Modernização, imprensa e violência no Brasil da metade do século XX: Velhos conhecidos, novas narrativas. Delza Marina Pereira do Vale.1 [email protected] Resumo: As décadas de 1950 e 1960 sobressaem dentro da historiografia brasileira, justamente porque no entremeio desses períodos forjaram-se mudanças significativas em âmbito político e social. Temos assim, um país com pretensões modernas que vai desde a industrialização da força de trabalho e da cultura, até a criação da primeira empresa estatal, bem como das primeiras transmissões televisivas. E é a partir desse contexto que pretendemos, neste artigo, discorrer sobre o cenário brasileiro nas décadas acima mencionadas e relacioná-lo com as alterações sofridas pela mídia jornalística, uma vez que a mesma ganha – nesse período – um público maior devido à expansão do rádio. Encaminharemos nossa discussão no sentido de verificar como, também neste período, a imprensa se apodera do espaço ganho – ainda que enfrente censura – e opera na formação da opinião pública, ‘criando’ notícias que distraem o público leitor do campo político. Para este fim, tomaremos um fato amplamente noticiado pela mídia impressa em que temos o ‘compor’ de um bandido por meio de uma narrativa espetacular, demonstrando assim as articulações da imprensa para angariar expectadores. Palavras-chave: Imprensa escrita, modernização, espetacularização. 1. Introdução Meados da década de 1950. Pensando o Brasil neste momento temos um país mudando sua capital, ou melhor, criando um novo momento de sua história2. Além disso, temos uma mudança significativa na imprensa, objeto de estudo deste trabalho3. 1 Aluna de especialização em Patrimônio, Memória e Gestão Documental da Universidade Tuiuti do Paraná. Orientador: Prof. Dr. Clóvis Grunner. Quando falamos em campo jornalístico – à época – visualiza-se um momento de construção e mudanças, mudanças essas que já vinham sendo implementadas desde a primeira década do século XX e que encontra na conjuntura histórica dos anos 19504 o momento oportuno de sua realização. A partir destas considerações é que pretendemos, no presente trabalho, discorrer sobre o processo de modernização das décadas de 1950 e 1960 – uma vez que estes períodos foram decisivos e importantes para a mudança de paradigmas no Brasil – e as consequências desse processo na formação do imaginário moderno urbano bem como o lugar que a imprensa ocupa nestes contextos. Para tanto, em um primeiro momento, trarei informações sobre o momento historiográfico das décadas já mencionas com o intuito de contextualizar o campo fértil das transformações que basilaram um novo Brasil; em um segundo momento, o lugar da violência nesse contexto e por fim o lugar que a imprensa ocupa nestas percepções. 2. O Brasil dos brasileiros 2 No final de 1956, já se viam tratores em trabalhos de terraplenagem na novíssima capital, logo sendo aberta uma pequena pista de pouso para a primeira visita do presidente, que, em seguida, seria espichada para três mil metros, toda pavimentada, no início de 1957. No mês seguinte, uma comissão formada por urbanistas brasileiros e estrangeiros escolhia o projeto assinado pelo arquiteto e urbanista Lúcio Costa para a construção do plano-piloto da nova capital do país, com previsão de 600 mil habitantes. Este plano-piloto se organizaria em torno de dois eixos dispostos em cruz. Segundo o próprio Lúcio, Brasília nascia “do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal-da-cruz". Poucos meses depois, cerca de 12 mil pessoas já viviam e trabalhavam em Brasília. Ver: Década de 50 – Quando a felicidade parecia bater as portas do Brasil. Disponível em: http://decadade50.blogspot.com.br/2006/09/ano-deamadurecimento_115745645094027421.html Acesso em: 04 nov. 2012. 3 Até à década de 50, o padrão da imprensa no Brasil seguia o estilo europeu [...]