AVALIAÇÃO DO EFEITO DO CALOR E DO AR NO ENVELHECIMENTO DE LIGANTES ASFÁLTICOS UTILIZANDO O MODELO DE ARRHENIUS João Paulo Souza Silva, DSc. Universidade Federal do Tocantins – UFT Departamento de Engenharia Civil e Elétrica Márcio Muniz de Farias, PhD. Universidade de Brasília - UnB Departamento de Engenharia Civil e Ambiental Isabela Araújo Abrahim, Engª Universidade de Brasília - UnB Departamento de Engenharia Civil e Ambiental RESUMO O Cimento Asfáltico de Petróleo (CAP) é o principal material aglutinante utilizado nos revestimentos de pavimentos no Brasil e sofre o processo de envelhecimento durante a sua usinagem, aplicação e vida útil. Esse fenômeno possui várias causas, sendo as principais delas a oxidação e a perda das frações leves por volatilização. O efeito do envelhecimento, entre outros, é o aumento da consistência do ligante asfáltico e maior rigidez da camada betuminosa. Este “endurecimento” do ligante asfáltico, combinado com a ação do tráfego, resulta no aparecimento de fissuras e degradação acelerada no pavimento. Assim, devido à necessidade de se realizar um estudo fundamentado para simular o envelhecimento de maneira mais próxima possível da realidade, este trabalho tem como objetivo avaliar o efeito do calor e do ar no envelhecimento do CAP durante a fase de usinagem, transporte e aplicação do material, por meio do Modelo de Arrhenius, utilizando a estufa RTFOT. Esta avaliação permitiu estimar qual o tempo necessário para se atingir o valor de aceitação limite (para a viscosidade, p. ex.) para a temperatura que o ligante será submetido desde o momento da usinagem até sua aplicação em campo. A partir daí, foi determinada uma curva de usinagem no intuito de controlar a temperatura aplicada às misturas asfálticas para que este material possa chegar a campo com características de consistência capazes de atender às especificações mínimas exigidas nas notas de serviço. Palavras-chave: Cimento Asfáltico de Petróleo; Misturas asfálticas; Envelhecimento; Modelo de Ahrrenius. 1. INTRODUÇÃO Atualmente o Brasil tem como principal modo de circulação de pessoas e bens o transporte rodoviário, responsável por mais de 90% do transporte de passageiros e 61% do transporte de cargas (CNT, 2009). Em busca de crescimento econômico e social no país é necessário preservar e ampliar a malha rodoviária pavimentada. Neste sentido, a indústria do asfalto vem se desenvolvendo, buscando novos materiais e tecnologias asfálticas a fim de manter esse sistema funcionando, assim como desenvolver novas soluções para o melhoramento e a manutenção desses materiais. Dessa maneira, visando a um aprofundamento do que já é conhecido sobre a resposta material asfáltico às intempéries, foi estudada nesta pesquisa uma expressão, baseada Modelo de Arrhenius, capaz de “prever” o endurecimento do CAP durante a fase usinagem. É nessa fase que o CAP começa seu processo de envelhecimento; envelhecimento deve ser controlado para que depois de usinado, a mistura atenda especificações mínimas de serviço. do no de tal às Antes da elaboração do modelo de envelhecimento, foi realizada uma análise das principais características físicas do CAP, verificando se ele atendia às especificações mínimas estabelecidas pela Resolução nº19 da Agência Nacional do Petróleo (ANP, 2005). Tal caracterização foi utilizada também no estudo comparativo do CAP antes e depois de envelhecido, de onde foi possível tirar conclusões à respeito do modelo final de envelhecimento. 2. LIGANTE ASFÁLTICO O ligante asfáltico utilizado em projetos de pavimentação no Brasil, conhecido como Cimento Asfáltico do Petróleo - CAP, provém da destilação do petróleo, enquadrado de acordo com a Resolução ANP nº19 e DNIT-EM 095/2006, segundo suas características de consistência e durabilidade, por meio de ensaios clássicos de especificação, tais como: Penetração a 25ºC, de acordo com a norma brasileira DNER ME 003/99; Temperatura de amolecimento, pelo método anel e bola, conforme NBR 6560; Viscosidade absoluta, pelo método Brookfield, padronizado pela norma americana ASTM D4402; Ductilidade e da recuperação