agência nacional de vigilância sanitária
EDUCAÇÃO E INFORMAÇÃO EM SAÚDE
Caderno de textos acadêmicos
2011
agência nacional de vigilância sanitária
EDUCAÇÃO E INFORMAÇÃO EM SAÚDE
Caderno de textos acadêmicos
2011
Diretor-Presidente
Adjunto do Diretor-Presidente
Dirceu Brás Aparecido Barbano
Luiz Roberto Klassmann
Diretores
Adjuntos de Diretores
José Agenor Álvares da Silva
Neilton Araujo de Oliveira
Maria Cecília Martins Brito
Luiz Armando Erthal
Jaime Cesar de Moura Oliveira
Luciana Shimizu Takara
Gerência Geral de Monitoramento e Fiscalização de Propaganda, de Publicidade,
de Promoção e de Informação de Produtos Sujeitos à Vigilância Sanitária
Maria José Delgado Fagundes
Coordenação Editorial
Paula Simões
Rosaura Hexsel
Elaboração
Instituições de Ensino Superior participantes da Fase IV do Projeto de Monitoração de
Propaganda de Produtos Sujeitos à Vigilância Sanitária
Revisão
Paula Simões
Rosaura Hexsel
Colaboração
Maria José DelgadoFagundes
Renata Regina Leite de Assis
Projeto Gráfico e diagramação
Paula Simões
agência nacional de vigilância sanitária
EDUCAÇÃO E INFORMAÇÃO EM SAÚDE
Caderno de textos acadêmicos
2011
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO
9
PARTE 1 - AÇÕES DE EDUCAÇÃO
11
UCB - Projeto Educanvisa em escola pública de Taguatinga – Distrito Federal: organização
e execução das atividades 13
UEL - Educação para o consumo de alimentos saudáveis no ensino fundamental
19
e impacto das ações realizadas no município de Santo Antônio de Jesus - Bahia
33
UFBA - Uso racional de medicamentos versus propaganda abusiva: percepção dos educadores
UFF - Promovendo o Uso Racional de Medicamentos nas escolas públicas que participam do
Projeto Educanvisa
39
UFG - Percepção de professores do ensino fundamental de escolhas da cidade de Goiânia sobre
valores sociais e educacionais em saúde
43
UJF - Educação em saúde nas escolas: impacto da propaganda de medicamentos e promoção
da alimentação saudável
51
UFMA - Trabalho educativo com estudantes de ensino fundamental: uma abordagem sobre
medicamentos, alimentação e legislação de propaganda
57
UFMG - Educação e informação sobre produtos sujeitos à vigilância sanitária brasileira
69
UFPB - Atividades educativas sobre a propaganda e o uso racional de medicamentos para alunos
do ensino fundamental de escola pública de João Pessoa (PB) 77
UFPI - A Promoção da Saúde na escola
85
UFPR - Atividade educativa sobre automedicação e alimentação saudável com crianças de ensino
fundamental em escola municipal de Curitiba (PR) e seus impactos
95
UFRGS - Percepção e atitudes de estudantes do ensino médio sobre os medicamentos e a publicidade
farmacêutica
103
UFRN - Avaliação do Conhecimento sobre Medicamentos e alimentos em Estudantes de Escola
Pública em Natal/RN
111
UFSC - Atividades de educação em saúde envolvendo o Uso Racional de Medicamentos na escola
de educação básica José Boiteux do Município de Florianópolis (SC)
121
UNIUBE - Capacitação para professoras (es): contribuições para a promoção do uso racional de
medicamentos.
131
USP - Experiência de uso de ferramentas lúdicas como estratégia de abordagem do tema uso racional
de medicamentos para alunos do ensino fundamental.
6 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
139
PARTE 2 - AÇÕES DE INFORMAÇÃO
153
UEL - A Promoção da Saúde pelas Ondas do Rádio: análise do impacto de ações de informação e
educação para profissionais de rádio
154
UFBA - Análise das propagandas de medicamentos veiculadas nas emissoras de rádio de salvador – Bahia 167
UFF - “A Promoção da Saúde pelas Ondas do Rádio ”: relato de workshop realizado no Rio de Janeiro
171
UFG - Construindo valores sociais e educacionais: relato de uma experiência no Projeto Educanvisa
em Goiânia-Goiás
177
UJF - Educação em Saúde via rádio: sensibilização dos radialistas pela equipe da UFJF, vigilância sanitária
de Juiz de Fora e Anvisa
181
UFMA - Impacto da intervenção educacional relativo ao uso de medicamentos, alimentação saudável
e legislação de propaganda
189
UFMG - A responsabilidade social do comunicador de rádio face aos produtos sujeitos à vigilância
sanitária
201
UFPB - Atividades educativas sobre a propaganda e o uso racional de medicamentos para profissionais
do Sistema de Comunicação Radiofônico 207
UFPI - O rádio como instrumento para a educação em saúde: potencialidades e desafios
213
UFPR - A publicidade de medicamentos em rádio: divulgar com ética e ser ético na divulgação 225
UFRGS - A tentativa de aproximação entre o projeto de educação em propaganda de produtos sujeitos
à vigilância sanitá ria e comunicadores de rádio: um relato de experiência.
235
UFRN - Avaliação do conhecimento sobre propaganda de medicamentos e alimentação saudável entre
participantes de um seminário
241
UFSC - Propaganda de medicamentos: um desafio para todas as profissões
249
UNIUBE - Publicidade de medicamentos no rádio e o perfil de informação dos radialistas
257
USP - A Promoção da Saúde pelas Ondas do Rádio – seminário direcionado aos radialistas sobre a
propaganda de medicamentos e sua regulamentação
265
PARTE 3 - PERSPECTIVAS E DESAFIOS
273
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 7
APRESENTAÇÃO
O Caderno de Textos Acadêmicos é uma
parceria com as instituições de ensino superior,
publicação que apresenta o registro das
um trabalho que foi iniciado ainda em 2002,
experiências vivenciadas pelos alunos bolsistas
com o Projeto de Monitoração de Propaganda.
das universidades parceiras do Projeto Educação
e Informação. As atividades do projeto foram
A primeira parte do Caderno expõe os artigos
desenvolvidas ao longo do ano de 2009, em
e relatos elaborados pelos estudantes, sob a
16 cidades, promovendo a integração dos
supervisão dos professores coordenadores,
acadêmicos com alunos e professores de
relacionados às ações de educação em saúde
diversas escolas de ensino fundamental e médio
desenvolvidas nas escolas selecionadas, pelas
brasileiras, além de possibilitar a aproximação
universidades, para integrar-se ao projeto. As
com um público bastante diferenciado – os
ações de informação, que foram destinadas
radialistas – para difundir as regras sobre a
aos radialistas, compõem a segunda parte
propaganda de produtos sujeitos à vigilância
da publicação. Nesta parte da coletânea, os
sanitária e trazer ao debate a temática da saúde.
universitários relatam a sua experiência com
a organização do seminário “A Promoção da
Temas como o uso racional de medicamentos;
Saúde nas Ondas do Rádio”, e apontam as
a influência da propaganda de medicamentos
dificuldades enfrentadas para mobilizar esse
e produtos sujeitos à vigilância sanitária;
público de comunicadores.
a alimentação saudável; e os riscos da
automedicação foram amplamente debatidos
Ao final, faz-se uma análise dos resultados
e trabalhados durante as atividades do projeto.
obtidos com o projeto, a partir dos manuscritos
O objetivo foi propor à comunidade escolar e
enviados pelas universidades, demonstrando
aos profissionais radialistas uma reflexão sobre
o impacto dessas atividades de educação em
os hábitos saudáveis de vida e as técnicas de
saúde destinadas a públicos diversificados
persuasão e de convencimento usadas para
–
induzir ao consumo inadequado e excessivo de
evidenciando as constatações dos autores
medicamentos ou alimentos industrializados.
sobre as experiências em pauta, as quais podem
professores,
alunos
e
radialistas
–
e
apontar caminhos e abrir novos espaços que
Esta publicação, organizada em formato de
propiciem o diálogo e a troca de saberes, em
artigos e de relatos, apresenta os resultados do
prol da promoção da saúde das coletividades.
Projeto Educação e Informação, concretizando
uma ação conjunta entre a vigilância sanitária e
a academia. O Caderno representa também mais
um registro para disseminar o conhecimento
Jaime Cesar de Moura Oliveira
Diretor da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária
construído ao longo dos últimos oito anos de
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 9
PARTE 1
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
Universidade Católica de Brasília (UCB)
Aline Daiane dos Reis 1; Samara Haddad Simões Machado 2; Eloá Fátima Ferreira de Medeiros2
1 – Discente da Universidade Católica de Brasília (UCB)
2 – Docente da Universidade Católica de Brasília (UCB)
RESUMO
INTRODUÇÃO
O projeto Educanvisa: Educação em Vigilância
Sanitária, da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa), tem como proposta a
educação em saúde para docentes, profissionais
das Vigilâncias Sanitárias locais (Visa) e
estudantes de ensino fundamental e médio
em todo o Brasil. Para isto, a Anvisa capacita
professores de modo que as informações
transmitidas sejam repassadas aos estudantes,
por meio de parcerias com universidades
brasileiras. Este trabalho visa avaliar o impacto
da realização do projeto Educanvisa no Centro
Educacional da cidade de Taguatinga (DF), por
meio da análise dos questionários aplicados.
Nessa instituição, quatro professores foram
capacitados, beneficiando 1.190 estudantes
(51,7% do público estudantil). Foram
realizadas atividades com os estudantes sobre
alimentação saudável, vigilância sanitária, uso
de medicamentos e educação em saúde, com
aulas expositivas e jogos. Para avaliação dos
perfis da escola, comunidade e consumo de
medicamentos e alimentos dos estudantes e pais
e/ou responsáveis, foram aplicados diferentes
modelos de questionários. Percebe-se que a
escola também é responsável por promover
ações educativas sobre saúde. Para tanto, o
treinamento dos educadores é fundamental, já
que este tema não é parte de suas formações
acadêmicas. O profissional de saúde deve
auxiliar nesta difícil tarefa, visando sempre a
qualidade de vida das pessoas, informando as
crianças, os professores e também os familiares
sobre alimentação saudável e uso adequado de
medicamentos.
A obesidade tornou-se uma doença crônica e
epidêmica, já que o aumento de sua prevalência
em países desenvolvidos e em desenvolvimento
foi considerável nas últimas décadas. Este dado
torna-se ainda mais preocupante, observandose esse aumento também em crianças e
adolescentes, já que estudos longitudinais
avaliam que o tempo de duração da obesidade
é diretamente proporcional à morbidade e
à mortalidade por doenças cardiovasculares
devido à dislipidemia, à hipertensão arterial e
ao diabetes melito (OLIVEIRA e CINTRA, 2004).
Além disto, a intoxicação por medicamentos
é outro fator relevante. Os dados divulgados
pelo Sistema Nacional de Informações TóxicoFarmacológicas (Sinitox) de 2007 apontam 100
mil casos de intoxicação humana, sendo que
500 evoluíram ao óbito. Os medicamentos são
os principais agentes de intoxicação humana,
totalizando 30,7% dos casos (FUNDAÇÃO
OSWALDO CRUZ, 2009). Após análise desses
fatores, percebe-se que o processo de educação
em saúde exige a participação da comunidade
local e não apenas daqueles sob risco de
enfermidade (MACHADO et al., 2007). Assim,
a informação às crianças e aos seus pais e/ou
responsáveis é a melhor maneira de diminuir
esses dados tão alarmantes, pois o tratamento
do problema, na base, é mais eficaz que tentar
curá-lo no futuro.
O projeto Educanvisa: Educação em Vigilância
Sanitária, da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa), é resultado da fusão de dois
projetos da Agência desde 2005, o Contributo
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 13
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
Projeto Educanvisa em escola pública de Taguatinga –
Distrito Federal: organização e execução das atividades
e o Educação para o Consumo Responsável de
Medicamentos. O Projeto possui proposta de
educação em saúde para docentes, profissionais
das Vigilâncias Sanitárias locais (Visa) e
estudantes de ensino fundamental e médio
(BRASIL, 2009).
O programa “Mais Saúde” do Governo
Federal, incluído no Plano de Aceleração do
Crescimento (PAC), determinou que, até o final
de 2009, 84 escolas públicas do país deveriam
ser incluídas no projeto Educanvisa. Até
agosto, a Anvisa capacitou professores de 184
unidades de ensino, superando o planejamento
anual (OLIVEIRA e CINTRA, 2004). No ano de
2009, foram realizadas reuniões da Anvisa com
representantes das secretarias de Educação e
Saúde dos municípios interessados em implantar
o projeto Educanvisa e também com aqueles
que já possuíam a proposta instituída. Após a
formalização das parcerias, realizaram-se cursos
de capacitação de profissionais em Brasília entre
os meses de maio e agosto. Foram recebidas
31 cidades, totalizando 483 professores e 62
colaboradores das Visas locais. Assim, observase que mais de 19 mil estudantes de ensino
fundamental e médio foram beneficiados com
o Projeto (BRASIL, 2009).
O projeto Educanvisa, no Distrito Federal,
iniciou-se com a capacitação dos professores
de algumas escolas públicas em julho de
2009. Durante o segundo semestre de 2009,
os professores trabalharam assuntos como
alimentação saudável, Vigilância Sanitária, uso
de medicamentos e educação em saúde com
os estudantes, por meio de aulas expositivas e
jogos fornecidos pela Anvisa (Trilha da Saúde
e Jogo da Memória). Durante o projeto, foram
aplicados questionários elaborados pela Anvisa
destinados aos pais, à escola, aos alunos e à
comunidade.
No segundo semestre de 2009, os estudantes
colaboradores do curso de Farmácia, mediante
parceria entre Universidade Católica de Brasília
(UCB) e a Anvisa, elaboraram atividades
para serem desenvolvidas nas instituições
credenciadas pelo projeto Educanvisa. Em
novembro de 2009, os estudantes colaboradores
14 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
visitaram o Centro Educacional no 6, Taguatinga
(DF), para desenvolver palestras e dinâmicas
com os estudantes e avaliar o conhecimento
construído por eles. A atividade foi desenvolvida
em cinco turmas de sexto e sétimo anos,
totalizando 200 crianças com idade entre 10
e 12 anos. Foram realizadas palestras com o
auxílio de cartazes repletos de figuras sobre
os temas anteriormente abordados pelos
professores. Além disto, foram realizadas três
dinâmicas relacionadas aos temas: alimentação
saudável, uso racional de medicamentos e
educação em saúde.
A primeira dinâmica realizada tinha como
objetivo montar uma pirâmide alimentar.
A pirâmide foi confeccionada em material
emborrachado e as figuras estavam pontilhadas
para que os estudantes as localizassem mais
facilmente. Depois disso, realizou-se a dinâmica
do “telefone-sem-fio da automedicação”, em
que um medicamento fictício e sua posologia
eram falados a um estudante, que deveria
passar aos demais a informação. O último
participante falava em voz alta o que escutou.
O fechamento consistia na explicação de que a
automedicação por indicação de terceiros pode
ser maléfica, já que a informação pode chegar
distorcida. Por fim, fechou-se com a dinâmica
do desenho, em que a turma foi dividida no
grupo dos meninos e no grupo das meninas,
que elegeram, cada grupo, um representante.
O grupo teve um minuto para acertar o que o
representante desenhou. Após as apresentações
e dinâmicas, foram distribuídas garrafinhas
e blocos de anotação com a logomarca do
Educanvisa para todos os participantes.
MATERIAIS E MÉTODOS
A pesquisa foi realizada no Centro Educacional
no 6, Taguatinga (DF), pelos quatro professores
capacitados participantes do Educanvisa, entre
os meses de agosto e novembro de 2009.
Quatro questionários foram elaborados pela
Anvisa, visando obter os perfis da escola, da
comunidade e do consumo de medicamentos e
alimentos dos estudantes de ensino fundamental
e médio e pais e/ou responsáveis.
O Centro Educacional no 6, Taguatinga (DF),
possui um total de 2.300 estudantes e 154
professores. Quatro professores (2,6% dos
professores da instituição) desenvolveram o
projeto Educanvisa com 1.190 estudantes
da escola (51,7% do público estudantil). A
instituição recebe o benefício da Política de
Alimentação Saudável para a merenda escolar. A
cantina segue esta política, porém comercializa
também doces, salgados e refrigerantes. A
escola não costuma oferecer medicamentos
aos estudantes quando eles apresentam alguma
enfermidade, sem o consentimento dos pais
e os pais e/ou responsáveis não solicitam que
a escola administre medicamentos aos seus
filhos.
O Centro de Saúde no 3 de Taguatinga (DF)
é o mais próximo da escola e atendeu, em
média, 1.600 pacientes nos últimos seis meses.
Em seu registro de controle de intoxicação
por medicamentos, verificou-se dez casos
naquele período. Existem duas drogarias nas
proximidades da escola e elas foram visitadas
pelos professores e estudantes. Na ocasião da
visita, apenas em uma drogaria o farmacêutico
estava presente.
Em média, 700 pais e/ou responsáveis participam
das reuniões do cronograma da escola, sendo
que 14,3% deles participaram da pesquisa
do Projeto. Quando foi perguntado onde eles
costumam armazenar os medicamentos em
casa, obteve-se o resultado de 25% na cozinha,
20% no banheiro, 50% em armários de difícil
acesso e 5% não possuem um local específico
para armazená-los. Dentre os entrevistados,
58% acreditam que o uso de medicamentos
sem receita médica ou sem a orientação de
um farmacêutico pode piorar a doença, e 45%
acreditam que o uso de remédios caseiros ou
naturais também pode prejudicar a saúde. A
maioria dos pais e/ou responsáveis costuma
usar medicamentos sem a orientação do
médico, dentista ou farmacêutico, totalizando
60% dos entrevistados. Os medicamentos
mais utilizados sem orientação são dipirona,
paracetamol,
escopolamina,
xaropes
e
antibióticos. Sobre a frequência com que são
comprados medicamentos na drogaria ou na
farmácia, obteve-se como resposta 2% uma
vez por semana, 40% uma vez por mês e 58%
somente quando é necessário. Sessenta por
cento dos pais e/ou responsáveis fazem leitura
da bula dos medicamentos antes de utilizá-los.
A maioria deles considera que a propaganda de
medicamentos não contém todas as informações
necessárias para o consumidor utilizar tal
medicamento, totalizando 69%.
Para os pais e/ou responsáveis entrevistados o
que mais influencia na compra de medicamentos
é a indicação de familiares, amigos ou vizinhos
(37%), seguido do preço (30%), da propaganda
(24%) e da indicação do balconista (9%).
Quando perguntado quais alimentos são
oferecidos com maior frequência nos lanches,
obteve-se as seguintes respostas: 21% frutas,
8% biscoitos recheados, 9% refrigerantes ou
sucos artificiais, 47% sucos naturais de frutas,
8% salgadinhos industrializados, 7% doces,
chocolates e balas. Apenas 22% dos pais e/ou
responsáveis compram alimentos que os filhos
conheceram nas propagandas.
Nessa escola, 170 estudantes responderam à
pesquisa. Dentre eles, 72,9% utilizam ou já
utilizaram medicamentos sem a orientação do
médico, dentista ou farmacêutico. A maioria
deles (70,6%) toma medicamentos com o
consentimento dos pais e/ou responsáveis.
Dentre os estudantes, 80% consideram que a
propaganda não contém todas as informações
necessárias para o uso do medicamento e
apenas 24,7% deles pedem que os pais e/
ou responsáveis comprem medicamentos
conhecidos por meio das propagandas. No
que se diz respeito à alimentação, observouse que 53% dos estudantes pedem aos pais e/
ou responsáveis para comprarem os alimentos
vistos nas propagandas.
Nos quesitos alimentos mais consumidos
e como os estudantes escolhem os lanches
consumidos na escola, em casa e nos passeios,
foi solicitado que os estudantes marcassem
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 15
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
RESULTADOS E DISCUSSÃO
apenas uma alternativa no questionário, no
entanto, alguns deles marcaram mais de uma,
tornando-se um viés da pesquisa, já que a soma
dos itens marcados é maior que a quantidade
de alunos que responderam ao questionário,
conforme tabela 1.
A escola é uma instituição socialmente
conhecida por desenvolver o ato pedagógico,
representando uma etapa relevante e longa da
vida de uma pessoa. Porém, a escola não atua
sozinha no aprendizado e na educação das
crianças, ela é complementar à responsabilidade
da família. Na escola, a criança aprende a
construir valores pessoais e sociais (AERTS et
al., 2004). Desta forma, a escola também é
responsável por promover ações educativas
sobre a saúde, formando, assim, um indivíduo
holisticamente. Para isto, o treinamento dos
educadores é fundamental, já que este tema
Tabela 1. Respostas sobre os alimentos mais consumidos e como os estudantes escolhem os lanches
consumidos na escola, em casa e nos passeios.
Perguntas
Quais alimentos são mais
consumidos pelos estudantes?
Como os estudantes escolhem
os lanches na escola, em casa
e nos passeios?
Alternativas
Valor absoluto
n(%)
Frutas
47 (22,5)
Biscoitos recheados
28 (13,4)
Refrigerantes/ sucos artificiais
40 (19,14)
Sucos naturais de frutas
25 (12)
Salgadinhos industrializados
20 (9,6)
Doces, bombons, chocolates e balas 49 (23,4)
TOTAL
209 (100)
Por orientação dos pais e/ou
44 (24,4)
responsáveis
Porque viram na propaganda
40 (22,2)
Porque é saudável
68 (37,8)
Porque os colegas comem
28 (15,5)
TOTAL
180 (100)
não é parte de suas formações acadêmicas. O
profissional de saúde deve auxiliar nessa difícil
tarefa, visando sempre a qualidade de vida das
pessoas, informando as crianças, os professores
e também os familiares sobre alimentação
saudável e uso adequado de medicamentos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A informação às crianças é muito importante para
que os casos futuros de obesidade, hipertensão
arterial, dislipidemias e diabetes melittus sejam
reduzidos devido a uma alimentação saudável,
16 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
diminuindo, assim, os riscos de futuros eventos
cardiovasculares.
A informação aos pais e/ou responsáveis também
contribui com este trabalho, melhorando a
qualidade de vida dessas pessoas devido à
adoção de uma alimentação saudável. Esses
hábitos positivos certamente serão transmitidos
aos filhos e a outros familiares. Também deve
haver um trabalho educativo quanto ao uso
racional de medicamentos para que os casos
de intoxicação possam diminuir de maneira
significativa.
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
AGRADECIMENTOS
À Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) e à Universidade Católica de Brasília
(UCB).
COLABORADORES
A.D. dos Reis realizou a revisão bibliográfica,
redação do artigo e procedeu a tabulação dos
dados. S.H.S. Machado e E.F.F. de Medeiros
promoveram a revisão final do texto.
REFERÊNCIAS
AERTS, D.; ALVES, G. G; SALVIA, M. W.
L; ABEGG, C. Promoção de saúde: a
convergência entre as propostas da vigilância
da saúde e da escola cidadã. Caderno de Saúde
Pública, v.20, n.4, p.1020-1028, 2004.
BARROSO, M. G. T. Integralidade, formação
de saúde, educação em saúde e as propostas
do SUS: uma revisão conceitual. Ciência &
Saúde Coletiva, v.12, n.2, p. 335-342, 2007.
BRASIL. Ministério da Saúde. Agência
Nacional de Vigilância Sanitária. A História
do Educanvisa. [acessado 2009 Dez 14].
Disponível
em:
http://www.anvisa.gov.br/
propaganda/educação_saude/historia_anvisa.
htm
BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional
de Vigilância Sanitária. Especial Educanvisa.
In: Visa é: Almanaque da Vigilância Sanitária,
n.2, p. 14-15, 2009. Brasília: Anvisa, 2009.
FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Centro
de Informação Científica e Tecnológica.
Sistema Nacional de Informações Tóxico
Farmacológicas. Registros de intoxicações.
[acessado 2009 Dez 15]. Disponível em: http://
www.fiocruz.br/sinitox_novo/cgi/cgilua.exe/
sys/start.htm?sid=151
MACHADO, M. F. A. S.; MONTEIRO, E. M. L.
M.; QUEIROZ, D. T.; VIEIRA, N .F. C; OLIVEIRA,
C. L.; MELLO, M.T; CINTRA, I. P; FISBERG,
M. Obesidade e síndrome metabólica na
infância e adolescência. Revista de Nutrição,
v. 17, n.2, p. 237-245, 2004.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 17
Universidade Estadual de Londrina (UEL)
Ester Massae Okamoto Dalla Costa1, Eliane Saori Otaguiri2, Gustavo Henrique Oliveira de Paula2, Rafael Fagundes Dezorzi3, Rogério Yuzo Toyama3.
1 - Docente da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
2 - Acadêmicos do Curso de Farmácia – Universidade Estadual de Londrina (UEL).
3 - Acadêmicos do Curso de Medicina Universidade Estadual de Londrina (UEL).
RESUMO
A obesidade é apontada, na atualidade, como
um problema de saúde pública. Estudos
apontam a alimentação inadequada como um
dos fatores que mais contribuem para o aumento
da obesidade na população. Considerando
que hábitos alimentares saudáveis devem ser
incorporados na prática cotidiana, o presente
estudo teve como objetivo o desenvolvimento de
ações para a educação e informação em saúde,
com vistas à promoção de uma alimentação
saudável em escolares. Verificou-se que ações
isoladas, embora importantes, são insuficientes
para a apreensão dos conhecimentos, sendo
necessárias ações contínuas de educação para
o consumo de uma alimentação saudável, com
vistas à promoção da saúde.
INTRODUÇÃO
A obesidade já é apontada por países
desenvolvidos como um problema de saúde
pública e, pela Organização Mundial da Saúde
(OMS), já é considerada uma epidemia global
(WHO; 1995). Trabalhos mostram sua relação
com o surgimento de doenças crônicas não
transmissíveis, como diabetes mellitus tipo II,
doenças cardiovasculares, osteoartrite, câncer,
entre outras, demonstrando a necessidade de
uma profilaxia como fator mais importante para
prevenir a obesidade do que o tratamento após
a doença instalada (VISCHER, 2001).
Na infância, principalmente, a obesidade tem
um grande impacto, pois geralmente as crianças
e adolescentes obesos têm problema com sua
autoestima (ABRANTES, 2002). Foi demonstrado
ainda, que a obesidade está com a prevalência
aumentando em crianças e adolescentes, e que
tende a permanecer na idade adulta em 50%
das crianças obesas aos seis meses de idade,
e em 80% das crianças obesas aos 5 anos de
idade (TROIANO et al., 1995; GORTMAKER,
1987; JULIUSSON, 2007). É cada vez mais
demonstrado nessa fase, o início da formação de
processos ateroscleróticos e também definições
de hábitos de alimentação e atividade física na
infância (STORY, 1999).
Estudos têm demonstrado que a mudança da
dinâmica familiar e a propaganda de alimentos
exercem uma influência nos hábitos de consumo
de alimentos na infância (CRIVELARO et al.,
2006).
Desta forma, o desenvolvimento de projetos
que buscam a sensiblização e a educação
para o consumo de alimentos saudáveis
associados ao conhecimento de informações
acerca da importância de ações de vigilância
sanitária, entre elas a regulação da propaganda
de alimentos, podem ser instrumentos de
empoderamento das crianças, para que possam
se contrapor ao apelo a que são expostas no
cotidiano.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 19
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
Educação para o consumo de alimentos saudáveis
no ensino fundamental
OBJETIVOS
Objetivos Gerais
Desenvolvimento de ações e estratégias de
educação e comunicação em saúde para
orientar estudantes do ensino fundamental para
o consumo seguro e responsável de alimentos.
Objetivos Específicos
• Criar espaço para debate sobre o consumo
responsável de alimentos entre os alunos da
terceira série do Colégio de Aplicação da
Universidade Estadual de Londrina, buscando
despertar o senso crítico em relação às estratégias
comerciais praticadas pela propaganda de
medicamentos e alimentos.
• Desenvolver estratégias para que a temática
seja trabalhada em sala de aula.
• Desenvolver atividades e material didático
para discussão da temática na escola.
• Capacitar alunos como multiplicadores de
conceitos e práticas relacionadas ao consumo
de alimentos saudáveis.
DESENVOLVIMENTO
O trabalho foi realizado em parceria com
a Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa), no Colégio de Aplicação da
Universidade Estadual de Londrina, no Estado do
Paraná, sendo o projeto previamente submetido
e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa
da Universidade Estadual de Londrina.
As atividades foram desenvolvidas na terceira
série do Ensino Fundamental, nas turmas do
período matutino e vespertino, por meio de aulas
dialogadas com uso de recursos audiovisuais
e atividades de fixação. Com duração média
de 1 hora, foram abordados os seguintes
temas: Alimentação saudável e propaganda
de alimentos; Uso Racional de Medicamentos
e propaganda de medicamentos; e o papel
da Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa).
Ao término das aulas dialogadas, foram
realizadas atividades individuais para fixação
20 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
dos conteúdos. No final das atividades, todas
as crianças participaram de uma rodada de
recreação, com a utilização da “Trilha da
Saúde”, um jogo desenvolvido pela Anvisa,
baseado na tradicional “trilha”, um jogo no qual
os participantes partem de um ponto inicial e,
à medida que jogam dados, avançam as casas
na trilha e respondem a algumas perguntas. No
caso da “Trilha da Saúde”, as questões eram
relacionadas aos temas abordados nas aulas.
Foram utilizadas tanto a versão de chão, onde
as próprias crianças atuam como peças do jogo,
como também as trilhas de mesa. Além da Trilha,
as crianças puderam brincar com um jogo da
memória – também com temas relativos às aulas,
e realizaram a leitura do livro “Alimentação
Saudável”, produzidos pela Anvisa. O livro foi
posteriormente disponibilizado para todas as
crianças, para as professoras e para a diretora
da escola.
Finalizadas as atividades recreativas, os alunos
responderam a um questionário que teve como
objetivo avaliar o impacto das experiências
vivenciadas. O questionário abordou todos
os temas explorados nas aulas e, antes de sua
aplicação, foi solicitada a autorização dos pais.
Além das crianças, foram levantadas
informações acerca do conhecimento dos pais
sobre os temas abordados, e um questionário
foi também aplicado aos pais que concordaram
em participar, sendo que a identificação no
questionário dos pais foi facultativa.
Para participarem desse processo, tanto os
pais quanto os alunos assinaram um Termo
de Consentimento Livre e Esclarecido. As
crianças que não apresentaram a autorização
dos pais, em tempo hábil, não responderam ao
questionário e tiveram seus nomes e imagens
retirados do projeto e foram direcionadas para
o desenvolvimento de outras atividades.
Os questionários foram posteriormente
tabulados utilizando-se o programa Microsoft
Office Excel 2007.
Todas as crianças participaram das atividades
educativas, perfazendo um total de 64 crianças,
sendo 32 em cada período. As atividades
desenvolvidas contaram sempre com a presença
da professora responsável pelos alunos em cada
sala.
40 potenciais participantes. Dos 40 pais que
concordaram em participar da pesquisa,
29 (72,5%) devolveram os questionários
devidamente preenchidos.
Foram distribuídos 64 questionários, sendo
devolvidos 41 (64%) Termos de Consentimento
Livre e Esclarecido, após duas tentativas
de recolhimento. Apenas um (1,6%) pai
não autorizou a participação de seu filho.
Após avaliação prévia dos 40 questionários
autorizados, foram descartados dois (5%) por
preenchimento incorreto. Deste modo, foram
utilizados para a análise, 38 questionários.
No formulário dos alunos, quando questionados
se conheciam a vigilância sanitária, ou se já
haviam ouvido algum comentário sobre esta, 34
(89%) responderam que sim e 4 (11%) dos alunos
responderam que não. Quando questionados se
a frase “A vigilância sanitária controla todas as
etapas relacionadas à produção de alimentos,
medicamentos, bebidas, saneantes (produtos de
limpeza), cosméticos, aparelhos e instrumentos
de uso médico” estava correta, 32 (84%)
responderam que sim, dois (5%) responderam
que não e quatro (11%) responderam que não
sabiam (Gráfico 1).
Quanto ao consentimento dos pais, foram
distribuídos também 64 questionários, sendo que
40 (62,5%) retornaram com o consentimento e
um (1,6%) sem o consentimento, totalizando
Conhecimentos das Crianças
Gráfico 1. Distribuição dos alunos segundo avaliação do conhecimento
sobre as ações da Vigilância Sanitária.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 21
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
RESULTADOS E DISCUSSÃO
À pergunta: “Quais destes alimentos você mais
come?” os alunos poderiam assinalar mais de
uma alternativa. Entre os respondentes, 24
(63%) alunos referiram consumir mais frutas e
verduras, 14 (37%) os sucos naturais de frutas,
13 (34%) os refrigerantes e sucos artificiais, 11
(29%) os salgadinhos e doces (bala, chocolate
etc.) industrializados e 5 (13%) o consumo de
biscoitos recheados (Tabela 1).
Quando questionados se consideram o tipo de
alimento que consomem saudáveis, 24 (63%)
responderam que sim, 12 (32%) que não e dois
(5%) referiram não saber responder.
mais adequados em termos de composição
e quantidade, 28 (74%) crianças indicaram
o item: “Comer bastante arroz com feijão,
massas, pão, depois comer um pouco menos
de vegetais e verduras e frutas. Os queijos,
leite e carne em pequena quantidade. Doces,
salgadinhos fritos, muito pouco”. A alternativa
“Comer bastante queijo, carne, leite e comer
pouco arroz com feijão, bolachas e doces.
Batata frita comer menos ainda” foi apontada
como a mais adequada por sete crianças (18%)
e a alternativa “Comer muita bolacha, doces,
iogurte e comer menos arroz com feijão, frutas
e nada de vegetais e verduras” foi assinalada
por três (8%) crianças.
Na questão que solicitava que fossem
assinalados os cardápios que consideravam
Tabela 1. Distribuição dos alunos, segundo o tipo de alimento mais consumido.
Tipos de alimentos
Alunos
No.
%*
Frutas e Verduras
24
63
Sucos Naturais de Frutas
14
37
Refrigerantes e Sucos Artificiais
13
34
Salgadinhos e doces industrializados
11
29
Biscoitos recheados
05
13
* Os percentuais foram calculados em relação ao total de crianças que responderam o questionário. A
soma do percentual é maior que 100%, pois poderiam ser indicados mais de um tipo de alimento.
Com relação à ingestão de líquido, a água foi
apontada por 70% das crianças como sendo o
líquido mais consumido diariamente. Chama
a atenção, no entanto, os 30% que referiram
consumo maior de outros tipos de bebidas, que
não a água. São eles: suco de frutas (16%), leite
(8%) e refrigerantes (6%) (Gráfico 2).
Ainda sobre a ingestão de líquido, chama a
atenção o fato de 50% dos estudantes afirmarem
desconhecer a quantidade ideal de ingestão
hídrica diária. Entre os que indicaram uma
quantidade, 23% assinalaram dez copos, 14%
dois copos, 9% seis copos e 4 % oito copos
(Gráfico 3).
22 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
A variação entre as alternativas assinaladas
indica que mesmo os que responderam
desconheciam a quantidade ideal.
Em relação à influência das propagandas na
escolha do alimento e na formação do cardápio
diário, 40% referiram solicitar aos pais os
alimentos das propagandas que assistem na
televisão. Embora a escolha dos pais prevaleça
na escolha e definição do cardápio para um
lanche na escola, em casa ou em passeios
(60%), para 8% dos estudantes a escolha na
formação do cardápio baseia-se na propaganda
(Gráfico 4).
Gráfico 3. Distribuição dos alunos segundo a opinião sobre quantidade de ingestão hídrica diária.
Gráfico 4. Distribuição dos alunos segundo influencia da mídia e dos pais sobre a escolha dos alimentos.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 23
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
Gráfico 2. Distribuição dos alunos quanto à especialidade de líquidos consumidos diariamente.
Ainda referente à publicidade e propaganda,
35 (92%) dos entrevistados acreditam que
nem sempre os alimentos apresentados em
propagandas fazem bem para a saúde, e apenas
dois responderam que sim (5%) (Gráfico 5).
89% responderam ser para “vender mais e
ganhar mais dinheiro”. Dois alunos (5,2%)
responderam que seria “para promover a saúde
dos consumidores” e um aluno (2,6%) indicou
ser “para mostrar coisas gostosas”.
Quando questionados sobre os motivos
que levam os fabricantes de alimentos a
realizarem propagandas de seus produtos,
Ao serem questionados se os alimentos
nas propagandas sempre fazem bem, 92%
responderam que não (Gráfico 5).
Gráfico 5. Distribuição dos alunos quanto à opinião sobre os alimentos propagados pela mídia.a
dos alimentos.
Conhecimentos dos pais
Participaram da pesquisa e entregaram os
questionários, corretamente, 29 (72,5%) dos
40 pais que concordaram em participar da
pesquisa.
Questionados se possuíam algum conhecimento
ou já haviam ouvido falar sobre a vigilância
sanitária todos (29) responderam que sim.
Os produtos relacionados por eles como
sendo objetos da vigilância sanitária foram os
medicamentos (90%), alimentos (86%), água
mineral e outras bebidas (72%), saneantes
(62%), cosméticos (48%) e uma indicação de
brinquedos (3%) (Gráfico 6).
24 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Os resultados indicam que, embora todos os pais
tenham algum conhecimento sobre a vigilância
sanitária, ela ainda baseia-se no senso comum
e, considerando os itens assinalados, pode
estar fundamentado na frequência com que
determinados produtos ou ações de vigilância
são publicizados.
Em relação ao conhecimento da atuação da
vigilância sanitária em serviços, foi considerada
correta a atuação da vigilância sanitária em
hospitais e clínicas por 90% dos pais, em
consultórios dentários por 79%, em escolas e
universidades por 55%. Radiações de qualquer
natureza foram consideradas como áreas de
atuação da vigilância sanitária por apenas 14%
dos pais (Gráfico 7).
Gráfico 7. Distribuição dos alunos segundo conhecimentos sobre a atuação da Vigilância Sanitária
na área de serviços.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 25
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
Gráfico 6. Distribuição dos alunos segundo conhecimentos sobre atuação da Vigilância Sanitária
na área de produtos
Também na área de serviços, há, ainda, um
desconhecimento por parte dos pais dos
estudantes – demonstrando a necessidade e
importância de ações educativas com o tema
“Vigilância Sanitária” para os pais e os alunos.
Na avaliação dos hábitos dos pais em relação
a alguns cuidados básicos na avaliação da
qualidade dos produtos sujeitos a vigilância
sanitária, 97% responderam que verificam
o prazo de validade quando adquirem um
produto. Entretanto, somente 66% e 59% dos
pais olham, respectivamente, a composição
e o fabricante do produto. Informações como
país de origem, lote e número de registro são
observados por, respectivamente, 24%, 14% e
14% dos pais (Gráfico 8).
Gráfico 8. Distribuição dos alunos quanto conhecimentos de informações contidas em rótulos de
alimentos.
Quanto à alimentação, 62% dos pais referiram
que frutas devem ser consumidas em porções
maiores que massas e cereais. E 59% citaram
que hortaliças devem ser consumidas em maior
quantidade que massas e cereais, e os cereais e
grãos consumidos em maiores quantidades que
frutas foram mencionados por 55% dos pais. O
consumo de carne maior que os vegetais e o
consumo de massas maior que o consumo de
derivados de leite foram referidos por 10% dos
pais.
Sobre os lanches, 52% dos pais assinalaram
oferecer com mais frequência as frutas, 41% os
sucos naturais de frutas. Entretanto, preocupa
o fato de 34% dos pais referirem oferecer com
maior frequência no lanche de seus filhos, os
26 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
biscoitos recheados. Este tipo de biscoito é rico
em gorduras trans, que é um tipo específico
de gordura saturada formada por um processo
de hidrogenação natural (ocorrido no rúmen
de animais) ou industrial. Elas estão presentes
principalmente nos alimentos industrializados.
Alimentos de origem animal como a carne e
o leite possuem pequenas quantidades dessas
gorduras. Na indústria, esse tipo de gordura serve
para melhorar a consistência dos alimentos,
principalmente textura, e também aumentar a
vida de prateleira de alguns produtos. Sucos
artificiais e refrigerantes são fornecidos com
maior frequência em lanches por 17% dos
pais. Apenas 3% referiram fornecer, com maior
frequência, aos seus filhos, salgadinhos e doces
industrializados (Gráfico 9).
Quando questionados sobre a alimentação dos
filhos, ela foi considerada saudável por apenas
31% dos pais, 14% não acham saudável e
62% acham que poderia ser melhor. Somandose estes dois resultados, temos que 76% dos
pais reconhecem que a alimentação de seus
filhos não é saudável – o que demonstra que,
apesar de terem conhecimento, este não tem se
traduzido em ações e atitudes adequadas para
a garantia de uma alimentação saudável para
seus filhos.
Em relação à influência da propaganda no
processo de decisão para a aquisição de
um alimento para os filhos, 66% dos pais
confirmaram ter feito uma compra influenciada
pela propaganda. Entre os principais produtos
adquiridos sob influência da propaganda estão
os doces, bombons, chocolates e balas, citados
por 45% dos pais, seguidos pelos biscoitos
recheados (41% dos pais) e salgadinhos
industrializados (31% dos pais). Em menor
quantidade, influenciaram na compra de 24% e
14% dos pais, respectivamente, os sucos naturais
de frutas e refrigerantes/sucos naturais. As frutas
não foram referidas por nenhum pai como
adquirida por ter sido vista em propagandas
(Gráfico 10).
Gráfico 10. Distribuição dos pais quanto à razão pela qual foram induzidos pela compra de
alimentos na mídia.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 27
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
Gráfico 9. Distribuição dos pais quanto ao tipo alimentação fornecida aos filhos diariamente.
Curiosamente, apesar de admitirem ser
influenciados pelas propagandas, quando
questionados sobre os critérios utilizados para
a escolha dos alimentos para seus filhos, 76%
afirmaram escolher aqueles que julgam mais
saudáveis, 14% seguem a escolha dos filhos,
3% escolhem os que “ouviu falar” que são
bons, mas nenhum deles mencionou que sua
escolha se baseia na propaganda veiculada na
mídia (Gráfico 11).
que as empresas o fazem para divulgar seus
produtos, 48% acreditam que seja para
influenciar a vontade das crianças em consumir
alimentos, 41% aludiram ser para terem mais
lucro e 7% dos pais acreditam que a propaganda
é feita visando o bem-estar do consumidor.
Quando perguntado se as propagandas de
alimentos podem ser prejudiciais para a saúde,
55% dos pais acham que sim e 24% acham que
não. Não souberam se a propaganda é ou não
prejudicial 17% dos pais (Gráfico 12).
Sobre os fatores motivadores da propaganda
pelos fabricantes de alimentos, 55% referiram
Gráfico 11. Distribuição dos pais segundo a escolha dos alimentos diariamente.
Gráfico 12. Distribuição dos pais segundo a opinião da importância da mídia venda dos produtos.
28 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Na análise dos resultados, verificou-se que 89%
dos alunos e 100% dos pais conhecem ou já
ouviram falar sobre a vigilância sanitária. Este
resultado reforça a ideia de que
(...) a Vigilância Sanitária vem sendo reconhecida
pela comunidade, que cada vez mais se
conscientiza de sua importância, e pelas entidades
de defesa do consumidor, que a valorizam como
uma prática capaz de promover a proteção
e melhoria da qualidade de vida e saúde da
televisão, embora somente 8% tenham referido
que leva no lanche algum alimento que viram
na propaganda.
É indiscutível a importância dos pais para
“filtrar” as escolhas dos filhos e até mesmo
para aconselhá-los sobre as melhores
escolhas alimentares. Entretanto, os resultados
indicam que mesmo entre os pais há ainda
um desconhecimento sobre a composição
adequada dos alimentos na dieta diária – o que
pode influenciar negativamente nas escolhas e
nos hábitos cotidianos da família.
população (EDUARDO e MIRANDA, 1998, p.247).
Entretanto, o desconhecimento da dimensão da
presença da vigilância sanitária no cotidiano
– seja pelos produtos ou pelos serviços a ela
relacionados – também evidencia que há
ainda um longo caminho a ser percorrido em
relação à disseminação da informação e do
conhecimento nessa área para a população.
As atividades desenvolvidas junto a escolares
podem ser uma das alternativas para este
processo. Por meio das crianças, podem-se
atingir os pais e a comunidade.
O desconhecimento quanto à composição
adequada da dieta cotidiana – tanto por
parte dos pais quanto das crianças – indica,
também, a necessidade de ações mais efetivas
na orientação para uma alimentação saudável,
até que este conhecimento seja apreendido e
incorporado na prática cotidiana, por meio
de sucessivas aproximações. Um exemplo
disso foi que o importante hábito de ingestão
diária de água que, mesmo sendo colocado em
sala de aula durante as atividades educativas,
não foi incorporada no repertório da criança.
Metade deles respondeu não saber qual seria
a quantidade ideal de água a ser ingerida
diariamente. Somando-se a resposta daqueles
que assinalaram as alternativas incorretas, 67%
das crianças não souberam responder a essa
questão corretamente.
Em relação à influência da propaganda, 40%
dos alunos entrevistados referiram pedir aos
pais os alimentos que são promovidos na
Ainda em relação à propaganda de alimentos,
as crianças, de modo geral, entendem que a
propaganda tem como intuito comercializar seus
produtos e com isso ter um ganho financeiro.
Percebem também que os produtos promovidos
nem sempre são adequados para sua saúde –
mas são vulneráveis aos apelos e estratégias de
marketing das campanhas publicitárias.
Conclui-se,
portanto,
que
discussões
relacionadas a hábitos alimentares saudáveis
são importantes ferramentas de intervenção
para o empoderamento das crianças frente a
sua vulnerabilidade em relação ao marketing e
ao estímulo ao consumo. Trata-se também de
uma forma de empoderamento da sociedade,
pois esse saber pode e deve ser levado para o
cotidiano das famílias e comunidades.
Vale salientar, no entanto, que para que
esse conhecimento seja traduzido em ações
concretas, essas ferramentas educativas devem
ser incorporadas de forma transversal e contínua
em todo o processo de formação dos estudantes,
com conteúdos e abrangência de complexidade
crescente, metodologias ativas e em sucessivas
aproximações.
Desta forma, apesar de alguns dos resultados
obtidos, fica clara a necessidade da
continuidade das atividades de educação
nutricional no ambiente escolar, uma vez que a
escola é considerada um espaço social propício
para a formação de hábitos saudáveis e para a
promoção da saúde.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 29
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
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Universidade Federal da Bahia (UFBA)
Cinara Vasconcelos da Silva1; Eudes da Silva Velozo1; Rosemília Ribeiro da Cunha1.
1 - Faculdade de Farmácia – Universidade Federal da Bahia – UFBA.
INTRODUÇÃO
A propaganda de medicamentos representa
um dos principais recursos de marketing
utilizados pela indústria farmacêutica para
persuadir as pessoas a comprarem produtos
farmacêuticos, ainda que não tenham real
necessidade de consumi-los. De forma geral,
a propaganda de medicamentos não alerta os
usuários sobre os riscos sanitários envolvidos
no consumo indiscriminado de substâncias
farmacológicas e nem para o fato de que todo
medicamento, mesmo de venda sem prescrição
médica, deve ser consumido com consciência
e responsabilidade.
O anúncio publicitário, ao divulgar os
medicamentos como produto de consumo,
tende, entre outras coisas, a induzir a
automedicação,
agravar
patologias
ou
sintomas, incentivar a aquisição de produtos
ineficazes ou inadequados e aumentar os
gastos do sistema de saúde, inclusive no que
diz respeito ao tratamento de intoxicação
medicamentosa, que ocupa o primeiro lugar no
ranking de intoxicações nos centros de controle
de toxicologia e farmacovigilância do Brasil.
De acordo com a Organização Mundial de
Saúde (OMS), a população brasileira, entre
todos os países da América Latina, é uma das
que apresenta maior tendência para comprar
medicamentos sem consulta ao médico. Na
tentativa de inverter este quadro, a Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
regulamentou a propaganda de medicamentos
através da Resolução da Diretoria Colegiada
(RDC) nº 102/00 e implantou o Projeto de
Monitoração de Publicidade e Propaganda
de Produtos sujeitos à Vigilância Sanitária. O
projeto visou, além da monitoração de peças
publicitárias veiculadas nos mais diversos
meios de comunicação; desenvolver ações de
educação, informação e divulgação sobre o
uso racional de medicamentos e os riscos das
propagandas de medicamentos.
No Estado da Bahia, finalizando a terceira fase
do Projeto de Monitoração de Publicidade e
Propaganda de Produtos sujeitos à Vigilância
Sanitária, entre os anos de 2008 e 2009,
foram realizadas ações envolvendo órgãos
e instituições de ensino superior, escolas de
ensino médio e meios de comunicação (rádios,
TV e mídia impressa).
Essas ações, segmentadas e selecionadas para
públicos afins e com interesses e linguagem
comum, constituíam em palestras, seminários
e workshop para um público específico que
compreendia professores e estudantes das aéreas
de Comunicação, Ciências Sociais, Ciências
da Saúde (cursos de Farmácia, Medicina,
Odontologia, Nutrição, Enfermagem e Medicina
Veterinária) e Administração. Além disso, esses
eventos conseguiram atingir um público ainda
mais específico, e não menos importante, como
os professores e alunos do ensino fundamental
e profissionais da área de Comunicação, como
jornalistas e radialistas.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 33
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS VERSUS PROPAGANDA
ABUSIVA: PERCEPÇÃO DOS EDUCADORES E IMPACTO DAS AÇÕES
REALIZADAS NO MUNICÍPIO DE SANTO ANTÔNIO DE JESUS BAHIA.
O presente artigo tem por objetivo discutir os
resultados obtidos em uma das atividades de
educação realizada no interior da Bahia (Santo
Antônio de Jesus), tendo como público-alvo os
professores e diretores de escolas públicas da
região, no intuito de abordar e debater temas
como o uso racional de medicamentos e as
propagandas enganosas e abusivas.
MATERIAIS E MÉTODOS
Os dados deste trabalho foram captados
durante um seminário intitulado “Educação
e Saúde no Uso Racional de Medicamentos”,
realizado no dia 4 de dezembro de 2009, no
município de Santo Antônio de Jesus, no Estado
da Bahia. Nesse evento, houve a participação
de 34 ouvintes – professores e coordenadores
de escolas municipais de ensino médio e
fundamental de Santo Antônio de Jesus.
Para avaliação da percepção dos participantes
sobre o uso racional de medicamentos e
a propaganda abusiva foi utilizado como
ferramenta de pesquisa um questionário, o qual
foi aplicado antes e depois da palestra, contendo
22 questões. A confecção desse instrumento
de avaliação baseou-se nas dúvidas frequentes
que surgiram no momento da exposição do
tema sobre uso racional de medicamentos e a
propaganda enganosa, entre os participantes
de diversos eventos relacionados à educação
em saúde, promovidos anteriormente pelos
participantes do Projeto de Monitoração de
Publicidade e Propaganda de Produtos sujeitos
à Vigilância Sanitária, durante o período de
2004 a 2007.
e após a discussão sobre o uso racional de
medicamentos e a influência da propaganda na
aquisição e uso de produtos medicamentosos.
Foi observado que dos 34 participantes
presentes, 100% têm consciência de que a saúde
é um dever do Estado e um direito do cidadão,
além de considerar importante a construção de
atividades relacionadas à educação em saúde,
promovendo o conhecimento e o pensamento
crítico. Também foi observado que 94%
concordavam com o conceito de medicamento
fornecido pela pesquisa, e 56% liam a bula
antes de utilizar o medicamento. Setenta e
quatro por cento dos professores acreditavam
que o uso de remédios caseiros podem fazer
mal à saúde. Outro dado muito importante é o
de que 9% dos participantes não acreditavam
na veracidade das informações sobre os
medicamentos descritos nas propagandas,
94% achavam que a propaganda influencia no
consumo dos remédios e somente 15% deles
compravam medicamentos anunciados por
qualquer meio de comunicação.
De acordo com a pesquisa, 68% achavam que
medicamentos com tarja preta ou vermelha
não poderiam ser anunciados em meios de
comunicação de massa (Tabela 1).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Ao final do seminário, após discussão e a
abordagem de temas como os perigos do
uso indiscriminado de medicamentos e de
remédios caseiros e como as propagandas
influenciam no consumo de medicamentos, os
resultados dos questionários foram: 100% dos
participantes responderam que leriam a bula
antes de usar os medicamentos, acreditavam
que automedicação poderia levar ao uso de
um medicamento errado no tratamento de
uma doença e que o uso de um medicamento
orientado pelo balconista poderia levar à
automedicação e 91% dos participantes sabiam
o conceito sobre uso racional de medicamentos
(Tabela 2)
Todos os participantes responderam aos
questionários (antes e após o evento) na tentativa
de avaliar a percepção geral dos ouvintes antes
O porcentual de algumas respostas para
questionários pré e pós foram os mesmos, a
exemplo de: local de guarda do medicamento
Nos questionários continham questões de
múltipla escolha com alternativas diferentes
que variavam de (a) a (d) e questões onde as
respostas eram “sim”, “não” ou “não sabe
responder”.
34 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Perguntados com que frequência compravam
medicamentos na drogaria/farmácia, 3%
assinalaram uma vez na semana, 12% uma vez
por mês e 85% somente quando necessário,
nenhum assinalou a alternativa “Todos os dias”.
Perguntado o que mais influenciava na compra
de um medicamento, 19% afirmaram ser a
propaganda, 20% o preço, 20% balconista, 41%
indicação de familiares, amigos ou vizinhos.
Os resultados mostrados pelas tabelas 1 e 2,
demonstram o impacto de ações de educação
realizadas por profissionais ligados às áreas de
Ciências Farmacêuticas, Medicina e Educação
para a Promoção da Saúde.
Foi observado que após a explanação dos
palestrantes houve uma significativa mudança
nas respostas visualizadas nos questionários.
Antes da palestra, 74% dos ouvintes acreditavam
que o uso de remédios caseiros ou naturais
podem provocar algum mal à saúde e, após
a palestra, esse número se elevou para 84%.
Antes da palestra, 56% do público afirmava
que praticava automedicação, após a palestra
houve um aumento para 72%. Acredita-se
que os conceitos abordados pelos palestrantes
influenciaram muito na opinião dos participantes.
Durante o seminário foram abordados conceitos
sobre medicamentos, remédios, posologia
e os perigos da automedicação e do uso de
remédios caseiros, informando a importância
de um produto ter registro na Agência Nacional
de Vigilância Sanitária e, por isso, houve essa
mudança de pensamento, refletido nas respostas
dos questionários.
Segundo as respostas expressas nos questionários,
todos sabiam o que o significava “uso racional
de medicamentos” antes da palestra, porém
eles admitiram sofrer a influência de vizinhos
e amigos no momento da aquisição dos
medicamentos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A informação e a educação continuada sobre O
uso racional de medicamentos para a população
é de extrema importância. A publicidade e
a propaganda são elaboradas para que os
consumidores tenham uma resposta emocional
ao recebê-la. Os estrategistas de marketing sabem
que as pessoas têm necessidade de sentimentos
e não de produtos. No caso de medicamentos
os sentimentos são as necessidades básicas
de segurança e bem- estar. A exploração do
novo também é um recurso muito comum nas
propagandas e publicidade de medicamentos.
Por isto, a educação é o caminho para evitar
a influência de propagandas na aquisição e no
uso indiscriminado de medicamentos. Uma
vez que a única interferência no momento da
compra do medicamento deve ser a indicação
médica adequada para a patologia que o
paciente apresenta.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 35
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
- 62% responderam em um local de difícil
acesso, 38% não guardam em locais específicos
e nenhum deles guardava na cozinha ou no
banheiro; sobre o que é medicamento - 62%
marcaram que o medicamento seria uma
substância que trata o paciente, 6% assinalaram
que “é somente uma substância capaz de
promover o benefício da saúde do paciente”,
14% responderam que seria uma “ação que
promove a cura da doença” e 18% nenhuma
das alternativas.
36 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Universidade Federal Fluminense (UFF)
Selma Rodrigues de Castilho1; Gabriela Deutsch2; Luciana das Flores Fontes2; Sarah de Vares Cação2 ;
Silvana Silva Souza2 ; Joyce Andrade das Flores2.
1 – Docente da Faculdade de Farmácia – Universidade Federal Fluminense – UFF. Coordenadora do projeto
Educanvisa.
2 – Bolsistas do Projeto Ações de Informação e Educação da Faculdade de Farmácia.
Universidade Federal Fluminense – UFF.
resumo
O artigo relata a experiência da equipe do
projeto Ações de Informação e Educação, da
Faculdade de Farmácia da Universidade Federal
Fluminense (UFF) em parceria com a Anvisa,
na promoção do uso racional de medicamentos
entre alunos de escolas da rede pública ligadas
ao projeto Educanvisa: Educação em Vigilância
Sanitária. A equipe do projeto desenvolveu uma
cartilha com jogos para as crianças e uma palestra
básica para a discussão dos principais conceitos
envolvidos no uso racional de medicamentos.
Durante as dinâmicas, incluiu-se o jogo Trilha
da Saúde, produzido pela Anvisa, para o qual
as perguntas foram adequadas, considerando
duas faixas etárias: adolescentes e crianças de
8 a 11 anos de idade. As escolas selecionadas
ficam localizadas no município de Maricá, Rio
de Janeiro.
INTRODUÇÃO
O uso racional de medicamentos envolve a
incorporação de valores e conceitos às práticas
individuais e coletivas. Embora a propaganda
de medicamentos seja apenas um dos vários
problemas relacionados ao mercado de
medicamentos brasileiro (HEINECK, 1998),
contribui substancialmente na definição de
padrões de mercado e de comportamento das
pessoas, impactando concretamente as práticas
terapêuticas (MASSERA E CAMARGO, 2002),
sobretudo por se apresentar em muitas situações
inadequada e enganosa, estabelecendo
conflitos permanentes entre empresas, governo
e sociedade (FAGUNDES, 2007).
Muitas das estratégias de promoção desses
medicamentos na sociedade moderna tendem
a promover uma percepção errônea sobre
seu verdadeiro papel, seja na manutenção do
bem-estar, seja na recuperação da saúde. Aos
medicamentos são atribuídos, muitas vezes,
exageros de aplicação. Por outro lado, é comum
que se veicule igualmente a minimização dos
riscos de sua utilização. Embora vários autores
já venham discutindo essa questão há décadas
(TEMPORÃO, 1986; HERXHEIMER & COLLIER,
1990), ainda hoje é fundamental que se busque
assegurar uma utilização de medicamentos de
acordo com as necessidades da população e não
determinada pela interferência da promoção de
medicamentos, realizada pelos seus fabricantes
(HUERTAS & CAMPOMAR, 2009; MORAIS,
2003; NASCIMENTO, 2009).
Segundo Huertas e Campomar (2009), no
Brasil são atribuídas à propaganda direcionada
aos consumidores de medicamentos parte
da responsabilidade pelas consequências
potencialmente perigosas da automedicação.
Para Morais (2003), o quinto lugar ocupado
pelo Brasil em consumo de medicamentos no
mundo reflete o grave problema do uso abusivo
de medicamentos, o que constitui uma ameaça
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 39
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
PROMOVENDO O USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS NAS
ESCOLAS PÚBLICAS QUE PARTICIPAM DO PROJETO EDUCANVISA
à saúde pública. O alcance do uso racional
de medicamentos depende, portanto, do
fornecimento de contrainformação balizada e
atual, que permita aos usuários desses produtos
a adequada avaliação da relação risco versus
benefício de seu emprego, bem como escolhas
fundamentadas no conhecimento científico
sobre estes produtos.
As crianças e os adolescentes são uma camada
social bastante suscetível tanto às influências
da propaganda quanto à ocorrência de eventos
adversos aos medicamentos. Tanto é assim,
que os medicamentos estão envolvidos em
grande parcela das intoxicações registradas
pelo Sistema Nacional de Informações Tóxico
Farmacológicas – Sinitox (MATOS et al., 2002).
Este trabalho descreve o processo de interação
entre a equipe do projeto Ações de Educação e
Informação da Universidade Federal Fluminense
(UFF) com os estudantes de uma escola
municipal de saúde do município de Maricá. O
principal objetivo desse trabalho foi despertar
nos estudantes a crítica frente ao estímulo
massivo para o consumo de medicamentos,
bem como o alerta sobre possíveis riscos
oriundos desta prática. Através da proposição
de situações rotineiras, buscou-se despertar nas
crianças o questionamento sobre estas práticas
comuns na sociedade brasileira.
MATERIAIS E MÉTODOS
Inicialmente, buscou-se contato com as escolas
do Estado do Rio de Janeiro que participaram do
treinamento fornecido pela Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa) para sua inserção
no projeto Educanvisa. A Secretaria de Educação
do Município de Maricá atendeu prontamente à
solicitação de participação da equipe do projeto
da UFF, selecionando três de suas escolas. No
entanto, em função de compatibilização de
agendas, apenas em uma escola foi possível a
participação da universidade.
Uma vez agendada a visita, buscou-se identificar
a faixa etária dos alunos que participariam da
atividade. O material produzido foi destinado
a dois públicos: crianças de 8 a 11 anos de
40 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
idade e adolescentes. A abordagem inicial
foi a realização de uma palestra, tratando
dos principais conceitos relacionados ao uso
racional de medicamentos. Em seguida, as
crianças foram convidadas a participar de
jogos com a equipe, onde novamente o tema
central foi o uso racional de medicamentos e
as situações cotidianas que nos desviam desse
uso.
Para tanto, foram adotados dois instrumentos
básicos: (i) uma cartilha contendo jogos infantis
como labirintos, imagens para colorir, caça
palavras, encruzilhadas e jogos de 7 erros e
(ii) o jogo Trilha da Saúde, desenvolvido pela
Anvisa. Para a utilização do jogo, as perguntas
foram adaptadas para as duas faixas etárias,
citadas anteriormente, e foi empregado um
tapete de 5 x 6 metros, sendo as crianças os
peões do jogo.
Ao final da atividade, as crianças identificaram,
por meio da seleção de figuras numa ficha de
avaliação, sua satisfação com o evento.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Participaram da atividade 42 crianças, na faixa
etária de 1 a 15 anos. A palestra inicial (Figura
1) teve duração de 30 minutos. Em seguida,
as crianças foram estimuladas a trazer suas
vivências para o grupo. Chamou a atenção
da equipe, o número relativamente grande de
crianças que já haviam vivenciado, em suas
relações próximas, algum episódio envolvendo
o uso de medicamentos (3), intoxicações
medicamentosas (4) e mesmo condutas incorretas
na utilização de medicamentos (8), tais como
armazenagem incorreta e reaproveitamento de
receitas médicas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Agrande quantidade de problemas relacionados a
medicamentos (PRM) detectados nas prescrições
recebidas pela Farmácia Universitária (FAU) da
UFF indica a necessidade de desenvolvimento
de um protocolo de atenção farmacêutica
para orientar e acompanhar o tratamento dos
pacientes.
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
Mesmo para medicamentos de uso contínuo,
como os anti-hipertensivos, é provável que
problemas de prescrição dificultem a adesão
dos pacientes ao tratamento e gerem eventos
adversos relacionados a erros de medicação.
Os resultados também apontam a necessidade
de elaboração de cursos de capacitação
profissional, que incentivem a promoção do
uso racional de medicamentos e promovam
a integração dos prescritores com a equipe
multiprofissional de saúde.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem ao Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq), pela concessão da bolsa de Iniciação
Científica e aos funcionários da FAU/UFF,
que foram essenciais para a realização deste
estudo.
REFERÊNCIAS
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propaganda e publicidade de medicamentos.
Ciência & Saúde Coletiva, v.12, n.1, 2007.
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rádio do Rio Grande do Sul, Brasil. Cadernos
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1998.
MATOS, G. C. de; ROZENFELD, S.;
BORTOLETTO,
M.
E.
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de cinco anos. Revista Brasileira de Saúde
Materno Infantil, v. 2, n. 2, p. 167-176, 2002 .
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the British pharmaceutical industry, 19838: a critical analysis of self regulation.
British Medical Journal, v.300 (6720), p.307311, 1990.
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Superinteressante, Ed. 185, fev. 2003.
HUERTAS, M .K .Z.; CAMPOMAR, M. C. Apelos
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medicamentos de prescrição: estudo de um
remédio para emagrecer. Ciência & Saúde
Coletiva, v.13 (supl.), p.651-662, 2008.
NASCIMENTO, A. C. Propaganda de
medicamentos no Brasil: é possível regular?
Ciência & Saúde Coletiva, v.14, n. 3, p. 869877, 2009.
TEMPORÃO, J. G. A Propaganda de
Medicamentos e o Mito da Saúde. Rio de
Janeiro: Edições Graal, 1986.
MASSERA, A. P. D.; CAMARGO, J. A. S.; SILVA,
L. R. F. J. O controle do comportamento
privado para fins públicos: a monitoração
de propaganda de medicamentos no Brasil
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 41
Universidade Federal de Goiás (UFG)
Quino, A. T. 1; Barbosa, L. M.2 ; Guilger, R. C.2; Severo, S. L.2; Freitas, J. S.2; Lima, D. M.3..
1 – Farmacêutica, participante do projeto Educanvisa – Universidade Federal de Goiás.
2 – Acadêmicos do curso de Farmácia, Enfermagem e Medicina.
Bolsistas do projeto Educanvisa – Universidade Federal de Goiás.
3 – Professora da Faculdade de Farmácia, coordenadora do projeto Educanvisa. Universidade Federal de Goiás.
resumo
As concepções de saúde que permeiam o
ambiente escolar possibilitam o entendimento
das ações ali desenvolvidas, em relação à
saúde, de acordo com o cotidiano e a realidade
de escola. Dessa forma, o professor, na função
de promotor de saúde, e a escola, têm papel
importante na formação de cidadãos mais
conscientes, pois o desenvolvimento cognitivo
contribui comprovadamente para o nível de saúde
da população – proporcionando a valorização
da saúde, o discernimento e a participação em
decisões relativas à saúde individual e coletiva.
Este trabalho teve por objetivo realizar uma
avaliação inicial da percepção de professores
de séries de ensino fundamental a respeito de
temas que envolvem a promoção da saúde,
uso racional de medicamentos e alimentação
saudável, e como estes temas são enfocados
no projeto pedagógico na escola. Os resultados
demonstraram que alguns desses temas já
vinham sendo trabalhados em sala de aula,
em aulas de Ciências, utilizando recursos
didáticos variados, ou por meio de projetos
interdisciplinares. Aspectos relacionados ao
comportamento dos professores quanto ao
uso de medicamentos dão conta que, apesar
da maioria dos entrevistados afirmarem não
consumir medicamentos frequentemente e
compreenderem o conceito de uso racional de
medicamentos, existe certa confusão em relação
aos riscos do uso de medicamentos isentos de
prescrição. Os resultados apontaram, também,
que alguns professores admitiram a influência
da propaganda no processo de determinação
da aquisição do produto medicamentoso, o que
pode sinalizar que o conceito de uso racional
de medicamentos precisa ser mais explorado.
INTRODUÇÃO
A promoção da saúde extrapola o campo
específico da assistência médico-curativa,
baseando-se na concepção de que todos os
cidadãos devem ter igual acesso aos recursos
que possibilitem a melhoria das condições de
vida e saúde de todos: educação, habitação e
meio ambiente adequados, emprego e renda,
informação, lazer e cultura, saneamento,
alimentação, segurança, participação social
e serviços de saúde. A disseminação de
conteúdos informativos e educativos são as
bases para a tomada de decisão e, portanto,
componentes importantes da promoção da
saúde. Por isso a necessidade da participação
da escola no processo de construção de uma
vida mais saudável, na busca por qualidade de
vida (BRASIL, 2008).
É fato reconhecido que parte do insucesso
alcançado pelas campanhas educativas se deve
ao não entendimento do receptor da informação
sobre o tema que lhe é apresentado. O fracasso
das práticas desenvolvidas sem o envolvimento
da população-alvo revela, na verdade, o
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 43
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
PERCEPÇÃO DE PROFESSORES DO ENSINO FUNDAMENTAL DE
ESCOLAS DA CIDADE DE GOIÂNIA SOBRE VALORES SOCIAIS E
EDUCACIONAIS EM SAÚDE
profundo desconhecimento dos planejadores
da saúde sobre o universo de representações
do indivíduo, sua forma de conceber a vida, o
trabalho, a saúde e o seu conhecimento prévio
sobre o tema a ser ensinado (ANDRADE E
COELHO, 1997).
As concepções de saúde que permeiam o
ambiente escolar possibilitam o entendimento
das ações ali desenvolvidas, em relação à
saúde, de acordo com o cotidiano e a realidade
da escola. Criar atitudes que incentivem hábitos
saudáveis devem ter início na infância, sendo
importante a incorporação de educação em
saúde no ensino fundamental, especialmente
nos anos iniciais, uma vez que atitudes em
relação à saúde são constituídas por meio da
identificação de valores da comunidade. Dessa
forma, o professor, na função de promotor
de saúde, e a escola, têm papel importante
na formação de cidadãos mais conscientes,
pois o desenvolvimento cognitivo contribui
comprovadamente para o nível de saúde da
população – proporcionando a valorização da
saúde, o discernimento e a participação em
decisões relativas à saúde individual e coletiva
(KARNIKOWSKI E FUNGHETTO, 2008;
BRASIL, 2007).
Tendo em vista problemas enfrentados pela
sociedade, principalmente com relação ao
uso de medicamentos, o projeto Educanvisa:
Educação em Vigilância Sanitária foi criado
pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) com o intuito de desenvolver ações
de educação em saúde. O principal enfoque
do projeto é a influência da propaganda
no consumo de medicamentos e de outros
produtos sujeitos à vigilância sanitária. Também
trata temas como: automedicação, uso racional
de medicamentos e cuidados necessários com
o consumo de produtos, como alimentos,
cosméticos e saneantes (BRASIL, 2008).
O Educanvisa pretende tornar o aluno um
multiplicador do conhecimento, disseminando
o conteúdo aprendido na escola à comunidade.
A proposta busca incentivar a inclusão dos temas
relativos à vigilância sanitária nos currículos
escolares e a discussão dessas temáticas nas
44 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
comunidades, consistindo em uma ação ampla
de promoção da saúde. Objetiva-se, portanto,
estimular a mudança de hábitos a partir
da atuação na comunidade escolar, com a
formação de cidadãos mais esclarecidos quanto
ao uso responsável de medicamentos e aos
cuidados com a sua saúde e da comunidade
(BRASIL, 2008).
Este trabalho teve por objetivo realizar uma
avaliação inicial da percepção de professores
de séries de ensino fundamental a respeito
de temas que envolvem promoção da saúde,
uso racional de medicamentos e alimentação
saudável, assim como têm sido enfocados no
projeto pedagógico na escola.
MATERIAIS E MÉTODOS
A pesquisa foi realizada com os professores de
séries do ensino fundamental de quatro escolas
da rede pública municipal da cidade de Goiânia
(GO), selecionadas pela Secretaria Municipal
de Educação para a implantação do projeto
Educanvisa, em parceria com a Universidade
Federal de Goiás (UFG) e outras instituições.
A coleta de dados foi realizada nos meses de
maio e junho de 2009, com a aplicação de um
questionário padronizado pelo Educanvisa,
e respondido de forma individual e anônima.
O instrumento continha perguntas abertas e
fechadas sobre dados demográficos, educação
em saúde e seu enfoque no projeto pedagógico
da escola em que trabalhavam, e percepções
quanto à vigilância sanitária, alimentação
saudável e uso racional de medicamentos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Dentre os 53 professores entrevistados, 70%
eram do sexo feminino, com idade média
de 42 anos, tempo médio de magistério de
18 anos, trabalhando na escola atual há
aproximadamente oito anos. A maioria (82%)
já com algum curso de pós-graduação.
Temas relacionados à saúde já vinham sendo
trabalhados em sala de aula, através da utilização
de recursos didáticos variados (26,4%), em aulas
O questionário abrangeu também aspectos
relacionados ao comportamento dos professores
quanto ao uso de medicamentos. Neste sentido, 96%
declararam consumir algum tipo de medicamento,
embora a maioria (55%) tenha afirmado que a
frequência de uso é rara (Figura 3).
