JOÃO PAULO GUERRA
Gosto de ouvir as pessoas e de as dar a ouvir
Adelino Gomes
Palavras-chave – RCP, jornalismo radiofónico, censura, despedimentos, O
Diário, poder económico
Como os da imprensa não-diária, antes do 25 de Abril os repórteres da Rádio
não eram admitidos no Sindicato dos Jornalistas. Estavam, do mesmo modo,
sujeitos à censura. João Paulo Guerra viveu no RCP as duas experiências.
Conheceu também, antes e depois do 25 de Abril, o que é ser despedido por
razões políticas. Agora na imprensa escrita, mas com um pé ainda na Rádio,
acha que a qualidade e a mediocridade são transversais às gerações. «Alguns
profissionais são piores. Há outros que são melhores. E há alguns menos
jovens que também são muito maus»…
Tudo começou em 1961, na Emissora Católica Rádio Renascença (RR).
Filho de jornalista (a mãe, Maria Carlota Álvares da Guerra, era cronista na
Rádio, para além do cargo de chefia que exercia na Agência Portuguesa de
Revistas), João Paulo Guerra entra na RR, desafiado pelo jornalista Dinis de
Abreu. Começa como colaborador de Nova Vaga, um programa semanal
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«com preocupações culturais». Encontra-se aí com Lauro António, Daniel
Ricardo, João Mota e Maria do Céu Guerra (sua irmã) e com Moreno Pinto
um sonoplasta muito prestigiado no meio.
Passado pouco tempo, a convite de Joaquim Pedro, entra na estação como
locutor estagiário. Função que nesse tempo implica, entre outras tarefas de
rotina, ler noticiários — «mas que não são feitos por quem os lê. Eram
recortados dos jornais, colados e entregues ao locutor».
O convite para trabalhar no Serviço de Noticiários do Rádio Clube
Português (RCP) leva-o a mudar de estação. A experiência profissional vai
prolongar-se até às vésperas do 25 de Abril. Na madrugada deste dia, os
militares revoltosos escolhem precisamente esta estação para divulgarem —
na voz do noticiarista de serviço naquela madrugada, Joaquim Furtado — a
contra-senha do movimento militar que derruba o regime ditatorial e nela
estabelecerem o seu «posto de comando» informativo.
A criação de um serviço de noticiários radiofónicos representa algo de
marcante no panorama radiofónico português do início da década de 1960. O
RCP colocará no «ar», progressivamente, a partir de então, mais de uma
dezena e meia de boletins noticiosos por dia, cometendo a sua elaboração e
leitura a um mesmo radialista, a que chama redactor-locutor.
O contraste não pode ser maior com o que acontece nas outras três grandes
estações do continente português. A RR só uma década depois terá serviço
semelhante; os EAL emitem um pequeno serviço noticioso (apenas com
temas nacionais) elaborado e gravado por um departamento oficial — o
mesmo para todas as estações que o subscrevem; os noticiários da EN,
estação dependente da Presidência do Conselho de Ministros, são
governamentais, pomposos, longos, em pequeno número, escritos por
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redactores (assistentes literários) e apresentados pelos locutores de
continuidade da estação.
Quando entraste, já o Serviço de oticiários do RCP tinha começado?
Sim, cerca de um ano e meio antes. Juntei-me a uma pequena equipa
constituída por Luís Felipe Costa, Justino Moura Guedes, Paulo Fernando,
Cândido Mota e João Macieira de Barros. Eu entrei porque este último ia
para a tropa.
Estiveste lá até quando?
Até ser despedido, em 1973. Com um intervalo para o serviço militar, entre
1965 e 1967.
Chegaste a ir para fora?
Sim, estive em Moçambique. Fui colocado em Nampula e depois estive dois
meses com uma companhia local em Olivença, assim chamada por estar na
fronteira com a Tanzânia…Agora chama-se Lipiriche.
Iremos, mais à frente, à história do teu despedimento e ao que fizeste até
ao 25 de Abril. Os noticiários do RCP foram um marco histórico no
nascimento do jornalismo radiofónico em Portugal. a altura, vocês
tinham essa noção?
Tínhamos, porque havia termos de comparação: as tais notícias recortadas
dos jornais, da Rádio Renascença, e os noticiários burocráticos da EN, que
nós no Rádio Clube batíamos sempre na corrida de velocidade das notícias.
No RCP redigíamos e líamos as notícias. E tínhamos a fonte das notícias
(pelo menos as dos telexes) junto de nós, não eram notícias publicadas na
véspera nos jornais. Depois, eram muitos noticiários, quase de hora a hora
[dois a três minutos, normalmente; cinco a oito, os dois noticiários com
actualidade nacional] — não se comparava nada com a Emissora, quanto
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mais com a Renascença. E havia uma estrutura profissional, com um chefe
de redacção, que era o Luís Felipe Costa.
Vocês consideravam-se jornalistas?
Nós considerávamos, mas mais ninguém nos considerava … O Sindicato dos
Jornalistas (SJ) não nos considerava jornalistas nem a nós, nem aos dos
jornais desportivos, nem aos das revistas. Se queríamos sindicalizarmo-nos,
íamos para o Sindicato das Telecomunicações, onde estavam os da RTP e os
guarda-fios dos Correios e os da Marconi…
A forma como os noticiários estavam organizados dava pouco relevo ao
noticiário nacional. Porquê?