elástica utilizando o equipamento conhecido como Ductilômetro, padronizado pela norma DNER ME 163/98 e DNER ME 382/99. O IA (2002), caracteriza o CAP como um adesivo termoviscoplástico, impermeável à água, semi-sólido a temperaturas baixas, viscoelástico à temperatura ambiente e líquido a altas temperaturas e pouco reativo. Entretanto, a baixa reatividade química a muitos agentes não evita que esse material possa sofrer um processo de envelhecimento por oxidação lenta pelo contato com o ar e a água. Para desenvolvimento desta pesquisa foi escolhido o CAP classificado como 50-70 fabricado na Refinaria de Betim/MG distribuído pela Centro Oeste Asfaltos, localizada no Setor de Inflamáveis do Distrito Federal. 2.1. Envelhecimento do Ligante Asfáltico Desde sua fabricação na refinaria até seu último dia de vida em uma rodovia, o ligante asfáltico sofre transformações ao longo do tempo, com a consequente perda de suas propriedades mecânicas, conhecida como envelhecimento. Segundo Silva (2011), várias são as reações passíveis de ocorrer nos CAPs, dentre as quais pode-se citar: oxidação, endurecimento exsudativo, endurecimento físico e perda de voláteis. Entretanto, a oxidação é a principal causa do envelhecimento, ocorrendo principalmente durante a usinagem do concreto asfáltico (±60%) e continua, de forma mais lenta durante estocagem, transporte, aplicação e seu uso no revestimento asfáltico em campo (±40%). Fisicamente, o envelhecimento de um ligante asfáltico é representado pelo aumento de sua consistência e se apresenta, de uma forma geral, como um aumento de viscosidade associado a uma diminuição da penetração e aumento do ponto de amolecimento, com perda de suas características aglutinantes. Esse aumento de consistência influencia o comportamento físico e reológico do ligante asfáltico, deixando-o mais duro e, por conseguinte, mais quebradiço, menos dúctil e menos elástico (Whiteoak, 1990). Ainda, de acordo com o autor, estas etapas do envelhecimento de um ligante asfáltico podem ser ilustradas esquematicamente conforme a Figura 1. Figura 1. Envelhecimento do ligante (Whiteoak, 1990 apud Morilha, 2004). Silva (2005), por meio das informações obtidas na Figura 1, divide a ocorrência do envelhecimento em três etapas: Fabricação da mistura asfáltica (usinagem), onde o ligante na presença de oxigênio é aquecido a altas temperaturas (160-180ºC), o qual representa cerca de 60% do envelhecimento total do ligante; Espalhamento e compactação - cerca de 20% do envelhecimento, devido ao ligante asfáltico estar exposto a altas temperaturas e apresentar maior superfície em contato com oxigênio; Utilização da pista - cerca de 20% do envelhecimento total sofrido pelo ligante asfáltico. Nesta etapa, o ligante está suscetível a temperaturas mais baixas, geralmente não ultrapassando 60-70ºC no interior do revestimento, porém este ainda continua envelhecendo devido às condições climáticas e, indiretamente, a constante solicitação do tráfego de veículos. Neste sentido, torna-se necessário realizar um estudo bem fundamentado sobre o envelhecimento de ligantes asfálticos, simulando o envelhecimento de maneira mais próxima possível da realidade. A simulação de envelhecimento de ligantes asfálticos vem sendo normalmente realizada a partir de uma seqüência de dois ensaios. O primeiro destes simula o envelhecimento devido à usinagem, onde uma película fina de ligante é exposta a altas temperaturas durante o ensaio conhecido como Rolling Thin Film Oven Test – RTFOT (ASTM D 2872). Em seguida, procede-se à simulação do envelhecimento in situ, ou seja; durante sua vida útil. O ensaio com o Pressure Aging Vessel – PAV simula este tipo de situação, onde se considera o tráfego de veículos durante longos tempos de serviço, combinado com o ambiente e intempéries a que o revestimento é exposto. Lamontagne et al. (2001) verificaram em seus estudos que uma amostra de asfalto, não modificado, exposta à simulação clássica de envelhecimento, possui aproximadamente as mesmas características que um corpo de prova após 3 a 6 anos in situ, dependendo da composição química do ligante em questão. 