INTEGRAÇÃO REGIONAL NO MERCOSUL E OS IMPACTOS NA REDE URBANA SUL-AMERICANAi Dayana Aparecida Marques de Oliveira Cruz Doutoranda em Geografia pela FCT/UNESP e-mail: [email protected] Resumo: A conciliação das políticas macroeconômicas é um dos maiores desafios enfrentados pelos países na tentativa de integração regional, que no atual estágio da mundialização do capital demanda a regionalização em busca do fortalecimento da economia para ampliação da competitividade em âmbito global. Da mesma maneira, os gargalos infraestruturais são barreiras a serem superadas pelos países devido à necessidade de fluidez na circulação de mercadorias no que tange a importação e exportação. Neste contexto, os blocos econômicos são tidos como iniciativas de regionalização e integração regional - como exemplo tem-se o Mercosul (Mercado Comum do Sul), criado na década de 1990 e que atualmente tem como paísesmembros: Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela – para superação de tais barreiras bem como para a diminuição das desigualdades internas. A hipótese deste trabalho é que apesar da tentativa de superação das desigualdades regionais, a regionalização contribui para a hierarquização das economias, países e cidades. Tal hierarquização gera conflitos na escala da rede urbana devido às vantagens e ônus diferenciados que demandam acordos diplomáticos, investimentos e debates para suprir essa demanda. Apesar dos problemas internos do Mercosul,o bloco econômico é tido como uma referência para a integração regional sul-americana e como uma resistência à hegemonia estadunidense. O ponto crucial deste trabalho é discutir a importância e a contribuição do Mercosul para a integração regional sulamericana, bem como identificar quais são os embates e desafios para ela imposta no que tange aos problemas relacionados à circulação de cargas. Para tanto é necessário a discussão acerca da relevância do processo de regionalização na medida em que se aprofundam as lógicas de mundialização do capital. Como exemplo da materialidade do processo de integração e de sua interferência em diferentes escalas geográficas, sobretudo no âmbito da rede urbana, considera-se a relação estabelecida entre Brasil e Paraguai através dos planos de integração regional voltados ao setor de transportes e infraestruturas nas cidades de Dourados, Cascavel (ambas no Brasil) e Ciudad del Este (no Paraguai). A partir da compreensão da lógica de escolha e projetos de implantação dos planos de integração regional nestas cidades será possível confirmar ou refutar a hipótese apresentada. Resumen: La conciliación de las políticas macroeconómicas es uno de los mayores desafíos que enfrentan los países en un intento de integración regional, la etapa actual de la mundialización del capital demanda la regionalización en busca de fortalecer la economía para ampliación de la competitividad a nivel mundial. Del mismo modo, los problemas en la infraestructura son las barreras que deben ser superadas por países debido a la necesidad de la fluidez en la circulación de mercancías para la importación y exportación. En este contexto, los bloques económicos son vistos como iniciativas de regionalización y la integración regional como ejemplo tenemos el Mercosur (Mercado Común del Sur), creado en 1990 y actualmente tiene como países miembros: Argentina, Brasil, Paraguay, Uruguay y Venezuela - para superar dichas barreras y reducir las desigualdades internas. Nuestra hipótesis de trabajo es que a pesar del intento de superar las desigualdades regionales, la regionalización contribuye con la diferenciación de las economías, los países y ciudades. De la jerarquía surgen conflictos en la escala de la red urbana, debido la existencia de ventajas y diferente gravamen, acuerdos diplomáticos, inversiones y discusiones para satisfacer esta demanda. A pesar de los problemas internos del bloque económico, el Mercosur es una referencia para la integración regional en Sudamerica y como una resistencia a US integración hegemonía. El quid de este trabajo es discutir la importancia y la contribución del Mercosur en la integración regional sudamericana, así como identificar aquellas luchas y desafíos que impone con respecto a cuestiones relacionadas con la circulación de la