Era uma fuga à Censura e à obrigatoriedade de dar comunicados e notícias
com carácter oficial. A estrutura noticiosa era completamente diferente da
EN, que era capaz de estar meia hora a despejar discursos do Governo, com
notícias hierarquizadas segundo o protocolo de Estado (primeiro, o
Presidente da República, e etc. e tal). Nós dávamos as notícias segundo a
respectiva importância. Era de facto já um trabalho de edição.
Os outros jornalistas olhavam-vos como jornalistas?
Acho que sim. Encontrávamo-nos em serviços, cá fora, ninguém fazia a
distinção. Lembro-me, por exemplo, da equipa que esteve na Cruz
Vermelha, a cobrir a doença de Salazar. Passámos lá noites seguidas, de
piquete, a ver se o homem morria ou não morria: o Carlos Pinto Coelho pelo
Diário de otícias, o Roby Amorim por O Século, o Baptista-Bastos pelo
Diário Popular e mais uma série de malta. Além disso, eu fui mantendo uma
colaboração regular nos jornais, na República, na Capital, no Musicalíssimo,
na Memória do Elefante e particularmente na “Mosca”, do DL, dirigida pelo
José Cardoso Pires.
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Eras redactor-locutor, mas ao mesmo tempo, por exemplo, trabalhavas
em programas, até noutras estações?
Sim. Trabalhei ao mesmo tempo no PBX, no RCP; e, noutro período, no
Tempo Zip, na Renascença.
E muitos de vocês, a começar pelo Felipe Costa, faziam publicidade. Isso
não era visto como incompatível?
Não, não. Não havia nenhum código, nenhuma norma.
em consciência que o interditasse?
Essa consciência da incompatibilidade não se punha nesse tempo à malta da
Rádio para ler publicidade, como não se punha à malta dos jornais para
escrever publicidade. Só que aí, não apareciam...
E havia ainda aqueles que trabalhavam ao mesmo tempo em agências
de publicidade...
Também.
Mas chegou depois o momento em que o RCP vos pôs a iniciar cada
noticiário com aquele anúncio: «Beba cerveja Sagres/ A sede que se
deseja»…
Ainda se conseguiu, durante algum tempo, que fosse uma voz diferente, fora
dos noticiários…
Tenho ideia de eu próprio ter lido isso, a seguir ao 25 de Abril.
Talvez. Sei que houve uma altura em que discutimos o assunto com o Luís
Felipe Costa e conseguimos, durante um tempo, evitá-lo. Acho que depois
foi o próprio cliente, ou a agência, que exigiu a mesma voz [que lia o
noticiário].
É uma velha ambição da publicidade. Bem expressa naquele episódio
recente em que a Maria João Avilez aparece a escrever o próprio texto
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publicitário. Voltando ao teu percurso: começaste como redactor
eventual?
Fui contactado pelo Luís Felipe Costa, através do Matos Maia, que tinha
trabalhado na Renascença, fiz uma prova com o Jaime da Silva Pinto e
entrei, mas não me lembro do estatuto. Sei que fiquei inscrito na Segurança
Social, com descontos como trabalhador do RCP, a partir de Outubro de
1963. E o Felipe Costa lembrou-me, mais tarde, que eu lhe perguntei se para
trabalhar no RCP era preciso assinar aquela declaração a repudiar ideias
subversivas e essa treta toda. Não era.
Como é que funcionava a censura aos noticiários?
A principal fonte das notícias eram os telegramas das agências, numerados.
De tempos a tempos chegava um telegrama da máquina de telex ligada
directamente ao SNI [Secretariado Nacional de Informação] com o número
do telex a que se reportava a censura. Por exemplo: «do serviço da France
Press, telegramas 90 a 95, o número tal está cortado todo, no número não sei
quê, está cortado o parágrafo tal», etc. Uma vez, numa notícia, a censura
cortou a palavra «não», ou seja, «escreveu» a notícia ao contrário.
Teoricamente, tínhamos que esperar pela decisão. Mas lembro-me, por
exemplo, que na noite do golpe no Chile em [11 de Setembro de] 1973 não
esperei por nada. [Emitimos] Em directo, da redacção, nem sequer íamos à
cabina. A Rádio era um bocado difícil de controlar. Nós no RCP, além da
emissão em Onda Média já tínhamos também uma emissão separada em
FM. Aquilo era tudo gravado do «ar», para controlo posterior, mas mesmo
assim era difícil de controlar tudo, havia mais as outras estações todas. Aliás,
quando foi do assalto ao Santa Maria, em 61, a notícia não foi cortada pela
censura porque o Felipe Costa a deu, sem esperar pela autorização. E depois
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os jornais exigiram publicar a notícia, uma vez que já tinha sido dada na
rádio.
o RCP havia um serviço interno de fiscalização. Como era a
articulação com a censura?
A fiscalização interna funcionava para os programas gravados. Quando
entrei no RCP havia os Serviços de Produção que iam do 1 ao 5: SP1 eram
os noticiários, SP5 a Fiscalização. Nesses tempos, em geral limitavam-se a
cronometrar os programas, para eles não «pisarem» o que começava a
seguir, ou mediam a publicidade, que tinha limites percentuais, mas
destinava-se também a apanhar alguma «inconveniência».
