GEOGRAFIA ESCOLAR: PRODUÇÃO E AUTORIA DE LIVROS DIDÁTICOS (FINAL DO SÉCULO XIX E INÍCIO DO SÉCULO XX) Maria Deusia Lima Angelo Mestranda PPGG - UFPB [email protected] Maria Adailza Martins de Albuquerque Professora. – PPGG/PPGE- UFPB [email protected] RESUMO Este estudo busca contribuir com as investigações acerca da História da Geografia Escolar, tendo como aporte teórico-mesológico a História das Disciplinas Escolares. Como fonte de pesquisa, utilizaremos o Livro Didático – LD dessa disciplina, pois reconhecemos a importância deste na construção dos saberes escolares. Esta pesquisa encontra-se em fase inicial. Portanto, neste texto apresentaremos uma reflexão de importantes leituras que orientarão nossas investigações, além de trazermos resultados de outros estudos desenvolvidos anteriormente sobre a temática Geografia escolar e livro didático (século XIX e início do século XX). Tais estudos, realizados junto ao Grupo de Pesquisa Ciência, Educação e Sociedade – GPCES, despertaram para a necessidade de investigações centradas na autoria dos autores de LD de Geografia, proposta, esta, aqui apresentada. Palavras chave: Geografia escolar. Livro didático. Autores de livro didático. Introdução Ainda que difusa em outras disciplinas, a Geografia sempre se fez presente desde as primeiras escolas instaladas no Brasil. Contudo, sua história, enquanto disciplina escolar, ainda é bastante desconhecida, tanto no meio acadêmico (professores e alunos dos cursos de licenciatura), como também pelos professores do ensino básico. Considerando essa realidade, estamos desenvolvendo pesquisas que buscam contribuir com os estudos centrados na história da Geografia escolar brasileira. Para tanto, utilizaremos o livro didático – LD¹ dessa disciplina como fonte de pesquisa, pois reconhecemos que esse material didático/pedagógico, assim como os currículos e os programas de ensino, exerce um importante papel na construção dos saberes escolares e, ainda, se configura como uma fonte de informação muito valiosa sobre as disciplinas em diferentes contextos históricos. Entender o LD sob um aspecto histórico significa reconhece-lo a partir dos diversos agentes envolvidos na sua produção, o que reflete nas múltiplas facetas assumidas por esse material de ensino ao longo do tempo, sejam elas pedagógicas, ideológicas, mercadológicas, dentre outras. Corroborando com essa ideia, entendemos que o LD traz consigo uma grande complexidade, tanto no que se refere ao contexto histórico, político e social do momento de sua elaboração e publicação, como no que diz respeito a sua circulação e, ainda, acerca de seus diferentes usos pelos mestres e alunos em sala de aula. Em virtude de todo um processo de elaboração, produção, divulgação, comercialização, aquisição e diferentes usos, o LD passa a ser compreendido como um produto, ou seja, uma mercadoria. Essa pesquisa se insere em uma perspectiva interdisciplinar, em que dialogaremos a partir da geografia com a história, a pedagogia e, em especial, com história da educação. Nossa base teórico-metodológica pauta-se na história das disciplinas escolares. Nesse sentido, entendemos que para analisarmos e/ou refletirmos a respeito de uma determinada disciplina escolar é indispensável entendê-las, a partir de sua construção histórica, pois, “longe de serem asserções intemporais de conteúdo intrinsecamente válido, as matérias e as disciplinas estão em constante fluxo” (GOODSON, 1990, p. 236). Os estudos históricos referentes à história das disciplinas escolares raramente despertou o interesse dos pesquisadores, contudo, recentemente esse campo de pesquisa tem sido explorado por docentes de graduação e pós-graduação, sobretudo, aqueles ligados a linha da história da educação, no intuito de pesquisarem sobre a história das disciplinas em que atuam (CHERVEL, 1990). As pesquisas no campo da história das disciplinas escolares, com enfoque nos livros didáticos, foram inauguradas no Brasil por Bittencourt na década de 90 do século passado, a partir de seus estudos sobre a disciplina escolar História. Gatti. Jr (2009), em seu estudo heurístico sobre a escrita recente da história das disciplinas escolares no Brasil e, tomando como base publicações de livros oriundos de pesquisas em nível de mestrado e doutorado, apresenta uma