PARTE I PRELÚDIO Silenciosamente, como uma sombra, o homem deslizava por entre prateleiras de cristal, balcões, armações de aço, repletos de brinquedos... A luz tênue vinda da rua mal dava para iluminar. De quando em vez, prudentemente, fazia correr em torno o tacho de luz da lanterna de bolso examinando minuciosamente tudo quanto o rodeava. Tudo levava a crer que estava só. Mas devia ser muito desconfiado, pois não se descuidou um só segundo, e em sua mão direita o brilho fosco, azulado, de uma imponente automática de nove tiros. A loja era enorme e luxuosa, de muitas seções. No fundo, a meia altura, encontrava-se uma sobreloja para a qual se subia cômoda e seguramente por uma escada com corrimão de tubos de alumínio e cristal. Ao lado, havia um bar para crianças. Um bar alegremente decorado, portanto: mesinhas, balcão onde o barman fartava-se de servir coca-cola, leite, suco de laranja ou tomate, chocolate, refrescos e sanduíches de queijo ou presunto. Ali, tudo era para crianças. Ou também para adultos que gostassem de brincar com trens elétricos, bonecas, aros de rodar... Certamente era um lugar agradável, que agora, sem as crianças, parecia triste e abandonado. Na manhã seguinte tudo voltaria à normalidade, quando as crianças maravilhadas olhassem o gigantesco cavalo de pelúcia, os enormes revólveres que o cow-boy empunhava, o disco voador. O homem da automática não pensava nisto, nem parecia estar interessado nos brinquedos. Furtivamente, continuou até alcançar o fundo da loja. Abriu uma porta que desembocava num corredor comprido, com multas portas laterais. Abriu-as uma a uma, cautelosamente, focando o facho de luz para dentro e, quando identificou o escritório, seu duro olhar animou-se por instantes. Entrou, dirigindo-se para trás da mesa, olhando para ambos os lados à procura de algo. Examinou os papéis com tal cuidado que tudo permaneceu em seus lugares sem o menor sinal de haver sido remexido. Suas mãos eram grandes, de nervos salientes, fortes, bronzeadas. A automática continuava firme, como se fosse soldada à direita. Examinou alguns cadernos que encontrou nas gavetas, bem como faturas de compra e venda. Relação dos funcionários, despesas gerais... Os papéis passavam pelos dedos ágeis do estranho vestido de negro dos pés à cabeça. Precisou de dez minutos para convencer-se de que ali não iria encontrar nada de interessante. Permaneceu olhando, de cenho franzido, o monte de etiquetas de expedição, sobre o bloco de pedidos. Pegou uma delas e leu o nome de um menino para quem enviariam, no dia seguinte, um formidável pônei de armação de ferro e forrado de veludo. Havia multas etiquetas, todas com o nome do destinatário no verso e os brinquedos que seriam enviados no reverso. Era fácil: as etiquetas eram remetidas à seção de Empacotamento e Expedição. Lá, os brinquedos já encomendados eram empacotados e, com as etiquetas coladas, eram expedidos aos destinatários. A etiqueta era bonita, azul e vermelha, com estrelas brancas. Lembrava a bandeira dos Estados Unidos. Subitamente, um sorriso aflorou ao rosto do desconhecido. Um sorriso surpreendente, pois seu rosto contraído pareceu mais jovem, amável e irônico. Um simples olhar era mais do que suficiente para se perceber que era perigoso e difícil de levar. Mas quando sorria, parecia um bom rapaz. E sempre se sorri quando se vai passar um trote. Apanhou uma das etiquetas que estavam em branco, escreveu um nome no verso e, no reverso, anotou: “Um urso grande”. A seguir, ainda sorrindo, colocou a etiqueta entre as outras que aguardavam expedição no dia seguinte. Terminada a operação, o sorriso desapareceu, a expressão dura, e seca ressurgiu em seu rosto. Saiu do escritório, examinou ainda várias dependências... e finalmente chegou aos fundos, no armazém, onde evidentemente eram fabricados os brinquedos que depois iriam deslumbrar o público na loja. Examinou o armazém durante quase meia hora, demonstrando um domínio dos nervos e uma serenidade fora do comum, e que chegou às raias do inacreditável diante da presença do vigia, um homem troncudo, que aparecera caminhando pesadamente. O primeiro ato do vigia foi acender a luz do armazém. Mas o desconhecido foi tão rápido que, antes que ele o visse, já havia saltado para trás de uma grande pilha de armações metálicas de cavalos de brinquedo. Deixou-se estar ali acocorado, encolhido, como se tivesse o poder de diminuir o corpo atlético... E lá ficou como um boneco... Absolutamente imóvel. O vigia deu uma volta pelo grande armazém, que ficava situado no centro de um conjunto de casas, anexas à luxuosa loja. Depois de terminar a ronda, já convencido de que não havia nenhum perigo de incêndio ou qualquer outra catástrofe, dirigiu-se para um certo lugar, deu algumas pancadas no chão, com o pé, baixando-se após examinar o lugar em que batera. Com isto, deu-se por satisfeito. Endireitou o corpo, caminhou para a, entrada do armazém, apagou a luz e saiu. O nosso desconhecido ainda deixou-se estar imóvel por mais dez minutos. Assim fazendo, acabou de provar que de fato tinha nervos de aço. Nada parecia capaz de perturbá-lo. Passados os dez minutos, esgueirou-se até o local do armazém em que o vigia havia batido o pé, inclinando-se para examinar o chão. Iluminou o chão com a lanterna, depois fechou a cara. Não conseguia perceber nada especial ali. Apesar das aparências, seu senso de lógica, sua experiência, sua prática de veterano, tudo o levava a crer que era muito pouco provável que o vigia fosse um pobre lunático, e que aquele local em que batera não tivesse uma importância particular. Não levou mais do que três minutos para encontrar o alçapão. E menos de meia hora para abri-lo. Examinou seriamente por alguns instantes os degraus de madeira que desciam para as trevas. Um porão... Será que iria encontrar algo importante? Quem sabe a chave de tudo o que estava procurando? Sem o menor medo, mas sempre com cautela, pôs-se a descer as escadas. O fino facho de luz da lanterna apontava para todos os cantos, vivamente, em rápidos movimentos. O que viu pareceu-lhe uma grande oficina, mas sem brinquedos. Tudo o que havia eram manequins, muitos ainda por armar, ou com a armação descoberta. Havia uma grande profusão de braços, pernas, cabeças, troncos, pés... Alguns dos manequins estavam completamente vestidos, muito elegantes, simulando atitudes joviais. O nosso desconhecido acercou-se de um por de manequins e pôs-se a examiná-los. Bateu com os nós dos dedos em suas cabeças, que soaram como se fossem ocas. Era natural. Encolheu os ombros, franziu a testa e pôs-se a olhar pensativo para a entrada do porão. Tudo indicava que aquele era um simples e vulgar recinto Onde se fabricavam manequins e brinquedos. E isto era tudo. Mas ele sabia muito bem que... Ouviu claramente o barulho às suas costas. Voltou-se prontamente, sacando a automática e a lanterna. A luz bateu em cheio no rasto da pessoa que avançava para ele, com a mão direita estendida. — Dê-me sua automática, por favor — pediram-lhe. O desconhecido teve um sobressalto; seus maxilares contraíram-se fortemente. Sem vacilar um segundo, apertou o gatilho da automática com silenciador. Plop, plop, plop... As três balas acertaram em cheio na figura que se acercava com um ar amistoso, de mão estendida. Mas nada aconteceu. Ou seja, nada relacionado com as conseqüências lógicas de três balaços recebidos em pleno peito. Ao contrário, aconteceu outra coisa: a figura que se aproximava do estranho, levantou o braço direito, esticando-o, em riste, para ele. E de sua mão esguichou subitamente um jato finíssimo de fumaça, violentamente lançado. O desconhecido saltou para trás, tentando esquivar-se. Evitou que o jato finíssimo lhe batesse em pleno rosto, mas não conseguiu fazer nada mais. Caiu de joelhos, largou a automática e a lanterna, e suas mãos se crisparam na garganta. Um segundo depois, caia de bruços no chão. Então, o manequim que o havia atacado aproximou-se, segurou-o pela cintura e arrastou-o até uma das bancas de trabalho do armazém. PRIMEIRO Um pintor apaixonado. “Eu te amo” Um convite perigoso... Somente uma Brigitte Montfort já era de fazer cair de costas o sujeito mais equilibrado e indiferente do mundo. Quando se possui um jeitinho sensacional, uns fabulosos olhos azuis mais luminosos que o céu da primavera, uma boquinha carnuda e doce e uma certa cara de anjo risonho, o mínimo que uma mulher pode exigir é que a pintem, que a coloquem numa tela onde — Ai, que desgraça! — sua beleza dure muito mais tempo do que na realidade. Devido a isto, em breve existiriam duas Brigitte Montfort, por obra e graça do magnífico pintor que era Samuel Dodecabro, um tipo raro, barbudo, de óculos, cabeludo e sem dinheiro. Esta situação deveria melhorar consideravelmente quando a espiã internacional mais esperta e bonita do mundo lhe pagasse os honorários. Além disso, seria recomendado por ela ao seu circulo de amigos, o que talvez tirasse o pobre Dodecabro do anonimato artístico em que vivia. Ela o encontrara durante um de seus passeios relaxantes por Greenwich Village, a pintar uma das pequenas, velhas e pitorescas casas desse bairro latino e boêmio de Nova Iorque. Agradou-lhe seu modo de trabalhar, e pareceu-lhe que Dodecabro tinha um olhar inteligente e nobre, o que a fez propor-lhe que a pintasse. E Samuel Dodecabro, que no fundo era tanto homem quanto artista, disse-lhe que a pintaria “até de graça, passando frio e fome, e mesmo na noite em que estivesse condenado a morrer na forca”... Resultado: nem o haviam enforcado, nem passava frio ou fome, nem nada de parecido. Todo o mal estava em ter diante de si, dias após dias, com aquela resplandecente formosura, a agente “Baby”, que estava destruindo o equilíbrio emocional do pobre Samuel Dodecabro, condenado a não ver unia só Brigitte Montfort, mas duas, já que para terminar o retrato faltavam somente alguns retoques. Duas Brigitte Montfort. Era o fim. — Falta muito, Samuel? — Não... não, não... Acho que o terá para o Ano Novo. — Ótimo. Vou convidar alguns amigos para uma festa que darei aqui mesmo, e o apresentarei a eles. — Você é muito amável comigo, Brigitte. — Não, não... É que você é um bom pintor, Samuel. E quando as pessoas são geniais, e têm capacidade profissional, é preciso ajudá-las. Isto não é gentileza, é bom senso. Dodecabro dirigiu-lhe uma olhadela meio turva. — É mesmo? Receio que haja muita gente no mundo destituída de bom senso. — Não é preciso ser ressentido nem amargurado, Samuel. A luta é sempre difícil. — Para alguns, não. — Bem... Há quem tenha mais sorte ou menos sorte. Mas o importante é ser artista, ter classe, talento, gênio. O resto virá por si mesmo, mais cedo ou mais tarde. — E se não vier? — Bem... então foi a má sorte. Mas pela vida afora é necessário seguir sempre com um sorriso de ânimo, de confiança em ai mesmo e nos outros... Não concorda comigo? — Até agora, não — disse quase sorrindo o barbudo e cabeludo pintor. — Mas é possível que você tenha conseguido me fazer dar o primeiro passo. É preciso estar doido para não ver a vida cor-de-rosa quando se tem você diante de nossos olhos. — Agora quem é o amável? É você, Samuel — riu-se Brigitte. O pintor olhou-a meio ironicamente. — Dizer que você é capaz de fazer ver a vida cor-derosa a uma pessoa como eu não é amabilidade: é bom senso. — Grande resposta! — disse Brigitte rindo-se novamente. “Cícero”, o pequeno cãozinho “Chihuahua” que lhe dera de presente seu admirador mais apaixonado, Frank Minello, soltou um latido agudo, estremecendo de contentamento ao ouvir a dona rindo. Depois, como querendo confirmar sua alegria, pôs-se a fazer cômicas piruetas, esforçando-se para chamar a atenção da dona, espalhando-se no tapete. — Até o cãozinho já perdeu o juízo — comentou Dodecabro. — Isso não admira, porque já tem muito pouco... Que foi, minha coisinha linda? Querendo dar uma volta no Central Park, não é? Nós vamos é, nós vamos já... — Por favor, Brigitte, não se mexa tanto... — Perdão... Quieto aí, “Cícero”... Não, agora não! — expulsou-o do colo. — Samuel te pintará o nariz de verde se não te comportares direito... Não é Samuel? — Verdade — murmurou Dodecabro sorrindo. Fracamente, chegou até ao quarto da espiã o som da campainha da porta do apartamento. Ela não se mexeu do lugar, naturalmente; para isto havia Peggy, a fiel e simpática empregada. Brigitte Montfort continuou impassível, demonstrando seu grande controle e boa têmpera, além da beleza de sempre... Estava sentada numa poltrona vermelha, com um vestido de noite decotado, negro, sério e de grande elegância. Como de hábito, não trazia nenhuma jóia. Os cabelos negros soltos, os olhos azuis muito abertos, os lábios brilhantes como gotas de orvalho nas pétalas de uma flor, tudo era prova de que a espiã de nada mais precisava. A todo instante, além de sua beleza, era evidente o bom gosto da agente “Baby”. Permitia-se usar algumas jóias magníficas quando assistia a uma peça, um baile, uma recepção, um espetáculo na ópera... Mas na intimidade, Brigitte Montfort prescindia destes detalhes... Peggy apareceu na sala, trazendo um grande embrulho. Deixou-o sobre o tapete, junto a “Cícero”, que virou a cabecinha de lado cheio de curiosidade. — Trouxeram este embrulho para lhe ser entregue, miss Montfort. — Não disseram... Mas a encomenda é de uma casa de brinquedos. — De brinquedos? Por acaso você pediu algum? — disse sorrindo. — Não — respondeu também sorrindo a empregada. — Talvez seja um presente de um admirador. Samuel Dodecabro olhou meio espantado para Peggy, mas não disse nada. Olhou para o embrulho e, finalmente, para “Baby”. — Se assim o deseja, podemos descansar alguns minutos, Brigitte. — Está bem, Samuel, obrigada... Tomaremos um café... Está bem? — Ótimo. Brigitte levantou-se suspirando. Aproximou-se do embrulho, depois de pedir a Peggy que providenciasse o café. — O que será? — disse baixinho. — Se o abrir, nós logo veremos — disse mal-humorado Dodecabro. A espiã franziu ligeiramente a testa. Não gostava de embrulhos. Mas é claro que Samuel Dodecabro não podia fazer a menor idéia de que um embrulho daqueles poderia conter uma bomba ou algo parecido, enviada com más intenções para a agente “Baby”. — Bem... Teremos de abri-lo, certamente. Desmanchou o grande laço brilhante, de tom vermelho. Depois, contemplou por instantes a etiqueta vermelha e azul, com estrelinhas brancas... lembrou-lhe a bandeira doa Estados Unidos. Não podia haver dúvidas, ali estavam o seu nome e seu endereço: Miss Brigitte Montfort, Cristal Building, Manhattan, New York, N.Y. Desembrulhou o pacote e contemplou a caixa, colorida, com brinquedos estampados nela: cavalos, tambores, cometas, bonecas, balanços, patins... de tudo. Abriu a caixa, finalmente, e deu um grito de alegria. Tirou o grande urso marrom, de barriga branca. Tinha uns deliciosos olhos verdes, o focinho colorido, e orelhas redondas, forradas de seda vermelha. — Olhe só! Não é lindo, Samuel? — É para crianças. — Bem... Sim... mas... Não é lindo? — Não tem o menor sentido estético. Jamais vi um urso assim. — Mas, homem, não seja tão sério — riu Brigitte. — É apenas um brinquedo de criança! — Você tem crianças? — Bem... não. Mas algum dia terei quatro, de acordo com o que me afirmou uma bruxa feiticeira1. — O quê?... Ora! Brigitte abraçou rindo o ursinho, e “Cícero” latiu, ciumento daquela carícia em outro animalzinho que não ele. — Mas é lindo, lindo, lindo! — insistia Brigitte. — E você não passa de um homem amargurado, Samuel. Nunca teve um ursinho? 