O Estado-Maior do Exército e as Negociações Militares Brasil-Estados Unidos Entre os Anos de 1938
e 1942
Giovanni Latfalla
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O Estado-Maior do Exército e as Negociações Militares
Brasil-Estados Unidos Entre os Anos de 1938 e 1942
Giovanni Latfalla
Mestrando em História pela Universidade Severino Sombra [email protected]
Resumo: O presente trabalho é relativo às negociações militares entre o EstadoMaior do Exército Brasileiro (EME) e autoridades militares dos Estados Unidos
no período anterior ao rompimento de relações do Brasil com as nações do
Eixo em janeiro de 1942.
Durante esta fase os entendimentos entre as duas nações não transcorreram
dentro da normalidade, pois, ambos possuíam interesses e objetivos diferentes:
o Brasil preocupado com a região Sul por causa da grande colônia alemã
da região e do posicionamento ambíguo da Argentina, além de insistir no
fornecimento de equipamento bélico junto aos EUA para fortalecer suas forças
armadas.
Os Estados Unidos, preocupados com uma eventual invasão nazista na América
do Sul, particularmente, no Nordeste brasileiro, insistiam que o Brasil deveria
permitir a entrada de suas tropas para proteger esta região, além de procurar
evitar o envio do equipamento bélico solicitado pelo Brasil. Inclusive os EUA
já haviam planejado a ocupação do Nordeste do Brasil se nosso país não
cooperasse no esforço de guerra.
As negociações foram tensas e eivadas de desconfianças, principalmente por
parte dos americanos que acreditavam que muitas autoridades brasileiras,
inclusive militares, eram simpatizantes do nazismo.
Palavras-chave: História militar. Segunda guerra. Brasil. Estado Unidos da
América.
Abstract: This study discusses the military negotiations between the Brazilian
War Department General Staff and militaries authorities from the United States
of América before the Brazilian breaking up relations with the Axis countries in
January, 1942.
During this period, the agreement between Brazil and the United States of
America didn`t go by well, once both countries had different interests and
objectives: Brazil was worried about its South region on account of the big
German colony and the ambiguos position of Argentina, moreover insisting on
a supplying of war equipment in order to strengthen its Army.
On the other hand, the United States of America was preoccupied with a possible
Nazi invasion, particularly, in Brazilian Northeastern, persisting that Brazil
should allow the access troops to protect that region, besides they avoided any
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sent off war weapons as asked for Brazil. They even had planned the Brazilian
occupation, if our country didn`t co-operate with the war effort.
The negotiations were tense and full of suspicion, especially on the part of
American side who believed that many Brazilian authorities, including military,
were in support of Nazism.
Nevertheless this research proves that the major Brazilian Army authority from
that period, general Góes Monteiro, the Brazilian War Department General
Staff commander never planned a coalition with Germany and also shows that
the reports done by the Brazil War Department General Staff always inidcated
an alliance with the United States of America, without, however, endanger our
supreme power.
The reference documents are explicit on demonstrating that Brazilian Army
sheming during that time, pointed towards a coalition with the United States of
America in case of War.
Keywords: Military history. War. Brazil. United States of America
As negociações de Estado entre Brasil e Estados Unidos relativas à proteção da América,
iniciaram-se durante a Conferência Pan-americana de Lima em 1938. Nela, o Brasil,
representado pelo chanceler Osvaldo Aranha, declarou que as “nações necessitavam que
os Estados Unidos os ajudassem a se armar”. Ajudar no rearmamento, inclusive do Brasil
seria, para o chanceler, uma maneira menos onerosa e ostensiva de os Estados Unidos se
envolverem na defesa da América.
Neste momento da história, deve ser lembrado que o Brasil estava obtendo material
bélico junto à Alemanha nazista, principalmente, por causa do preço e das condições
de pagamento. Os problemas financeiros do Brasil e a política de isolamento americana
facilitaram o comércio com a Alemanha.1
Entretanto, o chefe do Estado-Maior do Exército do Brasil, o general Góes Monteiro, já
tinha reconhecido em fins de 1936 que, no caso de novo conflito mundial, a alternativa
para o Brasil adquirir armamentos, seria os Estados Unidos.2
O professor Frank D. McCann Jr, no livro “Aliança Brasil-Estados Unidos, 1937/1945”,
detalha que a postura do Congresso americano com relação a este assunto, só se modificou
quando a Alemanha derrotou a França. Ele escreveu: “... um retardo que impediu uma
cooperação militar efetiva até o final de 1940 e quase jogou os brasileiros nos braços
dos alemães”.3
1 Freixinho, Nilton. Instituições em Crise, Dutra e Góes Monteiro: Duas Vidas Paralelas. Rio de Janeiro: Bilbiex,
1997, p.373.
2 Frank D. McCannm Jr. A Nação Armada. Recife: Editora Guararapes, 1982, p.97.
3 Frank D. McCann, Jr, Aliança Brasil-Estados Unidos – 1937/1945. Rio de Janeiro: Bibliex, 1995, p.101.
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No início de 1939, aconteceu uma visita do ministro das Relações Exteriores, Oswaldo
Aranha, aos EUA. Para o meio militar brasileiro, a missão Aranha, no que dizia respeito
à parte relacionada à aquisição de armamentos, havia sido uma decepção, pois, esperavase que os americanos fornecessem material bélico para o reequipamento das Forças
Armadas, o que naquele momento não ficou acertado.
A partir de 1939, e com mais nitidez, as relações militares Brasil-Estados Unidos se
desenvolveram no contexto da política de segurança hemisférica. Os primeiros passos
para um entendimento entre os dois países foram dados através de uma série de visitas,
ocorridas entre autoridades militares dos dois países: o chefe do Estado-Maior do Exército
dos Estados Unidos, General Marshall, visitou o Brasil em maio, e o chefe do EME,
general Góes Monteiro, os EUA em junho.