Em relação às classes de medicamentos mais
comumente consumidas, as mais citadas foram
analgésicos e anti-inflamatórios. Além dessas,
foi relatado o consumo de anti-hipertensivos,
antibióticos e antidepressivos, dentre outros.
O consumo de analgésicos é favorecido pela
facilidade de sua aquisição e pela venda sem
prescrição médica, além de a população mantê-los
disponíveis nas chamadas “farmácias domésticas”
e, até mesmo, em escolas. Também possuem uma
publicidade massiva e, provavelmente, são os mais
recomendados por familiares ou amigos (SILVA,
2004).
A Portaria Interministerial nº 1.010, de 8 de maio
de 2006, institui as diretrizes para promoção da
alimentação saudável nas escolas, sendo que um
de seus eixos prioritários é a educação alimentar e
nutricional (BRASIL, 2006). A educação nutricional
no âmbito escolar deve encorajar uma mudança
científica e sociocultural na forma de viver dos
alunos, repercutindo em melhores oportunidades
de auxiliar as crianças e os adultos na escolha de
alimentos (FERNANDES E SILVA, 2008). A partir
dessa informação, foi verificado, no questionário
aplicado, o conhecimento dos professores sobre
os conceitos básicos relacionados à alimentação
saudável, sendo que 94% demonstraram ter
conhecimento suficiente sobre o tema. Isso pode
ser correlacionado com a maior abordagem do
tema alimentação saudável em sala de aula (85%),
conforme descrito anteriormente na figura 1.
Também foi abordado o conhecimento sobre
conceitos relacionados ao uso de medicamentos e
constatado que 79% têm noção da finalidade
terapêutica e curativa dos medicamentos,
porém,
muitos
desconhecem
outras
finalidades, tais como: profilática (66%),
paliativa (41%) e de diagnóstico (86%). Dos
respondentes, 71% têm conhecimento sobre
o conceito de medicamentos essenciais, 88%
entendem o que são medicamentos tarjados e
79% compreendem o que é automedicação,
apesar de 62% deles fazerem confusão
quanto ao conceito de dispensação de
medicamentos.
A automedicação é uma prática comum no
cotidiano da população brasileira e envolve
diversos aspectos, dentre eles a propaganda.
De acordo com a Anvisa, a propaganda
é um método que estimula o consumo de
medicamentos, pois engloba um conjunto
de técnicas utilizadas para divulgar
conhecimentos e/ou promover adesão a
princípios, ideias ou teorias, visando exercer
influência sobre o público. Baseando-se nessas
informações, foi percebido que 76% dos que
responderam ao questionário compreendem
a influência da propaganda sobre o público
leigo. Sendo que 92% afirmaram entender o
conceito de uso racional de medicamentos;
porém, 85% fizeram confusão quanto
aos riscos e benefícios de medicamentos
isentos de prescrição. Em relação à
influência da propaganda no consumo
de medicamentos, 34% admitiram que a
escolha do medicamento utilizado baseouse na divulgação de produtos farmacêuticos
na mídia (Figura 4).
Esse resultado pode estar correlacionado à
declaração de que a maioria (62%) utiliza
medicamentos por conta própria, ou seja,
optam pela prática da automedicação.
Tal prática não está isenta de riscos, como
o de mascarar doenças graves, com o
consequente atraso no diagnóstico ou
prejuízo no seguimento médico de situações
potencialmente graves, além da possibilidade
de utilização inadequada dos medicamentos
e a interação entre medicamentos prescritos
e não prescritos (VASCO, 2000).
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 45
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
de Ciências (15%), em projetos interdisciplinares
(7,6%) e, em parceria com as unidades de saúde
locais, por meio de estratégias de Saúde da Família
(5,7%) (Figura 1). É interessante ressaltar que os
menos abordados foram vigilância sanitária (53%)
e propaganda e uso racional de medicamentos
(30%) (Figura 2).
Figura 1: Disciplinas ou atividades onde estão inseridos os temas relacionados à promoção da saúde
e como esta está sendo trabalhada na escola.
Figura 2: Principais assuntos abordados dentro da educação em saúde no projeto
pedagógico da escola.
Figura 3: Declaração de frequência de consumo de medicamentos por parte dos professores.
46 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados deste estudo demonstraram
que, apesar de a maioria dos educadores
apresentarem um grau de escolaridade com
pós-graduação e afirmarem trabalhar com
algumas questões sobre educação em saúde em
sala de aula, ainda existem algumas deficiências
relacionadas aos conhecimentos sobre a
propaganda e o uso racional de medicamentos
e vigilância sanitária. Portanto, pode-se detectar
a necessidade da formação de multiplicadores
que poderão contribuir para o desenvolvimento
de práticas educativas relevantes, envolvendo
temas sobre vigilância sanitária na comunidade
escolar, com a consequente formação de
cidadãos mais conscientes e participantes da
construção e melhoria de condições saudáveis
de vida (BRASIL, 2007; COELHO, 1993).
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 47
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
Figura 4: Influência da propaganda sobre a compra de medicamentos.
REFERÊNCIAS
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comunitárias em saúde. Revista Brasileira de
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à Vigilância Sanitária: Educanvisa. Brasília:
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COELHO, M. A. S. M.; RIBEIRO, E. C.
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áreas de garimpo de ouro. In: Mercúrio em
áreas de garimpo de ouro. Câmara V. M (editor)
- OPS. México, 1993.
FERNANDEZ, P. M.; SILVA, D. O. Descrição
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alimentares por professores de 1ª a 4ª série:
a necessidade de atualização dos conceitos.
Ciência & Educação, v. 14, n. 3, p. 451-66,
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Karnikowski, M. G. de O.; Funghetto, S. S.
Projeto Piloto: O Contributo da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária para o uso
racional de medicamentos. Brasília: Anvisa,
2008.
48 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Universidade Federal de Juiz de Fora (UJF)
Lilian Henriques do Amaral1; Vivian Henriques do Amaral2; Luiz Paulo Reis Santos1; Thais de Sá Pecis1; Carolina
Pires de Araújo3; Allan Pereira3; Larissa Pereira Brumano1; Simone Gatti Ferreira Reis4; Miriam Aparecida de
Oliveira Pinto5; Maria da Penha Henriques do Amaral5
1-Graduando em Farmácia –Faculdade de Farmácia e Bioquímica (UFJF).
2 - Graduanda em Medicina - Faculdade de Medicina (UFJF).
3 - Graduando em Comunicação Social - Faculdade de Comunicação Social (UFJF).
4 - Cirurgiã Dentista, Especialista em Vigilância Sanitária, Supervisora de Educação em Saúde da Vigilância Sanitária Municipal – Juiz de Fora (MG).
5 - Professora Doutora Associada - Faculdade de Farmácia e Bioquímica (UFJF).
resumo
A saúde no Brasil é um direito universal e dever
do Estado. Para o cumprimento deste direito,
a Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) tem como uma de suas atribuições a
educação em vigilância sanitária, incluindo o
uso racional de medicamentos e de alimentos,
mediante o monitoramento de suas propagandas.
Desde 2007, o projeto Educanvisa, promovido
pela Anvisa em parceria com escolas públicas
de todo o Brasil, incluindo Juiz de Fora, vem
introduzindo temas de vigilância sanitária
no ambiente de ensino, colocando em pauta
assuntos que, até então, não faziam parte das
agendas escolares de maneira tão evidente.
Temas como o uso racional de medicamentos,
o problema da automedicação, a propaganda
enganosa de medicamentos e de alimentos
funcionais veiculadas nas mídias, e questões
relativas à educação em saúde (em especial,
os conceitos de uma alimentação saudável)
passam a fazer parte dos currículos em algumas
escolas da rede municipal de ensino. Em
2009, a Anvisa realizou o projeto educacional
A Promoção da Saúde pelas Ondas do Rádio
para ser desenvolvido por instituições de ensino
superior do país, incluindo a Faculdade de
Farmácia e Bioquímica da Universidade Federal
de Juiz de Fora (FFB/UFJF), em parceria com as
Vigilâncias Sanitárias estadual e municipal e com
a Secretaria de Educação Municipal. As escolas
participantes foram: Escola Municipal Paulo
Japiassu; Escola Municipal União da Bethânia;
Escola Municipal George Rodenbach; Escola
Municipal Arlete Bastos Magalhães; Escola
Municipal Marília de Dirceu. Participaram das
palestras 699 alunos. O projeto A Promoção
da Saúde nas Ondas do Rádio promoveu uma
construção ativa do conhecimento em saúde,
a partir de contextos escolares interativos
problematizadores, utilizando uma metodologia
que uniu universidade, vigilância sanitária,
secretaria de educação e escolas do ensino
fundamental.
INTRODUÇÃO A saúde no Brasil é um direito universal e
dever do Estado. Para o cumprimento deste
direito, a Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) tem como uma de suas
atribuições a educação em vigilância sanitária,
incluindo o uso racional de medicamentos e de
alimentos, mediante o monitoramento de suas
propagandas.
Os medicamentos não são mercadorias que
possam ser oferecidas da mesma maneira
que outros bens e serviços passíveis de regras
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 51
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
EDUCAÇÃO EM SAÚDE NAS ESCOLAS: IMPACTOS DA PROPAGANDA
DE MEDICAMENTOS E PROMOÇÃO DA ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL
do livre mercado. Para os medicamentos e
produtos sujeitos à vigilância sanitária, a Anvisa
editou regulamentos e resoluções sobre a
sua propaganda, com o intuito de proteger a
população (FAGUNDES et al., 2007; BRASIL,
2008).
Desde 2007, o projeto Educanvisa, em Juiz de
Fora, vem introduzindo temas de vigilância
sanitária no ambiente de ensino, colocando
em pauta assuntos que, até então, não faziam
parte das agendas escolares de maneira tão
evidente.
Este controle da propaganda é eticamente
defensável, uma vez que, em questões básicas
como a saúde pública, o Estado deve tomar a
frente e intervir no compromisso de proteger a
população contra o iminente risco sanitário que
o consumo descontrolado de medicamentos
representa (FAGUNDES et al., 2007). Entretanto,
os relatos desta autora e colaboradores e de
Heineck et al. (1998) demonstraram que existe
alta frequência de propaganda enganosa de
medicamentos e de alimentos.
Temas como o uso racional de medicamentos,
o problema da automedicação, a propaganda
enganosa de medicamentos e de alimentos com
alegação de propriedades funcionais veiculadas
nas mídias, e questões relativas à educação
em saúde (em especial, os conceitos de uma
alimentação saudável) passam a fazer parte
dos currículos em algumas escolas da Rede
Municipal de Ensino do município.
Estudos demonstram que uma alimentação
inadequada pode trazer riscos à saúde
(FRANCO, 2006). Segundo o Departamento de
Saúde e Serviços Humanos nos Estados Unidos,
a dieta foi associada a cinco das dez principais
causas de morte: doenças coronarianas,
alguns tipos de câncer, diabetes tipo dois,
arteriosclerose e derrame (HASLER, 2002).
Portanto, é fundamental a educação para a
alimentação saudável no ambiente escolar.
É importante que este tema seja discutido nas
instituições de ensino como universidades
e escolas de ensino fundamental e médio,
secretarias de educação e de saúde, meios de
comunicação incluindo o rádio, cujo acesso
atinge as diversas categorias da população.
Neste sentido, a Anvisa criou o projeto Educanvisa:
Educação em Vigilância Sanitária, que é uma
ação de educação da Agência, realizada por
meio da Gerência Geral de Monitoramento
e Fiscalização de Propaganda, Publicidade,
Promoção e Informação de Produtos Sujeitos
à Vigilância Sanitária (GGPRO). As atividades
foram iniciadas em 2005 com ações educativas
direcionadas ao uso correto de medicamentos,
que, inicialmente, contaram com o apoio do
Ministério da Justiça.
52 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Baseando-se nestes argumentos, a GGPRO
realizou, em 2009, o projeto educacional A
Promoção da Saúde pelas Ondas do Rádio para
ser desenvolvido por instituições de ensino
superior do país, incluindo a Faculdade de
Farmácia e Bioquímica da Universidade Federal
de Juiz de Fora (FFB/UFJF), em parceria com as
Vigilâncias Sanitárias estadual e municipal e
Secretaria de Educação Municipal.
MATERIAIS E MÉTODOS
A supervisora de educação em saúde da
Vigilância Sanitária de Juiz de Fora com o
representante da Secretaria de Educação
Municipal contactaram cinco escolas de ensino
fundamental participantes do Educanvisa para
o desenvolvimento do novo projeto promovido
pela Anvisa intitulado A Promoção da Saúde
pelas Ondas do Rádio.
Foram desenvolvidas palestras educativas e
de sensibilização para os professores e alunos
das escolas de ensino fundamental, mediante
a visita pré-agendada pela equipe do projeto.
Foram utilizados recursos audiovisuais como
data-show, cartazes e folder informativo,
elaborados pela equipe.
Os temas apresentados foram: a propaganda de
medicamentos e alimentos veiculadas no rádio;
Foi distribuído um material informativo tipo
folder com os temas apresentados nas palestras
para os alunos e professores.
As escolas participantes dessa atividade foram
a Escola Municipal Paulo Japiassu; Escola
Municipal União da Bethânia; Escola Municipal
George Rodenbach; Escola Municipal Arlete
Bastos Magalhães; e Escola Municipal Marília de
Dirceu.
Com base nas respostas dos questionários
de avaliação distribuídos para os professores
das
escolas
participantes
destacamse: a conscientização sobre os riscos da
automedicação e a importância da prescrição
médica; mudanças nos hábitos de higiene dos
alunos e cuidados com o ambiente em que
vivem; introdução de hábitos alimentares mais
saudáveis; visão crítica sobre as propagandas
e o papel da mídia; formação de cidadãos
conscientes e comprometidos com a saúde
pública.
A supervisora de educação em saúde da
Vigilância Sanitária distribuiu para os professores
participantes um questionário de avaliação
das atividades desenvolvidas nas escolas pela
equipe. As respostas dos questionários foram
avaliadas pela equipe do projeto.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Estudos sobre o papel da vigilância sanitária
na saúde escolar, os riscos de consumo de
medicamentos sem a prescrição e orientação
médica, a influência das propagandas de
“remédios” veiculadas nas mídias em geral,
que acabam por induzir ao uso de produtos
que vendem promessas enganosas, entre outros
assuntos, foram trabalhados e esclarecidos pela
equipe acadêmica em parceria com alunos e
professores nas escolas. Termos como reações
adversas; contraindicação; composição; e modo
de uso, também foram discutidos. Participaram
das palestras 699 alunos (Tabela 1).
Tabela 1 – Número de alunos participantes nas
palestras por escola.
ESCOLAS
Nº de
alunos
Escola Municipal George Rodenbach
126
Escola Municipal Arlete Bastos
120
Escola Municipal Marília de Dirceu
163
Escola Municipal Dr. Paulo Japyassu
120
Escola Municipal União da Bethânia
150
TOTAL
699
As atividades realizadas nas escolas apresentaram
resultados positivos e significativos para a
promoção da saúde no contexto escolar. A
promoção de discussões sobre a propaganda de
medicamentos, de alimentos e da alimentação
saudável com a participação de alunos de
ensino fundamental é de grande importância
para a disseminação da informação, uma vez
que os alunos levam para dentro de suas casas
os conhecimentos adquiridos. O conhecimento
é um dos fatores que contribui para diminuir
os riscos sanitários vinculados às propagandas
enganosas dos medicamentos e alimentos.
Dessa forma, o projeto A Promoção da
Saúde nas Ondas do Rádio promoveu uma
construção ativa do conhecimento em saúde,
a partir de contextos escolares interativos
problematizadores, utilizando uma metodologia
que uniu universidade, vigilância sanitária,
secretaria de educação e escolas do ensino
fundamental.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 53
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
riscos da automedicação; alimentação saudável;
e importância da higiene na preparação dos
alimentos.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional
de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria
Colegiada RDC n° 96, de 17 de dezembro
2008. Brasília: Diário Oficial da República
Federativa do Brasil, 18 de dezembro de 2008.
Seção 1, p. 102-105.
FAGUNDES, M. J. D. et al. Análise bioética
da propaganda da publicidade de
medicamentos. Ciência e Saúde Coletiva,
v.12, n.1, p.221-229, 2007.
FRANCO, R. C. Análise comparativa de
legislações internacionais referentes aos
alimentos funcionais [Dissertação de Mestrado
– Nutrição Humana Aplicada – PRONUT – FCF/
FEA/FSP-USP]. São Paulo: USP, 2006.
HASLER, C. M. Functional foods: benefits,
concerns and challenges: a position paper from
the American Council on Science and Health,
the American Society for Nutitional Sciences.
Journal of Nutrition, v.132, p.3772-3781,
2002.
HEINECK. I. et al. Análise da publicidade de
medicamentos veiculada em emissoras de
rádio do Rio Grande do Sul, Brasil. Cadernos
de Saúde Pública, v.14, n.1, p.193-198,1998.
54 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Universidade Federal do Maranhão (UFMA)
Thays Cláudia da Silva Nascimento1 ; Alessandro Carvalho dos Santos1 ; Tamiris Fernanda Lima Silva1; Luana
Dias da Cunha1; Nataniele Ferreira Viana1; Nelson Machado do Carmo Júnior1; Ráysa Hellen Assunção Costa1;
Norma Dalva Duailibe Barros2; Márcia Cristina Martins Pontes3; Aline Guimarães Amorim4;Antônio Carlos
Romão Borges4.
1 - Acadêmicos da Universidade Federal do Maranhão – UFMA.
2 - Representante da Vigilância Sanitária do Estado do Maranhão.
3 - Representante da Secretaria Municipal de Educação de São Luís (MA).
4 - Professor do Laboratório de Monitoração de Publicidade e Propaganda de Produtos sob Vigilância Sanitária –
Universidade Federal do Maranhão – UFMA..
resumo
O interesse na realização do estudo é contribuir
para tornar estudantes de ensino fundamental
mais conscientes quanto ao uso racional de
medicamentos, alimentação saudável e a
influência da propaganda sobre medicamentos,
alimentos e produtos para a saúde. Desta forma,
o objetivo deste trabalho foi avaliar o perfil
dos alunos e pais de quatro escolas públicas
municipais de São Luís quanto ao uso racional
de medicamentos, alimentação saudável e
propaganda de medicamentos e alimentos. A
metodologia utilizada baseou-se na aplicação
de questionários com perguntas direcionadas
aos alunos (n=138), antes e após palestras
educativas, exibição de vídeos, e utilização de
jogos educativos. A pesquisa foi de natureza
quantitativa, evidenciada por meio de gráficos e
porcentagem. Foram aplicados questionários em
dois níveis de análise, antes e após intervenção
educacional. Os resultados demonstraram que
a propaganda não foi um determinante das
escolhas alimentares dos alunos, visto que 90%
dos alunos após as ações indicaram não pedir
aos pais para comprarem alimentos vistos em
propagandas. O que aparentou influenciar mais
os pais na escolha de medicamentos após a
intervenção foi a prescrição médica. Observouse que tanto as influências da propaganda
e do preço no consumo dos pais decaíram,
assim como a do balconista e da indicação
de familiares, amigos ou vizinhos. Em suma, o
trabalho educativo com os estudantes e seu pais
os levaram a ter um novo olhar crítico sobre
uso racional de medicamentos, alimentação
saudável, enquanto a propaganda de alimentos
e medicamentos exerceu um percentual
mínimo de influência sobre as suas escolhas de
consumo.
INTRODUÇÃO
O uso racional de medicamentos acontece
quando os pacientes recebem os medicamentos
apropriados, em doses que satisfaçam as
necessidades individuais, por um período de
tempo adequado, e com o menor custo para
eles e para a sua comunidade. Configura-se
uma situação de uso irracional quando uma
ou mais destas condições não forem cumpridas
(WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2004).
Estimativas mundiais apontam que, diante de
uma aquisição medicamentosa, mais da metade
de todos os medicamentos são prescritos,
dispensados ou vendidos de forma inadequada
e que metade dos pacientes não tomam seus
remédios de forma correta. Cerca de dois
terços das vendas mundiais de antibióticos, por
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 57
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
TRABALHO EDUCATIVO COM ESTUDANTES DE ENSINO
FUNDAMENTAL: UMA ABORDAGEM SOBRE MEDICAMENTOS,
ALIMENTAÇÃO E LEGISLAÇÃO DE PROPAGANDA
exemplo, ocorrem sem qualquer prescrição.
Estudos na Indonésia, no Paquistão e na Índia
mostraram que mais de 70% das compras
eram de antibióticos de venda sob prescrição
médica. Adiciona-se a isso que até 90% das
injeções aplicadas, em todo o mundo, sejam
consideradas dispensáveis (WORLD HEALTH
ORGANIZATION, 2004).
A automedicação é uma esfera contribuinte
ao uso irracional de medicamentos. A
Organização Mundial da Saúde (OMS) define
automedicação como a seleção e o uso de
medicamentos por pessoas para tratar de
doenças autodiagnosticadas ou de seus sintomas
(WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1998).
sobre as preferências dos consumidores
brasileiros, influenciando o consumo exagerado
ou inadequado de produtos medicamentosos
(GOMES et al., 2000).
Nesse contexto, a Resolução da Diretoria
Colegiada da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) – RDC nº 96, de 17 de
dezembro de 2008, estabeleceu normas sobre a
propaganda, publicidade, informação e outras
práticas cujo objetivo seja a divulgação ou
promoção comercial de medicamentos. Essa
resolução conceitua a propaganda como um
(...) conjunto de técnicas e atividades de
informação e persuasão com o objetivo de
divulgar conhecimentos, tornar mais conhecido
Segundo Nascimento (2000) são inúmeros os
prejuízos da automedicação, incluindo gastos
supérfluos, atrasos no diagnóstico e na adoção
da terapêutica adequada, além de efeitos
indesejáveis, tais como: reações alérgicas,
intoxicação, acidentes digestivos, cutâneos,
hematológicos, renais etc. Outra problemática
levantada é a dissimulação de alguns efeitos
adversos e sua confusão com os sinais e sintomas
da doença que motivou o consumo.
Os efeitos indesejados mais graves podem levar
o paciente à internação hospitalar ou à morte.
Dose errada, frequência inadequada, período
insuficiente ou demasiado de consumo,
combinação com outros medicamentos, com
o álcool ou outras drogas são alguns dos erros
mais comuns que podem desencadear reações
das mais diversas.
Dados de 2007, do Sistema Nacional de
Informações Tóxico Farmacológicas (Sinitox),
revelam que a intoxicação por medicamentos
foi responsável por 30,31% dos casos registrados
de intoxicação humana entre todos os agentes
tóxicos. Foram registradas 34.068 intoxicações
por medicamentos de um total de 112.403
casos notificados naquele ano (FUNDAÇÃO
OSWALDO CRUZ, 2007).
Embora os consumidores sejam influenciados
primeiramente pelos prescritores e balconistas
de farmácia, a mídia exerce papel preponderante
58 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
e/ou prestigiado determinado produto ou marca,
visando exercer influência sobre o público por meio
de ações que objetivem promover e/ou induzir à
prescrição, dispensação, aquisição e utilização de
medicamento (BRASIL, 2008).
De acordo com a Associação Brasileira de
Propaganda (2006), ao medir o grau de
conhecimento da população sobre as restrições
à propaganda de determinados produtos, 69%
dos entrevistados afirmaram desconhecimento
sobre o assunto, ou asseguraram que nenhum
produto sofre restrições. Apenas 1% dos
participantes da pesquisa fez referência a
remédios/medicamentos.
Para Nascimento (2000), as propostas de
reforma que têm em vista o uso racional de
medicamentos costumam contemplar o acesso
dos pacientes a informações farmacológicas
básicas, de maneira a propiciar uma utilização
adequada e eficiente. Defende que essas
informações têm que estar disponíveis desde a
fase escolar, como parte da educação de futuros
cidadãos.
São raríssimos os estudos que avaliem o consumo
de medicamentos especificamente entre os
adolescentes. Esta faixa etária é caracterizada
pelo desenvolvimento de capacidades e
julgamentos cognitivos individuais, os quais
podem influenciar, de forma independente, os
No que se refere à alimentação saudável, o
Brasil registrou, nas últimas décadas, importante
aumento ponderal na prevalência de obesidade/
sobrepeso, conforme dados da OMS, e hoje
se acredita que aproximadamente 32,2% da
população estejam acima da faixa de peso
ideal. Nas regiões menos desenvolvidas como
no Nordeste, os dados de prevalência são mais
modestos quando comparados às regiões Sul e
Sudeste.
De acordo com a Associação Brasileira
para o Estudo da Obesidade e da Síndrome
Metabólica (Abeso), a obesidade na infância e
na adolescência é o problema nutricional que
mais rapidamente cresce no mundo inteiro.
No Brasil, já há mais crianças obesas do que
desnutridas, e os dados epidemiológicos mais
recentes apontam que aproximadamente 15%
dos jovens brasileiros estão acima do peso.
A respeito da influência da mídia –
especialmente a televisiva – na determinação
das escolhas alimentares, Almeida et al. (2002),
ao analisarem a quantidade e qualidade de
produtos alimentícios anunciados na televisão
brasileira, afirmam que, independente do
horário e do dia, os produtos alimentícios
foram os mais frequentemente veiculados
quando comparados aos outros produtos,
havendo predomínio de alimentos com altos
teores de gordura e/ou açúcar e sal, fato este
que pode estar contribuindo para a mudança
nos hábitos alimentares de crianças e jovens e,
consequentemente, agravando o problema da
obesidade na população.
Conforme o Guia Alimentar para a População
Brasileira, publicado pelo Ministério da Saúde, a
alimentação saudável deve ser entendida como
o padrão alimentar adequado às necessidades
biológicas e sociais dos indivíduos, de
acordo com as fases do curso da vida. Para a
Coordenação Geral da Política de Alimentação
e Nutrição (CGPAN), do Ministério da Saúde,
as ações de promoção da alimentação saudável
têm como enfoque o resgate de hábitos e práticas
alimentares regionais que valorizem a produção
e o consumo de alimentos locais de baixo custo
e elevado valor nutritivo, bem como padrões
alimentares mais variados, desde os primeiros
anos de vida até a idade adulta e a velhice. A
este respeito, diferentes ações têm sido pensadas
no sentido de favorecer a adoção de práticas
alimentares e de estilo de vida saudáveis, tendo
como foco a criação de ambientes favoráveis,
o desenvolvimento de habilidades pessoais, a
mobilização e a participação social.
Por ser a obesidade uma doença de difícil
tratamento, a melhor maneira de combater esse
agravante é trabalhar com medidas preventivas.
Neste sentido, a escola é a melhor janela de
oportunidade para prevenir essa patologia, por
uma série de motivos, dentre os quais: o fato de
ser um local onde a criança realiza pelo menos
uma refeição, e o potencial da criança de ser
agente de mudanças nos hábitos alimentares da
família (VIUNISKI, 2003).
Abordar a questão da alimentação saudável
no contexto social e educacional é uma
preocupação do Ministério da Saúde, no
intuito de substituir alimentos não saudáveis
por alimentos saudáveis. Desta forma, tornase relevante que sejam incluídas na proposta
pedagógica das instituições de educação
infantil, de ensino fundamental e de ensino
médio atividades que contribuam para uma
vida saudável.
No que se refere à legislação, no Brasil, alguns
lugares como Santa Catarina (lei n° 12.061/01),
Rio de Janeiro (decreto nº 21.217/02 e lei
nº 4.508/05), Paraná (leis n° 14.423/04 e nº
14.855/05) e Distrito Federal (lei n° 3.695/05)
estabeleceram normas jurídicas com a finalidade
de incentivar a alimentação saudável nas escolas
através do controle da comercialização de
alimentos nas cantinas e lanchonetes (PASSOS
et al. , 2006).
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 59
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
resultados de alguns estudos. Além disso, os
jovens tem sido alvo frequente de campanhas
publicitárias, por seu alto poder de consumo,
inclusive no âmbito das propagandas de
medicamentos (DA SILVA, 2004).
A Consulta Pública n° 71, de 10 de novembro
de 2006, trata especificamente da propaganda e
outras práticas que tenham por objetivo divulgar
informações sobre alimentos com quantidades
elevadas de açúcar, gordura saturada, gordura
trans, sódio e de bebidas com baixo teor
nutricional. Lista os requisitos para propaganda,
publicidade ou promoção de alimentos
destinados às crianças, tornando proibido para os
alimentos citados, entre outras recomendações:
utilizar figuras e desenhos que sejam admirados
pelo público alvo; informar ou sugerir que
qualquer tipo de alimento seja nutricionalmente
completo ou que supra todas as necessidades
nutricionais dos seres humanos, excetuando-se
o leite materno quando consumido até o seis
meses de idade; encorajar práticas e estilos
de vida que estimulem situações perigosas ou
potencialmente prejudiciais à saúde, da mesma
forma que é vedado desencorajar aqueles
considerados benéficos à saúde; desencorajar o
consumo de alimentos considerados saudáveis,
principalmente no que diz respeito aos vegetais
frescos, tais como: cereais integrais, frutas,
legumes, verduras e leguminosas; explorar
negativamente a confiança especial que as
crianças depositam em seus pais, educadores,
irmãos e personalidades/personagens que
possuam grande aceitabilidade por estes
grupos populacionais; encorajar direta ou
indiretamente crianças a persuadir seus pais e
outros a adquirir ou consumir os alimentos e as
bebidas citados (BRASIL, 2006).
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária
exerce um importante papel na defesa da saúde
do consumidor, protegendo a pessoa e a família
da propaganda de produtos e serviços sujeitos
à vigilância sanitária que possam oferecer
perigo à saúde e ao meio ambiente, por
intermédio do controle sanitário da produção
e da comercialização desses produtos e
serviços, dentre os quais os medicamentos e os
alimentos.
Nesse sentido, o projeto Educanvisa: Educação
em Vigilância Sanitária, no contexto da
promoção da saúde, busca disseminar
conceitos de saúde que tenham relação direta
60 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
com o trabalho da Anvisa, como prevenir riscos
associados ao consumo de medicamentos
e de alimentos industrializados, através de
ações que contemplem os riscos e cuidados
necessários à utilização de produtos sujeitos à
vigilância sanitária e discutam a influência da
propaganda.
O presente trabalho objetivou avaliar o perfil
dos alunos e pais de quatro escolas públicas
municipais de São Luís quanto ao uso racional
de medicamentos e à alimentação saudável, no
que se refere à presença de riscos associados
ao consumo de medicamentos e de alimentos
industrializados bem como aos aspectos
relacionados à propaganda de medicamentos e
alimentos.
MATERIAIS E MÉTODOS
Este estudo foi realizado de forma prospectiva,
com a aplicação de um questionário de
avaliação do conhecimento, desenvolvido e
validado pela Anvisa, aos alunos matriculados
no ensino fundamental de quatro escolas
municipais de São Luís (MA) e aos seus pais, de
acordo com a listagem fornecida pela Secretaria
Municipal de Educação de São Luís (Semed),
prevendo os seguintes temas: uso racional
de medicamentos, alimentação saudável,
propaganda de medicamentos e propaganda de
alimentos.
Após a aplicação de questionário para avaliação
do conhecimento prévio – o qual foi respondido
de forma individual e anônima, sob a supervisão
de um entrevistador previamente treinado –,
a temática foi abordada de forma transversal
nas disciplinas curriculares. Para isso, foram
desenvolvidas oficinas com os alunos, com
aulas expositivas, abrangendo os temas citados
acima; exibição de vídeos com propaganda
de medicamentos e alimentos; e realização
de dinâmicas por meio de jogos educativos
desenvolvidos pela Agência para este fim. Os
pais, por sua vez, participaram de reuniões
regulares realizadas nas escolas, que trataram
dos mesmos temas. Ao fim das atividades, os
questionários foram novamente aplicados com
O Projeto foi realizado pela Universidade
Federal do Maranhão em parceria com a Anvisa,
Organização Pan-Americana de Saúde (Opas),
Superintendência de Vigilância Sanitária do
Estado do Maranhão e Secretaria Municipal de
Educação de São Luís.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Após as atividades realizadas com os alunos,
em que foi esclarecida a importância da prática
da alimentação saudável e do uso racional
de medicamentos, foram obtidos resultados
relevantes quanto ao entendimento de práticas
adequadas de alimentação e medicação, e
obtenção de uma postura crítica acerca do que
é exposto nas propagandas.
Responderam aos questionários 138 alunos.
Quando questionados sobre o conteúdo
das propagandas de medicamentos, 23%
acreditavam que a propaganda continha
informações suficientes para a utilização de
medicamentos. Após a intervenção, apenas
10% mantiveram a mesma opinião.
No quesito relacionado à frequência com que os
alunos pedem aos pais e/ou responsáveis para
comprar alimentos que viram na propaganda,
67% relataram que não possuíam esse hábito
antes da execução das atividades. Dados
obtidos após as atividades apontam um aumento
de 23% nesse percentual, fato que demonstra
não ser a propaganda um determinante das
escolhas alimentares. Resultados contrários
foram descritos por Miotto e Oliveira (2006), os
quais relataram forte influência da propaganda
no desejo de consumo de alimentos, revelando
ainda que a maior parte das mães das crianças
estudadas atendia, sempre que possível, ao
pedido de seus filhos.
Na análise dos hábitos alimentares foram
incluídas opções de alimentos nutritivos como
frutas e sucos naturais, além de alimentos ricos
em gordura, açúcar e sódio como refrigerantes,
salgadinhos, doces e biscoitos recheados. Do
total de alunos, 39% declararam consumir
frutas e sucos naturais, enquanto os outros 61%
preferem as opções menos saudáveis. Ao final
das atividades, observou-se aumento de 35% no
consumo de frutas e sucos naturais e redução
para 26% na preferência por refrigerantes e
alimentos afins (Figura 1).
Figura 1- Alimentos mais consumidos relatados pelos alunos.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 61
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
a finalidade de avaliar o impacto do projeto na
percepção de pais e alunos sobre os assuntos
abordados.
Resultados semelhantes foram encontrados por
Fernandes et al. (2009) em estudo realizado
com escolares do ensino fundamental de duas
instituições de Florianópolis, no Estado de Santa
Catarina. A melhora na qualidade nutricional,
vista a partir do consumo alimentar após
intervenção educacional, também foi descrita
por Sahota et al. (2001) e Gabriel et al. (2008).
Sobre a escolha do lanche na escola, em casa
ou em passeios, 28% atribuíram sua escolha
à orientação dos pais e/ou responsáveis,
enquanto 7% a relacionaram ao que viram
na propaganda, 57% afirmaram optar por
alimentos considerados saudáveis e 8%
evidenciaram a influência dos amigos. Quando
novamente questionados sobre o mesmo
assunto, 30% relacionaram à orientação dos
pais e/ou responsáveis, houve redução de 6%
na relação da escolha à propaganda, aumento
de 10% na motivação da escolha por alimentos
saudáveis e redução de 7% na influência dos
amigos (Figura 2).
Figura 2- Fatores que influenciam a escolha de lanches na escola, em casa ou em passeios.
Miotto e Oliveira (2006), em investigação
das preferências alimentares e programas
de televisão assistidos por crianças de 7 a 10
anos matriculadas no ensino fundamental de
uma escola filantrópica no Paraná, relataram
não haver associação entre as preferências
alimentares e a mídia. Ressaltam, porém, a
necessidade da realização de mais estudos que
avaliem a influência da mídia em contraposição
aos programas de educação nutricional.
Dentre as perguntas direcionadas aos pais
(n=128), 59% afirmaram usar medicamentos
sem orientação do médico, dentista ou
farmacêutico. Após as ações, 27% disseram que
62 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
ainda cometem essa prática. Na primeira fase,
25% consideraram que a propaganda contém
informações suficientes para a utilização de
medicamentos, esse número caiu para 10%
na fase final do projeto. Do total de pais que
responderam ao primeiro questionário, 22%
declararam comprar alimentos porque os filhos
viram na propaganda. Quando novamente
questionados sobre o mesmo assunto, apenas
7% atestaram continuar com a mesma
conduta.
Pesquisa realizada em Porto Alegre, por Silva e
Giugliani (2004), investigou o hábito de consumo
de medicamentos pelos alunos e pelos demais
Em estudo realizado, Pereira et al. (2007)
encontraram que 20,1% dos casos de
automedicação entre crianças e adolescentes
ocorreram por orientação de consulta na
farmácia, fato comum no Brasil e em outros
países. Apesar de a mídia, na visão dos
entrevistados, ter contribuído com somente
1,8% da automedicação, eles consideram que
seu poder provavelmente tem sido subestimado
pelos responsáveis pela automedicação.
Quanto aos locais escolhidos para o
armazenamento de medicamentos, na fase
inicial 47% responderam ser em armários de
difícil acesso; 26% cozinha; 2% no banheiro; e
os outros 25% não guardam em local específico.
Na fase final, os resultados obtidos demonstraram
a ocorrência de importante alteração nesse
perfil, passando para 80% aqueles que guardam
medicamentos em armários de difícil acesso,
enquanto que 9% apontaram a cozinha e 3% o
banheiro como local de escolha para a guarda
de medicamentos (Figura 3).
Figura 3 - Locais de escolha dos pais para guardar medicamentos.
Ao pesquisarem sobre os locais de
armazenamento
de
medicamentos
em
domicílios de um município brasileiro,
Margonato et al. (2008) constataram que em
51,4% das residências visitadas os produtos eram
guardados na cozinha, enquanto em 33,3%
das residências o local de armazenamento
era um dos quartos. Sala e outro cômodo
qualquer perfizeram um total de 12,5%. Estes
números podem estar diretamente relacionados
à influência e determinantes nas intoxicações
medicamentosas agudas. Tourinho et al.
(2008) encontraram como principais cômodos
de guarda dos medicamentos os dormitórios
(47,5%) e, em seguida, as cozinhas (29,9%)
e os banheiros (14,6%). Em seu trabalho,
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 63
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
membros da família que residiam no mesmo
domicílio. Observou-se que mais da metade
das declarações de consumo de medicamentos
se referia ao uso sem prescrição médica. A
orientação dos pais e/ou responsáveis para o
consumo de medicamentos esteve presente em
50,8% das respostas ao inquérito, contribuindo
para a prática de automedicação em 12,3% dos
escolares estudados. Ainda no mesmo estudo,
os autores relataram percentuais elevados
no consumo de medicamentos no ambiente
familiar, demonstrando, ainda, que nas famílias
avaliadas, as mães são as maiores consumidoras
de medicamentos, seguidas pelos pais.
observou-se que a guarda de medicamentos
no banheiro pode ser um fator de risco para a
automedicação, talvez pela maior facilidade de
acesso e visualização dos produtos.
A respeito da frequência de compras de
medicamentos,
86%
dos
entrevistados
informaram
comprar
somente
quando
necessário, 10% uma vez por mês e 3% uma
vez por semana. Na fase final, 77% confirmam
a compra somente quando necessário, 16%
uma vez por mês e 7% uma vez por semana.
Em ambas as fases ninguém afirmou comprar
medicamentos todos os dias (Figura 4).
Quanto aos fatores que exercem influência na
compra de medicamentos, os dados anteriores
à realização das atividades demonstraram que
a influência dos familiares, amigos e vizinhos
corresponde a 64%; o preço equivale a 24%;
16% sofrem influência dos balconistas; e
apenas 11% são persuadidos pela propaganda.
Na análise dos dados posteriores à intervenção,
foi observada a redução de todos os percentuais
citados acima. A motivação por indicação de
familiares decaiu para 56%; a influência do
preço para 21%; do balconista para 14%, e da
propaganda para 10% (Figura 5).
Figura 4 - Frequência de compra de medicamentos em drogarias/farmácias.
Figura 5 - Fatores que exercem maior influência na compra de medicamentos.
64 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os medicamentos passaram a ser tratados
como simples produtos de consumo com visão
extremamente voltada ao lucro. As pessoas
precisam se conscientizar que a utilização
incorreta de medicamentos pode trazer
consequências irreversíveis para a saúde.
É imperativo educar a população a usar o
medicamento somente em casos de extrema
necessidade, com a indicação profissional
adequada.
Paralelo a isso, hábitos alimentares nada
saudáveis também estão sendo sustentados e
perpetuados para as gerações mais novas e, se
não forem corrigidos, resultarão em fatores de
risco para inúmeras doenças na geração futura.
A pesquisa revelou que houve apropriação,
por parte de pais e de alunos, dos conteúdos e
conhecimentos disseminados durante o trabalho.
Podem-se extrair resultados positivos do projeto
Educanvisa, realizado pela Universidade Federal
do Maranhão em parceria com a Anvisa, Opas
e Secretaria Estadual de Educação, já que foram
notadas mudanças nos hábitos alimentares dos
alunos, o surgimento de um olhar mais crítico
e reflexivo sobre as propagandas de alimentos
e medicamentos. Também foi possível perceber
maior conscientização dos pais em relação
às questões da medicação. Eles entenderam
a necessidade de ter acesso a informações
precisas e adequadas, para melhor orientar seus
filhos quanto aos perigos do uso inadequado e
indiscriminado de medicamentos.
Figura 6 - Alimentos que os pais ofertam com maior frequência aos filhos
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 65
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
No tocante à oferta de alimentos pelos pais,
a primeira fase da pesquisa revelou que dos
alimentos ofertados 37% correspondem a frutas,
15% a sucos naturais, 21% a biscoitos recheados,
17% a refrigerantes, 7% a salgadinhos e 3%
a doces, bombons, chocolates e balas, não
havendo resposta para a alternativa biscoito
maisena e cream cracker. Na fase final, houve
aumento de 22% na oferta de frutas, 10% de
sucos naturais e 3% de biscoito maisena e
cream cracker, redução em 19% na oferta de
biscoitos recheados, 10% refrigerantes, 5%
salgadinhos e 1% doces, bombons, chocolates
e balas (Figura 6).
AGRADECIMENTOS
À Universidade Federal do Maranhão, Agência
Nacional de Vigilância Sanitária, Organização
Pan-Americana de Saúde e à Secretaria
Municipal de Educação de São Luís (MA).
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CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 67
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Gerson Antônio Pianetti1; Beatriz Oliveira Carvalho2; Micheline Rosa Silveira3; Leonardo Bahia Tavares4; Luiza
Pinheiro Alves da Silva4; Luis Fernando Duarte de Carvalho4; e Antônio Basílio Pereira5.
1 - Farmacêutico, Professor Associado III do Departamento de Produtos Farmacêuticos (UFMG).
2 - Farmacêutica da Vigilância Sanitária da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais.
3 - Farmacêutica, Professora Adjunto II do Departamento de Farmácia Social (UFMG).
4 - Graduandos do Curso de Farmácia, estagiários do Projeto Monitora (UFMG).
5 - Farmacêutico, Professor Adjunto IV do Departamento de Produtos Farmacêuticos (UFMG).
INTRODUÇÃO
A história da propaganda de medicamentos se
confunde com a própria história das práticas
publicitárias no Brasil. Ao longo dos anos, os
produtos farmacêuticos sempre ocuparam um
lugar de destaque nos mais diversos meios de
comunicação (TEMPORÃO, 1986).
propagandas para médicos por parte das
indústrias estrangeiras. É importante, no entanto,
ressaltar que a indústria farmacêutica estrangeira
nunca se descuidou da propaganda dirigida
diretamente aos consumidores (TEMPORÃO,
1986).
Já no século 19, quando o principal veículo das
propagandas era o jornal, surgiram os primeiros
anúncios de medicamentos. Segundo Ramos
(1972), “Os anunciantes mais fortes são as lojas,
os hotéis e os fabricantes de remédios”.
Pode-se destacar, nesse contexto, o surgimento
de um grande anunciante regular, a Bayer,
com sucessivas campanhas, todas compostas
de muitas peças, anúncios ilustrados, quase
sempre com um desenho apurado, de inegável
bom gosto. Anúncios com títulos imaginosos,
de sabor institucional, ou de um paralelismo
ingênuo, ou ainda fortemente agressivo. Séries
e mais séries para diferentes produtos (RAMOS,
1972).
Se o século 19 foi marcado pelos jornais, o
século 20 muda o tom da imprensa com o
surgimento das revistas semanais ilustradas. É
o momento das charges, sonetos e da crônica
social. No novo século assiste-se a um aumento
no volume de propagandas de medicamentos
(RAMOS, 1972).
Até a década de 20, as casas de representantes,
as importadoras e os laboratórios farmacêuticos
nacionais utilizavam as mesmas estratégias
de divulgação. A partir daí, observa-se um
processo de diferenciação entre as concepções
e práticas promocionais desenvolvidas pelas
indústrias nacionais e estrangeiras. Verifica-se
uma forte tendência em priorizar a propaganda
para o público geral por parte dos laboratórios
nacionais e, por outro lado, uma ênfase em
Em busca de mercado para seus produtos,
com a propaganda dos grandes laboratórios,
investiu-se contra o modo passado de vida,
desqualificando as práticas caseiras e artesanais
e sobrepondo-se a elas (GOMES, 2006).
Nos anos 30, o rádio tornou-se a novidade e
anúncios como o do Óleo Fígado de Bacalhau
e do Xarope São João ocupam grandes espaços
na mídia. Nesse momento, os produtos
farmacêuticos continuam constituindo a
maioria dos anúncios. É a época dos jingles e
dos spots (RAMOS, 1972). O período dominado
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 69
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
EDUCAÇÃO E INFORMAÇÃO SOBRE PRODUTOS SUJEITOS À
VIGILÂNCIA SANITÁRIA BRASILEIRA
pelo rádio durou até meados dos anos 60 e a
indústria farmacêutica contribuiu de forma
importante para a expansão desse meio e das
novas técnicas publicitárias (TEMPORÃO,
1986).
A prática da terapia indicada por leigos tornase o maior desafio sanitário brasileiro, pois
aparece a necessidade de um trabalho intenso
com a população para o entendimento de que
sua saúde é o seu maior bem.
No final da década de 70, assiste-se ao
surgimento da televisão, o mais poderoso
veículo publicitário. Os produtos anunciados
não divergem muito do que vinha sendo
anunciado nos outros veículos, mas na TV
surge um componente valorativo em detrimento
da informação. A TV possibilita, ainda,
uma ampliação significativa do alcance dos
anúncios, atingindo agora grandes contingentes
populacionais (TEMPORÃO, 1986).
Educar a sociedade é, talvez, a melhor forma de
combater a massiva propaganda indiscriminada
realizada nos meios de comunicação do país.
Tudo isso, concomitantemente, com uma
legislação e fiscalização rígidas.
A propaganda de medicamentos é uma das
mais importantes estratégias da indústria
farmacêutica no sentido de incrementar o
consumo de seus produtos (BARROS, 1995).
Ao veicular informação tendenciosa e/ou
duvidosa, esse instrumento se torna um entrave
às políticas de uso correto de medicamentos,
devendo, portanto, ser alvo de um modelo
regulador que proteja a população dos riscos
oferecidos por essas propagandas.
Com muita propriedade, Fagundes et al.
(2007) realizam uma análise bioética da
propaganda e publicidade de medicamentos
veiculadas à classe médica e concluem que
98% dos médicos entrevistados recebem visitas
regulares de representantes comerciais; 86%
recebem brindes; 68% crêem na influência
direta da propaganda sobre a prescrição;
14% prescrevem medicamentos em função
do recebimento de prêmios; e apenas 68%
acreditam existir inverdades nas informações
das peças publicitárias.
Considerando
os
resultados
fornecidos
pelos autores da análise bioética, a partir de
informações obtidas de profissionais da saúde
preparados para a prescrição de medicamentos,
uma preocupação se instala quando a mesma
influência é exercida sobre pessoas com menor
poder de discernimento sobre os benefícios e
malefícios de uso irracional de medicamentos.
70 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Uma parcela considerável da população
brasileira – constituída por crianças, idosos e
portadores de doenças crônicas – está exposta
à propaganda de medicamentos sem que ela
traga nenhum tipo de advertência quanto
ao uso desses produtos em faixas etárias
específicas e em condições especiais. Além
disso, milhões de brasileiros sequer sabem
que são portadores de agravos crônicos, sendo
motivados pela propaganda de medicamentos a
consumir produtos inadequados à sua condição
(NASCIMENTO, 2005).
O surgimento da Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa), em 1999; a
publicação de resolução específica sobre os
limites sanitários da propaganda sobre produtos
sujeitos às ações de vigilância sanitária em
2000; e a criação do Projeto de Monitoração de
Propaganda e Publicidade de Medicamentos,
em 2002, permitiram colocar em evidência o
debate acerca da regulação da propaganda de
medicamentos no Brasil.
Após a publicação da Resolução da Diretoria
Colegiada, RDC nº 102/2000, a monitoração
e a fiscalização passaram a ser realizadas
exclusivamente na sede da Anvisa, em Brasília.
A fim de superar a limitação da abrangência
dessa monitoração, no ano de 2002, a Gerência
de Fiscalização e Controle de Medicamentos e
Produtos (Gfimp) idealizou e colocou em prática
o Projeto de Monitoração da Propaganda de
Medicamentos.
O objetivo pretendido com o projeto, ao
estabelecer parceria com Instituições de
Com o Projeto, visualiza-se a aplicação de
ações técnicas e científicas de esclarecimento
aos meios de comunicação, aos comunicadores
e, especialmente, a algumas parcelas da
população nitidamente mais vulneráveis.
A Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG) insere-se no projeto em 2005, e realiza
inúmeras ações de divulgação dos resultados
entre profissionais prescritores e responsáveis
pela dispensação e, ainda, entre educadores
nos níveis de formação elementar e superior, de
forma a criar fontes multiplicadoras da ideia.
Em 2009, ações voltadas para radialistas são
desencadeadas com o intuito de trazer à tona
a discussão sobre o poder da comunicação e a
responsabilidade social que esses profissionais
possuem diante de um público carente de
informações e, de certa forma, muitas vezes
menos politizado.
No exercício dos projetos iniciais, percebeuse a necessidade de se atingir essa classe de
anunciantes devido ao “estrago” causado
pelo poder de influência sobre seus ouvintes,
usando formas agressivas de convencimento de
utilização de medicamentos, inclusive com o
uso abusivo da propaganda testemunhal.
Desprotegida como se encontra a nossa
população, a divulgação indevida e absurda
nas emissoras de rádio sobre os “benefícios” de
produtos desprovidos de qualquer comprovação
científica levam à aquisição de “remédios”
em inúmeros locais, também desprovidos de
profissionais qualificados para o atendimento e
para a dispensação farmacêutica.
Em uma ação de cascata, vários desses
estabelecimentos, onde, na prática, deveriam
ser prestados serviços sanitários, promovem
a venda geral de qualquer tipo de produto,
levando o paciente a não valorizar o produto
que irá ingerir e que, certamente, irá provocar
enorme dano em sua saúde ou em seu bolso. É
um descaso com a própria saúde.
Apesar de ter sido observada a ausência de
propaganda de medicamentos nos principais
jornais do Estado de Minas Gerais, alguns
articulistas, reconhecidamente formadores
de opinião, insistem em desinformar a
população por meio de artigos cujos títulos
por si só demonstram o grau de desinformação
e o desserviço prestado à população. Com
títulos sugestivos, tais como: “Velho versus
Novo”; “Tolices Tropicais”; “E essa, agora?”,
“Dificuldades aumentam”, Siqueira (2007,
2009 e 2010) vem utilizando espaço nobre
do jornal de maior circulação no estado para
transmitir opiniões próprias, sem o cuidado de
buscar informações com os órgãos de vigilância
sanitária e entender o enorme problema que
o uso indiscriminado de medicamentos vem
causando à saúde da população.
Verifica-se, por outro lado, a falta de cuidado
ético de jornalistas que mencionam nomes de
drogarias de sua preferência, bem como da
confiabilidade de seus serviços como se isso
fosse uma verdade absoluta, influenciando,
claramente, o leitor na escolha de um serviço
de saúde em farmácias e drogarias.
Dentre as ações com a categoria, foram
programadas visitas em emissoras de rádio,
situadas na cidade de Belo Horizonte;
distribuição de material informativo; e realização
de um encontro com a classe, pautando como
tema de debate a mídia, a saúde e a ética.
Por maior que tenham sido as ações com a
categoria, essas não surtiram o efeito esperado.
O projeto foi, então, estendido a uma camada
da sociedade em formação, na qual a mudança
de comportamento pode ser mais provável, se
bem trabalhada.
Assim, nasceu o Projeto de Educação e
Informação da Gerência Geral de Monitoramento
e Fiscalização de Propaganda, Publicidade,
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 71
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
Ensino Superior de todo o Brasil, é ampliar a
monitoração de propagandas de medicamentos,
que até então se encontrava centralizada, assim
como capilarizar a discussão do tema por meio
do ambiente acadêmico (RUBINSTEIN, 2005).
Promoção e Informação de Produtos sujeitos
à Vigilância Sanitária, da Anvisa. Esse projeto
gerou uma Carta Acordo com a Organização
Pan Americana da Saúde (Opas/OMS) e a
Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa,
instituição gestora do trabalho desenvolvido
na Faculdade de Farmácia da Universidade
Federal de Minas Gerais.
Dentre as atividades aprovadas na Carta Acordo,
estavam a realização de atividades educacionais
em escolas de ensino fundamental, médio e
alfabetização de adultos, além de elaboração,
produção e distribuição de material educativo
com informações, em linguagem acessível, sobre
uso racional de medicamentos, propaganda de
medicamentos, alimentos e outros produtos
sujeitos à vigilância sanitária.
MATERIAS E MÉTODOS
Visando atingir o público alvo, a equipe da
UFMG trabalhou no desenvolvimento e na
elaboração de uma publicação nos moldes dos
antigos “Almanaques” que eram distribuídos,
a cada início de ano, nas farmácias das
cidades. O tipo de publicação idealizada teve
como princípio fazer chegar às crianças, aos
adolescentes e aos adultos em alfabetização,
informações rápidas, de fácil memorização, e
com linguagem adequada, de forma a tornarem
mais objetivos os conhecimentos e a facilitar a
multiplicação em ambientes domésticos onde
se dão os primeiros passos da cidadania.
Outros materiais instrucionais foram trabalhados
com o objetivo de serem realizados palestras e
grupos de debate sobre os temas uso racional de
medicamentos; a saúde que temos, o SUS que
queremos; terceira idade com saúde; e vigilância
sanitária e hábitos alimentares sadios.
Considerando que a UFMG tem um vitorioso
Programa Internato Rural de Farmácia, com
alunos da graduação, voltado para atuação
sanitária em municípios de Minas Gerais,
os coordenadores treinaram 34 alunos, que
72 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
participaram do programa, em 15 municípios,
durante os meses de janeiro e fevereiro de
2009.
Além das palestras, os alunos do Internato
desenvolveram inúmeras ações objetivas de
esclarecimento à população, interligando os
temas que envolviam as propagandas, reforçando
os cuidados que se deve ter com medicamentos
e a alimentação saudável, em detrimento das
propagandas enganosas que afirmam que
medicamentos podem substituir a alimentação
adequada.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As palestras e debates ocorreram nos municípios
mineiros, que receberam os alunos do Internato,
Açucena, Arceburgo, Bela Vista de Minas,
Brás Pires, Buenópolis, Caiana, Campanário,
Congonhas do Norte, Cordisburgo, Frei Gaspar,
Jordânia, Peçanha, Pompéu, Rezende Costa e São
João Evangelista. Em Belo Horizonte, o evento
ocorreu na Escola Municipal Pedro Nava.
Crianças,
adolescentes
e
adultos
em
alfabetização receberam informações sobre
cuidados com a própria saúde. Espaços foram
proporcionados para o debate sobre até que
ponto se deve aceitar como verdade absoluta o
que é anunciado em emissoras de rádio ou na
televisão, principalmente de forma testemunhal,
cumprindo assim os objetos da dinâmica
pensada pela equipe.
Os ouvintes das palestras foram, então,
informados sobre as principais irregularidades
veiculadas pelas propagandas. Esses dados,
obtidos pelas pesquisas realizadas nas fases
anteriores do Projeto na UFMG, se referem a:
(1) indução ao uso indiscriminado (35%); (2)
omissão sobre cuidados especiais e advertências
(29%); (3) informações incompletas sobre
as contraindicações (21%); (4) sugestão de
diagnóstico (10%) e (5) omissão do número de
registro (5%), conforme registrado no Gráfico 1.
A indução ao uso indiscriminado de
medicamentos foi a principal irregularidade
constatada e é aquela que mais problemas
traz ao uso irracional de medicamentos. Não
menos importante, encontram-se a omissão
sobre cuidados e advertências e as informações
incompletas sobre as contraindicações. Um
fato grave constatado é que a maioria das peças
apresentou mais de uma irregularidade.
A receptividade e o ganho instrucional foram de
magnitude inesperada. Tanto no meio escolar
quanto nas comunidades das zonas urbanas e
rurais a participação foi acima do esperado, e
foi possível alertar, nesse meio de divulgação, a
seriedade que merece o uso de medicamentos
e a alimentação saudável.
Ao total foram mais de 60 palestras para
escolares do ensino fundamental, médio e
alfabetização de adultos e 16 treinamentos
para profissionais de saúde de nível médio
e superior. Todas as palestras foram seguidas
da distribuição comentada do Almanaque.
Todos os municípios receberam exemplares
do Almanaque, em quantidade suficiente para
a multiplicação dos temas em outros locais.
Associações comunitárias dos municípios
também foram beneficiadas com as palestras e
debates.
Dentre os temas trabalhados, os principais foram:
uso racional de medicamentos; alimentação
saudável; qualidade de vida; hipertensão;
diabetes; dentre outros.
Os locais utilizados, para tal, foram sede
da Prefeitura; da Secretaria Municipal de
Saúde; postos de saúde; igrejas e escolas. O
público maior foi o de crianças e adolescentes
seguidos por adultos e idosos, todos em
formação conceitual de níveis inicial, médio
e alfabetização. Em alguns municípios foram
registradas as presenças de profissionais de
saúde ou de autoridades locais. Palestras
para a comunidade em geral foram, também,
proferidas.
Aproximadamente 1.600 pessoas participaram
dos eventos, sendo que em torno de 350 delas
encontravam-se em uma escola municipal de
Belo Horizonte.
Os participantes responderam a um questionário
e declararam reação positiva em relação aos
temas e às formas trabalhadas, para fazer
chegar-lhes
informações
imprescindíveis
sobre os cuidados com a saúde. A distribuição
comentada do Almanaque foi o ponto
diferencial dos eventos, pois ele é atemporal
e poderá ser trabalhado e multiplicado em
ocasiões diversas.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 73
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
Gráfico 1 – Frequência de irregularidades detectadas nas propagandas de medicamentos segundo
a categoria: 1 Indução ao uso indiscriminado; 2 Omissão sobre cuidados especiais e advertências;
3 Informações incompletas sobre as contraindicações; 4 Sugestão de diagnóstico e 5 Omissão de
registro.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Estagiários bolsistas do projeto
Ao longo de três anos de trabalho e de duas
fases contribuindo com a monitoração de
propaganda de produtos sujeitos à vigilância
sanitária, o resultado obtido poderia ser melhor,
se não houvesse a insistência dos veículos de
comunicação em não reconhecerem o mal
que causam na saúde pública ao divulgarem
de forma testemunhal e inadequada o uso
indiscriminado de medicamentos.
Beatriz Oliveira Carvalho; Daniela Rezende
Garcia Junqueira; Diego Leonel da Costa
Vieira; Juliana Sousa Coelho, Leonardo Bahia
Tavares, Luis Fernando Duarte de Carvalho,
Luiza Pinheiro Alves da Silva, Marina Campos
Magalhães; (Farmácia); Otávio Marques Barbosa
Ogando; Renata Sakovitz Rangel, Rodolfo
Marques Vieira Araújo (Comunicação Social);
Fernanda Di Pietro Carvalho, Renato Silvestre
Marinho, Rosali Berto de Oliveira (Direito);
Tatiane Barroso Maciel; (Medicina); Ana Paula
Naves Barros, Anne Danielli Nascimento
Soares, Fernanda Gabrielle Silva Martins; Lucila
Pires Botelho, Patrícia Mattos Capel Moreno
(Nutrição); Eros Ramirez Miranda, Felipe
Rodrigues Tavares, Pollyana Mendes Lacerda
(Odontologia); Carlos Eduardo Fernandes Santos
(Ciências Biológicas); Écio Geovani Neto.
Há uma clara forma de desobediência por parte
da mídia e de alguns de seus profissionais e
esses não se intimidam mais, pois imaginam
possuírem um poder de comunicação além do
aspecto legal, que tem como dever proteger a
saúde da população.
A sociedade, por seu lado, começa por sentir-se
incomodada com a interferência que esse tipo
de comunicação danosa promove na educação
e na formação de crianças e adolescentes.
Exemplo disso é o artigo publicado em jornal de
grande circulação em Minas Gerais sob o título
“Pais querem limite nas propagandas” (Jornal
O Estado de Minas), o que demonstra uma
parte do efeito positivo emanado da própria
comunidade em detrimento da propaganda
enganosa, veiculada em emissoras de rádio e
televisão. As ações desenvolvidas pelo Projeto
não deixaram de ser corresponsáveis nessa
formação de opinião popular.
Observa-se, entretanto, e com perplexidade,
a perpetuação de um quadro inadmissível
de descumprimento das normas reguladoras
relativas à publicidade de medicamentos e de
desrespeito à população, considerando que
essas práticas abusivas a submetem a risco
sanitário permanente.
Entende-se que o poder público, em respeito
aos que desrespeitam a legislação, deve sim
dar-lhes tempo para se adequarem às novas
regras, as quais são amplamente debatidas com
os interessados no setor regulado. O segundo
passo que não pode ser negligenciado é a
aplicação da lei em sua totalidade.
74 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
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Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
Katy, LG Dias1, 3*; Maria R Freitas1; Diego, N Guedes1; Margareth, FFM Diniz2,3; Isac A Medeiros2, 3; Karla, VM
Cavalcante; Álvaro, LVL Brito; Ligiana, L Carvalho; Priscilla, EM Brito; Camila Gurgel; Amanda, MS Lacerda; e
Nadja A Correia1,3.
1 - Departamento de Fisiologia e Patologia. Universidade Federal da Paraíba – UFPB.
2 - Departamento de Ciências Farmacêuticas. Universidade Federal da Paraíba – UFPB.
3 - Laboratório de Tecnologia Farmacêutica Prof. Delby Fernandes de Medeiros – UFPB.
resumo
Um estudo sobre a influência das atividades
educativas sobre o uso racional de medicamentos
foi realizado numa escola municipal de ensino
fundamental em João Pessoa, como parte do
Projeto Educação e Informação, desenvolvido
pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) em parceria com a Universidade
Federal da Paraíba (UFPB), com o objetivo de
melhorar o conhecimento sobre o uso racional
de medicamentos, visando contribuir para
uma maior conscientização sobre saúde e
automedicação. Para as análises, foi utilizado
um questionário para avaliar e caracterizar o
nível de conhecimento dos professores e alunos
em relação ao uso racional de medicamentos.
O questionário foi aplicado antes e após a
realização das atividades educativas. Foi
constatado que a maioria dos participantes já
conhecia as temáticas abordadas, uma vez que
a escola onde o estudo foi realizado faz parte
do Projeto Educanvisa, também promovido pela
Anvisa junto a diversas escolas públicas de todo
o Brasil. Com o estudo foi possível perceber a
importância de atividades educativas para a
promoção do uso racional de medicamentos.
INTRODUÇÃO
Em 1985, a Conferência de Nairóbi sobre
o uso racional de medicamentos marcou o
começo de um esforço global para promover
a prescrição racional (WHO, 1987). O uso
racional de medicamentos, segundo definição
da Organização Mundial da Saúde (OMS), é
a situação na qual os pacientes recebem os
medicamentos apropriados às suas necessidades
clínicas; na dose correta; por um período de
tempo adequado; e a um custo acessível.
A automedicação e a autoprescrição constituem
práticas perigosas, cujas consequências
podem ser, entre outras: mascaramento de
uma enfermidade, retardando a assistência
médica nos casos em que realmente é
necessária; aparecimento de reações adversas;
interações medicamentosas; aumento da
resistência
a
agentes
antimicrobianos;
escolha incorreta do medicamento; e risco
de abuso e farmacodependência (HUGHES
et al., 2001). A automedicação afeta tanto os
países desenvolvidos quanto os países em
desenvolvimento, sendo que sua extensão na
América Latina vem sendo destacada (DRUG
UTILIZATION RESEARCH GROUP LATIN
AMERICA, 1997).
Segundo Barros (1995), pelo menos 35% dos
medicamentos adquiridos no Brasil são feitos
por meio da automedicação. Entretanto, se
o brasileiro tende a se automedicar, é porque
não encontra disponibilidade de serviços de
saúde mais acessíveis; precisa ficar horas em
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 77
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
ATIVIDADES EDUCATIVAS SOBRE A PROPAGANDA E O USO
RACIONAL DE MEDICAMENTOS PARA ALUNOS DO ENSINO
FUNDAMENTAL DE ESCOLA PÚBLICA DE JOÃO PESSOA (PB)
uma fila; e, às vezes, espera dias e até meses
para ser atendido por um médico (AQUINO,
2008). Além disso, o baixo poder aquisitivo
da população e a precariedade dos serviços de
saúde contrastam com a facilidade de se obter
medicamentos, sem pagamento de consulta
e sem receita médica, em qualquer farmácia,
onde, não raro, se encontra o estímulo do
balconista, interessado em ganhar uma comissão
pela venda (BARROS, 1997).
O consumo elevado de medicamentos de forma
inadequada tem sido observado, também, entre
as camadas mais privilegiadas da sociedade,
uma vez que essa prática se dá pela herança
cultural – sem qualquer base racional – , pela
facilidade de acesso, além de outros aspectos
(AQUINO, 2008). Some-se a isso, a promoção
de medicamentos nos meios de comunicação
de massa, influenciando no conhecimento e nas
atitudes das pessoas em relação aos fármacos,
o que resulta em um consumo crescente
de medicamento como uma forma fácil de
resolver os problemas de saúde e promover
o uso irracional de medicamentos (LAING et
al., 2001). Diante do exposto, o objetivo do
presente projeto foi disseminar informações e
conhecimentos sobre saúde, medicamentos
e automedicação para crianças de escola de
nível fundamental, visando contribuir para a
promoção do uso racional de medicamentos.
Neste contexto, foram avaliados os efeitos de
intervenções educativas na promoção de uso
racional de medicamentos.
MATERIAIS E MÉTODOS
Participaram do projeto 60 estudantes do ensino
fundamental, de ambos os sexos, na faixa etária
de 4 a 10 anos, e sete professores da escola
municipal Agostinho Fonseca Neto, localizada
na cidade de João Pessoa (PB). Esta escola foi
selecionada porque já vem participando do
projeto Educanvisa: Educação em Vigilância
Sanitária, promovido pela Anvisa.
As atividades educativas foram realizadas com
a permissão e a colaboração da direção da
escola, consistindo em um dia escolar, nos dois
turnos: manhã e tarde. As atividades – realizadas
78 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
em cada um dos turnos – ocorreram em três
etapas: leitura prévia de uma cartilha elaborada
pela equipe do projeto junto com os professores
da escola; uma peça teatral apresentada pelos
alunos de graduação da UFPB que participam
do Projeto Educação e Informação, abordando
os mesmos temas da cartilha; e, por fim, um
jogo de trilha (Trilha da Saúde) com perguntas
relacionadas às atividades anteriormente
descritas. As atividades foram realizadas
utilizando uma linguagem clara e simples.
O instrumento de coleta de dados consistiu
em um questionário preenchido antes e após a
realização das atividades educativas, aplicados
aos professores e aos alunos, com o intuito de
avaliar e caracterizar o nível de conhecimento
dos mesmos em relação ao uso racional de
medicamentos. Com o intuito de verificar se
as atividades educativas resultaram em um
aumento no conhecimento do grupo sobre
os assuntos abordados, foram comparadas as
respostas obtidas antes e após a realização das
intervenções educativas.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As intervenções educativas para promover
o uso racional de medicamentos junto à
população ainda são escassas. Com base
nisso, este trabalho destaca a relevância das
atividades educativas direcionadas aos alunos
do ensino fundamental relacionadas ao referido
tema. Após a realização das atividades, foram
observadas diferenças acerca do conhecimento
sobre o uso racional de medicamentos e estes
resultados são interessantes, pois demonstram
uma mudança de concepção das crianças em
relação aos medicamentos.
As duas primeiras questões da tabela 1
mostram que, após a realização das atividades
educativas, 100% das crianças passaram a
achar que não podem usar medicamentos sem
a orientação do médico, do farmacêutico ou
do dentista como também que não podem usálos sem o conhecimento dos pais. Observouse, também, após a realização das tarefas,
uma redução no percentual de crianças que
consideram que a propaganda contém todas
atitudes em crianças no que se refere ao uso
racional de medicamentos, por meio de
atividades educativas. Além disso, esse é um
público que pode contribuir na educação
de seus familiares, elevando o número de
consumidores informados acerca da influência
das propagandas no consumo inadequado de
produtos farmacêuticos.
Tabela 1. Questionário utilizado no presente estudo e as resposta dos alunos do ensino fundamental
antes e após a realização das atividades educativas, entre parênteses os percentuais correspondentes
a cada resposta.
Questionário Alunos
Respostas
Antes
Perguntas
Após
SIM
NÃO
SIM
NÃO
1- Quantos alunos acham que podem usar medicamentos sem orientação de médico, dentista ou farmacêutico?
4,9%
95,1%
0%
100%
2- Quantos alunos acham que podem tomar medicamento sem o conhecimento dos pais ou responsáveis?
6,6,%
93,4%
0%
100%
3- Quantos alunos consideram que a propaganda contém todas as informações que o consumidor deve saber
antes de utilizar um medicamento?
18,1%
81,9%
12,5%
87,5%
4- Quantos alunos acham correto pedir aos pais e/ou
responsáveis para comprar medicamentos que viram em
propagandas?
14,8 %
85,2%
7,2%
92,8%
5- Quantos alunos acham que devem pedir aos pais e/
ou responsáveis para comprar alimentos que viram em
propagandas?
36,1%
63,9%
5,4%
94,6%
Infelizmente, as intervenções educativas para
promover o uso racional de medicamentos
junto à população ainda são escassas
(LAING et al., 2001). Mas alguns trabalhos
já demonstram a eficácia de determinados
métodos de intervenção educacional em
casos específicos, como no tratamento da
diarréia aguda na Indonésia (SANTOSO,
1996). Também foi observado que atividades
educativas direcionadas às crianças de uma
escola secundária no Equador resultaram em
um aumento no nível de conhecimento para
o uso apropriado de medicamentos, e que esta
modificação no conhecimento e nas atitudes
durou um ano, sugerindo também que se estas
atividades forem reforçadas provavelmente
contribuirão para efeitos mais duradouros
(SANTOSO, 1996).
Na tabela 2 pode-se observar que, após a
realização das intervenções educativas, houve
uma redução no percentual de professores
que acreditam que podem usar medicamentos
sem orientação do médico, do dentista ou
do farmacêutico de 33,3% para 16,7%. Um
resultado que se percebe positivo neste estudo
foi que, tanto antes quanto após a realização
das atividades, 100% dos professores não
acharam seguro usar medicamentos de uso
prolongado/contínuo sem orientação do
médico ou do dentista. Esse resultado pode
ser explicado porque a escola já participa do
Projeto Educanvisa, o que reforça os resultados
de outros estudos que demonstram que o reforço
das intervenções educativas pode contribuir
para efeitos mais duradouros (MALDONADO,
2006). Em relação ao uso de medicamentos
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 79
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
as informações que o consumidor deve saber
antes de utilizar um medicamento, de 18,1%
para 12,5%. Identificou-se, ainda, uma redução
no percentual de crianças que acham correto
pedir aos pais e/ou responsáveis para comprar
medicamentos ou alimentos que viram em
propagandas, de 14,8% para 7,2% e de 36,1%
para 5,4%, respectivamente. Estes resultados
indicam que é possível obter mudanças de
sem receita médica ou sem orientação de
um farmacêutico, contribuindo para piorar
a doença, foi observada uma redução no
percentual de professores de 100% para 83,3%
que reconhecem que este tipo de uso pode
agravar a doença. As pessoas devem ser alertadas
para o fato de que a automedicação pode ter
consequências perigosas como: aumento do risco
de reações adversas e mascaramento ou piora
da doença existente (DANHIER et al., 1991).