1 Ver novela intitulada: FEITIÇO — Nunca. — Bem, sinto muito... Ah, parece que há um papel dentro da caixa. Apanhou-o. O conteúdo era simples, e não restava dúvida que era escrito para crianças. Fazia parte da encomenda, junto com breves instruções quanto à melhor maneira de lavá-lo, penteá-lo e conservá-lo sempre em bom estado. Ao centro, enquadrado numa cercadura de bordas vermelhas, estava escrito: “Sou o ursinho Nicanor. Se me puseres para dormir em teus braços, te direi um segredinho”. Rindo, Brigitte colocou em seus braços o ursinho, como se fosse um bebê. E ao deitá-lo, Nicanor disse cantando em som metálico: “Eu te amo”. — Mas não é uma delícia? — exclamou Brigitte. — Tenho que descobrir imediatamente quem me presenteou Nicanor! Teve uma idéia tão simpática! — Não tenho mais dúvidas, Brigitte — disse sorrindo Dodecabro — de que você virou criança. — E por que não? Há algo de mais nisto, Samuel? — Não tenho opinião a respeito. — Bem... Peggy! Veja só que delícia de ursinho! — Mas que lindo! — exclamou Peggy. Deixou a bandeja com o café e aproximou-se de Brigitte, desprevenida. — Chama-se “Nicanor”... Tome, ponha-o no colo e logo te dirá um segredinho, experimenta... Peggy obedeceu, excitada. Colocou o ursinho nos braços... — “Eu te amo”. — Oh, que encanto de criatura! — Criatura! — resmungou Dodecabro. — Não passa de um urso de pelúcia, veludo ou sei a lã o que for...! Vamos tomar o café? Brigitte sentou-se rindo no sofá, embalando o ursinho, que repetia incansavelmente: “Eu te amo”, enquanto “Cícero” parecia meio triste, olhando para a dona com ar súplice. Peggy serviu o café, fazendo comentários sobre o ursinho. — O mensageiro não disse quem o enviou, Peggy? — Não, miss Montfort. Não deixou nenhum cartão, nem nada. Perguntou se era aqui, me fez assinar o recibo e isso foi tudo. — Bem, logo aparecerá o simpático personagem que me deu um presente tão bonito. Pode levar a caixa e os papéis. — Pois não, miss Montfort. — O café está bom — resmungou Dodecabro. — O quê? Ah, sim. Peggy é uma excelente empregada. — É ela só para todo o serviço deste enorme e luxuoso apartamento? — Ela só. Basta para mim. Nos entendemos muito bem... Tocaram a campainha novamente. — Na certa deve ser a pessoa que lhe enviou o ursinho. Esta conclusão era absolutamente lógica. Mas, logo depois, quando Peggy introduziu a pessoa que havia tocado, Brigitte percebeu que Dodecabro havia falado à toa. O visitante não era dos que costumam presentear ursinhos que dizem “Eu te amo”. Se alguém era incapaz de tão delicada e simpática lembrança, era Charles Pitzer, aliás “Tio Charlie”, chefe imediato da agente “Baby” no setor nova-iorquino da CIA... — Bom-dia — cumprimentou o sisudo personagem. — Oh, tio Charlie... Bom-dia. — Que aconteceu? Parece estar desapontada com alguma coisa. — Um pouquinho... a menos que... Mas, não. Não, não. — Isto é algum enigma? — resmungou Pitzer. — Suponho que não foi você que me presenteou com este ursinho. — Naturalmente que não. — Naturalmente... — sorriu Brigitte. — Apresento-lhe Samuel Dodecabro. Um grande artista. Samuel, este é um querido e velho amigo a quem chamo carinhosamente de tio Charlie. — Olá — disse Dodecabro entre dentes. — Tudo bem? — resmungou Pitzer. Aproximou-se do quadro, voltando as costas para Dodecabro, que aproveitou a deixa para fazer um gesto muito significativo à espiã, a qual o interpretou perfeitamente. — É uma obra magnífica — elogiou Pitzer. — Ainda não esta terminada — advertiu Brigitte. — Não importa... Já se pode perceber como ficará. O senhor Dodecabro é de fato um grande artista. Mmmm... É a primeira vez que ouço o seu nome, sr. Dodecabro. — Fui eu quem o descobriu — disse Brigitte sorrindo. — E posso afirmar que, daqui por diante, vai ouvi-lo com freqüência, tio Charlie. — Se é você quem o patrocina, não tenho a menor dúvida. Você é como... como um Rei Midas feminino: tudo quanto toca se converte em ouro, ou em alguma coisa bonita. Brigitte encarou estupefata Charles Pitzer. E disse baixinho: — Papagaio! Como diria o Frankie... Será que é você mesmo, tio Charlie? — Posso tomar café? — resmungou Pitzer. — A vontade... Bem, Samuel, creio que é melhor encerrarmos por hoje. Dodecabro olhou com desagrado para Pitzer. Terminou seu café e ergueu-se. — Volto amanhã? — perguntou. — Bem... — Brigitte percebeu o sinal que lhe fizera Pitzer. — Bem, será melhor aguardar que eu o chame, Samuel. Necessita algum adiantado? — Não, adeus. Recolheu o chapéu ensebado, de abas largas, e saiu do recinto, aborrecido, seguido por Peggy, que regressou Imediatamente. — Já foi, senhorita. — Obrigado, Peggy. Vai tratar de tuas coisas. Está bem, miss Montfort. A empregada saiu e Brigitte, olhando Irônica-mente para Pitzer, voltou a embalar o ursinho nos braços. — “Eu te amo”. Pitzer encarou-a severamente. — Para aquilo que vou lhe dizer, não vai precisar de bonecas, Brigitte. — Eu sei. Mas já que você não veio aqui para me dizer “Eu te amo”, gosto de ouvir “Nicanor” dizê-lo. — Quem? — “Nicanor” — ergueu o ursinho. — Não é um ursinho lindo? — Muito. Pitzer acendeu um cigarro, sob o olhar atento da espiã. Depois, olhou-a fixamente por uns instantes. — Suponho que já tenha algum programa para o Ano Novo — resmungou. — Acertou. Não acha que a última noite do ano é uma boa ocasião até mesmo para os espiões se divertirem? Ou não? — Sim... claro que sim. — Mas, naturalmente, você veio aqui para estragar... — Somente em parte. Na verdade venho convidá-la para uma festa de fim de ano formidável, com fantasias e tudo o mais. SEGUNDO Um convite para a CIA Aposta original Um homem chamado Romeu Brigitte acendeu também um cigarro e pôs-se a pestanejar com afetação, como uma menina, abrindo e fechando rapidamente suas longuíssimas e espessas pestanas. — Oh, tio Charlie, sinto-me emocionada. Como o senhor é bondoso! — Deixe de brincadeiras — resmungou Pitzer. — Sei muito bem que não sou bonzinho, e também não me importo nem um pouco com isto. Além do que, posso esperar até a aposentadoria para ser bondoso, não acha? — Claro, claro... Os espiões, até que alcancem a aposentadoria, precisam ser maus como demônios. É obrigatório. Mas, diga-me: que espécie de festa é essa? — Veja você mesma. Pitzer sacou do bolso interno do paletó um grande envelope. Dele tirou um convite, estendendo-o a Brigitte, que antes de lê-lo admirou a moldura a ouro e o desenho em relevo. Ao centro lia-se: ALBERT ROCKINGHAM Tem a honra e o prazer de convidar V.Ex. para o baile de máscaras de Ano Novo, que terá lugar em seu palacete da Quinta Avenida, no domingo próximo, às nove horas da noite. É obrigatório fantasia e será oferecido um magnífico prêmio à mais original. Nova Iorque, Dezembro, 1967. Brigitte examinou o convite de um lado e de outro, antes de olhar meio desconcertada para Pitzer. — Não entendo... — admitiu em voz baixa. — Devo entender que este senhor, Albert Rockingham, convidou-me para a festa? Eu não o conheço, tio Charlie. — Eu sei, eu sei... me não convidou especialmente você, mas a CIA... — Está falando sério? — disse Brigitte sorrindo. — Sim, senhora. Ai onde está “convidar V. Ex. para o baile de máscaras” haviam colado, por cima, a nossa sigla: CIA. Ou seja, segundo parece, o senhor Rockingham não utilizou o tom impessoal do convite, especificando: “convidar a CIA para o baile de máscaras”. O papelzinho com a palavra CIA pôde ser facilmente arrancado, para que o convite ficasse em condições de ser utilizado posteriormente por qualquer pessoa. — Já compreendi... Enviaram a você este convite? — Não. Chegou ontem à agência central, em Washington. — E o remeteram para Nova Iorque? Pitzer confirmou com um gesto de cabeça. — Com uma ordem expressa de Mr. Cavanagh: a agente “Baby” irá como convidada a essa festa, como representante da CIA. Naturalmente não será necessário que você se identifique como enviada da CIA. Basta que esteja presente à festa. — Com que objetivo? — Ainda não o sabemos. — Ora... é bastante desconcertante, não é mesmo? — Um pouco. — Há alguma teoria a respeito? — Nenhuma. Nada. Simplesmente recebeu-se o convite e tomou-se a decisão de enviá-la. Só terá que comparecer, ver, ouvir e calar. É tudo. — Tudo! Eu tinha a intenção de dar uma festa aqui em meu apartamento, para apresentar meu retrato e Samuel Dodecabro a alguns amigos... — Já mandou os convites? — Deixe de bobagens. Bastam uns telefonemas... — Já os fez? — Não, porque não sabia se Dodecabro fria terminar meu retrato a tempo. Nem ele mesmo o sabia. — Ótimo. Assim você dará sua festa depois, querida. Agora, trate de conseguir uma boa fantasia de máscara para ir à festa do sr. Rockingham. Mas, por favor, não utilize o seu excesso de originalidade e imaginação: não seria conveniente que você ganhasse o prêmio. — Não devo chamar a atenção — sorriu Brigitte. — Ou seja, além de estragar meus projetos, você vai me obrigar a ir de romana, ou algo assim... Quem sabe não vou de Popéia? — Popéia? — Sabina Popéia, ou Popea Augusta, que foi amante de Nero depois de estar casada com Rufrio Crispino e com Oton. Popéia foi a instigadora da morte de Agripina, mãe de Nero, e conseguiu que Otávia, sua esposa, fosse... afastada. Finalmente, no ano 62, casou-se com Nero, do qual teve uma filha, que morreu com quatro ou cinco meses. Insistiram em ter filhos, mas um dia Nero enjoou da hipócrita Popéia e matou-a com um pontapé no ventre, enquanto ela esperava novamente a cegonha... Será que devo temer que haja por ali algum Nero, tio Charlie? — De qualquer modo, você resistiria melhor que Popéia ao pontapé. E além do mais, o seu estado não é tão... delicado. Mas está me parecendo que a fantasia de Popéia não é do seu gosto. — Pelo amor de Deus, tio Charlie. Em todos os bailes de máscaras há sempre dez ou doze Popéias! — Sério? Bem... Olhe, que diabo, não será necessário que você se considere mais uma entre tantas. Digamos que você escolha uma fantasia ligeiramente original, apenas. — Hummm!... Já sei! — Qual é? — Não vou dizer — respondeu ela, rindo. — Brigitte: eu te conheço. Você vai ganhar esse prêmio. E não... — Vou fazer o possível para não ganhá-lo. E agora me fale desse Albert Rockingham. Suponho que já tenha sido investigado. — Imediatamente, como é natural. E as investigações ainda estão prosseguindo, uma vez que ainda nos restam dois dias. O senhor Rockingham é um rico industrial de Pittsburgh. — Aço? — E o que mais poderia ser? — Claro. Possui alguma relação com espionagem, nacional ou internacional, amiga ou inimiga? — Absolutamente. Pelo menos, até o momento. Tem casa em Pittsburgh, Nova Iorque e Miami. — Fiu-fiu!... — assobiou admirada Brigitte. — É um homem jovem. Trinta e seis anos. Multimilionário. Jamais teve nenhuma espécie de complicação: nem com a lei, nem com o fisco, nem mesmo uma simples questão trabalhista em suas indústrias. É considerado pessoa generosa, honrada, cordial, muito sociável — tem montes de amigos em todo o mundo. Se fosse um pouco menos sério, poderíamos considerá-lo um playboy. Mas, apesar de divertir-se muito é consciente, comedido na medida do possível. Nada de escândalos, nem extravagâncias, nem amantes, nem inimigos... — Mas, querido tio Charlie! Já não é mais um homem: é o próprio príncipe encantado! — É isto que dizem os relatórios. — Não! — riu Brigitte. — Os relatórios dizem que Albert Rockingham é um príncipe encantado? — Eles dizem apenas que é pessoa de toda confiança em qualquer terreno — resmungou Pitzer. — Não comece a me atrapalhar, Brigitte! Mmmm... Não vai me dizer qual a fantasia que escolheu? — Surpresa... Imagino que não estarei sozinha na festa, não é, tio Charlie? Seria cruel de sua parte deixar-me indefesa como uma pombinha num lugar talvez perigoso. — Ora vejam! Indefesa como uma pombinha! É uma boa piada, Brigitte! Olhe, prefiro não falar nisto. Para dizer a verdade, você me aborrece. — Eu? — espantou-se Brigitte. — Eu lhe aborreço? — Claro. Quando envio um outro agente para alguma missão, fico com o coração aos pinotes... Que acontecerá? Pergunto-me. Porque pode acontecer qualquer coisa, querida. Mas, filhinha, quando é você quem vai agir, seja qual for o caso, ponho antecipadamente nas folhas em branco do informe a inscrição: missão cumprida. É até aborrecido. — Procurarei dar-lhe mais emoção desta vez. Estarei sozinha? — insistiu Brigitte. — Farei com que Johnny possa estar próximo a você. Ah: vá armada... por via das dúvidas. — Eu sempre vou armada... ainda que não use armas. Com minhas mãozinhas posso fazer qualquer coisa, tio Charlie. Como, por exemplo, quebrar esta mesa de um só golpe. — Outra boa piada — brincou Pitzer. — Não é piada, não. Quer apostar? — Uma ceia — disse imediatamente Pitzer. —Uma cela para nós dois sozinhos, em... Bem, digamos com muita intimidade... em todos os sentidos. — Se ganhar — riu Brigitte. — Fique sabendo, tio Charlie, que ultimamente tenho aperfeiçoado muito o meu caratê. O que pagará se eu quebrar a mesinha? — O que você quiser. — Outra mesinha. Peggy lhe dirá onde foi comprada. Vamos à aposta. Quer ter a bondade de tirar o serviço de café? Pitzer obedeceu. Ficou olhando para a mesinha, cuja aparência, apesar de fina e elegante, não podia ser mais sólida. Depois olhou para a pequena mão direita de Brigitte, rígida, levantada, pronta para desfechar o golpe. — Acho melhor desistirmos — resmungou. — Se você quebrar a mão, não poderá ir ao baile a fantasia. — Irei de maneta — sorriu Brigitte. — Por favor, não atrapalhe minha concentração. Fique quieto. Pitzer calou-se. E apenas teve que esperar três segundos. Aquela doce mãozinha, tão delicada, tão bonita, de unhas pintadas num tom de vermelho suavíssimo, desfechou subitamente um golpe seco e... a mesinha partiu-se estalando em dois pedaços que caíram no tapete. — Onde ponho a bandeja de café? — disse Pitzer, de péssimo humor. — Em qualquer lugar, querido — respondeu Brigitte de modo angelical. — Já sabe que vai ter que me dar uma mesinha, nova. E espero também que, antes da festa, eu tenha informações complementares sobre o sr. Rockingham. — Claro. — Pitzer colocou a bandeja sobre o sofá e também o envelope de onde havia tirado o convite. — Aqui estão algumas fotografias de Albert Rockingham e também as informações iniciais. Brigitte pegou o envelope, olhou o rosto de Rockingham e deixou cair o queixo, maravilhada. Albert Rockingham era um autêntico atleta, de cabelos louros, queixo sólido, olhos claros, sorridente, elegante, simpático... — Uma última pergunta, tio Charlie: o sr. Rockingham é casado? — É solteiro. — Não me diga... Não é possível! *** Não era possível, mas estava acontecendo. Havia passado o dia estendido numa mesa onde se montavam aqueles manequins, coberto com uma lona. Ouvira vozes e passos desde que acordara. Quis mover-se, gritar... Mas nada podia fazer, porque estava solidamente amarrado à mesa e sua boca estava tapada com uma larga e sólida tira de esparadrapo. De vez em quando, alguém levantava a lona para dar-lhe uma espiada. Mas ele fechava os olhos rapidamente. Embora se sentisse fraco e enjoado, desde que voltara a si dos efeitos do gás, não havia cessado de procurar uma maneira de sair de tão difícil situação. E não o conseguiu. A lona foi afinal retirada e viu-se levantado da mesa de madeira e posto em pé, amarrado tão solidamente como antes. Depois, com um puxão, arrancaram-lhe o esparadrapo e o atlético desconhecido todo vestido de negro, de camisa de jérsei, de gola alta, teve de usar muita força de vontade para não gritar de dor. As lágrimas afloraram-lhe aos olhos, involuntariamente, mas seus lábios, seu queixo forte, permaneceram firmes, com uni esgar seco e duro, que refletia grande coragem e autocontrole. Diante dele estavam três homens. E de cada lado, um daqueles manequins despidos, Imóveis, naturalmente... Naturalmente? Será que tinha sonhado? Havia sonhado que um daqueles manequins aproximara-se dele pedindo-lhe o revólver e, depois de levar três tiros, lançara-lhe um jato de gás? Não, fora de qualquer dúvida, não. O desconhecido conhecia-se muito bem. Nunca até então havia sofrido falhas mentais de nenhuma espécie; nem o menor lapso ou transtorno psíquico. Portanto, era verdade que um daqueles manequins o havia atacado... Os três homens olhavam-no fixamente, em atitude de expectativa. Deviam estar um pouco desconcertados por não o conhecerem. Para eles, era um autêntico desconhecido. E um desconhecido vivo, inteligente, astuto, que já havia localizado a objetiva da câmara de televisão que, meio camuflada na parede fronteira, enviaria Imagens de tudo que ali ocorresse a... a alguém. De repente, o mais alto dos três, de cabelos ruivos e sardento, com um gesto brusco, perguntou: — Quem é você? O desconhecido franziu o cenho e não respondeu. Um dos tipos avançou, dirigindo-se ao ruivo: — Quem sabe não é estrangeiro? — sugeriu. — Estrangeiro? — resmungou o terceiro. — Tem todo o jeito de ser americano. — Não diga besteira — respondeu atabalhoadamente o outro. — Desde quando se pode ter certeza de que tal ou qual individuo tem aspecto de americano... ou russo, por exemplo? Fale em francês. E eu lhe falarei em espanhol e alemão. — Está bem. E assim fizeram, perguntando sempre quem era ele. Mas tudo o que conseguiram foi acender um brilho Irônico em seus olhos negros. — Está-se divertindo às nossas custas: é americano. Seja lá quem for, está nos entendendo perfeitamente, isto é certo. — Ah, é? Pois vamos tirar-lhe a vontade de brincar. Dêlhe uma lição, Bolowsky. E Bolowsky deu-me em cheio no estômago um tremendo soco, que ressoou surdamente pela oficina subterrânea, O estranho encolheu-se violentamente, mordeu os lábios, empalideceu... Mas nem um só gemido brotou de seus lábios. Surpreendentemente, ao segundo soco reagiu menos, suportando-o melhor. No terceiro, seu rosto era uma máscara de cobre, imóvel, sem tremer um músculo sequer. — Parece que estás frouxo hoje, Bolowsky. — Frouxo? — resmungou ele. — Bati-lhe com toda a força! Este sujeito é duro como pedra, Heston. Heston, o ruivo, assentiu com a cabeça e, aproximandose do intruso, olhou perversamente. — Sim... Parece muito duro. É alto, muito forte, sem dúvida está bem treinado... É um profissional, Bolowsky. Com certeza, neste momento, o estômago dói-lhe atrozmente, mas continuará com cara de pau enquanto tiver forças. E quando não agüentar mais, desmaiará, e isto será tudo. Assim não poderemos mais interrogá-lo e ele ganhará tempo... Não é assim, amigo? O estranho não se alterou. Parecia surdo e mudo. Somente seus olhos muito negros fuzilavam de ódio seus três inimigos. — Para quem trabalha? — perguntou brandamente Mackenzie. — Para a CIA talvez? Ou para o FBI? — Não creio que seja isso, Mackenzie — retrucou Heston. — Ainda não fizemos nada nos Estados Unidos, de modo que, se este sujeito sabe de alguma coisa, deve ter vindo da Europa. — Faça-lhe alguma pergunta, homem — debochou secamente Bolowsky. — Quem sabe ele responde? Heston amarrou a cara e, súbito, sua direita atingiu fortemente