PROGRAMAS DE CRÉDITOS PARA A AGRICULTURA FAMILIAR NO ESTADO DO AMAPÁ Irenildo Costa da Silva Universidade Federal do Amapá - UNIFAP [email protected] Roni Mayer Lomba Universidade Federal do Amapá – UNIFAP [email protected] Antônio Sérgio Monteiro Filocreão Universidade Federal do Amapá – UNIFAP [email protected] Resumo Esta pesquisa tem como objetivo analisar os programas de créditos que estão à disposição da agricultura familiar no estado do Amapá, no intuito de mostrar como são aplicados. A metodologia consistiu no levantamento de informações em instituições que são responsáveis por gerenciar os programas de créditos para a agricultura familiar. Constatou-se que os agricultores têm a sua disposição recursos advindos para financiamentos de três fontes: FRAP, FNO e PRONAF. Os programas de créditos ainda não conseguiram se consolidar no estado e isto tem limitado e dificultado o desenvolvimento econômico da agricultura familiar. O maior acesso ao crédito está na dependência da capacidade de articulação dos diversos atores sociais envolvidos e comprometidos com o crescimento deste tipo de agricultura no estado. Palavras-chave: Agricultura familiar, programas de subsídios, Amapá. Introdução O estado do Amapá, localizado na região norte do Brasil, possui extensão territorial de 142.827,89 km2, distribuída por 16 municípios. Em relação ao contingente populacional, o Estado tem uma população de 669.526 pessoas, sendo que 89,8 % destes estão residindo na área urbana do estado e apenas 10,2% encontra-se na área rural. A densidade demográfica deste estado amazônico é baixa, apresentando 4,69 pessoas por km2 (IBGE, 2010). A agricultura desenvolvida no estado do Amapá ocorre sobre estruturas familiares, na qual a produção é caracterizada como de subsistência, com baixa diversidade de uso da terra, cuja produção não é suficiente para atender a demanda local. Assim, o Amapá historicamente importa parte dos alimentos que sua população consome (LIMA, 2005). 1 A estrutura produtiva do estado ainda é de pouca produtividade e de baixa diversidade, o que dificulta a escolha de atividades que tenham efeito positivo a curto, médio e longo prazo. Tanto a agricultura quanto a pecuária, apresenta baixa produtividade devido ao baixo nível tecnológico em que operam. Se a agricultura familiar no estado estiver baseada no uso de tecnologias apropriadas à realidade e possibilidade dos agricultores, se dispuser de linhas de financiamento diferenciadas, se tiver garantia de acesso aos mercados e se for respaldada por políticas públicas, a produção familiar poderá vir a representar fator decisivo na dinamização da produção agropecuária, contribuindo fortemente para o crescimento e desenvolvimento da economia amapaense. Em relação às linhas de créditos/financiamentos para a agricultura familiar no estado do Amapá, tem-se que estas apresentam recursos disponíveis em quantidade muito acima do que é aplicado em campo. Muitos recursos deixam de serem aplicados devido aos altos custos operativos das agências oficiais de crédito, da morosidade na recuperação dos empréstimos, dos trâmites administrativos entre outros fatores que torna lento e burocrático o acesso ao crédito, o que ainda é somado por inoperâncias, interferências ou favorecimentos políticos para beneficiar determinados grupos de produtores. O acesso ao crédito e à assistência técnica qualificada é importante para que o agricultor inicie uma atividade no campo e agregue valor à sua propriedade, implantando melhorias na infraestrutura, na produção e em todas as outras etapas até à comercialização dos produtos. Este acesso é um importante instrumento que possibilita a adoção de novas tecnologias, que tornam o produto agropecuário mais competitivo e capaz de atender um mercado consumidor cada vez mais exigente. O crédito, juntamente com outros serviços, como irrigação e extensão rural, é de fundamental importância para que haja o incremento na produtividade agrícola que decorre do uso de insumos modernos e da introdução de novas variedades de cultivo, o que tende a aumentar a produção e melhorar as condições de vida do conjunto da população (SOUZA, 2012). Diante deste contexto, esta pesquisa tem como objetivo analisar os programas de crédito/financiamento que estão à disposição da