O Exército e a Marinha norte-americanos, durante a guerra, elaboraram os chamados
planos Rainbow, no total de cinco, sendo o de número 1 considerado básico: proporcionava
a defesa do hemisfério ocidental, do nordeste do Brasil a Groenlândia, até o Havaí, no
Oceano Pacífico.4
As discussões continuaram com a visita do general Góes Monteiro, aos EUA, logo a
seguir. Continuou o general Góes Monteiro insistindo na preocupação com a região Sul
do Brasil, e apresentou uma relação de material bélico a ser adquirido junto aos EUA,
oferecendo, como forma de pagamento, o fornecimento de matérias-primas.5
Em fins de 1939, o EME apresentou um relatório geral a respeito do mesmo ano, em que
ressalta que o principal problema militar do Brasil, além da deficiência de armamentos,
estava localizado na região Sul, colocando esta área como a mais sensível quanto às
possibilidades de invasão, por sua riqueza econômica, pela presença de colônias
estrangeiras e pela deficiência de transportes e comunicações com o centro de gravidade
do país.
Coloca também que pela identidade de fisionomia geográfica, pela aproximação crescente
dos objetivos políticos, como pelo desenvolvimento de uma permuta comercial que nos
transforme em indispensáveis e recíprocos fatores de prosperidade, o Brasil encontrava
nos EUA o seu indefectível companheiro de eixo, para uma política exterior. Ressalta
que, o Brasil era para os Estados Unidos a chave da influência continental, a base do
equilíbrio e da paz das Américas e da defesa comum.6
Para apressar as negociações com o Brasil, foi nomeado o Coronel Lehman W.Miller,
como chefe da missão militar enviada ao Rio de Janeiro. Ele juntamente com o embaixador
dos Estados Unidos no Brasil, Jefferson Caffery, reuniram-se com o chanceler Aranha e
os generais Dutra e Góes Monteiro. Nesta reunião, o chanceler brasileiro declarou, como
4
Morton, Louis, et alli, As Grandes Decisões Estratégicas. Rio de Janeiro: Bibliex, 2004, p.30.
5
Frank D. McCann, Jr. Op.cit., p.118.
6
Relatório Anual do Estado-Maior do Exército Brasileiro, 1939, p.17-20, 153-156. AHEx: Acervo Góes Monteiro.
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questão inicial, a necessidade de se armar o Brasil. Afirmou também que o Brasil não
queria estas armas gratuitamente, entretanto, o armamento americano era muito caro,
e para adquiri-lo, o Brasil precisaria de crédito. Já o general Góes Monteiro lamentou,
apesar do grande interesse demonstrado pelos militares norte-americanos, a demora em
chegar a um acordo prático com respeito à cooperação militar entre Brasil e EUA.7
A política externa brasileira, neste momento, posiciona-se em um quadro que Gerson
Moura denominou de “eqüidistância pragmática”, pois o governo Vargas procurava tirar
proveito do enorme interesse que Alemanha e Estados Unidos tinham com o Brasil. Não
se tratava de uma trajetória retilínea, mas com aproximações alternadas e simultâneas a
um outro centro. Esta posição produziu ganhos significativos no plano internacional e
aumentou o poder de barganha do governo brasileiro.8
Em 11 de junho de 1940, o presidente Vargas pronunciou um discurso que deixou dúvidas,
principalmente, nos EUA. Neste discurso, o presidente elogiou de modo claro os sistemas
totalitários de governo e previu o fim das democracias. Nos EUA, a reação foi muito
ruim, mas a diplomacia brasileira garantiu às autoridades norte-americanas que o Brasil
não se afastaria da solidariedade pan-americana.9
A cientista política, Mônica Hirst, em sua dissertação de mestrado, afirma que, com o
cenário europeu indefinido, era difícil extrair um compromisso dos militares brasileiros.10
Em junho de 1940, pouco após sua chegada ao Brasil, o coronel Miller relatava ao
embaixador americano no Brasil, Caffery:
“ A mudança atual de eventos na Europa teve uma influência profunda sobre as
autoridades do Exército e da Marinha brasileira. Apesar delas não confiarem
na Alemanha, elas tem uma grande admiração pela máquina de guerra daquele
país, e não gostam da inglesa. O Brasil não deseja aumentar seu antagonismo
com a Alemanha porque sabe que não está preparado, e acredita que a Alemanha
é o único país que pode fornecer armas em termos razoáveis... O destino de
países neutros europeus lhe criou dúvidas quanto a habilidade dos Estados
Unidos o proteger contra agressão externa... Todas estas considerações tendem
a fortalecer os elementos pró-nazistas no Brasil, e na medida que a Alemanha
consolidar seu avanço na Europa, a situação se tornará ainda pior, a não ser que
nosso governo tome uma atitude imediata”.11
O estranho do exposto acima fica por conta do comentário feito a respeito da postura
dos militares brasileiros em relação à Inglaterra. Como gostar dos ingleses se os mesmos
estavam colocando em dificuldades as exportações, para o Brasil, de armamentos já pagos
7
8
Frank D. McCannm Jr. Op. cit., p.168.
Moura, Gerson. Autonomia na Dependência, A Política Externa Brasileira de 1935-1942. Rio de Janeiro: FGV,
1979, p.50.
9 Cervo, Amado Luiz e Bueno, Clodoaldo. A Política Externa Brasileira 1822-1985. São Paulo: Ática, 1986, p.72 e
73.
10 Hirst, Mônica. O Processo de Alinhamento nas Relações Brasil-Estados Unidos 1942/1945. Rio de Janeiro:IUPERJ,
1982, p.109.