. Em termos gerais, a maioria dos nossos periódicos seguia o modelo francês de jornalismo, cuja técnica de escrita era mais próxima da literária. Os gêneros mais valorizados eram os mais livres e opinativos, como a crônica, o artigo polêmico e o artigo de fundo. Naquela época, a oferta de jornais era muito grande. [...] Somente no Rio de Janeiro circulavam cerca de 20 periódicos — muitos com a credibilidade e a qualidade comprometidas por seus interesses políticos e econômicos.Ver: As mutações da imprensa, Anos 50. Disponível em: http://www.piratininga.org.br/novapagina/leitura.asp?id_noticia=2931&topico=Hist%F3ria. Acesso em: 04.nov.2012. 4 BARBOSA, Marialva. História Cultural da Imprensa – Brasil – 1900-2000. RJ: Mauad X,2007. Durante a década de 1950, o Brasil começou a se modernizar. Foi nesta década que chegou ao país a televisão, ocasionando profundas mudanças nos meios de comunicação. A imprensa falada ganha corpo com o rádio levando informação aos mais remotos lugares. O mundo passa por uma efervescência cultural atingindo o Brasil com uma intensa movimentação em diversos meios. Engatinha a caminho da modernização, passando de país agrário – uma vez que tinha a maior parte da população morando no campo – para um país industrializado, com a população migrando do campo para as cidades e proporcionando um grande crescimento urbano. Por tudo isto, é que os anos 50 se caracterizaram por uma profunda modificação em sua sociedade. Nesta mesma década, o Brasil inicia os primeiros passos a caminho do desenvolvimento econômico. Foram anos de intensa movimentação política culminando com a chegada de Juscelino Kubitschek à presidência com a promessa de modernizar o Brasil. Seu grande feito – que o projetou para história – foi a construção de Brasília, a nova capital do país. A novidade governamental foram seus planos de metas, prometendo “governar 50 anos em 5”. O populismo impera com governantes portadores de forte apelo popular como, o grande populista Getúlio que, em 1954, “sai da vida para entrar na história”. Os grupos sociais começam a se organizar em associações, sindicatos e partidos dando o chute inicial do que seriam as grandes mudanças ocorridas nos anos 605. Junto com toda esta efervescência, a imprensa – a partir desse momento – atrai para si o papel de formadora de opinião. Nos anos de 1950 temos uma inovação do discurso, no qual o verdadeiro jornalismo passa a ser resultado da ação de verdadeiros jornalistas: Ninguém publicava em jornal nenhuma notícia de como o garoto foi atropelado sem antes fazer considerações filosóficas e especulações metafísicas sobre o automóvel, as autoridades do trânsito, a fragilidade humana, os erros da humanidade, o urbanismo do Rio. Fazia-se primeiro um artigo para depois, no fim, noticiar que o garoto tinha sido atropelado defronte a um hotel. Isso era uma reminiscência das origens do jornalismo, 5 RODRIGUES, Marli. A década de 50 - Populismo e metas desenvolvimentistas no Brasil. Disponível em:http://pt.shvoong.com/humanities/history/1651216-d%C3%A9cada-50-populismo-metasdesevolvimentistas. Acesso em: 04.nov.2012 pois o jornal inicial foi um panfleto em torno de dois ou três acontecimentos que havia a comentar, mas não noticiar, porque já havia informação de boca, ao vivo, a informação direta6. Ou seja, mais que assuntar o fato ocorrido, o jornalista começa a tratar a notícia com ‘cientificidade’, arriscamo-nos a dizer até que produz a notícia com maior seriedade já que o alcance da mesma é maior do que em outros tempos, pois a aceleração da vida cotidiana e a complexidade dos acontecimentos obrigaram os jornais a se transformarem no que pode ser chamado de veículo de notícias7. Na imagem das reformas dos anos 1950/1960 sobressai a fala dos jornalistas que se autodefinem como introdutores de uma nova linguagem indispensável a um tempo em que novos aparelhos tecnológicos entram em