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MARÇO *
TEMA: Literatura e leitura
A livraria, esta desconhecida
Por Jayme Canashiro Augusto
De acordo com dados da Associação Nacional de Livrarias (ANL), o Brasil tem hoje 1.600 livrarias e
2.500 pontos de venda (espaços em faculdades, bancas de jornal, lojas de livros específicos e outros),
locais responsáveis pela venda de 255.830.000 livros em 2003. Leitores, estes são inúmeros e de vários
tipos.
O público das grandes livrarias quase segue um padrão: certa homogeneidade de gostos, refletindo a
lista dos ‘‘mais vendidos’’ da revista Veja. As diferenças estão relacionadas principalmente com a
localização, refletindo influências do meio em que se inserem: a Saraiva da Rua Augusta tem, além de
literatura geral, grande procura por livros infanto-juvenis (grande número de famílias com crianças),
de culinária (comprados por chefs de cozinha de vários restaurantes da região) e jurídicos (grande
número de escritórios no bairro), algo diferente da loja da Rua Maria Antonia, com grande demanda
de livros universitários. A Nobel do Shopping Frei Caneca tem a companhia do Unibanco Arteplex e
funciona como um termômetro dos filmes nas noites de sábado: uma multidão lota o local nos 30
minutos que antecedem a sessão de um filme concorrido, e o abandona quase que por completo na
hora da sessão.
As unidades da Siciliano não fogem à regra dos mais vendidos, mas há peculiaridades, como declara o
encarregado de compras Marcos S., da unidade do Shopping Higienópolis: ‘‘Aqui, como no Shopping
Iguatemi e na loja 24 horas da Avenida Cidade Jardim, que são locais de classe social A e B, quem
compra mais livros são as mulheres, e quem gasta mais são os homens; as mulheres compram muitos
títulos de auto-ajuda, literatura de vida útil curta, o que não ocorre com os homens, que compram
títulos que resistem ao tempo, e são mais caros. É diferente da loja do Shopping Santa Cruz, onde
homens e mulheres procuram pelos mesmos títulos das listas dos mais vendidos’’.
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Como parte das oficinas, os selecionados Rumos Jornalismo Cultural desenvolveram, periodicamente,
reportagens ligadas por um eixo temático comum a todos os participantes.
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Na Livraria Cultura o público é formado prioritariamente por universitários e profissionais, que
compram por necessidade profissional e lazer. A proximidade com o principal eixo financeiro da
cidade (a Avenida Paulista) impulsiona a venda de livros técnicos. Já a Martins Fontes, na mesma
Avenida Paulista, tem um público cativo leitor de ciências humanas, que prioriza o estudo (do ensino
fundamental à pós-graduação).
As pequenas livrarias nem são tão pequenas, se considerarmos seus catálogos ou o volume de vendas
(algumas chegam a vender 10 mil livros por mês), mas têm características quase artesanais: ambientes
menores, mais silenciosos e acolhedores, quase lembrando a casa dos nossos avós. A Gaudí fica na Rua
Augusta, é especializada em livros de arte e arquitetura, apesar de vender literatura geral. O dono,
Fernando Sagarra, fala da transformação do público: ‘‘A loja vende livros impulsionados pela mídia e
‘livros-ferramentas’, ou seja, livros técnicos que visam ensinar um conhecimento específico para uso
profissional. A intenção é mais aprimoramento profissional que prazer cultural, principalmente com
leitores jovens’’. Do mesmo modo, o gerente Antonio S., da Livraria Unesp, na Alameda Santos, mostra
preocupação: ‘‘O aluno só vai comprar o livro se o professor mandar’’. Prazer de ler? ‘‘Nem se constitui
um público --- só há poucos clientes que compram livros porque gostam de ler’’, lamenta.
O movimento da Livraria Vozes, na Rua Haddock Lobo, é mantido pela lista da revista Veja, somada a
vendas de gêneros específicos (pedagogia e psicologia, principalmente), além de livros de vendagem
regular durante o ano: auto-ajuda e saúde alternativa. Menos de 20% dos títulos vendidos são
religiosos, apesar da ligação com a Editora Vozes (que atualmente tem 30% de títulos católicos, sendo
o restante de ciências humanas). Curiosamente, as revistas influenciam o mercado: matérias sobre
Cristo no final do ano aumentam as vendas de livros com assuntos correlatos (Santo Sudário, Graal),
‘‘algo repetitivo e tedioso’’, segundo o gerente, Dorival C. Vendem-se também títulos de outras
religiões --- levando-se em conta que se trata de literatura religiosa, não doutrinária.