série de produções sobre essa temática. Ponderando esse estudo, é possível identificar que a História é a disciplina mais estudada, seguida da Matemática, das Leituras, Línguas e Educação Física. No levantamento do autor supracitado não há produções referentes à Geografia. Partindo de nossas investigações acerca das produções bibliográficas sobre a história da Geografia escolar brasileira, podemos apontar que essas pesquisas são em número pouco expressivo, sobretudo aquelas que têm como fonte o LD dessa disciplina. Nessa perspectiva, ao fazer um levantamento das abordagens presentes nas pesquisas sobre o ensino de Geografia, a partir da análise de catálogo de dissertações e teses Pinheiro (2005), aponta as produções de Issler (1973) Pontuschka (1994), Ferraz (1995) Rocha (1996), Vlach (1998) e Pereira (1999), Albuquerque (2008; 2010; 2011); Boligian (2010). As duas últimas referências utilizam o livro didático como fonte de pesquisa. Entretanto, vale ressaltar a existência de grupos de pesquisas, cujos pesquisadores vêm desenvolvendo, com grande esforço, estudos sobre a história da Geografia escolar. Nesse sentido, destacamos o Grupo de Pesquisa, Ciência, Educação e Sociedade – GPCES². Nossas discussões sobre a disciplina escolar Geografia, remonta-se ao final do século XIX e início do século XX. O recorte temporal estabelecido para a esta pesquisa justifica-se devido à efetivação de um grande debate acerca da constituição do Estado Nacional e das transformações políticas ocorridas no Brasil durante o período de transição entre o Império e a República. Considerando as últimas décadas do século XIX, em especial, a década de 1870, esse movimento em prol do nacionalismo patriótico promove uma expansão do ensino primário para outras camadas da população, até então destituídas do acesso à escola elementar. Esse cenário conflui para um aumento da produção de obras didáticas destinadas ao ensino primário nas diferentes províncias brasileiras. Nesse contexto, a escola, assim como as disciplinas Geografia, História e Língua Portuguesa exercem um importante papel na difusão das ideias patrióticas (ROCHA, 1996; VLACH, 1998; BITENCOURT, 2004a). Em referência as primeiras décadas da República destacam-se uma difusão mais acentuada do nacionalismo patriótico e as transformações que ocorreram no âmbito educacional com o advento da Escola Nova. Considerando a criação de um sistema educacional e a difusão dos ideais nacionalistas e pedagógicos em âmbito nacional durante esse período, entendemos que essas questões também apontaram para inovações frente ao ensino de geografia da época e, por consequência, o LD dessa disciplina passa por modificações. Desde sua origem, o Livro didático está intrinsecamente vinculado ao poder estabelecido pelo Estado, que por sua vez, se apropria do estabelecimento escolar para direcionar e controlar o saber a ser disseminado (BITTENCOURT, 2008). Nessa perspectiva, o LD se constitui como um importante instrumento de controle estatal sobre o ensino e o aprendizado dos diferentes níveis escolares. No entanto, os livros escolares também trazem consigo um complexo e variado conjunto de agentes que influenciam direto ou indiretamente na elaboração dos conhecimentos presentes nesse gênero literário. Dentre esses agentes destacamos os autores de livros didáticos, pois entendemos que esses sujeitos, apesar de estarem “presos” às leis institucionais, programas curriculares e as exigências editoriais para a elaboração de suas obras, também conseguem imprimir suas marcas, expressar suas experiências, as quais podem estar atreladas ao exercício do magistério e/ou a formação acadêmica. Buscando contribuir com a história da Geografia Escolar, nossa proposta é estudar a produção e a autoria de livros didáticos dessa disciplina para melhor entender papel dos escritores desses livros na construção dos conhecimentos geográficos escolares difundidos no período em estudo. Entendemos que o período entre o final do século XIX e o início do século XX se configura como um momento muito importante no processo de constituição da disciplina Geografia, implicando rupturas no ensino dessa disciplina, assim como nos seus livros didáticos. Nesse sentido, surgem algumas indagações: – Quais características se faziam presentes na