FANFICTION: IMPULSIONANDO PRÁTICA DE LEITURA EM TELA E PRODUÇÃO TEXTUAL ENTRE ADOLESCENTES. Orientador: Prof. Dr. Alexandre Maia (UFPE) Autora: Rafaela Rogério Cruz (UFPE) RESUMO Este trabalho pretende compreender a dinâmica das Fanfictions (ficções escritas por fãs), bem como promover propostas pedagógicas em torno desta modalidade textual. Tendo como base dois dos principais sites( um nacional e outro internacional ) de hospedagem deste gênero textual, pretende‐se aqui expor o funcionamento da relação autor/leitor, a faixa etária desses autores, as discussões sobre questões legais, especificidades de publicação, a relação cannon(a obra base das fanficionts)/fanon( o que é aceito pelos fãs) e como/se essa dinâmica poderia ser levada para sala de aula a fim de impulsionar a produção textual e a prática de leitura, não só em tela como a convencional, entre adolescentes. PALAVRAS‐CHAVE: fanfictions, produção textual, adolescentes, internet, prática de leitura. ABSTRACT This work seeks to understand the dynamics of fanfictions (fiction written by fans), in addition to promote educational proposals on this textual form. Based on two major sites (one national and one international) to host this kind of textual production, this article aims to explain the relationship between readers and writers, their age, some discussions on legal issues, specifics of publication, the antagonism between the canon (the original product) and fanon (which is accepted by fans) and how/if the fanfiction gear could be brought into the classroom in order to stimulate both textual production and reading skills among adolescents, not only online but also on regular ways. KEY‐WORDS: fanfiction, internet, adolescents, textual production, reading skills. 1. INTRODUÇÃO: Pequena Garota Weasley adorava cada gota de chuva que batia na sua janela, adorava cada bater e o silêncio que se sobrepunha em seu coração após o choque das gotas com sua janela, ela também adorava o cheiro da chuva na terra, o cheiro de fertilidade, de começar de novo. Ela previa o recomeço de algo que nem sabia ter acabado, ela sentia o cheiro da vida. Menina Virginia, rica em sonhos, amava deitar em sua cama e sentir o aroma familiar de seu lençol com saudades de casa e da barra da saia de sua mãe. Sarah Brighton e Bellatrix Amarante, E o mundo todo seria nós dois, FanFiction.net Cada vez mais, produções como essa tem encontrado espaço e público através das facilidades oferecidas pela grande rede. Esse gênero textual, conhecido como Fanfiction, tem raízes muito mais antigas que a grande explosão tecnológica iniciada no final do século XX. Em meio à História pode‐se observar a enorme produção textual feita em torno de grandes obras como o “Dom Quixote” de Cervantes, que em meados do século XVII teve continuações não autorizadas publicadas. Porém não só o escritor espanhol teve sua obra servindo como base para outros trabalhos; o universo maravilhoso de Alice, criado por Lewis Carrol, até hoje inspira produções, tanto no âmbito literário como nas artes plásticas e audiovisuais. Mesmo as fábulas registradas pelos irmãos Grimm, de tanto passar de narrador para narrador, adquiriam novas formas, enredos e personagens. Embora tenham a mesma intenção inicial de se utilizar de um universo já criado e de personagens já desenvolvidos, as fanfictions on line servem a um propósito diferente e detêm um funcionamento completamente distinto das fanfictions impressas ou narradas oralmente. As produções na rede não reunem maiores pretensões literárias e nenhuma intenção lucrativa, um trabalho que embora seja verdadeiramente amador, no sentido de quem faz algo por amor e prazer, tem na relação bivalente entre autores e leitores um estímulo para melhorar. E que nas regras firmadas encontram a segurança para estabelecer um nível razoável de ordem formal nas comunidades ou fandons (plural de fadom; a junção dos termos em inglês fan e kingdom, i.e reino ou domínio de fãs). A produção de fãs na grande rede é território de interação e liberdade criativa, troca de impressões e habilidades, desenvolvimento comunicativo, maior apropriação do sistema lingüístico materno, possível aprimoramento de uma segunda língua, livre produção textual e de uma linha editorial possível para os milhões de jovens escritores. 