Colóquio Internacional ALICE
Coimbra, 10 – 12, Julho, 2014
Sessão inaugural do Colóquio ALICE por Boaventura de Sousa Santos
Bom dia a todos!
Está o teatro Gil Vicente cheio como nos grandes dias de festa
e é uma alegria muito especial podermos vê-lo assim. Acho que
é isso que nós precisamos no mundo, cada vez mais, é que a
gente se sinta “em festa”, na esperança, juntos, discutindo,
divergindo, convergindo, e eu penso que esses dois dias vão ser
exatamente dias de convergências e divergências, mas de
diálogo acima de tudo e, quem sabe, como nós gostamos de
fazer na Universidade Popular dos Movimentos Sociais, também
de convergências e de ideias para as lutas coletivas nos nossos
diferentes países. Eu vou tentar falar devagar, peço desculpas
aos meus queridos tradutores que normalmente têm muito
problema comigo, nem costumo ler os meus textos, costumo
realmente usar apenas notas. Vou falar em português - nas
Epistemologias do Sul temos também a nossa política de língua
-, em alguns temas eles vão ter alguma ou maior dificuldade, já
os avisei, mas “quem me avisa, meu amigo é”, e, portanto,
vamos a isso.
1
Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
Nunca como hoje a política foi tão epistemológica e a
epistemologia foi tão política. A política dominada apresentase nos hoje como um paradoxo de produzir formas repugnantes
e
indignas
de
exclusão,
de
discriminação,
vigilâncias
seguritárias para riscos inseguráveis, de resto, destruição
ambiental e de fazer, em nome de um conhecimento que se
apresenta como rigoroso, objetivo, especializado porque raro raro porque especializado -, do qual decorre esse estado de
coisas para o qual não há alternativa. Estamos supostamente
numa sociedade do conhecimento, noto, não uma sociedade
de “conhecimentos”, no plural.
E, se a alternativa ao conhecimento é a ignorância, a
alternativa ao status quo é o caos, é o colapso da sociabilidade
e da governabilidade. Perante isto, uma intervenção que
interrompa esta política tende a assentar na interrupção da
epistemologia que lhe sugere, na política de conhecimento
que lhe sugere. Diria que a intervenção epistemológica não
faça sentido senão como intervenção política; tenho definido
esta condição como ideia de que nós não encontraremos
alternativas se não formularmos um pensamento alternativo de
alternativas. E esta interrupção epistemológica tenho eu
chamado de Epistemologias do Sul. Este conceito exige
alguma especificação dado o seu caráter intrinsecamente
problemático.
Em
primeiro
lugar,
define-se
como
uma
pluralidade: epistemologias e não epistemologia, o que se
suscita a questão de que os critérios de validação dos
conhecimentos não são exteriores aos conhecimentos que
validam. E, sendo assim, as práticas e os conhecimentos não
são separáveis das outras práticas contextuais políticas,
culturais, sociais e, portanto, dos agentes e grupos que as
protagonizam e dos objetivos que pretendem obter com ela.
Tenho tido a defender que as epistemologias são dispositivos de
produção e de validação do conhecimento ancorados nas
experiências de resistência daqueles e daquelas que têm
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Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
sofrido injustamente as injustiças produzidas pelo capitalismo,
pelo colonialismo e pelo patriarcado. Ao vasto, intenso e
diversificado campo dessas experiências chamamos “o Sul”,
que é o Sul geopolítico, porque é anti-imperial e, acima de
tudo, um Sul epistemológico. Portanto existe também no Norte,
tal como o Norte epistemológico também existe no Sul através
das suas elites. Trata-se de um Sul epistemológico feito de
muitos “Suis” epistemológicos que têm em comum serem
estratégias de conhecimento e resistência anticapitalista,
anticolonial e antipatriarcal.
O objetivo de existir das Epistemologias do Sul é o de permitir
que os grupos sociais dominados, excluídos e discriminados
representem o mundo como próprio. Quem não é capaz de
representar o mundo como seu próprio tampouco pode
transformá-lo a seu favor segundo as suas aspirações, segundo
as suas ambições. As Epistemologias do Sul incluem assim e
incidem sobre conhecimentos nascidos nas lutas sociais e
políticas e não são separáveis a essas lutas. Por isso, levar a sério
as Epistemologias do Sul implica correr riscos, quer na
participação das lutas, quer na solidariedade ativa, intensa e
densa nessas lutas. Praticar as Epistemologias do Sul não é
pensável sem participar nas lutas e correr os riscos que elas
implicam. As Epistemologias do Sul não são epistemologias no
sentido convencional do termo, ocupam o conceito, isso sim,
para o significar como um instrumento de interrupção. O
conceito de interrupção é fundamental a essa démarche
epistemológica das políticas de conhecimento dominante. Só
há Epistemologias do Sul porque há Epistemologias do Norte e
enquanto elas existirem. Portanto, o objetivo das Epistemologias
do Sul é desaparecerem, é o não serem necessárias. Para as
Epistemologias do Norte, que sustentam a reprodução do
capitalismo nas suas versões dominantes, são aquelas que eu
trato aqui; já vamos ver as próprias versões dominadas, que são
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Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
aquelas que garantem a reprodução do capitalismo, do
colonialismo e do patriarcado. O Norte é o conhecimento e o
Sul é a ignorância, o Norte é a solução e o Sul é o problema.
Mas atenção: as Epistemologias do Sul não são a imagem ou
espelho
do
Norte,
das
Epistemologias
do
Norte.
As
Epistemologias do Sul não visam substituir as Epistemologias do
Norte, por o Sul no Norte e o Norte no Sul, isso seria muito próprio
das próprias Epistemologias do Norte. Visam sim superar esta
dicotomia, ir para além dela e encontrar para além da
resistência que tem que se fazer, as Epistemologias do Norte,
encontrar
obviamente
outras
epistemologias,
outras
alternativas, outras propostas.
