Marta do Nascimento Silva PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA A Favela como expressão de conflitos no espaço urbano do Rio de Janeiro: o exemplo da Zona Sul carioca Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre pelo Programa de PósGraduação em Geografia do Departamento de Geografia do Centro de Ciências Sociais da PUC-Rio. Orientador: Prof. Dr. Alvaro Ferreira Rio de Janeiro Março de 2010 Livros Grátis http://www.livrosgratis.com.br Milhares de livros grátis para download. Marta do Nascimento Silva A Favela como expressão de conflitos no espaço urbano do Rio de Janeiro: PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA o exemplo da Zona Sul carioca Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre pelo Programa de PósGraduação em Geografia do Departamento de Geografia do Centro de Ciências Sociais da PUC-Rio. Aprovada pela Comissão Examinadora abaixo assinada. Prof. Alvaro Ferreira Orientador Departamento de Geografia – PUC-Rio Prof . João Rua Departamento de Geografia – PUC-Rio Prof.ª Luciana Correa do Lago Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional - IPPUR Prof.ª Mônica Herz Coordenadora Setorial do Centro de Ciências Sociais – PUC Rio Rio de Janeiro, 31 de março de 2010 Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial sem autorização da universidade, da autora e do orientador. Marta do Nascimento Silva Graduou-se bacharel e licenciada em geografia pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) em 2007. Ficha Catalográfica Silva, Marta do Nascimento A favela como expressão de conflitos no espaço urbano do Rio de Janeiro: o exemplo da zonal sul carioca / Marta do Nascimento Silva; orientador: Alvaro Ferreira. – Rio de Janeiro: PUC Departamento de Geografia, 2010. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA 157 f. : il.(color.) ; 30 cm 1. Dissertação (Mestrado em Geografia)–Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Geografia. Inclui referências bibliográficas 1. Geografia – Teses. 2. Reprodução do espaço urbano. 3. Favela. 4. Luta de classes. 5. O direito à cidade. I. Ferreira, Alvaro. II. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Departamento de Geografia. III. Título. CDD910 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Agradecimentos Este trabalho foi fruto de grande esforço profissional e pessoal, devido a dificuldade constante de trabalhar e estudar ao mesmo tempo, fato comum durante toda a minha vida acadêmica. Por isso, hoje tenho a certeza de que sozinha tudo isto não seria possível, que sem a compreensão e o apoio de familiares, amigos e professores nunca teria concluído mais esta etapa. Agradeço muitíssimo ao professor Alvaro Ferreira, meu orientador, que com muita paciência, amizade e boa vontade, muito contribuiu para minha formação acadêmica, me apresentando um “mundo” ao qual eu tinha pouco contato e com o qual acabei me identificando muito: a dialética. Com todas as dificuldades e toda a sua paciência, me ajudou a evoluir bastante, mesmo que ainda tenha um longo caminho pela frente. Ao professor João Rua, que me acompanha de longa data e sendo um dos profissionais que mais admiro na carreira acadêmica, por estar sempre disponível e por aceitar tão gentilmente o convite de compor a banca examinadora. A professora Luciana Correa do Lago, pelas contribuições durante a qualificação que muito ajudaram na organização do trabalho, pela atenção dada a pesquisa e o carinho com o qual aceitou compor a banca. A todos os professores do Mestrado em Geografia da PUC-Rio, Rogério, Felipe, Ivaldo, Regina, Denise, enfim, que enriqueceram tanto esta caminhada. Aos funcionários do departamento de Geografia, em especial à Márcia e Edna, pela dedicação e o carinho aos alunos. À PUC-Rio, pela oportunidade de realização deste projeto a partir de uma bolsa de estudos integral. Muitos familiares e amigos participaram muito de perto da elaboração da pesquisa e não existem palavras para descrever o quanto foram importantes. Aos meus pais, que sempre me passaram a importância dos estudos e hoje tenho a consciência do quanto isso mudou nossas vidas. Em especial a minha mãe, que sempre deu todo o apoio e me ajudou muito, me “liberando” de muitos afazeres... Meu marido Marcelo, que viveu essa fase “louca” comigo, participando desde o início de tudo, opinando e ajudando a dar o rumo a pesquisa e inclusive participando dos trabalhos de campo. Foram muitos finais de semana perdidos com leituras e campos, e apesar de tudo você sempre esteve ao meu lado. Existe uma razão para você estar ao meu PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA lado, e agradeço a Deus todos os dias por isso. Minha irmã Fernanda, que apesar de suas ocupações, sempre esteve presente, ajudando, participando e torcendo. A minha sogra Luciene, que foi mais que uma amiga neste momento, foi uma mãe. Agradeço pelo empenho, pela ajuda e pela companhia nos árduos dias de PUC. A amiga Andrea, pessoa especial que descobri após algum tempo de contato, e hoje vejo que sua amizade foi fundamental nesta jornada, muito tempo de estudo, muitas conversas e longas horas de viagem, mas que com você foram mais divertidas e felizes. Hoje vejo que a distância, o cansaço, as inúmeras leituras, tinham uma razão de ser: o meu amadurecimento profissional e pessoal, e o tão sonhado título. Apesar de tudo, valeu a pena passar por tudo isso, por que vocês estavam ao meu lado. Obrigada. Resumo Silva, Marta do Nascimento; Ferreira, Alvaro. A favela como expressão de conflitos no espaço urbano do Rio de Janeiro: o exemplo da Zona Sul Carioca. Rio de janeiro, 2010, 157p. Dissertação de Mestrado – Departamento de Geografia, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Este estudo é decorrente de uma inquietação a respeito de um tema bastante atual: A favela. A existência de uma crise urbana e habitacional na atualidade traz à tona a discussão sobre as favelas nas grandes metrópoles brasileiras, como uma das questões mais importantes a serem discutidas no espaço urbano. Cada vez mais as favelas estão evidenciadas na paisagem urbana, tornando-se necessário o entendimento da dinâmica das áreas faveladas e também da sua relação com a metrópole. Temos aqui o objetivo de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA mostrar a favela como a expressão de alguns conflitos no espaço urbano atual, utilizando como exemplo a Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, buscando apontar as principais contradições que envolvem a presença das áreas faveladas em bairros voltados para grupos sociais de alta renda na cidade. Buscamos, portanto, observar os elementos que expressam estes conflitos e entender até que ponto esta população favelada participa do cotidiano dos bairros em estudo, uma discussão que envolve, portanto, a questão do direito à cidade. Entendemos que estes conflitos são também simbólicos e perpassam a questão do estigma que envolve a favela e o favelado no Rio de Janeiro, por isso, buscamos também exemplificar o quanto estes conflitos e contradições contribuem para acirrar este estigma e a distância entre a favela e o bairro. Palavras-chave Reprodução do espaço urbano; favela; cotidiano; luta de classes; o direito à cidade. Abstract Silva, Marta do Nascimento; Ferreira, Alvaro.. The slum as an expression of conflict in urban areas of Rio de Janeiro: the example of South Zone Carioca. Rio de Janeiro, 2010, 157 p. MSc. Dissertation - Departamento de Geografia, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. This study is due to a concern about a very current topic: the slum. The existence of an urban and housing crisis in the news brings up the discussion on the slums in major Brazilian cities, as one of the most important issues to be discussed in the urban space. More and more are discussed in the slums in the urban landscape, making it necessary to understand the dynamics of slum areas and also its relationship with the metropolis. Here we have the objective of showing the slum as the expression of some conflicts in urban areas, utilizing the example of the South Zone of Rio de Janeiro, pointing the main PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA contradictions involving the presence of the shantytowns in neighborhoods facing social groups high income in the city. We seek, therefore, to observe the elements that express these conflicts and to understand the extent to which this part of the slum population of the districts daily in the study, a discussion that involves, therefore, the issue of right to the city. We believe that these conflicts are also symbolic and run through the issue of stigma surrounding the slum and the slum in Rio de Janeiro, so, we seek also illustrate how these conflicts and contradictions contribute to exacerbate the stigma and the distance between the slum and the neighborhood. Keywords Reproduction of the urban; slum; everyday; class struggle; the right to the city. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Sumário 1. Introdução 10 2. A produção e reprodução do espaço urbano 24 2.1 O papel do espaço: o espaço como fonte de poder social 28 2.2 Sobre a importância da forma 38 2.3 O Processo de produção e reprodução no espaço urbano 40 2.4 Apropriação e dominação no urbano: conflitos e contradições 43 2.5 A dimensão do cotidiano como categoria de análise 53 2.6 O direito à cidade 57 3. As favelas no Rio de Janeiro: origem e situação atual 60 3.1 O surgimento das favelas na paisagem carioca 61 3.2 A expansão das favelas: Subúrbio e Zona Sul 64 3.3 A Chegada do migrante 69 3.4 A favela ganha destaque no cenário carioca: A atuação do poder público 72 4. Zona Sul: proximidade física, distância social 83 4.1 A formação das favelas na Zona Sul 85 4.1.1 A política de Remoções: a atuação do poder público na área mais valorizada da cidade 89 4.2. As favelas na Zona Sul 97 4.3. Conflitos e contradições - A idéia de fronteira como contato: como se dá a relação entre a cidade legal e a cidade ilegal 106 4.3.1 As áreas de contato entre o bairro e a favela 108 4.3.2 A natureza como fronteira – questão ambiental e a construção de muros 4.3.3 A dinâmica da relação entre o bairro e a favela 120 124 4.3.4 A estigmatização do favelado: favela como locus da violência 132 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA 4.3.5 O controle a partir da força: das incursões policiais às Unidades de Policias Pacificadoras 134 4.3.6 A “espetacularização” da pobreza: a favela como ponto turístico 138 Considerações finais 144 Referências 148 Anexos 154 10 Introdução Desde os primórdios do capitalismo comercial a sociedade como um todo vivencia a existência de uma grave crise urbana, uma crise nas formas de produção e reprodução do espaço urbano, crise esta baseada nas questões de apropriação e dominação do espaço urbano. Esta crise urbana ocorre em escala mundial, em sociedades ditas desenvolvidas e principalmente nos países subdesenvolvidos. A produção e a reprodução do espaço urbano pelo modo de produção capitalista permitem que PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA surjam novos aspectos da realidade urbana, ou mesmo que se evidencie o que estava oculto. A dinâmica urbana, atualmente, exprime os conflitos e contradições que permeiam a sociedade, principalmente o conflito entre as classes, a luta dos diferentes atores sociais pela apropriação e produção do espaço. A produção do espaço nas sociedades capitalistas sempre esteve marcada pela desigualdade nas relações sociais de produção, e é principalmente no meio urbano, onde estão concentradas as grandes massas populacionais, que esta desigualdade mais se evidencia atualmente. Entendemos aqui que a sociedade urbana é marcada por intensos conflitos que envolvem a produção do espaço, sendo este o principal foco de nossa análise. Os conflitos que queremos salientar são principalmente as disputas territoriais, a luta pelo espaço, baseadas nas relações de apropriação e dominação do espaço urbano, o controle do espaço funciona assim como um instrumento de dominação, de controle das classes sociais mais desfavorecidas. A produção e a reprodução do espaço são, assim, elementos fundamentais à reprodução do capital e da sociedade como um todo, reprodução esta que se realiza no cotidiano. Para realizar esta discussão, é necessário deixar claro o que entendemos por cotidiano, luta de classes e reprodução do espaço, além da questão da propriedade privada, categorias analíticas que vão nortear a pesquisa. Estas categorias de análise foram escolhidas pela relevância 11 no que tange ao objeto de estudo que pretendemos desenvolver aqui, buscando analisar os conflitos e contradições existentes na organização e distribuição das classes sociais no espaço urbano, na luta pela reprodução do espaço que envolve as diferentes classes sociais nas grandes cidades. A segregação, a partir da propriedade privada, a constituição de espaços periféricos e pobres permite a reprodução das relações de produção e das relações de classes (exploração), conforme nos aponta Lefebvre (1994). A atual tendência de internacionalização do capital e a evolução técnica do capitalismo têm contribuído para gerar uma grande massa de pobres urbanos, principalmente nos países periféricos. Os impactos desta PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA nova dinâmica do capital vão gerar um processo de favelização e de pauperização cada vez mais acentuado, principalmente em cidades dos países periféricos onde a questão habitacional não é levada como prioridade. Apontar o impacto das transformações do capitalismo e os conflitos que este impacto evidencia torna-se cada vez mais necessário para o entendimento das questões urbanas. A Geografia pode contribuir para um melhor entendimento da discussão que envolve a análise da realidade urbana, e acreditamos que a busca do entendimento das disputas territoriais e dos conflitos que envolvem a apropriação no espaço urbano de uma grande cidade pode contribuir para novas discussões sobre a dinâmica urbana. Para isto, pretendemos realizar a análise da dinâmica urbana de uma grande cidade brasileira, a cidade do Rio de Janeiro, e tendo como recorte espacial uma área da cidade que apresenta grande valorização imobiliária, mas que possui também grande número de favelas, a Zona Sul, na área litorânea da cidade. Partindo das idéias de Henri Lefebvre e David Harvey, dentre outros, e baseados no materialismo histórico dialético, pretendemos analisar a cidade do Rio de Janeiro a partir de certos conflitos que se expressam no seu espaço urbano. Buscamos apontar que a presença de favelas no Rio de Janeiro, especificamente nos bairros da Zona Sul da cidade, se configura atualmente como expressão de importantes conflitos e contradições no espaço urbano, entendendo aqui que as favelas não 12 representam os únicos conflitos do espaço urbano, mas sim um dos mais importantes, dentro de um contexto maior de um movimento de valorização do solo urbano e da inexistência de políticas de habitação realmente eficazes. Entendemos o urbano como expressão da realidade, e a partir das formas concretas do real, buscamos compreender os aspectos e elementos contraditórios da realidade urbana. O materialismo dialético nos fornece uma base material para a realização desta análise; partindo das formas presentes no urbano, entendemos que as formas concretas do real contribuem para corroborar as contradições e os conflitos da sociedade atual, mas é fundamental também levar em consideração o PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA simbólico, o imaginário que estas formas representam. A análise, portanto, está voltada para o empírico que está em foco em nossa pesquisa, a Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, mas entendendo que esse local, assim como as favelas ali inseridas, fazem parte de uma lógica maior, a lógica da reprodução do capital. Não são, portanto, organismos isolados, separados, e sim parte de um sistema que gera intensos conflitos e contradições que se expressam no espaço. A lógica espacial é a mesma na favela e fora dela, e a presença das favelas no espaço urbano está ligada a essa lógica. A cidade do Rio de Janeiro é marcada pelo grande número de favelas existente em seu território. Desde o início da formação da cidade, as classes sociais de menor poder econômico procuraram ocupar áreas não utilizadas ou desprezadas pelo capital imobiliário, primeiramente ocupando áreas de encostas próximas às áreas centrais, depois se dispersando para as áreas periféricas da cidade. É importante aqui entender a evolução urbana da cidade do Rio de Janeiro, principalmente dando enfoque ao movimento das classes sociais menos favorecidas no espaço urbano. A cidade do Rio de Janeiro, como capital do Império e da República, foi marcada pela presença de classes sociais antagônicas, sempre tendo passado por problemas envolvendo a questão habitacional. Já no século XIX, a cidade não oferecia moradias disponíveis suficientes para a sua população pobre, tendo esta que residir em cortiços e moradias afins, muitas vezes em situações insalubres e é a partir da 13 política de demolição dos cortiços na área central da cidade que iniciaremos a análise proposta. A Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro é basicamente formada por bairros tradicionalmente voltados para as classes mais abastadas, e se diferencia bastante do restante da cidade pela qualidade da infraestrutura que oferece (econômica, política, cultural e de serviços), e pelo cotidiano que essa estrutura possibilita. Entendemos aqui a favela como uma das questões do urbano, uma questão relativa à lógica da desigualdade e da segregação. A revalorização do solo urbano fez aumentar ainda mais esta lógica, aumentando o número de pessoas que vivem em favelas na atualidade. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, com todo o simbolismo que este local emana, o solo é visto como uma mercadoria bastante valorizada, o espaço é consumido, assim como as amenidades1 presentes no local. A Zona Sul, além de toda a beleza natural, é a área que recebe maior atenção por parte do poder público. Temos como objetivo central, portanto, analisar os conflitos e contradições que se expressam no espaço urbano da cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente em se tratando da presença de favelas nos bairros da Zona Sul. As questões que se colocam como fundamentais para o entendimento desta dinâmica são: a) Quais são os elementos que expressam a intenção dos atores sociais dominantes em manter a lógica segregadora da/na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro? b) Como é a relação nas áreas onde as classes sociais se misturam, na zona de fronteira entre o bairro e a favela? 1 “Entendemos por amenidades urbanas um conjunto de características específicas de uma localidade com contribuição positiva ou negativa para a satisfação dos indivíduos. As amenidades não estão restritas a características naturais, como áreas verdes, praias, clima etc. Também estão incluídos na definição os bens (ou males) gerados pelo próprio homem, tais como trânsito, poluição, oferta de entretenimento, segurança etc.” (HERMAN E HADDAD, 2005). Bartik (1996, p 271), também contribui para esta discussão, afirmando que, quando as pessoas escolhem os lugares que vão viver ou trabalhar, estão consumindo amenidades. 14 c) Como nossa análise se baseia na categoria do cotidiano, até que ponto essa população que habita as favelas da zona sul participa do cotidiano dos bairros, do direito à cidade? Para responder a estes questionamentos e atingir o objetivo aqui proposto de apontar as favelas da Zona Sul como exemplo de expressão dos conflitos entre as classes no espaço urbano, pretendemos discutir a questão do direito à cidade, entendendo aqui este direito como o direito à vida urbana e tudo que este cotidiano possibilita: acessibilidade, infraestrutura, lazer, etc. O direito à cidade também envolve o direito à apropriação do espaço de moradia, apropriação no sentido de produzir PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA seu próprio espaço, de construção do espaço de acordo com as necessidades dos atores sociais ali presentes (LEFEBVRE, 1991, p. 104). Acreditamos estar na falta do direito à cidade, imposta aos moradores de favelas, a disputa territorial que envolve a apropriação do espaço na Zona Sul do Rio de Janeiro. Para operacionalizar essa leitura da realidade urbana e o entendimento dos diferentes conflitos que envolvem a presença das favelas na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro foram feitos levantamentos de alguns dados para análise das condições de vida da população desta área, tendo como fontes principais o IPP2 e o IBGE3, além de um levantamento das bibliografias mais relevantes no processo de construção teórica do objeto de estudo. Diferentes autores nortearão a discussão sobre o espaço aqui proposta. Dentro da perspectiva do materialismo histórico dialético, Henri Lefebvre nos guiará na discussão do espaço como um instrumento político, como produto social e também como uma dimensão influente nas relações sociais. O autor analisa a cidade e o urbano buscando elucidar as contradições existentes no espaço urbano, a reprodução do espaço urbano como elemento que permite a reprodução da sociedade e da 2 O Instituto Pereira Passos é um órgão da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, vinculado à Secretaria Municipal de Desenvolvimento, responsável, entre outras coisas, pela produção de informações estatísticas, geográficas e cartográficas da Cidade do Rio de Janeiro. 3 Os dados utilizados foram relativos ao CENSO 2000. 15 manutenção das contradições atuais e o direito à cidade. Cabe aqui ressaltar a importância da dimensão espacial no trabalho desse filósofo, que coloca o espaço como tendo um papel ativo na sociedade. Na obra de Lefebvre, o espaço deixa de ser visto somente como receptáculo e ganha destaque, assim como a vida cotidiana. David Harvey também analisa a cidade e o espaço apontando as contradições no espaço urbano e contribui para este estudo com discussões sobre as relações de poder no espaço e a justiça social. Buscamos em Milton Santos a discussão sobre o espaço e sobre as formas-conteúdo, sobre a intencionalidade nas ações e na reprodução do espaço. Ana Fani Alessandri Carlos também nos traz uma importante discussão sobre a produção e a reprodução do PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA espaço urbano, entendendo o espaço como um produto social, como produto não só da reprodução do capital, mas também, e principalmente, dos conflitos e contradições entre as necessidades do capital e as necessidades da sociedade como um todo. Edward Soja discute a abordagem marxista nos estudos sobre política e espacialidade, nos apresentando possíveis categorias analíticas de estudo. A bibliografia sobre a favela é muito extensa. Diversos autores têm as favelas como objeto de estudo e muitos na cidade do Rio de Janeiro, dentre eles Mike Davis, que discute o processo de favelização do terceiro mundo e aponta como causas a atuação do capital global; Maurício de Almeida Abreu, que discute toda a evolução da cidade do Rio de Janeiro, apresentando o processo histórico que deu forma e conteúdo ao espaço urbano da cidade e o processo de formação das principais favelas na Zona Sul Carioca; e Lícia do Prado Valladares, que discute o processo de remoção de favelas na cidade do Rio de Janeiro e questões de identidade e estigmatização do favelado. Após levantamento bibliográfico, foram realizados diferentes trabalhos de campo pelos bairros da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, com o objetivo de aproximar-nos da realidade e do cotidiano das pessoas que vivenciam os bairros e as favelas da região. Foram visitadas três favelas da Zona Sul, escolhidas pelas suas características diferenciadas: a favela Santa Marta, a favela com as piores condições de vida na Zona e que passa recentemente por uma ocupação policial; a 16 favela Chácara do Céu, favela relativamente pequena e bastante isolada no costão do morro Dois Irmãos; a favela da Rocinha, uma das maiores favelas da América Latina e com importante dinâmica social e econômica. Foram visitados também dois bairros, principalmente as áreas próximas aos acessos de favela, o bairro do Flamengo e do Leme, onde foi possível observar a dinâmica das áreas de contato entre os bairros e as favelas, alem de conversar com moradores a respeito destas áreas de contato. Como segunda etapa, realizamos alguns questionários abertos para os atores envolvidos nesta dinâmica, moradores de bairros e favelas, presidentes de associações de moradores de bairros e favelas, com intuito de ouvir o que todos têm a dizer sobre seus problemas e suas PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA necessidades. Os trabalhos de campo e as entrevistas nos permitiram, de forma bastante ampla, uma aproximação do cotidiano dos bairros em análise. Qualquer discussão da dinâmica urbana que envolva a questão das áreas faveladas tem sempre muitas considerações importantes. Uma delas é a dificuldade de se encontrar uma única definição oficial de favela e das áreas faveladas, existindo várias definições de órgão oficiais. Para definir as favelas que estarão presentes na pesquisa, utilizaremos a delimitação das áreas feitas pelo IPP (Instituto Pereira Passos), sobre a qual pretendemos construir um mapeamento das áreas faveladas. A dificuldade de se obter dados oficiais realmente corretos é grande quando se trata de favelas, além da grande divergência entre os dados oficiais, que ocorre devido à diferença entre as metodologias utilizadas por diferentes órgãos, como o IBGE e o IPP, que gera dados divergentes. Outra consideração importante é a polêmica em torno da utilização do termo favela, ao invés do termo “comunidade”. Comunidade ou comunidade carente nos passa a idéia de uma interação do grupo com o seu entorno, da identidade social de um grupo que vive em harmonia com o seu espaço, que não cabe ser discutida aqui, pois o termo comunidade tem um sentido muito amplo4. Neste estudo, utilizaremos sempre o termo 4 Sobre o conceito de comunidade D’Avila Neto (2004) , citando Simmel (1909) afirma que “A concepção de comunidade, cujos laços de solidariedade, engendramento de iguais e fraternos poderiam ser os elementos de nossa nostalgia de uma unidade perdida, tornar-se-ia o 17 favela e áreas faveladas, é não é nossa preocupação explicitar exatamente o que ele significa. O termo favela, para nós, representa o espaço de uma população que vive sob determinadas formas de habitação e determinadas considerações simbólicas e culturais, antagônicas e complementares a classes sociais mais abastadas. As características das favelas da área estudada também devem ser levadas em consideração, principalmente quanto a heterogeneidade das áreas estudadas. Ao mesmo tempo em que é na Zona Sul que se encontra uma das maiores favelas da América Latina, a Rocinha, muitas favelas são bem pequenas e antigas na área. Os movimentos sociais e a representação política destas populações também serão levados em PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA consideração nas favelas da Zona Sul, principalmente em relação às favelas maiores, sendo um aspecto muito importante na discussão proposta. A questão ambiental também será considerada, visto a existência de uma política de controle de favelas que serve a uma opinião pública que cobra ações governamentais de remoção de populações faveladas, uma política baseada na proteção de áreas florestais e no controle de mananciais. O desenvolvimento da sociedade como um todo só pode ser concebido pela realização da sociedade urbana. Acreditamos que a cidade deveria reunir os interesses de todos aqueles que a habitam e não apenas refletir conflitos e contradições entre os atores sociais. Esperamos que a análise desses conflitos possa servir para a tentativa da criação de um espaço urbano mais justo, que garanta a todos o direito à cidade. Neste sentido, concordamos com Harvey (1980, p. 125) quando afirma que a Geografia pode contribuir na orientação do pensamento “para formular conceitos e categorias, teorias e argumentos que possamos aplicar a tarefa de possibilitar a mudança social humanizadora”, e não de forma abstrata, mas de forma a buscar no real, na prática, “com respeito a eventos e ações, tais como eles se desdobram em torno de nós”. oposto de uma sociedade fragmentada , perdida a unidade e desfeitos os laços”. Entendemos que a utilização do eufemismo Comunidade para designar as favelas seria uma tentativa de caracterizar o grupo que vive neste local diferenciando-o dos que não vivem lá, além de quebrar certos estereótipos de que a favela seria o lugar da Malandragem e da violência, um mecanismo de defesa da própria comunidade. 18 Esperamos que a análise nos permita contribuir ainda para a busca de uma nova visão da favela, livre de estigmas e integrada no contexto da cidade, como o local escolhido como moradia do trabalhador pobre urbano, e não como o local preferencial da violência e da marginalidade. Para tentar acabar com este estigma, a busca pelos conflitos e contradições pode contribuir, pois tentaremos mostrar aqui o quanto o imaginário social pode contribuir para aumentar a desigualdade e a distância social. Acreditamos também que acabar com o estigma permitiria também ampliar a luta pelo direito à cidade. A questão de uma definição metodológica para uma teoria geográfica do urbano se coloca desde muito tempo. Muitos termos e PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA conceitos utilizados pela Geografia vêm de outras áreas do conhecimento, principalmente da sociologia urbana. Mesmo assim, a geografia urbana, avançou bastante nas últimas décadas, principalmente com a introdução do método dialético. A importância deste método para a Geografia consiste na prática de não isolar o objeto considerado, no caso os fenômenos do urbano, investigando as suas ligações, as suas relações constantes com outros fenômenos (LEFEBVRE, 1974, p. 27). A importância da análise dialética também está no fato de não realizar uma leitura fechada da realidade, observando o fenômeno de forma isolada, mas observando a lógica da reprodução do capital. A realidade contemporânea apresenta enormes desafios para sua análise, desafios estes que precisamos superar, e acreditamos que a análise dialética fornece importantes ferramentas para o entendimento da realidade atual. Karl Marx e Friedrich Engels nos fornecem a mais importante contribuição deste método, sendo os primeiros efetivamente a pensar o materialismo histórico dialético, partindo de idéias baseadas no materialismo de Feuerbach e na dialética de Hegel. Para estes autores a base de qualquer estudo deve ser a base material, a forma pela qual o homem produz seus meios de existência, realizando uma crítica à filosofia alemã, desvinculada da realidade. 19 As premissas de que partimos não são bases arbitrárias, dogmas; são bases reais que só podemos abstrair na imaginação. São os indivíduos reais, sua ação e suas condições materiais de existência, tanto as que eles já encontraram prontas, como aquelas engendradas de sua própria ação. Essas bases são pois verificáveis por via puramente empírica (MARX E ENGELS, 1932, p. 10). Para os autores, a historiografia deve levar em consideração as bases naturais e de sua transformação pela ação do homem (MARX E ENGELS, 1932, p. 10). Entendem que o homem representa na verdade “um produto histórico, o resultado da atividade de toda uma série de gerações”, visto que cada geração predecessora é também produtora do PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA seu espaço, já que modifica as relações de produção de acordo com a modificação de suas necessidades (MARX E ENGELS, 1932, p. 43). Quanto a produção simbólica, Marx e Engels acreditam que está bastante ligada a produção da vida material, que as idéias e a consciência do homem são subordinadas à produção material e às relações de produção. Segundo eles, a “produção das idéias, das representações e da consciência está, a princípio, direta e intimamente ligada à atividade material e ao comércio material dos homens; ela é a linguagem da vida real” (MARX E ENGELS, 1932, p. 18). Para entender a realidade do homem, portanto, acreditam que devemos partir da vida real, da produção material, passando também pela produção simbólica advinda da materialidade existente. A vida material, a evolução da história material do homem é marcada pelas relações de produção capitalistas, baseadas na divisão do trabalho e na propriedade privada, e, portanto, a realidade está marcada por intensos conflitos e contradições entre as diferentes classes. Para Gurvich (apud QUEIROZ, 1978), observar os conflitos, buscálos no interior de fenômenos, mesmo aqueles que pareçam mais equilibrados e em harmonia, é tarefa fundamental da dialética, sendo esta o principal método de estudo deste autor para entender a realidade social. A dialética serve como base, como um instrumento fundamental para qualquer análise social, não sendo simplesmente a explicação. A explicação estaria na história, na evolução histórica da sociedade e nos 20 fenômenos intrínsecos a ela. Os fenômenos sociais estão sempre apresentando contradições e conflitos, a realidade socioeconômica, cultural e política é de diversidade infinita, com multiplicidade de aspectos que não podem nunca se harmonizar totalmente entre si, - pluridimensionalidade que, devido às suas próprias características, nem estaciona e nem se equilibra (GURVICH apud QUEIROZ, 1978, p.35). Para Lefebvre (1974, p.26), o método dialético busca analisar uma realidade objetiva, concreta, buscando entender as contradições que estão presentes nessa realidade. Este autor afirma ainda que “após ter PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA distinguido os aspectos ou elementos contraditórios, sem negligenciar as suas ligações, sem esquecer que se trata de uma realidade, Marx reencontra-a na sua unidade, isto é, no conjunto de seu movimento”. A dialética dá ênfase à pesquisa (investigação), seguida da explanação. Portanto, fica clara a necessidade de análises empíricas para se chegar às contradições e aos conflitos que sustentam a realidade social, econômica e política atuais. É necessário ainda ter em mente a importância de se chegar ao movimento da sociedade, das relações que sustentam a sociedade urbana capitalista, conforme nos aponta Lefebvre (1987, p. 238), o método dialético busca captar a ligação, a unidade, o movimento que engendra os contraditórios, que os opõe, que faz com que se choquem, que os quebra ou os supera. Assim, no mundo moderno, o exame e a análise mostram que as condições econômicas – a própria estrutura das forças produtivas industriais – criam as contradições entre os grupos concorrentes, classes antagonistas, nações imperialistas. Portanto, convém estudar esse movimento, essa estrutura, suas exigências, com o objetivo de tentar resolver estas contradições. As proposições feitas até aqui exemplificam um método de estudo que nos serve aqui como a ferramenta de análise mais apropriada para o entendimento da realidade urbana que pretendemos observar. A análise da produção do espaço urbano a partir do método dialético, segundo 21 Carlos (1994, p. 14) não é uma transposição de categorias marxistas para a geografia, mas de sua superação, criando novas categorias de análise propriamente geográficas. Para isto, torna-se importante “repensar a geografia e a sua capacidade de analisar os fenômenos que se propõe. Trata-se, em princípio, de entender a relação homem-natureza num outro patamar, o que significa repensar o lugar do homem dentro da geografia e o significado do espaço” (CARLOS, 1994, p.14). A análise urbana marxista, via análise dialética, vem buscando alternativas que busquem entender os fenômenos sociais em sua totalidade. As abordagens marxistas mais comuns, o marxismo ortodoxo e o estruturalismo, não forneceram as respostas que se esperavam diante PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA de toda a complexidade dos fenômenos urbanos. Desde a década de 50, surgem autores que visam inserir uma perspectiva humanista nas leis inexoráveis do marxismo. A perspectiva humanista, segundo Gottdiener (1997, p. 116), busca se estender “desde o nível de estruturas abstratas, como a economia e a política, ao nível individual, comportamental da vida cotidiana alienada”. O que se busca, na verdade é a inserção da dimensão subjetiva, do sujeito individual, nas análises urbanas. Para estes autores, o entendimento do espaço urbano em sua totalidade deve abarcar, sem sobrepor, o material e o imaterial, o objetivo e o subjetivo, o sujeito, o objeto e as representações. A utilização do método dialético também enfatiza principalmente a busca pela totalidade sem o afastamento do cotidiano, o olhar para os conflitos sem se fixar neles, entendendo que eles fazem parte de um todo. Entendemos aqui a favela como um dos conflitos do urbano, mas não o único, o urbano é muito mais que isso. Conforme aponta Lefebvre (2008, p. 54) “a totalidade não está presente imediatamente nesse texto escrito, a Cidade. Há outros níveis de realidade que não transparecem (não são transparentes) por definição”. Entendemos também que a pobreza urbana não está só na favela, está muitas vezes dispersa por várias áreas da cidade, e somente o olhar para as especificidades dos lugares nos revelam aquilo que está escondido, fora dos padrões. 