Segundo regras próprias ou da Censura?
Regras internas. A partir de 1965 ou 66 passou a haver um director, o Sr.
Moita de Deus, que funcionava como um coronel da censura. Era igualmente
bronco. E havia também um Delegado do Governo, para casos de maior
melindre. Foi chamado em três circunstâncias relacionadas comigo.
Chamava-se Dr. António Martinha. Em 1968, foi chamado para resolver um
problema com uma reportagem que eu fiz para o programa PBX [realizado
por Carlos Cruz e José Fialho Gouveia, meia-noite às duas da manhã], a
propósito do lançamento do livro O Delfim, do José Cardoso Pires. A
censura interna não sabia o que é que havia de cortar mas achava que tinha
que cortar qualquer coisa. Às tantas chamaram-me porque iam cortar uma
passagem do livro, lida pelo Jacinto Ramos. Eu disse-lhes que tinham que
falar com o autor, porque se tratava de uma frase de um texto literário e de
um livro publicado. A frase fazia parte da descrição da frontaria em pedra da
casa do Delfim, na qual o autor dizia que estava uma «lagartixa imobilizada
pelo tempo». O Cardoso Pires foi lá, discutiram durante horas, fartou-se de
gozar. O Dr. Martinha, para não o aturar mais, libertou a frase.
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E os outros dois casos?
Um foi nas inundações de 1967. Tinha havido uma explosão numas
instalações militares para os lados de Carnaxide. Fui lá, conversei com
pessoas, voltei ao Rádio, montei a reportagem que foi para o ar sem censura,
sob a pressão dos acontecimentos. À posteriori, os censores internos tiveram
dúvidas e chamaram o Dr. Martinha. No meio da reportagem havia uma
mulher que começava a gritar e eles embirraram com o grito e queriam
responsabilizar-me, instaurar-me um processo ou qualquer coisa do género.
Diziam que aquilo alarmava as pessoas. Lisboa estava cercada de lama,
havia centenas de mortos. Nós a meio da noite, nos noticiários, tínhamos
recebido um telex da censura a dizer: «A partir deste momento não morreu
mais ninguém»… Pelas nossas contas, baseadas nas informações dos
bombeiros, aquilo já ia nuns 300 ou 400 mortos. Bom, a meio da discussão,
entrou o Felipe Costa com os jornais do dia, em que vinha uma grande
fotografia de uma mulher com a boca aberta. «O que temos aí na gravação
da reportagem é o som disto», disse-lhes e eles então lá se calaram. O
terceiro caso foi numa reportagem da chamada Tomada da Bastilha, pelos
estudantes de Coimbra.
E na Renascença?
Isso sabes tão bem como eu.
Mas és tu quem está a ser entrevistado.
Então tenho que te entrevistar sobre isso... Na Renascença estabeleceram
essa função de censura por causa de dois programas: o Página 1, onde tu
trabalhavas, e o Tempo Zip, onde eu trabalhava. Antes, não existia. Não se
punha essa questão. As pessoas eram bem comportadas e de confiança por
natureza. Em 70, 71 e 72, pelo menos nesses dois programas, as gravações e
textos eram vistos/ouvidos previamente por funcionários superiores da
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estação. Em casos de grande dúvida, mandavam para o Dr. Feitor Pinto,
director dos serviços de informação da Secretaria de Estado da Informação e
Turismo.
O diálogo processava-se como no RCP?
Não, porque não havia serviços formais, com director e hierarquia, como no
RCP. Ali [na RR] eram uns gajos com alguns dos quais a malta até se dava
bem: «É pá, deixa lá passar essa porcaria!» E houve também em certa fase,
devo dizê-lo, alguma cumplicidade da hierarquia da Igreja Católica,
proprietária da Renascença, em relação à abordagem de questões sociais.
Passávamos reportagens duríssimas, por exemplo sobre bairros de barracas.
E, no final, recebíamos um telefonema do secretário do Cardeal D. António
Ribeiro: «Apreciámos muito esse trabalho…» Havia alguma cumplicidade.
Que acabou mal.
Que acabou mal. [Longa pausa]
Conta, porque eu não vou contar.
Nós dois fazíamos trabalhos em simultâneo, às vezes saíamos de Lisboa
juntos, fazíamos a mesma reportagem, mas depois dávamos-lhe cada um o
seu tratamento. Uma delas foi a história do coveiro de Salazar. Dessa vez
pensei que ia ser preso: «Deixo isto para ser ouvido pela Censura e amanhã,
quando chegar cá, sou preso».
Informação ao leitor: a entrevista, em volta da forma como Salazar
estava enterrado no cemitério da sua aldeia natal de Vimieiro, Santa
Comba Dão, e acerca das pessoas que ali se deslocavam em romagem,
estava carregada de ironia.
Estava editada com um cinismo completo. Passou tudo. As únicas coisas que
não passaram fui eu que as cortei pensando que, se as deixasse, o programa
era todo cortado. Poucas semanas mais tarde, em 6 de Setembro de 1972, dá-
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se o assalto de um comando palestiniano à aldeia Olímpica de Munique, com
o rapto dos atletas de Israel. Nós, no Zip, tínhamos um enviado lá.
Porque nessa altura, alguns programas de rádio, de produção externa,
funcionavam com os seus próprios enviados especiais, mesmo a
acontecimentos, digamos, jornalísticos.
