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Maputo | Ano II | Nº 54 | Março de 2013
Homenagem ao poeta Lêdo Ivo (1924-2012)
“
Não é possível
ser-se um bom
escritor sem se
ter sido antes um
bom leitor
Victor Eustáquio | Portugal
”
A formação do leitor e o
texto literário africano
Elisángela Rocha | Brasil
Outros temas
Poesia | Pág. 14 - 15
Crónicas | Pág. 16
A amante do
próprio marido
Homenagem ao
poeta Lêdo Ivo
Por Dany Wambire
Por Ricardo Riso
Quem é Sérgio
Muambo?
Inspiração
Por Helga Languana
Por David Bamo
Ensaio | Pág. 19 & 20
Personagem | Pág. 04
Macau:
Obra de
Raffael
Inguane:
Alberto
Estima
Oliveira
Carta para
uma Cabocla
Por Lucílio Manjate
Ensaio Fotográfico | Pág. 18-19
Os índios Canindés do Ceará
Editorial
Dizes-me, poeta, que fazes? - Eu celebro,
É
com este celebre pensamento de Rainer Maria Rilke, que iniciamos a nossa travessia na neve que cobre este mês, nada mais que a
celebração da poesia, como a mais condensada voz a jorrar nos tímpanos do tempo. Nada mais que assistirmos o derreter da neve
na máquina das palavras que a poesia inventa na (im)possibilidade poderosa e mágica da linguagem.
Nos tempos que correm, onde encontramo-nos atrelados, nós modestos leitores, em vulgares caravanas a caminharem em frente dos bois,
que constantemente mostram-nos uma outra realidade diferente daquela inicial.
Assim sendo toda nossa cadeia de valores sobre a poesia e o seu papel, sofre uma banalização estética e ética, refiro-me a elitização de
um grupo de autores e ao materialismo barato dos livros que circulam no chão dos nossos olhos atentos, isto é, passa-se a ver mais poses
de currículos, e pouca literatura. A força somos convidados a assistir o nascimento de um novo livro, de versos baratos bordados por uma
ausência de referencialidades, por um exercício artístico fácil, à esfera do senso comum e estilisticamente fraco. Todavia estes “poetas” de
partos a cesariana dispõem de um poder inalcançável, desde as editoras, os bancos, as telefonias móveis, a corja política, os críticos, e
outros grandes esquemas de poder. A maioria destes os prefácios falam mais que as próprias obras, e no binómio autor-texto, exalta-se o
nome do autor, e o texto oferece-nos silêncios intermináveis.
Caros leitores, permitam-me retomar a dois pequenos comentários, mas muito significativos de dois professores, e ensaístas, o primeiro do
moçambicano Lucílio Manjate, e o segundo do brasileiro Marcos Pasche:
1º- “A alguns de nós, versos como estes, certamente, trazem à memória os tempos em que decorávamos letras de músicas românticas ou
rabiscávamos versos encantados para depois, cheios de timidez, dize-los à pessoa amada.”
(…)
Aqui está o ponto: como conciliar o que desejamos, o que sonhamos, as nossas utopias, enfim, o que amamos, com a realidade que nos
envolve?
2º - Pois, “parece (que os poetas menores) apostam todas as suas fichas no exercício desestetizador, impregnando o livro de meras fagulhas do pensamento, de acordo com as quais se poderia supor que qualquer idéia, só por transcrita em verso, constitui um poema.”
Eis a sinopse do meu dilema levantada por estes dois pensadores, sobre as recentes publicações de livros de poesia seja de poetas consagrados e iniciantes, em jeito de fecho deixo-vos com a resposta, da pergunta que fiz a um poeta menor:
Dizes-me, poeta, que fazes? – Eu desfilo, e apetrecho o meu currículo adicionando a carreira de publicador de livros.
Boa leitura
Ficha técnica
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Brasil:
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CHEFE DA REDACÇÃO
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CONSELHO EDITORIAL
Eduardo Quive | Amosse Mucavele | Jorge
Muianga| Japone Arijuane | Mauro Brito.
REPRESENTANTES PROVINCIAS
Dany Wambire - Sofala
Lino Sousa Mucuruza - Niassa
Jessemuce Cacinda - Nampula
REVISÃO LINGUÍSTICA
Jorge Muianga
Portugal:
Victor Eustáquio
Angola:
Lopito Feijóo
Cabo Verde:
Filinto Elísio
COLABORAM NESTA
EDIÇÃO:
Angola
Frederico Ningi, David Capelenguela
Brasil
Elisangela Aparecida da
Rocha, Ricardo Riso, Micheliny Verunschk, Rogério
Pereira, Cecília Sabino.
Moçambique
Helga Languana, Lucílio
Manjate.
PAGINAÇÃO & FOTOGRAFIA
Eduardo Quive
PERIODICIDADE
Quinzenal
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A revista Literatas é uma publicação electrónica idealizada pelo Movimento Literário Kuphaluxa para a divulgação da literatura moçambicana interagindo com as
outras literaturas dos paises da lusofonia.
Permitida a reprodução parcial ou completa com a
devida citação da fonte e do autor do artigo.
Às segundas-feiras saiba quem é a personagem da semana em: http://revistaliteratas.blogspot.com
Personagem | Macau
Alberto Estima Oliveira
A
lberto Estima de Oliveira nasceu em Julho de 1934,
em Lisboa. De 1957 a 1975 viveu em Angola, tendo publicado
poesia nos Cadernos Vector II e III (Nova Lisboa, Huambo) e
Kuzuela III – 1ª Antologia de Poesia Africana de Expressão
Portuguesa (Luanda), coligida por David Mestre. Publica o seu
primeiro livro de poesia, intitulado Tempo de angústia, na cidade do Lobito, cadernos Capricórnio, em 1972. Em 1977 foi
viver para a Guiné-Bissau e, a partir de 1982, fixa residência
em Macau. Nesta cidade desempenhou o cargo de DirectorGeral da Companhia de Seguros de Macau. Publicou seis
livros de poesia e colaborou nas revistas “Macau” e “RC :
Revista de Cultura”. Em 2003 publicou, em Lisboa, a antologia
MESOPOTÂMIA espaço que criei (ed. Aríon). Está representado em várias antologias, nomeadamente, Antologia Poética do
1º Festival Internacional de Las Palmas de Gran Canária
(1996) e Antologia de Poetas de Macau (1999), org. por Jorge
Arrimar e Yao Jingming. Participou, entre outros, nos seguintes eventos: I Encontro de Poetas de Macau (1994); I e II Festival de Poesia em Las Palmas, Canárias (1996, 1998); III Festival Internacional “Curtea de Arges Poetry Nights”, realizado
na Roménia, onde lhe foi atribuído, pela Academia Internacional Oriente-Ocidente, o Grande Prémio Internacional de Poesia 1999; XIX Congresso Mundial dos Poetas, Outubro 1999,
em Acapulco, México.
Macau 22 horas
na noite amordaçada
cheia de luzes e nada
sobre montras de ilusão
fecham-se portas pesadas
onduladas
feitas de chapa de ferro
na rua estreita
cansada
abandonada de vida
soam passos de incerteza
pela ausente madrugada
nos olhos tristes
das casas
de sorrisos reduzidos
recortam-se silhuetas
nos postigos.
9.
tocar
as tuas asas
a resposta
ao diálogo interdito
o espaço no rio
limitado pelas margens
a ânsia de liberdade
na tua voz
o grito.
In “Infraestructuras.
Macau, ICM, 1987)”
In “(O diálogo do silêncio.
Macau, ICM, 1988)”
04 | 15 de Março de 2013
Questão de fundo
A formação do leitor e o texto literário africano:
uma reflexão breve da questão brasileira
Elisangela Aparecida da Rocha - Brasil *
P
amigos ou família, assistir a vídeos/ filmes em DVD e sair com amigos,
aparecem como atividades preferenciais do brasileiro.
rocurei estruturar minha reflexão a respeito da questão do
leitor/autor, apontando em um primeiro momento para o que penso ser o
papel da escola neste contexto, e ao mesmo tempo dizer como isso se
configura no Brasil. Para então refletir sobre o papel do mercado e sua
consequência no fazer literário e assim podermos pensar um pouco sobre
o acesso aos livros africanos no Brasil.
Justifico que o lugar do qual posso falar e sinto-me segura para
falar é do lugar de professora e pesquisadora de literaturas de língua
portuguesa, que acredita que o papel da escola é preparar o aluno para
ser um bom leitor, que possa caminhar e ter na literatura um espaço para
o desenvolvimento de sua autonomia intelectual e por que não, criativa e
produtiva.
Em Março de 2012, o Instituto Pró-livro, em Parceria com o instituto
de pesquisa Ibope, divulgou um estudo sobre os hábitos de leitura da
população brasileira. De acordo com a pesquisa, entre os anos de 2007 e
2012 houve uma redução de 5% na população leitora do país (passou de
55% para 50%). Um ponto que chamou a atenção nesta pesquisa referese a redução inclusive entre as crianças que leem por dever escolar.
Acredito que o ensino de língua seja possível por meio do ensino
de textos, diferentes textos e contextos que mostram a língua não de
modo estanque, mas em movimento, no uso, na transformação, na
situação de interação social. A literatura é, sem duvida, o contexto em
que a língua se mostra de modo mais dinâmico, rico e vivo. A leitura
literária é o meio de dispor da diversidade cultural que compõe a
sociedade moderna.
Esta pesquisa nos faz refletir a respeito do papel da escola na
formação do leitor, no desenvolvimento do gosto pela leitura. Falo
especificamente no caso do Brasil em que o vínculo entre leitura e vida
escolar é um traço constitutivo.
Importante lembrar que a pesquisa fala tão somente do hábito de
leitura e não aventa quaisquer elementos de ordem valorativa da literatura.
Por ser uma pesquisa quantitativa e não qualitativa procura analisar o
hábito da leitura referindo-se à leitura de todos os gêneros, dentre os quais
podemos mencionar os de auto-ajuda, os best- sellers, revistas, jornais,
romances, poesia, etc.
Ainda, segundo a pesquisa, a grande maioria da população
brasileira não vê a leitura como forma de prazer ou lazer, a pesquisa
mencionada coloca a leitura na sétima posição na escala do que os
brasileiros gostam de fazer em sua hora livre, em seu tempo de descanso:
assistir à televisão, escutar música ou rádio, descansar, reunir-se com
A experiência na área mostrou-me que o trabalho para formação
do leitor no ambiente escolar, no caso especifico do Brasil é um longo
caminho que ainda precisa ser percorrido e estudado para que soluções
sejam apontadas. E coloco também como consequência a formação
dos escritores diante deste contexto.
Afora questões de ordem objetiva apontadas acima, temos
também elementos de ordem subjetiva: qual a relação que as crianças
tem com o livro no ambiente familiar? a leitura é um hábito na família?
Na própria escola, qual o acesso permitido? Qual a estrutura presente no
ambiente escolar para motivar e incentivar a leitura?
Por outro lado, a escola por tentar desenvolver a todo custo o
hábito da leitura acaba tornando a literatura um mero instrumento de
ensino, deixando de lado a essência do texto literário, a fruição, o prazer.