cena. Não havia ainda, naquele momento, a preocupação com a mítica da objetividade e da neutralidade. O jornalismo continua tentando ser importante, como um lugar de amplificação do discurso político8. A imprensa não se restringe apenas a informar, passando também a formar e deformar juízos de valores 9. Assim, nesse mesmo momento temos as notícias sobre crimes que sempre fascinaram a humanidade desde os primórdios 10. Com isto é que podemos pensar em notícias construídas para distrair expectadores, pois quando buscamos ao longo da história fatos de repercussão e de grande audiência, temos, como afirma Alves, a eleição de uma figura criminosa que renda audiência. Há uma espécie de encantamento e repulsa sobre a pessoa do criminoso, que precisa ser diferenciado do “cidadão de bem”. Há também a empatia pela vítima, as pessoas conhecem sua história e muitas vezes criam certa identificação ou imaginam que poderia ser alguém que lhe é próximo [...]; a criminalidade se faz presente em toda e qualquer sociedade, fazendo parte do cotidiano do cidadão. [...] Ainda assim, com o intuito de atrair a atenção do público visando aos maiores lucros, decorrentes da elevação de índices de audiência, a imprensa – de momento em momento – elege um fato criminoso 6 id. ibid. pg.159 id. 8 id. 9 ALVES, Laura Maria P. B. A mídia como agente operadora do direito. In: FIDES. Natal. Vol.2 nº1. Jan/jul 2011. 10 id. 7 e passa a explorá-lo exaustivamente, criando uma espécie de comoção popular. 11 Pensando e analisando desta forma, também encontramos em Backzo a reflexão sobre como reportagens que contemplam o delituoso estão impregnadas no imaginário social e contribuem para o direcionamento das atenções e, por conseguinte, da dominação das mesmas no sentido de exercício de poder que vem do comunicador para o comunicado: A influência dos imaginários sociais sobre as mentalidades depende em larga medida da difusão destes e, por conseguinte, dos meios que asseguram tal difusão. Para garantir a dominação simbólica, é de importância capital o controle destes meios, que correspondem a outros tantos instrumentos de persuasão, pressão e incalculação de valores e crenças. É assim que qualquer poder procura desempenhar um papel privilegiado na emissão dos discursos que veiculam os imaginários sociais, do mesmo modo que tenta conservar um certo controle sobre os seus circuitos de difusão. As modalidades de emissão e controle eficazes alteram-se entre outros motivos, segundo a evolução do suporte tecnológico e cultural que assegura a circulação das informações e imagens. 12 Quando se fala em crime – remetendo à época –, temos um perfil não diferente dos dias atuais. A sociedade acreditava que a grande maioria dos criminosos procedesse da população socialmente marginalizada13. Na maioria dos casos a imprensa cria um “estereótipo” do criminoso. O simples sujeito já é estigmatizado14. Também o perfil que os policiais têm dos criminosos ou do infrator, bem como os indivíduos de status socioeconômico baixo são aqueles que mais se ajustam a tais estereótipos, são eles que constituem os alvos por excelência da repressão policial 15. A difusão de acontecimentos tornados emblemáticos no decorrer do século XX efetivou em uma dupla face. Primeiro, eventos como guerras, desastres ambientais, massacres, entre outros, apresentaram-se como ocorrências midiáticas de “primeira 11 id. BACZKO, Bronislaw. Imaginação Social. In: Enciclopédia Einaudi, vol. 05, Anthopos-Homem. Lisboa: Imprensa Nacional, 1983. 13 COELHO, Edmundo C.A Criminalização da Marginalidade e a Marginalização da Criminalidade. In: ____. A oficina do Diabo. Rio de Janeiro: Record, 2005, p.255 – 288. 