a face do estranho e, de volta, com o dorso da mão na outra. A cabeça do homem de negro tombou de um lado para outro, sob o impacto dos tapas fortíssimos. E esta foi a sua única reação. — Vou mat...! — vociferou Heston. — Calma — atalhou Mackenzie. — Este cara parece uma pedra, mas não te esqueças que um homem pode morrer das pancadas, e isto não nos interessa. Acho que o melhor será levá-lo ilha. Lá poderemos “tratá-lo” adequadamente. — Tem razão. Lá, por mais duro que sei a, nos dirá tudo o que quisermos. Vá consultar o chefe. Mackenzie saiu do porão, enquanto Heston e Bolowsky ficaram vigiando atentamente o intruso. — Nós te pegamos bem, não acha? — disse-lhe de chofre Heston. — Sabíamos que havia entrado, vimos seu revólver e, em lugar de complicarmos as coisas com um tiroteio, deixamos você bisbilhotar tudo. Sabíamos que chegaria até o armazém de cima. Então, mandamos o vigia, que examinou a entrada do porão, para que você entrasse como um pobre cordeirinho ingênuo na armadilha. Para que nos arriscarmos a receber um par de balaços se eles — apontou os manequins — podiam detê-lo sem nenhum risco? O estranho sorriu secamente. — Admito que foi bem bolado — disse. — Bom! — exclamou Heston. — Agora sabemos que você não é mudo e, além disso, parece que é americano... Certo? O estranho encolheu os ombros. — Para quem trabalha? — perguntou Bolowsky. — Quem é você? — Podem chamar-me de... Romeu, por exemplo. — Está muito seguro de si mesmo, não é? Queremos seu verdadeiro nome e saber para quem trabalha... — Vocês ficariam assustados se soubessem quem sou — sorriu de novo o intruso. — Verdade? Por que não tenta assustar-nos, Romeu? — Não tenho necessidade. Vou assustá-los de qualquer maneira, mais tarde. — Oh! Segundo parece você tem esperanças de nos escapar, não? Pois tire isso da cabeça. Sabemos que está sozinho, Romeu. Estivemos esperando todo o dia por alguém que viesse ajudá-lo. E nada. Não veio ninguém. Tudo normal. Além disso, mantivemos vigilância em torno do edifício e nada vimos que nos parecesse perigoso. — Quando perceberem já será tarde demais. O que estão tramando vocês? — Esta é boa — resmungou Bolowsky. — Ele é que está nos Interrogando! — Eu disse que era um profissional — sorriu duramente Heston. — Um desses espertos que pensam que sempre saem ganhando. E assim é... até perderem. Não receberá ajuda de ninguém, Romeu. E será mais difícil ainda a partir do momento que o levarmos para a ilha. — Que ilha? Heaton deu uma gargalhada. — Sujeito esperto! — exclamou. — Mas vamos lhe... — Ai está Mackenzie. Mackenzie acabou de descer os degraus da escada de madeira, reunindo-se aos demais. — Podemos levá-lo — disse. — Mas com as devidas precauções. Uma lancha está nós esperando. — Está bem. — Heston ficou olhando para o estranho. — Que acha? Não quer livrar-se do pior, Romeu? Asseguro-lhe que na ilha sua situação vai piorar ainda mais... E, afinal, acabará por dizer o que queremos saber. Romeu não se alterou. Somente, em seus olhos negros, tornou a aparecer aquele brilho frio, irônico. Disto não gostou Heston, que demonstrou seu desagrado golpeando-o novamente no rosto, por mais quatro vezes. A forte personalidade de Romeu, sua assombrosa capacidade de suportar estoicamente aquele castigo, ainda o enfureceu mais, e arremeteu contra seu estômago com os dois punhos, até que aconteceu o inevitável: Romeu afrouxou as pernas e, apoiando-se mal e mal na mesa de madeira, ficou semidesmaiado. — Afinal de contas, não é de pedra — arquejou Heston. — Claro que não — grunhiu Bolowsky. — E acabamos por matá-lo se continuarmos batendo-lhe assim. Vamos levá-lo à ilha e assunto encerrado. Foi desamarrado e sustentado quase que no ar entre os três, já que suas pernas, de tão moles, se dobravam por completo... Súbito, aconteceu o inacreditável. Desvencilhou rapidamente um braço, o direito, e suas pernas recuperaram as forças. A mão direita partiu lançada como um machado contra o rosto de Heston, que deu um grito e quis saltar para trás. Mas não teve tempo. Aquela mão enorme, fortíssima, bronzeada, bateu em cheio no seu nariz, em cima da cartilagem. Ouviu-se um seco rangido e Heston saltou com força para trás, um jorro de sangue esguichando do nariz. Caiu de costas, rolando pelo chão, uivando, enquanto Mackenzie tentava segurar os braços de Romeu por trás. E conseguiu. Só que aquilo serviu para ajudar este, que o obrigou a girar e, ficando suspenso pelos braços do outro, jogou os dois pés contra o estômago de Bolowsky, que atingido em cheio projetou-se para trás, caindo de joelhos, com ambas as mãos no ventre, depois de bruços, ficando numa posição bastante ridícula. Mackenzie assustou-se. Súbito, teve a inquietante sensação de que estava segurando um leão e não um homem. Ou seja, pensou que estava louco... e realmente seria preciso estar louco para tentar agarrar um leão à unha. Um leão deve ser abatido com um tiro disparado de longe. Pálido de medo, Mackenzie soltou Romeu e tentou afastar-se dele, para sacar o revólver e derrubá-lo de qualquer maneira... Mas a mão esquerda de Romeu prendeu a sua, retendo-o junto dele, rodeando-o rapidamente. Mackenzie estava quase sacando o revólver, quando seu adversário o defrontou. Ao ver aqueles olhos negros, cruéis, destilando fúria, todo o seu corpo estremeceu... e naquele instante encaixou um swing tremendo no queixo e, tal como seus companheiros, saiu voando de lado, para trás. — Você é teimoso, Romeu — disse uma voz. O estranho voltou-se como uma fera e fitou com assombro o manequim que havia falado, e que se aproximava dele. Olhou rapidamente ao seu redor. Heston já estava em pé e, cambaleante, buscava covardemente seu revólver debaixo do braço esquerdo. Bolowsky continuava na mesma posição ridícula, fazendo força para erguer a cabeça. Mackenzie jazia no chão, desmaiado pelo tremendo swing recebido. Romeu quis saltar sobre Heston, para tirar-lhe o revólver, porém chocou-se com o outro manequim, de braço erguido. Com uma força brutal, o braço desabou sobre sua cabeça e ele caiu de joelhos, quase liquidado. Mal conseguia sustentar a cabeça, com um dos lados escorrendo sangue. Quase não teve forças para balbuciar, um instante antes de receber a baforada de gás disparado pelo manequim: — Acautelem-se contra Julieta... Foram as últimas palavras que Romeu conseguiu dizer. TERCEIRO A gueixa de olho azul “Alo! Há alguém aí dentro?” O Robô A festa havia começado quando chegou um pequeno automóvel azul, rutilante, da mais pura linha esportiva, no qual vinha uma deliciosa criatura que fez sorrir de satisfação a criadagem que aguardava na ampla escadaria de mármore do palacete de Albert Rockingham, em plena Quinta Avenida. Dois dos imponentes criados em uniforme de gala, flamejantes casacas, no estilo dos Luises da velha França, disputaram a honra de abrir a porta. Um deles chegou na frente, porém o outro teve mais sorte, pois foi quem estendeu a. mão para ajudar a descer a maravilhosa gueixa, de rosto de boneca. Diante dela, outros empregados lamentaram não a terem visto antes para correrem a ajudála. Na verdade, valia a pena vê-la de perto. Tinha uma covinha no queixo e meio palmo de rosto delicioso, muito pintado de um tom exatamente igual ao da pele das japonesas; tom este conseguido, habilmente, com maquilagem adequada. A boca mostrava um tom intenso de vermelho e os olhos também estavam muito pintados, excessivamente sombreados e enfeitados com longos sílios postiços, sem dúvida, bastante carregados de rimmel. O quimono era negro, com desenhos de flores e pássaros em vermelho e verde, cruzando sobre o belo busto delicadamente erguido, para cair, reto, até os pés, onde se viam os clássicos sapatos de madeira. Na cabeça, os negros cabelos, quase naturais, estavam penteados da maneira clássica japonesa, adornados com bonitos alfinetes cujas cabeças eram de jade e esmeralda. Um leque precioso parecia mais um passaro, em suas delicadas mãos de gueixa. Em resumo, era uma visão encantadora, inspirada no mais puro e belo estilo japonês. O único contraste surpreendente eram os olhos da gueixa que nada tinham de nipônicos. Olhos azuis, celestiais, grandes, imensos, profundos... — Seja bem-vinda, madame — sorriu o criado, inclinando-se. — Sayonara — disse ela, e acrescentou rapidamente: — Sei que não quer dizer “obrigado”, mas é a única palavra japonesa que conheço. O criado, com um ar aparvalhado, concordou. Ninguém percebeu quando um outro carro parou. Todos os olhares convergiam para a graciosa e doce criatura... — Com sua permissão, eu levarei o carro para estacionar, madame. — Sim, sim... É muito amável. E outra vez, sayonara. E como “sayonara” quer dizer adeus, desta vez a palavra foi bem aplicada, já que ela se afastou dos criados, subindo a escadaria com passinhos miúdos, tão graciosa que até os recém-chegados perdoaram os criados por não terem sido atendidos prontamente. A gueixa subiu os amplos degraus de mármore branco e, à entrada do palacete, entregou seu convite ao gigantesco porteiro, que sorriu, inclinando-se e indicando o Interior da casa, de onde vinha um grande alvoroço de risos, vozes e música. Mas um alvoroço muito discreto, elegante, correto. As duas grandes portas do imenso salão estavam abertas de par em par e ali, no umbral, entre dois criados que faziam o possível para permanecer indiferentes, deixou-se ficar a doce gueixa, com os olhos azuis muito abertos. O espetáculo merecia ser admirado. Ao fundo estava a orquestra, composta nada menos que por 15 músicos; do lado esquerdo, o bar, onde eram servidas qualquer classe de bebidas e salgadinhos, que iam desde os diminutos canapés de caviar russo, até azeitonas espanholas, passando por camarões e lagostins do Pacífico e muitas coisas mais. O mais assombroso de tudo era que o número de convivas não parecia tão elevado como uma festa daquele gabarito faria supor. Talvez umas quarenta pessoas, por isso era fácil perceber que Albert Rockingham não se havia excedido em enviar os convites, limitando-se, possivelmente, aos mais íntimos. Naquele momento todos dançavam uma animadíssima, agitadíssima polca. Viam-se fantasias de todas as classes, entre as quais estavam duas “Popéias” e dois “Centuriões Romanos”. Um “Palhaço”, uma “Maria Antonieta”, um “Mosqueteiro” dos aguerridos tempos de D’Artagnan, um “Astronauta”, um “Troglodita”, uma “Bailarina Clássica” e mais o que era possível imaginar, dentro do verossímil. Porém a mais notável fantasia, sem dúvida, era a de um indivíduo gigantesco que naquele momento caminhava pesadamente em direção à orquestra. Muito natural sua dificuldade em andar, com toda aquela indumentária metálica por cima. Fantasiado nada menos do que de robô, e com multa perfeição. A cabeça grande e quadrada, braços de metal, articulações perfeitas nos cotovelos, assim como nos joelhos, tudo muito bem arquitetado. Na cabeça, em lugar de orifícios para os olhos, havia quatro lentes, com objetivas de câmara fotográfica. Cada lente de um lado da cabeça, como se o robô, olhando em todas as direções, pudesse ver tudo o que acontecia ao seu redor. Uma fantasia pesadíssima, certamente, e... — Olá! A gueixa virou a cabecinha para a, pessoa que a saudava de forma tão jovial. — Olá! — respondeu. — Quem é você? O personagem estava fantasiado nada mais nada menos do que de “Carrasco”, com um capuz cobrindo-lhe completamente a cabeça, até o queixo. Através de dois buracos, viam-se seus olhos brilhantes, alegres, divertidos... não, já que, somente pelos olhos, é difícil saber se alguém está alegre ou triste. Mas, como a saudação fora alegre, era fácil Imaginar que estava se divertindo a valer. — Quem sou eu? — perguntou, dando um par de pulinhos. — Adivinhe! Adivinhe! Usava calças negras, coladas às pernas. Uma camisa vermelha aberta ao peito, mostrando uma penugem espessa e loura. Era alto, forte, atlético. Em uma de suas mãos, um gigantesco machado do carrasco que, certamente, não era de mentira. Com um só golpe daquele machado podia-se decapitar um elefante, no mínimo. Parecia antigo, mas ainda válido numa emergência, de grosso cabo e enorme lâmina recurva. — Você é o “carrasco” — disse a gueixa. — Sim, sim! E o meu nome? Adivinhe o meu nome? — “Mata-sete”! — exclamou a gueixa. — Não, não! — riu o carrasco. — “Degolador”! — Também não! — Mmm ...“Corta-cabeças”? — Não! Meu nome é “O Implacável”! — Oh! É muito original. Os dois desandaram a rir. — E seu nome? Qual é o seu nome? — perguntou o carrasco. — Adivinhe. — “Flor-de-Lótus”? A suave gueixa olhou desconsolada para o simpático carrasco. — Como adivinhou? — protestou. — Ah! Adivinhei de saída! Sou um gênio! Mas, querida — disse-lhe baixinho ao pé do ouvido — não consigo reconhecê-la com esta maquilagem. Perdoe-me a indiscrição, pois ainda não é meia-noite. Não serás Agatha? — Não, não. — Mary? — Também não! — Deixe-me ver... Wendy? — Nada. Está frio, frio... — Desisto e confesso que estou intrigadíssimo. Já consegui reconhecer todos os convidados menos o robô e você. — Pois quando chegar a meia-noite saberá, querido — disse Flor-de-Lótus. — Até lá vou me divertir à sua custa mantendo o incógnito. — É um disfarce muito bom. E sabe de uma coisa? Você parece realmente uma gueixa, doce e tímida... Não, está claro que não é nem Mary, nem Agatha... Charlotte, talvez? — Não seja malvado, carrasco — riu Flor-de-Lótus: — está quebrando as regras do jogo. — É verdade. Não vou mais insistir. Você quer dançar? — Dançar uma polca com toda esta tralha? Oh, querido, seria extremamente difícil e contraditório, não acha? — Acho que vou pedir que toquem uma música japonesa só para ver como você dança — disse o carrasco rindo. — Bem, perdoe-me, mas estão chegando outros amigos. Não vá se esconder de mim, ouviu? — Estarei bem à vista — e a gueixa levantou uma das mãos. — Confúcio é testemunha de que assim será, dou a minha palavra. O carrasco afastou-se em direção aos recém-chegados, rindo, e a gueixa Flor-de-Lótus dirigiu-se ao bar, seguida pelos olhares invejosos das poucas mulheres que não estavam dançando. A polca chegou ao fim e, sem dar folga, a orquestra atacou um Jerk, sob a gritaria dos convidados mais jovens. — Champanha gelado — pediu a gueixa. — Com uma cereja, se for possível. O barman fora apanhado desprevenido. Pediu licença e, afastando-se, cochichou ao ouvido do maitre, que olhou para a gueixa e alçou as sobrancelhas, intrigado. O garçom de serviço naquele lado do bar sacudiu negativamente a cabeça, mas o maitre pareceu aborrecido e apontou para a porta dos fundos. O garçom tratou de sair e o maitre aproximou-se de Flor-de-Lótus. — Mil perdões, senhorita. Mmmm... esquecemos de trazer as cerejas. Jerry foi buscá-las lá na cozinha... Espero que as tenhamos. — Não se preocupe. Enquanto isto pode servir-me o champanha, puro. — Como preferir, senhorita. Deseja alguma marca especial? Não havia dúvida de que o maitre tinha olho clínico e psicologia: percebera que a gueixa era pessoa de bom-gosto, de hábitos finos e definidos. — “Dom Pierre Perignon”, da safra de 55, por favor. — Mmm... Pois não, senhorita. Nós... nós iremos providenciar. Com sua licença... — Parece-me que estou complicando as coisas para vocês — riu-se Flor-de-Lótus. — Sirva-me um bom champanha agora e, mais tarde, trataremos da minha preferida... e da cereja. — Muito obrigado, senhorita. Por favor, não diga nada ao sr. Rockingham. — Não creio que o Sr. Rockingham entenda japonês — sorriu a gueixa. O maitre permaneceu ali, sorrindo aliviado. “Que diabo”... pensou, “assim deviam ser sempre todos os convidados”. Serviu-lhe champanha gelado, seco, acompanhado de canapés de caviar, fez-lhe uma amabilíssima reverência e afastou-se. Logo após, chegava o garçom, vindo da cozinha. Tornou a cochichar no ouvido do maitre, e Flor-de-Lótus percebeu quando este avermelhou de raiva, apontando para a porta da rua, O garçom saiu disparado, tirando o casaco de serviço pelo meio do caminho. Bem, qual dos dois seria Albert Rockingham? Voltou-se olhando para o lugar em que se encontrava o carrasco, em conversa animada com dois casais. Depois, olhou para o robô. Eram os únicos convidados que tinham o rosto completamente oculto. Todas as evidências levavam a crer que o carrasco era Albert Rockingham, uma vez que ele sempre se apressava em receber os convidados, Mas... Ergueu a taça de champanha e aproximou-se do robô, que estava imóvel como uma estátua de metal em um canto do salão, abrangendo com seu olho frontal idêntico a uma objetiva de câmara fotográfica tudo o que ocorria por ali. O Jerk estava no máximo, e Flor-de-Lótus estava quase a alcançar o robô, quando um convidado fantasiado de Boboda-Corte pulou à sua frente, num salto, tilintando os guizos. — Alô, alô! — exclamou. — Vamos dançar, dançar, dançar... — Não vamos dançar, dançar, dançar — riu-se a gueixa. — Querido, seria impossível dançar com esta roupa. — Nada disto! Não há nada, impossível! Venha e verá! Tomou-a por uma das mãos e arrastou-a impiedosamente até o centro do salão; ali, largou-a e pôs-se a saracotear diante dela, que ainda hesitou um instante e, afinal, encolhendo os ombros e sorrindo, abrindo o quimono o justo e necessário para que suas pernas pudessem movimentar-se facilmente. E que par de pernas! O Bobo-daCorte ficou