A novidade só vem da superação dessa dicotomia que se
transformou numa jaula férrea em que vivemos nos últimos
cinco séculos. O Sul que se opõe ao Norte não é o Sul por este
constituído, constituído pelo Norte, mas o Sul que se revolta com
o objetivo de superar a dicotomia existente. Não se trata de
eliminar as diferenças entre Norte e Sul, mas antes, de
questionar e de combater os poderes e as hierarquias que as
habitam. Por isso, as Epistemologias do Sul afirmam e valorizam
as
diferenças
regionais,
geográficas
e
epistemológicas
exclusivamente que subsistem depois de as hierarquias serem
eliminadas. São válidas todas as diferenças depois de terem
sido eliminadas as hierarquias que as tornam possíveis. E se há
diferenças que só são possíveis pelas hierarquias não nos
interessa. Se há diferenças seja entre homem e mulher, seja
entre a natureza e a sociedade, seja entre o oeste e o leste,
que são possíveis sem as hierarquias, estas sim são as diferenças
que estão por detrás das Epistemologias do Sul. Portanto é
muito
importante
ver
que,
deste
ponto
de
vista,
as
Epistemologias do Sul partem da ideia de que as realidades
negadas são parte das realidades afirmadas. Daí algum
conceito surgir destas ausências, é, portanto, um pensamento
holístico, um pensamento holístico que tem tanta vigência em
tantas
cosmovisões
e
filosofias
do
mundo
sempre
e
4
Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
eventualmente na cosmologia e na filosofia heliocêntrica
cartesiana e que, sendo um pensamento holístico, não é
totalitário.
Pelo
contrário,
convive
muito
bem
com
a
pluridiversidade, ela não se imagina nunca como sendo parte
de um universalismo abstrato. E é por isso que também permite
a criolização ou a mistiçagem descolonizadora, um conceito
sobre o qual teremos que trabalhar. O primeiro objetivo das
Epistemologias do Sul é, pois, interromper as dicotomias e
armadilhas que caracterizam o paradigma da modernidade
ocidental nas suas versões hegemônicas.
Assim, muito brevemente, e, portanto, apenas como tópicos,
vou falar um pouco de quais são as principais interrupções
epistemológicas que as Epistemologias do Sul operam para
criar um espaço de interconhecimento que é também um
espaço de interluta de onde podem surgir novas alternativas na
sociedade. O primeiro desafio obviamente é matricial, é
aquele que visa reconhecer outros conhecimentos para além
do
conhecimento
científico,
precisamente
porque
o
conhecimento que é nascido na luta raramente chega às
universidades,
porque
só
chega
o
conhecimento
dos
vencedores, não chega o conhecimento dos vencidos, e,
portanto, o conhecimento do conhecimento dos vencidos é
fundamental como experiência humana da nossa sociedade.
Daí o conceito de convergência de saberes. A segunda
distinção é a distinção entre conhecimentos nascidos nas lutas
e conhecimentos que podem ser úteis às lutas. Nem todo
conhecimento é nascido na luta, mas pode ser útil às lutas. E
aqui é muito importante o modo como o conhecimento
científico é valorizado dentro das Epistemologias do Sul, não é
de maneira nenhuma descartado, ele é sujeito a um
procedimento que permite que vejamos o que nós chamamos
o pluralismo interno da ciência, do qual parte desta prática
científica pode ser útil e é muito eficaz nas lutas sociais, outra
5
Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
deve ser descartada. Um exemplo concreto das lutas que
participamos hoje em dia é aquilo que permite o uso contrahegemônico de ciência, digamos assim, inclusivamente
agronômica. Todos sabem que, neste momento, em vários
países da América Latina e, nomeadamente, no Brasil estamos
envolvidos todos em uma grande luta contra os agrotóxicos, ou
seja, todos os herbicidas e pesticidas que são fundamentais
para a agricultura industrial e que, estão neste momento a
produzir no Brasil, no Nordeste, índices de câncer em zonas
rurais superiores aos índices de câncer de São Paulo ou das
grandes cidades. As populações, as escolas e as comunidades
são pulverizadas com esses agrotóxicos.
Pois bem, há uma ciência agronômica financiada pela
Monsanto que diz que obviamente esta é a única solução para
salvar a fome da humanidade, mas há uma ciência de
agrônomos solidários conosco que, a partir do conhecimento
científico, nos mostram como são destrutivos os agrotóxicos não
apenas para a nossa saúde, mas para a saúde da Terra Mãe,
para a saúde dos rios, para a saúde dos ecossistemas. Essa
ciência é solidária com a nossa luta, não a descartamos de
maneira nenhuma. Portanto é esta discriminação ético-política
que é o grande desafio das Epistemologias do Sul. Portanto,
temos que estar do lado de uma ciência que “nos ajuda” a que
os camponeses, os indígenas e as populações ribeirinhas
tenham apoios na sua luta contra uma agricultura que os
expulsa das suas terras, contamina as suas águas e o seu ar e
intoxica os seus corpos. O terceiro desafio decorre destes: é o
compromisso ético-político nas políticas do conhecimento, é a
interrupção entre uma falsa equivalência entre objetividade e
neutralidade. Aqueles que têm trabalhado conosco sabem
como nós fazemos uma distância, uma distinção total entre
objetividade e neutralidade. Objetividade é uma coisa, é a
procura de um conhecimento rigoroso, um conhecimento
objetivo que não vai apenas através das opiniões, políticas ou
“outras” e que encontra metodologias para encontrar um
6
Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
conhecimento mais abrangente que possa ser sujeito de
argumentação, mas não queremos ser neutros, queremos
saber de que lado estamos. E por somente neste exemplo, não
estamos de modo nenhum do lado do agronegócio e dos
agrotóxicos, estamos do lado dos camponeses, dos indígenas,
das populações ribeirinhas e, naturalmente, das populações
urbanas que estão condenadas a comer frutas que têm mais
de 30% de incidência de tóxicos, sejam elas os morangos sejam
elas as mangas.