carga. Para hacer esto es necesario discutir acerca de la relevancia del proceso de regionalización y la profundización de la lógica de globalización del capital. Como un ejemplo de la materialidad de la integración y su injerencia en diferentes escalas geográficas, particularmente en la red urbana, tenemos en cuenta la relación entre Brasil y Paraguay, a través de los proyectos de integración regional orientados al sector del transporte y la infraestructura en las ciudades: Dourados, Cascavel (ambos en Brasil) y Ciudad del Este (Paraguay). A partir de la comprensión de la lógica de la elección e implementación de proyectos de integración regional en estas ciudades será capaz de confirmar o refutar la hipótesis presentada. Abstract: The reconciliation of macroeconomic policies is one of the biggest challenges faced by countries in an attempt to regional integration, the current stage of globalization of capital demand regionalization seeking to strengthen the economy to expand competitiveness globally. Similarly, infrastructural bottlenecks are barriers to be overcome by countries due to the need for fluidity in the movement of goods in relation to import and export. In this context, the economic blocs are seen as initiatives of regionalization and regional integration - as an example we have the Mercosur (Southern Common Market), created in 1990 and currently has as member countries: Argentina, Brazil, Paraguay, Uruguay and Venezuela - to overcome such barriers and to reduce internal inequalities. Our working hypothesis is that despite the attempt to overcome regional inequalities, regionalization contributes to the ranking of economies, countries and cities. Such prioritization generates conflict on the scale of the urban network due to the advantages and different lien demanding diplomatic agreements, investments and discussions to meet this demand. Despite the internal problems of the Mercosur economic bloc is taken as a reference to the South American regional and as a resistance to US hegemony integration. The crux of this paper is to discuss the importance and the contribution to Mercosur South American regional integration, as well as identify those struggles and challenges she imposed with respect to issues related to the movement of production. For much discussion about the relevance of the process of regionalization in that it deepens the logic of globalization of capital is required. As an example of the integration of materiality and its interference in different geographic scales, particularly within the urban network process, we consider the relationship between Brazil and Paraguay through regional integration plans geared to the transport and infrastructure sector in the cities of Dourados, Cascavel (both in Brazil) and Ciudad del Este (Paraguay). From the understanding of the logic of choice and deployment projects of regional integration plans in these cities will be able to confirm or refute the hypothesis presented. Palavras-chave: Integração regional; Rede urbana; América do Sul; Mercosul. Apresentação do tema O fim da guerra fria e do mundo bipolar proporcionou aos países emergentes uma nova posição no cenário mundial (PEREIRA, 1993). Para se inserirem no contexto do mercado internacional os países passaram a recorrer a estratégias baseadas na integração, a fim de fortalecer as economias regionais, e assim, se inserirem com maior potencial competitivo no mercado global. Diante deste cenário, projetos de integração regional com vistas à superação de gargalhos infraestruturais e embates normativos passaram a ser alvo de debates e discussões dos governos da América do Sul. Como proposta para superá-los surge os planos de integração regional protagonizados pelo MERCOSUL (Mercado Comum do Sul) e pela IIRSA (Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-americana), por exemplo, os quais buscam, dentre outras coisas: o incremento técnico no território a partir da implantação de novas infraestruturas e adequação das já existentes a fim de atender os fluxos de mercadorias; e a padronização das normas de produção e circulação de mercadorias visando maior integração entre os mercados e os territórios. Na América do Sul, o Mercosul (criado em 1991) é tido como um importante