11 Memorando do General Miller para o embaixador Caffery, 21-06-1940.
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aos alemães? E, para torná-los mais antipáticos ainda, junto aos militares brasileiros,
apreenderam o navio Siqueira Campos, com um novo carregamento de armas alemãs, só
liberando-o após uma demorada e tensa intercessão dos Estados Unidos.
Ironicamente, pode-se afirmar que o armamento conseguido pelo Brasil em 1940, não
veio dos EUA, mas com a ajuda americana, recebido da Alemanha. Durante este período,
os alemães procuraram cumprir suas obrigações nos acordos relacionados às compras de
armamentos.12
O professor Mccann Jr, em seu livro afirma que, em 18 de junho de 1940, o chanceler
Aranha declarou de maneira veemente ao embaixador Caffery, que se os EUA não
abastecessem o Brasil, os chefes militares se voltariam para a Alemanha e que inclusive
poderiam vir instrutores militares alemães. Com certeza as declarações do chanceler,
conhecido por suas posições pró-EUA, eram apenas uma maneira de pressionar os
americanos a tomarem uma posição.13
Neste ponto, é interessante colocar o posicionamento do Exército Brasileiro a respeito
das futuras linhas de ação. Deve se lembrar que, em 1940, a guerra estava a favor da
Alemanha. Transcreveremos partes do Ofício Secreto de nº 284, do EME do Brasil, e
seu anexo, em que o General Góes Monteiro, após ser consultado, apresenta ao então
Ministro da Guerra, General Dutra, as bases para uma possível convenção com os EUA e
outras Nações da União Pan-Americana, no caso de ataque ao hemisfério americano por
parte de Nação estrangeira.
No início do documento, o general Góes Monteiro apresenta um pequeno relatório sobre
a situação em que se encontrava a guerra. A seguir alguns trechos do Ofício nº 284:
V) “ A extrema delicadeza da situação emergente, torna-se mais flagrante se
forem focados alguns aspectos mais desfavoráveis do problema.
‘ Os Estados Unidos, no estado atual do material de guerra e em relação a
bases eventuais instaladas na África ocidental ou nas Ilhas entre África-Europa
e América, têm sua faixa de segurança limitada ao sul, na face atlântica, pela
zona vizinha do Cabo de São Roque e águas de Fernando de Noronha. Até aí
se estenderá seu espaço marítimo para o raio de segurança longínqua, os que
os levará, naturalmente, a procurar antecipar-se ao inimigo eventual quanto à
possibilidade de utilizar bases navais e aéreas desse lado, garantindo assim sua
própria utilização’.
‘ Por bem ou por mal pretenderão obtê-las:
- seja, por combinação ou acordo:
- seja, pelos moldes com que se apossaram do Panamá, fomentando a guerra
civil;
12 Frank D. McCann, Jr. Op.cit., p. 171-172.
13 Frank D. McCann, Jr. Op.cit., p. 168-169
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- seja pela conquista militar ostensiva.
‘A segunda fórmula pode realizar-se na pior hipótese para nós, em conjugação
com a própria atuação dos núcleos coloniais no sul do país, pois que estes,
em caso de guerra com a América, tudo farão para enfraquecer a ação norteamericana’.
‘É claro que a preparação “nazista”, de longa data denunciada em quase todos
os países americanos, será posta em movimento e possivelmente bem mais
alargada pelo concurso de elementos de outras raças de interesses idênticos,
notadamente os bolchevistas’.
‘Pode resultar daí grave e complexa perturbação interna visando desagregar o
Brasil, urgindo desde já prever conseqüências e providências correlatas’.
‘Isto posto, parece ao Estado Maior do Exército que única maneira que o Brasil
na atual oportunidade, de evitar possíveis escolhas em sua carreira de Nação
livre é, sem abdicar de sua soberania, procurar prudentemente tirar partido, a
fim de se fazer suficientemente forte, das contradições e oscilações entre os
blocos opostos, sem se engajar a fundo”.
É interessante o pensamento do general Góes Monteiro a respeito da postura que os
americanos tomariam relacionadas aos seus interesses de conseguir bases na região
Nordeste. O general afirma que de qualquer maneira tentariam obter seu objetivo.
Se ele foi alertado sobre as intenções dos EUA, durante a visita do General Marshall ao
Brasil em 1939, ou quando visitou os EUA no mesmo ano, seus documentos pessoais,
não explicam sua opinião sobre este assunto, mas os planos Rainbow mostram que o
pensamento do general Góes Monteiro estava correto. Certamente, também os americanos
não o colocaram a par destes planos.
Quanto ao Anexo a este Ofício, ele é bem claro a respeito das intenções do EME neste
período, e seu título é: Bases para o estabelecimento de uma convenção de cooperação
recíproca entre os Estados Unidos e o Brasil. A seguir, listaremos algumas partes
relacionadas ao assunto:
“I) No sentido da cooperação do Brasil e dos Estados Unidos da América
do Norte, em caso de agressão armada contra qualquer País do hemisfério
ocidental, pertencente a União Pan-Americana podem ser formuladas as
seguintes bases na atual emergência, tendo em vista o estudo de um eventual
convênio aero-naval-militar, em Washington:
- Se uma das potências associadas à União Pan-Americana, for atacada
por Nação extracontinental, o Brasil concorrerá com todas as suas forças e
outros recursos de que dispuser, na defesa comum da América. A aplicação
dessas Forças será feita nas condições estipuladas entre os EUA, à potência
ou potências interessadas e o Brasil, que facilitará, para esse efeito, o uso de
seus recursos e organizações aéreas, navais e terrestres;
- Se o Brasil for atacado por qualquer potência extracontinental, os EUA
garantirão as comunicações marítimas e a integridade do litoral e ilhas do
Norte e Nordeste do País em combinação com as forças brasileiras, de acordo
com o convênio que for estabelecido.