3. METODOLOGIA Para alcançar os objetivos propostos nesta pesquisa, foram realizados os seguintes procedimentos experimentais tradicionais com finalidade de se caracterizar o ligante asfáltico: a penetração, ductilidade, o ponto de amolecimento e medidas de viscosidades. 3.1. Modelo de Envelhecimento Após caracterização do CAP, o mesmo foi submetido a um processo de envelhecimento controlado em laboratório. A Resolução ANP nº19 e a especificação de material EM 095/2006 do DNIT prescrevem limites para perda de massa e relação de viscosidade para avaliar o efeito do calor e do ar sobre o ligante asfáltico. Para simulação do envelhecimento em curto prazo, foi realizado ensaio com uma estufa do tipo RTFOT, ilustrado na Figura 2. O comportamento do material a longo prazo pode ser estimado por meio de extrapolação baseado no modelo de Arrhenius, utilizando também a estufa RTFOT com finalidade de verificar qual o tempo máximo ao qual o ligante poderia ser exposto à temperatura e oxigênio antes de sua aplicação em campo (Silva, 2011). Figura 2. Ensaio de RTFOT – LER/UnB: (a) Preparação da amostra; (b) amostras em repouso; (c) execução do ensaio; (d) amostras após ensaio (Silva, 2011) O efeito do envelhecimento foi analisado por meio do Modelo de Arrhenius, comumente usado para extrapolar dados de curto prazo para prever o comportamento de um material em longo prazo ou em outras temperaturas. Koerner et al. (1992) comentam que o modelo de Arrhenius é baseado na superposição tempo-temperatura, ou seja, temperaturas de incubação elevadas, definidas de modo a manter a energia de ativação constante, usadas para acelerar a degradação do material com o objetivo de extrapolar os dados obtidos para a condição de temperatura de campo, matematicamente expresso como: E 1 ln act ln( A) R.T t (1) Onde: Ln = Logaritmo natural; t = tempos de reação, em min-1; Eact = Energia de ativação aparente (J/mol); R = Constante universal dos gases perfeitos (8,314 J/mol K) ; T = Temperatura Absoluta (ºK); A = Fator pré-exponecial (min-1) Para um dado material, o modelo tem duas constantes (Eact e A) a serem determinadas experimentalmente. Para tanto são realizados ensaios para determinação das propriedades de amostras envelhecidas artificialmente em no mínimo três temperaturas diferentes. As propriedades foram testadas em intervalos de tempo com uma escala logarítmica até que o estabelecimento de um valor limite para a propriedade fosse atingido, para todas as temperaturas utilizadas. De posse dos tempos de reação (t1, t2, t3) correspondentes às temperaturas (T1, T2,T3), foram plotados gráficos como o ilustrado na Figura 3, obtendo-se as constantes do modelo. Figura 3. Obtenção das constantes do modelo de Arrhenius (Colmanetti 2006) Entretanto, Koerner et al. (1992) explicam que o método considera a possibilidade das reações químicas a elevadas temperaturas não serem as mesmas a baixas temperaturas, sendo necessário limitar a extrapolação a 40ºC abaixo da menor temperatura de incubação em laboratório. Assim, por meio da extrapolação dos dados, foi possível determinar a curva Temperatura versus tempo de usinagem, com finalidade de controlar a degradação das características de consistência do CAP. 3.2. Definição das propriedades e ensaios Os ensaios escolhidos para serem realizados no CAP depois de envelhecido devem se relacionar às propriedades que apresentam um significado importante em campo. Assim, as propriedades mais indicadas para a avaliação de mudanças nas propriedades do asfalto são: a diminuição de penetração, o aumento do ponto de amolecimento e o aumento de viscosidade. Ademais, estas são as propriedades para as quais há limites de aceitabilidade especificados pela ANP No 19/2005. Para se ter conhecimento de como o ponto de amolecimento, a viscosidade e a penetração se comportavam ao longo de todo o período de incubação, a cada tempo pré-estabelecido, foi retirado um frasco com resíduo de CAP da estufa para realização dos ensaios. 