2. FUDAMENTAÇÃO TEÓRICA O primeiro obstáculo imposto às fanfictions online é justamente o fato de elas estarem hospedadas na rede. A leitura na tela do computador ainda parece ser bastante problemática para uma grande parcela dos que se dizem bons leitores. A Profa. Dra. Carla Coscarelli expõe no oitavo capítulo do livro Letramento Digital, de sua organização, uma visão interessante da leitura em tela. A autora afirma ser uma evolução natural, como na passagem papiros aos códices até chegarmos aos nossos livros de bolso atuais, ou seja, o objeto de leitura vai se modificando com o passar do tempo e com as novas necessidades do leitor. Pois a leitura não é uma simples decodificação, mas sim uma atividade cognitiva que exige do leitor certo nível de conhecimento e abstração. Os avanços do suporte da leitura são naturais, feitos para alcançar as exigências do leitor. Trata‐se, então, de um ciclo inteligente e versátil, ao qual, qualquer ser humano deveria estar acostumado (Coscarelli 2005). Embora o trabalho acadêmico acerca das fanfictions ainda seja escasso, as pesquisa feitas pela Profa. Dra. Rebecca W. Black e pela Dra. Juli J. Parrish são de extrema relevância para este artigo. Black (2006) explica que esse gênero textual , bem como seus autores, sofre uma grande influência da cultura pop. Influência tal que é trazida de comunicação, pelos adolescentes, pra o universo virtual. A autora defende, ainda, que os sites os quais hospedam essas produções funcionam mais como um celeiro para troca e parceria no desenvolvimento textual dos participantes do que realmente um arquivo para produções completas. Para Parrish(2007) a importância está na interação dos autores/leitores, que deixam comentários nos trabalhos uns dos outros, e no desejo de produzir e ler. Sendo assim, faz‐se presente a quebra do dogma de sala de aula ou de oficinas literárias, no espaço virtual de produção todos podem exercer ao mesmo tempo o papel de professor e aluno; deste modo a troca é rápida, verdadeira e produtiva. O contato com outras culturas, através do largo raio de alcance geográfico que as fanfictions online possuem, desenvolve a necessidade de se apropriar de uma cultura materna a fim de transmiti‐la. Para então poder, no fim, tornar‐se um cidadão capaz de abstrair discursos socialmente abrangentes, apropriado da cultura mundial e detentor de uma sofisticação comunicativa e relacional. 3. O FUNCIONAMENTO DO PROCESSO DE PRODUÇÃO DAS FANFICTIONS. Este trabalho usará como base de pesquisa o arquivo de fanfictions sobre Harry Potter em dois sites: o FanFiction.net e o Aliança3Vassouras.com. Reunidos em torno de um núcleo criativo, normalmente advindo da cultura pop, jovens e adolescentes ( principalmente entre 12 e 22 anos) montam comunidades criativas em sites de fácil acesso. 3.1 COMPREENDENDO A FANFICTION COMO ELEMENTO CIRCUNSCRITO NO FANDOM. Como já dito, a palavra fandom é a junção dos termos em inglês Fan (fã) e Kingdom (Reino). Isto é: reino, domínio ou lugar de fã. Deixando para trás o estudo etimológico do termo e partindo em busca de uma definição mais contundente, temos que Fandons seriam subculturas motivadas e organizadas por um interesse coletivo a cerca de um texto midiático específico( Parrish 2007). Embora estejamos pouco familiarizados com os termos concernentes a esse tema, os fandons são muito mais comuns e recorrentes do que se possa parecer. Ainda na década de 60, quando o seriado Jornada nas estrelas (Star Trek) virou sucesso mundial, os jovens já se reuniam para trocar opiniões, formularem teorias e produzirem ‘fan material’ ao redor da série. Esse produto de fãs materializou‐se em forma de fanzines (aglutinação de fanatics magazine), revistas editadas e publicadas por fãs, nesses fanzines eram publicadas produções gráficas, novidades sobre o seriado em questão, teorias de fãs e as fanfictions na forma que conhecemos hoje. Obviamente, os fandons não ficaram restritos às séries de tv e nem encontram forma única nas fanzines. Grupos de fãs têm sido formados ao redor de livros, vídeo games, revistas em quadrinho, desenhos animados, bandas, estilos musicais, personalidades, entre outros. Dentre os maiores e mais produtivos fandons da atualidade, encontramos séries de livros como Harry Potter e Senhor dos Anéis; e os mangás e animés, produtos japoneses dos gêneros: história em quadrinhos e desenho animado, respectivamente. Bem verdade que os fandons poderiam ser restritos a simples reuniões de fãs, meros observadores reunidos para expressar admiração e familiaridade por uma produção. Porém a necessidade criativa surge, se não para criar algo completamente novo, ao menos para reverenciar algo de forma única, podendo assim demonstrar sua individualidade dentro do coletivo que é o fandom. O fandom de Harry Potter, que é hoje o mais produtivo na rede, teve o seu aumento na produção de fanfictions entre o meio do ano 2000 e final de 2003. Esse tempo de pouco mais de três anos é o período entre a publicação do quarto para a do quinto livro da série. Até então os fãs tinham acompanhado