESCHI e SILVA, 2008, p.50). Pode-se identificar a ocorrência de bullying para com a criança ou adolescente, a partir de determinados sinais, tais como, queda no rendimento escolar, baixa auto-estima, ansiedade, além de poder sofrer de algum tipo de trauma que influencie nos traços de personalidade. “Se observa também, uma mudança de comportamento. As vítimas ficam isoladas, se tornam agressivas e reclamam de alguma dor física justamente na hora de ir para escola”. (PEDRA apud BARROS, web, 2009). Vivências. Vol.7, N.12: p.105-121, Maio/2011 107 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 Mas, não são apenas prejudicadas as vítimas do fenômeno, mas também as testemunhas, por terem de conviver diariamente com o problema. Por vezes ainda, são obrigados por meio de ameaças, a omitir os fatos, não denunciar, e se acostumar com a prática, para não ser a próxima a sofrê-la. O conflito presente nestes indivíduos está relacionado às duvidas existentes durante a ocorrência do fenômeno, pois, se eles apóiam o bullying, são cúmplices; se apóiam a vítima, podem se tornar alvo; se permanecem em silêncio, podem sentir-se culpados. Este conflito pode promover sentimentos de tristeza, raiva, culpa e vergonha. (FRIED e FRIED, 1996 apud GUARESCHI e SILVA, 2008 p.66). Devido ao bullying, muitos alunos abandonam a escola na tentativa de livrar-se das pressões sofridas, o que não resolve o problema, pois os efeitos do bullying já estão presentes em sua vida. Já outros a abandonam aos poucos, faltando às aulas por medo de serem as próximas vítimas. O bullying pode ter conseqüências arrasadoras, como a incidência de depressão, ansiedade, estresse, dores não-especificadas, perda de auto-estima, problemas de relacionamento, abuso de drogas e álcool, além do risco de suicídio em casos mais graves. As marcas do sofrimento psíquico e físico podem perdurar por toda a vida, e atingem também o agressor, pois aqueles que praticam bullying contra seu colega poderão levar para a vida adulta o mesmo comportamento anti-social, adotando atitudes agressivas no ambiente de trabalho (Workplace Bullying). OBJETIVOS Objetivo Geral Investigar a ocorrência de bullying em escolas de cidades da região noroeste do estado. Objetivos Específicos Identificar a incidência de bullyng; Caracterizar os sujeitos envolvidos com o bullying; Identificar as ações utilizadas na prática de bullying; Analisar as estratégias de enfrentamento adotadas pela instituição; Compreender a cultura instituída na instituição em relação à violência; Identificar as conseqüências de bullying no contexto escolar; Comparar a realidade vivenciada pelas escolas em cidades de pequeno e médio porte. METODOLOGIA O método utilizado na primeira parte da pesquisa foi o quantitativo, o qual compreende neutralidade e objetividade do pesquisador, defende o dualismo epistemológico separando o sujeito do objeto do conhecimento. Esse método é usado quando o problema de pesquisa quer saber as causas, o porquê; e também para apurar opiniões e atitudes conscientes dos participantes. O delineamento utilizado foi o levantamento sendo realizado através da aplicação de um questionário estruturado pela instituição inglesa Kidscape e já validado no Brasil, com 100 por cento (%) das escolas de ensino fundamental e médio de uma cidade de porte médio e uma cidade de pequeno porte da região noroeste. A seleção da amostra foi estratificada, sendo o erro amostral de 10 por cento (%). Os dados levantados por intermédio dos questionários foram analisados Vivências. Vol.7, N.12: p.105-121, Maio/2011 108 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 estatisticamente por meio do programa Excel e colocados em gráficos. Os dados que serão apresentados a seguir foram constatados a partir da análise de questionários respondidos por alunos de 5ª à 8ª série e das três séries do Ensino Médio do município de Santo Ângelo e Santo Cristo. No município de Santo Ângelo, foram respondidos 571 questionários por alunos da rede municipal de ensino, 945 questionários respondidos por alunos de escolas estaduais e 124 questionários respondidos por alunos estudantes de escolas particulares, totalizando em 1640 sujeitos pesquisados nesta cidade. Nas escolas, foi solicitada a participação dos professores, sendo que das escolas