14 ALVES. op. cit. pg. 195 15 id. ibid. pg. 276 12 grandeza”; uma divulgação espetacular que priorizou o apelo à sensibilidade e à comoção e/ou espanto coletivo16. O que os jornais pretendem é não apenas atuar no campo político, lugar onde se geram problemas, programas, análises, comentários, conceitos e acontecimentos, entre os quais os “consumidores” devem escolher, mas, sobretudo, conseguir mobilização cada vez maior do público. Quanto maior a sua audiência, maior o seu poder de divulgação e a lógica da conquista do próprio poder. E nada mais condizente com o momento social da década de 1950 do que se transformar mais do que em portavozes da modernização, mas em seu próprio emblema, produzindo um jornalismo em padrões completamente diversos do que fora feito até então, pelo menos no discurso no que referendam esse processo. Nada melhor também para conseguir audiência do que divulgar ao extremo que produzem um discurso que apenas espelha o mundo. E conseguir audiência é sempre conseguir poder” 17. A notícia, então, pode ser entendida como um produto cultural cuja magnitude vai além do ato de informar, situando o indivíduo na complexa sociedade contemporânea. A exemplo deste período de transformação que apontamos até aqui, tomemos um fato de interferência da imprensa na busca pela justiça, a saber, o famoso caso do Bandido da Luz Vermelha. Antes de explicitar o caso, falar da década de 196018 é também se referir as consequências da censura política que se abateu sobre a imprensa, o que foi decisivo para o surgimento de uma polêmica em torno desse tema dentro dos meios de SILVA, Sônia Maria de Meneses. A “MUSEALIZAÇÃO” DO PRESENTE: Mídia, Memória e Esquecimento, questões para pensar a história hoje. In: Revista do Programa de Pós-Graduação em História. Florianópolis, V.1, nº1, jan /jun2009. 17 BARBOSA. op. cit. pg. 153 18 Ainda que tenhamos que considerar as particularidades desse momento histórico, no qual o período de autoritarismo determina muito dos conteúdos veiculados pelos meios de comunicação, há que se relativizar esse domínio a partir da noção de competência dos públicos. Sem dúvida, as consequências do período autoritário para a imprensa foram muitas. Se por um lado, cria condições para a popularização da televisão – já que este meio é essencial para a divulgação de uma imagem de Brasil moderno, ainda que à custa do reforço da tecnoburocracia estatal e o alijamento do poder de parte substancial da sociedade civil –, por outro faz com que o país viva um período dramático no que diz respeito à censura aos meios de comunicação. Mudanças essenciais na política econômica, por exemplo, como a internacionalização da economia, são decididas sem incluir neste debate os grupos interessados. O mesmo se dá em relação à política salarial, fiscal, agrícola, educacional etc. O processo decisório que o governo adota sequer chega ao conhecimento do restante da população. Por outro lado, para esse mesmo governo os meios de comunicação são fundamentais na divulgação de premissas fundamentais para a construção de um Brasil que só existe no discurso ideológico. Pg.180 livro historia cultural imprensa. 16 comunicação. Esse silêncio existente vai produzir drásticas alterações nos conteúdos dos jornais diários, uma vez que tiveram que deixar de lado gradativamente o papel – como já citado anteriormente – de formador e muitas vezes construtor de enredos, afastando-se dos protagonistas de suas histórias e deixando de serem eles mesmos personagens do campo político19. Retomando ao caso, podemos enredá-lo da seguinte forma: São Paulo, década de 1960. Vestido de terno, colete, chapéu de feltro, luvas de couro, lenço para cobrir o rosto, lanterna vermelha e dois revólveres, um ladrão solitário aterrorizou as noites da capital paulistana. Porém, seu reinado não perdurou muito tempo. Fora descoberto, preso e condenado. Seu estado na soltura era o oposto quando de sua reclusão, e seus dias de liberdade não foram muito felizes. Ainda que tal descrição pareça remeter a sinopse de um romance policial, com protagonista