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A INCLUSÃO DO SURDO NO AMBIENTE ESCOLAR:
REALIDADE E DESAFIOS
Ednalva Pereira dos Santos*
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RESUMO
Através deste artigo se buscará analisar o processo de inclusão do surdo no sistema regular de
ensino, discutindo se realmente existe inclusão, bem como avaliar a existência de
profissionais capacitados em sala de aula para realizar tal atividade. Observar-se-á, ainda, o
modo como são tratados os alunos surdos no ambiente escolar, levando em consideração que
a criança surda, além de ser tratada adequadamente, precisa e tem o direito a ter contato com a
“comunidade dos surdos” para, assim, adquirir a linguagem através de uma interação social
verdadeira. Para tanto, discutiremos o papel da LIBRAS para a formação do conhecimento do
sujeito com surdez.
Palavras-chave: Inclusão. Surdo. Ensino. Escola. Linguagem. LIBRAS.
ABSTRACT
Through this article, an analysis of the process of inclusion of deaf people in the
regular school system will be made, discussing if the inclusion really exists, as
well as to evaluate the existence of capable professionals in classroom to do
such activity. It will also be analyzed the way deaf students are treated at the
scholar environment , taking into account that the deaf child, besides being
treated properly, needs and has the right to have contact with “the deaf
community” in order to acquire the language through a real social interaction.
We discuss the role of LIBRA for the formation of knowledge of the subject
with deafness.
Keywords: Inclusion. Deaf. Teaching. School. Language. LIBRA.
*Ednalva Pereira dos Santos
Professora da Rede Estadual de Ensino de Sergipe
e-mail: [email protected]
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1 INTRODUÇÃO
Alguns assuntos possibilitam uma gama maior de discussões e análises sobre um
fato, promovendo, assim, a dinamicidade e inovação dos estudos científicos, determinantes na
busca e construção do conhecimento.
O estudo em questão tem o condão de discutir sobre um tema que chama a atenção
pela sua atualidade e utilidade, uma vez que a inclusão de indivíduos surdos na escola é uma
realidade que a educação formal, efetuada nas instituições escolares, não pode fugir, tendo em
vista que a legislação que regula a educação em nosso país é taxativa quanto à admissão de
pessoas com necessidades especiais.
De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, em seu artigo 96, parágrafo
único “o Poder Público adotará, como alternativa preferencial, a ampliação do atendimento
aos educandos com necessidades especiais na própria rede pública regular de ensino[...]”.
Dessa forma, a inclusão escolar dos surdos é uma forma de garantir que sujeitos que
antes eram segregados na sociedade passem a fazer parte dela a partir de uma linguagem
própria, que deve lhe ser propiciada, informada e ensinada não somente no seio da sua
família, mas, ao mesmo tempo, no ambiente de troca de conhecimentos e saber que se entende
ser a escola.
Nessa perspectiva esse indivíduo, que é dotado de uma singularidade própria, deve
ser respeitado e considerado enquanto sujeito social inserido nessa diversidade de sistemas,
criada pela relação sujeito e comunidade. A deficiência, assim, passa a ser encarada como um
elemento desafiador e integrador que faz com que os demais indivíduos, de uma forma geral,
percebam as diferenças e, por que não dizer, a sua diferença – uma vez que cada indivíduo,
como o próprio nome já identifica, é único, singular – e transforme a maneira preconcebida e
distorcida de ver o outro.
Para tanto, é necessário a apropriação da linguagem, enquanto instrumento norteador
da comunicação, sendo assim, o uso de uma língua, como parte importante para estabelecer
um discurso e demonstrar uma idéia, é fundamental para o sujeito surdo, tendo em vista que
será através dela que ele estabelecerá e solidificará vínculos sociais e pessoais. A ausência de
apreensão de uma linguagem certamente pode trazer consequências negativas no
desenvolvimento cognitivo de um sujeito, principalmente em uma criança.
*Ednalva Pereira dos Santos
Professora da Rede Estadual de Ensino de Sergipe
e-mail: [email protected]
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Graças a estudos e práticas realizadas por diversos profissionais, durante o decorrer
da história, foi criada uma linguagem que atendesse aos anseios e necessidades dos surdos,
essa linguagem hoje é conhecida como “língua dos sinais”, língua essa que deixou de ser vista
como mímica e passou a ser reconhecida cientificamente, finalmente, como línguas naturais
de modalidade gestual – LIBRAS.