Penso a literatura como um instrumento de humanização e como
05 | 15 de Março de 2013
Questão de fundo
um direito básico ao ser humano. Antonio Candido escreve em O direito à
literatura (2011) que, podemos focalizar a proximidade entre literatura e
direitos humanos em dois ângulos diferentes, primeiro “... a literatura
corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob
pena de mutilar a personalidade, por que pelo fato de dar forma aos
sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e
portanto nos humaniza. Negar a fruição da literatura é mutilar a nossa
humanidade. Em segundo lugar, a literatura pode ser um instrumento
consciente de desmascaramento, pelo fato de focalizar as situações de
restrição dos direitos, ou a negação deles, como a miséria, a servidão, a
mutilação espiritual. Tanto num nível quanto no outro ela tem muito a ver
com a luta pelos direitos humanos.” p. 188
Como pesquisadora e professora de literaturas africanas de língua
portuguesa o desafio de trabalhar com esta literatura acaba sendo um
pouco maior, pois além dos obstáculos impostos pela necessidade de
desenvolver o gosto e hábito pela leitura, que ficam a cargo da escola,
nos deparamos também com o fato de trabalharmos a literatura colocada
às margens, penso aqui em termos de mercado editorial, de acordo com
Bettina Hillesheim, mestre em educação e doutora em psicologia, “Pensar
o menor como proposto aqui significa compreendê-lo como aquele que
está abaixo da palavra de ordem e que se localiza fora das imagens
impostas pela maioria.” Esta literatura posta às margens é marcada pelo
seu sentido politico, voltado para o povo.
Uma grande conquista que tivemos no Brasil a respeito do estudo
com as literaturas africanas de língua portuguesa foi a lei 10.639, que
torna obrigatório o estudo da história e cultura Africana, afro-brasileira e
indígena nas escolas, resultado da luta do movimento negro e
promulgada pelo presidente Lula em 2003 a lei levanta “Possibilidade de
dar ancestralidade a povos tradicionalmente destituídos de sua própria
história e estudar a África a partir de sua ligação com o Brasil – como
parte constitutiva da cultura e não como mera “influência”.
A literatura africana aparece como o meio pelo qual se pode
conhecer o continente africano. O discurso literário visto como
instrumento de luta dentro e fora da linguagem
Diante disso, houve por parte das editoras uma preocupação em
dar espaço também para publicações dos países africanos, sobretudo os
de língua portuguesa. Começamos a ver nos livros didáticos a presença,
ainda tímida, de textos de escritores africanos de língua portuguesa, por
exemplo, o livro didático Português: Língua e Cultura de Carlos Alberto
Faraco que apresenta aos alunos do último ano do ensino médio textos
de escritores como Agostinho Neto, Alda Espírito Santo, Luandino Veira,
Pepetela, Craveirinha e Luís Bernardo Howana.
necessidade de dispor de recursos financeiros que, muitas vezes, nós
pesquisadores não dispomos.
Não há ainda um estudo aprofundado a este respeito no Brasil, não
sabemos com precisão, por exemplo, quantos escritores já são editados
hoje no Brasil, ou quantas obras já foram publicadas.
O que nós professores de literaturas africanas de língua
portuguesa reivindicamos é uma política mais efetiva de cumprimento da
lei 10.639, para que haja um maior acesso às literaturas africanas, haja
mais incentivo na divulgação e circulação das obras.
Não dá pra negar que hoje o acesso é muito maior que há 20 ou 30
anos, mas ainda temos uma grande deficiência no acesso a livros caboverdianos, por exemplo. Pesquiso especificamente a literatura caboverdiana e todo o material de que dispomos ou são emprestados, cedidos
por professores ou dependemos da disposição fraterna de nossos colegas
cabo-verdianos para nos enviar livros. A passos vagarosos esta realidade
vem mudando.
___________________________________
*Elisángela Aparecida da Rocha é doutoranda em Estudos
Comparados de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela
Universidade de São Paulo e bolsista FAPESP.
___________________________________
Referências:
BRASIL, Lei no10639 de 9 de janeiro de 2003.Ministério da
Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das
Relações Étnicos Raciais e para o Ensino de História e Cultura AfroBrasileira e Africana. MEC/SECAD. 2005.
CANDIDO, Antonio. O direito à Literatura. In: Vários escritos. 5 ed.
Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul: São Paulo; 2011.
FAILLA, Zoara (org). Retratos da leitura no Brasil 3. Disponível em:
http://www.imprensaoficial.com.br/retratosdaleitura/
RetratosDaLeituraNoBrasil3-2012.pdf. Acesso em 20 nov. 2012.
HILLESHEIM, Betina. Por uma literatura menor: Produção Literária
para Infância. Disponível em: http://online.unisc.br/seer/index.php/reflex/
article/viewFile/627/518. Acesso em 20 nov. 2012.
Ou ainda, para citar trabalhos mais recentes, o livro das
professoras Roberta Hernandes Alves e Vima Lia de Rossi Martin, Projeto
Eco de Língua Portuguesa, que teve como ponto destacado no guia de
Livros Didáticos 2012, do Programa Nacional do Livro Didático do
Ministério da Educação do Brasil “A diversidade de textos ligados à
literatura e à cultura dos países de língua portuguesa”.
Outro grande aliado dos professores brasileiros no ensino de
literatura africana são as coletâneas de contos e poesias africanas,
organizadas por professores e pesquisadores de nosso país.
No que se refere aos títulos editados no Brasil, estes são
ainda muito restritos. O ponto de referência que temos a respeito destas
publicações é a coleção “Autores Africanos” publicada pela Editora Ática
no Brasil, de finais da década de 1970 a início dos anos de 1990, que
relaciona-se também ao aprofundamento dos estudos africanos nas
universidades brasileiras e ao mesmo tempo confere à literatura Africana
um lugar no espaço editorial.
Hoje várias editoras (Língua Geral, Nova Fronteira, Companhia
das Letras, Griphus, Nandyala) já publicam no Brasil obras de autores
africanos. No entanto, o número de títulos disponíveis é ainda pequeno e
restrito à língua portuguesa. A aquisição da grande maioria das obras só
é possível por meio de encomendas internacionais, o que impõe a
06 | 15 de Março de 2013
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Livros
FIAPOS DE SONHO:
a realidade (de)cantada
Lopito Feijóo - Angola
A
voz poética de Arlindo Barbeitos irrompeu dos
meandros do silêncio, para o corpus da literatura africana de língua
portuguesa, como algo completamente distinto dentre as propostas
de versificação apresentadas e conhecidas até aos anos 74/75
que, como é por demais consabido; tornaram-se indicadores do
curso que viriam a tomar os processos histórico-literários (e não
só) de Angola, Moçambique, Cabo-Verde, S.Tomé e também Guiné-Bissau em razão do terminus do período colonial.
Barbeitos é autor de Angola Angolê Angolema (1976) e Nzoji (1978); enquanto poeta e, prosador de
O Rio-Estórias de Regresso de (1987).
Significa dizer que dentre os autores
angolanos ele é também um daqueles
que escreve e/ou publica pouco e devagar, reflectindo profundamente antes de
o fazer.
Através da União dos Escritores
Angolanos viu editado em finais de
1992 o seu livro de poemas simbolicamente intitulado FIAPOS DE SONHO
que conta com pouco mais de três
dezenas de textos apresentados formalmente na esteira dos que conformam o
todo das suas publicações anteriores,
reafirmando assim a inicial proposta poética.
Trata-se de poesia cujas características principais continuam sendo as repetições formais de versos/estrofes tal como nas
canções tradicionais próprias do continente africano, bem como a
densidade metafórica da proposta em razão de um aturado trabalho lexical do qual resulta a apreciada economia da palavra
enquanto elemento primordial do arranjo poético.
gira gira meu irmão
Outro aspecto que não nos passa despercebido no
contacto com toda poesia do A. é a ausência total da pontuação, cujos elementos contribuem, indubitavelmente, sempre que quisermos atribuir à leitura um determinado curso
de entoação. Arlindo Barbeitos deixa isto à cargo dos seus
leitores permitindo assim maior abertura dos textos conforme maior ou menor capacidade de leitura e interpretação de
cada um. Assim o signo poético torna-se também muito
mais conotativo distanciando-se automaticamente do coloquial.
Entretanto, se tão logo surgiu, o
autor, “afastou-se dos sendeiros
habituais da poesia africana de
expressão portuguesa”, julgamos
que de quando em quando repete
-se nas sugestões; já que a poesia não deve fazer mais do que
sugerir entre a palavra e o silêncio, conforme ele próprio propõe
quase na esteira de Paul Valéry.
Mas, porque a poesia é a imagem
embaciada da sociedade e, conforme pensamento Aragoniano,
cada bafo de poeta num espelho
o embacia de forma diferente, vamos crer que a, talvez aparente, excessiva repetição conteudística e a agressividade
imagética nalguns textos, resultam mesmo da realidade
vigente num contexto de reprodução poética do qual obtemos versos sugerindo autentica desilusão como por exemplo os que aqui ficam: teus dedos nocturnos vão/pelos
monturos catando/ ilusões perdidas cacos de palavras/
e fiapos de sonho… pontual/ o relógio da dor/ vai marcando o tempo… diz-me/ até quando se continuará o
sonho/tecendo de raios de luar e de espuma/ enquanto/
de lágrimas se encharcam as nuvens/ e os panos de
nossas mãos… (pág.16, 26 e 36).
em terra de luar e desencanto
quem dança mora com os deuses
diz o poeta distante
em terra de luar e desencanto
gira gira meu irmão (pág.15)
Como se escreve na contra-capa de FIAPOS DE
SONHO, pensamos que o livro contém “a poesia decantada
do real. A poética sublimação do efémero. A voz plena de
silêncios e rumores e a magoada criação de um íntimo
furor”. Pensamos ainda, por tudo e por nada, ser este um
livro que urge reeditar para leitura e releitura obrigatória.
Estaremos assim a homenagear o nosso autor. Pronto &
final…
07 | 15 de Março de 2013
Todos os dias em: www.revistaliteratas.blogspot.com
Notícias
A língua portuguesa também se
escreve com caracteres chineses
Num território que é um lugar de cruzamento entre o Oriente e Ocidente quebra-se a distância entre duas línguas: português e chinês. A segunda edição do Rota das Letras – Festival Literário de Macau conta com mais
de 30 autores lusófonos e chineses, da literatura ao cinema passando pela música e artes plásticas.
Jornal Público - Portugal
A
segunda edição do Rota das Letras – Festival Literário
de Macau chega a 10 de Março com a concretização de uma promessa
que vem de trás: a criação de um espaço comum para escritores e
artistas da China e dos países de língua portuguesa. Em 2013 essa
promessa vai até mais longe: o convite foi estendido a jornalistas,
tradutores, editores e organizadores de festivais literários.
À semelhança da primeira edição, contará com a presença de
cineastas, músicos e artistas plásticos. No total estarão presentes mais
de 30 autores, entre os quais Bi Feiyu, Dulce Maria Cardoso, Han
Shaogong, Hong Ying, João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da
Mata, José Eduardo Agualusa, Mauro Munhoz, Paloma Amado, Paulina
Chiziane, Ricardo Araújo Pereira, Rui Zink, Valter Hugo Mãe, Camané,
Dead Combo, Wang Gang e Xi Murong.
Ricardo Pinto, director do festival, contou ao PÚBLICO que
embora exista um “núcleo duro” composto por autores da China e
Lusofonia, a ideia é “abrir, gradual e pontualmente, o festival a outros
espaços, nomeadamente a outros pontos da Ásia e países latinos”.
Aos autores lusófonos e chineses juntam-se este ano os franceses
Antoine Volondine e Claude Hudelot, que possuem afinidades com
Macau, China e o espaço lusófono.