agricultura familiar praticada no estado do Amapá, em especial, os programas: Fundo de Desenvolvimento Rural do Amapá FRAP, Fundo Constitucional de Financiamento do Norte - FNO e o Programa Nacional 2 de Fortalecimento da Agricultura Familiar - PRONAF, no intuito de entender e compreender como os programas de créditos estão se desenvolvendo no Estado. Para o alcance do objetivo proposto, a metodologia utilizada consistiu no levantamento de informações em instituições que são responsáveis por gerenciar os programas de créditos/financiamentos para a agricultura familiar no Amapá. Após a obtenção das informações realizou-se as devidas discussões. Histórico do crédito no Estado do Amapá No estado do Amapá, historicamente, o crédito rural coincide com a institucionalização do serviço de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), em 05/02/1974, sendo criada a Associação de Crédito e Assistência Rural do Amapá (ACAR), vinculada à Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural – ABCAR. Os primeiros créditos concedidos no estado foram destinados ao cultivo de seringueira (Hevea brasiliensis M. Arg.), por meio do Programa de Incentivo a Produção de Borracha Natural – PROBOR, criado em 1972, e que destinou recursos para implantação de 120 hectares de seringueira nos municípios de Macapá, Santana e Mazagão. No entanto, a concessão destes créditos declinou com a inviabilização dos projetos de cultivo de seringueira, decorrente do forte ataque de pragas nos seringais, o que provocou o abandono de milhares de hectares implantados na década de 1970 e 1980 na Amazônia. Outras atividades praticadas no estado também começaram a receber financiamentos no intuito de promoverem melhoras em seu desenvolvimento. Estão entre estas atividades o plantio de pimenta-do-reino, a pecuária bubalina e bovina, bem como as atividades de fruticultura. Na década de 1980, iniciam-se as políticas de crédito do Programa Especial para a Reforma Agrária – PROCERA, uma linha de financiamento específica para a área de reforma agrária. Alguns assentamentos do estado foram beneficiados com este programa. No entanto, tal programa não foi de muita eficiência, o que acarretou no endividamento de muitos assentados. Os projetos para o acesso ao crédito/financiamento eram elaborados e acompanhados pelos serviços de assistência técnica do estado, serviços estes que não se mostraram 3 capazes nem eficientes para consolidação dos projetos executados em campo o que provocou e tem promovido o desinteresse de muitos agricultores para com o acesso a créditos e financiamentos. No estado do Amapá a falta de estruturação do serviço de Assistência Técnica e Extensão Rural - ATER, equívocos tecnológicos, barreiras burocráticas, centralização das ações de crédito, falta de pesquisa local, liberação de recurso em época imprópria, desvio de função, precariedade das condições de armazenagem e das estradas vicinais para escoamento da produção, são alguns fatores que resultam na baixa eficiência do crédito rural para melhorar a qualidade de vida dos agricultores, bem como, de promover o desenvolvimento rural nos municípios amapaenses. Assistência técnica no estado como fomentadora na obtenção de crédito Atualmente, o órgão responsável pelos serviços de assistência técnica para a agricultura familiar no estado do Amapá é o Instituto de Desenvolvimento Rural do Amapá (RURAP), que por meio da atuação dos seus técnicos elaboram projetos para a aquisição de créditos/financiamentos aos agricultores familiares. No exercício do ano de 2008, por meio das atividades dos técnicos do RURAP, os agricultores familiares foram contemplados com elaboração de 214 projetos de financiamento, com um valor no montante de R$ 3.758.919,34. A principal fonte de recurso foi o FRAP (Fundo de Desenvolvimento Rural do Amapá). Foram beneficiados agricultores familiares incluídos na categoria PRONAF A, B, AC, AF, e C (RURAP, 2008). Em 2009, o número de projetos de financiamentos elaborado aos agricultores familiares aumentou para 316, com um valor no total de R$ 2.093.910,38. E em 2011, o número de projetos foi de 309, incluídos mais uma categoria, o PRONAF floresta (RURAP, 2009 E 2011) (Tabela 1). Não foi possível obter os dados de 2010, pois a ocorrência de um incêndio provocou a