O quarto desafio, talvez dos mais exigentes para as
Epistemologias do Sul é o desafio das metodologias. Como é
que nós podemos produzir outro tipo de conhecimento com as
metodologias convencionais? Temos dois procedimentos sobre
os quais espero que nós possamos discutir aqui: um é o que nós
chamamos o
uso contra-hegemônico de
metodologias
convencionais. Podemos fazer as metodologias quantitativas
ou qualitativas de recolha de dados desde que, nós saibamos
que não estudamos “sobre”, estudamos “com”. Estudar “com”
é totalmente diferente de estudar “sobre” e isto não pode ser
feito com estas metodologias, temos que inventar outras
metodologias. Se calhar, vistas das convencionais até são
totalmente “imetódicas”, anárquicas, mas não são, no caso do
nosso projeto e do nosso trabalho, que aliás, anterior a este
projeto, nós temos vindo a desenvolver e estão aqui vários de
vós e várias de vós que eu me sinto muito feliz por estarem aqui,
que participaram nas oficinas da Universidade Popular dos
Movimentos Sociais. É nossa grande aposta de educação
popular para as próximas décadas porque ela tem tido uma
eficácia extraordinária realizada de Tunes ao (?)1, a Leiria, a
Mumemo, a (?), a Córdoba, a Medelim, a Belo Horizonte, a
Aldeia Velha, a Porto Alegre, a Brasília, em tantos lugares deste
continente, dos vários continentes. Mumbai, onde nós juntamos
durante dois dias um pequeno número de intelectuais,
normalmente um terço deles comprometidos, naturalmente,
com os movimentos e dois terços de líderes de diferentes
1
Os trechos indicados pelo símbolo (?) se referem a passagens não
compreendidas pela equipe de transcrição.
7
Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
movimentos sociais. Penso que temos, nos países onde temos
estado – na Bolívia é assim também, no Equador, como vê são
tantos os países que por vezes me escapa, estamos a caminho
da nossa que vamos realizar na África do Sul – ajudamos as
lutas, tenho hoje a consciência de que nós ajudamos com as
duas Universidades Populares dos Movimentos Sociais que
realizamos
em
Moçambique,
ajudamos
as
lutas
dos
camponeses contra o agronegócio brasileiro de fato, o
chamado Pró-Savana que, com tecnologia brasileira e dinheiro
japonês, está a tentar expulsar 4 milhões de camponeses do
centro de Moçambique, tal e qual como se fez no projeto do
cerrado que todos conhecem.
O quinto desafio é a redescoberta da oralidade. A oralidade
desmonumentaliza o conhecimento escrito e nós estamos
muito a apostar em recuperar a oralidade porque a cultura
fundamental dos povos é uma cultura oral. A cultura escrita tem
o seu mérito, mas obviamente que a cultura oral tem o seu lugar
e deve tê-lo cada vez mais e nós podemos realizar cultura oral
a partir daqueles que têm estado interessados e têm estado
envolvidos na cultura escrita. Essa nova filosofia e metodologia
podem rever na página do projeto ALICE, chamamos isso as
Conversas do Mundo. As conversas que eu tenho conduzido
com Leonardo Boff, com o Sílvia Rivera Cusicanqui que está lá,
que lá está atrás, que realizamos com o presidente (?), Alicema
Bota, o professor Dhirubhai Lal Sheth da Índia, com o
Governado Tarso Genro e o professor Morimba do Congo e
agora dos Estados Unidos, o professor Ramose em Freedom
Park, na África do Sul e podeis ver alguns deles que são
conhecidos por seus escritos e como são diferentes quando
falam: engasgam-se, repetem-se, não precisam de notas de
rodapé, riem-se, olham nos olhos, ficam às vezes preocupados
com uma pergunta. É outra coisa que, num texto plano, chato
(no sentido de plano) nunca aparecem, são as emoções da
oralidade. Esse é um grande desafio que está aí. Em sexto lugar,
o desafio da autoria. O conhecimento nascido nas lutas não é
um conhecimento individual, é um conhecimento coletivo.
Como é que a gente se apropria do conhecimento coletivo
para escrever artigos e fazer dissertações e teses de
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Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
doutoramento ou mestrado? É um problema ético, é um
problema
epistemológico,
sobretudo
porque
os
conhecimentos mais importantes para as Epistemologias do Sul
não têm autores, são autores. Isto é algo que é muito difícil de
introduzir na ideia das Epistemologias do Norte. Por último, o
desafio maior é o desafio dos cinco e, talvez, mais de cinco
sentidos na produção de saberes e na produção de “sabores”
também. À necessidade de escutar profundamente, as
Epistemologias do Norte são muito loquazes, logocêntricas,
podem ouvir, mas não sabem escutar e muito menos escutar
profundamente, são cegas. Escrevi um artigo chamado A
Epistemologia da Cegueira na Gramática do Tempo, mas não
sabem não ver atentamente, fechar os olhos para poderem ver
outras
coisas,
a
dimensão
da
espiritualidade,
da
transcendência, que é possível sem sequer estarmos a falar de
religião, mas é preciso também saber saborear, tocar, cheirar
corpos, seres, paisagens, ideias, propostas, manifestos, razão
“quente”,
em
suma,
de
onde
emergem
projetos
emancipadores e cumplicidades transformadoras.
Sendo estes os desafios, quais são as duas dimensões
fundamentais em que as Epistemologias do Sul têm que intervir
para depois apresentarem as suas propostas. Portanto, entro na
segunda parte da minha palestra e depois a última, sobre as
alternativas. A primeira e a segunda, portanto, são estas duas
dimensões que me parecem particularmente importantes. A
primeira chamarei: “O poder como espelho falso ou traiçoeiro”,
e a segunda: “A política de conhecimento como política de
ser”. O poder como espelho, ao situar-se na perspectiva dos
oprimidos, as Epistemologias do Sul permitem identificar com
mais precisão as dinâmicas e as lógicas do poder que
reproduzem as diferentes formas de dominação do nosso
tempo e com base nisso intervir mais competentemente nelas
para
subvertê-las. Permitem
mostrar simultaneamente
e
contraditoriamente a magnitude do poder e a fragilidade do
poder. E nestes tempos é muito importante que vejamos as
duas coisas, não apenas a magnitude, mas também a
fragilidade.