uma publicação regular, onde o tempo entre o lançamento de um livro e o seguinte era de apenas um ano. Esse hiato produtivo da escritora inglesa J.K Rowling (autora da série Harry Potter) levou os fãs a produzirem mais histórias envolvendo os personagens e cenários da série. Motivados tanto pela necessidade de manter contato com um universo criativo já existente, quanto pela possibilidade criativa que o tempo de lançamento entre dois livros, de uma mesma série, pode proporcionar; os integrantes do fandom de Harry Potter produzem cada vez mais e melhor. Os fandons têm se ampliado ainda mais a novos tipos de produção. Além das fanfictions, existem as fanarts (produções gráficas), os vídeo‐montagem ( que contam histórias no formato de pequenos filmes) e até mesmo uma produção musical ( o maior exemplo disso é o ‘wizard rock’, uma construção musical onde as bandas fazem letras sobre os personagens, elementos e passagens da série Harry Potter). As fanfictions são, portanto, o mais expressivo, porém não único elemento gerado pelo fandom. 3.2 AUTORES E LEITORES; POR QUE FANFICTION? Segundo Parrish(2007) apenas no site FanFiction.net há mais de 950,000 fanfictions postadas e 220,000 escritores cadastrados. Um montante significativo de produção textual, realizado em mais de 30 línguas. Desde as mais expressivas mundialmente, como inglês, francês e chinês; passando pelo escandinavo, polonês e esperanto; através do remoto idioma persa, conhecido como farsi; o hebreu, o aramaico até chegar às clássicas grego e latim. Não é de agora que se fala nos problemas da nova geração com leitura e produção textual. Tanto pais quanto professores se queixam que os jovens perderam o interesse na leitura e na produção textual; que estes procuram apenas formas de lazer rápidas e apontam a internet como um grande responsável nas lamentáveis estatísticas. Porém, os números de um único endereço eletrônico nos mostram um estrondoso interesse, pessoal e voluntário, na produção e leitura de um determinado gênero textual. Quais os principais estímulos trazidos pelas fanfictions, estímulos tais que a escola tem falhado em reproduzir? Os jovens têm buscado seu próprio jeito de ler e produzir como querem, o que querem e onde querem. Tal busca tem encontrado lar nos mais de 58,000 endereços que hospedam fanfictions na grande rede. Primeiramente, para tornar‐se um leitor de fanfics, é necessário que o jovem ‘esbarre’ com esse tipo de texto na internet. Comumente, os sites de fanfictions não fazem propaganda de si próprios em outro sites. Para achar um desses endereços eletrônicos você deve estar procurando a coisa certa. Mas o quê? O primeiro contato surge quando o adolescente está fazendo busca on line a cerca de determinado texto midiático. Isto é, procurando saber mais, obter novidades, conhecer outros fãs do anime, mangá, livros, seriado de TV ou filme do qual ele é fã. Eles estão em busca não de informação em revistas ou jornais online, mas de informações advindas de outros fãs, pois essas são mais freqüentes, comprometidas e específicas. Então, se um adolescente procura saber sobre harry potter, através de qualquer site de busca ele poderá encontrar milhares de sites relacionados e fóruns do fandom. Tanto sites como o potterish.com quanto fóruns como o pottervillage tem seções específicas direcionadas à fanfiction. Após esse primeiro contato, então, entusiasmado com a perspectiva de ler histórias envolvendo personagens com o qual tem bastante familiaridade e até mesmo enorme afeição, o jovem passa a buscar outros endereços relacionados a fim de consumir uma quantidade ainda maior desse tipo de produção. Posteriormente, familiarizado e à vontade com a idéia de uma diferente produção textual, o adolescente deve tomar a decisão: continuar apenas leitor ou tornar‐se um autor/leitor? A escolha por tornar‐se também um produtor passa por 3 principais razões: I – O desejo crescente de estar em contato máximo com um universo ficcional, com o qual esse adolescente tem uma relação íntima e prazerosa , o poder de dividir com outras pessoas todos os “e se...” que lhe ocorrem quando lêem o livro ou assistem ao desenho animado do qual são fãs. II – Sendo a produção feita majoritariamente por jovens e adolescentes, esse novo leitor vai se sentir seguro e capaz ao notar que o autor de uma ‘fanfic x’ está na mesma faixa etária que ele. Há, em tal caso, a quebra do sacro. A produção textual aparece, então, como algo verdadeiramente alcançável e permitido sem nenhuma censura ou qualificação pejorativa. Possibilitando que esse jovem sinta‐se capaz de começar, ele mesmo, a produzir suas idéias e teorias. III – A preservação da identidade proporcionada