perda de documentos. Tabela 1 – Número de projetos elaborados pelo RURAP para a agricultura familiar no Estado do Amapá, por discriminação da fonte do recurso, ano dos projetos e valores envolvidos. Discriminação 2008 Projetos elaborados 2009 2011 2008 Valores (R$) 2009 2011 4 FRAP 97 17 96 2.438.128,43 393.071,04 1.670.426,04 PRONAF A 46 20 1 781.381,17 337.725,90 21.500,00 PRONAF B 47 226 189 70.500,00 439.500,00 445.925,14 PRONAF AC 1 1 - 3.095,90 2.386,80 - PRONAF AF 21 52 19 455.012,04 921.226.64 332.560,47 PRONOF C 2 - - 10.801,80 - - PRONAF floresta - - 4 - - 72,011,13 214 316 309 3.758.919.34 2.093.910,38 2.542.422,78 TOTAL Fonte: RURAP (2008/2009/2011). Os dados da Tabela 1 mostram que apesar do número de projetos para a agricultura familiar ter aumentado em 47% do ano de 2008 para o ano de 2009, ocorreu um decréscimo de 2009 para 2011. Os valores investidos reduziram do ano de 2008 para 2011. Uma das explicações para as oscilações nos números de projetos elaborados tem relação com a precariedade dos serviços de assistência técnica, já que os agricultores precisam de um profissional vinculado a área para a elaboração do projeto, serviço em grande parte oferecido pelo RURAP, que não tem atendido a demanda dos produtores de forma satisfatória. Com relação às oscilações nos valores dos projetos, isto está relacionado com a inadimplência de muitos agricultores, o que tem dificultado o acesso a novos créditos/financiamentos em anos seguintes para os agricultores nesta situação. No ano de 2008 o FRAP (Fundo de Desenvolvimento Rural do Amapá), foi a principal fonte de acesso creditício para a agricultura familiar, no qual foram contratados 97 projetos. Já em 2009 e 2011 a principal fonte de acesso ao crédito foi o PRONAF B com 226 e 189 contratos respectivamente. Para ter acesso ao crédito/financiamento o agricultor precisa apresentar um projeto, o qual deve ser elaborado por um técnico e submetido à avaliação das fontes de financiamento. O agricultor tem a possibilidade de optar pela assistência técnica oficial do Estado ou por empresas e técnicos credenciados junto aos agentes financeiros para a elaboração de seu projeto. Os agricultores familiares do Amapá têm a sua disposição recursos advindos para as operações de créditos e financiamentos de três fontes: FRAP (Fundo de 5 Desenvolvimento Rural do Amapá), FNO (Fundo Constitucional de Financiamento do Norte) e do PRONAF (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). Fundo de Desenvolvimento Rural do Estado do Amapá (FRAP) Foi criado pela Lei nº 0039, de 11 de dezembro de 1992 e alterado pela Lei nº 0920 de 18 de agosto de 2005 e regulamentado pelo Decreto nº. 3481 de 28 de agosto de 2007. Constituem receitas do FRAP: Os de origem orçamentária do estado do Amapá, em valor nunca inferior a 2% (dois por cento) do produto de arrecadação da receita própria; os encargos financeiros oriundos de empréstimos concedidos e os rendimentos de aplicação financeira de seus recursos e outras dotações ou contribuições destinadas ao Fundo, por pessoas físicas e jurídicas nacionais ou estrangeiras (DECRETO Nº 3481AP, 2007). O programa visa promover a elaboração e a compatibilização de ações específicas para o desenvolvimento de atividades agropecuárias, extrativistas vegetais, agroindustriais, pesca artesanal e aqüicultura a partir dos seguintes instrumentos: Infra-estrutura de apoio à produção e a comercialização, fomento à produção, crédito e apoio às instituições representativas da produção familiar. A Tabela 2 demonstra o número de contratos realizados entre os anos de 2003 a 2010, acessados do Fundo de Desenvolvimento Rural do Amapá: Tabela 2 – Número de contratos com valores, acessado pelos agricultores familiares do Fundo de Desenvolvimento Rural do Amapá no período de 20032010. Ano Nº de contratos Valor (R$ 1,00) 2003 302 2.152.942,78 2004 176 2.307.784,14 2005 176 2.307.784,14 2006 312 4.660.570,06 2007 82 1.210.274,93 2008 177 3.818.135,56 2009 129 2.583.694,11 2010 82 3.335.575,66 Fonte: SDR (2010). 