O festival, fundado em 2012 pelo jornal Ponto Final, conta com
a colaboração da Fundação Macau e do Instituto Cultural de Macau. O
seu vice-presidente, Yao Jing Ming, é destacado por Hélder Beja, vicedirector do festival, como “grande conhecedor da literatura chinesa”.
Assumindo a função de director-adjunto do Rota das Letras, Yao Ming
angariou um “grande número de autores, como Bi Feiyu e Hang
Shaogong, tradutor de Fernando Pessoa”. Para Hélder Beja, são
“autores que antes de Mo Yan ganhar o Nobel já estavam no grande
08 | 15 de Março de 2013
Envie-nos os seus comentários sobre a entrevista da semana por e-mail: [email protected]
Notícias
patamar da literatura contemporânea”.
cultural destes países”.
Beja diz estar bastante satisfeito, aliás, com os autores chineses
presentes nesta edição: Bi Feiyu, vencedor do Asian Man Booker Prize,
Hang Shaogong, Hong Ying (uma das autoras chinesas mais reconhecidas
na cena internacional), Yi Sha, figura controversa na poesia chinesa
contemporânea, assim como Sheng Keyi, Qiu Huadong, Pan Wei, Wang
Gan, Haung Lihai, Li Shao Jun. A poetisa taiwanesa Xi Murong é outro dos
nomes influentes que estará presente.
O facto de ser publicado em três línguas, português, chinês e inglês,
permitirá o acesso a todos, autores e leitores. Esse esforço de aproximação
é, também, posto na legendagem dos concertos programados para 15 e 16
de Março no Casino Venitian. O primeiro, protagonizado pela cantautora
taiwanesa Joanna Wang, será traduzido para português e inglês, enquanto o
segundo, com as interacções entre Dead Combo e Camané, será legendado
para inglês e chinês.
A representação de Portugal será assegurada pelo escritor Valter
Hugo Mãe, por Dulce Maria Cardoso e pela romancista Deana
Barroqueiro. No painel dedicado à literatura e humor, Rui Zink e Ricardo
Araújo Pereira farão as honras da casa. O convite feito à jornalista e
escritora Alexandra Lucas Coelho e ao jornalista e editor Carlos Vaz
Marques resulta da iniciativa de “convidar jornalistas que tivessem uma
actividade para além dos jornais, quer pela tradução, quer pela autoria”.
No cinema, um dos destaques é a ante-estreia da longa-metragem A
Última Vez que Vi Macau em solo chinês, antes do filme seguir para o
Festival Internacional de Hong Kong. Aos realizadores João Pedro Rodrigues
e João Rui Guerra da Mata será dedicada uma retrospectiva com a exibição
deChina-China e Alvorada Vermelha, curta que nasceu durante a rodagem
de A Última Vez que Vi Macau e que foi consagrada no IndieLisboa como
melhor curta portuguesa. Será, também, estreada em solo chinês a curta Na
Escama do Dragão, de Ivo Ferreira, encomenda de Guimarães Capital
Europeia da Cultura.
Vindos de outros espaços da lusofonia, temos o angolano José
Eduardo Agualusa, Luís Cardoso, em representação da literatura
timorense, Paulina Chiziane, moçambicana, e Vanessa Bárbara, que
integra a “lista dos 20 escritores brasileiros mais influentes e escreve para
a Folha de S. Paulo, representando o Brasil na categoria de escritora/
jornalista”, explica Hélder Beja. Do Brasil destacam-se ainda o poeta Regis
Bonvicino, o director-geral da Festa Literária de Paraty, Mauro Munhoz,
assim como Paloma e Cecília Amado, respectivamente filha e neta de
Jorge Amado (1912-2001). O festival apresenta, este ano, uma
homenagem ao autor brasileiro na sequência do centenário do seu
nascimento, que foi comemorado em 2012. Embora chegue com “pequeno
atraso”, a retrospectiva homenageará Amado através da projecção de um
documentário e do filme de ficção Capitães da Areia e de uma exposição
biográfica que encerra aqui a sua itinerância.
Livro de contos, o pilar
Um dos pontos altos é, segundo os organizadores, o lançamento
de um livro de contos e ensaios. Este projecto combina textos de
convidados da primeira edição - Lolita Hu, João Paulo Cuenca, Jimmy Qi,
Rui Cardoso Martins, Xu Xi ou José Luís Peixoto – com textos dos
vencedores de um concurso literário lançado na mesma altura pela
organização. Para Ricardo Pinto este
livro é uma “combinação interessante
de autores consagrados e autores
anónimos, de grande talento, alguns
a viver há muito tempo em Macau,
outros que estiveram em Macau de
passagem”.
O realizador Miguel Gonçalves Mendes regressa a Macau para
apresentar parte da série documental Nada Tenho de Meu, iniciada na
primeira edição do festival em parceria com os escritores brasileiros Tatiana
Salem Levy e João Paulo Cuenca. Este projecto pode ser entendido como o
reflexo da troca de experiências destes autores com artistas do Extremo do
Oriente - Macau, Hong Kong, Vietname, Cambodja e Tailândia.
Gonçalves Mendes aproveitará a presença de Valter Hugo Mãe para
dar início a um novo projecto documental. De acordo com revelações ao
PÚBLICO, em Novembro de 2012, o escritor será uma das sete
“personagens reais” com quem Miguel, o protagonista que representa o alterego do realizador, se vai cruzar durante a sua viagem por cinco países:
Portugal, Brasil, Islândia, Inglaterra e Japão.
Outra novidade da edição deste ano é o facto de o festival não se
fechar num local específico, como aconteceu o ano passado com todos os
eventos programados para o Instituto Politécnico de Macau. A organização
elegeu “alguns dos lugares mais dignos de Macau para que os convidados
possam conhecer esse lado de Macau que vai para além dos casinos".
“Durante o dia os convidados estão na cidade e ao fim da tarde estão
programados encontros em bibliotecas, livrarias, sedes de associações, na
Casa do Mandarim”, conta Ricardo Pinto.
A iniciativa permitirá
concretizar um dos objectivos do
festival: a “aproximação entre
chineses e lusófonos, do ponto de
vista cultural, nomeadamente na
literatura” e a possibilidade de “deixar
um legado literário que ultrapasse o
efémero” - palavras de Ricardo Pinto.
O livro reflectirá a essência do festival
e procura responder a uma lacuna na
cena literária de Macau. “Escreve-se
pouco sobre a Macau contemporânea
e sobre Macau, em geral. Logo à
partida, quando pensámos no festival
a ideia era convidar os autores a
escrever sobre Macau”. O livro é,
assim, “pilar central de tudo o que o
festival poderia vir a representar e do
contributo que poderia dar à cena
09 | 15 de Março de 2013
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Entrevista
“
não é possível
ser-se um bom
escritor sem se
ter sido antes
um bom leitor
”
Cecília Sabino - Brasil
porceciliasabino.wordpress.com
A
palavra traz consigo a magia da aproximação. Milhares de distância que separam Brasil de
Portugal, mas a literatura do escritor português Victor Eustáquio tem agradado aos leitores brasileiros.
Um feito. Apesar do seu romance de estreia O Carrossel de Lúcifer (2008) não ter sido lançado no Brasil,
mesmo assim é lido pelos quatro cantos do país; livro onde se revela um escritor noir de extrema
competência.
Interessante ir descobrindo a cada página virada da obra do autor, composta também de contos, um
pouco mais do seu mundo interior. Pergunto se seus personagens têm algo dele. “Inevitavelmente. Apesar
da linha de ficção e da linha da realidade nunca se tocarem, andam sempre muito próximas. Não acredito
em histórias contadas por quem não as viveu. Um romance honesto interpreta a realidade, reinventandoa”, diz ele, que começou a ser envolver com as letras ainda na infância.
Victor é um escritor denso, de fina ironia, sem perder de vista o humor, e que reúne em sua narrativa
figuras solitárias, expondo alto grau de sentimentos primitivos e voltagem erótica. O sexo aparece como
crítica a uma sociedade que oprime, isola e maltrata seus indivíduos. Talvez por sua formação filosófica
consegue extrair dos seus personagens o que eles têm de mais secreto, obscuro. Seu texto por vezes
brutal, perturbador às mentes mais delicadas, vai impondo ao leitor pensar na sua existência.
Residente na cidade de Torres Vedras, no distrito de Lisboa, o escritor está em vias de lançar o seu
segundo romance. Seria Victor Eustáquio o novo na literatura? Conheça um pouco mais de suas idéias.
Cecília Ssabino (C.S) - Qual o significado da literatura para
você?
Victor Eustáquio (V.E) - Como leitor, a possibilidade de
conhecer o que os outros têm para dizer. Como escritor, a possibilidade
de dizer aquilo que quero e preciso dizer. É tão simples quanto isto. É
claro que não deixa de ser um jogo de afetos, mas a literatura tem essa
vantagem: a liberdade de escolha. Entre o que agrada e desagrada,
entre o que se aprova e aquilo de que se discorda. Estou a ser simplista
deliberadamente. Podemos dizer imensas coisas sobre o significado e
os sentidos e as paixões e o alcance ou as razões do pulsar artístico
presentes na escrita, mas não passam de lugares-comuns, pela
simples razão de que são inerentes à própria literatura. Por isso,
prefiro a versão simplificada.
C.S - Você tem dito que tudo já foi escrito, há saídas para
inovar?
V.E - Tudo já foi escrito no sentido de que todas as dimensões
(Continua na página 11)
10 | 15 de Março de 2013
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Entrevista
(Continuação da página 10)
da existência humana já foram objecto de reflexões de natureza literária.
Ou seja, do ponto de vista temático. Agora é evidente que qualquer peça
literária nova é sempre uma inovação, porque simplesmente é nova.
Desde que não se trate de um plágio descarado, como é evidente. A
questão é que, sendo nova, não quer dizer que traga algo de novo, que
acrescente algo de particularmente brilhante ao que já foi escrito em
contextos diferentes. Aliás, diria mesmo que, na maioria dos casos,
apenas replica, e mal, o que foi construído ao longo de séculos. O que
porventura faz é relançar as mesmas preocupações em novos contextos.
Poderemos aceitar isso como uma inovação? Talvez, se tivermos
presentes alguns critérios. Não basta mudar as regras, como escrever sem
pontuação, situar as narrativas em registos despudorados ou até mesmo
recorrer às novas tecnologias, com aplicações que desenvolvem
automaticamente vários caminhos para um determinado enredo. Estou em
crer que a questão deve ser colocada de outro modo. Não me parece que
seja um problema de forma, mas de conteúdo, aliás da pertinência do
conteúdo. A literatura deve aspirar à possibilidade de manifestar a
evolução das sociedades, pelo que a interpretação das novas escalas de
valores talvez seja a dimensão a perseguir. Não será tanto um problema
de querer criar algo de novo, procurar inovar, mas tão-somente de
reavaliar, de ser capaz dar voz e interpretar os tempos modernos.
C.S - Já disse que escrever está na moda. A erudição é necessária
ao escritor?