embasbacado diante daquela perfeição nunca vista... — Vai dançar ou não? — atiçou-o provocadora a gueixa, já rebolando entusiasticamente no Jerk. Deu uma meia dúzia de passos inesperados, que fizeram o Bobo-da-Corte abobalhar de vez. Dois “Romanos”, que estavam por perto, abandonaram as suas Popéias para aplaudir Flor-de-Lótus, que em cinco segundos tomou conta do salão. O Bobo-da-Corte conseguiu recuperar-se e procurou colaborar na medida do possível para que a diversão dos presentes alcançasse o máximo, evitando olhar para aquelas belíssimas pernas douradas, de ouro puro, e aparentemente tão sólidas como o metal. Mas eram também esguias, esbeltas, deliciosas... Quando acabou o Jerk, foram brindados com uma salva de palmas e um coro de alegres risadas. O Bobo-da-Corte e a gueixa agradeceram fazendo reverências, de mãos dadas. A seguir, um bando de cavalheiros fantasiados precipitou-se para Flor-de-Lótus, tentando disputar a honra de dançar com ela, mas esta ergueu as mãos e disse: — Cavalheiros de Roma, senhor Bobo-da-Corte, Homem das Cavernas, Mosqueteiros do Rei e demais prezados convivas: não dançarei mais. — Oooooooooo!... — protestaram todos. — A menos — e levantou a mão — que um dos senhores demonstre ser o melhor bailarino de todos. O que mais me agradar, dançará comigo ao final da disputa. Serão três músicas, e eu os estarei observando. Ouviu-se um coro de risadas, brincadeiras, exclamações. Flor-de-Lótus voltou para o bar e ali deixou a taça de champanha bebida às pressas, que a animara a dançar o Jerk. Tornou a olhar para o robô, que permanecia inalterável, no mesmo lugar. Parecia mesmo um robô de verdade. Imperturbável, imóvel, infatigável. O rosto de Flor-de-Lótus contraiu-se levemente. Ficou ali examinando com atenção o personagem. — Aceita outra taça, senhorita? A gueixa voltou-se para o maitre, que sem dúvida alguma demonstrava abertamente sua predileção por ela. — Não, muito obrigada. Mais tarde, talvez. Sorriu e tornou a aproximar-se do robô, sem que ninguém a impedisse agora. Os convidados masculinos estavam muito empenhados na dança, de olho no estupendo prêmio que seria dançar com a gueixa de olhos azuis. Esta se deteve enfim ante o robô, que permanecia imóvel o tempo todo, com um ar impessoal, inalterável, um pouco assustador com aquele olho frontal redondo, escuro, de lente graduada. Então, a gueixa sorriu, ergueu a delicada mão e bateu várias vezes com os nós dos dedos na cabeçorra do robô. — Alô! — disse alegremente. — Há alguém ai dentro? QUARTO O Robô e a Gueixa Primeiro round Apuros de Romeu O Robô não se mexeu. Mas uma voz, sem sombra de dúvida humana, surgiu da fenda que lhe servia de boca: — Infelizmente, sim, há alguém aqui dentro. E esta é a última vez que me fantasio de lata. Flor-de-Lótus desandou a rir, divertida, aliviada ao mesmo tempo. — A propósito, não deve ser muito cômodo estar aí dentro. Por que foi se meter numa fantasia tão complicada? — Porque estou decidido a ganhar o prêmio de qualquer maneira. Estou cansado de ver sempre meus amigos vencerem. Desta vez ninguém vai me arrebatar o prêmio. Mas estou me aborrecendo mais que um camelo num salão de bilhar. — O prêmio é tão importante assim? — É uma questão de moral. Nunca consegui levar a melhor em nada, na minha turma. Por isso desta vez estou disposto a ganhar o prêmio de qualquer maneira... Ou acha que minha fantasia não merece? — Está aí uma coisa que não sei. Por mim ele seria seu, só pela paciência que está demonstrando e pelos maus pedaços que está padecendo. Ouça: Você consegue ver-me de fato com esse... olho? — Não muito bem, mas distingo alguma coisa. Estou louco para que chegue a meia-noite para tirar este montão de lata de cima de mim! Não é terrível? Nem ao menos posso beber alguma coisa! — Por quê? — Porque se entornar champanha nesta boca metálica, estarei dando um banho na minha própria cabeça. E ai, além do sofrimento de estar aqui dentro, ainda ficarei todo molhado... Flor-de-Lótus pôs-se a rir, realmente divertida. — Posso fazer algo por você? — ofereceu-se. — Bem... Creio que seria muito incômodo. Já pensei em conseguir um tubo de plástico, ou de borracha, e enfiá-lo pela boca da fantasia, de maneira que pudesse tomar um champanhe aqui dentro... Mas me parece complicado demais, não acha? — Desconfio que sim — tornou a rir Flor-de-Lótus. — Tenha um pouco mais de paciência, querido. Não estará melhor e mais cômodo sentado? — Como? Depois não poderia mais levantar! Na próxima vez, farei a fantasia com ar condicionado dentro... Você não é japonesa, é? — Não. — Mas compreende alguma coisa, em japonês? — Só sei dizer “Sayonara”! O robô deixou escapar uma risada divertida. — Você é muito simpática. E dança divina-mente, pois eu a vi dançar. Este Bobo-da-Corte, bobão, fez um papel ridículo ao seu lado. E, se me permite, direi ainda que é proprietária de um par de pernas sensacionais. — E eu que pensava que com seu olho de vidro não enxergasse bem — disse rindo a gueixa. — Há coisas que mesmo não querendo se é forçado a ver. Eu também sei alguma coisa em japonês. — Que coisa? Seria bastante interessante aprender uma nova palavra! — Bem... Não é uma só palavra, mas todo um verso. Custou-me uma semana para decorar. Mas é muito bonito, na verdade. Gostaria de escutá-lo? — Claro, senhor... Mmmm... Qual é o seu nome? Bem, quero dizer o seu nome suposto, é claro. O verdadeiro logo saberei, quando chegar a hora. — Certo. Eu sou, bela gueixa, o robô Alexandre. A seus pés... — Creio que é melhor ficar de pé. Não quero que lhe aconteça alguma desgraça, robô Alexandre. Como é mesmo o verso em japonês? — Intitula-se “Hi Mo Tuki Mo Wazaku”, o que significa mais ou menos “Não há diferença entre o Sol e a Lua”. Que tal lhe parece? — Bonito. E o resto? — Vou recitar o verso completo: Asahi tomo Tsuki tomo Tsuka-no-ma mo Kimi wo wasururu Toki shi nakereba — Bravo! — aplaudiu Flor-de-Lótus. — Bravíssimo! Mas, Alexandre. Infelizmente não entendi uma só palavra. — A tradução aproximada é: O sol nascente ou a lua que morre Não são diferentes para mim Nunca, nem por um só instante, Poderei me esquecer de ti. — Mas, é lindo! — exclamou a gueixa. — São versos tão delicados e românticos... Por favor, Alexandre, reciteme mais alguns, recite-me mais alguns! — Em japonês? — Claro! — Impossível! Estes eram tudo o que sabia. E assim mesmo levei uma semana para decorá-los! Mas, se quiser, posso recitar-lhe algo de nossos poetas... — Ora, estes eu já conheço, Alexandre. — Claro. Bem, suponho que não posso mais retê-la. Não é nada divertido estar com um robô. Além do mais, desconfio que o carrasco vem em seu encalço. — O...? — Espero que não tenha feito nada de mais — disse Alexandre. — Não tento muita certeza — disse sorrindo Flor-deLótus. — Até logo, Alexandre. — Tchau... Êi, um momento, um momento! Qual é mesmo o seu nome? — Flor-de-Lótus. — Ora, um pouco vulgar, me parece. Enfim... divirta-se. — E que você ganhe o prêmio. Flor-de-Lótus foi ao encontro do “Implacável”. Este segurou-a pela mão e levoua para o meio da sala. Fez sinal para a orquestra, que imediatamente parou de tocar. — Senhoras e senhores — disse alegremente o carrasco —, tenho o prazer e a honra de apresentar-lhes a belíssima Flor-de-Lótus, que vai nos brindar com uma bonita dança de seu país. — Mas... — começou a protestar Flor-de-Lótus. Porém seus protestos foram abafados pelo coro de pedidos dos convivas. Um clamor geral tomou conta do saião, suplicando que Flor-de-Lótus dançasse alguma música japonesa. Não restava alternativa. Apenas conseguiu balbuciar “mas”, O coro era cada vez mais forte. Afinal, com um sorriso simpático, Flor-de-Lótus ergueu seu leque, impondo silêncio. — Pois está bem, queridos amigos. Cavalheiros: música japonesa, por favor. A orquestra tocou uma música mais ou menos em estilo japonês e a gueixa, sozinha no centro do salão, deixou-se ficar imóvel por alguns segundos. Subitamente, abriu o leque, jogou-o para cima numa pirueta e tornou a apanhá-lo. Deu algumas voltas graciosas, movimentando as pequenas mãos e o tronco, muito delicadamente, o rosto imóvel, parecendo realmente uma deliciosa japonesinha. Jogou para o ar mais uma vez o leque, ante a admiração dos convidados, que a aplaudiram entusiasmados. Logo após, com suavíssima música de fundo, elevou-se a doce voz de Flor-de-Lótus: — A doce Flor-de-Lótus eu sou. Gueixa eu nasci... pobre de mim! Para servir aos homens eu vim. Eles me chamam e aos seus pés eu estou... Uma forte salva de palmas e um coro de gargalhadas secundaram a intervenção de Flor-de-Lótus, que permaneceu imóvel, a cabeça levemente inclinada, num gesto delicado e gracioso. O carrasco “Implacável” foi o primeiro a chegar junto dela, de enorme machado a tiracolo, e tratou de passar o braço sobre seus ombros, sorrindo. — Muito bem! — exclamou. — Esteve magnífica! Viva Flor-de-Lótus! — Viva!... Os convidados riam a mais não poder. Todos elogiavam abertamente a gueixa, cuja simpatia havia conquistado inteiramente os presentes. Um dos que mais aplaudiam era o maitre, rubro de satisfação. Até mesmo o robô Alexandre fez ressoar suas mãos metálicas, bamboleando-se sobre os enormes pés. Os dois Romanos começaram a jogar punhados de confete e... em poucos segundos, estava formada uma batalha de papeizinhos multicores e serpentinas. O ambiente não podia ser mais animado e, no entanto eram somente dez e meia da noite, O Ano Novo se pronunciava feliz e divertido. A orquestra havia iniciado um Twist, e Flor-de-Lótus afastou-se da pista, acompanhada do “Implacável”, que estava firmemente decidido a não deixá-la escapar pelo resto da noite. Pouco depois o maitre surgiu diante dela, portando uma bandeja na qual se via uma só taça de champanha, com uma cereja no fundo. Não disse nada. Flor-de-Lótus ergueu a taça, provou um pequeno gole e sorriu amavelmente. — Magnífico... Realmente magnífico. Muito obrigada. — Em sua homenagem, senhorita. O maitre afastou-se e o carrasco perguntou-lhe, meio surpreso: — Aconteceu alguma coisa? — Nada de mais. Eu pedi... Calou-se bruscamente, o olhar fixo num ponto do grande salão. O “Implacável” notou algo diferente na expressão de seus olhos azuis, e olhou também para lá: o robô Alexandre, no seu passo pesado, estava caminhando para o centro do salão, abrindo caminho rudemente por entre os convidados que dançavam o Twist. Afastava-os com grosseiros empurrões, tão violentos que chegou a derrubar o Troglodita e seu lindo par vestido de peles. Os convidados ficaram estupefatos. — Mas o que está ele querendo... — murmurou o carrasco, irritado. O robô alcançou finalmente o centro exato do salão e ergueu o braço esquerdo. Um fino jato de fogo brotou de sua mão, alcançando o teto. Gritos de espanto e medo fizeram-se ouvir entre os convidados, que se afastaram apressadamente, deixando Alexandre como dono absoluto do centro do salão. — Mas que espécie de maluco é este? — vociferou o carrasco. — Vou...! — Quieto... quieto, “Implacável” — recomendou friamente a doce Flor-de-Lótus. A orquestra havia deixado de tocar. O círculo ia se alargando à volta do robô e todos os olhos estavam arregalados, fixos nele, que agora lançava um novo jato de fogo para o teto. Depois baixou o braço e voltou-se rapidamente, começando a caminhar em passos firmes e decididos até um certo ponto do salão. Ninguém se atreveu a mover-se. Se aquilo era brincadeira, estava se transformando numa pesada e aterradora. Alexandre deteve-se finalmente frente a um grupo de pessoas que se apertavam, encolhidas contra um canto do salão. Então, seu braço direito ergueu-se, apontando precisamente para uma delas: era um homem de estatura mediana, vestido de “Cavaleiro Fantasma”, lenço preto tapando a cara, revólveres no cinto... revólveres que deviam ser de brinquedo. O “Cavaleiro Fantasma” pareceu encolher-se ainda mais, grudado de pavor contra a parede. — Não — suplicou. — Não, não... nãaaaaaaao! Da mão direita de Alexandre partiu em primeiro lugar uma labareda avermelhada, azul-violácea. Logo a seguir, mais duas. Nada se ouviu. Somente as labaredas, curtas, brevíssimas. Talvez algumas das pessoas mais próximas tenham ouvido três suaves “plops”, três sons idênticos aos produzidos por um revólver com silenciador. Três manchas pequenas, brilhantes, apareceram no peito do “Cavaleiro Fantasma”, que crispou ambas as mãos sobre elas, cravando as unhas na carne. Arregalou muito os olhos, escancarando a boca... e foi deslizando lentamente para o chão, apoiado contra a parede. A moça vestida de corista de saloon, ao seu lado, soltou um grito agudo, que foi interrompido bruscamente, quando Alexandre soltou novo jato de fogo da sua mão esquerda, o qual passou rente a sua cabeça, deixando na parede uma mancha negra, fumegante. O silêncio era total. Um medo atroz paralisava a todos. Os convidados estavam de lábios secos e o nervosismo fazia os corações de todos palpitarem descontroladamente. Bem, de quase todos... Flor-de-Lótus arrancou o machado das mãos do carrasco e partiu sem vacilar contra o robô, que estava de costas para ela. Este se voltou instantaneamente, mal conseguira ela segurar o machado nas mãos delicadas, aparentemente incapazes de manobrar arma tão descomunal. Só aparentemente... A gueixa estacou diante do robô, a menos de três passos de distância e, para surpresa geral, ergueu a pesadíssima arma com ambas as mãos, acima da cabeça. — Não se aproxime, Flor-de-Lótus — disse Alexandre. — Não queremos inimizade com a CIA. Flor-de-Lótus ignorou aquelas palavras amáveis. Deu um passo à frente e desferiu uma tremenda machadada contra o peito do robô, com uma força Inusitada. Este cambaleou por momentos, mas Flor-de-Lótus, sentiu muito mais. A vibração do golpe de ferro contra ferro transmitiuse violentamente pelo cabo de madeira, que saltou das mãos da gueixa em fortíssima rebatida. A violência foi tamanha, que Flor-de-Lótus caiu para trás, sentindo dores muito fortes nos pulsos, quase desfalecida. Alexandre encaminhou-se imperturbável para a saída do salão. Os criados tentaram aproximar-se, especialmente aqueles desprevenidos que haviam acudido lá de fora aos primeiros gritos. Mas meia dúzia de jatos de fogo os convenceram a manter distância prudente. Assim, Alexandre, poucos segundos depois, deixava o salão, alcançando a escadaria. E atrás dele, a doce gueixa, de rosto contraído pela raiva, trazia agora uma pequena automática na mão direita, com a qual fez dois disparos contra as costas de Alexandre, mas este continuou seu caminho sem demonstrar a mínima alteração. Devido a isto, e também porque o ricochetear das balas nas costas de Alexandre punha em perigo a todos, Flor-de-Lótus desistiu de atirar contra o robô. — Johnny! — chamou. — Johnny, olha o robô... Cuidado com ele! Alexandre já estava descendo as escadarias, encaminhando-se diretamente para o homem que havia surgido das sombras do jardim, e que parecia disposto a cortar-lhe os passos. — Não, Johnny! Não chegue perto dele! Não atire! É invulnerável! É preciso derrubá-lo de longe! Mas o homem que aguardava Alexandre ao pé da escadaria parecia confiar demais em suas forças, porque se aproximou dele, tentando alcançar suas costas, o que conseguiu, porque este não lhe dava a menor confiança... — Não, Johnny, não! Mas Johnny estava mesmo decidido a derrubar o robô na raça e saltou sobre suas costas, firmando bem os pés no chão e passando o braço esquerdo pela garganta daquela... geringonça. Uma espécie de brilho azulado espalhou-se subitamente pela superfície do corpo do robô e Johnny gritou, lançado a vários metros de distância pelo choque elétrico que recebera. E enquanto o robô prosseguia sua marcha inalterável em direção às grades do jardim, Flor-de-Lótus descia rapidamente a escadaria. Ajoelhou-se junto à indefesa vítima de Alexandre. — Johnny! Johnny! Levantou-lhe a cabeça e tomou-lhe o pulso, que batia quase normalmente. Estava apenas desfalecido. Olhou então para o alto da escadaria, irritada. Viu o agrupamento de convidados literalmente paralisados de terror. De fato, depois de tão tremenda descarga elétrica, seria demais pedir àquela gente que atacasse Alexandre. Ajeitou cuidadosamente Johnny no chão e correu até o carro mais próximo, torcendo para que a chave estivesse na ignição. Estava. Deu velozmente a partida, manobrou, saindo do estacionamento privado do palacete, e acelerou em direção a Alexandre, que se afastava pelo longo caminho de cascalho. Tinha certeza que, se conseguisse atropelá-lo, o derrubaria. E, então, poderia tirar a prova de existência ou não de um homem sob aquela roupa de ferro. Calculou a distância até Alexandre em mais ou menos treze metros. Estava fugindo em rápidas passadas, pesadas, em direção ao portão principal do palacete. Acendeu os faróis e calcou o acelerador até o fundo, mantendo o carro em segunda, desenvolvendo um arranco brutal. Alexandre nem sequer olhou para trás, mas, quando o carro estava próximo, fez uma manobra simples e inteligente: saiu do caminho e escondeu-se atrás de uma árvore. O carro passou rente a ele, e foi tudo. Flor-de-Lótus freou violentamente, engrenou a marcha-à-ré, enquanto Alexandre, tornando a esconder-se atrás de uma grossa árvore, deixava o carro passar. Então, já aborrecido com tamanha ousadia de uma