municipais participaram 29 professores, das escolas estaduais 55 e das particulares 8, totalizando em 92 professores participantes. No município de Santo Cristo, participou da pesquisa apenas uma escola estadual. Nesta, houve a participação de 92 alunos e de 6 professores. Os resultados serão apresentados em forma de gráficos, de modo a ficar mais claro seu entendimento. Os alunos em algumas perguntas marcaram mais de uma alternativa, ou ainda, não quiseram responder a pergunta por sentirem-se constrangidos. Devido a isto, poderá haver alguns dados discrepantes nos gráficos apresentados. Os dados serão agrupados, e apresentados por municípios. Os dados a seguir referem-se à cidade de Santo Ângelo. O gráfico demonstra que da totalidade de sujeitos entrevistados, 676 sofreram ou sofrem de bullying nas escolas da cidade de Santo Ângelo. A idade na qual o fenômeno ocorre mais frequentemente é de 11 a 14 anos, Este período repleto de mudanças corporais e ressignificação da imagem corporal, poderá gerar no préadolescente/adolescente consequências sérias como depressão e, por vezes, até suicídio. Vivências. Vol.7, N.12: p.105-121, Maio/2011 109 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 O gráfico denota que a maioria das crianças, há um ano ou mais não sofrem diretamente com o fenômeno. Já, a segunda alternativa mais marcada foi nos últimos 30 dias, retratando o que passam vários alunos nestas escolas. Marcaram a alternativa “uma vez” 330 alunos, mostrando como muitas vezes por não ser repetitivo, o fenômeno passa despercebido pela escola. As agressões, ocorrem em variados lugares, mas evidencia-se a prevalência destas na sala de aula. Vivências. Vol.7, N.12: p.105-121, Maio/2011 110 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 A maioria dos alunos participantes da pesquisa se sentiu mal com as agressões, mostrando que o fenômeno influencia na vida dos estudantes. Para muitos, o bullying não gerou nenhuma conseqüência, porém para outros, causou algumas consequências ruins, danos terríveis ou ainda fez o aluno mudar de escola. Como percebido no gráfico, grande parte dos alunos não gosta dos agressores, ou ainda tem pena destes. Isso evidencia que os agressores como cita Guareschi (2008) são pessoas que manifestam pouca empatia, donos de comportamentos explosivos e agressivos. Muitos alunos responderam que a culpa é de quem pratica agressão e dos pais deles. Muitas vezes estes sujeitos vem de famílias desestruturadas, não havendo por parte destas, preocupação Vivências. Vol.7, N.12: p.105-121, Maio/2011 111 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 quanto aos comportamentos problemáticos do filho. Há uma incidência maior de meninas respondentes, embora não se tenha utilizado o critério gênero como parâmetro de análise. Verifica-se que as agressões são mais frequentes entre meninos, porém a incidência entre meninas não deve ser desconsiderada, pelo fato deste existir entre estas também. Segundo Moz e Zawadski (2008) em geral o bullying exercido por meninas difere-se do de meninos, pois tendem a ser mais sutis, espalhando boatos maldosos, intimidando ou rindo em grupo. As agressões verbais são a forma mais comum de bullying, e podem compreender gozações, apelidos cruéis dentre outros. Com relação à questão 13, na qual perguntou-se aos alunos o que poderia ser feito para Vivências. Vol.7, N.12: p.105-121, Maio/2011 112 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 resolver este problema, surgiram as mais variadas respostas como conversar com os praticantes, puni-los, pais educarem seus filhos, tomar providências, levá-lo ao psicólogo, dentre outras. Portanto, faz-se necessário que a escola dê atenção à prática de bullying, para então realizar propostas de combate a este. A grande maioria respondeu que nunca praticou bullying, porém, os 369 alunos demonstram que são autores desta violência. A partir dos questionários aplicados na escola estadual da cidade de Santo Cristo, obtiveramse os seguintes dados: Verifica-se que vários alunos convivem com o bullying diariamente no âmbito escolar. A incidência do fenômeno é maior entre 11 e 14 anos. Vivências. Vol.7, N.12: p.105-121, Maio/2011 113 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 As agressões ocorreram há um ano ou mais