ao estilo bang-bang, tendo como cenário a São Paulo em tempos de Ditadura Militar, o que temos realmente são informações sobre um criminoso que figurou nas páginas de jornais local e nacional, devido ao seu modo peculiar de realizar seus delitos. Todavia, o status conquistado por esse sujeito não se deu de forma gratuita, involuntária. Conquanto, o que temos é o forjar de um personagem – ainda que soe paradoxal – real, no sentido de se tratar de um cidadão comum, vítima de infortúnios familiares, mas que entra em cena sob os holofotes da mídia20 contemporânea. Por esse exemplo podemos analisar a atuação dos recursos impressos e/ou 19 midiáticos na difusão de informações e na espetacularização 21 do BARBOSA. op .cit. pg.175 O termo “mídia” empregado no texto tem a mesma representação do termo “ imprensa”. 21 Quando falo em “espetacularização”, entende-se: ao espetacularizarem os fatos, transforma-os em acontecimentos, a imprensa também faz com que a própria força que os move e orienta continue sua rota circular. Ao agradar aos leitores, agrada a própria máquina que a faz girar. Assim: a espetacularização da vida toma o lugar das tradicionais formas de entretenimento. Cada acontecimento em torno de um individuo é superdimensionado, transformado em capitulo e consumido como um filme. Mas a valorização dos acontecimentos individuais é diretamente proporcional à capacidade desse individuo em roubar a cena, ou seja, em tornar-se uma celebridade. Alias, as celebridades tornaram-se o pólo de identificação do consumidor-ator-espectador do espetáculo contemporâneo. São elas que catalisam a atenção e preenchem o imaginário coletivo. O que é muito diferente da identificação com os heróis, uma tradição da cultural ocidental. Ver: PENA, Felipe. Subjetividade 20 acontecimento22. Por meses o Bandido da Luz Vermelha foi manchete nos jornais e incorporou – como o próprio João Acácio declarou – o personagem que lhe criaram: Chegando em Santos, um dia depois, vi no jornal assalto a americana. Aí eles falaram, inventaram e fizeram a coisa bonita. Eu disse: eles gostaram, me deram ideia, vou repetir. Fiz ‘uns par’ deles assim, eles mesmo que inventaram de fazer eu fazer23. A espetacularização do vivido trouxe à tona, não somente a exploração dos grandes eventos, mas também levou ao culto o grotesco, o pitoresco e a violência cotidiana como se fossem tramas encenadas para satisfazer espectadores que já não se saciam mais com o folhetim24. A ação dos meios de comunicação, no decorrer das décadas do século XX, influenciou com grande força na maneira de se apropriar e perceber o real. Demonstrou-se assim, que há uma produção de conhecimento histórico fora do próprio campo científico da história e que parece influenciá-lo de maneira desconcertante25. 3. A imprensa mostra o Bandido Se pensarmos na notícia, entenderemos-a como tendo seu objetivo o de verificar até onde a história se impõe através da força dos acontecimentos reais e até onde ela se confunde com as fantasias, ilusões e utopias que permeiam a realidade e ganham espaço noticiário26. Para ser notícia, algo tem que ser percebido como um sentido extraordinário, como uma significação diferente do nosso modo de administrar a visão do mundo cotidiano da vida27. Midiática: tempo e memória nas biografias contemporâneas. Psicologia Clínica. Vol 19 nº1. Rio de Janeiro: 2007. 22 BARBOSA. op. cit. pg. 127 23 SILVA, Edivaldo Vieira da. Intolerável. Verve, São Paulo, n° 02, p. 225-244, 2002. 24 SILVA, Meneses. op. cit. pg. 132 25 id. 26 MOTTA, Luiz G. Para uma antropologia da notícia. In: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação. São Paulo: Volume XXV, nº2, p.11 – 41, julho/dezembro de 2002. 