6 Analisando a tabela 2, percebe-se uma oscilação no número de contratos, bem como nos valores ao longo dos 8 anos especificados. O maior número de contratos foi firmado no ano de 2006 (312) e o menor nos anos de 2007 e 2010 (82). De 2003 para 2010 ocorreu basicamente um decréscimo no número de contratos de financiamento acessados do FRAP, o que não foi acompanhado necessariamente pelo decréscimo nos valores dos contratos. Uma das explicações para as oscilações nos números de contratos firmados pelos agricultores com o FRAP é a falta de assistência técnica, já que os agricultores precisam de um profissional técnico para a elaboração do projeto. No Amapá, esse trabalho é realizado pelos funcionários do RURAP, órgão que possui quadro profissional incompatível com a demanda, o que dificultou uma programação organizada de atendimento aos agricultores, causando incerteza na formulação de projetos. Outro fator que contribui para a oscilação no número de contratos firmados com o FRAP é a inadimplência de muitos agricultores, o que tem dificultado o acesso ao crédito/financiamento em anos seguintes para os agricultores nesta situação. Ao analisar a Tabela 2, percebe-se ainda que o ano de 2004 e 2005 tiveram o mesmo número de contratos (176), correspondido pelo mesmo valor acessado. Já o ano de 2007 e 2010 apesar de apresentarem o mesmo número de contratos, não apresentaram os mesmos valores acessados, sendo que os valores de 2010 (R$ 3.335.575,66) era quase o triplo de 2007 (1.210.274,93). O que se verifica neste contexto é que apesar do número de contratos serem os mesmos, os valores individualizados por agricultor aumentou. Os dados mostram que ainda são poucos os agricultores que tem acesso ao crédito/financiamento oriundos do Fundo de Desenvolvimento Rural do Amapá. O número de beneficiados tem variado muito, e que apesar de ter ocorrido certo acréscimo nos valores acessados do FRAP, houve uma diminuição no número de contratos, concentrando assim o benefício em um pequeno contingente de agricultores familiares. A agricultura familiar praticada no Estado do Amapá para o seu desenvolvimento necessita de apoio e acesso ao crédito/financiamento que aliado a outros aspectos são fatores importantes e molas propulsoras para o aumento da produção alimentar nos estabelecimentos. 7 Fundo Constitucional de Financiamento do Norte (FNO) Os Fundos Constitucionais foram criados pela Constituição Federal de 1988, que estabeleceu em seu artigo 159, inciso I, alínea “c”, a obrigação de a União destinar 3% da arrecadação do IR (Imposto sobre a Renda) e IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para serem aplicados em programas de financiamento aos setores produtivos das Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, através de suas instituições financeiras de caráter regional (FUNDOS CONSTITUCIONAIS DE FINANCIAMENTOS, 2010). A Lei nº. 7.827, de 27.09.89, alterada pela Lei nº 9.126, de 10.11.95 e pela Lei nº 10.177, de 2001, regulamentou o referido artigo, que instituiu os Fundos Constitucionais. Assim, para a Região Norte foi criado o Fundo Constitucional de Financiamento do Norte - FNO, tendo como objetivo contribuir para a promoção do desenvolvimento econômico e social da Região. Os recursos do FNO, provenientes de 0,6% da arrecadação do IR e IPI, são administrados pelo Banco da Amazônia, Instituição Financeira Pública Federal, vinculada ao Ministério da Fazenda, que aplica a verba por meio de programas elaborados anualmente de acordo com a realidade ambiental, social e econômica da Região, em parceria com os representantes das instituições públicas e dos diversos segmentos da sociedade, em consonância com o Plano Plurianual para a Amazônia Legal (PPA) e com as prioridades espaciais e setoriais definidas pelas Unidades Federadas da Região Norte. O FNO não é uma linha exclusiva de crédito/financiamento para a agricultura familiar, esta linha de crédito contempla outros setores (empreendimento rurais e não rurais), os quais podem acessar este tipo de crédito, são setores como: indústria, agroindústria, turismo, infraestrutura, exportação, comércio e serviço, cultura e entre outros. No Estado do Amapá, o volume de valores disponíveis para serem aplicados decorrentes do FNO, é um dos menores em relação aos valores disponíveis para os outros Estados da região norte (Tabela 3). Tabela 3 – Previsão dos recursos financeiros via FNO para os estados da região norte no período de 2005 à 2011 (em R$ milhões). Estados 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 