segundo 31 alunos. Um grande número de alunos que sofreu de bullying sofreu-o diversas vezes, evidenciando o caráter repetitivo do fenômeno. A partir dos dados verifica-se que as agressões ocorrem em variados lugares, mas, sendo mais intensas no pátio da escola. Vivências. Vol.7, N.12: p.105-121, Maio/2011 114 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 O bullying para alguns alunos não lhes incomodou, mas, para outros fez o aluno se sentir mal. Para a maioria dos alunos a intimidação, agressão ou assédio não geraram consequências. Por meio do gráfico, verifica-se que uma pequena porção dos alunos gosta da prática de bullying. Vivências. Vol.7, N.12: p.105-121, Maio/2011 115 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 Segundo grande parte dos alunos, a culpa das agressões é de quem agride e dos pais deste. O índice de bullying é prevalente entre meninos, porém também ocorre entre as meninas. As agressões verbais ocorrem mais frequentemente do que as demais formas de bullying existentes. Na questão 13 surgiram variadas sugestões para a resolução do problema, como fazer palestras, ajuda psicológica, punir os agressores, aumentar a segurança, dentre outros. Vivências. Vol.7, N.12: p.105-121, Maio/2011 116 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 A maioria dos participantes não pratica bullying, porém, evidencia-se que 24 alunos praticam ou praticaram bullying Quanto aos professores das escolas de Santo Ângelo, obtiveram-se também dados significativos com relação ao bullying em sua trajetória escolar. Do total de participantes, 92, 54 sofrem ou sofreram de bullying, ocorrendo as agressões entre 11 e 14 anos e acima de 14 anos de idade. As agressões em sua maioria ocorreram há um ano ou mais, acontecendo na época diversas vezes, ocorrendo frequentemente na ida à escola, na sala de aula e no pátio da escola. Isso gera/gerou na maioria dos professores um mal estar e algumas consequências. Com relação à opinião sobre os agressores, a maioria dos professores respondeu que tem pena deles e/ou não gosta deles. Quanto à culpa das agressões continuarem acontecendo, responderam que esta é de quem agride, dos outros que assistem e não fazem nada e dos pais dos agressores. Quanto ao sexo dos participantes da pesquisa, em sua grande maioria são do gênero feminino, sendo que os agressores são tanto do gênero feminino quanto masculino. As formas de agressão mais comumente sofridas pelos participantes foram a agressão verbal e emocional. Quanto às sugestões para acabar com o bullying, sugeriram um trabalho conjunto entre escola, pais, colegas e agressor, ignorar, expulsar os alunos realizar campanhas, trabalhar os valores, ética, dentre outros. Quanto aos professores da escola estadual de Santo Cristo, evidenciou-se que dos 6 professores que responderam os questionários, 3 sofrem e/ou sofreram de bullying na trajetória escolar. A idade em que mais aconteceu foi de 11 a 14 anos, ocorrendo diversas vezes no pátio da escola, segundo a maioria dos participantes da pesquisa. O bullying fez com que as vítimas em sua maioria se sentissem mal, e gerou algumas consequências. Quanto ao sentimento com relação aos agressores, disseram ter pena deles, e atribuíram a culpa pela agressão ao agressor e seus pais. Todos os professores participantes são do sexo feminino, porém, os agressores são de ambos os sexos. As agressões sofridas foram verbais e emocionais. Com relação às formas de resolução do problema, sugeriram conscientizar os alunos, esclarecer, dialogar, melhorar a educação em casa, dentre outras alternativas. Vivências. Vol.7, N.12: p.105-121, Maio/2011 117 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Os resultados alcançados proporcionaram confirmar os dados obtidos por outras pesquisas sobre o tema, realizadas em outros estados brasileiros e em outros países. Na pesquisa realizada em uma determinada instituição escolar da rede pública, situada no município de Curitiba (Both; Stival; Raduenz, 2009), foi constatado que o recreio é o momento da rotina escolar no qual os comportamentos agressivos se manifestam com mais freqüência, além do próprio ambiente da sala de aula. Ambos dados foram constatados em nossa pesquisa, de modo a verificar a semelhança do fenômeno, o qual independe da localização da