27 id. A ideia de privacidade, desta forma, foi diluída no espaço público sob o argumento de que, a sociedade tem que ser abastecida incessantemente pela informação posto que, a opinião pública precisa saber. Nesse contexto, o argumento, muitas vezes falacioso, da publicização total esconde a dissimulação de interesses, a manipulação da informação e o próprio papel de formulador e selecionador de eventos desempenhado pelos meios de comunicação28. Novos processos de constituição da memória e do esquecimento são desencadeados no cotidiano, uma vez que o remédio contra o esquecimento, amparado pela fabulosa indústria midiática, pode se tornar um veneno para a memória, uma vez que, selecionar o que é importante para ser lembrado ficou cada vez mais difícil 29. É o que constatamos quando em contato com o desfecho do caso aqui analisado – o Bandido da Luz Vermelha –, pois de um “quase mito” constituído pela imprensa, João Acácio perde seu “brilho” ao ser destituído do lugar que ocupou por um curto período de tempo, não mais do que alguns meses no ano de 1960. A imprensa desse período, através de sua difundida mensagem, ajudou não só a criar a figura do “semi-herói” pertencente a uma classe desgostosa em relação aos riscos e às diferenças sociais, mas também destruir, logo após, esta mesma imagem tendo em vista que uma figura nova havia sido criada. O Bandido da Luz Vermelha foi condenado à reclusão até o ano de 2319, mas como o tempo máximo permitido pela Constituição são de 30 anos, foi libertado em 1997. Já na antevéspera de sua soltura, os noticiários voltavam a alvoroçar-se sobre sua figura: Diante do que foi o criminoso João Acácio só os monstros se deliciam. Esvaziado de realidade, seu personagem, o “Bandido”, tornou-se mais “simpático”. Depois de ser encarcerado por 30 anos, o período máximo de prisão no Brasil, João Acácio foi libertado. Não poderia ser de outra forma, apesar de ele ter sido condenado a um total de 351 anos. A lei tem de ser obedecida acima de tudo. Sua libertação é fato relevante, deve ser noticiada. Mas havia meios de conciliar dois aspectos que essa cobertura deveria apresentar: destaque adequado para o assunto e distanciamento crítico. A pior das opções foi tomada: em geral, apenas o destaque, mas exagerado, 28 29 id. id. num diapasão festivo, equivalente ao que se deu, por exemplo, aos exilados quando retornaram ao país depois da anistia política. 30 Vale notar o tom crítico do articulista. Tal como Pierre Nora menciona, “[...] o acontecimento é projetado, lançado na vida privada e oferecido sob a forma de espetáculo” 31. No ato da soltura de João Acácio, temos uma nova “espetacularização” ou um novo “espetáculo” de um fenômeno de 30 anos passados. Dos acontecimentos marcantes da década de 60, onde João Acácio ainda figurava como o Bandido da Luz Vermelha, mesmo após uma longa fenda de quase 30 anos – nesse período tendo sido noticiado pouquíssimas vezes, dentre elas como um ex-bandido galante que na década de 80 se apresenta odiando as mulheres32 – Acácio praticamente havia desaparecido. A imprensa retornou com uma imagem nova para este protagonista. Mesmo passados mais de três décadas, a mídia brasileira ainda insistia em dar atenção e foco diferenciados ao Bandido da Luz Vermelha. Por mais que ela [a imprensa de qualidade] mesma critique esse comportamento, a imprensa parece não ter meios para impedir que o destaque dado a um assunto não implique um elogio ao personagem da notícia e uma estilização do comportamento criminoso. 33 O articulista mesmo aponta tal fenômeno, que focalizava o antigo Bandido da Luz Vermelha, e direciona os holofotes. Seu retorno à terra natal, região de Joinville e São Francisco do Sul, se deu com relativa calma, embora houvesse reações mais hostis. João Acácio Pereira da Costa, o “Bandido da Luz Vermelha”, foi hostilizado ontem em São Francisco do Sul, no litoral catarinense, onde passeou “para ver a praia e nadar no mar”, como ele mesmo disse. “Por que você não vai 30 SANTOS, Mario Vitor. Bandido da Luz Ofusca o Carandiru da Paraíba. A Folha de São Paulo. 