Contudo, essa língua ainda não tem a amplitude necessária para atender aos surdos
existentes na escola e a falta de professores e profissionais capacitados, dentro desses
ambientes, é uma realidade que não foi modificada, apesar da discussão se arrastar a algum
tempo.
Em decorrência dessa constatação esse trabalho foi desenvolvido de forma a analisar
tal problemática, qual seja o problema da inclusão do surdo no ambiente escolar brasileiro,
buscando responder as seguintes indagações: de que forma a inclusão dos surdos está sendo
realizada na escola? A linguagem de sinais está sendo amplamente utilizada? Os professores
estão sendo capacitados para trabalhar com alunos surdos? A discussão teórica sobre tal
temática tem conseguido sua contrapartida prática?
É a partir desse debate que este trabalho procurou examinar a questão da inclusão do
sujeito surdo na escola; fazer um paralelo entre a teoria e a prática realizada nas escolas e
discutir esse tema que vem sendo objeto de estudo de diversos pesquisadores.
Utilizamos, para tanto, de uma metodologia dedutiva de cunho qualitativo e, como
método auxiliar, a metodologia histórica com desenvolvimento de uma pesquisa exploratória
a partir da utilização de artigos provenientes da internet e consulta à livros, como fontes de
primeira mão, e artigos de autores que tecem críticas sobre o assunto, como fonte de segunda
mão. Essas fontes se enquadram na perspectiva de pesquisa bibliográfica que é aquela forma
de pesquisa realizada a partir de material previamente elaborado, composto, basicamente, de
livros e artigos científicos.
Acreditamos na pertinência deste estudo e esperamos contribuir, mesmo que de
maneira singela, para a reflexão de um tema tão importante, bem como, colaborar com uma
das metas da ciência que é a construção do conhecimento.
*Graduada na Universidade Federal de Sergipe
Pós-graduada na Faculdade São Luís de França
*Ednalva Pereira dos Santos
Professora da Rede Estadual de Ensino de Sergipe
e-mail: [email protected]
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2 DESENVOLVIMENTO
2.1 Um breve relato sobre a história da educação do surdo
Por volta de século XIV, na Europa, iniciaram os primeiros estudos e movimentos de
educação do indivíduo com deficiência. Antes dessa época, as pessoas com qualquer tipo de
necessidade especial eram relegadas a asilos, asilos esses responsáveis por apenas proteger
essas pessoas, uma vez que a sociedade de então não acreditava que elas desenvolvessem a
aprendizagem em decorrência da sua “anormalidade”.
Naquela época não foram criadas e muito menos existiam escolas capazes de atender
o sujeito com deficiência. O que existia eram alguns educadores interessados que se tornaram
preceptores de algumas crianças deficientes, ou seja, passaram a ser professores dessas
crianças. Todavia, as crianças com deficiência que tiverem a oportunidade e possibilidade de
receber algum tipo de educação formal eram filhas de pessoas abastadas da sociedade.
O Congresso de Milão de 1880, que possibilitou a discussão envolvendo o
tratamento do indivíduo surdo e sua educação, foi um dos momentos impactantes de
possibilidade de discussão sobre a questão da apropriação de uma língua para o surdo, uma
vez que até então o que se priorizava o oralismo e não uma língua de sinais própria.
Os temas propostos foram: vantagens e desvantagens do internato, tempo de
instrução, número de alunos por classe, trabalhos mais apropriados aos surdos,
enfermidades, medidas, medidas curativas e preventivas, etc. Apesar da variedade de
temas, as discussões voltaram-se às questões do oralismo e da língua de sinais.
(BORNE, 2002, p.51)
No Brasil, no século XIX, o processo de educação formal do surdo será iniciado,
através da fundação do Instituto de Surdos-Mudos, o atual Instituto Nacional de Educação de
Surdos, pelo professor francês surdo Herrnst Hwet, então convidado pelo imperador D. Pedro
II.
Todavia, será no século XX, depois de uma série de clamores da comunidade de
deficientes, que a estratificação e discriminação no que se refere ao ensino brasileiro em
relação ao surdo e os portadores de necessidades especiais de uma forma geral, será diminuída
e o espaço na escolarização formal será ampliado e garantido pela legislação pátria a partir da
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publicação da Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional – LDB, Lei nº 9394/1993.
2.2 Educação formal do surdo e a Libras
O sujeito surdo era considerado como um ser inferior, incapaz de produzir
conhecimento e formar uma estrutura de pensamento capaz de acompanhar a comunidade a
qual estava inserido. Essa idéia por muito tempo permeou o ideário de uma sociedade pautada
na discriminação do diferente.