22 Baseados nestas afirmações, estamos propondo aqui uma visão da cidade como símbolo da lógica atual, de contradições que se mostram na organização espacial das cidades. Na maioria das cidades, as contradições e os conflitos são evidentes e ficam ainda mais claros quando analisamos as formas espaciais e a organização do espaço urbano, onde se observa a segregação de grupos sociais, a presença de favelas, a distribuição irregular de equipamentos de infra-estrutura urbana, de serviços e lazer. Além das contradições que se evidenciam nas formas e na organização espacial, é importante considerarmos o papel da questão simbólica presente nas formas, o caráter subjetivo do espaço urbano, que PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA também influencia na própria formação da sociedade urbana, já que a forma está imbricada de simbolismo. Para discutir esta visão da cidade como símbolo de uma lógica atual, que expressa toda a contradição presente na sociedade, é importante também entender o papel do espaço na reprodução da sociedade. Nossa pesquisa está estruturada em três capítulos além deste introdutório e das considerações finais. No primeiro capítulo, intitulado a produção e reprodução do espaço urbano, buscamos realizar uma análise do papel do espaço na reprodução da sociedade, pensando em como a produção do espaço pode contribuir para a manutenção de uma sociedade desigual e segregadora. Realizamos um debate teórico sobre a reprodução do espaço pela sociedade capitalista, mas sem nos afastar da realidade da sociedade e do objeto de estudo. No capítulo dois, intitulado as favelas do Rio de Janeiro: origem e situação atual, realizamos um pequeno histórico sobre a origem e a formação das favelas na cidade do Rio de Janeiro, assim como trazemos dados oficiais sobre a situação atual do favelado na cidade. A intenção aqui é situar a favela atual da Zona Sul no contesto de formação da cidade, buscando justificativas do porquê da situação atual das favelas permanecer pouco modificada em relação ao surgimento das favelas. No capítulo três, intitulado, Zona Sul: proximidade física, distância social, discutimos especificamente as contradições e conflitos gerados pela presença de favelas na Zona Sul, como a chegada da favela na Zona 23 Sul, entendida já como um conflito, assim como o período de remoções de favelas concentradas nesta área da cidade. Discutimos ainda as áreas de contato entre os bairros e as favelas, a estigmatização do favelado e a espetacularização da pobreza. Todos esse elementos apontam para a existência de conflitos e contradições na relação entre a favela e os PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA bairros onde estão inseridos. 24 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA 2. A produção e reprodução do espaço urbano Enseada de Botafogo, Rio de Janeiro - 2009 25 A análise que nos propomos aqui é a da produção e reprodução do espaço dentro da perspectiva do materialismo histórico dialético, buscando entender de que forma o espaço é produzido pela sociedade urbana, partindo da concepção de que o espaço é produzido a partir de relações sociais de produção marcadas pela atuação dos atores sociais. Para isto, realizamos uma análise baseados no espaço urbano da cidade do Rio de Janeiro, aproximando toda a discussão teórica da realidade empírica observada. Entendemos aqui que é necessária esta construção do pensamento de forma bastante reflexiva, buscando na teoria a análise mais completa da realidade contemporânea, mas em nenhum momento descolada da prática e da totalidade. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Para isto, utilizaremos como base as discussões de Henri Lefebvre, David Harvey, Karl Marx e outros autores que discutem o urbano a partir da visão dialética. Estes autores nortearão toda a pesquisa aqui desenvolvida e fornecerão nossas bases teóricas pelas quais guiaremos o nosso olhar para a realidade urbana da cidade do Rio de Janeiro. O urbano, segundo Carlos (1994, p. 14), é entendido como condição geral de realização do processo de reprodução do capital, além de produto desse processo. O urbano, portanto, é visto aqui, principalmente, como “produto de contradições emergentes do conflito entre as necessidades da reprodução do capital e as necessidades da sociedade como um todo”. A cidade do Rio de Janeiro, e especificamente a Zona Sul da cidade, refletem bem esta realidade, um urbano marcado pela contradição, pela intensa desigualdade e segregação, tendo como expressão máxima a presença de áreas de favelas nos bairros em estudo. É importante aqui ressaltar que a presença de favelas nos bairros voltados para classes média e média-alta não se configura como a única expressão de conflitos de interesses entre o capital e o social nesta área da cidade1, mas que colocamos as favelas aqui em evidencia como foco 1 Como exemplo podemos citar a questão da proteção ao patrimônio cultural e histórico do Rio de Janeiro, no que se refere a documentos, obras e locais de valor histórico, artístico e arqueológico, o que tem causado muitas discussões entre os interesses da população e os interesses do Estado. Bairros tradicionais da Zona Sul têm passado pelo processo de tombamento de imóveis particulares, como Flamengo, Botafogo, Catete, Glória, entre outros. 26 da pesquisa. A paisagem da Zona Sul fica muito marcada por estas desigualdades, e a favela se torna um símbolo destas na paisagem urbana dos bairros da Zona Sul. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Foto 01 – Favela Pavão-Pavãozinho Foto: Marta do Nascimento, novembro de 2009. Vista da Avenida Atlântica, esquina da Rua Almirante Gonçalves. Destaque para a presença da favela PavãoPavãozinho na encosta do morro, paisagem que pode ser vista da Praia de Copacabana e da Avenida Atlântica, principal avenida do bairro de Copacabana, onde se localizam hotéis e restaurantes de luxo. O espaço urbano do capitalismo, portanto, reflete uma contradição fundamental, que se expõe claramente na forma urbana: o conflito de interesses entre o capital e o social. Salientamos aqui que o espaço geográfico, é visto como produto de relações baseadas na divisão do 27 trabalho, ou seja, na produção material do homem, na forma como o homem busca na natureza os seus meios de existência (MARX, ENGELS, 1932, p. 11). Ocorre, portanto, em um determinado momento histórico, fundamentado na acumulação técnico-cultural e em uma relação dialética entre o velho e o novo, sendo este um processo de produção e PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA reprodução. Carlos (1994, p. 34) entende que na discussão do espaço como produto social e histórico se faz necessário articular dois processos: o de produção e o de reprodução. Enquanto o primeiro se refere ao processo específico, o segundo considera a acumulação do capital através de sua reprodução, permitindo apreender a divisão do trabalho em seu movimento. A perspectiva da reprodução coloca a possibilidade de compreensão do geral. A morfologia urbana da cidade do Rio de Janeiro é marcada por essa contradição entre os interesses do capital e os interesses sociais. Uma cidade que foi durante muito tempo o mais importante foco político do país e onde todas as intervenções urbanas que ocorreram foram voltadas para atender a grupos sociais abastados, não ocorrendo políticas habitacionais eficazes para atender a demanda da população pobre e a população que chegava à cidade. Esta falta de preocupação com a questão habitacional deixa marcado na morfologia urbana um aparente caos, uma desordem. Atualmente, misturam-se no espaço urbano áreas abandonadas pelo capital e pelos investimentos do Estado, principalmente na área central, áreas voltadas para uma população pobre, áreas faveladas e áreas que refletem com grande expressão a riqueza e a modernidade. Para evidenciar a contradição na produção e reprodução do espaço urbano em uma grande cidade como o Rio de Janeiro, é necessário entender aqui algumas discussões que permeiam a produção do espaço urbano, como o papel do espaço, o espaço como produto de relações sociais, a influência da dimensão espacial na produção do espaço, a apropriação e dominação no urbano, entre outras questões. 28 2.1 - O papel do espaço: o espaço como fonte de poder social2 Nestas considerações torna-se importante enfatizar o papel da dimensão espacial na reprodução da sociedade, a partir do que se entende por espaço na perspectiva do materialismo dialético, onde cabe buscar a forma, o conteúdo, o movimento, o simbólico e a contradição. Nesta perspectiva, o espaço deixa de ser um receptáculo e passa a ter um papel importante na reprodução da sociedade. As formas materiais influenciam a práxis, e o controle das formas é fundamental para a prática do poder e para a apropriação e domínio do espaço. O espaço, sua materialidade e as significações que se constroem dessa materialidade PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA são a expressão da sociedade, mas também influenciam a reprodução da sociedade. Lefebvre (2008, p.26) vê o espaço como um produto social, que assume uma realidade própria, de acordo com o modo de produção e a sociedade presente. O espaço como produto serve como uma ferramenta para a ação e para o pensamento, funcionando como um meio de produção, de controle e de dominação. O autor vê o espaço como produto da sociedade, o espaço sendo “um modo e um instrumento, um meio e uma mediação. (...) O espaço é um instrumento político intencionalmente manipulado, mesmo se a intenção se dissimula sob as aparências coerentes da figura espacial”. Nesta mesma direção, Soja (1983, p.38) apresenta uma concepção materialista da espacialidade, utilizando-se do método dialético, vendo a espacialidade como uma força importante na produção e reprodução das relações sociais, sendo a espacialidade para ele a forma material das relações sociais de produção, a expressão territorial concreta da divisão do trabalho. Afirma que 2 A idéia de poder social está ligada a “capacidade ou a possibilidade de agir, de produzir efeitos”; no caso mais específico, na “capacidade do homem em determinar a vida do homem: poder do homem sobre o homem (...) a capacidade de um governo de dar ordens aos cidadãos . O homem não é só sujeito, mas também objeto do poder social”. O poder social é exercido a partir da vida em sociedade. “Não existe poder se não existe, ao lado do indivíduo ou grupo que o exerce, outro indivíduo ou grupo que é induzido a comportar-se tal como aquele deseja” ( BOBBIO et al, 1998, p. 933-934). 29 O espaço social e político tornou-se cada vez mais reconhecido como uma força material (e não material, isto é, ideológico) influente, ordenando e reordenando as próprias relações sociais produtivas. Longe de ser um reflexo passivo, incidental, um “espelho”, a espacialidade tornou-se ativa como uma estrutura concreta e repositório de contradições e conflitos, um campo de luta e estratégia política. As relações sociais e espaciais, a divisão social e espacial do trabalho, a práxis social e espacial estão deste modo interativamente engajadas e concatenadas, ao invés de reduzidas a simples gênese-reflexo, causa inicial e efeito subseqüente. Thrift (2007, p. 96) se volta para a construção de um conceito de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA espaço que deixe claro a dimensão material, subjetiva e o movimento. O autor nos apresenta o espaço como uma construção contínua que se dá através da ordenação de coisas encontrando-se mutuamente de forma mais ou menos organizada. O autor constrói uma visão relacional do espaço, em que é visto como um receptáculo no qual o mundo avança, mas também como co-produto dos processos, ressaltando a importância de se entender o espaço como construção da sociedade e que consequentemente tem influência sobre esta. A cidade assim pode ser vista como uma produção contínua da sociedade, que materializa na paisagem diferente períodos de reprodução das relações sociais. Em grandes cidades, diferentes períodos de reprodução do capital, de maior ou menor intensidade, estão refletidos na paisagem e contribuem para criar novas relações sociais de produção. Em diversas áreas da cidade do Rio de Janeiro é possível entender este processo, locais onde o espaço foi amplamente apropriado pelo capital em associação com o Estado, que é o caso da Zona Sul da cidade, e outros onde a reprodução do espaço se desenrolou a parte, onde não houve interesse do capital e, consequentemente, estiveram completamente à parte de intervenções políticas. Conforme exemplifica Kleiman (2002, p. 128), no Rio de Janeiro, o início da distribuição dos investimentos em infra-estrutura foi muito desigual, sendo muito concentrados nos espaços de camada de renda alta, principalmente em termos de água e esgoto. 30 Outra autora que também contribui para esta discussão é Massey (2008, p. 89), quando afirma que o espaço deve ser entendido como uma produção aberta e contínua, chamando a atenção para a incorporação da idéia de movimento, de contínua construção do espaço. A autora entende o espaço como “uma multiplicidade discreta, cujos elementos, porém, estão, eles próprios, impregnados de temporalidade. Uma contemporaneidade estática foi rejeitada em favor de uma multiplicidade dinâmica”. Para Massey (2008, p. 94), também deve-se levar em consideração as experiências, a construção subjetiva do espaço, e aponta que a verdadeira relevância do espaço são “as múltiplas coletâneas de outras trajetórias e a necessária mentalidade aberta de uma subjetividade PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA espacializada” . Outro autor que aponta a importância da análise espacial no processo de produção e reprodução das relações sociais é Santos (2008, p. 63), que considera que “o espaço é formado por um conjunto indissociável, solidário e também contraditório, de sistemas de objetos e sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como o quadro único no qual a história se dá”. Fica claro nas idéias apresentadas acima como o autor vê o espaço, sendo impossível separar as formas materiais das técnicas aplicadas sobre elas e das ações do homem. O espaço para o autor é sempre este conjunto, que está constantemente interagindo, com os objetos condicionando as ações e as ações criando novos objetos e dotando-os de funcionalidades. A idéia de sistemas de objetos e sistemas de ações é bastante abrangente. Os sistemas de objetos não são simplesmente as coisas que existem, pois as coisas passam a ser objetos quando são dotadas de intenção social, sendo produto de uma elaboração social, da técnica atuando naquele momento histórico. Os sistemas de objetos são, portanto, aqueles objetos utilizados pelo homem, com a intenção da prática social, que estão em interação direta com a sua atuação, o que acaba por incluir entre os objetos a natureza, quando esta torna-se objeto de valor social, passível de ser utilizado. 31 Nos sistemas de ações o autor chama a atenção para a intencionalidade da ação. A ação é um processo dotado de propósito, orientado pela práxis social, e “as práticas são atos regularizados, rotinas ou quase rotinas, que participam da produção de uma ordem” (SANTOS, 2008, p. 79). O autor ressalta ainda que a ação está cada vez mais estranha aos fins próprios do homem, sendo necessário diferenciar a escala da realização da ação da escala de seu comando, ou seja, a intencionalidade não está diretamente ligada a quem realiza a ação, podendo partir de terceiros. O autor também enfatiza a importância de se analisar os processos que formam o espaço, incorporando o movimento à análise espacial. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Santos vê o espaço como uma totalidade que está sempre em movimento, sempre se recriando, e formando uma nova totalidade. “É o espaço que, afinal, permite a sociedade global realizar-se como fenômeno” (SANTOS, 2008, p. 119). Torna-se aqui importante retornarmos às idéias de Lefebvre, pois a contribuição filosófica deste autor sobre uma teoria marxista do espaço também é de grande relevância para a Geografia. Lefebvre defendeu a idéia de uma teoria do espaço que estudasse a dimensão real e a dimensão ideal do espaço, ou seja, o objetivo e o subjetivo, sendo importante, portanto, considerar o imaginado na dimensão espacial. Muitas das idéias de Milton Santos se aproximam bastante de Lefebvre, que vê o espaço como fonte fundamental de poder social na vida cotidiana, enfatizando o papel do capitalismo e da ideologia em torno dele como os produtores do espaço. O autor nos apresenta uma importante contribuição quando insere a dimensão simbólica, fornecendo uma importante tríade conceitual para se analisar o espaço do homem, uma contribuição das três dimensões do espaço: a prática espacial, que engloba a produção e a reprodução da sociedade, o espaço percebido da realidade cotidiana; as representações do espaço, que diz respeito às relações de produção e a ordem que as impõe, é o espaço concebido, relativo ao conhecimento e ao poder, nos remetendo a Santos (2008) quando este fala de ações que são estranhas ao próprio homem; e os espaços de representação, englobando os símbolos e os códigos, 32 também ligados ao lado clandestino e subterrâneo da vida social, é o espaço vivido através de símbolos que o acompanham (Lefebvre, 1994, p. 33). A concepção dessas três dimensões do espaço nos serve como análise, mas estes devem ser vistos sempre juntos, ocorrendo simultaneamente. Para o autor, somente o entendimento destas três dimensões do espaço – o percebido, o concebido e o vivido – nos confere uma análise mais completa do espaço. Lefebvre também considera o papel ativo e passivo do espaço na reprodução da sociedade. O autor vê o espaço como o local passivo das relações sociais e de seus desdobramentos, mas nos aponta que ele também tem um papel “ativo”, pois serve como instrumento para as forças PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA hegemônicas; inclusive, como é produzido com intencionalidades, exerce forte papel no cotidiano da sociedade. Trazendo estas considerações para o empírico, podemos observar que no Brasil a posse da terra sempre foi utilizada como ferramenta de controle das classes sociais mais desfavorecidas, que dependiam da terra para garantir sua sobrevivência, o que aponta intensa contradição na reprodução do espaço no país, visto que a terra sempre esteve concentrada nas mãos de poucos proprietários, que adquiriam assim grande importância política no local. Historicamente, a formação espacial brasileira sempre esteve baseada na posse da terra, e a transição para uma economia urbana vai gerar intensos conflitos, mas que ainda estão ligados a mesma fonte: a propriedade da terra, as mudanças nos meios rural e urbano e ao papel do estado na regulação da terra. Segundo Moreira (2005, p.18-19), a chegada da indústria na cidade trouxe diferentes reivindicações, principalmente quanto à redistribuição da terra e o direito a moradia na cidade. O surgimento de novos atores traz à tona diferentes discussões, que vão acirrar a luta pela posse da terra no Brasil, tanto no meio rural quanto no urbano O espaço geográfico, portanto, engloba a materialidade, a subjetividade, o real e o imaginado, os objetos e as ações, sempre vistos de forma interligada, é esse o espaço que nos serve aqui, o espaço do movimento das sociedades, e é nesta dimensão que pretendemos analisar determinados conflitos e contradições que se desenrolam no 33 espaço urbano da cidade do Rio de Janeiro. A subjetividade a que nos referimos aqui é a materialidade dotada de significação, sendo assim específica para cada grupo social, e essa relação materialidade/subjetividade nos servirá como ponto de partida para buscarmos entender o papel atual do espaço na sociedade e os conflitos e contradições que estão expressos no espaço. O espaço, conforme nos apontaram os autores, influencia a prática social, e seu controle é fundamental para a prática do poder. O espaço, sua materialidade e as significações que se constroem dessa materialidade, colaboram para determinar a reprodução da sociedade. No Rio de Janeiro, as formas na morfologia urbana e as PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA representações que se faz delas marcam uma sociedade desigual e contribuem para a manutenção dessa desigualdade no imaginário social. A estigmatização do favelado e da violência associada às áreas faveladas contribuem para manter a dualização e os conflitos entre os diferentes grupos sociais no cotidiano. A opinião pública, na forma da imprensa, coloca hoje a favela como o grande problema urbano, e defende seu controle de forma mais efetiva pelo Estado. Sobre a estigmatização da favela associada a violência, Ribeiro (2004, p. 35) considera que as representações sobre as causas da violência, ao atribuí-las à existência de um estado de anomia prevalecente nas favelas e bairros pobres, concorrem eficazmente para a construção de imagens coletivamente apropriadas que impedem as camadas populares de transformar o acesso aos valores da ordem igualitária em fermento para se constituírem em atores sociais legítimos. Ao mesmo tempo a adoção das classes médias de um comportamento de secessão urbana, traduzido na busca de fronteiras simbólicas e materiais que as separem do mundo das classes populares. Na cidade do Rio de Janeiro, a questão da violência urbana ganha enfoque cada vez maior e a associação das áreas faveladas como locus da violência e da marginalidade contribui para aumentar a distância simbólica entre a população urbana e a população favelada, entre a chamada população do “asfalto” e da favela. Esta própria denominação já 34 representa uma separação entre a cidade legal e a cidade ilegal, um afastamento simbólico entre mundos com cotidianos tão diferenciados. O que determina a reprodução desses espaços diferenciados é a forma como cada grupo social vai se apropriar do espaço, ou a forma como o espaço está sendo concebido. A questão da apropriação da sociedade sobre seu espaço é bastante relativa. Como vimos, a imposição de uma materialidade a um determinado grupo não significa que aquele espaço tenha o mesmo significado para todos os grupos. O que vai ser importante é se aquele grupo se apropria realmente daquele espaço ou não, se as formas presentes ali foram concebidas por e para eles, e é essa apropriação que PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA vai determinar sua importância na sociedade como um todo. Conforme nos aponta Souza (1997, p. 26), o espaço é a base de sobrevivência, fonte de poder e, por via da conseqüência, alvo de cobiça e desejo de apropriação e controle. A isso se deve adicionar a importância não apenas “instrumental”, militar ou econômica (...) de um espaço, mas também a sua relevância cultural para um grupo. Diferentes espaços são apropriados de diferentes formas por diferentes grupos, tanto grupos religiosos, étnicos, classes sociais, entre outros. Cabe aqui retomar a Lefebvre no que tange à diferenciação/relação entre as representações do espaço e as os espaços de representação, entre o espaço que pode ser imposto e o que é realmente vivido pelos indivíduos. Se o espaço é concebido pelas mesmas pessoas que vão estar presentes neste espaço, o controle é mais efetivo; conforme nos aponta Ferreira (2007, p. 203), “se as práticas espaciais forem concebidas pelos moradores do lugar, desmancham-se os fetiches, pois o espaço carrega em si a dominação por meio das formas”. Harvey (2005, p. 206) também dá enfoque a essa questão, considerando como fato “as relações de poder sempre estarem implicadas em práticas temporais e espaciais”. Os autores referenciados 35 nos deixam clara a idéia de que o domínio do espaço é uma importante fonte de poder social sobre a vida cotidiana. Essa discussão a respeito do espaço como fonte de poder social é profunda e muitos autores já se dedicaram a esse tema, em que muito se discute o papel do capitalismo como poder hegemônico mundial sobre o espaço. O que concordamos aqui é que o domínio do espaço é fundamental no cotidiano dos grupos e que em geral ele é imposto pelos grupos dominantes por meio das formas e dos usos impostos às formas, mas ao mesmo tempo existem alguns exemplos de resistência de grupos quanto ao que é imposto a eles; e essa resistência pode vir a se materializar por meio da criação de novas formas ou das novas funções e PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA usos atribuídas às formas já existentes. Aqui podemos citar como exemplo as diferentes formas de apropriação ilegal de moradias na cidade, como as favelas, a invasão de prédios públicos, os movimentos sociais, entre outros, que representam uma forma de resistência ao que está sendo concebido no espaço. O espaço, portanto, é construído e reconstruído pela experiência cotidiana das pessoas, tendo estas também sua reprodução influenciada pelo próprio espaço. Esta última afirmação nos aponta uma outra questão que pode aqui ser pensada: como se constroem essas experiências cotidianas, a vivência do lugar? Em uma visão mais geral, mais global, a reprodução do espaço parece seguir uma lógica, a lógica da acumulação capitalista e da segregação de grupos excluídos desta lógica, e se observa esse fato principalmente nas grandes cidades capitalistas. Mas quando buscamos analisar a dinâmica dos lugares, vemos que apresentam características distintas, que os caracterizam como um lugar específico, e que se relacionam de forma diferente com a lógica global de acumulação capitalista. Conforme afirma Massey (2000, p. 179), “há muito mais coisas determinando nossa vivência do espaço do que o 'capital' ”, acreditamos que a experiência cotidiana dos lugares sofra variações de acordo com as características de cada grupo ali presente. A análise da relação global-local pode contribuir para que possamos entender o papel do espaço hoje, se entendermos que o espaço deve ser visto como uma totalidade que se presta a análise, para 36 que possamos conhecer o movimento do universal para o particular e do particular para o universal (Santos, 2008, p. 115) e assim compreender a lógica que forma os espaços, percebendo a sua influência na experiência cotidiana das pessoas. Para Santos (2008, p. 314), “cada lugar é, a sua maneira, o mundo. (...) Mas, também, cada lugar, irrecusavelmente imerso numa comunhão com o mundo, torna-se exponencialmente diferente dos demais. A uma maior globalidade corresponde uma maior individualidade”. Para esse autor e também para Massey (2000, p. 185), é preciso não tratar nem especificamente do local, nem especificamente do global, pois todos os lugares contêm uma carga histórica mas também recebem influências PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA externas, que vão se “encaixar” em cada local de acordo com as características presentes ali. A individualidade de cada lugar vem de sua ligação com o global e com os outros lugares. Estas especificidades vão se expressar na produção e reprodução dos espaços urbanos na atualidade, e vão interferir no cotidiano das diferentes sociedades urbanas, sujeitas a processos e transformações globais e locais. A experiência cotidiana, o simbólico e as representações que surgem na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, são fundamentais para entender a lógica da reprodução do espaço urbano, marcado pela ideologia da cidade-cenário, vendida para o mundo todo como “cidade maravilhosa”, servindo para a apropriação turística da cidade, que deixa oculta a desigualdade e a injustiça social. Somente a partir do entendimento desta simbologia da cidade é possível entender determinados processos que ocorrem na cidade. Trata-se, portanto, do entendimento de que a cidade do Rio de Janeiro está inserida em um contexto, em uma lógica dentro da reprodução do capital que não é a lógica da industrialização, e que a reprodução do espaço na cidade se dá a partir da relação entre esse contexto mundial e as especificidades do local. Entender o espaço como atuante nas relações sociais, como uma ferramenta de poder, significa entender o espaço como político. O objetivo aqui é que esta discussão teórica nos forneça a base para uma discussão empírica em uma grande cidade de um país subdesenvolvido, o Rio de 37 Janeiro, que possa contribuir para o debate sobre a reprodução do espaço nas metrópoles. Entendemos que atualmente as grandes cidades vivenciam fortemente as contradições e o conflito, onde o espaço ganha alto valor de troca e onde o controle e a apropriação dos espaços se torna fundamental (FERREIRA, 2007). Buscamos até agora entender o papel do espaço como componente fundamental da reprodução da sociedade, como fonte de poder social dos grupos que detém o seu controle, e ainda que este espaço é formado a partir de relações entre elementos internos e externos a sua realidade. Lefebvre (2008, p.82) e Santos (2008, p. 63) nos apontam que o espaço é um produto social, construído coletivamente por atores sociais PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA que possuem intencionalidades. O espaço é a expressão da sociedade que o produz, os espaços produzidos pela sociedade capitalista moderna vão contribuir então para a manutenção de toda a desigualdade existente nela, todos os conflitos e contradições, reflexos das relações de produção e da luta de classes. Nas cidades atuais a apropriação e a dominação do espaço se dão de forma completamente desigual, com as relações de produção e a luta de classes se estendendo à luta pelo espaço, pela sua apropriação. Na cidade do Rio de Janeiro, conforme já foi citado aqui, esta desigualdade está completamente aparente na paisagem, pois o processo de segregação social se sobrepôs ao processo de segregação espacial, já que grupos sociais distintos sempre ocuparam os mesmos bairros, desde o início da formação da cidade. Portanto, concordamos com Lefebvre (1991, p. 53) quando afirma que “a cidade e o urbano não podem ser compreendidos sem as instituições oriundas das relações de classe e de propriedade”. Para Carlos (1994, p. 24), o espaço é condição e é produto, tanto da reprodução do capital quanto das relações sociais. A sociedade produz o espaço e com ele todo um modo de vida. Esta afirmação fica bastante clara quando voltamos a análise para as cidades atuais, forma máxima de reprodução do espaço, de um modo de vida urbano. Harvey (1980, p. 17) chama ainda a atenção para as formas, afirmando que uma vez criadas, as formas espaciais tendem a institucionalizar e as vezes “determinar o futuro desenvolvimento do processo social”. 