29 de agosto de 1997. 31 NORA, Pierre. O Retorno do Fato. In: NORA, Pierre; LE GOFF, Jacques. (Org.). História: Novos Problemas. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Ed. Francisco Alves. 1979. 32 REVISTA Veja. 17 de agosto de 1983. Coluna O Dia, p. 23. 33 SANTOS. op. cit. comprar Bombril para esfregar na cara?”, perguntou um motorista que parou para falar com João Acácio. Ele tentou reagir, mas o motorista arrancou o carro e foi embora. Na praia de Enseada, um morador falou ao tio de Luz Vermelha, José Pereira da Costa,81, para seu sobrinho “dar uma chegadinha” em sua casa que lá haveria “bastante faca para passar no pescoço dele”. Desta vez, Luz não ouviu, segundo Costa. 34 João Acácio Pereira da Costa, 55, o “Luz Vermelha”, foi recebido ontem com respeito e curiosidade pelos moradores do bairro Cubatão, em Joinville (SC), onde vai morar. Alguns, mais velhos, fizeram questão de se aproximar do ex-detento e convidá-lo para “dar uma passadinha lá em casa mais tarde”. Os mais jovens preferiram observá-lo com alguma distancia. “Luz”, como João Acácio quer ser chamado agora, chegou à casa do tio e padrasto, José Pereira da Costa, 81, às 13h11. 35 Como não bastasse, a imprensa acrescentou outro aspecto peculiar ao “semi-herói”. Ainda que sutil, nos é recorrente a demonstração da insanidade de João Acácio após sair do sistema penal. O ex-detento afirmou que não tem agora nenhuma fonte de renda. “ninguém deve nada para mim”, disse ele. “Vou comprar um caderno bem grosso e escrever um livro para ganhar um salário de três operários”. O livro, segundo ele, não será sobre a história de sua vida, “Vou escrever sobre a filosofia do Raul Seixas, do Ayrton Senna, do Roberto Carlos”, disse. 36 E continua dizendo: “Luz Vermelha revela que pensava em comprar um Gol com o dinheiro do livro, mas depois que viu o Santana de um amigo do tio, quer ‘um igualzinho’. ‘Aquele carro é bacana’”. 37 Da mesma forma, em outra notícia – a do encontro com familiares de seu tio em Joinville – mostram-nos os problemas psicológicos aos quais sofria: “’Pode tirar os sapatos?’, perguntou para Miriam Ramos MENDONÇA, Fernando. “Família” recebe Luz Vermelha com respeito. A Folha de São Paulo. 29 de agosto de 1997. 35 id. 36 Id. 37 Id. 34 da Costa, 59, segunda mulher de seu tio. Ela disse que sim, mas Luz continuou calçado”. 38 Quatro meses e cinco dias de liberdade, já em janeiro de 1998, sua vida é encerrada ao ser assassinado. Envolveu-se em uma briga com um pescador de Joinville/SC. O fato ocorreu na noite de 5 de janeiro de 1998 em Joinville, Santa Catarina. O pescado atirou no ex-presidiário para defender seu irmão, Lírio, que “Luz Vermelha” tentava matar com uma faca. Anteriormente, Nelson e “Luz Vermelha” já tinham se desentendido porque o ex-detento assediava sexualmente a mãe, mulher e filhas do pescador. Nelson Pinzegher fugiu ao flagrante. Apresentou-se dias depois e respondeu ao processo em liberdade. Foi absolvido pelo Tribunal do Júri de Joinville, apesar de ter sido denunciado por crime qualificado. A própria promotoria pediu a absolvição por legítima defesa de terceiro, que era exatamente a tese da defesa. 39 De personalidade não formada, agindo de acordo com a expectativa das pessoas, instável emocionalmente, aparentando ser esquizofrênico, porém demonstrando inteligência, agiria como um homem bom enquanto dele se esperasse que fosse bom. Mas, antes de tudo, foi prisioneiro de seu próprio mito. O acontecimento testemunha menos pelo que traduz do que pelo que revela, menos pelo que é do que pelo que provoca. 40 Através dessa mira dos holofotes, a imprensa chamou a atenção para o fenômeno Bandido da Luz Vermelha, da mesma forma que ajudou a moldar esse sujeito. Uma possível conclusão a isso tudo: a responsabilidade que a imprensa, a mídia em geral, deve ter ao noticiar uma fato. João Acácio seria um simples sujeito, um infame, se não tivesse sido o Bandido da Luz Vermelha. Considerações Finais 38 Jornal A Folha de São Paulo. 