Essa idéia, globalizada no seio da sociedade, se estendia a estrutura educacional
formal, vigente à época, que privilegiava o ensino baseado no oralismo em detrimento de uma
língua de sinais que atendesse as necessidades da comunidade surda.
Por quase um século, as línguas de sinais foram perseguidas nas mesmas instituições
que supostamente deveriam propagá-las. Mas os códigos não chegaram a ser
eliminados, mas simplesmente conduzidos ao mundo marginal, onde sobreviveram
graças às contraculturas estabelecidas pelas crianças nas escolas, clã-destinas,
rebeldes e cruéis. (REÉ, 2005, p. 63)
Dessa forma, os surdos, de maneira geral, buscaram reverter a situação de
subjugação e opressão as quais sofriam e criaram momentos de contraposição a violência
moral, psicológica e, até mesmo, física de que padeciam.
Com a pressão e influência dos líderes surdos, no decorrer da história
contemporânea, se verificou que a consideração da apropriação do conhecimento, por parte
desses indivíduos, a partir de uma linguagem própria – a língua de sinais – contribuiria de
maneira significativa para o seu desenvolvimento em sociedade, tendo em vista que
os surdos, de forma diferentes que os ouvintes,não podem aprender os sons da letras
porque não ouvem e não podem fazer uso do mecanismo alfabético para extrair
significado do escrito (…) Neste sentido, devemos reafirmar a necessidade de
facilitar a aquisição da língua através do contato significativo com ela, (SÁNCHEZ,
1989, p. 124)
A partir desse entendimento as legislações passaram a garantir o acesso do surdo a
língua de sinais, tornando-a a língua oficial dos surdos. Um exemplo muito próximo dessa
valorização da língua de sinais está no Brasil, que defende tal língua e a considera como
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oficial através não somente da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, mas também através da
Lei 10.436, de 24 de abril de 2002 – lei que trata da Língua Brasileira de Sinais, Libras –
dispondo da seguinte forma:
Art. 1o É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua
Brasileira de Sinais - Libras e outros recursos de expressão a ela associados.
Parágrafo único. Entende-se como Língua Brasileira de Sinais - Libras a forma de
comunicação e expressão, em que o sistema lingüístico de natureza visual-motora,
com estrutura gramatical própria, constituem um sistema lingüístico de transmissão
de idéias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil.
Art. 2o Deve ser garantido, por parte do poder público em geral e empresas
concessionárias de serviços públicos, formas institucionalizadas de apoiar o uso e
difusão da Língua Brasileira de Sinais - Libras como meio de comunicação objetiva
e de utilização corrente das comunidades surdas do Brasil.
[...]
Art. 4o O sistema educacional federal e os sistemas educacionais estaduais,
municipais e do Distrito Federal devem garantir a inclusão nos cursos de formação
de Educação Especial, de Fonoaudiologia e de Magistério, em seus níveis médio e
superior, do ensino da Língua Brasileira de Sinais - Libras, como parte integrante
dos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs, conforme legislação vigente.
[...]
Dessa forma, a aceitação e o acolhimento do Estado de uma língua própria do surdo
só demonstram que a “aquisição da língua de sinais como primeira língua é a forma de
oferecer-lhe um meio natural de aquisição lingüística, visto que se apresenta como língua de
modalidade espaço-visual, não dependendo, portanto, da audição para ser adquirida”
(Fernandes, 2003, p. 30-31), o que vem reforçar e contribuir para a auto-aceitação do sujeito
surdo da forma que ele é.
2.3 A situação real da inclusão do surdo no ambiente escolar
O ensino da Libras passou a ser obrigatório no Brasil e toda criança surda passou a
ter direito a apreender sua linguagem. Porém, apesar da lei assegurar a inclusão escolar dos
alunos com deficiência auditiva, objeto do nosso trabalho, na realidade vislumbramos a falta
de uma preparação e estruturação das escolas para a recepção destes alunos, isto é, as escolas
não se encontram adaptadas para recebê-los e os professores não estão capacitados para
desenvolver atividades para essa nova clientela.
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Segundo a Lei LDB, nenhuma escola pode rejeitar uma criança com necessidades
especiais e todas as instituições educativas devem adaptar-se para atender estas necessidades,
contudo, para tanto, é necessário capacitar os professores bem como toda a equipe técnicapedagógica para receber estes alunos e criar, ao mesmo tempo, uma relação dialógica e
receptiva entre o alunato ouvinte e o alunato surdo, tentando integrar os aspectos
multiculturais que norteiam a comunidade surda com a comunidade ouvinte e vice-versa.