época e, que, de alguma forma se reproduz na atualidade? O que aparece de inovação e continuidades nos LD dessa disciplina da época? Quem assumiu o papel da autoria dos livros didáticos de Geografia nesse período? Qual a relação desses autores com os políticos que estavam no poder? Qual era a experiências desses autores com o exercício do magistério? Essas, dentre outras interrogações, demandam estudos, tendo em vista que, as produções nesse sentido ainda são raras, sobretudo, considerando o recorte temporal estabelecido para a pesquisa proposta. Não pretendemos aqui trazer respostas às indagações supracitadas, pois as mesmas orientam minha pesquisa de dissertação de mestrado. Esta encontra-se em fase inicial, portanto, apresentaremos nos tópicos a seguir algumas reflexões a partir de leituras já feitas, além de recorremos à outros estudos desenvolvidos anteriormente dentro dessa temática junto ao GPCES. Para uma melhor compreensão da produção e da autoria de livros didática de Geografia em âmbito nacional, ponderando contexto histórico do final do século XIX e início do século XX, é necessário nos reportarmos, num quadro geral, ao surgimento das produções didáticas nacionais. Para isso, tomaremos como principal referência Bittencourt (2004b). A produção didática no Brasil durante o século XIX: autores, editoras e o contexto histórico e educacional do período. As primeiras produções didáticas impressas no Brasil foram feitas pela Imprensa Régia, órgão oficialmente criado em 1808, com o objetivo de auxiliar na produção de materiais direcionados à educação pública. Nesse sentido, Bittencourt (2008), aponta que a Imprensa Régia foi órgão responsável pela produção dos primeiros manuais para os cursos criados por D. João VI, notadamente os da Real Academia Militar. Apesar de o LD ser considerado como um objeto de ensino com dimensão ideológica e cultural, como já mencionado antes, com o passar do tempo o LD assume uma dimensão material, sobretudo a partir a partir do século XIX, devido às modificações incorporadas a esse produto, gerando um lucro considerável para as editoras. Nesse sentido, Bittencourt (2008, p. 63), acrescenta que: O Estado Liberal, embora considerasse esse objeto cultural peça fundamental na transmissão do saber escolar, cedeu à iniciativa particular o direito de fabricá-lo. [...] As editoras, ao conquistarem o direito de fabricar e divulgar o livro didático, cuidaram de transformálo em uma mercadoria inserida na lógica capitalista. As editoras passaram a assumir o papel de publicação dos manuais didáticos no Brasil a partir do momento em que a Imprensa Régia, em 1822, deixa de ter exclusividade sobre este tipo de publicação. A partir das últimas décadas da primeira metade do século XIX, os LD adotados nas escolas do Brasil passaram a ser da responsabilidade de editoras nacionais. Contudo, anterior a esse período os livros escolares eram publicados fora do país, em especial, na França, na Alemanha e em Portugal, situação que ainda permaneceu, conforme mostra os dados citados no parágrafo anterior. Com base no Catálogo do Museu Escolar Nacional, publicado em 1885, Bittencourt (2008), identificou que as primeiras publicações didáticas nacionais estavam vinculadas as seguintes editoras: a) B.L. Ganier (21,5%); b) E. & H. Laemmert (12,3%); c) Nicolau Alves (10,4%); d) J. G. de Azevedo (7,3%); e) Tip. Nacional (1,9%); f) Editoras do Rio de Janeiro (19,9%); g) Editoras das províncias (11,9%); h) Editoras estrangeiras (13,9%); i) Sem nome (1,0%). Durante a segunda metade do século XIX e início do século XX, as obras didáticas utilizados nas escolas brasileiras ainda apresentavam fortes características daquelas publicadas na Europa. Em alguns casos, eram verdadeiras cópias traduzidas, apresentando conteúdos alheios à realidade brasileira. No entanto, durante esse período já havia uma preocupação em nacionalizar as obras didáticas adotadas nas escolas brasileiras. As críticas acerca desses livros aumentaram, sobretudo, a partir das últimas décadas do século XIX. Nesse sentido, Veríssimo (1985), adverte que, são os escritos estrangeiros que, traduzidos, ou quando muito, imitados, fazem a educação da mocidade brasileira. Inicialmente o LD foi pensado prioritariamente para atender aos ensejos dos professores, no