38 2.2 – Sobre a importância da forma Para a compreensão do que estamos nos propondo aqui cabe uma definição do que entendemos por cidade e por urbano. A cidade seria a organização espacial, a forma, um conjunto de elementos ordenados. O urbano estaria mais ligado a um tipo de sociedade, sendo a expressão de idéias, éticas, valores, estética hoje na cidade; a cidade, portanto, é datada. O urbano, ou a cultura urbana, se realiza como práxis na cidade, através das atividades políticas econômicas e culturais, o urbano reúne todos os elementos da vida social (LEFEBVRE, 2008, p. 84). Devemos entender, portanto, que cidade e urbano não são PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA sinônimos. O urbano deve ser entendido como um modo de vida, ligado a uma certa divisão do trabalho, uma forma social, enquanto a cidade seria a materialização dessa forma (HARVEY, 1980, p. 175). O urbano deixa de ser a simples oposição ao rural e passa a designar a sociedade que constitui uma realidade que engloba e transcende a cidade enquanto lugar (CARLOS, 2005, p. 191). Para Pechman (1991, p. 126) “o urbano representa um novo sistema de idéias”. O urbano contemporâneo representa, portanto, novas formas de idéias, pensamentos e ações, uma nova forma de vida, que não mais se relacionam diretamente com o modelo antigo de cidade, o urbano deixa de estar completamente relacionado a forma da cidade para estar além dela, como uma ideologia. O autor deixa clara esta ideologia quando afirma que “onde existe a cidade não existe necessariamente o urbano; mas onde existe o urbano existe a cidade”. O urbano, portanto, expressa um conceito de grande abrangência, pois está além das fronteiras da cidade. Rodrigues (2007) nos fornece também uma definição bastante ampla do que entendemos por urbano e por cidade, quando diz que o urbano é um conceito, pois qualifica um modo de vida que atinge a maioria da sociedade. As atividades urbanas extrapolam limites de cidades como no agronegócio, nas atividades turísticas, nas áreas inundadas para produção de energia hidroelétrica, e muitas outras atividades. Cidade é 39 uma definição. É a projeção da sociedade urbana num dado lugar, política e territorialmente demarcado, marcado e estabelecido. As cidades contêm delimitação espacial. Lugar de concentração da população urbana, produção, circulação e consumo de bens e serviços. A cidade é o centro da decisão política do urbano. O conceito de urbano compreende o espaço em sua complexidade. (grifo da autora) Por isso, a cidade e o urbano aqui nos interessam, a cidade, enquanto forma, enquanto construção, cria representações que se expressam na sociedade urbana. As formas nos servirão para que possamos, através de sua análise, entender a sociedade urbana atual; conforme já enfatizamos aqui, a importância da análise empírica, da PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA descrição, para que se chegue ao conteúdo, ao que está subjetivo, simbolizado por determinados tipos de formas. A cidade aparece aqui como o local que expressa com mais força a segregação e a desigualdade social, e o urbano aparece como condição, meio e produto do processo de reprodução da sociedade Segundo Lefebvre (1991, p. 59) a análise dos fenômenos urbanos exige a utilização de instrumentos metodológicos, chamando a atenção para a forma, a função e a estrutura. Estes três termos são essenciais para a análise da cidade e do urbano. A forma, os aspectos visíveis, deve ser levada em conta, mas nunca separada de seu conteúdo, pois “não há forma sem conteúdo, não há conteúdo sem forma. Aquilo que se oferece a análise é sempre uma unidade entre a forma e o conteúdo”. As funções dizem respeito as funções internas à cidade, as funções da cidade em relação ao território e a função da cidade no conjunto social. Quanto à estrutura, devemos levar em consideração a estrutura da cidade, a estrutura urbana da cidade e ainda a estrutura social das relações cidadecampo. Santos (2008) apresenta como ferramenta metodológica as formasconteúdo, enfatizando a importância de ir além das formas de se chegar a intenção da forma, ao subjetivo. O autor ressalta ainda a importância da materialidade como componente imprescindível do espaço geográfico, entendendo as formas como “condição para a ação, uma estrutura de 40 controle, um limite a ação, um convite a ação (...) nada fazemos hoje que não a partir dos objetos que nos cercam” (SANTOS, 2008, p. 321). É no nível das formas que é possível observar a materialização das relações sociais, a forma como a cidade está estruturada. As relações sociais tendem a aparecer como relações entre coisas, e estas só existem como tal porque se relacionam entre si. Na análise do espaço socialmente construído, Soja (1983, p. 37) explicita a importância das formas quando PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA conceitua a espacialidade3 como a forma material das relações sociais de produção, a expressão territorial concreta da divisão do trabalho e a articulação dos modos de produção. (...) A espacialidade, na forma do ambiente construído, do arranjo geográfico da produção, troca e consumo, da alocação de indivíduos para lugares e posições em todos os processos sociais e da implantação de sistemas de poder territorial destinados a preservar esses arranjos no lugar, representa o mapeamento particularizado da sociedade, da vida social. Consideramos aqui a importância da análise empírica para revelar o conteúdo da forma. Determinados processos que ocorrem nas cidades hoje podem servir para revelar o urbano e os processos que influenciam a sua reprodução e a reprodução das relações sociais, e utilizaremos principalmente aqui como exemplo destes processos a segregação, a formação dos espaços periféricos e pobres, tão comuns nas grandes cidades hoje. Estes fenômenos permitem uma leitura do urbano, um urbano marcado pela reprodução das relações sociais de produção e pela luta de classes sociais na apropriação do espaço. 2.3 – O Processo de produção e reprodução no espaço urbano O processo de produção do espaço urbano não é homogêneo. É fragmentado e articulado de acordo com as necessidades de reprodução 3 O autor especifica a utilização do termo espacialidade como forma de diferenciar do termo espaço per se, que ele acredita estar ligado a uma imagem física, geométrica, algo externo ao contexto social e a ação social. O termo espacialidade, para ele remete ao espaço socialmente produzido (SOJA, 1993, p. 101). 41 do capital e com o modo de produção, gerando um espaço altamente complexo (FRIDMAN, 1991, p. 145). Desta forma, a produção do espaço é desigual, pois o espaço urbano na cidade do Rio de Janeiro é fruto de uma produção capitalista que se reproduz desigualmente no espaço, que se materializa pela divisão do trabalho entre parcelas do espaço e se mantém a partir das relações simbólicas estabelecidas. Cada sociedade produz e reproduz sua existência de modo determinado, deixando no espaço as marcas de suas características históricas específicas (CARLOS, 1994, p. 26-33). Voltamos a falar aqui sobre a contradição fundamental existente na reprodução do espaço urbano: o espaço como condição da reprodução PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA econômica e o espaço como condição de reprodução da vida na metrópole. Posta esta contradição fundamental, o espaço urbano torna-se uma campo de luta, onde se instaura uma luta dos diferentes agentes pelo espaço, pelo solo urbano. Estabelece-se, portanto, um conflito entre o espaço abstrato, concebido pelos interesses e necessidades do capital, e o espaço vivido, fragmentado pelas estratégias dos diferentes atores sociais, percebido pelo indivíduo através de sua vida cotidiana (CARLOS, 2005, p. 291). No Rio de Janeiro, a luta pelo espaço deixa marcas na paisagem urbana, sendo as áreas voltadas para a população pobre um símbolo dessa luta. Desde sua formação, a cidade deixa de fora das políticas de urbanização e habitação as áreas voltadas para a população pobre, realizando muitas vezes a sua expulsão das áreas onde houve interesse de reprodução do capital imobiliário, por exemplo4. A respeito da contradição entre o espaço concebido e o espaço vivido, retornamos a Lefebvre e sua construção da categoria de espaço social que se refere ao espaço de valores de uso produzidos pela complexa interação de todas as classes na vivência diária, que se confronta com o espaço abstrato, que corresponde a exteriorização de práticas econômicas e políticas que se originam com a classe capitalista e com o Estado (GOTTDIENER, 1997, p. 131). O espaço social perdeu 4 Sobre este assunto ver Lessa (2000, p. 291-296); Vaz (1991, p. 137-141); Ribeiro e Azevedo (1996, p. 13-21) entre outros. Sobre as remoções de populações pobres, discutiremos de forma mais aprofundada no capítulo 2. 42 espaço na sociedade moderna, onde houve predomínio do espaço abstrato, que se apresenta como homogêneo, fragmentado e hierárquico, principalmente nas grandes cidades, onde surgem áreas segregadas, que marcam a hegemonia do capitalismo. A essência do espaço social é justamente a vida cotidiana que transcorre no urbano, que perpetua o espaço abstrato através de representações. A produção do espaço se dá no plano da vida cotidiana, na relação que se estabelece entre os diferentes agentes responsáveis pela reprodução do espaço urbano. Salientamos aqui que existem diversos atores sociais responsáveis pela reprodução do urbano e que cada um atua de acordo com seus interesses de classe. Os agentes responsáveis PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA pela produção do espaço urbano, de forma geral, são os proprietários dos meios de produção, os proprietários fundiários e usuários de moradia, os promotores imobiliários, o Estado e as instituições governamentais, e os grupos sociais excluídos (CORREA, 1993, p. 12; HARVEY, 1980, p. 139). Esses atores possuem estratégias próprias, que geram conflitos entre eles e estratégias comuns que os unem, como a apropriação da renda da terra. Ao atuar sobre o espaço urbano, a reprodução das relações de produção e a continuidade da acumulação de capital está garantida. A apropriação da terra, então, torna-se objeto de conflito na cidade. O Estado tem um papel fundamental na produção deste espaço desigual ao impor determinadas organizações espaciais. Para Lefebvre, o Estado utiliza o espaço como um instrumento político, buscando assegurar o controle sobre os lugares. A organização espacial, portanto, representa a hierarquia de poder existente na sociedade. Nesta direção também aponta Harvey (1996, p. 212), quando afirma que a organização espacial serve para constituir uma ordem social e uma hierarquia, através do assentamento de pessoas e atividades em espaços e tempos distintos. A análise da organização espacial, portanto, nos fornece a base para o entendimento dos processos de apropriação e dominação no espaço. 43 2.4 – Apropriação e dominação no urbano: conflitos e contradições A reprodução das relações sociais de produção e da luta de classe se dá na apropriação e dominação do espaço no cotidiano, sendo internalizada: no lazer, cultura, na escola e na universidade, ou seja, no espaço inteiro (LEFEBVRE, 2008, p. 47). A reprodução da sociedade se materializa no espaço; a cidade, portanto, é pensada, desejada e construída pelos agentes responsáveis pela produção e reprodução do espaço urbano. A partir da perspectiva que estamos entendendo o espaço urbano, todas as formas de apropriação e dominação no urbano representam contradições e conflitos que se materializam no espaço. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Uma das principais formas de apropriação e dominação do espaço urbano que queremos salientar aqui é a caracterização do solo como mercadoria nos espaços urbanos capitalistas. O valor do solo urbano funciona como regulador da ocupação, e segundo Meyer (1978, p. 152), o solo urbano visto como mercadoria está sujeito às regras do sistema produtivo e de consumo. Concordamos com a autora quando afirma que a apropriação da cidade é, portanto, um processo organizado, ordenado segundo regras, métodos, princípios e estratégias. Estas ações são coordenadas pelos agentes que atuam no urbano, tanto os que buscam a manutenção do capital quanto os que buscam a reprodução da vida cotidiana. O urbano, e todas as possibilidades que oferece, acaba por se tornar o principal alvo da lógica capitalista, e as cidades, sua forma material, viram alvo de intensa especulação, principalmente aquelas que apresentam vantagens comparativas. Conforme aponta Rodrigues (2007), a cidade-mercadoria não é trocável no “mercado como um objeto”. Não se transmite, em tese, a “propriedade da cidade em sua totalidade”. O que se vende são fragmentos de lugares, pólos de investimentos para capitalistas nacionais e estrangeiros com o objetivo de aumentarem lucros, rendas e juros. Os fragmentos de lugares para eventos, atividades turísticas e de investimento, visando à incorporação imobiliária de bairros nobres, de condomínios murados e, como totalidade, a cidade-mercadoria vende imagem de prefeitos como “gestores” capitalistas. Nas democracias eleitorais, simbolicamente um prefeito 44 entrega ao novo a “chave da cidade”, mas não a “propriedade da cidade”. O espaço como mercadoria acaba por ocultar as suas especificidades, que é então apropriada como valor de troca pelos proprietários fundiários e promotores imobiliários, cujo conteúdo não é mais percebido pelos indivíduos, posto que estão submetidos à troca e à especulação. Segundo Carlos (1994, p. 193), a troca se sobrepõe ao uso “num processo de produção assentado na propriedade privada da terra que gera a apropriação diferenciada do espaço por extratos diferentes da sociedade”. Vale ressaltar também que o alto valor do solo urbano em cidades localizadas em países do terceiro mundo contribui PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA consideravelmente para a manutenção da pobreza, funcionando como causa e conseqüência desta (SMOLKA, 1986, p.208). Além disso, após a crise econômica da década de 1970 e as modificações nas relações sociais de produção, as cidades refletem e alimentam esse processo, funcionando como locus da naturalização e expansão da miséria nos grandes centros urbanos do país (FRIDMAN, 1991, p. 143). Na cidade do Rio de Janeiro, a escassez de espaços disponíveis para a construção e com infra-estrutura adequada5 faz com que o valor do solo em áreas dotadas de infra-estrutura e de amenidades naturais suba bastante, como é o caso da Zona Sul, deixando grande parte da população pobre da cidade sem acesso ao solo, estando sujeita às disposições da livre atuação do mercado imobiliário na cidade e do Estado. A ocupação da Zona Sul da cidade por grupos sociais de alta renda permite a geração de renda diferencial para os agentes sociais envolvidos com a valorização imobiliária. A cidade do Rio de Janeiro possui atualmente o metro quadrado mais caro do país, mas é na Zona Sul que estão os bairros com os mais altos valores do solo, com os bairros do Leblon, Ipanema e Lagoa 5 É importante ressaltar aqui que nunca houve intensa escassez de solo na cidade do Rio de Janeiro, mas as áreas de maior interesse econômico passaram por uma rápida ocupação, forçando a busca por novas áreas de interesse econômico. Ao longo da ocupação da cidade, as classes de maior poder aquisitivo já ocuparam os morros, depois os abandonaram em busca das planícies litorâneas. 45 liderando a lista6. As grandes avenidas localizadas a beira-mar colaboram para elevar o preço do metro quadrado nestes bairros, principalmente as avenidas Vieira Souto, em Ipanema e Delfim Moreira, no Leblon. Além das amenidades naturais, como a praia, parques naturais e áreas de lazer, a área é muito bem dotada de infra-estrutura urbana, possui grande acessibilidade, disponibilidade de transportes e proximidade de teatros e cinemas. A presença do poder público também é constante na região, e todos estes fatores levam ao aumento do metro quadrado nestas áreas (Foto 02). Para aprofundar essa discussão a respeito do solo urbano como mercadoria, torna-se importante discutir alguns aspectos do solo como PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA uma mercadoria que assume características diferentes, além de aprofundarmos os conceitos de valor de uso e valor de troca que assumem uma significação diferente dentro desta discussão. Foto 2 – Avenida Vieira Souto, Ipanema Fonte: Site Skyscrapercity.com 6 Segundo notícia veiculada no jornal O Globo de 09 de janeiro de 2008, intitulada “Rio de Janeiro tem metro quadrado mais caro do país”. Disponível na internet http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL252524-9356,00.html 46 Foto da Avenida Vieira Souto, localizada na área litorânea do bairro de Ipanema, onde estão localizados alguns dos imóveis de maior valor da cidade. O solo não pode ser colocado como uma mercadoria qualquer, visto que possui um valor de uso de grande importância, que é a garantia da manutenção da vida, do solo como moradia e como fonte de riqueza. Torna-se aqui relevante resgatar os conceitos de valor de uso e valor de troca, visto que estes encontram-se ainda como a melhor forma de entender a contradição fundamental existente na premissa do solo urbano como mercadoria. Partindo das idéias de Marx (apud Harvey, 1980, p. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA 132), observamos que estes conceitos não podem ser entendidos de forma separada, já que só existem porque se relacionam entre si. “Um valor de uso tem valor somente em uso, e realiza-se no processo de consumo (...) e servem diretamente como meios de existência”. Já o valor de troca é entendido aqui como uma “relação quantitativa; a proporção pela qual valores de uso são trocados por outros”. A criação do valor de troca se baseia no processo de aplicação de trabalho socialmente necessário aos objetos da natureza para a criação de objetos materiais. Ocorre, portanto, uma relação dialética entre o valor de uso e o valor de troca, pois a mercadoria é a associação entre o valor de uso e valor de troca, e este só adquire valor a partir do valor de uso. Entender o solo como mercadoria exige observar alguns aspectos importantes, pois o valor de uso e o valor de troca assumem diferentes significados quando tratamos do solo urbano. Harvey (1980, p. 135) afirma que o fato do solo e suas benfeitorias serem fixos os diferencia de outras mercadorias, além de permitir o monopólio à pessoa que determina o uso nesta localização. Outro fato importante é que o solo é uma mercadoria indispensável para qualquer indivíduo, além de, para o proprietário, permitir diferentes usos do solo. Um aspecto importante também é a continuidade da propriedade, pois em geral não ocorre muita troca de proprietário, o que gera também uma possibilidade de grande acumulação de riquezas. Portanto, o solo torna-se uma mercadoria 47 diferenciada, tornando-se alvo de intensa disputa, principalmente nas grandes cidades, onde o solo adquire alto valor. Em geral, o que se observa é que permanece até hoje uma sobreposição do valor de troca sobre o valor de uso quando se trata do valor e da renda do solo, e que a reprodução do espaço capitalista se dá a partir da priorização do valor de troca em detrimento do valor de uso e das suas possibilidades, o que vai permitir a reprodução ampliada do capital, gerando conflitos e contradições na luta pelo solo urbano. A importância que o solo assume como forma de reprodução do capital é muito intensa. Os valores do solo assumem cada vez mais valores diferenciados, de acordo com a atuação dos diferentes grupos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA que atuam no mercado do solo urbano. A atuação dos incorporadores imobiliários, dos proprietários e do Estado determina a distribuição das benfeitorias (infra-estrutura urbana) e das externalidades7 de forma diferenciada, o que vai gerar diferentes valores do solo urbano. A atuação desses grupos determina espaços diferenciados, com valores de solo diferenciados, determinando também o direcionamento da população para cada área da cidade. Como esses grupos possuem os recursos necessários e consequentemente grande poder de barganha política, são capazes de determinar a disposição final dos recursos e da infra-estrutura urbana, o que contribui para reforçar a desigualdade social na cidade (HARVEY, 1980, p. 61). No caso da cidade do Rio de Janeiro, esta desigualdade na distribuição dos recursos fica aparente quando analisamos, historicamente, a implantação de infra-estrutura urbana. De acordo com Kleiman (2002, p. 123), foram construídas redes completas com nível satisfatório de serviços e constantemente renovadas e tecnicamente sofisticadas nas áreas em que havia um nexo aparente entre os interesses do capital imobiliário e a moradia de camadas de renda alta e média situadas na Zona Sul e Norte, em parte dos subúrbios e mais recentemente na Barra da Tijuca. Por outro lado, destacam-se a ausência de redes 7 Segundo Gregory (2001, p. 11), externalidade é o impacto das ações de alguém sobre o bem-estar dos que estão no entorno, pode ser positiva ou negativa. Um exemplo de externalidade positiva é a implantação de infra-estrutura, como uma praça ou a construção do metrô; já um exemplo claro de externalidade negativa é a poluição de uma fábrica. 48 completas, o não-provimento de serviços ou sua configuração lenta, descontínua e sem manutenção, em áreas de residência de camadas de baixa renda, situadas na Zona Oeste e na Baixada Fluminense, principalmente nos loteamentos e em favelas. Com toda esta discussão queremos mostrar o quanto o urbano é apropriado pelos agentes detentores do capital e consequentemente do solo urbano, o que gera intensa desigualdade na distribuição dos recursos e da população, onde as áreas que possuem maior valor, pela presença de infra-estrutura ou de amenidades, são apropriadas e o processo de reprodução do espaço se dá de forma planejada e induzida pelos promotores imobiliários e pelo Estado. Nas áreas onde não há o interesse PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA do capital, o valor do solo urbano é mais baixo e o processo de reprodução do espaço ocorre de forma espontânea. Utilizando como exemplo a área em estudo, na Zona Sul é possível observar a presença da associação entre o Estado e os incorporadores imobiliários. A Zona Sul, como área primeiramente dotada de infraestrutura fora do centro da cidade, recebeu em grande parte os grupos sociais mais abastados como local de moradia. É importante também o papel da difusão de uma ideologia voltada para as amenidades naturais, onde a presença do mar passou a ser vista como saudável, como possibilidade de contato direto com a natureza. O processo de produção e reprodução do espaço urbano, por servir aos interesses de determinados agentes, gera, portanto, um intenso processo de segregação social. Concordamos com Ribeiro (2002, p.79) quando afirma que a segregação residencial e as desigualdades de condições de vida entre os territórios da metrópole resultam da ação dos grupos sociais interessados na apropriação da renda real, entendida como o acesso desigual ao consumo dos bens e serviços coletivos (qualidade de vida), e os ganhos decorrentes da valorização imobiliária e fundiária dos terrenos mais bem equipados. Como as regiões de maior renda real são as que concentram os segmentos de maior renda monetária forma-se um processo de causação circular, que tende sempre a 49 instaurar e a aumentar a desigualdade social na cidade. O processo de reprodução do espaço urbano sempre esteve, portanto, marcado pela diferença na implantação de infra-estrutura e na modernização dos equipamentos urbanos, que alteram o valor do solo e produzem melhorias nas moradias já valorizadas, tornando o solo cada vez mais inacessível para uma camada cada vez maior da população (VAZ, 1991, p. 140). A contradição e o antagonismo na distribuição da população estão expressos na paisagem urbana, onde a desigualdade pode ser vista na diferença das construções, no padrão “informal” de moradia, na presença de infra-estrutura e no acesso aos meios de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA consumo coletivos (CARLOS, 1994, p. 52). A segregação social expressa na paisagem urbana reflete também a distribuição do poder social na sociedade, segundo Ribeiro (2004, p. 27), entendendo esta distribuição também como a capacidade diferenciada de atuação dos grupos e classes na obtenção dos recursos urbanos Uma das expressões mais claras da desigualdade social nas cidades, se encaixando muito bem no caso do Rio de Janeiro é a presença das favelas, áreas voltadas para uma população economicamente desfavorecida, onde existe grande deficiência de infraestrutura e meios de consumo coletivos8. A favela se expressa como o exemplo máximo de exclusão nas cidades, e este processo tende a aumentar cada vez mais com as atuais modificações nas relações de produção, com o aumento do desemprego em um nível internacional, a atuação dos organismos internacionais e a implantação de um modelo econômico e de desenvolvimento baseado na ideologia neoliberal, com a diminuição da atuação do Estado na promoção de infra-estrutura e de políticas sociais, tem promovido um aumento na pobreza e no processo de 8 favelização no mundo. Acreditava-se que um modelo de Temos que levar em consideração aqui a heterogeneidade das favelas, principalmente as favelas cariocas. No texto, estamos falando de forma geral, mas olhando alguns casos específicos é possível observar favelas bem servidas de infra-estrutura e de equipamentos coletivos, baseados nas observações do campo e nos dados fornecidos pela IPP e pelo IBGE, que mostra favelas, com quase 100% dos domicílios servidos de água e rede de esgoto, além da presença de praças, parques, escolas, etc. 50 desenvolvimento baseado no crescimento econômico conduziria à redução das desigualdades sociais, mas na prática o modelo desenvolvimentista deixou claro que não tem compromisso com a integração social (DAVIS, 2006, p. 71; VAINER & SMOLKA, 1991, p. 24). É preciso deixar claro que o aumento da pobreza ocorre em uma escala global, mas as conseqüências do processo são tratadas somente na escala do local, tornando importante o entendimento de que as modificações nas relações de produção ocorrem em todos os lugares e podem ser apontadas como uma das causas da escalada da pobreza nas grandes cidades, sendo necessário tratar da causa, tratar de diminuir a desigualdade social e a desigualdade entre as regiões do planeta, sem PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA deixar de lado as especificidades na reprodução do espaço urbano de cada lugar (PRÉTECEILLE, 1994, p. 67). Para analisar estas causas, devemos buscar as teorias gerais sobre a produção da pobreza, mas sempre buscando as explicações também na lógica da reprodução do capital e nas características locais dos lugares onde a pobreza está sendo reproduzida e ampliada (op cit, 2004, p. 12). O surgimento das favelas nas cidades esta relacionado com uma luta pelo espaço, com o esforço de grupos sociais de baixa renda para permanecer no urbano, onde existe maior possibilidade de estar próximo ao local de trabalho. Com o alto valor do solo, as áreas não valorizadas pelos agentes imobiliários tornam-se local de moradia, espalhando-se por todo o urbano e participando do processo de crescimento das cidades. As favelas revelam a resistência do urbano em absorver uma população de baixa renda e a determinação de uma população excluída e que tem seu direito à moradia negado devido ao alto preço do solo. “A favela é uma permanente denúncia do sistema de práticas sociais contraditórias que ameaçam a ordem estabelecida, isto é a ordem urbana” (MEYER, 1978, p. 154). Para Sherrard (apud HARVEY, 1980, p. 64), a favela é abrigo coletivo dos vencidos, e no esforço competitivo pelos bens urbanos as áreas faveladas são também as vencidas em termos de escolas, negócios lojas de quinquilharias, ruas iluminadas, livrarias, serviços sociais, além de tudo o que é comumente útil, e sempre com pouca 51 oferta. A favela então é uma área onde a população carece de recursos para competir com sucesso, e onde coletivamente há a necessidade de controle sobre os canais através dos quais tais recursos são distribuídos ou mantidos. Fica clara aqui a idéia da favela como resistência, como a luta de uma população sem recursos para se manter no valorizado solo urbano, que busca alternativas para a sua sobrevivência. Queremos aqui rechaçar a idéia de uma visão da favela como patologia, como algo que precisa ser combatido e desaparecer da paisagem urbana, até porque não é isso que ocorre na prática. As cidades utilizam as áreas faveladas como reserva de mão-de-obra barata, como uma necessidade de exploração e exclusão PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA necessária a reprodução do capital. Nestas observações percebemos uma contradição fundamental, a favela vista como algo indesejável, algo que não é o urbano que não compartilha da ordem urbana, mas ao mesmo tempo importante para a reprodução ampliada do capital. Este conflito expressa-se a partir de representações da favela no imaginário social, sendo a favela um mundo diferente que surge na paisagem urbana, que vai contra a ordem social estabelecida (VALLADARES, 2005, p. 28). A favela, portanto, não é considerada como pertencente ao urbano, é vista como uma desordem, mas está materializada na paisagem das cidades. No Rio de Janeiro, o processo de exclusão da população pobre se inicia ainda no processo de formação da cidade, quando a área urbanizada ainda era bastante restrita ao centro da cidade. A população pobre encontra como possibilidade de moradia os cortiços e, posteriormente, as áreas de encostas, constituindo-se assim as primeiras favelas na cidade. No caso da Zona Sul, que se constituiu como uma área destinada a atuação do capital imobiliário associado ao Estado, surgem também importantes áreas de concentração da população pobre, constituindo enclaves de população de baixa renda nos bairros voltados para classes sociais abastadas, sendo esta ocupação “tolerada” pelos agentes imobiliários e pelo Estado. A explicação para esta tolerância nos é apontada por Lago (2000, p. 40), quando afirma que “a favela seria uma estratégia de inserção dos pobres no mercado de trabalho”. As favelas da 52 Zona Sul seriam uma reserva de mão-de-obra desqualificada nas proximidades dos locais onde mais se utilizava esse tipo de mão-de-obra. Bairros como Copacabana e Leme, já na década de 1930, recebiam grande número de migrantes, principalmente nordestinos, que vinham trabalhar na construção civil e que ocupavam as áreas de encosta dos bairros, dando origem às favelas hoje existentes. A cidade do Rio de Janeiro passa, portanto, por um intenso processo de favelização, mas que ocorre em uma lógica um pouco diferenciada de outras grandes cidades. Na cidade do Rio de Janeiro, e principalmente na Zona Sul, o processo de segregação é marcado por uma distância social com uma proximidade física. Diferentes grupos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA sociais estão presentes dentro da mesma área, que se apresenta, portanto, bastante heterogênea quanto aos grupos sociais presentes. Apesar da proximidade física, não significa que exista interação entre os grupos, que ambos participem do cotidiano dos bairros. Os equipamentos urbanos dos bairros da Zona Sul, voltados para grupos sociais de alta renda, são voltados para atender as necessidades deste grupo, não atendendo as necessidades dos grupos de baixa renda (RIBEIRO, 2002, p. 84; LAGO, 2002, p 155). Ainda sobre estes apontamentos, Lago (2002, p. 155) afirma que nas últimas décadas surgem novas representações sobre o urbano que se manifestam em um novo tipo de segregação urbana devido ao surgimento dos espaços de confinamento (shoppings, condomínios fechados), que apresenta por um lado, a redução da escala da segregação e a conseqüente “aproximação” entre os grupos sociais, e por outro lado, “a redução do grau de interação entre grupos socialmente distintos em função do confinamento dos grupos superiores em espaços privados e da estigmatização dos espaços da pobreza como espaços da violência”. O processo de favelização que ocorre nas grandes cidades é conseqüência do fracasso de diferentes políticas habitacionais e do planejamento urbano, além do intenso processo de mercantilização do 53 solo e alto custo de moradia9, pois não é interessante para os agentes responsáveis pela reprodução do espaço urbano se preocupar com melhorias nas áreas de população de baixa renda. A preocupação com a questão das favelas, principalmente nos países subdesenvolvidos, foi crescente no século XX, e cada vez mais se torna preocupante o crescimento da população favelada, uma população completamente à margem dos recursos básicos de sobrevivência. Esta preocupação aumenta também devido à questão do aumento da violência nos países pobres, onde a violência está associada aos processos de segmentação territorial, pois separa as classes em espaços de abundância e integração e espaços de concentração da população em situação de exclusão social PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA (RIBEIRO, 2004, p. 10). O que tentamos deixar claro aqui nesta discussão teórica é que entendemos o espaço urbano como marcado por conflitos e contradições, e salientamos aqui como exemplo máximo desta contradição a presença de áreas faveladas em grandes metrópoles, que ocorre devido ao processo de reprodução do espaço urbano estar marcado pela contradição entre os interesses de reprodução do capital e os interesses da sociedade como um todo, utilizando como exemplo a Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. 2.5 – A dimensão do cotidiano como categoria de análise Para nos guiar nesta discussão conceitual, tomamos por base as idéias de Henri Lefebvre sobre o cotidiano e as representações e sua importância na formação da sociedade atual. Não buscamos definir um conceito fechado sobre o cotidiano, mas sim abrir uma possibilidade de discussão sobre o espaço urbano e a sociedade organizada nesse espaço, fazendo uma leitura da vida cotidiana na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. 