3.3. Escolha dos valores limite Koerner et al. (1992), citados por Colmanetti (2006), consideram como indicativo do envelhecimento uma mudança de 50% do valor inicial da propriedade observada. Entretanto, como as normas brasileiras preconizam alguns valores limite após envelhecimento em curto prazo, o presente trabalho obedeceu alguns critérios diferentes de acordo com a propriedade em investigação apresentados. Esses valores limites foram adotados como critérios de parada para o envelhecimento, conforme mostra a Tabela 1. Tabela 1. Valores limite após envelhecimento em curto prazo Propriedade Aumento no ponto de amolecimento Diminuição da Penetração Aumento da Viscosidade Valor limite 8ºC 50% 50% A incubação foi interrompida quando uma ou mais propriedades escolhidas alcançaram os valores limites estabelecidos, ou seja, o critério de parada para o envelhecimento do CAP a uma dada temperatura, feito em 3 campanhas, foi o momento em que o material atingiu metade do valor inicial da sua penetração, aumento de 50% do valor inicial da viscosidade ou um aumento de 8ºC no ponto de amolecimento inicial. 3.4. Duração do Envelhecimento (incubação) Os intervalos de tempo considerados para incubação de amostras, visando a aplicação do modelo de Arrhenius, foram determinados em escala logarítmica, ou seja, as amostras foram retiradas da estufa a cada 1, 2, 4, 8, 16, 32 e 64 unidades de tempo (horas) e ensaiadas para então verificar seu comportamento ao longo do período de incubação. Dessa forma, a determinação dos tempos limites que o CAP pode ficar exposto à altas temperaturas, ainda mantendo suas propriedades dentro dos limites da norma, foi feita pela observação do comportamento das propriedades reológicas durante o envelhecimento. 3.5. Temperaturas de incubação As mudanças nas propriedades físicas do asfalto devidas ao envelhecimento ocorrem como uma função direta das temperaturas de incubação em estufa. Ou seja, a determinação das temperaturas à que as amostras devem ser expostas é fato de grande importância. Assim, seguindo o modelo de Arrhenius, as temperaturas foram escolhidas, visto que este modelo é capaz de assegurar uma boa margem de segurança dos resultados. De acordo com o modelo utilizado, foram escolhidas três temperaturas de incubação (100°C, 135°C e 163ºC), cobrindo uma faixa adequada para que se pudesse estimar o tempo de vida por extrapolação com certa margem de confiança. 4. RESULTADOS Inicialmente, caracterizou-se o CAP em condições naturais, onde o objetivo principal foi verificar se o material encontrava-se dentro das especificações da Resolução nº19 da ANP e da norma DNIT 095/2006. Posteriormente, o material foi levado à estufa de envelhecimento em curto prazo – RTFOT e, em seguida novamente caracterizado para determinação da variação nas propriedades de consistência e durabilidade do material. O resumo dos resultados encontrados para o CAP em condição natural e após envelhecimento em curto prazo realizado em estufa RTFOT são apresentados na Tabela 2. Tabela 2. Caracterização do CAP 50/70. Propriedades Valor referência Resultado Penetração (100g, 5s, 25°C), 0,1 mm. 50- 70 mm 53 Ponto de amolecimento (ºC) > 46 46,5 Ponto de Fulgor (ºC) > 235 325 Ductilidade (25ºC, 5cm/min), cm. 60 > 100 Viscosidade 135ºC a 20rpm > 274 630 Brookfield 150ºC a 50 rpm > 112 320 (SP 21), 177ºC a 100rpm 57-285 102 mínimo, cP Efeito do Calor e do ar – Envelhecimento em curto prazo - RTFOT Variação de massa (%) Variação do ponto de amolecimento ≤ 0,5 % ≤ 8ºC 0,16 1,5 Penetração retida ≥ 55% 73 Ductilidade (25ºC, 5cm/min), cm. ≥ 20 > 100 Pode-se afirmar, de acordo com a tabela acima, que o CAP 50-70, utilizado neste trabalho, se encontra dentro dos limites da especificação vigente (DNIT 095/2006 e ANP, 2005). 