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‘ II) Na primeira hipótese, o concurso que o Brasil poderá proporcionar as
potências da União Pan-Americana, será precisado conforme as necessidades
que as mesmas indicarem’.
‘ O concurso imediato só poderá ser prestado:
- pelo fornecimento de matérias-primas de que o Brasil já é produtor, garantidos
os transportes por via marítima, pelos EUA, exceto, em certos casos, em que,
possa ser feito por via férrea (Uruguai) ou via fluvial (Paraguai e Argentina);
- pela utilização de suas atuais bases navais e aéreas e das que vierem a ser
instaladas pelo Brasil;
- pela permissão de trânsito das Forças amigas através de seu território, nas
condições fixadas pelo Brasil’.
‘ O Brasil se compromete a desenvolver, o mais rapidamente possível, com
o auxílio material e técnico dos Estados Unidos, a organização de sua defesa
militar, particularmente do litoral:
- a instalação de bases aéreas e navais em regiões a fixar ulteriormente’.
‘ III) No caso de ataque ao Brasil por qualquer potência extra continental, os
EUA tomarão a seu cargo a vigilância da costa brasileira do Norte e Nordeste,
enquanto que a esquadra brasileira e suas forças aéreas, reforçadas pelos meios
que os Estados Unidos ou outras potências da União Pan-Americana possam
fornecer, incumbir-se-á especialmente da zona ao Sul e do oriente brasileir’.
‘- Os EUA facilitarão, desde já, ao Brasil a aquisição dos recursos em material
bélico de que carece para o completo de sua rede ferroviária, particularmente
para facilitar a defesa da faixa litorânea;’
‘ V) Caso a guerra irrompa antes do Brasil haver ultimado sua preparação,
pode ser encarada a conveniência dos Estados Unidos ou outra Nação da União
Pan-Americana, concorrerem com forças militares para, juntamente com as
brasileiras, serem empregadas para um mesmo objetivo”. 14
Os pontos acima mostram a seriedade com que o EME estava tratando a questão de uma
aliança militar com os Estados Unidos, o que contraria a tese de que não havia interesse
em tal acordo.
O EME dos EUA enviou um parecer secreto ao Brasil em 19-09-1940. Junto a este
documento, o Chefe da Missão Militar Americana, o Coronel Lehman Miller, anexou um
Memorando, endereçado ao general Góes Monteiro.
No parecer enviado, o EME dos EUA apresentava uma série de ações a serem colocadas
em prática pelo Brasil, como dar uma maior atenção às áreas do litoral do Norte e Nordeste,
dentre outras medidas.
14 Ofício Secreto 284 e Anexo. Do Chefe do EME ao Ministro da Guerra, Bases de Convenção com os EUA, Rio de
Janeiro, 11-09-1941, p.1,2,2 e 4.AHEx: Acervo Góes Monteiro.
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Na verdade, os planos americanos foram feitos com a idéia do envio de tropas para ocupar
as regiões que eles consideravam mais ameaçadas, hipótese inaceitável para os militares
brasileiros.15
Quanto ao memorando do coronel Miller, este dá início a uma série de desentendimentos
entre estas duas autoridades militares dos dois países, que prejudicaram o andamento das
negociações. Transcrevê-lo-emos em sua maior parte:
“Desde a data de minha chegada ao Rio de Janeiro, até esta data, tenho
procurado empregar os mais ingentes esforços para cumprir uma missão a mim
confiada pelo governo Norte Americano, no sentido de estudar as medidas
práticas para tornar mais eficiente à cooperação entre o meu País e o de V. Exª.,
no sentido de tornar mais eficiente a defesa do continente americano. Lamento,
entretanto, que os meus esforços não tenham correspondido à expectativa por
mim desejada, quiçá pelo meu País, de vez que até ao presente momento, de
concreto, nada está resolvido. É verdade que o meu governo foi favorável na
questão do fornecimento de material imprescindível para a defesa do Brasil.
Entretanto, até hoje, não foram tomadas quaisquer providências práticas de ação
defensiva, para podermos estar em condições de repelir ataques contra o Brasil
e o continente, caso estas medidas sejam necessárias pôr em prática...”16
O coronel Miller estava cobrando do EME do Brasil providências e se esquecia do não
cumprimento da parte que cabia ao seu país, que era o fornecimento de material bélico para
o Brasil. Os americanos tinham o conhecimento a respeito das fraquezas de nossas Forças
Armadas e não entendiam ou não queriam entender que, o Brasil não tinha condições
financeiras e materiais para realizar, sozinhos, o que eles queriam.
A resposta do general Góes Monteiro foi veemente conforme os trechos abaixo:
“Preliminarmente devo declarar-vos que os vossos esforços no sentido de
tornar eficiente essa colaboração, se ainda, não corresponderam à expectativa
desejada, de vez que até o presente momento nada está resolvido de concreto
– a culpa não nos cabe, nem ao governo brasileiro que incessantemente, pelos
Órgãos do Ministério da Guerra, tem demonstrado as melhores disposições e
solicitudes em atender as necessidades e às informações nos Estados Unidos,
desde que solicitado o concurso do Brasil pela forma conveniente”
Em outra parte do documento justifica a compra de material bélico do Reich alemão de
qualidade e preços favoráveis, em relação às condições oferecidas pelos EUA.
15 Parecer do EME dos EUA sobre a Cooperação Militar com o Brasil, Rio de Janeiro, 19-09-1940. AHEx: Acervo
Góes Monteiro.
16 Memorando do General Miller ao Chefe do EME do Brasil, Rio de Janeiro, 19-09-1940. AHEx: Acervo Góes
Monteiro.