por um pseudônimo. Ao se cadastrar num desses espaços é requerido que o autor faça um username (nome de usuário). Nome esse que pode ser o nome verdadeiro do adolescente, mas normalmente trata‐se de um pseudônimo, que na maioria das vezes está intimamente relacionado com o Fandom escolhido, como por exemplo, Bellatrix Amarante, Katty Malfoy e Gisele Weasley, os quais estão ligados a nomes de personagens da série Harry Potter. Todos esses, e outros fatores que veremos a seguir, tornam a fanfiction um gênero atraente e possível aos jovens consumidores de cultura pop. CÂNON OU FANON? A BATALHA DOS SHIPPERS. Há produção de fanfictions em diversos tipos e formatos, elas podem ser: romance, aventura, drama, comédia, suspense, horror, sobrenatural, ficção científica e outros menos comuns como dor/conforto e crossover (onde há mistura de mais de um fandom, por exemplo, levar os personagens de Senhor dos Anéis para batalharem ao lado dos de Harry Potter contra o mal). E os formatos podem ser: longfics, fanfictions com vários capítulos; shortfics, fanfics de apenas um ou dois capítulos; drabbles, pequenas histórias contendo entre 100 e 500 palavras; poemas e songfics, que são histórias onde o enredo é inspirado na letra de uma música. Embora os tipos e formatos de fanfictions sejam bem abrangentes, independente da escolha por suspense, ficção científica ou qualquer outro gênero, o adolescente costuma situar o enredo em volta de um relacionamento amoroso principal. Motivados ou pela falta desta temática nas produções das quais são fãs ou nos hormônios adolescentes em polvorosa pelas descobertas da vida cotidiana, é comum que antes de começar a produzir, se escolha os ships que vão ser seguidos, provavelmente, em todas as histórias que eles vierem a produzir. Assumir um ship, abreviação de relationship, ou ser um shipper, significa focar num relacionamento amoroso e ser partidário deste ship específico contra outros. Por exemplo, em Harry Potter há três personagens principais: Harry e seus dois melhores amigos Ron e Hermione. Até o penúltimo livro da série nenhum dessas três personagens se relacionou de forma romântica um com outro. Porém os fãs adiantavam esse desfecho e escreviam histórias H/Hr (ou H²) onde Harry e sua amiga Hermione terminariam juntos e felizes para sempre. Ou então H/R, onde Ron e Hermione desenvolveriam o relacionamento que estava desde o começo implícito na série original. Essa batalha H/H vs. H/R é a ilustração perfeita entre quem apóia o cânon e quem parte para o fanon. Cânon, como já diz a palavra, significa preceito, ou seja, o que é estabelecido e aceito na série original. Já o fanon é o que é permitido no universo dos fãs, o possível no fandom. Não é necessário que se escolha o cânon ou o fanon para produzir, eles podem conviver mutuamente numa mesma fanfic. Por exemplo, numa história pode‐se usar o cânon do casal Ron/Hermione e trazer Ron e Harry como irmãos, o que seria fanon. O importante da diferença entre o cânon e o fanon não é a rivalidade entre quais shippers produzem as melhores fanfics. Válido, sim, é observar que o fanon é uma oportunidade de alargar as barreiras criativas. Embora o jovem goste do universo e de seus personagens, ele sente o ímpeto de criar novos rostos, vontade de discordar do cânon e a necessidade de fazer valer a sua própria idéia. 3.3.1 A NÃO ARBITRARIEDADE DO FANNON: A SÍNDROME ROMEU E JULIETA. Embora pareça aleatória, a decisão entre o cânon e o fanon segue linhas, muitas vezes, clássicas. Um dos shippers mais famosos no fandom de Harry Potter é o chamado DG, isto é, a relação amorosa entre dois personagens: Draco Malfoy e Ginny Weasley. No cânon, isto é, na série original, Draco e Ginny compartilham de pouca interação, ilustrada por um único diálogo direto. O principal casal cânon da saga Harry Potter é o formado pelo protagonista e, a irmã de seu melhor amigo, Ginny Weasley. Contudo, através da intertextualidade, muitos fãs preferem trazer o molde Romeu e Julieta de Shakespeare para o universo potteriano. Os Malfoy, a (família de Draco) e os Weasley (a família de Ginny) são opostos e inimigos declarados na saga Harry Potter. O apelo clássico de dois amantes contra suas famílias, crenças e nomes; e o eterno clichê da atração dos opostos parece o suficiente para recrutar milhares de jovens leitores e produtores de fanfiction. Esta síndrome Romeu e Julieta é tão expressiva que 20% de todas as fanfictons de Harry Potter em língua portuguesa no fanfiction.net são dedicadas ao casal DG, contra apenas 7% do cânon Harry/Ginny. A formação de novos enredos e relacionamentos dentro das fanfics, então, é motivada não apenas por uma vontade de mudar e jogar com um universo ficcional já criado. É uma produção que, como qualquer outra, não está livre dos clássicos. Ao contrário, assim como outras produções, as fanfictions também são releituras de grandes cânones da produção mundial. 