decorrer do século XIX, as produções didáticas também passam a serem consumidas diretamente por alunos (crianças e adolescentes), que adquiriram a posse sobre esse material de ensino (BITTENCOURT, 2008). Contudo, vale ressaltar que esse aumento da produção didática nesse período, não se caracterizava como uma grande difusão dos livros didáticos, tal qual conhecemos hoje, pois, apesar da existência de projetos acerca da expansão do ensino, sobretudo, do Ensino Elementar, e da preocupação com a nacionalização desses livros, durante muito tempo o LD se configurou como um objeto raro e de difícil acesso, inclusive, devido ao seu custo. Uma das principais preocupações dos administradores encarregados pelos projetos educacionais brasileiro no século XIX e início do século XX, centrava-se na redação dos livros didáticos. Estes interesses envolviam questões como a difusão do nacionalismo patriótico, a autoria desses livros e o publico que ingressava nas escolas. De acordo com Bittencourt (2008), inicialmente houve um grande incentivo para que os livros didáticos brasileiros fossem elaborados por célebres intelectuais e políticos. Contudo, no decorrer do tempo, essa tarefa passa a ser direcionada para outras camadas da sociedade, sendo incluídos nesse meio os próprios professores. Considerando a ideia exposta no parágrafo acima, e, pesando no recorte temporal em questão, Bittencourt (2004b, p. 480), considera que, durante esse período, se fez presente no Brasil duas gerações de autores de LD Podemos identificar uma primeira “geração” a partir de 1827, autores preocupados com a organização dos cursos secundários e superiores, apenas esboçando algumas contribuições para o ensino de “primeiras letras”. Uma segunda “geração” começou a se delinear em torno dos anos 1880, quando as transformações da política liberal e o tema do nacionalismo se impuseram, gerando discussões sobre a necessidade da disseminação do saber escolar para outros setores da sociedade, ampliando e reformulando o conceito de “cidadão brasileiro”, criandose uma literatura que, sem abandonar o secundário, dedicaram-se à constituição do saber da escola elementar. De acordo com a autora supracitada, os autores correspondentes à primeira “geração” compõem o grupo da elite intelectual e políticos ligados ao poder do Estado. É importe lembrar que nesse momento os projetos educacionais estavam voltados para a formação de uma elite que se constituía no Brasil, em especial, na capital (Rio de Janeiro), sendo priorizada uma difusão do Ensino Secundário, Técnico e Superior em detrimento do Ensino Primário. Então, para direcionar o que deveria ser ensinado aos filhos daqueles que compunham essa elite, ninguém seria mais digno que homens “sábios” pertencentes ao Governo Imperial. Além da atuação dos célebres políticos na autoria dos livros didáticos publicados nesse período, é identificada também a participação de personalidades ligadas ao Instituto Histórico e Geográfico do Brasil-IHGB, como também dos membros da Escola Militar, instalada no Rio de Janeiro, em 1810. No que se refere a essa última instituição, Bittencourt (2004b, p.481-482), nos lembra que: A partir do momento em que foi criada, essa instituição teve que se haver com a questão dos compêndios a serem adotados. [...] Os lentes limitaram-se a realizar traduções, ou adaptações de textos estrangeiros ou, preferencialmente, recorriam às obras de Portugal. Entretanto, iniciando a década de 1840, durante as disputas políticas e sociais da fase regencial, com a questão da unidade nacional e a nova configuração do papel político dos militares, houve a necessidade de uma produção de obras didáticas locais, que deveriam se encarregar, entre outros aspectos, de esboçar os contornos territoriais da nação independente. A Escola Militar foi, então, o lugar institucional responsável pelo aparecimento dos primeiros compêndios dedicados ao ensino das disciplinas formadoras da “nacionalidade”, especialmente história e geografia. De acordo com o trecho acima, a Escola Militar foi uma das primeiras, se não a primeira instituição, a produzir obras didáticas brasileiras buscando enfocar o nacionalismo patriótico, apresentando, assim, uma preocupação em inserir os brasileiros nessa tarefa, que se inicia a partir da década