“Apoiada nesta noção de multiculturalismo crítico é que vejo a possibilidade de
afirmação da cultura dos Surdos, que deve ser vista não como uma diversidade a ser
defendida e mantida fora do contexto social mais amplo, mas que deve ser entendida
como existente e necessária de ser respeitada. A forma especial de o Surdo ver,
perceber, estabelecer relações e valores deve ser usada na educação dos Surdos,
integrada na sua educação em conjunto com os valores culturais da sociedade
ouvinte, que em seu todo vão formar sua sociedade”. (Moura 1996, p. 116)
Um estudo sobre a educação dos surdos, realizado no ano de 2003 pelo IBGE,
identificou apenas 344 alunos surdos matriculados nas Universidades brasileiras. O Ministério
de Educação (MEC) estima que 80% das crianças e adolescentes surdos não freqüentam a
escola, o demonstra a defasagem do acolhimento dos estabelecimentos de ensino na recepção
dessas crianças.
Em pesquisa recente realizada em todo o mundo, incluindo nosso país, aponta que
um número significativo de sujeitos deficientes auditivos que passaram por anos de
escolarização apresenta maiores dificuldades diante de aspectos acadêmicos,
comparando com alunos ouvintes, mesmo possuindo semelhantes capacidades
cognitivas. Esse fato só vem comprovar que o aluno surdo precisa muito mais que
aceitação para obter um ensino de boa qualidade em escolas regulares, e que se não
forem realizadas as devidas melhorias provavelmente não conseguirá atingir um
bom êxito no ambiente universitário (QUINTANA, 2001. p. 01).
No que se refere a atual política de inclusão educacional governamental ela tem
objetivado, teoricamente, reverter a situação de desamparo a qual é relegada a criança surda
em nosso país, buscando assumir o desafio de proporcionar “a educação para todos” através
da inclusão de 30% de crianças surdas à rede de ensino dentro dos próximos três anos. O
projeto tenciona difundir a Língua Brasileira de Sinais, ou LIBRAS, para 27 mil professores e
intérpretes em centros de treinamentos estabelecidos nas 27 capitais estaduais brasileiras.
O projeto prioriza a inclusão de crianças com deficiência auditiva dentro de salas de
aulas normais, como já havia feito com portadores de outras deficiências. Todavia,
verificamos que a maioria dos alunos deficientes recebe, na verdade, instrução em salas ou
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instituições especiais ou, ainda, são colocados nas salas de aulas sem receber o
acompanhamento devido.
Os alunos surdos, a esteira dessa situação, incluídos no ensino regular, sentem
dificuldades, principalmente, por não conseguirem estabelecer uma comunicação satisfatória
com seus colegas e professores e, devido a isso, acabam por isolar-se ou, ás vezes, revolta-se
com esta situação, tornando-se, muitas vezes, arredios a educação escolar.
Nessa situação periclitante o professor, na maioria das vezes, despreparado para esta
realidade, por uma série de fatores – seja por causa da falta de apoio e subsídios necessários a
apreensão de uma prática pedagógica que atenda aos alunos surdos, pela falta do aparato
técnico-pedagógico por parte dos órgãos educacionais, entre outros – cria situações paliativas
que permitam a inserção desses alunos com necessidades especiais às aulas.
Infelizmente, ultimamente, a educação de surdos tem se tornado um assunto bastante
preocupante, visto que as práticas administrativas e pedagógicas oferecidas a estes alunos
muitas vezes não oferecem o mínimo de cabedal adequado para que os mesmos adquiram
adequadamente os conhecimentos necessários à vida em sociedade.