Após a realização das atividades educativas,
100% dos professores reconheceram que não
tinham o hábito de guardar os medicamentos
em locais específicos. Este resultado pode
Tabela 2. Questionário utilizado no presente estudo e as resposta dos professores do ensino fundamental
antes e após a realização das atividades educativas, entre parênteses os percentuais correspondentes
a cada resposta.
Questionário PROFESSOR
Respostas
Antes
Após
Perguntas
SIM
NÃO
SIM
NÃO
1- Você acha que pode
usar medicamentos sem
orientação de médico,
dentista ou farmacêutico?
33,3%
66,7%
16,7%
83,3%
2- Você acha seguro usar
medicamentos de uso
prolongado/contínuo sem
orientação do médico ou
dentista?
0%
100%
0%
100%
100%
0%
83,3%
16,7%
3- Você acha que o uso
de medicamentos sem
receita médica ou sem
orientação de um farmacêutico pode piorar
sua doença?
4- Onde você costuma
guardar os medicamentos
em casa?
a - Cozinha
antes
após
70 %
0%
b-Banheiro
antes
após
10%
0%
c-Armário
antes
após
20%
0%
d- Qualquer
antes
após
0%
100%
Todos os dias
antes
após
0%
0%
1 vez p/semana
antes
após
0%
0%
1 vez p/mês
antes
após
0%
0%
Qd necessário
antes
após
100 % 100%
6- Você considera que
a propaganda contém
todas as informações que
o consumidor deve saber
antes de utilizar um medicamento?
11,1%
88,9 %
0%
100%
7- Você costuma comprar
medicamentos que vê na
propaganda?
0%
100%
0%
100%
5- Quando você
considera necessário
comprar medicamentos
na drogaria/farmácia?
8- O que mais lhe
influencia na compra de
um medicamento?
a - Propaganda
b - Preço
antes após
antes após
22,2 % 16,7% 11,1% 66,6%
80 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
c - Balconista
d - Indcações
antes
após
antes
após
33,3%
16,7% 33,3%
0%
Um resultado positivo deste estudo foi
que, antes e após a relação das atividades
educativas, 100% dos professores acham que
só devem comprar medicamentos na drogaria/
farmácia quando necessário. Sabe-se que a
propaganda de medicamentos influencia o uso
irracional desses produtos, visto que tanto pode
ser veiculada com informações incompletas e
infundadas como também pode induzir falsas
expectativas em relação ao valor terapêutico do
medicamento (DANHIER et al., 1991).
fatores, que tiveram uma redução em relação
ao percentual de respostas como: a propaganda
(de 22,2% para 16,7 %), o balconista de (33,3
% para 16,7%) e a indicação de terceiros (de
33,3 % para 0 %).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Estes resultados mostram que as atividades
educativas desenvolvidas com crianças e
adultos influenciam de forma positiva nas
atitudes para o uso racional de medicamentos
e que estas devem ser atividades permanentes,
com o objetivo de intensificar e melhorar os
conhecimentos adquiridos.
AGRADECIMENTOS
À Direção e aos professores da Escola Municipal
Agostinho Fonseca Neto, à Eriomilza Estrela
de Lacerda da Secretaria de Educação de João
Pessoa e à Anvisa, pelo apoio financeiro.
Face ao exposto, avaliamos se os professores
consideram que a propaganda contém todas as
informações que o consumidor deve saber antes
de utilizar um medicamento, constatando-se
uma redução no percentual de professores de
11,1 % para 0% que acham que a propaganda
contém todas as informações que o consumidor
deve saber antes de utilizar um medicamento.
Outro resultado positivo deste estudo foi que,
tanto antes quanto após a realização das
atividades educativas, 100% dos professores
não costumavam comprar medicamentos
que viam na propaganda. No entanto, após a
realização das intervenções educativas, houve
um aumento no percentual de professores
de 11,1% para 66,6 % que acreditam que o
preço é o fator que mais influencia na compra
de um medicamento em relação aos demais
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 81
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
estar relacionado às informações transmitidas
durante a apresentação da peça e do jogo
de trilha, que enfatizaram os locais onde os
medicamentos não devem ser armazenados,
como cozinha e banheiro, que representam
ambientes quentes e úmidos, respectivamente.
Nota-se, ainda, que antes das atividades havia
um percentual razoável que achava adequado
guardar os medicamentos na cozinha (70%), no
banheiro (10%) e nos armários (20%), mas, após
as atividades, 100% dos professores afirmaram
que devem guardar os medicamentos em locais
apropriados, pois quando não são guardados
nestes locais, os medicamentos representam
fonte de risco, principalmente os que têm uma
estreita margem terapêutica, os que estão fora do
prazo de validade, ou os que estão ao alcance
de crianças (DRUG UTILIZATION RESEARCH
GROUP LATIN AMERICA, 1997).
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Rational Use of Drugs. Report of a conference
of experts, Nairobi, p.25–29, November 1985.
Geneva: World Health Organization, 1987.
Universidade Federal do Piauí (UFPI)
Elenita Maria Dias de Sousa Aguiar1; Emanuelle Agda Ferreira de Sousa 2
1 - Graduada em Licenciatura Plena em Pedagogia, especialista em avaliação educacional; mestre em Educação
brasileira. Universidade Estadual do Piauí – UESPI.
2 - Graduada em Licenciatura Plena em Pedagogia. Universidade Federal do Piauí – UFPI.
resumo
A saúde é um tema constantemente debatido
e aperfeiçoado. Considerada como requisito
básico para uma vida plena, constitui-se em
assunto de amplitude ímpar, que pode e deve
ser trabalhado e discutido desde os primeiros
passos até a terceira idade. Tendo em mente
que “a informação e a educação são formas
de despertar o interesse e o conhecimento
da população sobre os temas relativos à
vigilância sanitária, além de funcionarem
como ferramentas facilitadoras na prevenção
de riscos”, a Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) idealizou o Projeto Educação
e Informação em Vigilância Sanitária. O projeto
tem como mote desenvolver ações educativas
em escolas de ensino fundamental e médio,
a partir da temática Saúde, de maneira a
contribuir com o nível de conscientização dos
sujeitos em relação a esse assunto, levando em
conta o fator multiplicador representado pelas
crianças e a contribuição da escola quanto à
sua função social. Este artigo visa apresentar
resultados obtidos por meio de trabalhos de
promoção da saúde com alunos do ensino
fundamental e médio de escolas públicas da
capital piauiense.
INTRODUÇÃO
Considerada um dos requisitos básicos para
uma vida plena, a saúde acarreta muito mais
do que apenas um conceito, uma ideia ou
um sentimento. Qualquer pessoa indagada
a respeito de sua definição saberá responder
prontamente a essa pergunta, levando em conta
uma opinião de cunho pessoal e que, apesar
disso, não poderá ser tida como incorreta. O
conceito de saúde foi sendo formulado ao longo
dos anos à luz dos ideais da época, e, até hoje,
suscita discussões e novas concepções. Segundo
a Organização Mundial de Saúde (OMS), em
sua carta de princípios, de 7 de abril de 1948
(desde então o Dia Mundial da Saúde), “saúde
é o estado do mais completo bem-estar físico,
mental e social e não apenas a ausência de
enfermidade” (OMS, 1948). A amplitude desse
conceito acarretou críticas, dentre as quais a de
que a saúde seria algo inatingível.
Evitando versar sobre definições, a Constituição
Federal de 1988, artigo 196, definiu que a
saúde é direito de todos e dever do Estado
e este direito deve ser garantido mediante
políticas sociais e econômicas que visem
à redução do risco de doença e de outros
agravos, além do acesso universal e igualitário
às ações e serviços para a promoção, proteção
e recuperação. O artigo 3º da Lei Orgânica da
Saúde (nº 8.080/90) define ainda como fatores
determinantes e condicionantes da saúde, entre
outros a alimentação, a moradia, o saneamento
básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a
educação, o transporte, o lazer e o acesso aos
bens e serviços essenciais (BRASIL, 1990).
Desde então, muitos foram os órgãos criados
a fim de assegurar e fiscalizar o direito de
todos. Em nível nacional, o exemplo maior foi
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 85
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
A PROMOÇÃO DA SAÚDE NA ESCOLA
a criação em 1999, sob regime de autarquia
especial, da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa). Vinculada ao Ministério da
Saúde, a finalidade institucional da Agência é
“promover a proteção da saúde da população
por intermédio do controle sanitário da
produção e da comercialização de produtos
e serviços submetidos à vigilância sanitária,
inclusive dos ambientes, dos processos, dos
insumos e das tecnologias a eles relacionados”
(BRASIL, 1999).
Tendo em mente que “a informação e a
educação são formas de despertar o interesse
e o conhecimento da população sobre os
temas relativos à vigilância sanitária, além de
funcionarem como ferramentas facilitadoras na
prevenção de riscos” (BRASIL, 2007), a Anvisa
idealizou o Projeto Educação e Informação
em Vigilância Sanitária, como sendo a quarta
fase do Projeto de Monitoração de Produtos
Sujeitos à Vigilância Sanitária. O projeto tem
como mote desenvolver ações educativas em
escolas de ensino fundamental e médio, a partir
da temática saúde, de maneira a contribuir com
o nível de conscientização dos sujeitos sobre
esse assunto.
A Universidade Federal do Piauí (UFPI),
uma das Instituições de Ensino Superior
parceiras da Agência, desenvolve, desde
2004, ações educacionais supervisionadas
pela Anvisa, que possam trazer melhorias em
nível nacional e, principalmente, regional no
que se refere à fiscalização e à promoção da
saúde. Nesse intuito, o grupo multidisciplinar
de colaboradores da UFPI aderiu ao Projeto
Educação e Informação, passando a desenvolver
a abordagem da temática saúde em turmas de
ensino fundamental da Rede Municipal de
Ensino e em escolas públicas do Estado com
alunos do ensino médio.
Importância da promoção da saúde em
educação
O tema saúde constitui-se preocupação de
órgãos governamentais. Muitas iniciativas
(campanhas, propagandas, fiscalização, projetos
etc.) são desenvolvidas no sentido de contribuir
com a prevenção e o controle de doenças ou
agravos que coloquem em risco a saúde dos
cidadãos. Entretanto, é possível observar que
a saúde pública do nosso país não pode ser
apresentada como exemplo de saúde eficaz.
Casate e Correia (2005) preconizam que é
preciso pensar “a valorização da saúde”, como
direito do cidadão. Nesse sentido, é possível
desenvolver nos indivíduos a valorização
tanto de sua própria saúde quanto da saúde
do outro, o que passa a ser mais significativo
na cotidianidade de cada um, visto que é na
possibilidade de resgate do humano, naquilo
que lhe é próprio, que pode residir a intenção
de humanizar o fazer em saúde (CASATE e
CORREIA, 2005).
Faz-se urgente a discussão sobre a inclusão da
temática saúde no ambiente escolar, não apenas
como um tema transversal1, mas, a nosso ver,
como disciplina curricular a ser desenvolvida,
praticada e observada no dia a dia da formação
do sujeito.
Uma das formas mais promissoras para iniciar,
adotar e disseminar comportamentos saudáveis
é a educação em saúde, desenvolvida de forma
organizada em escolas e instâncias educacionais
(família, igreja, comunidade etc.). Por meio
dela, é possível promover discussões e reflexões
que permitam ao indivíduo atentar-se para os
atos que, de alguma forma, sejam prejudiciais à
saúde, além de incentivar a adoção de hábitos
de vida mais saudáveis.
Nesse contexto, o trabalho escolar constituise matéria de relevância, por ser a escola
um espaço privilegiado no que se refere à
1 Os temas transversais dos novos parâmetros curriculares incluem Ética, Meio ambiente, Saúde, Pluralidade cultural e
Orientação sexual. Eles expressam conceitos e valores fundamentais à democracia e à cidadania e correspondem a questões
importantes e urgentes para a sociedade brasileira de hoje, presentes sob várias formas na vida cotidiana. São amplos o bastante
para traduzir preocupações de todo País, são questões em debate na sociedade através dos quais, o dissenso, o confronto de
opiniões se coloca.
86 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
De acordo com Silva e Fracolli (2009), a escola
é um dos locais privilegiados para promover
ações de educação em saúde. Destacam,
ainda, que a Organização Mundial da Saúde
(OMS) e outras instituições como a Unesco
recomendam que a saúde se deva aprender nos
estabelecimentos de ensino concomitante com
as demais ciências sociais.
Hábitos saudáveis são aprendizagens que
devem ser propiciadas pela escola, paralelas aos
demais conhecimentos a serem contemplados
e vivenciados pelos alunos, que visam dar
condições de enfrentamento à vida fora dos
muros da escola. Ao adquirir conhecimentos
e hábitos de saúde, aos alunos será permitido
alcançar o maior grau possível de saúde física,
mental e social (SILVA e FRACOLLI, 2009 apud
SANMARTI, 1988). Conforme Silva e Fracolli
(2009), a saúde, entendida como um produto
social, implica
(...) a construção social de uma nova prática
sanitária, denominada vigilância da saúde que é
conceituada como uma forma de resposta social
organizada aos problemas de saúde, referenciada
pelo conceito positivo de saúde e pelo paradigma
da produção social da saúde que organiza
os processos de trabalho em saúde mediante
operações intersetoriais, articuladas por diferentes
estratégias de intervenção.
Assim, a vigilância da saúde, em consonância
com este novo paradigma, se apresenta como
ferramenta que visa fomentar a produção social
da saúde.
A saúde, sob a perspectiva desse novo paradigma,
se apresenta como um ato de responsabilidade
de cada cidadão. O que nos remete a inferir que
o direito à saúde, estabelecido pela Constituição,
é parte importante dessa construção, mas
o desenvolvimento de conscientização e
responsabilização quanto aos cuidados com
a saúde não parte de simples inferência, mas
da concretude da realidade vivida pelos
cidadãos no seu dia a dia. As realidades
sociais demandam políticas que visem sanar os
problemas de saúde, o que não significa dizer
da não contribuição de cada cidadão quanto
aos cuidados com a sua saúde e do coletivo
que o rodeia. Conforme Guizardi e Pinheiro
(2008), a construção política do direito à saúde
tem base nos “sentidos” do que entendemos
e vivemos como “saúde”, do que vivemos e
entendemos como “direito”.
MATERIAIS E MÉTODOS
Trata-se de um relato de experiências quanto a
práticas curriculares envolvendo o tema saúde,
realizado por alunos de graduação da UFPI que
participam do Projeto Educação e Informação,
tendo como colaboradores e executores os
professores/gestores de escolas públicas de
Teresina (PI).
A escolha das escolas foi baseada em feedback
recebido por parte dos professores a partir de
palestras explicativas prévias, onde o papel da
Anvisa e os objetivos do Projeto Educação e
Informação foram devidamente especificados
e ilustrados a alguns gestores e/ou professores,
elemento esse considerado significativo à
aceitação quanto ao desenvolvimento do
projeto. Definiram-se como campo de trabalho
quatro escolas públicas da cidade de Teresina:
uma escola municipal da zona sudeste; uma
escola municipal da zona norte; e duas escolas
estaduais da zona leste. Nas escolas municipais,
escolheu-se uma turma de alunos de 3º ano do
ensino fundamental e uma turma de alunos
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 87
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
educação e ao desenvolvimento da sua função
social, onde a capacidade de conhecimento e
trato das informações devem se voltar para o
bem da coletividade – relação essa que pode
ser percebida nos quatro pilares da Educação,
baseado no Relatório para a Unesco da Comissão
Internacional sobre Educação para o século 21,
coordenada por Jacques Delors. A discussão
dos “quatro pilares” propõe uma educação
direcionada para os quatro tipos fundamentais
de educação: “aprender a conhecer, aprender a
fazer, aprender a viver com os outros e aprender
a ser”. Visto que quando tratamos de “aprender
a conhecer” devemos desenvolver o “aprender
a fazer”, devemos perceber que “o fazer” tornarse-á valioso se e, somente se, desenvolvermos a
capacidade de “aprender a conviver”, para daí
descobrirmos quem somos, pois “aprendemos
a ser”.
de 4º ano do ensino fundamental. Nas escolas
estaduais optou-se por alunos do ensino médio.
A decisão por qual nível abordar foi tomada
levando em consideração a faixa etária dos
alunos, de forma que tanto estudantes do ensino
fundamental quanto do ensino médio fossem
partícipes. A realização do projeto ocorreu
durante o período de setembro a novembro de
2009.
Os sujeitos diretamente envolvidos com as ações
do projeto foram os gestores, os (as) professores
(as) e alunos (as) das escolas anteriormente
descritas. Eles serão identificados, neste
trabalho, pela letra inicial de suas atribuições,
tendo ainda um número de referência que
os distinguirá dos demais sujeitos. Para
identificação das escolas utilizar-se-á a seguinte
especificação: E.M.E.F. 3, sempre que referirse a Escola Municipal de Ensino Fundamental
onde o trabalho foi realizado com alunos do 3º
ano; E.M.E.F. 4, sempre que referir-se a Escola
Municipal de Ensino Fundamental onde o
trabalho foi realizado com alunos do 4º ano;
U.E. 1 e U.E. 2 quando referir-se às escolas de
Ensino Médio.
Durante dois meses, numa frequência de duas
a três vezes por semana, os alunos dos cursos
de Pedagogia, Jornalismo, Nutrição e Farmácia,
envolvidos no Projeto Educação e Informação,
participaram da rotina das salas de aula do
ensino fundamental, ao mesmo tempo em
que alunos de Jornalismo, Direito e Nutrição
ministravam palestras em escolas estaduais.
As atividades desenvolvidas foram registradas
por meio de fotos, filmagens, escritos, gravações,
além da produção de materiais educativos, de
forma que possam ser utilizados pela própria
escola, Instituição de Ensino Superior (IES) e/ ou
Anvisa como elementos de trabalho em salas
de aula e na divulgação de ações educativas do
Projeto Educação e Informação.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Durante dois meses a equipe do projeto
participou da rotina da sala de aula nas escolas
de ensino fundamental; e foram realizadas
88 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
palestras sistemáticas em escolas do ensino
médio. Diversas atividades foram empreendidas
no sentido de intensificar a temática saúde,
priorizando-se o trabalho no que se refere à
alimentação saudável e ao uso racional de
medicamentos, incentivando a inserção desses
assuntos no currículo escolar.
As atividades propostas apresentaram sempre
um caráter interdisciplinar, ora abordadas
na disciplina de Língua Portuguesa, ora em
Matemática, Ciências, Artes e/ou outras. No
caso do ensino fundamental, contamos com a
valiosa colaboração dos professores titulares das
turmas, que firmaram parceria com os alunos
do Projeto Educação e Informação no sentido
de estarem dispostos a desenvolver atividades
sugeridas, bem como dar continuidade em sala
de aula ao trabalho iniciado e direcionado à
temática saúde.
Para dar início aos trabalhos, foi realizada uma
reunião nas escolas com os gestores e professores
com o intuito de fazê-los conhecer os objetivos
do projeto e torná-los cientes das ações a serem
desenvolvidas, no sentido de despertar nesses
profissionais o interesse e a motivação para
inserir-se no projeto como colaboradores das
ações pensadas.
A partir daí, adentrou-se no campo de atuação
especificado: sala de aula, propriamente dita,
para alunos do ensino fundamental; e escolas, de
maneira geral, em se tratando do ensino médio.
No que se refere à sala de aula, realizaram-se
várias atividades que buscavam aprofundar a
temática da saúde sob a ótica da alimentação
saudável, uso de medicamentos etc., de forma
que pouco a pouco os professores passassem a
discutir com seus alunos, integrando o tema às
diversas áreas do currículo.
Os alunos envolveram-se com a temática,
demonstrando
interesse,
curiosidade
e
vontade de conhecer. A participação desses
nas atividades planejadas foi registrada com
o propósito de produzir materiais educativos
que possam ser divulgados, difundidos e
utilizados por outras escolas, comunidades e,
principalmente, no sentido de que cada uma
ficaram conhecendo melhor os medicamentos
principalmente por meio de suas tarjas e
embalagens, utilização correta, distinção entre
remédios / medicamentos, bem como práticas
saudáveis de preservar a saúde. Este aspecto se
faz bastante relevante, visto que as informações
podem gerar práticas conscientes quanto aos
cuidados com medicamentos.
São apresentadas, abaixo, algumas práticas
desenvolvidas nas escolas de ensino
fundamental, seguidas de produções dos
alunos.
Nas escolas de ensino médio, foram selecionados
alunos do turno da noite, sendo que, na U.E.
1, foram realizadas duas palestras no pátio da
escola, com o intuito de que houvesse maior
participação de professores e alunos. A primeira
palestra enfocou o tema “Alimentação Saudável”
e a segunda os temas “Medicamentos” e “Uso
racional de medicamentos”.
• Disposição de 17 palavras diretamente
relacionadas com o tema saúde e 17
palavras não relacionadas, com o objetivo
de que as crianças construíssem painéis a
partir dessa diferenciação (E.M.E.F. 4).
• Construção de acróstico (E.M.E.F. 3) com a
palavra “SAÚDE”.
• Produção textual (E.M.E.F. 4) após conversa
da professora sobre a questão da saúde,
com apoio dos painéis confeccionados
pelos alunos .
Outras atividades foram desenvolvidas com os
alunos do ensino fundamental, dentre estas:
confecção de cartazes; desenhos livres que
representassem atitudes saudáveis; bingo da
saúde; colagem de adesivos associados ao tema
saúde, envolvendo alimentação e propaganda
(EM.E.F. 3); Jogo da saúde (alimentação e
propaganda); produção de jogral; descobrindo
significados de palavras; palestra com aluna
do curso de Nutrição (UFPI) sobre alimentação
saudável e uso racional de medicamento;
escrita e reescrita de textos que culminaram em
um livro; dentre outras.
Após a realização das atividades com a
colaboração das professoras, estabeleciase momento para socialização das ideias
trabalhadas, de forma a promover um diálogo
interativo com as crianças, ouvir seus relatos,
momento esse de acréscimo de informações
sobre a saúde e os cuidados para mantê-la.
As palestras tiveram duração de 30 a 40 minutos.
Durante esses eventos, os alunos tiveram
oportunidade de sanar dúvidas, bem como
houve a aplicação de um questionário, antes
e após as palestras, envolvendo informações
sobre “uso de medicamentos”, com o objetivo
de perceber o nível de compreensão quanto aos
temas apresentados.
Na U.E. 2 também foram realizados dois
dias de palestras, com um diferencial: essas
aconteceram na sala de aula, enquanto as
anteriores ocorreram no pátio. A primeira
palestra (2º ano) versou sobre “Propaganda
de alimentos” e “Medicamentos”, enquanto
a segunda (3º ano) focou o “Uso racional
de medicamentos” e “Propaganda de
Medicamentos”. A seguir apresenta-se gráfico
obtido a partir dos resultados dos questionários
aplicados antes e após realização de palestras.
Nas legendas estão especificados como Q1
para o questionário aplicado no início das
palestras, e Q2 para o questionário aplicado ao
final da palestra. A seguir, apresenta-se o roteiro
de questões a que os alunos foram submetidos,
com a proposição de manifestarem-se quanto a
cada uma delas como certo ou errado.
No que concerne ao tema medicamentos, os
registros permitiram perceber que os alunos
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 89
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
dessas crianças possa ser multiplicadora de
informações que contribuam com a saúde dos
sujeitos na sociedade. Conforme preconizado
pela Anvisa, a informação e a educação criam
as devidas condições de despertar o interesse
e o conhecimento da população sobre os
temas relativos à saúde, contribuindo com a
prevenção de riscos.
Roteiro de questões
1. AS PROPAGANDAS DE MEDICAMENTOS DEVEM CONTER AS CONTRAINDICAÇÕES.
2. FITOTERÁPICOS SÃO PRODUTOS OBTIDOS DE PLANTAS MEDICINAIS.
3. A EMBALAGEM DE UM MEDICAMENTO TEM QUE TRANSMITIR TUDO O QUE POSSA
INTERESSAR SOBRE O PRODUTO, CONTRIBUINDO PARA O SEU CONHECIMENTO.
4. O USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS PODE REDUZIR O RISCO DE
APARECIMENTO DE REAÇÕES ADVERSAS.
5. MEDICAMENTOS PODEM POSSUIR FINALIDADE PROFILÁTICA.
6. A POSOLOGIA INFORMA A QUANTIDADE, QUANTAS VEZES AO DIA E POR
QUANTO TEMPO USAR UM MEDICAMENTO.
7. O NOME COMERCIAL DE UM MEDICAMENTO É O NOME QUE O LABORATÓRIO
QUE PRODUZ ESCOLHE.
8. REMÉDIO E MEDICAMENTO SÃO SINÔNIMOS.
9. MEDICAMENTO COM TARJA VERMELHA SÓ PODE SER VENDIDO MEDIANTE RECEITA
MÉDICA.
10. A AUTOMEDICAÇÃO PODE AGRAVAR O PROBLEMA DE SAÚDE.
11. VIA DE ADMINISTRAÇÃO DE UM MEDICAMENTO É A MANEIRA COMO ELE ENTRA
EM CONTATO COM O ORGANISMO.
12. OS MEDICAMENTOS DEVEM SER ARMAZENADOS PROTEGIDOS DA LUZ, CALOR E
UMIDADE.
13. UMA COMPRESSA DE ÁGUA QUENTE PODE SER CONSIDERADA UM REMÉDIO.
14. GÉIS, CREMES E POMADAS SÃO EXEMPLOS DE FORMAS SEMI-SÓLIDAS DE
MEDICAMENTOS.
15.A PROPAGANDA DE MEDICAMENTOS INFLUENCIA O CONSUMO.
Gráfico 1. Resultados dos questionários aplicados
90 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Nesse sentido, ao observar o gráfico e proceder
à análise das demais questões, percebe-se
nitidamente que o estágio de conhecimento
inicial sobre o tema é alterado; o conhecimento
das informações, principalmente no que se
refere à temática saúde, foi acrescido de forma
qualitativa.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com o desenvolvimento de todas estas atividades
percebemos a participação efetiva dos alunos,
fazendo colocações e dando exemplos práticos
que fazem parte do cotidiano. A interação, a
troca de ideias quanto as informações recebidas
e a capacidade criadora estiveram sempre
presentes.
A realização do Projeto Educação e Informação
é muito importante, pois pode proporcionar
atitudes positivas em relação à saúde que devem
fazer parte da vida de todo ser humano. Nesse
sentido a escola e seus colaboradores podem
contribuir com a promoção da saúde através
da boa informação, o que constituirá grande
significado para a sociedade de forma geral.
A partir do desenvolvimento do projeto nas
escolas estaduais e municipais de Teresina
percebeu-se que alguns impactos podem
ser destacados e ou/ inferidos, dentre esses
destacam-se:
• Ter a escola/ sala de aula como espaço de
discussão e produção de material educativo
no que se refere ao tema saúde.
• Ampliação das informações à comunidade
extra-escolar (família, amigos), o que poderá
despertar o interesse quanto à necessidade
de maiores conhecimentos sobre o tema,
atendendo assim à perspectiva da Anvisa de
que passem a funcionar como ferramentas
facilitadoras na prevenção de riscos.
• Gerou em outras escolas o desejo de
também participar do Projeto Educação e
Informação, o que pode constituir maior
disseminação dos conceitos de saúde
e prevenção aos riscos associados ao
consumo de medicamentos e de alimentos
industrializados.
• Elevar o nível de conscientização quanto à
adoção e disseminação teórica/ prática de
comportamentos saudáveis.
Despertar a atenção de gestores, professores e
alunos quanto à necessidade de trabalho em
torno da saúde é a intenção primeira do projeto,
de forma que, a escola proporcione e estimule
a mudança de hábitos e atitudes prejudiciais
à saúde. A atuação dos atores sociais, que
constituem a comunidade escolar pode
contribuir significativamente com a formação
de cidadãos mais esclarecidos quanto à saúde,
sendo possível desenvolver atitudes de cuidado
com a sua saúde e com a saúde dos outros,
disseminando assim, práticas saudáveis a partir
da mudança de postura.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 91
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
Observou-se que 95% dos alunos já sabiam
que propagandas de medicamentos devem
apresentar as contraindicações; após as
informações, esse percentual passou para 100%.
No que se refere ao reconhecimento de que a
obtenção de produtos fitoterápicos ocorre a partir
de plantas medicinais, apenas 37% tinham essa
informação, dado esse que salta para 73% após
a palestra. As questões 3 e 10, respectivamente,
saltam de 77% de conhecimento por parte dos
alunos para 100% de informações obtidas após
a realização da palestra. A questão 8 apresentou
32% de considerações de concordância quanto
à afirmativa de que remédio e medicamentos
são sinônimos; ela caracterizou-se, dentre
as questões respondidas, como a de menor
percentual, visto que essa não é uma afirmativa
verdadeira. Vale ressaltar que “remédio” é
todo e qualquer tipo de cuidado utilizado para
curar ou aliviar doenças, sintomas, desconforto
e mal-estar, e “medicamentos” são produtos
farmacêuticos, também utilizados como
remédio, elaborados com a finalidade de
diagnosticar, prevenir, curar doenças ou aliviar
seus sintomas, sendo produzidos com rigoroso
controle técnico para atender as especificações
determinadas pelo órgão regulador. Com a
aplicação do Q2, constatou-se diferenciação
quanto às informações recebidas, pois o
percentual nessa questão aumentou para 65%.
REFERÊNCIAS
BRASIL, Ministério da Educação/ Secretaria
de Educação Fundamental. Parâmetros
Curriculares Nacionais: introdução aos
parâmetros curriculares nacionais. Brasília:
Ministério da Educação, 2001.
BRASIL. Ministério da Educação/ Secretaria
de Educação Fundamental. Parâmetros
Curriculares Nacionais: ciências naturais.
Brasília: Ministério da Educação, 2001.
BRASIL. Constituição da República Federativa
do Brasil. Brasília: DF, Senado, 1988.
CASATE, J. C.; CORRÊA, A. K. Humanização
do atendimento em saúde: conhecimento
veiculado na literatura brasileira de
enfermagem. Revista Latino-Americana de
Enfermagem, v.13, n.1, p.105-111, 2005.
GUIZARDI, F. L.; PINHEIRO, R. Novas
práticas na constituição do direito à saúde:
a experiência de um movimento fitoterápico
comunitário. Interface – comunicação, saúde e
educação, v.12, n. 24, p. 109-122, 2008.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE.
Constituição da Organização Mundial da Saúde
(OMS/WHO). Disponível em: www.fd.uc.pt/CI/
CEE/OI/OMS.htm. Acesso em: 22/12/09.
SILVA, R .M. V.; FRACOLI, L. A. A utilização de
indicadores sociais na operacionalização
do modelo de Vigilância Sanitária. Revista
da Escola de Enfermagem da USP, v.43, n.1,
2009.
92 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Luana Lenzi; Rafael Venson; Roberto Pontarolo (UFPR)
resumo
INTRODUÇÃO
Esse trabalho visou à conscientização e
educação de crianças e professores do ensino
fundamental a respeito do uso racional de
medicamentos, automedicação, alimentação
saudável e propaganda de medicamentos e
produtos controlados pela vigilância sanitária.
Uma escola municipal de ensino fundamental
de Curitiba (PR) foi escolhida para a realização
de atividades educativas e de informação sobre
os temas propostos pelo Projeto de Educação
e Informação, promovido pela Anvisa, em
parceria com a UFPR. A temática foi abordada
por meio de palestras, dinâmicas e brincadeiras
educativas, ministradas pelos bolsistas do com a
expectativa de tornar o aluno um multiplicador
desses conhecimentos. As crianças mostraramse receptivas e interessadas sobre os temas.
Demonstraram bastante conhecimento e
fizeram muitos questionamentos aos bolsistas
do Projeto. As atividades refletiram em um
impacto positivo não só para os alunos, mas
também para os professores e os familiares,
que, por intermédio do questionário aplicado,
relataram o que aprenderam com seus filhos
sobre os temas trabalhados. Os resultados
alcançados motivaram a direção pedagógica
da escola a considerar a implementação de um
projeto com mais atividades extracurriculares
relacionadas às temáticas desenvolvidas. As
crianças são bastante receptivas a temas que
dizem respeito a sua saúde e possuem uma
grande capacidade de aprendizagem. Dessa
forma, ensinar as crianças é uma importante
forma de multiplicar esse conhecimento com
os pais, os familiares e os colegas.
Dentre os inúmeros problemas de saúde pública
existentes em todo o mundo, um dos mais
sérios é o uso inadequado de medicamentos,
incluindo a automedicação irresponsável e suas
consequências, tanto do ponto de vista clínico
quanto econômico.
Várias são as razões pelas quais os indivíduos
se automedicam. A busca da solução imediata
para os problemas de saúde, muitas vezes
considerados rotineiros pelos pacientes ou
familiares, é uma delas. Outra razão é atribuída
à dificuldade de acesso à assistência médica
por grande parte da população, em especial a
de baixa renda, que depende do Sistema Único
de Saúde (SUS) e acaba substituindo o médico
ou o dentista pelo balconista da farmácia. Mas,
sem dúvida, a falta de conhecimento a respeito
da prática da medicação é fator determinante
sobre a alta prevalência da automedicação
(LENZI, 2009).
É importante que as pessoas tomem
conhecimento do que é o uso racional de
medicamentos e a automedicação responsável.
Segundo a Organização Mundial da Saúde
(OMS), o uso racional de medicamentos é
definido como a situação na qual os pacientes
recebem os medicamentos apropriados às suas
necessidades clínicas, na dose correta, por
um período de tempo adequado e a um custo
acessível (BRASIL, 2008).
Já a automedicação é, por definição, uma prática
que consiste no autodiagnóstico do problema
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 95
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
ATIVIDADE EDUCATIVA SOBRE AUTOMEDICAÇÃO E ALIMENTAÇÃO
SAUDÁVEL COM CRIANÇAS DE ENSINO FUNDAMENTAL EM ESCOLA
MUNICIPAL DE CURITIBA (PR) E SEU IMPACTO
de saúde por parte do paciente, seguido do
uso do medicamento sem prescrição médica
ou indicação farmacêutica. Certas classes de
medicamentos – os chamados medicamentos
de venda livre -, que são para tratar problemas
menores de saúde, podem ser indicadas pelo
farmacêutico sem necessidade da intervenção
de um prescritor. Esse tipo de automedicação
é a chamada automedicação responsável
(BRASIL, 2008).
Devido a essas práticas, os medicamentos
têm sido um dos principais causadores de
intoxicações no país. A utilização indiscriminada
e muitas vezes desnecessária desses produtos
pela população cria a necessidade de
informar e alertar as pessoas sobre os riscos e
os cuidados que se deve ter na utilização de
medicamentos.
No Brasil, é grande o número de vítimas
de intoxicação por medicamentos. O
Sistema Nacional de Informações Tóxico
Farmacológicas (Sinitox) registrou, em 2006,
32.884 casos de intoxicação por medicamento
no país, correspondendo a 30% dos casos de
intoxicação registrados naquele ano. A forma
mais comum de intoxicação é a acidental (31%)
e a faixa etária mais atingida é a de crianças
menores de cinco anos, que representam 36%
dos casos. Os medicamentos também lideram
os casos de intoxicação entre jovens de 15 a
19 anos, com 35% dos casos registrados nessa
faixa etária (FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ,
2006).
O objetivo desse trabalho foi o de trazer para o
público infantil um contato mais próximo com
os conceitos que envolvem saúde, alimentação
saudável e farmacoterapia. Procuramos
informar as crianças sobre conceitos
básicos, como saúde, alimentação saudável,
automedicação, tolerância à farmacoterapia,
resistência microbiana, entre outros. Além
disso, buscamos infundir a consciência de que
nenhum medicamento é totalmente livre de
risco, em maior ou menor grau, o risco está
sempre presente e, por isso, o medicamento
deve ser usado com a devida orientação de um
96 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
profissional de saúde. Assim, o medicamento
representa um, e não o único dos instrumentos
terapêuticos disponíveis; e a propaganda de
medicamentos nem sempre é uma fonte de
informação confiável.
Investimos na proposta de tornar o aluno do
ensino fundamental um multiplicador do
conhecimento, repassando o que aprendeu na
escola aos seus familiares, amigos e vizinhos.
Tentamos levar para a sala de aula a discussão
sobre o uso racional de medicamentos, os riscos
da automedicação e a influência da propaganda
desses e de outros produtos sujeitos à vigilância
sanitária nos hábitos de consumo.
OBJETIVOS
Estimular a mudança de hábitos a partir da
atuação na comunidade escolar, visando à
formação de cidadãos mais esclarecidos quanto
ao uso responsável de medicamentos e aos
cuidados com a saúde individual e coletiva
no que diz respeito à alimentação saudável
e a hábitos de higiene; e orientar alunos e a
comunidade envolvida quanto à identificação
dos riscos do consumo indiscriminado de
medicamentos e de outros produtos sujeitos à
vigilância sanitária.
MATERIAL E MÉTODOS
Para a realização das atividades educativas,
uma escola municipal de ensino fundamental
de Curitiba, no Estado do Paraná, foi escolhida
após reunião com colaboradores da Secretaria
Municipal da Educação.
A escola eleita foi a Escola Municipal José
Lamartine, localizada no bairro Pinheirinho. A
mesma possui atividades em tempo integral e
um projeto pedagógico bem estruturado.
Após reunião com a diretora da escola, foram
definidos datas, horários e programação das
atividades. Foram eleitas duas turmas de 3ª
série do ensino fundamental, com crianças
de aproximadamente 9 anos de idade, para
fazerem parte do programa educativo.
O material desenvolvido sobre a temática do uso
racional de medicamentos consistiu em quebracabeças relacionados aos assuntos abordados
- automedicação, a influência da propaganda
de produtos sujeitos à vigilância sanitária e
intoxicações – e uma cartilha com informações
em forma de história em quadrinhos, contendo
atividades de caça-palavras, jogo dos 7 erros,
entre outros, envolvendo os temas referentes ao
trabalho. Para o tema da alimentação saudável,
foram realizadas uma simulação de pirâmide
alimentar e dinâmicas sobre a lavagem correta
das mãos e hábitos de higiene como escovação
dentária, dentre outros.
Os quebra-cabeças foram dados às crianças
para que elas montassem e, depois de montados,
eles foram lidos e interpretados.
As cartilhas com jogos e as cartilhas somente
informativas foram distribuídas e lidas com as
crianças.
A atividade com a pirâmide alimentar constou
na montagem de um “prato” com alimentos
escolhidos pelas crianças. Posteriormente, um
prato considerado ideal foi montado pelos
bolsistas do projeto com a ajuda das crianças,
sendo elaborada uma refeição saudável e
saborosa, baseada na pirâmide alimentar.
Uma segunda etapa da atividade de educação foi
uma visita ao mesmo colégio algumas semanas
depois para a participação em um evento anual
realizado pela escola, a ExpoLamartine, que
ocorreu durante um sábado pela manhã e cujo
objetivo foi a exposição de trabalhos realizados
na escola durante o ano letivo transcorrido.
Nesse evento, houve a participação dos pais
e da comunidade, além dos alunos e dos
educadores. Durante a manhã, os bolsistas
do projeto de educação distribuíram fôlderes
educativos e conversaram com a comunidade
sobre medicação/automedicação/uso racional
de medicamentos e alimentação saudável.
Além disso, visando a avaliação do impacto das
atividades realizadas, foi aplicado aos pais e
educadores da escola, um questionário sobre o
reflexo das atividades realizadas e que puderam
ser observados nas atitudes e no cotidiano das
crianças.
RESULTADOS
As atividades despertaram o interesse das
crianças pelos assuntos abordados, havendo
uma participação muito ativa por parte desses
alunos em todas as etapas das dinâmicas e das
aulas.
Houve interesse por parte da instituição de
ensino também para a instituição de um projeto
de educação continuada com as crianças e com
os pais.
Todas as crianças receberam a cartilha com
informações e atividades recreativas sobre
as temáticas que envolveram o trabalho.
As cartilhas foram lidas e discutidas com os
alunos, que se mostraram bastante receptivos
ao tema, e demonstraram aptidão para
disseminar as informações aprendidas. Cada
uma das crianças possuía um relato sobre
algum problema de saúde vivenciado entre seus
familiares, demonstrando interesse em repassar
as observações e orientações aos mesmos,
como forma de retribuir os cuidados e carinhos
recebidos por parte deles.
Durante a dinâmica da montagem dos quebracabeças, buscou-se relembrar, em grupo,
sobre os cuidados e observações discutidos
anteriormente.
Surpreendentemente, apesar de os temas
discutidos não consistirem em parte do conteúdo
escolar, as crianças demonstraram interesse,
curiosidade e fácil compreensão durante o
desenvolvimento das atividades, demonstrando
que podem sim caracterizar um potencial grupo
multiplicador dos diversos assuntos abordados.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 97
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
As atividades constituíram-se de aulas expositivas
sobre medicação/uso racional de medicamentos/
automedicação e sobre alimentação saudável.
Foram realizadas dinâmicas com o material
desenvolvido descrito a seguir e distribuídas
cartilhas informativas.
Na realização das ações sobre alimentação
saudável, conseguimos discutir sobre os
benefícios alcançados quando nos propomos a
mudanças alimentares, substituindo um biscoito
recheado por uma fruta no lanche, ou um
refrigerante por um suco natural. As crianças
foram bastante receptivas e conseguiram
elaborar um prato nutritivo e saboroso ao seu
paladar. Quando indagadas se gostariam de
comer aquela refeição, a resposta positiva foi
unânime.
Ainda durante a dinâmica da pirâmide
alimentar, abordamos que não há necessidade
de privação total das guloseimas, tão buscadas
e preferidas nessa faixa etária, podendo estas
serem consumidas em pequena quantidade e,
eventualmente, mas nunca preferencialmente,
em detrimento de outros alimentos mais
saudáveis e com mais benefício à saúde.
Dentre os malefícios de uma má alimentação,
salientamos a presença de grandes quantidades
de gordura saturada, sódio, açúcar e gordura
trans, os quais constituem ingredientes comuns
nas guloseimas adoradas pelas crianças.
Relacionando os malefícios a saúde, citaramse a hipertensão arterial, problemas cardíacos,
diabetes mellitus e a obesidade, problemas esses
que, atualmente, estão inseridos no cenário
infantil.
Além das atividades desenvolvidas em sala
de aula com as crianças da 3ª série, tivemos
a oportunidade de conversar com os pais
e com a comunidade, durante o evento de
exposição de trabalhos realizados no colégio –
a ExpoLamartine.
Nesse evento, conversamos sobre a utilidade
prática dos temas abordados com as crianças, e
a importância de estar atento aos perigos acerca
da exposição indevida aos medicamentos.
Muitos pais mostraram-se favoráveis a mudanças
nos hábitos da família, em prol da busca por uma
vida mais saudável e da proteção de seus filhos
contra os perigos das intoxicações. Informaram
que as crianças comentaram em casa sobre o
98 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
que tinham aprendido e que já começaram a
observar mudanças em relação à alimentação e
à preferência por alimentos mais saudáveis.
Sobre a avaliação do impacto das ações
realizadas com os alunos, por intermédio
da aplicação do questionário aos pais e
educadores da escola, obtivemos os resultados
que comentamos a seguir.
Sobre o tema “alimentação saudável”: A escola
possui um Programa de Alimentação Saudável
para a merenda escolar, que é desenvolvido
por nutricionistas da prefeitura do município;
pais e professores perceberam um aumento
do consumo de lanches mais saudáveis por
parte das crianças; como comentários dos
pais e professores, houve inúmeros relatos de
modificação de hábitos alimentares das crianças,
que passaram a ingerir menor quantidade de
lanches industrializados como salgadinhos e
refrigerantes, substituindo-os por alimentos mais
saudáveis, como frutas, sucos, iogurtes e até
cereais. Houve até o comentário de uma mãe,
contando que sua filha de oito anos, que sofre
de obesidade, passou a diminuir o consumo de
chocolates e a praticar mais atividades físicas,
na tentativa de melhorar sua saúde e prevenir
as doenças consequentes.
A escola, por ser de período integral, oferece
três refeições diárias, sendo estas o lanche
da manhã, o almoço e o lanche da tarde. Os
educadores comentaram que apesar de a
merenda escolar trazer alimentos diversos,
variados e nutritivos, como verduras e frutas, as
crianças geralmente deixavam esses alimentos
de lado durante as refeições. Entretanto, após as
atividades educativas em saúde, elas passaram a
se alimentar melhor e a comer todos os alimentos
disponibilizados na merenda. A diretora da
escola estimava que, antes, cerca de 60%
desses alimentos acabavam sendo descartados
como lixo orgânico, e que, agora, somente 9%
vão para a lixeira, sem ser consumido.
Sobre o tema “uso racional de medicamentos”:
78% dos pais afirmaram que passaram a
armazenar os medicamentos em locais corretos
Todos os pais fizeram elogios em relação às
atividades realizadas na escola. Comentaram
que as crianças chegaram em casa contando
sobre os temas e propondo mudanças.
Praticamente todos pediram que as atividades
pudessem ser realizadas mais vezes na escola
e que, se possível, abordassem também outros
temas relacionados à saúde, para que além das
crianças, eles (os pais) pudessem aprender por
intermédio dos filhos.
Mas, de maneira contrária, os medicamentos
podem vir a constituir um sério problema de
saúde pública, considerando-se os altos custos
e o impacto econômico que representam para
o SUS e para os usuários, a elevada incidência
de surgimento de efeitos indesejáveis, os riscos
atribuídos à prática da automedicação e, ainda,
o uso indiscriminado desses produtos.
O uso de qualquer medicamento, sem a
orientação de um especialista, pode levar a
uma administração equivocada. Os sintomas
iniciais podem ser agravados e levar o
paciente, inadvertidamente, a fazer uso de mais
medicamentos para eliminar o desconforto
ou, então, a mascarar a doença (a dor passa,
mas a infecção continua, por exemplo) e a
retardar o tratamento necessário. Além disso,
o medicamento pode ter efeito sobre os órgãos
que não estão doentes ou causar a tolerância
ou resistência, processo onde o organismo
“se acostuma” com o medicamento, exigindo
doses cada vez maiores para surtir o mesmo
efeito. Exemplo disso é a chamada resistência
microbiana (CUSTODIO & VARGAS, 2008).
DISCUSSÃO
A saúde é, inegavelmente, um processo
social, cultural, ambiental, econômico,
psicológico e biológico, contínuo, complexo
e multidimensional, não restrito ao uso de um
determinado produto (BRASIL, 2008).
Atualmente, para a maioria da nossa população,
comprar um medicamento por conta própria,
na farmácia mais próxima, tornou-se a primeira
e a mais cômoda opção para tratar os sintomas
das doenças mais comuns. O problema é que as
pessoas desconhecem as graves consequências
ligadas a essa prática.
O sucesso do tratamento de doenças,
propriamente dito, depende do uso de
determinada substância na hora certa, na
dosagem certa, no tempo determinado, desde
que prescrita por quem tem competência para
tal: o médico ou o dentista. Utilizado dessa
forma, o medicamento é um importante aliado
no tratamento de enfermidades, e seu uso é,
assim feito, de forma racional.
Os medicamentos são divulgados como sendo
sinônimos de saúde, de realização e felicidade,
e ocupam um papel central nos tratamentos
médicos – grande parte das consultas, em termos
nacionais, resulta em receitas farmacêuticas.
Observa-se que muitas propagandas estimulam,
constantemente, o uso indiscriminado e
desnecessário de medicamentos, com apelos
exagerados de qualidade, omitindo as
contraindicações e os riscos envolvidos no
consumo inadequado (CAMARGO, 2009).
A solução desse problema é de responsabilidade
geral. Além do governo, nas suas três esferas,
e dos profissionais e gestores de saúde é
necessário o envolvimento da família, de
instituições e empresas na formulação de
medidas que promovam a transformação de
hábitos e atitudes da população no sentido da
conscientização sobre os perigos da prática da
automedicação (GARRAFA, 2007).
A Constituição Federal atribui ao Estado, além
de outras prerrogativas, a proteção da pessoa e
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 99
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
(fora da cozinha, do banheiro e longe do
alcance das crianças), após a orientação dos
seus filhos (as); 63% afirmaram que costumavam
usar medicamentos sem orientação do médico
ou do farmacêutico e, desses, somente 16%
afirmaram ainda continuar com essa prática;
e 97% dos pais alegaram que seus filhos (as)
comentaram em casa sobre os temas abordados
na escola. E 56% dos pais afirmaram que
costumavam comprar medicamentos que viam
anunciados em propagandas. Desses, somente
11% afirmaram ainda continuar com essa
prática.
da família quanto à publicidade de produtos,
práticas e serviços que possam ser nocivos
à saúde e ao meio ambiente, inclusive com
restrições legais à propaganda (BRASIL, 1988).
A legislação ratifica a responsabilidade do
Estado no sentido de prover políticas públicas
em todas as áreas, visando à promoção da
saúde da população, assim como estende a
responsabilidade com a saúde ao indivíduo, às
famílias e à sociedade.
A pessoa passa a ser chamada para o cuidado
consigo mesma e também para o cuidado com a
sua comunidade. O cidadão passa a intervir no
processo de promoção da saúde por intermédio
da organização e participação em escolas,
associações de bairro, de classe, empresas e
conselhos participativos. Ao governo cabe a
articulação entre todas as suas instâncias, com
o setor privado e com a sociedade civil, e o
indivíduo é estimulado a exercer o seu papel
de cidadão interventor e transformador de sua
realidade (FAGUNDES et al., 2007).
Não basta informar e orientar o setor regulado
para que este cumpra as normas estabelecidas
e se reconheça como sujeito atuante no
processo de proteção e promoção da saúde da
sociedade. De igual importância é a informação
e a orientação ao indivíduo comum, para que
este tome consciência dos seus direitos e dos
perigos a que sua saúde é exposta quando as
regras sanitárias não são obedecidas.
Uma população informada e com postura
fiscalizadora promove saúde, assume a
defesa sanitária própria e de sua comunidade,
obrigando produtores e fornecedores à mudança
de atitudes, no sentido de oferecer à população
produtos e serviços de qualidade, que não
coloquem a sua saúde em risco (GARRAFA,
2007).
O consumidor consciente dos seus direitos
e responsabilidades, e bem informado das
normas sanitárias, exige seu cumprimento. Pois,
100 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
embora existam órgãos de fiscalização em todas
as etapas de produção e de comercialização,
somente o consumidor final é capaz de avaliar
criticamente o produto que lhe é oferecido e
denunciar quando entender que seus direitos
foram desrespeitados (FAGUNDES et al.,
2007).
A escola é um ambiente que fomenta a
discussão e a participação, cumprindo a sua
função de preparação para a vida, adulta e
pública, na busca do exercício da cidadania
plena. Como espaço privilegiado, nela devem
ser desenvolvidas estratégias que envolvem
tanto o estabelecimento de ensino quanto o seu
entorno, visando à qualidade de vida de toda a
sociedade. Assim, qualquer ação que pretenda
melhorar as condições de vida das populações
menos favorecidas tem maior chance de sucesso
se contar com a participação da comunidade
escolar.
Quando a escola possui um projeto políticopedagógico construído por meio de um processo
coletivo, que envolva toda a comunidade escolar,
a mesma consegue despertar verdadeiramente
o interesse do aluno, tornando-o multiplicador
capaz de influenciar sua família, vizinhos,
amigos e outros indivíduos que se relacionam
com ele. A escola atinge também os profissionais
da educação (professores e auxiliares), pais e
responsáveis, que por sua vez tornam-se, da
mesma forma, difusores do conhecimento,
iniciando cada um a sua própria cadeia de
influência: família, amigos, vizinhos e outros
(BRASIL, 2008).
Mais do que aprender, os alunos tiveram o
estímulo de ensinar aos colegas, aos pais
e à comunidade, tornando-se verdadeiros
multiplicadores. A vida saudável e o uso de
medicamentos são assuntos que envolvem toda
a população, desde as crianças até as pessoas
mais idosas e, por isto, as orientações a respeito
desses temas são de grande importância para a
saúde e devem despertar o interesse de todos.
O direcionamento inclusivo do aluno como
ator praticante do conhecimento foi uma
característica ressaltada no desenvolvimento
dos temas e atividades do projeto.
Incluir a comunidade e a escola amplia o
diálogo sobre a necessidade da mudança de
hábitos e atitudes resultantes de uma postura
de estímulo ao consumo indiscriminado de
tais produtos e minimiza, por meio das ações
educativas, a ocorrência de danos à saúde.
Conseguimos despertar a comunidade para a
importância de uma alimentação saudável e
para a conscientização sobre o uso responsável
de medicamentos e a influência da propaganda
para o consumo desses produtos, sendo o
projeto avaliado com um impacto extremamente
positivo, mediante a observação dos resultados
alcançados.
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pouco saudável. Monografia de especialização
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intoxicacoeshumanas>.
Mediante a observação dos resultados,
concluímos que foi possível estimular a mudança
de hábitos, incentivando o cuidado com a
saúde individual e coletiva, caracterizando,
dessa forma, uma diminuição dos riscos à saúde
associados à automedicação e à alimentação.
GARRAFA, V.; MELLO, D. R.; PORTO, D.
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cit.sc.gov.br/propaganda/pdfs/artigos/propaganda _no_brasil.pdf> Acesso em 10/11/2009.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 101
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Marjorie Muller2; Caren Gobetti2; Bruna Piccoli2;Letícia Oliveira2² e Tânia Alves Amador1¹.
1 - Professor Adjunto II, Departamento de Produção e Controle de Medicamentos. Faculdade de Farmácia. Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.
2 - Acadêmicos do Curso de Farmácia. Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.
resumo
INTRODUÇÃO
A urgência em resolver problemas menores
de saúde, como um resfriado ou uma dor de
cabeça, leva os indivíduos a recorrer às “pílulas”
que são divulgadas na mídia, prometendo
resolução imediata, e possibilitando o retorno
às atividades diárias sem perda de tempo.
Jovens e adolescentes têm sido apontados
como suscetíveis ao apelo promocional desses
produtos. O objetivo deste estudo foi conhecer
a percepção de estudantes de ensino médio
sobre os medicamentos e a sua publicidade.
Foi realizada uma pesquisa descritiva, de
cunho qualitativo, aplicada em uma escola
de Porto Alegre (RS), no mês de novembro de
2009. As respostas foram analisadas por meio
da técnica do discurso do sujeito coletivo.
Três ideias centrais se destacaram quanto à
percepção sobre medicamento: o discurso
muito disseminado na mídia de um produto
científico que dá credibilidade; o medicamento
como a solução para dores e sofrimentos; e
como uma droga que vicia e deve ser evitada
para não trazer prejuízos. Sobre a propaganda,
transparece um discurso de necessidade de
prescrição para uso de medicamentos; já
outros admitem terem sido influenciados pela
publicidade na busca rápida de resolução dos
problemas de saúde. A pesquisa mostra que
persiste a ideia de medicamentos como soluções
“mágicas, rápidas” e este trabalho fundamenta
a necessidade do desenvolvimento de ações de
educação voltadas para o segmento de jovens e
adolescentes.
Em 1980, Cordeiro discute que os medicamentos
ocupam o lugar de símbolos e representações
que obscurecem os determinantes sociais das
doenças; iludem os indivíduos com a aparência
da eficácia científica; e, como mercadorias,
apresentam um valor monetário, garantindo
a acumulação de um dos segmentos mais
lucrativos do capital industrial. Entretanto, para
Lefèvre (1983) esta afirmação é apenas parcial,
pois os medicamentos conseguem iludir ou
funcionam como paliativos dos sofrimentos de
milhares de indivíduos, não com a aparência,
mas com a realidade da sua eficácia científica.
Nesse contexto, verificamos um consumo cada
vez maior de medicamento, seja na busca de
saúde ou dos padrões estéticos impostos na
sociedade moderna. Como conseqüência,
amplia-se o uso da automedicação, em virtude
de múltiplos fatores. Na década de 90, Barros
(1997) relacionava essa questão à baixa
disponibilidade dos serviços de saúde, com
a necessidade da população de baixo poder
aquisitivo recorrer à farmácia, onde tinha acesso
facilitado aos medicamentos e balconistas
disponíveis para indicá-los, estimulados pelo
ganho de comissões.
Já em 2003, Nascimento discute que não é
somente o consumidor de baixa renda que realiza
a automedicação, ela também acontece entre
as camadas mais privilegiadas, que apresentam
amplo acesso aos serviços médicos. Nesta
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 103
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
PERCEPÇÃO E ATITUDES DE ESTUDANTES DO ENSINO MÉDIO
SOBRE OS MEDICAMENTOS E A PUBLICIDADE FARMACÊUTICA
classe, o principal fator associado é a urgência
em resolver problemas menores de saúde, o
que leva os indivíduos a recorrer às “pílulas”
que são divulgadas na mídia, prometendo cura
rápida dos problemas de saúde.
O uso de medicamentos ou remédios no
autocuidado ocorre desde a antiguidade e
tem sido discutido em estudos sob diversas
óticas, desde a antropológica até sob o ponto
de vista econômico (DELYTH et al., 2008;
LOYOLA et. al., 2004). Contemporaneamente,
com a hipervalorização da tecnologia médica
e, em especial, da farmacêutica, obtémse uma expansão sem precedentes nesta
área (NASCIMENTO, 2003). Assim, com
o fortalecimento dos grandes laboratórios
farmacêuticos, houve um estímulo ao consumo
de medicamentos em diferentes meios, seja
com publicidade aos prescritores ou ao público
leigo (BARROS, 1988). Sendo que a influência
da publicidade de medicamentos sobre o
consumo é foco de muitos trabalhos (LAGE,
2005).
Existem
vários
fatores,
principalmente
culturais, relacionados ao consumo de
medicamentos, além de sua propaganda.
Contudo, considerando que os medicamentos
são compostos por substâncias químicas, que,
quando usadas indevidamente e em situações
contraindicadas, podem causar riscos como
reações adversas e, até mesmo, óbito, mostra-se
a necessidade de monitorar todos os fatores que
possam impulsionar um consumo irracional
desses produtos (HEINECK et al., 1998).
Além disso, considerando a influência exercida
pela publicidade no consumo de medicamentos,
é necessário desenvolver ações em níveis de
educação em saúde para que se possa criar uma
visão crítica a respeito do tema, especialmente
em grupos suscetíveis ou que possam agir como
multiplicadores de informação, como é o caso
de adolescentes e jovens.
O jovem pode disseminar informações corretas
em sua família ou pode ser influenciado por
práticas já instaladas. Um estudo transversal,
do tipo inquérito populacional domiciliar,
104 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
realizado em 2004 nas cidades de Piracicaba
e Limeira (SP), analisou a relação das
farmácias domiciliares com a automedicação
em crianças e adolescentes. Essa pesquisa
constatou que guardar medicamentos nos
banheiros (razão de chances = 1,59) e o grau
de instrução dos responsáveis legais (≤ 4 anos
do ensino fundamental/razão de chances=2,40)
representam um maior risco à automedicação
(TOURINHO et al., 2008). Esses dados mostram
a importância de desenvolver ações de
educação para este público.
Com base no cenário apresentado, este estudo
teve por objetivo descrever a percepção e a
atitude de estudantes do ensino médio, de
um colégio de Porto Alegre, a respeito dos
medicamentos e da publicidade dos mesmos.
MATERIAIS E MÉTODOS
O estudo caracteriza-se como transversal, de
natureza qualitativa. A seleção da amostra foi
aleatória, sendo composta por 26 estudantes
do ensino médio, de uma escola na cidade de
Porto Alegre.
A coleta de dados ocorreu mediante a aplicação
de um questionário testado previamente,
composto por perguntas abertas. As entrevistas
foram desenvolvidas ao longo do mês de
novembro de 2009, por acadêmicas de Farmácia
devidamente treinadas.
O único critério de inclusão foi o aceite em
participar do estudo, emitido pelos estudantes.
Foram obedecidos os critérios éticos previstos
na Resolução 196/1996 do Conselho Nacional
de Saúde.
Os dados foram tratados utilizando-se a técnica
de análise do discurso do sujeito coletivo
(DSC), em que é realizado um conjunto de
procedimentos de tabulação e organização
de dados discursivos. Esses procedimentos
envolvem as etapas descritas a seguir: a)
seleção das expressões-chave (EC) de cada
discurso particular (são segmentos contínuos
ou descontínuos de discurso que revelam o
principal do conteúdo discursivo. Segundo
O DCS se propõe a deixar mais claras
e expressivas as representações sociais,
possibilitando a um grupo social – no nosso
caso, os estudantes do ensino médio – que ele
possa ser encarado como autor e emissor de
discursos comuns, compartilhado entre seus
componentes. A análise dos dados foi baseada
em dados já descritos na literatura.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram analisadas as respostas de 26 estudantes
de ensino médio, de um colégio de Porto Alegre
(RS). Os estudantes estavam na faixa etária de
14 a 17 anos. A amostra não distinguiu gêneros
e nem séries escolares, já que o objetivo do
estudo foi encontrar as representações sociais
do grupo, que nesse caso eram os estudantes
do ensino médio.
A primeira questão colocada referia-se ao
significado de “remédio” para os participantes
da pesquisa, sendo que esse termo é exposto à
sociedade como sinônimo de medicamento. Os
dados são apresentados no quadro 1.
Quadro 1 – Percepção dos estudantes sobre o que é remédio.
O QUE É REMÉDIO PARA VOCÊ?
Ideia Central (1)
DSC (1)
É um aperfeiçoamento feito pela ciência. É um
composto químico desenvolvido para tratar. É
uma coisa séria por ser científico.
Aprimoramento científico. Composto químico
para tratamento médico. Composição química.
Ideia Central (2)
DSC (2)
O remédio alivia o sofrimento, curar qualquer
coisa, cura a dor que tanto incomoda a vida
moderna; cura coisas complicadas como
anomalias; livra de todo sofrimento da vida.
Combate anomalias, algo que tomamos quando
precisamos melhorar de alguma dor ou doença;
ajuda a curar dores; tomamos quando temos alguma dor; uma mistura de substância para ficar
melhor; efeito contrário a dor; forma de se livrar
da dor e do sofrimento; tomamos quando não
estamos nos sentindo bem.
Ideia Central (3)
DSC (3)
Se eu usar vou ficar viciado; é uma droga de
abuso; são usadas para se viciar; não deve se
usar drogas.
É uma coisa viciante; droga que vicia; age
para o bem, mas pode causar prejuízo; é uma
“droga”; não vale muito a pena.
Nas respostas dos alunos é possível perceber
algumas das percepções que a sociedade em
geral tem do medicamento. Primeiramente, os
entrevistados apresentam a ideia disseminada,
especialmente na mídia, seja por meio
de propagandas ou por meio de matérias
jornalísticas, que utilizam o discurso científico
para apresentar produtos farmacêuticos
para serem consumidos pela sociedade.
O discurso é bem próximo ao que se vem
discutindo sobre a sociedade de consumo,
que tem como seu principal representante os
meios de comunicação. Segundo Cordeiro
(1980), os medicamentos ocupam o lugar de
símbolos e representações que obscurecem os
determinantes sociais das doenças, iludindo
os indivíduos com a aparência da eficácia
científica.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 105
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
Lefèvre (2008) é uma espécie de “prova
discursivo-empírica” da “verdade” das ideias
centrais); b) identificação da ideia central (IC)
de cada uma dessas EC e que é a síntese do
conteúdo dessas expressões, ou seja, o que
elas querem efetivamente dizer; c) reunião das
expressões-chave referentes às ideias centrais
semelhantes ou complementares em um
discurso síntese que é o DCS.
Os entrevistados foram questionados sobre
lembrarem-se de alguma propaganda que
tivessem visto. A maioria respondeu aquelas
propagandas com mais inserções na mídia. Os
medicamentos mais lembrados foram Benegripe;
Neosaldina; Atroveram; Scabin; Lactopurga; sal
de fruta Eno; Doril; Merthiolate.
A segunda ideia central refere-se ao medicamento
como as “pílulas mágicas”, sugerido por
Levèfre (1983). Muitos autores têm discutido
o tempo contemporâneo como uma época na
qual as pessoas encontram-se assoberbadas de
atividades, fundamentado no hiperconsumo
e no excesso (MOURA e EWALD, 2007). O
discurso contido nas mensagens dos estudantes
mostra essa preocupação, quase geral, com
a cura de “dores” e o medicamento como a
solução mágica para esse “sofrimento”. Cabe
ressaltar que a faixa etária dos entrevistados
é caracterizada por uma fase de grandes
angústias.
No quadro 2 são apresentadas as respostas do
questionamento sobre atitude dos estudantes
frente à oferta de medicamentos pela publicidade.
É possível perceber dois comportamentos:
um que nega o uso e outro que assume que
acredita na propaganda para resolver o seu
problema. Na primeira opção, é possível que
os adolescentes não quisessem admitir que
haviam sucumbido ao uso de algo por causa de
uma propaganda, temendo alguma represália
por parte dos pesquisadores. Enquanto que os
que consumiram o medicamento, admitindo
a influência da publicidade, apresentam o
comportamento já discutido anteriormente, que
enxerga no produto uma solução mágica para
resolver seus problemas.
Já a terceira ideia, reflete a percepção
disseminada sobre uso de psicotrópicos e o
abuso dessas substâncias, e os estudantes o
percebem relatando ser um produto que vicia,
que causa prejuízo. Entretanto, as expressões
utilizadas não demonstram correlação com os
efeitos adversos dos medicamentos. O termo
“droga” aparece fortemente como a se referir a
uma “droga de abuso”.
Quadro 2 – Atitude dos estudantes frente à oferta de medicamentos pela publicidade.
VOCÊ JÁ TEVE VONTADE DE COMPRAR ALGUM MEDICAMENTO POR CAUSA DE
PROPAGANDA?
Ideia Central (1)
DSC (1)
Não sou influenciado, sei que é errado, sei que
Não uso medicamento sem aconselhamento
só devo comprar depois de consultar o médico. . médico; não, nunca; só comprei medicamento
por que necessitava; não só indicado por um
profissional médico.
Ideia Central (2)
DSC (2)
A propaganda é séria, eu acreditei na propaganda, a pessoa parecia estar bem e eu queria
estar como ela.
Sim porque dizia que era “tiro e queda”; sim
porque tenho muita cólica e nenhum remédio
resolve; porque dizia que evitava gripe; porque
morro de cólica e pensei que era bom pra mim.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O objetivo desta pesquisa foi aferir o quanto o
valor simbólico do medicamento, já abordado
na literatura, estava presente num determinado
grupo social. Foi possível verificar que essa
percepção ainda está presente.
106 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
A Organização Mundial de Saúde define
automedicação responsável como a prática
pela qual os indivíduos tratam seus problemas
de saúde com medicamentos aprovados
e disponíveis para serem adquiridos sem
prescrição, e que sejam seguros e efetivos
quando utilizados como indicado. Contudo,
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
a automedicação responsável requer que os
medicamentos utilizados tenham segurança
e eficácia comprovadas, bem como sejam
indicados para condições autorreconhecíveis e
para algumas condições crônicas ou recorrentes
- seguindo ao diagnóstico médico inicial (WHO,
1998).
A aceitação da automedicação tem se tornado
uma tendência mundial, e, no Brasil, constitui,
atualmente, parte essencial do serviço não
regularizado de saúde. Uma das alternativas
seria a de utilizar os meios de comunicação com
a finalidade de esclarecer o público em relação
aos medicamentos, melhorar a fiscalização e
efetivar as normas de fiscalização de dispensação
e propaganda de medicamentos (SIMÕES et al.,
1988; HAAK, 1989; BLENKINSOPP et al.,1996;
ARRAIS et al., 1997; VILARINO et al., 1998).
O avanço nos últimos anos foi significativo,
entretanto, ainda há resistência do setor regulado
em implantar as mudanças. Compreende-se,
portanto, que uma mudança na postura da
sociedade é importante e as ações educativas
de grande valia no processo.
O consumo de medicamentos está apoiado na
necessidade de adequação e compensação de
valores estéticos e de conduta, considerados
ideais na sociedade contemporânea, como:
tranquilidade no dia a dia, solução para
emagrecer ou engordar, driblar o cansaço no
trabalho e lazer, vitaminas para quem fuma,
dentre outros. Além disso, a propaganda de
massa estimula intensivamente essa lógica de
compensação quando anuncia os medicamentos
sem alertar sobre os riscos decorrentes do uso,
fazendo, assim, com que a população tenha
um processo de deseducação em relação ao
consumo de medicamentos (NASCIMENTO,
2003; PACHELLI, 2003; PIZZOL et al, 1998).
Conhecer a percepção e as atitudes dos
estudantes frente aos medicamentos, e a
publicidade destes, ofereceram subsídios para
trabalhar diretamente com esses indivíduos,
estabelecendo estratégias específicas para
ações de educação, que culminou com o
desenvolvimento de um material educativo.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 107
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Vale Morais4; Rafaella Nayara Andrade Marinho4; Núbia Melo da Rocha5; Maria Cleide Ribeiro Dantas de Carvalho6.
1 - Professora Assistente do Departamento de Farmácia, mestre em Ciências Farmacêuticas (UFRN).
2 - Professora Assistente do Departamento de Farmácia, mestre em Genética e Biologia Molecular (UFRN).
3 - Professora Adjunta do Departamento de Farmácia, doutora em Engenharia Química (UFRN).
4 - Alunas do Curso de Farmácia (UFRN).
5 - Professora da Escola Estadual Josefa Sampaio. Natal (RN).
6 - Professora Associada do Departamento de Farmácia, doutora em Ciências da Saúde (UFRN).
resumo
INTRODUÇÃO
A disseminação de informações de caráter
educativo abarcadas pela vigilância sanitária é
importante para prevenir agravos e riscos à saúde.
O artigo objetivou avaliar o conhecimento sobre
uso de medicamentos e alimentação saudável
em estudantes de escola pública em Natal (RN).
Para tal, foram aplicados 202 questionários
que avaliaram o nível de conhecimento de
estudantes do ensino fundamental 1, 2 e médio.
Os resultados demonstraram que 59,6% dos
alunos usam medicamento sem orientação de
profissional de saúde; 20,0% utilizam algum
tipo de medicamento sem o conhecimento dos
pais; 77,9% não acreditam que as propagandas
têm informações suficientes; 87,6% sabem
que existem medicamentos que não podem
ser usados por crianças; 51,0% já viram nas
propagandas a advertência “O MEDICAMENTO
NÃO DEVE SER USADO POR CRIANÇAS”;
22,7% já solicitaram aos pais para comprar
medicamento anunciado em propaganda;
enquanto que 52,7% afirmam interesse em
comprar alimentos divulgados em propagandas;
91,2% observam a validade nos alimentos e
medicamentos adquiridos; 82,1% sabem que o
farmacêutico é o profissional que deve orientar
como os medicamentos devem ser utilizados.
Os resultados desta avaliação serão utilizados
na elaboração de materiais educativos que
subsidiem o uso adequado dos medicamentos
e hábitos alimentares saudáveis.
A saúde é um direito fundamental do ser
humano, declarado pela Organização Mundial
da Saúde (OMS). Pela Constituição Federal de
1988, a saúde é concebida como direito de todos
e dever do Estado, garantida por políticas sociais
e econômicas que visem à redução do risco de
doença e de outros agravos. Portanto, trata-se de
um direito inerente à própria vida do homem,
rege-se pelos princípios da universalidade e da
igualdade de acesso às ações e aos serviços que
a promovam, a protejam e a recuperem. Nesse
sentido, por serem de relevância pública, as
ações e os serviços de saúde ficam submetidos
à regulamentação, à fiscalização e ao controle
do poder público (DIAS, 2002).
O conhecimento sobre o uso correto dos
medicamentos, os riscos da automedicação,
assim como o desenvolvimento de hábitos
saudáveis de alimentação podem fazer a
diferença entre uma vida saudável ou não.
A automedicação é um procedimento
caracterizado fundamentalmente pela iniciativa
de um doente, ou de seu responsável, em obter
ou produzir e utilizar um produto que acredita
lhe trará benefícios no tratamento de doenças
ou alívio de sintomas (PAULO e ZANINE, 1988).
Dados da Associação Brasileira das Indústrias
Farmacêuticas (Abifarma) revelaram que no
Brasil cerca de 80 milhões de pessoas são
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 111
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
Avaliação do Conhecimento sobre Medicamentos E
ALIMENTOS em Estudantes de Escola Pública EM NATAL/RN
adeptas da automedicação (IVANNISSEVICH,
1994).
Arrais et al. (1997) concluíram que a
automedicação no Brasil reflete as carências e
os hábitos da população. É consideravelmente
influenciada por prescrições médicas anteriores
e tem a sua qualidade prejudicada pela baixa
seletividade do mercado farmacêutico.