de 1840. Contudo, encontramos na biblioteca dessa escola uma obra de geografia escrita por brasileiro, publicada em 1836, trata-se da obra Compendio de Geographia Elementar de José Saturnino. Apesar da existência de projetos educacionais voltados para a difusão de uma ideologia patriótica durante a primeira metade do século XIX, é somete a partir da segunda metade deste século, em especial nas últimas décadas, que realmente esse movimento toma “corpo”. Isso é um reflexo de um espraiamento do Ensino Primário pelo território brasileiro, de forma a abarcar outras camadas da sociedade, que antes não tinham acesso à escola. Ponderando o contexto histórico e educacional referente à segunda metade do século XIX Bittencourt (2004b), aponta o surgimento de uma segunda “geração” de autores de livros didáticos brasileiros. Segundo essa mesma autora. “Os anos de 1870 e 1880 marcaram o início do crescimento escolar e o surgimento de escritores provenientes de outras esferas da sociedade.” (BITTENCOURT, 2004b, p. 483). Nesse período, apesar de ainda existir autores estrangeiros que tinham seus traduzidos para português (ALBUQERQUE, 2010), a maioria das publicações passam a serem escritas por brasileiros. Ao fazer uma analise do perfil dos autores de livros de leitura publicados durante o período supracitado, Bittencourt (2004b), identificou que esse grupo de escritores não se apresentava tão homogêneo quanto aqueles referentes à primeira metade do século XIX. Essa autora identificou que: Os autores dessa geração possuíam, na maioria das vezes, experiências pedagógicas provenientes de cursos primários, secundários ou de escolas normais voltadas para a formação de professores. [...] A formação do professor, ao ser constituída na prática, no “apender fazendo” exigia uma produção didática específica que intelectuais preocupados com o conhecimento científico ou literário, mas sem a vivência da sala de aula, eram incapazes de produzir com sucesso.”(p. 483). Essas alterações no âmbito da autoria dos livros didáticos também se expressam na editoração desse material, e, trazem preocupações com o assunto que passaria a compor essas obras. Todas essas modificações estão relacionadas ao seu principal “público consumidor” (os alunos) que, por sua vez, também se tornava menos homogêneo. Ou seja, surgia um novo aluno, pois oriundo de diferentes classes sociais, à medida que tem início os primeiros vestígios de democratização da escola, que passaria a ter acesso a essa literatura, além do desenvolvimento de novas tecnologias voltadas para a publicação, o que implica tanto a necessidade de uma nova forma de escrita, quanto a inclusão de iconografia (desenhos/figuras), dentre outros recursos visuais. Apesar dessa nova faceta incorporada ao LD, se tratando de um direcionamento deste para esse novo publico de alunos, esse material de ensino não perde sua característica inicial, o suporte para o professor em sala de aula. “Para professores sem formação específica, o livro didático representava “método de ensino” além de conter o conteúdo específico da disciplina.” (BITTENCOURT, 2004b). Nesse sentido, uma questão que fica evidente quanto aos projetos direcionado para as produções de obras didáticas referentes aos dois momentos abordando, centra-se no papel do autor, que “está, apesar de tudo, no centro de todos os questionamentos que ligam o estudo da produção de textos ao de suas formas e leitores.” (CHARTIER, 1994, p. 58). Tomando como referencias as considerações apresentadas nos parágrafos acima acerca da produção e autoria de livros didáticos, daremos continuidade essas investigações, enfocando a disciplina escolar Geografia. As produções didáticas no âmbito da Geografia escolar brasileira (século XIX e início do século XX) Assim como para as demais disciplinas, durante o século XIX grande parte dos livros didáticos de Geografia utilizados nas escolas brasileiras era publicados fora do país, em especial, na França, na Alemanha e em Portugal. Diante disso, esses livros eram alheios à realidade brasileira e, reproduziam uma geografia eurocêntrica. Característica, essa que se fizeram presentes nos manuais de geografia durante o século XIX e início do século XX. Outra característica muito presente nos compêndios de Geografia da época refere-se ao