Vários estudiosos debatem sobre o tema. Vejamos alguns entendimentos:
“A inclusão postula uma reestruturação do sistema de ensino com o objetivo de
fazer com que a escola se torne aberta às diferenças e competente para trabalhar com todos os
educandos, sem distinção de raça, classe (…)” (GUIMARÃES, 2003, p. 46);
“É preciso preparar a escola para incluir nela o aluno especial e não ao contrário”,
(MANTOAN, 2005, p. 23);
”O papel do professor é ser regente de classe e não especialista em deficiência, essa
responsabilidade é da equipe de atendimento especializado, uma criança surda, por
exemplo, aprende com especialista em libras e leitura labial. A função do regente é
trabalhar os conteúdos, mas as parcerias os profissionais são muito produtivas. Se na
turma há criança surda e o professor regente vai dar uma aula sobre o Egito o
especialista mostra a criança com antecedência fotos, gravuras sobre o assunto”,
(MANTOAN, 2005,p,24);
Consideramos que não existe atualmente nenhuma possibilidade de se opor
inclusão social à educacional. Seria inclusive ausência de bom senso, mas é preciso
que seja construída com competência e responsabilidade, respeitando os princípios
legais, de direito à cidadania e à educação, e os princípios éticos, do respeito á
diferença. Desse modo, não é possível pensar a inclusão apenas localizando as
mudanças nas ações dos professores e das suas práticas pedagógicas. Não
excluímos a importância de sua atuação nesse contexto. Todavia é preciso avançar
e considerar as mudanças que se operam no conjunto da escola, de suas práticas, de
sua organização e de sua cultura (TARTUCI, 2001, p. 29).
*Ednalva Pereira dos Santos
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É necessário evidenciar que a aprendizagem das crianças surdas, em geral, não é
facilitada, muitas vezes segue caminhos diferentes daquelas das crianças ouvintes, que passam
por um processo de aprendizagem formal, sem as dificuldades e especificidades inerentes ao
aluno surdo. Assim sendo, o acompanhamento individualizado da criança surda, ensinando-o
como aprender, pode colocá-la em situação de igualdade junto à comunidade dos ouvintes,
levando em consideração que, segundo CHARLOT (2000, p. 53),
[...] nascer significa ver-se submetido à obrigação de aprender. Aprender para
construir-se, em um triplo processo de “hominização” (tornar-se homem), de
singularização (tornar-se um exemplar único de homem), de socialização (tornar-se
membro de uma comunidade, partilhando seus valores e ocupando um lugar nela).
Aprender para viver com outros homens com quem o mundo é partilhado. Aprender
para apropriar-se do mundo, de uma parte desse mundo, e para participar da
construção de um mundo préexistente. Aprender em uma história que é, ao mesmo
tempo, profundamente minha, no que tem de única, mas que me escapa por toda a
parte. Nascer, aprender, é entrar em um conjunto de relações e processos que
constituem um sistema de sentido, onde se diz que eu sou, quem é o mundo, quem
são os outros.
Por isso os Estudos Surdos, sob o ponto de vista cultural, entendem e evidenciam a
cultura surda como sendo algo presente e dinâmico que compõe um todo caracterizado pela
língua, história cultural, pedagogia dos surdos, artes, literatura e dentre outros aspectos,
compartilhando a teoria cultural que enfatiza a cultura surda e seus discursos contrários as
idéias que entendem o surdo como sujeito deficiente, estereotipado e como um sujeito
subalterna, inferior.
Esta verdade sublime o Surdo encontra quando entra para o mundo totalmente visual
- espacial da Comunidade Surda interagindo com a Cultura Surda, Artes Surdas,
Identidade Surda, Língua de Sinais dos Surdos Urbanos e dos Índios Surdos,
Pedagogia Surda em toda a sua complexidade e diferenças, (VILHALVA, 2004, p.
55).
As relações cognitivas, fundamentais para o desenvolvimento de qualquer aluno,
inclusive o surdo, estão diretamente relacionadas a capacidade de a criança organizar suas
idéias e pensamentos através de uma língua e uma série de comportamentos que interajam
com os demais indivíduos sociais, sejam eles crianças, jovens ou adultos. O processo de
alfabetização vai sendo delineado com base na descoberta da própria língua e nas relações
estabelecidas através dela.
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Na criação de uma relação dialógica na escola, na riqueza de demonstrações das
informações e na construção de momentos de interação focada na aprendizagem é importante
viabilizar um leque de possibilidades que incluam de verdade o surdo, de forma a demonstrar
que ele é sim um sujeito capaz de, como qualquer outro, de atuar na comunidade da qual ele
faz parte. Aí sim a alfabetização terá papel significativo no ambiente escolar.
Nesse contexto, é indispensável à idéia e emprego do bilingüismo, que nada mais é
que a conjunção e aquisição, por parte não só do surdo mais até mesmo do ouvinte, da língua
oral e da língua de sinais. A compreensão, desenvolvimento e instituição dessas duas línguas
é que possibilitará o desenvolvimento da linguagem do surdo e a relação deste com os demais
sujeitos, tendo em vista que todos eles, surdos ou não, estarão em sintonia.