9 Vaz (1991, p. 138), citando Benjamin (1985), faz uma interessante análise sobre como o espaço torna-se mercadoria ao longo da história da humanidade, quando o valor de troca do solo e da habitação sobrepõe-se ao valor de uso. 54 Segundo Lefebvre (1991, p. 82), “a cotidianidade seria o principal produto da sociedade dita organizada, ou de consumo dirigido, assim como sua moldura, a modernidade”. Para pensarmos a importância da dimensão do cotidiano na produção do espaço urbano e da sociedade, temos de pensar inicialmente em como esta sociedade está organizada. Na sociedade atual, predominam relações sociais de produção desiguais e a luta de classes, em que o objetivo e a legitimação da sociedade estão baseados na satisfação e no consumo. A reprodução das relações sociais e da luta de classes se dá na apropriação do espaço e na vida cotidiana. A cotidianidade é construída historicamente, onde se cria um jogo de poderes que garante a manutenção da reprodução econômica e social PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA citada anteriormente. O cotidiano, segundo Costa e Heidrich (2007, p. 83), constitui-se por uma estrutura social de atividades banalizadas mas que, em suas profundezas, representam uma complexa trama histórica de produções ideológicas e materiais que servem como mecanismos de reprodução de poderes que abarcam e alienam os indivíduos transformando-os em atores sociais. Para garantir a manutenção da ordem atual, a sociedade capitalista cria símbolos e ferramentas para garantir a reprodução das relações sociais de produção, tendo o cotidiano transformado estas relações em “banais”. O cotidiano se apropria da criação, da liberdade, do consumo, transformando-os em mercadoria. O papel da alienação aqui é fundamental, que tende para uma totalidade, e busca inclusive apagar a própria consciência da alienação. A alienação faz com que as pessoas não consigam diferenciar satisfação de consumismo. A sociedade atual, dita de consumo, é baseada na satisfação de coisas (objetos), de prazer, de lazer, e também de espaço. Lefebvre (1991, p. 89) faz uma análise interessante sobre esta questão da satisfação e do consumo: A necessidade se compara a um vazio, mas bem definido, a um oco bem delimitado. O consumo e o consumidor enchem esse vazio, ocupam esse oco. É a saturação. Logo que atingida, a satisfação é 55 solicitada pelos mesmos dispositivos que engendraram a saturação. Para que a necessidade se torne rentável, é estimulada de novo, mas de maneira um pouquinho diferente. As necessidades oscilam entre a satisfação e a insatisfação, provocadas pelas mesmas manipulações. Desse modo, o consumo organizado não divide apenas os objetos, mas a satisfação criada pelos objetos. Podemos pensar que existe, portanto, um constante mal-estar, uma eterna insatisfação. Lefebvre (1991, p. 89) já aponta que este malestar veio “acompanhado de uma crise de valores, das idéias, da filosofia, da arte e da cultura”, formando um cotidiano que se apropria facilmente do desejo. O autor descreve também o papel da publicidade na formação PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA da cotidianidade. A publicidade fornece uma ideologia do consumo, “uma representação do” eu “consumidor que se satisfaz como consumidor”, baseia-se em uma existência imaginária das coisas. A publicidade não separa o consumo de objetos do consumo de signos, imagens e representações (LEFEBVRE, 1991, p. 100). Lefebvre faz uma discussão importante sobre como o consumo chega a cada camada social e como a classe trabalhadora consome grande quantidade de signos, assim como a classe média, submetida a imagens das quais ela é somente expectadora. Trazendo esta discussão da sociedade para a reprodução do espaço urbano, podemos afirmar que o cotidiano, o vivido, colabora para que a cidade se organize de forma hierárquica, com lugares “destinados” a cada camada social, conforme observamos na Zona Sul. Isto envolve também uma discussão de consumo do espaço, onde lugares são transformados em aprazíveis ou desprezados pela sociedade, onde surgem lugares segregados. Segundo Carlos (2005, p. 194), “o cotidiano aparece enquanto construção da sociedade, que se organiza segundo uma ordem fortemente burocratizada, preenchido por repressões e coações”. É no cotidiano que é possível entender a contradição fundamental entre o espaço vivido e o espaço concebido. É no nível do cotidiano que está a reprodução da vida em sociedade, que revela que o homem habita o espaço ativamente. Neste sentido, concordamos com 56 Santos (2008, p. 315) quando afirma que o cotidiano permite o entendimento do mundo vivido, onde a questão simbólica ganha visibilidade e os conflitos emergem. Fica claro assim porque a dimensão do cotidiano torna-se fundamental para entender os conflitos e contradições que se expressam no espaço urbano da cidade do Rio de Janeiro. A cotidianidade, realizada individualmente e subjetivamente, tem influência fundamental na formação da sociedade atual, marcada pela desigualdade social. O cotidiano, a vida que se realiza no dia-a-dia, submetida a uma estrutura econômica, social e política, nos serve aqui para tentar explicar como a cidade materializa os interesses de uma sociedade marcada pela PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA exploração, pela desigualdade e pela luta por sobrevivência e liberdade. Dentro desta ordem rígida surgem contextos sociais que se diferenciam, mas que permanecem controlados a partir de normas e procedimentos. O vivido permite esta interação e esta tentativa de fuga, mas que permanecem abafados, sob a “homogeneidade” da vida urbana. Além disso, é na cotidianidade vivida que surge a possibilidade de transformação social e de luta por justiça social. Esta dimensão permite que surjam grupos de resistência, grupos de pessoas que percebem seu cotidiano e o negam. Estes grupos se multiplicam na atualidade, sob a forma de ONGs, movimentos sociais, como forma da sociedade de participar diretamente da distribuição, ou da contestação, da geração da riqueza e do poder. Determinados movimentos sociais de cunho urbano caracterizam a “resistência à imposição de uma cidade como mercadoria, construída a partir de consensos que despolitizam as mobilizações, reforçam o reclamo referente ao direito à Cidade e à justiça social” (MARTINS, 2009, p. 34). O cotidiano, portanto, nos permite o olhar próximo da realidade, do vivido, e se expressa como campo de luta a partir de sua negação (Foto 03). Foto 3 – Cena do Filme Hiato – 2000 57 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Fonte: site youtube.com O documentário Hiato (2000) traz uma reflexão sobre o abismo entre as classes sociais do nosso país e a forma como se relacionam. O filme mostra o grande hiato entre as classes, quando movimentos sociais se organizaram para uma visita a um famoso shopping em São Conrado, na zona sul da cidade, com lojas de grifes nacionais e internacionais, e sofreram forte repressão policial, alem de serem rechaçados também por lojistas e freqüentadores do shopping. 2.6 – O direito à cidade O espaço urbano é a marca da sociedade que o produz, sendo constantemente transformado. A produção do espaço capitalista gera conflitos e contradições, conforme nos aponta Carlos (2006, p. 286) quando diz que “o conflito é produto da contradição entre o espaço vivido como valor de uso e o espaço que se reproduz, tendencialmente, como valor de troca; um conflito que se desenvolve na vida cotidiana e se manifesta como problema espacial. (...) Esse conflito é prático (social)”. Se a cidade e o urbano têm a capacidade de influenciar na organização da sociedade no espaço urbano, é necessário que se discuta o acesso aos diferentes equipamentos urbanos, ao lazer, a reunião, a informação pelos diferentes atores sociais, e como este acesso se dá de forma desigual. A cidade reproduz e expressa, portanto, toda a 58 desigualdade existente na sociedade capitalista, e o direito à cidade fica assim comprometido. De acordo com Buonfiglio (2007, p. 01) “o conteúdo radical do direito à cidade nos abre uma perspectiva de análise da cidade como objeto de luta”. A cidade, a vida cotidiana e o imaginário social vindo desta cotidianidade abrem um campo para discutirmos o direito à cidade, tanto por meio material, com implantação de infra-estrutura urbana e moradia digna, quanto por meio imaterial, através da luta de cada grupo pela produção do seu próprio espaço. (MARTINS, 2009, p. 34) O que entendemos aqui como direito à cidade, como direito à vida urbana, direito aos equipamentos urbanos, ao controle do território, direito PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA à atividade criadora, simbolismo, à atividades lúdicas. O direito a cidade deve passar pela participação na formação do território e pela real apropriação do grupo social sobre o território que ele ocupa. O direito à cidade “deveria modificar, tornar mais concretos e práticos os direitos do cidadão, tornado citadino, usuário de múltiplos serviços” (LEFEBVRE, 1991, p. 8). O direito à cidade é visto como uma utopia, ou utopiano, como aponta Lefebvre (2008, p. 34), algo que deve ser constantemente buscado, desejado, pensado à perfeição. Segundo Harvey (2006, p. 239240) a alternativa que corresponde melhor a contemporaneidade é a busca por um utopismo espaço-temporal (utopismo dialético), onde “a produção do espaço e do tempo terão de ser incorporadas ao pensamento utópico”. Negando teorias utópicas que vêem o espaço como uma forma espacial fixa, como uma produção pensada e desenvolvida pelos atores sociais dominantes e pelo Estado, Lefebvre e Harvey apontam que a produção do espaço deve permanecer uma possibilidade aberta. O direito à cidade deve ser incluído no planejamento urbano, mas para que seja efetivo é necessário que ocorram profundas mudanças nas relações sociais, incluindo o modo de produção (LEFEBVRE, 2008, p. 34). O que queremos enfatizar nesta discussão é o quanto é importante o domínio e a apropriação do território pelos usuários desse espaço. Já demonstramos aqui o quanto é importante esta apropriação para a 59 utilização do espaço como um instrumento. Lefebvre (1991, p. 104) chama a atenção para a necessidade criadora, de obra, de concepção do espaço de moradia, de convívio e de reunião. Neste sentido, concordamos com Harvey (2009, p. 3) quando diz que não é possível solucionar os problemas urbanos e os conflitos pelo solo urbano se não for garantida a participação dos cidadãos nos processos de produção e configuração das cidades, e que o direito à cidade envolve, portanto, o direito de participar da produção e da reprodução do tecido urbano de forma a atender as necessidades da massa da população. A questão do direito à cidade passa, portanto, pela luta dos diferentes grupos sociais pelo domínio e apropriação do espaço urbano PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA nas grandes cidades capitalistas. Desta luta surgem espaços segregados e locais onde surgem pequenas formas de resistência. A luta das classes por melhores condições também envolve naturalmente a busca pela melhor localização espacial e a utilização dos equipamentos urbanos. O espaço urbano capitalista, hoje, é marcado por essas características: uma aparente ausência de ordem, mas uma tendência à homogeneidade e ao mesmo tempo à diversidade (hierarquia) dos lugares, ou a homogeneidade do todo e a diversidade das partes, que se contrapõem na cidade e evidenciam uma relação dialética. O urbano é local de conflito entre classes sociais que disputam a apropriação do espaço, locus das relações sócias de produção, que geram grande desigualdade na organização do espaço. 60 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA 3. As favelas no Rio de Janeiro: Origem e situação atual Favela Macedo Sobrinho – removida em 1970 Barracão De zinco Sem telhado Sem pintura lá no morro Barracão é bangalô Lá não existe Felicidade De arranha-céu Pois quem mora lá no morro Já vive pertinho do céu (Herivelto Martins) 61 Para entender o processo de produção do espaço urbano na cidade do Rio de Janeiro e como este processo contribuiu para a atual organização do espaço, caracterizada pela intensa fragmentação social, é necessário voltar ao processo de formação da cidade, principalmente ao inicio de sua transformação em espaço adequado às exigências do modo de produção capitalista. Este período, correspondente a segunda metade do século XIX, nos interessa aqui devido ao seu papel transformador da cidade, de sua antiga forma colonial-escravista para uma cidade adequada aos interesses do capital e do Estado Republicano. Neste capítulo, buscaremos apresentar a formação e o desenvolvimento da cidade tendo como foco o objeto de estudo favela e PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA as contradições que envolvem a sua localização. As favelas surgem e se espalham pela paisagem de toda a cidade ao longo dos séculos XIX e XX, mas entendemos que estão inseridas na lógica da formação econômica e social da cidade. Por isso, optamos pela divisão do capítulo por tópicos para a melhor visualização do tema e do objetivo que nos propomos aqui. O entendimento das origens da favela e como elas se desenvolvem na cidade do Rio será importante para compreendermos os conflitos e contradições que envolvem a relação entre a favela e os bairros. 2.1 – O surgimento das favelas na paisagem carioca Segundo Abreu (1988, p. 35), é somente a partir da segunda metade do século XIX e início do século XX que a cidade passa por um processo de transformação em sua forma urbana, apresentando pela primeira vez uma estrutura de classes espacial marcada pela estratificação em termos de classes sociais. A abolição da escravatura, o surgimento da indústria e o incremento do comércio e serviços na área central da cidade fazem com que se solidifiquem as classes sociais e se inicie uma luta pelo espaço, gerando conflitos que vão se refletir claramente no espaço urbano da cidade. 62 O principal conflito vai surgir com a presença dos pobres na área central da cidade. Segundo Abreu (1988, p. 42), sede agora de modernidades urbanísticas, o centro, contraditoriamente, mantinha também sua condição de local de residência das populações mais miseráveis da cidade. Estas, sem nenhum poder de mobilidade, dependiam de uma localização central, ou periférica ao centro, para sobreviver. (...) A solução era então o cortiço, habitação coletiva e insalubre e palco de atuação preferencial das epidemias de febre amarela. Os cortiços, grandes casarões onde morava grande número de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA famílias, abrigavam cerca de 50% da população carioca no período entre 1850-70 (CAMPOS, 2004, p.53). No ano de 1866, proíbe-se a construção de novos cortiços e se instala a “ideologia da Higiene”, dando início ao processo de destruição dos cortiços. A população pobre vai sendo aos poucos expulsa do centro da cidade. O período que nos chama atenção aqui é o que corresponde ao fim dos cortiços na área central, pois este período significa um momento marcante de exclusão social dos pobres na cidade do Rio de Janeiro. Concordamos com Vaz (1991, p. 140) quando aponta que ocorreram três momentos principais de exclusão social na evolução urbana da cidade: a proibição e demolição dos cortiços, as reformas e modernização da área central e o código de obras de 1937, que adotou a verticalização como solução para o problema da moradia, ratificando seu caráter elitista e lançando a moradia da classe de baixa renda na ilegalidade. É a partir da condenação e proibição dos cortiços que vamos analisar a evolução das favelas na cidade do Rio de Janeiro. Esta população, conforme Abreu ressalta, não podendo se afastar do centro da cidade, de uma maior concentração de ofertas de trabalho, vai buscar outras formas de se manter no centro, surgindo então as primeiras favelas. O desenvolvimento urbano da cidade e a falta de mobilidade do pobre fazem com que se torne fundamental para ele permanecer nas áreas centrais, independente das condições de habitação que são “oferecidas”. Segundo Lessa (2005, p. 291), “prevalecerão a busca de proximidade com o mercado de subsistência e a 63 redução de tempo de deslocamento, em detrimento da densidade e insalubridade nos ex-quilombos, cortiços e favelas.” Segundo Abreu e Vaz (1991, p. 2), PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA o aparecimento da favela está intimamente ligado a todo um conjunto de transformações desencadeadas pela transição da economia brasileira de uma fase tipicamente mercantilexportadora para uma fase capitalista-industrial. (...) Trata-se do momento em que a economia cafeeira fluminense entra em crise (...) reorientando toda uma estrutura já consolidada de comportamento do capital mercantil; do momento em a cidade passa a ter um crescimento demográfico extremamente rápido (fruto de migrações internas e estrangeiras) que agravava sobremaneira a questão habitacional. A tese mais difundida a respeito do processo de formação das favelas é a de que a primeira favela surge com a chegada dos soldados que combateram em Canudos e ocuparam as encostas do Morro da Providência (que ficou conhecido como Morro da Favela, dando origem a denominação) e de Santo Antônio a partir de 1897, ainda na área central, revelando-se a primeira contradição, que é a falta de moradias suficientes para atender a população que chegava à capital do país. Inicia-se assim, segundo Abreu (1988, p 36) uma separação dos usos e das classes na cidade. Foto 4 – Morro da Favella, início do século XX Fonte: site favelatemmemória.com.br 64 Foto 5 – Morro de Santo Antonio – 1914 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Fonte: KOK, Glória. Rio de Janeiro na época1 As imagens mostram os primeiros morros ocupados na região central pela população pobre da cidade. O morro da Favella estava localizado logo atrás do principal cortiço da cidade, o “Cabeça de Porco”, e onde hoje se localiza a favela da Providência. O morro de Santo Antônio foi parcialmente demolido para a construção do Aterro do Flamengo e para a abertura de duas grandes vias na cidade, sendo a população retirada do local. Chama atenção nas fotos a precariedade das construções (basicamente de madeira e zinco) e a falta de qualquer infra-estrutura urbana. 2.2 – A expansão das favelas: Subúrbio e Zona Sul A implantação dos trens e dos bondes vai ajudar a orientar esta separação, sob o “comando” do Estado e dos proprietários dos meios de produção, permitindo a efetiva expansão da cidade e o espraiamento da população para novas áreas da cidade. Segundo Abreu (1988, p. 43), o período entre 1870 e 1902 representa a primeira fase de expansão acelerada da malha urbana carioca. No início do século XX, os trens vão ser fundamentais para a ocupação das áreas suburbanas da cidade, enquanto os bondes, sendo implantados por empresas privadas, em geral internacionais, vão orientar a ocupação da Zona Sul da cidade. Neste período já estava se 1 Disponível na internet no site www.educacaopublica.rj.gov.br/.../image008.gif 65 delineando a ocupação da Zona Sul pelas classes sociais mais abastadas da época. Onde antes se tinham pequenas chácaras de fim de semana e pequenas comunidades pesqueiras, começam a surgir alguns dos mais importantes bairros da cidade, voltados para atender as classes de mais alta renda. A Reforma Passos, ocorrida no início do século XX, foi fundamental para determinar a expulsão dos pobres do centro da cidade. Ao abrir grandes espaços, alargar ruas e destruir cortiços que ainda restavam, a PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA administração Passos viabilizou então o desenvolvimento de sua própria negação, ou seja, a proliferação de um habitat que já vinha timidamente se desenvolvendo na cidade e que, por sua informalidade e falta de controle, simbolizava tudo o que se pretendeu erradicar da cidade. Este habitat foi a favela (ABREU e VAZ, 1991, p. 3). Foto 6 – Abertura da Avenida central – 1904-1905 Fonte: Fonte: KOK, Glória. Rio de Janeiro na época A imagem mostra a demolição de casas e cortiços na área central da cidade para a abertura da Avenida Central, no início do século XX. A avenida foi uma das mais importantes obras da chamada Reforma Passos, e contribuiu bastante para retirar do centro muitos cortiços e expulsar grande número de população pobre. 66 A presença da favela na área central e na Zona Sul da cidade se configura como uma importante contradição no espaço urbano. Já neste período, as classes sociais mais abastadas começaram a ir em direção a Zona Sul da cidade, na área litorânea, já no final do século XIX, quando se difunde a idéia da praia como amenidade, como local de práticas esportivas e saudáveis, chamando atenção também a possibilidade de um maior contato com a natureza. Bairros mais próximos ao centro, como Glória e Catete, sempre receberam esta população mais abastada, sendo seguidos por Botafogo já na metade do século. É importante lembrar também que este movimento das classes mais altas da sociedade carioca para a chamada Zona Sul foi acompanhado de perto pelo Estado e pelos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA agentes imobiliários, que ao mesmo tempo em que produziam o espaço voltado para as classes altas, criavam assim condições para a chegada de trabalhadores pobres aos locais reservados às classes altas. A ocupação da Zona Sul, portanto foi pensada, planejada e financiada pelos agentes de reprodução do espaço urbano que desejavam a reprodução do capital e atender as necessidades de uma população de alta renda, e que permitiram também a presença e ocupação de trabalhadores pobres no local para atender a demanda de mão-de-obra. O Estado sempre esteve presente no processo de urbanização da Zona Sul, dotando da infra-estrutura necessária para a ocupação das classes altas. É importante aqui ressaltar que estas áreas não eram totalmente desabitadas antes da ocupação pelos promotores imobiliários. Além de algumas residências de classes altas, havia no local pequenas populações de pescadores (Copacabana) e residências pobres (Lagoa). Ao longo da ocupação da área pelos agentes imobiliários e pelo Estado, estas populações foram expulsas. A expansão para o restante da Zona Sul ocorreu na segunda década do século XX. A partir da década de 1920, iniciou-se a ocupação de Copacabana, sendo impulsionada pela construção do Hotel Copacabana Palace, pelo chamado Túnel Velho, ligando Botafogo a Copacabana, e pela instalação de uma linha de bonde integrando todo o bairro (a linha data do final do século XIX). Neste período, iniciou-se também a construção de um loteamento voltado para as classes altas da 67 sociedade para a ocupação de Ipanema e Leblon. Também neste período, a chegada do Bonde até a freguesia da Gávea permitiu sua efetiva ocupação. O Mapa 01 mostra a localização da área referente à PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. 68 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Mapa 01: bairros da zona sul na cidade do rio de janeiro Zona Sul 69 2.3 – A Chegada do migrante O desenvolvimento da área central e da Zona Sul e a expansão industrial ocorrida no início do século XX vão atrair grande número de migrantes e população pobre para a cidade, que teve grande incremento populacional nesse período. O Estado, voltado para atender aos interesses do capital industrial e imobiliário, não desenvolveu políticas habitacionais que dessem conta desse grande quantitativo populacional pobre que a cidade recebeu. A cidade do Rio de Janeiro, como capital do Império e da república, sempre possuiu um importante potencial de atração de pobres em busca PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA de melhores condições de vida e possibilidades mobilidade vertical. Segundo Lessa (2005, p. 292), a metrópole carioca desde o século XX, assim como outras metrópoles, possuem intensa atração da pobreza, e nesse momento principalmente a pobreza rural, porque, segundo Lessa (2005, p. 293), a metrópole Apesar de toda a precariedade, eleva o padrão de bem-estar e a acessibilidade aos serviços sociais. A metrópole, quando cresce, é um canteiro de obras e um espaço de possibilidades que atrai, continuamente, mão-de-obra livre e pobre das cidades menores e da zona rural. A cidade atraiu grande contingente de migrantes, desde o início do século XIX2, principalmente de portugueses, tendo sendo o Rio de Janeiro o principal destino deste grupo. Já na segunda metade do século XX este fluxo diminui, ganhando força o fluxo de migrantes de outras regiões do país, principalmente do Nordeste. É importante aqui destacar que essas levas de imigrantes, principalmente nordestinos, vão dar origem a novos pontos de concentração de população pobre e, consequentemente a novas favelas, pois “a população de uma região povoada pela pobreza e consolidada no tecido urbano cresce com sua 2 Cabe destacar aqui a importância de outras cidades e regiões do Brasil como receptoras de imigrantes. São Paulo merece destaque pela importância do café e da indústria, e foi o local que recebeu o maior número de imigrantes no país, tendo hoje marcada em sua paisagem a influência destes grupos. 70 reprodução interna e assimila poucos novos migrantes. As ondas de recém-chegados irão multiplicar novos pontos de concentração de pobreza” (LESSA, 2005, p. 293). As redes familiares de migrantes nordestinos que se formam nas favelas vão incrementar ainda mais a população favelada na cidade do Rio, visto que as redes funcionam como mecanismo de acesso a moradia e de inserção no mercado de trabalho de forma mais rápida (LAGO E RIBEIRO, 2001, p. 36). Estas redes persistem até hoje, visto que grande parte dos entrevistados nas favelas em nossas visitas são oriundos das mesmas localidades do Nordeste do Brasil, além de dados do CENSO 2000 que comprovam que as favelas da Zona Sul da cidade tiveram um incremento de 40% de sua população no PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA início da década de 1990, enquanto outras regiões da cidade registram um número muito pequeno de migrantes Nordestinos no mesmo período, o que comprova a persistência e a importância das redes familiares para a vinda destes imigrantes para a cidade do Rio de Janeiro (LAGO, 2003, p. 126). A questão da formação econômica da cidade ao longo dos últimos séculos tem importância para entendermos quem é o pobre na cidade hoje e porque se formam importantes núcleos de concentração de pobreza por todas as áreas da cidade. Entendemos que para entender o processo de favelização é preciso pensá-la em um contexto maior, de desenvolvimento econômico. Recorremos então novamente a Lessa (2005, p.305) para tentar entender quem é o favelado no Rio: a chaminé industrial não está na silhueta do Rio. O Rio é marcado pela favela, com forte e imediata associação à pobreza. A favela coloca sob foco o pobre, e em segundo plano o operário. (...) Para o entendimento do fenômeno em sua manifestação pioneira na cidade do Rio, é necessário pensá-la no bojo da urbanização que a cidade sofreu pósRevolução Industrial. A urbanização do Rio, intensa e assimilando as inovações da modernidade, não foi acompanhada por uma intensa industrialização. É isso que diferencia a favela do Rio da clássica população miserável de qualquer grande cidade asiática. 71 Fica claro aqui que o pobre na cidade do Rio de Janeiro não foi o operariado, visto que este ocupava pequena parcela da população na cidade. A maior parte da população carioca, principalmente a que residia nas proximidades do centro e da Zona Sul, estava ocupada no setor de serviços, sendo predominantes as atividades ligadas a administração pública, o que veio a gerar uma demanda por um contingente direta e indiretamente ligado ao padrão de vida dos grupos abastados da população. No início do processo de favelização da cidade, fica claro que a população pobre vai procurar se localizar à retaguarda das classes sociais com maior poder aquisitivo e vai subsistir como mão-de-obra de diferentes atividades para os grupos sociais abastados3, fato que PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA permanece até hoje, com a permanência dos moradores de favelas essencialmente como trabalhadores de serviços, conforme aponta a Tabela 01 (LAGO E RIBEIRO, 2001, p. 36). Tabela 01 - Perfil sócio-ocupacional da população ocupada e do migrante nordestino ocupado, residentes nas favelas da zona sul e da zona norte no município do Rio de Janeiro, 1991 Favelas da Zona Sul e Norte Pop. Residente Categorias socioocupacionais Pequena Classe média Operário Prolet. Terc. Subprolet. burguesia 1,30% 3,40% 17,00% 20,90% 37,30% 19,80% Elite Migrante NE 0,40% 0,70% 6,40% Fonte: Censos Demográficos, FIBGE; Iplanrio, 1991. 15,70% 59,70% O crescimento da cidade veio acompanhado de uma grande contradição: a falta de moradias para os pobres. Inicia-se aí a crise habitacional e o processo de favelização em toda a cidade do Rio de Janeiro, que vai culminar em grandes problemas e conflitos sociais na atualidade. O crescimento da população da favela se mostrou muito mais intensa do que no restante da cidade. Segundo apontam Ribeiro e Azevedo (1996, p. 14), “a população residente em favela cresceu 27,8% entre 1970 e 1980, enquanto a população total aumentava 19,7%”, o que demonstra a incapacidade do mercado de moradias e a ausência de 3 Sobre este assunto ver também LAGO, Luciana Correa. Desigualdade e Segregação na Metrópole. 16,90% 72 políticas públicas voltadas para a habitação no atendimento da demanda da população pobre, além dos migrantes que chegavam à cidade (Tabela 02). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Tabela 02 – Crescimento da população total e residente em favela no município do Rio de Janeiro, 1950/1991 Cresc. Pop. Cresc. Pop. RJ a.a Fav. a.a Pop. fav./ pop. RJ Anos pop. RJ pop. Favel. 1950 2.375.280 169.305 – – 7,13% 1960 3.300.431 335.063 3,34% 7,06% 10,15% 1970 4.251.918 565.135 2,57% 5,37% 13,29% 1980 5.090.723 722.424 1,82% 2,49% 14,19% 1991 5.480.768 962.793 0,67% 2,65% 17,57% Fonte: Censos Demográficos, FIBGE; Iplanrio, 1991. Conforme dados da Tabela 02, a população moradora de favela apresentava um ritmo de crescimento intenso a partir da década de 1950, enquanto os demais moradores começaram a apresentar um ritmo de crescimento bem menor a partir da década de 1980. Vale destacar também que o ritmo de crescimento da população favelada também diminuiu a partir desta década, provavelmente impulsionada pela diminuição da chegada de imigrantes nordestinos na cidade. Segundo Lago e Ribeiro, (2001, p. 34) as razões que explicam essa diminuição do crescimento da população favelada na cidade foram os loteamentos periféricos, com baixos investimentos em infra-estrutura e comercialização à longo prazo, o que tornou-se o principal meio de acesso dos pobres à casa própria, além da política de remoções da década de1960 e 1970. 2.4 – A favela ganha destaque no cenário carioca: A atuação do poder público A evolução do crescimento das favelas ao longo do século XX foi notável. “De um início discreto, a favela impôs sua presença efetiva no 73 espaço urbano e no imaginário do Rio de Janeiro a partir dos anos 20” (Lessa, 2005, p. 296). A partir dos anos de 1930 as favelas ganham maior visibilidade na cidade. O Plano Agache foi o primeiro documento oficial a citar a presença de favelas no Rio de Janeiro, quando esta presença já começava a incomodar. No censo de 1948, já se registrava uma população de 138.837 habitantes morando em 105 favelas, o que representava 7% da população da cidade. As favelas estavam distribuídas por toda a cidade, sendo os pontos de maior concentração a Zona Norte (29,5%) servida pelo trem, a área central (22,7%) e a Zona Sul (20,9%) (VALLADARES, 1978, p. 22). Durante o período que vai de 1945 à 1965, surgem novos conflitos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA em relação as áreas valorizadas da cidade e a presença de população pobre nessas áreas. As favelas, apesar de incômodas, serviram como instrumento político, como campo de atuação de políticos, que ofereciam barganhas para os favelados em troca de votos, que nessa época representavam quase 10% da população carioca. A favela passa a ter, portanto, maior visibilidade no cenário político e cultural da época. Na década de 30, o samba, nascido na praça Onze e subindo a favela posteriormente, passa a figurar nos principais circuitos da música carioca, assim como as escolas de Samba, até hoje muito ligadas as favelas, passam a fazer parte do programa oficial do carnaval da cidade (BURGOS, 2004, p. 26). No campo da política, as favelas são reconhecidas como campos de possíveis tensões. Conforme nos aponta Valladares (1978, p. 26), “as favelas constituíram um campo fértil para a demagogia política (...) [pois] os políticos tornaram-se verdadeiros intermediários entre a população local e o 'mundo de fora', de onde provinham os recursos e os serviços”. É neste contexto de tentativa de controle e de clientelismo que surgem os parques proletários, primeira política habitacional do governo para a população de baixa renda, onde os habitantes das favelas eram vistos como “almas necessitadas de uma pedagogia civilizatória” (BURGOS, 2004, p. 28), sendo submetidos a diferentes mecanismos de controle, como fornecer atestados de bons antecedentes e sessões de lições de moral. Os Parques Proletariados da Gávea, Leblon e Cajú foram 74 construídos entre 1941 e 1943 e removeram cerca de 4.000 moradores, com a promessa de que a moradia no parque seria provisória, e que os moradores poderiam retornar para as áreas de onde foram removidos quando estas passassem por obras de urbanização. Os Parques Proletários acabaram funcionando como um mecanismo de fixação territorial de moradores de favela4, mas com a valorização dos bairros onde foram instalados, principalmente Leblon e Gávea, os moradores são removidos novamente para áreas menos valorizadas. O Parque Proletário da Gávea foi removido em 1970 e sua população foi fixada na Cidade de Deus. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Foto 07 – Remoção do Parque proletário da Gávea Fonte: site Favelatemmemória.com As imagens mostram a remoção do Parque Proletária da Gávea em 1970, dá área onde hoje funciona o 4 Segundo o site Favela Tem Memória, as condições de vida nos parques eram precárias, mas havia a presença do poder público com diferentes atividades. “Feitas de madeira, cobertas com telha vã e divididas em blocos, as casas proletárias não eram equipadas com cozinha, nem instalações sanitárias ou rede de esgoto, somente uma bica d’água. Mas os moradores tinham acesso a uma série de serviços gratuitos dentro do Parque, como cursos profissionalizantes, creche, posto médico e capela. Havia ainda banheiros e tanques coletivos para cada bloco de casas”. 