Um dado preocupante fornecido pelo
Sistema Nacional de Informações TóxicoFarmacológicas (FUNDAÇÃO OSWALDO
CRUZ, 2007) mostrou que dos 112.403 casos
registrados de intoxicação humana em 2007,
os medicamentos lideraram a lista de principais
agentes tóxicos com 30,3% das ocorrências.
Além disso, verificou-se que a maior incidência
de intoxicações medicamentosas ocorre entre
crianças e adolescentes. Dos 34.068 casos de
intoxicação medicamentosa registrados, 50,5%
ocorreram na faixa etária de 0 a 19 anos, sendo
a faixa de 1 a 4 anos a mais atingida, com
22,0%.
Pereira et al. (2007) ao determinarem a
prevalência da automedicação em crianças
e adolescentes de dois municípios do Estado
de São Paulo verificaram que as mães foram
as principais indutoras de automedicação,
representando 51% da amostra estudada
e que a faixa etária de 7 a 18 anos, como
também usuários de serviços públicos de
saúde, apresentaram risco aumentado de
automedicação.
Para Pachelli (2003), a forma pela qual a
automedicação é praticada no Brasil é resultado
de uma série de fatores como a legislação
que define o medicamento de venda livre, o
medicamento e sua relação como mercadoria,
as práticas comerciais do varejo farmacêutico,
o acesso restrito da população aos sistemas
de saúde, ao medicamento e ao médico, e a
relação entre o medicamento e os meios de
comunicação em massa.
A propaganda de medicamentos é um dos
principais recursos de marketing utilizados
pela indústria farmacêutica. Ela tem como
112 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
objetivo persuadir as pessoas a comprarem
esses produtos, ainda que não tenham real
necessidade de consumi-los. De forma geral,
a propaganda de medicamentos não alerta os
usuários sobre os riscos sanitários envolvidos
no consumo indiscriminado de substâncias
farmacológicas e nem para o fato de que todo
medicamento, mesmo de venda sem prescrição
médica, deve ser consumido com consciência
e responsabilidade.
A propaganda estimula a automedicação que,
por sua vez, tem levado ao uso indiscriminado
e irracional dos medicamentos o que tem
causado aumento da resistência bacteriana,
aquisição de produtos ineficazes, enfermidades
iatrogênicas, hipersensibilidade, dependência,
aumento do risco para determinadas neoplasias,
agravamento de doenças e/ou sintomas e
intoxicação medicamentosa (SOUSA, SILVA e
S. NETO, 2008; VILARINO, 1998).
Além do mais, a promoção e proteção da saúde
também necessitam de requisitos básicos,
como os de manter hábitos de vida saudável.
A alimentação e a nutrição constituem esses
requisitos para a promoção e proteção da saúde,
possibilitando afirmação plena do potencial de
crescimento e desenvolvimento humano, com
qualidade de vida e cidadania. O conceito
de segurança alimentar que, anteriormente,
era limitado ao abastecimento, na quantidade
apropriada, foi ampliado, incorporando também
o acesso universal aos alimentos, o aspecto
nutricional e, consequentemente, as questões
relativas à composição, à qualidade e ao
aproveitamento biológico (VASCONCELLOS,
2009).
As doenças e agravos não transmissíveis vêm
aumentando e, no Brasil, são as principais
causas de óbitos em adultos, sendo a
obesidade um dos fatores de maior risco para
o adoecimento nesse grupo. A prevenção
e o diagnóstico precoce da obesidade são
importantes aspectos para a promoção da
saúde e redução de morbimortalidade, não só
por ser um fator de risco importante para outras
doenças, mas também por interferir na duração
e qualidade de vida, e ainda ter implicações
diretas na aceitação social dos indivíduos
quando excluídos da estética difundida pela
sociedade contemporânea.
A globalização, o consumismo, a necessidade
de prazeres rápidos e respostas imediatas
contribuem para o aparecimento da obesidade
como uma questão social. A obesidade envolve
uma complexa relação entre corpo-saúdealimento e sociedade, uma vez que os grupos
têm diferentes inserções sociais e concepções
diversas sobre estes temas, que variam com a
história (BRASIL, 2006a).
A informação da população a respeito da
alimentação saudável pode contribuir na
redução do surgimento de doenças crônico
não transmissíveis, como obesidade, diabetes e
doenças coronarianas. De acordo com Rique,
Soares e Meirelles (2002) a dieta adequada e
atividade física regular têm grande importância
na redução dos fatores de risco das doenças
cardiovasculares.
Nesse contexto, a Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa) criou o projeto
Educanvisa: Educação em Vigilância Sanitária,
custeado com recursos próprios a partir do ano
de 2009 que é o resultado da fusão de dois
projetos instituídos anteriormente desde 2005,
o “Contributo” e o “Educação para o Consumo
Responsável de Medicamentos”. O Educanvisa
busca formar multiplicadores dos conceitos e
práticas desejáveis no uso de medicamentos e
na opção pela alimentação saudável e pretende
alertar alunos do ensino fundamental sobre
os perigos da automedicação, já que o uso
indiscriminado de medicamentos vem sendo
incentivado constantemente em propaganda
(BRASIL, 2009).
A avaliação do conhecimento sobre o uso de
medicamentos e alimentação saudável em
estudantes de uma escola pública na cidade
de Natal (RN) poderá detectar práticas nocivas
à saúde dessas crianças e adolescentes e levar
os educadores a desenvolver estratégias para
minimizar esses efeitos.
O estudo seguiu o delineamento transversal e
foi realizado em uma escola pública, estadual,
participante do projeto Educanvisa e localizada
em um bairro de Santos Reis, na cidade de
Natal (RN).
O bairro de Santos Reis pertence à região
administrativa leste da cidade de Natal, tem
uma área de 161,07 hectares, comporta 1.559
domicílios permanentes e população de 6.071
habitantes. O bairro apresenta 96,85% de
residências com ligação de água, 97,46% de
domicílios com ligação de esgoto, duas escolas
municipais e duas estaduais e nenhuma unidade
de saúde (NATAL, 2009).
A coleta dos dados ocorreu no mês de setembro
de 2009. Dos 420 estudantes matriculados
na escola estadual, 202 (48,1%) responderam
o questionário. Foram incluídos todos os
estudantes do ensino fundamental 1, 2 e do
ensino médio, dos turnos matutino, vespertino
e noturno, que compareceram à escola no dia
da coleta dos dados.
Os questionários utilizados na avaliação do
conhecimento foram elaborados pela Anvisa
e foram aplicados pelos professores da escola
estudada. Em seguida os questionários,
sem identificação dos respondentes, foram
repassados a um grupo de pesquisadores da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
(UFRN) para que os mesmos procedessem a
análise dos dados.
As perguntas referiam-se à automedicação;
qual o profissional mais adequado para prestar
orientação sobre os medicamentos; propaganda
de medicamentos; hábitos alimentares; e
propagandas de alimentos, além de dados
sociodemográficos. Os questionários foram
respondidos pelos próprios alunos, em sala de
aula e individualmente, mediante solicitação e
coordenação dos respectivos professores.
A análise estatística foi realizada empregandose o conjunto de programas Epi Info 6, versão
6.04d, 2001 (Centers for Disease Control and
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 113
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
METODOLOGIA
Prevention, Atlanta, GA, USA). Para a descrição
dos dados foram utilizadas medidas de tendência
central e dispersão (média +/- desvio-padrão) e
distribuições de frequências.
Foi garantido o sigilo sobre as respostas e
foi respeitado o direito dos indivíduos de
recusarem-se a responder a alguma ou a todas
as perguntas do questionário.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os estudantes que compuseram a análise eram,
em sua maioria, do sexo feminino (51%), com
idade média de 16, 5 anos. Em relação ao turno,
63,9% frequentavam o diurno, enquanto que
36,1% frequentavam o noturno e pertenciam
ao ensino de jovens e adultos.
Ao serem questionados se já haviam utilizado
medicamentos sem a orientação de médico,
dentista ou farmacêutico, 57,7% responderam
que sim e 19,2% afirmaram que usaram
medicamentos sem que seus pais ou responsáveis
tomassem conhecimento. Perguntados se sabiam
que profissional deve orientar sobre a utilização
dos medicamentos, 82,8% afirmaram que era
o farmacêutico, 4,4% que era o balconista
e 12,8% o atendente de farmácia. O que se
pode observar neste contexto é que apesar da
maioria dos estudantes afirmarem saber quem
deve orientar a utilização dos medicamentos,
mais de 50% afirmaram ter se automedicado.
Usar um medicamento por conta própria e
sem o acompanhamento de um profissional
competente pode levar o paciente a riscos que
ele não está preparado para resolver. A maioria
dos medicamentos pode trazer sérios danos ao
organismo, caso não sejam ministrados em uma
dosagem correta, nos horários adequados ou
que não sejam respeitadas as contraindicações
específicas do fármaco que o constitui. Além
do mais, pode ocorrer também interação
medicamentosa, ou seja, quando mais de um
medicamento é utilizado simultaneamente,
podendo ocorrer uma potencialização ou
minimização de efeitos levando à super ou
subdosagens, respectivamente.
114 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Os medicamentos têm assumido importância
exagerada diante da hegemonia da medicina
curativa e desempenham papéis simbólicos
para os consumidores, pois de instrumentos
disponíveis para promover e manter a saúde
passam a representar a própria saúde (LEFÈVRE,
1991; SEVALHO, 1992; SCOTT e FERNER,
1994).
Em relação à propaganda de medicamentos,
77,3% dos estudantes não consideravam as
informações constantes nas propagandas
suficientes para lhes deixarem seguros na
utilização de um medicamento; 85,1%
afirmaram que já haviam identificado em
alguma propaganda a frase “O MEDICAMENTO
NÃO DEVE SER UTILIZADO EM CRIANÇAS”
e 22,3% asseguraram que costumavam pedir
aos pais e/ou responsáveis para comprarem
medicamentos mostrados em propagandas.
Mesmo considerando as informações das
propagandas insuficientes, alguns estudantes
se deixaram influenciar por elas a ponto de
solicitarem aos pais que comprassem esses
medicamentos anunciados, demonstrando
o grau de convencimento exercido pela
propaganda.
Estudos sobre a avaliação da propaganda de
medicamentos no Brasil têm demonstrado
a omissão de informações fundamentais
a respeito de cuidados, reações adversas
e contraindicações, descumprimento das
exigências legais e não observância dos
critérios da Organização Mundial da Saúde
(BARROS e JOANY, 2002; HEINECK et al.,
1998; MASTRIOANNI, GALDURÓZ e CARLINI,
2003; NASCIMENTO, 2005; PIZZOL, SILVA e
SCHENKEL, 1998).
De acordo com Barros (2004), o objetivo
da propaganda de medicamentos dirigida
ao público em geral “é atrair o máximo de
compradores para o produto”, muito embora
essa população não tenha, na maioria das
vezes, capacidade de avaliar o binômio riscobenefício na utilização dos medicamentos.
Em outro momento os alunos foram
questionados a respeito da influência das
propagandas na compra dos alimentos, e 52,7%
dos estudantes afirmaram solicitar que os pais/
responsáveis adquirissem alimentos mostrados
em propagandas.
Na avaliação a respeito dos tipos de alimentos
consumidos nos intervalos entre as principais
refeições, pretendeu-se avaliar qual era
a incidência no consumo de alimentos
industrializados e/ou alimentos rico em açúcares
e gorduras na dieta da população avaliada. Dos
alimentos sugeridos no questionário, quatro itens
eram a respeito de alimentos industrializados e
dois citavam alimentos naturais, conforme pode
ser observado na tabela 2.
Tabela 1 - Distribuição dos alunos segundo os fatores que influenciam na escolha dos alimentos
consumidos por estudantes de uma escola pública, Natal/RN, 2009.
Fatores
N
%
Por orientação dos pais/responsáveis
53
26,2
Porque viu na propaganda
12
5,9
Porque é saudável
115
56,9
Porque os amiguinhos comem
22
10,9
Tabela 2 - Distribuição dos alunos segundo os alimentos mais consumidos por estudantes de uma
escola pública, Natal/RN, 2009.
ALIMENTOS MAIS CONSUMIDOS
N
%
Frutas
49
24,1
Biscoitos Recheados
45
22,2
Refrigerantes/Sucos artificiais
20
9,9
Sucos naturais de frutas
33
16,3
Salgadinhos industrializados (fandangos, rufles, doritos, etc)
18
8,9
Doces, bombons, chocolates e balas
25
12,3
Referiu mais de um tipo de alimento
13
6,4
A preocupação da maioria dos alunos em
consumir alimentos saudáveis (56,9%), conforme
observado na tabela 1, foi contraditória quando
se observam os alimentos mais ingeridos, pois
53,3% das respostas indicaram o consumo
de alimentos industrializados, os quais não
são considerados como os mais saudáveis. As
mudanças no perfil de alimentação impactado
pelo processo de urbanização crescente e dos
efeitos da globalização de hábitos de consumo e
padrões de comportamento são nutricionalmente
interpretadas pelas prevalências crescentes de
sobrepeso e obesidade em jovens e adultos.
As taxas de internação por desnutrição grave
reduziram-se sensivelmente no norte urbano
e na Região Nordeste. Porém, o sobrepeso
e a obesidade estão presentes em 40% da
população adulta acima de 20 anos, distribuídos
em todas as classes de renda (BRASIL, 2006b).
Este perfil exige uma vigilância alimentar e
nutricional contínua, ampliando a capacidade
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 115
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
No item alimentação o questionário investigou
de que forma ocorre a escolha dos alimentos
consumidos na escola, em casa e em passeios.
Foi observado que a maioria tem preocupação
em ingerir alimentos saudáveis, como também
a orientação dos pais é levada em consideração
para realizar essa escolha, conforme pode ser
visualizado na tabela 1.
do setor saúde em focalizar ações e um modelo
de atenção à saúde e cuidado nutricional
direcionados à prevenção das doenças
relacionadas à fome e das doenças crônicas
não transmissíveis decorrentes da inadequação
alimentar.
estabilidade específicos (BRASIL, 2001). Em
estudo realizado por Ribeiro e Milhomem Filho
(2007), foi constatado com a população do
município Imperatriz (ma) que 88% verificavam
o prazo de validade do medicamento.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com os dados observados na pesquisa a
respeito dos hábitos alimentares surgiu um
questionamento: se existe uma preocupação
em manter uma alimentação saudável por parte
da população avaliada, como é explicado um
alto consumo de alimentos ricos em açúcares
e gorduras? Talvez a falta de informação
a respeito do que é um alimento saudável
seja a principal solução para esse consumo
exacerbado de alimentos industrializados, uma
vez que o custo desses alimentos é maior.
Também foi avaliado se os estudantes
verificavam a data de validade dos
medicamentos e alimentos. Os dados
demonstraram que 91,6% verificavam. O prazo
de validade de medicamentos e alimentos é
um item importantíssimo para a segurança do
consumidor.
Em relação aos alimentos, o prazo de validade
mínimo é definido como o prazo após o qual
o alimento está legalmente impróprio para o
consumo. E quando esse prazo é estipulado
de maneira correta pelos fabricantes (através
de metodologia específica), a data de
validade é estabelecida com uma distância
considerável de sua deterioração evidente e,
principalmente, com uma distância segura para
que o alimento não represente perigo à saúde
dos consumidores. Maurício e Matioli (2004),
estudando etapas de compra, armazenamento
e preparação de alimentos perecíveis por
pais de escolares, constaram que 80% dos
entrevistados relataram verificar o prazo de
validade dos produtos.
Para os medicamentos, o prazo de validade é
descrito como o tempo durante o qual o produto
poderá ser usado, caracterizado como período
de vida útil e fundamentada nos estudos de
116 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Os dados da pesquisa demonstraram a
necessidade de reforço em determinadas áreas
do conhecimento avaliado. Além disso, esses
resultados poderão ser utilizados na elaboração
de materiais educativos que subsidiem o uso
adequado dos medicamentos e promovam o
conhecimento a respeito de hábitos alimentares
saudáveis.
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Campos3; Heloisa Pamplona Cunha1; Maria Leonor Santana Scherer4; Marina Raijche Mattozo Rover2; Marlene
Zannin5.
1-Acadêmicas de Farmácia. Departamento de Ciências Farmacêuticas (UFSC).
2-Farmacêuticas. Departamento de Ciências Farmacêuticas (UFSC).
3 - Professora Doutora. Departamento de Ciências Farmacêuticas (UFSC).
4. Acadêmica de Letras. Departamento de Letras e Literaturas Vernáculas (UFSC).
5. Professora Doutora. Departamento de Toxicologia (UFSC).
resumo
A educação em saúde constitui um conjunto de
saberes e práticas orientadas para a prevenção
de doenças e promoção da saúde. As ações
de educação em saúde foram desenvolvidas
na Escola de Educação Básica José Boiteux,
Florianópolis (SC), na tentativa de promover a
importância do uso racional de medicamentos.
As atividades realizadas para as crianças
foram teatro de fantoches, pinturas, desenhos
para colorir e completar, entre outras. Com os
adolescentes foram desenvolvidas dinâmicas
buscando esclarecer dúvidas comuns da idade.
Com os pais foi realizada uma palestra educativa
e a distribuição de material informativo. Houve
participação efetiva de todos os envolvidos
nas atividades. A educação em saúde na
escola mostrou ser de grande relevância para a
transformação da sociedade.
INTRODUÇÃO
A educação em saúde constitui um conjunto de
saberes e práticas orientados para a prevenção
de doenças e promoção da saúde (COSTA
& LÓPEZ, 1996). Trata-se de um recurso por
meio do qual o conhecimento cientificamente
produzido no campo da saúde, intermediado
pelos profissionais de saúde, atinge a vida
cotidiana das pessoas, uma vez que a
compreensão dos condicionantes do processo
saúde-doença oferece subsídios para a adoção
de novos hábitos e condutas de saúde (ALVES,
2005).
A escola é um local de excelência para a
aplicação de programas de educação em saúde
por congregar em um único espaço e por um
período importante, crianças e adolescentes
que se encontram em uma etapa crítica de
crescimento, desenvolvimento e aprendizado
(FERNANDES; ROCHA e SOUZA, 2005).
Para a Organização Pan-Americana da Saúde
(Opas), a saúde também se inicia na escola,
que atua estimulando o protagonismo infantojuvenil dos escolares, orientando para estilos de
vida saudáveis e informando sobre fatores de
riscos para a saúde. Assim, a escola pode ser
uma grande referência e influenciar atitudes de
alunos, familiares e profissionais de educação,
sendo um espaço estratégico para a promoção
da saúde (BRASIL, 2006).
A promoção da saúde é um conceito ampliado,
que começou a ser desenvolvido a partir
da I Conferência sobre Promoção de Saúde
(Conferência de Ottawa, 1986), que assim
a definiu: “o processo de capacitação da
comunidade para atuar na melhoria da sua
qualidade de vida e saúde, incluindo uma
maior participação no controle deste processo”
(BRASIL, 2002).
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 121
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
ATIVIDADES DE EDUCAÇÃO EM SAÚDE ENVOLVENDO O USO
RACIONAL DE MEDICAMENTOS NA ESCOLA DE EDUCAÇÃO BÁSICA
JOSÉ BOITEUX DO MUNICÍPIO DE FLORIANÓPOLIS – SC
Segundo BUSS (1998 apud ANDRADE et al.,
2006) e BUSS (2003), a partir dessa conferência
a temática “promoção da saúde” passa a ser
discutida com mais frequência e a considerar
que determinantes gerais também influenciam as
condições de saúde, tais como: paz, habitação,
educação, alimentação, renda, ecossistema
estável, recursos sustentáveis, justiça social e
equidade. Em suma, a saúde não é assegurada
apenas pelo setor da saúde e a promoção da
saúde demanda uma combinação de estratégias
e uma ação coordenada entre diferentes setores
sociais.
Barba, Martinez e Carrasco (2003) mencionam
que para se trabalhar a promoção de saúde na
escola é necessária uma visão intersetorial. Os
setores educação e saúde devem ser aliados na
promoção da saúde nas escolas, principalmente
porque essa questão se insere na constituição do
conhecimento do cidadão crítico, no estímulo à
autonomia, ao exercício de direitos e deveres,
às habilidades com opção por atitudes mais
saudáveis e ao controle das condições de sua
saúde e qualidade de vida.
Nesse sentido, a Universidade Federal de
Santa Catarina (UFSC), com a participação
das Vigilâncias Sanitárias do Estado de Santa
Catarina e Secretaria Estadual de Educação,
vem desenvolvendo o Projeto de Educação e
Informação em Vigilância Sanitária, coordenado
pela Gerência Geral de Monitoramento e
Fiscalização de Propaganda, de Publicidade,
de Promoção e de Informação de Produtos
Sujeitos à Vigilância Sanitária (GGPRO), cujo
objetivo é estimular e apoiar ações estratégicas
de educação e informação em escolas de
ensino fundamental, de maneira a promover
discussões sobre propaganda de produtos
sujeitos à vigilância sanitária, uso racional de
medicamentos e alimentação saudável.
METODOLOGIA
As ações de educação em saúde foram
desenvolvidas na Escola de Educação Básica
José Boiteux, Florianópolis (SC). A escolha da
escola foi pactuada em reunião entre Vigilância
Sanitária Estadual e a Secretaria Estadual de
122 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Educação visando conscientizar a comunidade
escolar em relação aos riscos associados ao
consumo de produtos sujeitos à vigilância
sanitária influenciados pela propaganda. A
equipe responsável pela execução do projeto
programou atividades específicas para cada faixa
etária dos alunos, e para os pais, procurando
dar ênfase ao uso racional de medicamentos.
As atividades realizadas para as crianças na
faixa etária dos 6 aos 13 anos foram: teatro
de fantoches com a utilização de personagens
do folguedo “Boi-de Mamão”, conhecidos do
folclore do município de Florianópolis, com o
foco na importância da escovação dos dentes
e no uso indiscriminado de medicamentos;
e atividades recreativas relacionadas ao
tema, como pinturas, desenhos para colorir
e completar. No encerramento, ocorreu um
lanche à base de frutas, com posterior escovação
dentária, no intuito de incentivar e valorizar
uma alimentação saudável e a importância da
higiene bucal desde a infância.
Atividades de educação em saúde foram
realizadas com adolescentes na faixa dos 13
aos 15 anos de idade. O método de trabalho
escolhido constituiu em dinâmicas simples
que visam, principalmente, à reflexão sobre as
atitudes no dia a dia e o esclarecimento de uma
série de dúvidas comuns na idade.
Na “dinâmica da rosa”, os alunos foram
orientados a sentarem-se formando um círculo,
onde uma rosa foi passada de mão em mão,
cada aluno retirava uma pétala da mesma e
pronunciava seu nome ao passá-la ao colega.
Ao final, a rosa se encontrou sem pétalas e os
alunos foram questionados sobre o que havia
sido feito com a rosa, e se seria possível reparála. O objetivo desta dinâmica foi levar os
participantes à reflexão sobre as circunstâncias
que os atos individuais podem repercutir sobre
o próprio indivíduo e sobre a coletividade e os
espaços físicos.
Posteriormente, foi realizada a “dinâmica
da alma gêmea”, com o intuito de promover
o conhecimento dos estudantes sobre os
temas: sexualidade; cuidados com o corpo; e
Com os pais realizou-se uma palestra na qual se
abordou temas relacionados ao uso racional de
medicamentos, com enfoque em medicamentos
naturais,
antibióticos
e
medicamentos
controlados. Também foram mostradas as
atividades realizadas com as crianças e os
adolescentes da escola, através de slides e
vídeo. Posteriormente, os pais receberam um
material informativo acerca de como utilizar
os medicamentos. As informações contidas
nesse material complementam o assunto
abordado na palestra. E, por fim, foi aplicado
um roteiro de questões relacionadas ao uso
racional de medicamentos, para analisar como
as famílias agem acerca do tema. As diretrizes
do questionário foram elaboradas pela Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e
adaptadas pela equipe executora visando à
viabilização do mesmo.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As crianças mostraram-se extremamente
receptivas ao teatro de fantoches, demonstrando
interesse e participando de forma ativa. O teatro
teve como objetivo familiarizar as crianças com
hábitos saudáveis, escovação dos dentes, além
de promover a importância do uso correto de
medicamentos, apresentando, também, as
consequências do seu uso inadequado.
Após o teatro, foram realizadas atividades
recreativas relacionadas ao tema como pinturas,
desenhos para colorir e completar entre outras,
com o intuito de que levassem os materiais
produzidos para casa, para despertar na família
interesse pelo que o aluno fez na escola.
Segundo a Anvisa, é de suma importância
referenciar a educação em saúde no ensino
fundamental, especialmente nas séries iniciais.
Isso porque atitudes favoráveis ou desfavoráveis
à saúde são constituídas desde a infância, por
meio da identificação de valores observados em
modelos externos ou por grupos de referências
(BRASIL, 2007).
Sabe-se que as faixas etárias que foram trabalhadas
se encontram em duas fases do desenvolvimento
infantil. Segundo Piaget e Inhelder (1982), a
primeira fase é o período pré-operatório (2 a 7
anos), em que a linguagem desenvolve-se de
forma mais efetiva, onde tudo que escutam é
absorvido e opera no subconsciente. A segunda
fase é o período das operações concretas (dos 7
aos 11/12 anos). Nesta fase, a criança já domina
o uso da linguagem e, por isso, consegue
raciocinar sobre as situações. Com isso, adquire
“capacidade de criticar os sistemas sociais
e propor novos códigos de conduta: discute
valores morais de seus pais e constrói os seus
próprios, adquirindo, portanto, autonomia”
(PIAGET; INHELDER, 1982), o que faz com
que discutam e absorvam conscientemente o
que lhes é ensinado. Por isso, foi importante a
utilização de uma linguagem que fizesse parte
da realidade das crianças, isto é, utilizando um
gênero que passasse a mensagem e que fosse
acessível a essas faixas etárias.
Os adolescentes realizaram as atividades
propostas com entusiasmo e cooperação.
As dinâmicas seguiram de modo que eles
entendessem que certas atitudes geram
consequências irreparáveis. Os exemplos de
atitudes importantes para o cuidado do corpo e
para uma boa convivência em sociedade citados
pelo grupo foram: cuidado com materiais
escolares e ambiente escolar, assim como com
os objetos dos colegas; cuidados com o próprio
corpo, como usar preservativo masculino
e outras formas de proteção para gravidez
indesejada e DST/AIDS; ter atitudes saudáveis
como alimentação a base de produtos naturais;
zelo pelo patrimônio público e privado.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 123
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
doenças sexualmente transmissíveis. Perguntas
e respostas sobre os assuntos abordados foram
desmembradas e cada aluno recebeu um papel,
contendo pergunta ou resposta. Foi dado um
tempo de 20 minutos em que deveriam buscar
a resposta para a pergunta, formando pares
de pergunta-resposta. As questões foram lidas
em voz alta para todo o grupo e as dúvidas
foram sanadas. Finalmente, foi proposto aos
adolescentes que pintassem ou escrevessem em
um mural de papel o que representa a saúde
para cada um e um questionário foi aplicado
para analisar a situação e o conhecimento
desses jovens em relação ao uso racional de
medicamentos.
Cerca de 50 pais participaram da palestra sobre o
uso racional de medicamentos. A maior demanda
colocada pela escola para a equipe executora
das atividades foi o amplo uso de medicamentos
sujeitos a controle especial, principalmente o
metilfenidato. Este medicamento é utilizado
para o controle do Transtorno de Déficit de
Atenção com Hiperatividade (TDAH). Os pais
também demonstraram grande entusiasmo
com relação às atividades desenvolvidas com
as crianças, percebendo a relevância destas na
promoção da saúde, principalmente quando
contribuem no desenvolvimento de um
cidadão crítico, com habilidades de decidir
por atitudes mais saudáveis, que promovam
melhora nas condições de sua saúde. Após o
término da palestra, alguns pais procuraram a
equipe para esclarecimentos com relação aos
medicamentos de uso contínuo. Todos levaram
os materiais informativos para casa e esperase que compartilhem as informações que
obtiveram com os filhos, parentes, vizinhos e
amigos.
Segundo Gomes et al. (2002), a responsabilização
do adolescente pela preservação da própria
saúde gera uma percepção positiva do
indivíduo sobre ele mesmo, reconhecendo-se
como um importante agente transformador do
meio em que está inserido, conhecendo direitos
e deveres, e sentindo-se em condições de
participar ativamente na construção da saúde
coletiva. A adolescência é considerada uma
fase de mudanças que afeta os aspectos físicos,
sexuais, cognitivos e emocionais (CAMARGO
& FERRARI, 2008).
Gomes et al. (2002) mencionam que as
informações referentes à saúde no âmbito
familiar são escassas, o que faz com que o
adolescente acabe recorrendo a amigos e
pessoas com pouca preparação para abordar
o assunto, havendo a disseminação de
informações inadequadas e limitadas. Estas,
normalmente, abordam questões relativas à
prevenção de DST/AIDS, dando pouca ênfase
a outras informações importantes como o
funcionamento do corpo, maturação sexual,
vivência e conflitos decorrentes do crescimento
e da sexualidade.
Nas tabelas 1 e 2 são apresentados os dados
obtidos com o questionário aplicado aos pais e
adolescentes.
Tabela 1. Questionário referente ao uso e propaganda de medicamentos, aplicado aos pais da Escola
de Educação Básica José Boiteux do município de Florianópolis, no ano de 2009.
Onde você costuma guardar os medicamentos em casa?
%
n
Cozinha
36,8
7
Armários
36,8
7
Banheiro
10,6
2
Local inespecífico
15,8
3
Você acredita que o uso de medicamento sem receita médica ou sem
orientação de um farmacêutico pode piorar a doença? SIM
84,2
16
NÃO
15,8
3
Você acredita que o uso de remédios caseiros ou naturais, como chás e
garrafadas também podem prejudicar a saúde?
SIM
47,4
9
NÃO
47,4
9
NÃO OPINARAM
5,2
1
124 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Somente quando
necessário
94,7
18
Semanalmente
5,3
1
Uma vez ao mês
0
0
Diariamente
0
0
Você faz a leitura da bula dos medicamentos antes de utilizar o produto?
SIM
94,7
18
NÃO
5,3
1
Você costuma usar medicamento sem orientação do médico, dentista ou
farmacêutico?
SIM
31,6
6
NÃO
63,2
12
NÃO OPINARAM
5,2
1
Você considera que a propaganda contém todas as informações que o
consumidor deve saber antes de utilizar um medicamento? SIM
21,0
4
NÃO
73,7
14
NÃO OPINARAM
5,3
1
Você costuma comprar medicamentos anunciados em propagandas?
SIM
15,8
3
NÃO
84,2
16
O que mais te influência na compra de um medicamento?
Preço
63,1
12
Balconista
26,3
5
Propaganda
5,3
1
Indicação de amigos
5,3
1
Tabela 2. Questionário referente ao uso de medicamentos, aplicado aos alunos entre 13 e 15 anos de
idade na Escola de Educação Básica José Boiteux do município de Florianópolis, no ano de 2009.
Você usa ou já usou medicamentos sem orientação do médico, dentista ou farmacêutico?
%
n
SIM
53,3
8
NÃO
46,7
7
Você já tomou medicamento sem o conhecimento dos pais e/ou responsáveis? SIM
26,7
4
NÃO
73,3
11
Você considera que a propaganda contém todas as informações que o consumidor deve saber antes de utilizar um medicamento?
SIM
0
0
NÃO
100
15
NÃO OPINARAM
5,2
1
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 125
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
Com que frequência você compra medicamentos na drogaria/farmácia?
Você costuma pedir aos responsáveis para comprar medicamentos que viu em
propagandas?
Somente quando necessário
0
0
Semanalmente
100
15
Quais são os alimentos que você mais consome?
Doces, bombons e balas
27,3
9
Refrigerantes, sucos artificiais
24,2
8
Salgadinhos industrializados
0
0
Biscoitos recheados
3,03
1
Frutas
9,09
3
Sucos naturais de frutas
21,21
7
Você costuma pedir aos pais e/ou responsáveis para comprar alimentos que viu
em propagandas?
SIM
26,7
4
NÃO
73,3
11
Como você escolhe um lanche na escola, em casa ou em passeios? SIM
0
0
NÃO
100
15
Através dos questionários aplicados (Tabela 1),
pode-se observar que, com relação ao local
de armazenamento das medicações, 36,8%
dos pais entrevistados costumam guardar os
medicamentos na cozinha; 36,8% guardam em
armários de fácil acesso; 15,8% não guardam
em local específico; e 10,6% têm o costume de
guardar os medicamentos no banheiro.
Segundo Taurino et al. (2008), armazenar
medicamentos nos domicílios é uma prática
comum no Brasil e em outras partes do mundo,
podendo representar um potencial risco para
o surgimento de agravos à saúde. A farmácia
domiciliar,
frequentemente
depositada
em ambientes e recipientes inadequados,
propicia diversas possibilidades de consumo
irracional e desperdício, incluindo a facilitação
da automedicação não responsável, bem
como o aumento do risco de exposições
tóxicas não intencionais (principalmente em
crianças pequenas) e intencionais. Embora
a “automedicação responsável” – consumo
de medicamentos que não requer prescrição
médica para tratamento sintomático – possa,
eventualmente, reduzir a “pressão” no sistema de
126 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
saúde, que é de difícil acesso, tal procedimento
é contestado e não isento de riscos.
Verifica-se, também, na tabela 1 que apesar
de 84,2% dos pais entrevistados julgarem que
o uso de medicamentos sem receita médica
pode acarretar a piora do seu quadro clínico,
31,6% desses costumam usar medicamentos
sem orientação do seu médico, dentista ou
farmacêutico, reforçando ser prevalente a
prática da automedicação em nossa sociedade.
Pierce (1975) afirma que a sociedade de
consumo ao mesmo tempo em que promove,
por todos os seus canais de comunicação, a
ideia de que qualquer sofrimento, qualquer dor,
qualquer estado, enfim, que fuja daquilo que
ela institui como padrão, inclusive estético; por
outro lado, oferece a solução mágica na ponta
dos dedos: os comprimidos.
Com relação aos medicamentos naturais, as
opiniões foram divididas, cerca de 50% dos pais
entrevistados acreditam que o uso de remédios
caseiros ou naturais, como chás e garrafadas,
também podem prejudicar a saúde; já a outra
De acordo com os dados da tabela 1, 84,2%
dos pais entrevistados acreditam que não é a
propaganda a maior influenciadora na hora
da compra de medicamentos, afirmam que o
principal responsável na decisão da compra do
fármaco é o preço (63,1%), seguido da indicação
do balconista (26,3%). Segundo a Anvisa, apenas
medicamentos de venda isenta de prescrição
médica têm permissão para serem divulgados
para a população em geral. O poder da indústria
farmacêutica reforça as ideias mágicas sobre os
medicamentos e induz ao emprego do que é
novo e mais caro, além de induzir ao uso de
medicamentos que “solucionam” problemas
até então insolucionáveis (BRASIL, 2007).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Acredita-se que foi possível proporcionar
uma maior conscientização das crianças em
relação às consequências do uso inadequado
de medicamentos, da importância da higiene
bucal, assim como dos benefícios de uma
alimentação saudável.
Os adolescentes mostraram-se interessados nas
atividades realizadas, relatando ser algo fora das
suas atividades regulares, e foram receptivos.
Observou-se que o assunto sexualidade desperta
grande interesse, existindo muitas dúvidas,
sendo o diálogo ferramenta importante no
aprendizado. Alguns professores se interessam
bastante pelo tema, promovendo debates em
sala de aula ou trabalhos, ao passo que outros
preferiram se distanciar.
Fica nítida a necessidade de capacitar
professores para contribuir com a elucidação
deste tema frente aos alunos. Também foi
alcançado o objetivo de atingir e conscientizar
o maior número possível de pais de alunos
sobre o uso racional de medicamentos.
Em relação aos adolescentes entrevistados
(Tabela 2), aproximadamente 53% usam ou
usaram medicamentos sem orientação de
médico, dentista ou farmacêutico, e 26% dos
entrevistados já tomaram medicamentos sem o
conhecimento dos pais ou responsáveis. Apesar
de nenhum dos adolescentes entrevistados
acreditarem que a propaganda contém todas
as informações que o consumidor deve saber
antes de utilizar um medicamento, 21% dos
pais acredita que sim (Tabela 1), refletindo a
necessidade de se orientar a comunidade sobre
os riscos do uso irracional de medicamentos
através de ações educativas.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 127
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
metade acredita que não. Entre os adeptos da
fitoterapia, é comum o pensamento de que as
plantas medicinais de uso tradicional já foram
testadas e homologadas pelo seu uso prolongado
na própria espécie humana. Por isso, seriam
remédios eficazes e seguros, naturalmente
balanceados, sem os efeitos colaterais comuns
aos produtos sintéticos. Segundo Simões et
al. (2000), a planta medicinal utilizada em
medicamentos é um xenobiótico, isto é, um
produto estranho ao organismo humano, nele
introduzido com finalidades terapêuticas.
Como todo corpo estranho, os produtos de sua
biotransformação são potencialmente tóxicos
e, assim, devem ser encarados até prova em
contrário.
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Universidade de Uberaba (UNIUBE)
Aline Cristina Fraga de Oliveira1; Dirce Sofia Fabbri de Almeida Verde dos Santos 2.
1 - Graduanda, curso de Farmácia. Universidade de Uberaba – UNIUBE.
2 - Docente do curso de Farmácia. Universidade de Uberaba – UNIUBE.
INTRODUÇÃO
O Ministério da Saúde (1998) define o uso
racional de medicamentos como um processo
que compreende a prescrição apropriada; a
disponibilidade oportuna e a preços acessíveis;
além da dispensação em condições adequadas;
e no conjunto de doses indicadas, nos intervalos
definidos e no período de tempo indicado de
medicamentos eficazes, seguros e de qualidade.
Portanto, pode-se pressupor que por fatores
sociais, econômicos e culturais a população
brasileira está exposta ao uso inadequado de
medicamentos.
Uma das formas inadequadas de se utilizar
medicamentos é a automedicação; prática de
utilizar medicamentos sem a orientação ou
prescrição médica, gerada pelas mais diversas
influências. Uma prática perigosa que pode
acarretar riscos à saúde do usuário.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias
Farmacêuticas, cerca de 80 milhões de
pessoas utilizam a automedicação no Brasil
(IVANNISSEVICH, 1994).
De acordo com o Sistema Nacional de
Informações Tóxico Farmacológicas, no ano de
2007 foram registrados mais de 100 mil casos
de intoxicação humana e quase 500 óbitos
pelos Centros de Informação e Assistência
Toxicológica em atividade no Brasil. Essas
notificações apontam os medicamentos (30,7%)
como os principais agentes causadores de
intoxicação humana (FUNDAÇÃO OSWALDO
CRUZ, 2008).
Medicamentos são produtos farmacêuticos
tecnicamente elaborados com a finalidade de
tratar, de prevenir, de diagnosticar e de aliviar
sintomas, mas por causarem efeitos colaterais,
devem ser utilizados com a devida prescrição,
orientação e acompanhamento de profissional
habilitado a fazê-lo.
De acordo com Rubinstein, Siqueira e Garrafa
(2002), a propaganda de medicamentos
contribui para o aumento da vulnerabilidade
do cidadão, por induzir à automedicação ou
por fomentar o fenômeno da medicalização.
Portanto, pode ser incluída entre os fatores que
predispõem o cidadão ao consumo inadequado
de medicamentos.
A mídia tem se tornado, ao longo dos tempos, um
instrumento de comunicação de massa muito
bem aproveitado pelos produtores de serviço.
Os saberes que se propagam, por intermédio
desses meios, atingem, de forma direta, toda
a população. O estímulo ao consumo e a
consequente venda desses produtos divulgados
nas propagandas aproveitam a mídia porque ela
está ao alcance de todos e atinge um número
maior de pessoas (SANTOS, 2008).
Ao se refletir sobre a capacidade de persuasão
e de estímulo à automedicação que a
propaganda proporciona, somado ao fato de
que o mercado farmacêutico possui recursos
financeiros inesgotáveis para investir no
aumento das vendas, foi necessário pensar
em outros caminhos capazes de proteger a
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 131
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
CAPACITAÇÃO PARA PROFESSORAS (ES): CONTRIBUIÇÕES PARA A
PROMOÇÃO DO USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS.
saúde do indivíduo, especialmente em relação
às informações inadequadas e ao incentivo
ao consumo de medicamentos, gerados pela
propaganda: ações informativas e educativas
junto às escolas e à população.
Neste sentido, a Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) desenvolveu a proposta do
Projeto Educanvisa: Educação em Vigilância
Sanitária, para ser desenvolvido em escolas
de todo o Brasil. O projeto foi uma iniciativa
desenvolvida com o objetivo de promover
ações e estratégias de educação e comunicação
em saúde em assuntos referentes à vigilância
sanitária (BRASIL, 2007).
Ao se pensar que a escola é um ambiente
propício à aprendizagem, pode ser ela uma
promotora de ações educativas em saúde. Ao
proporcionar a educação em saúde na escola,
pode-se fazer com que a criança crie perspectiva
sobre a realidade da vida, buscando construir
hábitos saudáveis, e participar na promoção
de sua saúde, tornando-se um adulto mais
consciente (BRASIL, 2007).
O projeto oferece, entre outros recursos,
uma capacitação aos professores das escolas
participantes. Na capacitação são apresentados
temas de vigilância sanitária, uso racional
de medicamentos e alimentação saudável.
Acredita-se ser essa uma forma de prepará-los
para os temas de algumas das atividades que
serão desenvolvidas com os alunos durante a
execução do projeto.
De acordo com Delors (2003), os professores
podem desempenhar um papel muito influente
em vários domínios, e o trabalho do professor
não consiste simplesmente em transmitir
informações ou conhecimentos, mas em
apresentá-los sob a forma de problemas a
resolver, situando-os num contexto e colocandoos em perspectiva de modo que o aluno possa
estabelecer a ligação entre a sua solução e
outras interrogações mais abrangentes.
A equipe do Projeto de Ações de Educação
e Informação (Uberaba/2009) – um projeto
132 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
firmado entre a Universidade de Uberaba
(Uniube) e a Anvisa, que possui como objetivo
estimular e apoiar ações estratégicas educativas
e informativas na cidade de Uberaba –,
participou de uma das capacitações oferecidas
às professoras e aos professores e decidiu
identificar as contribuições advindas dessa
capacitação.
Este trabalho foi delineado a partir da ideia de
que existem situações na prática cotidiana que
nos remetem à experiência trazida pelo que nos
acontece, que nos toca e pode nos transformar.
Por meio da prática e do envolvimento, tanto
do professor quanto dos alunos, o saber da
experiência pode permanecer no profissional e
surgir no momento em que ele precisar.
MATERIAIS E MÉTODOS
No ato da inscrição da capacitação, foi entregue
para cada um dos professores presentes um
questionário elaborado pela equipe da Gerência
Geral de Monitoramento e Fiscalização de
Propaganda, de Publicidade, de Promoção e
de Informação de Produtos Sujeitos à Vigilância
Sanitária (GGPRO), da Anvisa, com questões de
múltipla escolha e discursivas, com a finalidade
de avaliar o perfil de consumo de medicamentos
das professoras e professores presentes na
capacitação. O questionário preenchido foi
devolvido antes do início das atividades.
Durante os dois dias da capacitação, por
intermédio de diferentes estratégias pedagógicas,
foram abordados os seguintes temas:
- Educação e Saúde: uma união de sucesso
- Exibição do vídeo “O saber e o sabor”
- Vigilância Sanitária
- Alimentação Saudável: em busca da
qualidade de vida
- Medicamentos
- Uso racional de medicamentos
- Propaganda & Consumo: Medicamentos
-Discussão de peça publicitária de
medicamento
A análise dos resultados foi realizada de forma
estatística e mensurativa, sendo, também,
utilizados na análise das questões dissertativas
os recursos da pesquisa qualitativa.
A pesquisa qualitativa, segundo Minayo (1999),
trabalha com o universo de significados,
motivações, aspirações, crenças, valores e
atitudes, correspondendo a um espaço mais
profundo das relações, dos processos e dos
fenômenos, não os reduzindo a simples
operacionalização de variáveis.
RESULTADOS
A questão nº 5 questionava onde é feito o
armazenamento de medicamentos. Quatro
responderam que os medicamentos são
guardados na cozinha; uma professora
respondeu que guarda no banheiro; nove
responderam que guardam em armários de
difícil acesso; dois responderam que não tem
costume de guardar em locais específicos; e um
participante não respondeu.
Gráfico 1 - Consumo de medicamentos sem
orientação médica
Resultado do questionário aplicado ANTES
da capacitação: Perfil de Consumo de
Medicamentos.
A questão nº 1 perguntava ao participante sobre
o uso de medicamentos sem a orientação do
médico ou do dentista. Dos 17 respondentes,
nove assinalaram a opção SIM e sete assinalaram a opção NÃO.
Gráfico 2 - Local de armazenamento de
medicamentos em casa
A questão nº 2 questionava sobre o uso de
medicamentos de uso prolongado SEM a
orientação do médico ou do dentista. Todos os
17 respondentes assinalaram a opção NÃO.
A terceira questão indagava sobre o uso de
medicamentos de uso prolongado/contínuo
COM orientação do médico ou dentista. Neste
caso, 11 participantes assinalaram a opção SIM;
e seis assinalaram a opção NÃO.
Na questão nº 4 perguntava-se se o respondente
acredita que o uso de medicamentos sem
receita médica ou sem orientação de um
farmacêutico pode piorar sua doença. Todos os
17 assinalaram a opção SIM.
A pergunta de nº 6 referia-se à frequência de
compra de medicamentos em farmácias e
drogarias, três professores responderam que
compram medicamentos uma vez por mês na
drogaria ou farmácia; 13 responderam que só
compram quando é necessário; e um professor
não respondeu.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 133
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
No final das atividades da capacitação, foi
entregue aos participantes um novo questionário,
elaborado pela equipe do Projeto de Ações de
Educação e Informação (Uberaba/2009), com
questões de múltiplas opções e discursivas,
recolhidas após o preenchimento.
Gráfico 3 - Frequência de compra de
medicamentos
A questão nº 10 questionava se o respondente
lê a bula dos medicamentos antes de utilizar o
produto. Três não responderam esta questão;
apenas um respondente assinalou a opção
NÃO; e 13 assinalaram a opção SIM.
Resultado do questionário aplicado APÓS
a capacitação: Perfil de Consumo de
Medicamentos
A questão nº 7 questionava se o respondente
considerava que a propaganda contém todas as
informações que o consumidor deve saber antes
de utilizar um medicamento. Três professores
assinalaram a opção SIM; e 14 marcaram a
opção NÃO.
Na questão nº 8 perguntava-se se o professor
costuma comprar medicamentos que vê em
propagandas. Três pessoas não responderam;
13 professores assinalaram a opção NÃO; e
apenas um marcou a opção SIM.
A primeira questão simulava uma situação na
qual um indivíduo apresentava novamente “dor
de cabeça”, para a qual recebeu, anteriormente,
a prescrição de um medicamento que foi
eficaz. Questionava-se qual a postura atual
da pessoa frente à situação. Dentre as opções
oferecidas aos 14 professores que responderam
o questionário, sete professores assinalaram
que procuravam um médico para um novo
diagnóstico e os outros sete responderam que
utilizariam o medicamento de costume e depois
procurariam o médico.
Gráfico 5 - Solução de problema de saúde /
semelhante
Ao ser perguntado o que mais influenciava
na compra de medicamentos, questão nº 9,
quatro professores responderam que é o preço;
um respondeu que é o balconista; quatro
responderam ser a indicação de familiares,
amigos e vizinhos; um professor respondeu
ser conforme a sua necessidade; e sete não
responderam esta questão.
Gráfico 4 - Influencia na “compra do
medicamento”
Na questão nº 2, item A, perguntava-se: quais
os medicamentos que você indicaria para a
“farmacinha da escola”?. Doze professores
escreveram
nomes
de
medicamentos
(analgésicos, antitérmicos, anti-inflamatórios
e antissépticos tópicos); dois não indicaram
nenhum medicamento e comentaram sobre
a necessidade de consultar um profissional
adequado para a prescrição.
134 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
A questão nº 3 simulava uma situação em que
o respondente presenciava uma conversa entre
aluno e zeladora da escola, na qual o aluno
solicitava a guarda do medicamento por ele
utilizado. Oferecia opções de resposta. Todos
os 14 respondentes afirmaram que orientariam
para o correto armazenamento.
A questão nº 4 perguntava opções de situações
que representavam automedicação. Sete
professores assinalaram todas as opções; três
disseram utilizar o medicamento indicado
pelo funcionário da farmácia; dois assinalaram
usar o medicamento que está acostumado em
situações simples, que resolve e nunca faz
mal; um participante afirmou fazer uso de um
medicamento após vê-lo em propaganda; e
uma pessoa não respondeu.
Gráfico 6 - Identificação de situações de Automedicação
DISCUSSÃO
As respostas obtidas com a aplicação
do questionário antes da capacitação
apresentaram 53% dos respondentes como
prováveis consumidores de medicamentos sem
a orientação do profissional adequado. Um
fato que preocupa, uma vez que, no mesmo
questionário, todos assinalaram que acreditam
que o uso do medicamento sem prescrição
médica ou orientação do farmacêutico pode
agravar a doença.
O desconhecimento dos riscos e dos cuidados
com o uso de medicamentos também pode
ser identificado com as respostas que surgiram
quando se perguntou aos professores onde eles
guardavam os medicamentos. Surgiram locais
como a cozinha, banheiro e a ausência de
local determinado. Sabe-se que medicamentos
são produtos tecnicamente obtidos que sofrem
influência de temperatura, umidade e presença
de luz, portanto, necessitam de locais adequados
para a armazenagem.
A compra de medicamentos por indicação
de familiares, amigos ou vizinhos, assim
como a influência do balconista e da própria
necessidade pela medicação, são respostas que
confirmam a prática da automedicação.
Após as informações recebidas na capacitação,
os resultados do questionário pós-capacitação
apresentaram-se satisfatórios em relação ao
perfil de consumo inicial dos participantes da
pesquisa.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 135
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
O item B da questão nº 2 destinou-se apenas
aos participantes que indicaram medicamentos.
Perguntou-se
onde
armazenar
esses
medicamentos indicados. Nove professores
responderam “lugares de difícil acesso”; uma
pessoa respondeu “em lugar fora de umidade
e com ventilação”; um respondeu em “armário
limpo e seco”; e um não respondeu a essa
questão.
Em uma questão que simulava uma situação
na qual um indivíduo apresentava “novamente
o mesmo tipo de dor de cabeça”, 98% dos
professores assinalaram opções de resposta
para a solução desse problema com a presença
do médico e o uso de medicamentos. Portanto,
pode-se pensar que, após a capacitação,
uma nova informação foi incorporada pelos
participantes: a importância da presença
do profissional médico para a prescrição de
medicamentos.
Com relação à identificação de situações
que representam a automedicação, 99%
dos professores identificaram situações de
automedicação, sendo que 49% foram capazes
de identificar todas as situações apresentadas
entre as opções de resposta. Uma contribuição
significativa em seu perfil de consumo, pois, ao
ser capaz de identificar as situações, pode-se
refletir sobre os riscos dessa utilização e, com
isso, evitar os riscos de saúde.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em outra situação, na qual um aluno e um
profissional da escola estariam “guardando” o
medicamento em local inadequado para o uso
posterior, 100% dos professores assinalaram que
iriam orientar o aluno e o profissional sobre o
correto armazenamento dos medicamentos. Um
fato muito importante, que comprova o papel
do professor ao se comprometer na formação
do indivíduo para além da sala de aula, e ao
utilizar o que permanece de seu conhecimento.
Isto fortalece a ideia de que ao capacitar o
professor com informações sobre promoção de
saúde, ele poderá contribuir na formação de
outros com relação a essas informações.
Em outra questão sobre armazenamento,
64% dos professores assinalaram opções de
resposta que indicavam que o correto é guardar
medicamentos em “locais de difícil acesso”,
confirmando a compreensão de que são
produtos para situações específicas, com acesso
dificultado. Uma contribuição identificada,
pois antes, no questionário pré-capacitação,
foram indicados locais de fácil acesso e sem
condições para a preservação da integridade
do medicamento.
Diante da questão que se referia aos
medicamentos que os participantes indicariam
para a farmácia escolar, foi possível observar
que ainda persiste a ideia de que alguns
medicamentos “conhecidos há muito tempo”
não causam riscos e podem ser utilizados
em situações de emergência pelos alunos da
escola. Porém, é importante ressaltar que 14%
dos respondentes não indicariam nenhum
medicamento para estar à disposição ou ser
utilizado pelos alunos nas escolas.
136 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
A análise das respostas dos questionários
aplicados aos participantes da capacitação
demonstra que muitas informações apresentadas
podem ter sido incorporadas aos conhecimentos
já existentes – de domínio dos professores –,
pois, em algumas das situações simuladas no
questionário pós-capacitação, essas informações
fizeram parte daquelas que são necessárias
para a resolução dos problemas simulados.
Problemas que deveriam ser resolvidos com
base no uso racional de medicamentos.
Sabe-se, também, que a capacitação é apenas
um dos momentos do Projeto Educanvisa,
que possui várias outras atividades, além da
distribuição de materiais para informação,
esclarecimento e consulta para os professores.
As contribuições para os professores foram
significativas, pois se sabe que existem situações
na prática cotidiana pedagógica que remetem à
experiência trazida pelo que nos acontece, que
nos toca e pode nos transformar. Por meio da
prática e do envolvimento do professor durante
a capacitação, o saber da experiência pode
permanecer no profissional e surgir no momento
em que ele precisar e, assim, contribuir na
formação do cidadão consciente sobre o uso
racional de medicamentos e na promoção,
manutenção de sua saúde (LARROSA, 2002).
De acordo com Freire (1977), no processo de
aprendizagem, só aprende verdadeiramente
aquele que se apropria do aprendido, e é
capaz de aplicá-lo em situações existenciais
concretas.
BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional
de Vigilância Sanitária (Anvisa). Caderno do
Professor. Projeto Educação e Promoção da
Saúde no Contexto Escolar: O contributo da
Agência Nacional de Vigilância Sanitária para o
uso racional de medicamentos. Brasília: Anvisa,
2007.
SANTOS, M. L. G. S. A comunicação
em contexto pedagógico. Universidade
Portucalense, 2003. Disponível em: <http://
www.aulasvirtuais.org/publicados/mlgs/a_
comunicacao_mlgs.pdf.>. Acesso: 6 dez.2009.
BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional
de Vigilância Sanitária. Vigilância sanitária e
escola: Parceiros na Construção da Cidadania
para Professores. Brasília: Anvisa, 2008.
BRASIL. Decreto-Lei nº 2.423, de 7 de abril de
1988. Portaria GM nº 3.916, de 30 de outubro
de 1998, Diário Oficial da União, BrasíliaDF, 10 de novembro de 1998. Disponível em
<http://www.anvisa.gov.br/legis/consolidada/
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1998>. Acesso em 24 de Novembro de 2009.
FREIRE, P. Extensão ou comunicação. Ed. São
Paulo: Paz e Terra, 1977.
FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Centro de
Informação Científica e Tecnológica. Sistema
Nacional de Informação Tóxico Farmacológicas.
Sinitox. 2008.
RUBINSTEIN, F.; SIQUEIRA, C. R. J.; GARRAFA,V.
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In : GARRAFA,V.; MELLO, D. R.; PORTO, D.
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2007, p.81-91.
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automedicação no Brasil. Jornal do Brasil,
Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2008.
LARROSA, J. Literatura, experiência e formação.
In: COSTA, M. V. Caminhos investigativos –
novos olhares na pesquisa em educação.
Rio de Janeiro: DP&A, 2002, p. 133-160.
MINAYO, M. C. S. O desafio do conhecimento:
pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo:
Hucitec 1999.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 137
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
Referências
Universidade de São Paulo (USP)
Fernando Luis Marcussi1; Michelle Moreira de Matos Pinto1; Renata Viegas Cardamoni2;
Vivian Boschesi Barros3 e Terezinha de Jesus Andreoli Pinto4 .
1 - Graduandos de Farmácia e Bioquímica. Universidade de São Paulo – USP.
2 - Graduanda de Publicidade e Propaganda. Universidade de São Paulo – USP.
3 - Graduanda de Medicina. Universidade de São Paulo – USP.
4 - Docente orientador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas. Universidade de São Paulo – USP.
RESUMO
INTRODUÇÃO
O uso irracional de medicamentos é um grave
problema de saúde pública e um dos maiores
desafios da atualidade para a Organização
Mundial da Saúde (OMS). As formas mais
comuns de a população praticá-lo são com a
automedicação abusiva, o uso indiscriminado
de produtos naturais e o mau armazenamento
de fármacos. A cultura baseada na ideia de
que os medicamentos são soluções rotineiras
para todos os problemas de saúde, a qual tem
grande contribuição da mídia, é determinante
para esse quadro. Diversos autores defendem
a importância de programas de educação
em saúde na escola para combatê-la, pois
desde cedo possibilitariam ao indivíduo obter
informações sobre medidas de prevenção a
doenças e uso seguro de medicamentos. Uma
das maiores iniciativas nacionais nesta área é
o projeto Educanvisa: Educação em Vigilância
Sanitária , que busca capacitar e oferecer
material didático a professores de ensino
fundamental. A Universidade de São Paulo
foi convidada a colaborar com o Educanvisa
através do Projeto de Educação e Informação,
realizado em parceria com a Anvisa, que
consistia desenvolver uma oficina de atividades
lúdicas sobre saúde para alunos de uma das
escolas participantes, em Taboão da Serra (SP).
Os resultados obtidos foram positivos. Acreditase que o uso de ferramentas lúdicas contribuiu
para o aprendizado e assimilação dos assuntos
abordados.
Conforme estabeleceu, em 1986, a Organização
Mundial da Saúde (OMS), o uso racional de
medicamentos requer “que os pacientes recebam
a medicação apropriada para sua situação
clínica, nas doses que satisfaçam as necessidades
individuais, por um período adequado, ao menor
custo possível” (GANDOLFI, 2006). O uso de
fármacos, contrariando esse preceito, é muito
prevalente e consiste em grave risco sanitário:
a própria OMS considera o problema um de
seus maiores desafios e estima que no planeta
“mais da metade de todos os medicamentos
são prescritos, dispensados ou vendidos
inapropriadamente e que metade dos pacientes
não os usam corretamente” (QUELUZ, 2007).
Em alguns casos, a população tem pouco controle
sobre a exposição a medicamentos indevidos. É
o que se apresenta, por exemplo, na ocorrência
de prescrições inapropriadas ou quando são
comercializados produtos com “qualidade,
segurança e eficácia comprometidas, como os
medicamentos falsos” (LUCHESSI et al, 2005).
Tais situações requerem medidas como maior
rigidez no controle da produção e distribuição
de fármacos e investimentos na formação de
prescritores mais qualificados, e, portanto,
fogem aos objetivos deste estudo.
Entretanto, em outros casos há contribuição
importante da coletividade, notavelmente
na
automedicação
indiscriminada,
no
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 139
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
EXPERIÊNCIA DE USO DE FERRAMENTAS LÚDICAS COMO
ESTRATÉGIA DE ABORDAGEM DO TEMA USO RACIONAL DE
MEDICAMENTOS PARA ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL.
armazenamento inadequado e no uso irracional
de substâncias “naturais” e herbais, situações
essas que refletem um posicionamento imaturo
frente ao uso de medicamentos.
A automedicação consiste na utilização
de um fármaco por um indivíduo ou seus
responsáveis sem supervisão de um profissional
de saúde habilitado (PEREIRA et al., 2007).
Em algumas situações ela é necessária por
questões socioeconômicas: o sistema de saúde
não permite que a população tenha acesso a
atendimento médico frente a qualquer sintoma
(NETO et al., 2006). Tal prática não deve
ocorrer, porém, com medicamentos que exigem
prescrição – o que comumente é feito ao adquirilos em farmácias que os fornecem ilegalmente
sem a exigir – ; ao utilizar receitas de amigos
ou familiares, ou antigas; ao consumir sobras de
remédios; ou, ainda, no ato de se negligenciar
as instruções dos receituários (LOYOLA FILHO
et al., 2006). Mesmo os medicamentos isentos
de prescrição “devem ser consumidos com
consciência e responsabilidade” (BRASIL, 2005),
respeitando as instruções do farmacêutico e da
bula. Quando isso não ocorre, há aumento
dos riscos diretos e indiretos de seu consumo
(intoxicações, reações adversas, mascaramento
de sintomas de doenças graves, resistência
bacteriana), inibem-se condutas preventivas
de saúde e são desviados recursos de áreas
como moradia e educação (BRASIL, 2005).
Inúmeras pesquisas indicam que o fenômeno da
automedicação desenfreada é preocupante em
todo o mundo (LOYOLA FILHO et al.., 2002) e
no Brasil (ARRAIS et al., 2007). Trabalhos que
estimam sua ocorrência no país são escassos,
pouco abrangentes e têm metodologias diversas,
alguns apontando taxas de 42,1% a 74% (idem;
SIMÕES & FARACHE FILHO, 1988; VILARINO
et al., 1998).
É muito comum, ainda, que a automedicação
ocorra pelo uso de medicamentos naturais,
herbais ou fitoterápicos, que são de venda
livre. Uma pesquisa realizada nos Estados
Unidos, em 1997, mostrou que 42% da
população havia utilizado itens do tipo, no ano
anterior; a prevalência é ainda maior em países
subdesenvolvidos. A grande frequência de uso
140 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
tem relação com a facilidade de obtenção;
com a promessa presente nos rótulos ou
veiculada na mídia de que tais produtos não
causam malefícios por serem naturais; e com
a tradição, pois o uso de plantas medicinais é
uma prática sedimentada e utilizada por muitas
famílias há gerações – afinal consiste em uma
das mais antigas formas de medicalização.
Ocorre, porém, que o controle das condições
de fabricação e comercialização desses itens
é muitas vezes falho; muitos não obtiveram
comprovação científica de suas propriedades
farmacológicas; os dispensadores não têm
preparo para orientar a população quanto à
forma adequada de uso; há possibilidade de
interação com outras drogas; e, frequentemente,
tais produtos oferecem toxicidade – o que
configura um sério problema de saúde pública
(JUNIOR, et al., 2006).
Também é preocupante o frequente hábito
de se guardar os medicamentos em locais
inapropriados. O armazenamento adequado e a
preservação são indispensáveis para manter as
características físicas, químicas e farmacológicas
dos mesmos e são fatores fundamentais para
a sua eficácia e segurança (BARROS et al.,
2007). Além disso, grande parte dos fármacos
utilizados para automedicação é guardado nos
domicílios, trazendo risco de serem utilizados,
sem supervisão, por crianças e podendo causar
intoxicações. Um levantamento realizado
em Santa Catarina evidenciou que mais de
metade dos medicamentos armazenados
em residências estavam expostos ao calor e
à umidade (SCHENKEL et al., 2005). Outro
estudo, no Piauí, permitiu constatar que mais da
metade estava ao alcance de crianças e, 15% ,
não possuíam qualquer identificação, sujeitos
a trocas que favorecem envenenamentos
(BARROS et al., 2007). A esse respeito, dados
do Sistema Nacional de Informações Tóxico
Farmacológicas (BORBOLETTO & BOCHNER,
1999) demonstraram que 27% dos casos
registrados de intoxicações entre 1993 e 1996
eram causados por medicamentos.
Contribui consideravelmente para todo esse
quadro o fato de grande parte da população
enxergar saúde como a simples ausência de
Tem-se pensado, ainda, em um modelo
condizente com a realidade, onde o indivíduo,
mesmo saudável, pode passar por momentos
em que esteja doente (IEVORLINO, 2000). O
ato de se medicar, entretanto, é muitas vezes
considerado uma “economia” de trabalho
pessoal, constituindo uma solução simples e
rotineira para qualquer problema de saúde.
Poupam-se esforços como exercer medidas
preventivas e higiênicas, ter uma alimentação
correta e praticar exercícios físicos. Esquecese do risco sanitário intrínseco a todos os
medicamentos e que eles de modo algum
substituem tais cuidados (VILARINO et al.,
1998).
Inúmeros estudos afirmam que essa mentalidade
é influenciada pela frequente exposição
da população a campanhas publicitárias
tendenciosas (BRASIL, 2005). O marketing
farmacêutico, que movimenta milhões de dólares
no mundo todo, muitas vezes atua de forma
não ética, privilegiando a ampliação de lucros
em detrimento da qualidade da informação
veiculada (BRASIL, 2005). São criadas
necessidades de saúde falsas, divulgam-se
informações não comprovadas por publicações
científicas ou promete-se cura ou bem-estar
sem considerar outras variáveis importantes
para uma vida saudável (BRASIL, 2009). Os
medicamentos são considerados produtos de
consumo, em vez de serem instrumentos a
serviço da promoção da saúde, estimulando-se
o uso irracional (BRASIL, 2005).
Diversos autores (ARRAIS et al., 1997;
SCHENKEL et al., 2005; NETO et al., 2006)
enfatizam a importância de programas
educativos que possibilitem à população um
uso mais consciente de medicamentos e a
prevenção de doenças. As escolas são apontadas
como ambientes propícios em razão de sua
capilaridade e abrangência (BRASIL, 2002).
Para o Ministério da Saúde, o desenvolvimento
de tais ações é fundamental, já que o período
escolar é uma época em que os jovens estão
criando e revendo seus hábitos (idem).
Desde o final do século 19 são previstas ações de
educação em saúde no Brasil e, desde a década
de 20, é prevista a participação das escolas no
processo (SILVA, 2007). Observamos, contudo,
diversas dificuldades relacionadas ao ensino
como um todo no Brasil, particularmente nas
escolas públicas: o mau preparo e as condições
de trabalho inadequadas dos educadores; o
pouco tempo semanal utilizado para o ensino de
Ciências; o fato de tais programas predominarem
no ensino médio, ao qual parcela importante
da população não tem acesso; a carência de
materiais didáticos específicos sobre o processo
saúde-doença (SCHALL et al., 1987). Além
disso, o jovem em idade escolar “já possui
conhecimentos, atitudes e práticas de saúde
adquiridos no lar” (LEONELLO & L´ABATTE,
2006) e há dificuldade em fazer com que os
conceitos adquiridos modifiquem práticas já
sedimentadas.
Catalán (LEONELLO & L´ABATTE, 2006)
observou ainda que, historicamente, há a
tendência de que as atividades de educação
em saúde sejam realizadas de “maneira
autoritária, impositiva e coercitiva e com caráter
exclusivamente informativo, dando ênfase à
prevenção das doenças”, atitude que estaria
cristalizada na prática de alguns profissionais.
Por outro lado, diversos autores lembram que
a educação em saúde na escola deve levar o
aluno ao comportamento inteligente, capaz de
analisar e avaliar diferentes fontes de informações
e fazer escolhas conscientes com base em seu
conhecimento (idem; GONÇALVES et al.,
2008). Fica claro, portanto, que as atividades
não devem ser a simples transmissão de ideias
que devem ser aceitas sem questionamento.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 141
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
doenças – e os medicamentos são vistos,
nesse contexto, como símbolos de saúde
(VILARINO et al., 1998) e do poder da ciência
e da tecnologia (BRASIL, 2005) no combate às
enfermidades. Cabe salientar que o conceito
atual de vida saudável transcende as questões
biológicas, abrangendo aspectos sociais,
culturais, ecológicos, psicológicos, econômicos
e valorizando o modo de vida, o acesso aos
serviços públicos de saúde, à educação, ao
trabalho, ao lazer, à alimentação, ao saneamento
básico entre outros (BRASIL, 2008).
O ideal é formar indivíduos que sejam agentes
no processo educativo e na construção de
reflexões sobre suas condições de vida e
de saúde (LEONELLO & L´ABATTE, 2006).
Estratégias de ensino que utilizam a ludicidade
têm conquistado espaço no panorama nacional,
sobretudo na educação infantil, e uma de suas
maiores vantagens é justamente a capacidade de
favorecer uma atitude proativa dos indivíduos
na situação de aprendizagem. A utilização de
brincadeiras colabora para o desenvolvimento
de habilidades como a interpretação, a tomada
de decisão, o levantamento de hipóteses,
a obtenção e organização de dados e o
enfrentamento de novas situações. Além disso,
as crianças são motivadas a usar a inteligência
e superar obstáculos, pois querem jogar bem.
Uma aula com características lúdicas, porém,
não depende necessariamente de jogos, mas sim
de comprometimento dos professores e alunos
a fim de tornar o momento de aprendizado
dinâmico e prazeroso (MAURÍCIO, 2006).
Na atualidade, uma das maiores iniciativas do
Brasil voltada à educação em saúde é o projeto
Educanvisa: Educação em Vigilância Sanitária,
criado em 2005 pela Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa).
O Educanvisa busca formar multiplicadores
dos conceitos e práticas desejáveis no uso de
medicamentos e na opção pela alimentação
saudável. É um dos projetos desenvolvidos
pela Agência para atingir as metas firmadas
com o Ministério da Saúde no Programa Mais
Saúde, integrante do Programa de Aceleração
do Crescimento (PAC) do Governo Federal
(BRASIL, 2009).
O projeto ocorre em diversas regiões e
atua capacitando professores e oferecendo
material didático aos mesmos. Em 2009, foram
realizados cursos de capacitação com cerca
de 200 unidades de ensino (BRASIL, 2009).
No município de Taboão da Serra, a Anvisa e
a Universidade de São Paulo (USP) realizaram
uma parceria, constituindo o Projeto de
Educação e Informação. Este foi o responsável
por organizar, entre outros eventos, uma oficina
142 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
de atividades lúdicas para algumas turmas
de alunos participantes do Educanvisa, aqui
descrita.
OBJETIVO
O objetivo foi criar atividades a serem
realizadas em escolas de ensino fundamental
para abordagem do tema Uso Racional de
Medicamentos, paralelamente às ações do
Projeto Educanvisa. Procurou-se utilizar
exercícios lúdicos e atividades não rotineiras
a fim de reforçar conceitos já trabalhados
durante o projeto, relativos à obtenção de uma
vida mais saudável. Definiu-se como meta
criar um ambiente onde os alunos pudessem,
por meio da brincadeira, da espontaneidade
e da imaginação, aprender e esclarecer suas
dúvidas.
MATERIAL E MÉTODOS
Foram planejados dois dias de atividades (17 e 18
de novembro de 2009), cada um com uma hora
de duração. As atividades foram desenvolvidas
com três turmas de alunos do quarto ano (atual
quinta série) do ensino fundamental na EMEF
Vinícius de Moraes no Município de Taboão da
Serra (SP), participante do projeto Educanvisa
durante três meses, aproximadamente. Cada
sala de aula era composta de cerca de trinta
alunos. A equipe realizadora foi composta por
universitários da Universidade de São Paulo
(USP).
Utilizou-se como roteiro, para guiar a sequência
de temas a serem abordados, dois livretos
institucionais da Anvisa: “A Informação é o
Melhor Remédio – o que vale a pena saber
sobre a propaganda e o uso de medicamentos”
(BRASIL, 2008) e “A Informação é o Melhor
Remédio – dicas para trabalhar com os vídeos e
os spots da campanha” (BRASIL, 2008).
As atividade realizadas nos dois dias de projeto,
se não eram estritamente lúdicas, utilizavam
materiais e outras formas de comunicação
que fogem à rotina das crianças. Houve a
preocupação de que o momento de aprendizado
fosse prazeroso para elas. A expectativa era
seguintes que não têm encaixe com as outras
e representam conceitos não relacionados à
saúde: doença, estresse, poluição, sedentarismo,
sujeira e comidas pouco saudáveis (Figura 2).
Os temas escolhidos e a estratégia de
abordagem foram: conceito de saúde e efeito
da vida moderna: quebra-cabeças; conceito
de medicamento e automedicação: vídeo;
cuidados em relação aos medicamentos: figuras
e brincadeira com uma criança voluntária;
propaganda de medicamentos: figuras e vídeo;
cuidados gerais com a saúde (saúde bucal,
tratamento de água e vacinação): teatro.
Planejou-se iniciar a atividade com uma
pergunta a toda a sala: “O que é saúde?”. Após
uma rápida discussão, seriam oferecidos à
turma três quebra-cabeças, que deveriam ser
montados por grupos de aproximadamente dez
alunos, para que a relação peça-aluno fosse
próxima de um e todos pudessem participar.