simples mulherzinha disfarçada de japonesa, levantou a mão direita, de onde voltaram a saltar jatos breves e violáceos... O pára-brisa do carro de Flor-de-Lótus transformou-Se instantaneamente numa enorme e intrincada teia de aranha, para logo saltar em milhares de estilhaços, ao impacto das balas seguintes. Mas Alexandre não deixou de atirar: mais quatro balas foram distribuídas pelos pneus dianteiros, enquanto, dentro do carro, Flor-de-Lótus acocorava-se no chão, coberta de cacos de vidro. Quando conseguiu levantar-se, Alexandre já estava junto ao portão de saída. Saltou do carro, precipitou-se atrás dele e pôde ainda ver um automóvel aproximar-se do robô. Viuo entrar e pôs-se a correr, tentando tomar nota do número da licença. Mas o carro partiu a toda a velocidade e logo se perdeu no tráfego da Quinta Avenida. Pôde perceber ainda que o número da licença havia sido apagado... Os olhos azuis de Flor-de-Lótus cintilaram de raiva. — Muito bem, Alexandre... Espero que tornemos a nos encontrar. Este foi tão somente o primeiro round. A conversa entre a gueixa e o robô está apenas no começo. *** Mas esta última cena não chegou a aparecer na tela do televisor. O “programa” havia terminado quando Alexandre entrara no carro que o estava esperando junto às grades do palacete da Quinta Avenida. Exatamente naquele instante, a tela do televisor ficara escura, negra, apagada. Até aquele momento, tudo quanto estava ocorrendo na festa de Albert Rockingham havia sido televisionado, muito particularmente, para gozo de alguns poucos espectadores. Desde o instante em que a festa havia começado, até quando o robô Alexandre entrara no carro, os distantes telespectadores haviam presenciado tudo, como em qualquer programa normal de televisão. Depois, uma vez terminado o espetáculo, a bela mulher ruiva voltou-se para Romeu, que solidamente amarrado havia assistido à festa de longe. Sorria amavelmente, quase com simpatia. Seus belos olhos cinzentos fitaram fixamente os olhos negros de Romeu. — Bem... Evidentemente esta gueixa chamada Flor-deLótus é a enviada da CIA à festa de Albert Rockingham, senhor Romeu. Para dizer a verdade, esperava que mandassem alguém mais... perigoso. — Não compreendi coisa alguma — murmurou Romeu. Trazia a marca de vários golpes na cara, estava amarrado a uma cadeira e seu aspecto era de um homem em estado físico muito precário. Haviam-no surrado de muitas maneiras, torturado com luzes, com jatos d’água fria, com o silêncio e a escuridão, com a fome, com a sede... E depois de submetido a tudo isto por quarenta e oito horas, Romeu continuava duro como uma rocha que não tivessem conseguido estourar nem com dinamite. Era exasperante!... E admirável ao mesmo tempo; Heston, Bolowski e Mackenzie estavam desesperados. A bela ruiva de olhos cinzentos mal conseguia disfarçar sua contida admiração por aquele homem varonil e silencioso, indiferente, capaz de suportar tudo... pelo menos até o momento. Estavam em um pequeno quarto, à prova de som, no qual existiam diversos aparelhos estranhos e várias telas de televisão, quatro das quais haviam estado em funcionamento o tempo todo, focalizando todos os ângulos do salão de Rockingham. Ora numa, ora noutra das telas, tudo o que ocorrera fora registrado. — É verdade que não entendeu nada, Romeu? — disse sorrindo a bela ruiva. — Verdade. Ela tornou a sorrir e voltou-se para o homem que, após terminar o manejo de uma daquelas estranhas máquinas, aproximou-se deles, informando sorridente: — Tudo vai bem. Alexandre está de volta para casa. Calculo que chegará daqui a pouco à ilha, sem maiores novidades. Isto, apesar dos esforços dessa gueixa — encarou o prisioneiro. — É natural que estejamos convencidos de que ela é a enviada da CIA, Romeu. Que pensa você? — Não tenho nada que ver com a CIA. O homem pegou uma cadeira e sentou-se diante dele. — Não seja teimoso. Veja, já tínhamos todo este trabalho preparado há três semanas, e todos nós tivemos que nos dedicar a fundo para que tudo saísse perfeito. Somente isto fez com que nos descuidássemos de você. Mas agora já terminamos o trabalho e podemos dedicar-lhe nosso tempo integral. Entende o que isto significa? — Entendo. — E mesmo assim não quer colaborar conosco? Veja, Romeu, se você pertence à CIA, será de grande utilidade que nos confesse. Como pôde perceber, nas quatro telas de televisão, Alexandre teve a oportunidade de matar Flor-deLótus várias vezes. Mas, na realidade, não queremos ficar mal com a CIA, tanto que Flor-de-Lótus e o sujeito chamado Johnny foram anulados pacificamente. Creio que percebeu não haver nada mais fácil para Alexandre do que matá-los com o lança-chamas ou a tiros. Mas, torno a insistir que a nossa intenção é de manter boas relações com a CIA. Quais os motivos? Relações... comerciais. Logo, se você é de fato da CIA, o melhor a lazer é confessar, para permanecer vivo. — Continuo sem entender coisa alguma — insistiu Romeu. — Ele está mentindo, Percy — disse a bela ruiva, sorrindo. — Eu sei, Margot — concordou Percy Fowler. E está mentindo de uma maneira muito estúpida. Mas não vamos levá-lo a mal por lato. Afinal, é sua vida que está em jogo. Já demos uma demonstração do que podemos lazer: enviar um robô invencível para matar determinada pessoa, diante de multas testemunhas, com a própria CIA presente... Nada conseguiu deter Alexandre. E isto era exatamente o que queríamos demonstrar à CIA. Eis a razão do convite. — Com qual objetivo? — perguntou subitamente Romeu. — Desista da sua idéia de obter informações retrucou asperamente Percy Fowler. — Nós é que fazemos perguntas. Bem, afinal, não vejo inconveniente algum em adiantar-lhe alguma coisa, Romeu. Uma informação que você mesmo já conseguiu através dos televisores. Naturalmente, percebeu que os quatro olhos de Alexandre são câmaras de televisão, uma para cada lado do corpo, as quais nos enviam as imagens à central de comando — e apontou para a máquina em que estivera trabalhando. — Por intermédio deste aparelho, controlamos Alexandre a distância, com uma precisão e segurança absolutas. Você teve a oportunidade de apreciá-lo, não? — Sim, eu o vi. O homem que está lá dentro deve ser um colosso. — O que disse? — falou Fowler. — Me refiro ao homem que move Alexandre por dentro. Para levar todo aquele peso do mecanismo do robô, precisa ser um colosso, um tipo de força descomunal. Margot desatou a rir, mas Fowler interrompeu-a com um gesto. — Claro, Romeu. De fato, a nossa intenção era matar dois coelhos de uma só cajadada. Eliminar certa pessoa que nos foi indicada e, por outro lado, convencer a CIA da eficiência e da invulnerabilidade de Alexandre. Você, Romeu, sem dúvida, é um profissional da espionagem, não é verdade? — Talvez. — Mas sim, claro que é! Sabemos muito bem distinguir estas coisas. Aliás, ao nosso modo, até o admiramos. Pois bem, reconheça que Alexandre, o robô, é muito mais eficiente que você. Se alguém tivesse dado uma machadada daquelas em seu peito, você seria partido em dois. E meia dúzia de balas, pelas costas, o teriam detido. E até mesmo um homem como esse Johnny, pendurado ao seu pescoço, lhe teria dado muito trabalho... O tempo suficiente para que Flor-de-Lótus chegasse em sua ajuda. Nem tampouco conseguiria desvencilhar-se tão facilmente de um carro que tentasse atropelá-lo. Enfim, Romeu: conseguimos o agente perfeito. — O agente perfeito, para quê? — Foi claramente demonstrado: para matar. Para matar sem risco de espécie alguma. E para convencer-se foi que a CIA recebeu um convite. Enviaram Flor-de-Lótus e Johnny, e ambos fracassaram, beneficiando os nossos planos. É possível que muito em breve entremos em contato com a CIA, para uma troca de impressões e de ofertas. Mas, com a finalidade de evitar confusões, queremos antes saber como resolver o seu caso. Se realmente é enviado da CIA, talvez cheguemos a um acordo. Okay? — Não tenho nada que ver com a CIA. — repetiu Romeu. — Então vamos supor que aceito o que disse, e que... Uma das portas do pequeno quarto foi aberta e apareceu outro homem. Era alto, gordo, meio calvo, com olhos astutos, escuros. Aproximou-se dos aparelhos, examinou-os rapidamente e logo encarou Percy Fowler, que fez um gesto afirmativo com a cabeça. — Tudo vai bem, Aaron — informou. — Formidável! — respondeu o recém-chegado. — Sinto muito haver perdido o espetáculo de Alexandre, mas infelizmente tive que atender a outras coisas. Conseguiram matar o “cliente”? — Sem falha alguma, e diante de todo o mundo. Foi magnífico! Estamos melhorando. — Ótimo, ótimo! Seria bem conveniente que abandonássemos a ilha, Percy. Margot, nós dois temos muita coisa que fazer no continente. O Sr. Romeu ainda não se decidiu a colaborar? — Nada. É teimoso e forte como um elefante. Mas já o adverti de que nos descuidamos um pouco dele devido ao trabalho de Alexandre, e que daqui por diante vamos tratálo com muito carinho. Continua a afirmar que não pertence a CIA. Aaron Chandler fitou fixamente Romeu por alguns instantes. De um modo profundo, especulativo. Em nenhum momento as negras pupilas do prisioneiro cederam ante o olhar de Chandler. — Creio que será melhor matá-lo e dar um sumiço no cadáver — disse bruscamente. — E se isto nos denunciar? — Em que sentido? — É muito provável que alguém esteja esperando noticias dele. — Pois que continuem esperando. Uma coisa é certa: Romeu não possui companheiros que estejam a par de seus movimentos. De outro modo, já teriam aparecido lá na loja de brinquedos. E nada disto aconteceu. Não, Percy, não. Na minha opinião, este é um pássaro solitário, um livre atirador. Não trabalha com ninguém. Portanto, o melhor é matá-lo tranqüilamente... e caso encenado. — Talvez possa revelar-nos alguma coisa interessante — murmurou Margot. — Duvido muito — negou friamente Aaron Chandler. — De qualquer maneira, não quero que percamos mais tempo com ele. Tentem agora o último método, já que liquidamos o caso de Roczac e, uma vez que estejam convencidos, liquidem Romeu. — Okay. Já vai? — Preciso chegar a Nova Iorque, para assistir ao desenrolar dos acontecimentos. Que aconteceu com a CIA? Esteve presente? — Desde o primeiro momento. Uma mulher disfarçada em gueixa e um sujeito que rondava pelo jardim. Houve um pouco de briga, mas nada de sério. — Perfeito. E uma vez que a CIA já está ciente do que é capaz de fazer Alexandre, o resto não interessa. Liquidem logo com este sujeito. Cumprimentou Romeu e foi-se embora. Margot e Percy entreolharam-se. Foi Margot quem concordou primeiro, inclinando a cabeça. — Aaron está com a razão, Percy: será melhor que tentemos o último método. Se Romeu for de fato perigoso para nós de alguma maneira, não deixará de nos dizer. E também responderá tudo o que lhe perguntarmos. Uma coisa é negociar com a CIA à nossa moda, e outra muito diferente é a CIA querer dominar a situação. Portanto, Sr. Romeu — encarou-o amavelmente —, vamos tentar o último método com você. E desta vez, asseguro-lhe, não conseguirá ocultar nada. Heston, trate de preparar tudo. Heston despachou-se, enquanto Percy Fowler, que durante todo o tempo mantinha um estranho sorriso, desandou a rir: — Gostaria muito de saber que espécie de confusão. Está ocorrendo lá pela casa de Albert Rockingham! — exclamou, divertido. QUINTO Feliz Ano Novo! O soro da verdade Uma mulher perigosa Albert Rockingham pousou o fone no gancho e voltouse para a gueixa, a quem havia habilmente atraído até ali. — Advirto-a — disse-lhe, dedo em riste — que contarei à policia sua atuação. — Está-se referindo à minha dança japonesa? — zombou Flor-de-Lótus. — Refiro-me à sua surpreendente força física, ao dar aquela machadada! E, acima de tudo, ao fato de que tenha deixado escapulir aquele sujeito que apareceu no jardim... — Eu não o deixei escapar. Simplesmente, ajudei-o a recuperar-se, e então ele tratou de ir embora, sr. Rockingham. Este a encarou zangado. A festa havia terminado. No salão estavam o cadáver do “Cavaleiro Fantasma” e os convidados que, de tão assustados, não sabiam se ficavam ou iam embora. Mas, enquanto não se decidiam, ainda se encontravam ali quase todos. Era um final de ano horrível, com aquele cadáver diante deles... Albert Rockingham, no seu escritório, já havia retirado o capuz de carrasco misterioso, surgindo tal como era na realidade: olhos claros, cabelos louros, atraente. Mas naquele momento não parecia nada simpático. Ninguém parece simpático quando está furioso. E quando ainda por cima está vestido de carrasco, fica até desagradável. O dono do palacete apontou o dedo longo, aristocrático, para a falsa japonesa. — Nós dois sabemos que foi você quem o pôs em movimento e o ajudou a fugir! Eu não estava tão assustado como os outros, e pude ver. — Por que não se acalma, sr. Rockingham? Procure compreender que com gritos e atitudes intempestivas ninguém vai conseguir nada. — A polícia é que se entenderá com você! — Duvido muito. Quando ela chegar, eu não estarei mais por aqui, sr. Rockingham. — É? Eu quero ver como vai conseguir escapar de mim! — Deixe disso. E me responda, por favor: mandou por acaso um convite à CIA? Tem por acaso amizades no mundo da espionagem? — Claro que não! — Bem, é fora de dúvida que, esta noite, teve em sua festa um assassino e uma espiã. A espiã, claro, sou eu. E, sem dúvida também, se ambos entramos, foi porque tínhamos convite. Não acredita? — Vocês não passaram de penetras! — Sim — murmurou Flor-de-Lótus. — Creio que tem razão. Mas as coisas não acontecem pura e simplesmente. E algo ocorreu. Algo... muito estranho e terrível. E foi presenciado pela CIA, o que evidentemente era o desejo de alguém. Pessoas que não respeitaram sua festa, Albert. Receio que seu fim-de-ano vai ser bastante desagradável. — Garanto que mais para você do que para mim. — Refere-se à policia? — Naturalmente, O homem que mataram era amigo de uns amigos meus e, por isso, recebeu o convite. Mas você não. Será um pouco difícil explicar este fato à polícia. — Sim — murmurou Flor-de-Lótus. — Realmente seria muito difícil... não, não precisamente difícil. Mas seria tão complicado, que prefiro ir andando agora, antes da chegada dos fiéis cumpridores da lei. Albert Rockingham fechou a cara e colocou-se ante a porta do escritório. — Você não vai sair por esta porta — disse com firmeza. — Claro que não. Minha intenção era sair pela portajanela que dá para o jardim. Dirigiu-se calmamente para ali, mas Rockingham correu, cruzando velozmente o escritório, e cortou-lhe os passos. Ao longe, ouviam-se já as sirenas da polícia. — Você vai ficar aqui! — repetiu Rockingham. — Por favor, sr. Rockingham, não me obrigue a maltratá-lo. Seria penoso para mim... Vamos encerrar de maneira cordial este encontro. — Já disse que você não vai sair do escritório. A gueixa encarou-o por alguns instantes, a testa graciosamente franzida. Finalmente, soltou um suspiro de desalento. — Parece que você não me deixa alternativa, Albert. Espero que mais tarde, quando refletir melhor, me perdoe. Encaminhou-se para a porta-janela que dava para o jardim. Rockingham segurou-a pela mão, fortemente. Sua mão era grande, sólida, de atleta, quase três vezes a de Florde-Lótus. Mas, como se costuma dizer em espionagem, nem sempre dois e dois são quatro, e até mesmo muitas vezes somam cinco. Com a mão que estava livre, a japonesinha apertou, quase suavemente, o pulso de Rockingham: este deu um grito e largou-a, mas imediatamente tentou segurála pelos ombros. Para grande surpresa sua, aquela mulherzinha delicada, que um segundo antes se encontrava diante dele, estava já de costas, segurando um de seus braços, que passou rapidamente pelos ombros, girando ao mesmo tempo, ligeira, em direção ao meio da sala. Inclinou-se violentamente. Albert sentiu um golpe no estômago, um puxão violento no braço e viu-se atirado, voando como uma flecha em direção ao sofá do escritório. Caiu ali como um saco, revirou, foi ao chão, procurou sentar-se e olhou desconcertado, quase aparvalhado, para todos os lados. Conseguiu, afinal, vislumbrar Flor-de-Lótus a ponto de sumir pelo umbral da porta-janela que abria para o jardim. Ela deu-lhe adeus graciosamente. — “Sayonara” — disse sorrindo. E logo se encontrava junto ao seu carro-esporte estacionado rente à calçada, uma casa além do palacete, depois de saltar as grades, conseguindo assim iludir habilmente a polícia que já começava a invadir a casa. A porta foi aberta e a gueixa sentou-se, soltando um suspiro de fadiga. Encarou o homem que estava ao volante. — Você está bem, Johnny? — Perfeito — sorriu ele. — Achei que era melhor afastar-me um pouco do palacete com seu carro, “Baby”. E como tinha certeza de que não queria conversa com a polícia, fiquei fazendo hora, a esperá-la. Dificuldades? — Não sei. Parece que começaram a coisa a sério. Ora, ora, ora... não é que o meu querido “tio Charlie” está aqui? Charlie Pitzer, sentado ao lado da espiã internacional mais esperta do mundo, soltou uns grunhidos como resposta. — Já estava aqui desde que você entrou no carro, não viu? — Claro que vi — riu Flor-de-Lótus. — Estava muito preocupada com Johnny. Já contou para ele, Johnny? — Já me contou tudo, enquanto esperávamos que conseguisse fugir do palacete. Que diabo é esse robô? E aquela descarga elétrica? — É um caso muito