A Livraria Belas Artes, na Avenida Paulista, tem um público fiel, que ‘‘compra por necessidade escolar,
mas vem atrás de novas traduções (como novas edições de Dostoiévski direto do original russo);
compra O Código da Vinci, mas leva Borges também’’, relata a gerente, Vanessa M. A Livraria da Vila,
um espaço acolhedor (com áreas de leitura em todas as seções, árvores, vendedores atenciosos), tem
um público exigente, segundo o dono, Samuel Seibel: ‘‘Público A/B, leitor, que valoriza o espaço de
uma livraria e gosta de vendedores leitores’’. Localizada em um outrora tranqüilo quarteirão na Rua
Fradique Coutinho, em Pinheiros, sua fama crescente se reflete no movimento da rua: há cinco anos,
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podia-se estacionar nos arredores sem demora; hoje os congestionamentos são ininterruptos no
quarteirão da livraria.
O atendimento diferenciado justifica a boa fama das pequenas livrarias: o cliente chega e lê à vontade,
por horas a fio, ninguém fica atrás esperando que ele pague o livro e vá embora. Que o diga o
advogado Mauricio Moraes, 37 anos, cliente assíduo da Belas Artes. Quase religiosamente nos fins de
tarde ele sai de seu escritório, vai à livraria, pega algum livro e se senta em um dos banquinhos
espalhados no corredor. Os últimos dias têm sido ocupados pela leitura de O Julgamento de Sócrates,
do jornalista I. F. Stone. Faltando cerca de 50 páginas, ele comprou o livro. Recebido com um sorriso
pela gerente, Vanessa, que disse: ‘‘Pensei que o senhor tivesse terminado’’, respondeu: ‘‘Deixei pra ler
o final em casa’’. E arrematou: ‘‘Não se preocupe, já estou namorando mais uns dois livros. Amanhã eu
volto!’’.
Apêndice: apesar dos insistentes telefonemas, e-mails e pedidos pessoais, a Livraria Fnac (na pessoa
da assessora de imprensa, Soraya Luccato) e a livraria do Espaço Unibanco de Cinema (na pessoa do
dono, senhor Ronaldo) não quiseram se manifestar.
ABRIL
TEMA: Sincretismo
Espaço multicolorido
Por Jayme Canashiro Augusto
Manhã de sexta-feira. Estudantes de várias regiões de São Paulo chegam em grupos com seus
professores, recepcionados pelos monitores do Museu Afro Brasil. Crianças e adolescentes, de todas as
ascendências possíveis, todos com um olhar curioso. Uma das garotas é Talita (nome fictício), 13 anos,
na 7ª série do ensino fundamental. Cabelos compridos encaracolados, pele cor de café-com-leite
(segundo ela mesma), olha desconfiada para os cocares da entrada, dizendo: ‘‘Não é um museu do
negro? Por que tem índio aqui?’’. ‘‘É um museu da cultura negra e das culturas que ajudaram a formar
a sociedade atual’’, responde o monitor.
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O Museu Afro Brasil foi inaugurado em outubro de 2004 e conta com um acervo de 1.100 obras
cedidas em comodato pelo diretor, o artista plástico Emanoel Araújo,ex-diretor da Pinacoteca e exsecretário de Cultura de São Paulo. A proposta do museu é revisitar a história do Brasil e a formação da
nossa sociedade e cultura a partir do olhar e da experiência do negro.
Talita não tem uma idéia clara da importância da cultura negra: ‘‘Eu sei que eles vieram como escravos
e trouxeram religiões, como o candomblé, e músicas e comidas’’. O tom de voz monocórdio dá a
impressão de que a aula foi mal decorada.
A diáspora africana e a escravidão trouxeram elementos culturais que permaneceram e se integraram
às culturas indígena e européia, produzindo novos significados. O museu tem como objetivo fazer
reconhecer traços dessas culturas negras (africanas ou afro-brasileiras) no processo de formação da
identidade nacional, afastando uma visão preconcebida que rotula esses traços como folclore, e
evidenciar toda a carga de preconceito, discriminação e desigualdade social que permanece como
herança da escravidão.