75 estacionamento da Pontifícia Universidade Católica (PUCRio). A remoção do Parque veio na série de remoções de favelas da Zona Sul do Rio, e não cumpriu a promessa de retorno aos lugares de onde vieram, a maioria de favelas também da Zona Sul. Outros atores entram em cena neste momento para garantir a ordem pública, como é o caso da Igreja Católica, que apontava a favela como possível reduto de comunistas. A Igreja então cria a Fundação Leão XIII, em 1947, e em 1955, cria a Cruzada São Sebastião. A fundação Leão XIII, com interesses políticos claramente definidos (conforme pesquisa do SAGMACS: “é preciso subir o morro antes que de lá desçam PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA os comunistas”), tinha como objetivo “assegurar assistência material e moral aos habitantes dos morros e das favelas do Rio de janeiro, fornecendo escolas, creches, dispensários, maternidades, cantinas e conjuntos habitacionais populares” (Valladares, 2005, p.76). A igreja surge como alternativa para controle das massas, e com o fim da ditadura do estado-novo, a igreja assume o papel de intermediária entre as favelas e o poder público. Mesmo com a atuação da Igreja, surgem nas favelas as primeiras organizações de moradores (embriões das associações de moradores atuais), assim como a União dos Trabalhadores Favelados. As favelas começam a mostrar uma mínima organização e inclusive com a associação à partidos políticos (VALLADARES, 2005, p.76; BURGOS, 2004, p. 29). Os primeiros sinais de politização da favela expressam uma grande contradição na relação entre o poder público e os favelados, que sempre estiveram à parte da cidade, gerando assim a necessidade de uma maior atuação da Igreja. É quando surge a Cruzada São Sebastião, uma entidade com atuação mais intensa nas favelas, tendo como líder Dom Helder Câmara. Tinha como objetivo, segundo Valladares (2005, p. 77), promover, coordenar e executar medidas e providências destinadas a dar solução racional, humana e cristã aos problemas das favelas do Rio de Janeiro (...) mobilizar os recursos financeiros necessários para assegurar, em condições 76 satisfatórias de higiene, conforto e segurança, moradia estável para as famílias faveladas; colaborar na integração dos ex-favelados na vida normal do bairro. Enquanto a fundação Leão XIII atuou mais no sentido de cristianização e assistência moral às populações faveladas, a Cruzada São Sebastião desenvolveu suas atividades mais voltadas para as condições de moradia, realizando obras de urbanização, infra-estrutura e novas moradias. Suas obras mais importantes foram a construção do conjunto habitacional Cruzada São Sebastião, no Leblon, construído para abrigar parte da população removida da favela da Praia do Pinto, na PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Lagoa, obras de urbanização na favela Morro Azul, no Flamengo, e parque Alegria, além da instalação de redes de iluminação, esgoto e telefonia em mais de 50 favelas por toda a cidade. A presença da Igreja como forma de controlar e intermediar a relação entre o bairro e a favela era sentida tanto pelos moradores das favelas como pelos moradores dos bairros. Enquanto a Igreja estava presente de forma efetiva, a sensação era de controle e de ausência de conflitos, conforme observamos na fala de um antigo morador do bairro do Flamengo, das proximidades da favela do Morro Azul, que aponta a importância da Igreja para o controle da favela. Há 30 anos, um pároco da Igreja do bairro, da Santíssima Trindade, padre Paulo, ele cuidava, ele levava com mãos-de-ferro a favela. Não existia associação de moradores naquela época e todo mundo respeitava o Padre Paulo, inclusive a bandidagem. Essa favela tem uma característica também que ela tem um prédio enorme que foi construído pelo Dom Helder Câmara que plantou esse edifício no meio da favela. Isso fez, com o passar do tempo, que essa favela, o Morro Azul, fosse ainda sim respeitada, não tivesse grandes problemas e ela nunca evoluiu muito pra um grande foco de tráfico ou coisa parecida (...) A influência da paróquia era muito grande. 77 Fica clara na fala do morador o quanto foi importante a participação da Igreja no trabalho de urbanização e outros equipamentos urbanos na favela, assim como para garantir a boa relação com o bairro. O edifício citado na fala do morador foi construído pela cruzada São Sebastião dentro da área da favela como residência para alguns moradores que podiam pagar por uma moradia de baixa renda, recebendo ainda o nome do Pároco do bairro, edifício Padre Paulo. O morador entrevistado cita ainda a presença da Fundação Romão Duarte, uma creche que abriga PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA muitas crianças da favela e fica bem próxima dela. Foto 08 – Favela Morro Azul Foto: Marta do Nascimento, 2009. A foto mostra parte da favela do Morro Azul, com a vista da rua Paulo VI. A favela passou por uma urbanização parcial promovida pela Cruzada São Sebastião. A construção principal na parte central da foto é o referido prédio, com moradores da própria favela que adquiriram como moradia para baixa renda, o Edifício Padre Paulo. A atuação no poder público neste período (de 45 à 60), portanto, colaborou para manter a ordem e o domínio sobre as áreas de favela, 78 além de garantir a permanência das mesmas nas áreas mais valorizadas da cidade. Novamente, apontamos aqui o conflito entre os interesses do estado e do capital, principais agentes da produção do espaço urbano, e os interesses dos trabalhadores pobres urbanos, que sem grandes escolhas, estavam a disposição dos interesses dos primeiros. Mesmo assim, algumas favelas foram removidas para conjuntos habitacionais distantes, localizados no subúrbio, como a do Morro do Pasmado em Botafogo, removida em 1964, sendo seus moradores levados para Vila Kennedy, localizada no bairro de Senador Camará, na Zona Oeste da cidade. A implantação da ditadura militar no Brasil representou grandes PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA impactos na organização social e espacial da cidade, além do esvaziamento do poder político citado acima. A cidade esteve marcada pela implantação de grandes indústrias e grandes obras de infraestrutura, além da fusão do estado da Guanabara e do Rio de Janeiro. O período da ditadura militar foi de intensa repressão às favelas e à população pobre da cidade, sendo um período de muitas remoções de favelas, principalmente na Zona Sul. Sobre as remoções de favelas na Zona Sul falaremos de forma mais aprofundada no Capítulo 3, pois entendemos que representam uma das mais importantes contradições nas relações entre a favela e os bairros na área mais nobre da cidade. O período de 1960 a 1980 foi um período de muitas incertezas para a população favelada, marcado principalmente por remoções e intensa opressão política. As associações e organizações dos moradores que começaram a se formar na década de 1940 e 1950 foram completamente dissolvidas durante o período de repressão política. Além disso, as décadas de 1970 e 1980 foram particularmente difíceis para a cidade do Rio de Janeiro, dentro da lógica econômica do país, pois a cidade passou por um esvaziamento político e econômico devido à transferência da capital para Brasília. A política habitacional adotada pelo governo da ditadura foi um programa maciço de construções habitacionais, através do BNH e da Cohab (LESSA, 2005, p.314), que muitas vezes não atingia aos pobres e causou um aumento da favelização apesar das remoções. 79 Durante os anos de 1980, prevaleceu no Rio de Janeiro políticas sociais clientelistas e uma negação a prática de remoções. A prática clientelista adotada pelo governo Brizola representou também uma nova forma de se lidar com as favelas e os excluídos no Rio de Janeiro. Brizola desenvolveu então projetos que visavam a implantação de infra-estrutura (rede de água, saneamento e coleta de lixo), pois as favelas do Rio até este período possuíam infra-estrutura muito precária. Além disso, o programa mais importante do governo Brizola era denominado “Cada Família um lote”, que visava à regularização fundiária das moradias nas favelas (BURGOS, 2004, p. 42). O programa representou o primeiro projeto social com vias a assumir a presença da favela na cidade, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA tornando-as parte da cidade legal, funcionando como uma legitimação da favela na cidade. O início da década de 1980 representou, portanto, segundo Lago (2003, p 126), a “adoção de políticas de reconhecimento das favelas e dos loteamentos irregulares e clandestinos como solução dos problemas de moradia das camadas populares. Legitima-se a ilegalidade”. O governo Brizola representou também o momento da consolidação dos investimentos feitos pelos próprios moradores de favela em suas casas, representando a passagem do barracão de madeira e zinco à casa de alvenaria. A regularização dos imóveis na favela acabou de vez com a ameaça das remoções, principalmente na Zona Sul da cidade, onde as favelas estão em áreas privilegiadas quanto à acessibilidade e próximas do principal mercado de trabalho. As favelas então passam por um período de mudança, deixando evidenciado o poder de compra do pobre, visto que rapidamente as favelas foram tomadas por casas de alvenaria. Segundo Lessa (2005, p. 316), o efeito da política do governador Leonel Brizola pode ser notado através da intensa verticalização observada nas favelas do Rio, principalmente na Zona Sul, pois a alvenaria permitiu a construção de casas de dois e três andares, que se multiplicaram rapidamente. Hoje, é possível observar inclusive prédios em algumas favelas da cidade. Foto 09 – Prédio construído na Rocinha 80 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Fonte: Jornal O Globo, 16/03/09 Prédio sendo construído na favela da Rocinha, na Zona Sul do Rio de Janeiro, em 2009. As construções de prédios e casas de três pavimentos são muito comuns na Rocinha, assim como em outras favelas da cidade. A Zona Sul vai ter grande participação no contingente de favelas devido ao grande crescimento que se inicia na década de 1940 e vai até os anos de 1970, quando a Zona Sul passa por intenso processo de valorização e verticalização. É este mesmo processo que vai gerar as intensas contradições que vão surgir com força no período citado. A década de 1990 e o início dos anos 2000 são marcados pela manutenção da política dos governos anteriores de prover infra-estrutura nas áreas de favela, além da manutenção da legalidade dos imóveis. Nesse contexto, surge assim o Programa Favela-Bairro, em 1995, um programa muito amplo de urbanização das favelas e com alto investimento público e internacional, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O Programa ocorreu de 1995 à 2000 e beneficiou 54 favelas e oito loteamentos irregulares, segundo dados do Instituto Pereira Passos (CAVALLIERI, 2005, p. 1). O Favela-bairro, Segundo Cardoso (2002), tem como objetivo complementar ou construir a estrutura urbana principal (saneamento e democratização de acessos) e oferecer condições ambientais de leitura 81 da favela como bairro da cidade., segundo os termos do Decreto no 14.332, de 7 de janeiro de 1995. O programa tem como metas .a integração social e a potencialização dos atributos internos das comunidade. O programa, portanto, assumia favela como a não-cidade, como algo que precisava ser integrado ao território da cidade. Buscava levar para a Favela tudo que havia no bairro: calçamento, ruas largas, esgotamento sanitário, creches, postos de saúde, além da regularização dos imóveis e da realocação das moradias em áreas de risco, enfim, buscava a utilização racional do espaço, assim como acontece nos bairros (LESSA, 2005, p.315; DAVIDOVICH, 2000, p. 122). Existiam PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA critérios para a participação da favela no programa, como o número de domicílios, o déficit de infra-estrutura. Os resultados do programa logo aparecem, também conseqüência da atuação das administrações anteriores, quando praticamente 98% das moradias em favelas possuem água e esgoto, coleta de lixo, entre outros fatores. O programa teve, segundo dados quantitativos, uma boa avaliação quanto aos equipamentos de infra-estrutura urbana (CAVALLIERI, 2005, p. 2-4), no entanto, não conseguiu reduzir as distâncias sociais entre a favela e o asfalto, pois ressaltamos aqui o caráter simbólico da produção do espaço, que se mantém com a lógica segregadora que o produziu e no imaginário das pessoas, que continuam a perceber a separação da favela e do bairro, além da própria manutenção da situação econômica dos moradores da favela. Somente a urbanização não é capaz de garantir a efetiva integração das favelas na estrutura do espaço urbano. A relação da favela e do bairro hoje continua delicada, pois as favelas se multiplicam por todos os bairros da cidade, sem distinção. Segundo dados do Instituto Pereira Passos e do IBGE, existem cerca de 750 favelas espalhadas por toda a cidade, e a população favelada passa de um milhão de pessoas, representando cerca de 18% da população e ocupando cerca de 42 Km2 da área total da cidade, estando a favela completamente ligada a paisagem do Rio de Janeiro. Na Zona Sul, existem 27 favelas registradas, que contam com cerca de 100 mil 82 moradores, ocupando uma área de cerca de 4% da área total dos bairros. Como lidar com esta situação e melhorar as condições de vida das PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA pessoas torna-se um desafio cada vez maior. 83 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA 4 – Zona Sul: Proximidade física, distância social Favela Santa Marta – Botafogo, com vista do Corcovado ao fundo Foto: Marta do Nascimento, janeiro de 2009 Eu só quero é ser feliz Andar tranquilamente na favela onde eu nasci E poder me orgulhar E ter a consciência que o pobre tem seu lugar (...) Minha cara autoridade, eu já não sei o que fazer Com tanta violência eu tenho medo de viver Pois moro na favela e sou muito desrespeitado A tristeza e a alegria aqui caminham lado a lado Enquanto os ricos moram numa casa grande e bela O pobre é humilhado, esculachado na favela (...) Nunca vi cartão postal que se destaque uma favela Só vejo paisagem muito linda e muito bela Quem vai pro exterior da favela sente saudade O gringo vem aqui e não conhece a realidade Vai pra Zona Sul pra conhecer água de coco E pobre na favela,vive passando sufoco Funk Carioca – Rap da felicidade MC Cidinho e Doca, 1995 84 Conforme discutido no capítulo 2, a Zona Sul se configurou como a principal área de desenvolvimento econômico da cidade a partir do século XX. Escolhida como local de moradia pelas classes sociais mais abastadas, Hoje a Zona Sul é a área de maior valorização imobiliária, além da presença abundante de equipamentos urbanos e de importantes sub-centros comerciais e de serviços. Apesar da prosperidade econômica desta área da cidade, ao longo de seu crescimento surgiram importantes concentrações de população pobre, principalmente nas encostas de morros, onde não havia interesse na exploração econômica. Estas concentrações se tornaram hoje importantes favelas, que geram hoje alguns conflitos e contradições na PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA área mais valorizada da cidade. O principal conflito que pretendemos apontar agora é que a presença de favelas na Zona Sul simboliza uma contradição criada pelo desenvolvimento econômico da cidade e que por isso sempre foi alvo de controle pelo Estado, pelos proprietários fundiários e promotores imobiliários que atuavam na área. Para isso, pretendemos analisar a realidade da Zona Sul com base na discussão teórica até aqui realizada, levando em consideração a lógica econômica que a área esta inserida e sua formação histórica. Para trazer a discussão para o campo do vivido, foram realizadas entrevistas com associações de moradores de bairros e favelas, além de entrevistas com moradores e visitas ao local de estudo. A aproximação com o local de estudo nos permite discutir os principais conflitos que envolvem a presença de favelas numa área tão valorizada, assim como apontar as implicações espaciais destes conflitos, as consequências para os moradores dos bairros e das favelas. Foram visitadas três favelas na Zona Sul: Santa Marta, Chácara do Céu e Rocinha, onde foi possível conversar com os moradores a respeito dos problemas que enfrentam e a relação com os bairros. Foram feitas também visitas a bairros: Leme, Copacabana, Flamengo, Leblon, onde conversamos principalmente sobre os principais problemas dos bairros, a presença das favelas e a formação das Unidades de Polícias Pacificadoras em algumas favelas. 85 Além dos moradores, ouvimos também algumas associações de moradores, como a AMAB (Botafogo), AMAF (Flamengo) AMAH (Alto Humaitá), Urca, Jardim Botânico e AmaGávea, onde foi possível observar as relações entre estas associações e seus representantes e as favelas dos bairros onde estão inseridos. Esperamos, com esta aproximação da realidade do lugar, que seja possível apontar os elementos que expressam a intenção dos atores sociais dominantes para manter a lógica segregadora dos bairros da Zona Sul, assim como as consequências espaciais desta segregação na PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA paisagem, expressa de forma tão contundente nestes bairros. 4.1 – A formação das favelas na Zona Sul A presença de favelas na Zona Sul da cidade remonta ao início do século XX, coincidindo com o período da ocupação dos bairros da Zona Sul. Concomitantemente com o desenvolvimento urbano da área e a implantação dos equipamentos urbanos necessários a ocupação pelas classes abastadas, a população pobre se dirigiu a área para ocupar áreas não aproveitadas pelo capital imobiliário. Com isso, surgem as primeiras favelas, como a Cerro-Corá (1903), no bairro do Cosme Velho, Julio Otoni (1900), no bairro de Laranjeiras, Mangueira (1901) no bairro de Botafogo1. Estas favelas, assim como outras surgidas na mesma época, surgiram em terrenos localizados nas encostas dos morros, cedidos por grandes proprietários mediante pagamento de aluguel. Após o aumento do número de moradias, os moradores passaram a reivindicar a posse do terreno. Quase todas as favelas da Zona Sul têm sua formação anterior a década de 40, período de intenso crescimento da área e de realização de muitas obras de infra-estrutura urbana, além da instalação de vários equipamentos urbanos e de lazer voltados para uma população de alta renda. Estes fatores vão atrair grande número de pessoas para essa 1 Todas as informações sobre o histórico da formação das favelas da Zona Sul foram retiradas do programa SABREN, Sistema de Assentamentos de Baixa Renda, disponível no PortalGeo, do Instituto Pereira Passos, baseados em depoimentos dos moradores das favelas. 86 área, que com o controle do Estado e dos próprios atores responsáveis por muitas dessas obras, vão permitir a instalação dos trabalhadores e suas famílias nas áreas próximas aos seus empreendimentos. Muitos desses trabalhadores eram oriundos da região Nordeste, como é o caso da favela Vila das Canoas, em São Conrado, cuja formação está ligada a instalação do Clube Gávea Golf, que permitiu a construção de moradias simples para a instalação de funcionários do clube; da favela Vila Parque da Cidade, formada a partir da instalação de funcionários do Parque de mesmo nome, criado em 1939, com o surgimento da favela datando de 1944. É o caso também da favela Chácara do Céu, que tece sua formação a partir de 1920, com a instalação de trabalhadores nos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA terrenos pertencente a companhia Miranda Jordão, que pretendia instalar no Morro Dois irmãos uma linha férrea. Os trabalhadores da companhia fixaram residência e deram inicio às obras, mas a linha férrea nunca foi implantada, com o caminho aberto pelos trabalhadores vindo a se tornar a atual continuação da Avenida Niemeyer. A favela Chácara do Céu, conforme relato de uma moradora presente na favela desde sua formação, “cresceu junto com o bairro do Leblon, e eles (o bairro), não se incomodavam com a gente, porque todo mundo trabalhava por aqui, não havia tanta bandidagem”. Muitas outras favelas podem ser citadas neste contexto de formação da Zona Sul como área voltada para moradores de alta renda. Muitas se instalaram no entorno de parques, hospitais ou em bairros de franca expansão imobiliária, como foi o caso de Flamengo, Botafogo e Copacabana. A força do ramo de construção civil e posteriormente a necessidade de mão-de-obra em serviços para atender a população de classe alta vai atrair grande parte dos trabalhadores pobres que chegavam a cidade, principalmente os migrantes oriundos de estados do Nordeste. Os agentes produtores do espaço, neste caso entende-se o Estado e os agentes imobiliários, vão “determinar” onde esta população pobre pode se instalar na Zona Sul, em locais onde ela possa servir como mão-de-obra barata sem atrapalhar a acumulação de capital. Algumas das mais importantes favelas da Zona Sul da cidade, como o PavãoPavãozinho e Cantagalo em Copacabana, Morro Azul no Flamengo e 87 Santa Marta em Botafogo, formadas basicamente por trabalhadores originalmente da região Nordeste que vinham para trabalhar no ramo da construção civil, que demandava grande número de trabalhadores para esses bairros, posteriormente sendo ocupados pela grande demanda de serviços que a área exige. Nos depoimentos dos moradores antigos de bairros como Flamengo, Botafogo e Copacabana, todos afirmam que os moradores das favelas dos bairros trabalhavam principalmente na construção civil e em serviços dos prédios, como porteiros, eletricistas, etc. As mulheres eram babás e empregadas domésticas. Portanto, as favelas na Zona Sul tinham uma razão de existir dentro da lógica de acumulação do capital vigente na cidade: servir como PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA reserva de mão-de-obra barata para atender as demandas de indústrias e serviços na área. No período citado, os transportes eram precários e caros, atendendo, portanto somente a população abastada dos bairros e deixando clara a necessidade dos trabalhadores pobres de residirem próximos ao seu local de trabalho. Nas décadas de 1930 e 1940, a Zona Sul era a área da cidade que mais crescia, pois já era praticamente toda coberta por infra-estrutura urbana básica, como água, esgoto, iluminação, coleta de lixo e transportes públicos. Vias largas, adaptadas a utilização do automóvel, grandes residências, hotéis de luxo, importantes teatros e cinemas, tudo para servir a população que se dirigia para a área nobre da cidade. Junto com essa demanda, estavam as populações pobres em busca de subsistência e moradia. Ao contrário dos já imponentes bairros da Zona Sul, as favelas da área não possuíam nenhum tipo de equipamento urbano, estando a população à mercê das imposições dos moradores e do Estado. A falta de equipamentos urbanos era justificada na época porque as favelas eram ocupações ilegais, não regulares, portanto, não faziam parte da cidade e das obrigações do Estado. Segundo depoimento de moradores do Cantagalo2 , no bairro de Ipanema as poucas famílias pediam para encher suas latas d´água nas bicas dos jardins das residências da 2 Disponível no site do SABREN, do IPP 88 Rua Saint Roman. Depois, os moradores passaram a descer pelo Caminho da Pedreira e percorrer a Humberto de Campos, batendo de casa em casa. A situação chegou a tal ponto que era preciso pegar água em uma bica em frente à Favela da Catacumba, na Lagoa. A situação das favelas era precária, tanto na Zona Sul como em outras áreas da cidade. Mas queremos chamar a atenção aqui da distância que existia entre moradores de bairros e moradores de favelas, principalmente quanto a presença de infra-estrutura urbana. Ao mesmo tempo, como as favelas serviam como fonte de mão-de-obra barata para a construção civil e outras atividade da área, foram sendo toleradas e PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA controladas, vigiadas pelos atores sociais dominantes. Podemos citar vários exemplos deste controle, como a presença da Igreja (conforme Capítulo 2), além do controle do próprio Estado, como era o caso nas favelas do Cantagalo e Chapéu Mangueira (Leme). No Cantagalo, foi instalado um Posto de Observação de um destacamento do Forte de Copacabana. Segundo moradores, enquanto esteve lá, o Posto de Observação praticamente controlava a ocupação na área, permitindo apenas a permanência dos barracos já existentes. Com a sua desativação, na década de 1980, os mini-sítios dos ocupantes pioneiros foram retalhados e ocupados, gerando uma configuração próxima à atual. No caso do Chapéu Mangueira, as construções foram também permitidas pelo quartel do exército da Praia Vermelha, tendo sido impostas algumas condições, como a proibição de construções acima da cota oitenta e abaixo da cota trinta e seis. A vigilância sobre as favelas da Zona Sul tem uma razão de existir, a valorização imobiliária e a importância econômica e política da região. Na Zona Sul, a construção de barracos era proibida, mas desde 1907 já existiam barracos em Copacabana, e em 1916 barracos se proliferavam por Botafogo e Leme. A construção de barracos era acompanhada pela repressão, que tentava impedir à força a ocupação das encostas e áreas alagadiças ainda não utilizadas pelo capital imobiliário (ABREU e VAZ, 1991, p. 5; VALLADARES, 1978, p. 22). 89 Durante o período que vai de 1940 a 1960, ocorreram diversas intervenções no espaço urbano da Zona Sul para tentar impedir o avanço das favelas, mas até então essas intervenções eram pontuais, conforme as citadas anteriormente. A Zona Sul vai ter grande participação no contingente de favelas devido ao grande crescimento que se inicia na década de 1940 e vai até os anos de 1970, quando a Zona Sul passa por intenso processo de valorização e verticalização. Os bairros mais antigos, como Glória e Catete, vão estabilizar seu crescimento, mas os bairros do Flamengo, Botafogo, Copacabana e Ipanema vão passar por forte processo de verticalização, em pouco tempo praticamente deixam de existir PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA residências unifamiliares. É este mesmo processo que vai gerar as intensas contradições que vão surgir com força no período citado. A demanda das construções civis vão atrair grande número de trabalhadores pobres para os bairros da Zona Sul, muitas vezes vindos do Nordeste pelas já consolidadas redes familiares de migrantes, o que entra em contradição com o conteúdo social dos bairros, voltados para população de alta renda. Devido a localização privilegiada das favelas da Zona Sul, é necessário então que o Estado atue de certa forma com um controle mais efetivo da área, para impedir o avanço das áreas de favelas em bairros nobres da cidade. Esta política estará marcada pelas remoções de algumas favelas na Zona Sul, assim como pela resistência por parte dos moradores. 4.1.1 – A política de Remoções: a atuação do poder público na área mais valorizada da cidade As favelas passaram a ser percebidas na paisagem a partir da década de 1930, principalmente a partir do código de obras de 1937, ainda durante o Estado Novo, onde eram proibidas as criações de novas favelas, que eram vistas como uma patologia, uma doença. Nesse período surgem as primeiras políticas públicas de remoções de favela e erradicação da pobreza (REIS, 2008, p 4). Segundo Valladares (1978, p. 90 22), “tão logo começaram a se impor no espaço urbano, as favelas passaram a ser motivo de preocupação e objeto de inúmeros projetos”. O “problema das favelas” era visto como algo que precisava ser retirado da paisagem da cidade para que não incomodasse os lugares “altamente valorizados”, se referindo diretamente ao centro e a Zona Sul da cidade. Já se via Copacabana como cercado por um “cinto de favelas que vem descendo a encosta” (ZALUAR E ALVITO, 2004, p. 13-14). Fica claro nesta discussão que a favela já era uma importante contradição no solo valorizado da Zona Sul, mas a presença de pobres nessa localidade era não somente tolerada como muitas vezes incentivada pelas empresas de construção civil, de bondes e linhas PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA férreas, conforme discutido no tópico anterior. Muitas empresas permitiam a instalação dos trabalhadores nos locais próximos às obras ou ao empreendimento, como forma de minimizar a distância física dos bairros pobres. “A descoberta da favela pela sociedade civil não nasceu de uma preocupação com a qualidade de vida de seus moradores, e sim do incômodo que eles causavam à classe média”, argumenta Marcelo Baumann (2003). Este incômodo ficou mais evidente conforme aumentava a urbanização da Zona Sul, com a tentativa de criar um espaço mais organizado, planejado, voltado para uma maior qualidade de vida, como foi o caso dos bairros do Leblon e Ipanema, justamente os bairros onde se iniciam as remoções. A política de remoções de favela que se inicia ainda no Estado Novo e só vai terminar no contexto da redemocratização política vai seguir a linha da renovação e da necessidade de limpar a cidade daquilo que não é a cidade, do que não é formal. Podemos apontar dois períodos principais desta política, um iniciado no governo Henrique Dodsworth e outro nos governos Carlos Lacerda/Negrão de Lima, já durante a ditadura militar. Essa política remocionista esteve bastante concentrada em retirar as favelas das áreas nobres da cidade, em bairros onde as favelas atrapalhavam as pretensões imobiliárias dos atores sociais dominantes. Iniciam-se então as remoções de favelas na Zona Sul já em 1941, com a desculpa de higienizar as áreas e tirar as pessoas de áreas de 91 risco. O primeiro grande projeto de intervenção ocorreu de 1941 à 1943, quando a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro destrói quatro favelas, entre elas o largo da Memória, no Leblon (Foto 10) e remove suas populações para Parques Proletários da Gávea, do Caju e do Leblon, vindo depois estes parques a serem considerados favelas e sendo removidos novamente. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Foto 10 – Leblon e Lagoa em 1936 Foto: Blog Foi um RIO que passou.com.br A imagem mostra o bairro do Leblon em 1936, com destaque para as já existentes favelas da Praia do Pinto, na orla do bairro da Lagoa, e Largo da Memória, no Leblon. Os bairros já apresentavam uma organização viária e equipamentos urbanos que atraíam grande contingente de população de alta renda. Vale ressaltar a rapidez da ocupação irregular, já muito expressiva, com a presença do estado e dos agentes imobiliários que atuavam nos bairros abastados de forma mais lenta. A imagem deixa clara a necessidade de se remover estas favelas para manter os bairros organizados, conforme a necessidade da acumulação de capital. Primeiramente foi removida a favela do Largo da Memória, e posteriormente a Praia do Pinto. Em 1955, é construída a Cruzada São Sebastião, um conjunto habitacional no Leblon, que recebe parte dos moradores removidos da Praia do Pinto, por iniciativa da Igreja Católica. 92 Podemos dizer que essas primeiras remoções vêm dentro de um contexto maior de valorização do solo urbano, conforme aponta Valladares (1978, p. 14): a política de erradicação de favelas fazia parte de um processo geral de renovação urbana da metrópole, de reorganização do uso do solo, enfim, de desenvolvimento urbano, ou do próprio quadro geral de transformações por que passava a sociedade brasileira A partir de 1948, acirram-se os discursos sobre remoções de favelas a partir da figura do então Jornalista Carlos Lacerda, numa série PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA de artigos intitulada “a Batalha do Rio de Janeiro” ou “Batalha das favelas”. Já como governador, de 1960 à 1965, inicia uma política remocionista a partir da COHAB-GB (ZALUAR E ALVITO, 2004, p.15), e em seu governo a principal favela removida foi a do Pasmado, em Botafogo, um local onde houve muita resistência contra a remoção, pois ainda não havia o aparato de força policial do governo militar. Já no governo Negrão de Lima (1966-1970) se intensificam as remoções na Zona Sul da cidade, quando as favelas passam por grande crescimento e atrapalham muito os interesses das classes dominantes. Em 1968, sob o comanda da CHISAM (Coordenação da Habitação de Interesse Social da Área Metropolitana do Grande Rio), surgem projetos do governo federal que visam realmente a extinção completa das favelas em áreas valorizadas, e eliminam as principais formas de resistência, como as associações de moradores, além da criação de construção de casas populares (VALLADARES, 1978, p. 29). Não é nosso objetivo aqui discutir esses projetos, e sim tentar analisar as contradições na produção do espaço urbano que eles evidenciam. A partir de 1968, varias favelas foram removidas da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, que a esta altura já estava consolidada como área de intensa especulação imobiliária e valorização. A permanência das favelas na Zona Sul tornou-se mais incômoda, ficando clara a intenção de se embelezar e valorizar ainda mais essa área 93 da cidade, visto que o programa de remoção se concentrou basicamente na Zona Sul. Assim, até 1970, foram removidas as favelas da Praia do Pinto, Catacumba, Piraquê e Ilha das Dragas, no bairro da Lagoa, e Macedo Sobrinho, no bairro do Humaitá. Estas favelas surgiram no bairro da Lagoa em um momento em que o bairro não tinha tanta importância econômica quanto Copacabana e Ipanema, mas posteriormente foi apropriado pelo capital imobiliário, se tornando hoje um dos bairros mais valorizados da cidade e livre de favelas. O discurso que predominou na política remocionista era de que não se podia permitir a existência de nichos de desordem urbana em áreas nobres da cidade, em uma cidade com tanta vocação turística (COSTA et al, 2009, p.15). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA As favelas citadas foram removidas das áreas nobres, retirando milhares de pessoas desses bairros e levando para áreas distantes, na periferia, negando aos seus moradores o direito à habitação onde melhor lhe couber, sendo negado, portanto, o direito à cidade, pois ali estavam garantidos a essa população a acessibilidade aos principais meios de transporte e ao principal mercado de trabalho da cidade, apesar de negado o acesso à infra-estrutura urbana mais básica como saneamento e coleta de lixo. Para essa população, era preferível morar em barracos de madeira e de zinco, com nenhuma infra-estrutura, mas próximo de amplo mercado de trabalho e da maior possibilidade de garantir a subsistência, do que ser removido para conjuntos habitacionais muito distantes, com pouca infra-estrutura. 94 Foto 11 – Favela Praia do Pinto, Lagoa – Dezembro de 1967 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Fonte: site Favela tem Memória Favela removida em 1969, após grande incêndio, que não foi apurado se acidental ou não. A favela chegou a ser a maior da Zona Sul, chegando a ter cerca de 40 mil moradores e barracos, em sua maioria, bastante precários. No lugar da Praia do Pinto foram erguidos prédios destinados a famílias de classe média e militares, conhecidos atualmente como Selva de Pedra. Grande parte dos antigos moradores foram removidos para o Complexo da Maré (Zona Norte), Cidade de Deus e Vila Kennedy (ambas na Zona Oeste) Foto 12 – Morro do Pasmado, Botafogo – janeiro de 1962 Fonte: site Favela tem Memória Favela removida em 1964; após a saída dos cerca de 2 mil moradores as casas foram incendiadas. A então secretária de Serviço Social Sandra Cavalcanti divulgou toda a operação na imprensa, o que atraiu muitos curiosos ao local para assistir a remoção das casas da encosta do morro do Pasmado. 