especial. Pergunto a mim mesmo que espécie de homem seria capas de agüentar ali dentro naquele monte de ferro, caminhar, mexer com os braços, lançar chamas, ver com as costas... Creio que preciso meditar um pouco, tio Charlie. — Pois pense. Tem... um minuto. — Tanto tempo? — zombou a gueixa. Tirou de debaixo do assento sua maleta vermelha com flores estampadas. Da maleta, tirou um espelho, algodão, um vidro com um liquido transparente. Fez Pitzer segurar o espelho, molhou o algodão no líquido e passou rapidamente pelo rosto, tirando a incomoda maquilagem. Em poucos segundos, já se reconhecia quase completamente o rosto de Brigitte Montfort. Mais algumas esfregaduras com o algodão embebido e saíram os últimos resquícios. Tirou as agulhas que prendiam o coque, deixando tombar os longos cabelos negros, que ajeitou-os com os dedos. Em seguida, tranqüilamente, despiu o quimono, ficando apenas de sutiã e calcinhas. Guardou o quimono, tomou o casaco de peles que estava no assento de trás e vestiu-o. Guardou a maletinha, suspirou, e disse: — Vamos para casa, Johnny! — Com todo o prazer — disse rindo de admiração o ajudante de Pitzer. Mas este soltou outro grunhido. — Já teve tempo de pensar? — Um pouco — disse “Baby”. — Evidentemente, queriam que a CIA estivesse presente durante a demonstração de Alexandre. Ignoro por que. Outra coisa evidente é que Alexandre e seus chefes não querem inimizar-se conosco... Somente por isto, eu e Johnny estamos ainda vivos. — E tudo isto... para quê? Por quê? O que pretendem? — Creio que teremos de esperar. E enquanto esperamos, tio Charlie, quero que me descubra quem é o morto, a vítima selecionada por Alexandre. — Um convidado qualquer, não? — Não acredito. Quero saber quem era este homem, se americano ou estrangeiro, o que fazia nos Estados Unidos, se tinha amigos... Tudo o que for possível saber sobre ele. E com a maior urgência. — E enquanto isto? — Vou procurar celebrar da melhor maneira possível a entrada do novo ano da graça de mil novecentos e sessenta e oito... Que horas são? — Vinte para a meia-noite — Informou Johnny. — Tempo mais do que suficiente para chegar ao meu apartamento, que está aqui perto. — Vai passar o Ano Novo sozinha? — Gostaria de divertir-me um pouco — concordou Brigitte. — Mas, queridos, vocês dois têm muito que fazer, para que possa saber logo quem era o “Cavaleiro Fantasma”... Pode parar aqui mesmo, Johnny. E podem levar o carro. Mais tarde, mando apanhá-lo. O carro parou e Brigitte desceu, bem próximo ao “Cristal Building”, onde era seu apartamento. Antes de fechar a porta, sorriu para os dois. — Feliz Ano Novo, é o que desejo! *** Entrou no apartamento, fechou a porta, tirou o casaco de peles, ficando só de calcinhas e sutiã, e dirigiu-se então para o living. — Peggy, já estou de volta. Prepare um... oh! — Raios me partam! — gritou Frankie Minello, deixando cair o copo que tinha nas mãos. Estava de pé no centro da peça, com um cômico chapeuzinho de plástico colorido. Parecia uma múmia todo enrolado em serpentinas, e depois de soltar aquela exclamação, tocou agudamente uma corneta que trazia. “Cícero” estava deitado no sofá, com um grande laço de seda vermelha no pescoço, enrolado também em serpentinas e salpicado de confete, e logo se pôs a ladrar alegremente quando viu sua dona. Peggy estava sentada em uma poltrona e tratou de levantar-se, deixando uma taça de champanha na mesinha. — Miss Montfort... O senhor Minello entrou à força, empurrou-me... Não pude impedi-lo, e disse que... que preparasse tudo para a sua volta... E como não a ouvimos entrar... — Está bem, Peggy — disse sorrindo a espiã. — Por que veio aqui, Frankie? — Raios me partam! — Raios te partam? É um novo método de viagem? — Eu, eu, eu... Ora bolas! Puxa vida, estou tentando dizer que vim apenas desejar Feliz Ano Novo. Feliz Ano Novo! E deu uma buzinada barulhenta. “Cícero” pôs-se a ladrar, Peggy desandou a rir e Brigitte tapou os ouvidos. — Está bem, está bem. Tomaremos uma taça juntos. É preciso comemorar. Traz outra taça para o Frankie, Peggy. — Pois não, miss Montfort. — A televisão! — gritou Minello. Correu para o aparelho e ligou-o. Peggy serviu mais champanha para Minello, e encheu uma taça para Brigitte, que a habituara a servir sempre primeiro aos convidados. Naturalmente, não deixou de colocar uma cereja em cada taça e Minello, erguendo a sua, saudou: — Brindo à... — baixou a voz — espiã mais perversa de todos os tempos! Começaram a beber os três exatamente quando soou meia-noite. Fim. Adeus a mil novecentos e sessenta e sete. Um adeus alegre, já que, mais uma vez, a agente “Baby” conseguira atravessar incólume, chegando viva àquela hora final de um ano que morria. Aventuras em Benares, pelos Estados Unidos de cima a baixo, na Venezuela, em HongKong, em Chamonix, na Guatemala, no Cairo, no Alasca, nas ilhas do Caribe, num cruzeiro atlântico, na Turquia, em Ausvânia, no Mississipi... Eram tantos os lugares, que não conseguia recordar-se de todos. Tinha seus apontamentos, é verdade, e qualquer dia... Sim. Qualquer dia desses, terminaria de escrever seu livro intitulado “O Decálogo do Espião”. E então contaria tudo, tudo... Frankie Minello largou a taça e aproximou-Se de Brigitte, segurando-a pela cintura nua. — Solta-me, Frankie! — riu-se ela. — Nada disto! É preciso receber o Ano Novo com um beijo! Não tenho culpa se você me apareceu de calcinhas! Abraçou-a com força e beijou-a nos lábios. Soltou-a e pôs-se a tocar a cometa. “Cícero” tornou a ladrar, agitado de alegria, quase histérico. — Vou botar música na vitrola! — disse Minello. — Frankie... Frankie, sinto muito. Mas você terá que ir embora. — Por quê? Apesar de estar quase nua e linda, não pedi nada de mais, “Baby”. O resto virá depois, com o tempo. Ei! Por que vai botar o casaco logo agora? Assim não vale! Brigitte terminou de vestir o casaco de peles, ergueu a taça e brindou: — Feliz Ano Novo, Frankie... e boa-noite. *** Pôs a camisola e deitou-se. Deixou-se estar ali, pensativa. Um novo ano... Certamente devia agradecer por estar viva ainda. Viveria parar celebrar o ano seguinte? Acendeu um cigarro, refletindo. “Cícero”, como fazia todas as noite, aconchegara-se num almofadão, a um canto do espaçoso quarto, iluminado suavemente por uma leve luz rosada. Era agradável estar ali. Celebrar um Ano Novo viva e na companhia dos seres queridos. Era algo que valia a pena. Entre os seres queridos? Por acaso estariam todos ali, junto dela? Como teria sido diferente se, em vez de enfrentar um robô chamado Alexandre, estivesse ali com todos de seus amigos reunidos, em paz, sem nenhuma missão a cumprir para a CIA, nem para ninguém! Como seria bom se não fosse necessário existirem espiões no mundo! Nem soldados, nem tanques, nem os mísseis e antimísseis. Paz na terra aos homens de boa vontade... Seus melhores amigos, cada um a seu modo, eram: John Pearson, o melhor espião britânico, do MI5, apelidado “O Fantasma”; Wilhem von Steinhell, vulgo “Alexandria”, o mais fabuloso espião alemão de todos os tempos; Nataniel, que ainda possuía seu pequeno país da América Central, graças a ela. E Johnny — todos os Johnnies que em sua companhia haviam arriscado a vida através do último ano. Eram tantos! Muitos... muitos amigos. Bons amigos, que dariam a vida por ela sem vacilar um momento. Mas acima de todos... Acima de todos, o “Número Um”, o homem que, traído pela CIA, vivia solitário no mundo, sem outro amor senão o dela, sem amar a ninguém mais do que a agente “Baby”. Por onde andaria naquele Instante? Sozinho, sem ninguém para quem sorrir, sem ninguém a quem amar... Brigitte pegou a taça de champanha que estava na mesinha de cabeceira e a levou aos lábios, murmurando: — A todos! Por todos vocês, meus queridos amigos, o primeiro gole do ano. A todos, estejam onde estiverem, desejo felicidades, paz de espírito e longa e longa vida. — Uma lágrima tombou na taça de champanha, mas a espiã mais inflexível e dura do mundo estava sorrindo. — Para todos vocês, com todo o meu amor... Feliz Ano Novo! *** — Já estamos em 1968 — disse Heston. Ninguém respondeu. Percy Fowler olhava turvamente o homem estendido no catre da sórdida habitação subterrânea. Aquele homem, duro como rocha, de rosto moreno, todo golpeado e manchado, era o tipo mais surpreendentemente difícil que encontrara. Tinha um queixo quadrado, sólido, pétreo. E um ar vigoroso, varonil, duro. Sua atraente masculinidade havia impressionado até a Margot, que, como ele, olhava aquele rosto enigmático, agora recoberto de uma finíssima camada de suor. Junto à mesinha, ainda estava a enorme seringa com que lhe haviam dado uma injeção na veia. Mas mesmo assim, com aquele novo e potente soro da verdade, tinham lá suas dúvidas a respeito dos resultados. Romeu conseguira convencê-los de que possuía uma resistência física e mental extraordinária. Já o haviam espancado até à exaustão, submetido às mais diversas torturas e maltratado de todas as maneiras possíveis... Mas não abrira a boca para dar um pio. Era assombroso, incrível! Não poderia existir ninguém assim tão fiel a seus amigos, à sua organização. Um leve gemido escapou dos lábios de Romeu e Percy Fowler consultou o relógio. — Creio que está começando a fazer efeito — murmurou. — Penso que estamos perdendo tempo com ele — disse Margot. — É a última tentativa. Não podemos correr o risco de alguém mais saber a respeito da loja de brinquedos e de nós mesmos. Vamos lá ver o que está dizendo. Interrogue-o você, Margot. E seja amável. Ela concordou com a cabeça. Aproximou-se de Romeu e passou a mão por sua testa, enxugando-lhe o suor. — Romeu — murmurou. — Que está fazendo em Nova Iorque? — Nada, nada, nada... — Romeu, não pode mentir para mim, que sou sua amiga. Já se esqueceu de mim? Quem é você? O que está fazendo em Nova Iorque? — Romeu, viajante, turista... é isto que sou. Percy Fowler cerrou as mãos. — Está resistindo aos efeitos da droga! — disse irritado. — Não é possível! Ele não passa de um ser humano, Percy. Deixa-me prosseguir, por favor... Romeu, está me ouvindo? — Sim, querida. Sim, estou ouvindo-a muito bem... — Não esqueceu de mim? Um estranho sorriso, suave, que surpreendeu todo o mundo, espalhou-se pelo rosto de Romeu. — Você sempre... sempre com seu bom humor... Se me recordo de você? Sabe muito bem que não me sal do pensamento, em nenhum momento, durante toda minha vida. — Eu também só penso em você. Mas tenho receio que esteja mentindo, que não se lembre mais quem sou. — Está zombando de mim — riu com dificuldade Romeu. — Você é a agente “Baby”, da CIA... A mais cruel e perigosa mulher que existe, a invencível, a que nunca foi humilhada. É cruel, fria como o gelo, dura como aço... É... o meu amor. Meu único amor. Meu primeiro e único ....... — Veio a Nova Iorque para ver-me? — murmurou Margot. — Não exatamente... Mas antes de regressar a Malta, desejo passar pelo seu apartamento, para vê-la mais uma vez... pois você é a minha única alegria “Baby”... — Por que veio a Nova Iorque? — Em Viena... aconteceu um fato surpreendente... Uma espécie de robô matou um funcionário da embaixada russa. Foi... espetacular. Os russos me ofereceram cem mil dólares para solucionar o caso, sem comprometê-los... Consegui a pista de um homem e o segui até o aeroporto de Roma, em Fiumicino. Consegui segui-lo até Nova Iorque e, aqui, até a loja de brinquedos. — Os russos, ou os austríacos, sabem alguma coisa sobre este robô? — Não. Não sabem nada... Toda a espionagem européia está convulsionada com o acontecimento. Pensam que o russo morto era um traidor... E a respeito do robô, ou seja lá a que for... nada foi descoberto. Mas, eu estou em Nova Iorque... Sim, estou em Nova Iorque e sei que... que o acharei, que descobrirei tudo... Você conhece bem a vida de espião, Brigitte... Um dia aqui, um dia acolá... Aparentemente estamos desorientados... mas sempre achamos uma maneira de seguir adiante... Os manequins... havia uns manequins no porão... em um porão da loja de brinquedos... Recebeu o ursinho? Um ursinho... grande — sorriu abertamente Romeu. — Eu o enviei ao seu apartamento em Nova Iorque. — Tem certeza? — Claro... Se algo me acontecer, sei que saberá... e continuará meu trabalho... É maravilhoso poder estar novamente com você. E é bem capaz que peça a sua ajuda. Há uma ilha... mas não sei onde está... Uma ilha... Ah... eu vi você pela televisão em circuito fechado. Fantasiada de gueixa, e com o nome de Flor-de-Lótus — sorriu novamente Romeu. — Como sempre, estava deliciosa, mas claro, não conseguiu derrotar Alexandre... Alexandre é um robô de verdade, “Baby” querida... Seus quatro olhos são câmaras de televisão que, em circuito fechado, enviam a imagem para a ilha de que falei... Há quatro telas que recebem as imagens... Esse tal de Alexandre, o robô, é uma... máquina destruidora que, controlada a distância, envia instantaneamente as imagens para a ilha... Ora, eu já falei isto antes... Há gente à minha volta... aquela espécie de gente que você destruiria imediatamente... Tenho certeza de que tudo será descoberto, que você descobrirá os seus nomes. Eu já conheço Heston, Bolowsky, Mackenzie, Margot Stevens, Percy Fowler... e um tipo chamado Aaron Chandler, que parece ser o chefe... Tem ligações com a loja de brinquedos... Agora me recordo...! Ali se constroem os robôs e uns manequins extremamente perfeitos. São quase idênticos a pessoas de verdade... e disparam gás... Sei que vai encontrar a loja de brinquedos, eu sei... Os interrogadores entreolharam-se alarmados. Percy Fowler fez sinal para Margot prosseguir o interrogatório. — Querido, diga-me exatamente quem sou eu. — Outra vez? É claro que você é Brigitte Montfort, trabalha para a CIA e no mundo da espionagem é conhecida como a agente “Baby”... — Sou de fato perigosa? Romeu desandou a rir convulsivamente. — É muito engraçado! — exclamou. — Se tem prazer em que a elogiem, não tento nada a opor... Perigosa? Bem... até agora ninguém conseguiu vencê-la, e você sabe muito bem... nem ninguém a vencerá... como eu... Eu e você somos invencíveis... — O ursinho... Não recebi o ursinho, meu querido. Para onde o mandou? — Para o seu apartamento em Nova Iorque... para o “Cristal Building”, ali no Central Par.... Talvez tenham atrasado a entrega... — Veio sozinho para Nova Iorque? — Você sabe... que eu só ando sozinho, Brigitte. Sempre só... com sua lembrança, com a sua imagem diante dos meus olhos. Margot Stevens afastou-se do catre e deixou que Romeu prosseguisse delirando. Trocou um olhar de entendimento com Percy Fowler. — Bem, isto é tudo: Brigitte Montfort, aliás “Baby”, apartamento no “Cristal Building”, em Nova Iorque. É necessário recuperar a qualquer custo esse ursinho. *** Brigitte deixou a taça de champanha na mesinha de cabeceira e ficou contemplando o ursinho, colocado numa cadeira. — Você é um encanto, Nicanor! Espero que amanhã venha me perguntar se eu o recebi. A você também desejo um Feliz Ano Novo, naturalmente. Para todos, para todo o mundo, Feliz Ano Novo! E a agente “Baby’ adormeceu como uma menina. SEXTO Conversa violenta Robôs de aluguel “Baby” contra a CIA Brigitte ergueu o olhar do livro, para dirigi-lo amavelmente até aquele inesperado visitante matutino. — Bom-dia, tio Charlie. Que tal está achando o Ano Novo? — Fatal — grunhiu Pitzer, jogando o chapéu para uma cadeira. — Viu? — disse sorrindo Brigitte. — Não se pode ser espião! O que é que vai mal? — Não consegui dormir toda a noite. — Ora, muito bem, neste caso você está entre aqueles que podem brincar dizendo que ficaram sem dormir por um ano, ou sei a, de sessenta e sete a sessenta e oito. — Eu não aprecio piadas tolas. — Nem brincadeira de espécie alguma. De qualquer modo, é necessário receber um novo ano sempre com satisfação, pois é um ano a mais de vida. Mmmm... espero, pelo menos, que esta noite de insânia tenha sido proveitosa. Sente-se, por favor. Charles Pitzer já havia sentado, no sofá, junto da espiã. Soltou outro grunhido e encolheu os ombros, enquanto seus olhos espertos não saiam das pernas de Brigitte, que estava sentada à moda árabe, com uma camisola curta, azulceleste, embaixo da qual não trazia nada. — Vou pedir-lhe um favor — resmungou Pitzer. — Espero que não seja algum absurdo. Do que se trata? — Quando eu vier visitá-la, não me receba com roupas transparentes e coisas semelhantes... como este déshabillé, por exemplo. Vejo quase tudo, e isto me deixa nervoso. — Mas, na sua idade, ainda fica nervoso? —zombou a espiã. — Ainda estou vivo, não? — disse irritado Pitzer. — Precisamente — “Baby” o advertiu, apontando-lhe um dedo delicado. — Você ainda está vivo, tio Charlie. Então, pelo amor de Deus, por que não procura apresentar uma cara mais alegre? Pitzer franziu o sobrolho e tentou sorrir, desajeitadamente. — Creio que você tem razão — admitiu. — Vou fazer o possível para começar o Ano Novo sorrindo. Tem café? — Eu tenho de tudo, Querido. — Ora se tem! — e contemplou-a gulosamente na cama. — Isto eu já sabia há muito tempo. Mas, como não acredito que você me dê algo mais do que o café, quero é café mesmo. Brigitte sorriu e levantou o fone do gancho. Apertou um dos botões e, quase imediatamente, fez-se ouvir a voz de Peggy, gentil: — Sim, miss Montfort? — Mais café, Peggy, por