8 Acre 93,8 135,7 157,4 199,78 159,45 204,07 242,58 Amapá 93,8 135,7 157,4 199,78 113,9 145,77 173,27 Amazonas 140,8 203,6 236 299,67 432,8 553,91 658,44 Pará 234,6 339,3 393,3 499,44 683,37 874,59 1039,63 Rondônia 140,8 203,6 236 299,67 387,24 495,6 589,13 Roraima 93,8 135,7 157,4 199,78 113,9 145,77 173,27 Tocantins 140,8 203,6 236 299,67 387,24 495,6 589,13 Total 938,4 1357,2 1573,5 1997,8 2277,9 2915,31 3465,45 Fonte: SDR, 2011 (Plano de aplicação do FNO). Analisando a Tabela 3 verifica-se certa proximidade de previsão de recursos (valores) via FNO para os estados do Acre, Amapá e Roraima. Destacando-se o estado do Pará, como o que mais recebe recursos financeiros advindos do fundo. Observa-se que no período de 2005 à 2011 ocorreu um acréscimo nos valores de recursos via FNO para o Amapá, isto devido a uma demanda crescente nos vários segmentos que acessam este financiamento. Os recursos provenientes do Fundo Constitucional de Financiamento do Norte têm um percentual destinado especificamente para serem aplicados na agricultura familiar. Estes são em grande parte acessados mediante operações do PRONAF. Os valores aplicados na agricultura familiar do estado do Amapá pelo FNO ainda são baixos quando comparados com o valor total disponibilizado somente para a agricultura familiar (Gráfico 1). Gráfico 1 – Evolução dos valores disponibilizados, aplicados e não aplicados para a agricultura familiar via FNO no Estado do Amapá – 2001/2011. 9 Fonte: SDR, 2011 (Plano de aplicação do FNO). Analisando o Gráfico 1, percebe-se uma realidade discrepante quanto ao total de valores aplicados na agricultura familiar do estado do Amapá. Em todos os anos especificados no gráfico, não houve uma boa aplicação dos recursos oriundos do FNO na agricultura familiar o que não ultrapassou 10% do total disponibilizado. Vários são os fatores que convergem para o entrave da não aplicação dos valores dos recursos destinados do FNO para a agricultura familiar no Amapá. São fatores que limitam a obtenção do crédito e assim atrapalham o desenvolvimento no meio rural do estado. No geral pode-se destacar que o baixo nível de aplicação dos recursos do FNO destinado à agricultura familiar está relacionado, em grande parte, ao baixo nível organizacional dos agricultores e com a deficitária assistência oferecida pelo Estado. O Gráfico 1 também mostra que recursos disponíveis existem em boa quantidade para serem aplicados na agricultura familiar, no entanto, ainda são muitos os empecilhos que estagnam o acesso ao crédito por parte do agricultor familiar. Torna-se mais preocupante ainda este cenário, quando se considera o fato de que se costuma ocorrer interferências ou favorecimentos políticos na liberação de créditos em favor dos grandes produtores, o que faz com que muitos agricultores familiares não tenham acesso a este importante instrumento que em grande parte garante sua inserção no mercado. 10 Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – PRONAF foi criado em 1996 com o objetivo de promover o desenvolvimento sustentável do segmento rural constituído por agricultores familiares, visando proporcionar-lhes o aumento da capacidade produtiva, gerar emprego e aumentar a sua renda (COPETTI, 2008). Segundo o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – IBASE (2006), o PRONAF foi criado para atender a uma antiga reivindicação das organizações dos trabalhadores rurais, os quais demandavam a formulação e a implantação de políticas de desenvolvimento rural específicas para o maior segmento da agricultura brasileira, porém, o mais fragilizado em termos de capacidade técnica e de inserção nos mercados agropecuários. Em um recorte temporal (2006 a 2009) observa-se que os números de contratos do PRONAF no Estado do Amapá ainda são escassos. Segundo um trabalho realizado por Souza et al., 2011, em 2006 o número de contratos do PRONAF em relação ao total de estabelecimentos familiares foram de 0,28, em 2007, 0,13, em 2008 0,08 e em 2009 0,36 (Gráfico 2). O impacto decorrente desta situação é que muitos agricultores familiares, na falta ou carência de financiamentos por meio do não acesso a créditos rurais, não conseguem imprimir maior e melhor dinâmica no seu modo de produção. No período entre 2008/2009 o número de contratos aumentou de 0,08 para 0,36 porque houve algumas mudanças no cenário da agricultura no estado, principalmente, por motivo da titulação da área de muitos agricultores e pela própria política de assistência técnica que começou a divulgar com mais intensidade aos agricultores as oportunidades de acesso ao crédito/financiamento via PRONAF. Gráfico 2 – Evolução do número de contratos do PRONAF por estabelecimento da agricultura familiar no Estado do Amapá – 2006/2009. 