V. E - Depende do que se entende ou se quer defender como
erudição. Rejeito a presunção da alta cultura que reclama o saber, e a
legitimidade de produzir ou reproduzir o conhecimento, como um bem
exclusivo de determinadas elites. Contudo, também não me parece que
seja intelectualmente coerente que qualquer indivíduo desate a escrever
apenas porque está na moda. Quer dizer, pode fazê-lo, mas dificilmente é
de se esperar bons resultados. Regra geral, é apenas mais um contributo
para uma poluição que se achou por bem democratizar. Basta entrar numa
livraria qualquer para perceber isto. Sejamos claros. E não vou dizer nada
de novo, embora nunca seja demais repeti-lo: não é possível ser-se um
bom escritor sem se ter sido antes um bom leitor. Até pode haver vocação,
mas são necessárias ferramentas. Não técnicas, que essas até são
competências que podem ser adquiridas num curso qualquer de escrita
criativa – coisa que, aliás, até não consigo valorizar – mas ferramentas que
nos permitam entender que a literatura é um compromisso com a verdade,
uma verdade individual que aspira à universalidade. O pensamento
literário não é conjuntural, mas estrutural. Desenvolve-se com muita leitura
e paixão pela literatura. O próprio qualificativo de bom, ou a distinção entre
o que podemos considerar bom ou mau, releva deste princípio: uma boa
peça literária não é aquela que porventura é medida pelo que os críticos
dizem ou pela popularidade ou número de cópias vendidas. O bom é
indissociável da urgência de registar a verdade individual, de capacidade
de interpretar a escala de valores em que nos posicionamos, da
honestidade. Não é uma questão de se gostar ou de não se gostar, que
essa é outra história com muitas armadilhas epistemológicas; é uma
questão de saber estruturar a verdade que preconizamos como válida.
Esta é a missão de um literato. Logo, pressupõe erudição, mas desde que
colocada nestes termos e que obviamente constitui uma condição para
alguém ter a ousadia de se afirmar como escritor.
C.S - A qualidade da literatura mundial decaiu?
V.E - Objetivamente não sei, porque nunca conseguirei ler o
suficiente para poder ter uma amostra que me permita inferir da totalidade
do que se escreve. Mesmo que me sinta tentado a delimitar a amplitude da
qualidade da literatura. O que sinto é que há muita poluição. Escreve-se
muito e acerta-se pouco. Aparentemente isto contraria o que disse há
pouco, mas tenho dificuldade em acreditar que a democratização da
produção literária, no sentido de que cada vez é mais editável tudo
o que se escreve, corresponda a melhor literatura. Provavelmente
isto responde à pergunta.
C.S - Qual o papel da filosofia dentro do seu ofício como
autor?
V.E - É um processo inconsciente. A procura de uma ordem
racional está presente mas não sei exacamente como se processa
ou onde se situa. Às vezes, questiono-me ou questionam-me
“
(…)não é possível ser-se um
bom escritor sem se ter sido
antes um bom leitor. Até pode
haver vocação, mas são necessárias
ferramentas. Não técnicas, que essas até são
competências que podem ser adquiridas num
curso qualquer de escrita criativa – coisa que,
aliás, até não consigo valorizar – mas
ferramentas que nos permitam entender que a
literatura é um compromisso com a
verdade, uma verdade individual
que aspira à universalidade.
”
porque escrevi esta ou aquela frase. O que quero dizer com aquilo?
Julgo que sei, mas depois sou incapaz de verbalizá-lo ou torna-lo
inteligível. Está lá porque algo me disse que deveria ali estar. Algo
me levou a escrever aquilo. Será possível racionalizar o que
supostamente decorre de uma motivação catártica? Não quer dizer
que eu não seja extremamente crítico e exigente em relação ao
escrevo. Aliás, possivelmente peco pelo perfeccionismo ou por
aspirar a essa condição. Por isso, é tão doloroso escrever. Pelo
menos para mim. Quer dizer, reescrever, corrigir, ordenar. Fazer
com que o resultado final faça sentido, que seja coerente,
verosimilhante, que satisfaça de forma lógica e com uma densidade
que possa considerar adequada a necessidade que precisava de
suprir.
C.S - O conceituado escritor brasileiro, Autran Dourado,
falecido recentemente, disse certa vez que vender livros é um
acidente na vida do escritor. Você concorda?
V.E - Parcialmente. Entendo a escrita como uma forma de
suprir necessidades que podem ser emocionais, espirituais,
metafísicas, estéticas, criativas. Mas não sejamos hipócritas. Um
escritor escreve para ser lido. De resto, um livro sem leitores não
passa de um objecto. E não dá de comer a ninguém. Além de que
não acredito que haja algum autor que não queira ver o seu
trabalho reconhecido. É importante vender livros, embora não deva
ser esse o principal objectivo de quem escreve. Para isso, há as
editoras e as suas máquinas de marketing. Agora, é bom também
(Continua na página 12)
11 | 15 de Março de 2013
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Entrevista
(Continuação da página 11)
não esquecer que há o livro obra, uma manifestação artística, e o livro
produto, um bem fungível comercial, que se gasta com o tempo. Se
estou convicto que um escritor escreve para ser lido, logo sou obrigado
a defender que tem de ser capaz de gerar atração naquilo que produz.
Não é que isso deva condicionar a natureza do que escreve, mas
obriga a ter em mente esta regra de ouro, o que quer dizer que é
evidente a necessidade de um compromisso e de uma clarividência
sem grandes afetos. O fracasso é inimigo do bom. E não fácil saber
gerir a vontade e a qualidade do que se escreve quaFez algum preparo
especial para escrever seu primeiro livro?
C.S - Existe algo que você pode pontuar dentro do seu processo
de criação?
V.E - Inicialmente não. Andei cerca de dois meses de volta da
história, mas não estava a agradar-me e acabei por pô-la de lado. Um
ano depois, tentei desenvolver uma outra ideia, mas de repente
apercebi-me de que estava a trabalhar precisamente na mesma história
com uma abordagem diferente. E aí deixei de ter dúvidas: era
realmente aquilo que queria contar. O que me obrigou finalmente a
fazer pesquisa. Aliás, bastante. Psicopatologia, farmacologia e serial
killers não eram propriamente áreas da minha especialidade. Não é
que fosse esse o fio condutor ou a dimensão central que me
interessava explorar. Mas para explicar as relações entre as
personagens e imprimir densidade e ruídos de fundo permanentes, não
podia passar ao lado. Além de que a credibilidade ou a verosimilhança
dos acontecimentos a narrar ficariam comprometidos. Resultado: à
medida que fui mergulhando no tema, apaixonei-me cada vez mais e
acabei por encontrar nele muito material que me abriu portas para
reforçar a intertextualidade e o registo tenso da narrativa.
C.S - Qual a leitura que faz sobre o seu livro O Carrossel de
Lúcifer?
V.E - É uma questão que reservo para os leitores. Aliás, dos
ecos que vou recebendo, esse é um dos aspectos que me tem deixado
particularmente satisfeito. As leituras têm sido tão diversas que, às
vezes, até me questiono: estão a falar do romance que eu escrevi?
Sinceramente não fazia a mínima ideia de que houvesse nele tantas
possibilidades de ser lido.
C.S - Como foi a escolha do enredo?
V.E - Não foi escolhido. Foi nascendo. Basta dizer que a história
acaba onde planeei começar. Pode parecer estranho, mas escrevi o
livro que precede o que estava a pensar escrever. A busca de
credibilidade obrigou-me a recuar no tempo e, quando dei por mim,
verifiquei que a história que queria contar era afinal bem maior do que
aquela que tinha em mente. Mas trezentas páginas depois, era melhor
ficar por ali.
C.S - É sofrido escrever ou é um processo prazeroso?
V.E - Ambas as coisas. Doloroso, porque não consigo fugir de
uma relação constante de amor e ódio com o que escrevo. Prazeroso,
porque sinto que nunca chego ao fim. Pode parecer uma forma de
masoquismo, mas é o doce veneno de quem escreve para suprir
necessidades. Só é possível ser feliz se nunca conquistarmos
verdadeiramente a felicidade. É um lugar-comum, mas soa bem.
C.S - Tem muitos fãs no Brasil. Por que «O Carrossel de
Lúcifer» não foi lançado aqui?
V.E - Também me questiono sobre isso. É certo que tem
estado à venda através da maior rede de distribuição livreira no Brasil,
mas a título de produto importado, com um preço proibitivo que não
ajuda nada.
Por que depois de quatro anos optou por lançá-lo em e-book,
gratuitamente? Atendeu às suas expectativas?
Fi-lo precisamente para o Brasil, donde recebi inúmeras mensagens
de pessoas à procura do livro. Quatro anos após a edição em
Portugal, e à falta de espaço nas livrarias brasileiras, por que não no
ciberespaço, que está sempre vago? Como qualquer autor, gosto de
ser lido. É para isso que escrevo.
C.S - Em Portugal como foram as vendas do seu livro?
Também foi lançado fora do país?
V.E - Moderamente modestas, considerando o número de
exemplares da primeira edição, que foi acima do que é habitual para
“
[Escrever é…] Doloroso, porque
não consigo fugir de uma relação
constante de amor e ódio com o
que escrevo. Prazeroso, porque sinto que nunca
chego ao fim. Pode parecer uma forma de
masoquismo, mas é o doce veneno de quem
escreve para suprir necessidades. Só é possível
ser feliz se nunca conquistarmos
verdadeiramente a felicidade.
É um lugar-comum, mas soa bem.
”
uma primeira obra. Mas Portugal também não é propriamente um
grande mercado para romances destes. E com a avalanche de novos
títulos que são publicados todos os meses, ou se entra no tops na
primeira semana, ou não há espaço nas livrarias. Literalmente. Aliás,
tal como sucedeu com os leitores brasileiros, também recebi muitas
mensagens de pessoas em Portugal à procura do livro. Só me restou
reencaminhá-los para a compra online com os constrangimentos que
daí decorrem.
C.S - Vejo que você se utiliza da internet para mostrar o seu
trabalho. Até que ponto a web ajuda a difundí-lo?
V. E - Nunca medi seriamente o impacto que eventualmente
possa estar a ter. Diria que tem tido um efeito positivo, que aliás se
refletiu nas vendas. Apesar de estar arredado das livrarias, o romance
continua a vender. Há novos leitores, sinais de curiosidade. Talvez o
livro tenha ganho alguma notoriedade adicional. Não sei ao certo. De
qualquer modo, tenho estado mais concentrado em partilhar algum
(Continua na página 13)
12 | 15 de Março 2013
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Entrevista
(Continuação da página 12)
material novo. E essa tem sido uma experiência muito interessante.
V.E - Muito intensa. São os meus maiores críticos. E os que me
acolhem com mais entusiasmo e afeto. Mesmo quando discordam ou
desaprovam o que escrevo, fazem-no, regra geral, com muita acutilância e sempre de forma afável e muito construtiva. Não se pode pedir
melhores leitores.
C. S - Acha que a maioria das pessoas adicionadas à sua
página no FB o lê de fato?
C.S - Pretende vir ao Brasil? Quem sabe até escrever um livro
V. E - A maioria de certeza que não lê, como é evidente. Mas
tenho leitores fiéis, bastante críticos e entusiastas. E isso é o quanto
me basta no FB. Porque há um feedback direto, uma interação forte,
personalizada, o que é bastante enriquecedor para o meu trabalho.
C.S - Tem como medir esse retorno? Se considera
um fenômeno da internet?
aqui?
V. E - Já estive no Brasil várias vezes e com estadas relativamente longas por questões profissionais, sobretudo em São Paulo e no
Rio de Janeiro. E decerto que seria uma experiência muito agradável
poder escrever um livro no Brasil, especialmente no interior onde vivi
momentos inesquecíveis.
C.S - Quando vai lançar outro livro?
V.E - Demorou, mas já está escrito e entregue na minha editora
em Portugal, de quem aguardo um feedback. É coisa recente, sobre a
qual ainda pouco posso dizer. Em todo o caso, pelo menos posso
adiantar que o Brasil ocupa um espaço considerável neste romance.
C.S - E o tema?