Os alunos teriam cerca de cinco minutos para a
montagem e em seguida se perguntaria a eles,
esclarecendo-os em seguida caso houvesse
necessidade: Qual a importância de cada uma
das peças que se encaixam na vida de um
indivíduo? Por que houve peças que não se
encaixaram? Por que não havia uma peça com
o desenho de um remédio?
PRIMEIRO DIA
a) Conceito de saúde e efeitos da vida
moderna: quebra-cabeça
O objetivo da primeira atividade planejada
seria verificar como os alunos entendem o
conceito de saúde e levá-los a reconhecer que
ela depende de diversos fatores e que não é
sinônimo de medicamento ou de ausência de
doenças. Para tanto, foi elaborado um quebracabeça de nove peças (Figura 1), onde cada
uma tem o desenho de um item importante para
a saúde: alimentação, moradia, descanso, lazer,
meio ambiente, paz, estudo e renda. Junto a
cada quebra-cabeça há duas peças dentre as
Figura 1 - Quebra-cabeça sobre saúde.
A seguir, seria dito rapidamente que a vida
moderna impõe um cotidiano apressado e
desregrado, e a falta de tempo muitas vezes
motiva as pessoas a ignorar os preceitos de uma
vida saudável. Por esse motivo, tem aumentado
a prevalência de problemas de saúde como
depressão, diabetes e hipertensão. Nesse
contexto, os medicamentos aparecem como a
solução, apesar de o seu uso sempre apresentar
um risco.
Figura 2 - Peças sem encaixe.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 143
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
que através da oficina elas aprendessem e
fixassem os temas relacionados ao uso racional
de medicamentos e que os levassem para sua
família e amigos.
b) Conceito de medicamento e
automedicação
A fim de discutir alguns conceitos básicos sobre
uso racional de medicamentos, produziu-se um
vídeo caseiro em que os autores são os próprios
universitários (Figura 3). A filmagem conta a
história de vida de uma bruxa caricata que tem
hábitos de vida nada saudáveis (come só doces
e lanches; gosta de sujeira; costuma fazer chá
com todas as ervas que vê pelo caminho etc.) e
acha que, se ficar doente, isso pode ser resolvido
facilmente ingerindo medicamentos por sua
conta. Ela possui muitos fármacos em sua casa
e toma-os sem qualquer responsabilidade, além
de distribuí-los e incentivar outras pessoas a
se automedicarem. A intenção do vídeo foi
chamar a atenção dos alunos para como os
medicamentos são vistos erroneamente como
uma solução “mágica”. A pretensão era que as
crianças criassem empatia com o mesmo, uma
vez que eles poderiam reconhecer os atores do
filme, além de que associassem a imagem da
bruxa a atitudes erradas que todos nós temos no
dia a dia. Questionar-se-ia, então, quais eram
os problemas retratados, salietando os perigos
das atitudes desregradas da bruxa.
Em seguida, seria abordado o próprio conceito
de medicamento, que é diferente de remédio:
“Medicamentos consistem em recursos utilizados
para curar ou aliviar dores, desconfortos e
doenças. São fórmulas elaboradas em farmácias,
hospitais ou empresas farmacêuticas e devem
atender às especificações técnicas e legais da
legislação brasileira de vigilância sanitária. Já
a palavra remédio, termo mais amplo, inclui
conceitos, além dos medicamentos, sobre
cuidados além dos medicamentos, sobre
cuidados e recursos terapêuticos com a mesma
finalidade” (BRASIL, 2008). Seria salientado
que, caso um indivíduo esteja doente, há outras
opções para a sua melhora, como descanso,
banho quente, psicoterapia, exercícios físicos,
fisioterapia, entre outros – os alunos seriam
inquiridos se conheciam outras opções. Nesse
momento seriam comentados os perigos das
substâncias “naturais”.
O último tema a ser abordado nessa parte
seria a automedicação. De forma simplificada,
através de esquemas na lousa em forma de
organogramas e remetendo ao vídeo da bruxa,
seria explicado o que é a automedicação,
e que a mesma pode causar males à saúde
(intoxicações) e dispêndio financeiro inútil –
destacando a importância do profissional da
saúde, médico ou farmacêutico.
Figura 3 - Vídeo caseiro da bruxa cujos hábitos de vida não são saudáveis.
144 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
d) Propaganda de medicamentos
Para explicar quais os cuidados necessários
com o medicamento a ideia foi utilizar fíguras
projetadas em slides. Os cuidados escolhidos
para serem comentados foram: examinar se
a embalagem está intacta, verificar a data
de validade, mantê-lo longe do alcance das
crianças e abrigá-lo num local seco, longe
do calor e da luz. Seria solicitado então a um
aluno voluntário que levasse uma caixinha
de medicamento falsa até a imagem (fig. 4)
que mostrava o local onde ele o armazenaria:
banheiro, na cozinha ou no quarto (melhor
local, onde o remédio pode ser armazenado em
lugar alto, sem umidade ou altas temperaturas).
Em seguida, proporíamos uma discussão das
vantagens e desvantagens de cada local.
A fim de explicar de que forma a indústria
farmacêutica induz a compra do medicamento,
foram coletadas algumas imagens de
propagandas famosas com a intenção de mostrar
para as crianças como elas são convincentes e
podem nos manipular. Em seguida, planejouse projetar um vídeo institucional da Anvisa,
que conta a história da propaganda de forma
cômica em preto e branco, ao estilo filme-mudo.
O filme mostra que desde tempos remotos
a propaganda de medicamentos tenta nos
convencer de que eles são a salvação e também
retrata a consequência da automedicação –
muitos personagens acabam se intoxicando.
Após o vídeo, haveria uma conversa sobre os
problemas que os alunos haviam observado.
Figura 4 - Qual o lugar ideal para armazenar o medicamento?
SEGUNDO DIA
O objetivo do segundo dia de atividades seria
salientar que alguns cuidados básicos (saúde
bucal, tratamento de água e vacinação) podem
contribuir para uma vida mais saudável e sem a
necessidade de medicamentos. As salas deveriam
ser divididas novamente em três grupos de
aproximadamente dez alunos em cada. Para
cada grupo seriam distribuídos alguns quadrinhos
de personagens famosos dos gibis infantis com
temas diversos relacionados à saúde para que
eles colocassem as estórias na ordem correta e
colassem em um cartaz (Figura 5).
Cada grupo ficaria responsável por organizar uma
estória diferente. Após montagem e colagem,
haveria um tempo para que ensaiassem e,
em seguida, com a participação de todos os
integrantes, a estória seria apresentada no
centro da sala para os colegas.
Além disso, a equipe do Projeto desenvolveu
uma cartilha de atividades chamada “Saúde
Divertida” (Figura 6) para que os alunos
recebessem no segundo dia, junto com giz de
cera e um lápis. A cartilha possui vários jogos e
desenhos para pintar: caça-palavras; palavrascruzadas; jogo dos erros; e liga-liga. Uma parte
da cartilha deveria ser feita em sala-de-aula e
as crianças seriam orientadas a terminar o resto
em casa.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 145
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
c) Cuidados com o medicamento
Figura 5 - Crianças colocam as estórias em quadrinhos na ordem correta.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A opção em adotar nossas impressões para
avaliar o sucesso das atividades, ao invés
de utilizar ferramentas quantitativas como
questionários, se deu em razão da riqueza e
importância das expressões e comportamentos
das crianças durante as atividades, mais
tangíveis; pela maior compatibilidade com a
aprendizagem que seria realizada; e também
por aspectos motivacionais.
Ao início do primeiro dia, a maioria das
crianças mostrou-se empolgada quando foi dito
que seriam realizadas algumas brincadeiras
sobre saúde. Em todas as classes, no entanto,
havia algumas que demonstraram apatia e
pareciam desatentas frente à primeira pergunta
(“O que é saúde?”). Nenhum aluno associou
imediatamente o conceito de saúde a um bemestar dependente de vários fatores. Quase todos
o associavam a “não ficar doente”; apenas
alguns falavam sobre conseguir brincar e fazer
lição com energia.
A aceitação do quebra-cabeça, no entanto, foi
praticamente unânime. Como imaginado, o fato
de cada aluno ficar com pelo menos uma peça
possibilitou que quase todos participassem. Em
cada um dos grupos, porém, foi natural que um
ou dois alunos mais extrovertidos assumissem
a liderança, organizando a atividade. Em todas
as vezes, o quebra-cabeça foi organizado
adequadamente.
Após o término da montagem, discutiu-se com
a sala toda os conceitos da brincadeira. Alguns
146 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
alunos na primeira turma, porém, dispersaram-se
em conversações paralelas ou ficaram mexendo
nas peças. Nas outras duas turmas, então, foi
decidido que a abordagem se desenvolveria
melhor se realizada com um universitário por
grupo, o que foi feito com sucesso. Todos os
desenhos foram compreendidos, exceto o que
se referia à moradia (alguns alunos pensaram
em “família”, o que também está correto, mas
não foi a exata intenção).
Na abordagem dos conceitos sobre vida
moderna e também durante o vídeo, as
crianças se mostraram atentas. A discussão dos
conceitos seguintes sobre medicamentos (o que
é um medicamento, automedicação, cuidados
com os medicamentos), porém, causou certa
dispersão. Talvez isto tenha ocorrido em razão
de as ideias serem complicadas e transmitidas
de forma predominantemente verbal e em
sequência. O vídeo institucional da Anvisa, no
entanto, causou animação e muitas crianças
opinaram, apontando corretamente os erros
mostrados.
O segundo dia começou com a pergunta “Quem
gosta de estórias em quadrinhos?” – a qual todos
responderam com um sonoro e entusiasmado
“sim”. As tirinhas foram, então, entregues aos
alunos e após a montagem distribuiu-se um
cartaz e cola para que as colassem na ordem
correta. Foi proposto um ensaio para que
representassem a estória em seguida. Os alunos
se mostraram motivados durante a atividade,
no entanto, nem todos quiseram se apresentar
devido à timidez. Aqueles que aceitaram
Um momento muito especial foi o da
distribuição das cartilhas junto com os giz-decera. Várias crianças perguntaram se teriam que
devolver o giz e diante da afirmativa de que era
um presente, ficaram muito felizes.
Na realização da primeira atividade da cartilha,
as palavras-cruzadas (Figura 7), os universitários
completaram com os alunos os itens mais
difíceis: 4, 6, 7 e 9. Os outros itens deveriam ser
preenchidos depois com o auxílio do professor
ou dos pais. Os estudantes se mostraram
animados e sugeriram respostas; alguns fizeram
até itens a mais do que os propostos.
O caça-palavras (Figura 7) não foi efetuado junto
com as crianças em razão da indisponibilidade
de tempo. Por isso, a proposta foi que eles o
realizassem depois. Mesmo assim, alguns
alunos começaram a dizer as palavras que
haviam encontrado, provavelmente como uma
espécie de disputa entre eles.
O jogo dos erros (Figura 8) notoriamente foi
a atividade que as crianças mais gostaram.
Observou-se que, por iniciativa própria, a
maioria não só pintou de vermelho o lado da
pílula correspondente a uma atitude errada,
mas também coloriu de verde o lado que se
referia à atitude certa. Apenas o item sobre
propaganda trouxe certa dificuldade. Foi então
reafirmado que apenas os isentos de prescrição
são permitidos em anúncios.
Na realização da quarta e última atividade
da cartilha, o liga-liga (Figura 9), as crianças
primeiro teriam que pintar as tarjas dos
medicamentos da cor indicada e em seguida
ligá-los à classe correspondente. Algumas
crianças tiveram problemas e, por isso, a equipe
se dispersou pela sala na ideia de atender a
todas as dúvidas.
É interessante observar que não houve grandes
incidentes de mau comportamento e a maior
parte dos alunos se mostrou colaborativa
durante os dois dias da oficina – foi observado,
também, que alguns grupos discutiam os temas
apresentados entre si durante as atividades.
As atividades realizadas estão de acordo com
a afirmativa “Para aprender é preciso refazer
e recriar o que já foi falado ou feito” (SÃO
PAULO, 1997), uma vez que refizeram e
recriaram muitas vezes temas anteriormente
retratados. No entanto, sabe-se que educação
em saúde na escola não se faz em poucos
dias, mas depende de um contato constante do
indivíduo com tal assunto durante a sua vida
escolar (IEVORLINO, 1983). O relato dessa
experiência tem a intenção de incentivar mais
atividades de educação em saúde e discussões
a respeito do uso racional de medicamentos.
Figura 6: Parte externa da cartilha “Saúde Divertida”.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 147
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
dividiram as falas dos personagens entre si,
ensaiaram e depois se apresentaram no centro
da sala. O entendimento da estória de alguns
grupos ficou prejudicado, pois certos alunos
falaram baixo ou tiveram dificuldades em ler.
Por isso, todos os quadrinhos foram lidos pela
equipe em voz alta após o teatrinho. Além disso,
um cartaz de cada estória foi deixado na escola
para que os professores colassem no pátio, à
vista de todos os estudantes da escola.
Figura 7: Parte externa da cartilha “Saúde Divertida”.
Figura 8: Parte externa da cartilha “Saúde Divertida”.
148 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
Figura 9: liga-liga e respostas
CONSIDERAÇÕES FINAIS
AGRADECIMENTOS
Entende-se que o desenvolvimento do Projeto
de Educação e Informação, paralelamente ao
Projeto Educanvisa, obteve resultados positivos. Eles foram complementares ao reforçar o
tema Uso Racional de Medicamentos, o que
contribuiu para o aprendizado e entendimento
dos estudantes.
Os autores agradecem à Organização PanAmericana da Saúde pelo financiamento, à
Anvisa pelo suporte e à Fundação Instituto de
Pesquisas Farmacêuticas pela administração do
projeto.
A oficina foi uma amostra de como a utilização
de ferramentas lúdicas é possível e proveitosa
para o aprendizado da criança em temas voltados à saúde.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 149
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CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 151
AÇÕES DE EDUCAÇÃO
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PARTE 2
AÇÕES DE informaÇÃO
Universidade Estadual de Londrina (UEL)
Ester Massae Okamoto Dalla Costa1; Eliane Saori Otaguiri2; Gustavo H. Oliveira de Paula2; Lucas Katsui
Utsunomia2; Rafael Dezorzi3, Rogério Toyama3.
1 - Docente da Universidade Estadual de Londrina – UEL.
2 - Acadêmicos do Curso de Farmácia – Universidade Estadual de Londrina – UEL.
3 - Acadêmicos do Curso de Medicina – Universidade Estadual de Londrina – UEL.
INTRODUÇÃO
A automedicação é definida como o ato de
administrar remédio sem prescrição médica,
com o objetivo de curar patologias ou de
diminuir seus sintomas, sendo que a seleção
e o uso de medicamentos são realizados por
indivíduos inaptos para tal (OGLIARI, 2004). O
medicamento tem forte influência e presença
na vida das pessoas (DA SILVA et al., 2009).
Para Barros (1995), o medicamento é destacado
como objeto mágico, que permite ao paciente
ter a sensação de poder sobre seus sintomas. A
automedicação é um fenômeno potencialmente
nocivo à saúde individual e coletiva, pois
nenhum medicamento é inócuo ao organismo
(VILARINO, 1998).
Entre todos os países da América Latina, a
população brasileira é uma das que apresenta
maior tendência para comprar medicamentos
sem consulta médica, segundo a Organização
Mundial da Saúde (OMS). Pesquisa realizada
pela Market Analysis Brazil, com 800 adultos
residentes em oito das principais capitais do
país, indica que 63% dos brasileiros que se
autoavaliam como possuindo uma saúde
excelente consomem medicamentos; isto
evidencia que, mesmo sem necessidade
aparente, o brasileiro consome algum tipo
de remédio. O número de entrevistados que
compra medicamentos aumenta e, conforme o
grau de exposição à mídia, fica mais intenso:
76% dos entrevistados que exibem um grau
de exposição forte à mídia compram algum
tipo de medicamento, enquanto 53% dos
que apresentam um fraco grau de exposição
realizam essa aquisição. Os resultados revelam
dependência significativa entre a exposição à
mídia e a compra de medicamentos (MARKET
ANALYSIS BRASIL, 2005).
O rádio faz parte do cotidiano de muitos
brasileiros e tem um grande poder de penetração
na população; as empresas de publicidade têm
ciência disto, fato que é refletido através de
dados. De acordo com o Grupo de Mídia São
Paulo (MÍDIA DADOS BRASIL, 2009), existe
3.988 emissoras de rádio no Brasil (Anatel,
2008, levantamento preparado pelo Núcleo
de Mídia da Secretaria de Comunicação Social
da Presidência da República); 91,5% dos
domicílios brasileiros possuem rádio (Projeção
Grupo de Mídia); há 82% de penetração de
rádios AM e FM (fonte: Ipsos Marplan Pesquisas)
e, em 2008, o faturamento publicitário bruto no
rádio alcançou pouco mais de R$ 900 milhões
(Projeto Intermeios).
A indústria farmacêutica, que investe milhões
em pesquisas buscando a cura das doenças,
também está entre as empresas que investem
alto em todo tipo de marketing e propaganda
para vender seus produtos. O uso da mídia
de massa para publicidade legitima suas
mensagens, alcançando enorme contingente de
pessoas (DE JESUS, 2004).
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 155
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
A PROMOÇÃO DA SAÚDE PELAS ONDAS DO RÁDIO: ANÁLISE
DO IMPACTO DE AÇÕES DE INFORMAÇÃO E EDUCAÇÃO PARA
PROFISSIONAIS DE RÁDIO
As propagandas tentam seduzir o consumidor
psicologicamente, tocando nos pontos mais
vulneráveis e de maior importância na sua vida,
levando em consideração o papel que cada
pessoa desempenha dentro de um contexto de
sociedade proposto ou aceito. A propaganda
de produtos ligados à saúde deveria aterse a informações racionais e corretas, no
entanto, o que se observa é a predominância
de apelos emocionais; além disso, a maioria
das peças publicitárias não apenas omite
informações fundamentais a respeito de
cuidados, reações adversas e contraindicações,
como frequentemente enfatiza a ausência de
riscos, induzindo ao uso indiscriminado de
medicamentos (HEINECK et al., 1998).
A sociedade, os profissionais de saúde e os
legisladores brasileiros há muito se preocupam
com a produção e o uso de medicamentos
e demais produtos sujeitos à vigilância
sanitária. Em 1931, o Decreto nº 20.377, que
regulamentou a profissão do farmacêutico,
já apresentava restrições aos anúncios de
medicamentos. Desde então, a legislação
sanitária deu um grande avanço rumo à
regulamentação e normatização dos produtos e
serviços de saúde. A lei de criação da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Lei
nº 9.782, de 26 de janeiro de 1999, confere à
Agência a competência de estabelecer normas,
propor, acompanhar e executar as políticas, as
diretrizes e as ações de vigilância sanitária, bem
como controlar, fiscalizar e acompanhar, sob o
prisma da legislação sanitária, a propaganda
e a publicidade de produtos submetidos ao
regime de vigilância sanitária (BRASIL, 2009).
Desde a publicação da Resolução de Diretoria
Colegiada n° 102, em 30 de novembro de
2000 (RDC n° 102/2000) e, recentemente,
com a publicação da Resolução da Diretoria
Colegiada n° 96, de 17 de dezembro de 2008
(RDC n° 96/2008), as propagandas, mensagens
publicitárias e promocionais e outras práticas
cujo objeto seja a divulgação, promoção e/ou
comercialização de medicamentos passaram a
ser regulamentadas (BRASIL, 2000).
O presente trabalho faz parte das atividades da IV
fase do Projeto de Monitoração de Propaganda
156 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
de Medicamentos e Produtos sujeitos à
Vigilância Sanitária, da Anvisa, em parceria com
a Universidade Estadual de Londrina (UEL), e
tem por objetivo analisar e apresentar o impacto
das informações e orientações transmitidas por
meio do simpósio “A Promoção da Saúde Pelas
Ondas do Rádio” a profissionais de emissoras
de rádio dos municípios de Londrina e Maringá,
do Estado do Paraná, e demais participantes,
sobre aspectos referentes às propagandas de
medicamentos.
MATERIAIS E MÉTODOS
Foi feita uma revisão de literatura com
artigos científicos encontrados em bases de
pesquisa (Medline, Lilacs, Google Acadêmico,
Bireme, SciELO, dentre outros), com o uso de
descritores “publicidade de medicamentos”,
“automedicação”
e
“legislação
de
medicamentos”, no período de julho a agosto
de 2009.
Foram elaborados um Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido e um questionário composto
de 18 questões relacionadas aos temas: fatores
de influência na compra de medicamentos;
influência da propaganda na compra de
medicamentos; normas relacionadas às
propagandas de medicamentos; riscos sanitários
relacionados às propagandas de medicamentos;
e responsabilidade das emissoras de rádio em
relação às propagandas de medicamentos.
Um simpósio intitulado “A Promoção da
Saúde pelas Ondas do Rádio” foi realizado,
com a presença de 40 participantes, sendo
dez profissionais de rádio (dois do município
de Maringá e oito do município de Londrina),
oito outros profissionais e mais 22 estudantes.
O simpósio teve a duração de quatro horas e
abordou os temas: o papel da vigilância sanitária
e a monitoração e fiscalização de propaganda
de produtos sujeitos à vigilância sanitária;
principais erros e infrações na propaganda de
medicamentos e alimentos; e o papel dos meios
de comunicação na publicidade de produtos
sujeitos à vigilância sanitária. Antes e após
o simpósio, o termo de consentimento e os
No período de novembro a dezembro de 2009,
os dados foram tabulados e analisados, com a
conclusão do presente trabalho.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Após o simpósio, 17 pessoas responderam ao
questionário, sendo cinco profissionais de rádio
(29,4%); três outros profissionais (17,6%) e nove
estudantes (53,0%). Não houve levantamento,
no pós-simpósio, da escolaridade nem do tempo
de atuação na área radiofônica dos profissionais
de rádio, da formação dos outros profissionais e
dos cursos de graduação, assim como o ano de
curso dos estudantes.
A tabela 1 mostra o perfil dos participantes que
responderam ao questionário, antes e após o
simpósio. Antes do evento, 28 questionários
foram respondidos; dentre estes, nove foram
respondidos por profissionais de rádio (32%),
seis por outros profissionais (21,5%) e 13 por
estudantes (46,5%). Dos nove profissionais
de rádio participantes da pesquisa, quatro são
formados em Comunicação Social/Jornalismo
(44,5%); dois são formados em Serviço Social
(22,2%); um é graduado em Psicologia (11,1%);
um tem formação em Pedagogia (11,1%); e um
possui Ensino Médio completo (11,1%).
As tabelas 2 e 3 mostram, respectivamente,
a opinião dos participantes, antes e após a
realização do simpósio, sobre qual o fator que
mais influencia a compra de um medicamento.
A tabela 4 mostra a resposta dos participantes,
antes e após a realização do evento, em
relação à compra de medicamentos sem receita
médica.
No que se refere ao tempo de atuação
dos participantes na área de comunicação
radiofônica: um possui um ano de atuação
(11,1%); um possui três anos (11,1%); um possui
15 anos (11,1%); um atua há 20 anos (11,1%);
um trabalha na área faz 30 anos (11,1%); dois
possuem 40 anos de atuação (22,2%); e dois
participantes não responderam (22,2%). Dos
seis outros profissionais que responderam ao
A tabela 5 apresenta a opinião dos participantes,
antes e após a realização do simpósio, sobre
a influência da propaganda na compra de
medicamentos.
Tabela 1 – Perfil dos participantes do simpósio que responderam ao questionário.
Pré-simpósio
Pós-Simpósio
n
%
n
%
Profissionais de rádio
9
32,0
5
29,4
Outros Profissionais
6
21,5
3
17,6
Estudantes
13
46,5
9
53,0
Total de questionários respondidos
28
100,0
17
100,0
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 157
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
questionário, seis são farmacêuticos bioquímicos
(100%). Dos 13 estudantes respondentes, um
é estudante do 3° ano do curso de Jornalismo
(7,7%) e 12 são estudantes do curso de Farmácia
(92,3%); destes, dois são estudantes do 2° ano
do curso de Farmácia (16,7%); oito são do 3°
ano (66,6%) e dois são do 5° ano (16,7%).
questionários foram aplicados para avaliação
dos conhecimentos de cada participante.
Tabela 2 – Fator que mais influencia a compra de um medicamento, por categoria - respostas pré-simpósio.
Fatores
Profissionais
de rádio
n
Outros
Profissionais
%
n
Estudantes
%
n
Total
%
n
%
Amigos, familiares, vizinhos
5
55,6
2
33,3
2
15,4
9
32,1
Propaganda
1
11,1
1
16,7
4
30,8
6
21,4
Preço
0
0,0
2
33,3
3
23,1
5
17,8
Outros
3
33,3
1
16,7
1
7,7
5
17,8
Balconista
0
0,0
0
0,0
2
15,4
2
7,1
Não respondeu
0
0,0
0
0,0
1
7,7
1
3,6
Total
9
100,0
6
100,0
13
100,0
28
100,0
Tabela 3 – Fator que mais influencia a compra de um medicamento, por categoria - respostas pós-simpósio.
Fatores
Profissionais
de rádio
Outros
Profissionais
Estudantes
Total
n
%
n
%
n
%
n
%
Amigos, familiares, vizinhos
4
80,0
0
0
2
22,2
6
35,3
Propaganda
1
20,0
1
33,3
4
44,5
6
35,3
Preço
0
0,0
1
33,3
1
11,1
2
11,8
Outros
0
0,0
1
33,3
1
11,1
2
11,8
Balconista
0
0,0
0
0,0
0
0,0
0
0,0
Não respondeu
0
0,0
0
0,0
1
11,1
1
5,9
Total
5
100,0
3
100,0
9
100,0
17
100,0
Tabela 4 – Compra de medicamentos sem receita médica, por categoria – respostas pré e pós simpósio.
PRÉ-SIMPÓSIO
Profissionais
de rádio
Outros
Profissionais
Estudantes
Total
n
%
n
%
n
%
n
%
SIM
7
77,8
6
100,0
13
100,0
26
92,8
NÃO
0
0,0
0
0,0
0
0,0
0
0,0
NR
2
22,2
0
0,0
0
0,0
2
7,2
Total
9
100,0
6
100,0
13
100,0
28
100,0
PÓS-SIMPÓSIO
Profissionais
de rádio
Outros
Profissionais
Estudantes
Total
n
%
n
%
n
%
n
%
SIM
5
100,0
3
100,0
9
100,0
17
100,0
NÃO
0
0,0
0
0,0
0
0,0
0
0,0
NR
0
0,0
0
0,0
0
0,0
0
0,0
Total
5
100,0
3
100,0
9
100,0
17
100,0
158 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
Tabela 5 – Influência da propaganda na compra de medicamentos, por categoria –
respostas pré e pós simpósio.
PRÉ-SIMPÓSIO
Profissionais de
rádio
Outros
Profissionais
Estudantes
Total
Influência
n
%
n
%
n
%
n
%
Alta
4
44,5
4
66,7
10
76,9
18
64,4
Média
2
22,2
2
33,3
2
15,4
6
21,4
Baixa
2
22,2
0
0,0
0
0,0
2
7,1
Não-Influencia
1
11,1
0
0,0
1
7,7
2
7,1
Não sei
0
0,0
0
0,0
0
0,0
0
0,0
Não respondeu
0
0,0
0
0,0
0
0,0
0
0,0
Total
9
100,0
6
100,0
13
100,0
28
100,0
PÓS-SIMPÓSIO
Profissionais de
rádio
Influência
n
%
Outros
Profissionais
n
%
Estudantes
n
%
Total
n
%
Alta
4
80,0
3
100,0
8
88,8
15
88,2
Média
1
20,0
0
0,0
1
11,2
2
11,8
Baixa
0
0,0
0
0,0
0
0,0
0
0,0
Não-Influencia
0
0,0
0
0,0
0
0,0
0
0,0
Não sei
0
0,0
0
0,0
0
0,0
0
0,0
Não respondeu
0
0,0
0
0,0
0
0,0
0
0,0
Total
5
100,0
3
100,0
9
100,0
17
100,0
As tabelas 6 e 7 demostram, respectivamente, o
conhecimento dos participantes, antes e após a
realização do simpósio, em relação às normas
que regem as propagandas e a publicidade de
medicamentos, de alimentos e de produtos
relacionados à saúde.
A tabela 8 traz o conhecimento “pré-simpósio”
dos participantes em relação à obrigatoriedade
da presença de informações em uma
propaganda de medicamentos. A tabela 9 traz
o conhecimento “pós-simpósio”.
Tabela 6 – Conhecimento das normas que regem as propapandas e a publicidade de medicamentos,
alimentos e produtos relacionados à saúde, por categoria – respostas pré simpósio.
Conhecimento
Profissionais de
rádio
Outros
Profissionais
Estudantes
Total
n
%
n
%
n
%
n
%
Não conheço, e nunca ouvi falar
1
11,1
0
0,0
0
00,0
1
3,6
Não conheço, mas já ouvi falar
1
11,1
0
0,0
1
7,7
2
7,1
Conheço, mas pouco
7
77,8
4
66,7
11
84,6
22
78,6
Conheço plenamente
0
0,0
1
16,7
1
7,7
2
7,1
Não respondeu
0
0,0
1
16,7
0
0,0
1
3,6
Total
9
100,0
6
100,0
13
100,0
28
100,0
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 159
Tabela 7 – Conhecimento das normas que regem as propapandas e a publicidade de medicamentos,
alimentos e produtos relacionados à saúde, por categoria – respostas pós simpósio.
Conhecimento
Profissionais de
rádio
Outros
Profissionais
Estudantes
Total
n
%
n
%
n
%
n
%
Não conheço, e nunca ouvi falar
0
0,0
0
0,0
0
0,0
0
0,0
Não conheço, mas já ouvi falar
0
0,0
0
0,0
0
0,0
0
0,0
Conheço, mas pouco
4
80,0
2
66,7
7
77,8
13
76,5
Conheço plenamente
1
20,0
1
33,3
1
11,1
3
17,6
Não respondeu
0
0,0
0
0
1
11,1
1
5,9
Total
5
100,0
3
100,0
9
100,0
17
100,0
Tabela 8 – Conhecimento dos participantes em relação à obrigatoriedade da presença de
informações em uma propaganda de medicamentos – pré-simpósio.
INFORMAÇÕES
SIM
n
%
NÃO
n
%
NÃO SEI
n
%
NÃO
RESPONDEU
n
%
Total
n
%
Contraindicações
27
96,4
1
3,6
0
0,0
0
0,0
28
100,0
Nome Comercial
17
60,7
6
21,4
2
7,1
3
10,7
28
100,0
Princípios ativos
21
75,0
2
7,1
2
7,1
3
10,7
28
100,0
Nº registro na Anvisa
19
67,8
7
25,0
2
7,1
0
0,0
28
100,0
Endereço da empresa
10
35,7
11
39,3
3
10,7
4
14,3
28
100,0
100,0
0
0,0
0
0,0
0
0,0
28
100,0
Telefone do serviço de atendimento 28
ao consumidor
MSG1
26
92,8
2
7,1
0
0,0
0
0,0
28
100,0
Nome do responsável técnico
12
42,8
14
50,0
2
7,1
0
0,0
28
100,0
MSG2
9
32,1
13
46,4
5
17,9
1
3,6
28
100,0
EXPRS
12
42,8
14
50,0
0
0,0
2
7,1
28
100,0
Preço sugerido ao consumidor
18
64,3
6
21,4
2
7,1
2
7,1
28
100,0
Nome da empresa de publicidade
responsável pela propaganda.
10
35,7
10
35,7
5
17,9
3
10,7
28
100,0
MSG1: a mensagem “A PERSISTIREM OS SINTOMAS O MÉDICO DEVERÁ SER CONSULTADO”; MSG2: mensagens de
“aprovado”, “recomendado por especialista”, “aprovado pelo FDA americano”; EXPRS: expressões como “inócuo”, “seguro”,
“produto natural”.
Tabela 9 – Conhecimento dos participantes em relação à obrigatoriedade da presença de informações em uma propaganda de medicamentos – pós-simpósio.
INFORMAÇÕES
Contraindicações
SIM
NÃO
NÃO SEI
NÃO
RESPONDEU
Total
n
%
n
%
n
%
n
%
n
%
17
100,0
0
0,0
0
0,0
0
0,0
17
100,0
Nome Comercial
14
82,3
2
11,8
0
0,0
1
5,9
17
100,0
Princípios ativos
15
88,2
2
11,8
0
0,0
0
0,0
17
100,0
Nº registro na Anvisa
10
58,8
6
35,3
0
0,0
1
5,9
17
100,0
Endereço da empresa
5
29,4
8
47,1
1
5,9
3
17,6
17
100,0
82,3
2
11,8
0
0,0
1
5,9
17
100,0
Telefone do serviço de atendimento 14
ao consumidor
160 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
16
94,1
0
0,0
0
0,0
1
5,9
17
100,0
Nome do responsável técnico
7
41,2
8
47,1
0
0,0
2
11,8
17
100,0
MSG2
4
23,5
12
70,6
0
0,0
1
5,9
17
100,0
EXPRS
4
23,5
12
70,6
0
0,0
1
5,9
17
100,0
Preço sugerido ao consumidor
9
52,9
7
41,2
0
0,0
1
5,9
17
100,0
Nome da empresa de publicidade
responsável pela propaganda.
6
35,3
9
52,9
0
0,0
2
11,8
17
100,0
MSG1: a mensagem “A PERSISTIREM OS SINTOMAS O MÉDICO DEVERÁ SER CONSULTADO”; MSG2: mensagens de
“aprovado”, “recomendado por especialista”, “aprovado pelo FDA americano”; EXPRS: expressões como “inócuo”, “seguro”,
“produto natural”.
A tabela 10 apresenta o conhecimento présimpósio dos participantes em relação à
obrigatoriedade da presença de informações em
uma propaganda de medicamentos veiculada
em rádio. A tabela 11 fornece a opinião póssimpósio.
Ao perguntar se a propaganda de medicamentos
pode trazer riscos à saúde da população, tanto
no pré quanto no pós simpósio, os participantes
foram unânimes em responder que sim. A tabela
12 traz os tipos de riscos à saúde, de acordo
com a opinião dos participantes.
Tabela 10 – Conhecimento dos participantes em relação à obrigatoriedade da presença de informações
em uma propaganda de medicamentos veiculada em rádio – pré-simpósio.
INFORMAÇÕES
SIM
NÃO
NÃO SEI
NÃO
RESPONDEU
Total
n
%
n
%
n
%
n
%
n
%
Contraindicações
24
85,7
1
3,6
0
0,0
3
10,7
28
100,0
Nome Comercial
22
78,5
3
10,7
1
3,6
2
7,1
28
100,0
Princípios ativos
18
64,3
3
10,7
3
10,7
4
14,3
28
100,0
Nº registro na Anvisa
13
46,4
9
32,1
2
7,1
4
14,3
28
100,0
Endereço da empresa
5
17,8
15
53,6
4
14,3
4
14,3
28
100,0
Telefone do serviço de atendimento 24
ao consumidor
85,7
2
7,1
1
3,6
1
3,6
28
100,0
MSG1
25
89,3
2
7,1
0
0,0
1
3,6
28
100,0
Nome do responsável técnico
5
17,8
16
57,1
3
10,7
4
14,3
28
100,0
MSG2
10
35,7
12
42,8
2
7,1
4
14,3
28
100,0
EXPRS
6
21,4
15
53,6
3
10,7
4
14,3
28
100,0
Preço sugerido ao consumidor
14
50,0
10
35,7
1
3,6
3
10,7
28
100,0
Nome da empresa de publicidade
responsável pela propaganda.
8
28,6
14
50,0
2
7,1
4
14,3
28
100,0
MSG1: a mensagem “A PERSISTIREM OS SINTOMAS O MÉDICO DEVERÁ SER CONSULTADO”; MSG2: mensagens de
“aprovado”, “recomendado por especialista”, “aprovado pelo FDA americano”; EXPRS: expressões como “inócuo”, “seguro”,
“produto natural”.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 161
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
MSG1
Tabela 11 – Conhecimento dos participantes em relação à obrigatoriedade da presença de informações em uma propaganda de medicamentos veiculada em rádio – pós-simpósio.
INFORMAÇÕES
SIM
NÃO
NÃO SEI
NÃO
RESPONDEU
Total
n
%
n
%
n
%
n
%
n
%
Contraindicações
16
94,1
1
5,9
0
0,0
0
0,0
17
100,0
Nome Comercial
16
94,1
1
5,9
0
0,0
0
0,0
17
100,0
Princípios ativos
14
82,3
2
11,8
0
0,0
1
5,9
17
100,0
Nº registro na Anvisa
5
29,4
11
64,7
0
0,0
1
5,9
17
100,0
Endereço da empresa
3
17,6
11
64,7
0
0,0
3
17,6
17
100,0
58,8
5
29,4
0
0,0
2
11,8
17
100,0
Telefone do serviço de atendimento 10
ao consumidor
MSG1
16
94,1
0
7,1
0
0,0
1
3,6
17
100,0
Nome do responsável técnico
3
17,6
11
64,7
0
0,0
3
17,6
17
100,0
MSG2
5
29,4
11
64,7
0
0,0
1
5,9
17
100,0
EXPRS
4
23,5
11
64,7
0
0,0
2
11,8
17
100,0
Preço sugerido ao consumidor
8
47,1
8
47,1
0
0,0
1
5,9
17
100,0
Nome da empresa de publicidade
responsável pela propaganda.
5
29,4
10
58,8
0
0,0
2
11,8
17
100,0
MSG1: a mensagem “A PERSISTIREM OS SINTOMAS O MÉDICO DEVERÁ SER CONSULTADO”; MSG2: mensagens de
“aprovado”, “recomendado por especialista”, “aprovado pelo FDA americano”; EXPRS: expressões como “inócuo”, “seguro”,
“produto natural”.
Tabela 12 – Riscos que a propaganda de medicamentos pode trazer à saúde da população – pré e
pós simpósio.
PRÉ-SIMPÓSIO
PÓS-SIMPÓSIO
n
%
n
%
Automedicação
27
96,4
16
94,1
Uso indevido, sem necessidade
24
85,7
17
100,0
Uso para indicação não aprovada
23
82,1
17
100,0
Uso incorreto
24
85,7
17
100,0
Uso contraindicado
23
82,1
17
100,0
Outros
4
14,3
3
17,6
A tabela 13 exibe o conhecimento dos
participantes, pré e pós simpósio, em relação
à promoção comercial de medicamentos
na mídia leiga. Já a tabela 14 traz a opinião
dos participantes em relação aos tipos de
medicamentos que podem ser promovidos.
A tabela 15 demonstra, de acordo com a
opinião dos participantes, as propagandas de
produtos relacionados à saúde mais comuns
nas emissoras de rádio.
162 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
A tabela 16 aponta, segundo a opinião dos
participantes, se uma emissora de rádio pode
ser responsabilizada por uma propaganda de
medicamento irregular.
As tabelas 17 e 18 mostram, respectivamente,
o conhecimento dos participantes pré e pós
simpósio, em relação ao que é preciso que uma
emissora de rádio verifique antes de anunciar
qualquer produto sujeito à vigilância sanitária.
PRÉ-SIMPÓSIO
PÓS-SIMPÓSIO
n
%
n
%
Todo medicamento pode ser promovido
1
3,6
1
5,9
Nem todos os medicamentos podem ser
24
85,7
16
94,1
Nenhum medicamento pode ser promovido
3
10,7
0
0,0
TOTAL
28
100,0
17
100,0
Tabela 14 – Tipo de medicamentos que podem ser promovidos comercialmente na mídia leiga.
PRÉ-SIMPÓSIO
PÓS-SIMPÓSIO
n
%
n
%
Medicamento de venda isenta de prescrição
23
82,1
17
100,0
Medicamento de venda sob prescrição
1
3,6
0
0,0
Medicamento de venda sob controle especial
1
3,6
0
0,0
Nenhum
1
3,6
0
0,0
Não respondeu
2
7,1
0
0,0
TOTAL
28
100,0
17
100,0
Tabela 15 – Propagandas de produtos relacionados à saúde mais comuns nas emissoras de rádio.
PRÉ-SIMPÓSIO
PÓS-SIMPÓSIO
n
%
n
%
Medicamentos alopáticos
12
42,8
4
23,5
Medicamentos homeopáticos
3
10,7
3
17,6
Medicamentos fitoterápicos
11
39,3
8
47,1
Alimentos funcionais
9
32,1
11
64,7
Não sei
2
7,1
1
5,9
Não respondeu
0
0,0
1
5,9
Tabela 16 – Responsabilidade de emissora de rádio em relação à propaganda de medicamento
irregular.
PRÉ-SIMPÓSIO
PÓS-SIMPÓSIO
n
%
n
%
Emissora de rádio pode ser responsabilizada
18
64,3
17
100,0
Emissora de rádio não pode ser responsabilizada
2
7,1
0
0,0
Não sei
7
21,4
0
0,0
Não respondeu
1
3,6
0
0,0
TOTAL
28
100,0
17
100,0
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 163
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
Tabela 13 – Conhecimento dos participantes em relação à promoção comercial de medicamentos
na mídia leiga.
Tabela 17 – Informações que a emissora de rádio precisa verificar antes de anunciar qualquer
produto sujeito à vigilância sanitária – pré-simpósio.
SIM
NÃO
NÃO SEI
NÃO
RESPONDEU
n
%
n
%
n
%
n
%
Produto tem registro na Anvisa
23
82,1
1
3,6
4
0,0
0
0,0
Anúncio está em conformidade com a
Legislação Sanitária
22
78,5
1
3,6
5
0,0
0
0,0
Produto realmente funciona
8
28,6
6
21,4
9
0,0
4
14,3
Empresa anunciante está legalmente
estabelecida
22
78,5
6
21,4
0
0,0
0
0,0
Medicamento é isento de prescrição
médica
22
78,5
0
0,0
6
21,4
0
0,0
Tabela 18 – Informações que a emissora de rádio precisa verificar antes de anunciar qualquer
produto sujeito à vigilância sanitária – pós-simpósio.
SIM
n
%
NÃO
n
%
NÃO SEI
n
%
NÃO
RESPONDEU
n
%
Produto tem registro na Anvisa
17
100,0
0
0,0
0
0,0
0
0,0
Anúncio está em conformidade com a
Legislação Sanitária
17
100,0
0
0,0
0
0,0
0
0,0
Produto realmente funciona
10
58,8
4
23,5
1
5,9
2
11,8
Empresa anunciante está legalmente
estabelecida
16
94,1
1
5,9
0
0,0
0
0,0
Medicamento é isento de prescrição
médica
17
100,0
0
0,0
0
0,0
0
0,0
164 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
BARROS, J. A. C. Propaganda de medicamentos:
atentado à saúde? São Paulo: Hucitec, 1995.
BRASIL. Resolução RDC nº 102, de 30 de
novembro de 2000. Diário Oficial da
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DF, 1º de dezembro de 2000. Disponível
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Sanitária. Nas ondas do rádio: orientações
e dicas para comunicadores de rádio sobre a
propaganda de medicamentos. Brasília: Anvisa,
2008.
Disponível
em:<http://www.anvisa.
gov.br/propaganda/educacao_saude/guia_
orientacoes_radio_atualizado_final.pdf>.Acesso
em 27/11/2009.
BRASIL. Resolução RDC nº 96, de 17 de
dezembro de 2008. Diário Oficial da República
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dezembro de 2008. Disponível em: <http://
e-legis.anvisa.gov.br/leisref/public/showAct.
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Acesso em 28/06/2009.
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com 800 adultos (18-69 anos) através de
entrevistas pessoais no domicílio em oito das
principais capitais do país (São Paulo, Rio de
Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Salvador,
Curitiba, Porto Alegre e Brasília). Novembro
e Dezembro de 2005. Margem de erro= ±
3,46%.
MÍDIA DADOS BRASIL 2009. São Paulo: Grupo
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midiadados.digitalpages.com.br/home.aspx>.
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Rio de Janeiro]. Rio de Janeiro: UERJ, 2007.
OGLIARI, F. Automedicação e o papel do
farmacêutico: autocuidado ou danos à saúde?
[Tese Graduação. Universidade Santa Cruz do
Sul, Rio Grande do Sul]. Rio Grande do Sul:
UNISC, 2004.
VILARINO, J. F. Perfil da automedicação em
município do Sul do Brasil. Revista Saúde
Pública, v. 32, n.1, p.43-49, 1998.
HEINECK, I. et al. Análise da publicidade de
medicamentos veiculada em emissoras de
rádio do Rio Grande do Sul, Brasil. Cadernos
de Saúde Pública, v.14, n.1, p. 193-198, 1998.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 165
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
REFERÊNCIAS
166 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Universidade Federal da Bahia (UFBA)
Cinara Vasconcelos da Silva1; Eudes da Silva Velozo1; Rosemília Ribeiro da Cunha1 .
1 - Faculdade de Farmácia – Universidade Federal da Bahia – UFBA.
RESUMO
São grandes os riscos e graves os problemas
causados pela má qualidade da propaganda
de medicamentos, em termos sanitários e
econômicos. Assim, necessita-se de controle
das peças publicitárias e de educar e informar a
população para que se reduzam o uso irracional
destes produtos. Para isto, a Anvisa regulamentou
e criou uma parceria com universidades do país
para monitorar as propagandas em diversos
meios de comunicação.
Muitas vezes, os produtos anunciados não são
nem mesmo registrados pelo órgão fiscalizador,
mas se apresentam com registro falso ou mesmo
como produtos naturais “sem contra-indicações,
pois o que é natural não faz mal”.
O presente trabalho, realizado através do Projeto
de Monitoração de Propaganda de Produtos
Sujeitos à Vigilância Sanitária, teve por objetivo
analisar as propagandas de medicamentos
veiculadas nas emissoras de rádio de Salvador
(BA), apresentando uma reflexão sobre o assunto
com base nas análises, propostas, críticas e
sugestões presentes nos relatórios finais das três
fases do projeto, enviados à Anvisa.
Todos esses fatores impulsionadores do uso
irracional de medicamentos e demais produtos
de saúde pela população levaram a Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a
criar o Projeto de Monitoração de Publicidade
e Propaganda de Produtos Sujeitos à Vigilância
Sanitária, em parceria com universidades
distribuídas nas diversas regiões do país. O
papel das universidades consistiu em captar
a divulgação desses produtos em diferentes
veículos de comunicação a fim de analisar o
teor das mensagens veiculadas, comparando
com a legislação em vigor no intuito de obter
um perfil da propaganda e da publicidade
de produtos sujeitos à vigilância sanitária no
Brasil.
INTRODUÇÃO
São grandes os riscos e graves os problemas
causados pela má qualidade da propaganda
de medicamentos, em termos sanitários e
econômicos.
A veiculação de campanhas publicitárias
tendenciosas, cujos objetivos são meramente
comerciais, estimula o consumo indiscriminado
de medicamentos. Verifica-se a utilização
de recursos publicitários para oferecer uma
promessa de cura milagrosa com o uso do
medicamento, com omissão de informações
importantes como contra-indicações, cuidados
e advertências quanto ao uso ou abuso do
medicamento.
Assim, faz-se urgente a implantação de rígidas
medidas de controle e educação da população
para que se reduzam o uso irracional destes
produtos.
A Universidade Federal da Bahia (UFBA) foi
uma das instituições escolhidas e contou com
uma equipe multidisciplinar e interdisciplinar,
formada por estudantes de Farmácia, de
Nutrição, de Odontologia, de Medicina, de
Direito e de Comunicação Social.
O presente trabalho, realizado através
desse projeto, teve por objetivo analisar as
propagandas de medicamentos veiculadas
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 167
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
ANÁLISE DAS PROPAGANDAS DE MEDICAMENTOS VEICULADAS
NAS EMISSORAS DE RÁDIO DE SALVADOR – BAHIA
nas emissoras de rádio de Salvador (BA),
apresentando uma reflexão sobre o assunto,
com base nas análises, propostas, críticas e
sugestões presentes nos relatórios finais das três
fases do projeto, enviados à Anvisa.
MATERIAL E MÉTODOS
O projeto desenvolveu-se em três etapas: de
11/2002 a 09/2003; de 10/2004 a 04/2006;
e de 11/2007 a 02/2008. Foram monitoradas
16 emissoras de rádio no Estado da Bahia:
oito emissoras de rádio FM e oito emissoras
de rádio AM. A captação de propagandas
de medicamentos em rádio foi realizada em
horários variados, incluindo os três turnos
diários.
A análise das propagandas captadas era
efetuada mensalmente, em duas etapas:
inicialmente utilizando os dados fornecidos na
peça publicitária, seguida da avaliação desses
dados de acordo com a legislação sanitária
vigente (RDC nº 102/00; Leis nº 6.360/1976, nº
9.294/1996; Decretos nº 79.094, nº 2.018/1996;
Portaria nº 344/1998; e a Resolução nº 83/2002)
e a consulta na bibliografia especializada sobre
o(s) princípio(s) ativo(s) do medicamento.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Durante o período de monitoração, foram
captadas 52 propagandas de medicamentos em
rádio: 32 peças na 1ª Fase do projeto, 16 peças
na 2ª Fase e quatro peças na 3ª Fase (Figura 1).
Destas, 37 foram obtidas em frequência FM e
15 em AM, sendo que todas as propagandas de
medicamentos eram de venda sem prescrição
médica e apresentaram pelo menos cinco
irregularidades.
Tabela 1 – Principais irregularidades observadas em rádio
Omissão de contraindicação
98%
Não consta a advertência obrigatória: “AO PERSISTIREM OS SINTOMAS, O MÉDICO
DEVERÁ SER CONSULTADO”.
84%
Omite o princípio ativo segundo a DCB/DCI e o nº de registro na Anvisa.
79%
Anunciar medicamentos não registrados na Anvisa.
77%
Estimula e/ou induz o uso indiscriminado de medicamento.
65%
Usa de linguagem direta ou indireta relacionando o uso de medicamento ao desempenho físico,
intelectual, emocional, sexual ou a beleza de uma pessoa.
31%
Afirma ou sugere que o medicamento tem efeito superior a outro usando expressões como: “mais
62%
eficaz”, “menos tóxico”, ou ainda utiliza expressões como: “o produto”, “o de maior escolha”, “o
único”, “o mais frequentemente recomendado”, “o melhor” sem evidências científicas comprovadas.
Sugere ausência de efeitos colaterais ou adversos ou utiliza expressões tais como: “inócuo”, “seguro”, ou “produto natural”.
As peças publicitárias exibidas em rádios
destacaram-se em relação às veiculadas em
outros meios de comunicação pela baixa
qualidade e pouco cuidado com a informação
prestada ao consumidor.
Em avaliações feitas com outros coordenadores
do projeto em outros estados, foi constatado
que nos estados do Nordeste este fato é mais
comum que em outras regiões.
168 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
22%
A rádio Sociedade da Bahia AM 740 KHz ,
Rádio Metrópole FM 101,3 MHz e a Rádio Piatã
94,3 MHz foram aquelas que mais veicularam
propagandas durante o período de coleta, sendo
essas rádios de grande audiência na Bahia,
consequentemente, atingindo um público
amplo e de menor renda per capita (classes C,
D e E). Foi comum encontrar propagandas de
medicamentos com composição e fabricante
desconhecidos e sem registros na Anvisa,
Muitos desses produtos foram anunciados
como sendo eficazes em diversas indicações,
como o Taiucaroba: “Sífilis, reumatismo e
doenças difíceis de sarar, indicado para tornar a
pele bonita, os poros ficarem abertos, deixar as
artérias elásticas, evitar o acúmulo de gordura
saturada, deixar a pele sem manchas, sem
cravos, melhorar a circulação, acabar com
cãibras e feridas difíceis de sarar, pele macia,
evitar derrame e depurar o sangue”.
Aproveitando-se do menor acesso à saúde e à
educação, as propagandas apregoam produtos
capazes de tratar ou curar diversos tipos de
enfermidades colocando em risco a saúde
de pessoas que já se encontram econômica e
socialmente fragilizadas.
O argumento é fundamentado em promessas
milagrosas de cura ou prevenção, além de
provocar temor e angústia no caso da não
utilização dos mesmos (Hipermemogold,
Supermemo e Virmax). Como agravante de todas
essas irregularidades cometidas, a propaganda
pode induzir o público ao uso indiscriminado
dos medicamentos anunciados, podendo vir
a comprometer a saúde do consumidor ou
até mesmo agravar alguma enfermidade já
existente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados do trabalho de monitoração de
publicidade e propaganda de medicamentos
em rádio no Estado da Bahia refletem o
desconhecimento da legislação específica e a
necessidade da continuação desse trabalho,
visto que o mesmo tem contribuído com a missão
da Anvisa, permitindo uma maior agilidade na
identificação das irregularidades, a exemplo
de produtos sem registro comercializados
sem o conhecimento e autorização do órgão
regulador. Além de atuar na conscientização e
educação sobre os riscos das propagandas de
medicamentos para profissionais de rádio, com
visitas às sedes das emissoras e população.
REFERÊNCIAS
BARROS, J. A. C. Propaganda
de
Medicamentos: Atentado à saúde? São Paulo:
Hucitec, 1995.
CESAR, N. Direção de Arte em Propaganda.
São Paulo: Futura, 2000.
CUNHA, R. S. J.; SILVA, C. V.; SANTOS, M.
L.; NASCIMENTO JUNIOR, J. R.; SOUZA,
E. P.; BRITO, A. L. O. Parecer técnico de
avaliação das propagandas e publicidade de
medicamentos no Estado da Bahia, 2003.
DUKES, M. N. G.; ARONSON, J. K. Meyler’s
Side Effects of Drugs - An Encyclopedia
of Adverse Reactions and Interactions.
Amsterdam: Elsevier Science B.V, 2000.
SCHENKEL, E. P.; PIZZOL, F. D.; SILVA, T.
Análise da adequação das propagandas de
medicamentos dirigidas à categoria médica
no Sul do Brasil. Cadernos de Saúde Pública,
v. 14, n.1, p.85-91, 1998.
SCHENKEL, E. P.; PIZZOL, F. D.; SILVA, T.;
GALLINA, S. M. e HEINECK, I. Análise da
publicidade de medicamentos veiculada
em emissoras de rádio do Rio Grande do
Sul, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, v.14,
n.1,1998.
VELOZO, E. S.; CUNHA, R. R. Relatório
Técnico Narrativo Final (Fase II), 2004/2006.
VELOZO, E. S.; CUNHA, R. R. Relatório Técnico
Narrativo Final (Fase III), 2007/2008.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 169
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
como o Taiucaroba, Cardioacetil Supermemo,
Hipermemogold, Virmax, entre outros.
Universidade Federal Fluminense (UFF)
Selma Rodrigues de Castilho1; Silvana da Silva Souza2; Gabriela Deutsch1; Luciana das Flores Fontes3; Sarah de
Vares Cação3; Joyce Andrade das Flores3.
1 – Docente da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal Fluminense – UFF.
2 – Secretária do CEATRIM/UFF
3 – Discente da Universidade Federal Fluminense – UFF.
RESUMO
INTRODUÇÃO
O presente trabalho descreve o workshop “A
Promoção da Saúde pelas Ondas do Rádio”
organizado pela equipe do projeto Ações de
Educação e Informação, da Faculdade de
Farmácia da Universidade Federal Fluminense
(UFF). O evento teve como principal objetivo
discutir a importância da integração entre
profissionais da saúde e de comunicação social,
visando à correta disseminação de informação
sobre saúde, bem como da legislação sobre
propaganda de produtos sujeitos à vigilância
sanitária, em especial de alimentos e de
medicamentos, para promoção e preservação
da saúde pública. O evento se caracteriza
como uma atividade de educação continuada,
tendo a discussão centrada no papel do rádio
na promoção da saúde. As estratégias de
divulgação do evento envolveram o envio de
mensagens eletrônicas a rádios, sindicatos,
escola de rádio e associações de radialistas do
Rio de Janeiro. Posteriormente, foram efetuados
contatos telefônicos com vários radialistas, além
da distribuição de cartazes e fôlderes sobre o
evento. Durante o workshop, foram realizadas
palestras e debate sobre o tema. Embora a adesão
dos radialistas tenha sido baixa, as discussões
foram bastante interessantes e aplicadas,
sugerindo a oportunidade de realização de mais
eventos direcionados aos comunicadores, que
fomentem a discussão do papel da propaganda
na promoção da saúde da população brasileira.
Os radialistas presentes consideraram o evento
pertinente e relacionado à sua prática diária.
Todo medicamento é desenvolvido com
objetivos diagnósticos, de prevenção ou cura
de doenças, além do alívio de sintomas. Podem
ainda agir no diagnóstico de problemas de
saúde. No entanto, a sociedade moderna vive o
fenômeno da supermedicalização, caracterizada
pelo elevado índice de automedicação, uso
excessivo de medicamentos paliativos e uso
irracional dos medicamentos. Estas práticas
são, em muito, estimuladas pelas estratégias
de propaganda adotadas pela indústria
farmacêutica. As campanhas publicitárias
(LUCHESSI, 2005; NASCIMENTO, 2010) e o
grande número de medicamentos que entram no
mercado anualmente (LUCHESSI, 2005) também
contribuem para o aumento da automedicação
pela população.
Muitas das estratégias de promoção dos
medicamentos na sociedade moderna tendem
a promover uma percepção errônea sobre
seu verdadeiro papel, seja na manutenção do
bem-estar, seja na recuperação da saúde. Aos
medicamentos são atribuídos, muitas vezes,
exageros de aplicação. Por outro lado, é comum
que se veicule igualmente a minimização dos
riscos de sua utilização. Vários autores têm
discutido essa questão há décadas (TEMPORÃO,
1986; HERXHEIMER, 1990; BARROS e JOANY,
2002). Por outro lado, as indústrias farmacêuticas
chegam a gastar 30% da renda obtida com
as vendas em campanhas publicitárias de
medicamentos (NASCIMENTO, 2009).
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 171
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
“A promoção da saúde pelas ondas do rádio”: relato de
workshop realizado no rio de janeiro
Há que se observar que muitos consumidores
carecem de informação que possibilite uma
análise crítica da propaganda de medicamentos
veiculada pelas indústrias farmacêuticas para
o grande público. NASCIMENTO (2009)
aponta entre estas informações a composição
dos produtos farmacêuticos, seus efeitos
e os riscos envolvidos na sua utilização
(NASCIMENTO, 2009). Entre as características
sugeridas como indispensáveis à propaganda
de medicamentos pela Organização Mundial
de Saúde (OMS) se encontram a autenticidade,
veracidade, confiabilidade, equilíbrio e
possibilidade de verificação (ORGANIZAÇÃO
MUNDIAL DA SAÚDE, 1998), vários autores
apontam preocupação com a qualidade dessa
informação, inclusive no Brasil (NASCIMENTO,
2010; MASTROIANNI et al., 2008, FAGUNDES
et al., 2007, BARROS e JOANY, 2002). Por esta
razão, a adoção de medidas para regulamentar
as respectivas propagandas toma um papel
importante para a saúde pública (LUCHESSI,
2005; FAGUNDES et al., 2007). A qualidade
das informações contidas nas propagandas deve
ser considerada como ponto principal em uma
peça publicitária, principalmente caso se trate
de produtos envolvidos com a saúde (BRASIL,
2008).
Mesmo os medicamentos chamados de venda
livre, que podem ser adquiridos legalmente pela
população sem a exigência de apresentação de
uma receita médica, apresentam riscos para
a população (CONSELHO REGIONAL DE
FARMÁCIA-RJ, 2004; NASCIMENTO, 2010).
Desta forma, para esses produtos em especial,
considerando-se que e a propaganda para grande
público é autorizada, a garantia da qualidade e
da completude da informação veiculada para a
população é ainda mais importante.
Vários autores (BRASIL, 2005; HEINECK et al.,
1998) apontam a vinculação da publicidade de
medicamentos a padrões de mercado definidos
pelas atitudes dos consumidores. Segundo
SOARES (2008) e HUERTAS e CAMPOMAR
(2008), há dois aspectos distintos explorados
por estas propagandas: os apelos emocionais e
os racionais, que juntos irão formar a atitude
do consumidor sobre o produto. LYRA e
172 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
colaboradores (2010) ressaltam que o impacto
da propaganda de medicamentos se dá não
apenas sobre os consumidores mas, também,
sobre a prática dos profissionais de saúde.
A regulamentação da propaganda de
medicamentos no Brasil tem seus primórdios
na Lei n° 6.360, de 1976 e no Decreto n°
79.094, de 1977, que a regulamenta (BRASIL,
2000). Em 2000, foi publicada a Resolução
de Diretoria Colegiada - RDC n° 102/00, da
Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa), que reafirmou determinações legais
já existentes e incorporou maiores detalhes
para a regulamentação da propaganda de
medicamentos no Brasil (BRASIL, 2000). Em
2008, foi publicada a RDC n° 96/08, que entrou
em vigor em junho de 2009 (BRASIL, 2008),
sendo este o texto vigente atualmente.
Segundo esta norma, apenas os medicamentos
isentos de prescrição podem ter sua propaganda
direcionada ao público em geral. No entanto,
a RDC n° 96/2008 proíbe a apresentação
de mensagens voltadas para crianças ou
adolescentes, de qualquer tipo, e também o
uso de símbolos e/ou imagens com este fim
(BRASIL, 2008). Também é vedado também
fazer uso de qualquer expressão que relacione
o uso de medicamentos ao desempenho físico,
intelectual, emocional, sexual ou à beleza
dos consumidores (BRASIL, 2008; BRASIL,
2000). Ainda, segundo a norma, frases de
advertência devem ser veiculadas logo após a
peça promocional e a empresa que veicula a
propaganda é considerada corresponsável por
aquilo que divulga.
O Projeto de Monitoração de Propaganda e
Publicidade de Produtos Sujeitos à Vigilância
Sanitária, coordenado pela Anvisa, iniciou suas
atividades em 2002. Seu objetivo era contribuir
para a fiscalização e o cumprimento das normas
legais brasileiras sobre a propaganda dessas
tecnologias. (BRASIL 2000; BRASIL, 2005). A
Universidade Federal Fluminense (UFF) foi uma
das 19 Instituições de Ensino Superior brasileiras
a participar do projeto. O presente trabalho
descreve o desenvolvimento do workshop “A
Promoção da Saúde pelas Ondas do Rádio”
MATERIAIS E MÉTODOS
O workshop “A Promoção da Saúde pelas
Ondas do Rádio” realizado pela UFF, no Rio
de Janeiro, ocorreu no dia 3 de dezembro de
2009. O evento, vinculado ao projeto Ações
de Educação e Informação, foi desenvolvido
em parceria com a Associação Brasileira de
Farmacêuticos (ABF), em cujo auditório, no Rio
de Janeiro, ocorreram as atividades. O trabalho
foi fruto de convênio entre a UFF e a Anvisa.
O auditório da ABF foi escolhido por possuir
toda a estrutura necessária para a realização
do evento, e também por ter uma localização
privilegiada, no centro da cidade do Rio de
Janeiro, próximo a estações do metrô e com
circulação próxima de várias linhas de ônibus,
o que possibilitaria fácil acesso ao local.
Durante os dois meses que antecederam o
evento, a equipe da UFF, formada por cinco
discentes (três de Farmácia e um de Letras)
e um docente, dedicou-se à preparação do
material de suporte para o evento. Constaram
deste material uma cartilha destinada aos
comunicadores, bem como cartazes e fôlderes
de divulgação dos objetivos e data do evento,
além de uma homepage.
A divulgação do evento foi realizada durante as
quatro semanas que o antecederam, através do
site do Projeto de Monitoração de Propaganda
na UFF (http://www.uff.br/monitora), onde
foram disponibilizadas informações sobre o
workshop como, por exemplo, os objetivos do
evento, seu cronograma e a ficha de inscrição.
Por meio do sítio de buscas Google (www.
google.com.br),
foram
identificados
os
endereços eletrônicos das rádios do Rio de
Janeiro. Também foi contatado o Sindicado dos
Radialistas do Rio de Janeiro, que contribuiu
na divulgação do workshop e na obtenção de
uma lista de contatos. A Associação das Rádios
Comunitárias do Rio de Janeiro colaborou,
igualmente, na divulgação desse evento.
A partir dessas informações, foram enviados
e-mails, cartas-convite, cartazes e fôlderes
do workshop para os radialistas. Visitas e
telefonemas foram feitos, de forma sistemática,
a essas instituições, na tentativa de sensibilizar
para a importância do evento. Após o contato
inicial, a rádio Rio de Janeiro realizou uma
entrevista com a coordenadora do projeto, no
dia 30 de novembro, às 7h15 da manhã, no
programa Manhã no Rio.
As inscrições foram limitadas a 50 vagas,
realizadas previamente através do e-mail
[email protected], ou no próprio
dia do evento. Durante toda a divulgação foi
explicitado o fato de que o evento não tinha
fins lucrativos, suas inscrições eram gratuitas
e não havia nenhum vínculo com a indústria
farmacêutica. Ao final do evento, foi utilizado
um questionário de avaliação, com perguntas
fechadas e abertas, através do qual se buscou
avaliar a opinião dos participantes sobre o
mesmo.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A abertura do workshop foi realizada pelas
professoras Selma Rodrigues de Castilho,
da UFF, Guacira Correa de Matos, da UFRJ,
representando a diretoria da ABF, e pela
farmacêutica Mariana Collani, representando
a GGPRO/Anvisa. Em seguida, a professora
Guacira Correa de Matos proferiu a palestra
“Intoxicação medicamentosa e o Uso Racional
de Medicamentos”. Na sequência, Mariana
Collani proferiu a palestra “O papel da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária no Estado
brasileiro e a monitoração e fiscalização de
propaganda de produtos sujeitos à vigilância
sanitária”.
Em seguida, deu-se início à roda de conversa,
com participação dos radialistas presentes, da
representante da GGPRO, Mariana Collani, do
presidente do Sindicato dos Radialistas, Miguel
Walter, e da professora Selma Castilho.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 173
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
pela equipe do projeto Ações de Educação e
Informação, da Faculdade de Farmácia da UFF,
no Rio de Janeiro. Este workshop foi uma das
atividades desenvolvidas durante a IV Fase do
Projeto de Monitoração.
Após o intervalo para um coffee break,
foram iniciadas as atividades da tarde, com a
palestra “O Certo e o Errado na Propaganda
de Medicamentos e o Papel das Rádios na
Promoção da Saúde”. Na sequência, os presentes
discutiram a RDC nº 96/08 e fizeram algumas
atividades com base nos spots produzidos pela
Anvisa durante a campanha “A informação é o
melhor remédio”.
Apesar de o público participante totalizar
apenas 14 pessoas, as discussões foram muito
interessantes e pertinentes aos objetivos iniciais
do projeto. Todos os presentes consideraram o
tema relevante e o workshop pertinente às suas
atividades laborais. Os radialistas manifestaram
suas principais dúvidas e dificuldades. Entre
elas destacam-se a questão da necessidade de
que rádio disponha do registro do produto e a
dificuldade de avaliação pelos comunicadores
do conteúdo científico das peças. Foi ressaltado
pelos radialistas o fato de que a decisão final
não cabe necessariamente aos profissionais de
comunicação, mas sim à direção das emissoras
e, muitas vezes, à equipe de marketing.
O presidente do sindicato propôs a realização
de eventos conjuntos no futuro, talvez num
formato menor, visando estimular o debate
entre os radialistas. Esta sugestão reforça as
observações de LYRA e colaboradores (2010)
e NASCIMENTO (2010) que enfatizam a
importância de uma discussão mais profunda
envolvendo tanto os consumidores, quanto os
profissionais de comunicação e da saúde.
O representante da rádio Rio de Janeiro
mostrou interesse em estreitar os laços com
a equipe da UFF, visando à participação da
mesma em programas sobre saúde, que a
rádio já desenvolve. Na entrevista utilizada
para divulgação do evento nesta rádio, foram
discutidos os fundamentos do uso racional
de medicamentos, o papel da propaganda
no consumo de medicamentos, bem como o
escopo do projeto monitoração e os objetivos
do workshop. Nesta ocasião, foi divulgada a
disponibilidade de dois centros de informação
sobre medicamentos no Rio de Janeiro, o
CEATRIM (UFF) e o CRIM-RJ (UFRJ).
174 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora a baixa adesão dos comunicadores
sociais ao workshop tenha tornado limitados os
resultados obtidos, a discussão foi interessante
e profícua. Há que esclarecer que o evento
não foi divulgado entre estudantes, o que pode
ser uma estratégia futura interessante. A baixa
adesão levantou considerações sobre o próprio
modelo proposto: um dia inteiro de discussões
pode dificultar a participação dos radialistas;
o público-alvo deve ser expandido, sobretudo
para os profissionais que negociam a venda de
horário nas rádios. Vale ressaltar que alguns dos
profissionais contatados pela equipe já haviam
manifestado preocupação tanto com o tema
quanto com o tempo de realização do evento.
Os resultados, no entanto, demonstram
que realmente existe a necessidade de se
realizar mais eventos com a mesma ou maior
magnitude, buscando a conscientização e
educação continuada dos profissionais da área
de comunicação para o papel da propaganda
ao grande público na promoção de práticas
saudáveis. Algumas das dúvidas apresentadas
pelos radialistas mostram que já há um certo
grau de discussão entre eles. No entanto,
há baixo conhecimento da RDC nº 96/08 e
algumas dúvidas em sua interpretação.
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CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 175
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
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2005.
Universidade Federal de Goiás (UFG)
Dione Marçal Lima1
1 – Professora, doutora da Universidade Federal de Goiás – UFG.
RELATO
Dentre as atividades a serem desenvolvidas
dentro do projeto Educanvisa: Educação em
Vigilância Sanitária, que se trata de uma iniciativa
para apoiar ações estratégicas educativas e
informativas na cidade de Goiânia, Estado de
Goiás, em parceria com a Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa), foi prevista uma
atividade com os profissionais radialistas que
trabalham nas emissoras de rádio da capital
goiana. O foco no rádio foi pensado devido
à facilidade de acesso do público ao que é
divulgado nesse veículo de comunicação, ao
seu apelo popular e ao seu lado humano, além
de ser direto e particular ao ouvinte.
Sabendo que existe uma grande veiculação de
propagandas/publicidades de produtos para a
saúde (especialmente medicamentos) nessa
mídia, torna-se importante criar uma nova
mentalidade e, talvez, até a adoção de uma
nova linguagem por parte desses profissionais,
para que haja divulgação desses produtos de
forma saudável e regular, atendendo às normas
preconizadas pela Anvisa. A ideia é propagar
conceitos que eduquem ou relembrem temas
relevantes, para proporcionar o desenvolvimento
de atitudes de promoção da saúde.
A proposta foi realizar um evento específico
para esses comunicadores, a fim de garantir o
direcionamento dos temas a serem abordados
e, também, promover um espaço para realizar
questionamentos e sanar dúvidas.
de medicamentos e outros produtos para saúde”,
com realização no dia 1º de outubro de 2009.
Para a divulgação do evento ao públicoalvo (radialistas), foram adotadas as seguintes
estratégias:
- Contato com o sindicato dos trabalhadores
de comunicação em Goiás, para incentivar
a participação de seus representantes, para
auxiliar na divulgação do evento e, também,
para convidá-los a participar compondo uma
mesa- redonda no dia do evento.
- Divulgação pessoal do seminário junto às
principais emissoras de rádio AM e FM de
Goiânia.
- Participação em um programa de debates de
uma das rádios contatadas, com o objetivo de
discutir alguns dos temas do evento e reforçar o
convite para participação nesse seminário.
O sindicato foi visitado duas vezes antes do
evento, tendo sido entregue 100 fôlderes para
distribuição junto à classe; e 14 emissoras de
rádio da cidade de Goiânia foram visitadas
pessoalmente para entrega do convite/folder.
Além do público-alvo, foram encaminhados
ofícios-convite às seguintes entidades:
- Vigilância Sanitária Municipal
- Vigilância Sanitária Estadual
A Universidade Federal de Goiás (UFG), por
meio do projeto Educanvisa, organizou um
seminário cujo tema foi: “Propaganda enganosa
- Ministério Público – Promotoria de Defesa do
Consumidor
- Associação Goiana das Emissoras de rádio e TV
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 177
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
CONSTRUINDO VALORES SOCIAIS E EDUCACIONAIS: RELATO DE
UMA EXPERIÊNCIA NO PROJETO EDUCANVISA EM GOIÂNIA-GOIÁS
- Sindicato das agências de propaganda de Goiás
- Coordenação do curso de Farmácia da UFG
- Coordenação do curso de Comunicação da UFG
A programação do seminário foi agendada
somente para o período da manhã, com o intuito
de facilitar a adesão ao evento, tendo em vista a
ampla jornada dos profissionais radialistas.