escola. Outra pesquisa relevante, por meio da qual se pode confirmar os dados obtidos é a intitulada “Bullying escolar no Brasil”. Nesta (Fischer, 2010), os dados quantitativos revelam que 28% da amostra total de alunos afirmam ter sido vítimas de maus tratos por parte de colegas ao menos uma vez ao ano. Quase 10% da amostra relatam ter sofrido maus tratos três ou mais vezes no mesmo ano, o que, evidencia semelhanças com as escolas da região noroeste do RS. Em ambas as pesquisas, os maus tratos no ambiente escolar são praticados principalmente por meninos ou ainda, por um número menor, mas não menos importante de meninas. Outro dado a se pensar, e de grande importância para se pensar na sociedade escolar como um todo, é a constatação nas duas pesquisas de que as vítimas de bullying concentram-se no intervalo de adolescentes de 11 a 15 anos. Segundo Nogueira (2005), pesquisas realizadas com jovens de diversas cidades do Brasil (Brasília, Fortaleza, Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo), permitiram verificar que, aproximadamente, 60% dos jovens na faixa de 14 a 19 anos de idade foram vítimas de algum tipo de violência nas unidades escolares nos últimos anos. Nogueira (2005), cita ainda que no Brasil têm aumentado os estudos acerca do bullying no ambiente escolar. Em Santa Maria (Rio Grande do Sul) foi realizado um trabalho pela professora Marta Canfield e seus colaboradores (1997) em quatro escolas públicas. No Rio de Janeiro, as pesquisas dos Profs. Israel Figueira e Carlos Neto (2000-2001) em duas escolas municipais. Em São José do Rio Preto e região (São Paulo, 2000-2002), pesquisas realizadas junto à quase 1.500 alunos do ensino fundamental e médio em escolas públicas e privadas pela professora Cleodelice Aparecida Zonato Fante e seus colaboradores. Baseado nos dados do nosso país e do mundo pode-se afirmar que o fenômeno está presente em todas as escolas, o que é preocupante. Permite ainda constatar que caso não ocorra uma intervenção efetiva em relação ao fenômeno, o ambiente escolar acaba por se tornar contaminado, prejudicando negativamente, sem exceção, as crianças que neste convivem, passando estas a experimentarem sentimentos de ansiedade e medo. CONCLUSÃO Verifica-se, por meio dos dados obtidos, que há incidência de bullying em ambas as cidades (Santo Ângelo e Santo Cristo). Tal dado aponta o que Moz e Zawadski dizem sobre a ocorrência de bullying. A maioria das pessoas nega a extensão e a gravidade do problema e preferiria acreditar que o pior bullying e a pior violência escolar ocorrem em comunidades na extremidade inferior do espectro econômico. O problema, contudo, acontece em comunidades situadas em ambas as extremidades e em todos os seus pontos (2008, p. 78). Vivências. Vol.7, N.12: p.105-121, Maio/2011 118 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 O fato da cidade de Santo Cristo ser de pequeno porte, não impede que atos violentos, denominados bullying, ocorram. Com relação à idade em que o fenômeno ocorreu, em ambas as cidades, há uma prevalência na idade de 11 a 14 anos, sendo que a maioria dos alunos respondeu ter sofrido bullying uma vez ou diversas vezes. O fenômeno ocorre com intensidade em ambas às cidades na sala de aula e no pátio da escola, gerando nos alunos um sentir-se mal devido a isto. A grande maioria diz que ser vítima de bullying não lhes gerou consequências, ou ainda gerou algumas consequências ruins. Com relação à forma de agressão, é mais comumente utilizada a verbal, ou seja, apelidos maldosos, palavras ofensivas, boatos, fofocas. Atitudes como colocar apelido em alguém, ofender, humilhar, insultar, ameaçar ou acusar pessoas de que não servem para nada caracterizam uma forma verbal de bullying, na qual os autores agridem a vítima através de palavras e, principalmente apelidos maldosos ( GUARESCHI, 2008, p. 51). O sentimento em relação aos agressores em ambas as cidades é o mesmo, não gostando deles (agressores), ou ainda sentindo pena dos mesmos. E, quando questionados com relação à culpa se a agressão intimidação ou assédio continuam acontecendo, grande parte dos alunos culpou o agressor e os pais deste. O número de alunos pesquisados foram em ambas as cidades praticamente proporcional aos dois sexos, mas verificou-se que os agressores são em