seu caráter mnemônico e enciclopédico. Seus conteúdos eram compostos por relações de elementos geográficos que caracterizam as diferentes províncias brasileiras, seguindo o modelo adotado no livro Chorographia Brasílica, da autoria do Pe. Manuel Aires de Casal, publicada em 1817, pela Imprensa Régia. Apesar de não ser identificado como uma produção direcionada para o uso escolar a Chorographia Brasílica é de suma importância, tanto para o campo intelectual como para a educação de modo geral, em especial, para o ensino de geografia, o justifica tecermos algumas considerações acerca desse livro. A centralidade atribuída à obra supracitada dá-se pelo fato desta ter se tornado, durante muito tempo, referência para as posteriores produções didáticas de Geografia, sobretudo, aquelas que se destinavam a Geografia do Brasil, geralmente, intituladas Corographia do Brasil.” Nesse sentido, Pereira apud Rocha (1996, p. 142), afirma que a obra de Aires de Casal, Serviu mesmo de modelo metodológico e de fonte de informações para quase todos os autores de livros geográficos destinados ao ensino do país. E, por essa razão, herdaram estes os seus incontáveis defeitos de concepção e método, entre os quais se indicam o abuso da extensa nomenclatura, a falta de correlação e entrosamento nos estudos dos fatos, a ausência quase que completa de explicações ou tentativas de explicação das paisagens consideradas, a falta de vida nas descrições e franciscana pobreza de apreciação sintética. Segundo Rocha (1996), essas características presentes na obra Chorographia Brasílica e nas posteriores produções didáticas (considerando tanto o ensino primário, como secundário), resultam de uma geografia enciclopédica e mnemônica, pautada no modelo de geografia clássica, uma vez que, seu conteúdo é repleto de informações soltas e pontuais sobre o território brasileiro, não sendo possível identificar nenhum tipo de análise ou reflexão em toda sua obra. Como consequência, a geografia passou a ser considerada como uma disciplina desinteressante e enfadonha, concepção esta, que se fez presente nas escolas durante muito tempo, inclusive, no momento em que a geografia realmente se institucionaliza no currículo escolar brasileiro. Nesse sentido, Rocha (1996, p. 143), adverte que Aires de Casal, assim como os seus sucessores autores de livros didáticos “produziam o discurso geográfico claramente mascarador dos raciocínios centrados no espaço”. Os livros didáticos do século XIX difundem uma geografia clássica, tal qual é bem representada na obra Chorographia Brasílica de Aires de Casal. Nesse sentido, alguns autores como Vlach (2004) e Rocha (1996) defendem a ideia de que, nesse período os autores de livros didáticos fundamentavam-se na obra de Aires de Casal para escrever seus livros didáticos, não considerando a geografia que vinha sendo produzida por alguns geógrafos modernos, a exemplo, de von Humboldt e Karl Ritter na Alemanha. Contudo, apesar dessa semelhança entre os livros didáticos do século XIX e a obra de Aires de Casal, Albuquerque (2008, p. 165) ressalta: Com base nos livros didáticos de geografia do século XIX, que estamos analisando há três anos, essa afirmação deve ser discutida, pois temos encontrado uma série de autores de livros didáticos do referido período que adotaram outros referenciais teóricos e bancos de dados para a elaboração de seus compêndios e manuais. Para confirmar a afirmativa acima Albuquerque (2008, p. 165) aponta como exemplo o Compêndio Elementar de Geographia Geral e Especial do Brasil, do senhor Thomaz Pompeu de Souza Brasil, publicado em 1859. Segundo essa autora, Thomaz Pompeu afirma ter usado como referencias teóricas para a elaboração de seu compêndio as seguintes publicações: Anuário de Garnier, Almanak de Gotha, Revista dos Dous Mundos, Jornaes Literários e Scientíficos para a parte política do mundo. Para explicar os fenômenos astronômicos e físicos, acrescentou notas ilustrativas tiradas das obras de Humboldt, Ganot, Lecoq, Moureau de Jones, Malte Brun, Bouvillet e outros. Sobre o Brasil, recorreu às revistas do IHGB, mas também fez levantamentos junto aos presidentes das províncias e a pessoas importantes, em virtude de imprecisão dos dados existentes. Contudo, o fato do Senador Pompeu ter recorrido à outras