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Quanto às medidas práticas a pôr em ação em caso de agressão, o Brasil, de acordo com
o general Góes Monteiro estava-as estudando. Continua o chefe do EME dizendo que
não é de estranhar que o Brasil “cuja capacidade de produção industrial é mínima, com
comunicações exíguas e condições sociológicas e físicas, que tornam difícil a “mise etat”
de todas as suas possibilidades militares, não tenha podido, e careça ainda de tempo e de
recursos a fim de realizar seu programa de armamento e equipamento para a guerra, em
grande parte dependente das facilidades que encontrar nos Estados Unidos”.
Uma colocação clara e sincera de todas as imensas dificuldades que o Brasil possuía na
época para se preparar convenientemente para a guerra, que já havia se iniciado, e previase, chegaria a América.17
Em outubro de 1940, o general Góes Monteiro e outros chefes de Estado Maior de vários
países da América fizeram uma viagem aos Estados Unidos, onde se encontraram com o
general Marshall, e visitaram diversas unidades militares e indústrias de material bélico.
Novamente os americanos fizeram promessas de envio de armamentos para o Brasil.
A resposta dos Estados Unidos ao documento intitulado, “Bases Para o Estabelecimento
de Um Acordo de Cooperação Entre os Estados Unidos da América e o Brasil”, datado de
outubro de 1940, só ocorreu em março de 1941.
Aparentemente, tudo caminhava para uma pauta comum de interesses, quando em 30
de maio de 1941, o general Miller, solicitou uma audiência especial ao general Góes
Monteiro.
O general Góes Monteiro informou que nesta reunião o general Miller estava constrangido
se referindo também a incertezas e dúvidas que nutriam o general Marshall e o Governo
Americano quanto à cooperação efetiva do Brasil com os EUA, em vista de certos indícios
e rumores que ultimamente vem aparecendo em certos círculos de sua convivência.
O Chefe do EME retrucou, incisivamente, que seu interlocutor precisasse essas dúvidas
e indícios, pois não poderia admitir, uma vez já estando assentada a cooperação
aludida, segundo as Bases preestabelecidas e nos termos aprovados pelos dois governos
interessados, que se supusesse alguma intenção em contrário, deliberadamente com o fim
de subtrair o Brasil a compromissos tácitos ou formais assumidos.
A mais grave colocação feita pelo general Miller foi de que informações divulgadas
com persistência, diziam ser uma grande parte da oficialidade do Exército Brasileiro,
simpatizante do Exército Alemão e do Nazismo, também aludindo sobre a influência e a
propaganda de agentes e organizações nazistas no país, da tolerância com que operam em
suas escusas atividades.
A resposta dada ao exposto acima foi de que a maior parte das manifestações e simpatias no
Brasil, são contra a Alemanha Nazista. Poucos oficiais eram germanófilos e as convicções
reinantes eram unicamente de patriotismo com a consciência voltada contra propósitos
imperialistas.
17 Ofício nº 306, do Chefe do EME do Brasil ao General Miller, Rio de Janeiro, 21-09-1940, p.1,2,3 e 4. AHEX:
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Afirmou o general Góes Monteiro que, no Exército Brasileiro, não existiam partidários do
nazismo e nem de outra ideologia. Existia sim, entre os militares com maior conhecimento,
uma grande admiração pela estratégia, tática, técnica, organização e valor do Exército
Alemão, cujos feitos são para aquela época, inegavelmente, incomparáveis na história
militar. Afirmou que, mesmo os inimigos da Alemanha, tem uma opinião coincidente
neste ponto.
Alegou que: “o Exército Brasileiro, em qualquer circunstância se empenhará
para o cumprimento estrito do seu dever, e entre os derrotistas (que são o da
pior espécie) que preferem a” escravatura britânica” por considerá-la mais
suave e apenas econômica e já experimentada, ou a “escravatura nazista”
convencionada mais brutal, o sentimento entre nós é o reagir contra qualquer
espécie de dominação ou escravatura”.
Entretanto, o general americano mencionou sobre comentários noticiados, que, os
principais responsáveis pelas manobras, a se realizarem no Nordeste, eram contra a
cooperação entre o Brasil e Estados Unidos, e simpatizantes do nazismo.
O militar brasileiro disse que havia percebido que esta afirmação visava de preferência
a Chefes do Exército e Oficiais do EME. O general Góes Monteiro demonstrou ao
americano não haver nenhuma procedência nesses rumores tendenciosos, e que esta
atenção que estava dando a ele, era inadmissível para com qualquer oficial estrangeiro, de
qualquer nação. Alegava que os membros do Exército Americano eram tratados como se
pertencentes ao Exército Brasileiro.18
Retomando ao assunto relacionado à entrevista entre o general Miller e o general Góes
Monteiro, o primeiro voltou à carga ofensiva, ao comentar que achava estranho a calma
e mesmo a displicência, na maneira pela qual os militares brasileiros encaravam os
acontecimentos da guerra em curso, quando afirmou que os EUA em breve, teriam que
participar.
O chefe do EME retrucou que todas as medidas que podiam ser tomadas, naquelas
circunstâncias, pelos responsáveis pela defesa do Brasil, estavam sendo feitas, e assim
as colocações do general Miller terminaram. Prometeu-lhe inclusive que levaria as
indicações americanas diretamente ao Ministro da Guerra e, se necessário, ao Ministro
da Aeronáutica.
Esta acalorada conversa, de acordo com o historiador do CPDOC, Gerson Moura, não
passou de um pequeno incidente. Em seu trabalho “Autonomia na Dependência”, não
consta nada além desta única discussão, entre o general Góes e o general Miller, que na
verdade, se repetiu mais de uma vez, e que ilumina as razões do impasse a que chegaram
as relações entre os dois países em meados de 1941.19
18 Ofício Secreto, nº 82, do Chefe do EME do Brasil ao Ministro da Guerra, Rio de Janeiro, 02-06-1941, p.1-7.AHEx:
Acervo Góes Monteiro.