favor. — Estou justamente tratando disto no momento. Levo-o agora mesmo. — Ótimo. Obrigada, Peggy. Pendurou o fone no lugar, acendeu um cigarro e deixou o livro que estivera lendo sobre a mesinha. Encarou Pitzer, desta vez seriamente. — O homem morto chamava-se Roczac — começou a contar Pitzer. — Era conhecido por algum motivo especial? — Sim. Fugiu da Hungria há mais ou menos um ano, depois de pedir asilo político a uma das embaixadas européias. É bastante provável que Vanio Roczac haja desgostado profundamente os russos com esta fuga. — Bem... Esta poderia ser uma das causas pela qual Alexandre, o robô, o eliminou. Mas tenho minhas dúvidas de que esta tenha sido uma operação russa, tio Charlie. Na minha opinião, o assassinato de ontem à noite, de Vanio Roczac foi... uma demonstração pública de força, especialmente arranjada para a CIA. Quiseram impressionar-nos, por alguma razão que não me ocorre no momento. Naturalmente posso estar errada... O que acha? Pitzer estava balançando a cabeça negativamente. — Não, não está enganada, Brigitte. Na realidade, convidaram a CIA especialmente para demonstrar-nos com que facilidade e segurança é possível eliminar uma pessoa... e fugir. — Como sabe disto? — Primeiro, vou contar-lhe um caso quase idêntico, que aconteceu em Viena. — Em Viena... Na Europa... Como soube disto? — Pelos arquivos de Washington. O fato fora registrado ali, mas naturalmente, não o haviam comunicado. Estariam bem arranjados se tivessem que Informar todos os agentes de tudo o que acontece na Central. Mas, deixe-me prosseguir: Em Viena, Numa festa diplomática, um cidadão russo, chamado Igor Polanov, foi assassinado diante de mais de sessenta pessoas por um homem-manequim. — Por um o quê? — exclamou Brigitte. — Por um robô, mais ou menos parecido com Alexandre, segundo a descrição que dele me fez Johnny. O mais curioso do caso é que esse robô de Viena estava entre os convidados, mas passeando pela biblioteca... Sempre em lugares não muito movimentados. Súbito, no mais animado da festa, foi diretamente para Igor Polanov e lhe meteu três balas no coração. Depois, tranqüilamente, sem que ninguém pudesse impedi-lo de maneira alguma, foi-se embora. Saiu da embaixada, tomou um carro que passava justamente na ocasião e desapareceu. Foi atacado com espadas diplomáticas que acompanham os fardões e revólveres, mas nada conseguiu feri-lo. Muito simplesmente, depois de cometer o assassinato, foi-se embora. — Um Instante, tio Charlie, um instante... Há um trecho ai que não consegui entender. No caso de ontem à noite, ninguém suspeitou de Alexandre ao vê-lo disfarçado de robô porque estávamos numa festa a fantasia. Mas... em Viena a festa também era a fantasia? — Não. — E ninguém percebeu que havia entre eles uma espécie de robô, ou seja, um homem com armações metálicas ou algo assim? — Brigitte: o robô de Viena não possuía nada de especial, era exatamente como uma pessoa. — Bem... Talvez levasse debaixo da roupa um colete à prova de bala... — Acertaram vários tiros em sua cabeça e as balas ricochetearam. Brigitte inclinou a cabeça de lado, e passou uma deliciosa lingüinha rosada pelos lábios macios, provocantes. — E a cabeça do tal... homem parecia normal. — Absolutamente normal. Peggy entrou justamente naquele instante e Pitzer, apesar de estar de cara amarrada, não desgrudou o olhar das pernas da loura empregadinha, com as coxas a mostra ao inclinar-se para servir o café. Brigitte lançou-lhe um olhar irônico, mas não disse nada. Estava pensando... sem conseguir chegar a nenhuma conclusão. — Vamos deixar de lado os detalhes mais extravagantes do caso, tio Charlie. No momento, parece-me o melhor. Agora, explique-me esta história de que eu não estava enganada, ao dizer que a demonstração foi feita sob encomenda para a CIA. — Em Washington receberam uma proposta. — De quem? — Não se sabem os nomes. Mas seguramente são os proprietários de Alexandre. — Ora vejam! Os proprietários do meu querido robô! Que espécie de proposta foi essa? — Bem... Façamos primeiro uma explicação preliminar. Ouça: em certas ocasiões torna-se necessário, como você sabe, eliminar determinada pessoa. E sabe muito bem, pois você mesma em muitas ocasiões foi a agente indicada para isso. Geralmente, são pessoas a quem convém eliminar, quase sempre importantes em seu trabalho: políticos perigosos, espiões, traidores, delatores... Todas essas pessoas, naturalmente, estão a par do perigo que correm e costumam tomar grandes precauções para continuar vivos... Tais precauções dificultam o trabalho de eliminá-las. Não é assim? — Isto mesmo. E...? — Suponhamos que a CIA enviou você para assassinar um chefe de Estado. Vamos chamá-lo de X. Muito bem: você recebe a ordem de matar X, vai para onde ele está, dedica vários dias ao estudo do terreno, traça um plano... e finalmente, com enorme risco de vida, põe o plano em ação. Vamos deixar de lado as dificuldades que teria para chegar até X. Vamos supor que já o matou. Mas... e depois? — Depois? — Sim, depois. Você sabe perfeitamente que, na maioria dos casos, o maia difícil para o assassino é a fuga. Se é morto durante a fuga, não acontece nada de mais, porque já não poderá mais falar. Mas... se o apanharem vivo? Seria catastrófico se de algum modo conseguissem fazê-lo confessar que assassinara X, cumprindo ordens da CIA, não está de acordo? — Evidentemente. — Muito bem: esse risco pode ser eliminado. O rosto da agente “Baby” crispou-se momentaneamente. — Enviando um robô? — perguntou. — Exato — grunhiu Pitzer. — Mas... — Um momento. Procure compreender isto, Brigitte: um robô é uma máquina dirigida a distância. Em primeiro lugar, é quase invencível. Em segundo lugar, se for vencido de alguma maneira, nada dirá, está claro. A conclusão evidente é que cumpriu sua missão, sem nenhum risco político ou pessoal. — Pelo visto — disse Brigitte com voz tensa —, trata-se de utilizar robôs para assassinar impunemente. — Bem... realmente, é isto mesmo. — Suponho que a CIA, a agência Central, haja recusado a oferta. Em que termos foi feita? — Aluguel dos robôs. Quando à CIA interessar a eliminação de alguém, entrará em contato com um representante dessas pessoas que os possuem, de uma maneira que ainda não está decidida. A estas será informado quem é a vitima, o nome de quem deve morrer, e lhes serão pagos quinhentos mil dólares. É tudo. Evidentemente, a CIA fica fora do assunto. Sem compromissos, sem perigo, sem possíveis complicações diplomáticas. — Entendo... Mas — tornou a insistir Brigitte, — suponho que a CIA tenha repelido oferta tão monstruosa. Charles Pitzer permaneceu calado. Encarou fixamente Brigitte com um rosto inexpressivo, onde somente se viam brilhar dois olhos astutos. A espiã pestanejou, abriu a boca, tornou a fechá-la e seu rosto empalideceu visivelmente. — Então aceitaram... — murmurou. — Aceitaram tamanha monstruosidade! — Até algo em contrário, sim — sussurrou Pitzer. — Mas será que enlouqueceram? Tio Charlie, pelo amor de Deus, entende o que isto significa? — Não sei — grunhiu ele. — Como, não sabe? Não refletiu nem um pouquinho sobre isto? — Meu trabalho não consiste em pôr em dúvida as decisões de Washington. — Você... você está-se convertendo num robô, também, tio Charlie. Não entende como isto e estarrecedor? Convidam a CIA para uma festa e lá, possivelmente pagos por um serviçO de espionagem, que a esta altura já assinou contrato com ele, eliminam Vanio Roczac, um homem cujo único pecado foi escapar da Hungria. E aproveitam a oportunidade para fazer uma demonstração gratuita diante da CIA? E a CIA aceita contratar robôs para assassinar? — Não sou eu quem toma as decisões. — Mas eu sim! — disse quase gritando Brigitte, roxa de raiva. — Eu tomo as minhas decisões! E vou... — Você é uma agente da CIA. Sua missão é calar e obedecer. — Acredita nisso? — Brigitte pôs-se raivosamente de pé, apontando para a saída do quarto. — Pode ir tratando de dar o fora, tio Charlie! E peço que vá agora mesmo... Além do mais, enviará a seguinte mensagem à Central, em Washington: Esqueçam de mim para sempre. Assinado, “Baby”. Pitzer levantou-se, sombrio. — Pense bem no que vai fazer, Brigitte! — Pensar bem? Que entende você por “pensar bem”? Admitir, por um instante sequer, a possibilidade de usar robôs para assassinar? O senhor já imaginou o que ocorreria no mundo se aceitássemos tal coisa? — Você, sem ser um robô, já assassinou muitas pessoas. — Mas coloquei minha própria vida em jogo. Matei, mas estando disposta a morrer! — Qual é a diferença? — Arrisco algo que para mim vale muito, não é certo? Ou acha por acaso que não aprecio minha vida, que não tenho medo quando penso que vou morrer, que não relembro em momentos críticos os meus amigos, o meu lar, as douradas praias cheias de sol, a alegria de viver...? Está me confundindo, por acaso, com um robô? E mais: você sabe, melhor do que ninguém, que todas as pessoas que morreram em minhas mãos mereciam morrer. Pode acusarme de haver feito justiça com minhas próprias mãos, de ser muito pessoal nestes assuntos... pode me acusar de matar, não de assassinar pessoas que não mereciam a morte. — Estou de acordo com o que disse. Mas os robôs também irão matar somente aqueles que merecerem. — Tem certeza disto? — riu amargamente a espiã. — Por favor! Não seja tão estúpido! — Você já está passando dos limites, Brigitte — gritou Pitzer. — Não, senhor! Não estou passando de limite nenhum! Estúpido, mil vezes estúpido! Quer que eu prove? É muito simples: mande-me matar o Presidente dos Estados Unidos. Acredita que eu aceitaria? Acredita que ele merece a morte? Eu não o mataria, mas um robô, sim. Um robô receberia a ordem e, friamente, iria à Casa Branca e mataria o chefe da nação. E tudo isto porque alguém, seja lá quem for, pagou quinhentos mil dólares pelos serviços de um Alexandre de metal. Mas já não digo nem ao menos o Presidente dos Estados Unidos... Qualquer louco, qualquer fanático, poderia conseguir o que quisesse por quinhentos mil dólares. Poderiam ordenar a morte de fosse lá quem fosse. Do Papa Paulo VI, por exemplo. Também ele mereceria morrer, porque um louco assim o determinasse? Pitzer empalideceu. Pegou seu chapéu e encarou soturnamente Brigitte. — Eu obedeço ordens, e isto é tudo. A decisão de contratar robôs para eliminar inimigos não é coisa minha. — Já disse antes: você também se está transformando em robô. Tenha cuidado tio Charlie já sabe que eu não simpatizo com robôs. Em Buenos Aires, matei um homem como você2. Charles Pitzer empalideceu violentamente, ficou lívido como um cadáver. — Por acaso está me ameaçando... a mim, Brigitte? — murmurou. — Vá-se embora — a espiã deu-lhe as costas. — Eu somente me limito a cumprir ordens, a decisão não... — Está bem. Mas vá embora. Não quero mais falar com você... Nunca mais, a menos que esteja de acordo comigo e me ajude a pôr abaixo esta decisão da CIA. — Está ficando louca? — gritou Pitzer. — Será verdade que pensa enfrentar a CIA? Brigitte encarou-o. Seus lindíssimos olhos azuis, agora frios como gelo, pareceram cravar-se nos dele. — Eu sempre estarei contra quem não tiver razão, tio Charlie. A mim, pouco importa que este alguém seja da CIA, russo, chinês, ou você... Seja lá quem for que não estiver com a razão, terá que se haver comigo, na medida das minhas forças. Por isso sou espiã, por isso matei e continuarei matando... Agora, vá-se embora. E diga a meus queridos chefes de Washington que a agente “Baby” retirase da organização, a menos que eles desistam do propósito de contratar robôs para, matar. Em vez disto, deveriam estar me ajudando a localizar esses homens... e a destruí-los completamente. Não deixarei escapar nem um só robô, nem 2 Novela intitulada OS ESPIÕES NÃO EXISTEM um só desses que os manejam, ou que têm alguma coisa a ver com eles. — Pensa em prosseguir sozinha na tentativa de destruir essa organização de aluguel de robôs? Pensa em enfrentar a própria CIA? — Se a CIA insistir em alugar robôs, lutarei contra ela. Adeus, tio Charlie. Pitzer acenou com a cabeça e saiu do quarto. Segundos depois, ouviu-se fechar a porta do apartamento, suavemente. Peggy, que ficara paralisada diante da discussão, ornava estupefata para a espiã, que disse zangada: — O que é, Peggy? — Mas, miss Montfort... contra a CIA! — murmurou esta, em pânico. — Se está com medo de alguma coisa, pode ir embora. Não temo a solidão, Peggy. — Eu... eu... sempre estarei ao seu lado, aconteça... o que acontecer... — Perdoe-me — disse sorrindo novamente Brigitte. — Sinto muito, Peggy. — Não precisa desculpar-se comigo. — Por que não? Porque trabalha para mim? Isso não tem importância... Eu também trabalho... ou melhor, trabalhava para a CIA e acabo de abandoná-la. E se não está de acordo comigo tem todo o direito de abandonar-me. — A razão deve estar de seu lado, miss Montfort. Como sempre. Eu só sairei daqui se me mandar embora. — Bem... — disse quase rindo a espiã, já mais calma. — Espero que dentro de alguns anos... muitos anos, formaremos as duas um par de velhinhas resmungonas. Mas, até o momento, nós duas somos jovens e bonitas. Não é assim? — É assim — sorriu Peggy, aliviada. — Então, não vamos nos aborrecer com mala nada. Os desgostos prejudicam a, beleza. Oh! Seria terrível que surgissem rugas em nossa idade primaveril, você não acha? Peggy pôs-se a rir, se bem que nervosamente. Mas, na verdade, ter contato com a agente “Baby”, mesmo como patroa, provocava sempre momentos de alegria! — Vou para a cozinha... Ouviu-se, então, a campainha da porta. As duas se entreolharam. — Vá abrir. E tomara que sei a o tio Charlie, que se arrependeu e vem pedir desculpas de nossa conversa tempestuosa. SÉTIMO Segundo round A morte passa perto O assassinato de Nicanor Peggy saiu do quarto e Brigitte voltou a sentar-se no sofá, retomando a leitura interrompida. Sua Irritação diminuíra e agora somente permanecia na fria e firme determinação de persistir em sua atitude, gostassem ou não o tio Charlie e a CIA. Ouviu as batidas dos tacos dos sapatos de Peggy afastando-se e procurou abstrair-se na leitura, nem que fosse por alguns segundos, para acabar de acalmar-se. Tinha um grande domínio sobre si mesma e sabia que o conseguiria. Nem ouviu o barulho da porta ao abrir-se. Mas ouviu, sim, o grito bruscamente entrecortado de Peggy. E, logo após, o ruído da porta batendo. Pôs-se de pé num salto, saiu do quarto e ia chamar por Peggy, mas a tempo, calou-se e correu ao quarto de dormir. Abriu o armário, tirou da caixa sua pistolinha de cabo de madrepérola e voltou a toda a pressa para o salão de entrada, sem fazer o menor ruído. Estava já alcançando a porta do corredor, quando parou de chofre. Ouviu, então, passos meio lentos e pesados, e uni homem surgiu no umbral. Ficou ali, imóvel, com seus estranhos olhos fixos nela. — Bom-dia, miss Montfort — cumprimentou. Brigitte levantou o revólver e apontou-o para o peito do homem. Do homem? Aquilo seria um homem? Nem sequer havia movido os lábios ao falar. Seus olhos não tinham expressão alguma. Seu rosto era liso, firme, frio... Vestia-se corretamente, normalmente; trazia luvas... Estava impecável. E tinha um chapéu escuro na cabeça. Aquilo não era, o rosto de um homem, mas de um manequim, de expressão rígida, olhos vítreos. O cabelo podia convencer, mas não o rosto. Talvez na rua, se não chegassem perto, pudesse passar por um homem normal. Mas não ali em seu apartamento, com a luz do sol batendolhe em cheio, vindo da enorme janela. Era um manequim. Um robô. “Baby” Montfort empalideceu e baixou lentamente o revólver. — Uma atitude inteligente, agente “Baby” — disse o robô. — O que aconteceu com minha empregada? Está viva, não se preocupe. Só foi necessário dar-lhe um golpe, se bem que receie ter que matá-la também, para garantir o segredo. — E quanto a mim? — Lamento dizer-lhe que venho para matá-la — o robô deu um passo adiante. — Esta é justamente a ordem principal que meus circuitos receberam. — Ontem à noite Alexandre teve oportunidade de matarme e não o fez, O que foi que aconteceu para mudarem de idéia? — Os fatos se modificaram, naturalmente. Ontem à noite você não representava perigo algum para nós. Ao contrário, nos interessava muito viva, para informar a CIA a respeito do bom funcionamento e grande eficiência de Alexandre. Mas, sem nenhuma dúvida, agora você se constitui numa ameaça. Brigitte recuou um passo. — Numa ameaça? — murmurou. — Por quê? Segundo sei, vocês já chegaram a um entendimento com a CIA. E eu sou da CIA. — Um acordo preliminar, somente. Parece que aceitaram a nossa... colaboração, depois de discutirmos um certo número de pontos do máximo Interesse. Um destes pontos é justamente o sistema que a CIA terá que utilizar para entrar em contato conosco. O outro é que jamais tentarão localizar nossa base. Simplesmente, eles nos chamarão e nós apareceremos... Um enviado especial aparecerá, normalmente. Ou seja, um robô, senhorita Montfort. Está convencionado que a CIA dará instruções a este robô, a fim de que cheguem canvenientemente a ambas as partes. Se a CIA tentasse apoderar-se do robô, este explodiria e não serviria para mais nada. Creio que você compreendeu perfeitamente. Nós somente os alugamos. Não os vendemos. — Até agora não me disse por que