3.4 ESCLARECENDO, CLASSIFICANDO E CORRIGINDO: O PROCESSO EDITORIAL DAS FANFICTIONS. Verdade que o universo das fanfictions é puramente amador e muitas vezes infantil. Porém tal amadorismo não impede a criação de uma linha editorial organizada nem de um desenvolvimento de normas que, de certa maneira, regulamentam e asseguram o bom funcionamento da produção. Depois do primeiro contato com fanfics, a decisão de tornar‐se um autor e as escolhas entre o cânon e o fanon, é preciso ainda que vários ajustes sejam feitos antes que a fanfiction, finalmente, chegue a ser publicada no site. A expressão ‘Trabalho derivado’ é uma das modernas definições de fanfiction, e por causa dela vários processos legais são movidos concernentes a produção de fanfiction. Porém, os grandes sites como o fanfiction.net só disponibilizam espaço para a publicação de fanfiction se o autor da série original não fizer objeções contra a produção amadora. Além disso, a grande maioria dos sites exige que, antes de tudo, todo autor de fanfiction coloque no início do texto o disclaimer, isto é, uma declaração de que os personagens e cenários utilizados da fanficton pertencem única e exclusivamente ao criador da série original. E mais, ele deve especificar que não está tendo lucro algum sobre a produção da fanfiction, sendo este um trabalho puramente amador. Seguindo o processo para a publicação faz‐se preciso uma classificação de todo o material produzido pelo fã, o qual irá determinar a qual público sua fanfiction pretende atingir. O sistema de classificação geralmente usado nos sites de fanfictions é mesmo dos filmes e programas de TV: G, para a audiência em geral; PG, para crianças a partir de 8 anos; PG‐13, para adolescente a cima de 13 anos; R, para jovens menores de 16 anos e NC‐17 apenas para ‘adultos’ com mais de 18 anos. Essa classificação é feita, levando em consideração linguagem, violência e temas adultos como morte e sexo. A classificação é trazida no corpo inicial do texto, desta maneira: Título da Fic: O Sorriso Secreto Autora: Flora Fairfield Tipo: Drama Classificação: G Sinopse: “...e meu coração acelerou conforme a grande fraqueza da minha família foi revelada diante dos meus olhos. Minha respiração ficou presa no peito por alguns instantes e, durante longos momentos, a única frase que escapou dos meus lábios foi: ‘Meu Deus!’” Disclaimer: Eles não são meus. São da J.K. Rowling e da Warner. Não tenho intenção (e com certeza absoluta não vou) de ganhar dinheiro algum com essa fanfic. Finalmente, depois de devidamente especificada como material amador e classificada quanto à faixa etária pretendida é hora da edição. Ultimamente tem surgido nos jovens produtores de fanfiction, um cuidado com a língua materna em sua norma padrão. A despeito de todo o alvoroço feito pelos puristas em torno do internetês que circula pelos blogs, comunidades, chats e outros espaços de texto escrito na rede, os sites de fanfiction não aderiram a esse novo ‘dialeto’. Tanto o FanFiction.net quanto o Alianca3vassouras.com têm uma seção com nomes e e‐mails de fãs que se disponibilizam para editar as fanfictions um dos outros, esses editores são os chamados Betareaders, ou primeiros leitores. Embora não seja obrigatório o uso de um betareader do site em questão, é imperativo que todos os textos passem por uma revisão minuciosa, feita por um outro adolescente, tendo em vista a correção de erros de caráter ortográfico e/ou gramatical. Os produtores de fanfiction embora pratiquem uma produção amadora, buscam aprimorar o processo criativo e os métodos de publicação. Preservando, não apenas o texto midiático a qual estão ligados, mas também, a língua materna (enquanto instrumento de produção) e a política editorial de publicações impressas comuns. 