11 Fonte: Paulo Marcelo de Souza et al., 2011. Analisando o Gráfico 2 percebe-se o baixo número de contratos do PRONAF no estado do Amapá. O PRONAF não chega a um contrato por estabelecimento familiar no estado no período analisado, sendo o ano de 2008, o de menor número de contratos. Em relação a valores, no período de 2008 a 2011 foram orçados R$ 66.475.448,62 para serem aplicados na agricultura familiar do Estado via PRONAF, deste montante, apenas R$ 48.940.830,45 foram aplicados (Banco da Amazônia – BASA-AP, 2012). Desfragmentando estes valores por ano tem-se: em 2008 foram orçados R$ 12.094.679,52 e aplicados R$ 2.119.862,70; em 2009 foram orçados R$ 12.338.001,94 e aplicados 19.621.591,07; em 2010 o orçado foi de R$ 21.000.000 e aplicado R$ 20.252.813,99 e em 2011 foram orçados R$ 21.042.767,16 e aplicados somente R$ 6.946.562,69. Estes números podem ser melhores visualizados no Gráfico 3. Gráfico 3 – Valores orçados e realizados via PRONAF no Amapá – 2008 a 2011. 12 Fonte: BASA-AP, 2012. Analisando o Gráfico 3 percebe-se que em 2008 e em 2011 os valores realizados via PRONAF no estado foram muitos inferiores aos valores orçados pelo Banco da Amazônia. Isto por que, segundo o próprio BASA, em 2008 as agências do BASA no estado (uma em Macapá e outra em Santana) ainda estavam em início de operação em campo, e também por que as possibilidades de acesso aos recursos do PRONAF eram pouco divulgadas. O baixo valor realizado em 2011 se explica, segundo o BASA, porque neste ano os agentes do banco estavam intensamente envolvidos nas atividades de fiscalizações em campo, explicando assim a baixa contratação de financiamentos aos agricultores familiares via PRONAF. No ano de 2009 o valor orçado esteve abaixo do que foi realizado, isto enfatiza que neste ano ocorreu uma grande demanda para com este programa. O BASA informa que à medida que a demanda aumenta, o banco tem recursos para atender ao que é solicitado. Isto mostra que há recursos disponíveis para serem aplicados na agricultura familiar, o que falta é a demanda por parte dos agricultores. No ano de 2010, os valores orçados apareceram um pouco acima do que foi realizado, mostrando assim certa proximidade entre valores pensados e valores que realmente foram efetivados em campo. Em geral, tem-se que o PRONAF ainda não se consolidou no estado do Amapá. Isto revela que o próprio programa de linha de crédito específico para o fortalecimento da agricultura familiar não tem obtido boa repercussão no estado, o que tem dificultado as condições de vida do agricultor familiar que busca formas para melhorar e aumentar sua produção. Diante deste contexto, percebe-se então a necessidade de novas estratégias que precisam ser implantadas para que os recursos cheguem realmente ao agricultor familiar no estado do Amapá. Entraves na obtenção de crédito 13 Considerando a visão do agricultor, dos técnicos das empresas de assistência rural e dos agentes financeiros envolvidos no processo das operações de créditos, podem-se destacar os principais motivos que travam e limitam a aplicação dos recursos na agricultura familiar do Amapá. A legalização fundiária está entre um dos maiores fatores que limitam e dificultam o acesso do agricultor familiar ao crédito, pois muitos imóveis rurais do Amapá não possuem título da área, o que é exigido por ocasião da elaboração e contratação de um projeto (grande parte dos agricultores ainda é posseira). No entanto, há de considera-se a flexibilidades de algumas linhas de créditos (FRAP) para a agricultura familiar que aceitam uma simples declaração como documento comprobatório de posse da terra, desde que devidamente respaldada por um técnico habilitado. A burocracia no processo de obtenção de crédito também é um fator limitante no acesso a recursos financeiros, refletindo negativamente