V.E - Vou deixar em aberto, embora possa dizer igualmente que
continua a haver um denominador comum. Aliás, receio bem que este
seja bem mais feroz que o primeiro.
C.S - Além de «O Carrossel de Lúcifer», tem contos editados?
V.E - Alguns, apesar do conto ser um gênero que exploro
raramente. Um deles, a título de curiosidade, foi publicado numa revista
literária brasileira.
C.S - O que está lendo no momento?
V.E - De momento, como sempre, muitas coisas ao mesmo
tempo. Descoberta relativamente recente que ocupou grande parte das
minhas leituras deste ano: a obra de Roberto Bolaño. Completamente
rendido e apaixonado. Pelo meio, vários romances que foram sendo
publicados ao longo do ano, embora lidos com muito desapontamento,
Incluindo um Vargas Llosa ou um V. S. Naipaul, que cito apenas por
serem ambos Nobel e desastrosos. De resto, muitos scholars e outro
material acadêmico por causa da minha tese de doutoramento.
C.S - Quando despertou para escrita?
V.E - É possível medir, mas como disse nunca o fiz. De resto,
os indicadores quantitativos acabam por ser pouco relevantes porque
nada dizem quanto aos sentidos com que são produzidos – é como os
likes, tendencialmente ditados pela regra do impulso e do imediatismo
– ao contrário do que sucede com os indicadores qualitativos, que são
bem mais reveladores. Os comentários ou mesmo os silêncios são
sinais preciosos. Quanto a ser um fenômeno da Internet, só pode ser
uma pequena maldade da Cecília…
V. E - Sim, comecei a rabiscar as minhas primeiras histórias
creio que de forma mais ou menos consciente por volta dos dez, onze
anos. Dez anos depois, tinha uma pilha de textos, de contos e dois
romances. Sempre prosa, ficção. Ideal para manter a saúde mental.
Não é que valham alguma coisa como peças literárias. Mas soube bem
fazê-lo. E foi importante para exercitar a pena.
C.S - Como é a sua relação com os seus leitores brasileiros?
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13 | 15 de Março de 2013
“Felicito-me a mim mesmo por ser transitório.
Sempre tive medo da eternidade”
Homenagem ao poeta Lêdo Ivo (1924-2012)
Ricardo Riso - Brasil
N
o dia 23/12/2012 encantou-se um dos maiores representantes da
literatura brasileira: o escritor Lêdo Ivo. Nascido a 18/2/1924, em Maceió, Alagoas,
estado do nordeste brasileiro, ficcionista, ensaísta, memorialista, porém consagrou-se
como poeta, Lêdo Ivo integrou a chamada “Geração de 45”. Contudo, tal definição
serviu apenas para demarcar as propostas opositoras dos novos escritores ao
movimento modernista de 1922, com seu coloquialismo, versificação livre, concentrada
temática nacionalista etc., Ainda assim, Lêdo Ivo apresentou-se indomável desde suas
letras seminais, constatada em “Poesia Completa 1940-2004” (Top Books/Braskem).
A geração de Ivo viu-se diante de enorme desafio, pois a década anterior havia
revelado poetas do porte de Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e Jorge de
Lima. Logo, para Ivo e todos os outros a busca por uma identidade poética era árdua.
Com isso, fortaleceu-se nesses escritores o retorno a um rigor métrico e formal
exigente com o valor estético e a depuração da linguagem, tendo na poesia de João
Cabral de Melo Neto o seu exemplo maior. Lêdo Ivo correspondeu a esses
pressupostos, entretanto, transgressor por natureza, passeou ora pelo soneto, ora pela
versificação desmedida como no poema “Justificação do Poeta”, do seu livro de
estreia, “As imaginações” (1944): “Pai, meus pensamentos não cabem na tua sala com
piano tranquilo a um lado e escuras cadeiras vazias perto da janela/ meus inquietos
pensamentos não cabem na saleta com flores morrendo nos jarros e paisagens
sorrindo nas molduras/ deixa que eles atinjam além das cortinas azuis e caminhem
para muito além das janelas abertas”. A metáfora da paisagem fixa da casa burguesa e
do enfrentamento da figura paterna anunciou uma polifonia que vasculharia os riscos
ilimitados da palavra poética.
Com o passar dos anos, a temática da poesia de Lêdo Ivo concentrou-se em
questões ontológicas e metafísicas, mas jamais abandonado o caráter memorialista e
regionalista, característicos de outros escritores nordestinos, tais como José Lins do
Rêgo e Graciliano Ramos. A transitoriedade da vida passou a ser uma preocupação
constante do poeta, “Felicito-me a mim mesmo por ser transitório./ Sempre tive medo
da eternidade” (p. 262). Navegou do efêmero ao eterno com furor criativo de quem não
tinha temor da folha em branco de papel: “Vejo o mundo com os olhos feridos pelas
estrelas/ e os pulsos queimados pelas estações” (p. 262). Da sua pena, sem medo, o
inefável era o alvo a ser atingido: “Não quero achar o que os outros perderam (...)/ Ao
que ninguém viu, aspiro; (...)/ Quero, sonho e admiro o inédito (...)/ Não me comove o
irretornável, nem o tempo caído./ Em jogo descoberto, crio minha emoção/ e à janela
contemplo a noite formal/ e eu mesmo sou ogiva aberta aos grandes astros. (...)/ E
sempre adiante busco/ minha paisagem impor-se nas paliçadas alheias” (p. 266).
Também caminhou por uma poesia mais engajada comum na década de 1960,
na qual teve no seu contemporâneo Ferreira Gullar um dos seus cultores e os textos
inspirados na literatura de cordel quando estava envolvido com o CPC da (UNE). Ivo
com o livro “Estação central” de 1964, ano do início da ditadura militar no Brasil,
mostrou-se sensível aos problemas sociais e ao clima de reivindicação da época. O
poema “Primeira Lição” é um exemplo: “Um dia num muro/ Ivo soletrou/ a liçã da
plebe.// E aprendeu a ver./ Ivo viu a ave?/ Ivo viu o ovo?// Na nova cartilha/ Ivo viu a
greve/ Ivo viu o povo” (p. 437).
Já no livro “Plenilúnio” (2004), Ivo subverteu Bernardo Soares: “Minha pátria
não é a língua portuguesa./ Nenhuma língua é a pátria. (...)// Ela serve apenas para
que eu celebre a minha grande e pobre pátria muda,/ minha pátria disentérica e
desdentada, sem gramática e sem dicionário, minha pátria sem língua e sem
palavras” (pp. 1027-8). Ou seja, do alto dos 80 anos de idade Lêdo Ivo não perdeu o
vigor de surpreender e de inquietar retinas e mentes inertes. Um poeta que dignificava
a Academia Brasileira de Letras e mereceu o sucesso e as traduções de sua obra para
diversos países das Américas e Europa.
O galho
Eis um galho de sal no dia enxuto:
ossada de cavalo na catinga
calcinada. Guarda-o em ti
avarento.
O que resta da lágrima, se o vento
a seca nos teus olhos, guarda em ti
como um tesouro em severas
várzeas.
Tudo no tempo se encaminha a ser
cristal e esplendor na estepe,
no dia de teor calcário
entre os espinheiros.
O que sobra de mim chama-se Eternidade.
In “ Poemas, centro dos estudos brasileiros, Lima Peru, 1959”
14 | 15 de Março de 2013
www.revistaliteratas.blogspot.com
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Poesia
África e Sertão: à maneira de um manifesto
POEGRAFIAS
Lapa
Micheliny Verunschk - Brasil
Tomamos a África pela mão direita e o Sertão pela mão esquerda. Ela, nossa mãe desconhecida.
Ele, nosso pai imaginário.
Dos bérberes e soninkés é nossa carne de areia. Dos vaqueiros encourados é nosso sangue
mais denso que o real.
Amosse Mucavele - Moçambique
Nossa mãe multiplica sua face no sexo das meninas violadas, infibuladas, prostituídas.
Nosso pai multiplica seu coração no peito dos meninos abandonados, alcoolizados, à margem da
margem de um rio seco e pedregoso ao qual chamamos de História.
Nossa mãe tem os olhos do céu de Moçambique.
Nosso pai tem a pele do poente do Moxotó.
Na esteira desta cidade
dormem eléctricos com olhos blindados na almofada da estrada.
as sonâmbulas viaturas rangem os anzóis na
metamorfose do elástico rio
a ampliar-se na antropofagia da distância.
Declaramos que nossa mãe está na fala, no sabor, na dança e na música que nos move a alma.
Declaramos que ela é múltipla e única, terrível e bela.
Mas não a conhecemos senão pela História, que é sempre parcial, pelas estatísticas que são
sempre sem rosto ou peso de carne humana, pelo olho fotográfico que ousa nos dar a cara do
nosso tempo mas que nem sempre revela que um ponto de vista pode ser também uma trave que
impede a visão.
Inspiração
Declaramos que nosso pai está no esqueleto de concreto de toda cidade desse país, que sua fala
acentuada é a marca de nossa memória, que sua coragem é o território ao qual ainda não nos
aventuramos por completo.
Nosso pai e seu rosto ainda por se construir. Nosso pai e seus mitos por se confirmar.
Nossa mãe e nosso pai ainda mal contados, mal traçados, e ainda que amados, tão mal-amados.
Nossa mãe e nosso pai, tanto sol, tanta escuridão.
África e Sertão, de mãos dadas.
Tão pobres. Tão ricos.
Tão distantes. Tão unidos.
Na mina que explode, no vírus que explode, na fome que explode.
Na beleza que é potência, na vastidão que é potência, no vir-a ser que é potência.
África e Sertão.
Minha mãe, meu pai.
Tua mãe, teu pai.
Nossa mãe, nosso pai.
África e Sertão.
Terra prometida.
Colo desejado.
Expectativa.
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[Poema de abertura das apresentações artísticas do Antitodo - Seminário Internacional de Ações Culturais em Zona de Conflito, no Instituto Itaú Cultural, São Paulo,
2009]
Helga Languana - Moçambique
Minha deusa das horas em que deleito-me em
meus pensamentos
E busco minha alma estrangeira
mas tão nacional.
Esta alma que procura moldar-te e alinear-te;
Para que digas em palavras aquilo que remoei os
nervos
Para que transcrevas em palavras
Os sentimentos de cada fibra da minha bomba
cardiogénica.
Inspiração!
Este extraterrestre que é mentor
do desenvolvimento das máquinas,
Tecnologias e civilizações,
Que possui grandes Homens e dele construiu
grandes obras,
Decompôs o mundo em várias cores, os fez
cantar letras de amor,
De paz, alegria, de vida!
Tudo isso você, minha deusa virtual,
ofereceu de bom grado
Toda minha alma a ti entrego
Todos meus sonhos
E só peço a tua presença.
15 | 15 de Março de 2013
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Crónica
A amante do
próprio marido
Quem é Sérgio
Muambo?
Dany Wambire
David Bamo - Moçambique
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S
abe-se que nunca antes foi seu marido e, muito menos, seu
amante. Adrenalino Sabonete era marido da senhora Mariamo Carlos, cujo
pai se deu ao luxo de garantir escola ao Adrenalino. Afinal, este último era
seu genro, que ultimamente estava autorizado a desfrutar do nu da sua unigénita.
Mas no caminho de Adrenalino, o alfandegário, como mais tarde ficou
conhecido, estava a jovem Peniscela dos Sexos, moça que dedicou a maior
parte da sua juventude à prostituição. Disputada e autêntica prostiputa ela
era. E foi lá que conheceu Adrenalino, quando ele, mais uma vez, ia à cata
dos serviços íntimos de uma meretriz.