4.1. Modelo de Envelhecimento A caracterização do CAP após a incubação é o estudo do envelhecimento propriamente dito. Como esperado, o aquecimento em estufa RTFOT modificou as propriedades do CAP causado pela perda de voláteis e oxidação sofrida. Houve ainda aumento da consistência e aumento da temperatura de amolecimento, menor ductilidade e menor recuperação elástica do que inicialmente. Como esperado, o aquecimento em estufa RTFOT modificou as propriedades do CAP devido à perda de voláteis e oxidação. Houve ainda aumento da consistência e aumento da temperatura de amolecimento, menor ductilidade e menor recuperação elástica do que inicialmente. A Figura 4 representa o comportamento ao longo do tempo para a penetração, utilizada para determinação de um dos modelos de envelhecimento. Penetração/Penetração inicial (mm) Tempo x Penetração 1,00 0,80 0,60 0,40 0,20 0,00 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22 24 26 28 30 32 34 Envelhecimento a 100ºC Envelhecimento a 135ºC Tempo (h) Envelhecimento a 163ºC Figura 4. Comportamento da penetração ao longo do tempo de envelhecimento (Silva, 2011) Dessa forma, os resultados obtidos realmente simularam o comportamento do CAP em campo, que sofre desgaste devido ao aquecimento à altas temperaturas, como na usina, no transporte e na compactação, fatores que implicam em menor vida útil do material. Na Tabela 3, são mostrados os tempos limites encontrados, algumas vezes por interpolação linear. Tabela 3.Tempos limites verificados durante o envelhecimento. Temperaturas de Incubação (ºC) Propriedades Limite Adotado 100ºC 135ºC 163ºC Penetração 26,5 mm 30h 6h 3h Ponto de 54,5ºC 48h 8h 3h Amolecimento Viscosidade 945cP- 135°C 110h 18,2h 9h -5,00 -5,00 -5,50 -5,50 ln (1/tempo crítico) ln (1/tempo crítico) De acordo com os tempos observados em função das temperaturas de incubação, aplicou-se o modelo de Arrhenius, onde foram obtidos os modelos de envelhecimento para a Penetração (Figura 5-a), Ponto de amolecimento (Figura 5-b) e Viscosidade (Figura 6). -6,00 -6,50 y = -5944,6x + 8,5949 R² = 0,9614 -7,00 Eact/R = -5944,6 K ln (A) = 8,5949 min -1 -6,00 -6,50 y = -6645,7x + 10,068 R² = 0,9993 -7,00 Eact/R = -6645,7 K ln (A) = 10,068 min -1 -7,50 -7,50 -8,00 2,20E-03 2,30E-03 2,40E-03 2,50E-03 2,60E-03 2,70E-03 -8,00 2,20E-03 2,30E-03 2,40E-03 2,50E-03 2,60E-03 2,70E-03 1/Temperatura (K) 1/Temperatura (K) Figura 5. Modelo de envelhecimento: (a) penetração; (b) ponto de amolecimento. -5,00 ln (1/tempo crítico) -5,50 -6,00 -6,50 -7,00 y = -5334,1x + 6,8038 R² = 0,9941 Eact/R = -5334,1 K ln (A) = 6,8038 min -1 -7,50 -8,00 2,20E-03 2,30E-03 2,40E-03 2,50E-03 2,60E-03 2,70E-03 1/Temperatura (K) Figura 6. Modelo de envelhecimento – viscosidade. A análise do comportamento das variáveis foi feita também com a determinação do Coeficiente de Correlação Linear de Pearson. Para isso, foram usados os valores dos tempos e das temperaturas necessários para atingir os limites de Penetração, Ponto de Amolecimento e Viscosidade fixados anteriormente. Sendo assim, cada gráfico recebeu uma linha de tendência linear, gerando uma equação do tipo a*x+b e também um coeficiente de determinação R², chamado também de valor de correlação de Pearson. Para classificar a correlação existente entre os dados avaliados, foi utilizada uma classificação subjetiva do NCHRP (TRB, 2002) baseada no R², apresentada na Tabela 4. Tabela 4. Classificação subjetiva da correlação dos parâmetros avaliados. Classificação R² Excelente > 0,90 Boa 0,70 – 0,89 Razoável 0,40 – 0,69 Fraca 0,20 – 0,39 Muito fraca < 0,19 Observa-se, de acordo com as Figuras 4, 5 e 6 que a temperatura e o tempo de incubação possuem uma correlação negativa, e seus coeficientes são classificados como Excelente, ou seja, o modelo de envelhecimento encontrado apresenta-se como satisfatório, fundamentando outras conclusões acerca do comportamento durante a usinagem do material. Após determinar o modelo de envelhecimento para as três principais características do material (Penetração, Ponto de amolecimento e viscosidade), foram extrapoladas temperaturas de exposição, obedecendo ao limite máximo de 40ºC acima e abaixo das temperaturas utilizadas em laboratório, conforme as limitações sugeridas por Koerner et al. (1992). As equações obtidas por regressão linear para as propriedades avaliadas mostram os valores de Eact/R e ln(A), resumidos na Tabela 5. Tabela 5. Constantes obtidas após ensaios. Propriedade Penetração Ponto de Amolecimento Viscosidade Eact/R (K) -5944,6 -6645,7 -5334,1 ln(A)(min-1) 8,5949 