19 Moura, Gerson. Op. cit., p.165.
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Em julho, os generais Dutra, pelo Brasil, e Miller, pelos EUA, assinaram o Termo de
Ajuste, regulando as atividades da Comissão Mista Brasileira-Americana de Oficiais de
Estado-Maior.
No Termo de Ajuste haviam várias promessas assinadas pelo lado brasileiro como apoiar,
com todas as forças e com todos os meios de que dispunha, a defesa do continente, a
construção de bases aéreas e navais sendo as mais importantes.
Do lado dos EUA, as promessas eram: emprego das forças armadas para auxiliarem o
Brasil contra ataques de países não americanos, auxílio na aquisição de armamentos e de
todos os meios materiais e técnicos de que necessite.
O emprego de tropas americanas no Brasil ficou sujeita a uma solicitação prévia do
governo brasileiro. As bases aéreas e navais no território brasileiro seriam comandadas
e mantidas por forças brasileiras e só por solicitação, poderiam ser ocupadas por forças
americanas.20
Em 05 de agosto, a Comissão Mista Brasileiro-Americana reuniu-se . Novamente, as
diferenças entre o general Góes Monteiro e o general Miller foram motivos de acalorada
discussão após a leitura da ata, relacionada à primeira reunião, realizada pela citada
Comissão.
O general Miller disse que sendo a missão principal dos oficiais dos EUA o estudo e a
avaliação das forças americanas, necessárias a uma eventual cooperação com o Brasil, a
pedido do governo brasileiro e, no caso de agressão, nada teriam eles a fazer, no Brasil,
em face da declaração contida em documento lido no início da reunião, opinando que o
Brasil só necessitaria de material bélico e alguns técnicos.
O Chefe do EME escreveu que foi obrigado a rebater, energicamente, várias insinuações,
entre elas, a de que a política externa do Brasil era dupla: de um lado a afirmação de
cooperação com os EUA e de outra, voltada para a neutralidade absoluta.
O general Miller fez referência à incapacidade de o Brasil se defender. Também, de
maneira veemente, o general Góes Monteiro, declarou que o Brasil poderia não ter a
eficiência material, mas que teria capacidade de se defender contra qualquer um, mesmo
que tivesse de usar as armas com as quais os índios sempre se defenderam.
Quanto à propaganda e a ação de agentes nazistas no Brasil, o Chefe do EME colocou que
ela era em menor escala e menos perigosa que a praticada nos Estados Unidos.
O general Miller se referiu também ao fato de alguns oficiais do Exército Brasileiro
temerem o imperialismo americano, levando-os a se esquivarem de cooperar com os
EUA.
A resposta dada foi que a afirmativa feita não procedia, e um dos motivos dados foi que
a maioria da população brasileira era contra a Alemanha e favorável à Inglaterra, apesar
20 Documento Confidencial, Termo de Ajuste. Rio de Janeiro, 24-07-1941, p. 1-4. AHEx: Acervo Góes Monteiro.
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dos problemas na questão do comércio de armamentos com a Alemanha.
O documento mostra as imensas dificuldades existentes para que o Brasil preparasse sua
defesa ou mesmo participar do conflito. Com certeza a deficiência financeira, aliada à
falta de material bélico moderno tornavam árduo cumprir os objetivos da Comissão Mista
Brasileiro-Americana.
Em setembro de 1941, o Ministro da Guerra, enviou uma mensagem secreta ao Presidente
Vargas, resumindo todas as atividades realizadas pela Comissão Mista de Oficiais,
incumbida dos estudos e previsões relacionadas à cooperação militar entre Brasil e
Estados Unidos.21
Nesta mensagem a questão da defesa do Nordeste foi colocada de maneira clara, baseada
em um relatório apresentado pelo coronel Halle da Força Aérea dos EUA, que mostrava
várias deficiências brasileiras, inclusive a falta de pilotos e mecânicos.
Entretanto, o general Dutra, após explicitar as dificuldades do Brasil, foi claro em
escrever:
“ Já quanto a possibilidade de ser desde agora, destacadas quaisquer forças
americanas para nosso território, consideradas as circunstâncias de não termos
meios suficientes em material e pilotos, considero absolutamente injustificável
a hipótese e, até mesmo inconcebível, visto como pelo Ajuste não só a nós cabem
a defesa do território brasileiro, como a ulterior iniciativa de solicitar reforços
americanos, em face da agressão que nos ameace e que presentemente não tem
realidade. A vinda agora de elementos americanos para o Brasil acarretaria a
conseqüência de anular nossa soberania na região onde se estabelecessem, que
se transmudaria de logo, pura e simplesmente, em mero território de ocupação
estrangeira”.
A seguir, o Ministro da Guerra sugeriu ao Presidente Vargas que os EUA enviassem ao
Brasil, com posterior pagamento, os aviões necessários para aumentar as defesas aéreas da
região Nordeste, e concluiu seu parecer dizendo que o mesmo estava baseado no Termo de
Ajuste acertado entre os dois países, com o pensamento voltado para a cooperação entre
os países americanos, não se esquecendo, porém, de salvaguardar a soberania brasileira.
Este posicionamento claro foi seguido em outubro pelo Ministro da Aeronáutica, Salgado
Filho, que, em mensagem ao presidente Vargas, fez questão de repetir o parágrafo do
documento do general Dutra, contrário ao envio de tropas americanas para o Brasil,
porque isto implicaria a perda da soberania.22
Em novo documento endereçado ao Presidente Vargas, o general Dutra relatou-lhe
a respeito da suspensão dos trabalhos da Comissão Mista de Oficiais, cujos trabalhos
21 Documento Secreto do Ministro da Guerra ao Presidente Vargas, Rio de Janeiro, 17-09-1941, p.1-5.AHEx: Acervo
Góes Monteiro.
