VI Encontro Nacional da Anppas
18 a 21 de setembro de 2012
Belém – PA – Brasil
A CHEGADA DA SOJA NO CONTEXTO DA “FALA DO
DESENVOLVIMENTO”.
José Carlos Matos Pereira(PPCIS/UERJ)
Sociólogo, Doutorando em Ciências Sociais no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais
(PPCIS/UERJ), Bolsista Faperj.
[email protected]
Data do final da década de 1990, a chegada da soja no Oeste do Pará, na área de influência da Rodovia
BR-163, mais especificamente nos municípios de Belterra e Santarém que, em poucos anos, se
transformaram nos maiores produtores de soja do estado. Esse deslocamento foi programado,
resultando de um conjunto de estratégias organizadas pela articulação entre o Estado e o grande
capital. Uma ação planejada e seletiva que teve apoio político em diversos níveis, financiamento público
em vários casos, flexibilização da legislação ambiental, afrouxamento da fiscalização dos órgãos
responsáveis e estudos científicos que subsidiaram a melhor localização do empreendimento. Nessa
ação, o “outro” (os “de dentro”) foi desumanizado e colocado em posição de inferioridade, para
justificar uma modernização capitalista pelo alto, em que a destruição dos modos de vida do lugar
constituiu-se como a condição de possibilidade para que o valor de troca se sobrepusesse ao valor de
uso. A “fala do desenvolvimento” serviu de argumento legitimador para a instauração de novas técnicas
com base na mecanização, desqualificando o uso primeiro da população do lugar, nominado como
“arcaico” e “primitivo”, por conta da técnica simples do machado, da enxada, do terçado e do uso da
natureza, prioritariamente, para a satisfação das necessidades humanas em bases não mercantis.
Vimos com este trabalho apresentar o resultado de nossa pesquisa de doutorado no Programa de PósGraduação em Ciências Sociais (PPCIS/UERJ) realizada entre 2008-1012 sob o tema: “Os modos de vida
na cidade: Belterra um estudo de caso na Amazônia Brasileira”, que na segunda parte traz a análise
sobre os conflitos socioambientais na Amazônia oriental, especificamente, na cidade de Belterra e
imediações e no município de Santarém.
Para tanto, realizamos 44 entrevistas com lideranças sindicais, mulheres, juventude, vereadores,
prefeito, secretário e técnicos de governo, indígenas e produtores de soja de Belterra, buscando garantir
a representação das quatro divisões político-administrativa do município por meio da qual eles se
apresentam nos momentos coletivos, a saber: Cidade, BR-163, APA Aramanai e Floresta Nacional do
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Tapajós (FLONA). Acrescentamos, ainda, as lideranças do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras
Rurais (STTR) do município de Santarém, uma delas, ameaçada de morte e sob proteção policial.
Também participamos de reuniões do Fórum dos Movimentos Sociais, do Movimento de Mulheres e do
Conselho da cidadania do município de Belterra. Este último constitui-se num espaço de
compartilhamento de discussões e decisões com representação do governo e movimentos sociais por
conta do Planejamento e Orçamento Participativo (POP) em curso.
Pudemos constatar pelo estudo feito que o projeto de modernização capitalista instado na região: 1) é
excludente e expropriador dos recursos naturais de povos, etnias e grupos sociais que lhe foram por
seguidas gerações; 2) é predatório em relação à natureza e aos modos de vida preexistentes, que
precisam ser destruídos ou desarranjados para que novas bases de base mercantis se instalem; 3) a ação
conjugada do capital e suas redes econômicas e do Estado nas suas diferentes manifestações políticas
parlamento, legislativos, executivo, por meio das normas, políticas e financiamento conduzem ao uso do
território vivo para fins de mercado, como se este fosse, a única opção de realização da vida social; 4)
formação de campos de poder que, por meio da política, não negam identidades e particularidades, mas
fazem enfrentamentos conjuntos apresentando formulações e proposições práticas em bases
humanitárias e do reconhecimento dos direitos sociais. De forma que lá, as proposições não se fazem
somente pela adesão, mas pela resistência que se fundamenta também por perspectivas que envolvem
o enunciado de valores societários e que ultrapassam as fronteiras do urbano e do rural para ganhar a
forma do território e das territorialidades específicas (camponesa, indígena, quilombola, ribeirinha,
extrativa).
Para ilustrar as mudanças vivenciadas no lugar com a chegada da soja, além do levantamento
fotográfico, construímos dois mapas que tratam das formas de uso e ocupação do espaço da cidade
(antigas quadras dos seringais) em dois períodos de tempo: 1999 e 2011, antes e depois da chegada da
soja, respectivamente. Esse trabalho foi possível por meio da base de dados cedida pela prefeitura,
como imagem de satélite, base cartográfica e acrescida dos dados levantados durante o trabalho de
campo. Estes mapas foram confeccionados especificamente para a tese, em arcview map, por uma
arquiteta, especialista neste tipo de trabalho.
A proposta de debate é apresentar como a ação do capital com base no apoio estatal desestrutura os
modos de vida do lugar para que novas modalidades produtivas sejam instauradas com base na
mercantilização da vida e da natureza. No entanto, não há vazio de luta política, nem ação sem sujeito:
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“estratégia do agronegócio” e “contra-estratégia” dos movimentos sociais e ONGs se enfrentam por
meio dos campos de poder.
Referências
ACSELRAD, Henri. As práticas espaciais e o campo dos conflitos ambientais. In: ______. Conflitos
ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Relume Dumará, 2004. p. 13-35.
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estrategistas dos agronegócios. In: ALMEIDA, A. W. B.; CARVALHO, G. (Org.). O Plano IIRSA visão da
sociedade Pan-Amazônica. Belém: Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE);
Observatório COMOVA/UFPA, 2009. p. 57-105.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. São Paulo: DIFEL, 2001.
CÂNDIDO, Antônio. Parceiros do Rio Bonito. Livraria Duas Cidades: São Paulo, 1971.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: EDUSP, 2006.
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