Fazíamos reportagens, comentários, entrevistas. Parodiando O Gato
Fedorento, era uma espécie de magazine... Nós, por exemplo, tivemos o José
Duarte enviado especial à crise com a Apolo XIII (era o único que tinha
possibilidade de viajar imediatamente, trabalhava numa companhia aérea).
No dia dos Jogos Olímpicos, estava eu a pensar o que iríamos fazer sobre o
assalto, no programa [Tempo Zip, emitido na RR entre a meia-noite e as
duas da manhã], quando ouvi no Página 1 [19h30 às 21h00] um comentário
teu com o qual estava 100 por cento de acordo. A leitura que eu fiz do que
disseste foi esta: estão-se a passar coisas horríveis em Munique, mas já agora
convém não esquecer o que se passa, igualmente horrível, todos os dias, com
os palestinianos em territórios ocupados (uma expressão que hoje deixou de
se usar). Telefonei-te e pedi-te autorização para passar esse comentário no
Tempo Zip. Passei a gravação a abrir o programa e pronto, foi o último Zip.
O programa, bem como o Página 1, foi suspenso. Ainda houve negociações
com os produtores. No meu caso, foi posta como condição para o programa
continuar, que eu saísse. Os produtores eram o Marques de Almeida (da
Sasseti, é hoje professor em Letras, Lisboa), o Carlos Gil (não é o fotógrafo,
já falecido) e o Raul Solnado. Não aceitaram a condição [imposta pela
Renascença a mando do Governo], e o programa acabou.
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(Um ano depois, em Novembro de 1973, João Paulo Guerra é despedido do RCP. É o
segundo de cinco despedimentos— a maior parte com contornos políticos — que conhece
em duas décadas.
A direcção da emissora manda instaurar contra ele um processo disciplinar por quebra do
«dever de lealdade», em declarações proferidas durante um colóquio sobre Rádio, em
Odivelas. As declarações ocorreram num contexto particular: durante uma acção de
campanha eleitoral, organizada pela CDE, e que tinha em vista as eleições legislativas
desse ano.
Numa intervenção fortemente crítica da situação dos meios de informação prevalecente
no país, o redactor-locutor referira-se aos responsáveis das estações como «comerciantes
da Rádio», mais interessados no lucro do que no cumprimento da missão de informar. O
RCP toma conhecimento das declarações através do jornal República e instaura um
processo disciplinar que culmina, em poucos dias, com o despedimento.
Logo no dia seguinte ao despedimento, João Paulo Guerra é convidado para integrar o
projecto de um semanário que pretende fazer concorrência, «pela esquerda», ao Expresso,
de Francisco Pinto Balsemão, saído em Janeiro daquele ano. («Foi curioso», conta,
«porque eu tinha recusado um convite do Francisco Balsemão para entrar para o
Expresso, porque isso implicava deixar o RCP. E, no fim do ano, não tinha entrado para o
Expresso e tinha sido despedido do RCP»)
O projecto do novo semanário – Actividades Económicas – nunca passará disso mesmo.
Mas a sua curta história é bem representativa das movimentações contraditórias que
sacudiam Portugal nas vésperas do 25 de Abril. Suportado pelos irmãos Silva, patrões da
Torralta – que entregaram ao jornalista e escritor Mário Ventura Henriques o lugar de
administrador-delegado e este o de director ao economista Herberto Goulart -, nele
trabalham, além do jornalista recém-despedido do RCP, nomes como os de José
Saramago, Avelino Rodrigues, Mário Cardoso e Cesário Borga. A RTP chega a passar
uma campanha de publicidade, elaborada pela agência Espiral, de José Carlos Ary dos
Santos.)
A imagem gráfica da campanha criada pelo Ary mostrava uma tesoura, com
dois pregos dobrados, que não a deixavam cortar.
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Tinha que haver o 25 de Abril…
Tinha que haver. Saí do RCP num dia e entrei lá no dia seguinte. Os
números «zero» foram feitos em Fevereiro e chegou a haver um cocktail no
Hotel Ritz para apresentação do jornal. Tudo em grande. Depois fizemos o
número 1, que mandámos para a Censura. E a Censura cortou tudo. Até o
Boletim Meteorológico. Aquilo também era um bocado provocatório: uma
das coisas que eu fazia no primeiro número era a reportagem de uma greve
na Robbialac. Adiou-se uma semana, alterámos algumas coisas e mandámos
de novo para a Censura. Tudo cortado outra vez.
E aí…
Aí os irmãos Torralta disseram: «Vamos parar e negociar».
egociar o quê e com quem?
Não sei, mas suponho que negociaram qualquer coisa com o Governo e com
uns particulares. Surgiu um problema com o título do jornal. Pertencia a uma
família que, pressionada pelo Governo, voltou atrás e decidiu que não queria
vender o título. Trava-se, curiosamente, de familiares do Marechal Carmona,
primeiro Presidente do Estado Novo. Na altura, era quase impossível criar
um novo jornal e então comprava-se um título que já existisse. Os irmãos
Silva ofereceram mais dinheiro, eles não aceitaram. Pagaram grandes
indemnizações, nos termos do Contrato Colectivo dos jornalistas para os
despedimentos sem justa causa, e mandaram a malta embora, em Março [de
1974]. Não me lembro quanto é que ganhava, mas lembro-me que a
indemnização foi de 112 contos, o que na altura era imenso dinheiro. Saímos
lá dos escritórios da Torralta, na Duque de Loulé, cada um com o seu cheque
no bolso, virámos a esquina, desatámos aos gritos, abraçámo-nos todos e
fomos almoçar. No fim, não havia dinheiro para pagar o almoço. Não havia
liquidez, só papel…
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Dias depois chega o 25 de Abril.