3.5 R&R: A INTERAÇÃO CRÍTICA AUTOR/LEITOR. Depois de um cuidadoso processo, as fanfiction finalmente chegam aos sites, e como em toda publicação, as impressões e respostas dos leitores são esperadas, ansiosamente, pelo autor. E é justamente na particular interação autor/leitor que o gênero fanfiction encontra o seu maior valor. As fanfictions são publicadas um capítulo por vez nos sites, em cada capítulo há espaço para o autor deixar uma pequena nota aos leitores, assim como um espaço para os leitores escreverem o que acharam do capítulo postado. Essa mensagem do leitor para o autor é chamada review, palavra de língua inglesa geralmente relacionada ao trabalho crítico. As reviews são o combustível do autor, é comum que a cada novo capítulo, o autor deixa ao fim a nota: R&R, que significa read and review, ou seja, leia e comente/critique. O espaço de reviews é imprescindível para a produção de fanfics, pois, em sua grande maioria os leitores também são autores. Assim sendo, esses comentários se convertem num espaço de troca e interação, onde todos se juntam para a obtenção de melhoras particulares. Sugestões e incentivos, trocas de experiência e principalmente a oportunidade de conhecer novas pessoas que partilham de um mesmo interesse. A interação leitor/autor é quase que imediata nas fanfictions, o leitor deixa um review e o autor sente‐se a vontade para responder o comentário ao final do próximo capítulo, aprendendo uns com os outros, há uma quebra da noção aluno/professor. No espaço virtual onde as fanfictions são produzidas, publicadas e lidas, não há hierarquia de ensino. Os autores/leitores se ajuntam para melhorar, aprender uns com os outros sem maiores distinções, trocam e‐mail e se ajuntam em grupos de preferência (os ships). Ignoram a velha idéia que apregoava o escrever ficção como algo distante e não permitido a simples adolescentes. Essa interação é tão forte que surgem até lendas no mundo das fanfictions, grandes nomes, anônimos para o resto do mundo, mas que num universo particular recebem calorosos elogios. E esses autores ‘famosos’ do mundo das fanfictions também ajudam, estimulando os mais novos iniciados nesse tipo de produção, através de reviews, boas sugestões e palavras de incentivo sinceras. Uma troca em que o único interesse é o propagar de uma paixão (os livros, séries, desenhos animados dos quais são fãs) e uma melhora mútua. 4. DESENVOLVENDO O CONTATO COM UMA LÍNGUA ESTRANGEIRA. É de conhecimento geral que a globalização está intimamente ligada aos avanços da tecnologia digital. Globalização essa que permite uma troca de informações muito rápida, independente da distância entre os pontos de saída e chegada desses dados. As possibilidades de estabelecer comunicação com pessoas de outras nações, diferentes línguas e culturas são enormes. Tornou‐se simples reunir pessoas, de qualquer lugar, em torno de um interesse comum. O site Fanfiction.net é o maior acervo de fanfictions da rede, como já foi dito ele abraça fanfics em mais de 36 línguas diferentes. A vontade de ter mais e mais contato com a produção com a qual se identifica, o leitor/autor de fanfiction se aventura na busca de fanfictions em segundas línguas. Dependendo do grau de familiaridade com a língua estrangeira, a quantidade de material adventício e o tempo gasto com tais produções vão variar. Tanto numa língua materna ou numa língua estrangeira, o contato com uma fanfiction é um contato com a cultura particular de cada autor. As especificidades da sociedade na qual ele está inserido, suas impressões de mundo, e expressões particulares de sua língua. A leitura de fanfictions numa segunda língua tem posto o adolescente num contato direto com o a língua funcional, falada no dia‐a‐dia, por adolescentes da mesma idade. É a oportunidade de adquirir um maior vocabulário estrangeiro, abstrair a estrutura da língua e o contato com uma outra cultura através da relação autor/leitor já citada anteriormente. Além do interesse em ler fanfictions numa outra língua, é comum surgir nesse leitor a vontade de traduzir esses textos a fim de compartilhar com os falantes de sua língua, aqueles não familiarizados com a língua estrangeira, a leitura que lhe foi tão prazerosa. Logo que o interesse em traduzir a produção de um outro fã‐autor surge, o leitor‐tradutor faz contato com o autor da fanfiction e solicita autorização para traduzi‐la. Assim que concedida, o trabalho de tradução começa e a publicação é feita no mesmo molde das outras fanfictions, o tradutor classifica aquela fanfic como uma tradução é põe o link da fanfiction na língua original para que outros leitores da língua estrangeira possam ter a experiência direta com o texto. O tradutor então trabalhará como ponte entre o autor da fanfiction em sua língua original e os leitores da tradução. Ele ficará encarregado de traduzir as reviews dos leitores para o autor, e as respostas do autor para os fãs. O tradutor também recebe reviews comentando o seu trabalho e dicas dos leitores, que assim como o tradutor, leram a fanfic original. O produtor do texto original e o tradutor criam uma relação próxima, é comum que eles comecem a trocar e‐ mails e desenvolvam uma relação além do fandom. Pode‐se obervar, então, que além de estimular a produção textual e a leitura, o universo das fanfictions resulta, ainda, em relações interculturais. Formando indivíduos capazes de abstrair outros costumes e práticas de interação social, indivíduos habilitados a receber e produzir nos moldes de uma cultura mundial. 