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Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
É por via das políticas de conhecimento e de desconhecimento
que o poder injusto se transforma em civilização, ou seja, em
autoconsciência de uma época. As opções que assumem um
caráter civilizatório desarmam os oprimidos na raiz da sua
potencial resistência porque negam a existência mesma da
opressão, enquanto opressão injusta. O poder dos opressores
decorre, em boa medida, da sua capacidade para se
aproveitarem das imagens que detêm os oprimidos e aqui está
a sua força e aqui está também a sua fragilidade. O exemplo
fundador dessa lógica de dominação, deste espelho perverso,
está na própria conquista do novo mundo tal como é narrada
por um querido amigo que, infelizmente, já é falecido, um
grande filósofo equatoriano, Bolívar Echeverría. Para os
conquistadores, quando chegaram ao novo mundo, os Incas
eram um inimigo a abater, eram os chefes de uma civilização
a abater, uma civilização a vencer, uma civilização com a qual
a
civilização
europeia
não
podia
imaginar
qualquer
compromisso. Para os Incas, os conquistadores eram deuses,
não uma civilização rival, mas um estado superior da sua
própria civilização e por isso, em grande medida, pelo menos
em alguns dos locais importantes, renderam-se ou deixaram
implodir as suas instituições e, portanto, as suas resistências.
Onde os conquistadores viam um conflito inconciliável, os
indígenas viam uma melhoria civilizacional, não um conflito,
mas uma nova qualidade. Este poder de criar imagens que
desarmam radicalmente os oprimidos é enorme porque “quem
quer ser como o seu inimigo, transforma-se no seu pior inimigo –
de si mesmo”. Mas sendo um poder absoluto é também um
poder frágil porque assenta em uma força em boa parte
imaginária e esse caráter imaginário é tão forte e tão fraco
quanto a política de conhecimento que lhe sugere. Ao
transformar a justiça cognitiva numa condição da justiça social
do nosso tempo, as Epistemologias do Sul são uma intervenção
epistemológica com o potencial de fragilizar o poder dos
opressores ao mostrar as fragilidades autoinduzidas nos
oprimidos. O exemplo que dei dos Incas como sendo um
exemplo fundador não aconteceu apenas uma vez e não
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Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
aconteceu apenas no passado, está a acontecer hoje, é uma
constante do poder de modernidade ocidental. Os mercados
financeiros globalizados veem-se em conflito inconciliável com
as aspirações das grandes maiorias da população por uma
vida digna ou por um bem de viver. Vejam o relatório de ontem
da OCDE sobre Portugal, é exatamente isso: há um conflito
inconciliável entre um trabalhador viver bem, ter um salário
razoável, ter uma educação pública e uma saúde; é
inconciliável com a lógica dos mercados financeiros, daí a
violência do que chamamos austeritarismo. Mas o seu poder
alimenta-se do modo como as vítimas deste poder vão
desistindo dos seus direitos e até se convencem que o
empreendedorismo é o estado superior de desenvolvimento.
Quantos jovens hoje estão a ser e se querer treinar como
empreendedores? Ninguém lhes pergunta pelas condições,
ninguém lhes pergunta: Empreendedorismo para que ou a
serviço de quem, contra quem? Mas é exatamente a imagem
que os mercados financeiros inculcam neles e que os
desarmam obviamente nas suas resistências. É ele que permite
ao
capitalismo
financeiro
dos
nossos
dias
promover
simultaneamente formas de dominação neo ou pré-modernas;
os castelos neofeudais dos super ricos ao lado da servidão
voluntária das multidões e estigmatizar como pré-modernos
todos os que se lhe opõem como é, por exemplo, o caso hoje
dos povos indígenas, camponeses e populações ribeirinhas no
Brasil que são consideradas obstáculos ao desenvolvimento. E
o mesmo passa na Bolívia e o mesmo passa no Equador e o
mesmo passa na Índia e o mesmo passa em Moçambique. Ao
centrarem-se nas justiças cognitivas, as Epistemologias do Sul
visam estilhaçar espelhos, os espelhos em que os oprimidos se
veem segundo as imagens que facilitam a opressão. Ao
estilhaçar os espelhos que fundam a servidão voluntária, tornase mais fácil definir e confrontar os limites da servidão forçada.
No século XVI, Etienne de La Boétie dedicou um célebre estudo
à servidão voluntária e aí dizia: “A primeira razão para que os
homens sirvam voluntariamente é que tenham nascido como
11
Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
servos e educados como tais”. As Epistemologias do Norte têm
sido um dispositivo gigantesco de educação para a servidão
voluntária. A segunda característica do poder do nosso tempo
é a extrema desproporção de recursos econômicos, políticos,
ideológicos e midiáticos entre os grupos de poderosos e os dos
sem poder. Tenho chamado esta extrema desproporção “A
droneficação da política e do poder”. Drones vem obviamente
de drones, essas armas não tripuladas que causam tantas
mortes no Oriente Médio e no Afeganistão e em muitos outros
países (possivelmente no futuro), são a anatomia de uma forma
de poder tão mais poderosa que o inimigo que não tem que
preocupar-se com a retaliação, que não imagina preparar-se
para a derrota, que também não celebra a vitória, porque ela
é uma rotina computadorizada. São assim os drones, e que não
têm heróis, porque estes são impulsos eletrônicos que nem
sequer conhecem os donos. Esta forma de poder tem como
característica fundamental nunca seguir as mesmas regras de
jogo do adversário e é por isso que o adversário nunca é
adversário, é inimigo. Aqui as propostas democráticas nascidas
no Norte, no melhor que o Norte tem como crítica, deixam de
funcionar. O conflito deixa de ser agônico, entre adversários
que seguem as mesmas regras de jogo, para ser antagônico,
inimigos que não seguem as mesmas regras de jogo. O que são
isso exatamente? Essas não mesmas regras de jogo são
exatamente isso, os mercados financeiros, os sistemas de
vigilância e de segurança integral, as guerras não declaradas,
a grande concentração midiática são formas de poder que se
organizam mais e mais segundo a lógica dos drones. Quanto
mais dominarem, mais a democracia se transforma numa
imagem
falsa
projetada
num
espelho
de
despotismo
consentido.