articulador da integração regional, bem como figura de oposição a hegemonia estadunidense, porque busca desenvolver o mercado regional formado por seus países membros de maneira independente. Da mesma maneira, a IIRSA (criada em 2000) que reúne os países sul-americanos a partir do estabelecimento de projetos que visam integração regional, também possui um importante papel na América do Sul, abrangendo todos os países do subcontinente. O diálogo entre Mercosul e IIRSA é fundamental para alcançar os objetivos propostos tanto no bloco econômico, como na iniciativa de integração, pelo seguintes motivos: os países membros do Mercosul também fazem parte da IIRSA - o fato do Mercosul ter sido fundado a mais tempo pressupõe a existência de demandas, embates, e avanços relacionados à integração regional já definidos que, portanto, podem agregar pontos importantes nas discussões promovidas pela IIRSA; a IIRSA agrega maior número de países que o Mercosul, suas iniciativas estão voltadas a América do Sul, assim a solução de conflitos e a elaboração de projetos vão além da integração apenas do bloco econômico, permitindo, maior integração entre facilitando o intercâmbio entre membro e não membros do Mercosul. a participação da Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela em ambas as iniciativas pressupõem possibilidades de articulação de projetos de integração. De acordo com as considerações de Santos (2008) podemos afirmar que, as cidades que recebem os projetos de integração são definidas pelos seguintes critérios: 1. O destaque que elas possuem como pontos luminosos na rede urbana reafirmando-as como pontos importantes através da inclusão dessas cidades nos planos de integração regional; 2. A escolha das cidades colabora com a diferenciação ainda maior no papel das cidades na rede urbana, resultando no que chamamos aqui de integração diferenciada; 3. A localização dos fixos nessas cidades torna a existência de fluxos mais dinâmica, contudo não se pode negar que, apesar de ter como foco nesta análise as decisões tomadas na escala internacionais existem dinâmicas locais que também apóiam tal diferenciação. Os critérios para escolha das cidades colaboram com o fortalecimento de redes que integram algumas partes do território e desintegram outras, por isso apesar do discurso homogeneizante da integração regional, existe uma heterogeneidade que reforça a hierarquia, tornando o processo de integração, diferenciador. Neste trabalho destaco como exemplo, o projeto de integração regional incluído no Grupo 3 – Assunção-Paranaguá, do Eixo de Capricórnio da IIRSA. Tal Grupo tem como recorte cidades do Brasil e do Paraguai que foram escolhidas para fazer parte do projeto de integração de acordo com o potencial de atração de fluxos internacionais, a fim de facilitar o transporte de grãos para os mercados internacionais, por meio da construção de novas infraestruturas de transportes. Dentre as cidades escolhidas para receber as obras de transportes com vistas à integração regional estão: Ciudad del Este (localizada no departamento Ato Paraná, no Paraguai), Dourados e Cascavel (ambas localizadas no Brasil, nos estados de Mato Grosso do Sul e Paraná, respectivamente). A análise da escolha dessas cidades é fundamental para compreender os impactos dos projetos de integração na rede urbana, bem como refletir sobre as prioridades no processo de integração regional na América do Sul, os resultados na relação entre Brasil e Paraguai e no Mercosul. Problemática O ponto crucial deste trabalho é discutir a importância e a contribuição do Mercosul para a integração regional sul-americana, bem como identificar quais são os embates e desafios para ela imposta no que tange aos problemas relacionados à circulação de cargas. Para tanto é necessário a discussão acerca da relevância do processo de regionalização na medida em que se aprofundam as lógicas de mundialização do capital. Como exemplo da materialidade do processo de integração e de sua interferência em diferentes escalas geográficas, sobretudo no âmbito da rede urbana, considerase a relação estabelecida entre Brasil e Paraguai através dos planos de integração regional voltados ao setor de transportes e infraestruturas nas cidades de Dourados, Cascavel (ambas no