5. FANFICTIONS E ESCOLA, SERÁ POSSÍVEL? Sabe‐se que um curso superior de artes plásticas não tem como objetivo formar grandes gênios da pintura ou escultura, nem descansa sobre o curso de relações internacionais a obrigação de formar grandes diplomatas. As aulas de redação, então, também não têm como finalidade manufaturar gênios literários. Porém, é dever da escola, sim, formar leitores e produtores de texto competentes. O inaf, indicador nacional de analfabetismo funcional, aponta que 38% dos brasileiros, embora consigam decodificar o texto, isto é, reconhecer as palavras, não está apto para transpassar a superfície textual. Esses são os resultados de uma má construção da escola a cerca do ler e escrever. Os temas propostos pelas redações são obsoletos e pouco atrativos e as leituras obrigatórias ( no pior sentido na palavra) pedem do aluno uma preparação literária que ele não recebeu. Obviamente, a inclusão do gênero textual fanfiction não iria solucionar os muitos problemas que a escola possui. Contudo poderia ajudar, aliando força com outras medidas, entusiasmando e estimulando os alunos, do mesmo modo que estimula e entusiasma os autores/leitores de fanfiction na rede. Este trabalho pretende promover duas propostas pedagógicas para a inclusão da fanfiction nas aulas de compreensão e produção textual nas escolas. 1. A RODA Esta proposta consiste numa simples transposição do universo das fanfictions online para o presencial da sala de aula. Após introduzir ao aluno as características desse gênero textual, o professor levantaria algumas produções midiáticas pelas quais os alunos mostrassem preferência e pediria que eles produzissem um texto narrativo aliando parte do universo ficcional por eles escolhidos e elementos que eles próprios criassem. Esses trabalhos seriam entregues sobre o uso de pseudônimos, para que o aluno se sentisse mais seguro para iniciar uma produção. Após recolher os trabalhos, o professor, faria cópias para que cada aluno pudesse ter acesso a todos os trabalhos produzidos. Para que então, em uma roda onde todos os alunos e o professor pudessem estar no mesmo nível hierárquico e mantendo contato visual, os trabalhos, ainda usando os pseudônimos, fossem nas seguintes reuniões sendo lidos e debatidos. 2. RELICÁRIO ONLINE Preferencialmente após a experiência da roda, dependendo do contato e acesso dos alunos a internet, o professor abriria um site ou fórum para que os alunos pudessem guardar suas produções, haveria, nesse momento a possibilidade de escolha: continuar usando o pseudônimo ou, então, assumir o verdadeiro nome no como autor de uma determinada produção. Nesse espaço, os alunos poderiam comentar as produções uns dos outros além de publicar textos que não fossem fanfiction. Depois de um período ajuntando produções textuais, os próprios alunos deveriam escolher o melhor texto de cada autor/aluno, conseguinte esse apanhado, o professor junto a diretoria da escola, promoveria uma pequena recepção de lançamento desse ‘relicário’, ficando a cargo dos alunos decidir quem mais seria convidado para tal lançamento. Tal proposta incentivaria a produção bem como a leitura de outros textos igualmente amadores, além de criar, com o lançamento do relicário, um sentimento de valorização no aluno. CONSIDERAÇÕES FINAIS Juntamente com as novas propostas do uso de tecnologia para educação, o uso pedagógico das fanfictions poderia, sim, estimular a produção textual entre jovens e adolescentes. A segurança dos pseudônimos, a interação com os colegas e principalmente a afinidade com os personagens e cenários escolhidos trariam ao aluno, assim como traz aos atuais autores de fanfiction, uma segurança e prazer na produção textual. O intuito não é formar autores literários, mas sim desenvolver nos jovens um senso de liberdade e intimidade com a escrita e a leitura, formando leitores e produtores de texto competentes. ANEXOS: Enxerto da fanfiction O Sorriso Secreto, escrita por Flora Fairfield¹ Dei alguns passos para trás, respirei fundo uma última vez e, em seguida, ordenei: “Puxe”. Ele fez como eu disse, vagarosamente, e meu coração acelerou conforme a grande fraqueza da minha família foi revelada diante dos meus olhos. Minha respiração ficou presa no peito por alguns instantes e, durante longos momentos, a única frase que escapou dos meus lábios foi: “Meu Deus!”