Apesar de traiçoeira é uma imagem poderosa, porque, por via
dela as cidadãs e cidadãos julgam a continuar a viver em
democracia, sujeitos a um poder político que atua para o bem
de todos e que só é violento em legítima defesa contra os
12
Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
nossos inimigos que não respeitam a democracia, como está
hoje a acontecer na nossa querida Palestina pelos quais e, para
eles, peço uma saudação de solidariedade. Também aqui as
Epistemologias do Sul têm um contributo importante ao
definirem, aqueles que conhecem o trabalho, a linha abissal,
que a partir do século XVI dividiu o mundo eurocêntrico entre
as sociedades metropolitanas e as sociedades coloniais. Uma
linha tão radical que se tornou invisível, porque civilizacional, e
que separou e continua a separar radicalmente o lado de
cada linha: onde há democracia, direitos humanos, etc., o lado
do mundo metropolitano, e o lado de lá da linha, foi o mundo
colonial,
o
da
apropriação
e
da
violência.
Para
as
Epistemologias do Sul esta linha abissal vigora hoje com a
mesma intensidade que antes, ainda que assumindo outras
formas. É ela que explica a dronificação da política, explica
que esta dronificação da política não seja julgada em nenhum
tribunal de direitos humanos, não seja levada ao Tribunal Penal
Internacional, pelo contrário, são apenas os líderes africanos,
não estou a dizer que sejam uns santos, mas são os únicos que
têm sido selecionados para este tribunal. Portanto, as regras do
jogo nunca foram nem são as mesmas dos dois lados da linha.
A ocultação desse fato legitimou e continua a legitimar um
poder capitalista, colonialista e patriarcal, mesmo perante os
que mais sofrem com ele. Ao tornar claro que sem justiça
cognitiva e negligência das linhas abissais, a democracia tal e
qual como a hoje a conhecemos é, quando muito, uma
pequena ilha no meio de um imenso arquipélago de
despotismos. As Epistemologias do Sul radicalizam o diagnóstico
do nosso tempo e, ao fazê-lo, abrem espaços para alternativas
pós-abissais. O segundo contributo das Epistemologias do Sul é
o da epistemologia à ontologia, ou seja, do conhecer ao ser.
Porque pensamos que as políticas de conhecimento, sempre
que assumem um caráter civilizatório, têm na sua raiz uma
política de ser, são ontológicas. E por isso digo que, se as
práticas de saber forem práticas de conhecer “com” e não
conhecer “sobre”, que é próprio das Epistemologias do Sul, elas
13
Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
não têm consistência se não se fundarem numa ontologia do
ser com, aí está a filosofia ubuntu da África Austral ao dizer de
uma maneira tão eloquente “eu sou porque tu és”, e a
cosmovisão ioruba que os nossos estudantes tiveram a ocasião
de ver através do nosso colega Jimmy Adams na África do Sul
durante o curso de verão, tem exatamente o mesmo princípio
como tem o mesmo princípio do (?) e do (?), os indígenas,
como tem os mesmos princípios holísticos das grandes culturas
hindus, budistas e indigenistas, ou seja, realmente local, local,
local mesmo, é realmente, é a concessão eurocêntrica do ser
individual e descontextualizado. Portanto, concebido como
parte de uma sociologia das emergências é a ideia de “eu sou
porque tu és”, convoca novas complexidades não lineares
entre conjuntos, o conjunto “indivíduo e comunidade”. Não é
preciso fundir o indivíduo na comunidade nem a comunidade
no indivíduo, é preciso saber que elas são possíveis em formas
de complementaridades que têm mais a ver com formas
quânticas, se quisermos da ciência moderna do que tem a ver
com concessões lineares: sociedade-natureza, corpo-alma,
pensar-sentir,
imanência-transcendência
e
essa
grande
complexidade de ser que está em todas as cosmovisões, em
todas as filosofias, esta relação íntima entre ser vivo, ser vivo
morto e ser vivo ainda não vivo. Isto é uma ontologia muito mais
complexa que não cabe obviamente nas Epistemologias do
Norte. A diversidade dos conhecimentos é outro lado das
diversidades dos seres, a incompletude dos saberes é o outro
lado da incompletude dos seres e é dessa incompletude que
nasce a contingência radical da vida.
Não vou repetir aqui, obviamente, a minha crítica à razão
metonímica que subjaz às Epistemologias do Norte e, como
sabem, eu tenho vindo a tentar distinguir nela as cinco
monoculturas e só refiro agora porque vou sugerir hoje uma
sexta. Muitos saberão que identifiquei cinco dimensões na
razão metonímica que são as tais monoculturas que geram
14
Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
formas degradadas de ser, não é apenas não ser, não é
apenas não conhecer, são formas degradadas de ser de
existência: o ser ignorante, o ser inferior, o ser atrasado, o ser
local e o ser improdutivo. Aqueles que conhecem o meu
trabalho sabem que são estes cinco. A cada um deles
corresponde uma forma superior de ser, uma forma ontológica
superior. O primeiro, “penso, logo existo”; o segundo, “sou
homem
branco,
cristão,
logo
existo”;
o
terceiro,
“sou
desenvolvido, logo existo”; o quarto, “sou global, universal, logo
existo”; o quinto, “sou produtivo, logo existo”. Importante
considerar que não são formas de ser, são formas de ser que
justificam formas de ter, isto é, não são formas de ter são formas
de ser que justificam as formas de ter. E penso que hoje é
fundamental, talvez, juntar uma sexta monocultura que é a
monocultura do medo abissal, da segurança e da vigilância
integrais que criam um novo ser ontologicamente degradado:
o perigoso. O perigoso é um ser humano fugaz e intermitente
que só existe enquanto passa sob o olhar das câmeras de
vigilância. A sua densidade existencial e o seu tempo é uma
sucessão de instantes filmados para além dos quais ele ou ela
nada é. Não é uma monocultura nova, de modo nenhum, mas
tem hoje uma presença sem precedentes ao ser perigoso, pois
está expondo, obviamente, um ser ontologicamente superior,
“vigio, logo existo”. Esta é talvez a monocultura que mais se
aproxima aliás, da sacralização do poder. Se ser divino é ser
alguém presente sem que se seja visto, vigiar sem ser vigiado, a
droneficação da política é uma arrogante falsificação da
divindade e, exista ou não, uma verdadeira.