Apesar de contarmos com 53 participantes
no evento, infelizmente nenhum profissional
radialista compareceu ao evento. Tivemos
bastante interesse pelo tema e muito das
discussões foram desviadas para sanar dúvidas
a respeito da legislação que regulamenta
a propaganda desses produtos no Brasil,
especialmente solicitadas pelos representantes
presentes do segmento de farmácias magistrais
e indústria farmacêutica.
Diante deste relato fica claro que não
tivemos como aplicar qualquer instrumento
direcionado ao segmento alvo para avaliar seu
nível de conhecimento ou sua opinião sobre a
regulamentação.
Nosso objetivo era trabalhar a perspectiva de
construção de saberes, para gerar mudanças. No
entanto, entendemos que para isto é necessário
a percepção de problemas ou desconfortos
que foram identificados, valorizados ou
entendidos como de sua responsabilidade pelo
público-alvo. Diante deste relato concluo que
outras estratégias precisam ser pensadas para
trabalharmos o segmento da comunicação no
Brasil.
178 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
Lilian Henriques do Amaral1; Vivian Henriques do Amaral2; Luiz Paulo Reis Santos1; Thais de Sá Pecis1;
Carolina Pires de Araújo3; Allan Pereira3; Simone Gatti Ferreira Reis4; Miriam Aparecida de Oliveira Pinto5; Maria
da Penha Henriques do Amaral5
1 - Graduando em Farmácia – Faculdade de Farmácia e Bioquímica (UFJF).
2 - Graduanda em Medicina - Faculdade de Medicina (UFJF).
3 - Graduando em Comunicação Social - Faculdade de Comunicação Social (UFJF).
4 - Cirurgiã Dentista, Especialista em Vigilância Sanitária, Supervisora de Educação em Saúde.
Vigilância Sanitária Municipal – Juiz de Fora – MG
5 - Professora Doutora Associada - Faculdade de Farmácia e Bioquímica (UFJF).
RESUMO
A saúde no Brasil é um direito universal e
dever do Estado. Para o cumprimento deste
direito, a Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) tem como algumas de suas
atribuições a educação em vigilância sanitária,
a promoção do uso racional de medicamentos
e o monitoramento de propagandas de
medicamentos, alimentos e outros produtos
sujeitos à vigilância sanitária. Por meio da
Gerência Geral de Monitoramento e Fiscalização
de Propaganda, de Publicidade, de Promoção e
de Informação de Produtos Sujeitos à Vigilância
Sanitária (GGPRO), a Anvisa, em parceria com
a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF),
realizou o projeto educacional A Promoção da
Saúde pelas Ondas do Rádio. Foram realizados
dois seminários para radialistas e profissionais
da comunicação abordando o tema: riscos
da veiculação de propagandas enganosas de
medicamentos e de alimentos para a saúde do
consumidor. No primeiro seminário, apesar da
intensa divulgação para radialistas e estudantes,
dos 159 participantes, somente cinco eram
radialistas. No segundo seminário, os 50
convites foram personalizados e direcionados
exclusivamente aos profissionais do rádio
e demais meios de comunicação. Destes,
somente 23 compareceram. Concluiu-se que
uma nova estratégia deveria ser utilizada
para a sensibilização dos profissionais de
comunicação, que resultasse no cumprimento
da legislação vigente referente à veiculação de
propaganda de medicamentos e alimentos na
mídia.
INTRODUÇÃO
Os medicamentos não são mercadorias que
possam ser oferecidas da mesma maneira
que outros bens e serviços passíveis de regras
do livre mercado. Com base nisso, a Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) editou
regulamentos e resoluções sobre propaganda de
medicamentos e de outros produtos sujeitos à
vigilância sanitária, com o intuito de proteger a
saúde da população (FAGUNDES et al., 2007).
O controle da propaganda é eticamente
defensável, uma vez que, em questões básicas
como a saúde pública, o Estado deve tomar
a frente e intervir, com o compromisso de
proteger a população contra o iminente risco
sanitário que o consumo descontrolado de
medicamentos representa (FAGUNDES et al.,
2007).
Entretanto, os relatos desta autora
e colaboradores e de Heineck et al. (1998)
demonstraram que existe alta frequência de
propaganda enganosa de medicamentos e de
alimentos.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 181
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
EDUCAÇÃO EM SAÚDE VIA RÁDIO: SENSIBILIZAÇÃO DOS
RADIALISTAS PELA EQUIPE DA UFJF, VIGILÂNCIA SANITÁRIA DE JUIZ
DE FORA E ANVISA
O rádio deve ser usado como meio de
comunicação de massa para fins educativos e
culturais (MONTEIRO, 2009). Por ser um meio
de veiculação rápida da informação, atinge a
um elevado número de indivíduos.
Segundo Brecht (2007), o rádio tem uma face
quando na verdade deveria ter duas. Ele é um
mero aparato de distribuição, pois simplesmente
reparte algo. Para encontrar o que é positivo no
rádio, esse autor propõe uma modificação de
seu funcionamento: o rádio deve deixar de ser
um aparato de distribuição para se transformar
num aparato de comunicação. O rádio seria o
mais admirável aparato de comunicação que se
poderia conceber na vida pública, um enorme
sistema de canais. Seria, caso ele se propusesse
não somente a emitir, mas, também a receber.
Ele, sozinho, pode promover as grandes
discussões das empresas e dos consumidores
sobre a normatização dos artigos de consumo
(BRECHT, 2007).
Não importando o que esteja a empreender, o
esforço do rádio deve ser o de contrapor à falta de
propósito de anúncios de produtos relacionados
à saúde, como os medicamentos e alimentos,
recebidos de fabricantes e distribuidores para
serem transmitidos à população.
comunicação incluindo o rádio, cujo acesso
atinja as diversas categorias da população.
Baseando-se nesses argumentos, a Anvisa
lançou, em 2009, o projeto A Promoção da Saúde
pelas Ondas do Rádio para ser desenvolvido
pelas instituições de ensino superior do país,
envolvidas, desde o ano de 2002, com o Projeto
de Monitoração de Propagandas de Produtos
Sujeitos à Vigilância Sanitária.
Os objetivos da Anvisa junto à classe dos
radialistas foram: informar aos profissionais de
comunicação, principalmente do rádio, a nova
normatização da veiculação de propaganda
de medicamentos e de produtos afins, que
é a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC)
nº 96/2008 (BRASIL, 2008); e conscientizar a
classe de profissionais do rádio sobre os riscos
da automedicação a que o ouvinte está sujeito,
ao usar medicamentos sem a devida prescrição,
na busca de resultados imediatos para os
problemas de saúde, iludidos pelas promessas
milagrosas transmitidas nas propagandas
enganosas desses produtos.
Conforme afirmam Mello et al.(1993)
Na visão acadêmica, esse projeto teve como
característica principal propor para a classe de
radialistas a mobilização das rádios para atuarem
como promotoras da saúde, corroborando com
o parecer de Brecht (2007) sobre a outra face
do rádio, que é promover as grandes discussões
das empresas e dos consumidores sobre a
normatização dos artigos de consumo, sejam
estes medicamentos ou alimentos, conforme
determina a Anvisa.
(...) é necessário que a comunidade exija qualidade,
MATERIAIS E MÉTODOS
São grandes os riscos e graves os problemas
causados pela má qualidade da propaganda,
tanto em termos sanitários quanto econômicos
(SOARES, 2008).
fiscalize e polemize as situações vigentes. No
entanto, o sucesso de tal ação depende do
conhecimento disponível sobre o assunto, da
difusão desse saber pela população e da vontade
política de utilizá-lo. Nenhuma sociedade está
imune a erros técnicos, administrativos e à fraude
(MELLO ET al. 1993).
É importante que esse tema seja discutido em
instituições de ensino como universidades
e escolas de ensino fundamental e médio,
secretarias de Educação e de Saúde, meios de
182 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Parte 1
Para alcançar o objetivo de realização do
projeto educacional A Promoção da Saúde
pelas Ondas do Rádio junto aos profissionais do
rádio e demais meios de comunicação, foram
realizadas as seguintes atividades: pesquisa
das rádios locais; ampla divulgação do evento
mediante o envio de ofícios-convite para os
diretores das rádios e jornais do município de
Juiz de Fora (MG); envio de release para o sítio
da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF);
do consumidor. Foi elaborado um folder
contendo informações sobre a propaganda de
medicamentos e alimentos para distribuição
aos participantes.
O local escolhido foi o auditório da Agência
de Cooperação Intermunicipal em Saúde Pé
da Serra (ACISPES), situada no bairro de São
Mateus de Juiz de Fora (MG).
Parte 1
Na análise do banco de dados da pesquisa
das rádios locais, frequências AM e FM, foram
encontradas seis emissoras: Rádio Itatiaia, Rádio
Globo, Rádio Universitária, Rádio Catedral,
Rádio Energia, e Rádio Solar. Entre diretores e
radialistas foram cadastrados 49 profissionais
atuantes nessas rádios.
O programa do seminário constituiu-se da
apresentação da legislação RDC nº 96/2008,
que trata da normatização de veiculação de
propagandas de medicamentos e produtos
afins; da importância da educação em
vigilância sanitária; e do papel do radialista
como promotor de saúde. Os palestrantes
foram um representante da Vigilância Sanitária
Municipal e uma representante da Anvisa,
duas professoras da Faculdade de Farmácia e
Bioquímica (FFB) da UFJF e duas professoras
do curso de Comunicação Social da Faculdade
Estácio de Sá - Juiz de Fora.
Parte 2
Uma nova proposta de sensibilização para os
profissionais do rádio e de outros meios de
comunicação foi apresentada para atingir o
maior número possível destes profissionais.
Para tanto, buscou-se a parceria da Diretoria de
Comunicação (DICOM) da UFJF. Esta elaborou
e encaminhou 50 convites personalizados
para os profissionais das seis rádios locais e
dos demais meios de comunicação de massa,
incluindo TV, jornais e provedores de internet.
O local foi o auditório de um hotel situado no
centro de Juiz de Fora (MG).
O programa constituiu-se de uma apresentação
mais compacta da legislação RDC nº 96/2008
pela representante da Anvisa e da análise de
uma propaganda enganosa de um produto
emagrecedor, transmitida por uma rádio
local, captada pela equipe do projeto de
monitoramento de propaganda de medicamentos
da FFB/UFJF. Enfatizaram-se os riscos das
propagandas enganosas de medicamentos e
alimentos, veiculadas no rádio, sobre a saúde
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O Conteúdo do outdoor, release, banners e
folder de divulgação do primeiro seminário
proposto pela Anvisa – A Promoção da Saúde
pelas Ondas do Rádio –, e realizado pela equipe
da UFJF e Vigilância Sanitária de Juiz de Fora,
está apresentado na figura 1.
A palestrante da ANVISA apresentou o tema
sobre as não conformidades das propagandas
de medicamentos veiculadas pela mídia cujas
informações não são confiáveis, pois omitem
ou minimizam cuidados e riscos, induzindo ao
consumo inadequado dos produtos.
As professoras palestrantes da área de
comunicação, que também eram radialistas
da Radio Energia, mostraram a dificuldade
para reunir a classe de profissionais do rádio
para este tipo de evento, visto que muitos não
possuem a formação acadêmica ou se sentem
constrangidos pela falta de conhecimento do
tema a ser discutido.
As professoras da Faculdade de Farmácia
e Bioquímica apresentaram as exigências
legais para a divulgação de propagandas de
medicamentos e de alimentos no rádio.
O seminário contou com 159 participantes.
Destes 102 apresentaram como ocupação
principal estudantes; 26 profissionais de saúde;
cinco profissionais de comunicação; 26 outros.
A frequência dos participantes por ocupação
está apresentada na Figura 2.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 183
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
e produção de outdoor e banners instalados
no campus da UFJF. Foi criado também um
endereço eletrônico para o recebimento das
inscrições. As inscrições foram gratuitas, abertas
também para os acadêmicos das áreas de saúde
e de comunicação social.
Figura 1- Conteúdo do outdoor, release, banners e folder de divulgação do primeiro seminário proposto pela Anvisa: A Promoção da Saúde pelas Ondas do Rádio.
Figura 2 - Frequência dos participantes por ocupação no seminário 1: A Promoção da Saúde pelas
Ondas do Rádio.
184 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Na avaliação final, mediante apresentação de
questionário, 96% dos participantes consideraram
o evento ótimo ou bom.
O consenso da equipe organizadora e da Anvisa
foi propor novas estratégias de sensibilização
dos radialistas. Outro seminário foi realizado
somente com os profissionais de comunicação,
visto que a participação destes no primeiro foi
de apenas 3%.
Parte 2
Com a participação da DICOM/UFJF foi realizado
o segundo seminário. Adotou-se a estratégia de
um convite para coquetel de congraçamento
promovido pela UFJF com o título mais
abrangente: Nas Ondas do Rádio. O convite
elaborado, utilizando a logomarca do projeto da
Anvisa, está apresentado na Figura 3.
Figura 3 - Convite do seminário 2 intitulado:
Nas Ondas do Rádio.
Foram enviados 50 convites personalizados
exclusivamente para radialistas e profissionais
da comunicação. A inscrição foi gratuita.
O seminário contou com 23 participantes, além
da equipe organizadora. Destes, seis eram de
rádio, dois de jornal, um jornalista autônomo,
seis de provedores de internet, dois de vigilância
sanitária, dois professores da Faculdade de
Farmácia e Bioquímica/UFJF, uma acadêmica
do curso de mestrado em Saúde Coletiva, duas
acadêmicas do curso de Farmácia e o secretário
geral da UFJF.
Contou-se com a participação de representantes
das rádios Solar, Catedral, Energia e Universitária
(UFJF), do jornal JF Hoje, dos provedores de
internet Acessa.com e Zip-zap.com e de um
jornalista autônomo.
Para otimizar a infraestrutura do local, foram
contratados serviços de imagem e som,
cerimonial, e, por sugestão da DICOM/UFJF, foi
oferecido um coffee break aos participantes no
final do evento.
De acordo com o parecer da DICOM/UFJF, o
número foi abaixo do esperado por dois fatores
ocorridos no dia e hora do evento: um temporal
no período de 17h às 19h comprometeu o fluxo
do trânsito, e a transmissão da decisão de um
importante campeonato futebolístico na TV
Globo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O rádio, inventado por Guglielmo Marconi,
conseguia levar à casa de todas as pessoas
uma nova forma de transmitir informações,
que foi capaz de se tornar uma alternativa de
comunicação, principalmente se comparado
ao jornal impresso.
Jornal, rádio e televisão começaram a se
apresentar como efetivos meios a serem usados
no processo educacional (MONTEIRO, 2009).
As pessoas, por vezes, ou por ignorância ou
por conformismo, não sabem fazer uma análise
adequada da informação, nem mesmo uma
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 185
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
No perfil dos estudantes inscritos, 63 foram da
área de Saúde, 30 do setor de Comunicação,
cinco do Serviço Social e quatro de outros
cursos.
seleção dos programas que devem ou não ouvir
ou assistir (VITORINO, 2009).
Em vista dos conteúdos das propagandas de
medicamentos e de alimentos com alegação
terapêutica veiculadas na rádio, enfatizando
a ausência de quaisquer riscos, mediante
declarações como “eu garanto”, “resolve todos
os seus problemas”, “compre com o cartão de
crédito e ganhe uma nécessaire”, mostrando o
medicamento como produto qualquer, requer
todos os esforços dos comunicadores de rádio
no sentido de dar cumprimento à legislação
sobre a propaganda desses produtos. Cabe aos
radialistas, que emprestam a voz para transmitir
estas falsas informações, por falta, talvez, do
conhecimento a respeito dos riscos que estão
submetendo o ouvinte, a responsabilidade em
transformar o rádio em um meio, também, de
promoção da saúde pública.
Os esforços para reunir os profissionais do
rádio no seminário proposto pela Anvisa
atingiram uma baixa proporção dos radialistas.
Novas estratégias deverão ser adotadas para
atrair a atenção e alcançar a adesão desses
profissionais, como visita individualizada da
equipe às emissoras de rádio com o objetivo de
educar os profissionais sobre a sua participação
na promoção e proteção da saúde pública.
Recomenda-se também a inclusão de uma
disciplina nos cursos de Comunicação Social,
que tenha como referência a legislação sobre
a propaganda de produtos sujeitos à vigilância
sanitária e o impacto negativo do consumo
inadequado desses produtos para a saúde.
REFERÊNCIAS
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dezembro de 2008. Diário Oficial da República
Federativa do Brasil, Brasília, DF, 18 de
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2009.
186 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Universidade Federal do Maranhão (UFMA)
Nelson Machado do Carmo Júnior1; Ráysa Hellen Assunção Costa1; Thays Cláudia da Silva Nascimento1;
Natália Dourado de Castro1; Nataniele Ferreira Viana1; Luana Dias da Cunha1; Alessandro Carvalho dos Santos1;
Tamiris Fernanda Lima Silva1; Aline Guimarães Amorim2; Antônio Carlos Romão Borges2 .
1 - Acadêmicos da Universidade Federal do Maranhão – UFMA.
Departamento de Ciências Fisiológicas, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde – Universidade Federal do
Maranhão – UFMA.
2 - Professores do Departamento de Ciências Fisiológicas, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde.
Universidade Federal do Maranhão – UFMA.
RESUMO
Atualmente, as principais preocupações da
Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) são o uso indiscriminado de
medicamentos, a forma deliberada como
são obtidos em algumas farmácias e como
os meios de comunicação utilizam-se da
propaganda para promover esses produtos.
Além dos medicamentos, é fundamental
garantir que outros produtos para a saúde e o
incentivo à alimentação saudável estejam entre
os temas prioritários na agenda de discussão
e divulgação dos meios de comunicação de
massa. Nesse sentido, torna-se fundamental
que a população em geral e os radialistas em
específico estejam cientes e esclarecidos sobre
a qualidade da propaganda veiculada pela
mídia. O objetivo deste trabalho é verificar
o impacto da intervenção educacional em
radialistas e em acadêmicos da Universidade
Federal do Maranhão (UFMA), na cidade de
São Luís Maranhão, no que se refere ao uso de
medicamentos, à adoção de uma alimentação
saudável e à legislação de propagandas. Os
resultados foram obtidos através da análise
de dados coletados de um questionário com
25 perguntas, aplicado no início e no fim do
seminário “A Promoção da Saúde pelas Ondas
do Rádio”, promovido pela UFMA em parceria
com a Anvisa e a Organização Pan-Americana
de Saúde (Opas). Observou-se que a minoria
das pessoas presentes no seminário consistia
de radialistas; no entanto, a intervenção
educacional através do seminário teve impacto
positivo, pois os conteúdos abordados foram
absorvidos pelos radialistas e acadêmicos
presentes. Logo, é relevante o incentivo à
pesquisa e a discussão de seminários abordando
os assuntos propostos.
INTRODUÇÃO
Ao refletir sobre a publicidade de produtos
relacionados à saúde como medicamentos,
alimentos e cosméticos percebe-se a necessidade
de analisar, à luz de parâmetros éticos, questões
que associem o direito à informação e à saúde,
de modo que sejam desenvolvidas ações que
possibilitem minimizar os riscos advindos do
consumo induzido de forma indiscriminada.
Neste sentido, adquire relevância a pesquisa e a
discussão sobre a propaganda desses produtos,
para adoção de medidas cautelares por parte de
órgãos gestores como a Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa) (MARTINS, 2008).
A Anvisa tem o papel de monitorar e fiscalizar
a propaganda de medicamentos, alimentos e
produtos para a saúde em todo o país, ficando
responsável, portanto, pela análise criteriosa de
todas as informações e os meios empregados
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 189
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
IMPACTO DA INTERVENÇÃO EDUCACIONAL RELATIVO AO USO
DE MEDICAMENTOS, ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL E LEGISLAÇÃO DE
PROPAGANDA
nesses tipos de publicidade. Contudo, mesmo
a Agência sendo descentralizada nos estados e
municípios, é grande a dificuldade de controlar
efetivamente algumas propagandas, pois a
todo o momento são veiculadas novas peças
publicitárias na TV, no rádio, outdoors, internet,
dentre outros.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem por
objetivo o controle político de acesso, qualidade/
segurança e uso racional de medicamentos.
Este último item salienta a relevante questão do
uso incorreto de medicamentos induzido por
promoções que visam, exclusivamente, o lucro
(MARTINS, 2008). Paralelamente à introdução
maciça de novos fármacos na terapêutica,
aumentou-se exponencialmente a quantidade de
informações sobre medicamentos, provocando
o que se convencionou chamar de “explosão
de informação”, nem sempre de boa qualidade
e imparcial (VIDOTTI, 2000).
de administração muito reduzido e o uso
incorreto por parte do paciente constituemse, também, em questões preocupantes.
A veiculação de campanhas publicitárias
tendenciosas, cujos objetivos são meramente
comerciais, estimula o consumo crescente e
indiscriminado de medicamentos. Assim, fazse urgente a implantação de rígidas medidas
de controle, propondo-se, inclusive, a revisão
da legislação vigente, de forma a torná-la mais
eficaz e menos propensa a interpretações
subjetivas (LUCHESSI, 2005).
A explosão de novos fármacos e de informações
nas últimas décadas do século 20 e início do
século 21 mostra-se, em alguns casos, negativa,
a partir do momento em que a indústria
farmacêutica divulga propagandas abusivas,
não expondo, ou às vezes minimizando, os
reais riscos de determinados fármacos que estão
disponíveis no mercado.
Dentro do processo de ampliação do
âmbito de intervenção da Medicina (a
chamada “medicalização”), o uso abusivo
de medicamentos industrializados assume
papel de destaque. Entre as diversas práticas
mercadológicas de que a indústria farmacêutica
se vale para incrementar os seus lucros —
via estímulo ao consumo — sobressai-se a
propaganda, particularmente junto aos médicos
(BARROS, 1983).
Segundo o artigo 1º da Lei nº 6.360, de 23 de
setembro de 1976, ficam sujeitos às normas
de vigilância sanitária instituídas por esta
lei os medicamentos, as drogas, os insumos
farmacêuticos e correlatos, definidos na Lei
nº 5.991, de 17 de dezembro de 1973, bem
como os produtos de higiene, os cosméticos,
perfumes, saneantes domissanitários, produtos
destinados à correção estética e outros adiante
definidos (BRASIL, 2009).
A propaganda divulgada de modo incorreto
pode ter um efeito bem drástico ao incentivar
uma automedicação possivelmente inadequada.
Segundo a OMS (2000/2001), um terço da
população mundial não tem acesso aos
medicamentos essenciais e este valor eleva-se
para 50% nas regiões mais pobres da África e da
Ásia. As razões para esta drástica redução podem
ser atribuídas ao inadequado financiamento e
à má administração da assistência à saúde. O
fato de muitos medicamentos disponíveis terem
qualidade, segurança e eficácia comprometidas,
como os medicamentos falsos, é um sério
agravante (LUCHESSI, 2005).
Nesse contexto, a elaboração de uma
regulamentação que trata de restrições e
concessões à propaganda de medicamentos
é representada pela Resolução de Diretoria
Colegiada, RDC nº 96, de 17 de dezembro
de 2008, emitida pela Anvisa e publicada no
Diário Oficial da União, de 18 de dezembro de
2008. Dispõe sobre a propaganda, publicidade,
informação e outras práticas cujo objetivo
seja a divulgação ou promoção comercial de
medicamentos (BRASIL, 2008).
O uso irracional de medicamentos, os elevados
índices de prescrição de antibióticos, o tempo
190 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Além de medicamentos, é fundamental garantir
que os produtos para a saúde e o incentivo à
adoção de uma alimentação saudável estejam
entre os itens de prioridade para uma boa
informação pela mídia. A vida moderna,
A propaganda, por ter como objetivo principal
atender os negócios do anunciante, pode
correr o risco de ser mal utilizada, anunciando
informações contrárias à função do alimento
e estimulando o consumo de produtos que
fazem mal à saúde. Em virtude da disseminação
excessiva de propagandas de alimentos, a
Anvisa desenvolveu leis para a publicidade
desses produtos com o objetivo de identificar
irregularidades em seus anúncios. A exposição
a esse tipo de propaganda pode levar à adoção
de hábitos alimentares negativos em adultos,
adolescentes e, principalmente, crianças.
Estudo realizado por Pipitone, em 2005, sobre
a influência da propaganda no público infantil,
relatou que crianças que passam muitas horas
expostas à televisão são mais vulneráveis ao
anúncio de alimentos de alto valor calórico,
além do fato de não estarem praticando
atividades físicas, situação que predispõe para
o aumento do risco para obesidade e sobrepeso
(PIPITONE, 2005).
Em função do crescente número de crianças
acima do peso e obesas no país, e tendo em
vista que a publicidade é um dos fatores de
maior impacto no estilo de vida e nos hábitos
alimentares, especialmente das crianças, a
Anvisa desenvolveu uma proposta de resolução
técnica para a campanha de alimentos ricos em
gordura, gordura trans, açúcar, sódio e bebidas
com baixo valor nutricional, como refrigerantes,
refrescos artificiais, bebidas ou concentrados a
base de xarope de guaraná ou groselha, chá
mate e chá preto (BRASIL, 2008).
Na área de alimentos, o Decreto-Lei nº 986
de 1969, que institui as Normas Básicas sobre
Alimentos, torna proibida a divulgação de
textos e matérias de propagandas, qualquer
que seja o veículo utilizado, para informações
contrárias àquelas que foram aprovadas para
constar no rótulo (BRASIL, 1969). A rotulagem
deve ser clara, objetiva e fidedigna conforme
as diretrizes descritas no Regulamento Técnico
para a Rotulagem de Alimentos. Desta forma,
assim como os rótulos, a propaganda de
alimentos não pode induzir o consumidor a erro,
equívoco ou engano. Informações adequadas
e compreendidas pelo consumidor permitirão
que o ato de consumir gere uma atitude prévia
de reflexão sobre a necessidade do consumo
daquele bem.
De acordo com Henriques et al. (2006), a
informação clara e adequada sobre os riscos do
consumo exagerado de determinados produtos
alimentícios pode contribuir para hábitos
alimentares mais saudáveis.
Nas últimas décadas, diversas classes de
alimentos naturais consumidos pelos seres
humanos, durante milênios, foram substituídas
por uma nova geração: os processados e
industrializados, criados em resposta à correria
imposta pelos dias de hoje, de forma a facilitar
a vida moderna. Para garantir a aceitação
desses produtos, foram introduzidos novos
ingredientes nesses alimentos, tornando-os
cada vez mais atraentes e saborosos. Açúcar
para adoçar; gordura saturada e gordura trans
para dar maior maciez, leveza e cremosidade;
sódio para acentuar o sabor; corantes para dar
um colorido especial; e aromatizantes para criar
novos e variados cheiros (BRASIL, 2008).
A mudança repentina nos hábitos alimentares,
incluindo a redução na qualidade nutricional
dos alimentos, trouxe uma série de alterações
negativas para a saúde da população mundial,
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 191
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
associada ao desenvolvimento de novas
tecnologias aplicadas à área de alimentos,
impulsionou um aumento do consumo de
produtos industrializados. As indústrias de
alimentos investem, cada vez mais, recursos em
propaganda de seus produtos, com o objetivo
de conquistar novos e fiéis consumidores. Neste
contexto, com um mercado em expansão, surge
também um novo perfil de consumo, o “novo”
consumidor deseja alimentos equilibrados do
ponto de vista nutricional, de fácil preparo
e sensorialmente atraentes. As mensagens
sobre alimentação veiculadas pelos meios
de comunicação merecem especial atenção,
entre outros fatores pelos estudos que apontam
que a mídia tem exercido papel fundamental
na formação de novos hábitos alimentares
(MARTINS, 2008).
ocasionando uma verdadeira epidemia do
mundo moderno: as doenças crônicas não
transmissíveis, como o câncer, o diabetes e a
obesidade (BRASIL, 2008).
Logo, a responsabilidade compartilhada entre
sociedade, setor produtivo privado e setor
público é o caminho para a construção de
modos de vida que tenham como objetivo
central a promoção da saúde e a prevenção de
doenças. Assim, é pressuposto da promoção
da alimentação saudável ampliar e fomentar a
autonomia decisória dos indivíduos e grupos,
por meio do acesso à informação para a escolha
e adoção de práticas alimentares (e de vida)
saudáveis (BRASIL, 2006).
A comunicação através das ondas de rádio
busca atingir um público que tem acesso há
várias informações diárias, desde o que mora
nos grandes centros urbanos até a população
mais “leiga”, que tem apenas o conhecimento
diário da sua pequena cidade, tendo apenas o
rádio como uma alternativa para se informar
sobre os fatos que estão acontecendo no Brasil
e no mundo.
Os radialistas, em qualquer hora do dia,
divulgam
anúncios
publicitários
sobre
medicamentos, alimentos e produtos para saúde
e essas informações alcançarão públicos de
várias idades, regiões, sexo, entre outros. Nesse
sentido, torna-se fundamental que radialistas
e a população em geral estejam cientes e
esclarecidos sobre a maneira correta como a
propaganda/publicidade deve ser veiculada
e a qualidade dos produtos que estão sendo
anunciados.
Para conscientizar e aprimorar o conhecimento
de radialistas e da comunidade acadêmica,
a UFMA em parceria com a Anvisa e a Opas
realizaram o seminário intitulado “A Promoção
da Saúde pelas Ondas do Rádio”, onde foram
abordadas as seguintes temáticas: uso racional
de medicamentos; alimentação saudável;
propaganda de medicamentos; alimentos; e
produtos para a saúde. O evento consistiu de
192 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
palestras e de aplicação de um questionário
sobre os temas abordados.
Nesse contexto, o objetivo deste trabalho é
verificar o impacto da intervenção educacional
no que se refere ao uso de medicamentos,
à alimentação saudável e à legislação de
propagandas em radialistas e acadêmicos da
UFMA, na cidade de São Luís (MA).
MATERIAIS E MÉTODOS
O seminário “A Promoção da Saúde pelas
Ondas do Rádio” foi promovido nos dias 22 e
23 de outubro do ano de 2009, na Universidade
Federal do Maranhão (UFMA), na cidade de São
Luís (MA). Foram convidados radialistas de todas
as emissoras de rádio da cidade para se fazerem
presentes nos dias do evento. O seminário foi
divulgado na Rádio Universitária, pela internet
(no site da UFMA) e por meio de cartazes
anexados em toda a extensão da universidade
para que os acadêmicos estivessem cientes da
realização do evento.
Antes de iniciarem as palestras, foi fornecido
um questionário com 25 perguntas sobre os
assuntos a serem abordados: propaganda de
medicamentos; alimentos e produtos para
a saúde; uso racional de medicamentos;
alimentação saudável; e legislação, cabível a
cada tema. No término do primeiro dia do ciclo
de palestras, os questionários foram recolhidos
para posterior análise.
No segundo dia, retomou-se o ciclo de palestras
acerca dos mesmos assuntos, entregando
aos participantes, na metade das atividades
desse dia, o mesmo questionário para avaliar
o grau de compreensão sobre as informações
apresentadas pelos integrantes do projeto.
Para análise dos dados foram utilizados os
programas estatísticos Epi Info 3.5 e o programa
Bioestat 5.0. Com relação aos aspectos éticos,
o trabalho foi homologado no processo n°
5405/2008-08 (Resolução n°649 Consepe).
O questionário utilizado para comparar o
aprendizado dos radialistas e acadêmicos da
UFMA foi respondido por 45 pessoas, nos dois
dias de evento. Em relação aos participantes,
verificou-se que a maioria foram estudantes
universitários do Centro de Ciências da
Saúde (Medicina, Odontologia, Enfermagem),
totalizando 48%; 34% representaram estudantes
do Centro de Ciências Sociais (Comunicação
Social, Pedagogia e Economia); e apenas 6%
eram profissionais que trabalham efetivamente
como radialistas, o público-alvo inicial do
seminário (Gráfico 1).
A ausência de profissionais do rádio é
extremamente preocupante, pois não foi
possível perceber se tais profissionais estão
interessados sobre o assunto e/ou capacitados
de fato para transmitir de maneira correta e ética
as informações necessárias no que compete à
promoção da saúde. A ausência dos mesmos
pode ser justificada pela incompatibilidade de
horário, visto que o seminário ocorreu à noite e
muitos trabalham nas rádios no período noturno.
A ausência desses profissionais ainda mostra
o desinteresse com a informação prestada à
população, deixando de lado os quesitos éticos
a respeito da veiculação de informações.
Porém, verificou-se no evento uma grande
porcentagem de acadêmicos da área da saúde,
o que é de grande importância, visto que
serão profissionais que atuarão diretamente
na promoção da saúde e na prevenção de
doenças.
Das 25 questões presentes no questionário
aplicado, selecionaram-se as perguntas mais
importantes para verificar o impacto das
palestras ministradas no seminário.
Gráfico 1 – Frequência do público presente no seminário “A Promoção da Saúde pelas Ondas do Rádio”.
No gráfico 2, é possível verificar a frequência de
respostas, antes e depois do ciclo de palestras,
em relação à pergunta sobre a legalidade
da presença de pessoas fazendo o uso de
medicamento em propagandas.
De acordo com o artigo 8º, inciso III,
presente na RDC nº 96, de 17 de dezembro
de 2008, é vedado incluir na propaganda de
medicamentos imagens de pessoas fazendo uso
do medicamento. Ao comparar as respostas do
primeiro e segundo dia de palestras, foi possível
identificar um aumento no número de indivíduos
cientes sobre a ilegalidade da presença de
pessoas fazendo o uso de medicamentos em
propagandas.
No rádio, a indústria farmacêutica patrocina
os locutores líderes de audiência. Os discursos
utilizados são sempre persuasivos e vão de
receitas de chá de limão e comprimidos a rezas
contra a gripe (PIPITONE, 2005). Talvez por
isso tenhamos uma atividade onde a ausência
dos radialistas é preocupante. A propaganda de
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 193
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
Resultados e Discussão
Gráfico 2 – Frequência de respostas sim (1) e não (2) quando perguntados sobre a legalidade da
presença de pessoas fazendo o uso de medicamento em propagandas.
medicamento não deve ser tratada como uma
propaganda qualquer, ela tem critérios técnicos
diferenciados, não podendo, inclusive, ser
veiculada a qualquer hora. O fato de a indústria
farmacêutica financiar o funcionamento de
programas de rádio é extremamente preocupante,
e talvez seja necessária a implantação de uma
medida mais rígida para essa situação. Isso põe
a saúde das pessoas em risco, e torna-se um
grave problema de saúde pública. A ausência
desses profissionais do rádio ainda mostra
o desinteresse com a informação prestada à
população, deixando de lado os quesitos éticos
a respeito da veiculação de informações.
Segundo Jesus (2004), as propagandas
direcionadas aos médicos, quando se trata
de medicamentos éticos ou controlados, por
lei (no Brasil) não podem ser veiculadas na
mídia de massa. Porém, as propagandas de
medicamentos considerados de venda livre
(over-the-counter - OTC) podem ser divulgadas
ao público leigo. Esses anúncios, quase sempre,
utilizam imagens de artistas famosos na televisão
e utilizam depoimentos exagerados sobre a
melhoria de vida ao usar tal medicamento.
São frases, expressões, e outras palavras que
produzem efeitos fantásticos, principalmente
quando repetidas em rádios, TVs, revistas,
outdoors e até no material de ponto de venda
das farmácias e drogarias.
194 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
A “indústria” da propaganda pensa de maneira
ousada e criativa em como fazer mensagens
televisivas repletas de promessas enganosas,
utilizando como recurso persuasivo, por
exemplo, o testemunho de artistas famosos e
de credibilidade da população (muitas vezes
pouco informada e carente) para “vender”
analgésicos.
Por mais que seja proibido, a mídia ainda usa
desse discurso apelativo para poder conseguir
lucratividade, após anos de investimentos em
pesquisas de novas classes de medicamentos.
Vale destacar ainda uma herança histórica e
cultural. Ao pesquisar a história da propaganda
no Brasil, nota-se que os primeiros anunciantes
potencialmente conhecidos foram os de
medicamentos. Os “reclames”, como eram
denominados os anúncios, eram aparentemente
ingênuos, pois não havia um especialista
para escrever a respeito de medicamentos.
Ora os médicos davam seus depoimentos,
ora os poetas eram contratados para escrever,
enquanto artistas plásticos e pintores ilustravam
os anúncios, quase sempre com imagens de
sofrimento e com a promessa de cura pelo
medicamento.
A indústria farmacêutica continua fazendo de
tudo para obter lucro desenfreado, utilizando-se
Quanto à alimentação saudável e à propaganda
de alimentos, podem ser feitas as seguintes
considerações a respeito do horário em que
as propagandas de alimentos com alto teor
de açúcar, sódio, gorduras saturadas, gorduras
trans e bebidas com baixo teor nutricional são
veiculadas para o público infantil nos meios de
comunicação (Gráfico 3).
Gráfico 3 – Frequência de respostas sim (1) e não (2) quanto à propaganda de alimentos com alto
teor de açúcar, sódio, gorduras saturadas, trans e bebidas com baixo valor nutricional veiculadas em
qualquer horário para o público infantil.
Após o ciclo de palestras, observou-se um
aumento de participantes cientes de que
propagandas de alimentos com alto teor de
açúcar, sódio, gorduras saturadas, gorduras
trans e bebidas com baixo valor nutricional para
o público infantil não podem ser veiculadas em
qualquer horário.
Percebeu-se uma diferença no número de
frequência de pessoas que responderam ao
questionário no primeiro e no segundo dia, fato
este advindo de que muitas pessoas não sabiam
a resposta no primeiro dia e após o seminário
ocorreu um posicionamento em relação às
respostas.
a publicidade ou a promoção, em rádio e
televisão, de alimentos com quantidades
elevadas de açúcar, de gordura saturada, de
gordura trans, de sódio e de bebidas com baixo
teor nutricional somente poderá ser realizada
entre às 21 horas e às 6 horas da manhã.
A alimentação saudável deixa de ser um prérequisito fundamental para propaganda de
alimentos, pois a toda hora são veiculados
anúncios publicitários de alimentos não
saudáveis, o que aumenta o lucro das empresas
de alimentos e incentiva os telespectadores
a adquirirem péssimos hábitos alimentares,
principalmente as crianças, o público mais
vulnerável.
De acordo com a Consulta Pública nº 71, de 10
de novembro de 2006, artigo 7º, a propaganda,
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 195
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
de qualquer forma de discurso na propaganda:
pessoas famosas, imagens de super-herói, “frases
feitas”, entre outras. Percebe-se que a saúde
do paciente é a de menor importância para a
indústria farmacêutica. Devido ao almejo da
lucratividade, a informação realmente necessária
pode ser distorcida pela indústria farmacêutica
e absorvida de maneira inadequada por grande
parte da população.
Gráfico 4 – Erros e acertos dos questionários aplicados antes do seminário.
Gráfico 5 – Erros e acertos dos questionários aplicados depois do seminário.
196 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Sobre alimentação saudável (questões que vão
de 1 a 6) percebe-se que o público presente
conseguiu absorver as informações fornecidas
no seminário. Fica claro na questão 3, onde
questiona sobre os alimentos dietéticos serem
feitos para pessoas que precisam restringir o
consumo de algum nutriente, que o público que
não tinha conhecimento a respeito do assunto
passou a ter após assistir às palestras. Com
essa informação, os participantes já podem
argumentar sobre o assunto, possibilitando
usar o conhecimento adquirido e colocá-lo em
prática em seus meios de convívio.
Conhecimentos de caráter científico, técnico
e específico da área da saúde devem ser
transmitidos de maneira mais simples, porém
objetiva, para a população em geral, que
desconhece sobre os assuntos abordados nas
palestras. Fica evidente a diferença também nos
outros parâmetros (questões 4, 5 e 6), a partir
das informações fornecidas, foi de fundamental
importância para o esclarecimento.
Quanto aos assuntos referentes à propaganda
de alimentos, medicamentos e produtos para a
saúde, chamam a atenção os quesitos 7 e 10,
onde os níveis de conhecimento a respeito do
assunto eram bem críticos (partindo do princípio
que o erro foi bem alto) antes das palestras
fornecidas no seminário. No entanto, após as
apresentações, a situação foi praticamente
invertida. Teve-se um resultado extremamente
positivo, mostrando que a informação ainda
faz-se de fundamental importância para
o contexto sociocultural em que estamos
inseridos, onde o acesso à saúde é muito difícil,
e, mediante a “avalanche” de informações,
torna-se fundamental o papel dos acadêmicos
das áreas de Saúde, da Comunicação Social
e de profissionais dessas áreas, que devem
estar sempre dispostos a esclarecer e a prestar
informações.
Sobre o uso racional de medicamentos, o
número de erros também diminuiu muito se
comparado com a aplicação do questionário
antes da informação fornecida. Evidentemente
que ainda faltam alguns pontos a serem
superados, como o fato de a propaganda incitar
o uso de determinado medicamento, em caso
de determinada patologia, por exemplo. O uso
racional de medicamentos começa a partir de
uma informação bem esclarecida. Girando em
torno mais uma vez da informação, a inversão
da situação da população brasileira, quanto
ao nível de conhecimento sobre assuntos
fundamentais, pode começar a ser trabalhada
dessa maneira.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base nos dados aqui expostos, concluise que a ausência de radialistas foi um fator
preocupante, visto que são profissionais
fundamentais na transmissão de informações para
a população. Porém, a intervenção educacional
por meio do seminário teve impacto positivo,
uma vez que os conteúdos abordados foram
absorvidos por todos os participantes. Nesse
sentido, é relevante o incentivo à pesquisa e a
discussão de seminários sobre esses temas por
profissionais e acadêmicos da área da saúde,
com a finalidade de melhorar a qualidade de
vida da população.
COLABORADORES
Todos os colaboradores participaram de forma
íntegra em todas as etapas do projeto, desde a
coleta dos dados até a elaboração deste artigo.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos a Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa), Organização Pan-Americana
de Saúde (OPAS) e a Universidade Federal
do Maranhão (UFMA) pelo financiamento do
projeto e fornecimento das instalações para que
pudéssemos executar as etapas do projeto.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 197
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
Quanto às respostas certas, erradas ou o
desconhecimento sobre o assunto, antes e
depois da informação repassada no seminário,
faz-se as seguintes análises.
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de 17 de dezembro de 2008. Dispõe sobre a
propaganda, publicidade, informação e outras
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promoção comercial de medicamentos. Diário
Oficial da República Federativa do Brasil,
Brasília, DF, 18 de dezembro de 2008.
BRASIL. Decreto-Lei n° 986, de 21 de outubro
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Federativa do Brasil, Brasília, DF, 21 de
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Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Beatriz Oliveira Carvalho1; Leonardo Bahia Tavares2; Luiza Pinheiro Alves da Silva2; Luis Fernando Duarte de
Carvalho2;Gerson Antônio Pianetti3.
1- Farmacêutica da Vigilância Sanitária da Secretaria de Saúde de Minas Gerais.
2 - Graduandos do Curso de Farmácia, estagiários do Projeto Monitora (UFMG).
3- Farmacêutico, Professor Associado III do Departamento de Produtos Farmacêuticos (UFMG).
RESUMO
O Brasil é, reconhecidamente, líder na arte
da comunicação por meio da propaganda
e publicidade de bens de consumo.
Possui excelentes escolas, profissionais
internacionalmente reconhecidos e domina
a tecnologia da comunicação. Isso leva a se
ter no país propagandas muito criativas e que
conseguem exercer o seu papel de convencimento
de que aquele bem de consumo é o melhor e
que o cidadão tem uma necessidade enorme em
obtê-lo. É a prática do mercado. Extrapolando
suas criatividades, os programadores, os
jornalistas, os comunicadores, enfim, todas
as profissões que envolvem qualquer tipo
de comunicação deixam a desejar quando,
aliada à propaganda, existe uma questão ética
que não pode ser negligenciada. Passou-se a
ver nos meios de comunicação propagandas
absurdas de produtos que estão sujeitos à
legislação sanitária, sem que um debate ético
entre esses profissionais tenha sido pensado,
visando a uma mudança de comportamento.
A comunicação radiofônica é a mais danosa,
pois atinge, de forma direta e na maioria das
vezes em tom testemunhal, inúmeras pessoas
de formação menos privilegiada, menos
politizada e, portanto, com certa limitação
no discernimento sobre aquilo que está sendo
anunciado, na maioria das vezes de maneira
indutiva. A Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa), por meio de projeto
envolvendo diversas universidades públicas
brasileiras, promoveu o debate desses e de
outros aspectos sociais na segunda oficina de
trabalho “Ética, Mídia e Saúde”, com a tentativa
de envolvimento dos comunicadores de rádio
da cidade de Belo Horizonte e arredores.
INTRODUÇÃO
A história da propaganda de medicamentos se
confunde com a própria história das práticas
publicitárias no Brasil. Ao longo dos anos, os
produtos farmacêuticos sempre ocuparam um
lugar de destaque nos mais diversos meios
de comunicação (TEMPORÃO, 1986). Os
primeiros anúncios de medicamentos surgiram
no século 19, quando o principal veículo de
divulgação era o jornal.
Se o século 19 foi marcado pelos jornais, o
século 20 muda o tom da imprensa com o
surgimento das revistas semanais ilustradas. É
o momento das charges, sonetos e da crônica
social. O novo século assiste a um aumento
no volume de propagandas de medicamentos
(RAMOS, 1972).
Até a década de 20, as casas de representantes,
as importadoras e os laboratórios nacionais
utilizavam as mesmas estratégias de divulgação.
A partir daí, observa-se um processo de
diferenciação entre as concepções e práticas
promocionais desenvolvidas pelas indústrias
nacionais e estrangeiras. Verifica-se uma forte
tendência em priorizar a propaganda para
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 201
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
A RESPONSABILIDADE SOCIAL DO COMUNICADOR DE RÁDIO FACE
AOS PRODUTOS SUJEITOS À VIGILÂNCIA SANITÁRIA
o público geral por parte dos laboratórios
nacionais, e, por outro lado, uma ênfase em
propagandas para médicos por parte das
indústrias estrangeiras. É importante, no entanto,
ressaltar que a indústria farmacêutica estrangeira
nunca se descuidou da propaganda dirigida
diretamente aos consumidores (TEMPORÃO,
1986).
Em busca de mercado para seus produtos, a
propaganda dos grandes laboratórios investiu
contra o modo passado de vida, desqualificando
as práticas caseiras e artesanais e sobrepondo-se
a elas (GOMES, 2006).
O período dominado pelo rádio durou até
meados dos anos 60 e a indústria farmacêutica
contribuiu de forma importante para a expansão
desse meio e das novas técnicas publicitárias
(TEMPORÃO, 1986).
O final da década de 70 assiste ao surgimento do
mais poderoso veículo publicitário: a televisão.
Os produtos anunciados não divergem muito
do que vinha sendo anunciado pelos outros
veículos, mas a TV apresenta um componente
valorativo em detrimento da informação; além
de uma ampliação significativa do alcance dos
anúncios, atingindo agora grandes contingentes
populacionais (TEMPORÃO, 1986).
A propaganda de medicamentos é uma das mais
importantes estratégias da indústria farmacêutica
no sentido de incrementar o consumo de
seus produtos (BARROS, 1995). Ao veicular
informação tendenciosa e/ou duvidosa, esse
instrumento se torna um entrave às políticas
de uso correto de medicamentos, devendo,
portanto, ser alvo de um modelo regulador que
proteja a população dos riscos oferecidos por
essas propagandas.
O crescimento do número de intoxicações
humanas e de óbitos registrados nos últimos anos
pelo Sistema Nacional de Informações Tóxico
Farmacológicas (Sinitox), da Fundação Oswaldo
Cruz/Ministério da Saúde, é um dos indícios dos
efeitos danosos da propaganda indiscriminada e
do uso incorreto e abusivo de medicamentos no
Brasil (NASCIMENTO, 2007).
202 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Os casos de intoxicação humana tendo como
agentes os medicamentos somaram, em 2006,
30,7% do total de casos registrados, superando
agravos causados por animais peçonhentos,
produtos domissanitários e agrotóxicos
(FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ, 2006). Desde
1995, os medicamentos constituem a principal
causa de intoxicação humana no Brasil, segundo
informação do Sinitox, 1995-2005.
Uma parcela considerável da população
brasileira – constituída por crianças, idosos e
portadores de doenças crônicas – está exposta
à propaganda de medicamentos sem que ela
traga nenhum tipo de advertência quanto
ao uso desses produtos em faixas etárias
específicas e em condições especiais. Além
disso, milhões de brasileiros sequer sabem
que são portadores de agravos crônicos, sendo
induzidos pela propaganda de medicamentos a
consumir produtos inadequados à sua condição
(NASCIMENTO, 2005).
A
monitoração
de
propagandas
de
medicamentos e outros produtos sujeitos às
ações de vigilância sanitária tem sido uma
preocupação do setor regulador e durante
quatro anos 19 universidades foram parceiras
da Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) nos projetos de monitoração dos meios
de comunicação. A Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG) monitorou a mídia da
cidade de Belo Horizonte.
Em 2009, ações voltadas para radialistas foram
desencadeadas com o intuito de trazer à tona
a discussão sobre o poder da comunicação e a
responsabilidade social que esses profissionais
possuem frente a um público carente de
informações e, de certa forma, às vezes menos
politizados.
No exercício dos projetos iniciais percebeuse a necessidade em se atingir essa classe de
anunciantes devido ao “estrago” causado
pelo poder de influência sobre seus ouvintes,
usando formas agressivas de convencimento de
utilização de medicamentos, inclusive com o
uso abusivo da propaganda testemunhal.
MATERIAIS E MÉTODOS
Foi organizada uma oficina de trabalho
intitulada “Ética, Mídia e Saúde”, composta
de três palestras e uma sessão de debates
voltada, principalmente, para os profissionais
comunicadores de rádio da cidade de Belo
Horizonte.
A primeira palestra, proferida pela Dra. Beatriz
Oliveira Carvalho da Vigilância Sanitária da
Secretaria de Saúde de Minas Gerais, versou
sobre a propaganda em meios de comunicação
em Belo Horizonte. A segunda palestra foi
proferida pela Dra. Mariana Collani da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária; enquanto
a terceira palestra, realizada pelo Dr. Bruno
Guimarães Martins, professor do Departamento
de Comunicação Social da Faculdade de
Filosofia e Ciências Humanas da Universidade
Federal de Minas Gerais, versou sobre a ética
na publicidade.
A divulgação foi ampla e contou com a
colaboração dos senhores Edson Gregório
Diogo e Aloísio Morais Martins, respectivamente
Diretor e Presidente do Sindicato dos Jornalistas
de Minas Gerais.
O Sindicato repassou endereços das principais
emissoras de rádio e foram agendadas visitas
para a divulgação do evento com a entrega
do material promocional - cartazes e fôlderes
publicitários, incluindo a programação.
Por sua parte, a emissora Educativa da UFMG
promoveu inúmeras entrevistas com a equipe
e fez constantes inserções radiofônicas
anunciando o evento e estimulando a
participação dos radialistas.
O Boletim da UFMG - com tiragem de 8.000
exemplares - divulgou intensamente o evento. O
Boletim abrange todas as unidades acadêmicas
da UFMG e é despachado para praticamente
todas as universidades públicas brasileiras e
todos os órgãos de ensino e pesquisa do Estado
de Minas Gerais, além de órgãos públicos
de fomento à pesquisa. Isto é, houve uma
abrangência significativa na divulgação do
evento.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O histórico do Projeto de Monitoramento
e Fiscalização de Propaganda de Produtos
Sujeitos à Vigilância Sanitária na UFMG,
realizado em 2007, indica uma avaliação de
aproximadamente 120 peças publicitárias
captadas em jornais, revistas, rádio e televisão.
Certamente que a propaganda em forma de
folheto é de mais fácil coleta, pois aquelas
veiculadas em emissoras de rádio e de televisão
dependem de gravação, tornando sua captação
mais difícil, a não ser que haja uma gravação
em tempo integral.
Apesar de se ter percebido a ausência de
propaganda de medicamentos nos principais
jornais mineiros, observa-se que jornalistas
inserem em suas crônicas informações
testemunhais que podem sim levar o leitor ao
uso não racional de medicamentos, e, inclusive,
induzem ao consumo. É uma questão ética
muito importante, que merece reflexão à parte.
Não foram inúmeras as gravações radiofônicas,
mas pode-se perceber que a forma testemunhal da
propaganda tem um componente de forte apelo,
pois liga a imagem do radialista, geralmente
com elevado poder de convencimento, ao
produto por ele anunciado. Foi esse o principal
motivo para realizar um evento exclusivo para
esse público-alvo, no intuito de fazê-lo ver sua
importante participação na educação sanitária
da população.
Inúmeras visitas às emissoras de rádio foram
realizadas sem, entretanto, despertar interesse
no tema por parte desses profissionais. Sabe-se
que a propaganda faz parte de uma boa quota
do que o profissional recebe da emissora, e,
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 203
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
Dentre as ações com a categoria, foram
programadas visitas em emissoras de rádio
situadas na cidade de Belo Horizonte,
distribuição de material informativo e realização
de um encontro com a classe, pautando como
tema de debate a mídia, a saúde e a ética.
não havendo uma conduta ética, ele não está
preocupado com o que está anunciando e sim
o quanto receberá por esse trabalho.
Apesar da pressão sobre esses profissionais,
a ausência deles, em princípio, quase levou
a realização do evento ao fracasso. Mas,
felizmente, contou com um número expressivo
de estudantes de Comunicação Social, os
quais se aliaram aos estudantes dos cursos de
Farmácia, Medicina, Nutrição, Odontologia
dentre outras. Teve-se a presença de apenas um
radialista.
No decorrer das visitas realizadas, apesar da
gentileza demonstrada no recebimento da
equipe, não foram poucos os comentários de
que não haveria, certamente, grande adesão de
radialistas, pois existe uma política da emissora
e eles a seguem à risca e a maioria deles é
responsável pela captação da propaganda.
A pesquisa demonstrou a maioria das frequências
de irregularidades como sendo a indução
ao uso indiscriminado de medicamentos
(35%); a omissão sobre cuidados especiais e
advertências (29%); as informações incompletas
sobre as contra-indicações (21%); a sugestão
de diagnóstico (10%); e outras. A advertência
obrigatória “A PERSISTIREM OS SINTOMAS,
O MÉDICO OU O FARMACÊUTICO DEVEM
SER CONSULTADOS” não foi observada em
nenhuma das gravações realizadas. Dentre
todas as irregularidades, a indução ao uso
indiscriminado é a principal irregularidade e é
aquela que mais traz problemas à saúde pública,
promovendo muitas vezes o uso inadequado
de medicamentos. Esse fato é agravado pelo
depoimento seja do radialista ou de outra pessoa
entrevistada, o que induz à automedicação.
Geralmente cada bloco publicitário apresenta
mais de uma irregularidade em afrontamento à
lei vigente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo de três anos de trabalho e duas fases
contribuindo com a monitoração de propaganda
de produtos sujeitos à vigilância sanitária, o
resultado obtido não é muito animador.
204 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Há uma clara forma de desobediência por parte
da mídia e de seus profissionais. As multas
aos infratores são irrisórias e não revelam uma
preocupação da emissora, já que o ganho
financeiro é infinitamente maior. Por outro
lado, o poder do órgão público regulador fica
esvaziado, visto que sua principal preocupação é
quanto à proteção da saúde pública brasileira.
Observa-se, com perplexidade, a perpetuação
de um quadro inadmissível de descumprimento
das normas reguladoras relativas à publicidade
de medicamentos e de desrespeito à população,
na medida em que estas práticas abusivas a
submetem a risco sanitário permanente.
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Katy, LG Dias 1*; Diego, N Guedes1; Maria R Freitas1; Margareth, FFM Diniz2,3; Isac A Medeiros2, 3;Darizy, FSA
Vasconcelos1, 3; Álvaro, LVL Brito; Ligiana, L Carvalho; Priscilla, EM Brito; Camila Gurgel; Amanda, MS Lacerda
& Nadja A Correia1,3.
1 - Departamento de Fisiologia e Patologia (UFPB).
2 - Departamento de Ciências Farmacêuticas (UFPB).
3 - Laboratório de Tecnologia Farmacêutica Prof. Delby Fernandes de Medeiros (UFPB).
RESUMO
Este artigo aborda o impacto das atividades
educativas
para
os
profissionais
da
comunicação radiofônica no que se refere
à propaganda de medicamentos e ao uso
racional de medicamentos. Foi realizado
o “I Seminário sobre Uso Racional de
Medicamentos e Alimentação Saudável para
Radialistas”, tendo como objetivos avaliar o
impacto das propagandas de medicamentos e o
conhecimento desses profissionais sobre o uso
racional desses produtos. Para as análises, foi
utilizado um questionário contendo perguntas
referentes ao papel da Anvisa, das leis que
regulamentam a propaganda de medicamentos,
bem como alguns conceitos fundamentais
acerca de medicamentos. Este questionário
foi aplicado antes e após o seminário. Foi
constatado que, após o evento, houve um
aumento no percentual dos participantes com
conhecimento sobre os temas abordados. Com
base nestes resultados, ressalta-se a importância
de atividades educativas, visando melhorar a
qualidade das informações prestadas por estes
profissionais, com o intuito de evitar o uso
inadequado de medicamentos.
INTRODUÇÃO
Conhece-se bem o impacto da propaganda de
medicamentos e demais produtos relacionados
à saúde tanto sobre os profissionais da área
como sobre a população (SOARES, 2008). A
propaganda de medicamentos direcionada ao
consumidor encoraja as pessoas, em alguns
casos, a solicitar aos médicos determinados
medicamentos e tratamentos. Para aumentar o
poder de persuasão, modelos de propaganda
recomendam equiparar os apelos (racionais e/
ou emocionais) à atitude do consumidor sobre
o produto (cognitiva e/ou afetiva) (MELBY &
HUERTAS, 2008). No Brasil, a propaganda
direta ao consumidor de medicamentos, que
não requerem prescrição médica, também
é carregada de apelos emocionais e vem se
intensificando (MELBY & HUERTAS, 2008;
HUERTAS & URDAN, 2004).
Tratando-se de propaganda de medicamentos,
questões éticas e de segurança devem
ser
consideradas,
especialmente
pelas
consequências
potencialmente
perigosas
da automedicação – consumo por conta
própria de medicamentos isentos ou não
de prescrição (MORAIS, 2003). Para Morais
(2003), o quinto lugar ocupado pelo Brasil
em consumo de medicamentos no mundo
reflete dois problemas graves, alvos de debate
nos países desenvolvidos: o uso abusivo de
medicamentos como uma ameaça à saúde
pública e os interesses bilionários da indústria
farmacêutica. O ato de se automedicar pode ser
extremamente danoso à saúde e sua frequência
tem aumentado em todo o mundo, inclusive no
Brasil, principalmente em regiões mais carentes
(PAULO & ZANINE, 1998).
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 207
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
ATIVIDADES EDUCATIVAS SOBRE A PROPAGANDA E O USO
RACIONAL DE MEDICAMENTOS PARA PROFISSIONAIS
DO SISTEMA DE COMUNICAÇÃO RADIOFÔNICO
A intoxicação por medicamentos é responsável
por 29% das mortes no Brasil e, na maioria
dos casos, é consequência da automedicação.
Além disso, o alívio momentâneo dos sintomas
pode mascarar a doença de base, podendo
esta se agravar (MINATTI-HANNUCH et al.,
1992). Segundo as estatísticas do Sistema de
Informações Tóxico Farmacológicas (Sinitox),
da Fundação Oswaldo cruz (Fiocruz), a cada
42 minutos uma pessoa é intoxicada por uso
indevido de medicamentos no Brasil (www.
farmaconline.ufg.br).
Em face desta realidade é que a propaganda
de medicamentos é regulamentada pela
Resolução de Diretoria Colegiada nº 96/2008
da Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa). O componente ético na propaganda
de medicamentos merece atenção especial,
pois são grandes os riscos, graves os problemas
causados pela má qualidade da propaganda,
tanto em termos sanitários, quanto econômicos
(SOARES, 2008). Nesse contexto, o objetivo
deste trabalho foi realizar atividades educativas
com os profissionais da comunicação
radiofônica para que os mesmos não promovam
propagandas com informações inadequadas,
incompletas ou descontextualizadas, visto que a
promoção não ética de medicamentos constitui
um problema de saúde publica, podendo
estimular o uso inadequado e indiscriminado
de medicamentos, a superprescrição, a
automedicação e o uso abusivo.
MATERIAIS E MÉTODOS
O “I Seminário sobre Uso Racional de
Medicamentos e Alimentação Saudável para
Radialistas” foi realizado na sede do Sindicato
dos Radialistas, na cidade de João Pessoa (PB),
no dia 24 de outubro de 2009 e contou com
a participação de 63 profissionais e estagiários
que atuam no sistema de mídia radiofônica no
Estado da Paraíba.
Nesse seminário, foram abordadas as seguintes
temáticas: papel da Anvisa no Brasil; leis e
resoluções que regulamentam a propaganda
208 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
de produtos sujeitos à vigilância sanitária;
alimentação saudável; e uso racional de
medicamentos. Durante a realização do
seminário, após cada palestra abria-se ao público
momentos de discussão e de questionamentos.
Estas dúvidas e questionamentos, bem com suas
respectivas respostas, resultaram na elaboração
de um folder, que será disponibilizado para
esses profissionais.
Para obtenção dos dados foram utilizados
questionários estruturados anônimos, com
perguntas objetivas do tipo múltipla escolha,
os quais foram aplicados aos profissionais
e estagiários do sistema de comunicação
radiofônico antes e após a realização do
seminário. As perguntas foram elaboradas para
avaliar: (a) se o grupo estudado acha importante
usar medicamentos apenas com orientação de
médico, dentista ou farmacêutico; (b) se o grupo
sabe se o uso de medicamento sem orientação
médica ou farmacêutica pode piorar a sua
doença; (c) se sabem da importância de ler a
bula dos medicamentos que estão fazendo uso;
(d) se sabem qual é o melhor local para guardar
os medicamentos; (e) se as propagandas contêm
todas as informações que o consumidor deve
saber antes de utilizar um medicamento; (f) o que
mais influencia na compra de um medicamento;
(g) a importância de se observar o prazo de
validade dos medicamentos; (h) se sabem
diferenciar um remédio de um medicamento; (i)
se sabem a importância das cores das tarjas nas
embalagens do medicamento; (j) se conhecem o
papel da Anvisa e o que deve obrigatoriamente
conter nas propagandas de medicamentos
sem tarja; (k) se conhecem quem controla a
propaganda de produtos farmacêuticos no
Brasil e quais as leis que as regulamentam; (l)
se acham que todo o medicamento pode ser
promovido comercialmente em rádios; (m) se
conhecem como se deve fazer uma propaganda
adequada de medicamentos e se em caso
de não cumprimento da legislação quem é
responsabilizado. Posteriormente, comparamos
as respostas obtidas antes e após a realização
do evento.
diferenças acerca dos conhecimentos dos
profissionais do sistema de comunicação
radiofônica de João Pessoa no tocante as temáticas
trabalhadas. Entretanto, nas três primeiras
questões, que abordam especificamente o
perfil de consumo de medicamentos, nenhuma
diferença foi observada. Estes resultados podem
estar relacionados à atuação das campanhas
e/ou projetos de informação e educação,
visando advertir sobre o uso irracional de
medicamentos, pois, na população estudada,
observou-se que a maioria acha importante
usar medicamento com orientação do médico,
dentista ou farmacêutico.
A tabela 1 representa o questionário e as
respostas obtidas antes e após a realização do
seminário para os profissionais ou estagiários do
sistema de comunicação radiofônico do Estado
da Paraíba. O trabalho aqui desenvolvido
destaca a grande relevância das atividades
educativas relacionadas ao uso racional
de medicamentos e à regulamentação das
propagandas de medicamentos.
Após a realização do “I Seminário sobre Uso
Racional de Medicamentos e Alimentação
Saudável para Radialistas” foram observadas
Tabela 1 – Questionário utilizado no presente estudo e as resposta dos radialistas ou estagiários do
sistema de comunicação radiofônico antes e após a realização do seminário, entre parênteses os percentuais correspondentes a cada resposta.
Questionário
Respostas
ANTES
Perguntas
SIM
APÓS
NÃO
SIM
NÃO
1-Você acha importante usar medi- 94,7 %
camentos apenas com orientação
de médico, dentista ou farmacêutico?
5,3 %
90,2 %
9,8 %
2-Você acredita que o uso de medicamento sem orientação médica
ou farmacêutica pode piorar a sua
doença?
96,5 %
3,5 %
98 %
2%
3-Você acha importante ler a
bula dos medicamentos que estão
fazendo uso?
100 %
0%
100 %
0%
4-Onde você acha que se deve
guardar os medicamentos em casa?
a-Cozinha
antes - 7 %
depois - 0 %
b-Banheiro
antes - 3,5 %
depois - 2 %
c-Armários
antes - 86%
depois - 98%
d- Qualquer Local
antes - 3,5 %
depois - 0 %
5-Você considera que as propagandas contêm todas as informações
que o consumidor deve saber antes
de utilizar um medicamento?
5%
95%
4%
96%
6-O que você acha que mais influencia na compra de um medicamento?
a-Propaganda b-Preço
c-Balconista d- Indicações
antes - 27,8 % antes - 35,2%
antes - 5,6%
antes - 31,4%
depois - 60,4% depois - 10,4% depois - 8,3% depois - 20,8 %
7 – Você acha importante verificar
o prazo de validade dos medicamentos ante de utilizá-lo?
100 %
0%
100 %
0%
8-Você sabe diferenciar medicamento e remédio?
31,5 %
68,4 %
98 %
2%
9-Você sabe a importância das
cores das tarjas nas embalagens do
medicamento?
66,7 %
33,3%
94,1 %
5,9%
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 209
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
RESULTADOS E DISCUSSÃO
10-Você conhece o papel da
ANVISA e o que deve obrigatoriamente conter nas propagandas de
medicamentos sem tarja?
40,3 %
59.7 %
94,1 %
5,9%
11-Você conhece quem controla a
propaganda de produtos farmacêuticos no Brasil e quais as leis que as
regulamentam?
22,15 %
76,05%
85,8 %
14,2 %
12- Você acha que todo o medicamentos pode ser promovido
comercialmente em rádios?
33,9 %
66,1%
26 %
74%
13-Você sabe como deve fazer
uma propaganda adequada de
medicamento e se em caso de não
cumprimento da legislação quem é
responsabilizado?
25,45 %
74,55 %
87,15 %
12,85 %
Ressalta-se, ainda, que a grande maioria
acredita que quando os medicamentos são
usados sem orientação de médico, farmacêutico
ou dentista podem agravar a doença. Após a
realização do seminário, houve um aumento
no percentual de indivíduos que acham que o
melhor local para guardar os medicamentos é
em armários de acesso restrito. Este resultado
pode estar relacionado às discussões levantadas
acerca do assunto durante a apresentação da
palestra “Uso Racional de Medicamento”,
na qual foram enfatizados os locais onde os
medicamentos não devem ser armazenados,
como cozinha e banheiro, que representam
ambientes quentes e úmidos, respectivamente;
bem como o local mais apropriado e seguro
para o armazenamento, representado por
armários de acesso restrito. Nota-se que antes
da palestra havia um percentual razoável que
achava adequado guardar os medicamentos na
cozinha (7%), no banheiro (3,5 %) e em local
não específico (3,5 %), e após a palestra 98%
consideram que o local mais apropriado é um
armário de acesso restrito.
Considerando o impacto da propaganda
sobre o consumo de medicamentos pela
população, esperar-se-ia que a propaganda
de medicamentos de venda livre fornecesse
informações adequadas e confiáveis sobre o
produto anunciado, conforme determina a
Resolução da Diretoria Colegiada, RDC nº
96/2008, da Anvisa. Antes e após apresentação
do seminário, a grande maioria - 95% e 96%,
respectivamente - concorda que as propagandas
210 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
não contêm todas as informações que o
consumidor deve saber antes de utilizar um
medicamento. No entanto, após a realização
do evento houve um aumento no percentual
de indivíduos de 27,8 % para 60,4% que
acreditam que a propaganda influencia mais
na compra de um medicamento em relação
a outros fatores, que tiveram uma redução
em relação ao percentual de respostas como:
o preço (de 35,2% para 10,4%) e indicação
de terceiros (de 31,4% para 20,8%). Um dos
aspectos positivos deste estudo foi que, tanto
antes como após a realização das palestras,
todos acham importante verificar o prazo de
validade dos medicamentos.
Como a amostra avaliada era composta apenas
de profissionais e estagiários do sistema de
comunicação radiofônico, foi avaliado o nível de
conhecimento dos mesmos acerca da diferença
entre medicamento e remédio, que aumentou
de 31,5% para 98%; da importância das cores
das tarjas nas embalagens do medicamento,
que aumentou de 66,7% para 94,1%; do papel
da Anvisa e do que deve obrigatoriamente
conter nas propagandas de medicamentos
sem tarja, que aumentou de 40,3% para
94,1 %; de quem controla a propaganda de
produtos farmacêuticos no Brasil e quais as
regulamentações, que aumentou de 22,15%
para 85,8%. Ressalta-se também que houve um
aumento no nível de conhecimento sobre como
se deve fazer uma propaganda adequada de
medicamento e, em caso de não cumprimento
da legislação, quem é responsabilizado, que
Estes resultados, em conjunto, mostram a
importância em se desenvolver atividades
educativas voltadas aos profissionais de
comunicação radiofônica, visto que o rádio
pode cooperar com a divulgação de campanhas
e ações educativas, bem como de políticas
públicas de orientação de profissionais de saúde
e da população; pode incentivar que a população
busque a orientação de um profissional da
saúde antes de consumir medicamentos
por conta própria; e, principalmente, pode
estimular a fiscalização efetiva das propagandas
de medicamentos. Tais ações serviriam para
minimizar a automedicação da sociedade e os
danos por ela causados, visto que o profissional
da radiofonia, por ser formador de opinião e
ter legitimidade local, é o grande responsável
pela qualidade das informações geradas nos
seus programas (GOMES, 2007). Daí o papel
colaborador deste profissional no controle
social das políticas públicas em sua cidade, seu
bairro, sua comunidade (GOMES, 2007).
Ao conhecer e relacionar as políticas públicas
às questões cotidianas locais, o radialista passa
a atuar como protagonista do controle social.
Sendo assim, elevar o nível de conhecimento
e de conscientização dos radialistas para
que eles estejam habilitados para conversas
mais consistentes com o seu público significa
redesenhar o rádio para uma atuação simbiótica
nos muitos espaços educativos que se propõem
ao serviço da democracia. É utilizar o rádio para
despertar uma consciência crítica verdadeira
(GOMES, 2007).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A propaganda de medicamentos e demais
produtos relacionados à saúde acaba sendo
uma das principais formas de persuasão na
escolha de produtos farmacêuticos, tanto
pelos profissionais da área quanto pela
população em geral, o que torna imperativa a
realização de atividades educativas dirigidas
aos comunicadores, em especial os de rádio,
para que os mesmos divulguem as informações
adequadamente, promovendo propagandas
mais consistentes, visto que não há como proibir
a automedicação, mas há como contribuir para
o uso racional de medicamentos.
AGRADECIMENTOS
Ao Sindicato de Radialistas da Paraíba, à
Associação Paraibana de Imprensa, à Professora
Ana Claudia Peixoto, ao servidor da Anvisa
Itamar Falco Júnior e ao apoio financeiro da
Anvisa.
REFERÊNCIAS
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e as políticas públicas. São Paulo: Hucitec,
2007.
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Ciência & Saúde Coletiva, v.13 (supl.), p. 641649, 2008.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 211
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
passou de 25,45 % para 87,17%.
Universidade Federal do Piauí (UFPI)
Bruno Ítalo Sousa Pinto1; Camila Calado Lima2; Heila Dias de Sousa Pinho Aguiar3; Maria do Socorro Cordeiro
Ferreira4.