A monitora Liliane Braga, jornalista e mestranda em psicologia social pela PUC/SP, fala sobre essas
questões: ‘‘Muita gente chega ao museu, e eu tenho o cuidado de perguntar quem é descendente de
negros. Pouca gente se manifesta, e muitos com traços visíveis. Aí começo a perguntar: e essa pele
escura, de onde veio, e esse cabelo enrolado, aí alguns começam a lembrar que têm um avô ou
parente distante negro’’. Talita diz que seu avô paterno era negro, mas ela não o conheceu. Pergunto
se ela é negra, ouço uma resposta quase envergonhada: ‘‘Ah, eu sou, né?’’ Segundo o IBGE, 33% da
população da região metropolitana da Grande São Paulo tem ascendência negra (considerados
aqueles que se declaram pretos ao classificar sua cor, e aqueles que o censo qualifica como pardos).
Talita olha para uma escultura, intrigada: uma carroça com muitos adornos e uma figura humana em
destaque --- um caboclo. ‘‘Por que tem um caipira nesta obra? O que isso está fazendo aqui?’’. O
monitor fala da cultura iorubá, que busca a assimilação de elementos de outras culturas do país que a
adotou; isso explica a figura do caboclo representando a fusão das características do negro com as do
índio, habitante original do Brasil. Os olhos de Talita se iluminam, como que vendo sentido naquela
peça e no contexto todo.
Quase uma hora depois, Talita parece mais interessada nas obras do que quando da sua chegada ao
museu. Pergunto o que ela aprendeu: ‘‘Um monte de coisas! Na África tinha muitas tribos, as pessoas
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se misturaram, e trouxeram religiões e costumes, e na Bahia o candomblé associa santos da igreja com
seus deuses (divindades, corrige o monitor), e é muito legal!’’. Torno a perguntar se ela é negra: ‘‘É
claro!’’, com um belo sorriso.
‘‘E isso é só o começo’’, diz a monitora Liliane. ‘‘Além das visitas monitoradas, teremos novas
atividades: um coral de música negra, um espaço de difusão audiovisual com biblioteca, filmes,
documentos sobre a cultura negra, e outras coisas em estudo. Será um belo espaço!’’
JUNHO
TEMA: Identidade
Hai, watashi tati wa banana arimasu*
* Yes, nós temos bananas
Por Jayme Canashiro Augusto
Claudinei Souza Nascimento tem 22 anos, é eletricista, nasceu na Bahia e veio para São Paulo com 2
anos. Estudou língua japonesa e acaba de se tornar monitor voluntário do Museu Histórico da
Imigração Japonesa. Seus amigos perguntam: ‘‘O que esse baiano faz no meio da japonesada?’’.
Claudinei é um gaijin (não japonês) que gosta de anime (seriados) e carros Mitsubishi e Honda desde a
infância. Freqüentava encontros de fãs de anime, lia mangás (histórias em quadrinhos) com anúncios
de música japonesa, comprou o primeiro CD e passou a freqüentar o bairro da Liberdade. Começou a
perceber que tudo o que gostava vinha do Japão.
A imigração teve início em 1908, com 781 japoneses que chegaram para trabalhar nas lavouras de
café. Hoje são 1,5 milhão de descendentes espalhados pelo país (70% em São Paulo), muitos reunidos
em associações que promovem cursos e preservam hábitos e tradições. Estão catalogadas em São
Paulo 420 escolas de idioma, culinária, artes (karaokê, ikebana, origami, cerimônia do chá, entre
outras), além de 307 grupos de artes marciais e outros esportes praticados pelos japoneses (tênis de
mesa e beisebol). O curso de história da imigração foi freqüentado por 21 nikkeijins (pessoas de
ascendência japonesa), além de Claudinei e mais quatro ocidentais. O que essas pessoas faziam lá?
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Valderson Cuiabano Silvério de Souza tem 54 anos, é arquiteto, tem ascendência espanhola e
portuguesa. Mestrando em cultura japonesa pela USP e professor de ikebana, ele tem uma opinião: ‘‘O
ocidental procura a cultura japonesa por amor (uma namorada nikkeyjin que freqüenta cursos e
mostra o que está estudando) ou por trabalho (brasileiros que trabalham em empresas japonesas e
precisam receber um executivo, levam para comer sushi e cantar nos karaokês, e acabam gostando). O
jovem tem outros estímulos como o mangá e o anime’’.
O próprio Valderson fala de sua influência: ‘‘Eu tive amizade com japoneses desde a infância, fazia aula
de judô, comia pastel na feira, assistia a National Kid (anime que os trintões vão lembrar), fui
‘bombardeado’ desde muito cedo’’. Aluno do curso de cerimônia do chá da Casa de Cultura Japonesa
da USP, estima em 10% a freqüência de gaijins no curso.