Terceira parte da minha palestra: Pensando as alternativas. Ao
disputar as políticas dominantes do conhecer e do ser, as
Epistemologias do Sul visam criar ideias proporcionadas dos
poderosos, se
não
tivermos
ideias
proporcionadas
dos
poderosos nunca será possível a resistência e a alternativa, no
fundo desdronificar o poder e a política. No fundo, se o poder
é civilizatório, o imperativo é confrontá-lo em nome de outra
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Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
civilização, de outras civilizações que nem sequer precisam de
ser inventadas, apenas precisam de ser descobertas pela
sociologia das ausências e valorizadas pela sociologia das
emergências. A confrontação civilizacional dá-se em dois
momentos: o primeiro momento é a reconstrução da
possibilidade da esperança, e aqui, como sabem, vou sempre
às tradições centrífugas dos iorubas, dos ubuntus e também vou
às tradições centrífugas da modernidade ocidental. Espinoza,
já todos sabem que é um autor, um filósofo da minha
preferência, refere que a contingência radical da vida cria
duas emoções que, no seu entender, justificam a religião: o
medo e a esperança. Eu penso que não precisamos aceitar as
conclusões de Espinoza para dar crédito a estas duas
dimensões que decorrem indiretamente da incompletude do
conhecer e do ser. O medo é a paralisação perante a
contingência, a esperança é o movimento na novidade do
contingente. A monocultura securitária da vigilância integral
visa a potenciar a tal ponto o medo que a esperança deixa de
ser imaginável, tudo que é novo é perigoso, quando muito a
esperança fica subordinada ao medo e passa a residir na
confiança em que a engenharia de vigilância e de proteção
nos proteja e funcione eficazmente. Não se trata, pois, segundo
esta monocultura, de superar o medo, mas de conviver com
ele às custas de fortes investimentos em vigilância e proteção,
e nós sabemos que os orçamentos dos países e os orçamentos
das famílias que podem comprar estes instrumentos não
cessam de aumentar. Ora, a esperança assente no medo não
é outra coisa senão o medo da esperança.
As Epistemologias do Sul têm o potencial para desbloquear a
esperança porque elas próprias só são possíveis enquanto a
afirmação da esperança contra o medo epistemológico e a
negação ontológica, afinal a linha abissal foi a grande divisória
entre o mundo do medo com esperança, o mundo
metropolitano e o mundo colonial, o medo sem esperança e,
por isso, que o mundo colonial quando procurou libertar-se e se
libertou, foi pondo de lado o medo para poder ter a esperança.
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Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
Com
medo
Epistemologias
nunca
do
teriam
esperança
Norte
deram
e,
portanto,
uma
as
consistência
epistemológica a esta linha divisória pondo o movimento da
contingência do lado de cada linha e a paralisia da
contingência do lado de lá da linha e a contingência
paralisada é igual a necessidade bruta. É o selvagem, é um
estagnado, foi assim que a modernidade ocidental construiu a
dicotomia. Ora, o Sul anti-imperial que subjaz às Epistemologias
do Sul é a reivindicação do movimento a partir da contingência
e, portanto, é possível lidar da esperança traduzida da
sociologia das ausências, da sociologia das emergências, da
ecologia dos saberes e da tradução intercultural.
Ao
transformar o Sul anti-imperial no ponto de vista privilegiado
para uma epistemologia transformadora, as Epistemologias do
Sul abrem caminho para neutralizar o medo e permitir a
esperança, respirar outro ar que não o ar do medo. No atual
contexto, eu penso que é possível construir a esperança em três
momentos: Primeiro, são as disposições epistemológicas que
vão buscar realidades tão ligadas, tão marginais, tão
silenciadas que as epistemologias dominantes nem se quer se
dão ao trabalho de as contrariar e de lhes resistir. É o momento
de distração do poder epistemológico dominante. E aí que
estão as sociologias das ausências. O segundo momento é
aprender a viver o presente sobre o protesto, o presente sobre
o protesto é o presente que não tem alternativa, é o presente
em nome de um futuro que se realiza hoje, porque o único
futuro sobre o qual podemos intervir é o presente.
E isso é possível através do que eu chamo a Sociologia das
Emergências. Por último, é preciso o terceiro momento:
fortalecer as ações coletivas através da tradução intercultural,
através do diálogo, através das ecologias do saber que sejam
possíveis e começar a causar medo a quem nos causa medo.
Enquanto quem nos causa medo não tiver medo nada
acontece. A fragilidade do opressor não é um dado
epistemológico, é uma conquista política e, nesses tempos, não
é sequer utópica, é heterotópica, isto é, está a acontecer
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Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
concretamente aqui e agora, ali e em outro lugar, mas não é
conhecida, pois nós não temos capacidade de conhecer ou
de as valorizar. A heterotopia é uma resposta extra adicional à
tecnologia legislativa das utopias modernistas, não é uma
utopia modernista por certo, porque tal como não podemos
esperar que os deuses não se comportem como humanos,
tampouco podemos esperar que os humanos se comportem
como deuses. Não há homem novo, há antes a constante
novidade do humano: corpos vivos que se fazem e refazem na
contingência e no risco, na alegria e na tristeza, no sofrimento
e no prazer. Segundo as Epistemologias do Sul, com base nesta
ideia heterotópica, ou seja, outro lugar, uma maneira diferente
de fazer as coisas, pensamos que essas possibilidades
emancipatórias
vêm
através,
obviamente,
de
práticas,
experiências e inovações que tenham vindo a ter lugar no tal
Sul epistemológico, no tal Sul anti-imperial e que dão
aprendizagens ao mundo no seu todo, não são aprendizagens
para o Sul, são aprendizagens para todos. Quando, há uma
semana, estavam entre nós os sete líderes brasileiros, indígenas
brasileiros, a maior delegação que uma vez esteve na Europa
em 514 anos, líderes brasileiros, não estou a falar de latinoamericanos e que nos fizeram o feixe de vara, para eles
efetivamente e naquele momento, aquela aprendizagem que
nós podíamos dar da sua luta por salvar os seus territórios, as
suas águas, as suas culturas, os seus rios não é bom para eles
apenas, é bom para a humanidade no seu conjunto.