Chegou ao local. Montradas estavam na dura prateleira: a terra. Estavam coladas à fachada principal do edifício policial de Fim-de-Mundo. Todas
se apoiavam no chão apenas com uma perna, enquanto a outra exibia as
apetitosas e polposas carnes da coxa. Como que a dizer: tudo aqui é comestível.
Dessa vez, Adrenalino quase adquiriu loucura, que curar só podia
com a ajuda das intimidades de uma daquelas prostiputas. Tomou logo uma
de assalto. Montaram no carro. Depois, se ouviu da meretriz.
― Se me tiras daqui, o preço é outro. Exijo ajuda de custo e subsídio
de risco.
Houve espanto ou prantos? A voz não era desconhecida, e mais,
familiar era. Habituado ele estava às saudações daquela voz. A proprietária
era a mulher mais cobiçada de Fim-de-Mundo, por apresentar um comportamento com aparência educado. Mas, agora, outra face era conhecida.
Feliz coincidência! Dali deviam se retirar. Com todas as despesas
decorrentes Adrenalino devia arcar, nomeadamente os anunciados subsídio
de risco e ajuda de custo. Afinal, a sua ausência do local de trabalho acarretava perda de fregueses, melhores em paga do que este Adrenalino.
Em diminutos minutos, os dois já estavam na quinta do Alfandegário,
arredores de Fim-de-Mundo. Havia muito que a quinta do Adrenalino tinha um
único e ímpar propósito: albergar a felicidade e deleites sexuais do proprietário.
Na própria casa, a esposa de Adrenalino, a Dona Mariamo Carlos,
sofria imenso. Magra que ela era, a infelicidade, agora, se avolumava. Feliz
apenas ela foi, enquanto o marido fora pobre. De minuto em minuto, ela confirmava o ditado: o dinheiro convoca vícios.
Numa única relação sexual, Adrenalino descobriu que a prostiputa
que conhecera era fantástica. Esta Peniscela, pela prática, tinha aprendido a
ser verdadeira mulher de cama. Divorciou-se da sua esposa Adrenalino. Com
Peniscela uniu-se, num recente casamento. Um, dois, três anos, a vida corria
com notável felicidade. Mas, no terceiro ano, Adrenalino descobriu outra
mulher, relativamente melhor que Peniscela. Então, rompeu o casamento
com ela, e casou-se com outra.
Todavia, dessa vez, houve uma inovação. Sim, volvidos alguns meses
de divórcio, Adrenalino procurou Peniscela, para lhe pedir:
― Peniscela, aceitas ser a minha amante?
Incrível! O feitiço virou-se contra a feiticeira. Se ela tinha destruído o
casamento da Dona Mariamo Carlos, que deixasse alguém destruir o seu.
Afinal, a vida acarretava vitórias e derrotas. E em menor número, os empates.
A
experiência tem estado a provar o quão
é difícil elaborar sobre figuras e assuntos grandes. A dificuldade não resiste
muitas vezes na falta de tarimba para o fazer, muito menos na disposição.
Pelo contrário. É que sempre que somos chamados a reflectir sobre gente e
coisas importantes há uma orgia de ideias que nos submete a incerteza e
confunde o pensamento.
Neste desenrolar de ideias vão nascendo filhos e netos que procuram o seu progenitor. Pedra sobre pedra vai sendo construído o império certo de dissertação sobre um jovem, que provavelmente, em pessoa é comum
no meio de tanta “malta” da sua terra Moçambique. A diferença, se calhar
maior, entre a comunidade artística do seu tempo, é a sua forma totalmente
moçambicana de fazer música. Nas suas obras não se procura a cultura
moçambicana, encontra – se. Nos registos deste jovem a poesia e a música
abraçam se e beijam se e sobem ao céu.
Pela profundeza e melancolia da sua voz, sempre que o ouvimos
cantar sentimos saudade de algo que não temos, e que já mais a teremos.
Tem uma voluptuosidade de voz que me recorda Tonny Django, faltando apenas aquele “Groove” que o falecido “Kapa Dech” vincava nas suas
músicas. Sem nenhum suspense e rodeios, apresento vos Sérgio Muambo.
Este menino de Inhambane que ao som da Timbila dançou Ngalanga
e Makhara. Não é por acaso que ao lado do mais velho Jaco Maria esteve
bem no Malsendane, música de um guitarrista pouco conhecido mais muito
maduro, o Crimildo de Caifaz.
Sérgio é romântico, cantou Nsikaty Wamina, o que traduzido de Chope, língua falada nalgumas regiões da província de Inhambane e que traduzido literalmente para Português quer dizer “minha esposa”. Nesta composição Sérgio deixou falar um poeta escondido dentro do seu eu artista. Para
além dos rasgados elogios que faz a sua esposa, apela as mulheres a compreenderem os seus maridos. É um apelo implícito, o que me recorda as
metáforas do velho António Mariva, ou simplesmente Fanny Mpfumo. Por
exemplo Sérgio diz o cito “Nitchilava ku hum angu sexta-feira –wanileka” ou
seja “Ela deixa-me sair até na sexta –feira” e ao longo da composição refere
que a compreensão entre os dois não é bem vista pela sociedade, porque é
tido como um marido engarrafado, logo neste ângulo, encontramos um Sérgio Muambo que defende respeito mutuo entre casais. Mata aquela velha
ideia de que homem que sai as sextas e deixa a esposa em casa é porque
não a ama, é boémio, anda com outras mulheres, enfim é um malandro.
Mas não é só de romantismo que Sérgio Muambo vive. Há que reconhecer o valor patriótico das criações deste artista musical. Esta vertente,
tanto a quanto rara nos dias de hoje, merece aplausos de qualquer apreciador da música moçambicana. Socorro me para argumentar este atributo com
a música “Ntuanano” ou “união” em que Muambo decifra o outro conceito de
música, que é segundo ele, um ponto de convergência entre os povos. E faz
esta reflexão colocando Moçambique no topo das nações, pois usa Tsonga
falado em Maputo e Gaza para catapultar a poesia tradicional de Moçambique, o vulgo Xithokozelo e em momentos agradáveis inclui o inglês que
secunda a união que deve estar presente entre os Homens.
Muito podia eu dizer sobre este jovem mas o seu “ndole” me impede
de continuar, as batidas são tão convidativas que me levam a preguiça e
vibração. Sinto tudo e mais alguma coisa ao mesmo tempo que as ideias
prosseguem a infinita orgia de questionamento; quem é Sérgio Muambo?
16| 15 de Março de 2013
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Conto
A Cidade dos Sete Mares
- Exerto do novo romance do escritor português Victor Eustáquio
H
á uma dor no lugar onde devia haver prazer,
confidenciou várias vezes Tiago Penha sempre que admitia ser um
viciado em sexo, a única dependência totalmente inofensiva para o
corpo; a possibilidade de entender que o sentido da vida não passa do
mero suprimento de necessidades, da satisfação das necessidades
primárias biológicas. E a ideia de prazer era a melhor forma de o
traduzir. É evidente que Tiago não escondia uma certa vontade
venenosa de tentar contaminar os fundamentos do funcionalismo de
Malinowski, tanto mais que reconhecia que o desejo de prazer
pode ter danos colaterais.
Mas logo os remetia para o plano incorpóreo, pelo menos
enquanto uma manifestação directa de causalidade. Mal sabia ele que
seria precisamente pelo prazer que Maria
Clara, já na etapa final da demência dela, lhe desferiria o golpe
capital.
Maria Clara nem sempre fora assim. Quando se conheceram, era
uma mulher tímida e insegura. Mas o tempo dilatou-lhe as veias do
opróbrio e Maria desatou num crescendo de raiva permanente e
degradação moral a todos os níveis. Contra ela própria, contra a família,
contra os amigos, contra o Mundo. Quanto ao móbil, esse, Penha
conhecia bem: ele mesmo, Tiago, o adúltero, Tiago, o cabrão, Tiago, o
depravado, um professo da ignomínia, da infâmia e da torpeza, que
andou a esquadrinhar com particular empenho o interior da vagina de
uma colega de trabalho quando Maria estava grávida dele. Antes de
abortar. Antes de tomar a dolorosa decisão de matar a vida dentro do
seu útero. Para sempre. Renegando as Leis de Mendel e a possibilidade
de cumprir a palavra do Senhor, pela qual se apaixonaria mais tarde.
Tarde demais.
Bem sensatos são os militares ao insistirem que colegas são as
putas.
Demorou mais de duas décadas, mas a sentença acabou por ser
proferida. E cumprida.
Tiago Penha foi vítima de homicídio por envenenamento.
Com diligências várias, e após uma investigação exaustiva mas
secreta sobre o verdejante mundo dos alcalóides venenosos extraídos
de plantas facilmente acessíveis a um olhar botânico mais atento, Maria
Clara, uma mulher apetrechada que a princípio – mas só apenas e
rigorosamente no princípio, antes de descobrir a reiterada e abjecta
prática de infidelidade conjugal do marido – se apresentava como fogosa
e nunca se opunha aos criativos desejos carnais de Penha, que incluíam
práticas sexuais um tanto ao quanto invulgares, decidiu untar a vagina
com cicutina, uma substância tóxica mortal insípida com a aparência de
um óleo amarelado.
Extraída da cicuta, uma planta apiácea também conhecida como
abioto, a cicutina, ou em rigor, a cicutoxina – que ficou inscrita na
História como «o veneno de Sócrates» –provoca o colapso do sistema
nervoso central e, por conseguinte, a morte, que, por sinal, não é coisa
bonita de se ver. Pelo menos desta forma, já que a mors, no sentido da
mitologia greco-romana, até pode assomar de modo exuberante, como
uma bela e flamejante imolação por fogo. Mas não é o caso. Que o diga
o filósofo grego, se ainda falasse, ou escrevesse, após a famigerada
ingestão do chá de cicuta que lhe arrefeceu e enrijou o corpo. É certo
que o ataque tóxico não foi imediato. Sócrates ainda teve tempo de
andar às voltas pelo quarto, mergulhado nos seus profundos e
derradeiros pensamentos até que começou a sentir as pernas
pesadas. E aí sim, depressa passou das voltas pelo quarto ao quarto
às voltas, desaire locomotor que obrigou o pensador ateísta, um
malévolo instigador da corrupção moral dos jovens gregos, a deitar-se
de costas. Os seus carrascos examinaram-lhe os pés e as pernas até
se certificarem de que o filósofo havia deixado finalmente de as sentir.
Seguiram-se as carícias mitigativas da toxina no coração e o princípio
do fim da existência cartesiana, ontológica e epistemológica do
enigmático pai da filosofia ocidental.
“E agora chegou a hora de nós irmos, eu para morrer, vós para
viver; quem de nós fica com a melhor parte ninguém sabe, excepto
Deus”, ter-se-á despedido Sócrates, o ateu, que aparentemente
acreditava no Senhor, como relata o seu discípulo Platão, lançando a
dúvida sacrossanta dos filósofos, que pouco tem de sagrada para o
venerável e sacro conhecimento daqueles que condenaram o
pensador à morte em nome da santidade. E provavelmente de alguma,
ou muita, necessidade de sanidade religiosa para tempos tão
adversos.