22 Documento Secreto do Ministro da Aeronáutica, Salgado Filho, ao presidente Vargas, Rio de Janeiro, 22-10-1941,
p.1.AHEx: Acervo Góes Monteiro.
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duraram até 26 de setembro. Em um ponto do documento, o general Dutra coloca como
entendia o pensamento dos americanos sobre a questão e mostra que para eles o Brasil
não podia assegurar sua defesa sozinho, porque lhe falta material, e que eles deviam ir ao
encontro dessas necessidades, oferecendo ajuda com o emprego de tropas e unidades que
ocupem a zona referida. Para o ministro da Guerra, a contraproposta brasileira, coincide
com a proposição dos EUA, mas propõe a simples troca dos termos usados no documento,
tropas e unidades, por material e técnicos.
Finalmente, propõe ao presidente Vargas, como sugestões:
a) A concentração no Nordeste, no menor prazo, das forças necessárias e intensificação
das instalações das obras sugeridas, com a abertura de crédito;
b) A intensificação nos esforços para obtenção, de maneira urgente, do material bélico,
junto aos EUA, com o Brasil indenizando-os, posteriormente;
c) A manutenção das diretrizes do Termo de Ajuste, e somente em caso de acontecimentos
mais graves, solicitar através do Governo brasileiro, a presença de tropas norteamericanas no Brasil.23
O documento é esclarecedor em mostrar as imensas dificuldades que o Brasil possuía nesta
época para cumprir o acertado com o governo americano. Relata sobre os parcos recursos
destinados à defesa do Brasil, da burocracia e dificuldades financeiras, que prejudicavam
os melhores esforços, e que justificam o atraso nas medidas de defesa.
As desconfianças americanas continuaram e novamente levaram a um diálogo áspero
entre o general Góes Monteiro e o general Miller.24
Este havia chegado recentemente dos EUA e manteve longa conferência onde novamente
voltou a mencionar diversos assuntos tais como: a desconfiança sobre os propósitos do
Brasil na questão da cooperação militar com os EUA, a tendência germanófila da maioria
dos oficiais do Exército, as suspeitas de que o Brasil não ficasse solidário com os EUA,
no caso desse país entrar na guerra, a ocupação preventiva do Nordeste brasileiro por
forças norte-americanas, a protelação para a entrega da encomenda de armamento por
esses motivos. Das informações passadas do Brasil para o EME dos Estados Unidos, e
devido ao impasse nos trabalhos da Comissão Mista, havia a discordância dos pontos de
vista dos dois Estados-Maiores.
Tudo isto foi rebatido pelo general Góes Monteiro, porém, logo depois o general Miller
voltou a acentuar alguns pontos como:
a) A desconfiança do Departamento de Guerra sobre o posicionamento do Brasil
naquele momento e no decorrer da guerra, em relação à entrada dos EUA como
23 Documento Secreto do Ministro da Guerra ao presidente Vargas, Rio de Janeiro, 07-10-1941, p. 1-4. AHEx: Acervo
Góes Monteiro.
24 Ofício Secreto nº 202, do Chefe do EME do Brasil ao Ministro da Guerra, Rio de Janeiro, 30-10-1941, p.1-3.
AHEx: Acervo Góes Monteiro.
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futuro beligerante.
b) Novamente, ele disse que fontes brasileiras informavam os EUA sobre as atividades
da chamada “5ª coluna” e a grande simpatia que parte do Exército Brasileiro tem
pelos feitos das armas alemãs, o que justificava o estado de suspeição, na cooperação
acertada. Entre os simpatizantes, estavam o Ministro da Guerra, o chefe do EME e
várias altas patentes do Exército.
As respostas do chefe do EME começaram com colocação de que o Brasil estava disposto
a cumprir todos os seus compromissos, mas que não poderia admitir delegar a outra nação
o ônus e a honra de defender o seu território.
A seguir, disse que o Brasil compartilhava, com as autoridades norte-americanas,
documentos sigilosos e concedia facilidades aos EUA no território brasileiro e que, as
suspeições apresentadas pelos americanos, mostravam que as protelações no envio de
material bélico ao Brasil eram intencionais.
O ataque do Japão à base norte-americana de Pearl Harbour acabou arrastando os EUA
para a 2ª Guerra Mundial. Todavia, a partir de outubro de 1941, eles já estavam elaborando
o novo plano Rainbow V, que previa o deslocamento de milhares de homens para o NorteNordeste do Brasil. Mesmo tendo mantido negociações com as autoridades brasileiras,
o planejamento americano para invadir o Brasil foi mantido, apesar de o embaixador
Caffery prevenir o governo americano, de que o Brasil não aceitaria tropas americanas
em seu território, sem que as houvesse pedido.25
Em discurso realizado em dezembro de 1941, o presidente Vargas avisou que puniria
os invasores e também elementos da chamada “quinta coluna”, além de comprometer o
Brasil na defesa da América e de reafirmar a solidariedade pan-americana.26
Em janeiro de 1942, aconteceu no Rio de Janeiro a Terceira Conferência de Ministros do
Exterior dos países da América. Era o momento em que os EUA precisavam para colocar
a maioria dos países da região ao seu lado.
Entretanto, não havia unanimidade em seguir os americanos, declarando guerra ao EIXO.
O chanceler Osvaldo Aranha defendia o rompimento imediato, enquanto os generais Dutra
e Góes Monteiro estavam convencidos de que um passo desses “nos levará imediata e
inevitavelmente à guerra” e que “as Forças Armadas não se achavam suficientemente
equipadas para assegurar a defesa de nosso território”. Em 24 de janeiro, o general Dutra
escreveu ao presidente Vargas, dizendo que o presidente conhecia o estado de fraqueza de
nossas Forças Armadas.