1 - Estagiário do Projeto Educação e Informação, graduado em Direito – UFPI, especialista em Direito Civil e
Processo Civil – Universidade Católica Dom Bosco.
2 - Bolsista coordenadora do Projeto Educação e Informação, graduada em Publicidade e Propaganda pelo Centro de Ensino Unificado de Teresina e acadêmica de Jornalismo (UFPI).
3 - Estagiária do Projeto Educação e Informação, graduada em Nutrição (UFPI).
4 – Docente, mestre em Farmacologia coordenadora do Projeto Educação e Informação (UFPI).
RESUMO
O presente artigo objetiva realizar uma
abordagem teórica da aplicação do rádio
como recurso pedagógico na educação em
saúde, destacando desafios, potencialidades
e perspectivas. Partindo de uma pesquisa
bibliográfica e documental, faz-se análise dos
conceitos de “educação”, “saúde” e “educação
em saúde”, evidenciando a abrangência da
concepção contemporânea de saúde e sua
influência sobre a missão de promover o bemestar individual e coletivo. Em seguida, são
avaliadas as aptidões do rádio como ferramenta
de educação em geral e especificamente
de promoção da saúde. Com base nessas
discussões, percebe-se que o rádio pode
contribuir positivamente para o enfrentamento
da questão relativa à efetivação da educação
voltada para a saúde.
INTRODUÇÃO
A compreensão das várias dimensões que
compõem a saúde traz novos desafios aos
agentes encarregados de resguardá-la. A partir
do instante em que se alarga a visão sobre o
fenômeno, deixando de focar tão somente sua
dimensão biológica, para então colocar em
evidência os fatores culturais, psicológicos,
ambientais e sociais que sobre ele exercem
grande influência, surgem questionamentos
sobre as estratégias a serem utilizadas para
promover a saúde em sua nova extensão.
Atualmente, ganha força o entendimento
de que o ser humano, para ser considerado
verdadeiramente sadio, precisa manter certo
equilíbrio em todos os campos da sua vida.
A simples ausência de doenças no corpo da
pessoa já não basta para lhe conferir saúde. É
preciso verificar se o indivíduo desfruta de todas
as condições necessárias ao desenvolvimento
pleno de suas potencialidades.
Os agentes incumbidos da promoção da saúde,
portanto, se veem agora sobrecarregados pela
necessidade de atender a uma nova demanda,
vez que o conceito de saúde transcende a
questão de hospitais, médicos e medicamentos.
A prevenção e a cura de doenças tornaram-se
apenas parte da solução. Dessa forma, exige-se
atenção aos diversos fatores capazes de afetar a
qualidade de vida do cidadão, o que significa
lutar contra inimigos de feições múltiplas, indo
da degradação ambiental ao empobrecimento
da população.
Essa árdua tarefa só pode ser desempenhada
com a ajuda de instrumentos capazes de
provocar mudanças amplas e profundas, as
quais devem atingir tanto o indivíduo quanto a
coletividade que o cerca.
Em razão do seu poder de determinar
comportamentos, a educação em saúde se
apresenta a como resposta mais adequada
para esta incumbência. Não se pode ignorar,
porém, que esta solução também enfrenta seus
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 213
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
O RÁDIO COMO INSTRUMENTO PARA A EDUCAÇÃO EM SAÚDE:
POTENCIALIDADES E DESAFIOS
próprios desafios, razão pela qual se torna
necessária a busca constante por ferramentas
que maximizem seus efeitos.
No presente trabalho, com base em pesquisa
bibliográfica e documental, são avaliadas as
potencialidades do rádio como importante
instrumento para a educação da população
brasileira, especialmente no que se refere à
conscientização quanto à adoção de práticas
saudáveis.
Para tanto, parte-se primeiro da análise dos
conceitos de educação e saúde, assim como
a relação que os dois processos travam entre
si, para então se chegar à definição do termo
“educação em saúde” no tópico seguinte.
Passa-se, adiante, à avaliação das facilidades e
dos desafios da radiodifusão como ferramenta
educativa, considerando a educação em
sentido amplo. Por fim, discutem-se as aptidões
do rádio como instrumento de efetivação
da educação em saúde, pondo em foco as
peculiaridades desta vertente educacional e
destacando as facilidades e dificuldades do
rádio no cumprimento dessa missão específica.
EDUCAÇÃO E SAÚDE: RELAÇÕES E
CONCEITOS
Para a compreensão do termo “educação em
saúde”, é naturalmente importante que se faça
a explanação do significado dos vocábulos que
o compõem, ainda que de forma superficial.
Primeiro, tem-se que educação é o processo
contínuo e sistematizado de construção da
personalidade do indivíduo, fornecendolhe os meios necessários e suficientes para o
desempenho de suas aptidões e para o pleno
exercício da cidadania. A educação tem por
objetivo principal a autonomia do educando,
que, dotado de conhecimento e senso crítico,
passa a ser capaz de fazer suas escolhas de
forma consciente.
Em relação ao conceito de saúde, convém, já de
início, ressaltar que este vem sendo ampliado
nas últimas décadas. A mudança passou a
ser construída a partir do momento em que
214 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
se compreendeu que a incolumidade do ser
humano depende de fatores diversos, inclusive
daqueles que ultrapassam sua condição
individual. A Organização Mundial da Saúde
(OMS) espelhou esta nova concepção ao dispor
que “saúde é o estado de completo bem-estar
físico, mental e social e não apenas a ausência
de doença” (SCLIAR, 2007, p. 37).
Com este conceito, abandona-se a ideia
reducionista da saúde como simples qualidade
física da pessoa individualmente considerada,
passando a contemplar também as dimensões
sociais, culturais, ecológicas, psicológicas,
econômicas e religiosas. Começa-se a
compreender a saúde como um processo,
como meio de esboçar um caminho individual
e original a ser seguido em direção ao bemestar.
Desta maneira, as ações de promoção da saúdei
devem atuar sobre o universo dos determinantes
individuais e coletivos. O equilíbrio ambiental,
o saneamento básico, as condições adequadas
de trabalho, o acesso à alimentação balanceada
e à educação, a mínima disponibilidade de
recursos financeiros, a justiça social e a relação
do indivíduo com sua família e a comunidade
são, portanto, alguns dos elementos a serem
observados quando se tem em vista a promoção
da saúde.
Por sua amplitude, esta nova conceituação vem
sofrendo críticas daqueles que a consideram
contraproducente. Alega-se que o novo
paradigma inviabiliza ou pelo menos dificulta
a tutela da saúde, pois a força de trabalho e os
recursos dos agentes envolvidos, sejam públicos
ou privados, seriam diluídos na execução de
todas as tarefas automaticamente incluídas nos
programas de promoção da saúde.
Além disso, a definição em comento traduz
a ideia de uma “saúde ótima”, inatingível,
uma vez que nenhum indivíduo ou grupo
é completamente saudável ou enfermo. A
natureza utópica de uma condição humana
tão perfeita serviria de desestímulo às pessoas
encarregadas de tentar alcançá-la.
A complexidade da questão não pode ser
ingenuamente minimizada para facilitar sua
solução. As dificuldades merecem ser superadas,
e não ignoradas.
É justamente nesse contexto que se encaixa a
educação em saúde como alternativa viável,
principalmente se potencializada pelo uso
de ferramentas simples, baratas, de grande
abrangência geográfica e de apelo popular,
como o rádio.
EDUCAÇÃO EM SAÚDE: DEFINIÇÃO E
OBJETIVOS
A expressão “educação em saúde” resulta de
uma interessante união de termos que denotam
processos envolvidos em uma relação de
cooperação mútua. Na primeira via, tem-se que
o processo de aprendizagem não se completa
sem uma conjuntura saudável que o propicie,
pois o bem-estar físico e mental do educando
e do educador é essencial para a apreensão
e transmissão eficiente dos ensinamentos. Já
na via em sentido oposto, constata-se que a
saúde, por estar intimamente relacionada aos
hábitos de vida da pessoa, também se vincula
fortemente ao nível de educação do indivíduo
e da comunidade.
Todo ato livre e consciente é determinado pela
carga de saberes do seu causador, ainda que
muitas vezes este resolva agir em contrariedade
àquilo que conhece. No que se refere à saúde,
o importante é que o agente conheça as
consequências do seu comportamento e possa
sopesar benefícios e malefícios. O indivíduo
deve ter autonomia para cultivar hábitos de
vida saudáveis ou prejudiciais à sua integridade,
ainda que, pela lógica, se espere que a escolha
recaia sobre a primeira alternativa.
Tal liberdade de opção só é devidamente
oportunizada por meio da educação em saúde.
Desde o instante em que a saúde deixa de ser
mera ausência de doenças para se tornar fonte
de vida, como bem sintetiza Oliveira (2005),
a educação aplicada à sua proteção assume
a função de preparar o indivíduo para tomar
decisões sobre a sua própria vida.
Esta ideia contemporânea do estímulo ao
autogoverno como papel principal da educação
em saúde está refletida no conceito apresentado
por Candeias (1997, p.210), para quem o
termo denota “quaisquer combinações de
experiências de aprendizagem delineadas com
vistas a facilitar ações voluntárias conducentes
à saúde”, tendo em mente o significado de
voluntariedade proposto pelo autorii.
Oliveira (2005) alerta que ainda não há um
consenso da concepção acima apresentada,
que reflete o modelo radical de educação em
saúde. Estão fortemente presentes nas práticas
cotidianas as ideias do modelo tradicional, que
estabelece a prevenção de enfermidades como
meta e se pauta no individualismo que permeia
a abordagem da relação saúde/doença.
Para o modelo preventivo ou tradicional, a
enfermidade tem por única causa o modo
de vida do indivíduo, devendo a educação
em saúde tão somente persuadi-lo a se
comportar de forma adequada. Ignora-se, pois,
as determinantes coletivas e a força da sua
influência sobre a sanidade do ser humano,
como se a doença fosse responsabilidade única
e exclusiva do indivíduo, sem considerar as
limitações impostas pelo ambiente social.
O modelo radical de educação em saúde,
como dito, aposta na conscientização como
maneira de fomentar a autonomia do homem,
esforçando-se para que sua liberdade de ação
aponte para escolhas saudáveis, ainda que
aceite o risco disto não ocorrer. Seu alvo são
os grupos, mais que os indivíduos, não apenas
por reconhecer a relevância do fator social no
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 215
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
Ainda que se aceite que novas dificuldades
emanem da compreensão alargada da saúde,
não se pode negar que mais ineficaz é ignorar
as causas diversas que a determinam. O
reducionismo conduz a que se empreguem
esforços em prol apenas da preservação do
equilíbrio biológico do ser, privilegiando
exclusivamente a dimensão curativa do
fenômeno, em detrimento dos fatores mentais,
sociais e ambientais que o influenciam.
condicionamento da saúde, mas por acreditar
que o senso crítico se desenvolve com mais
facilidade no seio da coletividade.
enfermos e o guia dos sãos – desde que o realizem
Mesmo sofrendo críticas quanto à abertura para
as práticas danosas propiciada pelo moderno,
já que a autonomia traz consigo a aceitação
da liberdade de mal escolher, a abordagem
contemporânea da educação em saúde se
adapta melhor à conjuntura democrática que
envolve o Brasil.
Na definição de Roquette Pinto estão, de certo
modo, elencados as qualidades e os desafios
do rádio na condição de ferramenta educativa.
Suas ideias evidenciam, inicialmente, o
grandioso apelo popular do rádio como meio
de comunicação de massa. De fato, nenhum
outro foi capaz de obter tamanho alcance social
e espacial, mostrando-se igualmente acessível a
todas as classes, capaz de ressoar pelos mais
distantes rincões do país, sendo adaptável às
peculiaridades regionais e ao modo de vida de
qualquer cidadão.
O pleno exercício da cidadania não aceita
mais o uso da educação em saúde como
“instrumento de dominação, de afirmação de
um saber dominante, de responsabilização dos
indivíduos pela redução dos riscos à saúde”
(ALBUQUERQUE & STOTZ, p. 260). Além
disso, está adequada à concepção holística da
saúde, pois deixa de centrar suas preocupações
na dimensão biológica do paciente para passar
a englobar todos os fatores que influenciam seu
bem-estar, inclusive, ou até principalmente, os
elementos externos.
O RÁDIO COMO FERRAMENTA
EDUCATIVA
No Brasil, a radiodifusão surgiu oficialmente
com função cultural e educativa, por meio do
estabelecimento da Rádio Sociedade do Rio
de Janeiro ainda no início da década de 20
(CALABRE, 2004). Roquette Pinto e Henrique
Morize, idealizadores daquela que foi a primeira
rádio brasileira, já percebiam que a grande
vocação do rádio era mesmo a promoção da
cultura e a difusão da educação, especialmente
em um país em que o ensino formal só alcançava
uma camada ínfima da população, como era o
Brasil à época.
Ao primeiro dos radialistas pioneiros
mencionados transparecia toda a sua convicção
quanto às potencialidades deste meio de
comunicação quando afirmava que o rádio é
(...) a escola dos que não têm escola. É o jornal de
quem não sabe ler; é o mestre de quem não pode
ir à escola; é o divertimento gratuito do pobre; é o
animador de novas esperanças, o consolador dos
216 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
com espírito altruísta e elevado (SOUZA, 2006).
Mesmo as rápidas transformações tecnológicas
que tanto têm afetado o comportamento do
ser humano não foram capazes de retirar a
posição de destaque do rádio no cotidiano
do brasileiro. Ao invés disso, o rádio vem
encontrando maneiras de se reiventar e atrair
um público ainda mais vasto, a exemplo do
que vem ocorrendo com a proliferação de sua
versão digital.
A verdade é que ainda não está muito distante
da realidade hodierna do país a famosa
expressão cunhada por José Carlos Araújo,
locutor esportivo da Rádio Globo: “brasileiro
não vive sem rádio” (BLOIS, 1996, p.14).
Esse poder de penetração do rádio na sociedade
brasileira é seu trunfo maior na missão de
educar. O baixo custo do aparelho receptor,
seu manuseio simples, a grande abrangência
das transmissões e a praticidade trazida com
a invenção dos transistores, que propiciou o
surgimento do popular radinho de pilha, são
fatores que permitem à radiodifusão levar
informações a lugares e pessoas que não têm
acesso a outras fontes de conhecimento.
Por outro lado, a locução coloquial utilizada
pelos radialistas, munida de linguagem simples
e direta, auxiliada ainda pelo uso de efeitos
sonoros que atraem a atenção do ouvinte,
sensibiliza com maior facilidade as mentes das
pessoas menos instruídas, que muitas vezes
Não bastasse a amplitude do alcance do rádio,
possibilitando a extensão de atividades educativas
às coletividades sem acesso à educação formal
ou a outros meios de comunicação, observase ainda que a mídia radiofônica desfruta de
suficiente credibilidade perante a população, o
que pode garantir também a profundidade das
informações transmitidas.
De nada adiantaria a radiodifusão ser capaz
de conduzir informações valiosas à quase
totalidade da população nacional, se todo
esse público não lhe conferisse atenção e/ou
nela não depositasse confiança. Para que a
informação difundida tenha valor, é preciso que
o comunicador apresente a mesma credibilidade
e importância que devem revestir a figura do
mestre no ambiente escolar.
Tal credibilidade garante à mensagem do
rádio o poder de influenciar opiniões e
comportamentos, o que pode estar atrelado à
sua natureza intimista e informal. A informação
parece ser repassada ao “pé do ouvido”, em
uma conversa descontraída, espontânea e
com a utilização de vocativos, garantindo uma
aproximação bem maior com o destinatário
do que o jornal impresso, por exemplo. Esta
peculiaridade é notada por Bianco (2009), para
quem
além de constantemente atualizado. Aquilo
que o ouvinte recebe tem sempre a aura de
novidade, de acontecimento imediato. Nesse
ponto, a radiodifusão possui grande vantagem
em relação à linguagem escrita, pois permite a
rápida reciclagem de ensinamentos e desperta
maior interesse do educando, eternamente
atraído pelo novo.
Todos estes atributos potencializam o rádio
como meio condutor do processo educativo.
Contudo, não se pode ignorar que muitos são
os entraves que dificultam o desenvolvimento
dessas aptidões.
O maior impedimento para que o rádio se
torne uma ferramenta educativa bem sucedida
está no fato de tal empreitada não despertar
o interesse dos radialistas e radiodifusores,
principalmente por não possuir apelo
comercial. A função educativa que o rádio
tinha em seu nascedouro foi minada justamente
pela disputa por anunciantes. Aos poucos, os
programas voltados para a educação informal
e para a promoção da cultura foram perdendo
espaço para os programas de entretenimento,
de música e noticiários sensacionalistas, que
melhor atendiam aos interesses da audiência e,
consequentemente, do anunciante.
Se as mudanças citadas ajudaram a tornar o
rádio mais popular e profissionalizado, assim
como contribuíram para tornar sua linguagem
mais espontânea e intimista, não se pode negar
que foram decisivas para o abandono quase
completo da preciosa vertente educativa.
(BIANCO, 2009, p.61).
Essa situação se agrava ainda mais no caso
das rádios estritamente educativas, pois, em
razão da falta de políticas públicas, muitos
empreendedores do ramo se percebem
obrigados a aderir à programação comercial,
sob pena de serem compelidos a encerrar as
transmissões.
Não se pode esquecer ainda o caráter imediatista
e dinâmico da programação radiofônica. Como
seus textos são curtos e diretos, o conhecimento
transmitido pode ser vasto e diversificado,
O desamparo financeiro dessas rádios também
inviabiliza os investimentos no conteúdo
das transmissões, o que naturalmente afeta
o bom desempenho da missão de ensinar.
Como nota Souza (2006), estas emissoras
(...) a permanência desse sentido de proximidade
é constituída quando o rádio envolve o ouvinte
numa dimensão emocional e pessoal pela força
de sua natureza tecnológica. Rádio é som, o que
inclui texto, voz, música, ruídos e efeitos sonoros
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 217
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
não possuem qualquer intimidade com os
processos de educação formal ou são limitadas
pelo estigma do analfabetismo. Neste último
caso, aliás, a mídia falada costuma ser o único
meio de informação disponível, principalmente
quando a televisão não pode estar presente.
estão impossibilitadas de manter uma equipe
capacitada para criação, desenvolvimento
e apresentação de programas educativos de
qualidade.
Há outro fator que torna mais complexo o
uso do rádio como veículo propagador de
empreendimentos educativos. Em época de
globalização e convergência midiática, este
meio precisa se reinventar e fornecer novas
possibilidades de comunicação, a fim de
que não perder sua audiência. Em resposta
a esta pressão, a radiofonia vem passando
por mudanças rápidas e profundas, as quais
revelam tendências identificáveis, mas ainda
indefinidas.
Haussen (2004), por exemplo, percebe uma
disposição da mídia radiofônica à segmentação
na prestação de serviços e na disseminação
de informações locais. Ortriwano (1985), por
sua vez, pesquisando a evolução do rádio
até meados da década de 80, aponta um
movimento de especialização em sentidos
múltiplos, considerando sempre o público
que se quer atingir, pois em razão dele é que
será escolhido o produto a ser anunciado nos
reclames publicitários. Assim, há desde rádios
que dedicam toda a sua grade a uma faixa
determinada de ouvintes, até aquelas que
diversificam sua programação de acordo com
o horário, buscando atrair diferentes segmentos
da sociedade. Outra tendência indicada pela
autora é a de formação de redes, em que
emissoras regionais e locais transmitem parte da
programação das grandes emissoras nacionais.
Blois (1996, p. 15), também percebendo a
convergência do movimento a uma espécie
de personalização das emissoras, uma das
tendências para as quais sinaliza Ortriwano,
afirma que, nos dias presentes, já cabe o
emprego da paráfrase “diga-me que rádio
ouves, que eu te direi quem és”.
Essa discussão quanto à direção que trilha o
rádio na atualidade acaba por fomentar certos
temores, ainda que a relevância da radiofonia
218 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
não seja colocada em dúvida por aqueles que
a estudam. As incertezas quanto à sua nova
posição no contexto das mídias contemporâneas
gera, no âmbito do senso comum, desconfianças
quanto à higidez da mídia radiofônica, o que
reforça a posição daqueles que resistem em
apostar no rádio como ferramenta pedagógica.
É preciso superar essa falsa impressão de que a
radiodifusão é uma mídia ultrapassada e sem
perspectivas, pensamento este cada dia mais
presente na concepção popular, para então
reconhecer seu poder de se transformar e se
adaptar às exigências da contemporaneidade,
sem deixar de cumprir bem sua função de
informar e conscientizar.
Por fim, há ainda que ter em conta que o mesmo
dinamismo que pode atuar favoravelmente ao
enriquecimento do processo educativo, como
demonstrado, é também capaz de contribuir
para o seu enfraquecimento. A velocidade e
a simplicidade com que as informações são
veiculadas no rádio podem prejudicar a sua
fixação e compreensão, principalmente pelo
fato de a audição ser comumente combinada
com outras atividades do cotidiano, muitas
vezes tornando a sua presença invisível
(BIANCO, 2009).
Contra tais possibilidades, é preciso que os
comunicadores adotem técnicas de atração e
de persuasão. A mensagem precisa ser rápida,
mas contundente e atrativa. A repetição e o uso
de vozes estilizadas e outros recursos sonoros,
por exemplo, podem ajudar a fixar a atenção
do ouvinte.
Apesar das dificuldades apontadas, há um
imenso saldo positivo a favor do rádio em sua
missão educativa. Atendida a condição posta
por Roquete Pinto, ou seja, se conduzido
“com espírito altruísta e elevado” (SOUZA,
2006), o que atualmente implica atentar mais
para a contribuição que a radiofonia educativa
pode dar para a cultura nacional e valorizar
menos os problemas que ela atravessa, o rádio
mantém seu potencial de grande massificador
do conhecimento e da conscientização.
Os esforços educativos voltados para a
promoção da saúde em toda a sua integralidade,
como não poderia deixar de ser, fazem parte da
grande teia de ações voltadas para a formação
do cidadão. Nesta condição, a educação em
saúde não é nada além da educação voltada
para um fim específico, o que significa dizer que
os desafios enfrentados pela educação em geral
também se impõem à vertente em análise.
Contudo, as peculiaridades da tarefa de educar
para o bem viver faz com que surjam novos
desafios ao seu cumprimento, que se somam
àqueles inerentes à já árdua missão de educar.
E, naturalmente, o rádio como veículo da
educação em saúde precisa demonstrar ser
capaz de cobrir estas dificuldades adicionais.
As grandes barreiras a serem superadas advêm
da natureza integral da saúde, que acaba por se
refletir na exigência de que também a educação
que vise promovê-la atue de forma integral.
Esta integralidade é definida por Albuquerque
e Stotz (2004, p.263) como
(...) um princípio pelo qual as ações relativas
maneiras para enfrentar. De fato, se a educação
em saúde precisa atuar no nível do indivíduo
e da coletividade, verifica-se que a mensagem
radiofônica tem suficiente penetração nos dois
campos.
O poder do rádio sobre o indivíduo está
evidenciado na popularidade e no seu já
referido poder de persuasão. A radiodifusão se
distingue ainda pela interatividade decorrente
do estímulo à construção de imagens, levando
o ouvinte a se posicionar automaticamente
como coautor da transmissão e, assim, a ser
sensibilizado de forma mais profunda por aquilo
que ouve, como ressalta Blois (1996).
Já a influência da radiofonia sobre a coletividade
tem tido inúmeras demonstrações ao longo da
história. O maior exemplo foi dado por Hitler,
que, através da incessante doutrinação via rádio,
foi capaz de mobilizar toda uma nação e fazêla aderir a seu projeto de dominação, a despeito
das inconsistências do seu discurso tirânico e
intolerante. O Brasil também testemunhou
a força do rádio na mobilização de massas,
especialmente nos governos de Getúlio Vargas
e Leonel Brizola, políticos que o utilizaram para
divulgar suas propostas políticas e obter apoio
da população.
à saúde devem ser efetivadas, no nível do
indivíduo e da coletividade, buscando atuar
nos fatores determinantes e condicionantes
da saúde, garantindo que as atividades de
promoção, prevenção e recuperação da saúde
sejam integradas, numa visão interdisciplinar que
incorpore na prática o conceito ampliado de saúde
(ALBUQUERQUE & STOTZ, 2004, p.263).
Como se depreende do conceito apresentado,
a integralidade da promoção à saúde deriva do
conceito holístico de saúde. Neste contexto, a
educação, se realmente desejosa de colaborar
para a promoção de todas as dimensões que
conformam a sanidade humana, não pode
negligenciar o dever de abordar elementos que
vão além do equilíbrio biológico do indivíduo.
Tal desafio se transfere imediatamente ao rádio
na qualidade de meio para a educação em
saúde, desafio este que a radiofonia revela ter
Toda a aptidão do rádio para influenciar
a opinião pública pode ser perfeitamente
aproveitada em prol da educação em
saúde, atendendo à necessidade de que esta
educação atinja não apenas o indivíduo, mas
seja capaz de determinar atitudes coletivas.
Nesse sentido, Bianco (2009) faz referência à
reflexão de McLuhan (2000) de que o rádio
fortaleceu a relação entre o indivíduo e o
grupo e a comunidade, “a ponto de reverter o
individualismo do homem tipográfico para o
coletivismo” (BIANCO, 2009, p. 61).
O potencial da radiodifusão na determinação
do comportamento de grupos vem sendo
ampliado pelo surgimento e fortalecimento
das rádios comunitárias. Seu enfoque sobre as
questões locais e a sua melhor compreensão
dos problemas e possibilidades da comunidade
aproximam a mensagem dos ouvintes,
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 219
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
A EDUCAÇÃO EM SAÚDE NAS ONDAS
DO RÁDIO
incrementando seu poder de convencimento e,
portanto, de conscientização.
As questões de saúde, compreendida em sua
definição integral, por envolverem também o
modo de vida comunitário, exigem o uso de
ferramentas com esse alcance. O radialista
comunitário encarregado da educação em
saúde comumente se depara com problemas que
afetam toda a vizinhança, como o uso de drogas,
a gravidez em adolescentes, a degradação
ambiental, a desnutrição e endemias como
a dengue, entre outros problemas de saúde
pública que, como tais, exigem o engajamento
de todos os membros da comunidade para
solucioná-los.
Esta amplitude de ação, porém, traz consigo
uma das dificuldades do uso do rádio
como ferramenta da educação em saúde,
especialmente quando se fala das rádios
comunitárias: as exigências que recaem sobre
o comunicador aumentaram bastante, ao passo
em que os recursos utilizados no seu preparo
tornam-se cada vez mais escassos.
O radialista que assume a função de educador
precisa ter uma visão panorâmica do problema
e dominar alguns conceitos básicos de saúde, o
que raramente acontece. Sem o investimento na
capacitação destes profissionais e sem recursos
para contratar um profissional de cada área
(médicos, nutricionistas, psicólogos, assistentes
sociais etc.), a emissora que se propõe a auxiliar
na promoção da saúde acaba se arriscando a
exercer função oposta, transmitindo informações
inconsistentes e, deste modo, contribuindo para
agravar a situação.
Algumas estratégias podem auxiliar na solução
deste entrave, tanto nas rádios comunitárias
quanto nas comerciais, a exemplo da produção
de reportagens relacionadas à saúde e/ou a
proposição de entrevistas com profissionais da
área da saúde. A disponibilidade de recursos
para manter uma equipe fixa e sempre pronta
para trabalhar em prol da conscientização dos
ouvintes, entretanto, é essencial para o eficaz
funcionamento de rádios que dedicam boa
220 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
parte de sua programação à missão educativa.
Outro problema relativo à educação em
saúde via rádio é a concorrência desleal das
propagandas irregulares de produtos sujeitos à
vigilância sanitária, especialmente alimentos e
medicamentos, que às vezes acaba por anular
o progresso conseguido a duras custas por meio
da educação. A questão posta em foco é aquela
representada pela situação em que a emissora
que veicula ensinamentos sobre a importância
do aleitamento materno é, às vezes, a mesma
que, no intervalo, transmite uma propaganda
abusiva de papinha para lactantes.
Inconsistências como a verificada neste
exemplo precisam ser enfrentadas, o que
depende da fiscalização das propagandas, do
combate às irregularidades por parte do poder
público e da conscientização das emissoras de
rádio, tanto em relação aos danos provocados
pela publicidade abusiva ou enganosa à saúde
pública, quanto às multas e outras penalidades
que o veículo de rádio poderá suportar em caso
de veiculação de propagandas ilegais.
Até aqui, foram abordados desafios e
potencialidades do rádio como ferramenta
da faceta informal da educação em saúde.
Vale ressaltar que a radiofonia pode também
trazer valiosas contribuições para a educação
formal, complementando ou solidificando os
ensinamentos repassados no ambiente escolar.
O grande desafio da escola no século
21 é formar cidadãos que transformem a
informação trabalhada no ambiente escolar
em conhecimento, utilizando-o em benefício
da sua vida pessoal e da comunidade. Nesse
contexto, o rádio desempenha um importante
papel, no sentido de preencher
(...) a lacuna formada entre sociedade e escola,
desenvolvendo competências e habilidades
(capacidade de síntese, de raciocínio, de
verbalização de idéias (sic) etc.) que viabilizem
às comunidades escolares condições de realizar
um projeto de vida e de sociedade melhor”
(GONÇALVES & AZEVEDO, 2005).
As experiências envolvendo as rádios escolares
e universitárias servem ainda para imergir os
estudantes na construção do conhecimento e
atiçar seu senso crítico quanto às mensagens
receptadas. Nas palavras de Souza (2006), a
introdução do rádio como recurso pedagógico
deve propiciar aos educandos “a oportunidade
de aprender a produzir e selecionar programas
educativos de qualidade, exercendo um senso
crítico sobre o que ouve e recebe através das
mídias diversas”.
Tais aptidões são naturalmente úteis para a
educação formal em saúde, incitando o senso
crítico que é tão importante para a consecução
do objetivo de provocar mudanças no hábito
de vida dos educandos. A grande barreira a
ser transposta, nesse caso, é o preconceito que
alguns educadores ainda nutrem em relação ao
uso de recursos pedagógicos alternativos, como
o rádio, o que só será possível com a divulgação
das experiências positivas já vivenciadas nesse
campo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apesar dos grandes empecilhos que desafiam
o uso eficaz do rádio como instrumento
da educação em saúde, percebe-se que as
contribuições trazidas pela radiodifusão são de
vital importância para os novos enfrentamentos
provocados pela compreensão contemporânea
da saúde.
de conhecimento em saúde, muito menos têm
acesso a educação formal nesta área, representa
parte da solução buscada para a questão da
promoção da saúde em sua integralidade.
O rádio torna-se importante instrumento
pedagógico da saúde por traduzir informações
técnicas e científicas para a população de
maneira bem simples e interessante, além de
melhorar as maneiras de expressão do público,
tanto no texto escrito, quanto na fala. O vínculo
com a tradição da cultura oral é uma das
principais razões do rádio despertar o interesse
da população, em especial de classes mais
baixas onde essa tradição faz-se ainda mais
presente.
É preciso, assim, que a missão de educar para
a saúde seja encarada com a seriedade exigida
diante da complexidade que o tema envolve,
o que exige que se invista na formação dos
comunicadores, na qualidade da programação
radiofônica voltada para abordagens na área da
saúde e na inserção de conteúdos jornalísticos
relacionados ao tema.
Por último, é importante que os educadores
percebam a força que o rádio ainda tem sobre
a sociedade brasileira e reconheçam seus
atributos únicos, abandonando a resistência que
ainda envolve o uso do rádio como ferramenta
pedagógica, para então utilizá-lo de forma
integrada com os demais recursos usualmente
trabalhados em sala de aula, como forma de
maximizar a aprendizagem dos alunos quanto
aos temas de saúde e multiplicar o conteúdo
aprendido pelo docente para a comunidade.
A missão de conscientizar profundamente
indivíduos e comunidades, a ponto de estimular
mudanças saudáveis em seus modos de vida,
exige o emprego de ferramentas com o alcance
que o rádio possui. Sua influência sobre todos os
grupos humanos, especialmente aqueles menos
favorecidos, que não dispõem de outras fontes
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 221
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
No caso específico da educação em saúde, o
rádio exerce uma relevância ainda maior por
possibilitar o diálogo entre o saber técnicocientífico e o popular, por meio da adoção de
uma linguagem mais acessível (simples e direta),
dinâmica, com grande abrangência geográfica
e que possibilita a interatividade por meio de
participações populares.
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Este artigo foi produzido a partir das ações
desenvolvidas no projeto Educação e
Informação – Universidade Federal do Piauí,
que corresponde à quarta fase do Projeto
Monitoração de Propagandas de Produtos
Sujeitos à Vigilância Sanitária, uma parceria
da UFPI com a Anvisa e a OPAS. Como parte
do projeto citado, realizou-se o seminário “A
Promoção da Saúde pelas Ondas do Rádio”,
em setembro de 2009, com intuito de discutir
o papel do rádio como instrumento de
educação e promoção da saúde e os principais
aspectos normativos e legais da veiculação de
propagandas de produtos sujeitos à vigilância
sanitária nas rádios brasileiras.
Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Luana Lenzi; Rafael Venson; Roberto Pontarolo (UFPR)
RESUMO
Com base na alta prevalência de irregularidades
provenientes de publicidades de medicamentos
em rádio e do elevado risco sanitário associado
a estas, tendo em vista seu grande poder de
alcance a todas as faixas etárias, grupos sociais
e de nível de alfabetização, este trabalho
buscou conscientizar os radialistas de seu
papel social na hora de divulgar produtos para
a saúde. Para tanto, realizou-se um seminário
intitulado “A Ética nas Ondas do Rádio”. No
dia do evento, além da distribuição de material
educativo (fôlderes e cartilhas), foi entregue aos
participantes um questionário para caracterizar o
público presente. Das pessoas que responderam
ao questionário, 29% eram radialistas, e destes,
todos afirmaram perceber irregularidades nos
textos das propagandas anunciadas em rádio,
sendo que somente 34% realizam alterações
no texto das propagandas que divulgam e 33%
são favoráveis à propaganda de medicamentos,
desde que realizada de forma correta. Todos
afirmaram saber a diferença entre um alimento
e um medicamento e aproximadamente 20%
sabem o que é um medicamento de venda
livre. A falta de conhecimento dos profissionais
de comunicação leva à divulgação irregular
perante a legislação, e essa, aliada à falta de
conhecimento dos pacientes, leva a uma
automedicação
potencialmente
perigosa,
gerando elevado risco sanitário aos ouvintes.
Por esses motivos, as atividades educativas
nesse campo mostram-se de grande importância
social e para a saúde.
INTRODUÇÃO
A propaganda de medicamentos é um
recurso amplamente utilizado pelas indústrias
farmacêuticas para promover seus produtos.
Porém, esses produtos não devem ser divulgados
como simples bens de consumo, mas sim com
o objetivo de promover/proteger a saúde de
pacientes de alguma forma debilitados.
O mercado farmacêutico brasileiro faturou, em
2008, aproximadamente 13,4 bilhões de dólares,
sendo o décimo colocado entre os mercados
mundiais de medicamentos (Interfarma, 2008).
A estimativa do investimento em propaganda de
medicamento é de um bilhão de reais (BATISTA,
2009).
O mercado de medicamentos isentos de
prescrição é responsável por cerca de 30% da
fatura do mercado de medicamentos (ABIMIP,
2008). Em 2007, aproximadamente 863 milhões
de reais foram gastos com publicidade no
setor de medicamentos isentos de prescrição,
sendo que 14% desse montante foram para
publicidade em rádio (ABIMIP, 2008).
A publicidade voltada aos medicamentos isentos
de prescrição leva as pessoas leigas a consumir
ou desejar consumir medicamentos dos quais,
muitas vezes, nem precisam realmente. O
público leigo não tem conhecimento suficiente
a respeito dos riscos que a automedicação
pode trazer e as propagandas, normalmente,
não trazem recursos informativos suficientes
para alertá-lo a esse respeito. O hábito da
automedicação já está enraizado na cultura
brasileira, sendo constantemente estimulado
pela propaganda abusiva e facilitado pela
ineficiência do sistema de saúde, o que gera
consequências e complicações sérias, muitas
vezes irreversíveis, aos usuários (DRUMMOND,
2001).
Deparando-se com a publicidade de produtos
para a saúde, é notável a falta de preocupação
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 225
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
A PUBLICIDADE DE MEDICAMENTOS EM RÁDIO: DIVULGAR COM
ÉTICA E SER ÉTICO NA DIVULGAÇÃO
com a ética no momento de propagandear.
O importante é o consumo e não suas
consequências, o que leva à banalização do
uso de medicamentos, transformando-os de
produtos para a saúde em produtos que vão de
encontro à saúde. Isso tudo gera a medicalização
da sociedade e a dependência farmacêutica
(GUIMARÃES, SOBREIRA, EWALD, 2005;
BARROS, 2002).
O problema da publicidade de medicamentos
não reside no fato de ser realizada, mas sim na
forma como ela é realizada: apelativa, persuasiva
e envolvente. As pessoas que escutam a um
anúncio de um medicamento são diretamente
afetadas por uma linguagem que as fazem
querer o medicamento que não necessitam; e
elas ainda são ludibriadas pela falsa imagem
de que os medicamentos são isentos de riscos e
livres de consequências sérias à saúde. Grande
parte das propagandas dá a entender que os
produtos naturais, por exemplo, possuem essas
virtudes, o que não é verdade.
Este trabalho é fruto de um projeto maior
desenvolvido pela Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa), conjuntamente
com Instituições de Ensino Superior (IES), que
teve início em 2002 com o título de Projeto
Monitoração de Propaganda e Publicidade de
Medicamentos.
Entre outubro de 2007 e fevereiro de 2008,
peças publicitárias divulgadas em diversas
mídias foram objetos de monitoração, incluindo:
peças publicitárias de medicamentos, alimentos
(novos, com propriedades funcionais e para
fins especiais) e produtos para a saúde de
uso ortopédico, odontológico e de ginástica
passiva.
Dentre os meios de comunicação monitorados,
o que apresentou um maior número de
propagandas irregulares e com maior risco
sanitário associado foi o rádio.
Desde o seu surgimento e fortalecimento, entre
os anos 20 e os anos 60 do século 20, o rádio foi
o principal veículo de comunicação de massa
do Brasil. Ao final dos anos 50 e início dos 60,
226 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
estava consolidado em sua posição de meio
de comunicação de massa, representando um
elemento fundamental na formação de hábitos
na sociedade brasileira. O rádio ajudou a criar
novas práticas culturais e de consumo por toda
a sociedade brasileira.
Dos anos 30 aos 60, o rádio foi o meio através
do qual as novidades tecnológicas, os modismos
culturais, as mudanças políticas, as informações
e o entretenimento chegavam ao mesmo tempo
aos mais distantes lugares do país, permitindo
uma intensa troca entre a modernidade e a
tradição. Devido ao menor custo quando
comparado a outros meios de comunicação
como a televisão e a internet, pode-se afirmar
que ocorreu um processo de popularização do
rádio, fazendo dele quase que uma presença
obrigatória nos lares brasileiros, uma espécie
de utensílio indispensável. O seu poder de
divulgação em massa está relacionado a sua
capacidade de alcançar qualquer cidadão,
independente da classe social e do grau de
alfabetização (BRASILCULTURA, 2009).
Associando a forma apelativa e convincente
da maioria dos anúncios e a magnitude da
capacidade de divulgação que o rádio possui,
as propagandas irregulares de medicamentos
divulgadas por esse tipo de mídia caracterizam
alto risco sanitário à população.
O fato de a fiscalização e controle por parte
da Anvisa ser falha, por permitir, ainda, a
divulgação de produtos para a saúde de forma,
muitas vezes, abusiva, não isenta a sociedade
da sua responsabilidade. De acordo com o
parágrafo segundo, do artigo 2º, da Lei 8.080, de
1990, “a saúde é um direito fundamental do ser
humano, devendo o Estado prover as condições
indispensáveis ao seu pleno exercício”, mas “o
dever do Estado não exclui o das pessoas, da
família, das empresas e da sociedade” (BRASILb,
1990).
Com base nisso, nosso trabalho buscou
conscientizar os radialistas de seu papel social
na hora de divulgar produtos para a saúde
através da realização de um evento educativo e
de distribuição de material informativo.
Realizar um evento de informação e educação
sobre a ética na divulgação de propagandas de
medicamentos para radialistas, tendo como base
os dados alcançados na etapa de monitoração
realizada anteriormente.
MATERIAIS E MÉTODOS
Buscando alcançar os objetivos propostos, foi
organizado um seminário intitulado “A Ética nas
Ondas do Rádio”. O levantamento e o contato
com as emissoras de rádio foram realizados em
parceria com a Associação das Emissoras de
Radiodifusão do Paraná (AERP).
Para aumentar a atratividade do evento frente aos
profissionais da área da comunicação, buscouse trazer outros temas e outros palestrantes da
área da Comunicação Social. Por isso, além
do professor doutor Roberto Pontarolo, que
falou sobre “A Propaganda de Medicamentos
para Comunicadores de Rádio”, a jornalista
Melissa Bergonsi e a professora doutora Nair
Prata falaram sobre “A Ética na Rádio” e “Web
Rádio”, respectivamente.
A realização do evento também contou com
a parceria da Secretaria de Estado da Saúde
do Paraná (SESA-PR), da Agência Nacional de
Vigilância Sanitária e da Universidade Federal
do Paraná (UFPR).
A divulgação do evento foi realizada em
rádios universitárias, em centros acadêmicos
e nas coordenações dos cursos de Jornalismo
e Comunicação Social. Além disso, houve
divulgação pela Rádio Saúde, da SESA-PR, pela
internet e diretamente em escolas de formação
de radialistas de Curitiba. Todas as rádios do
Paraná receberam convite pelo correio e por
telefone.
No dia do evento, material educativo (fôlderes
e cartilhas) foi entregue aos participantes
juntamente com um questionário, composto por
nove perguntas, sendo a maioria objetiva. Com
a aplicação do questionário buscou-se distinguir
bem o público que compareceu ao evento,
bem como seu nível de conhecimento quanto
à divulgação de produtos isentos de prescrição
através das emissoras de radiodifusão.
O questionário constava dos seguintes pontos:
nome, profissão e tempo de atuação; “você
percebe muitas infrações nos anúncios de
produtos farmacêuticos?”; “você adiciona novos
termos ou chavões ao anúncio, ou repassa o
texto conforme recebido?”; “você é contrário
ou favorável a anúncios de medicamentos em
rádio?”; “você sabe diferenciar o anúncio de
um medicamento de um anúncio de alimento?”;
“você sabe o que é um medicamento de venda
livre?”; “antes de participar do evento, você
tinha conhecimento da RDC nº 102/2000 e da
RDC nº 96/2008?”.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Conseguimos alcançar um público de 60
pessoas participantes no seminário. Dessas,
somente 52% responderam ao questionário.
Das pessoas que responderam, 29%
eram
radialistas/locutores/apresentadores
de programas de rádio e 2% estudavam
Radialismo.
A média de tempo de atuação dos radialistas foi
de 14,5 anos, sendo que o tempo máximo era
de 31 anos e o mínimo de cinco anos.
De todas as pessoas que responderam ao
questionário, 87% disseram perceber infrações
nos anúncios de produtos farmacêuticos. Dos
radialistas, todos disseram que percebem essas
infrações.
Entretanto, 34% dos radialistas disseram que
não realizam a divulgação conforme passado
pelo comprador do serviço, mas sim que
adicionam chavões ou alteram, de alguma
forma, o anúncio.
De 30 pessoas que responderam à pergunta que
indagava se a pessoa era contrária ou favorável
à propaganda de medicamentos em rádios,
34% dos radialistas afirmaram ser contrário e
dos 66% restantes, 50% fizeram a ressalva de
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 227
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
OBJETIVOS
ser favorável, porém de maneira consciente,
com as informações necessárias ao usuário.
Do restante do público, 68% afirmaram ser
contrários e 4% não responderam.
Todas as pessoas afirmaram saber a diferença
entre um alimento e um medicamento e 77%
das pessoas afirmaram saber o que é um
medicamento de venda livre. Dessas, 35%
eram radialistas.
A grande maioria (90%) disse desconhecer
as principais resoluções em vigor que regem
a propaganda de medicamentos (RDC nº
102/2000 e RDC nº 96/2008).
Resultados das etapas anteriores do projeto
de monitoração da Anvisa demonstram
um aumento relativo do número de peças
divulgadas em rádio, em comparação com o
número de peças divulgadas em outras mídias.
A fase 1 (compreendida entre 2002 e 2003)
resultou em 1.019 peças captadas, sendo que
14% dessas (143) eram de rádio; a fase 2 (20042005) resultou em 469 peças captadas, sendo
que 12% (56) eram de rádio. Já a terceira fase
(2007-2008) gerou 146 captações, sendo 16%
(24) provenientes de rádio.
Esse aumento na proporção de peças
provenientes de radioemissoras se deveu,
provavelmente, à diminuição maior do número
de peças infringentes provenientes de outras
mídias; isso porque mídias impressas são mais
facilmente fiscalizadas e punidas que as mídias
sonoras. As mídias sonoras também são alvos
da mazela da intervenção humana: o radialista
recebe o que ele deveria falar, porém muitas
vezes intervém, alterando a propaganda por
falar a mais ou usar conotação ou entonação
que acaba modificando o sentido da peça
publicitária, justamente por desconhecer a lei
ou as consequências de tal ato sobre a saúde da
população que ouve ao seu anúncio.
O número médio de infrações por mídia
encontrado nas etapas anteriores do projeto
mostrou que houve quatro infrações por
anúncio nas rádios FM e 2,5 nas AM.
228 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Esses dados justificam a realização de um
evento destinado à informação e educação
desses profissionais do ramo da radiodifusão.
Nosso público-alvo foi os profissionais da área
de Comunicação, como radialistas e estudantes
de Radialismo, Jornalismo e Comunicação
Social, porém não se fez nenhuma restrição
quanto à divulgação do evento, devido à
dificuldade de se atrair profissionais desse ramo
para um evento que trate basicamente de saúde.
Por este motivo, não se fez restrição quanto à
participação de outros interessados no evento e
nos assuntos por ele abordados.
A simples existência de uma legislação
específica sobre o assunto, por mais direta e
clara que seja, não é garantia de cumprimento.
Prova disso é que diversos trabalhos de
pesquisa, realizados depois da publicação da
RDC nº 102/00 (CARVALHO, 2004; RESENER,
2004; MASTROIANNI, 2003; NASCIMENTO,
2003; PETROVICK, 2003; WZOREK, 2003)
confirmam que apesar do aparente caráter
informativo, muitas infrações são cometidas.
No que diz respeito à presença de informações
essenciais exigidas pela legislação (como
contraindicações, DCB/DCI, reações adversas)
estas estão presentes em média, em 70% das
propagandas brasileiras.
É nesse contexto que se enquadra esse
projeto. Não basta regulamentar a divulgação
das propagandas de medicamentos, é antes
necessário informar e educar a respeito. Na
maioria das vezes, as infrações são cometidas
por desconhecimento, por parte dos radialistas,
dos riscos sanitários que podem estar associados
à divulgação equivocada de um anúncio de um
medicamento.
Os prejuízos trazidos pela propaganda irregular
de medicamentos são diversos: agravamento
do estado de saúde do paciente; falta de
estabelecimento de uma farmacoterapia
adequada;
intoxicação
pela
falta
de
conhecimento quanto ao correto uso e aos
eventos adversos decorrentes do seu uso; entre
outros (SANTI, 1999).
Não basta a esse profissional saber como
ou o quê divulgar, é necessário também o
conhecimento das consequências danosas
que interferências podem causar tanto a quem
ouve o anúncio como a ele próprio, que está
sujeito às penalidades da lei, conforme artigo
21 do Código Penal, que determina que o
desconhecimento da lei não isenta o infrator da
culpa ou pena.
A legislação brasileira que regulamenta o setor,
a RDC n° 102/2000 e a RDC n° 96/2008, trazem
em seu conteúdo todos os requisitos necessários
para a correta divulgação das propagandas de
medicamentos nas diversas mídias, incluindo
entre estas, o rádio.
Frases como: “Sem contraindicação”, “Não
apresenta efeitos colaterais”, “Ervas importadas”
e “Produto natural” são relativamente comuns
em propagandas e dão a falsa impressão de
produtos de qualidade e totalmente seguros.
Estudo realizado no Rio Grande do Sul
demonstrou que de 250 peças publicitárias
veiculadas nas principais emissoras de rádio sul
rio grandenses, entre agosto de 1995 e janeiro
de 1996, 80% não apresentavam declaração
quanto ao nome genérico, à composição,
à posologia e ao laboratório fabricante do
produto. Também 39% enfatizavam a ausência
de riscos (através de frases como “Não contém
contraindicações”), o que estimula o consumo
indiscriminado (HEINECK, 1998).
O fato de 34% dos radialistas distorcerem
a informação recebida para o anúncio é
preocupante. Isso porque o que pode ocorrer
é que a propaganda vem do laboratório
farmacêutico conforme regulamenta a legislação
e no momento da realização da propaganda
ocorre a irregularidade. O radialista não deve
incrementar de forma alguma a propaganda,
devendo realizá-la da maneira como a recebe,
estando, preferencialmente, em acordo com
a legislação, para evitar a ocorrência de
infrações.
Algumas pessoas afirmaram desconhecer o
conceito de medicamento de venda livre. Isso é
um percalço muito grande para a regulamentação
da propaganda de medicamentos. Somente essa
classe de medicamentos pode ser divulgada para
o público leigo. O radialista ou a população
em geral podem atuar como fiscalizadores de
propagandas de medicamentos, porém para
isso eles devem conhecer conceitos básicos
da área de farmácia, como o conceito de
medicamento isento de prescrição médica ou
a diferença entre a divulgação de um produto
alimentício e um farmacêutico. Com posse de
tais conhecimentos, o radialista, no momento
em que receber uma divulgação para fazer,
poderá se recusar a fazê-la ou exigir alterações
no texto do anúncio publicitário.
Foram constantes durante as palestras discussões
e debates sobre ética e proibição/liberação
da propaganda de medicamentos e de outros
produtos para a saúde.
A maior dificuldade presenciada para
a organização do evento foi a de atrair
radialistas. Apesar do grande esforço realizado
pela organização do evento, seja tornando o
seminário mais atrativo ou realizando convites
através de diferentes meios de comunicação,
inclusive contato telefônico, poucos estiveram
presentes. Dos 60 participantes do evento,
somente nove eram radialistas que trabalhavam
na área. O pequeno número pode ser atribuído
à falta de interesse pelo assunto abordado no
seminário por desconhecer a legislação e as
penalidades que podem sofrer com o anuncio
de determinados produtos e pela dificuldade
em abandonar o posto de trabalho, pois em
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 229
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
Interferências realizadas na hora de divulgar
um anúncio, mesmo com o inocente intuito de
transmitir maior credibilidade, atrair um público
maior, ou transformar um assunto sério como
doença em algo mais próximo do cotidiano
dos ouvintes, por vezes banalizando doenças
sérias ou maximizando problemas de saúde
menores a fim de dar uma entonação cômica
ao anúncio provocando vergonha, temor ou
angústia, podem dessa forma acarretar em serias
consequências à saúde da população sujeita a
esses riscos sanitários.
determinadas emissoras o radialista é o único
funcionário, além dos custos com transporte
e hospedagem para quem reside fora de
Curitiba.
Muitos profissionais dessa área destacam o
talento nato de comunicador como o único
fator que importa para o trabalho, que a
informação chega pronta, sendo seu papel
somente divulgar, e quaisquer restrições sobre
seu trabalho caracteriza restrição de liberdade
de imprensa, sendo assim, inconstitucional.
Outro fator que podemos considerar é a
impunidade, a falta de fiscalização mais
efetiva e multas sobre propagandas irregulares,
pois parece que o único fator que sensibiliza
quem já está acostumado a cometer tantas
irregularidades é o fator financeiro. Quando a
ignorância sobre o assunto tiver um preço este
pode ser um fator para motivá-los a conhecer
melhor o produto que anunciam e os aspectos
legais envolvidos.
Esses dados, mais uma vez, revelam a
importância de informar essa classe sobre os
deveres perante a legislação em relação à
divulgação dos anúncios de medicamentos, e
os direitos do cidadão no que se refere a sua
saúde e aos riscos sanitários a que pode ser
submetido.
Certamente não é somente com uma ação como
esta, ou somente com a conscientização do
público presente, que conseguiremos mudar a
situação atual. Mas para percorrer um caminho
e chegar ao fim do trajeto, é necessário dar o
primeiro passo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Projeto de Monitoração da Anvisa, em
parceria com as IES, mostrou que o número
de infrações diminuiu com o passar dos anos.
Isto demonstra que a atividade de fiscalização
e sanção das infrações segue um caminho
produtivo. Porém, apesar da evolução legal que
tem ocorrido nesse escopo, resta muito trabalho
a se fazer, pois ainda não se consegue coibir
totalmente os abusos ocorridos.
230 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
O estudo demonstra a necessidade de se tratar
o assunto fora dos órgãos reguladores. Como
puderam ser observadas, as inúmeras infrações
ultrapassam o campo legal e invadem o social,
devendo ser tratadas como um problema de
saúde pública.
Essas infrações nem sempre ocorrem por má-fé
dos profissionais de comunicação. Às vezes falta
conhecimento por parte desses profissionais e
isso leva a infrações à legislação vigente. Cabe
aos profissionais da área da saúde e dos órgãos
regulamentadores o dever social de ensiná-los.
E cabe à sociedade debater o assunto.
A responsabilidade de regulamentar e fiscalizar a
propaganda de medicamentos é responsabilidade
do Estado, segundo a Constituição Federal e
normas infraconstitucionais, porém isso não
exclui a responsabilidade de todos.
Acreditamos ter alcançado resultados positivos
com os profissionais que participaram do
evento e que os mesmos possam refletir sobre
as consequências da publicidade, lutando por
uma prática mais responsável e comprometida
com a verdade, a fim de cumprir com o que a
sociedade necessita e espera.
Não basta a propaganda ser ética, apresentando
seu conteúdo em acordo com a legislação e
com a literatura científica, é necessário também
que o locutor anunciante seja ético na sua
divulgação, respeitando o conteúdo do anúncio
e, principalmente, a saúde e a vida do ouvinte.
COLABORADORES
A autora Luana Lenzi realizou a monitoração
das propagandas em rádio e redigiu o artigo.
Juntamente com os demais autores, elaborou
e desenvolveu as atividades realizadas nesse
projeto. Os coautores Rafael Venson e Roberto
Pontarolo auxiliaram em todas as etapas,
inclusive na revisão e tradução do texto.
ABIMIP. Associação Brasileira da Indústria
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CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 231
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232 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Marjorie Muller2²; Caren Gobbeti2²; Letícia Oliveira2², Bruna Piccoli²2, Tânia Alves Amador¹1
1 - Professor Adjunto da Faculdade de Farmácia, Departamento de Produção e Controle de Medicamentos. Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.
2 - Acadêmicos de Farmácia. Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.
RESUMO
Este artigo é o relato de experiência sobre a
tentativa de aproximação com comunicadores
de rádio, para o desenvolvimento de um
seminário que discutisse medicamento e
alimento na mídia. O trabalho é parte integrante
do Projeto de Educação em Propaganda de
Medicamentos, realizado na cidade de Porto
Alegre por professores e acadêmicos do curso
de Farmácia. O projeto é realizado em parceria
com a Anvisa e busca desenvolver ações que
promovam o uso racional de medicamentos.
A QUESTÃO DA PUBLICIDADE DE
MEDICAMENTOS E DE OUTROS
PRODUTOS SUJEITOS À VIGILÂNCIA
SANITÁRIA
A influência da mídia no comportamento
individual é um fato bastante conhecido.
No Brasil, a televisão e os demais meios de
comunicação, por meio do discurso publicitário,
exercem grande pressão para o consumo. A
necessidade de adquirir mercadorias e serviços
é atualmente produzida com grande força,
através da relação existente entre a mídia e
a sociedade. Segundo o Instituto Nacional
do Consumo da Espanha, a publicidade é
uma forma de comunicação de massa que
toma partido, é unilateral e subjetiva. Trata
de transmitir informações, mas, sobretudo,
de influenciar atitudes e comportamentos do
público-alvo.
Embora a propaganda de medicamentos já
esteja disciplinada no Brasil há várias décadas,
os fabricantes e a mídia continuam veiculando
peças publicitárias inadequadas tanto para
o público leigo quanto para profissionais da
área da saúde. Os resultados da etapa inicial
do Projeto de Monitoração de Publicidade e
Propaganda de Medicamentos (promovido
pela Anvisa em parceria com Instituições de
Ensino Superior de todo o Brasil) mostraram
que as informações divulgadas não contribuem
para o esclarecimento do consumidor, além de
descumprirem vários requisitos da legislação
vigente no país.
Na segunda etapa do projeto percebeu-se uma
mudança no teor das campanhas publicitárias
de medicamentos. Entretanto, ainda há muito
que mudar, principalmente quando se trata dos
fabricantes de produtos que não apresentam
registro na Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa), como alimentos, mas
insistem em alegar propriedades terapêuticas
aos seus produtos, muitas vezes sem registro
algum e com sérios riscos à saúde da população.
Essas propagandas vêm sendo especialmente
divulgadas em jornais e rádios.
No entendimento dos envolvidos no Projeto
de Monitoração de Propaganda (Anvisa e
pesquisadores das universidades), questões
educacionais são essenciais para criar uma nova
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 235
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
A TENTATIVA DE APROXIMAÇÃO ENTRE O PROJETO DE EDUCAÇÃO
EM PROPAGANDA DE PRODUTOS SUJEITOS À VIGILÂNCIA
SANITÁRIA E COMUNICADORES DE RÁDIO: UM RELATO DE
EXPERIÊNCIA.
cultura em relação à propaganda de produtos
para saúde. Segundo a Anvisa, no estado do Rio
Grande do Sul tem ocorrido o maior número de
Autos de Infração Sanitária contra rádios locais,
correspondendo a 13% do total de autuações
contra rádios em todo o Brasil (n=114).
Percebe-se, hoje, que somente as ações
punitivas não têm sido suficientes para coibir
os abusos na publicidade de medicamentos.
Não é de hoje que a Faculdade de Farmácia da
UFRGS se preocupa com essa questão, sendo
que, em 1998, foi publicado um artigo científico
que avaliava a publicidade de medicamentos
em rádios de Porto Alegre. As propagandas
foram analisadas no período de agosto de
1995 a janeiro de 1996. Durante o período de
observação, foram documentadas 250 peças
publicitárias referentes a 28 produtos. Mais de
80% não apresentavam declarações quanto ao
nome genérico, à composição, à posologia e ao
laboratório fabricante do produto, infringindo,
dessa forma, a legislação vigente no país
naquela época. O mais grave, ainda, é que um
número significativo das peças publicitárias
(39%) ressaltava a ausência de quaisquer
riscos, fazendo declarações como “não tem
contraindicações” (o que caracteriza um apelo
ao uso irracional) e omitiam informações
fundamentais a respeito de cuidados, de reações
adversas e de contraindicações (HEINECK et
al., 1998).
Segundo dados do Ibope de 2005, o segmento
farmacêutico respondia por aproximadamente
2,2% do total do investimento publicitário
no Brasil, alcançando 187,5 milhões no 3º
trimestre de 2005, o que corresponde a um
aumento de 10% em relação ao mesmo período
do ano anterior. Os veículos mais utilizados são
televisão (81%), rádio (7%), TV por assinatura
(6%), revista (5%) e jornal (1%).
No mesmo campo da publicidade do
medicamento também se insere hoje a dos
alimentos, especialmente aqueles direcionados
às crianças. A Organização Mundial da Saúde
(OMS) tem se preocupado com a questão da
obesidade infantil e, em março de 2009, uma
pesquisa realizada pela Universidade Oxford
236 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
comprovou a relação entre a limitação da
publicidade de alimentos não saudáveis e a
redução nos índices de obesidade infantil nos
Estados Unidos (VEERMAN, 2009).
Pensando nesse cenário, a Anvisa resolveu
ampliar, no ano de 2009, o seu escopo
de atuação na área de ações educativas e
informativas para os comunicadores de rádio.
As universidades parceiras da Agência no
Projeto de Monitoração de Propaganda foram
novamente chamadas a tentar diminuir a
distância entre a informação divulgada pela
indústria farmacêutica e a informação científica
isenta de pressões econômicas.
Dentro das atividades previstas para o projeto,
estava a realização de um seminário voltado
para os comunicadores de rádio, com intuito
de oferecer uma discussão à luz de informações
sobre benefícios e riscos dos medicamentos e
alimentos.
A EXPERIÊNCIA DE REALIZAR O
SEMINÁRIO DE MEDICAMENTOS
E ALIMENTOS NA MÍDIA PARA
COMUNICADORES DE RÁDIO
A limitação de tempo foi um grande dificultador
para conseguir sensibilizar os profissionais de
rádio a participarem do seminário. Inicialmente
foi realizado um levantamento de todas as rádios
de Porto Alegre e do Estado do Rio Grande
do Sul (RS) para localizar telefone e e-mails.
Em seguida, tentou-se contato telefônico e,
em geral, o atendimento era realizado pela
assessoria de comunicação, sem que tivéssemos
acesso direto com os comunicadores.
Entre os assessores ou responsáveis pelo
atendimento da chamada telefônica um dos
questionamentos que surgiam era o porquê do
foco nos radialistas e a alegação de que eles
somente liam o texto realizado pela agência
da publicidade. Entretanto, esse argumento
demonstra
certo
desconhecimento
da
legislação, visto que as emissoras de rádio são
corresponsáveis pelo que vai ser divulgado na
sua programação. Sendo assim, é necessário que
a empresa, antes de divulgar um determinado
Dentre as principais irregularidades verificadas
nas peças publicitárias em rádios estão:
anunciar produto sem registro; anunciar
produto com registro para alimentos alegando
propriedades terapêuticas, visto que somente
medicamentos possuem essas propriedades; e
anunciar produto registrado não atendendo à
legislação sanitária vigente. Caso essas infrações
sejam comprovadas, as empresas respondem a
processos administrativos sanitários e podem
ser apenadas com multas que variam de R$
2.000,00 a R$ 1.500.000,00. As empresas ainda
podem sofrer as sanções de natureza cível e
penal cabíveis (BRASIL, 2008).
Outra estratégia utilizada para sensibilizar os
profissionais do rádio foi encaminhar emails,
e, para que facilitasse a adesão, solicitamos
à Associação Gaúcha de Rádios e Televisão
(AGERT) que o evento fosse realizado na sede
da AGERT, o que não foi possível, pois na
data do acontecimento a entidade passava por
período de eleição. O presidente da entidade foi
convidado a realizar o seminário em parceria,
mas não demonstrou interesse.
Sabe-se que a AGERT tem uma posição contrária
à adoção da legislação que regulamente e
restrinja a publicidade de medicamento sob a
alegação de que enquanto os produtos tiverem
circulação no mercado produtor e livre acesso
à toda a população, “não há como se falar
em restrição de sua publicidade, sob pena de
agressão a normas constitucionais e aos demais
princípios que protegem a liberdade”. Esta
afirmação é o embasamento não somente das
empresas de comunicação, mas das produtoras
de publicidade e laboratórios farmacêuticos.
A AGERT publicou essa análise em seu site,
questionando, como mencionado por eles:
A Resolução nº 96/08 da Anvisa não confere
competência para sua intervenção na publicidade
de medicamentos, promovida em rádios e
televisões. A pretensão da Agência Nacional de
Vigilância Sanitária afronta disposição expressa da
Constituição Federal (AGERT, 2009).
Outras emissoras no momento do convite
mostraram-se prestativas e o evento foi publicado
no site e no jornal Zero Hora do Grupo RBS,
que ficaram de encaminhar pelo menos um
participante, mas não compareceram. Essa
descrição é para ilustrar a dificuldade que se
tem em aprofundar, com os segmentos dessa
“cadeia” de consumo de medicamento, as
discussões sobre que abordagem o consumidor,
o paciente, o usuário do medicamento merece
conhecer, pois a todo o momento ele é
bombardeado na mídia com novas informações
sobre novas tecnologias de saúde.
O seminário tinha tão somente o objetivo de
apresentar dados que mostram o quanto é
necessário olhar o medicamento como um bem
de saúde e não simplesmente como um bem
de consumo e sensibilizar os comunicadores
para a necessidade de se ter cuidado com a
informação que é lida nas rádios.
Como estratégia para compensar a ausência
dos comunicadores ao seminário, convidouse acadêmicos de Farmácia e de Publicidade.
Não obstante, ainda assim considera-se que
a estratégia não funcionou, visto o baixo
público presente. Entretanto, os convidados
para participarem da mesa-redonda como
palestrantes firmaram parceria, sendo que
as faculdades de Farmácia e de Publicidade
da UFRGS vêm desenvolvendo materiais
informativos em parceria para o projeto.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Independente da frustração do evento, o
grupo do projeto buscou novas estratégias
para alcançar os comunicadores. Para tanto,
foi desenvolvido um blog onde estão sendo
publicados artigos curtos sobre riscos do uso
indiscriminado de medicamentos. O blog
vem sendo divulgado periodicamente para os
e-mails dos comunicadores.
A ferramenta internet nos pareceu mais
apropriada para um segmento da sociedade
que trabalha exatamente com a comunicação.
Por email foi divulgado um folder que
chama os leitores a pensar sobre os riscos da
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 237
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
produto, esteja ciente que existe registro no
Ministério da Saúde, caso contrário poderá sim,
ser responsabilizada.
automedicação e a influência da publicidade.
Sabemos que não é o suficiente, e outras
estratégias devem ser pensadas, mas ao tentar
inserir esses temas no dia a dia dessas pessoas
é possível despertar, ao menos, a curiosidade.
Em outros setores da universidade pretendemos
ampliar essa discussão.
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Anvisa. Disponível em: http://www.agert.
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238 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
Maria Cleide Ribeiro Dantas de Carvalho1; Francisca Sueli Monte2; Lourena Mafra Veríssimo2; Ney Moura
Lemos2; Maria Giovana Binder Pagnoncelli3 ; Fillipe Azevedo de Medeiros4; Rayllan de Oliveira Rodrigues4.
1 - Professora Associada do Departamento de Farmácia, autora responsável (UFRN).
2 – Professores Assistentes do Departamento de Farmácia (UFRN).
3- Professora Adjunta do Departamento de Farmácia (UFRN).
4- Alunos do Curso de Farmácia (UFRN).
RESUMO
INTRODUÇÃO
O artigo objetivou avaliar o conhecimento
sobre a norma que regulamenta a propaganda
de medicamentos (RDC nº 96/08), sobre
intoxicação medicamentosa e sobre alimentação
saudável, entre participantes de um seminário
que abordou os referidos temas. O seminário
“A Promoção da Saúde pelas Ondas do Rádio”
ocorreu em agosto de 2009, na cidade de Natal
(RN) e buscou reunir as principais informações
e orientações necessárias à promoção dos
produtos e dos serviços sujeitos à vigilância
sanitária de acordo com a legislação vigente,
aliado à ética e responsabilidade que o
tema demanda. Este seminário teve como
participantes alunos de graduação em
Farmácia e em Comunicação Social, assim
como comunicadores que atuam no setor de
rádio. A programação do seminário abordou
a norma que regulamenta a propaganda de
medicamentos (RDC nº 96/08), intoxicação por
medicamentos e alimentação saudável. Para
a avaliação do conhecimento, foi aplicado
um mesmo questionário, antes e depois do
evento, com questões de múltipla escolha
para 78 estudantes do curso de Farmácia, 11
estudantes do curso de Comunicação Social
e 13 comunicadores de rádio. Os resultados
demonstraram que, de uma maneira geral,
houve um aumento do nível de conhecimento,
principalmente no que se refere às questões que
abordaram a propaganda de medicamentos.
O rádio é parte integrante do cotidiano de
grande maioria da população brasileira e
constitui-se num vigoroso instrumento de
divulgação, informação e convencimento
da população em todas as classes sociais. As
estatísticas demonstram que, ainda hoje, ele
se mantém como um dos principais veículos
de comunicação de massa. De acordo com
dados da Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílios (PNAD), cerca de 90% dos
domicílios brasileiros dispõem de rádio, no
Nordeste são 80,8% (IBGE, 2006).
A Carta de Ottawa (1986), documento
apresentado
na
primeira
Conferência
Internacional sobre Promoção da Saúde,
afirma que a promoção da saúde não é uma
responsabilidade apenas do setor saúde, mas
vai além, demandando uma ação coordenada
de vários setores como o governamental, não
governamental, indústria e mídia. As estratégias
e programas de promoção da saúde devem ser
adaptados às necessidades individuais de cada
país e região de modo a atender diferenças
sociais, culturais e econômicas. Dessa forma, o
rádio pode ser uma importante ferramenta para
a promoção da saúde.
Verificou-se que a indústria farmacêutica tem
usado bastante o rádio para a divulgação
de seus produtos, tornando-se uma das
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 241
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
AVALIAÇÃO DO CONHECIMENTO sobre Propaganda de
MEDICAMENTOS E ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL entre
partIcipantes DE UM SEMINÁRIO
principais fontes de receita por esse veículo de
comunicação. De acordo com a MediaSpot, da
Crowley Broadcast Analysis do Brasil, em 2007,
a DM Farmacêutica foi o principal anunciante
do rádio no Rio de Janeiro e São Paulo (Drska,
2007a, 2007b). Além disso, de acordo com o
ranking dos maiores anunciantes do país pelo
Ibope Monitor (2007), esta mesma empresa
farmacêutica também figura entre os 30 maiores
anunciantes (COSTA, 2009).
No entanto, ao invés de promover saúde, a
propaganda de medicamentos tem se tornado
um problema para a saúde pública, pois não
alerta os usuários sobre os riscos sanitários
envolvidos no consumo indiscriminado de
substâncias farmacológicas e nem para o fato
de que todo medicamento, mesmo aqueles
de venda sem prescrição médica, devem ser
utilizados com consciência e responsabilidade.
Ao divulgar os medicamentos como produto
de consumo, a propaganda tende a induzir à
automedicação, agravar patologias ou sintomas,
incentivar a aquisição de produtos ineficazes
ou inadequados, e ampliar os gastos do Sistema
de Saúde, inclusive no que diz respeito ao
tratamento de intoxicação medicamentosa,
a qual ocupa o primeiro lugar no ranking
de intoxicações nos centros de controle de
toxicologia e farmacovigilância do Brasil
(FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ, 2007).
Batista (2009) analisando 228 propagandas
de medicamentos veiculadas em emissoras de
rádio da cidade de Natal (RN) observou que
todas as propagandas cometeram algum tipo de
infração à legislação em vigor e que a quase
totalidade dos aspectos negativos referentes
aos medicamentos (contraindicações, reações
adversas, cuidados/advertências, interações
medicamentosas) foi omitida nas peças
publicitárias captadas.
Dessa forma, os profissionais que atuam na área
de comunicação devem ser informados a respeito
da importância da qualidade da informação a
ser transmitida, como o conhecimento sobre
a RDC nº 96/08 (BRASIL, 2008), que dispõe
sobre a propaganda, publicidade, informação e
outras práticas cujo objetivo seja a divulgação
242 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
ou promoção comercial de medicamentos e
que, recentemente, entrou em vigor (junho
de 2009) em substituição à RDC nº 102/00
(BRASIL, 2000).
Por outro lado, a promoção e a proteção
da saúde também necessitam de requisitos
básicos, como os de manter hábitos de vida
saudável. A informação da população a respeito
da alimentação saudável pode contribuir na
redução do surgimento de doenças crônico
degenerativas não transmissíveis, como
obesidade, diabetes e doenças coronarianas.
O seminário “A Promoção da Saúde pelas
Ondas do Rádio” buscou reunir as principais
informações e orientações necessárias para a
promoção dos produtos e serviços sujeitos à
vigilância sanitária de acordo com a legislação
vigente, aliado à ética e responsabilidade que o
tema demanda.
O presente estudo avaliou os conhecimentos
adquiridos pelos participantes do seminário “A
Promoção da Saúde pelas Ondas do Rádio” no
tocante aos temas debatidos.
MATERIAIS E MÉTODOS
O seminário “A Promoção da Saúde pelas
Ondas do Rádio” ocorreu em agosto de 2009,
na cidade de Natal (RN) e teve como públicoalvo alunos de graduação em Farmácia e em
Comunicação Social, e comunicadores de
rádio.