Foi pois sob «o veneno de Sócrates» que Tiago Penha
sucumbiu entre as pernas da mulher, com os lábios ainda molhados de
sucos vaginais. E de uma dose letal de cicutoxina. Uma mise-en-scène
clitórica indigna para um homem que sempre se havia mostrado como
um arauto do prazer na sua dimensão mais funcional e, por
conseguinte, mais pura, condenado, também ele, a ser imortalizado,
pelo menos ao olhar de Maria Clara, com a boca caída sobre a púbis
aloirada da mulher e o corpo retesado, nu, de rabo para o ar.
Quem deles ficou com a melhor parte ninguém sabe, ele que
partiu para morrer, ela para viver, mesmo enclausurada. Na loucura. E
num hospício. A cumprir a pena decretada pelo tribunal. Sem
possibilidade de redução da mesma por bom comportamento, que ali
não era coisa boa de se ajuizar. Na prática, absolvida do crime, por
inimputabilidade, mas condenada a pagá-lo perante a sociedade,
como é bom de ver, sob a forma do internamento compulsivo por
tempo indeterminado e em regime fechado para tratamento
psiquiátrico, ou não fosse o mal propagar-se de forma epidémica
contagiando as demais, outras mulheres que porventura do mesmo se
queixem e o mesmo desejem fazer. Porém, Maria pouco se importava
com a questão pelas razões de que estava convencida ter, razões
essas que, do seu ponto de vista, legitimavam em absoluto a prática
daquele nefasto gesto assassino.
O romance pode ser adquirido pela internet nos endereços:
www.recantodasletras.com.br/e-livros/4145189
www.goodreads.com/book/show/17379071-a-cidade-dossete-mares
Entre na página do livro no facebook:
www.facebook.com/ACidadeDosSeteMares
Ou então, entre em contacto com o escritor:
[email protected]
17 | 15 de Março de 2013
Todos os direitos sobre estas fotografias estão reservados ao autor.
Para qualquer efeito é obrigatória a autorização pelo fotógrafo Rogério Rodrigues - Ceará, Brasil.
Outras Artes | Fotografia
Os índios Canindés do Ceará
Rogério Rodrigues - Brasil
[email protected]
O
s canindés (ou Kanindés) são um povo indígena que
vive nos municípios de Aratuba (Sítio Fernandes) e
Canindé (Fazenda Gameleira) no estado do Ceará. São cerca de 705
pessoas.
Os canindés são associados aos janduís e aos paiacus, compondo
grupos que descenderiam dos tarairus. O nome dos canindés está ligado a
seu chefe histórico Canindé, mais importante na tribo dos janduís, que
Portugal à assinatura de um tratado de paz em 1692, tratado este que foi
posteriormente descumprido pelos portugueses. Seus descendentes
ficaram desde então conhecidos como canindés em referência ao histórico
líder e à ancestralidade.
Os canindés têm por
tradição oral serem originários
da área que compreende o
atual município de Mombaça,
tendo percorrido junto aos seus
parentes Jenipapos-canindés
trajeto pelas margens do rio
Curu, passando por Quixadá
entre os rios Quixeramobim e
Banabuiú, até chegar às suas
atuais terras. A história dos
canindés é marcada desde
tempos remotos por uma série
de deslocamentos forçados.
Entretanto, conseguiram os
canindés manter laços de
parentesco entre as duas
comunidades que compõem o
grupo entre o sertão central e a
serra de Baturité.
18 | 15 de Março de 2013
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Outras Artes | Fotografia
Organização
Os canindés possuem forte cultura de caça herdada de seus
antepassados. Têm conhecimento de utilização de diversas armadilhas
como o quixó de geringonça, que utilizam para capturar mocós, tejos,
cassacos, pebas, veados, nambus, seriemas e juritis, tendo sempre o
cuidado de não violar o período de gestação dos animais. O respeito à
sustentabilidade é passado de geração em geração visando à manutenção
da caça através dos tempos.
Em 1996, foi aberto à visitação o Museu dos Kanindé, no qual
merece destaque o trabalho em madeira com instrumentos de caça. Entre o
acervo, além de muitos documentos, documentação e objetos dos mais
variados tipos: bichos (couros, cascos, penas etc.), artefatos (principalmente
de cipó, palha, cerámica e madeira), material arqueológico, indumentária,
vegetais, minerais, fotografias, adornos, equipamentos musicais e para o
trabalho na roça, moedas e medalhas etc. O Museu dos Kanindé, como é
conhecido, surgiu antes mesmo da organização da Associação Indígena
Kanindé de Aratuba (AIKA) em 1998, a partir da sua participação no
movimento indígena cearense. A organização do museu ocorreu
concomitantemente ao processo de mobilização pelo
reconhecimento da identidade indígena. A maior parte do povo
indígena Kanindé forma a
parentela constituída por núcleos familiares extensos moradores da
Aldeia Fernandes, localizada à cinco quilómetros da zona urbana do
município de Aratuba, À cerca de 140 quilómetros de Fortaleza, na
região do maciço de Baturité. Suas principais atividades são a caça e a
agricultura de subsistência. Plantam, principalmente, feijão, fava, milho e
mamona. Durante o processo inicial de mobilização étnica, grande
parcela do grupo assumiu o etnônimo “Kanind锕, com o qual passaram
a identificar-se coletiva e publicamente perante as comunidades
vizinhas, a sociedade cearense e o movimento indígena local.
Inicialmente, tiveram um grande apoio da entidade indigenista
Missão Tremembé, que possibilitou que participassem de projetos e
intercâmbios com outros povos do Ceará e do nordeste. Se autodesignam como um „povo caçador‟. Entre as atividades de subsistência,
a caça é sempre
enfatizada, ao lado da
agricultura, praticada
como complemento
necessário para a
alimentação.
19 | 15 de Março de 2013
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Ensaio
Carta para uma Cabocla*
Lucílio Manjate - Moçambique
A
o apresentar o livro do
Raffael Inguane, Carta para uma cabocla, gostaria de faze-lo em duas partes.
À primeira parte designo
“considerações iniciais”. Julgo que tais
considerações merecerem destaque,
mas sobre as quais não me vou alongar. A segunda parte desta apresentação diz respeito à minha leitura da obra,
naquilo que eu considero verdadeiramente interessante no livro, e tem como
subtítulo “o amor, uma ideia da mente,
não do coração”.
Considerações iniciais
A leitura dos textos líricos que
perfazem as 44 páginas do livro de Raffael Inguane revela o Amor como o
tema de eleição da obra. É comum pensar-se neste tema como sinónimo de
manifestação voluntária ou involuntária
de amor por alguém, como o faz o eu
lírico no poema 21, p. 27:
Estou no presente,
Mas contigo vivo o futuro
Sozinho sou verde,
Ao teu lado sou maduro.
A alguns de nós, versos como estes, certamente, trazem à memória
os tempos em que decorávamos letras de músicas românticas ou rabiscávamos versos encantados para depois, cheios de timidez, dize-los à pessoa
amada.
É comum pensar-se, também, no tema do Amor como sinónimo de
manifestação erótica, imagem erótica da pessoa amada, como podemos
ver no poema 23, p. 29:
Nossos corpos são versos
Em posição vertical ou horizontal,
Eles rimam.
Rimam sexualmente emparelhados,
Sendo nossos genitais conectores
Fazendo de nós uma só estrofe.
Cheia de posições sexualmente estilísticas,
Vaginalforas, analforas e oralforas
E no fim desta poesia,
Estas duas perspectivas de pensar o
tema do Amor, se não forem racionalmente concebidas, devem ser consideradas traiçoeiras, porque corre-se o risco
de cair nas malhas de um exercício artístico fácil, à esfera do senso comum e
estilisticamente fraco, pois o Amor, não
obstante todas as indefinições, é esse
estado de espírito capaz de atravessar o
destino de qualquer Homem e, portanto,
capaz de ser poetizado por qualquer ser
humano sem, no entanto, tratar-se de
poesia.
Senti esta fraqueza em relação aos poemas do Raffael, sobretudo quando ele
faz uma incursão à poesia erótica. Devo
dizer, entretanto, que, comparativamente, em relação à primeira perspectiva, do
Amor como manifestação voluntaria ou
involuntária de amor por alguém, o trabalho de Raffael Inguane revela-se artisticamente melhor conseguido.
O amor, uma ideia da mente, não do
coração
Mas deixemos de lado as considerações
iniciais e passemos ao que nesta obra
marcou-me, ou seja, a perspectiva do amor ser uma ideia da mente, não
do coração. De facto, a obra de Raffael Inguane marca-me por causa da
sua dimensão intelectual ou mental, ou seja, pela capacidade de abstracção que o Raffael demonstra ter e que nos permite pensar no Amor não
apenas como sentimento, não apenas como declaração, não apenas
como sexo, mas, sobretudo, como uma ideia sobre o Homem, sobre o
destino do Homem, uma ideia sobre o mundo, se quisermos.
E o Raffael consegue isso a partir de uma ironia, ou seja,
enquanto lemos os poemas, vemos uma mulher a quem o eu lírico se
dirige, mas acabamos por descobrir que, afinal, o pensamento é mais
sublime, é um pensamento sobre o mundo que nos rodeia; Raffael
Inguane pensa o nosso destino.
Destino, aliás, é uma palavra-chave para lermos esta obra. De
facto, Carta para uma cabocla é atravessada por um passado, um presente e um futuro. Estes três tempos traduzem, afinal, o essencial de
uma carta, a ideia de que alguém escreve ou pode escrever (no Presente) sobre algo (que pode ser um passado) para outrem (que, num futuro,
vai ler a carta). Não vejo, portanto, a ideia da carta nesta obra senão
enquanto representação dessa cadeia comunicacional entre passadopresente-futuro.
Vejamos, então, o que há no passado.
O passado, nesta obra, é o tempo da nostalgia. É no passado
que o amor à cabocla se encontra ancorado, como demonstram as formas verbais e o nosso destaque no primeiro poema do livro, p. 7:
Os orgasmos também querem rimar.
(Continua na página 21)
20 | 15 de Março de 2013
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Ensaio
(Continuação da página 20)
Prendeste-me no cativeiro dos teus braços,
E é aí,
Revisitei meu passado,
Onde eu quero ficar,
Encontrei algumas cartas de amor.
Por muitos e longos anos.
Manuscritas,
Contendo palavras e desenhos românticos,
E senti o cheiro doce do perfume do tempo
[...]
E hoje, eu quero entrega-las a ti.
Revisitar palavras e desenhos românticos, o cheiro doce do perfume do tempo e querer entregar esse passado e os seus objectos à entidade que se ama pode significar reviver esse amor, pode significar que esse
amor não se extinguiu. Portanto, a nostalgia aqui plasmada é, como disse,
a âncora do sujeito poético. Isto é o que podemos ler à primeira vista.
Mas se pensarmos na perspectiva da ironia, podemos admitir que o
que o Raffael nos sugere é que todo o passado que se ama revela-se a
ancora das nossas vidas. O Amor aqui deve ser entendido, portanto, como
esse estado de espírito sublime, capaz de reivindicar qualquer coisa que
nos faça sentir melhores, esteja essa coisa no passado, no presente ou no
futuro. Há gente que acuse os outros de terem parado no tempo ou de
serem sonhadoras, portanto, com os olhos fitos no passado ou no futuro.
Alguma vez paramos para nos perguntarmos o quanto essas pessoas
amam esse passado ou esse futuro?
Vejamos, agora, o que nos diz o presente.