eu represento um perigo para vocês. — Porque poderia localizar-nos. E mesmo correndo o risco de desgostar um pouco a CIA, teremos que eliminá-la, para evitar a localização de nossa base. — Está enganado — Brigitte retrocedeu mais um passo. — Como poderia eu localizá-los? Não tenho nenhuma pista... — Mas nos falaram com demasiado entusiasmo de você, Brigitte Montfort. A agente “Baby” é perigosíssima... Além do mais, a vimos atuar ontem à noite contra Alexandre, com o machado, com o revólver, com o carro... Parece ser verdade que você é uma mulher perigosa. — Se me matar, a CIA não vai gostar nada. — Somente um pouco — admitiu o robô. — Mas os nossos serviços substituirão amplamente os seus. Quando começarmos a trabalhar para a CIA, a agente “Baby” será então um elemento... obsoleto. Compreendeu? — Quem á você? Onde está? — Aqui, naturalmente — debochou o robô. — Não... sua voz é a mesma de ontem à noite... A voz de Alexandre. Você está escondido em algum lugar, dirigindo por controle remoto essa... geringonça que tenho diante de mim. Por detrás dos olhos do robô, estão câmaras de televisão... como as quatro que Alexandre tinha ontem à noite, uma de cada lado da cabeça... Então, pensava que havia um homem dentro, mas não... Tenho diante de mim um verdadeiro robô. — Muito aperfeiçoado, certamente — disse ele. — Você está percebendo tudo muito bem, Brigitte Montfort. — Este robô também tem quatro olhos? — Não, não... teria chamado atenção demais na rua. — É igual ao utilizado em Viena? Da boca do robô escapuliu uma exclamação de espanto: — Oh, você está de fato muito bem informada! — Nem tanto como desejaria, senhor... senhor... — Alexandre... simplesmente, Alexandre. Não lhe parece um belo nome para um robô? — Qualquer nome é bonito, Alexandre. Quero dizer... Sr. “Circuito Fechado de Televisão”. Você está me vendo perfeitamente, a distância. Diga-me uma coisa: como conseguiu localizar-me? E não me diga que ontem à noite puderam me reconhecer de alguma maneira. — Oh, não! Um amigo seu teve a amabilidade de nos informar devidamente. — Se fez isto, então não é meu amigo. — Pois ele insiste que sim. E muito. E atida mais... ele a ama profundamente. E, pelo que ouvimos ultimamente, você também o ama, até o ponto de, em várias ocasiões, têlo demonstrado de uma forma bastante real e completa. Você já me entendeu, não necessito falar mais claramente. — Quem é este homem? Você está mentindo. — Disse chamar-se Romeu, mas naturalmente, não diz a verdade. É alto, atlético, rosto bronzeado e viril, muito atraente. Tem mãos grandes, de nervos salientes, que parecem de um artista, mas são muito fortes. Cabelos cor de cobre, olhos muito negros. Nem um só detalhe para identificá-lo. Nem documentos, carteira de chofer, ou carta, ou uma chave ao menos. É um profissional perfeito de espionagem, pelo visto. Já conseguiu identificá-lo? — Não — mentiu Brigitte. — Sem dúvida que sim, pois ficou pálida... Estou convencido de que já sabe quem é o homem que temos prisioneiro. — Mentira. — Não acredita que o tenhamos prisioneiro? Por quê? — Porque ele jamais diria como me encontrar. Nunca, nunca! — Pois a denunciou. Claro que, para não enganá-la demais, direi que tivemos de recorrer a um novo tipo de “soro da verdade”. Pela violência não conseguimos nada. Acredita agora? — Vocês não seriam capazes de mantê-lo prisioneiro. Por isso, não pode ser a pessoa que penso. Deixe-me vê-lo e, se for ele, confirmarei. — Vê-lo? — riu o robô. — Impossível, miss Montfort. Para tanto, teria que ir à nossa base e isto, precisamente, é o que queremos evitar. Bem, creio que já conversamos bastante. Por favor, o que fez do ursinho? — O ursinho... — sussurrou Brigitte; e então sorriu. — Agora compreendo tudo. Ele me enviou uma pista. Disseme onde poderia encontrá-lo, por intermédio do ursinho. — Peço-lhe, por favor, que me entregue esse ursinho imediatamente. Não me obrigue a matá-la primeiro e depois destruir o apartamento. Vamos fazer as coisas com limpeza, miss Montfort. — Sim, tem razão. Vou buscá-lo no quarto. — Eu irei junto. — Não é necessário. — Miss Montfort, não tenho medo de seu revólver, mas sim de sua esperteza. Vou preveni-la claramente: no momento em que tentar algo que não me agrade, eu a matarei. Somente de sua conduta depende que façamos as coisas bem ou de um modo... brutal. — Suponho que devo agradecer-lhe — disse ironicamente a espiã. — E por que não? Afinal de contas, não é todo mundo que tem o privilégio de poder escolher a maneira de morrer. Acho-a bonita demais para morrer de uma maneira feia. Antiestética. — Um balaço é sempre antiestético. — Certamente. Prefere gás venenoso? — Não está mal. — Ao menos sua beleza permanecerá intacta. — É um detalhe muito delicado. Bem, vamos até o meu quarto — voltou a olhar ironicamente para o robô. — É uma pena que você não possa... bem, quero dizer, é uma pena que você não passe de um robô. Assim poderíamos... chegar a um acordo. — Talvez. Por favor. O ursinho de pelúcia. Entraram no quarto da espiã, o robô rente a ela. — Ai está, na cadeirinha — apontou Brigitte. O robô aproximou-se da cadeira e pegou o ursinho Nicanor, “Cícero” pôs-se a ladrar alegremente, como entendendo as intenções daquele desconhecido, de carregar o ursinho, o que segundo pensava faria restar somente ele no coração de sua ama. — “Eu te amo” — disse Nicanor, nos braços do robô. — Não é formidável? — exclamou Brigitte. Mas ao mesmo tempo levantou o revólver. O robô já havia dito que não temia o revólver, mas sim sua astúcia... e sabia muito bem o que estava dizendo. Apenas acabou de voltar-se de frente para ela, “Baby” apertou o gatilho de sua pequena automática, agradecendo mais do que nunca o maravilhoso dom natural que possuía: um pulso firmíssimo, uma pontaria infalível. E, com efeito, a bala acertou em cheio no olho direito do novo Alexandre, estilhaçando-o em mil pedaços de cristal. A resposta não se fez esperar: Alexandre levantou o braço direito e três balaços partiram de sua mão, queimando e perfurando a luva. Mas Brigitte já havia saltado até a porta do quarto, deslizando pelo chão encerado. As balas ricochetearam no parque brilhante e foram cravar-se na parede. Já no umbral da porta, a espiã voltouse, fez mira rápida no robô e decidiu não disparar, porque naquele momento o imperturbável Alexandre não estava a jeito para que ela. pudesse atirar-lhe no olho esquerdo. Arrastou-se para fora do quarto, pôs-se em pé e tratou de correr, com o robô caminhando pesadamente atrás dela e lançando jatos de chama, dos quais desviava-se agilmente. Conseguiu alcançar o vestíbulo, ágil e veloz como um pássaro. Tomou Peggy pela mão e levou-a de qualquer maneira para o interior do apartamento, de chão imaculadamente encerado. Sabia que podia carregar Peggy no ombro, sair correndo e, assim, escaparem ambas do robô. Mas isto não seria conveniente de maneira nenhuma. Um argumento convincente contra aquela possibilidade seria a presença de outros robôs, ou outros homens, no edifício, à sua espera. E esta seria uma situação muito perigosa. O outro motivo, fundamental para ela, que havia decidido cortar suas relações com a CIA, era recuperar o ursinho Nicanor de qualquer modo, pois era a única, pista que possuía. E o recuperaria, ainda que tivesse de lutar contra um robô invencível. Era o segundo round. Mas, antes de qualquer coisa, precisava deixar Peggy sã e salva. A coitada estava com a cabeça coberta de sangue e tinha o rosto muito pálido. Recebera uma pancada, mais nada... Mas se Alexandre a encontrasse agora, a mataria sem hesitação. Continuava a ouvir os pesados passos do robô e tratou de levar Peggy para a cozinha. Abriu a porta da despensa, colocou a moça ali e, antes de fechá-la, apertou um pequeno botão que estava rente ao solo com a ponta de sua exótica e elegante chinela. Ouviu-se um curto ruído elétrico e de um lado do batente da porta surgiu uma placa de aço, cuja grossura não devia ser menor a um quinto de polegada. Pelo menos uma vez estava prestando serviço aquele esconderijo que mandara fazer para emergências. Instalado após a desagradável experiência que tivera ao cortar o ultimo tentáculo de “Octopus”3. Esperou que a placa de aço fechasse por completo, apesar de ouvir cada vez mais próximas as passadas de Alexandre. Ao mesmo tempo, ouviu um chiado que identificou imediatamente: gás. Bem dúvida nenhuma, gás mortal. De olhos muito abertos, realmente assustada com o que parecia um desenlace fatal daquele encontro, ficou paralisada por um segundo, incapaz de reagir. 3 Novela O ÚLTIMO TENTÂCULO Mas logo reagiu. Trabalhando ou não para a CIA, ela continuava a ser a agente “Baby”. Precipitou-se para a janela mais próxima, que dava para Manhattan. Abriu-a e passou rapidamente para fora, estremecendo de frio. O primeiro dia de janeiro, em pleno inverno, não era o mais apropriado para passear de camisola pela cornija de um vigésimo sétimo andar. Uma rajada de ar gelado e úmido fez esvoaçar a curta camisola transparente e os cabelos negros da espiã mala valente do mundo, quando saltou para a plataforma da escada de incêndio. Estava de joelhos, quando viu de relance Alexandre entrando na cozinha. Rapidamente, escondeu-se a um lado da janela. Ouviu passadas que se aproximavam e pensou que teria que descer velozmente, com risco de cair. Um simples escorregão, fácil de ocorrer com aquelas pantufas tão bonitas, mas tão pouco práticas para fugir, significava uma espantosa morte vinte e sete andares abaixo. Pela janela saiu um forte cheiro de gás, mau Alexandre havia parado. Brigitte procurou tapar o rosto de qualquer jeito, levantando a camisola. Esperava que nenhum vizinho tivesse a idéia de olhar para ali naquele momento, pois teria uma grande surpresa e, com toda a certeza, interferiria, levando em conta a situação da linda vizinha, miss Montfort. Sentiu-se tonta com o gás e compreendeu que, se não escapasse logo dali, morreria ou do gás ou da queda causada pela tontura. Mas, estranhando a passividade de Alexandre, arriscou uma olhada rápida pela janela, até o Interior da cozinha. O monstro artificial estava parado diante da porta de aço, e de sua mão brotava um fino jato de fogo, azulado, dirigido contra a, placa. Brigitte afastou-se imediatamente do gás que saía da janela, e, mesmo tonta, conseguiu entender o que fazia o robô. Havia visto a janela aberta, mas levando em consideração sua esperteza, chegou à conclusão que não havia escapado por ali, arriscando a vida, mas que abrira, a janela para enganá-lo, escondendo-se em seguida por detrás da placa de aço... que ele agora estava perfurando, lentamente. Bem... Não encontraria ali a agente “Baby”, mas sim sua fiel empregada, a pobre Peggy. E o monstro ainda tinha um olho. Se ela entrasse, seria vista e, então... Os olhos azuis da espiã contemplaram a larga cornija que rodeava o edifício. Podia escolher o caminho da escada de Incêndio, descer até o outro apartamento e tornar a subir... com a pistola na mão, de camisola, sendo obrigada a dar explicações e deixando que o robô fosse visto por outras pessoas. Se fizesse isto, miss Montfort, a simpática jornalista do vigésimo sétimo andar, ganharia uma nova dimensão para os vizinhos do “Cristal Building”. Haveria comentários, falatórios... E a polícia... Era ou não era uma agente secreta? Pois, então, não restava mais que o caminho da cornija. Grudou-se a ela, de costas, olhando para a frente. Não queria, nem devia, olhar para baixo. O ar agitava seus cabelos, suas roupas leves... O frio parecia materializado em milhões de agulhas que se cravavam em sua carne. E se por acaso soprasse uma rajada mais forte? Seria arrancada da cornija? Mas agora já estava deslizando por ela, de lado, lentamente. Deixara as pantufas na escada de Incêndio e seus pés sentiam o frio intenso do cimento, sua aspereza. Levou quinze segundos para alcançar a outra janela do apartamento. Quinze segundos... ou quinze séculos? Sem vacilar nem mais um segundo, quebrou o vidro com a pistola, de maneira que sua mão e parte do braço penetraram pelo buraco na janela no quarto de Peggy. Cortou-se em alguns pontos do braço, mas nem ligou para os pequenos filetes de sangue que escorriam. Tratou de enfiar o braço e conseguiu abrir a janela, saltando para dentro do apartamento. Deixou o quarto de Peggy, cautelosamente. De imediato notou o intenso cheiro de gás e fechou a porta. Arrancou um lençol da cama de Peggy e dobrou-o várias vezes. Encheu ao máximo os pulmões de ar e tapou a boca, o nariz e os ouvidos. Saiu disparada do quarto, até o corredor, alcançando o pequeno salão e logo chegando ao quarto de dormir. “Cícero” estava inerte a um canto. Ao que parecia, o gás, se bem que com menor intensidade, havia chegado até ali. Mas não podia perder tempo com o cãozinho “Chihuahua”, mesmo a contragosto. Abriu o armário, levantou o fundo falso e tirou uma máscara contra gases. Foi até a janela, escancarou-a e colocou a máscara rapidamente. Depois, já sem perigo de vida no momento, pegou “Cícero” e pôs a mão sobre seu coraçãozinho... que ainda batia fracamente. Levou-o até a janela e deixou-o ali, para que recebesse ar fresco. Depois abandonou o quarto, fechando a porta, evitando a entrada de gás. E, protegida pela máscara, dirigiu-se para a cozinha, sem vacilar. Não haviam passado ainda quinze minutos desde que Peggy demonstrara sua lealdade Irredutível. E isto, evidentemente, merecia uma plena correspondência da parte dela, agente “Baby”. Quando chegou à cozinha, com a pistola preparada, o robô ainda estava utilizando o jato de fogo contra a placa de aço, um objeto assustador e imóvel. — Alexandre. O fogo deixou de brotar da mão esquerda do robô, que se voltou para a porta da cozinha. Plop. O outro olho saltou também em estilhaços pequenos de vidro. Conseguira cegar seu inimigo! O robô disparou várias vezes, mas a agente “Baby” já havia sumido da porta da cozinha. E quando o robô, tropeçando em tudo, surgiu no umbral, “Baby” chamou-o docemente: — Alexandre, querido... O robô girou na direção da voz e tomou a disparar. Mas com certeza estava cego, rebentadas que tinham sido pelos balaços certeiros as objetivas de suas câmaras de televisão... — Alexandre... Voltou-se novamente o robô, disparando várias vezes. Parecia furioso e também seu braço esquerdo entrou em funcionamento, lançando chamas enormes que abrasavam o papel das paredes. — Estou aqui, robô. A cadeira chocou-se contra as costas do robô, que cambaleou levemente. Voltou-se e, sempre às cegas, encaminhou-se outra vez para a cozinha, guiado unicamente pela voz de Brigitte, pelos dois disparos que esta dera em seu peito, mesmo sabendo que eram inúteis. E, já na cozinha, a espiã o chamou, junto da janela, O robô cego adiantou-se, imperturbável. Isto demonstrava que quem o manejava dispunha de um perfeito domínio acústico e ainda se utilizava dele. Queria eliminar a agente “Baby” a qualquer custo. Esta, depois de atraí-lo em direção à janela, esgueirou-se silenciosamente pelo lado, em sentido contrário, rumo à porta da cozinha, enquanto o robô encaminhava-se inabalável para a janela. Chegando ali, tropeçou no peitoril. Cambaleou por instantes, estremecendo-se todo... e recebeu pelas costas um violento empurrão dado pela espiã. Uma chama azulada percorreu todo o corpo de Alexandre, mas Brigitte já havia afastado as mãos... e o corpo invulnerável caía para a frente, em direção à escada de incêndio, num movimento inevitável. A parte superior do robô pesava mais do que a inferior e suas pernas, ao baterem contra o peitoril, fizeram com que o tronco pendesse para fora. Seus pés resvalaram, ergueram-se do solo... e o robô, incendiado de azul, caiu na plataforma metálica, provocando uma vivida luz, que relampejou acima e abaixo pelas paredes do “Cristal Building”. Instantaneamente tudo terminara. O robô pareceu saltar como uma rã, chamuscado, enegrecido e, num arranco, tombou da plataforma para o vazio... da altura de vinte e sete andares. Mas não chegou a alcançar o solo, pois se desintegrou violentamente no ar, espalhando fragmentos metálicos contra as janelas e as paredes do prédio. Brigitte tirou a máscara de gás e apoiou-se no peitoril, resfolegando, exausta. Ouviram-se vozes, exclamações. Retirou-se imediatamente dali, escondendo-se. Haveria investigações, perguntas aos vizinhos. Pois muito bem. Ela não sabia de nada. Como todos os moradores do “Cristal Building”, havia notado o relâmpago azul, ouvira uma explosão... e isto seria tudo. Trataria de disfarçar alguns pontos do apartamento. Apertou o botão da porta da despensa, e a placa de aço abriu-se lentamente. Tirou dali Peggy, que continuava inconsciente, e levou-a de rastos para o banheiro. Quando chegou ali, “Cícero”, cambaleando e ganindo baixinho, apareceu no corredor. *** — Calma, Peggy — disse-lhe sorrindo Brigitte. — Já está bem. Peggy acordou e sentou-se no sofá. Levou as mãos à cabeça, tocando as ataduras de gaze; uma dor aguda naquela região fez com que retirasse rapidamente as mãos. — Miss Montfort... — Já está tudo bem, Peggy. — Um homem... era um homem horrível... (...) [Brigitte corre para o ursinho e com uma faca começa a abri-lo]4. (C) 1967/1968 – LOU CARRIGAN 400617/401003 4 Na publicação digitalizada faltam as últimas páginas.