O advogado João Carlos Jucio tem 42 anos e ascendência italiana de pai e mãe. É sócio da Fundação
Japão e da Associação de Beneficência Nipo-Brasileira. Estuda a escrita japonesa há vários anos, é
casado com uma nikkeyjin e acha que tem jeito japonês desde a infância: ‘‘Eu assistia a National Kid, era
organizado, diferente dos outros meninos; eu tenho até uma foto de infância com olho puxado!’’.
Come qualquer comida com hashi (os ‘‘pauzinhos’’), da lasanha à feijoada, e se considera um ‘‘ítalobrasileiro de alma japonesa’’.
Razões profissionais levaram a jornalista Sônia Martinez, 40 anos, a mergulhar na história da ligação
Brasil-Japão. De ascendência negra e espanhola, Sônia casou-se com um nikkeyjin e viajou para
trabalhar durante seis anos como dekassegui (o termo define o migrante que faz o ‘‘caminho de volta’’
ao Oriente, mas está também associado aos gaijins casados com nikkeyjins). Hoje divide a vida em
‘‘antes’’ e ‘‘depois’’ do Japão: ‘‘Eu não tinha amigos japoneses, não tinha muito interesse no Japão; lá
eu incorporei outros valores e pontos de vista, o contato com os nikkeyjins e outros estrangeiros foi
enriquecedor, comecei a me interessar pelo país depois disso’’.
Sônia trabalha em um jornal voltado para a comunidade brasileira no Japão e fez o curso do museu
para aprender como começou a ligação entre os dois países: ‘‘Vivi um pouco dessa história nos anos 90
e queria saber o que houve antes’’. Tem três filhos, que estão aprendendo as primeiras palavras em
japonês, palavras esclarecedoras: ‘‘Às vezes quero dizer algo, não acho um termo adequado e uso
alguma palavra japonesa, o sentido fica mais evidente’’. Misturando palavras, idéias, conceitos,
hábitos, o sol nascente dos olhos puxados fica cada vez mais próximo dos olhos redondos.
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JULHO/AGOSTO/SETEMBRO
Cobertura do Festival Cultura da Nova Música Popular Brasileira
Festival Cultura: a segunda semifinal e as escolhas que não agradaram
Por Jayme Canashiro Augusto
Perplexidade. Estampada no rosto dos espectadores parados nos corredores do teatro do Sesc
Pinheiros ao final da segunda semifinal do Festival Cultura --- A Nova Música do Brasil. Um grito ecoava
no auditório quase vazio, tomado apenas pelos funcionários que guardavam os equipamentos: ‘‘É por
isso que esta emissora só dá traço! Marmelada!’’.
O auditório estava lotado para conhecer as seis músicas que se juntariam às classificadas na semifinal
da última semana. Grupos torciam com faixas e cores que os identificavam: camisetas cor de laranja
torcendo por ‘‘Classe Média’’, amarelas a favor de ‘‘Amanhã de Depois de Amanhã’’. O grupo a favor de
‘‘Mãe Canô’’ usava chapéus multicoloridos e cantava o refrão da música a cada pausa dos
apresentadores.
O empenho da produção era notado nos intervalos entre as músicas: funcionários desmontavam o
cenário da apresentação anterior e montavam o cenário seguinte em poucos minutos, o apresentador
Rodrigo Rodrigues se concentrava com a equipe, esperando a próxima intervenção.
Os intérpretes marcaram a noite: intimistas como Ana Luíza, contagiantes como Ito Moreno e Roberta
Sá, ou espalhafatosos como Edu Franco. Alguns momentos marcantes: a apresentação de
‘‘Cassorotiba’’, vaiada quando anunciada, teve muitos aplausos no final abafando algumas vaias
resistentes; ‘‘Seresteiro a Perigo’’, ajudada por efeitos de luzes e pela interpretação afetada, rendeu
aplausos e risadas; ‘‘Classe Média’’ foi aplaudida de pé.
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Jurados e comentaristas ficaram no camarote no andar de cima e só eram notados quando a
apresentadora, Cuca Lazzaroto, se referia a eles. Não passaram despercebidos, como mostrou a reação
da platéia no final.
Antes da revelação dos classificados, o Cordel do Fogo Encantado apresentou um show de ritmo
intenso, e algumas pessoas levantaram para dançar nas laterais do auditório. A própria Cuca anunciou
as músicas classificadas e se declarou surpresa: ‘‘Amanhã de Depois de Amanhã’’, ‘‘Girando na Renda’’,
‘‘Haicai Baião’’, ‘‘Maracatu, Samba e Baião’’, ‘‘Seresteiro a Perigo’’ e ‘‘Cassorotiba’’.