Brasil) e Ciudad del Este (no Paraguai). Tendo em vista a escolha das cidades e os papéis que elas desempenham na rede urbana parto da hipótese de que apesar da tentativa de superação das desigualdades regionais, a regionalização contribui para a hierarquização das economias, dos países e cidades incluídas nos projetos de integração regional. Interlocução teórico-conceitual O Mercosul, foi criado em 1991, a partir da assinatura do Tratado de Assunção por: Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Posteriormente, em 2012, foi incluída ao bloco econômico a Venezuela, e está em processo de adesão a Bolívia. Com o desenvolvimento do bloco econômico, percebe-se nitidamente uma mudança de postura, o qual passou a tratar questões voltadas a América do Sul, considerando fortemente a integração regional, além de agregar novos países ao acordo, que, embora não sejam membro efetivos, estabelecem relações com o Mercosul como Estados associados, através de acordos de complementação econômica. A iniciativa de complementação econômica foi impulsionada no Mercosul visando a criação de um espaço econômico mãos ampliado. É considerando essa visão acerca do processo de integração regional que, Arroyo (2002) define as tentativas de integração regional promovidas pelo MERCOSUL como alternativas de propiciar maior dinâmica as relações exteriores através do comércio internacional. Apesar das tentativas de aproximação e fomento da integração regional do Mercosul, é importante ressaltar que existem diversos conflitos no âmbito do bloco econômico, sobretudo, no que se refere a hierarquização das economias, e a dificuldade de integrar os países menores (Paraguai e Uruguai) ao Mercosul, que são contrários ao perfil desigual das trocas que ocorrem no bloco econômico, conforme discute Rodríguez (2001). Posterior a criação do MERCOSUL (em 2000) surge a IIRSA que, de acordo com Costa (2009) contribuiu para a expansão dos limites do MERCOSUL, inserindo novos países. O diálogo entre o MERCOSUL e a IIRSA tem a contribuir significativamente para que as tentativas de integração na América do Sul devido ao fato de que o MERCOSUL é anterior a IIRSA e já propõe um diálogo entre os países objetivando a integração. A IIRSA surgiu durante a Reunião dos Presidentes da América do Sul em Brasília, doze países aprovaram a criação da Iniciativa de Integração Regional SulAmericana (IIRSA), com o objetivo de promover a integração econômica e física entre os países membros por meio da modernização da infraestrutura de transporte, energia e telecomunicações, bem como proporcionar impactos locais de desenvolvimento econômico, além de promover articulação entre os mercados (IIRSA, 2011). O critério para a formação e cada EID foi a existência e o potencial de fluxos selecionando no território sul-americano os pontos de maior atratividade para o estabelecimento de trocas comerciais, promovendo assim uma integração diferenciada em que apenas alguns pontos encontram-se articulados. Essa articulação gera uma rede na qual estão inseridas diversas cidades cujo papel que desempenham pode ser modificado devido estabelecimento de novas interações espaciais, ampliando a importância dessas cidades em outras escalas. Dentre os eixos estabelecidos pela IIRSA está o Eixo de Capricórnio, que agrega diferentes grupos, como o Grupo 3 – Assunção-Paranaguá (figura 1), voltado especificamente à obras de integração entre Brasil e Paraguai, que tem como um dos objetivos principais, a construição de infraestruturas para facilitar o transporte de grãos para os mercados internacionais. Figura 1: Projetos do Grupo 3 – Asunción-Paranaguá do Eixo de Capricórnio. Fonte: IIRSA, 2011. O grupo 3, compreende duas grandes regiões de produção da soja na América do Sul, o leste do Paraguai e o Centro-oeste brasileiro (IIRSA, 2009). Em função disso, algumas obras foram inseridas nesse grupo para facilitar o escoamento dessa produção, como é o caso no sentido norte-sul, a construção da Ferrovia Cascavel – Guaíra – Dourados – Maracaju (EF – 484), que tem como papel ainda, promover maior integração entre as regiões sul e centro-oeste do Brasil. No que tange à escolha das cidades que estão incluídas neste projeto, ressalto aqui o papel de Cascavel e Dourados que, dentro do