na demora entre a elaboração do cadastro até a liberação do financiamento. Apesar da tecnologia da informática, a tramitação de projetos ainda é lenta, o que exige dos órgãos responsáveis maiores empenho e agilidade para a política de crédito rural no Amapá. A baixa eficiência dos serviços de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), também têm contribuído no aspecto negativo de aplicação de recursos na agricultura familiar do Amapá, pois este serviço não tem apresentado número satisfatório de profissionais, possui deficiência de logística como a de veículos e combustíveis, grande rotatividade de técnicos nas comunidades (o que dificulta o planejamento das atividades), o baixo nível de informação dos técnicos em campo. Isso é somado a projetos mal elaborados e/ou fantasiosos, promovendo uma relação de custo/benefício mal dimensionada e a formação de receitas fictícias. Outros fatores que tornam difícil o acesso ao crédito estão relacionados a incompatibilidade da liberação de crédito em relação ao calendário agrícola, à falta de pesquisa local, deficiência de estudo de mercado, à baixa capacidade administrativa e gerencial do produtor, pequeno nível de organização dos agricultores e à existência de leis ambientais rígidas (o que infelizmente parece afetar somente a produção familiar). Conclusões 14 Os programas de créditos para a agricultura familiar no estado do Amapá ainda não estão consolidados, ou seja, não chegam a todos os agricultores, o que tem limitado e dificultado a impressão de uma dinâmica de crescimento e desenvolvimento econômico no meio rural. Muitas são ainda as barreiras que precisam ser superadas para que de fato o crédito/financiamento seja uma realidade profunda na vida dos agricultores familiares do estado. Tal superação poderá provocar melhoras no desempenho e produtividade da agricultura familiar, sendo que esta terá maior possibilidade de inserir-se fortemente no mercado e poder competir com a agricultura capitalista. O serviço de assistência técnica é um aliado fundamental, pois quando bem operacionalizado em campo pode fazer com que muitos agricultores tenham acesso aos créditos/financiamentos impregnando mudanças por meio da implantação de novas estruturas e tecnologias que ajudarão o agricultor a incrementar maior dinâmica na sua produção, melhorando desta maneira o seu modo de vida e da sua família. O maior e melhor acesso ao crédito poderão melhorar o desempenho e fortalecimento da agricultura familiar no estado do Amapá; e isto está na dependência da capacidade de articulação dos diversos atores sociais envolvidos e comprometidos com o crescimento deste tipo de agricultura no estado. Referências Banco da Amazônia – BASA. Sistema de avaliação de resultado de desempenho. Santana – Amapá, 2012. Brasil. Secretaria de políticas de desenvolvimento regional. Fundos constitucionais de financiamentos: desempenho operacional, 20 anos (FCO-FNE-FNO). Brasília – Distrito Federal, 2010. COPETTI, Lúcia Daine. Fatores que dificultam o acesso dos agricultores familiares às políticas do crédito rural: o caso do PRONAF-crédito no município de Alegria-RS. 2008. 206f. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Rural) – Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2008. 15 Governo do Estado Amapá (GEA). Decreto nº 3481 (regulamento geral do Fundo de Desenvolvimento Rural do Estado do Amapá - FRAP). Macapá-AP, 2007. Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – IBASE. Relatório do PRONAF: resultados da etapa Paraná. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatista – IBGE. Censo 2010. Disponível no site: http://www.censo2010.ibge.gov.br, acessado no dia 16 de Fevereiro de 2012, às 10:30h. Instituto de Desenvolvimento Rural do Amapá (RURAP). Relatório de Atividades 2008, Macapá-AP, 2008. ______. Relatório de Atividades 2009, Macapá-AP, 2009. ______. Relatório de Atividades 2011, Macapá-AP, 2011. LIMA, Ricardo Ângelo Pereira de. Agricultura camponesa e dinâmica de ocupação do Território no Estado do Amapá. In: PORTO, Jadson Luís Rebelo. Amapá: aspectos de uma Geografia em construção. Série percepções do Amapá, volume 1, p. 35-57. Macapá-AP, 2005. Secretaria de Estado do Desenvolvimento Rural – SDR. 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