95 Remoções pontuais também aconteceram por toda a Zona Sul em nome de intervenções urbanas realizadas pelo Estado e por agentes imobiliários. Segundo Valladares (1978, p. 32) PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Os “interesses da cidade” também tiveram seu papel. A avenida que margeia a Lagoa Rodrigo de Freitas, por exemplo, foi alargada nas áreas anteriormente ocupadas pelas favelas da Ilha das Dragas, Piraquê e Avenida dos pescadores; o limite sul da favela da Rocinha foi transformado em saída do túnel Dois Irmãos; obras de sustentação de encostas foram realizadas logo após a remoção de cinco pequenas favelas, localizadas sobre o túnel novo e na Avenida Niemeyer Outro exemplo que podemos citar destas intervenções pontuais foi a remoção de barracos da favela Morro Azul para a construção da estação de Metrô do Flamengo. Segundo relatos de moradores obtidos em nossos campos, a área escolhida para a estação do Metrô era predominantemente formada por barracos de madeira bem humildes, que foram retirados com a desculpa de insalubridade. Só permaneceram na favela os moradores que podiam construir casas de alvenaria, apoiados pela Igreja Católica. Segundo relatos de uma moradora da rua Marques de Abrantes, próxima a estação de Metrô e da entrada da favela Morro Azul, Em determinado momento, a trinta e tantos anos atrás [no período das remoções na cidade], um pouco antes da chegada do Metrô, eles definiram que quem tivesse casa de cimento poderia continuar, quem pudesse colocar em ordem, seguir tipo um plano diretor, ficaria. Quem não tivesse condições seria removido, e isso que aconteceu. As remoções não significaram que a população removida não voltou para o local de origem. Estudos mostram que na maioria das vezes as populações retornaram e ocuparam outras favelas da Zona Sul, como a Rocinha, Vidigal, Cantagalo, que sofreram incremento populacional nas últimas décadas. Removidos para lugares muito distantes, como 96 Paciência, Senador Camará (Vila Kennedy), Jacarepaguá (Cidade de Deus), longe do centro da cidade, a grande precariedade de transportes e de infra-estrutura urbana fizeram com que muitos vendessem suas casas e retornassem para favelas da Zona Sul (VALLADARES, 1978) As favelas da Zona Sul surgiram com a função de reserva de mãode-obra barata e seriam até então uma reserva de mão-de-obra desqualificada nas proximidades dos locais onde mais se utiliza mão-deobra em serviços. Esta contradição, segundo Davis (2006, p. 39), se torna clara quando os pobres precisam otimizar o custo habitacional com a distância do trabalho. O que vai importar, portanto, é a proximidade do local de trabalho, mais que a qualidade da moradia e das condições de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA vida, visto o alto custo dos transportes coletivos na cidade e do tempo perdido nas viagens. As consequências das remoções foram muitas. “Livrou” o bairro da Lagoa da ameaça das favelas3, liberou áreas para a especulação imobiliária e a atuação do Estado diretamente garantiu a manutenção da segregação na cidade, pois a retirada da favela contribuiu para elevar o padrão social de alguns bairros da Zona Sul. Apesar disso, não contribui para diminuir a população favelada na Zona Sul, nem para reduzir a heterogeneidade social da Zona Sul como um todo. As décadas de 1970 e 1980 conheceram os maiores incrementos de população favelada na cidade, além do aumento do número de favelas, apesar desse movimento ter sido menor na Zona Sul da cidade. O período juntou um momento de crise econômica no mundo e de ausência de políticas públicas realmente eficazes voltadas para atender as necessidades das populações pobres. A política de remoções passa por intenso desgaste, principalmente com a opinião pública, a partir do final da década de 1970, quando a política em relação as favelas se modifica para a questão da urbanização das favelas, principalmente a partir do governo Brizola, conforme discutido no Capítulo 2. 3 Segundo o jornal O Globo de 11/04/2009, projeções de especialistas em urbanismo afirmam que, se não tivessem ocorrido as remoções das favelas na Lagoa, hoje o bairro teria cerca de cem mil pessoas morando em favelas. 97 Durante os últimos vinte anos, a discussão sobre remoções esteve adormecida, principalmente devido a atuação de governos populistas. Tornou-se “politicamente incorreto” discutir as remoções. Na atualidade, o assunto remoções voltou à cena política, principalmente movida pelo discurso ambiental. Muitas políticas de contenção e de remoção de favelas agora são motivadas pela criação de áreas de proteção ambiental e de embelezamento da cidade com grande vocação para o turismo. Segundo a reportagem do jornal O Globo (COSTA et al, 2009, p.15) o discurso atual defende que pequenas favelas deveriam já ter sido removidas, como é o caso da Chácara do Céu, Chapéu Mangueira e Tabajaras, por coincidência todas localizadas na Zona Sul do Rio de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Janeiro, defendendo ainda que a remoção justificada pela questão ambiental é legal. É importante ressaltar que toda a discussão sobre remoções envolve a lógica de desenvolvimento da cidade e a discussão sobre o direito à cidade, pois ela determina onde as pessoas devem se localizar na cidade e quem tem direito de ficar nos bairros. No espaço urbano carioca as favelas sempre representaram, de certa forma, uma contradição aos interesses dos agentes sociais dominantes, e entendemos que a política remocionista expressa um dos elementos que demonstram a intenção dos atores sociais dominantes em manter a lógica segregadora da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. 4.2 – As favelas na Zona Sul Mesmo após as remoções, totais e pontuais, a população favelada na Zona ainda passou por incremento populacional. Enquanto algumas favelas foram extintas do mapa da cidade, surgiam novas favelas, pois a dinâmica da lógica capitalista de produção, acirrada a partir da política neo-liberal, continua a gerar sempre uma massa eterna de excluídos, de pessoas lutando pela subsistência, e a Zona Sul ainda se configura como um dos lugares da cidade que oferece maior número de empregos de 98 baixa remuneração (atuando em serviços). Abaixo apresentamos o Mapa 02 com a localização atual das favelas da Zona Sul4 e a tabela com a contagem populacional das áreas faveladas, além da área ocupada. A partir da Tabela XX, é possível observar o crescimento das áreas PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA ocupadas pelas favelas. 4 A favela da Maloca, que se encontra no mapa, foi removida em 2005 por ação judicial de reintegração de posse, não estando presente, portanto, na tabela 99 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Mapa 02: Localização das favelas – Zona Sul do Rio de Janeiro / 2009 100 Tabela 03: dados populacionais da população favelada na Zona Sul do Rio de Janeiro5 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Favelas Bairro Babilônia Benjamin Constant Cantagalo Cerro-Corá Chácara do Céu Chapéu Mangueira do Horto Fazenda Catete Guararapes Humaitá Julio Otoni Ladeira dos tabajaras Mangueira Morro Azul Morro dos cabritos Pavão-pavãozinho Pedra Bonita Pereira Silva Rocinha Santa Marta Santo Amaro Tavares Bastos Vidigal Vila Cândido Vila Canoa Vila Imaculada Conceição Vila Parque da Cidade Total Leme Botafogo Copacabana Cosme Velho Vidigal Leme Jardim Botânico Catete Cosme Velho Humaitá Laranjeiras Copacabana Botafogo Flamengo Copacabana Copacabana São Conrado Laranjeiras Rocinha Botafogo Catete Catete Vidigal Cosme Velho São Conrado Cosme Velho Gávea Nº de moradores (IBGE/2000) 1.426 460 3.884 1.012 1.113 1.146 447 292 735 389 216 1.051 635 1.213 2.040 4.256 463 1.011 56.338 4.520 1.261 1.052 9.364 1.107 1.618 106 2.304 99.459 Nº de domicílios 381 134 1.009 256 314 311 122 96 138 97 70 317 199 332 637 1.283 122 279 16.999 1.262 343 337 2.757 306 456 31 666 Área ocupada (m2) em 1998 89.233 12.641 64.377 13.369 21.354 34.075 59.248 22.536 27.966 5.361 17.680 32.526 10.929 23.470 95.945 60.918 9.484 45.071 852.968 55.123 35.931 27.640 293.116 26.869 9.348 5.891 39.827 Área ocupada (m2) em 2008 90.104 12.641 64.949 13.369 20.943 34.595 59.213 24.367 28.039 5.361 19.003 33.674 10.929 23.241 96.564 63.820 10.006 45.071 865.031 54.692 35.931 27.751 294.093 27.503 10.410 5.891 39.827 Variação média 0,98% 0,00% 0,89% 0,00% -1,92% 1,53% -0,06% 8,12% 0,26% 0,00% 7,48% 3,53% 0,00% -0,98% 0,65% 4,76% 5,50% 0,00% 1,41% -0,78% 0,00% 0,40% 0,33% 2,36% 11,36% 0,00% 0,00% 1.992.896 2.017.018 1,21% Conforme observamos na Tabela 01, a Zona Sul, após as remoções, foi a área onde houve maior controle da população favelada e das áreas ocupadas pelas favelas, que nas últimas décadas apresentou crescimento muito pequeno ou quase nulo (média de crescimento de 1,21%), segundo dados do Instituto Pereira Passos e do IBGE, que 5 Os dados de população e domicílios são ESTIMATIVAS com base nos resultados do Censo Demográfico 2000 do IBGE. Foram obtidos através da compatibilização entre os limites do cadastro de favelas do IPP e os dos setores censitários do IBGE. 101 apontam também a Zona Oeste como a área onde ocorreu maior incremento de população favelada na cidade e grande expansão territorial (esta área teve incremento de cerca de 6% da área ocupada por favelas). Mesmo assim, os dados comprovam que, mesmo com as remoções da década de 1960 e 1970, a população favelada ainda é muito grande na Zona Sul, espalhando-se por quase todos os bairros. Segundo os dados oficiais do último censo, são quase 100 mil moradores de favelas presentes nos bairros da Zona Sul, diante de uma população total de cerca de 630 mil moradores, o que significa que atualmente a população de favela representa cerca de 16% da população da Zona Sul. Os motivos para uma expansão territorial menos intensa são PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA muitos: As barreiras naturais e impostas pelo Estado que impediram a expansão da favela, como é o caso de muitas favelas da área visto que essas ocupam predominantemente as encostas, o intenso controle por parte do Estado, principalmente justificado pelas questões ambientais e de áreas de risco. As remoções continuaram na Zona Sul, mas sempre pequenas e muito pontuais, como foi o caso da favela da Maloca, no bairro de Laranjeiras em 2005, removida devido a solicitação de reintegração de posse do terreno. Foto 13 – Vista das Favelas Chácara do Céu e Vidigal Foto: Marta do Nascimento, 2009. 102 A foto mostra parte das favelas Chácara do céu e Vidigal, localizadas ao longo da Avenida Niemeyer. Em destaque o grande paredão que impediu a expansão das duas favelas por toda a encosta, além da construção de um muro na favela Chácara do Céu, para impedir o avanço da favela para o Parque Penhasco Dois irmãos. Na contramão da expansão territorial A população moradora de favelas passou por importante incremento nas últimas décadas, conforme já citado anteriormente, inclusive retornando das remoções para outras favelas. Hoje na Zona Sul as favelas representam um grande contingente populacional diante da população da Zona Sul. Segundo dados do Censo 2000 (CEZAR, 2002, p. 6) na década de 90 a população passou por PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA pequeno crescimento, mas não devido a sua expansão horizontal, e sim por um adensamento vertical, no caso um adensamento das favelas antigas, mais do que expansão horizontal ou novos assentamentos. No caso da RA da Lagoa6, a taxa de crescimento (2,71% ao ano) foi superior à média da cidade (2,40%). Em média, a população dos setores subnormais da Zona Sul cresceu quase 2% ao ano, enquanto a população dos setores normais “encolhia” 0,6% ao ano. As favelas da Zona Sul passaram, portanto, por um crescimento populacional sem expansão de área, o que indica um processo de verticalização pelo qual passaram algumas das favelas da área. Algumas favelas hoje têm muitas casas de mais de dois andares e até pequenos prédios, como é o caso das favelas da Rocinha e de Santa Marta. 6 Os bairros que compõem a VI Região Administrativa da Lagoa são: Gávea, Ipanema, Jardim Botânico, Lagoa, Leblon, São Conrado e Vidigal. 103 Foto 14 - Favela Santa Marta – 2009 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Foto: Marta do Nascimento, 2009. Foto da favela Santa Marta, da altura da estação 3 do bondinho. Destaque para prédio construído pelo Estado para famílias removidas do próprio morro de áreas de risco. Destaque também para a presença da câmera de segurança, no alto do poste, que vigia parte do morro. Este crescimento populacional das favelas da Zona Sul pode significar que houve um retorno de parte dos removidos podem ter retornado ao local de origem, assim como pode significar um aumento da pauperização de algumas classes, que podem ter recorrido as favelas da região como forma de estar próximo ao amplo mercado de trabalho. É importante destacar que a favelização da Zona Sul, na última década, está inserida dentro de um contexto maior da cidade, de favelização também de outras áreas da cidade e pauperização da classe média, principalmente da Barra da Tijuca e Recreio, que representam a principal área de expansão econômica da cidade. Áreas como Zona Sul e Barra da Tijuca apresentam hoje os maiores crescimentos de favelas da cidade. Conforme já foi explicado aqui, as redes familiares de nordestinos representam um grande crescimento das favelas da Zona Sul e Barra, pois representam a segurança e maior possibilidade de ascensão econômica. O favelado da Zona Sul, portanto é predominantemente de origem Nordestina, voltado para os trabalhos ligados à serviços domésticos, como empregadas, faxineiras, porteiros, babás e motoristas. 104 De todos os moradores que conversamos no Santa Marta e na Rocinha, a grande maioria era dos mesmos estados do Nordeste, predominavam moradores originários do Ceará, e quase todos ocupados em funções de serviços destacadas acima, além de ambulantes, trabalhando na própria favela. Na Zona Sul, a presença de classes tão antagônicas convivendo juntas em um mesmo território gera intensos conflitos (não formais). As favelas da Zona Sul possuem uma dinâmica própria, mas fechadas em si mesmas, muitas vezes devido a população das favelas não participarem do cotidiano de lazer e consumo dos bairros onde está presente. Na verdade, observamos em nossas visitas que os cotidianos dos bairros e PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA das favelas são completamente antagônicos, e que estes cotidianos diferenciados contribuem para o afastamento simbólico das classes. Observamos também que os moradores das favelas vivenciam duplo cotidiano, o cotidiano da favela e, de certa forma, o cotidiano dos bairros. É importante também observar que essa diferença é percebida por ambos os moradores de bairros e das favelas, conforme observamos no depoimento de um morador do Santa Marta, ao ser questionado sobre como os moradores do bairro se sentem a respeito da favela, ele diz que os moradores dos bairros sentem “intimidados, medo, pena. Mais mal sabem eles que somos pessoas do bem, que não somos marginais e que a vida aqui é simples mais é muito bem vivida. A integração, a diversão e a nossa cultura é rica”, diferenciando-se dos demais moradores. Realmente a diferença é visível. Em nossas visitas quando percorremos as ruelas das favelas e as ruas dos bairros, observamos um ritmo completamente diferente, de circulação, de integração e de vivencia do espaço. Ritmos de vida que se misturam devido ao convívio das classes, principalmente no tocante ao mercado de trabalho. Mas nem sempre essa mistura de cotidianos tão distintos é bem vista pelos moradores, principalmente pelos moradores de bairros, localizados próximos às áreas de contato, as fronteiras entre as classes sociais. Sobre os conflitos que observamos nestes locais, falaremos mais claramente nos próximos tópicos. 105 Com toda esta discussão queremos salientar e exemplificar o processo de segregação social que ocorre na Zona Sul da cidade, por apresentar esta mistura de paisagens e estes cotidianos duplamente vividos, o processo de segregação é marcado por uma distância social com uma proximidade física, conforme já discutido no capítulo 1. Diferentes grupos sociais estão presentes na área, que se apresenta, portanto, bastante heterogênea quanto aos grupos sociais presentes, o que não significa que exista interação entre os grupos, que ambos vivenciem o mesmo cotidiano e tenha acesso aos mesmos bens e serviços oferecidos pelo Estado. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Foto 15 – Favela Santa Marta Foto: Marta do Nascimento, 2009. A vista lateral da favela Santa Marta nos permite observar claramente a diferença na paisagem do bairro e da Favela. Em muitos bairros do Rio de Janeiro essa diferença não é tão visível, mas a intensa valorização dos bairros da Zona Sul, com a presença predominante de edifícios para as classes média e média-alta, deixa em evidência este contraste nas formas de construção. Entendemos, portanto, que a presença das aglomerações de populações pobres em uma das áreas mais valorizadas da cidade representa uma contradição, ou uma forma de resistência dessas populações contra uma realidade urbana organizada de forma excludente, que estabelece áreas voltadas para a riqueza e para o poder e mantém a 106 exclusão de grande massa da população. Esta exclusão nem sempre é física, como é o caso da Zona Sul carioca, pois a vivência cotidiana diferenciada e a falta de igualdade no acesso a bens e serviços também se constituem como uma forma de exclusão. Cotidianos diferentes contribuem para aumentar a distância social, e esta se materializa na paisagem, principalmente nas áreas de contato entre as classes sociais. Estas áreas são agora nosso objeto de estudo. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA 4.3 - Conflitos e contradições - A idéia de fronteira como contato: como se dá a relação entre a cidade legal e a cidade ilegal As favelas da Zona Sul, por serem predominantemente localizadas em encostas, possuem basicamente uma entrada principal, ou seja, um acesso ao bairro. É sobre estas áreas que gostaríamos de focar aqui para buscar exemplificar os conflitos que surgem no cotidiano quando classes sociais tão antagônicas convivem em um mesmo local. Para isto, gostaríamos de deixar claro o que estamos entendendo por fronteira, ou fronteira social. O campo de estudos sobre fronteira sempre teve uma tendência muito política, uma forma de ver a fronteira como uma delimitação política pré-existente, deixando de lado questões simbólicas ou culturais. Recentemente, com a difusão da idéia de fim das fronteiras, com o surgimento de blocos econômicos como a União Européia e o chamado “fim das distâncias” devido à revolução tecnológica, a idéia de fronteira toma novas formas. Alguns autores defendem que a compressão espaço-temporal aconteceu seletivamente e que o acesso à informação eliminou algumas limitações para criar novos limites substanciais (JONES, 2008, p.10). Concordamos com essa idéia por entendermos que novos limites vão sendo criados a partir da dimensão simbólica, entre outros fatores, e que essa questão vem sendo deixada de lado nos estudos sobre fronteiras. As ciências sociais têm se dedicado a estudos sobre fronteiras, visando principalmente o olhar para a integração entre as culturas. As fronteiras são vistas assim, conforme aponta Friedman (2002, p. 1), como 107 o lugar do encontro e da interação. A autora afirma que esta visão, muitas vezes, pode desviar a atenção para aquilo que realmente acontece nas áreas de contato, nas áreas situadas entre aquilo que é diferente. A idéia da mistura pode esconder os conflitos, pode silenciar a forma como a própria diferença se configura e se revela efetivamente como o lugar da migração. Esta autora propõe, portanto, uma leitura específica da fronteira, como o local da intertextualidade, do espaço “entre”. Esta visão da fronteira aqui nos interessa por resgatar aí a questão subjetiva da fronteira, das áreas de contato entre duas culturas diferentes. Por isso, a idéia de fronteira que vamos nos utilizar está ligada a fronteira social, ou seja, “a área que separa e possibilita as trocas entre PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA duas unidades que se reconhecem mutuamente como diferentes”, conforme apontam Saint-Martin, Rocha e Heredia (2008, p.135). As autoras entendem que as fronteiras sociais7 “delimitam os contornos das categorias sociais – a participação desigual dos indivíduos na vida social – e (...) abrem espaços de troca e de encontro para que as classes se comuniquem entre si”. Esta idéia aqui nos interessa pois resgata a idéia da fronteira como uma área simbolicamente delimitada, portanto, não intransponível, além da idéia do duplo cotidiano vivenciado pela população favelada, conforme já descrito aqui. As áreas de contato entre diferentes classes sociais representam então a marca da diferença, como uma das áreas onde os grupos sociais se percebem como diferentes, não sendo, portanto, a única área. Para nós, estas áreas são exemplos do reflexo de como o espaço urbano carrega as marcas da sociedade atual, uma sociedade desigual e heterogênea. A própria leitura de classe social se modifica na atualidade, pois as classes não são conjuntos homogêneos baseados em posições econômicas estritas e opostos, nem tão pouco se formam em espaços fechados (SAINT-MARTIN, ROCHA E HEREDIA, 2008, p.138). As classes sociais estão baseadas no reconhecimento da diferença, e este reconhecimento é simbólico. 7 As autoras utilizam a definição de fronteira social de Charles Tilly (2005), onde este defende que “as fronteiras “nos” separam “deles”, e interrompem, circunscrevem ou “produzem segregação” em distribuições de populações ou de atividades no interior das sociedades. 108 Esperamos que a análise destas áreas de contato entre classes sociais diferentes na Zona Sul do Rio de Janeiro nos permita observar a diferença, além dos conflitos que ocorrem a partir dessa diferença. Nas visitas a campo, foi possível ouvir os moradores, e o que faremos agora é uma tentativa de apontar a diferença e os possíveis conflitos que surgem a partir do reconhecimento da diferença. 4.3.1 - As áreas de contato entre o bairro e a favela Durante o período de realização da pesquisa, visitamos algumas PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA áreas de contato entre os bairros e as favelas da Zona Sul. Foram visitadas cinco áreas, onde circulamos pelas principais áreas de acesso de algumas favelas da Zona Sul. Como a maioria das favelas da Zona Sul se localiza nas encostas dos morros da área, as favelas possuem normalmente só um acesso, que se configura como a área de contato entre a favela e os bairros. A seguir encontra-se a Tabela 04 com as ruas que foram visitadas. Tabela 04 – Áreas de contato visitadas durante trabalho de campo – 2009 Ruas visitadas Favela Bairro Marquês de Abrantes e Paulo VI Morro Azul Flamengo São Clemente, Marechal Francisco de Moura e Barão de Macaúbas Santa Marta Botafogo General Ribeiro da Costa e Ladeira Ary Barroso Chapéu Mangueira/Babilônia Leme Visconde de Albuquerque e Aperana, Parque Penhasco Dois Irmãos Chácara do Céu Leblon/Vidigal 8 8 A área do Vidigal foi transformada oficialmente em bairro em 1981. Estamos considerando aqui o bairro do Leblon devido à principal subida para a favela se localizar no Leblon. 109 Estrada da Gávea e Avenida Niemeyer Rocinha São Conrado/Rocinha 9 Estas áreas de fronteira foram escolhidas por acreditarmos que existe bastante heterogeneidade nelas e por representaram parte do universo das favelas da Zona Sul. As favelas Santa Marta e Chapéu Mangueira e Babilônia encontram-se atualmente sob ocupação policial, o que transforma a paisagem e o convívio entre o bairro e essas áreas, além de representarem grandes áreas faveladas na Zona Sul. A Rocinha representa atualmente a maior favela da cidade, com um quadro social bastante diversificado e uma economia importante, inclusive tendo sido PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA classificada como bairro e como Região Administrativa. As favelas Chácara do Céu e Morro Azul representam favelas pequenas, com populações pequenas (pouco mais de mil moradores, segundo dados do último Censo), sendo a primeira considerada de difícil acesso, enquanto a segunda está bem próxima ao Metrô do Flamengo. Por estas características, acreditamos que estas favelas representem bem, de certa forma, as características gerais das favelas da área. Nas visitas a campo foi possível perceber que as áreas de contato apresentam características comuns, mas não é possível generalizá-las tão somente, pois apresentam características específicas, de acordo com sua dinâmica e o local onde estão inseridas. Portanto, pretendemos abordá-las de forma geral e, em seguida, caracterizá-las individualmente. As áreas de contato, em geral, são marcadas pela intensa diferenciação de paisagem entre os prédios de classe média e a subida das favelas, mas esta diferenciação fica menos marcada em algumas áreas, pois os prédios da área de contato são em geral muito antigos, mais simples e mais degradados, como é o caso de Botafogo. As ruas em geral apresentam comércio popular, voltado para atender a população de baixa renda, como bares e pequenas mercearias. É marcante também a 9 A área da Rocinha foi transformada oficialmente em bairro em 1993. Estamos considerando aqui o bairro de São Conrado devido ao principal acesso para a favela se localizar em São Conrado. 110 presença de motos, vans, kombis e ambulantes, além de caçambas de lixo. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Foto 16 – subida da favela Chapéu Mangueira Foto: Marta do Nascimento, 2009. A foto mostra a subida da favela Chapéu Mangueira, no bairro do Leme, encravada em uma rua de classe média do bairro, a rua General Ribeiro da Costa; a subida da favela apresenta grande diferenciação em relação ao restante da rua, inclusive pela presença de pinturas nos muros caracterizadas como grafites. O grafite é uma presença constante nos acessos às favelas de toda a cidade, diferenciando a paisagem da favela da paisagem dos bairros, visto a questão da identidade que o grafite emana. Segundo Dayrell (2008), ao apropriar-se do espaço público, a periferia passa a ser representada, a se mostrar no centro, tomando uma dimensão de protesto e também de crônica. (...) a principal característica do grafite é que o sujeito que produz a arte, na maioria das vezes, possuí uma forte ligação com a cultura local, mas nem por isso o trabalho final deixa de ser 111 global. O grafite articula lazer, protesto e também é uma forma de sobrevivência. O grafite visto como atividade marginal estava totalmente ligado a periferia e ao pobre10, e segundo Martins (2009, p. 86), o grafite é um importante meio pelo qual o pobre se reconhece e se aproxima, ressaltando ainda o caráter de persistência e de luta da favela, “no sentido de que a relação que o cotidiano nos revela é a de luta e identidade”, pois ressaltamos aqui que a presença de favelas nesta área se configura também como a resistência da população favelada em permanecer na área mais valorizada da cidade. Segundo os moradores dos bairros, a presença das favelas PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA desvaloriza os imóveis do seu entorno, principalmente aqueles que apresentam vista da favela ou localizam-se bem próximos ao acesso principal da favela, devido a esta desvalorização, os imóveis em geral apresentam aparência degradada. Foto 17 – Subida da favela Santa Marta Foto: Marta do Nascimento, 2009. Subida da Rua Jupira, principal acesso do Morro Santa Marta, marcado pela presença de muitas caçambas de lixo e pela presença de comércio ambulante, principalmente de bebidas e lanches. 10 O grafite deixou de ser considerado atividade ilegal desde 2008, quando um projeto de lei federal tornou o grafite atividade cultural e artística. 112 Foto 18 – Rua Marechal Francisco Moura PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Foto: Marta do Nascimento, 2009. Subida da Rua Marechal Francisco Moura, rua que dá acesso ao Morro Santa Marta, ainda com a presença de prédios de moradores de classe média. Ao fundo é possível observar barracas de comércio ambulante, além do muro que apresenta também pinturas caracterizadas como grafites. Como é possível observar também pelas imagens, a circulação de pessoas é muito intensa, principalmente devido a presença de vans e de ambulantes. Acreditamos que essa diferenciação de paisagem e o reconhecimento da diferença, do espaço do outro, acaba criando uma série de conflitos que pretendemos apresentar aqui. As áreas de conflito acabam se tornando áreas onde os moradores de bairro evitam passar, ou só vão se já conhecerem bem o local. Foi possível observar como as áreas de contato são evitadas a partir de relatos obtidos nas visitas a campo. Moradores de diferentes bairros afirmam que não passam por essas áreas principalmente a noite, com medo da violência e de tiroteios, como relata uma moradora do Leblon, moradora do bairro há 21 anos: “antigamente, eu subia a Estrada da Gávea e saía em São Conrado, hoje em dia desisti, tenho medo de ficar no meio de algum tiroteio”. Uma moradora de Copacabana reafirma a fala acima, quando diz que “evito andar à noite próximo às favelas. Durante o dia é difícil evitar, pois existem favelas no coração de Ipanema, 113 Copacabana, Botafogo, São Conrado”. Uma moradora do bairro do Leme afirma que anda por todo o bairro durante o dia, pois diz que é aposentada e gosta muito de passear na orla e fazer compras na rua Gustavo Sampaio (principal rua do bairro); diz ainda que visita amigos por todo o bairro e reclama muito do aumento dos assaltos por conta da ocupação policial no Chapéu Mangueira e da falta de policiamento no bairro, mas quando pergunto se freqüenta a Rua General Ribeiro da Costa (principal acesso à favela Chapéu Mangueira) e se vê a patrulha da polícia fixa presente na rua, responde categórica: “lá eu não vou”. Fica claro nas falas dos moradores o repúdio às áreas de favela como um conflito presente na área, pois as pessoas não deveriam ter PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA “medo” de frequentar todas as ruas do bairro. Ainda assim, observamos variações nesse discurso, pois alguns moradores de bairro afirmam que as favelas da Zona Sul são mais tranqüilas, vigiadas, e afirmam não ter medo de passar em locais onde conhecem bem, entretanto afirmam que evitam circular pelo restante da cidade, principalmente à noite. Realmente, podemos apontar como característica geral das favelas da Zona Sul uma área de contato com os bairros bem pequena, discreta e controlada, ao contrário de muitas favelas no restante da cidade, como afirma um morador de Copacabana, que afirma já ter morado em muitos bairros da Zona Norte e mora na Zona Sul há cinco anos: “não costumo evitar passar em favelas da Zona Sul. Em regiões da Zona Norte evito”, ou o morador do Flamengo, o qual afirma que “aqui na Zona Sul dá para passar, em outros lugares só se for muito necessário...” Gostaríamos de salientar agora algumas diferenças em relação às áreas de contato visitadas e as áreas que estão sob ocupação policial recente. É o caso, por exemplo, da favela da Rocinha e da favela Chácara do Céu, onde as áreas de contato são completamente diferentes. Na favela Chácara do Céu, a zona de contato com o bairro do Leblon, por onde a favela tem acesso, é muito longa e distante, e se configura como uma área muito vigiada e controlada. O principal acesso à entrada da favela é a subida do Parque Penhasco Dois Irmãos, localizado na Rua Aperana, no referido bairro, o que torna a favela bastante isolada do bairro. Só é possível chegar ao bairro por meio de uma Kombi, 114 responsável pelo transporte dos moradores da favela até a parte baixa do bairro, na Rua Visconde de Albuquerque, ou de carro, para os moradores que possuem. O outro acesso é por via de uma escadaria localizada na Avenida Niemeyer, em frente ao hotel Sheraton, um dos hotéis de alto luxo da cidade. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Foto 19 – Subida do Parque Penhasco Dois Irmãos Foto: Marta do Nascimento, 2009. Uma das subidas do Parque Penhasco Dois Irmãos, continuação da Rua Aperana, no Alto Leblon (no canto inferior à direita). A subida do parque possui calçamento e guaritas de segurança, há também área de play, bancos e mesas para lazer. O parque foi criado em 1992, mas seu calçamento ocorreu somente no Governo Conde (1997-2001). 115 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Foto 20 – Chegada à favela Chácara do Céu Foto: Marta do Nascimento, 2009. No fim da rua Aperana encontra-se uma pequena estrada de terra, onde acaba o calçamento, que seria a chegada da favela Chácara do Céu. Moradores reclamam que após chuvas intensas, este caminho fica intransitável. Como se pode ver nas fotos, a subida do parque se configura como a principal área de contato entre o bairro e a favela, principalmente após o calçamento do parque, durante o governo Conde (1997-2001); segundo os moradores da favela, antes disso o acesso dava-se através de uma estrada íngreme de terra. Após o calçamento da rua, o local ganhou áreas de lazer e uma guarita de segurança com dois seguranças fixos dia e noite, além de uma patrulha da polícia quase sempre presente no local. Quando termina o calçamento, chega-se a uma estrada de terra curta e a um descampado, por onde se vê um muro e a entrada da favela, vigiada também por traficantes. Chama atenção a convivência tão de perto entre os “vigias” do asfalto e os “vigias” da favela. A subida para o parque é utilizada pelos moradores do bairro para a prática de esportes e para a utilização das áreas de lazer, além do intenso fluxo de turistas, pois existem três mirantes no Parque. A área de contato, portanto, distancia o bairro e a favela, o que torna a favela menos incômoda para os moradores do bairro. Oficialmente, no bairro do Leblon, 116 com a criação do bairro do Vidigal, não existem mais favelas, somente no bairro do Vidigal, e como elas não marcam a paisagem do bairro, passam a causar menos “incômodo”, conforme relatos de moradores que percebem isso e afirmam que “no Leblon não tem favelas”. Mesmo assim, moradores reclamam da desordem urbana causada pela presença de vans e Kombis, transportes utilizados principalmente pelos moradores pobres da região. No Leblon, por exemplo, a subida da Kombi para a Chácara do Céu se localiza na Praça Professor Azeredo Sodré, na Rua Visconde de Albuquerque. O calçamento realizado na rua Aperana não chega até a favela, que fica isolada por uma pequena estrada de terra, sendo esta uma das PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA grandes reclamações dos moradores da favela: “já tem mais de dez anos que o calçamento chegou no parque, por que não estendem até aqui?”, questiona uma moradora da favela. Os moradores vêem, portanto, a falta de calçamento como uma forma de isolá-los do bairro. Ao mesmo tempo afirmam que a chegada do calçamento até o Parque facilitou a vida dos moradores, que passaram a utilizar muito mais o parque que a escadaria na Avenida Niemeyer, pois esta é muito longa e íngreme. Os moradores da Chácara do Céu afirmam também que na favela não há nenhum tipo de comércio, o que os torna completamente dependente dos serviços que o bairro dispõe. A padaria mais próxima, segundo moradores, se localiza nas proximidades da rua Visconde de Albuquerque, mas só é possível chegar de carro ou de Kombi. Os moradores reclamam dos preços da padaria e do mercado mais próximo, pois é voltado para os moradores do bairro, afirmando que precisam ir até Ipanema para frequentar um mercado mais barato, o que torna a área de contato somente um ponto de passagem dos moradores. Ao contrário desta área de contato, que é bem definida, o oposto é encontrado na favela da Rocinha. Uma das maiores favelas da América Latina, possui vários acessos, quase todos eles tomados por vendedores ambulantes. Caminhar pela entrada da Rocinha muitas vezes nos dá a sensação de estar chegando em um dos mais importantes subcentros comerciais da Zona Sul. Na visita à entrada da favela, ouvimos muitos ambulantes do local, e quase todos não são moradores da favela. Na 117 subida pela Estrada da Gávea funciona uma feira de roupas e bijuterias, todos os sábados. Os ambulantes presentes na feira afirmam que não há ali nenhum morador da Rocinha trabalhando, e que a feira é frequentada principalmente por moradores da Rocinha, mas também por moradores de toda a Zona Sul, pois não há nenhuma feirinha desse tipo na Zona Sul, incluindo aí também moradores do bairro de São Conrado como freqüentadores da feira e do comércio de rua da Rocinha. “Aqui tem tanta barraca quanto na [camelódromo] Uruguaiana”, afirma um ambulante. Esta dinâmica intensa de comércio, transporte de vans e Kombis e pessoas transforma esta zona de contato em algo mais fluido, menos marcado e vigiado. Em um muro próximo à saída do estacionamento do PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Shopping Fashion Mall, encontramos novamente a presença do grafite, o que demonstra, nesse caso, a chegada nas proximidades da favela. A presença de vans e Kombis se mistura com o comércio da Avenida Niemeyer, onde encontramos lojas de um lado e ambulantes do outro. A rocinha forma um mundo a parte do bairro de São Conrado, pois se localizam no local todo tipo de comércio, bancos, shoppings, casas lotéricas, entre outros, o que significa dizer que a população não precisa dos serviços do bairro, sendo a favela da Rocinha praticamente “autosuficiente”, e a Zona de contato torna-se extremamente ampla e ao mesmo tempo próxima. Quase tudo que os moradores da favela consomem é adquirido ali mesmo, ou dentro da favela, ou na área de contato, conforme moradores da própria favela apontaram em nossa visita. 