E é por isso que é só uma aprendizagem global e é por isso que
tem um lugar importante nas Epistemologias do Sul. A primeira
grande proposta tem muito a ver com todos nós e é o motivo
de nós trabalharmos: as Epistemologias do Sul têm que fazer
uma intervenção nas políticas do conhecimento e, portanto,
na educação, e, portanto, nas universidades. As universidades,
como eu sempre tenho dito, que nos formam para ser
conformistas, por vezes incontentes, temos nós que criar dentro
da universidade, contra a universidade, que nos permite criar
rebeldes contentes e isto é uma mudança na educação que
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Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
vai custar muito tempo e é transicional, mas é fundamental
termos como centralidade, e apelo aqui a Clarkson, como
tenho apelado aos colegas da Índia, e o Peter de Souza, a
política de conhecimento e educação popular e outra, deve
estar obviamente entre as nossas todas prioridades. Por isso é
preciso descolonizar as ciências sociais, as mentes que as criam
e os indicadores que as ensinam, é preciso trazer outras formas
de racionalidade, outras formas de especificidade para dentro
do conhecimento. O que vão ver aqui, da arte, da música, do
rap, do teatro, não são adições ao programa científico, são
parte do programa e do conjunto da escola, são vistos
integralmente como nossos. E, portanto, ao desmonumentalizar
o texto escrito nesta primeira grande ideia, nós estamos a fazer
com que muitos dos nossos investigadores, ainda um agora saiu
da Bolívia com um novo conceito que nos impactou de
imediato. É que ele foi para uma comunidade indígena, que
ele conhecia muito bem, fazer uma observação participante e
saiu de lá com uma participação observada, o processo de
campo inverteu completamente a relação, é algo que nós
temos que estudar muito atentamente. As quatro grandes
áreas, como sabem, em que nós estamos e vamos discutir
durante este bloco, as aprendizagens globais são as seguintes,
muito brevemente porque todos já sabeis, portanto é assim,
apenas para terminar.
A
primeira
chamamos:
Democratizar
a
democracia.
É
fundamental que hoje, este mundo europeu que, de alguma
maneira
definiu
alguns
parâmetros
numa
falsa
origem
chamada grega que era mediterrânica, que era persa, que era
do médio oriente, mas que se convenceram chamar grega e a
grega chamar-se europeia e que criou toda uma cultura da
democracia que se desenvolveu depois da Revolução
Francesa, ela hoje sucumbiu ao capitalismo financeiro e,
portanto,
nós
democráticas
encontramos
importantes
fora
da
da
Europa
democracia
energias
direta,
da
democracia participativa, da democracia intercultural que
não
põem
de
lado
necessariamente
a
democracia
representativa, mas que a complementa como o caso da
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Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
constituição da Bolívia que considera que há três formas de
democracia: representativa, participativa e comunitária. Com
diferentes campos de ação, mas esta democracia que nós
temos que aprender e que está a emergir também no Sul do
Norte, no próprio Sul da Europa, aqui na Espanha e quem sabe
aqui em Portugal também, é uma democracia que tem que ser
aprendida fora das instituições. Como eu costumo dizer, as ruas
são hoje os únicos espaços públicos não colonizados pelos
mercados financeiros e é por isso que estamos num período
pós-institucional e é por isso que nós temos instituições, elas
estão lá, mas não estão a funcionar como deveriam, porque
foram
sequestradas
por
antidemocratas
em
nome
da
democracia e é por isso que eu digo no meu livro: “o governo
são os governados em posição de distraídos”. A segunda área
são as outras economias. Eu tenho uma alegria muito particular
de ter aqui conosco meu querido amigo e um grande ativista
de nome mundial, o senhor Paulo Singer, do Brasil, da Secretaria
da Economia Solidária no Brasil, aqui conosco. Paulo é uma
inspiração para todos nós, pela crença, pela força, pelo
entusiasmo como sempre olhou para a economia solidária.
Eu no seu trajeto, não podia imaginar que ia ter tanta
possibilidade de integrar esse pensamento com a riqueza que
vem hoje das economias indígenas, e tantos outros que vão
falar do bem viver, de outros, aliás economistas treinados nas
economias das Epistemologias do Norte e que hoje são
capazes de ver outras formas de economias: camponesas e
indígenas, urbanas, as tais zonas que eu costumo chamar “as
zonas libertadas do capitalismo”, em plenas cidades do nosso
mundo capitalista. Portanto, há uma inovação enorme, porque
são economias que não vão nem pela abundância nem pela
austeridade, vão pela sobriedade. Não assentam na ganância,
mas na reciprocidade e na racionalidade. Não na soma zero,
mas no cuidado, são economias do cuidado, não no
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Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
agronegócio mas na soberania alimentar e na agroecologia.
São essas outras economias que conclamam outras formas de
propriedade, para além da propriedade individual e para além
da
propriedade
do
estado.
Propriedade
comunitária,
propriedade associativa, propriedade cooperativa, outras
formas de propriedade, porque sem outras formas de
propriedade, obviamente que a propriedade individual é
pouco mais que um roubo numa sociedade tão injusta em que
vivemos. A terceira grande área, são quatro, estou me
aproximando do fim, são as lutas pelas dignidades e pelos
direitos humanos, outros direitos humanos e, aqui, nitidamente
a nossa abordagem de como é possível um uso contrahegemônico de um instrumento hegemônico. Como digo em
alguns dos meus textos, foi em nome dos direitos humanos que
Napoleão invadiu o Egito, “não vos venho invadir, venho vos
trazer os direitos humanos”, 1798. Como é que os egípcios
podem olhar de “cara direita” para direitos humanos
convencionais? É por isso que quando eles lutam por
democracia, é uma democracia no seu conjunto, uma
democracia social, de direitos sociais e não apenas dos direitos
políticos individuais.
E é em nome dos direitos humanos que se destruiu a Líbia, que
se destruiu o Iraque, que se está a destruir o Afeganistão e que
se está a destruir a Síria e obviamente também a Palestina.