obras para escrever seu livro, isso não significa que esta obra se configure como uma ruptura ao modelo de geografia que se impera nos livros didáticos da época. O que podemos sugerir, a partir dessa referência, é que essa atitude de autor de alguma forma, possa está vinculada às críticas que vinham sofrendo as obras didáticas da época. Durante as ultimas décadas do século XIX, além das críticas aos conteúdos que se apresentavam alheios à realidade brasileira, também emerge um debate contra ao modelo de ensino difundido na época, no qual a Geografia se insere. Ou seja, um ensino de caráter mnemônico e enciclopédico pautado na memorização de nomenclaturas e dados numéricos. No período de transição entre o Império e a República o Brasil assistiu a uma forte urbanização. As novas forças que se instalavam no poder vinham de setores sociais do meio urbano, o que incitava uma valorização de postos de trabalhos que exigia, de alguma forma, um nível de escolarização em detrimento daqueles regulados pelo trabalho braçal rural. Desta forma, é importante destacar que nesse período de constituição do Estado nacional, havia uma forte influência dos ideários nacionalistas na educação brasileira. Nesse contexto, disciplinas como a História e a Geografia se destacavam, exercendo um papel de difusoras desses ideários. De acordo com Vlach (2004), a forte relação entre a escola, o ensino de Geografia e a constituição do Estado-nação brasileiro se evidência desde o início do século XIX. Considerando a Escola de Primeiras Letras essa autora ainda aponta: Por conseguinte, o ensino de geografia não integrava diretamente os conteúdos das escolas de primeiras letras. Isso não impediu, porém, que se fizesse presente de maneira indireta nessas escolas. Sua presença ocorria por meio da história do Brasil e da língua nacional, cujos textos enfatizavam a descrição do território, sua dimensão, suas belezas naturais (p. 189). Com essa afirmativa, Vlach defende a ideia da existência de uma preocupação em difundir de uma Geografia patriótica, já nas primeiras décadas do século XIX. No entanto, essa teoria merece ser relativizada, tendo em vista que outros pesquisadores, a exemplo, de Albuquerque (2008; 2011) e Rocha (1996), trazem posicionamentos diferentes. Rocha (1996), afirma que a geografia passou a compor o currículo brasileiro devido ao fato dessa disciplina fazer parte do modelo de curricular francês, o qual foi transplantado pra o Brasil. Desse modo, o autor contrapõe-se a ideia, de que os motivos que levaram a geografia a se fazer nos primeiros anos da república estariam vinculados à concepção de valorização e amor à pátria, tese defendida por vários pesquisadores do meio acadêmico. Nesse sentido, Albuquerque (2011) aponta para o fato de que, mesmo que tenha havido um debate na tentativa de inserir uma Geografia de caráter nacionalista e patriótica nas escolas brasileiras durante os primeiros anos do Império, isso não se efetivou na prática. Ou seja, não havia de fato, nas escolas uma Geografia que tratasse das questões referentes ao território brasileiro. Segundo essa mesma autora (p. 166), [...] esse debate foi introduzido na escola pelas publicações didáticas brasileiras. Pois, enquanto os livros didáticos eram importados, esses, em geral, não traziam conteúdos sobre o Brasil e quando o faziam era de forma muito superficial. As obras estrangeiras e, portanto alheias à realidade brasileira passam a ser criticadas a partir das décadas de 1870 e 1880, emergindo, assim, a proposta da criação de obras didáticas que fossem “genuinamente nacionais” (BITTENCOURT, 2008). Nesse período, apesar de ainda existir autores estrangeiros que tinham seus escritos traduzidos para português, a maioria das publicações passa a serem escritas por brasileiros (ALBUQERQUE, 2010). Veríssimo (1985), em sua obra A Educação Nacional, originalmente publicada em 1890, aponta para a necessidade de uma reforma da Geografia escolar brasileira, defendendo a ideia de uma Geografia que levasse em consideração as questões nacionais e que fossem escritas por brasileiros, de modo a elevar a nossa terra, mostrando as belezas paisagísticas. A preocupação com a nacionalização das obras didáticas também implicava em defender que essas fossem escritas por brasileiros. A partir da