118 Foto 21 – Subida Estrada da Gávea PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Fonte: Jornal O Globo, 2009. A foto mostra a subida da estrada da Gávea na Rocinha, no encontro com a Avenida Niemeyer, local de ponto de vans e Kombis, além de mototáxis que circulam por toda a favela. Foto 22 – Shopping na Rocinha Fonte: Jornal o Globo, 2009. A favela da Rocinha possui inclusive um Shopping Center, uma espécie de galeria de dois andares com lojas que vendem até produtos de grifes estrangeiras. 119 Nas favelas da Zona Sul visitadas que possuem agora as Unidades de Polícia Pacificadoras (UPP), Santa Marta e Chapéu Mangueira, o incomodo com a presença das favelas aparentemente não foi reduzido, pois mesmo que os moradores apontem a questão da violência e do medo como fatores para evitar as favelas, agora citam reclamações quanto ao aumento de assaltos devido a proibição do tráfico nesses locais. Os moradores dos bairros do Leme e de Botafogo apresentaram muitas reclamações quanto aos assaltos nos bairros e às residências de prédios de classe média dos bairros, e citam que não freqüentam mais comércios locais nas proximidades das favelas porque estes tem sido alvo de assaltos recentes, como é o caso de um morador do Leme que PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA disse evitar ir até uma padaria da rua Gustavo Sampaio, devido a assaltos na semana anterior. Outros moradores citam ainda como problema a questão da falta de infra-estrutura nas favelas. Uma moradora de Laranjeiras afirma que não evita áreas de favelas, mas afirma que o “problema é o lixo e esgoto a céu aberto”. Este discurso apareceu também em Botafogo, de uma moradora residente muito próxima à área de contato com a favela Santa Marta, na rua Marechal Francisco de Moura, que afirmou que as principais reclamações dos moradores do prédio atualmente (após o fim do tráfico no morro) são o lixo, pois as caçambas que atendem toda a comunidade se localizam na frente do prédio, o esgoto que desce pela rua e a intensa movimentação de gente, o que deixa a rua muito barulhenta. Os relatos mostram que, independente do problema citado, sempre haverá um problema a ser questionado, pois são cotidianos muitos diferenciados e interesses diferenciados. Além dos locais visitados, foi possível ouvir as opiniões de associações de moradores de vários bairros da Zona Sul. Foi possível observar que algumas favelas localizadas em Parques, como a favela do Horto, no Jardim Botânico, e do Parque da Cidade, na Gávea, apesar dos moradores dos bairros terem afirmado que são favelas pequenas ou mesmo nem chamarem de favela, as pessoas têm deixado de visitar as áreas ou passar por lá devido à presença das favelas. Segundo o presidente da Associação de Moradores do Jardim Botânico, mesmo 120 afirmando que não há favelas no bairro, diz que “no final do Horto (onde houve invasões recentes e as construções são apinhadas, o que dá um "visual" de favela) alguns moradores têm medo de passar, à noite”. Um discurso parecido é observado na fala da presidente da Associação de Moradores da Gávea, que afirma não ter medo de freqüentar as favelas da Zona Sul, mas mostra preocupação quanto ao Parque da Cidade pela falta de segurança no local; “faz algum tempo que deixei de frequentar o Parque da Cidade em função de histórias sinistras de episódios de violência ocorridos ali e pela total falta de policiamento no local”, ao contrário do que descrevemos acerca da Chácara do Céu. As áreas de contato entre os bairros e as favelas sempre PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA constituíram áreas de conflitos e contradições por estarem nestes locais os pontos de maior reclamação de moradores de bairros. Entre as principais reclamações estão a desordem urbana e a falta de controle nas áreas de acesso as favelas, e a presença policial não parece ter resolvido os problemas. Os acessos às favelas se constituem como as áreas que são negadas, pois representam a diferença, o ponto onde o morador de bairro muitas vezes não pode evitar. As favelas e suas áreas de acesso representam, portanto, a expressão de conflitos no espaço urbano da Zona Sul. 4.3.2. A natureza como fronteira – questão ambiental e a construção de muros Uma ação proposta pelo poder público bem recentemente é a construção de muros no entorno de favelas da Zona Sul carioca. Na favela Santa Marta, em Botafogo, já está terminada a construção de 634 metros de um muro de concreto, com a intenção de impedir o crescimento da favela para áreas de mata presentes na encosta onde se situa o morro. Segundo Ferreira (2009), “se tivermos em conta que do outro lado da favela há um plano inclinado, com teleférico para transporte da comunidade, que já serve como muro de contenção, ao final da construção do muro os moradores estarão concretamente murados”. 121 Na Chácara do Céu já houve essa tentativa. Em 1992 foi construído um muro, que coincidiu com a criação do Parque Penhasco Dois Irmãos, mas o muro não impediu o avanço da população para a área do Parque, visto que já existem construções além muro. Mesmo assim, o muro da Chácara do Céu deixa os moradores com o sentimento de exclusão, pois só existe uma pequena porta no muro, que dá acesso a um descampado na mata, local que os moradores chamam de “praça”, apesar de não existir nenhum equipamento urbano que o caracterize como tal. Como não houve fiscalização ambiental séria no local, para os moradores da favela a intenção do muro era de claramente impedir que a favela avançasse pela encosta e incomodasse os moradores do bairro do PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Leblon. Apesar do muro não ter evitado novas construções na Chácara do Céu, construiu-se o muro no Santa Marta. Do projeto atual, no total, serão construídos 11 km de extensão de muros que circundarão 11 favelas, todas na Zona Sul do Rio de Janeiro, com o discurso de tentar conter o crescimento desordenado e a destruição da Mata Atlântica. As favelas participantes do projeto são a Rocinha, o Parque da Cidade, na Gávea, os morros dos Cabritos e a Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana; da Babilônia e Chapéu Mangueira, no Leme; Cantagalo e PavãoPavãozinho, em Ipanema; Vidigal, no Leblon; e Benjamim Constant, na Urca, mas até agora somente o muro da favela Santa Marta foi construído. Esta ação tem recebido grande número de críticas por parte da sociedade civil, mas pesquisas apontam ainda que parte da população apóia a construção de muros. A população das favelas não vê com bons olhos a obra, pois existe uma idéia muito forte de segregação no projeto. Na Rocinha, houve a tentativa da implantação de um projeto de construção de um muro na parte da favela voltada para a encosta, mas o projeto foi retirado de pauta devido a resistência por parte dos moradores da favela. A maior parte das críticas se concentra no fato da Zona Sul ter apresentado a menor expansão das áreas faveladas (conforme a Tabela 01, 1,21% de crescimento em uma década) e o projeto estar concentrado 122 mesmo assim na Zona Sul, e não na Zona Oeste, onde o aumento foi muito maior e parte da área pertencente ao Parque Estadual da Pedra Branca estar comprometida pela expansão das favelas na área. A construção do muro representa um novo conflito entre a área legal e ilegal da cidade, entre a população da favela e o restante dos moradores dos bairros da Zona Sul. Representa também uma apropriação do discurso ambiental pelo Estado e pelo capital imobiliário, com a intenção de minimizar o “incômodo” que significa atualmente a presença de favelas na Zona Sul, configurando-se como um conflito na área. Pouco depois da polêmica, os representantes do poder público passaram a chamar o muro de “ecolimite”, tentando evitar a idéia de exclusão, tão comum em muros. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Entendemos que se trata da natureza sendo usada como imposição de limites, funcionando como fronteira natural e imposta. Foto 23 – Favela Santa Marta, em Botafogo – 2004 Fonte: Site favela tem Memória Observa-se a ocupação de grande parte da encosta, em áreas de proteção ambiental. A morfologia da favela contrasta com a organização das ruas e os prédios de classe alta do bairro de Botafogo. 123 Foto 24 – Construção do muro no morro Santa Marta PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Fonte: Jornal O Globo, 27/03/2009 A construção do muro foi iniciada em março de 2009, com a intenção de evitar o avanço da favela na encosta, que é área de proteção ambiental. Foto 25 – muro na favela Santa Marta Foto: Marta do Nascimento, 2009. O Muro já terminado na favela; por enquanto está garantindo a não expansão horizontal da Favela. 124 Foto 26 – Muro na favela Chácara do Céu PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Foto: Marta do Nascimento, 2009. O muro na Chácara do Céu já existe desde 1992, e não impediu que a população ocupasse áreas além do muro, pois não houve, realmente, fiscalização ambiental na área. 4.3.3. A dinâmica da relação entre o bairro e a favela Percorrer favelas na Zona Sul se configura como um choque de segregação e exclusão. Ruas com residências de alto luxo, organizadas, limpas e em geral bem cuidadas11, contrastam demais com as ruelas estreitas, íngremes, esgoto a céu aberto e muito lixo. É claro que não é possível generalizá-las, pois as favelas apresentam grande heterogeneidade, mas de forma geral, o contraste é muito intenso. É claro que hoje, algumas favelas da Zona Sul apresentam bom nível de desenvolvimento, inclusive com ampla infra-estrutura urbana, enquanto outras apresentam um grau de desenvolvimento muito baixo, abaixo inclusive de favelas na Zona Norte e Oeste. Independente desta variação, se compararmos com o nível de desenvolvimento dos bairros, as favelas representam um mundo à parte na Zona Sul. 11 Apesar da reclamação de muitos moradores, os bairros da Zona Sul apresentam melhores condições que a maioria dos bairros da cidade, excetuando-se a Barra da Tijuca, Recreio, Itanhangá, entre outros. 125 Abaixo apresentamos duas tabelas de comparação entre o Índice de Desenvolvimento Social (IDS)12 e condições de vida entre os bairros e as favelas da Zona Sul. Para melhor análise, separamos somente os bairros da Zona Sul e as favelas da Zona Sul nas tabelas, assim como suas respectivas posições na tabela geral do IDS na cidade do Rio de Janeiro. Tabela 05 - Índice de Desenvolvimento Social e seus indicadores constituintes por bairro - Município do Rio de Janeiro - 2000 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Posição % de domicílios particulares permanentes com rede de água adequada % de % de domicílios domicílios particulares particulares permanentes permanentes com rede de com coleta esgoto de lixo adequada adequada % dos chefes de domicílio com menos de quatro anos de estudo % dos chefes de domicílio com 15 anos ou mais de estudo % de analfabetismo em maiores de 15 anos % dos chefes de domicílio com renda até dois salários mínimos % dos chefes de domicílio com rendimento igual ou superior a 10 salários mínimos. Rendimento médio dos chefes de domicílio em salários mínimos Bairro Índice de Desenvol -vimento Social 1 Lagoa 0.854 99.95 99.91 99.95 2.33 68.91 0.54 4.47 81.36 35.90 2 Leblon 0.809 99.98 99.81 100.00 4.68 55.20 1.05 6.90 69.43 29.78 3 Ipanema 0.801 99.75 99.55 100.00 4.89 53.97 1.09 7.73 67.08 27.94 4 Humaitá 0.798 99.95 99.74 99.98 2.96 59.48 0.88 6.85 65.09 20.42 5 Urca 0.795 99.96 99.61 99.96 2.60 63.84 1.05 7.84 69.47 21.12 7 Jardim Botânico 0.787 97.82 98.17 99.91 4.43 57.38 1.24 8.67 64.97 25.49 8 São Conrado 0.787 94.39 95.58 99.91 5.63 57.58 1.52 15.43 68.02 35.28 9 Gávea 0.787 99.01 99.33 99.98 3.99 55.60 1.81 10.61 64.12 25.37 10 Laranjeiras 0.779 99.92 99.70 99.99 3.80 54.34 1.00 8.04 60.97 19.63 11 Flamengo 0.775 99.99 99.92 100.00 3.08 49.90 0.76 7.53 56.88 18.91 12 Leme 0.761 99.77 99.03 99.98 5.45 47.25 1.42 13.10 57.99 20.51 13 Maracanã 0.758 99.98 99.94 99.99 3.83 48.27 1.17 8.15 53.89 15.28 14 Copacabana 0.753 99.91 99.67 99.97 4.91 41.95 1.37 9.23 52.74 17.29 16 Botafogo 0.743 99.70 97.46 99.90 5.87 45.75 1.41 12.20 51.31 16.21 12 O índice em pauta tem como base os resultados do Censo Demográfico do IBGE. Sua peculiaridade que o diferencia de tantos outros índices igualmente importantes e úteis, é o nível de desagregação espacial para o qual ele pôde ser calculado: o setor censitário. O setor censitário (com uma média de 250 domicílios) é uma construção do IBGE, utilizada em suas pesquisas domiciliares, definida como: “a unidade territorial de coleta e de controle cadastral, percorrida por um único recenseador, contínua e situada em área urbana ou rural de um mesmo distrito, em função do perímetro urbano (linha divisória dos espaços juridicamente distintos de um distrito, estabelecida por lei municipal).” Ao utilizar a menor unidade geográfica para as quais se dispõem e se disporá de dados estatísticos confiáveis e sistemáticos possibilita a identificação e a comparação das diferenças intra-urbanas tanto no máximo grau de detalhamento espacial quanto em qualquer agregação que seja possível fazer. (..) Foram utilizados 10 indicadores, construídos a partir de variáveis do Censo: Dimensão Acesso a Saneamento Básico, Dimensão Qualidade Habitacional, Dimensão Grau de Escolaridade, Dimensão Disponibilidade de Renda. (CAVALLIERI E LOPES, 2008, p. 1-2) 126 22 Cosme Velho 0.713 97.91 99.23 99.95 13.06 43.97 2.51 21.35 50.54 19.50 Como se pode perceber pela Tabela 05, os bairros da Zona Sul estão, praticamente, todos no topo da lista de desenvolvimento social, apresentando rendimento salarial médio muito elevado, os mais elevados da cidade. Quanto ao Índice de Desenvolvimento Social (IDS), estão todos acima de 0,7. Os bairros da Zona Sul, em geral, são ainda os de maior nível de renda e de maior qualidade de vida, segundo a metodologia utilizada para o cálculo do IDS. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Tabela 06 - Índice de Desenvolvimento Social e seus indicadores constituintes por favela - Município do Rio de Janeiro - 2000 Posi ção Favela Índice de Desenvol vimento Social % de domicílios particulares permanente s com rede de água adequada % de domicílios particulares permanente s com rede de esgoto adequada % de domicílios particulares permanente s com coleta de lixo adequada % dos chefes de domicílio com menos de quatro anos de estudo % dos chefes de domicílio com 15 anos ou mais de estudo % de analfabet ismo em maiores de 15 anos % dos chefes de domicílio com renda até dois salários mínimos % dos chefes de domicílio com renda igual ou superior a 10 salários mínimos. Rendiment o médio em salários mínimos 1 Vila Benjamim Constant 0.589 99.25 98.51 99.25 18.66 14.18 4.35 32.84 8.96 5.24 14 Vila Parque da Cidade 0.553 100.00 99.55 100.00 16.11 2.56 2.00 48.95 1.51 2.66 20 Ladeira dos Tabajaras 0.542 97.79 97.48 100.00 20.19 4.10 5.14 47.32 4.10 3.48 31 Chapéu Mangueira 0.537 100.00 99.03 100.00 24.35 4.55 3.49 53.57 2.60 2.65 32 Pedra Bonita 0.537 100.00 94.26 100.00 16.39 1.64 3.24 51.64 0.00 2.30 37 Morro Azul 0.535 99.70 98.19 100.00 21.08 1.51 2.97 53.92 1.20 2.67 48 Guararapes 0.530 98.31 97.75 100.00 26.40 3.93 3.27 52.81 2.81 3.55 54 Morro dos Cabritos 0.527 100.00 98.98 100.00 30.56 3.40 6.47 49.24 2.89 3.07 58 Chácara do Céu (Vidigal) 0.526 99.68 96.82 100.00 19.75 3.82 4.13 62.42 0.32 2.06 70 Cerro-Corá 0.522 100.00 98.83 100.00 33.20 3.13 4.74 50.78 3.13 3.34 75 Vila Pereira da Silva 0.519 100.00 97.84 100.00 29.50 2.88 5.93 54.68 2.16 3.05 95 Vila Canoa 0.512 100.00 99.78 100.00 25.98 0.87 3.46 68.12 0.44 2.05 Vila Candido 0.507 97.06 99.02 99.67 36.27 1.96 6.32 51.96 2.29 3.01 135 Recanto Familiar /Humaitá 0.504 100.00 100.00 100.00 40.21 2.06 6.68 52.58 1.03 2.45 142 Vidigal 0.503 98.30 96.92 100.00 34.60 1.92 7.98 55.75 1.23 2.37 167 Morro do Cantagalo 0.497 96.35 95.23 100.00 30.43 2.13 5.25 65.82 1.52 2.12 194 Mangueira (Botafogo) 0.491 92.46 91.46 100.00 33.17 0.50 9.61 55.78 1.51 2.44 206 Vila Santo Amaro 0.487 100.00 99.42 100.00 38.30 0.88 8.80 63.45 0.58 2.05 211 PavãoPavãozinho 0.487 98.90 95.99 98.74 42.26 1.65 10.95 49.33 0.79 2.64 119 127 220 Babilônia 0.483 96.58 86.58 99.74 29.47 2.37 6.10 69.47 0.53 1.94 263 Fazenda Catete 0.474 80.21 98.96 100.00 37.50 0.00 11.64 51.04 1.04 2.89 310 Rocinha 0.458 97.26 60.50 99.44 39.30 1.34 9.36 52.27 1.45 2.59 Santa Marta 0.443 98.97 49.68 97.94 36.69 0.95 8.12 58.56 0.24 2.12 350 A comparação do nível de desenvolvimento e das condições de vida entre os bairros da Zona Sul e as favelas é bastante expressiva. O Índice de Desenvolvimento Social apresenta grande disparidade, mesmo sendo da Zona Sul a favela com maior Índice, a vila Benjamim Constant, o restante das favelas apresenta nível muito baixo de desenvolvimento, principalmente quanto à escolaridade e ao nível de renda. Os bairros da PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Zona Sul, portanto, apresentam os mais altos índices de desenvolvimento, enquanto as favelas localizadas na área apresentam níveis baixos em relação à cidade13, o que representa uma contradição quanto à distribuição de infra-estrutura e de renda entre a favela e o bairro na Zona Sul. Salientamos aqui que essa distância social existe em relação a muitos bairros e favelas da cidade, mas na Zona Sul essa diferença se amplia, pois se trata da área de maior valorização da cidade. Enquanto os bairros apresentam IDS de países ricos, as favelas apresentam IDS de áreas muito pobres, como Santa Cruz, bairro da Zona Oeste da cidade. Toda essa desigualdade na qualidade de vida da população se reflete na paisagem e no imaginário social dos bairros da Zona Sul, acarretando também diferentes conflitos. Uma importante contradição que apontamos, baseada também na desigualdade das condições de vida das populações, são os diferentes interesses dos moradores de bairro e de favela e a atuação diferenciada (consequentemente) do poder público na área. Ouvir os dois lados nos mostra o quanto os interesses, os problemas e as cobranças são divergentes mesmo entre pessoas vivendo em uma mesma área, o que dificulta bastante a atuação do poder público. Este sempre tende a primeiramente atender as cobranças e interesses 13 IBGE. De um universo total de 503 favelas reconhecidas como aglomerados subnormais pelo 128 das classes sociais dominantes, pois nos bairros da Zona Sul se paga os IPTUs mais caros da cidade, portanto, devem ser atendidos primeiramente, visto que nas áreas de favela não se paga IPTU. Para os moradores de bairro ouvidos, assim como para os representantes da associação de moradores de bairros, os problemas que mais aparecem são a desordem urbana, citando aí estacionamento irregular, falta de conservação de equipamentos urbanos e do patrimônio histórico, a falta de segurança e o trânsito extremamente congestionado. Além, também, do excesso de linhas de ônibus e da presença de vans e kombis, da presença de mendicância e de moradores de rua. Foram citados também o desrespeito à lei do silêncio, o excesso de ambulantes PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA em ruas principais dos bairros, presença de flanelinhas, má conservação das calçadas e os blocos de carnaval, pois estes impedem a livre circulação de carros e causam transtornos e sujeiras. Já os moradores de favelas apontam problemas bastante antagônicos aos dos moradores dos bairros, como a falta de água (normalmente só cai água alguns dias na semana), a falta de coleta de lixo, o isolamento em relação aos bairros, as dificuldades de locomoção dentro das favelas, a falta de áreas de lazer e de serviços dentro das favelas, o esgoto a céu aberto, entre outros. Para os moradores de favela, as dificuldades de chegar e sair da favela com cargas, além das dificuldades quanto ao acesso à infra-estrutura urbana são os problemas que mais os afligem, por isso a importância em estar na Zona Sul, com ampla disponibilidade de transportes e serviços. Fica claro nesta comparação o quanto os interesses e as cobranças são diferentes para ambos os moradores, o que se configura como um conflito e uma contradição, principalmente quanto à atuação do poder público. Apesar da divergência, nos últimos tempos o poder público tem atuado em ambas as áreas, de forma direta ou não. Diversos projetos sociais ligados ao poder público ou privado atuam na área, como o Projeto Favela-Bairro citado no Capítulo 2, nas favelas Cerro-Corá, Guararapes, Morro dos Cabritos, Santo Amaro, 129 Vidigal e Vila Cândido; e o projeto Bairrinho14, nas favelas Babilônia, Benjamim Constant, Chapéu Mangueira, Morro Azul, Pedra Bonita, Pereira da Silva, Vila Canoa e Vila Parque da Cidade. Atualmente as favelas da Rocinha, Pavão-pavãozinho e Cantagalo receberam amplos investimentos do PAC, para a construção de moradias e centros de lazer e esportes. Apesar da intervenção do Estado, as desigualdades entre bairro e favela não diminuíram. A favela Santa Marta recebeu importantes investimentos como saneamento e a construção do plano inclinado, já que a favela Santa Marta apresenta o pior IDS da Zona Sul (tabela 06). As favelas da Zona Sul se localizam nas encostas de mais difícil acesso na área, o que dificulta a chegada de saneamento básico e coleta PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA de lixo. Mesmo assim, o discurso dos moradores das favelas é que apesar das dificuldades vale a pena estar na Zona Sul, pois a proximidade de amplo mercado de trabalho garante a subsistência de muitos moradores. Além disso, algumas favelas da Zona Sul possuem uma vista impressionante, o que poderia significar algum tipo de ganho ou lazer por parte dos moradores de favela (Foto 27). Foto 27 – Chácara do Céu Foto: Marta do Nascimento, 2009. A foto mostra a vista da favela Chácara do Céu, para as praias do Leblon e Ipanema, além da praia do Vidigal. O isolamento é compensado pela localização privilegiada e pela aparente tranqüilidade do local. 14 Projeto nos mesmos moldes do Favela-Bairro, mas para favelas de até 500 moradores. 130 Foto 28 – Plano inclinado no Santa Marta PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Foto: Marta do Nascimento, 2009. A Foto mostra o bondinho do Plano Inclinado inaugurado na favela Santa Marta em Maio de 2009. O Bondinho tem ajudado bastante os moradores a subir com cargas e facilitou também a coleta de lixo, pois é impossível circular com veículos motorizados pela favela, ao contrário de favelas como a Rocinha e o Chapéu Mangueira, devido a presença de ruelas e da encosta muito íngreme. A relação das favelas com os bairros, portanto, é muito marcada por essa desigualdade nas condições de vida, o que influencia também o imaginário social de ambos os moradores. Apesar de ambos, em geral, afirmarem que existe interação entre as áreas de favela e o bairro, observamos que geralmente os moradores de bairro não frequentam, ou evitam as áreas de contato entre bairro e favelas. Apesar dos moradores afirmarem que não sentem nenhum tipo de preconceito, falam em áreas onde não freqüentam, como o Shopping Fashion Mall ou a praia do Vidigal, praia esta onde já houve a tentativa do hotel Sheraton de torná-la privativa para evitar a presença de moradores das favelas do Vidigal e Chácara do Céu. A maior parte dos moradores de bairro cita uma relação conflituosa com a favela. Ao serem questionados sobre como vêem a favela em seus bairros, é possível observar falas como: “a favela torna a região insegura, deprecia o valor dos imóveis”, ou que existe “a dificuldade em se fazer preservar a ordem urbana.” Ou ainda moradores com falas como: “[as 131 favelas] são ruins, por mim se removiam todas”. Alguns moradores e presidentes de associações de moradores de bairro afirmam que nos bairros em que moram não há favelas, mesmo o IBGE tendo reconhecido favelas nos bairros em questão, como uma moradora do Leblon que afirma que no Leblon não tem favelas, pois a criação do bairro do Vidigal, em 1981, deixou as duas favelas do bairro do Leblon em outro bairro, o que não alterou em nada a relação das favelas com o Leblon. Outra fala importante para ilustrar esta situação é a do presidente da Associação de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Moradores do Alto Humaitá: Nosso bairro não tem favelas. Apenas uma comunidade mais carente em relação ao padrão do restante do bairro. Mesmo assim, atípica: existem moradores com renda mensal mínima; e outros com salários ou aposentadorias acima de 10.000 reais. Logo, não se encaixa exatamente no perfil de favela, apesar das invasões sofridas e construções irregulares. A fala da Presidente da Associação de Moradores da Urca também vai ao encontro dessa idéia, visto que esta é a “favela” com maior índice de IDS de toda a cidade do Rio de Janeiro Na Urca não temos favelas. O que existe é uma pequena comunidade, a Vila Benjamin, entre a Urca e a Lauro Muller. Os moradores da Urca têm muito receio que aquela pequena comunidade se expanda, invada a APA ali existente e se transforme numa favela. Por sorte os próprios moradores de lá, que formaram uma Associação, a AMOVILA, não querem essa expansão. Entendemos que este discurso, assumindo a existência de favelas ou não, representa uma negação da favela, um conflito expresso pela presença de favelas em bairros onde hoje são rechaçadas. Essa negação é percebida pelos moradores das favelas que lutam historicamente para se manter no local de maior valorização da cidade. Hoje, a luta vai além da simples permanência física, chegando à questão da imposição de uma vivência cotidiana diferenciada para os moradores do bairro. O reconhecimento da diferença vai além das questões econômicas ou de 132 renda, se expandindo para um cotidiano diferenciado. Observamos estes conflitos entre cotidianos diferenciados na fala de um líder comunitário da Rocinha: O presidente da Associação de Moradores de São Conrado (AMASCO), bairro vizinho, por exemplo, considera que ele e seus súditos são parte de uma instância superior, e não tem o porquê se relacionar com gente da favela, em virtude disso proibiu o Natal Sem Fome da Rocinha (que seria em São Conrado), e quer proibir o nosso bloco oficial de desfilar na orla da praia, mesmo autorizado oficialmente pela Prefeitura, pois não quer assistir a 'bagunça da favela' do alto de sua janela. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Entendemos, portanto, que cotidianos diferenciados contribuem para a negação da favela; ou seja, daquilo que se apresenta como diferente. A relação entre bairros e favelas pouco se alterou ao longo do século XX, desde o surgimento das favelas, onde o bairro, a cidade legal, não quer conviver ou não quer ver a presença do estigma favela. Por sua vez, as favelas representam uma das principais formas de resistência na luta por habitação digna e pelo direito à cidade. 4.3.4. A estigmatização do favelado: favela como locus da violência Ao longo do século XX, quando a presença das favelas tornou-se mais visível na cidade do Rio de Janeiro, a visão da favela perante os moradores da cidade legal e do poder público já passou por muitas transformações. Conforme já discutido no Capítulo 2, a favela passou a ser percebida pelos atores sociais dominantes a partir do século XX, em que a favela era vista como uma doença, uma patologia, algo que precisava ser retirado da paisagem urbana de uma cidade que pretendia elevar seus padrões urbanísticos e de moradia. Conforme aponta Kowarick (1980, p.92 apud Chaui, 1994, p. 57), desde sua formação a favela passa por estigmas. 133 Sem sombra de dúvida, o padrão de moradia reflete todo um complexo processo de segregação e discriminação presente numa sociedade plena de contrastes acirrados. De uma forma mais ou menos acentuada, este processo perpassa todos os patamares da pirâmide social em que os mais ricos procuram diferenciar-se e distanciar-se dos mais pobres. Mas a favela recebe de todos os outros moradores da cidade um estigma extremamente forte, forjador de uma imagem que condensa todos os males de uma pobreza que, por ser excessiva, é tida como viciosa e, no mais das vezes, também considerada perigosa: a cidade olha a favela como uma realidade patológica, uma doença, uma praga, um quisto, uma calamidade pública. De certa forma, a favela sempre foi vista pelos moradores da PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA cidade legal como um problema urbano, como uma das questões urbanas mais importantes. Por vezes, a favela foi vista como foco de rebeldia, como o lugar capaz de insurgir uma revolta popular capaz de abalar a dominação burguesa, ou como foco da imoralidade, da malandragem e de uma vadiagem praticamente contagiosa (SILVA, 2008, p. 14). Após o fim da ditadura militar e a diminuição dos riscos de uma rebelião popular, a favela passa a ser vista como foco da violência e do medo. Segundo Chauí (1994, p. 57) os instrumentos criados para a repressão e tortura dos prisioneiros políticos foram transferidos para o tratamento diário da população trabalhadora e que impera uma ideologia segundo a qual a miséria é causa da violência, as classes ditas “desfavorecidas” sendo consideradas potencialmente violentas e criminosas. Entendemos, portanto, que a forma encontrada pelo poder público e pela mídia para continuar o controle sobre as áreas de concentração de população pobre foi que a favela fosse vista como o principal foco da violência urbana; principalmente devido ao controle dos pontos de vendas de drogas nas favelas, justificando assim a presença de grande aparato policial com a justificativa de vigiar a atuação do tráfico de drogas. A idéia de que a favela é preferencialmente o local de moradia do trabalhador pobre na cidade do Rio de Janeiro ficou distante, tendo a 134 população da cidade adquirido uma postura de medo e repúdio em relação às áreas de favela. Conforme observamos em nossas visitas a campo e ouvindo moradores de favela, a questão da violência é o que marca principalmente a relação entre o bairro e a favela; e se configura como a principal justificativa para o afastamento em relação às áreas de favela, mas não a única, pois a desordem urbana e a desvalorização imobiliária também são constantes no discurso. Esses diferentes estigmas pelo qual as favelas passaram ao longo de sua a existência contribui para uma maior passividade na construção do cotidiano do favelado. O estigma do pobre na cidade do Rio de Janeiro sempre esteve presente no imaginário social como doença, como rebeldia ou como PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA marginalidade, e contribui para aumentar ou acirrar a distância social entre as classes sociais nos bairros da Zona Sul do Rio. Desse forma, acreditamos que haja o acirrando, também, dos conflitos e contradições que envolvem a relação entre classes. Apontamos esta situação como luta de classes, ou seja, a dominação de classes dominantes a partir da ideologia ou do simbolismo (CHAUÍ, 1994, p. 58). 4.3.5. O controle a partir da força: das incursões policiais às Unidades de Policias Pacificadoras Durante a década de 1990 tornou-se comum na cidade do Rio de Janeiro a mídia noticiar os problemas causados pelo enfrentamento entre a polícia e homens ligados ao tráfico de drogas, influenciada pelo aumento do poderio dos traficantes, o que vem causando um sentimento de medo e de que a cidade do Rio de Janeiro vive um clima de guerra civil. Os constantes tiroteios ocorridos devido à chegada da polícia em favelas e pela disputa por pontos de drogas entre grupos de traficantes têm dizimado muitos inocentes, principalmente moradores de favelas. A presença policial passa a ser vista como solução para controle da ordem pública e para evitar encontros entre as classes, conforme aponta Silva (2008, p. 14), “a função da polícia passa a ser vista pelas camadas mais abastadas como um muro de contenção ao intercâmbio de 135 indivíduos e maneiras de viver, em vez de ser um meio orgânico de sua regulação”. A polícia perde seu papel de manter a ordem urbana para todos e passa a servir aos interesses das classes sociais dominantes. Na Zona Sul, esta contradição se acirra, pois a presença da classe média e média alta no entorno das áreas de contato entre os bairros e a favela afeta a população de mais alta renda, e conflitos armados ali se tornam muito mais problemáticos Uma declaração do Secretário de Segurança José Mariano Beltrame, em outubro de 2007, apesar de muito criticada pela opinião PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA pública, reflete um pouco esta contradição: Buscá-los [os traficantes] na Zona Sul, no Dona Marta, no Pavão-Pavãozinho, 'eu [polícia] estou muito próximo da população'. É difícil a polícia entrar ali. Porque um tiro em Copacabana é uma coisa, um tiro na Coréia, no Alemão, é outra. E aí? Segundo o secretário, a repercussão das ações na Zona Sul do Rio é maior, já que os prédios de moradores da classe média ficam perto das favelas15 Apesar de polêmica, a declaração do Secretário de Segurança ilustra o que se pensa sobre as favelas na Zona Sul desde que coexistem com bairros de classe média e alta. Se antes a favela era vista como uma praga, uma doença, hoje ela é vista como locus de insegurança para todos que estão ao seu redor. Se antes a favela era ocupada predominantemente por trabalhadores pobres, hoje ela é vista como habitada predominantemente por marginais. O confronto entre traficantes e policiais afeta a todos, pois a área de contato passa a ser exposta a essa violência, e a partir do momento em que esses assuntos tornam-se predominantes no cotidiano de toda a população, a manutenção das contradições e dos conflitos está sendo realizada. Fica claro, portanto, porque as áreas de contato entre a favela e o bairro se tornaram áreas proibidas ou evitadas, conforme observamos nas conversas com moradores dos bairros. 