E cinco dias depois sou convidado para organizar a reportagem do 1º de
Maio, pelo Álvaro Belo Marques, que os militares tinham levado do
República para a Emissora Nacional. Disse imediatamente que sim.
Montámos tudo de um dia para o outro. Os militares puseram a questão de
que era bom dar alguma novidade na antena da EN, apresentar gente nova.
Alguém se lembrou que havia malta da Rádio e dos jornais na tropa. Vieram
requisitados com guia de marcha. Entre eles o Jaime Gama, que era
aspirante miliciano na Figueira da Foz, e o José Nuno Martins, que era
cadete em Mafra. O Zé Nuno apresentou-se num jipe, fardaducho. Fiquei
depois lá, integrado num grupo em que [além destes dois milicianos, de
Manuel Tomás, de Carlos Albino, de José Jorge Letria, entre outros] estava
também o Manuel Alegre. Havia uma direcção militar, do MFA, que não
percebia nada daquilo, e que convidou uma série de pessoas para uma
espécie de assessoria.
Ficaste até quando?
Até ao 25 de Novembro. Fui despedido outra vez. Por um papel afixado na
porta a dizer que estava despedido.
Despedido antes e despedido depois do 25 de Abril…
Tive uma fase da minha vida em que tentei voltar à rádio e tinha as portas
todas fechadas: a rádio tinha sido nacionalizada, o que queria dizer que o
patrão era o mesmo que me tinha despedido em 1975. Além disso, sentia
uma grande frustração e uma enorme injustiça. Eu tinha o direito de exercer
a minha profissão. E aquela era a minha profissão. Eu não era um «jornalista
produzido» pelo cartão de um partido. Vivi então um período complicado de
todos os pontos de vista. Até da simples subsistência…
ão se ia era para a prisão…
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Houve pessoas que foram para a prisão no 25 de Novembro. Tinha um
amigo que trabalhava na RTP em cujo processo estava escrito qualquer coisa
como isto: «No 25 de Novembro não estava nas instalações da RTP, mas se
estivesse teria usado armas como os outros contra os seus companheiros». O
processo do 25 de Novembro foi inenarrável. Nunca poderia chegar a
julgamento. Só poderia ser arquivado, como foi. Eu tinha no meu processo
— mostraram-me – acusações dadas como provadas deste género: «Teria
dito, referindo-se aparentemente ao presidente da Direcção “onde é que se
meteu esse palhaço?”» “Teria dito?” “Aparentemente referindo-se”? … Isto
era uma acusação provada…
Qual foi o passo seguinte?
O Diário. As reuniões começaram imediatamente, com aquela malta toda
que era em larguíssima maioria do Partido Comunista e que tinha sido
suspensa ou despedida…
… menos o [José] Saramago, que ainda há dias se me queixava [numa
entrevista ao Público, a propósito do seu livro As Pequenas Memórias]
de não ter sido convidado…
Participei nas primeiras reuniões, mas depois pediram-me para eu ficar ainda
algum tempo lá no Partido Comunista a organizar uns dossiês sobre questões
de imprensa. Fiquei cerca de um ano e só então é que fui para o jornal.
Ficaste até ao fim, no Diário?
Sim, até Junho de 1990. Depois entrei no Público, onde fiquei uns meses, até
ir para a TSF, com uma passagem em simultâneo pelo semanário O Jornal.
Após seis anos na TSF, com uma ameaça de despedimento não concretizada
em 1994, passei depois pela Central-FM [efémero projecto megalómano —
«Um caso de gangsterismo», acusa] e Diário Económico [onde se mantém,
como redactor-principal]. Abandonei O Diário em despedimento colectivo.