Grupo 3, são cidades importantes no contexto em que estão localizadas. A cidade de Dourados foi incluída em 2011 no projeto de construção da ferrovia mencionada pelo governo brasileiro, devido sua importância de atração de investimentos do capital internacional, bem como pelo papel que desempenha na rede urbana no estado do Mato Grosso do Sul. Um dos pontos de principais deste grupo é a cidade de Cascavel para qual convergem importantes obras do transporte ferroviário com o objetivo de interligar a capital paraguaia, Assunção, ao litoral brasileiro, mais especificamente ao Porto de Paranaguá, para o escoamento de grãos (Corredor Ferroviário bioceânico Cascavel – Foz do Iguaçu e Corredor ferroviário bioceânico Paranaguá). De acordo com o relatório apresentado pela IIRSA em 2009, o comércio entre Brasil e Paraguai caracteriza-se da seguinte maneira: importação de trigo do Paraguai para o Brasil e exportação de milho, soja e aves para o Paraguai. Ainda de acordo com este relatório, embora grande parte da produção de aves no Paraná é exportada para o Paraguai, que, por estar expandindo sua produção de aves nos últimos anos tem aumentado também a importação de milho brasileiro (IIRSA, 2009). Logo, as infraestruturas desenvolvidas pela IIRSA também serão fundamentais para o Mercosul pelo fomento das obras de transportes entre os dois países, facilitando as trocas existentes entre eles, bem como para outros países do bloco, como a Argentina. Outra cidade escolhida para receber importantes obras de transporte é Ciudad del Este que, além do transporte ferroviário, tem projetos de transporte rodoviário para interligação entre Brasil e Paraguai, a partir da proposta de uma nova ponte, Puerto Presidente Franco - Porto Meira com área de controle integrado Paraguai – Brasil, para descongestionar o tráfego da Ponte da Amizade. Além das obras de transporte, há propostas de construção de uma Plataforma Logístico Industrial em Ciudad del Este, já que, segundo a IIRSA (2009), o interesse neste área não é apenas fomentar a integração física, como também a integração produtiva entre os países, sobretudo nas cadeias de grãos (milho, soja e trigo) e avicultura. O Grupo 3 do Eixo de Capricórnio ilustra bem os problemas enfrentados pelos países no processo de integração regional, além de tornar nítidas as desigualdades e hierarquias geradas. Devido a amplitude dos projetos de integração regional, os países não conseguem, muitas vezes, promover as obras necessárias havendo a necessidade de recorrer a financiamentos, estabelecer acordos para investimento binacional ou conceder a execução do projeto à iniciativa privada. Os embates nos acordos acontecem e prejudicam a execução dos projetos quando surgem os interesses free rider (quando apenas um país arca com os custos, enquanto outro se isenta por alegar incapacidade apenas por quere se beneficiar das infraestruturas sem arcar com os custos dela) havendo uma lentidão nos investimentos, que neste caso são pensados de maneira individualizada indo contra a ideia de integração. Há de se observar também que cada país tem sua preferência no que se refere às infraestruturas de transporte e circulação o que também cria embates de ordem política e dificulta a integração regional. Contrário a isso, foi criado em 2004 o Fundo para a Convergência Estrutural do MERCOSUL (FOCEM), com o objetivo de financiar projetos de convergência estrutural de integração – voltados para as menores economias do bloco econômico; promover maior coesão social entre os países - com foco para as áreas de fronteira; apoiar o funcionamento da estrutura institucional e fortalecer o processo de integração (FOCEM, 2010). O percentual de contribuição e a elegibilidade dos projetos, bem como outras providências relativas a estes ficam a cargo do Conselho de Administração do FOCEM (CRFOCEM) que é formado por diferentes representantes dos Estados partes do MERCOSUL (FOCEM, 2010) - que são os países que podem recorrer ao financiamento, assim, os membros associados do MERCOSUL não tem permissão para participar do fundo como contribuintes ou beneficiados. Os países com menor PIB (Produto Interno Bruto) possuem maior número de projetos aprovados, o mesmo acontece com o valor de recursos aprovados, que são