análise de um conjunto de seis obras didáticas de Geografia, destinadas ao ensino primário, publicadas entre os séculos 1870 a 1920 (ANGELO, 2011), identificamos que, apesar das obras ainda estarem presas ao modelo de ensino livresco, mnemônico e descritivo, foi possível observar que havia uma preocupação, por parte dos autores em trazer inovações metodológicas para esses livros, e também, destacava-se a preocupação em difundir os ideais nacionalistas. Essas questões podem ser observadas nos prefácios escritos nas primeiras folhas dos livros, nos depoimento da imprensa (característica comum às publicações da época), nos discursos dos autores, de estadistas ou de outros professores, também presentes nas primeiras folhas das obras. As características pautadas na inovação da escrita, ainda são denunciadas a partir do método (modelo de catecismo ou texto corrido) adotado para a disposição dos conteúdos. A valorização do território brasileiro também pode ser identificada em algumas partes das obras, quando estas trazem trechos destinados a valorizar e exaltar os recursos naturais e as paisagens do Brasil (ANGELO, 2011). As criticas direcionadas a essas características presentes nas obras didáticas da época implicavam na necessidade de um novo perfil de autores para o ofício de escrever as obras didáticas. O fato de esses autores serem brasileiros e estarem vinculado ao exercício do magistério eram exigências centrais nesse contexto, conforme Bittencourt (2004b) abordou em seu estudo. Considerações As considerações aqui mencionadas decorrem das primeiras impressões suscitadas no que concerne à primeira etapa da pesquisa ora apresentada. O conjunto de leitura realizado até o momento nos fez entender melhor o contexto histórico e educacional brasileiro referente ao período de transição entre o Império e a República; o campo das disciplinas escolares; o processo de constituição da Geografia escolar brasileira e, a relação desta disciplina com os demais elementos que a constroem, em especial, o livro didático. Considerando a literatura acerca da história da disciplina escolar Geografia, podemos observar que esses estudos são recentes, porém, vem se ampliando, mesmo que timidamente, durante as últimas décadas. Contudo, observamos que as pesquisas que se apoiam na análise de livros didáticos tendo como objetivo de entender a história dessa disciplina ainda são raras. Nesta perspectiva merece destaque os estudos desenvolvidos por Albuquerque (2008; 2010; 2011)³. Esses estudos ao mesmo tempo em que trouxeram respostas às perguntas por nós feitas, também apontaram novos questionamentos, seja no momento de análise das obras, nos diálogos com a orientadora, nos grupos de leitura, e ainda, nas apresentações dos resultados em eventos científicos. Assim, grande parte dessas indagações - a exemplo daquelas apresentadas na introdução deste texto - orienta a pesquisa aqui tratada. Notas ¹ O livro didático recebeu ao longo do tempo diversas denominações. Apesar de algumas dessas denominações apresentarem algumas particularidades em contextos diferentes (manual escolar direcionado ao professor, compêndio - caráter enciclopédico, etc.), nesse trabalho utilizaremos como sinônimo de livro didático as seguintes denominações: livro escolar; obras didáticas; manuais didáticos e compêndios. Também utilizaremos a abreviatura LD para nos referimos a este recurso didático ao longo do tempo. ² O GPCES está instalado no departamento de educação da Universidade Federal da Paraíba – UFPB. No momento, esse grupo desenvolve uma pesquisa financiada pelo Edital Universal, intitulada: Ensino de Geografia: materiais didáticos, currículos, autores e práticas escolares (1860 a 1940). ³ Neste caso é importante salientar que a autora vem pesquisando essa temática em nível de graduação (em trabalhos de monografias e projetos de Iniciação Científica), mestrado e, ainda em outros projetos desenvolvidos junto ao GPCES, com apoio de órgãos fomentadores de pesquisas. Bibliografia ALBUQUERQUE, Maria Adailza Martins de. A autoria de livros didáticos de Geografia em Pernambuco no século XIX: uma relação entre a legislação e a elaboração. In. Revista Terra Livre. Ano 24, v. 2, n. 31. 2008, 163-171 pp. ______________. 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