O Bilingüismo tem como pressuposto básico que o surdo deve ser Bilíngüe, ou seja
deve adquirir como língua materna a língua de sinais, que é considerada a língua
natural dos surdos e, como Segunda língua , a língua oficial de seu país(...)os autores
ligados ao Bilingüismo percebem o surdo de forma bastante diferente dos autores
oralistas e da Comunicação Total. Para os bilingüistas, o surdo não precisa almejar
uma vida semelhante ao ouvinte, podendo assumir sua surdez, (GOLDFELD, 1997,
p. 38).
A língua como convenção social de uma dada comunidade expressa seu modo de
pensar, como “um sistema altamente desenvolvido” (Quadros, 2005, p.29). É importante
lembrar que a inclusão escolar só irá acontecer concretamente na medida em que respeitarmos
o direito da comunidade surda escolher como quer estudar, isto é, numa sala com crianças
ouvintes ou numa sala com outros surdos, para desenvolver sua língua de sinais e somente
depois de dominá-la estudar com as crianças ouvintes.
Todavia, paralela a essa possibilidade de escolha da comunidade surda deve-se
desenvolver o bilingüismo na escola e fazer uso regular dele, pois será através do seu
emprego é que se diminuirá o abismo ainda existente entre a língua de sinais e a língua oral.
Assim sendo, devemos criar “condições para que os surdos (…) tenham a
possibilidade de acesso ao domínio da língua escrita (…) pela garantia de
desenvolvimento normal de linguagem (…). Em segundo lugar, é imprescindível
brindar a informação requerida para que as crianças surdas elaborem um
conhecimento prévio sem o qual não é possível a interação com o texto escrito.
(SANCHE apud LACERDA, 1996, p. 06)
Ter contato desde uma idade precoce com duas ou mais línguas oferecerá á criança
muito mais recursos, qualquer que seja seu futuro e qualquer que seja o mundo em que
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escolherá viver, pois o ajudará a se comunicar plenamente com o mundo circundante
converter em um membro do mundo ouvinte.
Com base na declaração dos direitos humanos linguísticos, Quadros (1997. p. 28)
coloca que
[...] todos os seres humanos têm o direito de identificarem-se com uma língua
materna e de serem aceitos e respeitados por isso; todos têm o direito de aprender a
língua materna(s) completamente, nas suas formas oral (quando fisiologicamente
possível) e escrita; todos têm o direito de usar sua língua materna em todas as
situações oficiais (inclusive na escola); todos os utentes de uma língua materna nãooficial em um país têm o direito de serem bilíngües, isto é, o direito de terem acesso
a sua língua materna e à língua oficial do país.
3 CONCLUSÃO
O presente estudo, tentou demonstrar que houve uma valorização, aceitação e
respeito em relação à questão do surdo na história contemporânea e nas legislações existentes
no mundo, dentre elas encontrando-se a legislação brasileira, que deu um salto significativo
no que tange a quebra de preconceitos relacionados a comunidade surda, uma vez que
publicaram leis que vieram contribuir para a inclusão deles junto a sociedade, principalmente
nas relações envolvendo a educação e a língua.
Contudo, as políticas públicas de valorização e inclusão desse sujeito na educação
formal, enquanto indivíduo dotado de direitos e deveres, estão um tanto longe da realidade,
haja vista que a intenção teórica apregoada nas legislações e planos escritos não são
devidamente e concretamente aplicadas na prática.
A falta de uma política prática de formação continuada dos educadores e demais
técnicos da escola, bem como a ausência de uma estrutura e organização pedagógicoadministrativa para receber os alunos surdos, está impedindo que os mesmo se apropriem do
conhecimento necessário para o seu crescimento psico-econômico-social.
A escassez de aplicação de uma metodologia alfabetizatória pautada no bilingüismo,
com a preensão do ensino da Libras, tem impedido a diminuição do fosso existente entre a
comunidade dos ouvintes e dos surdos.
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Esperamos que num futuro bem próximos tais problemas sejam sanados e que haja
vez e voz para mas essa camada minoritária que participa da nossa sociedade, dispensando a
ele a devida valorização de que a mesma merece.
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*Ednalva Pereira dos Santos
Professora da Rede Estadual de Ensino de Sergipe
e-mail: [email protected]
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*Ednalva Pereira dos Santos
Professora da Rede Estadual de Ensino de Sergipe
e-mail: [email protected]
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A INCLUSÃO DO SURDO NO AMBIENTE ESCOLAR