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Primeiro foste despedido pelos vencedores do 25 de ovembro; depois,
pelos vencidos…
… Exactamente. No 25 de Novembro fui despedido pelo PS; quando o
processo do 25 de Novembro foi arquivado pedi a integração na RDP, o que
foi recusado por um governo do PPD e do CDS; e por fim fui despedido pelo
PCP. Um caso do maior pluralismo…
(A experiência em O Diário constitui um bom pretexto para iniciar a abordagem da
questão das incompatibilidades. Embora não sendo o órgão central de um partido e
situando-se na categoria de diário generalista, este jornal veiculava quotidianamente as
posições do PCP, não sendo admissível que outras posições, por exemplo partidárias, ali
encontrassem espaço de defesa. João Paulo Guerra começa por responder que não vê
qualquer incompatibilidade: «O Diário era feito pelos jornalistas de O Diário, que eram
militantes ou simpatizantes do PCP. O Diário tinha muito bons jornalistas, alguns dos
quais estão ainda hoje nos principais e mais diversos meios de comunicação e até em
lugares de destaque. A direcção e as chefias não iam à direcção do PCP para porem o
visto. Enquanto trabalhei lá, nunca ninguém me disse o que é que eu podia escrever nem
nunca ninguém me disse o que é que eu não devia escrever ali. Mas acho que isso se
tornava relativamente fácil pelo facto de que ali eu podia escrever aquilo que de facto
tinha vontade de dizer. Até determinada altura». Essa altura surge, já na fase final do
jornal. )
Uma vez o [secretário-geral do PCP] Álvaro Cunhal disse-me assim: «A
intenção do PCP não era esta. Era criar um jornal mais aberto. Quem fez de
O Diário um jornal estritamente do PCP foi o [primeiro director] Miguel
Urbano [Rodrigues]». A partir de determinada altura houve uma mudança na
direcção e nas chefias. Durante um tempo ainda foi possível fazer a
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mudança, porque na organização interna do PCP o elemento em cujo
pelouro estava o jornal era Ângelo Veloso, um dirigente histórico com um ar
de bruto mas com algumas qualidades fantásticas: inteligente e culto;
gostava de discutir as coisas; e detestava hipocrisias e intrigas. O [director]
António Borga conseguiu, com algum apoio dele, mudar as chefias do
jornal. Entraram, além de mim, o Joaquim Benite, o Baptista-Bastos e o João
Alferes Gonçalves. O Ângelo Veloso morre entretanto, com um cancro
galopante, e nós somos encostados à parede. Aguentamos aquilo durante uns
seis meses, até 12 de Junho, última edição do jornal, num braço de ferro com
a direcção do PCP.
Questões ideológicas?
Nós queríamos fazer um jornal e eles queriam fazer um boletim. Dou um
exemplo de um caso de que eu fiz a primeira página. Era uma fábrica de
pastelaria, em greve contra o encerramento da empresa. No tempo do Miguel
Urbano, O Diário daria o comunicado do Sindicato e ele fazia um editorial.
Nós deixámos de publicar os comunicados sistemática e integralmente. Se o
assunto era interessante — e nós achámos que aquele era — dávamos a
notícia, até citando a posição sindical, e íamos fazer uma reportagem.
Naquele caso até pusemos em primeira página uma foto e um grande título:
«Amargura na fábrica dos doces». Mas os Sindicatos começaram a queixarse ao PCP: «Não publicaram os nossos comunicados!». Do PCP vinham
recados do género: “Não publicaram o comunicado! Não fizeram uma
notícia do funeral do camarada tal, do comité central!»…
Isso demonstra esse obstáculo, que é fazer jornalismo dentro de um
partido.
Nós tivemos ali um momento fugaz em que foi possível. Mas provou-se que
de facto é difícil.
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o que respeita ao desporto: é possível ser de um clube e escrever sobre
ele?
Há malta que mostra que sim, praticando a isenção. Não vejo
incompatibilidade. Acho que não deve haver uma norma que proíba ou
procure controlar coisas desse tipo, sob o risco de cairmos numa paranóia
persecutória de tipo «mcartista».
(Não tem dúvidas em dizer que votou Manuel Alegre nas últimas presidenciais. Acha que
se justifica ainda a distinção entre esquerda e direita, embora vislumbre nesse campo
alguma alteração de fronteiras, agora. Ele próprio mudou, no plano partidário: após a
crise em O Diário, abandonou o PCP, a que estivera ligado desde antes do 25 de Abril. O
processo, doloroso, levou-o também a deixar de ser sócio do Sindicato dos Jornalistas,
que considera ter-se «portado muito mal» no caso de O Diário.
Hoje diz-se «cidadão particular, sem compromissos», sem qualquer preconceito no plano
ideológico e sem identificação no plano partidário: «Não me consigo hoje situar no
campo de nenhuma força política, porque acho que todas elas estão minadas por alguma
perversidade».
Aponta o seu próprio exemplo. «Aderi ao PCP porque identificava ali a possibilidade de
realizar as aspirações de generosidade que tinha em relação aos outros. Saí porque achei
que aquilo era tudo um embuste. Que aquilo era uma máquina de poder como qualquer
outra e que se aproveitava dessa generosidade das pessoas para fins próprios do poder».
Mas continua a votar, ainda que admita que nem sempre vota válido. «Vou lá sempre [à
urna de voto]. Custou muito a ganhar aquilo», nisso não seguindo o caminho de José
Rodrigues dos Santos que não participa em actos eleitorais na tentativa de preservar a sua
isenção. «Não considero necessário exibir a minha isenção dessa maneira», diz.
Concorda que o jornalista faça declarações de interesses, de modo a clarificar a sua
posição patrimonial perante os leitores. Não acha, porém, que deva chegar ao ponto de
revelar em quem pensa ir votar: «Por mim, tenho feito cobertura de campanhas eleitorais
— sou sempre o primeiro a oferecer-me, porque são uma oportunidade para fazer
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reportagem que é do que mais gosto — e desafio quem quer que seja a ler qualquer
reportagem em qualquer das campanhas eleitorais que fiz e dizer que não está um
trabalho isento».