sua maioria do gênero masculino, porém não se deve desconsiderar os casos de meninas, por estes também serem preocupantes, por ocorrerem de forma sutis. Segundo Silva (2010), o bullying entre meninos e meninas varia quanto à forma, pois, enquanto os meninos tendem a utilizar a força física para firmarem seu poder sobre os demais, as meninas fazem bullying na base dos mexericos e intrigas. Outra constatação interessante no sentido de alertarmos sobre as intervenções realizadas neste problema foram às respostas dadas pelos sujeitos no que diz respeito ao seu solucionamento, que foram as mais diversas, tais como, pais darem mais educação aos filhos, ajuda de psicólogos especializados, denunciar os agressores, não fazer nada, bater nos agressores, prendê-los em cadeias, não dar importância, ignorar, expulsar o aluno, matar os agressores, dentre outros, denotando que a escola não esta conseguindo lidar com o problema, ignorando-o muitas vezes, sendo que o bullyng está acometendo os alunos, que não tem encontrado formas de se defenderem. Com relação aos professores, em ambas as cidades, metade destes sofreu de bullying em sua trajetória escolar. As agressões ocorrem/ocorreram diversas vezes, sendo que gera/gerou um malestar. O sentimento dos professores com relação aos agressores é de pena e /ou não gostar deles. Atualmente muitos professores são humilhados, ameaçados, perseguidos e até ridicularizados por seus alunos, o que poderá gerar nos professores adoecimento com sintomas psicossomáticos (dor de cabeça, diarréia, vômitos, sudorese, taquicardia) diante da possibilidade de deparar-se com seu agressor. Os dados obtidos nos dois municípios participantes da pesquisa proporcionaram o alcance dos objetivos da pesquisa, pois evidenciaram que o bullying ocorre em todas as escolas, independente da tradição, localização ou poder aquisitivo dos alunos. As agressões ocorrem frequentemente na sala de aula, sendo que os professores ao se depararem com tal situação, que ainda é nova, não sabem como reagir. Muitos agem de acordo com suas próprias experiências e acreditam ser o bullying necessário para o amadurecimento do Vivências. Vol.7, N.12: p.105-121, Maio/2011 119 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 indivíduo (FANTE e PEDRA, 2008). Algumas pessoas ainda têm a impressão de que bullying é um comportamento normal e aceitável, que as crianças aprenderão quando crescerem. Elas dizem coisas como depois passa, é coisa de criança, ele é só esquentado, é só não dar bola que passa. Não passa (MOZ E ZAWADSKI, 2008, p. 79). Com relação aos sujeitos envolvidos na prática de bullying, estes são em sua maioria do sexo masculino, sendo a agressão verbal, a forma mais comumente utilizada pelos agressores para atingirem suas vítimas. Quanto às estratégias de enfrentamento ao problema, observa-se que há as mais variadas sugestões, além de perceber nas escolas uma maior preocupação com relação ao bullying, de modo a promoverem palestras e debates em sala de aula. Verifica-se a importância de conscientizar a comunidade escolar sobre o problema, pois como cita Silva (2010), crianças e adolescentes autores de bullying tendem a adotar comportamentos anti-sociais nos primeiros anos da vida escolar. A maioria deles se comportam assim por uma nítida falta de limites em seus processos de educação. Enfim, não há dúvida de que o fenômeno Bullying estimula a delinquência e induz a outras formas explícitas de violência, capazes de produzir, em níveis diversos, cidadãos estressados, com baixa auto-estima e reduzida capacidade de expressão (Silva, 2010). Considera-se urgente estabelecer políticas públicas de combate a todas as práticas violentas nas instituições escolares. BIBLIOGRAFIA BARROS, A. Bullying: é preciso levar a sério ao primeiro sinal. Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/online/reportagem/repsemanal_275348.shtm, acesso realizado em: 05 de janeiro de 2009. BOTH, L. J. R. G.; STIVAL, M. C. E. E.; RADUENZ, E. 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Vol.7, N.12: p.105-121, Maio/2011 120 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 SILVA, A. B. B. Bullying: mentes perigosas nas ESCOLAS. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010. . Vivências. Vol.7, N.12: p.105-121, Maio/2011 121