. Eu estava diante de um quadro. A sua moldura parecia ser de madeira maciça, folheada a ouro, grande, escura e pesada. Havia sido cuidadosamente entalhada com motivos florais e, embaixo da pintura, estava gravado o ano de 2005 em algarismos romanos. Aquele quadro havia sido pintado há setenta anos atrás! Levantando meus olhos para a imagem, entretanto, eu poderia jurar que ele fora terminado ontem. Estava em perfeitas condições de preservação e as cores pareciam fazer com que a mulher imóvel no retrato ganhasse vida. Ela era jovem, vinte e poucos anos talvez, e estava usando um vestido azul sem alças que poderia muito bem ter sido feito usando o céu estrelado como modelo. Recostava‐se em um divã, com as mãos repousando cuidadosamente sobre as pernas cobertas pelo tecido e seu cabelo vermelho parecia inundar todo o quadro. Ele caía em ondas sobre seus ombros, serpenteando até seus seios, tentadores e vivos, mais hipnotizantes que as vozes de cem sereias. Pior ainda, contudo, era o sorriso leve que parecia tocar suavemente os seus lábios. Era um sorriso delicado e puro, que fazia com que seus olhos brilhassem de felicidade e meu peito se enchesse involuntariamente de alegria e tristeza. Então o amor era realmente a fraqueza do nosso sangue, o grande pecado do meu avô. “Quem é ela?”, perguntei, ainda encantado, sem conseguir desgrudar meus olhos daquela imagem. “Seu nome é Ginevra Weasley”, o mordomo respondeu, me assustando. Quase havia esquecido que ele estava ali comigo. (...) “Então vai deixá‐la, como seu avô pediu?” “Nunca!”, exclamei. Como eu poderia ser o responsável pela destruição de tanta beleza! Por fim, lembrando‐me do desejo de meu avô que seus pecados pudessem morrer com ele, tomei minha decisão. “Mande que a tela seja retirada da moldura”, falei, “Removam‐na com o máximo de cuidado, enrolem‐na e embalem‐na. Eu a levarei comigo para o funeral e ela deverá ser enterrada junto com seu corpo”, continuei, “para que os dois possam permanecer juntos por toda a eternidade”, completei e saí. Caminhei de volta pelos corredores vazios, onde os mortos ainda sussurravam, insatisfeitos. Passei pelas portas de madeira e pelos grandes portões de ferro que logo deixariam de existir, em um silêncio reverente. Do lado de fora, entretanto, embaixo do sol brilhante, me lembrei da expressão de profundo alívio que meu avô tinha no rosto antes de morrer e me dei conta da inutilidade do meu ato: não era preciso que eu enterrasse o quadro com ele para que os dois permanecessem juntos agora. Isso provavelmente havia sido decidido antes que eu nascesse. Não fazia mais diferença. Meu avô, Malfoy, estava em paz e sua fraqueza alimentaria nossas almas por gerações e gerações. Talvez fosse hora de construir uma nova casa. ¹ Flora Fairfield foi uma das mais famosas escritoras de fanfiction de Harry Potter no Brasil, suas fanfictions Amor da vida nossa e a sua continuação A sabedoria de um tolo, ganharam vários prêmios nos fóruns e foram traduzidas para o inglês e o espanhol. Flora faleceu de pneumonia em 2006 aos 26 anos. Comentários da fanfiction O Sorriso Secreto, de Flora Fairfield. Reviews for: O Sorriso Secreto Dani Nunes 2006‐11‐24 ch 1, abuse Faz um tempo que li a fic mas só agora tive coragem de escrever é linda demais a fic vc sabe mesmo escrever nunca, nunca mesmo escreveria do jeito que vc escreve, então, fico apenas babando... Gween Black abuse Nossa, eu sempre me surpreendo com suas fics. E com essa não deveria ser diferente. 2005‐12‐20 AMEI. Linda. Genial. Incrível. Me arrepiei toda... sério... adorei. ch 1, Parabéns, a fic está realmente incrível. Lara 2005‐07‐19 ch 1, anon. abuse Nossa, mais uma vez, eu estou encantada com um fic sua. E eu já li todas elas. Eu amo o jeito como você escreve, amo mesmo. E eu comecei a ler os livros do Bernard Cornwell por sua causa, logo quando vc escreveu "A Sabedoria de Um Tolo". Não precisa nem dizer que me apaixonei, não é? Ah, e só um pedido: Escreva mais. E escreva mais DG. Beijos Fanart, desenhada por Starleteegurly, Ilustrando uma cena entre os personagens Draco e Ginny da série Harry Potter. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: COSCARELLI, Carla Viana. Ler na tela – letramento e novos suportes de leitura e escrita. In: org COSCARELLI e RIBEIRO. Letramento Digital. 1. Belo Horizonte, 2005. p. 125 ‐151 PARRISH, Juli J. Inventing a Universe: reading and writing internet Fanfiction. 2007. 196. philosophy doctor degree. University of Pittsburg, USA. BLACK, Rebecca W. Language, culture and identify in on line Fanfiction. In: E‐Learning, Volume 3, Number 2, 2006. Sites: www.fanfiction.net www.potterish.com www.alianca3vassouras.com http://www.reescrevendoaeducacao.com.br/2006/pages.php?recid=28 http://en.wikipedia.org/wiki/Motion_Picture_Association_of_America_film_rating_system http://www.twinkle‐twinkle.net/dgxmas.html