Não revela qualquer complexo em ter passado de um jornal como O Diário, propriedade
do PCP, para um jornal como o Diário Económico, órgão do mundo empresarial, com
trânsito pelo Público, propriedade de um grupo empresarial, pelo semanário O Jornal e
pela TSF. Entrou no Diário Económico a convite de Sérgio Figueiredo, foi editor de
política, grande-repórter e viria a fazer parte de um projecto do ex-director do jornal que
passava por uma rádio e uma televisão de economia. «Faço, no Diário Económico,
notícias, reportagens, entrevistas, textos de investigação biográfica ou histórica e uma
coluna de opinião em que digo rigorosamente o que penso. Contra ou a favor, num
exercício crítico de absoluta liberdade. Nunca ninguém dentro do jornal me fez algum
reparo e a coluna já se publica há sete anos sem interrupção. A independência que eu
procuro ter, faz com que haja gente muito diferente que está de acordo comigo, como
outra que está em desacordo».
Mais de quatro décadas de jornalismo fornecem um lastro de experiências que lhe
permitem o balanço sobre o deve e haver da profissão, bem como acerca das grandes
alterações no seu exercício.)
.
Pondo de parte a acção da censura, que desenho fazes destes anos de
exercício do jornalismo?
É muito difícil. Todos nós, que já discutíamos sobre o assunto, sentimos
outros condicionamentos, particularmente o do poder económico, para além
da censura. Lembro-me de um capítulo dedicado à concentração dos meios,
num livro publicado em 1971 pelo Dr. Francisco Pinto Balsemão intitulado
Informar ou Depender?, que antecipava questões tecnológicas muito
interessantes. Nas reflexões sobre os perigos da concentração tinha uma
frase extraordinária que eu faço minha desde os tempos do RCP até à
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actualidade: “Se – para usar um exemplo inocente – uma revista pertence a
um grupo açucareiro, nela não se escreverá que o açúcar engorda.”…
A propósito de tecnologia: vocês iam em reportagem, em finais dos anos
60, com um gravador de cassetes tipo tijolo?
Atenção: a primeira vez que saí da redacção para fazer um exterior (era
assim que chamávamos à notícia feita cá fora, com recolha de informação),
fui com uma máquina de fita de arrasto. A marca da máquina — espero que
ela esteja recolhida no Museu da Rádio – era Butoba. Não era alimentada
por energia eléctrica. Era de corda. Dava-se a corda como no caso das
bombas dos fogareiros de petróleo.
Vocês já não levavam técnico convosco?
Já não. Isso era na Emissora: motorista, técnico, escriturário, e tal. Mais
tarde, já no início dos anos 70, passámos a usar radiotelefone. Havia dois ou
três carros equipados para os directos.
Esse directo por radiotelefone era um grande avanço em relação ao que
se passava até aí?
Para se fazer um directo, antes, tinha que se pedir aos Correios, com certa
antecedência, para montarem uma linha. Era muito seleccionado — futebol,
automobilismo e pouco mais. O RCP inaugurou também o uso de um avião
como relais [repetidor] nas coberturas da Volta a Portugal em Bicicleta.
Escreviam à mão ou à máquina?
Não havia nenhuma norma, uma vez que éramos nós que íamos ler. Eu
escrevia à máquina, mas por exemplo, o Luís Felipe Costa escrevia à mão,
numa letra muito certinha.
Quase meio século depois, usas computador, telemóvel, internet.
Jornalisticamente, o trabalho é semelhante?
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Acho fantástico: trabalhei a maior parte da minha vida sem nada destas
coisas e já não concebo como é que se pode trabalhar sem isso.
Prevês a morte do jornal?
Toda a gente anda sempre a profetizar a morte de qualquer outra coisa: a
televisão profetizou a morte da rádio; a rádio profetizou a morte dos jornais.
Acho que provavelmente vai dar-se um grande arranjo disto tudo – os
jornais vão ser mais especializados – mas acho que vai haver espaços para
todos os meios, desde que estes não se pisem uns aos outros.
A verdade é que os leitores estão a abandonar os jornais…
…talvez porque há falta de resposta a esta situação. Se o jornal é igual à
rádio e à televisão e vice-versa, há que dispensar um deles, e aí as pessoas
vão para o mais cómodo: o que lhes fornece tudo.
O que é que achas que melhorou e piorou no jornalismo?
Melhor: o jornalismo passou a ser um exercício de liberdade, é uma
melhoria extraordinária; depois, a formação – o pouco que eu aprendi na
Faculdade pouca aplicação teve; no estágio na Renascença não tinha
ninguém a ensinar-me, era uma aprendizagem de ouvido; no RCP,
aprendíamos uns com os outros, por acaso até conversávamos. Mas no Rádio
Clube tivemos o grande privilégio de trabalhar com o Luís Felipe Costa. Ele
tinha um estilo que era o estilo da Rádio. Provavelmente, hoje, há cadeiras
na universidade para ensinar aquilo; o Felipe Costa tinha-o intuitivamente. A
linguagem da Rádio era aquilo que ele fazia: breve, clara, sintética, directa…
…e bela…
…e bela. É fantástico! Mas realmente, agora, há formação e então não havia.
Já são duas grandes diferenças. Para pior: apesar disto tudo, talvez por via de
alguma formação geral não ser a melhor, são os disparates que se ouvem,
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vêem e lêem. Disparates do mais elementar, confrangedores. E há pouca
preocupação em aperfeiçoar o português, em cultivar uma boa escrita.
Há gente da nossa geração que diz que os jovens de hoje são piores.
Não penso isso. Alguns são piores; há outros que são melhores; e há alguns
menos jovens que também são muito maus. Isso é transversal.