Em princípio, o público-alvo do seminário
seriam os comunicadores de rádio e os
estudantes de Comunicação Social, os
primeiros porque atuam profissionalmente com
a propaganda de medicamentos e alimentos,
e os seguintes porque estarão em breve no
mercado da propaganda. No entanto, como o
seminário ocorreu no Auditório do Centro de
Ciências da Saúde da Universidade Federal do
Rio Grande do Norte, foi ampliado também
para os estudantes de Farmácia.
Para a avaliação do conhecimento, foi aplicado
um mesmo questionário (pré-teste e pós-teste)
O preenchimento do pré-teste foi condicionado
à inscrição no seminário. Foram preenchidos
102 questionários, sendo 78 de estudantes do
curso de Farmácia, 11 de estudantes do curso
de Comunicação Social e 13 de comunicadores
de rádio. O preenchimento do pós-teste foi
condicionado à participação num sorteio no
final do evento. Como o número de questionários
do pré-teste foi maior que do pós-teste, foram
retiradas, aleatoriamente, algumas unidades
para que o número de questionários do pré e
pós-teste fosse o mesmo. As questões do préteste e pós-teste versaram sobre a nova norma
que regulariza a propaganda de medicamentos,
a RDC nº 96/08 (BRASIL, 2008), intoxicação
medicamentosa e alimentação saudável.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram aplicados 102 questionários no pré e pós
teste, sendo 78 de estudantes de graduação em
Farmácia, 11 de estudantes de graduação em
Comunicação Social e 13 de comunicadores de
rádio.
Como se pode constatar, houve um aumento
do nível de conhecimento, principalmente no
que se referem às questões que abordaram
a propaganda de medicamentos (Tabela 1),
tanto para o público em geral quanto para os
comunicadores de rádio e os estudantes de
Comunicação Social.
Pré e pós-testes são utilizados para medir o
conhecimento adquirido pelos participantes
em uma formação. O pré-teste é um conjunto
de perguntas feitas aos participantes antes
do início da formação, com a fInalidade de
determinar o seu nível de conhecimento sobre
Tabela 1 – Avaliação das questões pertinentes à propaganda de medicamentos no pré e pós-teste pelos
participantes do Seminário “Promoção da Saúde pelas Ondas do Rádio”, Natal/RN, agosto de 2009.
Todos os participantes
PERGUNTAS
Comunicadores de rádio e estudantes
de Comunicação Social
ACERTOS NO
PRÉ-TESTE
%
ACERTOS NO
PÓS-TESTE
%
ACERTOS NO
PRÉ-TESTE
%
ACERTOS NO
PÓS-TESTE
%
1. Resolução que regulamenta a
propaganda de medicamentos
31,1
92,1
0
78,3
2. Principal agente causador de
intoxicações no Brasil
85,4
100
50
100
3. Divulgar as indicações terapêuticas do medicamento na propaganda
79,4
93,1
83,3
73,9
4. Usar a expressão “Aprovado
pela ANVISA” na propaganda de
medicamentos
22,8
92,1
16,7
87
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 243
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
o conteúdo que será ensinado. Ao final da
formação, os participantes devem responder a
um pós-teste com as mesmas perguntas feitas
anteriormente, ou perguntas com o mesmo
nível de dificuldade. Através da comparação
das notas do pré-teste com as notas do pósteste, será possível descobrir se a formação foi
bem-sucedida em aumentar o conhecimento
do participante sobre o conteúdo da formação.
(ORIENTAÇÕES..., 2009).
com questões de múltipla escolha antes do
início e no final do seminário.
5. Dirigir informações a crianças
e adolescentes na propaganda de
medicamentos
25,5
73,0
8,3
60,9
6. Informar que se pode cometer
abusos gastronômicos em relação
ao uso de determinado medicamento
58,8
68,7
70,8
78,3
7. Informar sobre a advertência
relacionada à substância ativa do
medicamento
91,2
99,0
79,2
83,3
8. Oferecer brindes condicionada
a compra de determinado medicamento
95,1
100
87,5
91,3
9. “Se você tem a garganta dolorida, vermelha e inchada, então
use...”
94,1
98,0
87,5
95,7
10. “Para dores de cabeça tenha
sempre à mão...”
86,3
98,0
54,2
91,3
11. “Coma e beba à vontade e se
sentir algum mal-estar tome...”
95,1
98,0
91,7
95,7
12. “Se persistirem os sintomas o
médico deverá ser consultado”
94,1
99,0
95,8
95,7
13. “O ... vem agora no delicioso
sabor morango”
82,4
96,0
62,5
87,0
14. “O ... pode ser encontrado nos
sabores morango, abacaxi e limão”
48,0
73,3
37,5
47,8
15. “ ... é um medicamento, seu
uso pode trazer riscos, procure o
médico e o farmacêutico. Leia a
bula”.
92,2
96,0
83,3
95,7
Na maioria das questões a diferença entre o
conhecimento do pré e do pós-teste foi mais
acentuada nos segmentos dos comunicadores
de rádio e dos estudantes de Comunicação
Social, provavelmente porque no conjunto das
três categorias de participantes os estudantes
de Farmácia tinham um maior nível de
conhecimento, já que os temas do seminário
haviam sido abordados em salas de aula.
244 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Em relação às questões sobre alimentos,
os participantes demonstraram um bom
conhecimento sobre o assunto no pré-teste.
Nos outros itens, o número de acertos no préteste também foi elevado. Talvez esse fato seja
explicado pelo grande número de reportagens
sobre o assunto nos veículos de comunicação
de massa.
ALIMENTOS RELACIONADOS AO
AUMENTO DE CASOS DE OBESIDADE, DIABETES E HIPERTENSÃO
Todos os participantes
Comunicadores de rádio e estudantes
de Comunicação Social
ACERTOS NO
PRÉ-TESTE
%
ACERTOS NO
PÓS-TESTE
%
ACERTOS NO
PRÉ-TESTE
%
ACERTOS NO
PÓS-TESTE
%
1. Pizza
89,3
96,0
91,7
87,0
2. Biscoitos recheados
81,6
93,1
79,2
91,3
3. Frituras
98,1
96,0
100
87,0
4. Refrigerantes
89,3
95,0
91,7
87,0
5. Salgadinho industrializado
83,5
92,1
79,2
82,6
6. Chocolates, balas, pirulitos
95,1
97,0
87,5
91,3
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados obtidos no seminário foram
bastante satisfatórios em todos os segmentos
de público participante, significando que os
objetivos foram alcançados.
que ponto os objetivos definidos estão sendo
alcançados. Avaliamos por meio de ferramentas
diversificadas, tais como: observações, testes,
exercícios, dinâmicas, seminários etc.
De acordo com Hamze (2009), a avaliação
permite correção de caminhos a partir de
decisões que podem ser tomadas, tendo em
vista o desenvolvimento pleno do educando.
Basicamente, avaliar é emitir juízo de valor, após
análises e ou sínteses efetuadas. A avaliação,
essencialmente, não é um fim em si mesmo,
mas um elemento que permite averiguar até
Particularizando para o caso em questão,
alguns assuntos que podem ter sido mal
compreendidos ou não assimilados durante o
seminário poderão ser objeto de reforço através
de outras ações educativas como a elaboração
de cartilhas, manuais ou outros produtos,
visando melhorar ainda mais o conhecimento
sobre os temas debatidos.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 245
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
Tabela 2 – Avaliação das questões pertinentes aos alimentos no pré e pós-teste pelos participantes do
Seminário “Promoção da Saúde pelas Ondas do Rádio”, Natal/RN, agosto de 2009.
REFERÊNCIAS
BATISTA, A. M. Avaliação da publicidade
de medicamentos veiculada nas principais
emissoras de rádio de Natal/RN. Dissertação
[Mestrado. Programa de Pós-graduação em
Ciências Farmacêuticas - Universidade Federal
do Rio Grande do Norte]. Natal: UFRN, 2009.
BRASIL. Resolução RDC nº 102, de 30 de
novembro de 2000. Aprova o regulamento
sobre propagandas, mensagens publicitárias e
promocionais e outras práticas cujo objeto seja
a divulgação, promoção ou comercialização
de medicamentos de produção nacional ou
importados, quaisquer que sejam as formas
e meios de sua veiculação, incluindo as
transmitidas no decorrer da programação
normal das emissoras de rádio e televisão.
Diário Oficial da República Federativa do
Brasil, Brasília, DF, 1º de dezembro de 2000.
BRASIL. Resolução RDC nº 96, de 17 de
dezembro de 2008. Aprova o regulamento
sobre propaganda, publicidade, informação e
outras práticas cujo objetivo seja a divulgação
ou promoção comercial de medicamentos de
produção nacional ou estrangeira, quaisquer
que sejam as formas e meios de sua veiculação,
incluindo as transmitidas no decorrer da
programação normal das emissoras de rádio e
televisão. Diário Oficial da República Federativa
do Brasil, Brasília, DF, 18 de dezembro de
2008.
COSTA, R. K. B. Quem são os anunciantes
na propaganda brasileira? Disponível em:
<http://www.arcos.org.br/artigos/quem-sao-osanunciantes-na-propaganda-brasileira/#topo >.
Acesso em 13 nov. 2009.
Drska, M. Exclusivo RA: os 50 maiores
anunciantes de Rádio em SP. 2007. Disponível
em: http://www.radioagencia.com.br/noticia.
php?noticia=16149&categoria=1. Acesso em
13 nov. 2009b.
246 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Centro de
Informação Científica e Tecnológica. Sistema
Nacional de Informações Tóxico Farmacológicas
- Sinitox. Tabela 4. Casos Registrados de
Intoxicação Humana, de Intoxicação Animal
e de Solicitação de Informação por Agente
Tóxico. Brasil, 2007. Disponível em: http://
www.fiocruz.br/sinitox_novo/media/tab04_
brasil_2007.pdf. Acesso em: 17 nov. 2009.
Hamze, A. Avaliação como juízo de valor.
Disponível
em:
<http://www.educador.
brasilescola.com/trabalho-docente/
avaliacaocomo-juizo-valor.htm >. Acesso em
13 nov. 2009.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA
E ESTATÍSTICA. IBGE. Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílios. Síntese de
Indicadores 2006. Disponível em: http://
w w w. i b g e . g o v. b r / h o m e / e s t a t i s t i c a /
populacao/trabalhoerendimento/pnad2006/
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2009.
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www.go2itech.org/resources/technicalimplementation-guides/2.TIG_Pre_Pos_Teste_
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OTTAWA. Charter for Health Promotion. 1st
International Conference on Health Promotion
Ottawa, Canada, 17-21 Nov. Disponível
em:
http://www.euro.who.int/AboutWHO/
Policy/20010827_2 . Acesso em 13 nov. 2009.
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Alexandra Morais de Alexandri1; Aline Aparecida Foppa2; Ana Carolina Welter1; Célia Maria Teixeira de
Campos3; Heloisa Pamplona Cunha1; Maria Leonor Santana Scherer4; Marina Raijche Mattozo Rover2;
Marlene Zannin5.
1-Acadêmicas de Farmácia. Departamento de Ciências Farmacêuticas (UFSC).
2-Farmacêuticas. Departamento de Ciências Farmacêuticas (UFSC).
3 - Professora Doutora. Departamento de Ciências Farmacêuticas (UFSC).
4. Acadêmica de Letras. Departamento de Letras e Literaturas Vernáculas (UFSC).
5. Professora Doutora. Departamento de Toxicologia (UFSC).
RESUMO
introdução
As
propagandas
de
medicamentos
frequentemente são criadas sem levar em
consideração os critérios científicos, divulgando
somente os benefícios desse tipo de produto.
A consequência disto é a influência negativa
nas prescrições, o consumo indiscriminado
e o aumento no número de intoxicações
medicamentosas.
Buscou-se
ampliar
o
conhecimento dos profissionais de rádio e
acadêmicos sobre a propaganda de produtos
sujeitos à vigilância sanitária e a importância
do uso racional de medicamentos, por meio da
participação em uma webconferência sobre o
tema. Os convidados foram os radialistas da
grande Florianópolis. O assunto também foi
apresentado no 3° Congresso Brasileiro sobre
Uso Racional de Medicamentos. Para finalizar,
foi realizado um minicurso na 8ª SEPEX. Em
decorrência da participação pouco expressiva
dos comunicadores de rádio, enviou-se
um DVD com a webconferência para as
principais rádios. Com os acadêmicos, tentouse estimular a reflexão sobre a promoção
comercial de medicamentos. Espera-se ter
contribuído para a redução do número de
inconformidades nos anúncios de produtos sob
vigilância sanitária veiculados nas rádios locais
e para a conscientização dos comunicadores e
acadêmicos sobre os riscos à saúde relacionados
à propaganda irregular. Sabe-se que este é um
trabalho de longo prazo e que ações como
essas devem ser executadas mesmo diante da
dificuldade vivenciada.
Propagandas são estratégias de marketing
amplamente utilizadas nos diversos meios de
comunicação (KOTLER & ARMSTRONG, 2005).
No caso dos medicamentos, as propagandas têm
como objetivo influenciar o público-alvo, por
meio de ações que promovam e/ou induzam
à prescrição, à dispensação, à aquisição e à
utilização de medicamentos. Na maioria dos
casos, as propagandas de medicamentos são
desenvolvidas sem levar em consideração os
critérios científicos, divulgando somente os
benefícios e omitindo as informações relativas à
segurança desses produtos (SOARES, 2008). Isso
leva a um aumento do consumo indiscriminado
de medicamentos por meio da automedicação
e a um consequente aumento do número de
intoxicações medicamentosas (ARRAIS et al.,
1997; BORTOLETTO & BOCHNER, 1999).
A automedicação é a iniciativa do paciente,
ou de seu responsável, de obter e utilizar
um medicamento por conta e risco próprio,
sem acompanhamento de um profissional
responsável
(BRASIL,
1998).
Segundo
Arrais (1997), a escolha de medicamentos é
baseada, principalmente, na recomendação
de pessoas leigas, sendo também relevante a
influência de prescrições anteriores (ARRAIS
et al., 1997). A Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) menciona dentre as causas
da automedicação: a propaganda massiva
de medicamentos; desespero causado por
sintomas ou pela possibilidade de adquirir uma
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 249
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
PROPAGANDA DE MEDICAMENTOS: UM DESAFIO
PARA TODAS AS PROFISSÕES
doença; falta de conhecimento sobre os efeitos
adversos; tentativa de solucionar problemas de
saúde sozinho; e ausência de orientação de um
farmacêutico (BRASIL, 2007).
Os principais problemas decorrentes da
automedicação são: uso de medicamento
inadequado devido à falta de diagnóstico; uso
de forma incorreta, pois cada patologia e cada
pessoa requerem uma dose, uma frequência
e um tempo de tratamento apropriados;
intoxicações; alergias; interações; gastos
desnecessários; resistência microbiana; e alívio
de sintomas leves e passageiros, podendo
mascarar doenças mais graves (BRASIL, 2007).
Dessa forma, a automedicação se contrapõe
ao conceito de uso racional de medicamentos,
preconizado pela Organização Mundial da
Saúde (OMS, 1986).
A intoxicação medicamentosa ocupa o primeiro
lugar no ranking de intoxicações no Brasil,
conforme estatísticas do Sistema Nacional de
Informações Tóxico Farmacológicas (Sinitox),
desde 1994 (BORTOLETTO & BOCHNER,
1999). Em 2006, 18% dos casos de mortes por
intoxicações foram causados por medicamentos
(FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ, 2006).
Os calmantes, antigripais, antidepressivos
e anti-inflamatórios são os medicamentos
mais comumente relacionados aos casos de
intoxicações (ALONZO & CORRÊA, 2001).
Em 2006, o Sinitox consolidou a ocorrência de
aproximadamente 113 mil casos de intoxicação
humana. Deste total, os medicamentos
corresponderam a 30,7% (FUNDAÇÃO
OSWALDO CRUZ, 2006).
A regulação da propaganda de medicamentos no
Brasil teve suas primeiras normas publicadas no
âmbito da Lei nº 6.360 de 1976, regulamentada
pelo Decreto nº 79.094 de 1977 (BRASIL,
1976; BRASIL, 1977). No ano 2000, a Anvisa
publicou a Resolução de Diretoria Colegiada
(RDC) nº 102/2000, que atualiza e reafirma
várias determinações legais já existentes. Na
RDC nº 102/2000, destaca-se a exigência de
constar, em português, de forma clara e precisa,
a contraindicação principal do medicamento.
Esta norma veda, na publicidade, a realização
250 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
de comparações que não estejam baseadas em
informações comprovadas por estudos clínicos
veiculados em publicações indexadas, e a
prática de provocar temor, angústia ou sugerir
que a saúde de uma pessoa será ou poderá ser
afetada por não usar o medicamento. Proíbe a
atribuição de propriedades curativas ao produto
quando este é destinado apenas ao tratamento
sintomático e ao controle de doenças crônicas
(conforme registro na Anvisa). A publicidade
também não pode sugerir ausência de efeitos
colaterais ou adversos, ou utilizar expressões
como: “’inócuo”’, “seguro” ou “’produto
natural”’ (BRASIL, 2000).
Um estudo sobre propaganda de medicamentos
realizado em Goiás, no ano de 2005, destaca
que a maioria das propagandas se tratava de
medicamentos de venda livre (88,63%). A
mídia impressa foi identificada como a principal
veiculadora de peças irregulares (81,06%),
seguida pela televisão (14,40%) e pelo rádio
(4,54%). Das 132 peças analisadas, foram
constatadas diversas inconformidades com a
legislação, com destaque para a ausência de
informações sobre “cuidados e advertências”
(FREITAS, et al., 2005).
Outro estudo feito com o foco na propaganda
de medicamentos foi realizado em São Paulo.
Nesse, foi verificado que 3,6% dos produtos
veiculados nos anúncios analisados não
eram registrados; 17,5% das campanhas
publicitárias não apresentaram a principal
contraindicação do medicamento; 15,5% do
material analisado estimulavam e/ou induziam
ao uso indiscriminado de medicamentos, cujo
consumo exige prescrição médica; e que 38,5%
das campanhas de vendas com receita médica
não apresentavam o número do registro no
Ministério da Saúde (LUCHESSI et al., 2005).
Estudos recentes demonstram existir uma
significativa fragilidade no modelo de regulação
da propaganda de medicamentos no Brasil
(NASCIMENTO & SAYD, 2005; SOARES,
2008). Ao analisar 100 peças publicitárias
de medicamentos e comparar o conteúdo
desses anúncios (imagens, texto e indicações
terapêuticas de cada produto) com as disposições
Nesse sentido, a Universidade Federal de
Santa Catarina (UFSC), com a participação
das Vigilâncias Sanitárias do Estado de Santa
Catarina e Secretaria Estadual de Educação,
vem desenvolvendo o Projeto de Educação
e Informação (Fase III) da Gerência Geral de
Monitoramento e Fiscalização de Propaganda,
de Publicidade, de Promoção e de Informação
de Produtos Sujeitos à Vigilância Sanitária
(GGPRO), cujo objetivo é estimular e apoiar
ações estratégicas de educação e informação,
de maneira a promover discussões sobre as
propagandas de produtos sujeitos à vigilância
sanitária, o uso racional de medicamentos e a
alimentação saudável.
Assim, o presente artigo apresenta a discussão
acerca da temática com comunicadores de
rádio e acadêmicos como parte integrante
desse projeto, com o intuito de ampliar o
conhecimento sobre a propaganda de produtos
sujeitos à vigilância sanitária, as normas que
regulamentam a divulgação destes, os problemas
relacionados, bem como a importância do uso
racional de medicamentos.
MATERIAL E MÉTODOS
Uma webconferência foi o método escolhido
para a realização da discussão acerca da
temática, a fim de facilitar a participação dos
comunicadores de rádio. A obtenção da relação
das rádios da região da grande Florianópolis
se deu por meio de contato com a Associação
dos
Radialistas.
Posteriormente,
foram
encaminhados os convites para a participação
da webconferência intitulada “Propaganda
de medicamentos: um desafio para todas as
profissões”. Para a sua realização, contouse com a colaboração de um representante
da Anvisa, que abordou assuntos referentes à
legislação que regulamenta a divulgação ou
promoção comercial de produtos sujeitos à
vigilância sanitária, incluindo a RDC nº 96/2008;
e professores da UFSC, que apresentaram a
influência da indústria na prescrição/ uso de
medicamentos, e as consequências e estatísticas
do uso indiscriminado desses produtos.
A webconferência sobre propaganda de
medicamentos foi realizada na rede universitária
de telemedicina do Hospital Universitário
da UFSC, no dia 3 de junho de 2009, para
comunicadores
de
rádio,
publicitários,
jornalistas e empresários de comunicação. A fim
de atingir um número maior de comunicadores
de rádio e despertar neles a discussão sobre a
temática, também foi elaborada uma cartilha
informativa com orientações e critérios sobre
propaganda de medicamentos, sendo esta
enviada por e-mail para as principais rádios
de Florianópolis, juntamente com um DVD
contendo o conteúdo da webconferência.
A experiência vivenciada foi levada ao “3°
Congresso Brasileiro sobre Uso Racional de
Medicamentos” na forma de apresentação
de um pôster. Sabendo-se da importância de
promover discussões multidisciplinares sobre
o assunto, posteriormente foi ministrado um
minicurso na “8ª Semana de Pesquisa e Extensão
da UFSC (SEPEX)”, no dia 21 de outubro de
2009, intitulado “Informação sobre propaganda
e uso racional de medicamentos”. O objetivo foi
trazer o debate para graduandos de Jornalismo,
Direito, Medicina, Farmácia entre outros
sobre a propaganda de produtos sujeitos à
vigilância sanitária no Brasil. O foco do evento
foi o impacto social, econômico e a análise
frente à legislação vigente da propaganda de
medicamentos, seus riscos e perigos, e ainda,
temas relacionados como a importância do uso
racional de medicamentos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O papel da mídia extrapola a simples função de
informar, ela tem o poder de influenciar a opinião
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 251
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
exigidas pela legislação que regula a prática
da propaganda farmacêutica, Nascimento
e Sayd (2005) concluíram que todas as 100
peças infringem, pelo menos, um artigo da
norma, sendo que a média por peça ultrapassa
quatro infrações. A própria Anvisa afirma, após
analisar 6.002 peças publicitárias, que mais de
90% das peças publicitárias de medicamentos
apresentam informações irregulares, o que
contribui para a desinformação de profissionais
e consumidores (BRASIL, 2005).
pública e auxiliar no processo de educação
da sociedade. Sabendo da abrangência do
rádio, assim como do importante papel do
radialista nessa relação de proximidade com
o ouvinte, a Anvisa desenvolve este projeto de
conscientização em parceria com universidades
de todo o Brasil (BRASIL, 2008).
As informações discutidas na webconferência
ressaltaram a importância da temática para os
veículos de comunicação, pois, assim como
as empresas anunciantes, as agências de
publicidade e os comunicadores respondem
legalmente em caso de infração sanitária
referente à publicidade, propaganda e
promoção de produtos sujeitos à vigilância
sanitária. Além disso, é fundamental deixá-los
cientes do risco à saúde para a população no
que se refere às propagandas irregulares, muitas
vezes incompletas, superestimando os possíveis
benefícios, e desconsiderando o potencial de
danos.
Sobre a participação na webconferência,
verificou-se que foi pouco expressiva por
parte dos comunicadores de rádio, apesar
da demonstração de interesse verificada nas
correspondências recebidas. Desta forma, foram
enviados uma cartilha informativa e um DVD
para as principais rádios de Florianópolis com
o conteúdo abordado no evento. Os estudantes
de jornalismo da UFSC que participaram do
evento publicaram uma matéria sobre o assunto
discutido no jornal ZERO (ano XXVII, número
3). O tema também foi apresentado na forma
de pôster no “3° Congresso Brasileiro sobre
Uso Racional de Medicamentos”, no mês de
outubro, em Fortaleza.
.
Para finalizar esta parte do projeto, foi realizado
o minicurso na 8ª SEPEX, onde se inscreveram
dez participantes sendo que, destes, oito
compareceram, além da equipe participante
do projeto. Com esta atividade, pudemos
sensibilizar os acadêmicos sobre a importância
do cumprimento das normas legais, apresentando
os benefícios da propaganda realizada de
forma ética e em acordo com a legislação, e,
em contraposição, os riscos das propagandas
que não respeitam os dispositivos legais. Nesse
252 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
sentido, tentou-se estimular a reflexão sobre
a promoção comercial de produtos que estão
diretamente ligados à saúde da população, e,
através de exemplos citados pelos participantes,
discutiu-se sobre as principais infrações
observadas cotidianamente.
Conforme o exposto, percebe-se a necessidade
desse trabalho de conscientização, uma vez que
a fiscalização e a punição das irregularidades
cometidas são realizadas a posteriori do
acometimento da infração, quando a população
já foi exposta a risco sanitário (NASCIMENTO &
SAYD, 2005). Ainda segundo Nascimento (2005),
a regulação da propaganda de medicamentos
no Brasil incorpora algumas fragilidades que
resultam no grande número de inconformidades
observadas. Porém, ressalta que há saídas viáveis
para a superação das deficiências verificadas
hoje, como o estabelecimento de aprovação
prévia das peças publicitárias, cumprindo,
desta forma, a estratégica função de prevenir o
risco a que a sociedade puder vir a ser exposta
(NASCIMENTO, 2009).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com essa iniciativa, buscou-se contribuir para
a redução do número de inconformidades nos
anúncios de produtos sob vigilância sanitária
veiculados nas rádios locais e conscientizar os
comunicadores da importância de ter um senso
crítico antes de anunciar uma propaganda
relacionada a medicamentos. No ambiente
acadêmico, buscou-se sensibilizar e envolver
todo o meio na discussão da problemática.
Sabe-se, portanto, que esse é um trabalho de
longo prazo, e que ações dessa natureza devem
ser executadas mesmo diante da dificuldade
vivenciada, trazendo os comunicadores para
um diálogo acerca da temática.
ALONZO, H. G. A. & CORRÊA, C. L.
Analgésicos, antipiréticos e antiinflamatórios
não esteroidais: dados epidemiológicos em seis
centros de controle de intoxicações do Brasil.
Revista Brasileira de Toxicologia, v.14, n.2, p.
49-54, 2001.
ARRAIS, P. S. D.; COELHO, H. L. L.; BATISTA,
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Brasil. Revista Saúde Pública, São Paulo, v. 31,
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BORTOLETTO, M. E. & BOCHNER, R. Impacto
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de Vigilância Sanitária. O controle necessário
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BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional
de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 96,
de 17 de dezembro de 2008. Dispõe sobre a
propaganda, publicidade, informação e outras
práticas cujo objetivo seja a divulgação ou
promoção comercial de medicamentos. Diário
Oficial da República Federativa do Brasil,
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BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional
de Vigilância Sanitária. Nas ondas do Rádio.
Orientações e dicas para comunicadores de
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Brasília: Anvisa, 2008. Disponível em: http://
www.anvisa.gov.br/propaganda/educacao_
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Nacional de Vigilância Sanitária. Gerência de
Monitoramento e Fiscalização de Propaganda,
Publicidade, Promoção e Informação de
Produtos sujeitos a Vigilância Sanitária (GPROP/
DIFRA). Projeto de educação e promoção da
saúde no contexto escolar: o contributo da
Agência Nacional de Vigilância Sanitária para
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Professor, Brasília, Anvisa, p.40, 2007.
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República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 10
de novembro de 1998.
BRASIL. Decreto nº 79.094, de 5 de janeiro de
1977. Regulamenta a Lei nº 6.360, de 23 de
setembro de 1976, que submete a sistema de
vigilância sanitária os medicamentos, insumos
farmacêuticos, drogas, correlatos, cosméticos,
produtos de higiene, saneantes e outros. Diário
Oficial da República Federativa do Brasil,
Brasília, DF, 5 de janeiro de 1977.
BRASIL. Resolução RDC nº 102, de 30 de
novembro de 2000. Aprova o Regulamento
sobre propagandas, mensagens publicitárias e
promocionais e outras práticas cujo objeto seja
a divulgação, promoção ou comercialização
de medicamentos de produção nacional ou
importados, quaisquer que sejam as formas
e meios de sua veiculação, incluindo as
transmitidas no decorrer da programação
normal das emissoras de rádio e televisão.
Diário Oficial da República Federativa do
Brasil, Brasília, DF, 1 de dezembro de 2000.
BRASIL. Lei nº 6.360, de 23 de setembro de
1976. Dispõe sobre a vigilância sanitária
a que ficam sujeitos os medicamentos, as
drogas, os insumos farmacêuticos e correlatos,
cosméticos, saneantes e outros produtos, e
dá outras providências. Diário Oficial da
República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 24
de setembro de 1976.
FREITAS, J.S.; ZAMPIERE, A.L.T.C.; AQUINO,
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Revista Eletrônica de Farmácia, v.2, s.2, 19497, 2005.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 253
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
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SOARES, J. C. R. S. Quando o anúncio é bom,
todo mundo compra: o projeto Monitoração da
propaganda de medicamentos no Brasil. Ciência
& Saúde Coletiva, s.13, p. 641-49, 2008.
254 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Universidade de Uberaba (UNIUBE)
Bruna Shellie Siqueira Leite 1 ; Dirce Sofia Fabbri de Almeida Verde dos Santos2.
1 - Graduanda, curso de Farmácia. Universidade de Uberaba – UNIUBE.
2 - Docente do curso de Farmácia. Universidade de Uberaba – UNIUBE.
RESUMO
Este trabalho reafirma o papel do rádio
no cotidiano das pessoas; discorre sobre a
importância da divulgação de informações
corretas e de utilidade à população, por
intermédio desse veículo; apresenta a provável
relação entre a veiculação de propaganda
de medicamentos pela radiodifusão e sua
influência no uso indiscriminado desses
produtos, pois, sua proximidade com o
“ouvinte” pode estimular determinados
comportamentos; e, por fim, traça o perfil de
conhecimento dos comunicadores de rádio,
identificando as informações que eles possuem
sobre medicamentos e suas propagandas. Com
este trabalho, confirma-se a hipótese de que
o desconhecimento por parte dos radialistas
sobre os riscos do uso indiscriminado
de medicamentos é um dos fatores que
contribui para a divulgação de informações
inadequadas pela radiodifusão. Apresentase, também, a importância da realização de
ações que promovam a conscientização desses
profissionais em relação aos riscos do consumo
inadequado de medicamentos, com base na
influência da propaganda irregular.
Ferraretto (2007) afirma que o rádio possui uma
audiência ampla, heterogênea e anônima. Sua
mensagem é definida por uma média de gosto
e tem, quando transmitida, baixo retorno, uma
vez que o receptor não tem como responder,
imediatamente, em sentido contrário.
INTRODUÇÃO
O fato de o rádio ser um meio de comunicação
marcante e bastante difundido nas diversas
camadas sociais faz com que esse veículo
seja escolhido por muitos anunciantes na
divulgação de produtos. Ortriwano (1985) diz
que a publicidade subvenciona os meios de
comunicação de massa e, assim, influencia
os conteúdos apresentados, principalmente
a informação. Na tentativa de salvaguardar
sua dependência em relação aos governos,
Diante da necessidade de informação e
entretenimento, as pessoas buscam os meios
de comunicação de massa, sendo que o
rádio ocupa papel importante nesse contexto,
destacando-se pelo seu grande alcance.
Segundo pesquisa do Ibope (2008), o meio
rádio alcança, no Brasil, 79% das pessoas. Isso
representa cerca de 49 milhões de ouvintes.
A acessibilidade facilitada, bem como uma
programação diversificada e envolvente, faz do
rádio uma realidade cotidiana na vida de grande
parte da população. De acordo com Ortriwano
(1985), o rádio envolve o ouvinte e, ao mesmo
tempo, desperta a sua imaginação por meio das
palavras e dos recursos de sonoplastia utilizados,
propiciando que as mensagens tenham nuances
individuais, de acordo com as expectativas e o
imaginário de cada um.
César (2005) ressalta que o rádio possui uma
característica toda própria para converter, na
mente do ouvinte, ideias, palavras e ações em
imagens auditivas. Mediante o emprego de
técnicas, podemos criar uma tela na mente da
pessoa, levando-a a imaginar o sentido daquilo
que queremos criar.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 257
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
PUBLICIDADE DE MEDICAMENTOS NO RÁDIO E O PERFIL DE
INFORMAÇÃO DOS RADIALISTAS
as empresas de comunicação acabaram
atrelando-a aos anunciantes, sem dar-se conta
desse fato.
Com o intuito de interagir o ouvinte com o
conteúdo abordado, o profissional radialista
pode utilizar de artifícios pessoais durante sua
programação. Isso pode gerar no ouvinte uma
necessidade de consumo. Temporão (1986) traz
que
(...) uma das primeiras idéias que nos vêm à
cabeça, ao falar sobre propaganda, é que esta cria
permanentemente um novo perfil de necessidades,
que na realidade são fictícias, e que no fundo
são necessidades imperiosas do capital em sua
expansão (TEMPORÃO, 1986).
Os medicamentos também são produtos
divulgados pelo rádio. Divulgação esta que
norteia a mente dos consumidores, fazendo com
que o medicamento deixe de ser consumido
de acordo com sua real finalidade e passe a
ser utilizado indiscriminadamente, como um
simples produto.
Nascimento (2005) diz que na tentativa de
elevar o padrão de consumo dos medicamentos,
a indústria farmacêutica – associada à rede de
distribuidoras de medicamentos, às agências
de publicidade e às poderosas empresas de
mídia impressa e eletrônica – tem lançado mão
de diferentes formas de propaganda, dirigidas
tanto ao público leigo quanto aos profissionais
de saúde.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) define medicamento como um produto
farmacêutico tecnicamente obtido ou elaborado
com finalidade profilática, curativa, paliativa
ou para fins de diagnóstico. Nesse sentido, é
um produto que exige prescrição, indicação,
orientação e acompanhamento de profissional
habilitado (BRASIL, 2002).
Com a finalidade de diminuir os riscos de
saúde inerentes à veiculação da propaganda
inadequada de medicamentos, a Gerência
Geral de Monitoramento e Fiscalização de
Propaganda, de Publicidade, de Promoção e
258 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
de Informação de Produtos Sujeitos à Vigilância
Sanitária (GGPRO) – área da Anvisa responsável
pela monitoração e fiscalização de propaganda
de produtos sujeitos à vigilância sanitária –
estimulou a elaboração de novos projetos
por universidades brasileiras que já possuíam
laboratórios do Projeto de Monitoração de
Propaganda. Estes novos projetos deveriam
contemplar ações estratégicas de educação e
informação para profissionais que atuam no
rádio, com o intuito de conscientizá-los sobre
os riscos e as prováveis consequências da
veiculação de propagandas de medicamentos
inadequadas e incorretas.
O Projeto de Educação e Informação (2009)
proposto pela Universidade de Uberaba (Uniube)
desenvolveu um seminário direcionado aos
profissionais radialistas da cidade, com o intuito
de promover a discussão sobre a propaganda
de medicamentos veiculada pelo rádio.
No decorrer do evento, foram apresentadas
informações sobre medicamentos, uso racional
de medicamentos e os riscos sanitários oferecidos
por meio da sua utilização inadequada. Discutiuse também sobre o poder de influência do rádio,
seu papel social, bem como a legislação que
regulamenta a propaganda de produtos sujeitos
à vigilância sanitária.
OBJETIVO
Este trabalho tem por objetivo realizar um
delineamento do perfil de informações que
apresentam profissionais radialistas sobre os
medicamentos e suas propagandas.
MATERIAS E MÉTODOS
Para a discussão com os radialistas sobre a
propaganda de medicamentos, foi realizado
um seminário onde se trabalharam temas como
medicamentos; uso racional de medicamentos
e os riscos oferecidos por meio da sua utilização
inadequada; poder de influência do rádio e o
seu papel social; bem como a legislação que
regulamenta a propaganda de produtos sujeitos
à vigilância sanitária.
Após o evento, foi realizada uma análise
estatística dos resultados, por intermédio de
banco de dados do programa Excel (Microsoft
Office 97).
Dos resultados, digitados na planilha do
programa, foi gerado um gráfico em porcentagem
para cada pergunta fechada do questionário
e procedeu-se a discussão e a análise desses
resultados, que também foram trabalhados sob
a perspectiva da pesquisa qualitativa.
De acordo com Minayo (1999), a pesquisa
qualitativa trabalha com o universo de
significados,
motivações,
aspirações,
crenças, valores e atitudes, correspondendo
a um espaço mais profundo das relações, dos
processos e dos fenômenos, não os reduzindo
a simples operacionalização de variáveis. Essa
abordagem, de acordo com a mesma autora,
permite-nos reconhecer os diferentes pontos
de vista dos sujeitos do estudo e também que
a realidade é mais complexa do que lhe é
perceptível inicialmente.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
No seminário houve a participação de dez
radialistas, sendo que todos responderam ao
questionário.
Na questão 1, que perguntava ao radialista
se ele já havia participado de algum curso,
palestra, seminário, encontro ou outro evento
que o informava sobre medicamento, 40%
(quatro) responderam que nunca participaram
de evento, enquanto 60% (seis) disseram que já
participaram.
Figura 1: Gráfico da questão 1.
Ainda na questão 1, pediu-se para especificar o
local do evento, caso já tivessem participado. Os
entrevistados que já participaram (40%) citaram
eventos promovidos pela Vigilância Sanitária
Estadual, Vigilância Sanitária Municipal e
Anvisa.
Na questão 2, foi pedido que assinalasse
as frases que possuíssem informações
sobre medicamentos, com as quais cada
entrevistado concordaria. Cinco pessoas (50%
do total) optaram pela opção 1, que dizia que
medicamento é um produto técnico que tem
por finalidade o tratamento de doenças e que
quando prescrito por profissional médico, não
apresenta riscos para a saúde de quem o utiliza.
Um entrevistado (10% do total) selecionou a
opção 2, na qual dizia que medicamentos isentos
de prescrição não causam efeitos colaterais,
diferente dos medicamentos de prescrição. Dois
radialistas (20% do total) escolheram a opção 3,
que dizia que medicamentos fitoterápicos são
menos perigosos, se comparados aos outros.
Duas pessoas (20% do total) marcaram a opção
4, nenhuma das alternativas.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 259
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
Nesse mesmo evento, todos os profissionais
radialistas presentes receberam no ato da
inscrição um questionário para ser respondido
e entregue antes do início das atividades. O
instrumento apresentava questões com opções
de respostas para serem assinaladas e questões
discursivas.
Figura 2: Gráfico da questão 2.
Figura 3: Gráfico da questão 3.
Na questão 3 foi simulada uma situação em
que o radialista recebia a proposta de veicular
uma peça publicitária de um produto com a
finalidade curativa e preventiva. Perguntavase ao radialista se ele teria a curiosidade de
procurar outras informações sobre o produto,
além das contidas no material de divulgação.
Diante da situação, todos os entrevistados
responderam que buscariam outras informações
antes da divulgação.
Após o questionamento, perguntava-se ao
profissional que buscava informações antes da
divulgação, quais fontes ele utilizaria para a
pesquisa.
Neste item surgiram as mais variadas respostas:
Pergunto a um médico ou enfermeira da
vigilância. Não faço comercial de produtos
milagrosos sem saber os efeitos.
260 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Sites especializados no assunto, Secretaria de
Saúde, profissionais de saúde.
Nunca anunciei remédios apenas cosméticos.
Se fosse o caso, entraria em contato com os
órgãos competentes, por exemplo, a Anvisa.
Anvisa.
Site da Anvisa e do Ministério da Saúde.
Na internet ou com profissionais capacitados
do meio ou não.
Procuro me informar com farmacêuticos, via
internet. Caso já conheça o medicamento,
vejo a bula para saber se as informações são
coerentes.
Produção.
Sites Anvisa e através de outras ferramentas
de pesquisa da internet. OBS: Esse cuidado,
geralmente, cabe à equipe responsável pelo DP
de Jornalismo. Infelizmente, muitas empresas
não têm esse tipo de departamento. Neste caso,
não custa ao profissional checar o conteúdo a
ser veiculado.
Analisando-se os resultados obtidos, pôdese observar que 40% dos profissionais
entrevistados não haviam participado de evento
informativo sobre medicamentos. Isso pode
refletir a necessidade de esclarecimentos e troca
de informações entre veículos de comunicação
e órgãos governamentais responsáveis pelos
produtos divulgados nas propagandas. Sendo
assim, pressupõe-se que a falta de informações
seja um fator relevante para a realização de
propaganda inadequada de medicamentos.
Em relação ao conceito de medicamentos,
foram elaboradas afirmativas que minimizavam
os riscos da sua utilização ou traziam conceitos
inadequados, com o intuito de confirmar a
ideia inicial de que medicamentos não são
identificados como produtos de risco à saúde.
Oitenta por cento dos entrevistados assinalaram
conceitos inadequados para medicamentos;
50% do total reconhecem esse produto como
sendo tecnicamente obtido com a finalidade de
tratar doenças, porém, aceitam a ideia de que,
quando esse produto é prescrito por profissional
médico, não apresenta riscos. Esta afirmativa
não pode ser considerada correta, visto que os
medicamentos, mesmo quando utilizados sob
prescrição médica, podem apresentar efeitos
colaterais nocivos à saúde do paciente.
A ideia de que a fitoterapia apresenta menos
riscos quando comparada com outros tipos
de medicamentos predomina em 30% dos
entrevistados. Com isso, pode-se presumir que
os profissionais acreditam na “falsa ideia” de
que produtos naturais são menos perigosos
e, por isso, podem ser usados sem maiores
preocupações.
Do total de entrevistados, 10% assinalaram
que medicamentos isentos de prescrição
não causam efeitos colaterais, diferente dos
medicamentos sob prescrição. Esse resultado
reforça o desconhecimento desses profissionais
sobre os riscos da utilização inadequada de
medicamentos.
Quanto ao questionamento sobre a busca
de informações antes de divulgar uma peça
publicitária de medicamento em rádio,
a resposta foi positiva, visto que todos os
entrevistados reconhecem a importância da
busca de informações antes da divulgação. Em
contrapartida, quando foi perguntado sobre as
fontes de pesquisa que eram mais utilizadas,
verificou-se que essas são, em sua grande
maioria, não confiáveis, inadequadas, ou sem
credibilidade técnica. Foram obtidas, também,
respostas subjetivas, o que pode ser indício de
insegurança por parte dos entrevistados. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base nos resultados obtidos com a
aplicação dos questionários e as considerações
apresentadas pelos radialistas durante o evento,
fica evidente a necessidade de se estabelecer
relações e proximidade entre órgãos que
regulamentam a propaganda de medicamentos
e os profissionais da radiodifusão para que
aumentem o grau de informação no que se diz
respeito à publicidade de medicamentos no
rádio.
Esclarecer os profissionais sobre os riscos
da utilização inadequada de medicamentos
e do estímulo da propaganda para o seu
consumo irracional é uma medida que deve
ser considerada, visto que, a ausência de
conhecimento pode permitir a divulgação de
uma propaganda inadequada, enganosa e até
abusiva, podendo gerar riscos para a saúde
daquele que, influenciado pela propaganda,
consome o produto.
É de fundamental importância que todos
os profissionais envolvidos na radiodifusão
sejam alertados sobre a necessidade de se
informarem em fontes confiáveis antes da
realização de qualquer propaganda, a fim de
evitar irregularidades. Inclui-se entre esses
profissionais os proprietários ou responsáveis
pelas emissoras, uma vez que, em várias
situações, eles são responsáveis pelos contratos
de veiculação das propagandas que serão
realizadas pelos funcionários da emissora em
seu horário de trabalho.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 261
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
- No google, comparo, pergunto a profissionais
de saúde.
Ações de informação e conscientização como
as que foram desenvolvidas nesse seminário
podem despertar nos profissionais do rádio um
olhar crítico frente à sua atividade de divulgar
medicamentos e outros produtos sujeitos à
vigilância sanitária.
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262 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Universidade de São Paulo (USP)
Fernando Luis Marcussi1; Michelle Moreira de Matos Pinto1; Renata Viegas Cardamoni2; Vivian Boschesi Barros3;
Terezinha de Jesus Andreoli Pinto4.
1 - Graduandos do curso de Farmácia e Bioquímica (USP).
2 - Graduanda do curso de Publicidade e Propaganda (USP).
3 - Graduanda do curso de Medicina. Universidade de São Paulo (USP).
4 - Professora Orientadora. Faculdade de Ciências Farmacêuticas (USP).
RESUMO
Apublicidade de medicamentos por radiodifusão
é importante desde o início da propaganda
nessa mídia e mantém sua relevância até
hoje. Muitos autores consideram que o rádio,
assim como os outros meios de comunicação,
pode agir estimulando o uso indiscriminado
de medicamentos, notavelmente através da
automedicação desenfreada. Isso ocorre não só
pelo seu poder de influência, mas também pela
veiculação de propagandas enganosas. Para
proteger a população da exposição a esse tipo
de publicidade, a Anvisa criou, em parceria
com universidades brasileiras, o Projeto de
Monitoração de Propaganda de Medicamentos
e outros Produtos sujeitos à Vigilância Sanitária.
Em 2009, devido ao grande número de
irregularidades detectadas nas monitorações,
surgiu o Projeto de Educação e Informação, no
qual se desenvolveu um seminário intitulado
“A Promoção da Saúde pelas Ondas do Rádio”,
com o objetivo de conscientizar um grupo de
radialistas sobre a importância de se combater
o marketing farmacêutico não ético.
INTRODUÇÃO
A publicidade de medicamentos no meio
radiofônico é importante desde 1932, quando foi
autorizado o início da propaganda nessa mídia
(BUENO, 2008). As inserções, que de início
consistiam na simples leitura de textos, foram
se tornando mais dinâmicas e agressivas, com
a incorporação de mensagens criativas, jingles
e até mesmo poesias, muitas vezes nas vozes de
celebridades (BUENO, 2008; GOMES JUNIOR,
2000). Na década de 40, aproximadamente
60% da verba publicitária em circulação no
Brasil eram destinadas a investimentos no rádio
– sobretudo propagandas de fármacos. Em 1943,
o pesquisador Cláudio Nogueira assinalava
o papel determinante do rádio no sucesso de
vendas de novos medicamentos e alertava
para os frequentes anúncios de benefícios
terapêuticos inexistentes (BUENO, 2008).
A importância desse tipo de propaganda teve
incremento durante a era de ouro do rádio,
entre os anos 40 e 50 (GOMES JUNIOR,
2000). Ele se tornava parte do cotidiano da
população, com sua linguagem popular e a
empatia estabelecida com o ouvinte (BRASIL,
2008). Com o fortalecimento da televisão,
a partir da década de 60, houve queda das
verbas destinadas à publicidade no rádio – a de
medicamentos foi ainda substituída em parte
pela dirigida diretamente aos médicos (BUENO,
2008).
Ainda hoje, entretanto, é enorme a penetração
do marketing por meio da radiodifusão,
considerando-se que seus custos são mais baixos
que os do realizado na televisão (BALDO,
2004). Além disso, cerca de 90% da população,
de todas as idades e faixas etárias, têm acesso à
mídia radiofônica (GOMES JUNIOR, 2000). No
Estado de São Paulo, se o anunciante divulgar a
sua propaganda em todas as emissoras, atingirá
96% da população com mais de dez anos de
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 265
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
A PROMOÇÃO DA SAÚDE PELAS ONDAS DO RÁDIO – SEMINÁRIO
DIRECIONADO AOS RADIALISTAS SOBRE A PROPAGANDA DE
MEDICAMENTOS E SUA REGULAMENTAÇÃO
idade (GOMES JUNIOR, 2000). Recentemente,
houve também integração das rádios com
a internet e com os aparelhos celulares,
aumentando ainda mais o seu alcance.
É importante salientar que o rádio, como os
outros meios de comunicação, exerce sobre
a população poder e controle, e as peças
publicitárias induzem a uma diminuição em sua
autonomia. As propagandas de medicamentos
nas diversas mídias foram em grande parte
responsáveis pela transformação dos fármacos
de necessidades de saúde em mercadorias de
consumo, contribuindo para a alienação em
relação aos processos saúde-doença (GARRAFA
et al., 2007).
Além disso, muitas vezes o marketing
farmacêutico, que é guiado por preceitos
econômicos, atua de forma não ética,
privilegiando a ampliação de lucros em
detrimento da qualidade da informação
veiculada (BRASIL, 2005). São criadas
necessidades de saúde falsas, divulgam-se
informações não comprovadas por publicações
científicas, ou promete-se cura ou bem-estar sem
considerar variáveis como prevenção e hábitos
saudáveis. (BRASIL, 2006). Vários estudos
indicam que isso pode gerar o uso irracional
de medicamentos (BRASIL, 2005; BRASIL,
2006). A forma mais comum de a população
praticar o uso inadequado de medicamentos é
a automedicação indiscriminada. Esta ocasiona
aumento dos riscos diretos e indiretos do
consumo de fármacos (intoxicações, reações
adversas, mascaramento de sintomas de doenças
graves, resistência bacteriana), inibe condutas
preventivas de saúde, e desvia recursos de áreas
como moradia e educação, consistindo em um
sério problema de saúde pública (GARRAFA et
al., 2007).
Desse modo, o controle das propagandas de
medicamentos é necessário para proteger a
população do risco sanitário representado pelo
consumo inadequado de fármacos, e é realizado
na maioria dos países.
Já em 1968, durante a 21ª Assembléia Mundial
da Saúde, a OMS aprovou os Critérios Éticos
266 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
e Científicos para a Propaganda Farmacêutica,
salientando que a publicidade de medicamentos
deveria veicular informações exatas e
fidedignas, indicações, composição, efeitos
terapêuticos e tóxicos, além de não difundir
informações incompletas acerca do produto
(BRASIL, 2005).
Embora o Estado nacional tenha empreendido
tentativas de estabelecer diretrizes, desde 1931,
e acompanhasse as discussões mundiais sobre
o tema, a regulamentação no país somente
se iniciou, de fato, com a criação da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em
1999. Esta instituição é responsável – dentre
outras atribuições – pela monitoração e
fiscalização das propagandas de medicamentos
no Brasil, que atualmente é exercida
pela Gerência Geral de Monitoramento e
Fiscalização de Propaganda, de Publicidade, de
Promoção e de Informação de Produtos sujeitos
à Vigilância Sanitária (GGPRO) (BRASIL,
2006). A regulamentação para o tema consta
na Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº
102/2000, que abrange todas as mídias, mas
conta com recomendações específicas para
cada uma delas.
Depois de algum tempo com iniciativas locais,
em Brasília, o trabalho foi ampliado em 2002
com a criação do Projeto de Monitoração de
Propaganda e Publicidade de Medicamentos,
que depois passou a se chamar Projeto de
Monitoração de Propaganda de Produtos Sujeitos
à Vigilância Sanitária, em parceria com diversas
universidades brasileiras – em São Paulo, com
a Universidade de São Paulo (USP). Ele tem
como objetivo não só fiscalizar a publicidade
abusiva e enganosa de medicamentos e outros
itens sujeitos à vigilância sanitária, mas também
realizar ações informativas com a população
sobre questões relevantes à saúde coletiva. A
utilidade desse tipo de atividade é abordada por
diversos autores (ARRAIS et al., 1997; SHENKEL
et al., 2005; NETO et al., 2006), que enfatizam
a importância de programas educativos que
possibilitem à coletividade um uso mais
consciente de medicamentos e a prevenção de
doenças.
O Projeto de Educação e Informação, também
idealizado pela Anvisa, foi criado em 2009 e
previa maior enfoque nas ações de educação.
Os radialistas foram definidos como um
dos públicos-alvo porque há grande taxa de
irregularidades nas propagandas anunciadas nas
rádios de São Paulo, e em razão da amplitude
e influência da radiofonia. Tornou-se essencial,
portanto, a conscientização desse grupo sobre a
regulamentação vigente e a importância da ética
nas propagandas de fármacos. Desse modo, foi
desenvolvido um seminário denominado “A
Promoção da Saúde pelas Ondas do Rádio”, do
qual trata este artigo.
OBJETIVO
O objetivo foi organizar um evento para
um público composto por radialistas, com a
finalidade de informar sobre assuntos relevantes
relacionados à propaganda de medicamentos,
mensurando o conhecimento adquirido
durante as atividades. Além disso, foi enviado,
após as atividades, material informativo
contendo aspectos básicos sobre os riscos da
publicidade irregular e os principais pontos
da regulamentação vigente para ser utilizado
como um guia rápido a respeito dos temas
abordados.
MATERIAIS E MÉTODOS
Foi prevista a realização de um seminário
sobre propaganda de medicamentos em
rádios na sede do Sindicato dos Radialistas do
Estado de São Paulo, no dia 17 de outubro de
2009. Chamaram-se a participar cerca de 200
radialistas vinculados (comunicadores de rádio,
redatores e pessoal envolvido diretamente ou
não na veiculação de material publicitário)
através de convites enviados por mala direta
juntamente com o Jornal do Sindicato. Além
disso, a atividade foi anunciada no site da
instituição.
Antes do início das atividades, foram entregues
aos radialistas materiais enviados pela Anvisa:
um guia de orientações para comunicadores
de rádio: “Nas ondas do rádio: orientações e
dicas para comunicadores de rádio sobre a
propaganda de medicamentos”, além de um
caderno e uma caneta para auxiliarem durante
as palestras.
As atividades planejadas foram as seguintes:
• Apresentação – Profª Dra. Nádia A. B.
Chacra.
• Palestra sobre os projetos da Anvisa – Dra.
Maria José D. Fagundes (Gerente Geral
de Monitoramento e Fiscalização de
Propaganda da Anvisa).
• Distribuição
e
preenchimento
dos
questionários da pesquisa para avaliação
de conhecimentos.
• Palestra sobre Propaganda de Medicamentos
no Rádio - Fernando L. Marcussi (graduando
em Farmácia-Bioquímica).
Foram abordados os seguintes assuntos:
• Vigilância sanitária e funções da Anvisa.
• A monitoração da propaganda de produtos
sujeitos à vigilância sanitária.
• Projeto de Monitoração de Propaganda e
resultados da Fase III.
• Histórico da propaganda de medicamentos
no rádio.
• Uso racional de medicamentos e vídeo
institucional da Anvisa “Drogaria não é
supermercado”.
• Consequências
da
propaganda
de
medicamentos em desacordo com a
regulamentação: Vídeo institucional da
Anvisa “Quando a esmola é demais”.
• O que a rádio deve saber e ter à disposição
do ouvinte antes de divulgar uma
propaganda e quem será punido em caso
de irregularidade.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 267
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
Nas três etapas já ocorridas do Projeto de
Monitoração, realizadas de 2002 a 2008, foi
possível traçar um perfil das características da
publicidade de medicamentos em várias regiões
do país e diversas empresas foram autuadas
por propagandas com incorreções. Foram
monitoradas peças publicitárias em farmácias,
hospitais, consultórios médicos e em diversas
mídias, como televisão, revistas e também
rádios AM e FM.
• Regulação da Propaganda de Medicamentos:
RDC nº 96 e a antiga RDC nº 102.
• Tópicos importantes da RDC nº 96 que se
aplicam ao rádio. Também foram utilizados
exemplos de propagandas impressas e
jingles para melhor entendimento. • Apontamentos sobre propaganda de
alimentos.
• Como encaminhar sugestões, dúvidas e
denúncias para a Anvisa.
• Debate sobre erros em vídeos selecionados
de propagandas.
• Espaço para esclarecimento de dúvidas dos
participantes.
• Distribuição e preenchimento dos novos
questionários da pesquisa para avaliação
de conhecimentos.
A pesquisa teve como objetivo avaliar o
conhecimento adquirido durante as atividades,
sendo de preenchimento facultativo. Duas
cópias iguais, com quatro páginas, identificadas
apenas por números, deveriam ser respondidas,
respectivamente, antes e depois da palestra. O
conteúdo abrangia o conhecimento sobre a RDC
nº 96/08 e opinião pessoal sobre a propaganda
de medicamentos.
questionamentos diziam respeito a tópicos da
RDC nº 96, como o que proíbe a participação
de figuras célebres em propagandas, afirmando
que usam determinado medicamento. Muitos
faziam anotações ou sublinhavam a cartilha
“Nas Ondas do Rádio”. Acredita-se que a
colaboração de Maria José Delgado Fagundes,
GGPRO/Anvisa,
importante
autoridade,
valorizou o evento e causou grande interesse
nos radialistas.
No debate surgiram diversos comentários
interessantes, sendo os principais: a dificuldade
de verificar se todas as propagandas
veiculadas são adequadas; a não viabilidade
de aplicar punições penais nas rádios que
divulgarem propagandas em desacordo com
a regulamentação; e a pouca influência que
os trabalhadores das rádios, sejam locutores,
editores ou outros, têm sobre o que será
anunciado. Houve diversos participantes
empolgados que, inclusive, utilizavam tópicos
das palestras em suas colocações.
Pesquisa de avaliação de conhecimentos
O evento contou com 31 participantes
radialistas, e todos concordaram em participar
das avaliações de conhecimento; no entanto,
muitos não pareciam motivados a preenchê-la
adequadamente.
a )Perguntas de opinião
Nas perguntas de opinião, não existem
dados relevantes para uma análise estatística.
Contudo, cabem algumas observações. Antes
da apresentação, todos os presentes no evento
julgavam a população geral como não sendo
apta a compreender e interpretar corretamente
as informações contidas numa propaganda de
medicamentos voltada a este público. Apesar
disso, 64% dos respondentes declararam-se a
favor da veiculação deste tipo de propaganda
para o público geral. Após a apresentação
realizada, 96% dos respondentes ainda achavam
a população não apta, contudo, a parcela dos
que eram a favor da veiculação caiu para 58%.
Nota-se certa contradição na análise destas
informações, que pode decorrer do viés de a
propaganda ser uma das formas de sustentação
financeira das emissoras.
Durante a palestra, notou-se que a maioria dos
participantes se mostrou atenta e interessada,
tanto que diversas vezes o palestrante foi
solicitado a esclarecer dúvidas. Os principais
b) Perguntas gerais sobre a propaganda de
medicamentos
Nas perguntas gerais, os índices de acerto
antes (93%) e depois (95%) da atividade
Para participar do estudo, o indivíduo deveria
ser maior de 18 anos e trabalhador de emissora
de rádio. A pesquisa foi aprovada pelo
Comitê de Ética da Faculdade de Ciências
Farmacêuticas da Universidade de São Paulo.
Todos os respondentes deveriam consentir com
a participação através da assinatura do Termo
de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), o
qual foi explicado oralmente e por escrito.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
268 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
c) Perguntas específicas sobre a
regulamentação
Esta seção foi considerada a mais marcante
para os radialistas, pois foram informados
durante a palestra que descumprimentos à
regulamentação tornariam as rádios passíveis
de punição. Esperava-se, então, que a
apresentação elevasse significativamente o
percentual de respostas corretas. Contudo,
não foi permitido identificar um aumento do
percentual de acertos global – houve questões
onde ocorreu aumento significativo (1, 8, 12,
14), mas existiram outras onde se observa uma
redução também importante (3, 9, 11 e 13) e
outras em que não houve diferença notável.
Os dados obtidos trazem dúvidas sobre o
sucesso da atividade desenvolvida com os
radialistas, ou então quanto à eficiência do
método de avaliação utilizado.
Acredita-se que o maior problema se deu
durante as avaliações, já que a expressão e o
comportamento de grande parte dos radialistas
durante as palestras e o debate pareciam
demonstrar grande aproveitamento.
Desse modo, podem ser citados alguns fatores
que prejudicaram o preenchimento adequado
dos questionários: questões motivacionais;
incompatibilidade da linguagem utilizada com
o nível de entendimento dos respondentes;
excesso de questões e de páginas, tornandoos densos e trabalhosos demais; presença de
muitas perguntas com nível de dificuldade
avançado; duração exagerada das atividades,
tornando cansativo o preenchimento do
segundo formulário; entre outros.
Cabe acrescentar que a educação em saúde não
deve depender apenas de iniciativas pontuais,
mas depende de um contato constante e
sistemático dos indivíduos com esse assunto
(IEVORLINO, 2000). Assim, novas ações
educativas podem exercer efeito significativo
na percepção da propaganda de medicamentos
pelos profissionais radialistas, de modo que
eles passem a se constituir agentes promotores
da saúde, por meio da divulgação de hábitos
saudáveis e do aconselhamento sobre o uso
racional de medicamentos.
Cartilha “A Promoção da Saúde Pelas Ondas do
Rádio”
Foi desenvolvida e enviada por mala direta a
todos os convidados a participar do seminário
uma cartilha de orientações chamada “A
Promoção da Saúde pelas Ondas do Rádio”,
contendo os principais pontos abordados.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados obtidos foram consideráveis em
razão do interesse manifestado pelos radialistas
participantes e pelo debate suscitado a respeito
de Uso Racional de Medicamentos e sobre
marketing farmacêutico no rádio – sobretudo
considerando-se que esta é uma iniciativa
pioneira com este público-alvo.
RESPONSABILIDADES DOS AUTORES
Os autores trabalharam juntos em todas as
etapas de produção do manuscrito. O artigo é
inédito. O projeto do qual trata foi financiado
pela Organização Pan-Americana de Saúde e
não há conflito de interesse de ordem pessoal,
comercial, acadêmica, política e financeira.
A pesquisa com seres humanos foi aprovada
no Comitê de Ética da Faculdade de Ciências
Farmacêuticas da USP e possui CAAE:
0031.018.000-09.
Deve-se considerar também que a maioria dos
indivíduos avaliados nunca havia recebido
conhecimento formal sobre regulamentação
sanitária e que os tópicos da RDC nº 96 oferecem
certa dificuldade, mesmo a entendedores do
assunto.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 269
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
educativa foram bastante elevados. O resultado
positivo pode ser explicado pela experiência
profissional dos indivíduos e pela não exigência
de conhecimentos técnicos.
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LAJOP_24_2_5_2_D695807SJ6.pdf>. Acesso
14 dez. 2009.representa cerca de 49 milhões
de ouvintes.
PARTE 3
perspectivas e desafios
Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Gerência Geral de Monitoramento
e Fiscalização de Propaganda (GGPRO)
O Projeto de Educação e Informação compôs
o conjunto de projetos relacionados às ações
de monitoração e fiscalização de propaganda
de medicamentos e demais produtos sob o
controle da vigilância sanitária, desenvolvidas
desde 2002, em parceria com instituições de
ensino superior de todo o Brasil.
A iniciativa foi resultado de uma ação de
incentivo ao desenvolvimento de atividades
educativas em saúde direcionada a públicos
diversos, como docentes, profissionais das
Vigilâncias Sanitárias locais (Visa) e estudantes
de ensino fundamental e médio, além de
difusão de informações sobre as normas que
regulamentam a propaganda de medicamentos
para os comunicadores de rádio.
Da perspectiva da promoção da saúde, o
projeto se dedicou a trabalhar temas como o
uso racional de medicamentos, os riscos da
automedicação, a importância da alimentação
saudável e a influência da propaganda
nos hábitos de consumo de alimentos
industrializados, medicamentos e outros
produtos para a saúde, tanto no interior das
escolas no âmbito da comunidade escolar
quanto para os profissionais do rádio, potenciais
formadores de opinião, com grande alcance de
audiência.
O Projeto Educação e Informação contou com
a participação de 100 acadêmicos, envolvendo
grupos de estudantes de 16 universidades
e de diversos cursos, tais como Farmácia,
Medicina, Nutrição, Direito e Comunicação
Social. Mediante a coordenação de docentes
responsáveis pelo Projeto nas instituições
parceiras, as experiências foram todas
registradas, em forma de textos acadêmicos,
dando origem a artigos e relatos de experiências
que fazem parte da presente publicação.
A partir das atividades lúdicas e educativas
promovidas pelo Projeto, cerca de 3.000 alunos
de escolas públicas foram conscientizados
sobre a prática de hábitos saudáveis e
cuidados com o uso de medicamentos. Para
apoiar essas atividades, as universidades
reproduziram e distribuíram aos alunos mais
de 10 mil exemplares de materiais educativos
que apresentaram orientações trabalhadas com
a comunidade escolar. As ações desenvolvidas
foram registradas em 46 artigos acadêmicos
e divulgadas pelas instituições em diversos
eventos científicos.
Quanto aos resultados obtidos com o processo
de educação em saúde, buscou-se consolidar
as análises feitas pelos autores, conforme
apresentado a seguir, na tentativa de identificar
os desafios que se impõem para o projeto como
um todo, além de visualizar possibilidades para
o fortalecimento da relação entre a vigilância
sanitária e a academia, no sentido de proteção
dos direitos da sociedade brasileira.
Considerações sobre as ações
educativas relatadas nos artigos
O trabalho teve por objetivo realizar uma
avaliação inicial sobre a percepção e as atitudes
de alunos, pais e professores de séries de ensino
fundamental e médio, frente aos medicamentos
e demais produtos sujeitos à vigilância sanitária
e à influência da publicidade no consumo.
A diversidade das atividades realizadas
ofereceram subsídios para trabalhar diretamente
com esses indivíduos, estabelecendo estratégias
perspectivas e desafios
PROJETO DE EDUCAÇÃO E INFORMAÇÃO: PERSPECTIVAS E
DESAFIOS
específicas para ações de educação nas escolas
a respeito de temas que envolvem a promoção
da saúde, o uso racional de medicamentos e a
alimentação saudável, e como estes temas são
enfocados no projeto pedagógico da escola.
• Os professores das escolas participantes
do projeto atuaram como potenciais
multiplicadores do conhecimento sobre
saúde, em especial de vigilância sanitária,
tais como: uso racional de medicamentos;
riscos da automedicação; influência das
propagandas enganosas de medicamentos
e outros produtos sujeitos à vigilância
sanitária e importância da adoção de
hábitos saudáveis de vida, como a
alimentação equilibrada, por exemplo, em
busca da melhor qualidade de vida.
• Os alunos foram receptivos e participantes
ativos nesse processo de educação em
saúde, tanto dentro quanto fora da escola;
contribuindo para o alcance do objetivo
do trabalho e despertando a consciência
crítica frente ao estímulo publicitário para
o consumo excessivo de medicamentos e
alimentos industrializados e aos possíveis
riscos oriundos dessa prática.
• A participação de pais de alunos em
atividades foi importante, pois como
responsáveis
podem
influenciar
positivamente na adoção de hábitos
saudáveis de vida em família. Percebeu-se
que houve apropriação dos conhecimentos
disseminados e que os pais entenderam a
necessidade de ter acesso a informações
precisas e adequadas, para melhor
orientar seus filhos quanto aos perigos
do uso inadequado e indiscriminado de
medicamentos.
• As mudanças nos hábitos alimentares dos
alunos foram significativas, demonstrando
o surgimento de um olhar mais crítico e
reflexivo sobre as propagandas de alimentos
e medicamentos.
276 - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
• As discussões relacionadas a hábitos
alimentares saudáveis foram importantes
ferramentas de intervenção para o
empoderamento das crianças frente a sua
vulnerabilidade em relação ao marketing e
ao estímulo ao consumo. Trata-se também
de uma forma de empoderamento da
sociedade, pois esse saber pode e deve
ser levado para o cotidiano das famílias e
comunidades.
• As ações de cunho educativo, realizadas no
ambiente escolar, têm um grande potencial
para provocar mudanças nos modos de
vida, contribuindo, sobretudo, para a
promoção da saúde individual e coletiva e
para a transformação da sociedade.
• A utilização de ferramentas lúdicas foi
proveitosa para o aprendizado das crianças
em temas voltados a saúde.
• Na maioria das experiências a vigilância
sanitária foi reconhecida como importante
e como uma prática capaz de promover a
proteção e melhoria da qualidade de vida e
saúde da população.
• Os dados da pesquisa demonstraram a
necessidade de reforço em determinadas
áreas do conhecimento avaliado.
Conclui-se, portanto, que o conhecimento em
saúde, em especial em vigilância sanitária,
pode ser traduzido em ações concretas e
efetivas ferramentas educativas, incorporadas
de forma transversal e contínua em todo o
processo de formação dos estudantes, com
conteúdos e abrangência de complexidade
crescente, metodologias ativas e em sucessivas
aproximações.
Nesse sentido, a escola é considerada um espaço
social propício para o desenvolvimento de
hábitos saudáveis, promovendo a valorização
da saúde, o discernimento e a participação em
decisões relativas à saúde individual e coletiva.
Para atingir os radialistas foi proposta a
realização do seminário “A Promoção da
Saúde pelas Ondas do Rádio”, com o principal
objetivo de discutir a importância da integração
entre profissionais da saúde e de comunicação
na construção do conhecimento sobre saúde,
bem como da legislação sobre propaganda
de produtos sujeitos à vigilância sanitária, em
especial de alimentos e de medicamentos, para
preservação da saúde pública. Desse modo,
a atividade propunha que os profissionais de
comunicação fossem conscientizados e, sempre
que possível, evitassem realizar propagandas
de alimentos e de medicamentos de forma
inadequada em seu ambiente de trabalho, no
caso, as rádios.
Cada universidade definiu o planejamento do
evento de acordo com as orientações da Anvisa,
realizando divulgação para alcançar o públicoalvo da ação. Entretanto, como não houve
retorno expressivo dos profissionais, apesar
do intenso trabalho de divulgação do evento,
a opção foi estender o alcance do evento para
o público universitário relacionado às áreas de
Comunicação Social e de Nutrição.
• A baixa adesão desses comunicadores
comprometeu o alcance do objetivo
central do seminário “A Promoção da
Saúde nas Ondas do Rádio”, apontando
a necessidade de se realizar mais eventos
com a mesma ou maior magnitude,
buscando a conscientização e educação
continuada dos profissionais dessa área de
atuação.
• Foi observado que a falta de conhecimento
dos radialistas sobre a regulamentação da
propaganda de produtos sujeitos à vigilância
sanitária oportuniza o descumprimento das
normas relacionadas à publicidade desses
produtos.
• A perpetuação de um quadro inadmissível
de descumprimento das normas reguladoras
relativas à publicidade de medicamentos e
de desrespeito ao público configura uma
prática abusiva, submetendo a população
a risco sanitário permanente.
• Além de atuar na conscientização e
educação dos profissionais de rádio sobre
os riscos das propagandas, sensibilizando
os proprietários das emissoras e a própria
população, novas estratégias precisam ser
pensadas para trabalhar o segmento da
comunicação no Brasil.
• A discussão centrada no papel do rádio
na promoção da saúde faz-se imperativa,
integrando os profissionais da saúde e
os de comunicação, com vistas à correta
disseminação de informações sobre saúde,
bem como o cumprimento da legislação
sobre propaganda de produtos sujeitos
à vigilância sanitária, em especial de
alimentos e de medicamentos.
• Destacou-se que a internet pode ser uma
grande aliada na estratégia de aproximação
com um segmento da sociedade que
trabalha exatamente com a comunicação.
O objetivo central da ação não foi alcançado a
contento devido à baixa adesão dos radialistas
e dos proprietários das rádios aos seminários.
Esse aparente descaso reforçou a ideia de
que, para se conquistar esse público, faz-se
necessário um esforço conjunto no sentido de
pensar estratégias de aproximação mais efetivas,
considerando que esses profissionais são
fundamentais na transmissão de informações
com qualidade para a população.
Porém, por outro lado, a intervenção educacional
por meio do seminário teve impacto positivo. Os
relatos dão conta que a mudança na condução
dos trabalhos, estendendo o convite aos
estudantes de várias áreas do conhecimento,
em especial os de Comunicação Social, do setor
regulado e demais participantes interessados
pelo tema, possibilitou a construção e a
integração de saberes em vigilância sanitária.
CADERNO DE TEXTOS ACADÊMICOS- 277
AÇÕES DE INFORMAÇÃO
Considerações sobre as ações
informativas relatadas nos
artigos
As conclusões sobre o seminário reforçam a
necessidade de aprofundar a discussão sobre
a propaganda irregular de medicamentos
e de outros produtos sujeitos à vigilância
sanitária, sobretudo entre os profissionais de
comunicação e dirigentes de veículos. Faz-se
imperioso abrir espaços para o diálogo sobre a
temática da saúde, em que pese a promoção
da saúde como eixo principal, destacando o
importante papel dessa categoria na melhoria
das condições de vida e saúde da população,
mediante o “empréstimo” de sua voz, sua
imagem e sua opinião.
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EDUCAÇÃO E INFORMAÇÃO EM SAÚDE