pré-definidos pela FOCEM no ano anterior ao uso do recurso para o financiamento de projetos - que é definido em dólares - conforme a tabela 1, a seguir. Tabela 1: Recursos definidos pelo FOCEM para aplicação em projetos aos países do Mercosul, 20102014 (em dólares- EUA) País Recurso aprovado pelo FOCEM 2010 2011 2012 2013 2014 Argentina 36.240.587 34.736.507 33.073.080 32.738.636,09 39.241.248,65 Brasil 21.293.387 17.316.610 19.507.110 29.464.992,03 36.879.300,23 Paraguai 100.542.811 43.117.307 4.790.143 47.123.019,94 82.003.400,66 Uruguai 117.097.720 73.604.791 58.823.999 40.260.925,88 36.039.335,79 Venezuela* - - - 8.522.505,18 19.943.519,52 *Os recursos aprovados para a Venezuela passaram a ser calculados apenas a partir de 2013 devido a adesão posterior deste país ao Mercosul em relação aos outros países-membros. Fonte: FOCEM, 2014 Organização: Dayana Aparecida Marques de Oliveira Cruz No entanto, é necesário ressaltar que, apesar dos países-membros menores (Paraguai e Uruguai) terem possibilidade de financiamento maior que as outras economias do bloco, ainda assim existem descompassos e assimetrias não só no que tange a economia destes países comparativamente, mas também as infraestruturas. Da mesma maneira como há uma diferenciação entre economias dos países, existe um descompasso entre as cidades que recebem as infraestruturas e as demais cidades de seu entorno, já que ela passa a desempenhar novos papéis na rede urbana, ocupando uma nova posição na hierarquia urbana. Resultados parciais Os projetos de integração regional propostos pelo Mercosul e pela IIRSA têm uma importante dinâmica no contexto da América do Sul, já que possuem uma projeção maior do que a proposta de integração entre os países por abranger projetos de impacto subcontinental. Contudo, tais impactos não se restringem a escala do subcontinente, como visto ao longo do trabalho, interferem na rede urbana. Ao incluir algumas cidades nos planos de integração regional, se estabelece uma relação de diferenciação entre esas cidades e as demais cidades de seu entorno, reforcando assim, a ideia de hierarquia. Neste sentido, a integração caracteriza-se como diferenciada porque os locais não usufruem dos mesmos beneficios e infraestruturas. Os conflitos existentes no Mercosul e a hierarquização das economias, reforçam o argumento de que a integração regional se dá de maneira desigual ao selecionar os locais mais propícios para sua promoção. Isso não acontece apenas com as cidades, mas com países e economias. i Este trabalho faz parte de pesquisa de doutorado intitulada “Interações espaciais e rede urbana: uma discussão sobre os desdobramentos do processo de integração sul-americana através das infraestruturas de transporte”, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp – Processo n. 2014/09913-1). Referências biliográficas ARROYO, M. Mercosul: novo território ou ampliação de velhas tendências? In: SCARLATO, F. C.; SANTOS, M.; SOUZA, M. A. A. de.; ARROYO, M. (Org.). O novo mapa do mundo: globalização e espaço latino-americano. São Paulo: HucitecANPUR, 2002, p. 122-131. COSTA, Wanderley Messias da, « O Brasil e a América do Sul: cenários geopolíticos e os desafios da integração », Confins [Online], 7 | 2009, posto online em 28 Outubro 2009, Consultado o 12 Julho 2014. URL : http://confins.revues.org/6107 ; DOI : 10.4000/confins.6107 FOCEM. Reglamento Focem – Decisión 01/10 (2010). Disponível em: <http://www.mercosur.int/focem/index.php?id=reglamento>, acesso em 17/09/2014. IIRSA. Análise do potencial de integração produtiva e desenvolvimento de serviços logísticos de valor agregado de projetos da IIRSA (IPrLg). IIRSA, 2009. ______. IIRSA 10 anos depois: suas conquistas e desafios. 1. Ed. Buenos Aires: BID-INTAL, 2011. PEREIRA, L. V. O projeto Mercosul: uma resposta aos desafios do novo quadro mundial? In: CUT. Mercosul: Integração na América Latina e relações com a Comunidade Europeia. São Paulo: INCA, 1993, p. 11-40. RODRÍGUEZ, J. C. Una ecuación irresuelta: Paraguay-Mercosur. In: SIERRA, G. de (Org.). Los rostros del Mercosur. El difícil camino de lo comercial a lo societal. Buenos Aires: CLACSO, 2001, p. 361-372. SANTOS, M. A natureza do espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 4. ed. São Paulo: Edusp, 2008.