10,068 6,8038 De posse dos parâmetros A e Eact, obtidos dos coeficientes das regressões mostradas nas figuras 4, 5 e 6, é possível escrever o modelo de Arrhenius de forma exponencial, como: E t A.exp act R.T (2) A Eq. (2) permite obter o tempo máximo para atingir um valor limite de uma dada propriedade quando o ligante é mantido a uma dada temperatura, extrapolando os valores de tempo e temperatura impostos em laboratório para as condições de usingem e campo. A extrapolação foi realizada baseada nas equações obtidas em cada modelo de envelhecimento, o que resultou em tempos necessários para que a Penetração atingisse o limite de 26,5 mm e o Ponto de Amolecimento limite de 54,5ºC, e viscosidade 945cP (a 135ºC a 20rpm) para as temperaturas de exposição pré-estabelecidas conforme mostrado na Tabela 6. Tabela 6. Temperatura versus tempo de exposição obtidos. Tempo máximo de exposição à temperatura (horas) Temp. de Usinagem (°C) Visc. Penetr Pto. Amolec. . 130 10,31 7,82 10,20 140 7,48 5,47 6,84 150 5,52 3,89 4,68 160 4,12 2,81 3,26 170 3,12 2,07 2,30 180 2,39 1,54 1,65 *Visc = Viscosidade; Penetr. = Penetração; Pto. Amolec. = Ponto de Amolecimento. Os resultados obtidos na Tabela 6 fundamentaram a construção de uma curva Temperatura versus Tempo limite de exposição conforme ilustrado na Figura 7. Figura 7. Modelo de Envelhecimento: Tempo versus Temperatura de exposição. (Silva, 2011) Verifica-se pela Figura 7 que a primeira característica a sofrer com a temperatura de exposição é a Penetração. Assim, é necessário atentar-se para o tempo máximo que o material poderá ficar exposto a uma determinada temperatura, isto durante a fase de usinagem até o momento de aplicação do material em campo. Este tempo e temperatura são essenciais para que o limite máximo preconizado nas especificações técnicas não seja atingido. Neste sentido, observa-se que o material avaliado quando exposto a uma temperatura de 170ºC poderá permanecer assim por no máximo 2,0 horas, ou seja, para que a Penetração não atinja o limite máximo de 26,5 mm e o ponto de amolecimento 54,5ºC, conforme Resolução ANP Nº 19 de 11/07/2005. Neste exemplo, a viscosidade e permanecerá dentro dos limites, pois o tempo máximo será maior que 2,0 horas. 5. CONCLUSÕES A partir do modelo de envelhecimento do CAP, que simula a oxidação e perda de suas propriedades devido à exposição à altas temperaturas e às intempéries, pode-se concluir que a falta de manutenção adequada das pistas não é a única razão de o Brasil ter uma malha rodoviária tão precária, quando se fala apenas dos aspectos referentes à capa asfáltica. Ou seja, há vários fatores negativos que influenciam no produto final (o pavimento) que nascem no processo de manipulação do ligante nas usinas, que é o caso do envelhecimento precoce do CAP na fase de usinagem. O CAP, por sua natureza, deve ser mantido aquecido para ser manipulado, e se esse aquecimento não for realizado com controle restrito da temperatura, o ligante começa a envelhecer ainda dentro da usina, antes mesmo de ser aplicado em campo. Dessa forma, a curva obtida por meio do estudo do envelhecimento do CAP na estufa RTFOT, observada na Figura 7, pode ser uma ferramenta de controle de qualidade durante a fase de usinagem da mistura asfáltica até sua aplicação na pista, baseado no fator temperatura. O uso de curvas, como a da Figura 7, possibilita que se determine o tempo e a distância máxima de transporte entre a confecção da mistura e o espalhamento e compactação desta na pista, de modo a limitar os efeitos nocivos do envelhecimento precoce. AGRADECIMENTOS Os autores agradecem ao Laboratório de Engenharia Rodoviária do CEFTRU/UnB pelo apoio técnico-científico e ao CNPq pelo apoio financeiro. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANP (2005). Agência Nacional de Petróleo (2005). Resolução ANP Nº19, de 11 de julho de 2005. ABNT/NBR 6560 (2000). Determinação do Ponto de Amolecimento de Materiais Betuminosos – Método do Anel e Bola. Associação Brasileira de Normas Técnicas. Rio de Janeiro. ASTM D 4402 (1995). 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