25 Frank D. McCann, Jr. Op.cit., p.202.
26 Frank D. McCann, Jr. Op.cit., p. 205.
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No encerramento da Conferência, sem a presença do general Dutra, o chanceler Osvaldo
Aranha, anunciou, após dias de negociações, a posição do Brasil: as relações com o
EIXO estavam cortadas. As conseqüências deste ato apareceriam mais adiante quando a
Alemanha resolveu atacar navios brasileiros.
Durante as negociações, para que o Brasil assumisse este posicionamento, os EUA
voltaram a se comprometer a fornecer o armamento necessário. Para tornar esta promessa
uma realidade, o presidente Vargas enviou aos EUA o ministro da Fazenda, Artur de
Souza Costa, mas este ao chegar, teve a informação dada pelo Departamento de Estado
de que os EUA não poderiam aumentar e nem acelerar as entregas, devidos aos imensos
pedidos que a indústria americana estava recebendo de ingleses, russos e de suas próprias
forças, ou seja, o atendimento às necessidades do Brasil, ficaria para mais tarde.27
Após intensas negociações, a missão Souza Costa firmou os chamados Acordos de
Washington. Na parte militar, os americanos conseguiram reduzir os pedidos de material
bélico até a uma quantidade que eles achavam aceitáveis, e o acordo previa o envio de
equipamento até julho de 1942.28
É interessante colocar que, nesta negociação entre os dois países, incluíam-se equipamentos
para a formação de uma divisão blindada. Isto nunca foi cumprido pelos americanos,
nem com a ida da FEB para a Itália, e não foi a única vez que eles não respeitaram o que
tinham assinado, bastando verificar que o modelo de fuzil prometido para os brasileiros,
o Garand, também não foi cedido a FEB, que recebeu o já ultrapassado fuzil Springfield,
além de outras demonstrações de quebra de contrato acertado com o Brasil.29
Em março, os chefes de Estado Maior (Marinha, Exército e Força Aérea) e o chanceler
Osvaldo Aranha chegaram a um acordo quanto a um esboço de acordo de defesa conjunta,
depois apresentado e aceito pelos Estados Unidos. O professor McCan escreveu que
neste período, “os Generais Dutra e Góes Monteiro se mostravam inexcedivelmente
cooperativos”.30
Em maio, finalmente, foram criadas duas Comissões Mistas, uma no Rio de Janeiro e
outra em Washington.
Um relatório do Departamento de Estado dos EUA, de meados de 1942, apresenta os
pontos positivos e negativos das relações entre os dois países. Alguns pontos positivos
eram:
1 - o forte apoio concedido pelo Brasil aos EUA na Conferência de Ministros;
2 - o rompimento das relações diplomáticas do Brasil com o EIXO;
3 - cooperação das autoridades militares e navais para operações de defesa continental;
27 Frank D. McCann, Jr. Op.cit., p. 210.
28 Moura, Gerson, Sucessos e Ilusões, Relações Internacionais do Brasil Durante e Após a Segunda Guerra Mundial,
p.13.
29 Frank D. McCann, Jr. Op.cit., p. 215.
30 Frank D. McCann, Jr. Op.cit., p. 217.
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4 - facilidades de trânsito para oficiais militares norte-americanos.
Alguns pontos negativos:
1 - os sucessos militares do EIXO;
2 - ausência de vitórias militares norte-americanas decisivas;
3 - o não atendimento das solicitações de material militar do Brasil.31
A desconfiança mútua entre as autoridades militares dos dois países continuou. Os
brasileiros por causa da demora e das remessas incompletas do material bélico prometido.
Os americanos acreditavam que muitas autoridades civis e militares brasileiras eram
simpatizantes do EIXO.
Novamente, neste período, o general Miller fez duros comentários sobre o general Góes
Monteiro, quando este voltou a solicitar o prometido armamento. O general, na verdade,
temia que o Brasil usasse estas armas contra os EUA. Veja o comentário enviado ao
coronel Henry Barber, que sucedeu ao general Ridway como oficial de planejamento
latino-americano do Exército dos EUA:
“Conhecendo o general Góes como eu o conheço, eu tenho certeza de que
ele não mudou em nenhum aspecto, e que ele está só fingindo um desejo
sincero de cooperar com os EUA, porque o Brasil, no presente momento
está quase totalmente dependente, do ponto de vista econômico, dos Estados
Unidos, e porque o general Góes ainda espera conseguir a maior quantidade de
equipamento nosso para o seu Exército. Quando ele tomar medidas enérgicas
para limpar a casa dentro do Exército Brasileiro, livrando-se dos simpatizantes
do EIXO, poderemos confiar mais nele... Se por algum motivo nosso Governo
deseja manter o fingimento de uma cooperação próxima e sincera entre os
exércitos dos Estados Unidos e Brasil, então a carta do general Góes deve ser
respondida pelo general Marshall com a mesma insinceridade. Se não, parece
não haver motivo algum para respondê-la”.32
Apesar das desconfianças do general Miller, o Brasil não apenas cedeu as bases que foram
importantes para a vitória final contra o EIXO. O sangue de seus militares ajudou aos
EUA a derrotarem o nazismo.
31 Hirst, Mônica. Op.cit.,p.77.
32 Hirst, Mônica. Op.cit.,p.113 e 114.
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Fontes
Todas as fontes em anexo do presente trabalho foram retiradas da documentação do
Arquivo Histórico do Exército no Rio de Janeiro.
Referências
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Mccann, Frank D. Aliança Brasil-Estados Unidos, 1937/1945. Rio de Janeiro: Biblioteca
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Moura, Gerson. Autonomia na Dependência. A Política Externa Brasileira de 1935-1942.
Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1979.
____________. Sucessos e Ilusões. Relações Internacionais do Brasil Durante e Após a
Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1991.
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