Portanto, estes direitos humanos são desumanos, são uma
forma de arrogância que não é tolerável do nosso ponto de
vista, mas nós conhecemos que estes direitos humanos são
patrimônio hoje das classes populares, dos grupos oprimidos
que se reconhecem que há gente que lutou pelos direitos
humanos, que foram torturados, por exemplo, na ditadura
brasileira (meu querido amigo Olípio Freitas, aqui na frente).
Foram violentamente torturados porque estavam obviamente
a lutar pela reforma agrária no nordeste do Brasil, penso que
ainda era padre nessa altura, e foi isso que aconteceu,
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Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
portanto, faziam em nome de uma espiritualidade, em nome
dos direitos humanos. É preciso recuperar essa radicalidade
que, às vezes, não cabem se forem direitos humanos, por
exemplo, que não incluam a natureza e assim, temos aqui
dentro do nosso projeto várias investigadoras e investigadores
que trabalham sobre os direitos da natureza. É uma grande
aprendizagem para o mundo, não é uma aprendizagem para
o Equador onde a ideia surgiu e foi consignada pelo grande
entusiasmo do presidente da assembleia constituinte de então,
meu querido amigo Alberto da Costa, aqui também conosco,
e depois celebrada e apoiada por outros constitucionalistas
como Nina Pacari que também está aqui, uma querida amiga,
grande líder indígena e intelectual, advogada e juíza do
tribunal constitucional. É que também isso é importante para o
mundo no seu conjunto e é por isso que, há pouco tempo
estávamos no Equador e eu tive a honra de presidir o tribunal
ético dos (?) e aí o que que nós vimos, uma aliança muito
interessante entre povos indígenas e jovens ecologistas urbanos
que, se calhar, que nunca tinham visitado a Amazônia, quem
sabe? Porque os indígenas que lá estavam defendendo a sua
terra, não eram terra, eram território, eram gente, era cultura,
como uma líder nos disse, “nós somos a terra que caminha”.
Eu acho que a modernidade ocidental só em poesia é que é
capaz de integrar isso, quando isto é literalmente verdade, não
é uma metáfora, é terra que caminha. Aqui na Europa seria
apenas uma frase bela do Fernando Pessoa, que, aliás, todos
nós usamos. Finalmente nós pensamos que muitos dos nossos
trabalhos vão ajudar aquilo que nós chamamos a refundação
do Estado, uma reforma participativa e intercultural do Estado
contemporâneo que obviamente tem que ter uma vocação
anticolonialista, anticapitalista e antipatriarcal. Há tentativas
extremamente bloqueadas, extremamente difíceis que estão a
surgir nestes países, nos países do Sul global onde nós temos
tido, por exemplo, um constitucionalismo extremamente rico,
extremamente ousado de Índia a Colômbia e, ao nível de
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Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
texto, do Equador a Bolívia, no próprio Brasil, mas bloqueados,
e tanto assim que nós, hoje, nos nossos projetos estamos a usar
já o conceito de desconstitucionalização em que, à medida
que as leis ordinárias destroem o que de novo havia nas
constituições. Participação cidadã, que ainda agora o Brasil
acaba de publicar uma ideia de participação cidadã, que
olhem bem o exemplo do Equador que se transforma num
instrumento partidário porque a participação cidadã é mesmo
cidadã ou não é nada, obviamente. Portanto, ao longo desses
dias vamos ter alternativas concretas, isto é, nada disto é
utopia, isto está a ocorrer hoje e por isso não tem o brilho de
uma legislação utópica, que é fácil como em 1600 anos antes
do Fournier, já um teórico cristão tinha falado dos falanstérios
de 400 pessoas, imaginem, 1600 anos antes. Como é que é
possível que nós possamos hoje não ir por essa legislação
abstrata da utopia e ver as possibilidades radicais do presente
que nós vemos hoje nessas práticas. E assim podemos viver o
fato presente sobre o protesto, um presente segundo as
possibilidades de esperança no futuro contra um senso comum
capitalista, contra um senso comum colonialista, contra um
senso comum patriarcal, mas há um perigo, e eu termino com
esse perigo.
Porque eu acho que a coisa pior que a gente pode imaginar é
pensarmos que as nossas ideias não nos fazem correr riscos e
que só podem ser vítimas de fracasso. As nossas ideias podem
ser vítimas de êxito se não souberem incorporar nas lutas, nos
corpos, nas mentes das pessoas. O perigo é que as
Epistemologias do Sul em vez de desaparecerem por terem
cumprido a sua missão se mantenham e floresçam como uma
opção epistemológica entre outras, inclusivamente com cursos
no currículo acadêmico. O perigo é, pois, o da neutralização
do seu caráter transgressivo e subversivo quer para a
trivialização quer para a apropriação, quer por instituições
convencionais e benevolentes, quer por novas instituições que
se dizem subversivas, mas que quando tomam o poder liquidam
todo o poder que se lhes opõe considerando-o subversivo ou
transgressivo. A neutralização das Epistemologias do Sul podem
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Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
ocorrer por processos que aparentemente a confirmam e até
ampliam, vale aqui um exemplo histórico com o qual termino,
obviamente desproporcionada, e o meu querido amigo (?) me
corrigirá se eu estiver errado. Desproporcionada no conteúdo,
mas no meu entender instrutivo, no processo. O cristianismo
entre os séculos II e século IV, que era um movimento dos mais
transgressivos e mais subversivos do Império Romano, foi vítima,
aliás, de muita violência contra ele, foi pouco a pouco
estruturando-se segundo a forma piramidal do próprio Império
Romano até que, com Constantino, se transforma na religião
oficial do Império e num dos pilares do Império. Portanto,
olhemos para todos estes exemplos porque são importantes
desde que mantenhamos esta ideia: as Epistemologias do Sul
tem uma forma estranha de se validarem, não pelos livros que
foram escritos, fazendo a sua apologia, mas antes pelas
transformações
nas
instituições,
nas
sociedades,
nas
mentalidades e nas subjetividades que forem ajudando a
concretizar, muito obrigado! (59:06).
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24
Exposição do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos
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Colóquio Internacional ALICE Coimbra, 10 – 12, Julho, 2014