Reação imediata da platéia: vaias e gritos de ‘‘marmelada!’’. Alheio à revolta, e feliz com a classificação
de ‘‘Maracatu, Samba e Baião’’, Ito Moreno falou: ‘‘A expectativa era grande, eu tinha o objetivo de
chegar à final pela oportunidade de mostrar o trabalho, já que estou fora da grande mídia’’.
Apesar da discórdia, várias vozes defendem a importância do festival. Segundo o músico Zé Rodrix:
‘‘Isto tem de ampliar, ter cada vez mais festivais! Os ritmos que mais vendem no Brasil --- sertanejo e rap
--- não estão representados. Tem muita coisa boa que só aparece aqui, precisa ser mostrada!’’. Rodrigo
Rodrigues disse: ‘‘O mérito é o festival existir. Pode haver muitas críticas --- a sonoridade antiga, as
pessoas que já participaram de outros festivais ---, mas o formato pode melhorar, o critério de seleção
pode mudar, e é importante que o festival se mantenha’’. Na saída, pessoas reclamavam: ‘‘Vou vender
meu ingresso da final, nem vale a pena vir’’. Ânimos serenados, vale a pena, sim, vir e escolher uma das
12 finalistas e torcer.
OUTUBRO
TEMA: Novos meios
Pixels, câmera, ação!
Por Jayme Canashiro Augusto
No início era uma sala escura, e fez-se a luz de uma lâmpada que projetava as imagens dos fotogramas
na tela. Aí, o computador entrou na história: o sistema de projeção digital abre mão da película e usa
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um arquivo com o filme, que é armazenado em discos rígidos ou enviado por internet ou satélite e
projetado por um sistema semelhante ao dos home theaters.
A utilização de um meio digital para a projeção das imagens traz vantagens: o fim dos arranhões,
manchas e poeira depositada sobre a película, resultantes do desgaste natural do filme durante a
projeção; a viabilidade da exibição simultânea de um mesmo filme, tanto nas metrópoles como nas
pequenas cidades do interior; a eliminação dos custos de produção e transporte das cópias às salas de
cinema.
Economia, a maior vantagem: uma cópia em película custa R$ 3 mil; um lançamento com 100 cópias
precisa de R$ 300 mil, sem contar o transporte. O custo de um filme projetado digitalmente é de R$ 6
mil (sem limite de salas, basta ter o projetor). ‘‘Um custo altíssimo, só grandes distribuidoras podem
bancar’’, afirma Fábio Lima, diretor da Rain Network, empresa que implanta o sistema de projeção
digital nas salas brasileiras. Segundo Lima, a redução dos custos de construção das salas digitais (40%
menos que as convencionais) e da logística de distribuição (um longa-metragem em arquivo digital
ocupa cinco discos, contra seis latas de película, e o projetor digital é do tamanho de um computador
pessoal) acabará com as distâncias e dificuldades de gerenciamento: ‘‘Poderemos abrir muitas salas
menores, em cidades distantes, e controlar tudo de um só lugar’’.
A projeção digital é uma esperança para o barateamento das produções cinematográficas brasileiras e
para sua melhor distribuição nos cinemas. Algo que agrada a produtores e distribuidores. Mas, e o
público, como fica?
O espectador comum não notará muitas diferenças em um filme com formato digital, mas elas
existem: legendas menores e mais nítidas, imagem e som livres de sujeira e ruídos. Apesar da nitidez, a
imagem digital perde qualidade fotográfica, como explica Ibsen Batista da Silva, o cinéfilo gerente do
Top Cine, de São Paulo: ‘‘No digital o fundo da imagem fica menos nítido, o preto é diferente também.
Tem praticidade, mas não se compara à película’’. Um dos primeiros cinemas em São Paulo a adotar a
projeção digital, o Top Cine viu o sistema aprovado por 20% de seus espectadores.
E quem trabalha com a mão na massa? A Rain Network assegura que o projecionista é necessário para
ajustar a imagem e corrigir qualquer problema na hora da exibição. Genivaldo dos Santos,
projecionista do Top Cine, está pessimista: ‘‘A profissão vai virar coisa de museu. Só alguns cinemas
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antigos vão continuar com operadores’’. Apesar disso, ele aprova o sistema: ‘‘Vejo se o filme está
carregado no computador e aperto o play. É mais fácil’’.
Da captação à distribuição das imagens, a tecnologia digital é irreversível: o suporte cinematográfico
deixa de ser constituído de química e calor para ser frio e binário. Que as pipocas não se tornem
virtuais.
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A livraria, esta desconhecida