15 Retirado do site http://g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL1556105606,00 TRAFICANTES+ESTAO+MIGRANDO+PARA+A+ZONA+SUL+DIZ+SECRETARIO.html 136 Na cidade do Rio de Janeiro e na Zona Sul, principalmente nos últimos anos, se intensificou o número de ações policiais violentas em favelas. A favela da Rocinha, que tem como vizinhos prédios de luxo e alguns dos impostos territoriais mais caros da cidade, enfrenta paulatinamente o confronto entre policiais e bandidos. Fica claro, portanto, que a ação escolhida pelo poder público e pelas classes sociais mais abastadas foi a intervenção policial violenta, que aparece como solução para a presença da classe “indesejável” nos bairros. A solução proposta atualmente pelo poder público foi a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). O projeto tem sido implantado desde dezembro de 2008 em algumas favelas da cidade. Na PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Zona Sul, iniciou-se na favela Santa Marta, sendo implantado posteriormente nas favelas Chapéu Mangueira e Babilônia, Ladeira dos Tabajaras e Pavão-pavãozinho, recentemente. Fora da Zona Sul, a favela do Batam e da Cidade de Deus16, na Zona Oeste, também receberam as UPPs. A idéia da UPP é permitir a entrada do Estado nas favelas sem a presença de traficantes e marginais, permitindo assim a chegada de serviços públicos nas favelas ocupadas, assim como melhorar a imagem da polícia perante as favelas, que sempre viram-na como violenta e servindo às classes dominantes. A chegada da UPP na favela Santa Marta foi a mais comentada pela mídia, recebendo inclusive algumas melhorias por parte do Estado e de pessoas influentes na área de comunicação. Foram construídas quadras, centros sociais, o plano inclinado (que facilitou muito a coleta do lixo), entre outras melhorias observadas. A mídia dá destaque a todas as vantagens da “nova” vida da população da favela de Santa Marta, noticiando inúmeras vezes as melhorias na favela. Mas, na realidade, ao ouvir moradores de favela e moradores de bairro, percebemos algumas insatisfações. Os moradores da favela apontam que a chegada da polícia não trouxe ainda melhorias reais para a favela, que ainda enfrenta problemas como falta de água, lixo e falta de 16 A Cidade de Deus foi construída inicialmente na Zona Oeste da cidade na década de 1970 como um conjunto habitacional para receber moradores de favelas removidas, mas a falta de infra-estrutura urbana transformou o conjunto em favela, posteriormente. 137 saneamento. Os moradores afirmam que só recebem água de duas a três vezes por semana, que ainda faltam áreas de lazer e serviços bem próximos à favela. Ainda assim, apontam como melhorias a chegada do Plano inclinado para subir com cargas, e que sentem a presença do Estado mais presente na favela. Realmente, é na favela Santa Marta que percebemos maior atuação do Estado, através de serviços públicos e de saúde, ao contrário de outras favelas visitadas, como a Chácara do Céu. Quanto ao cotidiano dos moradores de favela, a presença da UPP não trouxe grandes modificações. O cotidiano dos moradores da favela apresenta um ritmo muito diferenciado da realidade do bairro, onde as crianças ficam soltas pelas ruelas, as pessoas circulam por toda a favela, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA frequentam bares e a quadra no alto do morro. Este cotidiano pouco se modificou, pois a presença do tráfico estaria bastante impregnada neste cotidiano. Entra aí a questão do reconhecimento da diferença, pois em geral os “trabalhadores” do tráfico seriam pessoas do próprio morro, enquanto os policiais são pessoas “de fora”, segundo relato de um morador da favela Santa Marta. Por parte dos moradores do bairro, as opiniões são conflitantes. Alguns moradores apontam a ocupação como algo positivo, mas geralmente no sentido de evitar a incursão policial e, consequentemente, os tiroteios. Outros apontam o aumento dos assaltos devido ao fim do tráfico, principalmente no Leme. É comum nas falas dos moradores do Leme o temor aos assaltos, alguns inclusive evitando certas áreas. A maior parte dos moradores aprova a UPP, principalmente moradores de bairros onde não há favelas ocupadas. Uma moradora do Leblon afirmou que acha “muito interessante o conceito da polícia pacificadora. O Estado precisa ocupar seu lugar perante todos os cidadãos, - moradores do 'asfalto' ou do 'morro' -, provendo serviços básicos, garantindo o cumprimento da lei, mostrando que todos têm a proteção do Estado - direitos - e, portanto, devem cumprir seus deveres”. Um morador de Copacabana e um morador do Leblon afirmam que vêem com bons olhos, principalmente devido à liberdade que traz a UPP para os moradores da favela. 138 Ouvindo as pessoas, aparentemente a UPP atendeu mais a população do asfalto do que, efetivamente, à população da favela, mesmo com o que tem sido divulgado pela mídia, pois para a população da favela pouca coisa mudou, suas condições de vida continuam muito degradantes, só se modificando o agente dominante. A presença da polícia em algumas favelas da Zona Sul também permitiu a utilização comercial da favela por parte dos moradores e por parte de outros atores sociais. A favela, livre do estigma do tráfico e da violência, se torna um lugar bucólico, moradia das classes pobres, e o favelado e seu cotidiano diferenciado se tornam, portanto, uma atração e uma “novidade”. A pobreza passa a ser explorada de outra maneira, pela PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA sua forma e aparência. 4.3.6 – A “espetacularização”17 da pobreza: a favela como ponto turístico Ao longo do século XX, observamos que a postura do poder público e das classes dominantes era de limpar ou retirar a favela da paisagem carioca. A favela sempre foi rejeitada como paisagem, como área negada e proibida, conforme a música que citamos no início do Capítulo 3, em que o autor, morador de favela, fala “nunca vi cartão postal que se destaque uma favela, só vejo paisagem muito linda e muito bela”. A favela era a “vergonha” da paisagem carioca. Atualmente, observamos uma mudança quanto a essa postura. O discurso remocionista perdeu a força, e surge um discurso que aponta a 17 Com o termo espetacularização buscamos expressar a idéia da pobreza tornada espetáculo, assim como afirma Debord (1997), “o espetáculo, compreendido na sua totalidade, é simultaneamente o resultado e o projeto do modo de produção existente. Ele não é um complemento ao mundo real, um adereço decorativo. É o coração da irrealidade da sociedade real. Sob todas as suas formas particulares de informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto do entretenimento, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e no seu corolário — o consumo. A forma e o conteúdo do espetáculo são a justificação total das condições e dos fins do sistema existente. O espetáculo é também a presença permanente desta justificação, enquanto ocupação principal do tempo vivido fora da produção moderna”. 139 favela como um local bucólico, a pobreza se torna um espetáculo, uma nova forma de apropriação de capital. A favela, seu morador e seu cotidiano passam a “estar na moda”, e não somente as favelas que possuem UPPs, mas também favelas grandes como a Rocinha. Surge o turismo na favela, onde se vendem pacotes com tour a várias favelas da cidade do Rio de Janeiro, vendendo a paisagem da favela e a pobreza como atração turística. Filmes, novelas e clipes gravados em favelas onde não há tráfico, mostrando a vida e as dificuldades enfrentadas, além do próprio discurso da mídia, colaboram para despertar a curiosidade sobre a vida do favelado e incluem a paisagem da favela e o cotidiano do favelado no imaginário da cidade do PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Rio de Janeiro. Observamos, portanto, nesta situação, a apropriação da pobreza de outra forma, apropriação a partir do imaginário, do simbolismo e da ideologia. Olhar para o pobre se torna “politicamente correto”, e torna-se senso comum observá-lo como espetáculo. Outro fator que gera curiosidade é a distância social e os contrastes, conforme afirma Fernandes (2001), “o choque entre a modernidade da metrópole carioca (incluindo aí, também, os seus apelos naturais) com a miséria exposta nas favelas foi o eixo condutor para a exploração turística da Rocinha”. Tais contrastes são mais profundos na Zona Sul, conforme nossa discussão anterior. Na Zona Sul, esta apropriação se torna mais clara, pois todas as favelas exploradas pelo turismo estão nessa área, assim como o turista de alta renda, estrangeiro, instala-se preferencialmente na Zona Sul. Trata-se, portanto, de um conflito, pois se não é possível retirar a favela, ou retirar o pobre da paisagem da cidade, a solução encontrada foi se apropriar da pobreza pela dominação simbólica. E este conflito se agrava, porque a solução não veio de dentro da favela, e, em geral, não gera nenhum tipo de renda para os moradores de favela. Os atores sociais envolvidos, muitas vezes, nesta apropriação econômica são de fora da favela, geralmente empresas de turismo que oferecem tours em favelas a valores muito elevados. 140 Na Zona Sul, as favelas que recebem tours são aquelas que estão ocupadas pela UPP, como Santa Marta e Chapéu Mangueira, além da favela Tavares Bastos, onde existe a presença de um batalhão especial da Polícia Militar, e a favela Vila canoas, onde não existe a presença do tráfico. Somente a Rocinha, pela sua grandiosidade, recebe tours diariamente, mesmo com a presença do tráfico. Vale ressaltar que esse tour é controlado, vigiado, não sendo possível tirar fotos em todos os lugares da favela. Algumas vezes, os atores que oferecem esse serviço são de dentro das favelas, como é o caso de alguns moradores da favela Santa Marta e da Rocinha que se aproveitaram do fato dos moradores de bairro estarem PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA freqüentando as favelas, como possibilidade de aumento da renda, conforme afirma um morador da Rocinha, dono de salão de beleza na favela, o qual nos contou que moradores de diversos bairros da Zona Sul freqüentam o salão, devido ao preço dos serviços; ou como o morador do Santa Marta, que está oferecendo tours pelo Santa Marta por um preço abaixo do oferecido pelas empresas de turismo. Observamos que atualmente a difusão dos meios de comunicação e do discurso da pobreza como espetáculo tem difundido largamente as possibilidades de exploração da pobreza. Sites na Internet oferecem muitas possibilidades de visitas a favelas, assim como vídeos no site Youtube (Figura 29) mostram a paisagem da favela, mostrando para os visitantes as particularidades da paisagem e da vida na favela. A Jeep Tour, por exemplo, uma das empresas que faz o visitas na Rocinha, divulga em seu site seus objetivos. A Jeep Tour é uma empresa de turismo totalmente voltada para o Eco-Turismo com a consciência de que é possível a integração Homem x Natureza em total harmonia. Nossos passeios dão ao turista a noção exata desta simetria ecológica. Todas nossas rotas foram criadas para proporcionar ao nosso passageiro uma visão geral do que realmente significa viver numa cidade maravilhosa. Com uma visão 360º o turista pode usufruir de toda a beleza do Rio de Janeiro. 141 Interessante constatar que as favelas são vistas como inseridas na paisagem da cidade, e que representam, para a empresa, a integração total entre o homem e a natureza, em total harmonia. As empresas oferecem a favela como um produto, além da alegria, solidariedade e receptividade dos moradores da favela, conforme anúncio na Figura 29. E é exatamente esta a imagem que fica para o turista, com o pobre como solidário e receptivo, satisfeito com as suas condições de vida, conforme depoimento de um casal de israelenses postado no site da Jeep Tour: “Foi um tour muito interessante e emotivo, as pessoas eram amistosas e nós sentimos o orgulho deles por pertencer à comunidade da Rocinha”. De certa forma, a expansão desse tipo de turismo traz vantagens, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA pois quebra o estereótipo da favela como local da violência e da marginalidade, pois permite a visualização da favela “por dentro”, além da diminuição do estranhamento de cotidianos tão diferentes18. 18 Segundo a revista Época, a favela “ganha” com o turismo porque fica menos estigmatizada, mas os lucros ficam mesmo para as empresas que oferecem o serviço. Conforme afirma um inglês que fez o passeio, "achei que era um lugar de pobreza extrema, mas percebi que é só gente pobre normal tentando viver sua vida da melhor maneira possível. O que mais me impressionou foi a auto-suficiência do lugar". Fonte: http://epoca.globo.com/especiais_online/2003/08/25_epuc/17favela2.htm 142 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Figura 29 – Tour na favela da Rocinha - 2009 Fonte: site jeeptour.com.br A imagem mostra o anúncio do tour na favela da Rocinha, realizado pela empresa Jeep Tour, trazendo dados sobre as favelas no Rio de Janeiro, além da formação e da população que vive em favelas. 143 Foto 30 – Vídeo de divulgação Vila Canoas – 2006 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Fonte: site Youtube.com A imagem mostra um vídeo demonstrativo, com anúncio em inglês, da favela Vila Canoas, uma favela localizada no bairro de São Conrado. O turismo tem sido explorado na favela, já que não tem atividade de tráfico na área. O turismo em áreas de favela corresponde, portanto, a uma nova forma de exploração do capital, mesmo que traga algumas vantagens para a população moradora de favela. De certa forma, o morador faz parte desse produto que está sendo vendido, pois mais do que a paisagem, o turista está pagando para ver a vida do pobre, como ele (sobre)vive sob determinadas condições sociais e financeiras. Constituise, portanto, como uma contradição na relação entre as classes, visto que as condições sociais sob as quais o pobre urbano vive são conseqüências da estrutura econômica, que surge a partir das relações sociais de produção do sistema capitalista. 144 Considerações finais A cidade do Rio de Janeiro, ao longo do século XX, viu surgir o “problema” favela como uma das principais questões que afligem a cidade. Na verdade, este problema diz respeito a uma questão muito maior, fortemente arraigada na estrutura social da cidade, marcada por intensa desigualdade social. É impossível desvincular a história da formação das favelas da história da cidade do Rio de Janeiro, pois a lógica de formação econômica e social da cidade foi o que permitiu o PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA surgimento das favelas, e apesar de toda a diversidade social, de paisagem e de cotidianos, a lógica da favela é a mesma lógica da cidade. A falta de moradias desde o início da formação da cidade fez com que a população pobre não tivesse muita escolha quanto a sua localização na cidade, restando a essa população a alternativa da encosta, áreas não utilizadas pelos agentes imobiliários que atuavam na cidade. Surgiam assim as favelas, que se espalharam por toda a cidade rapidamente, inclusive em áreas voltadas para a população de alta renda. É sabido que não faltam áreas para que a população pobre pudesse subsistir com condições de vida melhores, mas faltam áreas disponíveis para a ocupação da população pobre, áreas não utilizadas pelos agentes imobiliários. Assim se constitui a favela no Rio de Janeiro, como uma questão estrutural e não de falta de espaço, e a relação entre estas e os bairros onde estão inseridas sempre apresentou conflitos e contradições. A pobreza urbana, apesar de espalhada por toda a cidade, tem sua forma aparente nas favelas. Por tudo que já foi discutido até aqui, entendemos que a favela é um problema estrutural, arraigado em uma sociedade de classes que enfrenta muitos conflitos e contradições entre as classes, conflitos que se materializam no espaço. Vemos aqui a favela como uma das expressões materiais desse conflito, da luta pela terra e pela sobrevivência no urbano. Apontar esses conflitos, ou os elementos que os expressam foi nosso 145 objetivo durante toda a discussão, que esteve impregnada pelo cotidiano sob o qual estávamos voltados. O olhar voltado para uma área específica da cidade nos permite analisar as especificidades do lugar, principalmente quanto às características da Zona Sul. A grande diversidade social dos bairros, com os mais altos IPTUs da cidade, além da heterogeneidade das favelas da Zona Sul, permitiu uma análise bastante variada, como uma tentativa de observar diferentes contradições, pois cada área pode apresentar tipos de conflitos e contradições diferentes, conforme demonstrado a partir de nossas visitas a campo. A Zona Sul, como objeto de estudo, nos mostrou o quanto ficam PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA marcados na paisagem os contrastes sociais, o quanto o espaço urbano do Rio de Janeiro e os diferentes cotidianos contribuem o tempo todo para manter a desigualdade existente. O discurso da população da favela nos mostra o quanto estes se sentem vivendo em um mundo a parte, não participantes da dinâmica da Zona Sul. Mostra também que, apesar de toda a dificuldade, ainda vale a pena ficar nessa área em nome da sobrevivência. A questão simbólica também esteve muito presente em nossa discussão, sendo predominante para determinar um sentimento de estranhamento entre as classes, um reconhecimento da diferença entre as classes, convivendo em uma mesma área. Esta questão simbólica determina a existência de um estigma, do favelado como marginal, e da favela como local da violência, estigma que está expresso nas relações entre a população dos bairros e das favelas. Agregar a dimensão do cotidiano na análise nos permitiu identificar sentimentos, opiniões e o sentido de pertencimento presente em ambas as classes e impregnado no espaço analisado. O cotidiano permitiu olhar de perto para os conflitos e contradições presentes no espaço, estando muitos desses conflitos presentes no imaginário social e contribuindo para aumentar o contraste e a distância social. Apontar os elementos que expressam as contradições presentes no espaço foi nosso principal objetivo em toda a análise, utilizando a Zona Sul e suas favelas como exemplo. Não temos aqui a pretensão de ter 146 esgotado este assunto, muito menos de ter apontado todos os conflitos que perpassam a relação entre os bairros e as favelas, até porque esses conflitos e contradições surgem e desaparecem constantemente, como citamos aqui a questão das remoções – um conflito que ficou adormecido por um tempo – ou a questão das UPPs, surgida muito recentemente. Na verdade, diferentes formas de atuação do poder público e diferentes formas de “ver” a favela transformam constantemente a relação entre ela e o bairro. Durante toda a análise, observamos que o foco de nosso estudo poderia ser então a área de contato entre o bairro e a favela, ou a área de fronteira entre as classes, não com a idéia de uma fronteira física, mas PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA uma fronteira simbólica, arraigada no imaginário social. A análise das áreas de contato nos permitiram apontar alguns conflitos que se materializam no espaço e que representam a luta de classes. A favela aqui, portanto, aparece como resistência, como a luta de uma população para se manter em um espaço privilegiado da cidade e buscar melhores condições de vida, a luta pelo direito à cidade. A favela aparece também como uma negação do direito à cidade, pois a população favelada encontra-se na área mais bem dotada de serviços públicos e de infra-estrutura urbana, mas tem negado seu acesso direto a serviços públicos de qualidade, boa acessibilidade ao seu local de moradia e a opções de lazer. É o caso, por exemplo, da favela Chácara do Céu, onde a acessibilidade é muito restrita e a população depende de um serviço de Kombi estruturado pela própria comunidade, onde existe inclusive uma conta para os moradores pagarem no final do mês; ou da Rocinha, uma das maiores favelas da cidade, e por onde circula somente uma linha de ônibus, segundo moradores. Para resolver a falta de transportes para atender propriamente a favela, surgem muitas linhas de vans e kombis, o que entra em conflito com os moradores de bairro, que reclamam da desordem urbana causada pelas vans. O Direito à cidade fica claramente prejudicado para às populações faveladas da Zona Sul, que abrem mão de morar em locais com melhor infra-estrutura, abrem mão de serviços básicos como disponibilidade de água e correios, para morar nas proximidades de um amplo mercado de trabalho. 147 Interesses completamente divergentes marcam a relação entre a favela e o bairro, por isso reiteramos a idéia da favela como resistência, e acreditamos que nossa análise possa ter contribuído para a busca de uma nova visão da favela, não simplesmente da favela como oposição ao bairro, como fica claro no estigma favela-asfalto, mas como integrada no contexto da cidade, como o local de moradia do trabalhador pobre urbano, e não como o local da violência e da marginalidade. Para tentar acabar com esse estigma, a busca pelos conflitos e contradições pode contribuir, pois apontamos o tempo todo, aqui, o quanto o imaginário social contribui para aumentar a desigualdade e a distância social. Se a relação atual entre os bairros e as favelas é marcada por questões PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA simbólicas e pelo reconhecimento da diferença, apontar os conflitos e contradições gerados a partir desse simbolismo pode contribuir para diminuir a desigualdade social e na luta pelo direito à cidade. 148 Referências ABREU, Mauricio. Evolução Urbana do Rio de janeiro. IPLANRIO. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1988. ABREU, Mauricio. VAZ, Lilian. Sobre as origens da favela. Anais do IV Encontro Nacional da ANPUR, 1991 BARTIK, T.; SMITH, K. Urban amenities and public policy. In SMITH, Vincent. Estimating Economic values for nature: methods for non-market valuation. Reino Unido, 1996 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA BAUMANN, Marcelo. Entrevista concedida a Marcelo Monteiro. Rio de Janeiro, 2003. Disponível no site: http://www.favelatemmemoria.com.br/ publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?from_info_index=21&infoid=8&sid=7 BOBBIO, Norberto. MATTEUCCI, Nicola. 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Vida sob cerco: violência e rotina nas favelas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008 SMOLKA, Martim. A regularização da ocupação do solo urbano: a solução que é parte do problema, o problema que é parte da solução. IN: CADERNOS IPPUR/UFRJ. Planejamento e Território: ensaios sobre a desigualdade. Rio de Janeiro: UFRJ/IPPUR, Vol.15, nº2, Vol.16, 2002 SOJA, Edward. Uma Interpretação Materialista da espacialidade. IN: Becker, B. Haesbaert, R. Silveira, Carmen. Abordagens Políticas da Espacialidade. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1983. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA ____________. Geografias Pós-modernas: A reafirmação do espaço na Teoria Social Crítica. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1993. SOUZA, Marcelo Lopes. Fobópole: o medo generalizado e a militarização da questão urbana. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 2008 ____________. Algumas notas sobre a importância do espaço para o desenvolvimento social. 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Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2004 154 ANEXOS Modelo de questionário respondido Associação de moradores do bairro de: Jardim Botânico O que você apontaria como os principais problemas do bairro hoje? Segurança, trânsito, invasões, barulho provocado por festas ou eventos, Blocos de carnaval (impedimento de entrar ou sair de casa e sujeira remanescente). Esta opinião não é pessoal. São os problemas apontados por moradores do bairro. A associação de moradores tem contato com outras associações do próprio bairro ou de bairros vizinhos? Existem parcerias com associações de favelas? PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Temos contato mensal com outras associações da Zona Sul. Parcerias em reivindicações comuns. Contato frequente com a AMAHOR, que representa a comunidade do Horto e está instalada em território pertencente ao parque Jardim Botânico. Como é a relação da associação de moradores com as favelas presentes no bairro? Nosso bairro não tem favelas. Apenas uma comunidade mais carente em relação ao padrão do restante do bairro. Mesmo assim, atípica: existem moradores com renda mensal mínima; e outros com salários ou aposentadorias acima de 10.000 reais. Logo, não se encaixa exatamente no perfil de favela, apesar das invasões sofridas e construções irregulares. Você, como morador, evita passar ou ir a algum lugar devido à proximidade de áreas faveladas? No final do Horto (onde houve invasões recentes e as construções são apinhadas, o que dá um "visual" de favela)alguns moradores têm medo de passar, à noite. Durante o dia, creio que não. Eu, pessoalmente, não tenho. Como vê a atuação da prefeitura em áreas de favela no seu bairro? Relutante em resolver o problema de construções em encostas e muito próximas às margens dos rios, o que pode causar calamidades em caso de chuvas fortes e enchentes. É possível observar mudanças na relação entre o bairro e as favelas desde o período que mora no bairro? Quais seriam estas mudanças? Moro no bairro há mais de 40 anos. Neste período, a pequena comunidade remanescente de antigos funcionários do Jardim Botânico cresceu bastante. Percebo uma preocupação do bairro com a preservação do verde. Mas não hostilidade em relação aos vizinhos. Como representante dos moradores do bairro, como acha que os moradores da Zona Sul têm visto a ocupação policial na favela? O que foi positivo e o que foi negativo? Como o contingente policial quase não aumentou e houve uma grande concentração em algumas favelas, é voz corrente na Zona Sul que os trechos não favelizados dos bairros ficaram desprotegidos. O número de policiais que ocupa o Dona Marta, por exemplo, é quase igual ao que faz a segurança do resto do bairro. Proporcionalmente, então, é muito maior. A ocupação policial é melhor do que nada. Mas ainda não é uma solução para os bairros e sim uma vitrine para os políticos. 155 Modelo de questionário respondido Associação de moradores da favela: Rocinha O que você apontaria como os principais problemas da favela hoje? Falta de saneamento básico, coleta de lixo, transporte urbano e uma política mais inteligente de combate as drogas que não vitimasse tantos inocentes. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA A associação de moradores tem contato com outras associações do próprio bairro ou de favelas vizinhas? É comum estes contatos, pois os presidentes das Associações tem os seus padrinhos políticos, e, as vezes, esses padrinhos são os mesmos, ou, as buscas dos líderes se coincidem e eles naturalmente se encontram pelos mesmos corredores. Como é a relação da associação de moradores com os moradores dos bairros, geralmente de classe média e classe média alta? O presidente de Associação de Moradores de uma favela geralmente se relaciona melhor com outro presiodente de outra favela. O presidente da Associação de Moradores de São Conrado (AMASCO), bairro vizinho, por exemplo, considera que ele e seus súditos são parte de uma instância superior, e não tem o porque se relacionar com gente da favela, em virtude disso proibiu o Natal Sem Fome da Rocinha (que seria em São Conrado), e quer proibir o nosso bloco oficial de desfilar na orla da praia, mesmo autorizado oficialmente pela Prefeitura, pois não quer assistir a 'bagunça da favela' do alto de sua janela. Entendemos isso como luta de classes. Como vê a atuação da prefeitura na favela atualmente? Existem parcerias com a associação de moradores? A favela pela primeira vez em sua história elegeu um representante na Câmara Municipal que é o vereador Claudinho da Academia (que mora dentro do morro, entre bêcos e vielas). A grande mídia tentou derrubá-lo, defenestá-lo, com acusações infundadas. Para a burguesia, o poder legítimo que emana do povo atravéz do voto, é algo PERIGOSÍSSIMO, pois o verdadeiro voto de 'curral' é aquele que eles sempre compraram do morador miserável, o mesmo que agora está absorvendo ideologia política. É possível observar mudanças na relação entre o bairro e as favelas desde o período que mora no bairro? Quais seriam estas mudanças? Hoje eu acho que as favelas estão menos pobres e os ricos, menos ricos, a prova disso são moradores de bairros vizinhos que vêm cortar cabelo na Rocinha ou fazer feira, ou ainda tentar uma mão-de-obra mais barata. Neste caso, as diferenças sociais são diminuídas e muitas vezes acontece uma inversão de valores. Como representante dos moradores da favela, como acha que os moradores têm visto a ocupação policial em algumas favelas da região? O que foi positivo e o que foi negativo? A ocupação é um instrumento paliativo, de que vale ocupar as principais favelas da zona sul com a certeza de que isso vai deixar mais bandidos desempregados e aumentar os índices de outros crimes? E as outras quase mil favelas do Rio de Janeiro, como resolvê-las? É preciso trabalhar o problema na raiz e investir na educação, na igualdade social, nas crianças. 156 Modelo de questionário respondido Morador do bairro de: Leblon Há quanto tempo mora no bairro? 21 Qual a sua atividade ocupacional? Professora PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Por que escolheu este local de moradia? Meu marido herdou o apartamento dos pais, e adoro o bairro: moro entre a Lagoa e a praia, tenho muito lazer à disposição, é limpo, calmo, tem tudo à pé. Já morou em outros bairros da cidade? Se sim, o que aponta de diferenças entre um bairro da zona Sul e outros bairros da cidade? Sim, Tijuca e Grajaú. Uma das coisas que mais me encantava era ter uma linda vista, o cheiro do ar é diferente, devido à grande quantidade de áreas verdes e proximidade do mar, não tem quase camelô, as calçadas são limpas, dá para andar de carrinho de bebê e cadeiras de rodas, todo mundo se conhece... É mais fresco. Tem um monte de opções de lazer, culturais (teatros, cinemas, planetários, a PUC, biblioteca pública, excelentes livrarias), dois shoppings - e faço tudo à pé. Excelente rede de transporte. Quais os principais problemas que vê no seu bairro hoje? A população de rua, a desordem causada por pontos de van, sentimento de insegurança à noite. Como vê a presença de favelas no bairro? Bom, o Leblon em si não tem favelas, a Gávea e Ipanema têm. O problema é que há possibilidade de tiroteios e balas perdidas (como eu tinha na Tijuca) e a dificuldade em se fazer preservar a ordem urbana. Evita passar ou ir a algum lugar devido à proximidade de áreas faveladas? Com certeza. Antigamente, eu subia a Estrada da Gávea e saía em São Conrado, hoje em dia desisti, tenho medo de ficar no meio de algum tiroteio. Mas continuo a frequentar minha Igreja, em uma das saídas do Cantagalo. Como vê a questão da ocupação policial nas favelas da Zona Sul atualmente? o que apontaria como pontos positivos e negativos? Acho muito interessante o conceito da polícia pacificadora. O Estado precisa ocupar seu lugar perante todos os cidadãos, - moradores do "asfalto"ou do "morro", provendo serviços básicos, garantindo o cumprimento da lei, mostrando que todos têm a proteção do Estado - direitos - e, portanto, devem cumprir seus deveres. Também acho importante o confronto com traficantes, reprimir a violência. O que é uma questão quanto à forma. Acho que os moradores da favela precisam também de segurança e isso não acontece com incursões eventuais da polícia. 157 Modelo de Questionário respondido Morador da comunidade: Favela Santa Marta Há quanto tempo mora nesta comunidade? Nascido e criado (28 anos) Qual a sua atividade no momento? Sou Dj, Professor de Dança e trabalho com shows e eventos. Qual o seu local de nascimento? Rio de Janeiro PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812100/CA Por que escolheu este local de moradia? Gosta de morar neste local? Sou nascido e criado no Santa Marta. Amo morar aqui, adoro todos daqui, me sinto bem onde moro, e atualmente melhor ainda com as mudanças da comunidade. Soltar pipa, sol na laje, pagode, funk..Nada substitui uma favela...Pode ter coisas caras e luxuosas mais a simplicidade é tudo. Se tivesse oportunidade de sair da favela para morar em um local melhor, mas mais distante, fora da Zona Sul, sairia? Por que? I cara é difícil. Não vou dizer que não vou sair da favela um dia, posso ou não, agora, claro que é bom né, mais fora da zona sul largar meu umbigo, sei não...é difícil. Considera importante estar na Zona Sul? Quais as vantagens e desvantagens que vê em morar na Zona Sul? Considero. Tudo gira por aqui, e as facilidades, o acesso e as coisas ficam mais fácil. Vantagem é que é tudo perto, e é o centro das atenções mais tem a agitação, a movimentação e as noticias que as vezes incomodam um pouco. Como acha que os moradores do bairro, de classe média e média alta, se sentem a respeito da favela? Intimidados, medo, pena. Mais mal sabem eles que somos pessoas do bem, que não somos marginais e que a vida aqui é simples mais é muito bem vivida. A integração a diversão e a nossa cultura é rica. Acho que eles tinham que fazer esse tour pra poder aprender mais com a gente a viver, mesmo as vezes com condições precárias masi felizes, alegres e calorosos. Quais equipamentos urbanos utiliza/freqüenta no bairro: Shoppings Centers, Praias e ciclovias, Metrô. 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