30 de agosto de 1997, p. 06. PROGRAMA Linha Direta. O Bandido da Luz Vermelha.. Disponível em: www.g1.com/linhadireta. Acesso em: 02.mai.2011. 40 NORA. op. cit. pg. 188. 39 A maneira como os fatos são abordados pelos meios de comunicação social conduz as mais diversas formas de realidades. A imprensa muitas vezes constrói verdades parciais, tendenciosas. Assim, ao mesmo passo que informa a população e forma a opinião pública, ela também deforma realidades e conceitos41. Ou seja, enquanto elemento informador e formador de opiniões ela incide diretamente na consciência particular, nos valores próprios do indivíduo e na formação dos seus conceitos. Nos acostumamos a “utilizar” a mídia somente como produto empírico na pesquisa histórica. Jornais, revistas, filmes, fotografia, música, etc, sempre foram tomados como “retrato” dos vários passados que tentamos construir, contudo, para além de seu potencial como registro do passado, ele é objeto de significação sobre ele, tanto ontem, como hoje.42 Podemos entender então que além de produzir história, vender o passado tornouse uma atividade estimulante, pois o interesse em demasia levou a uma verdadeira profusão na distribuição de obras e produtos que incentivaram e alimentaram uma sede de história e diversas interpretações em nosso cotidiano. O rápido registro do passado resultou em uma inesgotável demanda de informações de personagens que, por apresentarem certo valor de antiguidade, tornaram-se memoráveis. A informação veiculada nesses recursos percorre diferentes fluxos, apropriação e conformação que por sua vez evidenciam aspectos da própria historicidade contemporânea43. De modo geral, podemos compreender que: é preciso lembrar que a memória e o esquecimento nos povoam e são necessários principalmente porque a partir deles significamos nossas experiências subjetivas, sociais e culturais, portanto, é preciso não nos acostumar com o excesso que banaliza e cega44. Porquanto, o jornalismo e a imprensa de modo geral: 41 ALVES. op. cit. pg.137 id. 43 id. 44 id. 42 [...] atua além da mera produção de notícias, de um consumo massivo de informações. Configura-se em veículo de reinserção da audiência no universo social. Algo que se dá de forma habitual, ritualística. Falamos, pois, de um processo sociocultural de produção, veiculação e absorção dos fatos do cotidiano, que atuam na construção social da realidade, à medida que se transformam em experiências compartilhadas do mundo”45 Sendo assim, temos uma imprensa que fala à população mediante uma exposição de veracidade, produz continuamente o efeito do real. Relata aquilo que apura como fato acontecido. Não faz ficção. O que muitas vezes compreende-se como uma forma de ilusão, crença de que o que se vê nas notícias são os fatos, e não sua construção em forma de linguagem, sujeita a todas as suas imprecisões46 e construções de novas propostas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADORNO, Sérgio. Violência, Ficção e Realidade. In:SOUZA, M.W. de (org) Sujeito, o lado oculto do receptor. São Paulo. Ed. Brasiliense, 1995. ALVES, Laura Maria P. B. A mídia como agente operadora do direito. In: FIDES. Natal. Vol.2 nº1. Jan/jul 2011. BACZKO, Bronislaw. Imaginação Social. In: Enciclopédia Einaudi, vol. 05, Anthopos-Homem. Lisboa: Imprensa Nacional, 1983. BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa – Brasil: 1900 – 2000. Rio de Janeiro: Mauad X, 2007. COELHO, Edmundo C.A Criminalização da Marginalidade e a Marginalização da Criminalidade. In: ____. A oficina do Diabo. Rio de Janeiro: Record, 2005, p.255 – 288. FIALHO, José H. Década de 50 – Quando a felicidade parecia bater as portas do Brasil. 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