Qual a comparação relativa que fazes entre a colocação social do
jornalista dos anos 60 e de hoje?
A mediatização de toda a sociedade é maior. E isso promove as vedetas dos
media. Mas isto funciona também no sentido contrário. Nunca me esqueço
de uma vez ter feito uma reportagem com o Celestino Amaral [Expresso, já
falecido], sobre o caso dos GAL (grupo terrorista anti-terrorista, ramo
português). Era o início do julgamento, em Viana do Castelo. Um aparato
extraordinário, com jornalistas de Portugal, Espanha e França. O juiz mandanos sair, porque precisava de perguntar aos réus se aceitavam a presença das
câmaras. Um pedaço de tempo depois vem cá fora anunciar a decisão. “Um
dos réus diz que não autoriza.” Olha para nós e acrescenta: “Mas a mim,
podem fotografar e filmar à vontade”… Muitas figuras passam a vida a
pregar contra a mediatização mas vêem uma câmara de televisão e não
resistem.
Os teus ouvintes e os teus leitores de então e de hoje, são diferentes?
Os de hoje são muito mais críticos. Na correspondência que recebo, há bons
argumentos dos que concordam e dos que discordam. Mas o Diário
Económico é um jornal muito especializado, claro.
O jornalista tem mais ou menos poder?
O jornalista tem cada vez menos poder. Há mais centros de poder. E o poder
está mais e muito bem organizado e relacionado, directamente ou através de
agências de comunicação. Mas eu acho que, por exemplo, o Júlio Botelho
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Moniz [presidente da direcção do RCP] tinha imenso poder. Lembro-me de
ele andar a negociar um emissor de Onda Curta com o Governo e de,
conforme as negociações correrem bem ou mal, assim ele mandar o Silva
Pinto [chefe dos Serviços de Produção e comentador do jornal das 8 da
noite] escrever um editorial a bater ou a dizer bem do Governo.
Sobre questões de trânsito, e coisas assim…
Sim, mas tinha poder. De qualquer modo, hoje também têm. Não sendo a
publicação de jornais um negócio particularmente rentável, por alguma
razão é tão apetecível.
O que é que te atrai no jornalismo, ainda hoje?
Gosto de ouvir as pessoas e de as dar a ouvir. Mesmo fora da nossa
actividade profissional, cada vez há mais surdos. As pessoas estão a falar e
ninguém liga, há outros ruídos por cima. Do que eu gosto mais é disso: ouvir
as pessoas e depois transmitir a outros o que aquele gajo ali tem para dizer.
Voltavas, hoje, a ser jornalista?
Sem dúvida. Apesar de saber que hoje ia ter provavelmente situações mais
complicadas do1 ponto de vista laboral.
(Cronista, autor de vários livros – Memória das Guerras Coloniais (1994),
Descolonização Portuguesa – O Regresso das Caravelas (2000), Savimbi Vida e Morte
(2002), Diz que é uma espécie de Democracia (2008) – confessa-se um leitor obsessivo.
«Estou sempre a ler. Um ou mais livros. Acabo de ler um livro que me fascinou: uma
biografia romanceada de Edgar Hoover [longos anos director do FBI], A Maldição de
Edgar.»
Acompanha programas de informação nas têvês, nacionais e estrangeiras, documentários,
algumas reportagens desportivas, mas nada de reality shows, de telenovelas.
Frequenta regularmente o cinema e o teatro. E faz viagens, a última foi em Novembro.
«Estive uma semana em Atenas, com a minha mulher. A penúltima, foi nas férias, com a
minha mulher e o meu miúdo mais novo, que tem 9 anos, fomos passá-las à Sicília.»
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Reedição em 2009, muito aumentada
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Não se lhe coloca a questão religiosa. «Não sou católico, mas não sou contra», diz,
recordando que a sua família era católica e ele próprio estudou nos Salesianos, no Estoril.
«Assistia à missa todos os dias. Todos os dias. Missa. Fiquei com missas para o resto da
vida.» Diz-se admirador de muita gente que na Igreja se preocupa com os outros, como,
por exemplo, o que observou em Timor. Nenhuma admiração, no entanto, «pelos beatos
que usam a Igreja contra a filosofia de Jesus Cristo».
A última pergunta deste encontro de mais de duas horas vai, de novo, para a Rádio. A
resposta é, por si, uma história de vida.)
O que representou para ti este regresso à Rádio [como colaborador,
para fazer uma revista de imprensa no Programa da Manhã da Antena
1]?
Uma grande satisfação. Porque eu sou da Rádio. Conservo tiques que
pertencem à Rádio. Por exemplo, ler as coisas que escrevo em voz alta. Para
ouvir como soam. Gostei de voltar à Rádio, quando o Emídio Rangel me
convidou para a TSF, e gostei agora, quando o Rui Pêgo me convidou para
colaborar na Antena 1. Tenho, com a Rádio, uma ligação emocional,
profissional e técnica. Mas a paixão nem sempre foi correspondida. Estive
muitos anos afastado: manifestava o meu interesse e disponibilidade em
trabalhar, fazia propostas, apresentava ideias, era tudo recusado. Por
condicionalismos a que sou alheio, hoje já tenho mais anos a trabalhar em
jornais do que a trabalhar na rádio. E, no entanto, sou da Rádio.
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Gosto de ouvir as pessoas e de as dar a ouvir