A manifestação do tempo presente em Carta para uma cabocla
parece estar vinculada à urgência do eu lírico declarar-se à entidade que
interpela, que ama. Basta ver-se a forma como os verbos estão conjugados nessas declarações de amor. E aqui, é interessante perceber o desejo
ardente que atravessa o eu lírico, uma avidez, uma obsessão que chega a
traduzir um ideal, uma imagem que faz a fusão entre aquele que ama e a
pessoa ou coisa amada, como podemos verificar no poema 6, p. 12:
O desejo de estar preso, esta utopia de um amor perene, eterno,
não podia encontrar melhor representação senão no sonho. O sonho assume, de facto, na representação deste desejo de um amor que dure para
sempre, um lugar de destaque. Vejamos o poema 27, p. 33:
Não me acordes,
Deixa-me sonhar,
Porque é no sonho onde eu te encontro.
Sentada num jardim,
Algures no paraíso,
Perdida entre flores.
É no sonho,
Onde caminhamos de mãos dadas,
Sobre as areias da praia da vida
Falando e cantando sobre o amor.
Não me acordes,
Deixa-me sonhar contigo,
Sentindo minha boca em tua boca
Minhas mãos percorrendo teu corpo.
Tua nudez colada a minha,
Nas pedras que barreiram as aguas da praia
Sem temer populares e policias.
É no sonho,
Entre tu e a natureza
Eu não sei o que é mais belo,
Ver-te olhar para o mar,
Ou ver ele olhando para a imensidão da tua beleza
[...]
Onde encontro a felicidade
Vivo a beleza misturada com magia.
Mas me entristeço,
Quando acordo para a realidade,
E não te encontro em minha vida.
Eu não sei o que é mais doce,
Ver-te com o mel na boca,
Ou ver ele louco para sentir a doçura do teu beijo.
Eu não sei de onde vem tamanha beleza,
Mas sei que em ti vive o reflexo da natureza.
Como se vê, se na amada se reflecte a mãe Natureza, enfim, o universo onde o eu lírico também se insere, isto sugere-nos que o próprio eu
lírico se reflecte nela, ou seja, é representado por ela, mais ainda, pode ser
anulado por ela, uma vez que sem a amada não existe.
De facto, a vida não faria sentido sem o reflexo, sem algo onde nos
pudéssemos rever. Temos a noção da nossa existência nesse intercâmbio
quotidiano de reflexos, onde nos revemos nos outros. O amor tem, aqui,
portanto, uma imagem de solidariedade, de harmonia com o mundo que
nos envolve, pois a estabilidade depende da capacidade de cada um deixar-se reflectir num Outro.
Para terminar, vejamos o que nos diz o futuro.
Em Carta para uma cabocla, o futuro é a utopia do Amor eterno,
como nos diz o eu lírico no poema 5, p. 11:
O sonho e a ideia de futuro partilham a capacidade de serem uma
incógnita, de não se deixarem conhecer, mas revelam as aspirações
humanas. Há-de ser por causa dessa indefinição, por causa dessa incógnita, que o eu lírico se realiza amorosamente apenas no sonho, onde encontra a felicidade, onde vive essa beleza paradisíaca e mágica, para depois
se entristecer ao acordar e deparar-se com a realidade.
Aqui está o ponto: como conciliar o que desejamos, o que sonhamos, as nossas utopias, enfim, o que amamos, com a realidade que nos
envolve? Esta parece-me a pergunta de fundo que se pode descortinar
desta relação amor-sonho-futuro. E porque falamos em futuro, espero que
o Raffael Inguane nos responda no seu próximo livro.
////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////
*Texto de apresentação do livro Carta para uma cabocla, no dia 15
de Fevereiro de 2013, no Instituto Cultural Moçambique Alemanha,
em Maputo.
21 | 15 de Março de 2013
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Ideias Finais
Retalhos
A estranha coisa de ser coisa
Eduardo Quive - Moçambique
[email protected]
Cara amiga Palmira, como acordou Díli?
H
oje saí, quando eram quase duas de madrugada, para
espreitar a rua que se exilava no silêncio, depois de um alongado esforço,
quase vencido, de apanhar sono, ensaiado desde as dez da noite. Quando estou em momentos de uma aflição criativa, fecundação de ideias,
tenho sempre estas crises de sono a favor dos sonhos, desejos, ambições e, modéstia parte, alguma vaidade que se enraíza à medida que
este ósseo de escrita/leitura e criação, pega-me pela espinha dorsal.
Quando as plantas florescem, acordam os meus instintos alquímicos e
quando nascem os frutos, já estou na quinta gestação. É como se pela,
estranheza das coisas, tudo fosse uma agressão à minha integridade
poética.
Mas a rua estava realmente só nessa madrugada. Como não é
costume da rua “O” o silêncio tranquilo, foi como se durante a soneca que
me atingiu e que me fez dormir (quase sufocado aos livros), com o computador entre as pernas na cama desarrumada desde as últimas chuvas.
Não entendo esse meu jeito “coisa” de ser. Só me aprumo na escrita e
noutras dicotomias, utopias. Vejo-me distante das coisas, porém, no enredo dessa última noite, penso que fiquei uma diversidade de coisas.
Vai perdoar-me esse devaneio. É que esta é mesmo uma carta
sem um assunto mais urgente. Mas quando acordei é que senti essa distância entre as coisas. Então lembrei-me da saudade que estás a ter dessa invenção do outono. É que nesta minha Matola só o calor assa a
minha pele negra que se vislumbra às vezes que chove. As chuvas são
realmente um ritual sagrado nestes últimos tempos que os deuses se zangaram. Fala-se de um total abandono desses nossos túmulos que não
reivindicam nada, se não alguma lembrança, o que é justo, entendes? Aí
inventei um título para uma possível passeata poética em livro, “Ou então
amar(r)emos a chuva”, em que um dos poemas introdutórios diz:
a vida, como a chuva,
é um poema perdido
ache-a
Mas eu tenho o meu outono. Eu tenho as minhas chuvas. Eu
tenho o meu inverno nevado. Contudo, entre a Vodka russa à uma 2M
moçambicana prefiro sempre, sinceramente, a ceivada congelada a
engendrar pelo esófago fervescente. Apascento aí o meu lado cómico,
amigável e conversador. De resto, sou uma coisa. Um Dantas Coisinhas,
sabes? Aquele que tem o silêncio imparável para ouvir os Barrulhos da
poesia; aquele que tem a infindável versão do deserto para escalar montes de livros, um Ferreira Gullar, por exemplo, ou uma Florbela Espanca
enquanto leio repetidas vezes Pessoa e a sua Mensagem num diálogo
prudente com Sebastião Alba (esse é moçambicano). Nunca dispenso um
Henri Lopes, esse exímio escritor Congolês, que me foi recomendado por
Conceição Lima, são-tomense, essa também que encanta-me repetidas
vezes nos seus livros “O Útero da Casa”, “O País de Akendenguê” e “A
Dolorosa Raiz de Micondó” ou um García Marquez a Pablo Neruda que
sempre me leva ao angolano José Luís Mendonça neste seu último “Esse
País Chamado Corpo de Mulher”, e vou consumindo a da demanda de
novos nomes literários que militam fortemente na boa escrita. Quando
posso recito os Salmos de David, o rei, quando enaltece as glórias à
Deus; parece-me que às vezes o rumo das coisas é repetitivo, não acha?
Bem, o que queria dizer (agora lembrei-me que tenho um assun-
to!) é que ontem senti a rara saudade de ser um pedestre. Andei bastante,
quase que me recordava do dia que voltei da Baixa da cidade de Maputo
a pé com David Bamo, tempos bons aqueles do nosso Matolinhas
(programa de rádio em que colaborávamos) ou da vez que voltamos lá da
capital da minha Matola, deve ter sido pelos anos 2004/5, quando o Carlos Tembe (antigo edil já falecido “paz à sua alma”) mantinha viva a sua
tradição de conviver com as artes e os artistas e, nós, éramos actores de
teatro. Mas o melhor de tudo isso é que dessa vez não precisei andar em
Maputo com David ou com Amosse Mucavele (deste até sinto saudades),
estava com uma musa, uma mulher. Aí juntei as coisas (ainda essas
estranhas coisas), porque, ao contrário de muitas vezes que leio Crónicas,
na manhã anterior tinha lido o Cântico dos Cânticos (4; 5-7)na Bíblia
Sagra. É verdade que não sou um evangelista, muito menos um leitor
assíduo da bíblia; não sou também nenhum encantado, mas sou aquele
que canto aos meus amores no exemplo desta musa. Aí senti a estranha
vontade de ser outra coisa. Um menos aéreo, por exemplo, acho que viajar por terra é sempre melhor. Imagine que tivesse ido à Luanda via terrestre, quantos solos africanos conheceria? Ou então tivesse chegado à
Fortaleza através dos barcos, pelo oceano Atlântico, partindo da minha
paixão exacerbada pelo meu Índico, esse em que os poetas amam, fornicam com a poesia e que, ainda jazem algumas peças de embarcações
dos marinheiros portugueses ou dos indianos? Um dia desses, podes
crer, os ventos e os chãos trar-me-iam à Díli num desses barcos a vela
dos pescadores da Costa do Sol! Andar com uma musa tem muito disso,
os caros da cidade, as estradas esburacadas à mistura do cheiro nauseabundo dos esgotos, as gentes que correm apressadas… tudo isso se
recompõe como a primeira versão da cidade, por exemplo ou seria a
inversão!
Enquanto isso, a madrugada continua a ser o santuário de muitas inspirações ao som do nostálgico Steve Kekana, Cesária Évora, Lindomar Castilho, Salif Keita, Hugh Massekela, Moses Khumalo com o seu saxofone e,
inevitavelmente, alterno com o moçambicano Zoco Dimande e Aly Faque
até ao músico que só ele sabe afastar os meus fantasmas para os seus
zénites e tapa o buraco dos precipícios que tem a minha alma noturna e
errante, o Tony Django. Ou então, quando não escuto repetidas vezes, o
Sílio Paulino, o José Mucavel, Costa Neto, Cheny wa Gune e os Gorwanes, escuto a voz de Cabo Verde, Tcheka, na sua “Dor de Mar” que me
foi, gentilmente, oferecido pelo amigo, Filinto Elísio, (também caboverdiano) autor de boa poesia instintiva/intuitiva e filosófica, como “O Inferno do Riso” e “LI CORES & AD VINHOS” e os poemas declamados dos
amigos, Lopito Feijóo, Ronaldo Werneck e José Inácio Vieira de Melo, a
José Craveirinha.
Por tudo isso ainda continuo a encarrar com estranheza as coisas
que sou. Se ainda me fosse possível escrever mais um parágrafo, era
hoje que respondia as suas missivas que já as intitulo, num livro imaginário “incursão à Timor por via láctea ou as correspondências amanhecidas
de uma amizade incandescente”. Mas não podia terminar sem partilhar a
carta vespertina que me foi enviada quando eram 6:21:01 da manhã de
ontem, por uma amiga chamada Niloka. Não soube responder a sua aflição, não sei se encontrará alguma resposta, ela está mesmo aflita, como
também fiquei quando li a SMS que terminou com o injusto voto de bom
dia:
“Não imaginas como fico quando vejo uma criança deitada no chão tentando, com a camiseta esticada, cobrir as pernas quando o frio ataca sem piedade. Ai que dor!!! Tranquiliza-me saber que no meio do frio e com o estômago
vazio, de certeza, ele dorme profundamente e longe de imaginar tudo que ele vai
enfrentar mais um dia imprevisível. Bom dia, meu amigo” – finalizou.
Matola, 09 de Março de 2013
Rua “O” (Av. Mártires da Machava), Nº 904.
22 | 15 de Março de 2013
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A formação do leitor e o texto literário africano